FILOSOFIA MEDIEVAL: UMA INTRODUO ? 1 FILOSOFIA MEDIEVAL: UMA INTRODUO a) Conceito da filosofia

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    10-Nov-2018

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1 FILOSOFIA MEDIEVAL: UMA INTRODUO a) Conceito da filosofia medieval a) Temporal. O que seja a filosofia da Idade Mdia poderamos simplesmente determin-lo, como o pensamento filosfico ocidental que ocupa o espao de tempo entre o fim do mundo antigo, fixado na queda do Imprio Romano do ocidente (476), e o comeo dos chamados tempos modernos, cujo incio se costuma estabelecer a partir da conquista de Constantinopla (1453) ou do princpio da Reforma (1517). D-se filosofia da Idade Mdia muitas vezes a denominao pura e simples de filosofia escolstica. A escolstica propriamente dita comea porm no sc. nono; a poca anterior a da lenta preparao da filosofia escolstica pelo pensamento dos Padres da Igreja. Assim, dividiremos a filosofia da Idade Mdia em dois grandes perodos a filosofia patrstica e a filosofia escolstica. ) Quanto ao contedo. Se quisermos caracterizar a filosofia medieval por dentro, no correspondente sua essncia espiritual, ento podemos design-la como o pensamento filosfico do ocidente que, desde Agostinho e, mais particularmente, desde Anselmo de Canturia, obedece ao motto: saber para crer, crer para poder saber: intellige ut credas, crede ut intelligas (AUgustinus, Serni. 43, c. 7 n. 9). A filosofia, que em si mesma tem por objeto tratar dos grandes problemas do mundo, do homem e de Deus, s com as foras da razo, une-se neste perodo com a f religiosa, e esta com aquela, fenmeno este que, demais, neste perodo de tempo, tambm caracterstico da filosofia rabe e judaica. A unio da f e da cincia, no pensamento do homem medieval cristo, se entende, no pressuposto de uma unidade ideolgica.. Nela repousa o esprito de toda esta poca e nela nada h de mais significativo do que exatamente essa unidade espiritual. Como nunca, em nenhum perodo da histria do pensamento ocidental, todo um mundo que vive na certeza da existncia de Deus, da sua sabedoria, poder e bondade. Sabe com segurana a origem do inundo e sua ordem cheia de sentido; a essncia do homem e a sua posio no cosmos, a significao da sua vida, as possibilidades do seu esprito para conhecer o ser do mundo e a estrutura da prpria existncia; a sua dignidade, liberdade e imortalidade; os fundamentos do direito, a ordenao do poder do Estado e o sentido da histria. Unidade e ordem so os sinais do tempo. Enquanto nos tempos modernos se indaga sobre a possibilidade da ordem e da lei e como podem subsistir, na poca medieval a ordem algo de evidente e a nossa tarefa apenas a de reconhec-la. Aps alguns passos incertos, no comeo da patrstica, a Idade Mdia encontrou suas linhas de direo, que conservou at o seu final. No h dvida que foi. religio crist que se deve esta grandiosa verdade. Jamais foi to verdadeiro, como nessa poca, o dito que "a religio realizou a ordem mais estvel e rica de contedo e s com o auxlio da razo, no por meio de prescries diretas, mas mediante homens de f, revestidos de seriedade e constncia." (K. JaspeRs). ) Filosofia ou Teologia? Muitas vezes porm se veio perguntar se ento ainda se trata de pura filosofia, quando o logos j no o nico a dominar, deixando-se assim guiar pela religio. Pois ento, neste consrcio, tudo j de antemo teria sido feito de encomenda, como se repete freqentemente. A filosofia j no teria que resolver os seus problemas prprios, pois j esto eles resolvidos pela f. A filosofia teria que desenvolver-se no terreno da f. baseado na f que o filsofo deve operar e, de ordinrio, tem o pensamento filosfico de servir ao patrimnio da crena fundando-o, defendendo-o, explicando-o, aplicando-lhe cientificamente a anlise e a sntese. "A filosofia serva da teologia", conforme soam as palavras tantas vezes citadas de Pedro Damio, para caracterizar essa poca. Em suma, uma filosofia no isenta de "preconceitos", sendo por isso mesmo que parece duvidoso tenha existido verdadeira filosofia na Idade Mdia. 2 ) Vida filosfica. Este modo de ver julga e discute algo superficialmente. Radica-se num tempo em que se via na Idade Mdia apenas a "idade das trevas". Ento a histria da filosofia no tinha muitas notcias sobre essa poca. Hoje sabemos, depois das investigaes de DeniEle, Ehrle, Bauemker, M. De WUlf. Grabmann, MaNdoNNet, Gilson e outros, que as realizaes filosficas da Idade. Mdia eram muito mais compreensivas, vivas e tambm individuais do que se poderia supor. Em lugar de a gente deixar-se levar por apreciaes superficiais, seria melhor examinar as fontes impressas e no impressas e para logo haveramos de ver que a Idade Mdia conhecia muito bem, de um ponto de vista e com mtodos puramente filosficos, os problemas essencialmente filosficos. ) Liberdade espiritual. Alm disso um fato, que tambm para os homens medievais era, em princpio, livre o pensar e o investigar. Inocncio III, questo de um crente, fundado em melhor conhecimento da situao, se se pode desobedecer ordem do superior, dirigindo-se pela sua convico e liberdade, respondeu: "Tudo o que no se ajusta convico pessoal pecado (Rom. 14, 23); e o que se faz contra a conscincia edificao para o inferno. No se pode obedecer a um juiz contrariamente lei de Deus; antes prefervel deixar-se excomungar", A deciso do Papa foi incorporada legislao da Igreja (Corp. Iur. Can. II, 26S, cf. Richter-Friedberg). Nesse sentido Toms dE Aquino, e com ele um sem-nmero de outros escolsticos, ensinou que um excomungado, em virtude de erradas pressuposies, deve antes morrer nessa condenao, do que obedecer a uma prescrio do superior, errada, segundo o seu conhecimento do caso, "pois isso seria contra a veracidade pessoal" (contra veritatem vitae), que no se pode abandonar mesmo para evitar um escndalo possvel (In IV Sent. dist. 38. exps. text. in fine). Isto porm no nada de espantoso, sendo apenas uma aplicao da velha doutrina sobre a conscincia errnea, a que devemos sempre obedecer, doutrina que em princpio vem sancionar a liberdade pessoal. ) "Ausncia de pressuposies". Se porm o homem medieval no fez grande uso da sua liberdade; se ele de fato e largamente seguiu as pressuposies da sua mundividncia e da opinio pblica, isso no se deu por ter-se curvado a uma coero externa, mas porque no considerava como pressuposto o que hoje nos aparece como tal. O seu aprisiona-mento nas "funes" de natureza cosmovisional e religiosa era na realidade uma preocupao. Censur-la por isso e apodar a sua filosofia de no genuna, seria compreensvel se hoje no padecssemos dessa carncia e, na verdade filosfica, fssemos isentos de preconceitos. Muitos assim o acreditaram de si prprios. Quando no primeiro tero do nosso sculo essa crena mesma foi acoimada de preconceito, o pndulo deslocou-se para o outro lado e a gente se entregou a tini universal relativismo, duvidando da possibilidade de vencer os preconceitos; chegando-se agora exatamente, fazendo da impotncia virtude, a aceit-los por fora do "'carter". Condenar a Idade Mdia, com os preconceitos de no ser ela ''isenta de preconceitos", de todo em todo paradoxal; mas isso se faz. A verdade est no meio. Na realidade dos fatos nunca houve ausncia de preconceitos. Permaneceu essa ausncia contudo como um ideal a que devemos tender por amor da verdade. Ora esta tendncia existiu na filosofia medieval. Tambm ela quis sobrepujar toda auto-iluso e alcanar a verdade objetiva. Quem o conseguiu, melhor, ns ou os medievais, os tempos futuros podero julg-lo. Em todo caso a ocasio se nos oferece de ser cantos em no subestimar a Idade Mdia, pois cada vez conhecemos melhor, que o homem moderno,-no seu pensar e sentir, muitas vezes mais medieval que a Idade Mdia. E tambm o filsofo moderno filho do seu tempo, caindo, em dadas ocasies, sob as rodas do destino, prescindindo-se completamente de que a histria da filosofia pode colocar cada filsofo no seu devido lugar e nem sempre por causa de razes extrnsecas ao momento transeunte. Isto se d igualmente com os filsofos medievais e por isso mesmo o seu pensar verdadeira filosofia. 