FRESTON, Paul. Protestantismo e Democracia No Brasil. Lusotopie 1999.

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Paul FRESTON, Lusotopie 1999, pp. 329-340

Protestantismo e democracia no Brasil

armetros so necessrios para pensar protestantismo e democracia no Brasil hoje. 1) Uso cuidadoso das anlises regionais. H vrias anlises das implicaes do crescimento protestante para a democracia na Amrica latina. Para o Brasil, estas anlises devem ser usadas com cautela. Gutirrez (1996) nem sequer menciona o Brasil. Cleary (1997) e Bastian (1997) do informaes errneas, e Dodson (1997) no o trata especificamente. Os que escrevem sobre poltica protestante na Amrica latina geralmente desconhecem as diferenas polticas e religiosas entre o Brasil e a Amrica central. O protestantismo paradoxal e polivalente, e poder no ter o mesmo efeito poltico em todos os pases da regio. 2) Qual protestantismo ? Devemos evitar generalizaes indevidas sobre um campo vasto e dinmico. O Brasil tem a segunda maior comunidade de protestantes praticantes do mundo (e a lusofonia talvez seja o segundo maior bloco lingustico no protestantismo mundial). Seria surpreendente se no houvesse, entre os mais de 20 milhes de protestantes brasileiros, grande variedade de prticas polticas. Devemos evitar, tambm, a tendncia de falar somente do potencial de longo prazo do protestantismo, deixando de analisar (ou mesmo ignorando a existncia) da poltica protestante que de fato predomina desde 1985. A discusso das potencialidades, baseada em comparaes macro-histricas com protestantismos mais antigos, precisa ser equilibrada com uma anlise do que se poderia chamar (numa analogia com o socialismo real ) a poltica protestante real . 3) Qual democracia ? Alm de levar em conta as especificidades dos campos poltico e religioso brasileiros e a poltica protestante dos ltimos anos, importante colocar a discusso num contexto global : em primeiro lugar, dos debates sobre a consolidao da democracia, e em segundo lugar, da expanso mundial do protestantismo popular. Alm de perguntar qual protestantismo ? , temos que perguntar qual democracia ? , colocando a discusso no contexto dos debates sobre a sociedade civil e a consolidao democrtica, e sobre o papel da religio no novo quadro poltico mundial. Que tipo de sociedade civil fortalece

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a democracia ? possvel que foras sociais que favoreceram as transies democrticas podem ser obstculos consolidao, e vice versa ? A militncia poltico-religiosa patolgica, representando o fracasso da poltica secular normal, ou compatvel e at positiva para a sade democrtica ? 4) As transformaes globais do protestantismo. Devemos colocar a discusso no contexto das transformaes globais no papel da religio. Muitas vezes, essa discusso vai pelo nome de fundamentalismo , mas devemos distinguir entre avivamentos polticos que utilizam o simbolismo religioso, e avivamentos religiosos que tm incurses polticas peridicas mas cujo dinamismo responde a outros fatores. A pergunta chave : quais as implicaes da macia converso ao cristianismo protestante na Amrica latina, frica e partes da sia para a expanso mundial da democracia ? O Brasil, um caso historicamente singular em alguns sentidos, pode lanar luz sobre as questes da relao entre protestantismo e democracia ao longo da histria e da religio pblica na era da globalizao. O debate atual sobre a democratizao Cinco pontos deste debate so relevantes para a questo do protestantismo. 1) Uma sociedade civil forte no significa necessariamente mais democracia. A sociedade civil real variada, podendo ter elementos politicamente indiferentes e outros favorveis a um regime autoritrio. Poder polarizar conflitos entre interesses sociais e assim contribuir instabilidade poltica. Qualquer afirmao de que uma sociedade civil "forte" mais condizente com a democracia carece de sentido (White 1994 : 380). 2) A transio democrtica e a consolidao democrtica so fases distintas e exigem virtudes distintas. Em boa parte da discusso recente, a democracia j no vista como o produto de altos nveis de modernizao, mas como o resultado da ao de elites. Em vez de planta rara e delicada, passa a ser um produto que se pode fabricar em qualquer lugar. No entanto, sabe-se mais sobre a transio do que sobre a consolidao democrtica. Para alguns analistas, a chave desta o consenso entre elites sobre um comprometimento de princpio com as regras do jogo democrtico. Para outros, a chave a evoluo de uma cultura democrtica, o que pode levar geraes. No h democracia sem democratas, dizem (Shin 1994). neste sentido que certos analistas das Igrejas africanas afirmam ser as seitas protestantes mais eficazes do que as Igrejas mainline, embora as segundas levem vantagem na inaugurao democrtica. Estrutura hierrquica e vnculos internacionais ajudam na luta pela redemocratizao, mas podem ser estorvo para a criao de uma cultura democrtica duradoura. 3) Pode haver formas legtimas de religio pblica no mundo moderno. Casanova escreve sobre a desprivatizao da religio no mundo moderno. Para ele, h formas legtimas de religio pblica no mundo moderno, as quais no pem em perigo a diferenciao social ou o pluralismo de crenas. Pelo menos algumas formas de "religio pblica" [] podem ser crticas normativas de tendncias histricas dominantes [] semelhantes crtica feminista [] questionando publicamente as pretenses autnomas

