Gramatica pedagogica marcos bagno

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    23-Jun-2015

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  • 1. Referenda 1

2. Marcos Bagno 3. Projeto grfico: Andria Custdio Foto da Capa: Arquivo Pblico do Distrito Federal Editor: Marcos Marcionilo Conselho Editorial: Ana Stahl Zilles [Unisinos] Carlos Alberto Faraco [UFPR] Egon de Oliveira Rangel [PUC-SP] Gilvan Mller de Oliveira [UFSC,Ipol] Henrique Monteagudo [Universidade de Santiago de Compostela] Kanavillil Rajagopalan [Unicamp] Marcos Bagno [UnB] Maria Marta Pereira Scherre [UFES] Rachel Gazolla de Andrade [PUC-SP] Roxane Rojo (UNICAMP) Salma Tannus Muchail [PUC-SP] Stella Maris Bortoni-Ricardo [UnB] Direitos reservados Parbola Editorial Rua Dr.Mrio Vicente,394 Ipiranga 04270-000 So Paulo,SP pabx:[11] 5061-9262 | 5061-8075 | fax:[11] 2589-9263 home page:www.parabolaeditorial.com.br e-mail:parabola@parabolaeditorial.com.br Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrnico ou mecnico, incluindo fotocpia e gravao) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permisso por escrito da Parbola Editorial Ltda. ISBN: 978-85-7934-037-6 do texto:Marcos Bagno,2012 da edio:PARBOLA EDITORIAL,So Paulo,janeiro de 2012. CIP-BRASIL. CATALOGAO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ B134g Bagno,Marcos,1961- Gramtica pedaggica do portugus brasileiro / Marcos Bagno. - So Paulo:Parbola Editorial,2011. 1056p.: 24 cm. (Referenda ; 1) ISBN 978-85-7934-037-6 1.Lngua portuguesa - Gramtica - Estudo e ensino.I.Ttulo.II.Srie. 11-6457. CDD:469.5 CDU:811.134.3'36 4. O discurso hertico deve contribuir no somente para romper com a adeso ao mundo do senso comum, professando publica- mente a ruptura com a ordem ordinria, mas tambm produzir um novo senso comum e nele introduzir as prticas e as experi- ncias at ento tcitas ou recalcadas de todo um grupo, agora investidas da legitimidade conferida pela manifestao pblica e pelo reconhecimento coletivo. Pierre Bourdieu (1996: 119) 5. para Orlene Lcia de Sabia Carvalho, amizade maior, maior que a amizade 6. 1. A caverna implodida - por uma concepo no-platnica de lngua, 37 2. O devaneio da lngua primitiva - colonialismo, racismo e preconceito lingustico, 81 3. De lngua materna a lngua paterna - do vernculo normatizao, 99 Agradecimentos, 11 Aviso aos navegantes, 13 Abreviaturas e smbolos, 15 Smbolos fonticos, 16 Introduo: gramtica, a quem ser que se destina?, 19 livro i - EPISTEMOLOGIA DO PORTUGUS BRASILEIRO livro ii - HISTRIA DO PORTUGUS BRASILEIRO 4. Nada ser como antes - a mudana lingustica, 115 5. Do galego ao brasileiro - histria da nossa lngua, 201 6. Razes desterradas - formao do lxico portugalego, 255 7. livro iiii - MULTIMDIA DO PORTUGUS BRASILEIRO 7. Os sons e os sculos - fonologia da nossa lngua, 291 8. Rudos e rabiscos - lngua falada e lngua escrita, 343 livro iv - LEXICOGRAMTICA DO PORTUGUS BRASILEIRO 9. Um presente de grego histria das classes gramaticais, 401 10. Universais e brasileiros - conceitos importantes para entender a gramtica, 431 11. As palavras, as coisas e as no-coisas - caractersticas lexicogramaticais do portugus brasileiro, 495 12. No princpio era... o verbo, 507 13. Uma rosa uma rosa uma rosa os nomes, 663 14. Entre dois amores os verbinominais, 715 15. Questes pessoais os ndices de pessoa, 737 16. De monstros e demonstraes os mostrativos, 773 17. Todos, alguns, nenhum os quantificadores, 825 18. Sempre cabe mais um os advrbios, 831 19. Pequenas notveis as preposies , 853 20. Os ns e os nexos as conjunes e companhia ilimitada, 881 8. livro v - DIDTICA DO PORTUGUS BRASILEIRO 21. Errei, sim a hipercorreo e suas consequncias, 933 22. O que (no) ensinar na escola por uma educao lingustica realista, 983 Bibliografia, 1011 ndice de assuntos, 1024 ndice de nomes, 1037 ndice geral, 1042 9. agradecimentos E m primeirssimo lugar, ao meu querido amigo e editor Marcos Marcionilo, que se apaixonou pelo projeto e ficou to ansioso quanto eu para v-lo con- cludo. E como tudo o que ele faz tem o apoio imprescindvel de Andria Custdio, minha gratido se estende a ela tambm. Esse livro profundamente devedor a Ataliba Teixeira de Castilho, mestre generoso, que h tantas dcadas vem escavando o portugus bra- sileiro para nos presentear com seu ouro e seus cristais foi a leitura de sua monumental gramtica que me instigou a produzir essa aqui, que deve muito troca de mensagens que forcei ele a manter comigo em plena poca de festas de fim de ano e ano novo adentro. A ele tambm devo a cesso do corpus compartilhado do projeto NURC, material indispensvel para qualquer pesquisa sobre a verdadeira lngua dos brasileiros letrados. Muito tenho aprendido com Maria Eugnia Lamoglia Duarte, minha cicerone pelas belezas do Rio de Janeiro e pelas trilhas emocionantes da sintaxe. Nada se compara a uma bela aula sobre verbos numa varanda que se debrua sobre a deslumbrante paisa- gem da Lagoa e da Mata Atlntica. Agradeo minha amiga maior, Orlene Carvalho, pela capacidade de manter um segredo e aparecer em momentos estratgicos para me salvar de mim mesmo. Se no me engano, o nome disso amor. Das margens do Rio da Prata, meu querido Federico Polastri me incentivou a escre- ver esse manual. Espero que tambm possa servir para os que amam a nossa lngua e querem aprend-la e ensin-la aos que se interessam por ela. Gracias, Fede. Meu filho Miguel Bezerra traduziu em ilustraes as ideias que minhas mos sempre foram inbeis para transformar em imagens convincentes. Obrigado, Mig. Sou muito grato ao Arquivo Pblico do Distrito Federal na pessoa do Sr. Marcelo Dures e ao Centro de Documentao da Universidade de Braslia na pessoa da Sra. Lcia Hochreiter que nos cederam muito gentilmente as fotografias que ilustram esse livro. Por fim, agradeo a Dennys da Silva Reis, por ser quem e ter estado ao meu lado durante todo o tempo e o espao exigidos para uma tarefa desse tamanho. Sem ele teria sido difcil compilar sozinho toda a bibliografia que serviu de base a esse trabalho. , , . Braslia, agosto de 2011. 10. aviso aos navegantes P ara uma leitura no ingnua desse livro, importante deixar claros alguns de seus pres- supostos, de modo a evitar futuros mal-enten- didos e eventuais cobranas do que no foi prometido. Sendo assim, essa obra 1. uma gramtica, na medida em que pre- tende examinar e descrever o funcionamento de uma lngua especfica, o portugus brasileiro contem- porneo. Esse exame-descrio, no entanto, no exaustivo, 11. 