Filosofia e Cidadania

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    25-Nov-2015

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FILOSOFIACIDADANIA&Jorge Renato Johann Srie Bibliogrfica4 EdioJ65f Johann, Jorge Renato.Filosofia & cidadania. / Jorge Renato Johann. 4. ed. Aracaju : UNIT, 2012.204 p. : il. ISBN: 978-85-7833-162-7Inclui bibliografia1. Educao. 2. Filosofia. 3. Cidadania. 4. Ideologia. 5. tica e sociedade. I. Titulo. CDU: 37:1Redao:Ncleo de Educao a Distncia - NeadAv. Murilo Dantas, 300 - FarolndiaPrdio da Reitoria - Sala 40CEP: 49.032-490 - Aracaju/SETel.: (79) 3218-2186E-mail: infonead@unit.bronline@set.edu.brImpresso:Grica Santa MartaRua Hortncio Ribeiro de Luna, 3333 Distrito Industrial - Joo Pessoa - PBTelefone: (83) 2106-2200Site: www.graicasantamarta.com.brIlustraesGeov da Silva Borges JuniorJouberto Ucha de MendonaPresidente do Conselho de Administrao do Grupo TiradentesJouberto Ucha de Mendona JuniorSuperintendente GeralAndr TavaresSuperintendente Administrativo Financeiro Ihanmarck Damasceno dos SantosSuperintendente AcadmicoJouberto Ucha de Mendona Reitor UnitDario Arcanjo de Santana Diretor Geral- FitsTemisson Jos dos Santos Diretor Geral FacipeJane Luci Ornelas FreireGerente de Educao a Distncia Lucas Cerqueira do ValeCoordenador de Tecnologias Educacionais Maynara Maia Muller Assessora Pedaggica de Projetos Corporativos Online Equipe de Produo de Contedos Miditicos: AssessorRodrigo Sangiovanni LimaCorretores ortogricosAncjo Santana Resende Fabiana dos SantosDiagramadoresAndira Maltas dos Santos Claudivan da Silva Santana Edilberto Marcelino da Gama Neto Edivan Santos GuimaresIlustradoresGeov da Silva Borges Junior Matheus Oliveira dos Santos Shirley Jacy Santos GomesWebdesignersFbio de Rezende Cardoso Jos Airton de Oliveira Rocha JniorMarina Santana MenezesPedro Antonio Dantas P. Nou Equipe de Elaborao de Contedos Miditicos:Supervisor Alexandre Meneses Chagas Assessoras PedaggicasKalyne Andrade Ribeiro Lvia Lima LessaProjeto GricoAndira Maltas dos Santos Edivan Santos GuimaresPalavra do AutorFilosofar Viver!O ser humano nico ser que pensa e sabe que pensa. Quem no pra para pensar se move como um animal irracional, como um objeto manipulado e como uma massa de manobra passiva e teleguiada. Portanto, preciso garantir a condio humana atravs de um pensamento lcido a respeito de todas as coisas que nos rodeiam. Identificar-se como um ser pensante garantir a con-dio de um sujeito fazedor de sua prpria histria e da histria de seu povo. o pensamento que move a histria humana. Nisso se funda o significado e importncia da Filosofia na prtica educativa em todos os nveis da educao.O exerccio da Filosofia independe do espao que ocupamos e da tarefa que executamos. Assim todos os cursos precisam incluir a prtica filosfica na sua formao humana e profissional. Uma escola s cumprir sua misso inte-gralmente se promover sujeitos conscientes e comprometidos com a construo de um mundo melhor para todos. A Filosofia se coloca na base da cidadania necessria como condio de homens e mulheres que pensam e que agem em favor de uma sociedade mais justa e mais solidria. Filosofia e Cidadania a disciplina que representa um instrumento e um espao especial na formao dos alunos da Universidade Tiradentes. O compromisso histrico da UNIT se revela em todos os momentos das prticas educativas que nela se executam. O pensamento que as movem formar seres humanos e profissionais competentes e ticos para uma realidade melhor para todos os habitantes do planeta. A elaborao do livro texto de Filosofia e Cidadania perpassa, do prin-cpio ao fim, a utopia de um mundo bom para se viver. certo que ainda no temos a realidade com que sonhamos. Mas temos a certeza de que, com a cons-cincia que se faz compromisso e ao, haveremos de concretiz-la ao longo do tempo de nossa travessia como cidados.Para isso, apresentamos o texto de Filosofia e Cidadania. Convidamos a todos vocs a se desarmarem de qualquer ideia preconcebida e abrirem suas mentes e coraes para o despertar de pensamentos e prticas que contribuam para a formao de um novo ser humano e de uma nova sociedade.Prof. Jorge Renato JohannParte 1 Aspectos Filosicos, Ideolgicos e Educacionais1 A Era do Conhecimento _____________________________111.1 O conhecimento ilosico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 121.2 As relaes homem-mundo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 221.3 A sociedade aprendente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 301.4 A condio humana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38Resumo do Tema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46Exerccio de Aprendizagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 482 Filosoia e Ideologia ________________________________572.1 O processo de ideologizao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 582.2 A construo da cidadania . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .662.3 O conhecimento e valores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 792.4 Educao e mudana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89Resumo do Tema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96Exerccio de Aprendizagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97SumrioParte 2 tica e Cidadania3 tica e Educao _________________________________ 1073.1 tica e moral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1083.2 O compromisso tico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1143.3 A formao do cidado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1213.4 O ser humano integral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .130Resumo do Tema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .139Exerccio de Aprendizagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1404 Ao Educativa e Cidadania _____________________ 1494.1 O exerccio da cidadania . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1504.2 tica, labor e trabalho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1564.3 Vita activa: tica e ao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1704.4 A utopia da esperana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .178Resumo do Tema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .186Exerccio de Aprendizagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .188Referncias Bibliogricas ___________________________ 198EmentaA era do conhecimento: conhecimento filosfico, as relaes homem-mundo, a sociedade aprendente, a condio humana. Filosofia, ideologia, edu-cao: o processo de ideologizao, a construo da cidadania, o conhecimento e valores, educao e mudana. tica e cidadania: tica e moral, o compromisso tico, a formao do cidado, o ser humano integral. A ao educativa e cidada-nia: o exerccio da cidadania, tica, labor e trabalho, vita activa: ao e tica, a utopia da esperana.JustificativaA tarefa da educao a de formar homens e mulheres que se desenvolvam em todos os aspectos de sua condio humana. Isso implica numa ampla formao tcnica e humana. A era do conhecimento precisa levar ao desenvolvimento da habilidade profissional, capacidade de conviver em um mundo plural, pleno de diversidades e em que as diferenas levam ao enriquecimento individual e coletivo. A disseminao dessas ideias o papel da Filosofia, como exerccio da reflexo crtica sobre todas as realidades humanas. O foco da disciplina de Filosofia e Cidadania se insere nessa perspectiva de formao integral do ser humano. O mundo atual se apresenta de forma paradoxalmente carregado de possibilidades e, ao mesmo tempo, com problemas que o remetem a uma barbrie primitiva. Disso surge a exigncia de que as transformaes aconteam urgentemente. Isso s ser possvel com a ao consciente, dinmica e solidria de indivduos que se constituam em cidados, ou seja, homens e mulheres fazedores de histria. A utopia de um novo homem e de uma nova sociedade, vivendo em um mundo onde haja lugar para todos os habitantes do planeta, o grande desafio histrico da atualidade.Concepo da DisciplinaObjetivos evidenciar uma ampla compreenso do processo de desenvolvimento do conhecimento humano e da sua origem atravs das diferentes leituras de mundo, da interpretao filosfica, at chegar cincia contempornea. identificar o significado e a importncia da filosofia no conjunto dos conhecimentos construdos pela humanidade e a necessidade de se desenvolver uma postura reflexiva e crtica diante da realidade do mundo e da vida contempornea; perceber a sutileza dos processos de ideologizao que movem e ma-nipulam os pensamentos, os comportamentos e os movimentos hist-ricos do mundo contemporneo; refletir sobre cidadania como valor e como exigncia na construo de uma sociedade sustentvel, em que a educao assume um papel fundamental; identificar a tica como uma postura filosfica na construo de um novo homem e de uma nova sociedade; desenvolver uma postura reflexiva e crtica que inspire e motive com-portamentos de cidados comprometidos com a construo de uma sociedade balizada por valores ticos.AvaliaoA avaliao da disciplina ser realizada a partir da: Medida de Eficincia (ME): que dever ser feita ao longo das Unidades no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) no total de duas ME por Uni-dade. O prazo para realizar a ME de at 48h antes da data da avaliao (por Unidade). Para cada ME voc ter duas tentativas de resposta; Organizao da DisciplinaBibliografia BsicaALVES, Rubem. Filosofia da Cincia. So Paulo: Loyola, 2007. BUZZI, Arcngelo R. Introduo ao Pensar. Petrpolis: Vozes, 2002.CHAU, Marilena. Convite a Filosofia. So Paulo: tica, 2008. Metodologia de estudoO aluno ter o acompanhamento docente no Ambiente Virtual de Aprendiza-gem, tendo acesso a diversos recursos como: contedo textual web, vdeos, podcast, os quais serviro de apoio para a compreenso do contedo. H tambm os fruns e chat, que permitem a interao e o compartilhamento de ideias, alm das atividades online como as Medidas de Eficincia. A disciplina possui uma dinmica que permite a relao teoria e prtica dos contedos e a interao entre professor/aluno e aluno/aluno, pre-sencial e a distncia. O Livro Impresso faz parte da dinmica de estudo e permite que o aluno, mesmo estando offline, estude os contedos necessrios para a compreenso da disciplina. Assim, de fundamental importncia o autoestudo por parte do aluno, reser-vando um tempo para o leitura e o desenvolvimento das atividades na disciplina.Exerccios de aprendizagemAo finalizar um Tema, o aluno ter a oportunidade de testar seu conhecimen-to respondendo o Exerccio de Aprendizagem que composto de quatro questes sub-jetivas, sendo uma para cada contedo e oito questes objetivas, sendo duas para cada contedo. O Gabarito das respostas estar no Ambiente Virtual de Aprendizagem. Avaliao Presencial: realizada presencialmente atravs de prova es-crita, sendo uma por Unidade, com o valor de 0,0 a 8,0 pontos. A avaliao individual e sem consulta, com questes objetivas e subjetivas contextualizadas.Entendendo os cones do livroAo longo do Contedo da Disciplina voc ir encontrar no livro cones que iro orient-lo nos estudos. Conhea cada cone:Para Refletir: apresenta reflexes sobre o contedo abordado durante o texto a fim de desenvolver postura crtico reflexiva sobre a realidade;Ateno: destaca um contedo importante do texto para compreenso da temtica;Saiba Mais: so informaes ou relatos de experincias considerados interes-santes para o entendimento do contedo que est sendo abordado;Indicao de Leitura: ficar no final de cada contedo e seu objetivo promover a fundamentao: sugesto de texto, livro ou site que reforam ou ampliam o contedo;Anotao: tem por finalidade o registro das reflexes dos alunos.Est no AVA : indica acesso ao Ambiente Virtual de Aprendizagem para co-nhecer outros recursos que iro contribuir com o contedo estudado;Exerccio de Aprendizagem: indica uma atividade que est associada aos contedos estudados, que ir conter questes objetivas e subjetivas;Resumo do Tema: sntese dos contedos do Tema abordado. Onde tirar as dvidas?No Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), acesse o "fale conosco" no mural principal para registrar suas Dvidas de Contedo com o professor da disci-plina e Dvidas Tcnicas quando for relacionado ao AVA.ASPECTOSFILOSFICOS, IDEOLGICOS E EDUCACIONAISParte 0103TemaNeste tema, vamos abrir uma perspectiva ampla do mundo em que vivemos como a era do conhecimento. A busca incessante do conhecimen-to se apresenta como um caminho que viabiliza a realizao individual e coletiva. Portanto, preciso lanar-se com muita fora e esperana na aquisio do que temos como meio de conquistar o espao que nos cabe em um mundo de imensas contradies e tambm de infinitas possibilidades. preciso fazer com que, atravs do co-nhecimento, sejam ampliadas as facilidades e di-minuidas as dificuldades da existncia humana. A grande meta deste novo milnio a construo de um mundo em que haja lugar para todos os habi-tantes do planeta.Objetivos da AprendizagemAo terminar a leitura e as atividades do Tema 1, voc dever ser capaz de: compreender o conceito, o significado e a importncia do conhecimento filo-sfico no conjunto dos conhecimentos construdos pela humanidade; identificar o que leva o ser humano a construir o conhecimento em sua relao com o mundo circundante; identificar as caractersticas e os de-safios de uma sociedade aprendente; compreender a condio humana atual a partir de suas contradies e possibilidades. A ERA DO CONHECIMENTOTema01Filosoia e Cidadania12 1.1 O conhecimento filosficoO processo de evoluo do conhecimento acontece e exige dos seres humanos um incessante esforo de superao das dificuldades e ampliao das facilidades para existir em um mundo onde precisa haver lugar para todos os habitantes do planeta. O ser humano se hominizar e se humanizar1 quanto mais cons-truir dentro de si e fora de si condies materiais, sociais, intelectuais e espirituais de melhor qualidade. Portanto, a humanizao ser um permanente processo de construo de sua prpria vida. Para isso, preciso conhecer cada vez mais o seu mundo para transform-lo e nele se inserir de forma plenamente realizadora.As hipteses com as quais os cientistas atualmente trabalham a respei-to da origem do universo remetem a sua datao para quinze bilhes de anos. A vida sobre o planeta terra teria surgido a aproximadamente cinco bilhes de anos e os vestgios mais antigos de homindeos remontam a sete milhes de anos. Portanto, embora sempre se trate de hipteses, considervel o tempo em que seres pensantes transitam sobre a terra.A ao humana sobre o planeta se deu de forma lenta e temerosa ao longo de todo esse tempo. A vertiginosa velocidade que o processo de transfor-maes foi tomando, data de um perodo muito recente. Ocorre que, enquanto todos os demais seres do universo receberam um projeto de existncia pronto e pr-determinado pela natureza, o ser humano recebeu uma mera possibilida-de de existir. Cabe a ele ajustar o meio para poder nele subsistir e sobreviver. Paradoxalmente, esse ser diferente de todos os demais os seres inanimados, os vegetais e os animais o mais frgil e indefeso. Sua infncia, at se tornar adulto e poder sobreviver por si mesmo, a mais demorada de todas. Todavia, com essa fragilidade, o ser humano recebe uma potencialidade infinita. Trata-se de uma dimenso que se revelar de mltiplas formas, atravs de suas capacidades intelectuais, emocionais e espirituais. Mesmo com o inexor-vel processo de envelhecimento fsico ao qual ele est submetido, inevitavelmente sucumbindo ao tempo, suas capacidades mentais podero evoluir de forma ascen-dente e ilimitada. Existe, portanto, neste ser finito uma dimenso infinita que o projeta para uma transcendncia sob todos os aspectos de sua condio humana. 