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das esferas diferenciadas (1994 : 43). Todas as lutas contra a opresso no mundo moderno comearam por redefinir questes consideradas privadas como sendo de foro pblico, no para eliminar a fronteira pblico-privado mas para reconhecer que ela est sempre aberta contestao. Os liberais tendem a interpretar a desprivatizao da religio como reao fundamentalista por parte de instituies hierocrticas, ou como mobilizao reacionria de grupos tradicionalistas. Ignoram o carter intrinsecamente religioso do fenmeno e o desafio normativo que coloca para o que ainda restam de compreenses secularistas da modernidade (ibid. : 221 sq.) : As intervenes pblicas da religio [no so apenas] crticas antimodernas da modernidade. Representam novos tipos de crtica imanente normativa de formas especficas de institucionalizao da modernidade que pressupem justamente a aceitao [] dos princpios da modernidade, ou seja, as liberdades individuais e as estruturas diferenciadas .

4) A concorrncia religiosa acirrada no necessariamente incompatvel com a democracia. A idia da incompatibilidade uma verso da religio civil republicana (Casanova) que procura emascular a religio. No impossvel que as pessoas discordem fortemente a respeito de coisas que consideram de suprema importncia (como a necessidade da evangelizao), e mesmo assim sejam bons democratas. Soares (1993) vai nessa direo quando comenta a guerra santa de alguns pentecostais contra as religies afro-brasileiras. H, em nossa guerra santa, um dilogo, ainda que spero, com as crenas criticadas e seus objetos so tidos como reais . Isso contrasta com a complacncia tolerante e superior de boa parte dos catlicos e dos membros das Igrejas tradicionais . Esta tolerncia dos que no sentem a prpria superioridade ameaada expressa uma ordem sociocultural hierrquica, enquanto a disputa palmo a palmo representa a emergncia de uma configurao igualitria. No so os partidos, nem a poltica ; a experincia religiosa que faz nossa revoluo cultural [] A linguagem religiosa purificada do pentecostalismo guerreiro realiza a revoluo modernizadora, infundindo princpios dominantemente igualitrios [] As implicaes polticas deste processo no devem ser subestimadas. Quando elites deixam de dirigir a cultura, correm o risco de ceder o comando poltico .

5) O novo protestantismo de massas do terceiro mundo poder criar uma quarta onda democratizante crist. Witte (1993) fala de trs ondas de impulsos democratizantes cristos que acompanharam, e at anteciparam, as trs ondas de democratizao propostas por Huntington (1991). A primeira onda foi protestante, nos sculos XVII e XVIII. A segunda foi a onda missionria na frica e na sia, acompanhada por uma onda poltica, tanto catlica como protestante, na Europa e Amrica latina em meados do sculo XX. A terceira onda catlica, ps-Vaticano II. Nossa questo se haver uma quarta onda associada ao surgimento de um protestantismo de massas na Amrica latina, frica e sia. importante lembrar que a segunda onda era de leigos. No Brasil como em outros pases, o novo protestantismo ter implicaes mais favorveis para a democracia na medida em que, como diria Weber, o intelectualismo leigo conseguir desafiar o controle sacerdotal da face pblica.