3 b) Significao da filosofia medieval Todavia, a filosofia atual vive na idade moderna e se sente como algo distinto e realmente novo. Significa ainda a Idade Mdia alguma cousa? Certamente. No somente ela copiou os antigos cdices, conservando assim no apenas a cincia e a arte da antigidade, mas tambm assegurou nas suas escolas a continuidade da problemtica filosfica. A temtica to fundamental, p. ex., relativa substncia, causalidade, realidade, finalidade, universalidade e individualidade, sensibilidade e ao mundo fenomenal, ao entendimento e razo, alma e ao esprito, ao mundo e a Deus, no surge pela primeira vez e imediatamente, como provinda da antigidade, no humanismo e na Renascena, mas transmitida aos filsofos modernos pela Idade Mdia. No se pode ler Descartes, Espinosa, LeibNiz, nem ainda Locke, WolFf e com eles tambm Kant, sem conhecer conceitos e problemas medievais. Mesmo onde a oposio se manifesta abertamente e se busca algo de novo, essa diversidade a inteligncia s pode apreend-la no seu ntimo, se se percebe como mesmo na anttese, de certo modo a posio antiga se faz sentir e at mesmo de maneira criadora. E finalmente a Idade Mdia em muitos aspectos modelar. Formalmente, pela acuidade e rigor lgicos com que conduz o pensamento, e pelo carter objetivo da sua concepo da cincia, pospondo sempre a pessoa realidade. Materialmente, pelo sadio entendimento dos homens, que o resguarda das extravagncias to tpicas da filosofia moderna, e f-la conservar uma linha que perdura durante sculos. No somente a sua doutrina do direito natural vive e viver num "eterno retorno"; tambm os seus filosofemas sobre a substncia, a realidade, a alma, a verdade, os direitos humanos, a essncia do Estado etc., conservam um valor imperecedouro, de modo que se pode caracterizar o patrimnio do pensamento medieval como a philosophia perennis.. Claro, no se pode mais voltar Idade Mdia como a um paraso perdido. e permanece passado. Mas de justia alimentar um sentimento de apreo para a eterna verdade nela existente e esforar-se a gente pela fazer manifestar-se sob novas formas, de acordo com as circunstncias diferentes. "Esperamos que, num mundo novo e na elaborao de um novo material, ho de ser ainda operantes aqueles princpios espirituais e eternas normas de que, nos seus melhores tempos, a cultura medieval nos oferece uma particular realizao histrica que, mesmo com os seus defeitos, de uma elevada grandeza, embora definitivamente passada" (.T. Maritain). c) Fontes Grandes colees: Migne, Patrologia Oraeca (162 vols.) e Patrologia Latina (221 vols.). Die christlichen Schriftsteller der ersten drei Jahrhunderte (Os escritores cristos dos primeiros trs sculos), editados pela Academia de Cincias de Berlim. Gorpus scriptorum ecclesiasticorum latinorum ed. pela Academia das Cincias de Viena. M. De Wulf, Les philosophes Belges (15 vols.). Reithmayer-Thlhofer, Bibliothek der Kirchenvter (Biblioteca dos Padres de Igreja) (80 vols.). 4 HISTRIA DA FILOSOFIA NA IDADE MDIA Johannes HIRSCHBERGER Fonte: Ed. Herder Trad. Alexandre Correia Captulo Primeiro - A FILOSOFIA PATRSTICA 1 O CRISTIANISMO NASCENTE E A FILOSOFIA ANTIGA Quando o Cristianismo entrou em cena pretendeu ser ao mesmo tempo verdade terica e informao prtica da vida. "Eu sou o caminho, a verdade e a vida", declara o seu fundador. A verdade considerada como algo de absoluto e eterno, porque verdade no somente humana mas tambm divina revelada. "O cu e a terra passaro, mas as minhas palavras no passaro". tambm a informao da vida, o "caminho e a vida" algo de absolutamente certo, conduz seguramente "salvao". Com uma tal segurana no estava habituada a filosofia antiga. No se apresentava ela como a encarnao do Logos e da eterna sabedoria mesmo, mas queria ser apenas amor da sabedoria. A verdade porm ela j queria oferec-la e tambm pretendia a direo dos homens; isso o foi ela desde o comeo e particularmente na poca helenstica, quando o antigo mito se desvaneceu e a filosofia tinha que cuidar das almas, para substitu-lo. Desta atitude, parte idntica e parte diversa, deste encontrarem-se na busca do mesmo fim e diferirem na escolha dos meios e do caminho para o fim, resulta a posio do Cristianismo nascente relativamente filosofia antiga: ele a rejeita para de novo aceit-la. a) Paulo J com PAULO assim. Comea rejeitando a "sabedoria deste mundo" para de novo aceit-la, chegando mesmo a apelar pra o seu testemunho em apoio do seu prprio sentir. 1 Cor. 1, 19 escreve: "Porque est escrito: Destruirei a sabedoria dos sbios e reprovarei a prudncia dos prudentes. Onde est o sbio? onde o doutor da lei' onde o esquadrinhador deste sculo? Porventura no tem Deus convencido de estultcia a sabedoria deste mundo?... Porque tanto os judeus pedem milagres, como os gregos buscam sabedoria; mas ns pregamos o Cristo crucificado, que um escndalo de fato para os judeus e uma estultcia para os gentios, Mas para os que tm sido chamados, assim judeus como gregos, pregamos a Cristo, virtude de Deus e sabedoria de Deus". E em Bom. 1, 19: "Porque o que se pode conhecer de Deus lhes manifesto a eles (aos pagos) porque Deus lho manifestou. Porque as cousas dele invisveis se vem depois, da criao do mundo, consideradas pelas obras que foram feitas." Com isto de novo se concedem razo natural os seus direitos. E no seu discurso no Arepago chega Paulo a citar filsofos gregos para provar sua tese crist (At. 17, 28). b) Os Padres a) Posio negativa. Esta atitude de novo se manifesta nos primeiros escritores cristos. JUSTINO o Mrtir sente-se insatisfeito com as velhas escolas dos filsofos: os esticos nada sabem de Deus, os peripatticos so vidos por dinheiro, os Pitagricos so excessivamente tericos, os platnicos demasiado ousados nas suas afirmaes. S para os cristos a verdade se realizou, que sabem morrer por ela. Mincio Flix v em Scrates um charlato e TeRtuLIano, em Plato, o pai de todas as heresias. Que tm que ver Atenas com Jerusalm, a Academia com a Igreja, os descrentes com os crentes, pergunta ele. TERTULIANO 5 sobretudo alargou ao extremo o abismo entre a religio crist e a filosofia antiga, de modo que para ele f e cincia se opem diametralmente. N de carne Christi escreve o seguinte: "O Filho de Deus crucificado: Ns