1 Hominizar diz respeito gerao de um ser humano do ponto de vista biolgico, enquanto hu-manizar se refere construo de um ser humano em seus mltiplos aspectos a serem desenvolvidos. A era do conhecimentoTema | 0113 A discusso em torno da origem do universo e do homem uma tem-tica que se manifesta em mltiplias posies e de forma inesgotvel. H quem entenda que tudo teria surgido por obra de um processo evolutivo. De formas mais simples da matria, uma complexificao cada vez mais elaborada teria resultado no surgimento da vida sobre a terra e em nveis de conscincia nos seres humanos. Todos os seres que compem o universo seriam, portanto, re-sultantes de um processo evolutivo ascendente, de seres inferiores para seres mais complexos e, portanto, superiores na escala evolutiva. Na contrapartida, h quem defenda o creacionismo, isto , a explicao de que o universo e tudo quanto nele existe, especialmente o ser humano, teriam sido criados por Deus em um tempo determinado. O processo de hominizao e de humanizao acontece e exige dos se-res humanos um incessante esforo de superao das dificuldades que se im-pem a sua existncia. O ser humano em parte coincide com a natureza e, em outra parte, dela se diferencia. Sua existncia, assim, se constitui num somat-rio de dificuldades e de facilidades. Hominizar-se e humanizar-se so as tarefas que o desafiam permanentemente. Para isso, o ser humano haver de buscar contnua e indefinidamente os mltiplos saberes necessrios para se inserir em um mundo que parte coincide com ele e, em outra parte, diferencia-se dele e que precisa ser compreendido e ajustado. Portanto, todo o conhecimento ser resultado dessa relao do homem com o seu mundo, que precisa se arrumado de acordo com sua condio de nele existir. Atualmente, a ao humana sobre o mundo se intensifica e se acelera, sob alguns aspectos, de forma assustadora, enquanto se pensa em um mundo bom para todos.Mais do que as respostas, so as perguntas que movem a histria. As trans-formaes que ocorreram no mundo foram resultado do pensamento humano. A conscincia de que o existir se apresenta como um problema a ser resolvido que pode produzir os grandes avanos e as solues ne-cessrias para a humanizao do prprio homem e do ambiente circundan-te. Aqui se coloca a Filosofia como uma forma de conhecimento importante Filosoia e Cidadania14 e necessria, desde o seu conceito mais simples do senso comum at o seu significado mais amplo e profundo. Pode-se conceituar filosofia como sendo o simples modo de pensar de qualquer ser humano. A sua filosofia de vida constituda por suas ideias, seus ideais e seus valores. Ser de acordo com esse seu arcabouo mental que esse indivduo conduzir a sua vida. Muitas vezes, quando no consegue vi-ver coerentemente com sua forma de pensar, ele acabar modificando os seus pensamentos, adequando-os ao seu jeito de viver. Trata-se de uma questo de coerncia com a forma de construir a sua vida. Esse conceito simples acima exposto faz parte do senso comum e per-feitamente vlido. Todavia, essa uma primeira forma de se conceituar filosofia. Ao longo da histria, em suas origens, a filosofia surge com os pensadores gregos. Os filsofos - assim eram conhecidos e denominados esses pensadores - eram aqueles mestres que detinham a totalidade dos conhecimentos auferidos pela hu-manidade at ento. Essa a razo pela qual eles passaram a ser considerados amigos da sabedoria (filos=amigo e sofia=sabedoria) e assim eram chamados de filsofos. Eram os mestres, os educadores, os orientadores polticos, por vezes at mesmo orientadores religiosos e assim eram respeitados, ouvidos e seguidos pelos seus contemporneos. Eram os sbios que sabiam tudo de tudo.Diferentemente do senso comum, que difuso e acrtico, e tambm avanando em relao mitologia, uma linguagem ainda extremamente mar-cada por metforas, pela oralidade e pelo contedo fidesta, a filosofia se apre-sentava como um grande esforo racional de entendimento e explicao de todas as realidades humanas. O resultado desse esforo foi o surgimento de renoma-dos pensadores, que produziram obras que passaram a inspirar toda a constru-o do conhecimento humano at os dias de hoje.A histria da filosofia se constitui assim num captulo importante da cultura humana. Foi atravs dos filsofos que a interpretao sobre o mundo se aprofundou e foram lanadas as sementes do que resultou modernamente na ci-ncia contempornea. O mundo no teria evoludo no tivesse havido o esforo de grandes pensadores que sobre ele se debruaram em busca de seu entendimento. Desde a Antiguidade at a Idade Mdia, portanto, h pouco mais de quinhentos anos, havia somente a filosofia a englobar a totalidade dos conhe-A era do conhecimentoTema | 0115 cimentos. Alm da Filosofia, preciso distinguir e destacar a Teologia, como a busca do conhecimento das coisas que remetem a humanidade para as ques-tes transcendentais. Alguns grandes filsofos foram tambm grandes telogos como Santo Agostinho (354-430 d.C) e So Toms de Aquino (1225-1274 d.C.).Eram os filsofos que cuidavam da matemtica, das cincias naturais, da busca do entendimento dos fenmenos humanos, das prticas educativas e tudo o que poderia dizer respeito s realidades do mundo e do homem. Com o advento da Idade Moderna e a substituio da cosmoviso teocntrica2 pela perspectiva antropocntrica, em que a f passava a ser substituda pela razo humana, os conhecimentos passam a se fragmentar cada vez mais, originando-se o conhecimento cientfico, produto da razo humana. Cada rea do saber comea a apresentar as suas especificidades e seus expoentes e pesquisadores. Os avanos da cincia e da tcnica comeam a se apresentar cada vez mais rapidamente e o que a humanidade no progrediu ao longo de milhares de anos, agora vai conhecer avanos cada vez mais acelera-dos. A idade contempornea chega e se afirma cada vez mais com a convico de que cincia e tcnica finalmente resolveriam todos os problemas humanos. A fragmentao dos saberes resultou em infindveis listas de novas e especficas reas do conhecimento, de sorte que, no caminho da mxima espe-cializao, o espao dos generalistas3 foi perdendo o seu status e sua impor-tncia. Imps-se o mundo dos especialistas. E diante da infinidade das novas reas do conhecimento e diante do volume imenso de novos conhecimentos a aumentar cada vez mais rapidamente, resta a pergunta: Qual o significado e a importncia da Filosofia no conjunto dos conheci-mentos construdos pela humanidade, quais as questes que ainda restam para o filsofo e qual o seu espao e sua tarefa? 2 Cosmoviso teocntrica uma viso segundo a qual tudo era percebido e explicado como sendo obra de deuses ou de Deus... isso quando no se atribu a seres da natureza a condio de divindade. Por exemplo, uma trovoada era compreendida como se fosse a presena de um deus embravecido.... e que teria que ser apaziguado para que no viesse a punir os homens...3 Generalista aquele que procura saber tudo de tudo, enquanto o especialista aquele que procura saber tudo de um campo cada vez mais centrado e reduzido da realidade.Filosoia e Cidadania16 O filsofo no mais aquele que detm todo o conhecimento, at porque, diante da infinidade sem conta de novas reas de conhecimento, seria absoluta-mente impossvel algum ter a pretenso de ser um especialista em todos os conhe-cimentos. Porm, a importncia da Filosofia est na sua tarefa de pensar o mundo e refletir sobre seu significado. Assim, um pensador se dobrar sobre o seu mundo para perceb-lo com mais clareza a respeito de suas razes ltimas. A postura do filsofo se revela pela capacidade de perguntar. o af de construir permanentemente o que ainda no somos que nos leva ao questio-namento a respeito de tudo o que nos cerca. Nenhum outro ser conhecido faz uma pergunta. Repetindo o programa pr-determinado pela natureza, todos os demais seres do universo simplesmente realizam o que para eles j foi progra-mado pela natureza. Portanto, nenhuma nova indagao os inquietar.O ser humano, desde que abre os seus olhos, pela primeira vez, j ma-nifesta a sua inquietao que o far buscar respostas enquanto viver. A crian-a pergunta insistentemente a respeito de tudo. Infelizmente, essas perguntas, muitas vezes, so ridicularizadas, sufocadas e silenciadas. Muitos professores, na escola, no gostam do aluno que faz muitas perguntas, enquanto os pais, na famlia, sem saberem o que dizer, silenciam e tambm fazem calar.Diante de tantos mecanismos que buscam silenciar desde uma criana at adultos de todas as idades um ser humano quieto no incomoda! preci-so verificar se ainda somos capazes de nos indignar com tudo o que acontece ao nosso redor. O filsofo ainda no morreu dentro da gente se ainda no nos acostumamos com o inaceitvel diante de nossos olhos.Com que facilidade nos acostumamos com tudo e nada mais nos in-comoda. melhor ficar quieto. melhor no reagir. melhor no se envolver em confuso. Uma encrenca sempre d trabalho. E assim vamos morrendo por dentro e vivendo no limite do inaceitvel e intolervel. Porm, viver acostuma-dos com os absurdos que nos rodeiam abrir mo da prpria dignidade que nos faz sentir vivos, mais atores do que meros reatores diante dos acontecimentos. A era do conhecimentoTema | 0117 Assim, o mundo dominante nos quer passivos e acomodados. Na antiguidade greco-romana, oferecia-se po e circo para as massas populares manterem-se passivas. Atualmente, basta oferecer o circo (futebol, novelas, etc.) e o povo se diverte, inconsciente e manipulado. A reao essa passividade um desafio dignificao humana. Diante disso, a inquietao filosfica se coloca como um meio de humanizao e de preservao da cidadania. O filsofo algum que busca viver e conviver com as diferenas. O dife-rente que nos instiga e encanta para alm da acomodao. J no existe mais um filsofo dentro de algum que no sabe conviver com um pensamento diferente, com uma cultura diferente da nossa, de um credo, de uma cor, de um sabor ou de um jeito diferente de ser. As diferenas sempre sero um desafio para aprender e crescer. Jamais a atitude de nivelamento e de achatamento produzir algo de sig-nificativo e interessante para mover a realidade. A convivncia com o diferente s ser possvel se nos despojarmos de qualquer atitude preconceituosa e dogmtica. A postura filosfica brotar da saudvel inquietude que nos leva a questionar o mundo que nos cerca. No se trata de uma inquietao neurtica e de uma ansiedade patolgica, mas de uma sensibilidade que se manifesta num profundo sentido de alteridade. O filsofo algum que se ocupa e se preocupa com o outro. Sua sensibilidade o faz perceber a alegria, a tristeza, o encanta-mento, o desapontamento, o medo, a raiva, o desnimo, a fora e tudo o mais de que se compe a personalidade humana. O filsofo se importa com o outro e tudo que diz respeito ao seu mundo. Ele est atento a tudo que se passa ao seu redor e buscar expressar essa percepo de alguma forma. Naturalmente que a postura do filsofo no permanecer somente ao nvel do senso comum, dos sentimentos e de uma mera sensibilidade inicial e ainda descomprometida. O filsofo tambm se exercita e se constri. Sua in-quietao o levar a sair de sua zona de conforto e exercer uma prtica liberta-dora corajosa e transformadora.O estudo da Filosofia, em nossa sociedade, acabou se transformando em um pesadelo para a maioria de nossos estudantes, restando uma experincia pou-co positiva. Dois aspectos explicam o fato: o primeiro histrico e o segundo Filosoia e Cidadania18 pedaggico. Historicamente, precisamos lembrar que as ltimas dcadas da histria brasileira foram marcadas por um obscurantismo cultural. Por oca-sio da revoluo militar de 1964, atendendo aos objetivos desenvolvimentis-tas do capitalismo internacional, ajustou-se a educao aos modelos poltico autoritrio e econmico associado e excludente aqui implantados. Para isso, excluiu-se das grades curriculares de todos os cursos mdios e superiores todo e qualquer espao reflexivo. Concomitantemente, submeteu-se cen-sura tudo o que fizesse esse povo pensar, ou seja, os meios de comunicao e toda expresso cultural. Resultou em um verdadeiro atraso cultural. Um povo que no pensasse, no ouvisse e nada falasse, isso , silencioso e passivo, estaria facilmente subjugado e dominado. Por outro lado, nos espaos reflexi-vos que ainda persistiram, ocupou-se o tempo em ler e decorar o pensamento dos clssicos da Filosofia, da Sociologia, da Histria etc., de tal forma que os estudantes passassem a rejeitar qualquer atividade cujo objetivo fosse des-pertar as conscincias e toda e qualquer sensibilidade criativa. Restou uma educao a servio de um modelo econmico determinado pela racionalidade tecnolgica e economicista. Por essas razes, preciso recuperar os espaos perdidos e fazer acontecer o despertar de um povo para a sua condio de cidados, donos e senhores de sua prpria histria. Filosofia e Cidadania se insere nesta busca e se constitui no espao educativo cujo objetivo aprender a pensar para fazer acontecer a histria individual e coletiva da melhor forma possvel. (Acesse a internet no Google/You Tube e escreva a pergunta O que Filosofia? Voc encontrar uma sequncia de vdeos sobre o tema). O que preciso para formar um filsofo?Muito estudo. Estudar ler o mundo e tambm ler o texto. Isso quer dizer que, para se exercitar o filsofo, preciso leitura. Ler algo rido e muitas vezes cansativo. Porm, somente quem l muito, pensa bem, escreve bem e fala bem. Os neurnios se exercitam e as habilidades intelectuais no so resultado apenas de uma mera caracterstica individual. bem verdade que existem di-ferentes inteligncias. Alguns sero naturalmente mais reflexivos. Outros tero uma habilidade especial para expressar seus pensamentos de forma verbal ou de forma escrita. Outros sero ainda mais prticos e operativos. Todavia, nada A era do conhecimentoTema | 0119 substitui a transpirao de quem se exercita em qualquer atividade humana. As-sim como uma habilidade fsica resulta de muito treinamento, tambm as habi-lidades intelectuais e mentais so fruto e produto de muito esforo e empenho. Fazer silncio. Para refletir preciso criar espaos de silncio. co-mum que nossos estudantes tentem estudar com os fones de ouvido e o som nos ltimos decibis suportveis aos ouvidos humanos. Mesmo que haja quem afirme que assim mesmo que ele gosta de estudar, a super estimulao sonora incompatvel com o funcionamento das clulas nervosas do crebro no que diz respeito assimilao de contedos e da aprendizagem. Portanto, preciso criar espaos interiores para que possa desabrochar a criatividade, a sensibili-dade e florescer o mundo das ideias. Para produzir algo intelectualmente, preciso desligar os aparelhos eletrnicos, buscar uma condio razoavelmente confortvel e se concentrar. Sobretudo a reflexo filosfica, assim como a meditao e a orao, exige um mnimo de silncio para que possa florescer na mente e no corao. preciso comear j! Perguntou-se, certa vez, a um grande campeo de natao sobre qual era o momento mais difcil de sua vida esportiva. Ele respondeu que era o momento de saltar na gua. Assim, uma longa jornada sempre se far com o primeiro passo. No ser diferente com a construo intelectual. preciso dar a partida e, por fim, acaba-se tomando gosto e atingindo profundidade no saber. O produto do pensamento filosfico poder se manifestar das mais di-versas formas: h quem escreva textos de grande qualidade; h quem expresse seus pensamentos e sentimentos em poemas; h os que se manifestam em letras de msica; outros escrevero peas de teatro; outros ainda disseminaro ideias geniais na forma de humor e, de forma jocosa, elegante e inteligente, faro o pblico rir gostosamente, levando-o a pensar nas verdades que foram ditas; h tambm quem expresse um mundo de pensamentos em simples traos em uma folha em branco.Assim, a filosofia adquire seu espao que, de fato, ela nunca perdeu, mas apenas se modificou. O que tem feito morrer o sentido reflexivo, sobretudo em nossos jovens, uma maneira rida e cansativa de fazer decorar o pensamento de pensadores do passado. Esses tiveram o seu tempo, a sua importncia e sua originalidade. muito importante conhecermos o acervo que eles nos le-garam. Todavia, preciso faz-lo de forma prazerosa e, por certo, nunca ser Filosoia e Cidadania20 necessrio decorar o que disse esse ou aquele pensador. Para beber na fonte dos grandes pensadores, bastar ir ao encontro deles nos livros e textos que deixaram. Portanto, na sequncia da reflexo que se desenvolver, em busca de uma aproximao da filosofia com a cidadania, trataremos de questes que apontem para a possibilidade de construirmos um novo homem e uma nova sociedade. Isto quer dizer que, somente se compreendermos as contradies em que se movimenta o homem contemporneo, poderemos desencadear um processo de transformao.Superar o nvel de conscincia que mantm a massa humana na con-dio de mero objeto de controle e manipulao e fazer com que ela evolua para a condio de poder vivenciar a sua cidadania, o desafio que ter, sobre-tudo, a educao como fora mobilizadora. no ato educacional que se realiza a construo do conhecimento e a formao de seres humanos. Sua tarefa no poder se reduzir a uma mera transmisso dos saberes auferidos pela humani-dade, mas tambm preciso que sua tarefa se amplie maximamente para que dela surjam cidados para uma nova realidade, em que o mundo seja um bom lugar para todos.Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vdeos, podcast, objetos de aprendizagem e na participao do f-rum de discusso. SOUZA SANTOS, Boaventura de. Um discurso sobre as cincias. 13. ed. Porto: Afrontamento, 2002.A socilogo portugus Boaventura de Souza Santos faz uma reflexo sobre o A era do conhecimentoTema | 0121 conhecimento desde o senso comum at a cincia. Mostra como as questes que brotam da simplicidade de um conhecimento ingnuo, difuso, acrtico, dogmtico e simples, d origem aos questionamentos que levam a um conhe-cimento altamente fundamentado e que precisa retornar sua origem como um senso comum esclarecido. GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia. So Paulo: Companhia das Letras, 2011.O filsofo noruegus Jostein Gaarder elaborou uma sntese de toda a hist-ria da Filosofia, desde a Antiguidade at os dias atuais, de forma sedutora e envolvente: uma adolescente recebe cartas annimas em sua caixa postal e desafiada a responder a instigantes perguntas para descobrir quem seu correspondente annimo. Assim, de desafio em desafio, vai revisando toda a evoluo do pensamento filosfico, em um texto que arrasta para a leitura at o seu final. Filosoia e Cidadania22 1.2 As relaes homem-mundoA existncia humana constituir-se- num permanente desafio de su-perao de problemas. Todavia, preciso compreender a problematizao4 da vida como uma grande possibilidade de crescimento. Ter que modificar algo que inadequado e que, portanto, no serve, o que faz com que tudo evolua no entorno e com que todas as coisas possam ser mudadas para melhor. Entretan-to, essa melhoria s poder acontecer na medida em que se ampliar o nvel de conscincia das condies circunstanciais. Essa afirmao equivale a dizer que preciso conhecer o mundo para nele se inserir de uma forma mais satisfatria e realizadora. Quanto mais o homem conhece e penetra nos segredos da natureza e descobre os princpios que a regem, tanto mais ele ter possibilidade de se ajustar a um mundo de forma realizadora e satisfatria.So as ideias que movem o mundo. Durante muito tempo, a humanidade se manteve num processo lento de desenvolvimento por perceber o mundo pela tica do sagrado, intocvel e imutvel. A postura diante desta realidade era de temor e submisso. Como seu deu a passagem de uma perspectiva fideista e teocntrica para uma cosmoviso racionalista, dando origem s grandes e rpidas transformaes histricas da idade moderna e, por fim, ao mundo tecnolgico da idade contempornea?Ao longo da histria, as relaes entre os seres humanos e o seu mundo sempre foram marcadas pela maneira como estes conseguiam perceb-lo. Atuar ou no sobre a realidade vai depender de como ela compreendida. No mundo primitivo, nossos ancestrais ainda no tinham condies de explicar o mundo 4 Problematizar a capacidade de identificar o que precisa ser mudado... s vezes difcil e doloroso mudar, mas a nica possibilidade que temos de crescer e se desenvolver... assim que as pessoas crescem e o mundo evolui Observe-se que essa questo da problematizao tambm a questo mais fundamental para o desenvolvimento da cincia. Levantar uma grande questo para ser resolvida um desafio que produz conhecimento. Portanto, problematizar a base de desenvolvimento da pesquisa cientfica.A era do conhecimentoTema | 0123 circundante. Sua interpretao acabava sendo pela tica do sagrado. A natureza e tudo o que ela continha era explicada atravs de uma perspectiva teocntrica e fideista. Todos os fenmenos eram fruto e produto da ao de Deus ou de deuses. O que fundava esse conhecimento era