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Protestantismo e democracia no Brasil : histria das anlises Os protestantes constituem uns 15 % da populao brasileira, caracterizada pelo crescimento acelerado e forte presena entre as camadas mais pobres e de menor escolaridade. As Igrejas oriundas do exterior gozam de plena autonomia, mas o campo cada vez mais tomado por denominaes brasileiras. A anlise da relao entre protestantismo e democracia j passou por vrias fases. 1) At os anos 1950 : o protestantismo como parte da democratizao da sociedade. Os primeiros estudos sociolgicos, feitos nos anos 1940 e 1950, apoiaram a idia do protestantismo como favorvel democracia. Para Willems (1967), o protestantismo ajudava a transio para uma sociedade democrtica. 2) Anos 1960 e 1970 : o protestantismo como baluarte da ditadura. Nessa fase, a sociologia do protestantismo dominada por brasileiros de origem protestante mas rompidos com suas Igrejas. Escrevendo durante o regime militar, sua produo salientava a alienao protestante. Era necessrio excitar o "potencial revolucionrio" do povo e delimitar os grupos que dificultavam este projeto (Leonardos 1987 : 15). Teve influncia o estudo de Lalive d'pinay (1970) sobre o Chile, o qual classificava o pentecostalismo como reprodutor das relaes autoritrias da zona rural. Enquanto a Igreja catlica no Brasil se transformou em defensora da democracia, as Igrejas protestantes passaram a ser vistas como baluartes do regime. No ttulo de uma obra do perodo, a associao j no era protestantismo e democracia, mas Protestantismo e Represso (Alves 1979). 3) Anos 1980 : na queda do regime militar, o contraste entre os papis do catolicismo e do protestantismo. Nas anlises da queda da ditadura militar (1985), ressalta-se o contraste entre os papis da Igreja catlica e das Igrejas protestantes. H tendncia semelhante na literatura sobre a frica, na qual as Igrejas mainline (catlica, anglicana, etc.) so vistas como importantes nas tentativas de democratizao no incio dos anos 1990, e as Igrejas pentecostais e independentes so vistas como baluartes dos regimes de partido nico. Tanto na frica como na Amrica latina, as anlises se concentram no estabelecimento da democracia e no no seu fortalecimento e enraizamento em prticas sociais, e ignoram ou subestimam fatores ligados a posies relativas no campo religioso e aos contatos internacionais. No por acaso, a nica Igreja protestante a contestar oficialmente a represso no Brasil (a luterana) a nica Igreja em sentido sociolgico. Sua natureza multiclassista lhe deu a capacidade de sentir a realidade social e a condio de protestar contra ela. Outras Igrejas careciam de base popular que provocasse crise pastoral em parte do clero, ou eram de pobres sem condies de protestar sem ficarem expostas a todo o peso da represso. Outros autores nuanam o quadro africano. Para Ranger, a liderana catlica foi devida sua estrutura internacional, de maneira que uma Igreja no democrtica pde ser mais eficaz num momento de crise moral e vazio poltico do que as Igrejas mais democrticas que sofriam a subverso local (Ranger 1995 : 20. A Igreja luterana brasileira tambm precisou de um impulso internacional para que agisse). Alm disso, embora as jaulas de ferro eclesisticas fossem necessrias para confrontar os regimes,