14 GRAMTICA PEDAGGICA DO PORTUGUS BRASILEIRO pois o mais importante nesse projeto destacar as especificidades da nossa lngua, as que tornam ela diferente das outras lnguas de seu grupo (o portugalego, ver captulo 4) e tambm das demais lnguas da famlia romnica; 2. propositiva, porque no se limita a descrever ou a expor o portugus brasileiro, mas prope efetivamente a plena aceitao de novas regras gramaticais que j pertencem nossa lngua h muito tempo e, por isso, devem fazer parte do ensino sistemtico da lngua. Ela formula um discurso hertico, no sentido conferido expresso por Pierre Bourdieu no trecho que lhe serve de epgrafe; 3. pedaggica, porque foi pensada para colaborar com a formao docente que, no Brasil, reconhecidamente falha e precria. Nossos cursos de Letras (a comear pelo nome) se vinculam a um iderio cultural obsoleto, enraizado na sociedade burguesa do sculo XIX. Por isso, eles deixam de oferecer aos estudantes uma srie de conhecimentos fundamentais enquanto, por outro lado, desperdiam tempo com a transmisso de contedos irrelevantes para quem vai exercer a profisso docente. Basta perguntar a professoras e professores na ativa ou em formao se sabem, por exemplo, o que gramaticalizao ou se ao menos j ouviram falar disso; 4. um projeto epistemolgico porque traz explcita uma teoria do conhecimen- to, destinada a fundamentar os posicionamentos francamente assumidos ao longo de todo o texto (ver captulo 1); 5. poltico-ideolgica porque um produto humano e no existe produto huma- no que no se configure, consciente ou inconscientemente, como uma tomada de po- sio poltica inspirada por uma ou mais ideologias; o mito da cincia neutra no tem mais lugar na era em que vivemos. Assim, essa obra milita a favor do reconhecimento do portugus brasileiro como uma lngua plena, autnoma, que deve se orientar por seus prprios princpios de funcionamento e no por uma tradio gramatical voltada exclusivamente para o portugus europeu literrio antigo. Essa militncia se traduz no emprego consciente de formas lingusticas h muito tempo incorporadas gramtica do portugus brasileiro, mas que ainda so alvo da perseguio dos puristas mais empe- dernidos. Por isso, ningum se assuste ao topar com construes do tipo nos grupos que fazemos parte, ou tem muitos problemas nessa descrio, ou tendo transformado ela numa regra, ou no se conhece as origens exatas dessas palavras, entre outras; 6. terica na medida em que discute, refuta ou abraa propostas anteriores de descrio da lngua e em que prope novas anlises, definies e conceitos; 7. histrica porque rejeita a tradicional separao entre diacronia e sincronia e assume o fenmeno lingustico como eminentemente pancrnico, varivel e mu- tante. Desse modo, o recurso s transformaes ocorridas na(s) lngua(s) ao longo do tempo indispensvel para o (re)conhecimento preciso do que ocorre aqui e agora. Com isso em mente, espero que os eventuais leitores dessa obra tirem algum provei- to de um trabalho sincero, rduo, mas tambm muito prazeroso. Fortuna audaces iuvat. 12. abreviaturas e smbolos [123] = remete pgina indicada a < b = a provm de b a > b = a gerou b a.C. antes de Cristo aave Afro-American Vernacular English aum = aumentativo bev Black English Vernacular caus = causativo con = consoante comp obl = complemento oblquo cp. compare-se d.C. depois de Cristo dim = diminutivo +ger = + gerndio gtm gneros textuais mais monitorados gu = gramtica universal imperf = imperfeito indic = indicativo +inf = + infinitivo ip ndices de pessoa nne = norte-nordeste p no-pessoa nurc Norma Urbana Culta (Projeto) ob = objeto obj d = objeto direto obj ind = objeto indireto pb portugus brasileiro pl = plural pret = pretrito QI quantificadores indefinidos s = sentena sens = sensitivo sing = singular sn = sintagma nominal sse = sul-sudeste suj = sujeito sv = sintagma verbal tgp tradio gramatical do portugus v = verbo vgb vernculo geral brasileiro vle variedades lingusticas estigmatizadas vog = vogal vup variedades urbanas de prestgio * antes de um enunciado, indica sua agramaticalidade (inaceitabilidade) * na lingustica histrica, representa forma hipottica reconstruda 13. smbolos fonticos Os exemplos, salvo indicao em contrrio, se baseiam na pronncia neutra des- crita em [339] l precede a slaba tnica como em [l fala] 1. vogais e semivogais [a] como em p [] como no port. eur. madeira [e] como em beb [] como no port. eur. noite; franc. devoir; ingl. first [] como em p [i] como em vi [o] como em vov [] como em p [u] como em urubu [y] como em francs tu [] como em francs fleur [] como em francs deux [] como em manh [] como em vento [] como em fim [] como em som [] como em mundo [] como em pai [] como em pau; mau; mal 2. consoantes [b] como em baba [] como em port. eur., galego ou esp. acabar, abrir [137] [k] como em cuca 14. 17 [k] como em quadro [d] como em dado [] como em port. eur., galego e esp. acabado, padre [137] [] como em dia (pronncia carioca) [f] como em fofo [g] como em gago [] como em port. eur., galego e esp. lago, alegre [137] [g] como em gua [] como em j [l] como em l [] como no port. eur. mel, no ing. well [] como em palha [m] como em mama [n] como em n [] como em manha [p] como em p [] como em puro [] como em italiano e espanhol carro [323] [x] pronncia caracterstica, por exemplo, da variedade carioca em rio e terra. Ocor- re frico audvel na regio velar. Se assemelha ao que se escreve com j em castelha- no (Juan, caja, jamn). [323] [] correspondente vozeada da consoante anterior e ocorre em final de slaba segui- da de consoante vozeada como em perda. [323] [] R caipira em porta [323]. [h] pronncia caracterstica, por exemplo, da variedade mineira de Belo Horizonte em rio e terra. No ocorre frico audvel na regio velar. [323] [] correspondente vozeada da anterior, ocorre em final de slaba seguida de conso- ante vozeada, como em perda. [323] [s] como em s [] como em xixi [t] como em tatu [] como em tcheco [] como em ingls think [v] como em vov [z] como em doze smbolos fonticos 15. a Irand Antunes 16. gramtica: a quem ser que se destina? 