um fidesmo, ou seja, a crena na presena e ao de divindades.Augusto Comte (1798-1857), filsofo positivista, afirma ter a humanida-de atravessado trs estgios no que diz respeito explicao do mundo: o estgio teocntrico, o racional e o positivo. O teocentrismo caracterizou todo o perodo pr-histrico, a Antiguidade e toda a Idade Mdia. Os povos primitivos e antigos eram politestas. Para eles, os deuses que comandavam a vida e a morte de todos os seres. A natureza era sagrada e imutvel. No se poderia tocar em algo que fos-se determinado por uma divindade ou que at mesmo fosse identificando como sendo a prpria divindade. O Cristianismo trouxe a crena em um Deus nico. O monotesmo cristo passou a determinar de vez a f como explicao de toda a condio humana: as relaes sociais, polticas e econmicas. Tudo se justificava em nome de Deus. A cultura estava circunscrita aos mosteiros e catedrais. Somen-te tinham acesso ao conhecimento mais elaborado os monges e alguns nobres. Esta viso teocntrica e fidesta de mundo no combinava com o desen-volvimento de uma ao mais efetiva sobre a natureza. Ao contrrio, a crena no sagrado infundia um sentimento de temor e um comportamento de submisso. Quem ousasse pensar diferentemente do estabelecido pela ortodoxia vigente era taxado de herege e punido severamente. Todavia, houve homens e mulheres que tiveram a coragem de comear a questionar as verdades impostas e a du-vidar de tudo o que no era explicado pela razo humana. A idade moderna, a partir do sculo dezesseis, surge com a ao crtica de homens e mulheres que tiveram a coragem de afirmar suas novas perspectivas. Um exemplo paradigm-tico se revela no pensamento de Ren Descartes (1596-1650). Um filsofo que inaugura um mtodo da dvida. Nada mais ser aceito sem que passe pelo crivo da razo humana. Tudo precisava ser interpretado e compreendido atravs da razo. Assim, a dvida metdica se coloca como um marco de um tempo em que a racionalidade humana vai conquistar e ocupar, cada vez mais, seu espao na construo do conhecimento, dando incio a era moderna. Junto de Descartes, outros pensadores vo concorrer para solidificar a revoluo do pensamento humano, como Leonardo Da Vinci (1452-1519), Galileu Galilei (1564-1642), Francis Bacon (1561-1626), Giordano Bruno (1548-1600), etc.Filosoia e Cidadania24 Com uma nova compreenso de mundo, as transformaes vo ocor-rer em todos os setores da vida humana. A partir do momento em que se afir-ma o heliocentrismo5, percebeu-se que daria para navegar sempre para a frente e que no se cairia nas garras de monstros, habitantes de abismos pro-fundos. Afirma-se o sistema planetrio em substituio a uma compreenso de uma terra plana como uma mesa. Empreendem-se as grandes navegaes e descobrem-se novas terras em todos os quadrantes do planeta. Afronta-se o poder da igreja romana com os questionamentos dos reformadores protes-tantes. Buscam-se inspiraes na antiguidade greco-romana e a cultura d saltos de excelncia, constituindo-se num verdadeiro renascimento nas artes, na pintura, na escultura, na arquitetura, na msica, na pedagogia etc. O de-senvolvimento da cincia e da tcnica produz uma revoluo que afetar as re-laes humanas sob todos os pontos de vista. O modo de produo se desloca do setor primrio para o setor secundrio e, a partir de meados do sculo XIX, a industrializao vai se constituir no mecanismo de produo de bens econ-micos. Os pensadores iluministas disseminaram ideias de liberdade, de igual-dade e de fraternidade. Por fim, os trs sculos da idade moderna produzem a derrocada do feudalismo, cuja estrutura garantiu os privilgios da nobreza e do clero durante mil e trezentos anos. Com a revoluo burguesa, surge a nova ordem econmica e social do capitalismo e sua contrapartida socialista. A princpio, a natureza era tida como um obstculo intransponvel, j que era dominada por divindades que no permitiam que sobre ela se atuasse e se modificasse o que era prerrogativa exclusivamente sua. Pela tica do Cristia-nismo medieval, sob a hegemonia da igreja romana, o conhecimento no pode-ria chegar ao alcance do povo para que interpretaes errneas no induzissem a heresias. Quem ousasse pensar diferente do que era estabelecido pela Igreja e pela sociedade dominante de ento, poderia ser levado para a fogueira inquisi-torial. Muitos homens e mulheres, de fato, foram queimados, como a francesa Joana DArc (1412-1431) e o monge italiano Giordano Bruno (1548-1600). Ela, uma mulher guerreira, queimada viva com a acusao de bruxaria, e ele, um cientista, queimado, em Roma, sob a acusao de que seus estudos cientficos eram contra a doutrina crist. Na verdade, o que no se queria era correr o risco da perda de privilgios e de poder. 5 Heliocentrismo a descoberta de que o centro do sistema planetrio o sol e no a terra... tudo gira em torno do sol e no da terra...A era do conhecimentoTema | 0125 Com o advento das idades moderna e contempornea, a natureza passa a ser investigada em suas entranhas e seus princpios passam a ser dissecados. Surgem a cincia e a tcnica. Os seres humanos no se submetem mais na-tureza, mas aprendem com ela e a tornam coadjuvante em seu desenvol-vimento. Por fim, chega-se a um mundo em que a natureza dominada. Desenvolvem-se imensas possibilidades de se criar um verdadeiro cu neste planeta. As cincias vo dissecando os mistrios mais profundos de todos os fenmenos e a tcnica instrumentaliza os seres humanos, conferindo-lhes um extraordinrio poder de transformao. As dificuldades so minimizadas sob todos os pontos de vista. As facilidades para se viver cada vez mais e em condi-es cada vez melhores aumentam significativamente.Na contrapartida, surge um paradoxo assustador: jamais houve tanto poder para se resolverem todos os problemas humanos, jamais se construram tan-tas riquezas, jamais foi to possvel fazer deste planeta um lugar to bom para se viver e, contudo, nunca houve tanta violncia, nunca tantos seres humanos passaram tanta fome, nunca houve tanta destruio e morte e jamais houve tantas diferenas quanto ao longo do sculo vinte e vinte e um. Diante disso, preciso fazer-se algumas consideraes que exigiro uma reflexo profunda: a grande maioria das pessoas se relaciona com o seu mundo de forma simples, ingnua, acrtica, imediata, difusa e dogmtica. Isto quer dizer que sua interpretao da realidade marcada por um nvel bem redu-zido de conscincia sobre as verdadeiras razes que movem os acon-tecimentos ao seu redor. Resulta que elas acabam sendo submetidas e manipuladas pelo contexto que as cerca, tornando-se muito pouco su-jeitos de sua prpria histria. Elas percebem os fatos acontecendo, mas sequer se questionam sobre os porqus e tampouco se daro conta dos mecanismos de manipulao dos quais acabam sendo vtimas; Filosoia e Cidadania26 o grande fascnio da humanidade foi e continua sendo o fantsti-co desenvolvimento tecnolgico. O seu resultado se transformou numa parafernlia que encanta homens e mulheres em todas as idades. Ficou muito mais fcil se viver no que diz respeito ao trans-porte, s comunicaes, manuteno da sade e cura de do-enas, alimentao mais saudvel, ao lazer com o aumento do tempo liberado de tarefas antes braais e opressivas, o acesso ao conhecimento e educao etc. Atingiu-se a culminncia da enge-nhosidade humana com o desenvolvimento de uma tecnologia que substitui no somente a mo humana, mas o prprio pensamento humano. A rapidez com que tudo acontece, o ritmo alucinante das mudanas e inovaes, criam um admirvel mundo novo, na ex-presso do escritor ingls Aldous Huxley (1894-1963); entretanto, como explicar os descaminhos pelos quais se embre-nha a humanidade na razo geomtrica em que avana em suas conquistas? O fenmeno da massificao asfixia multides em todo o planeta, num processo de despersonalizao embrutecedora. O consumismo leva as pessoas perda da prpria identidade, em que ter coisas h muito passou a ser mais importante do que ser gente. Tem-se a impresso de que as massas correm desenfreadamente para o vazio do sem sentido, que se manifesta em neuroses, an-siedades, estresses e doenas psicossomticas de todo tipo. As exi-gncias de consumo de bens suprfluos impostos pela seduo da propaganda produzem um ativismo enlouquecedor. preciso tra-balhar cada vez mais para pagar o que se gastou com o que no era necessrio. A ansiedade, que resulta da presso por sempre se gastar mais do que se pode, vai gerando conflitos internos e externos e uma presso desmedida.O processo filogentico6 reproduzido, em pequena escala, pelo proces-so ontogentico. Isso quer dizer que, assim como a humanidade se desenvolveu ao longo de milhes de anos, tendo um longo perodo de infncia pr-histria, 6 Filogenia diz respeito origem e evoluo da humanidade, enquanto ontogenia diz res-peito origem e evoluo do ser humano individual.A era do conhecimentoTema | 0127 antiguidade, idade mdia, de adolescncia idade moderna, e de adultez, idade contempornea, tambm um ser humano individual passa pelas mesmas fases. As-sim como a evoluo de toda a humanidade foi determinada pela forma como foi compreendendo e atuando sobre o mundo, tambm o crescimento individual se dar pela maneira como ele se relaciona com o seu mundo. Assim, cada indivduo vai at onde acredita que pode ir e ter o tamanho de seu pensamento. O que deter-mina grandemente o crescimento ou a estagnao pessoal so as crenas que cada um fixa em sua mente a respeito de seu mundo. Muitos indivduos acreditam que nasceram para sofrer e que vontade de Deus a sua condio de misria e sofrimen-to. Todavia, quando algum desperta e compreende que ningum nasce para sofrer e que a misria no vontade de Deus, ele assume a tarefa histrica da transfor-mao pessoal e coletiva. Passa a estabelecer horizontes ilimitados e vai busca da realizao de seus projetos e propsitos. Portanto, desmistificar e desfazer crenas limitadoras para o prprio crescimento um desafio que se impe a todo ser hu-mano para romper com as amarras internas e externas. Assim como a humanidade foi avanando em seu processo de desenvolvimento, cada ser humano individual precisa compreender que, dentro do contexto em que ele se insere, preciso que cada um seja o sujeito, dono e senhor de sua prpria histria. O ser humano o nico ser que tem a tarefa de arrumar7 o mundo para nele se inserir. Esta a razo pela qual ele busca o conhecimen-to. Vai depender da forma como ele percebe o seu mundo o tanto que ele vai avanar no seu desenvolvimento pessoal e coletivo. O conheci-mento sempre resulta da relao do homem com o mundo. Portanto, preciso assumir uma postura de enfrentamento e de realizao, de forma positiva e esperanosa, para que a sua travessia por este planeta seja marcada por realizaes e conquistas e realizadoras. Voc ter o tamanho do alcance de seu pensamento e ir at aonde voc acredita que poder ir. Pense alto e olhe para o infinito. No haver limites para sua possibilidade de crescimento. 7 Poderia utilizar outro termo?Filosoia e Cidadania28 Assim se apresenta a realidade paradoxal de nosso mundo: um uni-verso de infinitas possibilidades e de aspectos assustadores e ameaadores da prpria condio de sustentabilidade da sobrevivncia do prprio planeta. To-davia, preciso encarar tudo o que se apresenta de forma realista: esse o nosso mundo. Ele no melhor e nem pior do que j foi ou que poder vir a ser. Tudo vai depender de como haveremos de nos posicionar diante do que est posto. Assumir uma postura positiva e decisria frente ao mundo uma necessidade fundamental. Isso quer dizer que precisamos encarar a realidade em sua verda-deira dimenso de fragilidade e de potencialidades. Novamente se nos impe o desafio histrico de minimizar as dificuldades e ampliar as facilidades. Tudo isso resultar da postura e do engajamento de homens e mulheres conscientes, dinmicos, e que acreditam na utopia de um mundo melhor para todos. Isso que representa a postura de cidados a exercer a sua cidadania como um com-promisso tico fundamental. Toda a posio que prenuncia uma terra arrasada precisa ser abandonada e substituda pela esperana construda de que o mun-do transformvel, de que ainda h tempo e que a utopia de um mundo em que caibam todos pode ser transformada em realidade.No prximo assunto trataremos das caractersticas da sociedade em que vivemos. preciso compreender o tipo de sociedade que se apresenta para podermos pensar nos meios para nos inserir nela e nos realizar como seres hu-manos individuais e construir um mundo bom para todos. Verificaremos que se trata de uma sociedade do conhecimento e que o caminho ser a busca inces-sante dos saberes como possibilidade de concretizao da utopia de um novo homem e de uma nova sociedade. Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vdeos, podcast, objetos de aprendizagem e participao do frum de discusso do tema. A era do conhecimentoTema | 0129 ORTEGA Y GASSET, Jos. Meditao da tcnica. Rio de Janeiro: Livro Ibero-Americano, 1963.O filsofo espanhol Jos Ortega Y Gasset faz uma anlise de todo o processo de desenvolvimento da cincia e da tcnica, desde a afirmao inicial de que o ser humano o nico que no recebeu a vida pronta e acabada e que, portan-to, ter que se fazer permanentemente, j que ele o que ainda no . CAPRA, Fritjof. O ponto de mutao: a cincia, a sociedade e a cultura emergente. So Paulo: Cultrix, 2001.Os cientistas de vanguarda da atualidade, como Fritjof Capra, nascido na ustria e radicado nos Estados Unidos, reconhecido como um fsico proemi-nente, tornam-se filsofos na medida em que realizam importantes reflexes sobre sua atividade cientfica. O Ponto de Mutao uma obra que demons-tra o profundo significado da mudana de paradigma cientfico que se estabe-leceu com o advento da fsica quntica e da teoria da relatividade. Filosoia e Cidadania30 1.3 A sociedade aprendenteUm dos mais frgeis e dependentes seres que habitam o planeta o ser humano. Este, porm, que leva muitos anos para crescer e se autono-mizar, recebeu uma potencialidade em desenvolvimento para se preparar e transformar o seu mundo. Mesmo com o declnio de suas foras fsicas, por fora do tempo, seu potencial mental no conhece limites para sua amplia-o e crescimento. O ser humano o nico que precisa ajustar o seu mundo para nele se alojar. Para isso, ele precisa conhecer a realidade circundante. O conhecimento, como fruto e produto da racionalidade humana, est na base do processo de hominizao e de humanizao. O conhecimento assume um significado e uma importncia especiais para a construo do homem e do mundo. Assim, preciso destacar as razes que o colocam como pilar de sustentao de um mundo melhor para todos.O primeiro significado que o conhecimento assume no processo de construo humana est na revelao do desconhecido. Para se inserir no mun-do, preciso conhec-lo. O desconhecido, a princpio, sempre provoca temor e submisso. Na medida em que as luzes se acendem sobre uma realidade, a transformao se torna possvel e o usufruto dos bens da terra se colocam sua disposio. Portanto, quanto mais se conhecem os segredos do universo infinitamente pequeno, mdio e infinitamente grande, tanto mais cresce a pos-sibilidade de se imprimir o jeito humano de ser e de viver em todos os espaos que nos rodeiam.O conhecimento se constitui num direito fundamental de todo ser hu-mano. Aquele que no tem acesso ao saber, mantido em sua condio de cego de esprito, sempre ser reduzido a um mero objeto de controle e de manipulao. Portanto, o conhecimento se transforma num instrumento de libertao huma-na. Quanto mais algum cresce na dimenso do conhecimento, mais se instru-mentaliza para ser dono e senhor de sua prpria histria individual e tambm construtor da histria coletiva. Conhecer a realidade em que vivemos, confere a cada habitante des-te planeta condies de segurana e de firmeza diante da vida e na execuo de seus projetos de transformao. O ser humano s se sente seguro quando conhece. Da ser a superao da ignorncia uma das exigncias fundamentais no processo de desenvolvimento humano. O ser humano precisa assumir o seu A era do conhecimentoTema | 0131 papel transformador. J que o mundo no lhe dado pronto, cabe-lhe modific--lo na perspectiva de sua realizao plena. Isso significa que a condio humana exige a busca do conhecimento para superar suas adversidades e assim desabro-char todas as suas potencialidades.Desta forma, a sociedade aprendente8 elegeu algumas palavras chave como expresso das exigncias da realidade atual: conhecer, fazer, conviver e ser. A insero no contexto scio-econmico sem o conhecimento se tornou algo impossvel. O desafio de aprender se tornou uma exigncia para toda a vida. Os saberes so substitudos por avanos cientficos e tcnicos numa exiguidade de tempo cada vez menor. A premncia pela atualizao se tornou uma constante com aspectos avassaladores. preciso estar sempre apren-dendo, sem jamais parar de buscar novos conhecimentos. Cada qual com a sua capacidade de ler o mundo e sua forma de inteligncia, ter que assumir uma postura de busca permanente de iluminao de sua realidade. No h mais lugar para amadores e a desculpa de que no se sabia no serve mais de libi para resultados negativos. As formas de ler o mundo so mltiplas: do senso comum ao conheci-mento cientfico. O senso comum se constitui dos saberes simples do cotidiano, acrticos, difusos, orais, frutos da experincia do cotidiano. O senso comum a compreenso simples e ingnua com que as pessoas enfrentam o seu dia a dia. Existe muita sabedoria tambm nesta forma de conhecer e viver a realidade cotidiana. desta forma de conhecimento que surgem as grandes questes que desafiam a busca do conhecimento cientfico. Cincia no outra coisa do que senso comum esclarecido. Portanto, o senso comum se constitui num grande comeo para a cincia. Por fim, quando elevado condio de conhecimento vlido pela pesquisas, aprofundamento e comprovao, preciso que os saberes 8 Sociedade aprendente aquela em que o conhecimento assume uma importncia funda-mental para a insero de qualquer ser humano em suas relaes. Aprender uma tarefa para toda a vida...Filosoia e Cidadania32 retornem para o cotidiano da vida das pessoas, na forma de uma disseminao das conquistas cientficas. Os mitos se constituram no grande esforo de explicao do mundo exercido pelas comunidades primitivas. Esse legado nos vem at hoje numa lin-guagem metafrica, simblica e que contem, em germe, a semente