no nos envergonhamos, porque vergonhoso; o Filho de Deus morreu: absolutamente crvel por ser isso inepto (prorsus credible quia ineptum est); e, sepulto, ressurgia: certo, porque impossvel". Estas palavras, que TertuliaNo alis pronunciou quando j no pertencia Igreja, mas seita montanista, formam o fundo ideal da conhecida expresso credo quia absurdum est", que, demais, sob esta forma, no um dito histrico, embora na realidade corresponda ao sentir de TERTULIANO. ) Posio positiva, Por outro lado JustiNo no se chama somente Mrtir mas tambm filsofo (philosophus et martir). que freqentou ento os filsofos. E isto por querer defender o Cristianismo. Como apologeta tinha ele que falar de um terreno comum, que permanecia acessvel e cordial aos homens pagos, e este era a filosofia. ) Os apologetas. O mesmo se deu tambm com os outros apologetas: MinUcio Flix, Aristides, Atengoras, Lactncio e mesmo Tertuliano. Para remate, chegaram at a assumir o exterior da antiga filosofia, o manto dos filsofos, a pregao errante, a diatribe estico-cnica e suas formas, a cria e a apotegmtica, como tambm se tirou de bom grado proveito da antiga crtica do politesmo, j feita pelos esticos e epicuristas. ) Escola catequeta de Alexandria. Um segundo passo para a filosofia foi dado pela escola dos catequetas de Alexandria. Esta metrpole do helenismo cosmopolita j rompera, pelo seu (genius loci, todas as barreiras apertadas e estimulou todas as formas de sntese. Mas especialmente a tambm atuava a tradio filoniana com a sua tentativa de conciliar a religiosidade do Antigo Testamento com a filosofia grega. Neste esprito se movem os grandes representantes da escola catequtica alexandrina, Panteno, Clemente Alexandrino e Orgenes. do ltimo a seguinte comparao muitas vezes repetida nesta matria: como os filhos de Israel, _no seu xodo do Egito, levaram consigo os utenslios de ouro e de prata, do pas, assim tambm devia a F tomar posse da sabedoria do mundo e da filosofia. E Clemente se serve da frmula ainda mais clara para uma possvel relao entre a^ f e a cincia: a filosofia um presente da Providncia pela qual, os gregos deviam ser preparados para Cristo, de modo semelhante como deviam s-lo os. judeus pelo Antigo Testamento. ) Os capadcios. Um terceiro momento, que fazia inclinar-se a balana para uma postura positiva do Cristianismo em relao filosofia, , o expresso pela atitude dos trs grandes capadcios: Gregrio Nazianzeno, Baslio o Grande e Gregrio Nisseno, que praticamente manejam o grande instrumento da filosofia grega na sua exposio da doutrina crist; e Baslio escreveu mesmo um tratado prprio: "Aos jovens, para saberem tirar proveito da filosofia pag". ) S. Agostinho. A frmula definitiva no-la d S. Agostinho. O que os filsofos disseram de verdadeiro e conforme f assim pensa ele no s no o devemos repudiar, mas reclam-lo para o nosso uso prprio como de possuidores injustos, e isto em duplo sentido. Primeiro, porque bom educar formalmente o esprito para chegarmos a pensar e falar claro e bem. o ideal do distincte et ornate dicere, que tem em mente, de que Ccero um exemplo e de quem Agostinho tanto. aprendeu. Demais disso, a filosofia deve servir para fecundar os princpios especulativos da f,. i. , ajudar a compreender-lhe o sentido, a conexo, a estrutura, a sistemtica, os fundamentos e as conseqncias, de modo lgico-racional tanto quanto possvel. E ento a f vem a ser verdadeiramente uma f cientfica. E agora surge a expresso que, a partir deste momento, serviu de leitmotiv a toda a filosofia medieval: Intellige ut credas, crede ut intelligas. Isto , l no ntimo do ser para creres e cr para poderes atingir o ntimo, do ser! c) Conseqncias e problemas A evoluo das relaes entre a religio e a filosofia, decidida finalmente pela posio de Agostinho em favor de. uma sntese positiva, foi de importncia capital at hoje para 6 a histria do ocidente. Agora podia a f tornar-se teologia, o ensino das doutrinas sagradas, literatura; o Cristianismo, cultura. Seus representantes j no precisavam, viver num (gueto, mas podiam calcar o solo do frum, os auditrios das universidades, as sedes das.reunies dos parlamentos e dos ministrios. O Cristianismo tinha j dito sim ao mundo e j no queria convert-lo, pois o condenava. Mas a tenso interna com isso no desaparecia. A problemtica perdurava. Se o pensamento natural e a revelao sobrenatural so realmente algo de "diferente"', poder haver entre eles algo de comum? A oposio latente irrompe sempre de novo com particular estridncia, entre os antidialticos e Pedro Damio, em muitos crculos de msticos, bem como entre os seus antpodas, os representantes de uma cultura e poltica autnomas; e, por ltimo, na teologia dialtica, onde a f de novo surge a modo de paradoxo, como outrora com Tertuliano. No fundo, toda esta problemtica da espcie da que j encontramos na doutrina de Deus transcendente e que contudo, na qualidade de criador, pode ser conhecido por meio da criao. Ou na doutrina da imaterialidade da alma humana e que todavia a forma do corpo. Ou na do homem, submetido causalidade universal, devendo porm permanecer livre na sua vontade. E ento aqui se rasga de novo um dualismo e de novo pontes so lanadas. E nesta metdica do es prito, que deve fazer .sem omitir aquilo, est a profunda problemtica das cousas. . . d) Fontes dos Padres Mas esse sim foi decisivo para a filosofia antiga. Nem todas as dissecaes de pensamento podiam se considerar igualmente como fontes para nelas a gente se abeberar. ) Cpticos e epicuristas. Quase despidas de valor eram as idias dos cpticos ,e epicuristas. S ocasionalmente se lhes podiam aproveitar os argumentos contra o politesmo e a religio popular pag. ) Aristteles. Mas tambm o aristotelismo ficava de fato sem grande importncia para a patrstica, embora as irradiaes dele no fossem to fracas como antes se pensava. Em face da concepo bblica de Deus e da moral religiosa da patrstica, o conceito aristotlico de Deus era demasiado plido, e a tica de Aristteles nimiamente secular. Contudo, podemos rastrear influncias dos escritos da mocidade de Aristteles em Clemente Alexandrino, Baslio, Agostinho, sinsio. E conceitos como os de essncia, substncia, natureza desempenham desde cedo um papel nas controvrsias trinitrias e cristolgicas. Mas j no fim da Patrstica, Joo Filopuno e Joo Damasceno se inspiram ex-professo no patrimnio de pensamentos aristotlicos. O primeiro escreveu comentrios e muitos tratados de Aristteles, que foram traduzidos para o siraco. E agora os nestorianos srios e os monofisistas defendiam com conceitos aristotlicos e no com vantagem para Aristteles, no pensar dos Padres a sua tese da coexistncia, em Cristo, de duas pessoas e duas naturezas, e pois havendo para uma pessoa s uma natureza. ) O Estoicismo. De grande importncia, pelo contrrio, foi para o pensamento do Cristianismo nascente o estoicismo, diretamente par meio de Sneca e de EpitECto; indiretamente, pelos eclticos romanos, como Ccero e Varro. Ambrsio copia o tratado da Ccero De officiis, Clemente Alexandrino reproduz passos inteiros de Musnio Rufo, Agostinho houve nos esticos conceitos muito fundamentais do seu pensamento, como a doutrina da lei