0.1 A postura poltica desse livro F az um bom tempo j que se firmou entre os pes- quisadores da rea da educao lingustica a con- vico de que a funo primordial da escola, no que diz respeito pedagogia de lngua materna, promover o letramento de seus aprendizes. E para essa promoo do letramento, as atividades fundamentais so a leitura e a escrita, com foco na diversidade de gneros textuais que circulam na sociedade. Alm da leitura e da escrita, tambm tem espao em sala de aula para a reflexo sobre a lngua e a linguagem. Essa reflexo deve ser feita primordialmente atravs das chamadas ativida- des epilingusticas, aquelas que no recorrem nomenclatura introduo 17. 20 GRAMTICA PEDAGGICA DO PORTUGUS BRASILEIRO tcnica (a metalinguagem), de modo a permitir o percurso usoreflexouso. Isso, logo de sada, implica que tais atividades s podem ser feitas a partir de textos autnticos, falados e escritos, dos quais se possa depreender o funcionamento da lngua na construo dos sentidos. O enfoque deve ser, portanto, essencialmente semntico-pragmtico-discursivo: as reflexes sobre os aspectos especificamente gramaticais precisam ser lanadas contra esse pano de fundo semntico-pragmtico- -discursivo, de modo a conscientizar o aprendiz de que os recursos disponveis na lngua so ativados essencialmente para a produo de sentido e a interao social. do uso que se depreende a gramtica, do discurso que se chega nas regularida- des (sempre instveis e provisrias) da lngua uma distino, claro, que tem aqui uma perspectiva apenas pedaggica, j que na prtica social mais ampla discurso e sistema (ou uso e gramtica) interagem sem cessar, so indissociveis, tanto quanto o oxignio e o hidrognio da gua: so os usos frequentes e regulares de determinada for- ma lingustica que acabam por transform-la em regra gramatical, assim como so as regras gramaticais as condicionadoras dos usos lingusticos. Dado que s existe lngua se existirem falantes dessa lngua, ou seja, s existe lngua em uso, a prtica da lingua- gem como atividade constitutiva da prpria natureza humana (natureza cognitiva e sociocultural) que ditar os rumos da gramtica da lngua, num processo cclico e permanente, que s se interrompe quando e se deixarem de existir falantes da lngua. Por isso, partindo da convico de que no se deve fazer um ensino explcito, tc- nico e taxonmico de gramtica na educao bsica, esse livro tem, primordial- mente, no seu horizonte de leitores potenciais, as professoras e os professores em formao ou j formados que exercem o magistrio no ensino fundamental e/ou mdio e na educao de jovens ou adultos, ou que se preparam para essa tarefa. Isso significa que partimos do pressuposto de que essas pessoas I. j tm um conhecimento bsico da lingustica moderna, suas principais cor- rentes tericas, conceitos e postulados; II. tm familiaridade com a doutrina gramatical tradicional, seja pelo fato de terem estudado nela, seja por se guiarem por ela em sua prtica pedaggica, seja por terem sido apresentadas s crticas e reformulaes a que essa doutri- na tem sido submetida pela lingustica cientfica no ltimo sculo e meio. 18. 21 Por isso, essa gramtica no uma descrio exaustiva e detalhada do pb, mas uma exposio daquilo que constitui conhecimentos necessrios para um trabalho relevan- te e construtivo de educao lingustica. Sendo a primeira gramtica propositiva de uma pedagogia do portugus brasileiro no sentido de se dirigir especificamente prtica docente , nela vou me concentrar nos aspectos mais relevantes para que professoras e professores se conscientizem dos principais traos caractersticos do pb, conscientizao indispensvel para quem se ocupa da educao lingustica hoje no Brasil. Essa postura acarreta algumas decises eminentemente polticas: considerar o portugus brasileiro como uma lngua plena e autnoma (e no como uma variedade do portugus europeu), dentro de um grupo de lnguas que vou chamar aqui de portugalego [202]; assumir como vlido, aceitvel e correto todo e qualquer uso lingustico que j esteja plenamente incorporado ao vernculo geral brasileiro [108], falado e escrito, conforme uma vasta exemplificao da lngua viva que nos esforamos aqui em apresentar; assumir, graas ao conhecimento desse vernculo geral, a existncia de uma norma urbana culta real, radicalmente distinta da norma-padro clssica, ideal, prescritiva e totalmente desvinculada dos usos autnticos do pb; postular que o ensino de lngua se faa com base nessa norma urbana culta real, de modo a facilitar sua aquisio por parte dos aprendizes provindos das camadas sociais usurias de outras variedades sociolingusticas; embora exista uma distncia entre essas varieda- deseanormaurbanacultareal,elamuitomenordoqueaqueexisteentreessasvariedadesea norma-padroclssica,naqualnemmesmooscidadosurbanosmaisletradossereconhecem. Por fim, mas no menos importante, no se deve esquecer que a populao brasileira apresenta nveis baixssimos de letramento. As pesquisas realizadas para o estabelecimento do Inaf (ndice Nacional de Alfabetismo Funcional) revelam, de modo estarrecedor, que 75% da populao entre 14 e 64 anos de idade incapaz de ler e compreender um texto de dificuldade mediana. INAF / BRASIL - Evoluo do Indicador de Alfabetismo (populao de 15 a 64 anos) 2001 2002 2002 2003 2003 2004 2004 2005 2007 2009 Analfabeto 12% 13% 12% 11% 9% 7% Rudimentar 27% 26% 26% 26% 25% 21% Bsico 34% 36% 37% 38% 38% 47% Pleno 26% 25% 25% 26% 28% 25% introduo 19. 