dos conheci-mentos que foram evoluindo ao longo dos tempos. O fenmeno da mitificao ainda se apresenta nos dias atuais na forma de manipulao e mascaramento da realidade. Criam-se mitos pessoas, lugares, ideias etc. para apresentar uma realidade fantasiosa que preenche as necessidades das massas carentes de tudo e que transferem para a magia do pensamento a satisfao no atingida na realidade. O risco disso tudo est no fato de que essas carncias tornam as pes-soas presas fceis de entendimentos equivocados da realidade e a manipulao do consumismo e da explorao de povos inteiros. Portanto, enquanto os mitos do passado se constituram em semente do conhecimento moderno, o mundo da cincia e da tcnica deslocou o seu significado e os instrumentalizou como ferramentas de manipulao e de controle. Portanto, preciso aproveitar o que os mitos nos ensinam e desmascarar o que atravs deles nos transmitido sub- liminarmente. O conhecimento religioso, resultante da revelao divina, de acordo com a crena das diferentes religies, projeta o sentido de transcendncia para todos os seres humanos. Apresenta-se uma contradio aparente na medida em que a construo humana resulta do conhecimento cientfico e este fruto da razo. Todavia, preciso compreender que a viso religiosa no projeta o mes-mo objeto da perspectiva cientfica. A primeira confere um significa de infinito ou transcendente e a segunda busca a significao e o controle do finito ou ima-nente. Portanto, o que ambas busca no se contradiz, at porque so conheci-mentos diferentes. Bem colocados em suas tarefas, os conhecimentos religioso e cientfico no coincidem e no so excludentes, mas podem e devem se conciliar tanto na explicao de todas as realidades existentes, quanto na vida concreta de todos os seus habitantes. religio cabe a tarefa de conferir o significado vida humana e cincia cabe explicar o mundo material que nos cerca. Portanto, so objetos diferentes que concorrem para a construo e realizao da condio humana em sua pluridimensionalidade bio-psico-social-espiritual-material. Assim, a construo da utopia de um mundo bom para se viver, um mundo sustentvel, ou um mundo onde caibam todos os seres existentes, resul-A era do conhecimentoTema | 0133 tar da simbiosinergia de toda a teia da vida em que se constitui nosso planeta e todo o universo. Ser atravs da evoluo de todos os saberes e de sua colocao a servio da realizao da utopia de um mundo melhor que uma nova realidade poder emergir.H algum tempo, conseguir um lugar em nossa sociedade, sem o estudo, era algo difcil. Hoje, conseguir sucesso pessoal e profissional, sem o estu-do, quase impossvel. Vivemos em uma era do conhecimento e a sociedade aprendente. Portanto, uma das poucas chances que tem aqueles que no esto includos nesta sociedade por herana atravs da busca do saber. La-mentavelmente, nosso mundo ainda um lugar em que no h lugar para todos. Sendo assim, precisamos buscar conquistar esse lugar. A maneira que est ao nosso alcance, por mais difcil que possa ser, atravs da educao. Cada vez mais, a seleo se far pela competncia. na escola que havere-mos de buscar aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. A Organizao das Naes Unidas (ONU), atravs da UNESCO, seu brao que cuida da educao, cincia e cultura no mundo, ao tentar vislumbrar as prospectivas para o novo milnio, identificou quatro pilares para o sculo XXI: conhecer, fazer, conviver e ser, anteriormente j mencionados.Sempre o conhecimento foi o grande instrumento de transformao do mundo. Desde a realidade primitiva, os seres humanos se hominizaram e se humanizaram atravs do conhecimento. Se j era importante e necessrio conhecer o mundo para nele se inserir de forma mais hominizado e humani-zadora, atualmente muito difcil avanar, seja do ponto de vista individual, quanto do ponto de vista coletivo, sem a ampliao do conhecimento de si e de seu mundo. Estamos na era do conhecimento, por excelncia. Tanto para os indivduos, quanto para os povos, o mais importante caminho de desen-volvimento est na busca do conhecimento. preciso que se invista, cada vez mais, na produo do conhecimento atravs da educao e da pesquisa. Filosoia e Cidadania34 Para muitos, a nica possibilidade de se furar o bloqueio dos mecanismos de excluso social atravs do conhecimento. Portanto, temos que despertar para o esforo individual e coletivo para que todos tenham acesso educao e ao conhecimento. Ao se conseguir acessar os meios formais e informais de crescimento intelectual, preciso que sejam aproveitadas todas as oportuni-dades que se apresentem para que se consiga avanar e conquistar espaos pessoais e profissionais. O segundo pilar sobre o qual haver de se estruturar o desenvolvimento do novo milnio ser o aprender a fazer. Sero as habilidades exigidas por um mundo complexo que precisam ser treinadas. A multiplicidade de reas tcnicas que surgem em um mundo cada vez mais sofisticado exige empenho para a aqui-sio de suas especificidades. Um conhecimento slido precisa vir acompanhado da capacidade de aplicar o que se aprendeu teoricamente. Tanto as escolas quanto o esforo individual precisam concorrer para que cada indivduo possa ser um profissional competente e capaz de responder demanda de um mundo cada vez mais tecnificado e exigente em suas diversidades e complexidades. O mundo dos generalistas foi substitudo pelo mundo dos especialis-tas. Isso representou grandes ganhos e tambm algumas limitaes. Ainda ne-cessitamos de uma massa imensa que se dedicar aos servios gerais. Porm, preciso que haja uma evoluo no que diz respeito valorizao dessas ativida-des que no exigem maior preparo tcnico. Como veremos frente, o labor to necessrio e importante quanto as atividades da alta especializao. Todavia, o mundo precisa aprender a valorizar as atividades que se restringem a esses afa-zeres. A possibilidade maior de avano em um mundo tecnolgico est na espe-cializao para responder s demandas e exigncias atuais. Aprender a fazer a chave maior para a incluso no universo do trabalho cada vez mais exigente em suas especificidades. Todavia, o saber especializado no pode perder de vista o saber holstico, ou seja, a percepo do todo. Por exemplo, um especialista da rea da sade no pode esquecer que estar tratando um ser humano e no ape-nas uma doena. Precisa lembrar que uma doena no apenas uma limitao de um nico rgo do corpo, mas resultado da disfuno da totalidade do or-ganismo que se manifesta em seu ponto mais fraco. A reunificao dos saberes se coloca como uma busca de reintegrao do que se fragmentou em demasia. Dentre os quatro pilares de sustentao do desenvolvimento para o mundo de um novo milnio, o terceiro a ser apontado o aprender a conviver. A era do conhecimentoTema | 0135 Verifica-se um avano tecnolgico que possibilita um mundo de infinitas possi-bilidades ao lado de dificuldades primrias no que diz respeito s relaes entre os seres humanos. Tanto nas relaes interpessoais de nossos espaos cotidia-nos quanto as relaes entre os povos, o que se verifica so dificuldades imensas e que as remete condies rigorosamente primrias e, por vezes, at mesmo a uma verdadeira barbrie humana. Vivemos em um mundo de entredevora-mentos primitivos e incompreensveis diante do maravilhoso potencial humano que se desenvolve na atualidade. Para fazer acontecer o avano para um mundo onde haja lugar para todos e em que todos possam viver em paz, faz-se neces-srio o aprender a conviver. Especialmente a educao precisa se constituir no principal espao e instrumento de convivncia humana. Iniciando-se na famlia e formando-se na escola, a sociedade necessita de homens e mulheres que sai-bam conviver em harmonia, fazendo de todas as diferenas possibilidades de enriquecimento individual e coletivo, com vistas a um mundo bom para se viver para todos os habitantes do planeta. O quarto pilar a ser erigido pela sociedade atual o do ser. O mundo redu-ziu o ser humano somente ao ter. Os direitos fundamentais do ser humano acaba-ram por serem suplantados unicamente pela necessidade de produzir e consumir. O ser humano precisa se desenvolver em seus mltiplas dimenses. Enquanto no houver a possibilidade de um indivduo crescer sob todos os pontos de vista bio-lgico, material, intelectual, social, espiritual, emocional, tico, esttico etc. no existir um ser humano inteiro e feliz. Essa perspectiva da integralidade do ser hu-mano se constituir na grande meta para a qual devero concorrer todas as foras de que se compe a realidade de nossa existncia nesse planeta. H uma afirmao corrente a respeito do mundo em que vivemos no que diz respeito busca de um bom lugar: com o conhecimento j est difcil con-seguir-se um bom lugar, sem o conhecimento impossvel! O que significa essa afirmao e em que medida a sociedade atual a est compreendendo e criando condies para que todos tenha acesso a uma formao humana e profissional de qualidade?Filosoia e Cidadania36 Esse processo de desenvolvimento integral, caracterizando-se uma so-ciedade aprendente, haver de acontecer ao longo de toda a vida. O mundo que se apresenta, em um ritmo vertiginoso de desenvolvimento, exige que as buscas do conhecimento, das habilidades do fazer, do aprender a conviver e da cons-truo do ser, faam-se ao longo de toda a vida. No existe mais a possibilidade de algum pensar que, uma vez formado em algum curso, estar pronto para sempre e que no precisar mais nada fazer para responder s exigncias que se apresentarem. Essas exigncias se modificam a cada instante e respond-las um desafio permanente de atualizao e de renovao. Portanto, os cidados de um novo mundo so e sero cada vez mais homens e mulheres atentos a tudo de novo que, a cada dia, est a se apresentar e a exigir respostas inovadoras. So-mente assim ser possvel inserir-se em uma realidade paradoxal e desafiadora de uma sociedade aprendente.Faremos agora, na sequncia do quarto assunto, uma observao aten-ta da condio em que se apresenta a vida cotidiana dos seres humanos. pre-ciso verificar em que e como os seres humanos ocupam predominantemente os seus dias e se encontram ou no a realizao de seus anseios e necessidades mais primordiais. Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vdeos, podcast, objetos de aprendizagem e na participao do f-rum de discusso sobre o tema. A era do conhecimentoTema | 0137 DELORS, Jacques et al. Educao: um tesouro a descobrir. 5. ed. So Paulo: Cortez, 2001.A UNESCO, rgo da ONU que cuida da educao, cincia e cultura no mun-do, organizou uma comisso de proeminentes da cultura mundial para dis-cutirem as perspectivas de desenvolvimento para o sculo XXI. Coordenada por um ex-ministro das finanas da Frana Jacques Delors prenuncia o conhecimento como a grande fora que far girar a roda da histria neste novo tempo em que vivemos. CAPRA, Fritjof. Sabedoria incomum. So Paulo: Cultrix, 2002.O renomado fsico austraco Fritjof Capra, radicado nos Estados Unidos, es-tabelece uma relao entre os diferentes paradigmas cientficos e os rumos do desenvolvimento de uma perspectiva holstica para os saberes do mundo contemporneo. Filosoia e Cidadania38 1.4 A condio humanaO ser humano o nico que tem que construir a sua vida e ela s avana na medida em que se perseguem metas consideradas, por vezes e de imediato, impossveis e irrealizveis. Nossa utopia a de um mundo bom para se viver. preciso construir uma realidade cada vez melhor para todos. Nossa reflexo filosfica vai percorrer os caminhos na busca da iluminao da utopia de um novo homem e de uma nova sociedade. Haveremos de nos questionar sobre quais aspectos e por quais razes partimos do pressuposto de que o mundo que temos carece urgentemente de mudanas profundas. Buscaremos com-preender que somente uma postura de uma autntica cidadania poder levar realizao de um mundo mais justo e mais equitativo.O ponto de partida de nossa reflexo vai abordar a condio humana, to-mando o pensamento da filsofa alem Hannah Arendt (1906-1975) como fio condutor. A grande novidade da existncia humana se faz pelo fato de algum vir a este mundo e ter que fazer uma travessia realizadora. Sua pas-sagem vai se constituir em uma permanente atividade de transformao de si e de seu mundo, atravs do labor, do trabalho e da ao9. Transitando entre as trs formas de atuao sobre o mundo ou se fixando em uma nica maneira de faz-lo, assim que a condio humana haver de se caracterizar. Sua passagem poder ser realizadora ou, ento, sucumbir em emaranhados de descaminhos desumanizadores e de frustraes. LaborArendt (2007, p.90) inicia a reflexo sobre as atividades humanas dis-tinguindo-as em labor, trabalho e ao. Ao falar do labor, refere-se ao desprezo enraizado j na cultura da antiguidade grega a tudo que exigia esforo fsico. 9 Destaca-se a importncia de se definirem os termos, mesmo quando poderiam ser usados como sinnimos, para conferir um significado especial a um e outro.A era do conhecimentoTema | 0139 Desde ento, para suprir as necessidades bsicas da sobrevivncia, executando tarefas servis, era preciso designar indivduos como escravos, reduzindo-os condio de animais domsticos. Estes, por fora do que realizavam, no pode-riam ser considerados seres humanos. Esta era a condio do labor. Laborar significava ser escravizado pela necessidade, escravido esta inerente s condi-es da vida humana (ARENDT, 2007, p. 94). Para conquistar a liberdade era preciso escravizar outros indivduos para executar as tarefas braais e que eram consideradas indignas de um ser humano. Diferentemente dos tempos moder-nos, em que a escravido tinha como finalidade a busca de mo de obra barata e de lucro, na antiguidade a escravizao significava a tentativa de excluir o labor das condies da vida humana. Tudo o que os homens tinham em comum com as outras formas de vida animal era considerado inumano (ARENDT, 2007, p. 95). O escravo era conhecido como o animal laborans 1510. Mais tarde, na conceituao moderna, as atividades humanas sero divididas segundo Arendt (2007, p. 96 e 98), de forma no menos preconcei-tuosa em trabalho manual e intelectual e trabalho produtivo e improdutivo. O labor movido pelas necessidades imediatas de sobrevivncia. Desta forma, to logo ele realizado, desaparece to depressa quanto o esforo despendido e consumido para execut-lo. Um bom exemplo a atividade do cozinhar. Pron-ta a comida, todos se alimentam e nada mais resta da demorada e cansativa atividade de quem ocupa o espao da cozinha. Incluem-se aqui a gama imensa de atividades conhecidas como de servios gerais, que no exigem maior espe-cializao, que so pouco consideradas e muito pouco valorizadas. Aqueles que as executam, raramente por escolha e satisfao pessoal, mas por necessidade e obrigao, sentem-se envergonhados do que fazem, sua autoestima baixa e sua autoimagem minscula. Nesta condio, questiona-se sobre a possibilida-de de recuperar a cidadania de quem se sente menos e visto como um indiv-duo de segunda categoria. Arendt (2007) destaca, com o advento da teoria marxista, o processo de mudana desta mentalidade que colocava a atividade humana de sobrevivncia (labor) da forma pejorativa como foi caracterizada. De acordo com a viso mar-xista, todo o trabalho resultado da fora humana, produzindo um excedente, isto , alm do necessrio para a sobrevivncia. Enquanto o sentido da vida hu-10 Homo laborans o homem cuja atividade o labor cotidiano, simples, repetitivo, cansa-tivo e pouco valorizado em nossa sociedade.Filosoia e Cidadania40 mana se reduz produo de bens para construir o prprio corpo, desaparecem todas as concepes diferenciadas das atividades humanas. Tudo ser trabalho, independente de sua qualificao e, portanto, precisar ser valorizado equitati-vamente. Se o labor no deixa atrs de si vestgios permanentes, o processo de pensar no deixa coisa alguma tangvel (ARENDT, 2007, p. 101). Mesmo o re-sultado da produo intelectual necessitar das mos para se evidenciar, tanto no que diz respeito ao pensamento em si mesmo, quanto na sua concretizao em uma realidade material. De sorte que, de acordo com a perspectiva marxista, nada justifica a diviso e a hierarquizao das diferentes tarefas humanas em trabalhos mais ou menos nobres.A condio humana individual se dar sempre a partir de um contex-to de mundo pr e ps-existente sua chegada e sua partida. A sua vida se constituir no intervalo de tempo entre o nascimento e a morte (ARENDT, 2007, p. 108). A vida biolgica se dar em um movimento que repete os ciclos predeterminados pela natureza para todos os seres vivos. Dentro deste tempo, o ser humano far acontecer a sua histria. O processo biolgico da vida humana e o crescimento e declnio do mundo se constituem no eterno ciclo da natureza que se repete. neste movimento que se d a atividade do labor, encerrando-se somente com a morte desse organismo. Esta a permanente tarefa denominada labor, prover a subsistncia dos processos vitais, num movimento incessante, can-sativo e repetitivo. o labor humano que busca preservar as condies dos seres vivos mediante o interminvel movimento de crescimento e declnio de tudo o que existe. Manter limpo o mundo e evitar o seu declnio a implacvel tarefa humana. Eis a o seu significado e sua importncia. Portanto, o labor sempre poder ser e ser impregnado do exerccio da cidadania. Por mais simples que seja a atividade humana, ela importante e necessria e quem a executa precisa ser valorizado e dignificado como um cidado.Para se recuperar o significado e a importncia das atividades laboriosas, preciso que se faa acontecer uma profunda mudana de mentalidade. A fora de uma herana histrica e cultural poderosa. O preconceito com relao ao trabalho manual vem da moral dos senhores e dos escravos de Aristteles, na antiguidade grega. Somos herdeiros de uma cultura greco-romana. At hoje, temos profunda-mente enraizada em nossas mentes e coraes a imediata distino valorativa em relao s diferentes atividades humanas. Basta algum se apresentar como exe-cutor de servios gerais e sua apreciao social j se faz espontaneamente depre-A era do conhecimentoTema | 0141 ciativa. Quando, porm, em nossa perspectiva funcionalista, que avalia as pessoas por aquilo que tem e fazem, algum se apresenta como um trabalhador de alta especializao, logo assume um status orgulhoso e, no raras vezes, de arrogncia e prepotncia em relao todas as atividades mais simples e aqueles que as