eterna, das rationes seminales e da Cidade de Deus. O contacto com o estoicismo foi to estreito, a ponto de fazer nascer a legenda da correspondncia entre Paulo e Sneca. ) Plato. Como fontes de primeira ordem surgem os platnicos. "Ningum esta to perto de ns como estes", diz Agostinho, a -sua tica pura, sua abdicao do mundo, sua predileo pelo supra-sensvel, o mundo das Idias e a metafsica, a sua escatologia, a sua inquietude na busca de Deus deixam bem transparecer o sentimento da afinidade eletiva. Sobretudo a doutrina do alm foi do agrado dos Padres. Mas conceberam o do genuno 7 platonismo no sentido acentuadamente realista da Bblia. "Esperamos um novo cu e uma nova terra onde habitar a justia" (2 Petr. 3, 13). No fcil precisar at que ponto influram nos Padres diretamente as obras de Plato ou os seus pensamentos, hauridos quer em florilgios quer no patrimnio corrente das idias do tempo, onde havia muito tempo tinham penetrado; de modo que possvel haver uma influncia, mesmo quando no se pode pressentir uma determinada obra imediatamente ou cit-la. O mtodo histrico-literro usual de ir assinalando as citaes no basta para se rastrearem as irradiaes do platonismo no pensamento e na terminologia metafsica e religiosa do helenismo. Pois Plato criou a linguagem hiertica para todos os tempos subseqentes e j por ai exerceu indiretamente enorme influncia" (Reitzenstein). Contudo, Justino, AtengoRas, Clemente Alexandrino, Orgenes, Eusbio Cesariense citam determinadamente lugares das vrias obras de Plato como a Repblica, o Fdon, o Fedro, o Grgias, a Apologia, o Crton, o Filebo, o Timeu, o Menexemo, o Crtilo, o Teeteto. o Sofista, as Leis, o Epinomis e as Epistolas. Metdio no somente cita, mas imita de muitos modos o Banqueta, e Gregrio Nisseno, igualmente, o Fdon. Jernimo censura os latinos por apenas terem conhecido algo de Plato. Contudo, se no o podiam ler em grego, era-lhes acessvel a traduo de Ccero ou de Calcdio. Agostinho cita o Fdon, que leu porventura na traduo de Apuleio. Este bem podia ter-lhe fornecido, pelos seus escritos De deo Socratis e De dogmate Platonis o essencial da doutrina de Plato. ) Filo. O que particularmente acomodou o platonismo patrstica foi a obra de Filo Alexandrino. Inspirado na religio bblica, lanou vrias pontes para os esticos neopitagricos, sobretudo para o platonismo. "Os gregos dizem a respeito dele que, ou Plato um Filo ou Filo um Plato, to grande a semelhana, entre eles, dos conceitos e das expresses" (Jernimo). sobretudo a especulao sobre o Logos a agitada por Filo. Assim, procede de Filo uma grande parte do platonismo de Clemente Alexandrino e de Orgenes. O ltimo sobretudo foi um ponto de confluncia da antiga sabedoria das mais variadas origens, mas principalmente do platonismo. Porfrio dele refere: "Plato era o seu companheiro inseparvel, as obras de Numnio e de Crnios, de Aplofanes, Longino e Moderato, de Nicmaco e dos homens clebres da escola neopitagrica, ele as manuseava continuamente. Tambm usou os livros do estico Quremon e de Cornuto. "Este platonismo de colorido filonico, estico e neopitagrico, por sua vez Orgenes o transmitiu a Baslio, Gregrio Nazianzeno, Gregrio Nisseno, Eusbio Cesariense e outros; e, entre os latinos, a Mrio Vitorino, Hilrio Pictaniense, Eusbio Vercelense, Rufino e sobretudo Ambrsio, de quem Jernimo refere que estava cheio de reminiscncias de Orgenes. ) Mdio platonismo. Um acesso mais largo ao pensamento cristo abrem filosofia antiga os homens do chamado mdio platonismo: Plutarco de Queronia, Gaio, Apuleio, Albino, Mximo de Tiro, Numnio. ) Neoplatonismo. Dos seus e de outros princpios, desenvolveu-se o neoplatonismo, cujos aderentes proporcionam por sua vez valiosos auxlios filosofia patrstica. Lendo-se as Eneadas de Plotino fica-se admirado da consonncia de terminologia, e de todo o contedo de idias, sobretudo da afinidade com as concepes ticas, religiosas e msticas da vida e da ntima conexo com o esprito do Cristianismo. As Eneadas influem sobre Gregrio Nazianzeno, Gregrio Nisseno, Eusbio, Cirilo Alexandrino, em particular sobre Agostinho, que o leu na traduo de Mrio Vitorino. Ainda por muitos outros canais o neoplatonismo deflui para o Cristianismo: ... por PorFrIo, JmBLICo, Teodoreto de Ciro, Nemsio de Emesa, Cludio Mamerto, SiNsio Cirinense, Simplcio, MacrNio, - . Marciano Capela, CalcDIo, Bocio e, mais que todos, por Dionsio Pseudo-areopagita, por cuja boca fala Proclo ao Cristianismo. Por fim, Joo Filopono e Joo Damasceno, que tambm agora valorizam Aristteles. ) Neopitagorismo. As influncias neoplatnicas freqentemente se entrelaam com correntes neopitagricas, como o caso de APolniO de TIAna, NUMnio, LonGino, 8 MOderato, Nicmaco, de modo a ser muitas vezes difcil fixar com exatido as idias no seu lugar histrico. e) Sincretismo ? Vivemos justamente na poca do sincretismo, e "em nenhuma parte foi maior a interpenetrao do que na histria espiritual dos dois primeiros sculos da nossa era" (Brhier). Exemplo disto oferece a palavra retrocitada de Jernimo sobre Orgenes, segundo a qual nele tudo converge, que se tratou aqui de distinguir. Todavia o pensamento cristo vai rasgando com. segurana o seu caminho. Pode-se aplicar inteira dependncia histrico-ideal da patrstica, em relao a filosofia grega, as palavras de Toms de Aquino sobre as relaes entre Agostinho e as doutrinas neoplatnicas: "Agostinho est cheio de doutrinas platnicas; o que ele acha se, apropria a si, se v que concorda com a f; mas se no concorda, adapta, melhorando" (S. Th. I, 84, 5). Bibliografia R. ARNOU, Platonisme des pres. Dict. thol. cath. Prmm, Der christliche Glaube und die alte heidnische Welt (1935) (A f crist e o antigo mundo pago). Do mesmo: Das Christentum als Neuhetserlebnis (1939) (O Cristianismo como vivncia moderna). 2 OS COMEOS DA FILOSOFIA PATRSTICA. Tratando-se de filosofia patrstica, no devemos, como outrora, pensar somente nas obras de filsofos que s foram filsofos. A filosofia da patrstica est antes contida nos tratados dos pastores de alma, pregadores, exegetas, telogos, apologetas que buscam antes de tudo a exposio da sua doutrina religiosa. Mas ao mesmo tempo, levados pela natureza das cousas e dada a ocasio, se pem - a resolver problemas propriamente pertencentes filosofia; e ento, pela fora do assunto, versam a metodologia filosfica. Merecem aqui meno os seguintes nomes. Homens e obras 1. Entre os gregos. Aristides de Atenas com o seu escrito em defesa dos cristos. Justino, filsofo e mrtir (f c. 165) com as suas duas Apologias e o Dilogo com o Judeu Trifon; Clemente de Alexandria (f c. 215) que escreveu uma Exortao aos pagos (Protreptikos), uma Introduo ao Cristianismo (Paidagogos) e uma Obra enciclopdica da verdadeira filosofia (Stromateis); Orgenes ( 253) de cujas obras principalmente importante para a filosofia o De principiis e o escrito Contra. Celsum. Os trs capadcios: Gregrio Nazianzeno (f c. 390), de que temos sermes, cartas e poesias; Baslio o Grande (+ 379) que delineia, nas homilias sobre a obra dos seis dias, a formao crist do mundo; o seu irmo Gregrio Nisseno (+ 394) que na sua grande Catequese, no Dilogo com Macrina, nos ministra a sua doutrina sobre a alma e a ressurreio; e no livro sobre a criao do homem, a concernente a Deus, ao homem, alma e imortalidade. Alm destes, Nemsio de Emesa, que c. de 400 escreve uma Antropologia crist ( ), atribuda falsamente a Gregrio Nisseno. E finalmente os gnsticos cristos do 2. e 3. sculos, como Basilides, Valentino, Mani, Cerinto, Marcio, que intentam uma filosofia da f crist, mas nos quais tambm encontramos uma espcie de filosofia da vida e da existncia. 