22 GRAMTICA PEDAGGICA DO PORTUGUS BRASILEIRO Essas mesmas pesquisas chegaram aos seguintes resultados: Entre os brasileiros que nunca foram escola ou no chegaram a completar a 1a srie, 66% so analfabetos absolutos e 95% analfabetos funcionais. A maioria (54%) dos brasileiros entre 15 e 64 anos que estudaram at a 4 srie atinge no mximo o grau rudimentar de alfabetismo, ou seja, possuem no mximo a habilidade de localizarinformaesexplcitasemtextoscurtosouefetuaroperaesmatemticassimples,mas no so capazes de compreender textos mais longos, de localizar informaes que exijam algu- ma inferncia ou mesmo de definir uma estratgia de clculo para a resoluo de problemas. E ainda mais grave: 10% destes indivduos podem ser considerados analfabetos absolutos emtermosdehabilidadesdeleitura/escrita,noconseguindonemmesmodecodificarpalavras e frases, ainda que em textos simples, ou apresentam grandes dificuldades em lidar com nme- rosemsituaesdocotidiano,apesar de terem cursado um a quatro anos do ensino fundamental. Dentre os que cursam ou cursaram da 5 a 8 srie, apenas 15% podem ser considerados ple- namente alfabetizados. Chama mais a ateno o fato de que 24% dos que completaram entre cinco e oito sries do ensino fundamental ainda permaneam no nvel rudimentar, com graves limitaes tanto em termos de suas habilidades de leitura/escrita quanto em matemtica. Somente 38% dos que cursaram alguma srie ou completaram o ensino mdio atingem o nvel pleno de alfabetismo (esperado para 100% deste grupo). Somente entre os que chegaram ao ensino superior que prevalecem (68%) os indiv- duos com pleno domnio das habilidades de leitura/escrita e das habilidades matemticas1 . Diante desse baixssimo grau de letramento, no fica claro e evidente que a ta- refa primeira, primordial, principal, precpua para no dizer exclusiva da nossa escola fundamental promover a educao lingustica ininterrupta dos aprendizes para que atinjam o nvel pleno de alfabetismo? Ou ser que algum acredita que possvel levar uma pessoa a dominar plena- mente as habilidades de leitura e escrita obrigando ela a decorar a suposta dife- rena entre adjunto adnominal e complemento nominal? Ou a fazer uma criana na 5a srie/6o ano (lembrando que, segundo as pesquisas, a maioria dos alunos nessa etapa do ensino so praticamente analfabetos) a reconhecer e rotular uma orao subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo? Ou a querer 1 Todas as informaes acerca do Inaf esto disponveis no excelente portal do Instituto Paulo Monte- negro na internet: . As citaes que fao so extradas do documento Inaf Brasil 2009 Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional. Principais resultados, que pode ser baixado livremente desse portal. 20. 23 que essa mesma criana aprenda o que um fonema e, para piorar, segundo a definio totalmente errada, do ponto de vista da lingustica cientfica, de fonema como som da lngua? O escasso e precioso tempo que se passa na escola no pode ser desperdiado com tanta coisa intil, irrelevante e, como se no bastasse, repleta de inconsistncias tericas, de erros puros e simples, de absurdos metodolgicos. Um roteiro de estudos Mas e se o pressuposto expresso na p. 20 no corresponder realidade? O que fazer? Muitos estudantes de Letras se queixam de no receber uma slida formao de doutrina gramatical tradicional em seus cursos. E tm toda razo. Os linguistas filia- dos a uma perspectiva investigativa e cientfica frequentemente adotam um discurso pejorativo com relao gramtica tradicional, discurso que muitas vezes beira o preconceito. E no consideram pertinente abordar essa tradio em seus cursos na universidade supondo, erroneamente, que os estudantes j tiveram suficiente conta- to com ela durante a escolarizao bsica. No entanto, como patrimnio cultural do Ocidente, a gramtica tradicional tem de ser muito bem conhecida por aqueles que, profissionalmente, sero confrontados a ela cobrados para que a ensinem, desafiados a dizer por que no a ensinam, acusados de no reconhecer a suposta (e nunca comprovada) necessidade de ensin-la etc. Alm disso, impossvel negar que a gramtica tradicional o repositrio de importantes reflexes de filsofos e fillogos por baixo da pesada ideologia prescritiva existem interessantes sugestes de anlise, alm de descobertas importantssimas sobre o funcionamento da lingua- gem humana em geral e das lnguas em particular. Para a pessoa que ensina portugus brasileiro e considera que sua formao foi, tem sido ou insatisfatria nos dois pontos mencionados acima, imprescindvel procu- rar preencher essas lacunas por meio de leituras. Para conhecer bem a doutrina gramatical tradicional, sugiro que voc leia, de ponta a ponta, uma gramtica de autor respeitado e respeitvel, como essa: Nova gramtica do portugus contemporneo, de Celso Cunha e L. F. Lindley Cintra (Rio de Janeiro: Lexikon, 2008). Embora venha assinada por dois autores, um brasileiro (Cunha) e um portugus (Cintra), essa gramtica de fato uma reviso e ampliao de uma obra anterior de Celso Cunha, uma vez que Lindley Cintra ficou responsvel unicamente pelo cap- tulo que trata da distribuio do portugus no mundo e da dialetologia do portugus introduo 21. 24 GRAMTICA PEDAGGICA DO PORTUGUS BRASILEIRO europeu. A leitura agradvel porque Celso Cunha sempre escreveu com clareza e objetividade, sem o estilo muitas vezes arrevezado e pomposo dos fillogos de sua gerao (o linguista francs Paul Teyssier dizia que Celso Cunha era o nico gram- tico brasileiro que no tinha a pena gordurosa). Depois dessa obra, tambm importante ler e estudar a Moderna gramtica portuguesa, de Evanildo Bechara (Rio de Janei- ro: Nova Fronteira, 2009). A obra de Bechara representa um importante movimento de transio da tradio prescritiva para uma abordagem mais sintonizada com os avanos da lingustica cientfica. Sua filiao tradio se comprova pelo recurso s abonaes literrias de autores selecionados de um grupo bastante restrito (no inclui, por exemplo, Jos Saramago, Clarice Lispector, Ceclia Meireles, Jorge Amado, Rubem Braga, entre outros) e por diversas recadas em posturas marcadamente prescritivas [527]. No entanto, a abordagem dos fenmenos lingusticos se faz muitas vezes em declarada contraposio tradio e com base em postulados tericos de correntes cientficas contemporneas. Por fim, seria altamente recomendvel empreender um estudo bem detido de mais uma obra: Gramtica Houaiss da lngua portuguesa, de Jos Carlos de Azeredo (So Paulo: Publifolha, 2008). Aqui no estamos mais no terreno da tradio gramatical, pois o autor no recorre a abonaes literrias, faz uma abordagem muito bem fundamentada das questes de variao lingustica e trata dos contedos gramaticais dentro de uma perspectiva inovadora, mas perfeitamente acessvel a quem estiver familiarizado com essa rea de conhecimento. Alm disso, apesar do ttulo, se concentra no que prprio do portugus brasileiro. Para quem no tiver condies de ler as duas obras anteriores, recomendo que se concentre ento nessa ltima. Para quem quiser se inteirar das principais escolas tericas da lingustica moderna, ser de grande proveito a leitura e o estudo do Manual de lingustica, organizado por Mrio Eduardo Martelotta (So Paulo: Contexto, 2008). Depois dessa primeira visita, vale a pena se aprofundar em cada um dos domnios especficos da cincia lingustica lendo Introduo lingustica, 3 volumes organizados por Anna Christina Bentes e Fernanda Mussalim (So Paulo: Cortez, 2001). 