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as congregaes descentralizadas serviam melhor para criar os valores necessrios para a sustentao da democracia . E, finalmente, nem todas as Igrejas evanglicas, independentes e pentecostais tiveram a mesma postura : algumas se prestaram mais do que outras ao jogo dos regimes, e ainda outras resistiram totalmente. Todas essas nuances precisam ser feitas quando falamos do Brasil. 4) Anos 1990 : consolidao democrtica. Entre os herdeiros de Willems e de Lalive d'pinay. Por um lado, h estudos que frisam o potencial democratizante, falando do surgimento de uma sociedade civil vibrante e fazendo analogias com os efeitos histricos desse modelo voluntarista de cristianismo em outros pases. As Igrejas estariam oferecendo um espao social livre, uma experincia de solidariedade e uma nova identidade pessoal, alm da participao responsvel numa comunidade e, para alguns, o desenvolvimento de dons de liderana. Estes autores usam muito as palavras potencial e a longo prazo . Para Smith (1994), o protestantismo poder ser uma fora mais positiva para a democracia do que as Comunidades de base, porque cria espaos abertos, ensina padres ticos universalistas e a responsabilidade individual, e avalia governantes por um critrio divino que mina o caudilhismo. As estruturas eclesisticas incentivam a participao de leigos e das mulheres. O protestantismo rompe com o padro religioso unificado do corporativismo monista . Apesar das crticas de outros autores, no sentido de que o pentecostalismo reproduz as relaes clientelistas da cultura monista, e apesar dos meus prprios trabalhos nos quais demonstro as tendncias corporatistas pentecostais (Freston 1993, 1994, 1996), h um ponto a lembrar : no mais uma organizao monoltica que faz o jogo corporativista, mas uma srie de organizaes competitivas cujas aes podem se cancelar mutuamente no efeito poltico. Smith conclui que o protestantismo reforar a democracia, mas somente em condies propcias : uma guinada conservadora da Igreja catlica ; uma crise econmica bloqueando a ascenso individual ; uma busca do voto protestante pelos partidos ; e o surgimento nas Igrejas de uma segunda gerao inquieta. Smith parece desconhecer a busca do voto protestante na ltima dcada no Brasil, bem como o fato de que o protestantismo j tem vrias geraes. O mito da segunda gerao que transforma a instituio, independentemente de outros fatores, uma base frgil para a f na vocao democrtica do protestantismo brasileiro. Dodson (1997) pergunta como a simultnea democratizao da poltica e pentecostalizao da religio latino-americana se afetaro. Invoca Tocqueville sobre a importncia da religio no desenvolvimento democrtico via o princpio da associao que reconcilia a liberdade com a igualdade. O pentecostalismo poder gerar a democracia, pois constri identidades e qualidades associativas, e os dons do Esprito empower para a atuao na sociedade civil. A grande maioria de Igrejas pequena e menos autoritria do que se diz (no Brasil, porm, o surgimento da IURD, infinitamente mais poderosa do que as outras, pe em xeque as concluses de Dodson). O nome mais conhecido da interpretao positiva David Martin. Seu livro de 1990 muito comentado. Vou comentar outra obra, Forbidden Revolutions (1996). As revolues referidas mostram como a religio, ainda que localizada na esfera da cultura, pode afetar o centro : na Amrica latina,

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pelos provveis efeitos do pentecostalismo na sociedade civil, e no Leste europeu pelo papel pblico de diversas Igrejas em 1989. Com razo, Martin diz que h muitos crticos do pentecostalismo e ele quer colocar o lado positivo. Mas corrigir o equilbrio no deve significar perder de vista o dinamismo ambguo. Martin passa por cima das experincias de participao poltica direta, as quais no apontam sempre na direo das potencialidades que descreve. A religio evanglica na Amrica latina, diz Martin, repetio (mais do que difuso) de diferenciaes alcanadas h muito tempo na sociedade anglo-americana. [Por isso] no procurar, como os "fundamentalistas" islmicos, substituir uma hegemonia por outra (1996 : 60 sq.). Mas ser que repetio e difuso so as nicas possibilidades ? E, embora as muitas declaraes pentecostais que falam em substituir uma hegemonia por outra no sejam importantes se forem contrrias (socio) lgica da situao, a questo se, num Brasil ainda marcado pelas antigas relaes monolticas entre religio e sociedade, a suposta lgica da religio voluntarista prevalecer. Divergindo dos autores j mencionados, outros frisam o lado repressivo e corporativista das Igrejas, especialmente as pentecostais. Bastian (1992, 1997) questiona o status protestante do pentecostalismo latino-americano. O protestantismo (histrico) comeou dentro da cultura do liberalismo, inculcando valores democrticos, mas o pentecostalismo evoluiu da cultura do catolicismo popular, sincrtica, corporativista e politicamente passiva. Ele fala de uma afinidade eletiva entre pentecostalismo e cultura poltica latino-americana. Fala da criao de partidos evanglicos em vrios pases, mas no pergunta pelas razes de seu pouco sucesso, e sua total ausncia em alguns pases como o Brasil. No pergunta sobre as diferenas de prtica poltica entre Igrejas pentecostais. Parece pressupor a naturalidade do voto corporativo do eleitorado pentecostal, algo que vrias pesquisas no Brasil demonstram no ser nada natural, mas algo a ser construdo e reconstrudo penosamente. No explica o por qu da transformao de alguns pastores, de intermedirios do voto para candidatos seculares em brokers de candidaturas oficiais das Igrejas. Um recente artigo por Gaskill (1997) avana a discusso. Ressalta que boa parte da literatura ignora os efeitos das estruturas organizacionais das Igrejas. Apia-se no novo paradigma da sociologia da religio nos Estados Unidos, o qual frisa o lado da oferta. Para Gaskill, se o protestantismo ajuda ou no a consolidar a democracia depende menos da tica protestante ou da cultura poltica, e mais da relao entre elites e instituies e das decises estratgicas tomadas por lderes religiosos e polticos. Critica Burdick (1993), cuja nfase na poltica de identidade se baseia somente no caso da Assemblia de Deus, ignorando a variedade de pentecostalismos, e Smith e Martin, cuja nfase nos efeitos latentes passa por cima da variedade de papis, nem todos democrticos, que uma sociedade civil forte pode jogar. Concordo em parte com Gaskill. As causas bsicas da irrupo pentecostal na poltica brasileira, com candidaturas oficiais, tm a ver com a evoluo do campo religioso e com o status dos pastores. A constituio do campo religioso, e as necessidades de expanso dos lderes do protestantismo popular, explicam mais do que qualquer outro fator a entrada na poltica e o tipo de poltica praticado. Contudo, Gaskill segue muito de perto

