Hino Ado e Eva

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    23-Jul-2015

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Hino Ado e EvaLiturgia > Hinografos Bizantinos > Hino Ado e Eva Mistrio da Salvao Cantado por Hingrafos Bizantinos Ado e Eva Este hino foi composto para o domingo antes da quaresma, ocasio em que se recorda a queda de nossos primeiros pais e sua expulso do Paraso. O contedo deste poema de Romanos corresponde bem ao carter original da quaresma, na liturgia e espiritualidade oriental: nele se insiste, no sobre a esperana da Ressurreio da alma pelo batismo, mas sobre a necessidade de apagar, pela ascese, a queda que o pecado de Ado infligiu a toda a humanidade: sujeio do corpo e de seus instintos, purificao e expiao, desforra contra o demnio, tais so os temas que o Meldio desenvolve em duas series de estrofes, antes e depois da narrao da queda. Observa-se tambm que lembram-se fatos do Antigo Testamento, notadamente para justificar o numero de quarenta dias, tradicional, j desde o sculo IV: de Moiss e Elias, a Escritura diz textualmente que jejuaram quarenta dias, um no monte Sinai, o outro em seu caminho para o monte Horeb. Estas evocaes so teis, alias, para introduzir a narrao da tentao de Eva, bem feita, no sem fineza e habilidade retrica.

PrlogoEntrega-te, minha alma, ao arrependimento, une-te a Cristo pelo pensamento. Clama, gemendo: "Concede-me o perdo de minhas aes abominveis, para que eu receba de ti, que s o nico bom, a absolvio e a vida eterna." 1 Pelas obras e pela f, esperamos alcanar a beatitude, ns todos que observamos os ensinamentos do Senhor e Salvador. Por isso honramos e amamos o ato heroico de jejum, honrado tambm pelos anjos. Por terem-no observado, os profetas assemelharam-se aos coros anglicos, apesar de serem da terra; o prprio Cristo no se envergonhou de pratic-lo: jejuou voluntariamente, traando assim para ns, a via da vida eterna. 2 Moiss e Elias, estas torres de fogo, eram grandes em suas obras e primeiros entre os profetas bem o sabemos. Falavam livremente com Deus, tinham prazer em se aproximar dele para suplicar-lhe e entreterse com ele face a face, o que admirvel e at inacreditvel. No entanto, mesmo assim, cuidavam de recorrer ao jejum que os levava a Deus. O jejum, com as obras, encaminha para a vida eterna. 3 Pelo jejum, os demnios so rechaados como por uma espada, porque no aguentam nem suportam suas alegrias. Gostam sim, do gozador e do brio, mas diante da figura do jejum no conseguem permanecer, fogem para bem longe, conforme nos ensina Cristo, nosso Deus, quando disse: "A raa dos demnios vence-se pelo jejum e pela ovao." Por isso foi-nos ensinado que o jejum d aos homens a vida eterna. 4 A beleza imaculada do jejum a pureza, me da temperana: faz jorrar uma fonte de filosofia e d a coroa; assegura-nos o paraso, 2 devolve aos que jejuam a casa paterna da qual Ado foi expulso, levando consigo a morte por ter ultrajado a dignidade do jejum. Pois desde que viu este ltimo violado, Deus, Criador e Mestre do universo, irritou-se. Aos que o honram, porm, ele d em troca a vida eterna. 5 o prprio amigo dos homens que primeiro confiara aos cuidados do jejum, como a uma Me amo rosa, como a um mestre, o homem que criara e cuja vida entregou s suas mos. Se o homem o tivesse observado, teria morado com os anjos. Mas, rejeitando-o, ficou sujeito s aflies e a morte, a aspereza dos espinhos e das saras, a angstia duma vida dolorosa. Ora, se no paraso o jejum revela -se proveitoso, quanto mais o neste mundo para nos merecer a vida eterna! 6