execu-tam. Portanto, estamos diante de um desafio tico que remonta a tempos pretritos e, por isso, de difcil modificao em seus aspectos negativos e preconceituosos. TrabalhoA durabilidade do mundo produzida pelo trabalho. Enquanto o la-bor marcado pela fugacidade das coisas que produz e que duram somente o tempo necessrio para a sua produo e seu consumo, o trabalho fabrica a in-finita variedade de coisas cuja soma total constitui o artifcio humano (AREN-DT, 2007, p. 149). O produto do trabalho so objetos durveis, embora no de forma absoluta. Tambm estes envelhecem e, na medida do tempo, havero de sofrer o desgaste, sero substitudos e acabaro desaparecendo. Sua durabilidade relativa tanto pelo seu uso quanto pelo seu desuso. Se no forem utilizados, sofrero a ao do prprio tempo e, aos poucos, perdero sua consistncia, at sucumbirem e retornarem ao ciclo vital da natureza. O que diferencia o desgaste de um produto do trabalho que a sua finalidade no desaparecer como algo produzido pelo labor, cujo sentido ser consumido imediatamente. Esta condio o torna independente de quem o produz e de quem o utiliza. Ser um objeto em si mesmo, sempre disponvel para sua utilizao por quem quer que seja, conferindo assim certa estabilidade vida humana.Diz Arendt (2007, p. 150), contra a subjetividade dos homens, er-gue-se a objetividade do mundo feito pelos homens. o ser humano arru-mando a casa para nela se instalar. O mundo lhe oferece facilidades e dificul-dades. preciso minimizar as dificuldades e aumentar as facilidades de toda ordem. A natureza precisa ser domada para se ajustar s condies da exis-tncia humana. Assim, ele cria meios para se proteger das intempries, para vencer as distncias, para preservar alimentos, para se vestir, para curar as doenas etc. O mundo natural precisa da artificialidade para se tornar habi-tvel. Isto quer dizer que os produtos do labor so de consumo e os produtos do trabalho so de uso. Filosoia e Cidadania42 Todavia, existe certa similaridade entre o labor e o trabalho no que diz respeito aos seus produtos. Ambos sero consumidos. Uns de forma imediata e outros mais lentamente. Este ltimo, porm, provido de certa reificao, ou seja, mantm a sua durabilidade enquanto cuidado atravs de constante manuteno, podendo ser usado por muito tempo. A universalizao consiste em fabricar algo a partir da matria prima e coloc-lo a servio, como instru-mento, para suprir necessidades humanas especficas. Enquanto o homo labo-rans est submetido natureza, o homo faber aprende com ela, descobre os seus princpios, atua sobre ela e a domina, tornando-se seu senhor. Neste processo de humanizao, ou seja, de impresso das marcas humanas sobre a natureza, sempre haver certa ao destruidora. O homem se serve da natureza para so-breviver e, para isso, acaba exaurindo-a com certa violncia. Trata-se, porm, da fora engenhosa de seus instrumentos, criados para submet-la e coloc-la sob seu domnio. J no se nutre mais com o suor de seu rosto, mas com a soli-dez das ferramentas por ele fabricadas.Outro aspecto da fabricao, apontado por Arendt (2007), refere-se ao modo como se d a criao de instrumentos. O que precede a criao de um instrumento sua concepo mental. Esta, por sua vez, depois que se efetivou a sua realizao, permanece como modelo terico para futuras aplicaes e multi-plicaes. Isto quer dizer que antes de qualquer coisa ser fabricada, ela j existe na forma de uma imagem e permanece depois como um modelo mental para futuras fabricaes. Assim, a caracterstica da fabricao e que a distingue das demais atividades humanas, est no fato de ter um comeo e um fim bem de-finido. Alm disso, outra caracterstica a reversibilidade do processo de produ-o. Alguma coisa que venha a ser fabricada pode perfeitamente ser destruda e, portanto, deixar de existir, de acordo com a vontade do homo faber.11 Assim como o labor, o universo do trabalho tambm se constitui em uma das mais importantes questes a desafiar o mundo contemporneo: de um lado penoso instrumentalizao tecnolgica altamente desenvolvida e sofisti-ca facilitou-se enormemente a condio humana. Todavia, paradoxalmente, na medida em que aumenta a afluncia incomensurvel, em todo o mundo, de uma massa trabalhadora em busca de um bom trabalho, na contrapartida, a tecno-logia libera um contingente proporcionalmente da mesma medida. Resultam, 11 Homo faber o homem que fabrica instrumentos mais durveis e os dissemina para uso de todos e em todos os lugares.A era do conhecimentoTema | 0143 como espao de trabalho ocioso, ou as tarefas simples e desgastantes do labor ou, ento, os espaos da mais alta e seletiva especializao. Restam as questes de ordem econmica, poltica, social e tica: o que haver de fazer profissional-mente essa massa humana, especialmente de jovens, no presente e no futuro que se vislumbra? Enquanto um nmero cada vez maior procura trabalho, a quantidade que liberada ou que sequer tem acesso ao trabalho cresce nas mes-mas propores. AoA construo da cidadania pode ser identificada com a ao humana. O processo de humanizao se faz atravs da temporalidade e da criticidade do homem, isto , quando ele pensa, olha, escuta e age. A atividade humana que Arendt (2007) expressa como sendo a ao aquela que se realiza sempre no universo das relaes, resultando da caracterstica humana fundamental da pluralidade. A ao humana perderia o seu sentido e, sequer existiria, se to-dos os homens fossem iguais. na diferena que surgem as necessidades que produzem os desafios e que levam os indivduos a agir, ou seja, no haveria o discurso e a ao sem a diversidade dos seres humanos. Todos os demais seres que habitam o universo so providos de diferenas mnimas entre os elementos de sua prpria espcie e a comunicao entre eles elementar, resultantes me-ramente de estruturas instintivas e respondendo a condicionamentos. Portanto, as diferenas precisam ser compreendidas e aproveitadas como infinitas possi-bilidades humanas. Um dos maiores desafios do sc. XXI encontrar um bom lugar para todos os seres humanos afluentes no mundo do trabalho, especialmente jovens e adul-tos excludos. O que havero de fazer essas multides, tanto as que no tem acesso educao, quanto aqueles que chegam ao nvel educacional superior, em uma realidade onde os espaos de trabalho diminuem e a afluncia cada vez maior? preciso pensar que no se trata de no haver o que fazer. O mundo est para ser construdo e melhorado. O que importa que tudo o que Filosoia e Cidadania44 precisa ser feito tem que ser valorizado de forma justa e equitativa. Portanto, jamais deixe que entre em sua mente a ideia de que voc no vai conseguir ser bem sucedido porque o mercado est saturado. Ele est saturado para uma realidade de excluso e de injustia social. Todavia, precisamos pensar em um mundo de incluso e onde todos os espaos no sejam produto de um mercado, mas um direito garantido a cada cidado habitante deste planeta. Esta pluralidade humana se manifesta em um profundo sentido de alteridade. Isto quer dizer que o ser humano s existe, de maneira singular, na relao com os outros, expressando-se no discurso e na ao. Um indivduo poderia, em sua existncia, at mesmo decidir no faz-los. Seria uma vida me-docre e pobre. Se ele abrisse mo da comunicao e da ao, estaria colocando em risco a prpria condio humana. Isto equivale a dizer que a sua vida est literalmente morta para o mundo; deixa de ser uma vida humana, uma vez que j no vivida entre os homens (ARENDT, 2007, p. 189). Proferir a palavra e agir corresponde a nascer para a vida e para o mundo. O ser humano como cida-do se define como tal pela sua palavra e pela sua ao. O primeiro nascimento se d por um fato biolgico, ainda restrito a uma condio fsica. O verdadeiro nascimento se dar na medida em que este indivduo cresce e passa a se comu-nicar e a agir, isto quer dizer, apresentar a singular novidade de sua existncia entre os demais seres humanos. Esta ser a expresso maior de sua cidadania. O nascimento se constitui no absolutamente novo e expressa a possi-bilidade do surgimento do imprevisvel e surpreendente, resultando da plura-lidade humana manifestada pelo discurso. O indivduo assume a sua condio humana atravs da ao e do discurso. preciso agir e revelar a ao atravs da palavra. Somente a palavra identifica o autor da ao e este anuncia o que e para quem age. A passividade e o silncio escondem o ser humano. Tanto suas qualidades e seus dons, quanto seus defeitos e limitaes, permanecem ocultos. O prprio ato do homem que abandona seu esconderijo para mostrar quem , para revelar e exibir sua individualidade, j denota coragem e at mesmo ousadia (ARENDT, 2007, p. 199).A era do conhecimentoTema | 0145 Como fazer acontecer esta utopia de uma nova condio humana, ou seja, de homens e mulheres que agem e se comunicam na intensidade de fazedores da histria individual e coletiva, ou seja, como cidados em pleno exerccio de sua cidadania?A expresso maior da cidadania se dar pela ao consciente e livre. O ser humano se far atravs de suas escolhas que se configuram num proje-to realizador e criativo. Essa condio possibilitar a expresso de todo o seu potencial e a concretizao mxima de suas buscas ao longo de sua travessia humana. Somente assim ele se constituir em fazedor de sua histria e sujeito solidrio com a realizao da utopia de um mundo bom para todos os habitantes do planeta. Portanto, labor e trabalho assumiro a verdadeira expresso humana na medida em que forem assumidos com conscincia e liberdade. Todas as ati-vidades humanas podero revelar a condio humana de dignidade e de reali-zao plena quando forem executadas por homens e mulheres sujeitos de sua histria individual e coletiva. Isso quer dizer que, a ao humana brotar do dinamismo consciente e livre de quem faz as suas escolhas, percebe o sentido do que realiza e, assim, se torna participante ativo da construo da utopia de uma realidade melhor para todos. Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vdeos, podcast, objetos de aprendizagem e na participao do f-rum de discusso do tema, na resoluo de problemas com ajuda do profes-sor e dos colegas atravs do chat e e-mails. Filosoia e Cidadania46 ARENDT, Hannah. A condio humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitria, 2007.A filsofa alem Hannah Arendt, de origem judia, transfere-se para os Es-tados Unidos, onde ser reconhecida como uma das grandes pensadoras do sculo XX. Tendo vivenciado a experincia de regimes totalitrios, constri uma filosofia poltica, refletindo sobre a condio humana em tempos de violncia e incertezas. ______. Entre o passado e o futuro. 5. ed. So Paulo: Perspectiva, 2003.Hannah Arendt reflete sobre a possibilidade de recuperar a condio huma-na, a partir do fato mais importante de toda a existncia que o nascimento. A natalidade se apresenta como o que h de mais inovador e que funda a infinita possibilidade de realizao humana. O sculo XXI e ser cada vez mais uma era marcada pelo conhecimento. preciso que sejam atingidas e ultrapassadas todas as fronteiras entre o que conhecemos e o que ainda no se conhece. um desafio individual e coletivo para que se possa ajustar o mundo condio humana plena. As abordagens na leitura do mundo se multiplicaram ao infinito atravs do desenvolvimento das mais diferentes reas dos saberes. filosofia cabe o papel de se dobrar sobre todo o mundo vivido e refletir sobre todas as realidades em busca de sua significao mais profunda. Todo o conhecimento se dar numa relao intensa entre o ser humano e seu mundo. Essa relao que, ao longo dos tem-pos, transitou entre uma atitude de submisso diante da natureza at uma ao predatria e destruidora, precisa voltar a ser uma relao de respeito e de colaborao. O ser humano no poder mais transitar pelo planeta como A era do conhecimentoTema | 0147 se fosse o primeiro, o nico e o ltimo habitante. Muitas geraes j nos an-tecederam e outras tantas ainda havero de chegar. Todos precisam herdar um mundo melhor para se viver e, sobretudo, um mundo onde caibam todos. Assim, a condio humana ter que se constituir na utopia de uma realidade equitativa, justa e solidria, o que equivale a dizer que precisamos construir um novo homem e uma nova sociedade. Todos os habitantes do planeta pre-cisam ocupar os dias de sua travessia de forma realizadora e feliz, seja onde e como desenvolverem sua ao, desde as formas mais simples e laboriosas ao universo dos trabalhos mais sofisticados e altamente especializados. Todos os seres humanos havero de se constituir em donos e senhores de sua prpria histria individual e tambm fazedores da histria coletiva. Filosoia e Cidadania48 O que preciso para que permanea vivo o filsofo que temos dentro de ns?______________________________________________________________________________________________________________________________________________________Como o ser humano primitivo percebia e interpretava sua realidade cir-cundante e que tipo de relao se estabelecia entre ele e seu mundo?______________________________________________________________________________________________________________________________________________________Vivemos em um mundo em que a construo e a conquista do conheci-mento se apresentam como condio sem a qual no haver insero nem individual e tampouco coletiva. Trata-se da era do conhecimento e de uma sociedade aprendente. Precisamos aprender ao longo de toda a vida. Essa afirmao se refere exclusivamente educao formal, realizada em esco-las, ou tambm se compreende a busca de conhecimento como uma pr-tica cotidiana atravs de todos os meios que ampliam nossa capacidade de ver o mundo e atuar sobre ele? Interprete as primeiras afirmaes e responda a pergunta subsequente. ______________________________________________________________________________________________________________________________________________________Seriam os que executam o labor menos felizes do que aqueles que, tendo suprido suas necessidades bsicas, se abrem para um leque imenso de outras necessidades artificiais e de uma sofisticao exuberante?______________________________________________________________________________________________________________________________________________________01020304Verifique no AVA as respostas do exerccio.49 De acordo com a UNESCO, os quatro pilares da Educao para o sculo XXI, so: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Como relacionar esta perspectiva educacional com a disci-plina de Filosofia e Cidadania? Marque a resposta correta:A disciplina de Filosofia e Cidadania se justificam pela lucidez da pers-pectiva da UNESCO com relao educao para o sculo XXI, pois somente uma reflexo crtica sria e um engajamento de cidados re-sultar na utopia de um novo homem e uma nova sociedade.As perspectivas educacionais da UNESCO so utpicas demais para se-rem levadas a srio e serem concretizadas.Uma sociedade aprendente prioriza o conhecimento. Portanto, no pre-ciso relacionar outros valores nessa construo que no seja conhecer.A disciplina de Filosofia e Cidadania tem objetivos que no se relacio-nam com as perspectivas da UNESCO para a educao no novo milnio.A Filosofia e a Cidadania tratam de temas que no se aproximam das perspectivas da UNESCO, preconizadas para o sc. XXI, mas somente de contedos que se referem histria, poltica economia. Na Antiguidade e at o final da Idade Mdia, a nica forma de conheci-mento que englobava todos os saberes humanos era a Filosofia. Identifi-que e marque, nas respostas a seguir, qual delas explica o significado e a importncia da Filosofia no conjunto dos conhecimentos construdos pela humanidade no mundo atual.Com o advento da cincia moderna, a filosofia perdeu completamente o seu espao e seu significado. Tanto verdade que, nos dias de hoje, praticamente, desapareceram os cursos de filosofia e quase no h mais universidades que os ofeream.O espao da Filosofia no conjunto dos conhecimentos construdos pela humanidade o de refletir sobre todas as realidades humanas. Seu papel no mais de ser a detentora de todos os conhecimentos, mas de refletir sobre seu significado. O cientista se pergunta como e o filsofo se pergunta por qu. Isto quer dizer que a filosofia se dobra 05abcde06abVerifique no AVA as respostas do exerccio.Filosoia e Cidadania50 na busca da significao mais profunda de todas as construes hu-manas da atualidade.A Filosofia continua sendo o campo de conhecimento que contm to-dos os saberes humanos. O filsofo assim chamado por ser o amigo da sabedoria. Portanto, sua tarefa ser um especialista que emite ju-zos a respeito do todas as reas do conhecimento humano construdo pela humanidade no mundo contemporneo.Definitivamente, a Filosofia desapareceu diante dos avanos tecnol-gicos do mundo contemporneo. A realidade atual exige a objetividade do mundo cientfico e tcnico e, sobretudo, ningum mais sobrevive s do pensar. preciso agir, ser prtico, produzir e consumir.A Filosofia, diante do enorme desenvolvimento da racionalidade tec-nolgica, perdeu por completo o seu significado e sua importncia. O mundo atual exige que os seres humanos sejam eminentemente prti-cos e se constitui em algo anacrnico pretender ser reflexivo. A transformao do mundo depende da maneira como o ser humano in-terpreta a sua realidade circundante. Ao longo dos milhes de anos da existncia de seres pensantes sobre o planeta, a leitura que foi feita sobre o entorno a ser transformado se fez sob diferentes ticas e perspectivas. O que vem a ser a forma de conhecimento chamada de senso comum?O senso comum uma interpretao cientfica a respeito da realidade, resultado de profundas investigaes dos estudiosos.O senso comum uma verdade religiosa que, como doutrina, pregada para todos os crentes de uma determinada agremiao de f.O senso comum um conhecimento simples, acrtico, difuso, dogmti-co e transmitido oralmente entre as pessoas, sem nenhum aprofunda-mento e busca de fundamentao. Portanto, senso comum, a maneira simples com que as pessoas resolvem seus problemas do cotidiano.O senso comum o sentido atribudo pelos pesquisadores s questes que surgem do universo popular.O senso comum uma forma de conhecimento que se caracteriza pela cdebcdea07Verifique no AVA as respostas do exerccio.51 0908abcdeabsua base cientfica, resultado de um aprofundamento crtico atento e meticuloso. O contexto da sociedade atual se apresenta como um mundo