22. 25 Essas leituras criaro uma base importante para a compreenso do muito do que est em jogo na prtica da educao em lngua materna. Sempre lamento muito quando, em eventos e debates com professores pelo Brasil afora, vejo que difcil avanar nas discusses quando faltam algumas informaes bsicas, primrias, que deveriam ter sido supridas desde o incio nos cursos de formao docente. Por que esse livro S tomei a iniciativa de produzir esse livro depois que foram lanadas no mercado brasileiro as primeiras obras explicitamente voltadas para a descrio e a anlise da nossa lngua, o portugus brasileiro. Me refiro aos dois ttulos abaixo: Gramtica do portugus brasileiro, de Mrio A. Perini (So Paulo: Parbola Editorial, 2010). Nova gramtica do portugus brasileiro, de Ataliba T. de Castilho (So Paulo: Contexto, 2010). Esses dois lanamentos representam uma radical mudana na histria das publica- es gramaticais brasileiras2 . Alm de trazer no ttulo o nome da nossa lngua, tal como vem sendo usado nas pesquisas mais avanadas sobre a realidade lingustica brasileira, essas duas obras rompem com a tradio de vincular sempre o estudo gra- matical da lngua da maioria dos brasileiros comparao entre essa lngua e a ln- gua dos portugueses (e sempre sob a perspectiva da escrita literria, como se sabe). Em seu livro, Perini se dedica ao exame de importantes construes sintticas da lngua, a algumas classes de palavras e a alguns aspectos da fonologia. No , por- tanto, uma gramtica completa, como estamos acostumados a ver. O importante que ali no encontramos referncias ao padro literrio nem comparaes entre o portugus brasileiro e o portugus europeu. A obra de Castilho, bem mais volumosa, abrange vrios terrenos de investigao: a histria da lngua e de sua implantao em terras brasileiras, um importante debate sobre teorias lingusticas e concepo de lngua, fonologia, morfologia e muita mor- 2 Uma obra igualmente original a Gramtica de usos do portugus, de Maria Helena de Moura Neves (So Paulo: Unesp, 2001). No entanto, apesar de seus inmeros mritos, seu corpus de anlise constitudo exclusivamente de lngua escrita (literria, jornalstica, ensastica), em gneros textuais mais monitorados, nos quais ainda persistem, ao lado das tendncias inovadoras prprias do portugus brasileiro, usos mais conservadores, decorrentes da prpria seleo textual do corpus. Por outro lado, a Moderna gramtica brasileira, de Celso Pedro Luft (So Paulo: Globo, 2003), apesar do ttulo, essen- cialmente uma gramtica da lngua portuguesa no mesmo esprito das tradicionais. J a Gramtica do brasileiro, de C. Ferrarezi e I. M. Teles (So Paulo: Globo, 2008) no cumpre o que promete no ttulo. introduo 23. 26 GRAMTICA PEDAGGICA DO PORTUGUS BRASILEIRO fossintaxe, semntica e pragmtica. A gramtica de Castilho essencialmente uma descrio do portugus brasileiro urbano culto falado, pois representa uma sntese das vrias dcadas de trabalho do autor com o corpus do projeto NURC (Norma Urbana Culta), composto exclusivamente de lngua falada por brasileiros de cinco grandes cidades (Recife, Salvador, Rio de Janeiro, So Paulo e Porto Alegre). Por sua abrangncia e pela riqueza de seu contedo, a gramtica de Castilho , desde j, um clssico da literatura lingustica brasileira. Essas duas obras se destinam fundamentalmente ao pblico universitrio e no tm pretenses didtico-pedaggicas, no sentido de contemplar a comunidade escolar: professoras e professores, alunas e alunos e demais agentes educacionais. Por isso, conhecendo as demandas e expectativas do corpo docente, assim como as difceis condies de trabalho da nossa escola pblica, decidi produzir este livro, como um auxiliar para a tarefa de promoo da reflexo sobre a lngua e a linguagem em sala de aula. Essa tarefa bem que poderia ser cumprida pelos livros didticos, especialmente pelos que so adquiridos pelo Ministrio da Educao e distribudos para as es- colas, aos milhes de exemplares e a um custo elevadssimo, atravs do PNLD (Programa Nacional do Livro Didtico). No entanto, e muito infelizmente, a grande maioria desses livros (75% segundo o Guia do PNLD de Lngua Portu- guesa, edio 2008) se limita a querer transmitir, intacta e sem crtica, a tradio gramatical prescritiva, com sua profusa e confusa nomenclatura (encontrei, por exemplo, mais de 250 termos gramaticais diferentes numa nica coleo de 5a a 8a sries), junto com uma concepo de lngua certa extremamente estreita e sem correspondncia com a realidade da atividade lingustica dos brasileiros, tan- to em suas prticas orais quanto em suas prticas escritas, inclusive dos brasileiros mais letrados, inclusive dos escritores modernos e contemporneos (os resultados dessa pesquisa se encontram em Bagno, 2011). Aqui a professora e o professor vo encontrar a descrio de aspectos essenciais da gramtica do portugus brasileiro, com vasta exemplificao de usos autnti- cos contemporneos, junto com propostas de atividades prticas para levar seus aprendizes a conhecer melhor o funcionamento da lngua que falam e escrevem e para se apoderar do que um portugus brasileiro contemporneo urbano culto, que nada tem que ver com o modelo muito idealizado de lngua certa que as gramticas prescritivas, os livros didticos e os meios de comunicao (atra- vs do que chamo de comandos paragramaticais) ainda insistem em divulgar, sem se dar conta de que aquela h muito tempo j deixou de ser a lngua da maioria dos brasileiros, incluindo os da elite mais letrada, para no falar da nossa melhor literatura contempornea. 24. 