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a tipologia de Nelson (1988) de organizao eclesistica. Embora essa tipologia explique o contraste entre a (politizada) Assemblia de Deus e a (apoltica) Congregao crist, no explica por que outras Igrejas do tipo clientelista, como a Deus Amor, se mantm afastadas da disputa poltica. Gaskill conclui que no h razo para crer que o pentecostalismo seja incompatvel com estruturas autoritrias ; que no replica a tica protestante na vida econmica ; que contribui para o pluralismo ps-autoritrio ; mas que os interesses por ora coincidem no com uma defesa de princpio da democracia, mas com qualquer movimento poltico que garanta os recursos que precisa. Tudo isso basicamente correto, mas deixa de lado o fato de que as Igrejas pentecostais so crists, e portanto sujeitas crtica bblica e influncia do mundo evanglico mais amplo. Embora o enfoque organizacional e emprico de Gaskill seja bom contra-ponto para o argumento do potencial , no deve ser absolutizado. As consideraes organizacionais lutam por espao com outras foras do mundo protestante. O que sobressai da nossa discusso que todos os conceitos essencialistas e ahistricos do protestantismo no do conta da complexidade do campo real e das mltiplas influncias sobre a poltica concreta. Nem um modelo esttico das operaes da religio voluntarista, nem um modelo ideolgico do papel da religio na sociedade, nem o elitismo que julga as seitas pelas expectativas do centro religioso, bastam para responder questo. A nova constituio do campo religioso no Brasil poder ter efeitos imprevisveis, produzindo novas variantes de relao entre religio e sociedade. Precisamos manter em tenso o potencial de longo prazo e a prtica atual ; estar alerta tambm para as variaes dentro do protestantismo, que incluem divergncias significativas entre pentecostais. O futuro poltico do protestantismo no est escrito em algum modelo ahistrico de religio voluntarista (pois h vrios tipos de sociedade civil !) ou em alguma essncia repressiva do protestantismo brasileiro ou essncia corporativista do pentecostalismo, e nem mesmo em uma tipologia de organizao eclesistica. A poltica protestante brasileira : sntese brevssima Falta espao para detalhar a trajetria protestante na poltica brasileira (ver Freston 1993, 1994, 1996). Os protestantes histricos se elegem para o congresso desde os anos 1930, mas sua presena era pequena e discreta. Alguns tinham um eleitorado basicamente protestante, mas nenhum deles tinha o endosso oficial de uma denominao. Era uma presena pluripartidria, sem fortes concentraes ideolgicas, cobrindo um leque desde a esquerda no marxista at a defesa apaixonada do regime autoritrio. Os pentecostais estavam quase totalmente ausentes do congresso. Desde a redemocratizao em 1985, a poltica protestante foi transformada, tornando-se muito mais visvel e controvertida. Quero destacar quatro aspectos da poltica protestante desde 1985. 1) A poltica corporativista de algumas grandes Igrejas pentecostais. A Assemblia de Deus, a Quadrangular e a IURD, entre outras, passam a apresentar candidatos oficiais escolhidos de diversas maneiras (prvias internas, indicao episcopal, etc.). Estes deputados do a tnica poltica protestante ps-1986, e figuram entre os escndalos de corrupo que tm abalado