2. Entre os latinos, (Tertuliano (+ 213) combate a filosofia, mas a utiliza no seu Apologeticum, no De praescriptione liereticorum e no tratado sobre a alma. Mincio Flix no Octavius (imediatamente anterior ou posterior ao Apologeticum de Tertuliano) defende o monotesmo cristo contra o politesmo pago; Arnbio se volta, em 303, igualmente com fundamentos 9 filosficos contra, os pagos (Adversus gentes), fortemente influenciado por Clemente Alexandrino e o neoplatnico Cornlio LaBeo. Lactncio, na obra De officio mundi, toda a estrutura filosfica, ministra um sem-nmeros de doutrinas anatmicas, fisiolgicas e psicolgicas. Um pouco posterior, o escritor de orientao neoplatnica, CalCdio (comeo do 4 sc.), com o seu Comentrio do Timeu, constitui at o sc. XII para a Idade Mdia uma das primeiras fontes da filosofia grega, pois encerra um difuso mostrurio de todas as doutrinas vivas entre os antigos: Plato e o neoplatonismo, teorias de Aristteles, Filo, Numnio, excertos de Crisipo, Cleantes, dos mdicos gregos, dos filsofos naturalistas jnicos, dos eleatas e dos atomistas pre-socrticos. Mrio Vtorino traduz, c. 350, ao lado de escritos platnicos, tambm as Categoria e o Perihermeneias de Aristteles, bem como o Isagogo de Porfrio. Macrbio com o seu Contentaria ao Sonho de Cipio (c. 400), transmite Idade Mdia a doutrina neoplatnica da emanao e outras teorias desse teor, como p. ex, a das relaes entre o bem e a luz; a de ser a priso da alma o corpo; a tarefa da sua libertao por via da purificao e da unio, na vita contemplativa. E finalmente Marciano Capela, no De nuptiis Mercurii et philologiae (c. 430) ministra Idade Mdia uma espcie de enciclopdia, que pereniza em particular a doutrina das sete artes liberais. Bibliografia H. EiHl, Augustin und die Patristik (1923) (Agostinho e a Patrstica). Th. Klauser, Reallexikon fiir Antike und Christentum- (1942 ss.). B. Altaner, Patrologia (1944) (tr. esp. 1953). H. MeYer, Geschichte der abendlndischen Weltan-schauung, II (1947). P. Cayr, Prcis de Patrologie et d'Histoire de Ia Theologie, 3 vols. J, Quarten, Patrology (1950 ss.). Os pontos temticos em torno dos quais, como centros de cristalizao, mais e mais se concentra a filosofia patrstica, so as relaes entre a f e a cincia, o conhecimento de Deus, a essncia e a agncia de Deus, o Logos, a criao, o homem, a alma, a ordem moral. a) F e cincia ) Antigas concepes. As relaes entre a f e a cincia constituem um problema antes axiolgico que lgico. A originalidade vital do Cristianismo, e em geral a sua posio fundamental como um novo estilo de vida, forosamente traria consigo, como fenmeno natural, a conseqncia de enfrentar-se com a cincia com tal entorno que ameaava absorv-la. A cincia apenas o comeo; a f porm propriamente o caminho e a perfeio. O Logos divino abrange o Logos filosfico, de modo que, como se disse muitas vezes, os cristos poderiam muito bem, e em sentido prprio, ser chamados filsofos (Justino). Pois exatamente, os cristos possuem a sabedoria por que anelavam em vo os filsofos pagos. E para realar ainda mais e exteriormente essa afirmao, cita-se a palavra d Filo, que os filsofos gregos tinham conhecido o Velho Testamento e Plato era um Moiss a falar grego. Como se. v, epistemolgica e teoreticamente, no h nenhuma diferena principal entre a f e a cincia. "Uma separao radical entre a f e a cincia estranha a toda a patrstica, assim como a Agostinho. .. No queriam tal separao; no a tinham como boa e, para a f crist, a consideravam simplesmente como impossvel" (H. Meyer). H apenas entre elas uma sensvel diferena de, grau, como a existente entre o perfeito e o imperfeito. Da conseqncia de, por um lado, ficar garantida a preeminncia da f revelada e, de outro, de no se excluir a possibilidade de uma futura cincia da f. Donde o poder constituir-se uma teologia negativa e outra, positiva. 10 ) Concepo moderna. Aquela cortante separao lgica implicada nas palavras de Kant: "Assim, deveria eu excluir a cincia para dar lugar f, no se oferecia aqui como objeto de reflexo. O homem interior no estava ainda cindido em duas partes: o racional e o irracional. A f, aqui, tambm pensamento, cum assensu cogitare, como dir Agostinho; mas um pensamento que se nutre em outras fontes. A problemtica filosfica moderna est j bem esboada, mas ainda fica excluda. S dentro da gnose, que a muitas luzes j apresenta traos modernos, tem-se a impresso de iniciar-se a oposio entre a cincia e a f! b) Conhecimento de Deus Muito prxima est naturalmente a reflexo Sobre os fundamentos e as possibilidades do conhecimento de Deus. O moto, nesta matria, d Paulo, Rom. 1, 19, com a sua afirmao, que podemos conhecer a existncia de Deus, no somente pela f, mas tambm "pela natureza". A filosofia estica, com a sua doutrina dos conceitos bsicos universais, fornece, no caso, a necessria terminologia filosfica. . Justino a assume. Igualmente Clemente Alexandrino e tambm dos capadcios conhecem o sensus communis que, em face da ordem e da beleza do mundo, concebe como evidente a idia de um artfice divino como cansa dessa harmonia. Idias teleolgicas e causais conduzem assim a admitir a existncia de Deus. c) Essncia de Deus No concernente essncia de Deus, se acentua desde, o comeo que melhor podemos conhecer a Deus afirmando o que ele no (teologia negativa) do que o que ele . Mas j desde, ento se filosofa sobre a possibilidade do emprego, relativamente a Deus, dos nossos conceitos hauridos no mundo da experincia. Tem-lhe a transcendncia e particularmente com olhos neoplatnicos, como o mostra Clemente afirmando a unidade de Deus, mas ao mesmo tempo" certificando que ele est para l do um e da unidade. A TeRtuLIano contudo se torna difcil representar-se Deus de outro modo que no materialmente. ele certamente esprito; mas toda realidade no , pergunta ele com os esticos, em. ltima anlise de natureza material? Mesmo os maniqueus vem nele algo de material, algo como uma luz corprea, concepo de que participou Agostinho tambm, na sua mocidade. Mas j Orgenes arreda essas dificuldades, elucidando que Deus eterno no mutvel como o mundo dos corpos; que, esprito inextenso, no est colocado no espao e, portanto, indivisvel e no pode ser de natureza corprea. Para os capadcios a materialidade e transcendncia de Deus j doutrina pacfica e determinada minuciosamente. Muito cedo tambm se mostra, apesar da teologia negativa, uma.srie de ensinamentos mais largamente fundamentados sobre o conhecimento da unicidade de Deus, da sua eternidade, seu carter de ser absoluto, da sua infinidade e onipotncia. E por ltimo j nota Orgenes que em Deus nada pode haver de odioso, injusto e mau; nem nada que encontre a natureza, mas o que a ultrapasse. d) Criao Um problema' particular e especificamente cristo o do conceito de criao. Cobra ele atualidade com o relato bblico da criao. Como devemos form-lo com acerto, filosoficamente? ) Idia. Clemente considera, de novo sob influncia platnica, que a criao implica fundamentalmente idias exemplares e significa a realizao de um mundus intelligi-bilis. Mas diferentemente do modo por que o faziam Plato e o neoplatonismo, introduz, de acordo cora a Bblia, a idia da criao do nada, criao realizada no tempo por fora de um ato da vontade divina. 