paradoxal, isto , de um lado, uma realidade maravilhosa e cheia de possibilidades, e de outro, um panorama de misrias, violncias, injustias e exploraes de toda ordem. A ideologia que legitima esse estado de coisas pode ser chamada de paradigma tecnolgico. o modelo que vigora em nossa socie-dade globalizada e neoliberal. Tudo isso quer dizer que:Os valores predominantes em nossa sociedade so os da solidariedade, da justia, da liberdade e da aceitao das diferenas.O modelo tecnolgico, excludente e injusto, est a servio da preserva-o da cidadania e do desenvolvimento da utopia de um novo homem e de uma nova sociedade.O potencial tecnolgico que poderia resolver virtualmente todos os problemas humanos est a servio de um desenvolvimento sustentvel em todos os quadrantes do planeta.O modelo socioeconmico que vigora o modelo em que se apregoa a liberdade como valor mximo e a mquina social funciona para excluir multides em todo o mundo, resultando uma realidade de fome e de misrias por todos os cantos do planeta, junto de riquezas imensas nas mos de poucos.O modelo socioeconmico baseado na racionalidade tecnolgica que vigora em todo o mundo atual a nica forma que existe para se pro-mover o desenvolvimento e a justia social, isto , construir-se uma sociedade profundamente humanizada. O que leva o ser humano, o nico ser que no recebeu a vida pronta e acaba-da, a produzir conhecimento ... (completar com a sentena correta).somente a necessidade de concorrer com os adversrios para vencer na competio da existncia de que se compe a sua travessia.apenas a vaidade que lhe inerente como ser competitivo e consumista.Verifique no AVA as respostas do exerccio.Filosoia e Cidadania52 o princpio da acomodao a um mundo que j se lhe apresenta prati-camente completo e no qual h pouco a modificar.a necessidade de ajustar o mundo sua condio humana, dimi-nuindo as dificuldades e aumentando as facilidades e, com isso, criando condies nas quais ele possa viver e se realizar cada vez mais plenamente.por ele ser movida pelo simples diletantismo de alguns indivduos mais curiosos e mais afeitos a uma busca de novos saberes, na satisfao de seus prazeres individuais. A produo do conhecimento sempre resultado das relaes homem-mundo. Isto se explica por que... (complete com a afirmao correta).ela no necessita obrigatoriamente que se estabeleam relaes entre o ser humano e o mundo que o rodeia. Tambm pode surgir desvincula-da da realidade do mundo.no existe conhecimento vlido que no resulte do enfrentamento de problemas que se apresentam na relao com o mundo circundante. Todo conhecimento no outra coisa do que a busca constante de re-solver os desafios de minimizar dificuldades e maximizar facilidades para a existncia humana.o ser humano j recebeu o mundo pronto e acabado. Portanto, nada h que se fazer para que a existncia humana se realize. De sorte que, mesmo que o indivduo se isole de seu mundo, poder evoluir intelectualmente. preciso que o cientista se isole de seu mundo e, de forma alienada, procure em seu prprio pensamento construir saberes e assim se de-senvolver intelectualmente. uma tarefa que se restringe exclusivamente a um exerccio intelectual e que em nada carece de uma relao com o mundo circundante. Uma sociedade movida por uma mquina de excluso tem como conse-quncia as mais graves situaes enfrentadas por uma massa excluda da participao de tudo, como... (completar a sentena).11cdeabcde10Verifique no AVA as respostas do exerccio.53 desemprego em massa, salrios aviltados e aumento da pobreza extrema.oportunidades sociais democratizadas.distribuio de renda equitativa e justa.oportunidades para todos que queiram participar dos bens da terra.a possibilidade de enriquecimento de todo aquele que se empenha, que inteligente e dedicado: enriquecer, nesta sociedade, s uma questo de esforo pessoal. preciso lembrar sempre que nossa grande meta a construo da uto-pia de um novo homem e de uma nova sociedade. A Filosofia que leva grande reflexo e formao de uma conscincia crtica que, por sua vez, fundamentam o exerccio da cidadania transformadora. Todavia, de onde viro os instrumentos que daro origem a essa grande utopia? Pensamos que, inevitavelmente, a educao ter que assumir o seu espao poltico nessa construo por que:Sero os educadores os profissionais que atuam num espao ambguo e que, historicamente, sempre se prestou para reproduzir situaes de controle e de dominao e assim havero de continuar atuando.A educao se constitui num espao neutro e que nada tem a ver com a construo da cidadania de um povo. Sua tarefa a de transmitir conhecimentos e, cumprindo com essa tarefa de forma excelente, o seu papel j estar perfeito de acordo com as necessidades de uma socieda-de mecanicista, individualista e excludente.A educao sempre reproduziu e garantiu os interesses dos grupos pri-vilegiados. Como espelho a refletir e instrumento a reproduzir, im-possvel esperar que ela se contraponha queles que a mantm e ope-racionalizam. a educao o espao, por excelncia, que forma as novas geraes. Portanto, preciso que ela e os profissionais que nela atuam, deem-se conta da ambiguidade do papel que exercem, e optem por transform-lo em instrumento de construo de um novo homem e de uma nova sociedade.12abcdeVerifique no AVA as respostas do exerccio.abcdFilosoia e Cidadania54 Acreditar que a educao poder ser a grande fora social de mudana e de construo de um novo homem e de uma nova sociedade uma iluso. As mudanas sociais no passam pela educao, mas apenas pelos aspectos econmicos e polticos. Verifique no AVA as respostas do exerccio.e55 55 Use a sua criatividade e registre aqui as ideias principais presentes no contedo estudado, buscando construir uma sntese pessoal sobre o tema.03TemaNeste tema, vamos estudar o que a disciplina de Metodologia Cientfica e por que ela importante para a sua formao acadmica e profissional. Como estamos no incio dos conte-dos da disciplina, estudaremos tambm tcnicas e procedimentos para organizao dos estudos e um melhor aproveitamento no estudo de textos. importante destacar que o seu suces-so nos estudos e, consequentemente, profissional, depende apenas de voc, da sua capacidade de ir em frente e de buscar aprender a aprender. Voc perceber que a Metodologia Cientfica vai se tor-nar uma auxiliar fundamental em seus estudos.Objetivos da AprendizagemAo terminar a leitura e as atividades do Tema 1, voc dever ser capaz de: entender a importncia da disci-plina para a formao acadmica e profissional; adotar procedimentos e tcnicas na organizao dos estudos; desenvolver o hbito pela leitura, realizando anlises de texto; praticar as tcnicas de sublinhar, esquematizar, resumir e fichar no estudo de texto.METODOLOGIA CIENTFICA E TCNICAS DE ESTUDO03TemaO segundo tema de Filosofia e Cidadania tratar dos instrumentos que formam as (in)consci-ncias de um povo. Quando mecanismos de ideolo-gizao atuam no sentido de manipular e controlar as massas populacionais, a cidadania lhes negada. preciso que se promovam as defesas necessrias contra o processo de manipulao so-cial. A educao ser sempre uma das principais foras a servio da formao de cidados cons-cientes, dinmicos e comprometidos eticamente.Objetivos da AprendizagemAo terminar a leitura e as atividades do Tema 2, voc dever ser capaz de: identificar os mecanismos de ideo-logizao que impedem a constru-o da cidadania; apontar caminhos e instrumentos de formao de cidados comprometidos e engajados com a utopia de uma reali-dade mais justa e mais equitativa; desenvolver o hbito pela leitura, realizando anlises de texto; demonstrar como tudo a educao, o conhecimento, a religio, a poltica etc. pode se transformar em instru-mentos de ideologizao, a servio da manipulao e do controle social; afirmar a educao como impor-tante instrumento de construo da liberdade e da formao e preserva-o da cidadania.FILOSOFIA E IDEOLOGIA02TemaFilosoia e Cidadania58 2.1 O processo de ideologizaoUma das questes filosficas que se impe no processo de construo da cidadania trata de quando um pensamento se transforma em ideologia. O conceito de ideologia pode ser tomado de duas maneiras: de uma forma sim-ples, em que ela significa apenas o conjunto de ideias, ideais e valores de uma determinada pessoa, de um grupo; de uma forma mais complexa, em que a ide-ologia passa a representar o conjunto de ideias, ideais e valores subjacentes a todo e qualquer movimento histrico, sem que esses contedos apaream de forma explcita. Neste ltimo sentido, com uma forma dissimulada, a ideologia passa a servir como nuvem de fumaa para ofuscar os movimentos histricos, prestando-se como instrumentos de manipulao e de dominao.Assim, tudo pode se transformar em mecanismo de ideologizao: a fi-losofia, a religio, a cincia, a educao, os meios de comunicao etc. preciso que uma reflexo filosfica desmascare os aspectos ideologizantes embutidos em todos os discursos para que se garanta a possibilidade do exerccio da verdadeira cidadania. o ambiente educacional o espao privilegiado de formao, em que se reflete e se reproduz a sociedade que temos. Da mesma forma, ser tambm atravs da educao que poderemos produzir as defesas contra os mecanismos de massi-ficao, de manipulao e de controle, em favor da construo de uma sociedade mais dinmica e mais livre. Para isso, preciso compreender como funcionam esses aparelhos ideolgicos para que se possa educar um povo e garantir a sua cidadania. Veremos como tudo poder ser colocado no desvio de seu verdadeiro significado e objetivos, a cincia, a religio, a poltica, a educao, os meios de comunicao etc. Todo e qualquer processo de movimentao histrica transformadora sempre gerado e impulsionado por foras ideolgicas subjacentes. Entende-se aqui por ideologia o conjunto de ideias, ideais e valores que atuam provocando a mudana. Ocorre que, na maioria das vezes, estes aspectos ideolgicos1 no 1 preciso lembrar sempre que, por trs de qualquer ao humana, existem ideias, ideais e valores pelos quais elas se realizam e que no aparecem claramente para quem no presta muito ateno....Por exemplo: a quem serve a indstria de medicamentos? Est ela a servio da sade ou da acumu-lao do capital dos poderosos grupos que a exploram?!...Filosoia e IdeologiaTema | 0259 aparecem explicitamente e nem sempre so percebidos por aqueles que neles esto envolvidos. Essa falta de clareza pode fazer com que equvocos histricos sejam cometidos e direcionamentos desastrosos sejam tomados. Da a impor-tncia fundamental da compreenso dos aspectos ideolgicos que esto impli-cados no processo de construo da histria.H milhes de anos que existem seres pensantes neste planeta. O pro-cesso evolutivo se fez de acordo com a compreenso que os seres humanos tive-ram a respeito de seu mundo, desde os perodos mais primitivos at o mundo contemporneo. A lenta travessia da humanidade por um mundo fechado em sua perspectiva mgica e submissa diante da natureza, transitando por um raciona-lismo que irrompe com extrema dificuldade, explode finalmente num desenvolvi-mento tecnicista e cientificista exacerbado. O temor do homem primitivo diante da natureza, que obstaculizava a sua vida de todas as maneiras, cede espao para uma natureza conhecida e coadjuvadora. Entretanto, essa descoberta e esse do-mnio da natureza, muitas vezes, transformaram-na em um terreno minado.No passado, o homem dava a tudo uma explicao religiosa. A natureza era sagrada e imutvel e o homem se dobrava, com temor, diante dos deuses e espritos que impregnavam a todos os seres do mundo circundante. Hoje, ele reduz a natureza e o mundo todo a meros objetos, submetidos aos seus capri-chos e interesses predatrios. Nada mais o intimida e diminui o mpeto de seu controle, manipulao e subjugao. Tudo o que tecnicamente realizvel e eco-nomicamente interessante executado inapelavelmente. Com instrumentos po-derosos, produzidos por uma tecnologia cada vez mais sofisticada, nada escapa ferocidade de sua ao devastadora. O homem se transformou em objeto e vtima do mundo que ele mesmo construiu. Submetido agora a novos deuses, erigidos pelas suas prprias mos, a eles se dobra com fascinao e reverncia. a liturgia cientfica que canta hinos de louvor tecnologia moderna como se ela fosse um valor absoluto. Os dogmas desta nova religio so as verdades da cincia. Nada existe e nada se sustenta fora dessa perspectiva. S verdadeiro o que pode ser tocado, experimentado, pesquisado, medido, comprovado e con-sumido. O cientificismo se constitui para o homem moderno na metfora da religio a que se submetia o homem primitivo. Filosoia e Cidadania60 O homem, desbancado de seu lugar de primazia, passa a ser um coadju-vante do moderno mundo da tecnologia. A ela se submete, com ela se satisfaz e em funo dela vive; atravs dela, cria um mundo artificial que, s vezes, acaba se vol-tando contra ele prprio. um terreno minado que pode explodir sobre sua prpria cabea. Jamais o homem conseguiu tanto poder atravs de seu arsenal tecnolgico. Virtualmente, nada mais existe que no possa ser submetido e controlado. Na sua relao com o mundo, tudo a seu tempo, pode ser solucionado. Todavia, paradoxal-mente, o sculo da cincia e da tcnica terminou e j se adianta em um novo milnio sem que se resolvessem os mais graves e primrios problemas da humanidade. Ja-mais houve tanta misria, tantas diferenas sociais e econmicas. Nunca o homem morreu tanto por falta de condies mnimas de sobrevivncia. Alm disso, ele paga um tributo muito caro mega mquina que construiu: morre no trnsito e se mutila no lugar em que trabalha para ganhar o po de cada dia. Essas so as contradies que precisam ser equacionadas pelo homem moderno. O homem moderno se v, de um lado, enredado por tecnologias que ele mesmo criou e, por outro, com a gigantesca tarefa de domestic-las e coloc-las a seu servio, minimizando a sua voracidade. Duas das primeiras contradies a serem desintegradas so os mitos do progresso indefinido e a crena inabalvel na neutralidade cientfica. preciso relativizar e reduzir o nvel de absolutiza-o2 que tais mitos atingiram. O progresso a qualquer preo, possibilitado por meios tecnolgicos cada vez mais sofisticados e poderosos, deixou de ser uma condio humanizadora para se tornar um fim em si mesmo.Do ponto de vista do senso comum, quando se fala em cincia, pensa-se logo nas cincias exatas, tambm denominadas cincias duras, de modo que os modelos de conhecimento cientfico que se impem como ideais absolutos passam a ser a matemtica, a fsica, a qumica, a biologia etc. Este conceito de cincia carrega em seu bojo a convico de que os seus procedimentos, meios e fins, so pautados pela mxima objetividade, pelo rigorismo metodolgico e pela mais absoluta neutralidade. Somente as cincias humanas, tambm deno-minadas cincias moles, so consideradas passveis de relativizao, por causa da natureza de seus contedos e pela postura daqueles que com elas trabalham. Assim, so questionados os historiadores, os estudiosos do comportamento hu-mano, os socilogos e humanistas, mas nunca os que atuam num centro de pes-2 Refere-se crena nas verdades e no poder da cincia e da tcnica como uma nova re-ligio, com seus deuses, sua liturgia, seus tributos e sua adorao...Filosoia e IdeologiaTema | 0261 quisa gentica, de qumica, em um instituto de fsica e matemtica ou em um centro de pesquisas espaciais ou atmicas.Essa perspectiva vulgar contribui para a disseminao da convico de que tudo o que produzido pela tecnologia resultado de processos objetivos, amorais e desvinculados de qualquer contexto em que ela se insere. A acritici-dade, ou seja, a ausncia de crtica ou questionamento, leva a absolutizaes equivocadas e perigosas. Portanto, preciso desmistifcar esse senso comum a respeito da cincia e da tcnica. Isto quer dizer que se faz necessrio compreender que a cincia e a tcnica so profundamente condicionadas pelas circunstncias econmicas, po-lticas, sociais e culturais em que so produzidas. Assim, no podem existir de forma completamente pura e neutra. Elas so sempre realizadas dentro de um contexto que as condicionam poderosamente, ditando seus direcionamen-tos e objetivos e, portanto, colocando-se a servio de quem as financia e manda executar. Tampouco possvel que o cientista e o tcnico se dispam totalmente de sua subjetividade pessoal e de toda e qualquer influncia interna e externa para realizar um trabalho absolutamente imparcial. A objetividade aparente consiste apenas no fato de que o discurso do cientista e a prtica do tcnico no se com-prometem diretamente com ideologias, paixes, subjetividades e juzos de valor. Porm, implicitamente sempre estaro impregnadas de aspectos ideologizantes. A cincia sempre, de um jeito ou de outro, uma interpretao da rea-lidade, vlida at o momento em aparea uma nova percepo dos fatos, luz de outro contexto histrico. A cincia objetiva apenas em sua apresentao for-mal. Por isso, h que se buscar a ideologia subjacente a todo produto cientfico. preciso descobrir em que condies concretas ele se tornou possvel, a quem ele serve e com quais objetivos ele foi construdo. Portanto, entender a cincia e a tcnica como busca de valores absolutos e desinteressados uma compreen-so mtica e consequentemente ingnua.O homem atual est se dando conta muito rapidamente dessas contradi-es inerentes ao processo de desenvolvimento cientfico. Pode-se observar isso pelas crticas que so feitas aos produtos tecnolgicos, at mesmo pelas massas populares. Estes, enquanto beneficiam a vida, tambm apresentam perigos que a ameaam assustadoramente. O homem moderno est se apercebendo dos ris-cos provenientes do envenenamento generalizado causado por agrotxicos, pela poluio do ar e das fontes de gua potvel; est especialmente preocupado com Filosoia e Cidadania62 as mudanas climticas resultantes do superaquecimento do planeta e os con-sequentes fenmenos aterradores que tm acontecido; discute a ambivalncia dos avanos da engenharia gentica, no que diz respeito tica da utilizao de embries humanos para a realizao de procedimentos com clulas tronco; est notando, cada vez mais, o estresse resultante da poluio sonora e visual; no tolera, h muito, as perigosas experincias atmicas que proliferam pelo mundo na forma de usinas fora de controle, armamentos e exploses experimentais que ameaam a vida na terra; toma conscincia, cada vez de forma mais generali-zada, das