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a mesma. Esta forma predominante de poltica pentecostal busca fortalecer lideranas internas, proteger a socializao sectria, acessar recursos para a expanso religiosa e disputar espaos na religio civil. 2) O surgimento de uma esquerda evanglica. Incentivado em parte pelas controvrsias em torno da nova poltica pentecostal, surge uma esquerda protestante ligada explicitamente corrente teolgica evangelical, diferente da antiga esquerda protestante ligada ao ecumenismo e a teologias no conservadoras. Esta nova esquerda mais forte em meios histricos, mas tem apoio em alguns meios pentecostais. 3) O fracasso das tentativas de criar uma entidade representativa dos protestantes. Outra caracterstica da poltica protestante desde 1986 as tentativas (todas fracassadas) de formar entidades representativas do mundo protestante (Confederao evanglica do Brasil 1987 ; Associao evanglica brasileira 1991 ; Conselho nacional dos pastores do Brasil 1993), sempre com fortes conseqncias polticas e s vezes com intenes explicitamente polticas. A poltica incentiva a formao de entidades unificadoras do campo evanglico, seja para disputar a liderana do eleitorado, maximizar o poder de barganha, ocupar espaos na religio civil ou resgatar a imagem pblica arranhada. Vemos a vulnerabilidade do campo protestante brasileiro ingerncia poltica e a fraca estruturao enquanto campo religioso, malgrado o claro sentimento de unio transdenominacional. As tentativas mostram a dificuldade de construir um consenso democrtico ; mas tambm revelam a impossibilidade de unificar o campo em apoio aos projetos hierocrticos ou teocrticos to caros a certos lderes evanglicos. As divises evanglicas se aprofundam medida em que aumenta a proximidade ao poder. 4) O surgimento poltico da Igreja universal do reino de Deus. Esta Igreja (fundada em 1977) j possui a terceira maior rede de televiso do Brasil e est em mais de 40 pases. Representa uma fora que desequilibra o meio evanglico e comea a polariz-lo. Pela primeira vez, surge um grupo com armas muito mais poderosas do que as de seus rivais (poder na mdia, base poltica e amplos recursos financeiros). O poder desequilibrador da IURD no meio protestante e suas aspiraes hegemnicas tm que ser levados em conta em qualquer discusso das implicaes do protestantismo para a democracia hoje. Embora no determine (ainda) a face pblica do protestantismo, sua influncia ultrapassa em muito a de qualquer outra denominao. A fragmentao protestante, forte argumento por um efeito democrtico do protestantismo, ser anulada diante do poderio iurdiano ? Ou este ser quebrado por opositores protestantes, catlicos e seculares, ou pelo desmoronamento interno ? A questo importante, pois na Europa houve uma evoluo involuntria em direo aceitao do pluralismo, baseada na pulverizao irremedivel do campo cristo. No Brasil, enquanto alguns grupos tiverem a esperana de unificar o campo protestante em torno de um projeto poltico nico, vero a democracia com olhar meramente instrumental. ***