11 ) Tempo. Mas exatamente este momento temporal acarreta dificuldades e estas, vacilaes. Ora, admite-se uma criao eterna, mas no concernente apenas ao ato de vontade, ao passo que a-/sua realizao se d no tempo (Clemente). Ora, no somente o ato de vontade, mas o mundo, em si mesmo, eterno no sentido que, sem cessar, se realizam novos mundos, a se sucederem de eternidade para eternidade (OrgeNes), doutrina visivelmente influenciada por Aristteles. Outras vezes se ensina que o tempo comeou com este nosso mundo visvel, sendo porm o ato da criao em si mesmo atemporal, porque no se pode fazer comear sempre o tempo no tempo, sob pena de ir-se ao infinito (Baslio). ) O nada. Mas nenhuma dvida h a respeito da criao, do nada. J Orgenes avana nesta doutrina a ponto de dizer, que a criao no tempo h de admitir-se em oposio atitude habitual de toda a filosofia grega, introduzindo assim um filosofema especfico e permanente para todo o pensamento cristo. ) Criao simultnea. tpica tambm a idia da criao simultnea, pela qual, no obstante a narrativa bblica da obra dos seis dias, o mundo foi criado de nina vez na totalidade da sua riqueza de formas. Esta convico devia por si mesma casar-se com a morfologia idealista implicada no platonismo e na sua doutrina da eternidade das formas. De acordo com esta, o devir e a evoluo no consistem propriamente no nascimento de novos seres, mas somente na realizao de formas preexistentes. E tais ensinamentos se encontram assinaladamente em Clemente, Orgenes, Baslio, Gregrio Nisseno e Agostinho e nos pensadores particularmente aparentados com o platonismo. ) Logos Conexa com a doutrina da criao anda sempre neste tempo a idia do Logos. Todo mundo falava ento do Logos, de modo que se tornou ele um tpico obrigatrio. J foi assim na filosofia paga; Filo corroborou e consagrou essa moda; e desde que JOO Evangelista, com a sua mensagem do Filho de Deus, habituou o mundo helnico com esse conceito, essa idia ficou como sancionada. So, na essncia, os pensamentos seguintes os que andam ligados ao conceito do Logos. ) Logos e Deus. Primeiro, o Logos a suma das Idias com que Deus a si mesmo se pensa. J em Filo as Idias, que. no mundo genuno da filosofia platnica eram um mundo objetivo de verdades impessoais subsistentes por si mesmas, se convertem na idia de um Deus pessoal. Agora refletem a inteira essncia divina, onde reside a origem delas. O Logos a eterna sabedoria de Deus, na qual ele a si mesmo., se pensa, o verbo que ele a si mesmo se fala, sendo por isso um Filho de Deus no qual de algum modo se projeta a si mesmo. ) Logos e Mundo. Mas o Logos est em relaes tambm com a criao, da qual o modelo primeiro, a ordem e a lei estrutural. Assim como no Timeu o mundo foi feito pelo demiurgo, contemplando as Idias eternas, assim tambm aqui tudo o criado o foi pelo Logos. Tudo o que no mundo esprito e lei procede dele. Da o no ser o mundo totalmente estranho a Deus; ao contrrio, uma irradiao de Deus e podemos apenas explic-lo como seu vestgio e um caminho para Ele. O Logos uma ponte lanada sobre o abismo, entre o mundo e Deus, como j pretendiam s-lo os seres intermedirios neoplatnicos. ) Logos e Homem. Num terceiro ponto de vista o Logos importante para o homem. tambm para ele o modelo ideal-espiritual, a medida tica do dever, que eleva o homem sobre o puramente natural e demasiado humano e o une com Deus. Todas as doutrinas posteriores do 12 divino no homem, sobre a scintilla animae e a conscincia, como regra divina, j esto em substncia aqui preludiadas. ) Logos e Devir. E finalmente aqui fica a Idia-Logos, o ponto de apoio a uma teoria da evoluo. O contedo do Logos so as rationes seminalcs ( ), como j o tinham dito os esticos. Por isso, segundo Justino, j muitas verdades do Cristianismo preexistem na filosofia paga. No Cristianismo esses germes chegaram ao pleno desenvolvimento, mas no fundo existiram sempre, de modo que podemos tambm chamar cristo aos filsofos pagos, desempenhando assim de novo o Logos o seu papel unificador. Mas no somente na esfera histrico-espiritual, seno em todo o mbito da evoluo, atua o Logos como esboo do processo. "Ele encerra em si os comeos, as formas e as ordens de todas as criaturas", diz Orgenes (De princ. I, 22). B como o Logos para ele no seno a segunda Pessoa divina, conclui-se que j Orgenes tinha lanado as bases para a clebre doutrina da Lex aeterna, que, atravs de Agostinho, veio a constituir um patrimnio comum do pensamento cristo. f) O Homem Especial ateno dedica ao homem a filosofia patrstica. Nemsio (De nat. hom. c. 532, Migne, P. G. 40) resume num sucinto Panegrico o essencial. ) Ser rgio. O homem uma criatura regia. Na escala dos seres, que Gregrio Nisseno e Nemsio concebem esquematicamente ocupa o homem o lugar supremo, nos reinos dos corpos inanimados, das plantas e dos animais. S os anjos o sobrepujam. O homem completa o mundo visvel, porque resume tudo o que lhe inferior e assim constitui um microcosmo. Criado imagem divina, em conseqncia de participar do Logos, aparentado com Deus. E assim de certo modo e por si mesmo pode compreender a essncia divina, principalmente quando se liberta da carne e vive de todo pelo esprito. ) Ser mdio. Ele tem contacto com um mundo superior, sendo um meio-trmo entre o sensvel e o espiritual. Mas igualmente considerada a sua posio mdia entre o bem e o mal. O homem pode escolher entre o mundo terrestre-sensvel e o espiritual supra-sensvel, de modo a afundir-se no terrestre ou tornar-se "homem celeste". y) Liberdade. Por isso mesmo livre (), dotado de autodeterminao e em si no est submetido a nenhuma fora estranha. O poder haver abuso da liberdade, quando inclinada ao mal, Orgenes, e com ele Gregrio NissEno, o explica pelo seu carter de criatura. Enquanto Deus tem o ser de si mesmo e, portanto, necessrio e imutvel, as criaturas comearam e, logo, so mutveis. Na mutabilidade fundada na contingncia da criatura temos a explicao do fundamento metafsico do mal. Claramente inspirado na Bblia a doutrina sempre repetida, desde Orgenes, que a mortalidade do homem e tambm a sua concupiscncia so conseqncias do pecado. g) A Alma ) Essncia. O que sobretudo interessa no homem a alma. O homem mesmo, para a patrstica, e antes de tudo, alma. Mas que a alma? ) Corpo ou Esprito? TertuliaNo ainda tinha dificuldades de conceb-la como diferente do corpo, embora de mais sutil qualidade. Decisivas para este modo de ver eram reminiscncias esticas e, com ela, a reflexo sobre o como da agncia da sensibilidade, que de natureza 13 corprea, sobre a alma. Mas j para Orgenes claro de todo que alma esprito e aparentada com Deus. E Gregrio Nisseno prova j a imaterialidade da alma