27 Nesse livro aqui fao questo de repetir vou me valer de uma estratgia argumen- tativa clara e definida: todos os usos que j so caractersticos do portugus brasileiro contemporneo, principalmente em suas variedades urbanas de prestgio e, mais ainda, nos gneros textuais escritos mais monitorados, vo ser tomados pacifica- mente como legtimos e indiscutveis, por mais que os agentes do prescritivismo purista se escandalizem com isso. O argumento para justificar essa postura muito simples: esses usos representam mudanas lingusticas j devidamente implantadas no nosso sistema lingustico e, como todas as mudanas desse tipo, so usos incon- tornveis, inevitveis, irreprimveis, inconscientes (porque j perfeitamente inte- grados nossa cognio da lngua) e irretrocessveis, pois sabido que a mudana lingustica se faz sempre para adiante, num processo cclico, mas em forma de uma espiral que retorna a fases anteriores, sempre tomando distncia, porm, com relao aos pontos j percorridos: Contra a mudana lingustica no h nada que se possa fazer: ela inevitvel e da prpria natureza das lnguas, tal como a mudana da natureza de tudo o que existe na sociedade, no mundo e no universo. Em vez de lutar contra ela o que sempre uma guerra perdida de antemo , mais vale buscar formas de convvio sadio e tran- quilo com ela. E o que vamos tentar fazer aqui. No h nada que se possa fazer con- tra a mudana lingustica porque ela impulsionada pelos prprios falantes. no mnimo irnico ver a tradio purista tentando vencer o invencvel: o processamento sociocognitivo da lngua por seus prprios falantes nativos, includos os puristas! Parodiando o velho Marx, os linguistas tm se limitado a descrever as relaes entre lngua e sociedade: trata-se, agora, de transform-las. Essa transformao pode ser feita por meio da formulao de um discurso hertico, como escreve Pierre Bour- dieu (1996: 118), destinado a produzir um novo senso comum. Por isso o quali- ficativo de pedaggica que aparece no ttulo desta gramtica ela descreve, mas tambm prope uma nova norma lingustica para o ensino, uma norma que no extrada do nada nem dos gostos pessoais do autor (como frequentemente o caso com as gramticas prescritivas), mas uma norma que j existe, tcita ou recalcada, e que tem de ser legitimada para que o Brasil exorcize de vez o fantasma colonial que ainda assombra nossas concepes de lngua e de lngua e ensino. introduo 25. 28 GRAMTICA PEDAGGICA DO PORTUGUS BRASILEIRO O que ensinar na escola Se a escola tem a funo de ensinar, (ou deveria ser) claro, bvio, ntido e transpa- rente que os objetos do ensino devem ser coisas que as pessoas ainda no sabem. Se procuro uma autoescola, porque no sei dirigir um carro, ou porque o que sei no suficiente. Se procuro uma escola de lngua alem, porque no sei alemo, ou porque o que sei no suficiente. Ento, se quem vai para a escola, no Brasil, so brasileiras e brasileiros falantes do portugus brasileiro, por que necessrio ensinar essa lngua a essas pessoas? A resposta est no fato de que por trs do rtulo genrico lngua se esconde um uni- verso multidimensional de saberes, prticas, crenas, histrias, ritos, instrumentos, mecanismos de poder, papis sociais, tradies culturais, para dizer o mnimo [55]. Boa parte disso tudo a gente aprende em casa, com a famlia, na nossa comunidade, nos grupos que fazemos parte, nas redes sociais que nos movimentamos tal como aprendemos em casa a no usar preposio antes de pronome relativo, conforme acabo de fazer [901]. Mas outro tanto de conhecimento s nos revelado pelas instituies s quais a sociedade tem atribudo precisamente o papel de transmitir esse legado. Justamente por isso que essas instituies que vamos aqui chamar pelo nome singular de escola precisam ser democrticas e democratizadoras, res- peitosas da pluralidade cultural e da diversidade humana que compe a sociedade. A escola , antes de mais nada, lugar de socializao. Ao entrar na escola, cada aprendiz entra tambm em contato com outras comunidades, outros modos de ser, outros jeitos de falar, outras redes sociais. Ao mesmo tempo, a escola a agncia que estabelece a relao entre cada aprendiz e o Estado, responsvel pela educao de seus cidados, mesmo que se trate de escolas privadas. Assim, se o Estado quer ser democrtico, imprescindvel que oferea aos cidados uma escola democrtica. Alm desses aspectos, a escola tambm a principal agncia de letramento dos aprendizes. Certamente estamos aqui lidando com uma noo restrita de letramen- to, o letramento escolar, uma vez que o prprio aprendizado da lngua materna desde a primeira infncia constitui um processo de letramento: a aquisio da gramtica da lngua materna, a formao de uma intuio lingustica, a capacidade de reco- nhecer uma manifestao lingustica como bem ou malformada, como pertencente ou no prpria lngua tudo isso tambm letramento. E mesmo que a gente se refira a letramento como a aprendizagem da leitura e da escrita, tem pessoas que no precisaram frequentar escola para aprender a ler e a escrever. No entanto, o nmero dessas pessoas muito pequeno quando comparado com a multido daquelas que s vo fazer essa aprendizagem no ambiente escolar. Se todo ser humano dotado de suas plenas capacidades sociocognitivas e fsicas capaz de falar uma ou vrias lnguas, j ler e escrever um conhecimento que exige a ativao 26. 29 de outros mecanismos cognitivos, sociais e culturais. Falar to natural para um ser humano quanto respirar, ver, ouvir, sentir odores, caminhar em posio ereta, sonhar noite etc. Ler e escrever, por sua vez, da mesma ordem de coisas de tocar piano, dirigir um automvel, tricotar um xale, pintar um quadro, construir uma casa etc. So prticas socioculturais que exigem um aprendizado relativamente longo e contnuo para que o aprendiz se apodere delas a ponto de exerc-las com habilidade e destreza. Sendo assim, o ensino da leitura e da escrita, e o acesso aos discursos sociais que se valem delas, a tarefa primordial da educao em lngua materna na escola. Muitos pesquisadores tm postulado, no entanto, que os seres humanos no somente falam lnguas como tambm falam sobre as lnguas e, principalmente, falam sobre a lngua que falam. da nossa prpria natureza sociocultural a reflexo epilingusti- ca, isto , tomar a lngua como objeto de apreciao, depreciao, avaliao (positiva ou negativa), crtica, prazer esttico, curiosidade, conhecimento do mundo etc. Por isso, tambm cabe escola sistematizar essa propenso a falar sobre a lngua, de modo a favorecer, com ela, mais uma vez, o processo de letramento. Ler, escrever e refletir sobre a lngua. Essas trs tarefas que no fundo so uma s: desenvolver o letramento constituem toda a misso da escola no que diz respeito educao em lngua materna. No h tempo a perder com outras prticas que j se comprovaram absolutamente irrelevantes e inteis para se cumprir essa misso: Decorar uma nomenclatura gramatical profusa, confusa e muitas