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A poltica corporativa pentecostal representa um perigo para a democracia ? No h uma resposta simples. H fatores que sugerem que o protestantismo poder ser positivo para a democracia. Ao contrrio do fundamentalismo islmico, dividido, sendo produto da tradio voluntarista. Para alguns autores, as prticas internas do pentecostalismo tm valor democrtico intrnseco, sendo valorizadoras da dignidade e formadoras de lideranas. Embora estas sejam freqentemente autoritrias, as seitas podem ser baluartes contra a massificao da indstria cultural. A poltica corporativa provoca a concorrncia ideolgica interna. Mesmo no jornal da Assemblia de Deus h sinais do crescimento de outro conceito de poltica : do cidado livre que, como instrumento do reino de Deus, entra num partido sem envolver a Igreja. Muitos pentecostais no obedecem ao conselho eleitoral do pastor e no se sentem maus pentecostais ao faz-lo. O pentecostalismo um ramo do cristianismo e sujeito ao seu impulso tico universalista. No campo evanglico mais amplo, iniciativas como o Declogo do voto tico publicado pela Associao evanglica durante a eleio presidencial de 1994 e o fortalecimento relativo da esquerda democrtica evanglica apontam no mesmo sentido. Uma pesquisa recente (Prandi & Pierucci 1994) no encontrou diferenas significativas entre as opinies pentecostais e as da populao geral a respeito das instituies democrticas. Outra pesquisa (ISER 1996) tambm mostra que a comunidade evanglica no ameaa democracia. A intensa sociabilidade em torno ao culto (85 % de freqncia semanal) faz da Igreja um modelo de associao voluntria. J 41 % dos evanglicos elegeram seu lder espiritual, um quadro muito diferente do catolicismo e da umbanda. A metade participou de reunies administrativas da Igreja no ano em curso : difcil imaginar outra instituio com este nvel de participao administrativa neste pas . Segundo a mesma pesquisa, a converso evanglica envolve rupturas profundas nos padres culturais de relacionamento entre os gneros , uma dimenso importante para a democratizao da sociedade. Quanto participao cvica, o baixo envolvimento analogo ao da populao em geral. Mas na relao com os polticos, os evanglicos superam em muito a mdia geral na freqncia de comunicao. A pesquisa ainda descobriu que a participao religiosa correlaciona-se positivamente com algumas formas de participao social, como em sindicatos e associaes de moradores. Os fiis mais ativos nas Igrejas, e que mais reivindicam os dons carismticos, tendem a ser os mais ativos em suas comunidades locais e categorias profissonais. Os evanglicos participam da poltica eleitoral por meio da disperso partidria. No se discute seriamente a idia de partido evanglico no Brasil ; no h excluso do sistema partidrio, nem direitos civis evanglicos a conquistar. No h evidncia para a tese de que o crescimento evanglico se vincule especialmente a momentos de represso poltica. No Brasil, o crescimento tem sido to ou mais rpido em perodos democrticos. Os lderes pentecostais, s vezes, usam mtodos polticos no convencionais como profecias. Isso constitui um risco democracia ? Instituies religiosas dificilmente assumem que esto na poltica. As profecias e vises pentecostais na poltica so o equivalente da pretenso do episcopado