fundado na capacidade que tem o homem de pensar e raciocinar, atividades espirituais conducentes portanto concluso, que a sede dessa atividade, o NOUS, deve ser imaterial. ) Substncia ou Forma? Mais acentuadamente que na filosofia grega, se afirma a unidade, a individualidade e a substancialidade da alma. "Alma uma substncia criada, viva, inteligente, causa da faculdade vital e sensvel do corpo, dotado de sensibilidade, enquanto houver para isso uma natureza correspondente" (Gregrio Nisseno, Macr., 29 B). Por isso Nemsio se ope diviso da alma em partes vegetativa e sensitiva, que no passariam ento de potncias de uma alma intelectual, e no seriam o imediato princpio vital como pensam Plato e Aristteles. Mas alm disso rejeita a concepo aristotlica da alma como entelquia, que a reduziria a uma simples qualidade ou forma do corpo, deixando de ser algo de independente e existente por si (De nat. h., 564). Aguda observao! L dentro do Perpato se tinha advertido Aristteles que ele no admitia uma alma substancial, como vimos. "Devemos confessar ao nosso crtico que, como nenhum outro pensador cristo, descobriu a fraqueza da concepo aristotlica da alma e sentiu a sua inconciliabilidade com a concepo crist" (Gilson-Bohner). Percebe-se claramente como, para o pensamento cristo, a alma mais que uma forma; e se posteriormente considerada a forma do corpo, esse conceito foi pensado de modo mais substancial do que o fez Aristteles. antes entendido na acepo do ; platnico, que s pode ser substncia. Seria digno de exame mais minucioso o saber-se como esta transformao do conceito de forma, em conexo com a doutrina da alma, veio exercer influncia na Idade Mdia. ) Corpo e Alma. Com a substancializao da alma cresce de porte a dificuldade de explicar a sua relao com o corpo. Como se poderia ento salvar a unidade? Quer-se evitar o dualismo de sabor platnico. J no se admite, como o faria ainda Orgenes, que a alma se uniu ao corpo como para expiao de um .pecado. Ora, tal pessimismo no se adapta doutrina crist, em virtude do qual tambm o corpo criatura de Deus. A alma no deve ter no corpo um como revestimento, pensa Nemsio, pois, de novo, isso comprometeria a verdadeira unidade. Mas se ele, na seqncia de Gregrio, considera o corpo um instrumento da alma e cr que a alma se serve do corpo como o amante, do amado, o dualismo ressurge. Doutrina de Plato e do jovem ARISTTELES. ) Origem. Particulares dificuldades oferecia a questo da origem da alma. Tateia-se aqui e acol na busca de uma soluo. Ora inclinam-se para o generacioismo e o traducionismo, pelos quais a alma gerada, pelos pais maneira de transmitentes (tradux) da sua vida (Tertuliano, Gregrio Nesseno). Ora se decidiam pelo criacionismo, pelo qual a alma diretamente criada per Deus (Clemente, Lactncio, Hilrio e a maioria dos Padres). Ora aceitava-se a preexistncia e conciliava-se essa doutrina com o criacionismo, admitindo-se a criao eterna da alma (Orgenes, Nemsio). ) Imortalidade. Desde o princpio, a posio crist se pronunciou com firmeza e determinao, em face da filosofia antiga, no tocante imortalidade, considerando-a incondicionalmente com o individual, e no mais se contentando com o mero nous divino universal. h) Moral Nenhures podia a sntese entre o helenismo e o cristianismo ser mais fcil do que na tica, onde platonismo e estoicismo se apresentam precisamente como degraus conducentes moral crist. 14 ) O Bem. Plato quer o assemelhar-se com Deus, E igualmente o quer a prescrio: sede perfeitos como vosso Pai celeste perfeito. Ora, isso apegar-se imediatamente a um motivo platnico no fundamento filosfico da tica: o caminho do homem est preassinalado no Logos. Naturalmente agora o Logos divino. "No h nenhum outro Logos seno Cristo, o Verbo de Deus, existente junto do Padre e pelo qual tudo foi feito; e no h nenhuma outra vida seno o Filho de Deus, que diz: Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (Orgenes). Clemente escreve que o formalismo moral estico da "razo reta" no significa outra cousa mais que o Logos divino; a ordem da natureza qual temos de nos submeter. E quando Gregrio NissEno considera como a tarefa do homem participar de Deus, exemplar de todo o bem, o que possvel por abranger o esprito humano todos os bens, embora somente em imagem, assim como o sol se reflete num espelho, nisso j se torna irreconhecvel o platonismo. O quanto a filosofia estica contribuiu em particular, para a estruturao prtica da moral crist, bem conhecido. Que com o apelo natureza ou razo do homem a lei moral objetiva ainda no est firmemente estabelecida, j Lactncio o viu. ) A Conscincia. Podemos divisar na vida natural o bem moral s quando se trata da natureza melhorada, i. e, daquela que nos notificada pelo senso do valor e da conscincia. Mas isso implicava em chocar-se de novo com o estoicismo. J Epicteto conhece o conceito de conscincia (); tambm Filo; e Ccero introduziu o termo conscientia. Sneca usou muitas vezes desse vocbulo. Tambm Paulo recebe da filosofia popular estica, a idia. E agora, sob a influncia dessas inspiraes, concedido pelos Padres da Igreja conscincia moral um lugar predominante. Ela a expresso subjetiva da lei natural objetiva e por a, ao mesmo tempo, um ditame divino. "Em todas as cousas eu me aconselho com a. razo e o juzo de Deus. Por ele sou muitas vezes condenado, ainda quando ningum me acusa; e sou absolvido quando muitos me condenam. A este tribunal, cuja sede est em o nosso ntimo, ningum pode escapar; devemos respeit-lo para assim trilhar o reto caminho da vida" (Gregrio Nazianzeno). 6 FIM DA PATRSTICA Ao extinguir-se a patrstica encontramos uma srie de homens, todos importantes, de certo modo, para a escolstica. ) Prspero. Assim, o fiel discpulo de Agostinho, Prspero de Aquitnia (y c. 463), coletor de 392 sentenas do seu mestre; e assim o fundador do gnero literrio dos livros das Sentenas. ) Cassiodoro. Depois, o discpulo de Bocio, Cassiodoro, o Senador (f 562). Escreveu, alm da sua clebre obra histrica e exegtica, um compndio das sete artes liberais (artes liberales), muito usado na Idade Mdia. Sob este ttulo eram ensinadas as cincias extra-teolgicas o trvio (gramtica, dialtica e retrica), e o quadrvio (aritmtica, geometria, astronomia e msica). Cassiodoro legou, nesses tratados, Idade Mdia, os frutos dos trabalhos de Bocio concernentes lgica, aritmtica, geometria e msica, abrindo, nessa matria, um caminho para os sculos. ) Mximo o Confessar. Tambm o Pseudodionsio teve um fiel intrprete: Mximo o Confessar (f 662). Com os seus comentrios aos tratados pseudo-areopagticos abriu caminho" para as correntes neoplatnicas. ) Isidoro. Um importante fundo de doutrinas para a Idade Mdia foi o rico trabalho literrio de Isidoro de Sevilha (f 636). Dele se originou um livro das Sentenas, inspirado em Agostinho e 15 Gregrio Magno. Ainda maior influncia exerceram as suas Etimologias, uma espcie de enciclopdia, que transmite tudo quanto ainda era aproveitvel, da antigidade e da patrstica. ) Beda. Para o mundo anglo-saxnico foi de particular importncia Beda o Venervel (f 753), que fecundou a Idade Mdia, sobretudo com ensinamentos sobre a Natureza. ) Damasceno. Mencionemos por