vezes incoerente e inconsis- tente? No! Classificar uma palavra solta, sem texto, cotexto nem contexto real de uso? No! Identificar numa frase uma categoria gramatical sem atentar para os efeitos discursivos que ela permite produzir? No! Proceder anlise sinttica de uma orao apenas para rotular seus elementos constituintes? No! Desconsiderar um texto em sua rede de significaes e de sentidos para nele pinar apenas palavras de uma determinada classe gramatical? No! Produzir redaes com temas irrelevantes, sem definio de tipo nem de gnero textual? No! Ser convencido de que s existe uma maneira correta de dizer ou escrever e que todos os de- mais usos da lngua so errados e feios? No! Nenhuma dessas prticas garante uma educao lingustica honesta, relevante e til para a formao cidad. Por isso, volto a insistir, essa gramtica aqui para quem ensina, para que as pessoas responsveis pela promoo do letramento de outras pessoas conheam a fundo seu objeto de trabalho. No se deve ensinar gramtica na escola, mas quem ensina na escola deve conhecer muitssimo bem a gramtica! introduo 27. 30 GRAMTICA PEDAGGICA DO PORTUGUS BRASILEIRO Na verdade, pode ser uma contradio em termos dizer que no se deve ensinar gra- mtica se o objetivo promover o letramento. Mas no uma contradio em termos quando tomamos o termo gramtica em sua acepo mais corriqueira e reducionis- ta: a nomenclatura gramatical. Saber o que uma orao subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo no saber gramtica: saber aplicar um rtulo a um retalho de linguagem. Eu posso encontrar uma lataria de carro enferrujada, abandonada no meio do mato, e identificar a marca, o modelo, o ano e talvez at a cor do veculo. Mas no posso saber a quem ele pertenceu, aonde sua dona ou seu dono foi com ele, quem mais viajou nele, se aquele carro foi multado alguma vez, se esteve envolvido em algum acidente... enfim, no vou saber nada da histria do carro. O mesmo acontece quando se isola uma frase de um texto ou tanto faz, o dano idntico quando se inventa inteiramente uma frase para que seja submetida a uma anlise morfossinttica. Algum pode classific-la com base em sua estrutura aparente, mas nunca ter como conhecer a histria daquela frase e s existe lin- guagem, atividade humana, onde existe histria, vida humana. Saber gramtica muito mais do que rotular. Saber gramtica algo to entranhado em cada pessoa que simplesmente impossvel falar, ouvir, ler, escrever ou refletir sobre a lngua sem ativar esse conhecimento gramatical intuitivo e poderoso. Vamos ver um exemplo? Num livro didtico de 5a srie, encontrei a seguinte atividade, proposta depois da leitura de um texto que narrava o mito de Teseu, Ariadne e o Minotauro: 5 Leia as frases a seguir e, no caderno, explique a diferena de sentido entre as pala- vras ou expresses destacadas. (a) Teseu, cauteloso, para e vigia os mnimos esconderijos [...] (b) Ariadne pensou at mesmo nos aspectos mnimos. (c) [...] eu j de longe fico sabendo que voc est vivo. (d) O rei Minos nem de longe imaginava o plano de Teseu. (e) [...] o velho Egeu no teve um nico momento de repouso. (f) Aquele foi um momento nico para Teseu. 6 Observe: Sob seu sbio governo, a Grcia conheceu a paz. E Atenas, a prosperidade. (a) Que palavra a vrgula substituiu na segunda frase? Por que o autor usou esse recurso? (b) Crie um exemplo semelhante, usando a mesma pontuao. [Sarmento, 2008, vol. 5: 17-18] Observe que a autora no pede nenhuma classificao, no quer que o usurio do livro rotule nada, mas que depreenda a diferena de sentido provocada pelo uso de uma mes- ma palavra ou locuo em determinados trechos do texto lido e em frases que, embora 28. 31 inventadas, mantm relao com a narrativa e permitem que o aprendiz se conscientize daquelas diferenas. O mesmo vale para a segunda atividade, em que no se solicita o emprego de rtulos, mas a depreenso dos valores de um sinal de pontuao e de como ele pode conferir ritmo e conciso produo textual, alm de garantir a coeso textual. Fazer essas reflexes sobre os usos da lngua, reconhecer e apoderar-se dos efeitos de sentido obtidos pelo emprego consciente dos recursos que a lngua oferece isso sim estudar gramtica! Portanto, no tem cabimento a pergunta, tantas vezes repetida, ou no para ensinar gramtica?, j que a resposta sim ou no, dependendo da concepo de gramtica que se tem em mente: sim, sim e sim para a gramtica como depreenso dos sentidos de um texto e dos mecanismos lingusticos que permitem a produo desses sentidos; no, no e no para a rotulao estril, a classificao mecnica, a decoreba que ofende a inteligncia. O no ensino da norma-padro Outra pergunta resultante de muitos mal-entendidos tem a ver com o ensino da norma-padro. O que se entende por norma-padro, nos estudos mais recentes so- bre variao lingustica e ensino, o modelo de lngua descrito-prescrito pela tradi- o gramatical, uma lngua extremamente idealizada, construda com base nos usos de um grupo no muito amplo de escritores e, mesmo assim, no de todos esses usos, mas s daqueles que o prprio gramtico considera exemplares ou recomendveis. Essa norma-padro escrita, literria e obsoleta , por isso mesmo, repleta de arcasmos, de fsseis lingusticos, de regras que vo contra a intuio gramatical de qualquer falante da lngua. Como se no bastasse, ela inevitavelmente anacrnica, porque recorre a um cnone literrio do passado, de modo que nem sequer na litera- tura viva, contempornea, possvel reconhecer o uso integral do que ela prescreve. Diante disso, a resposta clara: no se deve ensinar norma-padro na escola. A educao em lngua materna no sinnima de um ensino exclusivo de uma nica modalidade de emprego da lngua, muito menos de uma modalidade obsoleta e an- ti-intuitiva3 . Educar em lngua materna permitir o acesso dos aprendizes ao maior nmero possvel de modalidades faladas e escritas de sua lngua, modalidades que s se realizam empiricamente, concretamente, na forma de gneros textuais. 3 Esse o equvoco fundamental da proposta de L. C. Assis Rocha em seu livro Gramtica nunca mais! propor o ensino exclusivo de uma norma obsoleta, que o prprio autor, alis, deixa de obedecer em diversos trechos de seu livro Outro equvoco propor o ensino dessa norma-padro arcaica por meio de exerccios estruturais de preenchimento de lacunas, uma metodologia de ensino ultrapassada e descartada pela pedagogia de lnguas h muitas dcadas. introduo 29. 