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catlico de falar em nome de Deus como tutor do povo brasileiro. So maneiras diferentes de agir sem se assumir como um ator poltico entre outros. O disfarce varia de acordo com o capital religioso e social de cada confisso. Por outro lado, h motivo para preocupao. O Datafolha descobriu que os pentecostais tm menos apego s liberdades de organizao e expresso (exceto liberdade religiosa). Embora os polticos evanglicos se espalhem pelos partidos, suas atitudes geralmente no valorizam o sistema partidrio em si. A histria no apia a idia de uma correspondncia entre doutrina e poltica, segundo a qual o protestantismo seria favorvel a uma poltica universalista e tica, ao contrrio da umbanda com sua rede celestial de patronagem que oferece suporte ideolgico para a poltica clientelista. No podemos ler as implicaes para a democracia a partir da doutrina religiosa, pois a prtica influenciada tambm por outros fatores : a organizao interna, tamanho, posio relativa a outras confisses, vnculos estrangeiros e recursos culturais e econmicos. A situao de crescimento sectrio rpido num contexto democrtico. As tendncias triunfalistas e corporativistas levam em si perigos para a democracia. O sectarismo tem dificuldade em elaborar uma perspectiva universalista da poltica porque sempre foi excludo ou auto-excludo de tais preocupaes. No h projeto para a sociedade no pentecostalismo brasileiro. O corporativismo enfatiza a conquista de um lugar na religio civil, as questes morais e um governismo pragmtico que busca maximizar os retornos. Isso reflete o conceito sectrio de misso. Para garantir as melhores condies de funcionamento para a Igreja, aceitam-se os acordos. Como disse um candidato : onde na Bblia est escrito que os servos do Senhor devem financiar a expanso do reino das trevas ? Antes, no deveria ser o contrrio ? . Isso no ingenuidade perante o poder, mas um pragmatismo autorizado pela viso sectria do mundo. Os benefcios recebidos no so vistos como traio mensagem evanglica, mas como um imposto que o poder mundano paga verdade. No constantinismo (a oficializao da Igreja pelo poder temporal) ; a apropriao do Estado pela seita. Somente os eleitos de Deus devem ocupar os postos-chave da nao , diz um lder da Assemblia de Deus. A pretenso clara. difcil para a seita imaginar outro papel poltico para si mesma. Ela sempre se viu como moralmente superior. Por isso, com relao ao poder secular, ela tem dificuldade em integrar-se em p de igualdade com outros participantes ; s admite ser marginalizada ou ser cabea . Sobretudo entre alguns carismticos de classe mdia, h um triunfalismo baseado na idia de que os evanglicos tm um direito divino de governar. Segundo um deputado federal, um televangelista, se um dia vamos dominar literalmente na terra, por que hoje no podemos comear, como antegosto, a tomar o poder ? . Este direito de governar se liga com conceitos de batalha espiritual . A transformao do Brasil h de comear pela restaurao espiritual da nao. Deus est levando homens cheios do Esprito para a tomada dos postos de comando . Ou nas palavras do presidente do Conselho nacional de pastores : como seres espirituais, nascidos de novo, somos a "nata da sociedade". A Igreja tem a resposta que os polticos procuram . Na histria do protestantismo mundial, h trs posturas bsicas com relao ao Estado. Uma a rejeio da participao que caracterizou a maior parte dos anabatistas do sculo XVI. A segunda o ideal da nao crist ,

Protestantismo e democracia no Brasil

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abraado por Calvino em continuidade com a era medieval. A Igreja est no centro da sociedade, fornecendo seu credo oficial. O governante piedoso deve promover a verdadeira religio e moral por meios polticos e legais. Posteriormente, o ideal da nao crist fragmenta-se num arco que vai desde os reconstrucionistas que vo alm de Calvino, defendendo uma teocracia baseada na lei mosaica, at o liberalismo moderno das Igrejas territoriais europias que pede apenas privilgios para os valores cristos. Na forma severa, a nao crist implica perseguio ; na forma branda, somente discriminao na religio civil. A terceira posio bsica tambm remonta aos primrdios do protestantismo e floresceu entre alguns dos primeiros batistas e os niveladores da Guerra civil inglesa, e posteriormente no neo-calvinismo holands. o pluralismo de princpio, a liberdade religiosa num Estado no confessional. A situao no Antigo Testamento excepcional ; hoje, o Estado deve limitar-se a funes civis. Os cristos participam, mas sob o signo do consenso e no do domnio, evitando que o cristianismo se transforme em religio civil. No Brasil, a nova realidade pluralista exigir, nas prximas dcadas, ajustes na esfera pblica, tornando-a mais genuinamente no-confessional e superando os resqucios, de um lado, da verso branda de nao catlica e, do outro lado, do projeto secularista (liberal e marxista) que exclua a religio da vida pblica. Neste sentido, algumas reclamaes protestantes procedem. Mas outras vo alm, em direo a uma nao evanglica . Por enquanto, so sonhos irrealizveis. Mas o protestantismo se insere num contexto formado historicamente, para usar a terminologia de Martin (1978), no no padro americano mas no padro latino. Neste contexto, diferente do denominacionalismo americano onde separao de Igreja e Estado faz parte do mito fundante e limita todos os atores polticos, no podemos ser to otimistas. No Brasil, a lgica da religio voluntarista pode perder fora no padro hbrido que se forma, no qual a lgica de Igreja monoltica no desapareceu totalmente. O poder desequilibrador da IURD talvez seja prenncio do que poder acontecer, nas guas desconhecidas nas quais a poltica protestante brasileira comea a navegar. Dezembro de 1997 Paul FRESTON Universidade federal de So Carlos (Brasil)

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Paul FRESTON

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