fim Joo Damasceno (f 749). Pertence patrstica grega, logo porm adotado, como o areopagita, pelos latinos. Desde Burgndio de Pisa, no sc. 12, traduzida em latim a terceira parte da sua obra capital, "Fonte do conhecimento" ( ), sob o ttulo "De fide orthodoxa". Sua obra contm muitas idias neo-platnicas, mas tambm muitas aristotlicas; as ltimas provem da tradio do Aristteles siraco. Como num remanso sintetizante, recapitulante, nele confinem as principais correntes, que alimentam a patrstica: o patrimnio cristo da Bblia e dos Padres, o platonismo e o neoplatonismo e a filosofia aristotlica. Esta ltima a patrstica a relega para um plano inferior. Agora ela se desloca cada vez mais para o primeiro plano, at vir a dominar todo o cenrio da alta escolstica. GENERALIDADES a) Conceito da Esco1stica Por Escolstica, em sentido restrito, entende-se a especulao filosfico-teolgica que se desenvolveu nas escolas da Idade Mdia propriamente dita, i. , de Carlos Magno at a Renascena, tal como essa especulao se apresenta, antes de tudo, na literatura de Summae e de Quaestiones. Essas escolas foram a princpio as catedrais e as monacais e, mais tarde, as Universidades. Num sentido algo mais largo, designa a escolstica tambm o pensamento dessa poca que, embora sem empregar um mtodo rigorosamente escolar, racional-conceptual, repousa porm nas mesmas bases metafsicas e religiosas, como p. e., a mstica. E tambm se pode incluir nessa denominao a filosofia arbico-judaica, na medida em que, durante esse perodo, entra em contado com a escolstica propriamente dita. b) Mtodo escolstico ) Ensino. O ensino, nas escolas medievais, se calca em duas bases fundamentais a lectio e a disputatio. . Na lectio, correspondente ao que os alemes chamam hoje Vorlesung (lio), s o mestre que tem a palavra. Ela se atem, de ordinrio, a uma obra sobre as Sentenas com o fim de comentar as "opinies" (sententiae) de autores conhecidos. Para a teologia se tomavam geralmente as Sentenas de Pedro Lombardo; na filosofia, as obras de Bocio e Aristteles. A disputatio era uma livre discusso entre o mestre e o discpulo, na qual se aduziam e discutiam argumentos favorveis e contrrios a uma tese. ) Formas literrias. Dessas formas didticas resultaram naturalmente as correspondentes formas literrias escolsticas. Da lectio procederam os comentrios, que aparecem inmeros na Idade Mdia. ) Comentrios. Assim os comentrios ao Lombardo, a Bocio, ao Pseudodionsio e particularmente a Aristteles. ) Sumas. Dos comentrios, por sua. vez, nasceram as Summas, nas quais o autor se libertava mais e mais das andadeiras do livro de texto, colocando-se num ponto de vista real-sistemtico, na exposio da matria do ensino. 16 ) Quaestiones. Da disputatio nasceu a literatura das quaestioncs, que compreendiam duas espcies as quaestiones disputatae e as quaestiones quodlibetales. As primeiras contm a matria da disputatio ordinria, que tem lugar regularmente todos os 14 dias; durante um mais largo espao de tempo desenvolve-se um nico tema (p. ex., de veritate, de potentia, de maio). As ultimas so o resultado de disputas mais solenes, realizadas duas vezes por ano, pela Natividade e pela Pscoa, sobre variadas questes (quaestiones de quo-Ubet). ) Tcnica das sumas. A tcnica das discusses dos prs e contras e a soluo da questo subseqente ao debate constituam a estrutura das Sumas medievais. Assim, p. ex., na Summa Theologica de S. Toms, primeiro se apresentam os argumentos contrrios (objectiones) soluo da tese; com a expresso sed contra expe-se, de ordinrio apoiada numa autoridade, o ponto de vista oposto. O tema ento tratado, em si mesmo, na parte principal do artigo (corpus articuli). Da resultam as respostas aos argumentos em contrrio, aduzidos no princpio. ) Opuscula. Mas a escolstica tambm j conhecia o modo livre de tratar um problema. Chamam-se opuscula os pequenos tratados particulares dessa natureza. c) Esprito da Escolstica ) Auctoritas e Ratio. Pelo que acabamos de dizer vemos que o esprito da escolstica se desenvolve em dois elementos a auctoritas e a ratio, a tradio e o pensamento que a penetra. A auctoritas o primeiro recurso do mtodo escolstico. Tais autoridades eram citaes da Bblia, dos Padres da Igreja, dos Conclios, mesmo na filosofia: mas, sobretudo, citaes de Aristteles, o "Filsofo", por excelncia, como Averris era por excelncia o "Comentador". As opinies dessa espcie eram consignadas nos livros das Sentenas, donde a sua capital importncia. Mas como as obras das autoridades reconhecidas nem sempre concordavam, p. ex., Agostinho dizia uma cousa e Aristteles outra, recorria a escolstica a .uni terceiro expediente o pensamento racional, que se esforava por desentranhai-, mediante anlises conceptuais, o sentido das doutrinas recebidas, precisar-lhes mais exatamente o valor e, sendo possvel, concili-las. ) Suas vantagens e desvantagens. A fora de pensamento que se punha na realizao dessa tarefa era imponente. Duas cousas se evidenciam objetividade e acuidade lgica. O pensador escolstico no faz praa de subjetividade; para ele a poesia no nem poesia, nem sentimento nem questo de ponto de vista. O que se quer servir verdade em si mesma. Esses homens podiam crer e realizar uma cousa por causa dela mesma. E o fizeram com o emprego da lgica, estimada hoje como merece, depois de se ter por muito tempo visto nisso apenas a dialtica, no sentido pior do vocbulo. Esta censura no era, certo, inteiramente injustificada. Apegavam-se s vezes demasiado s palavras. Acreditavam em termos tradicionais e era grato ouvi-los. E para no se verem obrigados a abandon-los, davam-lhes freqentemente um sentido que no lhes convinha nem histrica nem realmente. Eram demasiado receptivos, falhos de senso histrico e crtico. Por isso se mesclam nos conceitos e nos problemas as mais diversas direes de pensamento, muito pouco distintas nos seus contornos prprios, como as pinturas superpostas num velho quadro, cujas diferentes camadas exigem o mximo cuidado de um tcnico para poderem ser separadas. Mas as referidas camadas a esto, e esta outra vez a vantagem do sentido de respeito tradio. A escolstica assim um como imenso museu do esprito. Os mesmos tempos que conservaram fielmente os manuscritos da antigidade, tambm se preocuparam por que o seu pensamento vivo nada perdesse do que criaram os grandes pensadores do passado. Se verdade que a escolstica muitas vezes lhes alterou o sentido, contudo nos transmitiu o pensamento antigo sem obstruir o 17 caminho, para podermos agora, mediante as palavras conservadas, descobrir-lhe o verdadeiro sentido histrico. A escolstica um domnio onde a indagao histrico-gentica alcana os mais compensadores resultados e oculta ainda muitos tesouros no descobertos. Bibliografia M. Grassmann, Die Geschichte der scholastischen Methode (Histria do Mtodo escolstico, I, 1909; II, 1911). Do mesmo, Millelalterliches Geistesleben (Vida espiritual da idade-mdia, I, 1926; II, 193G). E. GILSON, L'Esprit de Ia Philosophie mdievale (1944). A. M. Landgraf, Einfhrum in die Geschichte der theologisehen Literatur der Frscholastic (Introduo histria da literatura teolgica da primitiva escolstica) (Edio em castelhano 195..).