32 GRAMTICA PEDAGGICA DO PORTUGUS BRASILEIRO no trabalho com os mais variados gneros textuais falados e escritos que os aprendizes tomaro conscincia da multiplicidade de usos possveis da lngua. Um folheto de cartomante distribudo na rua merece ser estudado e analisado em sua constituio textual: seu vocabulrio, suas estratgias argumentativas, seus recursos morfossintticos, tanto quanto um editorial de uma revista de grande circulao. evidente que a literatura tem de se destacar na educao em lngua materna, mas no para servir de modelo a imitar, e sim pelo que representa de fruio esttica e de elemento constitutivo da cultura e da identidade de um indivduo e da coletividade. No tem cabimento, por exemplo, apresentar o paradigma da conjugao verbal com as seis pessoas do portugus clssico eu, tu, ele(a), ns, vs, eles(as) , j que essa conjugao no corresponde a absolutamente nenhum uso real de nenhuma das variedades do portugus brasileiro falado ou escrito, nem do portugus europeu, angolano, moambicano etc. imperioso que se apresente os diferentes paradigmas verbais em vigor no portugus brasileiro contemporneo, com voc, com a gente, com tu foste e com tu foi etc., porque so esses paradigmas variveis que de fato esto vivos na nossa sociedade. um crime pedaggico esconder a realidade da lngua aos que procuram a escola precisamente para conhecer essa realidade! claro que no trabalho com um texto em que aparea uma forma verbal com o ndice de pessoa vs a professora ter uma excelente oportunidade para mostrar aos alunos que a lngua muda com o tempo, que faz mais de trezentos anos que ningum usa o ndice de pessoa vs, que ele s aparece em determinados textos antigos, religiosos ou humorsticos, por exemplo. Os alunos tm todo o direito de conhecer o ndice de pessoa vs e outros arcasmos, tanto quanto tm todo o direito de saber o que significa sine qua non, grosso modo, data venia ou errare humanum est, o que significa yo no creo en brujas pero que las hay, las hay, o que significa ltat, cest moi ou noblesse oblige, o que significa last but not least, sem que para tanto precise conhecer a fundo latim, espanhol, francs ou ingls. As formas lingusticas obsoletas, arcaicas ou em vias de extino no precisam ser ensinadas para que os alunos entrem em contato com elas. Quando e se aparecerem em textos autnticos, que meream ser lidos e estudados, a professora pode explicar do que se trata, sem impor aos alunos um conhecimento ativo daqueles fsseis. Sem propor uma atividade de passar frases com o ndice de pessoa tu para o ndice de pessoa vs fazendo as devidas concordncias devidas a quem? No existe vida social sem que se estabelea normas para a conduta em sociedade. Podem ser normas ditadas de cima para baixo, impostas ao conjunto das pessoas por alguma instituio hierarquicamente superior, ou podem ser normas surgidas do prprio convvio social, da prpria atividade sociocultural e sociopoltica da co- munidade. isso que faz a diferena entre o normativo (de cima para baixo) e o normal (surgido e difundido no seio da comunidade). Na histria das sociedades, muito frequente que o normal, de to aceito e praticado, seja regulamentado e 30. 33 normatizado pelas instncias superiores, como a legislao. Durante sculos e scu- los, o casamento foi indissolvel nas sociedades ocidentais, crists. Com o passar do tempo, no entanto, foi se tornando normal a separao dos casais, mesmo que, nas aparncias, permanecessem casados. A presso dessa normalidade foi tamanha que o prprio Estado reconheceu o direito separao, assim como muitas legislaes vm reconhecendo os direitos das mulheres, das minorias tnicas, das crianas, dos homossexuais, dos refugiados, dos deficientes fsicos etc. O mesmo ocorre na lngua. A presso da mudana que se processa na sociedade, impulsionada pelos falantes em suas interaes acaba por transformar uma forma lingustica inovadora num uso to normal que, mesmo enfrentando a reao de uma minoria (os gramticos mais prescritivistas, os puristas, os reacionrios em geral), acaba por se impor ao conjunto da sociedade. Vamos tratar mais demoradamente desses processos de mudana no captulo 4. A norma-padro tradicional acaba perdendo espao para a norma real, habitual, nor- mal, pelos usos feitos pelos falantes em suas atividades lingusticas cotidianas. dessa norma real, habitual, normal, que vamos tratar nesse livro. No adianta os prescritivistas afirmarem que eu deveria escrever vamos tratar neste livro, porque no vernculo geral brasileiro o demonstrativo este se extinguiu e, quando usado, no segue nem de longe as determinaes impostas pela tradio prescritiva. Sendo essa uma gramtica do portugus brasileiro, o que nela vai aparecer so as formas genuinamente brasileiras de falar e de escrever. E uma vez que a funo da escola ensinar o que as pessoas no sabem, nos gneros textuais escritos mais monitorados que vamos buscar nossas exemplificaes do real funcionamento da gramtica do portugus brasileiro. Porque so esses gneros escritos mais monitorados que dever da escola le- var seus alunos a conhecer, reconhecer, dominar e empregar. O recurso a esses gneros serve tambm como argumento contra aqueles que tentam no parecer autoritrios ou puristas alegando que na fala, tudo bem, mas, na escrita, nunca, como se fala e escrita fossem duas entidades totalmente diferentes, estanques e isoladas. Nessa gramtica, vamos comparar sempre o vgb (vernculo geral brasileiro) com a tgp (tradio gramatical do portugus), dando sempre nfase e prioridade polti- co-pedaggica ao vgb. Com isso, estamos assumindo a postura, igualmente polti- ca, de legitimar no ensino os usos mais difundidos no vgb, de forma a abandonar a arcaica separao entre certo e errado. No sugerimos que o aluno no tenha acesso norma-padro veiculada pela tgp, at porque ela vai surgir inevitavelmen- te nos textos que ele vai ler em seu processo de escolarizao. S reivindicamos que ela no seja usada como mecanismo didtico de negao do vgb nem como instrumento para depreciar nossa lngua materna. No h por que negar legiti- midade ao que j est legitimado por todos os falantes, inclusive pelos urbanos e altamente letrados, inclusive pela nossa melhor literatura dos ltimos cem anos. introduo