contradies resultantes de uma farmacopeia que se coloca mais a servio da sade econmica dos laboratrios do que em favor dos benefcios que ela apregoa; sente na pele e teme as consequncias da reduo de elementos das camadas superiores da atmosfera que filtram as radiaes nocivas aos seres vivos. E assim, toda sorte de paradoxos tecnolgicos so percebidos como facas de dois gumes a espreitar e ameaar o homem moderno.Diante dessa realidade, o grande desafio que se impe ajudar o ho-mem de hoje a ampliar, cada vez com mais clareza, a conscincia de si e do mun-do que o rodeia e, sobretudo, a superar as contradies concretas e ideolgicas em que se v mergulhado. Na medida em que o conhecimento cientfico se torna o ponto de partida, o meio e o fim de tudo, preciso recuperar os verdadeiros valores da cincia e da tcnica. preciso que o homem seja recolocado no centro e no comando do sistema global. Isso s ser possvel com o desenvolvimento de uma postura tica na relao consigo mesmo, com os outros seres humanos, com todos os demais seres vivos e com todo o universo que o cerca.Voc compreender mais claramente o processo de ideologizao se obser-var, por exemplo, um programa de televiso, uma novela, um noticirio ou discurso poltico e tentar identificar os valores subjacentes aos contedos veiculados. Observe o que dito e o que mostrado e verifique os conceitos de homem, de mulher, de consumo, de relaes pessoais, de poltica etc. Se voc prestar bem ateno, ser fcil perceber que as maneiras de pensar e de agir do povo so formadas muito mais por aquilo que ingerido homeopa-ticamente sem que os indivduos se deem conta de que esto bebendo o que Filosoia e IdeologiaTema | 0263 outros querem que eles pensem e faam. Comece esse exerccio de analisar criticamente tudo o que lhe passado e voc estar desenvolvendo mecanis-mos de defesa para no se tornar algum alienado, mas um cidado lcido e participativo. Assim como a cincia, tambm a religio pode se transformar em aparelho de ideologizao. No conceito original e simples de ideologia, a religio assume seu papel verdadeiro de transmitir ideias, ideais e valores. a dimenso da f que nos projeta para o infinito e nos confere um significado maior para a travessia huma-na. Assim, todas as religies, em princpio, apresentam valores que conduzem para uma realidade imanente amorosa, solidria, tica e de esperana e apontam tam-bm para a dimenso do transcendente, ou seja, assim como iluminam a travessia terrena, indicam o caminho para a vida futura, na dimenso espiritual. Porm, a melhor das doutrinas religiosas, quando mal apresentada ou mal compreendida, pode se transformar em instrumento de dominao, de alienao e de manipulao. Isso quer dizer que uma doutrina religiosa pode se transformar em instrumento de ideologizao. Em nome de Deus j se comete-ram os maiores absurdos ao longo da histria humana. Mesmo o cristianismo, doutrina de Jesus Cristo, foi utilizada para concentrar poder e riquezas, alm de subjugar e matar muita gente. Talvez poucas instituies se prestam tanto para desvios e manipulaes quanto as instituies religiosas. Assim como, em nome de Deus, a nossa vida adquire um significado maior, tambm se legitimam con-troles e se propagam interpretaes enganosas e escravizadoras.A poltica tambm uma realidade essencial na construo e no exer-ccio da cidadania e que se presta em seus discursos e, sobretudo, em suas pr-ticas, para a explorao de povos inteiros. Assim, um grupo de espertos, aam-barcando os espaos polticos, conduzem-nos em seus prprios benefcios, ao invs de transformar o poder em fora de promoo do bem comum, que o seu verdadeiro significado.Os meios de comunicao social, como formadores de opinio, se pres-tam de um modo muito especial para a ambiguidade da manipulao ideologi-zante. Tudo o que veiculado pode ser maquiado de forma que seja compreen-dido de maneira equivocada. Tudo vai depender dos contedos escolhidos, da como so trabalhados e comunicados e, sobretudo, dos objetivos que sempre Filosoia e Cidadania64 esto por trs de tudo o que disseminado para as massas. Em uma sociedade capitalista, os valores do individualismo e da acumulao das riquezas geral-mente se constituem na mola propulsora dos interesses dos meios de comuni-cao. Assim, tudo usado em proveito dos que detm os meios para mobilizar uma populao inteira em prol de seus prprios interesses. Na antiguidade se dizia que era preciso dar po e circo para a populao. Atualmente, nem mesmo o po se faz necessrio. Basta dar o circo para um povo inconsciente e massifi-cado e quem detm o poder auferir todas as vantagens.Os aparelhos de ideologizao em poder dos donos do mundo tem uma for-a sem medida para fazer a cabea das massas populares. O exemplo mais comum e talvez o mais poderoso a televiso. Ela mostra a realidade e a re-produz. O comportamento do povo direcionado pela mdia. Voc vislumbra alguma possibilidade de fazermos frente a esse poder de manipulao e de controle? Assim, tudo poder se constituir em instrumento de ideologizao. At mesmo a escola e os processos educativos, se no bem clarificados em seus ob-jetivos e prticas pedaggicas, podem se transformar em instrumentos em favor da formao de sujeitos individualistas, gananciosos e preocupados unicamente com seu prprio sucesso. Portanto, preciso sempre ter bem claro os verdadei-ros objetivos subjacentes a todo processo de mobilizao popular. Tanto se pode formar um povo lcido, dinmico, consciente, participativo e solidrio, quanto se pode construir um povo constitudo de uma massa informe, manipulada e controlada em benefcios daqueles que detm o poder.Para que se construa a cidadania preciso desenvolver uma conscin-cia crtica aguada que leve ao compromisso histrico da participao na cons-truo de uma nova realidade, mais justa e mais humana. o que veremos a seguir no prximo assunto. Filosoia e IdeologiaTema | 0265 Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vdeos, podcast, nos objetos de aprendizagem e no frum de discus-so do tema, na busca de respostas para problemas de contedo, por e-mail e no chat. JOHANN, Jorge Renato (org.). Introduo ao mtodo cientfico. 3. ed. Canoas: ULBRA, 2003.O organizador desse livro escreve um dos captulos intitulado Cincia e Ide-ologia, em que explicita todo o processo de construo do conhecimento, desde a Antiguidade at os dias atuais, demonstrando como os mecanismos de ideologizao sempre estiveram presentes, movendo a roda da histria da humanidade.MANHEIM, Karl. Ideologia e utopia. So Paulo: LTC, 1986.Karl Manheim faz a distino entre ideologia total e ideologia parcial. A primeira se refere ideologia como a simples construo de ideias, ideais e valores; a segunda se refere ao processo de mascaramento da realidade, de manipulao e de controle. Aponta a utopia de uma realidade em que, pelo processo de conscientizao, os seres humanos podem se defender dos meca-nismos que os reduzem a meros objetos inconscientes. Filosoia e Cidadania66 2.2 A construo da cidadaniaO escola se apresenta como uma das foras sociais mais importantes no processo de construo da utopia de um novo homem e de uma nova sociedade. As mudanas havero de acontecer atravs da educao. Ser educando e for-mando cidados que teremos um povo fazedor de sua prpria histria. Todavia, como isso se viabilizar se historicamente a escola e os processos educativos sem-pre se prestaram como instrumentos de reproduo da ideologia dominante?A educao brasileira comea com a chegada dos jesutas, em 1549, a partir do momento em que um papa romano declara que ndio era gente. Por-tanto, se os indgenas passaram a ser considerados seres humanos, era preciso salv-los. Isso significava a sua alfabetizao no intuito de serem evangelizados. A educao jesutica se estende por mais de dois sculos, reproduzindo uma ideologia religiosa e, ao mesmo tempo, veiculando a ideologia poltica de uma colonizao predatria da coroa portuguesa. Com a chegada da famlia imperial ao Brasil, em 1808, a educao bra-sileira vai ser promovida significativamente. Porm, o modelo econmico e po-ltico agroexportador engendrado ao longo de todo o perodo colonial, continua durante o perodo imperial, favorecendo os interesses do coronelismo. Tambm a educao se prestar somente como um produto de consumo das elites, ou seja, quem era educado eram os filhos dos donos das grandes fazendas. Assim a educao reproduz a estrutura de classes e a estrutura de poder. Com a substituio do modelo econmico agroexportador coronelis-ta para o modelo industrializado, a partir de 1930, a educao vai ser pensada como uma fora social a servio de uma sociedade urbanizada e industrializa-da. Nesta condio, a educao se constitui num instrumento de formao da fora de trabalho. A culminncia desse modelo de desenvolvimento autnomo, abrangente e de ampla mobilizao poltica e educacional se deu com a proposta da pedagogia do oprimido, de Paulo Freire, no princpio dos anos sessenta. Com a revoluo militar de 1964, o autoritarismo se sobreps socie-dade brasileira de uma maneira violenta, a servio de um modelo de desenvol-vimento econmico associado ao capital multinacional e excludente do ponto de vista social. A educao passa a ser utilizada, a partir de ento, como fora de preparao de mo de obra barata, a servio de um capitalismo concentrador e voraz. Produz-se um verdadeiro apago cultural durante as dcadas de sessenta, Filosoia e IdeologiaTema | 0267 setenta e oitenta. Um povo silenciado e dominado submetido a uma condio de prestador de servios para os grupos multinacionais que aqui se instalaram. A estes no interessava um povo lcido, dinmico e participativo. Impe-se a ideo-logia da excluso e da concentrao de poder e de riquezas. O modelo educacional brasileiro ajustado de acordo com esses objetivos desenvolvimentistas. O resultado de um processo histrico marcado pela hegemonia de grupos dominantes se expressa em uma realidade em que a educao no contemplada re-almente como uma fora social de construo de uma nao livre e independente. Em sua estruturao e em suas prticas revela-se o quanto sua funo de reprodutora de uma situao de dependncia, em detrimento de sua funo formadora da cidadania. Como ter, na educao, um instrumento que venha a ser uma ferramenta, mes-mo que imperfeita, de formao desta realidade tica, se ela s existe enquanto serve a uma sociedade que lhe impe sua maneira de ser e de funcionar? Neste contexto, a escola passa a ser um lugar pouco atraente para a grande maioria dos alunos. Os espaos de aprendizagem no formais so mais atrativos do que ela. Professores com baixa autoestima, pouco valorizados e mal pagos, no conseguem entusiasmar os seus alunos. A prtica pedaggica, dentro do modelo tecnolgico, paradoxalmente tradicional. Pouco ou nada, na escola, chega a despertar mais a motivao e o interesse do aluno do que as possibilidades eletrnicas a que ele tem acesso fora dela. Neste descompasso, o professor sabe e ensina e o aluno no sabe e aprende. O primeiro fala e o segundo escuta. Este ltimo o depositrio de saberes que algum, o professor, transmitir--lhe- e que este dever devolver exatamente como lhe foi transmitido.A avaliao ser medida numericamente por dcimos de pontos. Os instrumentos que avaliam tero um valor absoluto por si mesmo e sero inques-tionveis como forma de determinar a progresso do discente. O que ser ava-liado e mensurado ser rigorosamente a quantidade de informaes que foram apreendidas e reproduzidas de acordo com as exigncias do professor. A prtica educativa constituir-se- na transmisso dos saberes predeterminados em que Filosoia e Cidadania68 se supervalorizam as cincias exatas. As cincias humanas, em que predomi-nam os aspectos da subjetividade, simplesmente so consideradas de segunda categoria e os cursos de quem as procuram como de status menor. Formam-se profissionais frios e calculistas, para os quais s digno de crdito o que pode ser objetivado, mensurado e avaliado do ponto de vista numrico e financeiro. Adaptam-se os indivduos a uma sociedade hierarquiza-da em que, por exemplo, um engenheiro ou um mdico tem muito mais valor do que um pedagogo ou msico. As profisses de alta tecnologia so para aqueles mais bem preparados e que necessria e fatalmente sero os mais bem sucedi-dos. As cincias humanas so para aqueles que no tiveram competncia para disputar um concurso mais difcil e, portanto, havero de ser sempre em manti-dos em tarefas menos importantes e muito mal pagas.O comportamento do aluno ser determinado por normas rgidas, em que ele dever controlar as suas emoes, a sua imaginao, a sua sensibilidade e a sua afetividade (BERTRAND; VALOIS, 2005, p. 101). O aluno ser conside-rado um nmero e como tal ele dever se ajustar aos padres e normas aceitos pela maioria. Sua histria, sua carga emocional e suas caractersticas individuais precisam se diluir no nivelamento grupal. O aluno ter que se conformar s ex-pectativas da famlia, da sociedade do entorno e responder s leis do mercado.A pretensa neutralidade cientfica, apregoada pelo paradigma tecnolgico, no existe. Sempre que se constri o conhecimento, esta construo teleolgica. Isto quer dizer que sempre a tarefa do cientista condicionada pelos interesses de quem a financia e sempre haver interesses em jogo. Toda prtica cientfica est im-pregnada dos valores do contexto em que ela se realiza. Mesmo que um profissional da educao que atue dentro de e a partir de um paradigma tecnolgico, industrial e racional, afirme a sua desvinculao de qualquer tipo de valores, estar implicita-mente fazendo uma opo pela defesa da situao dominante.De acordo com o paradigma tecnolgico3, os critrios para o di-recionamento das pesquisas cientficas so determinados pelos ganhos finan-ceiros futuros e tm que ser levados adiante de qualquer jeito. A disseminao desta perspectiva desenvolve um senso comum de que tudo o que produzido pela tecnologia resultado de processos objetivos, amorais e desvinculados de 3 Paradigma tecnolgico o modelo de sociedade que se expressa na supervalorizao de tudo o que cientfico e tcnico , em funo de interesses econmicos imediatos a serem atingidos incondicionalmente, ou seja, a qualquer custo, mesmo que sejam prejuzos humanos e naturais.Filosoia e IdeologiaTema | 0269 qualquer contexto em que ela se insere. preciso que se faa urgentemente uma cincia da cincia, isto , uma profunda reflexo tica que lhe devolva seu verdadeiro significado a servio de um desenvolvimento sustentvel.Mudana de ParadigmaA educao aparecer como uma possibilidade para que se construa um novo milnio de acordo com as exigncias da dignificao humana. A aprendi-zagem se apresentar como um direito e a educao como um dever para todos os membros de uma sociedade. O progresso possvel para a sociedade mundial se far se a educao for colocada como a grande ferramenta construtora desta realidade. Este processo educativo, tanto formal, quanto informal, entendido tanto como dever quanto como direito de todos os seres humanos, haver de se estender por toda a vida. Existir como ser humana haver de ser, daqui para frente, um esforo contnuo de se educar.Neste contexto atual, Baptista (2005, p. 62) reafirma a importncia e o significado da presena do professor como um agente especial desta construo permanente, diz ela: os professores faro a diferena. O mundo incomensu-rvel das informaes poder passar atravs das modernas tecnologias de co-municao, mas estas no podero substituir a dimensionalidade do afeto e das trocas atravs das experincias vividas. A educao haver de acontecer de fato no universo das relaes que se estabelecem cotidianamente entre todos os en-volvidos no processo educativo. Baptista (2005, p. 63) conclui que a autoridade pedaggica do educador est na sua atitude e na sua presena fsica. O lugar da escola ser o lugar em que todas as vivncias so experincias entre pessoas vivas e atuantes, que se alegram, que sofrem, que vivem conflitos, que expe-rienciam sucessos e onde tambm tero que administrar resultados negativos, com tudo o que esta convivncia representa de possibilidades e de dificuldades. E neste palco, o professor aparecer como um dos atores principais e como um grande ponto de referncia. Esta condio implicar a exigncia de uma postura tica fundamental.Uma exigncia que brota deste contexto de uma sociedade aprendente o compromisso que a escola ter de se abrir para todos os demais participantes desta sociedade. Impe-se escola a exigncia tica de se transformar sempre mais em uma instituio inclusiva, onde cabero pessoas de todas as idades e de Filosoia e Cidadania70 todas as condies. Ir ao encontro da famlia como parceira de todo o processo educativo ser um desafio especial. A escola, na perspectiva de Baptista (2005, p. 70), haver de aproveitar o capital social que as comunidades apresentam e aprender a se utilizar deste potencial de ajuda de forma efetiva. Vivemos em um mundo plural, marcado por diferenas de toda ordem. Por se tratar de um mundo globalizado, em que no h mais barreiras fsicas e culturais que possam ainda manter guetos isolados, precisamos aprender a conviver e construirmos juntos um mundo bom para todos. Essa tarefa resul-tar da cidadania exercida por todos os habitantes do planeta. Todavia, ser cidado no uma prerrogativa com a qual j nascemos. Temos que formar um cidado. A cidadania ser um valor aprendido na famlia, na escola e atra-vs de todos os meios informais de educao. Aprender a conviver um dos principais desafios do mundo contemporneo. A humanidade evoluiu fan-tasticamente do ponto de vista tecnolgico e ainda se mantm numa barbrie assustadora no que diz respeito ao convvio com as diferenas. S amamos aqueles que nos querem bem. Precisamos aprender a conviver com tudo e com todos, mesmo sendo muito diferentes, considerando as diferenas como infinitas possibilidades de crescimento. Esse um exerccio para ser feito em todos os momentos de nossa vida. Somente assim haveremos de expressar a cidadania atravs de comportamentos amorosos, solidrios e acolhedores. Esta tarefa histrica do educador inclusivo pautar sua prtica em al-guns pressupostos fundamentais. O primeiro deles o da perfectibilidade huma-na. Todo ser humano educvel. Na linguagem de Freire (2001), haveremos de transitar entre a ameaa do fatalismo de que nada possvel fazer e a esperana renovada de que, apesar de todas as dificuldades, possvel avanar. Baptista (2005, p. 