Ado, o primeiro homem, podia comer o fruto de qualquer rvore: o Altssimo, colocando-o no paraso, permitira-lhe, diz a Escritura. Proibiu-lhe, porm, tocar numa s rvore. Eis as palavras amigas do Criador: "Goza de todos os bens que te fiz; serei feliz do prazer que neles ters. Se observares meu preceito, eu te conservarei teu prazer; a este preo que minha graa te manter inacessvel corrupo, pois recebers a vida eterna." 7 "Escuta bem minhas palavras, Ado, e presta toda ateno a este mandamento. Entre todas essas rvores, h uma da qual te ordeno te abster: no que sua natureza seja m, mas a tua que ela perverteria, se me desobedeceres. Porque se a essncia da madeira no prejudicial, seria para ti causa de prejuzo tocar naquela, pois leva escondidos em si o afiador dos pensamentos e a faca de seu gosto. Se, pois, comeres dela, perders a vida eterna." 8 - "Eis minha ordem, primeiro criado: no tocars de modo algum no madeiro do qual te falo. Se nele tocares, sers imediatamente entregue morte, como ladro; no porque no podes dele colher, mas porque te tornarias um ser sem f e sem valor. Eu te impus uma lei divina, leve e fcil, e por isso te dei em profuso as outras plantas, para delas todas gozares sem te tornares sujeito morte, tu que tens e possuis , em imagem, a vida eterna." 9 Ado e Eva respeitavam a lei divina que haviam recebido. Mas o diabo, astuto, que observava seus movimentos de cobia, procurava armar-lhes uma cilada. E, enquanto os via se esconderem com prudncia, no se atreveu a aproximar-se do homem. Mas, vendo, o velhaco, Eva de p sozinha perto da rvore, serviu-se dela imediatamente, para colocar a pedra na qual deviam tropear os dois que tinham sido os primeiros a receber de graa a vida eterna. 10 O Maligno aproximou-se, pois, com astcia, da mulher, como amigo e familiar e lhe fez uma pergunta cheia de malcia. Conversava com ela, fazendo-se de compadecido: "Com que pretexto Deus vos deu o paraso, como se vos amasse, proibindo-vos, porm, de tomar de todas as plantas? Que generosidade esta? Se estais morando no paraso, por que sois privado do prazer que ele d? Como, pois, podeis ter sem ele a vida eterna?" 11 Abalada por estas palavras, Eva respondeu lhe: "Tu te enganas, no sabes o que o Senhor ordenou. Deus entregou o paraso inteiro como mesa, queles que criou; s h uma rvore da qual no podemos colher, 3 porque seria um obstculo a nossa vida. Esta proibio nos til a ambos pela capacidade que tem de nos inculcar a conscincia , do bem e do mal. Ns j recebemos, como propriedade nossa, a vida eterna." 12 Ento o inimigo cobriu com sabor agradvel, as palavras mortferas. Eis o que, refletindo, o grande inimigo dizia-se a si mesmo: "Se no juntar a astcia a meu desgnio, se condenar Deus em minhas propostas, Eva suspeitar logo que odeio Deus e ento perderei todo crdito junto dela. Ora, nem conheo ainda seus sentimentos 4; se conseguir perturb-los, talvez ouvir-me-. Vou, pois, usar de artifcio para abordar os que receberam a vida eterna." 13 Logo aps estas reflexes, a serpente dirigiu a palavra a Eva: "Alegro-me convosco pela profuso de prazeres que recebestes. Louvo a veracidade de Deus, porque no vos mentiu revelando-vos quo grande a virtude desta planta: ela de fato d o conhecimento do bem e do mal. S Deus sabe discernir todas as coisas, por isso ele vos proibiu de tomar desta rvore, que d a vida eterna." 14 "Porventura no saberia eu que Deus fez boa, 5 a criao inteira? Como, porem, Aquele que fez boas todas as coisas, teria aceito fazer crescer a morte justamente no meio do paraso? No, a rvore do conhecimento

no uma pedra de tropeo, e no morrereis se dela comerdes. Graas a ela, tornar-vos-eis como deuses, como o Criador, passando a discernir as caractersticas do bem e do mal. por isso que ela vistosa no meio do paraso inteiro, por que tem a vida eterna." 15 Vendo a beleza e o poder da rvore, Eva inflamava-se pelo desejo de prov-la. Perturbavam-na os seguintes pensamentos: "Aquele que me revelou tudo isto no , por certo, inimigo de Deus! Que dio poderia ter a serpente contra o Criador? Esta rvore j agrada bastante vista; vou depressa tomar o alimento que diviniza e saborear aquilo a cuja vista arde-me o desejo; dele darei a meu esposo para que tenhamos a vida eterna." 16 Acabas, infeliz Eva, de aceitar um presente mortal, do qual j comeste. Por que tanta pressa para perder teu marido contigo? Examina-te atentamente, v se tu s realmente o que pretendias te transformar ao dele comer; v se tu s um deus, como esperavas. Assegura-te disto, primeiro; e somente depois, mulher, comprometers teu esposo a prov-lo tambm. No faas de teu marido o coautor de vossa perdio. Por que esta pressa em crer que o fruto desta rvore te deu a vida eterna? 17 Quando, encantada pela rvore, Eva se perdeu pois no tirou dela nenhum proveito - correu a dar de seu fruto a Ado; agia como se lhe oferecesse um presente magnfico. Dizia-lhe: "At agora, passvamos, meu companheiro, perto de um tesouro e um prazer maravilhoso nos inspirava medo. Agora sei, meu marido, sei por experincia, que mantnhamos um medo sem motivo. Pois comi dele e estou aqui perto de ti, bem viva e dele recolho a vida eterna". 18 "Sim, pode-se confiar na palavra daquele que me revelou tudo, pois ei-la verificada. Comi e no morri, como Deus me havia predito; mas estou aqui diante de ti, bem viva; o mandamento de Deus era s fingimento. Se fosse totalmente verdadeiro, estarias me chorando, morta e deitada na morte. Toma, pois, meu marido, e regala-te. Recebe, conforme a natureza deste fruto, a dignidade divina, que nada pode macular; vais tornar-te deus como aquele que d a vida eterna". 19 A serpente, como eu j disse, no tinha ousado aproximar-se de Ado, temendo ser decepcionada, em seu ardente desejo. Mas apareceu uma outra serpente mais temvel, mais serpente do que aquela. Aquele que a serpente no mordera, esta (mulher) matou. Bajulando-o injetou-lhe seu veneno; despedaou o, despedaando-se a si mesma tambm; o engodo de um fruto comido fez das vtimas da serpente, mortos que perderam a vida eterna. 20 O desafortunado Ado foi sitiado por esta artimanha; e com uma s ferida, causada por um fruto comido, feriu todo o gnero humano. Sua desobedincia jogou-o por terra, sujeito a toda espcie de males. No soube guardar a medida conveniente e til do jejum, que consiste em evitar os excessos da intemperana. Os cristos, porm, de todas as raas, nele se exercitam com ardor, concorrendo com os Anjos, na esperana de obter a vida eterna. 21 Grande o jejum, ao qual Ado havia sido destinado primeiro: pois a alimentao de nosso pai, era feita s de vegetais; e mesmo assim no soube se moderar. Em nossos dias, os prazeres do estmago so de toda espcie: delicadeza dos peixes, aves, quadrpedes, variedades dos legumes e cereais, requintes dos apreciadores e delcias da mesa que excitam nosso apetite gluto, mas nos privam da vida eterna. 22 Que, ao dizer isto, no encoraje muitos de vs, meus amigos, aos atos de gula; no quero tornar-vos mais glutes que o primeiro homem. O que quis cantar, cristos, nosso ardor na prtica da nobre virtude da temperana. Observando o jejum nesta poca, vs vos apressais a pagar todos os anos o dzimo a nosso

Deus, como os Hebreus que traziam ao Senhor o dzimo de seus bens, figura do futuro jejum pelo qual conseguimos a vida eterna. 23 Destaquemos, meus amigos, o nmero do dzimo na quaresma: h sete semanas de quaresma, mas em cada semana cinco dias so escolhidos para a prtica do jejum, de modo que h 35 dias em que jejuamos e temos a mais, um dia e uma noite, o sbado da Paixo do Senhor; o que faz um total de trinta e seis dias e meio, dzimo do ano, pelo qual adquirimos a vida eterna. 24 O Salvador do mundo, ns vos adoramos, rendendo-vos um culto espiritual. Vs que amais os homens, que tendes piedade deles, tende piedade de todos os homens. Comendo ou jejuando, ns todos vos louvamos, a vs que salvais do erro a humanidade que criastes. Vs sois nosso Deus, ainda que vos tenhais feito homem voluntariamente, nascendo da Virgem Santssima, a imaculada Theotokos. Por isso, vos imploramos: pela intercesso de vossa me, dai a vossos servos a vida eterna. NOTAS 1. Prlogo: Este gnero de prlogo, no qual o poeta fala com sua alma particular aos hinos penitenciais. 2. Estrofe 4 : "Pureza, me da temperana. "Filosofia." O valor do jejum lhe advm do fato de ser ele a manifestao de um desejo de pureza, de integridade, que leva o homem a dominar seus apetites. Para Santo Toms, o jejum o ato prprio da abstinncia, que uma parte subjetiva da temperana. A ultima esta relacionada , com a "filosofia" na estrofe 1 do hino sobre a "tentao de Jos": Nos dois casos, trata-se menos de um conhecimento terico do que da prtica da sabedoria crist. Sabe-se que "filosofia" desde o sculo V, designa especialmente a vida monstica. 3. Estrofe 11: Colher. Literalmente "da qual nos proibido comungar". Idem na estrofe 10. Descrevendo a queda, o poeta pensa sempre nos dias em que a condio humana ser restaurada pela eucaristia, a paixo e a ressurreio de Cristo. 4. Estrofe 12: "Seus sentimentos": o demnio quer falsear a ideia que Eva poderia ter sobre ele , fazendose passar por amigo de Deus; no sabe , de fato, o que ela pensa dele e at que ponto foi advertida de desconfiar. 5. Estrofe 14: Boa... Aluso a Gen 1,31 onde se v Deus olhar com satisfao a obra dos seis dias.