79) fala da obstinao didtica e da tolerncia pedaggica. A pacincia corajosa do educador no se confunde com o conformismo, a acomodao e a indiferena. Ser educador conviver diariamente com respostas negativas dos alunos, ver seus esforos muitas vezes mal compreendidos e verificar resultados Filosoia e IdeologiaTema | 0271 sofrveis. Ser natural, na mente e no corao do mestre, o sentimento de rejei-o e de revide. Porm, aqui se impe a vigilncia tica de lembrar sempre que ele um educador e que se impe permanentemente o esforo de se sobrepor a todos os dissabores com maturidade. indiferena e resistncia cabem postu-ras firmes e serenas. Lanar a semente em terra rida muitas vezes ser a marca da tarefa de um profissional da educao. Somente um profundo sentimento tico o manter sereno e equilibrado diante dos desafios que se apresentam. Nas palavras de Freire (2001), esta postura tica do educador exige dele o exerccio pessoal de desenvolver e manter uma atitude positiva e deci-sria frente vida. A esperana de que os seres humanos e o mundo so trans-formveis no poder arrefecer na tarefa cotidiana de um educador. Somos positivos no por ingenuidade ou por acreditarmos que tudo possa se resolver por um toque de mgica. Seremos homens e mulheres positivos e esperano-sos exatamente porquanto compreendemos que os desafios so permanentes e que as dificuldades estaro continuamente a se interpor em nossos caminhos. A educao e os educadores podem muito, mas no podem tudo. Esta conscincia propiciar a to necessria serenidade e certeza de que, apesar de muitos desen-cantos, poderemos continuar a semeadura em todo tipo de terreno, do mais fr-til ao mais rido, escorregadio e arenoso. Os frutos aparecero em quantidades por vezes surpreendentes e de onde menos se espera. conhecido, no ciclo biolgico das guias, o momento em que os filho-tes so empurrados pela me para o precipcio para que aprendam a voar. um momento doloroso e difcil para ela. Os filhotes ainda nunca voaram. Porm, se no correrem o risco de despencar, com certeza jamais se soltaro e saltaro para as alturas. a isso que Baptista (2005, p. 84) se refere quando fala do dever de antecedncia. na proximidade e na relao simbitica4 com o educando que se desenvolve a aprendizagem e acontece o processo educativo. A prtica educativa exige o exerccio da aventura para o desconhecido. Partindo de pontos de referncia que nos do a segurana necessria atravs de experincias j vividas, saltar no vazio do novo far parte de prtica cotidiana de um educador. A fidelidade a uma herana cultural no significa um atrelamento passivo a um passado anacrnico. Os valores recebidos so atualizados e refor-ados por uma nova interpretao crtica e criativa. Promover e estimular este 4 Relao simbitica uma profunda aproximao emptica , solidria e de cumplicidade com o educando para fazer acontecer o processo educativo.Filosoia e Cidadania72 discernimento responsvel constitui-se em um imperativo tico fundamental que cabe tarefa educativa. A vigilncia tica da prtica educativa haver de evitar o processo de domesticao e de endoutrinamento, no dizer de Baptista (2005, p. 88).Um professor forma atravs dos prprios valores. Antes de tudo, ele prprio ser um modelo. Mais do que suas palavras, ser a sua postura tica o prin-cipal modelador de valores para seus alunos. Por mais que se multipliquem os modelos impostos por uma sociedade pluralista e paradoxal, o professor haver de se lembrar que a sua presena imprime marcas muitas vezes inde-lveis nas mentes e nos coraes daqueles a quem ele atinge em seu espao especial de atuao.Diz Baptista (2005, p. 93) que educar entusiasmar, encher de espe-rana, alegrar dias de descoberta, animar fomes novas, despertar desejos. Mas educar tambm contrariar, constranger e desagradar. Isto quer dizer que ser professor implica tambm o exerccio da autoridade. Exercer a sua autoridade no significa sucumbir em um autoritarismo, fruto de arrogncia e de inseguran-a. O educando necessita do balizamento seguro de quem indica os caminhos que podem e os que no podem ser seguidos. A contrariedade e a frustrao muitas vezes faro parte de nossas vidas. Lidar com situaes que nos impem limites condio de amadurecimento. Para isso, o professor ter que definir com clareza as regras que determinam o caminho a ser percorrido. A compreenso dos por-qus das exigncias pedaggicas legitima o consenso em torno de sua anuncia e acatamento. Nenhum tipo de proximidade afetiva com os alunos pode represen-tar um afrouxamento de parmetros seguros para uma convivncia enriquecedo-ra. A educao se dar na medida exata da firmeza e ao mesmo tempo da ternura com que os educadores se movimentarem em seu meio pedaggico.A coerncia entre o discurso e ao exige que a escola seja por exceln-cia um laboratrio dos valores democrticos. A escola, como um dos primeiros e principais espaos de socializao, haver de introduzir o educando nas primei-ras experincias democrticas de participao da vida coletiva. Filosoia e IdeologiaTema | 0273 Os valores da cidadania se aprendem na escola. Todo o processo de gesto escolar acontecer como resultado da consensualidade. Uma organiza-o tica ser resultado de uma gesto marcada pela responsabilidade e pelo compromisso individual e coletivo. O espao da escola ter como vocao evo-luir para a condio de uma verdadeira comunidade. Diz Baptista (2005, p. 101) que as escolas tm que ser lugares de hospitalidade, de reconhecimento, de proximidade e de encontro. Um projeto de gesto tem como desafio fazer de tudo para que sejam criados lugares de proximidade e de partilha na comuni-dade escolar. Assim Baptista (2005) resume os princpios de uma gesto tica da escola: compromisso incondicional com a educabilidade de todas as pesso-as: todos os envolvidos no processo educativo so conclamados a assumir uma postura de f incondicional na possibilidade de todos os educandos avanarem em seu crescimento. Por certo, as diferenas, as dificuldades e as limitaes e at mesmo as ne-cessidades especiais de alguns, representaro desafios ingentes. Contudo, quem pretende ser educador partir do princpio de que haver avanos na medida de cada um dos educandos. Uma expectativa negativa em relao a um s dos educandos, ou em relao a um grupo todo, um determinante danoso e fatal no desenvolvimento da relao educativa. Pensar que algum limi-tado demais para crescer rotul-lo e decretar, por antecipao, o seu fracasso como ser humano; reconhecimento da centralidade do humano em todas as dimenses da vida organizacional: no obstante todas as limitaes materiais de uma instituio educativa, acreditar na possibilidade de fazer acontecer a ao educativa um pressuposto necessrio. Quantas vezes, em escolas providas das mais invejveis condies de infra--estrutura, os resultados nem sempre so condizentes com aquilo que seria de se esperar em condies to favorveis. Por outro lado, quantas vezes, de condies precrias, onde as carncias de toda ordem se impem dolorosamente, produzem-se resultados educativos surpreendentes. Isto se entende porque nada substi-tui o fator humano. das pessoas envolvidas no processo, com suas motivaes e atitudes de empenho, que resultam as conquis-tas mais significativas. Portanto, sob todos os aspectos, antes de Filosoia e Cidadania74 qualquer outro componente do processo educativo, sero os seres humanos que havero de ter a precedncia e o fator humano ser o determinante maior de seus resultados; defesa do primado dos critrios pedaggicos sobre os critrios de or-dem financeira ou administrativa: infelizmente, em uma sociedade capitalista, a precedncia na ordem dos valores que norteiam as aes educativas e pedaggicas so os valores materiais e finan-ceiros que predominam. Em outras palavras, a escola se tornou um bom negcio em nossa sociedade, onde o lucro acaba sendo o supremo escopo de toda atividade humana. O prprio ser hu-mano reduzido a sua capacidade de produzir e consumir. Em uma sociedade do ter, o ser retirado de seu lugar de original grandeza. Isto se manifesta nos mais variados momentos da vida da escola, da estrutura curricular ao processo de avaliao, das relaes interpessoais s escolhas e decises administrativas; valorizao da escola como laboratrio de democracia: a busca de aproximao entre educao e tica inclui a substituio da auto-cracia pela participao de todos os componentes do espao edu-cativo. No haver melhor lugar do que uma escola para o exer-ccio da participao e da responsabilidade individual e coletiva. Esta experincia se dar desde a postura diretiva compartilhada at o envolvimento de todos os educandos no assumir de todas as tarefas que dizem respeito ao dia a dia da escola; nfase no componente axiolgico dos projetos educativos: todos os projetos educacionais enfatizaro os valores que os nortearo. O sentido de direo condio fundamental do sucesso de qual-quer iniciativa dentro da escola. Esta direo evidenciar uma grande e significativa razo de crescimento para todos os envol-vidos no projeto. Fazer por fazer, sem um porqu que lhe confere um significado relevante, na maioria das vezes, ser algo desmo-tivador e incuo. A razo da existncia da escola estar bem clara para todos. Esta razo ser definida em valores que a tornem uma grande motivao para se viver e para lutar pela sua consecuo; concepo da escola como comunidade estruturada em torno de va-lores, relacionamentos e ideais: estes valores estaro expressos no projeto pedaggico. Ocorre que, em nossas escolas, um projeto pedaggico geralmente existe por ser uma exigncia legal at Filosoia e IdeologiaTema | 0275 mesmo para seu credenciamento. Entretanto, no passa de um documento arquivado junto aos demais papis que compem o acervo burocrtico da autorizao de seu funcionamento. Um projeto pedaggico que clarifique e identifique uma comunidade estruturada em torno de valores e ideais, haver de ser um baliza-mento vivo e presente nas aes e nas prticas cotidianas de todos os que compem o corpo escolar; entendimento da escola como instituio aprendente, prospectiva-mente orientada por uma tica do futuro, do bem comum, da solida-riedade, da paz, da esperana e da justia: este entendimento re-sume todo o significado maior da existncia de uma instituio educativa que pretenda aproximar a educao tica. Um espao especificamente organizado para a construo do conhecimento e da vida de cidados ser orientado por uma perspectiva que apon-ta para a utopia de um amanh melhor para todos.Baptista (2005) reconhece no plano curricular um campo privilegiado para o exerccio do compromisso tico e moral dos professores e elenca uma s-rie de prticas que o viabilizam: estimular a curiosidade e o esprito crtico dos alunos; prestar ateno nas necessidades educativas especiais; propiciar acesso a recursos de aprendizagem; acreditar no sucesso educativo de todos os alunos; buscar meios para atualizao das competncias pedaggicas; inscrever a tica como contedo obrigatrio dos cursos de formao de professores. Muitas vezes a prtica pedaggica de muitos profissionais deixa de ser verdadeiramente uma experincia educativa por no perceberem ou compreenderem o que efetiva-mente se espera deles. Quando se fala de exigncias ticas, estes no conseguem relacionar a sua prtica especfica como professores desta ou daquela disciplina com os valores que precisam impregnar a sua presena em sala de aula. Assim, o discurso monolgico acaba embotando e silenciando toda a curiosidade, cria-tividade e criticidade dos alunos; tendo como desculpa a sobrecarga de trabalho e o grande nmero de alunos a serem atendidos, no se presta ateno para as necessidades e idiossincrasias dos que esto sua frente; os recursos tecnol-gicos para uma melhoria na aprendizagem no so manuseados por falta de treinamento ou por simples acomodao; a busca de aperfeioamento pedag-gico no acontece pela carncia de oportunidade, por falta de tempo ou simples-mente por desinteresse de quem deveria busc-los. Assim se repetem durante Filosoia e Cidadania76 anos os esquemas amarelecidos e repetidos exausto, sem nada acrescentar de estimulante e inovador; a tica como um tema a ser proposto continuamente na vida e nos espaos profissionais dos educadores, fica relegada a um mero assunto de discursos para momentos especiais de cultos ou de cerimnia de formatura.Por tudo que foi refletido, possvel perceber que a educao ser tan-to mais efetiva quanto mais se aproximar da tico, expressando-se em engaja-mento e comprometimento concretos com as suas exigncias. De acordo com o rumo que a reflexo tomou at aqui, uma educao desvinculada da tica e da moral sempre resultar numa prtica incompleta. A sua misso ser a cons-truo de um novo homem e de uma nova sociedade. Para que isto acontea, supe-se que os profissionais da educao compreendam e assumam cada vez mais o seu papel de construtores desta utopia da esperana.A aproximao entre a educao e a tica como princpio fundamental da cidadania afirmada por Freire (2002, p. 36) de forma explcita em sua obra Pedagogia da Autonomia, ao dizer que a prtica educativa tem de ser, em si, um testemunho rigoroso de decncia.... O conceito freiriano de educao inclui o processo de conscientizao. Para ele, educar ultrapassar os nveis de uma conscincia intransitiva, isto , fechada em si mesma, sem pensar, sem ver, sem ouvir e sem falar; de uma cons-cincia transitiva ingnua, isto , que pensa, v, ouve e at fala, mas que se aco-moda; para constituir-se em uma conscincia transitiva crtica, que pensa, v, ouve, fala e assume o seu fazer cotidiano de libertao pessoal e coletiva. Esta prtica ser uma tarefa essencialmente tica. Aqui o autor distingue o educar do mero treinamento. No se pode re-duzir o processo educativo mera transmisso de informaes e de aquisio de algumas habilidades tcnicas. Os contedos e exerccios prticos tambm sero importantes e necessrios. Eles fazem parte importante do processo de ensino e aprendizagem. Porm, um contedo programtico no pode ser desvinculado da formao dos valores que estruturaro uma personalidade humana. Esta vinculao da educao tica explicitada por Freire (2002) vai ao encontro das preocupaes evidenciadas por Arendt (2007) a respeito das ambiguidades do desenvolvimento cientfico e tecnolgico do mundo moder-no. Os aspectos desumanizadores inerentes ao seu uso equivocado podero ser minimizados por uma prtica orientada por uma dimenso tica. Tambm Filosoia e IdeologiaTema | 0277 coincide com o pensamento de Ricoeur (1991), ao falar do pensar bem como condio educativa. As expresses que Freire utiliza so pensar certo e pensar errado (2002, p.37). O pensar certo se dar na medida em que o educador abandona uma postura dogmtica a respeito de uma interpretao do mundo e de suas coisas. Freire defende assim o princpio da pluralidade de pensamento, da hu-mildade de quem sabe mudar de ideia e assumir uma nova postura, a relativi-dade do mundo e dos fatos, a necessidade de dialogar e aceitar o pensamento de outrem e a coerncia de quem aberto, receptivo, acolhedor e sabe assumir a exigncia de mudana. Tudo isso se constitui na construo de princpios ticos na prtica educativa. Do ponto de vista do pensar certo no possvel mudar e fazer de conta que no mudou. que todo pensar certo radicalmente coerente (FREIRE, 2002, p. 37).At aqui vimos o quanto preciso buscar instrumentos que viabilizem uma construo de um novo homem e de uma nova sociedade. preciso, so-bretudo, evitar todos os descaminhos cujos resultados sempre conduzem para equvocos de graves consequncias. Na sequncia de nosso estudo, veremos o quanto a cincia e a tcnica precisam ser colocadas a servio da vida e no da morte. Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vdeos, podcast, objetos de aprendizagem e a participao no frum de discusso do tema, perguntando por e-mail a respeito do que voc tem dvidas e no chat, conversando com o professor e com os colegas. IMBERT, Francis. A Questo da tica no campo educativo. 2. ed. Petrpolis: Vozes, 2002.Filosoia e Cidadania78 O educador francs Francis Imbert preconiza uma profunda inquietao tica como a fonte mobilizadora de comportamentos comprometidos e engajados eticamente. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. 22. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.Paulo Freire, um dos mais importantes educadores do sculo XX, brasi-leiro, nordestino, prope uma educao como prtica da liberdade como instrumento maior de formao de homens e mulheres sujeitos de sua prpria histria individual e coletiva. Esse processo educativo se impreg-nado profundamente por valores ticos que promovam a autonomia e a dignificao de todos os seres humanos. Filosoia e IdeologiaTema | 0279 2.3 O conhecimento e valoresUma reflexo sobre o conhecimento acena necessariamente para o fato de que j no mais possvel falar em cincia como verdade absoluta e neutra, como pretende o paradigma tecnolgico. O que existe no mundo das cincias so prticas que tm, como agentes, seres humanos carregados de subjetivida-de. E, alm da intencionalidade dos sujeitos dessas prticas, existe toda uma poltica cientfica como fator externo a condicionar a busca do conhecimento. Para clarificar a questo da objetividade cientfica, preciso refletir sobre o que possa vir a ser uma postura sria e honesta por parte dos construtores da cin-cia, como condio de prtica de liberdade e da promoo da cidadania.A autntica atitude de um cientista, comprometida com a busca sincera da objetividade na cincia, exige que ele assuma uma posio eminente-mente crtica em relao ao campo de trabalho e aos mtodos utilizados. preciso que ele se questione sobre a cientificidade e a objetividade de sua disciplina. necessria uma verdadeira prxis cientfica, na qual a prtica acompanhada de uma profunda reflexo em torno da disciplina cien-tfica e seus mtodos. No se pode colocar a atividade do cientista como algo sagrado. Ao contrrio, ela deve ser encarada como outra atividade qualquer. Como tal est sujeita a todo tipo de influncias, como a ao de ideologias, juzos de valor, dogmatismos5 e autoritarismos.A reflexo crtica honesta leva percepo da cincia como um pro-cesso. O conhecimento como algo rgido e acabado deve dar lugar a uma cons-truo permanentemente inconclusa e aberta. A condio para que a cincia avance que o saber cientfico seja assumido sempre de forma criticizada e temporalizada6, sendo continuamente questionado e reformulado. O dogma-5 Dogmatismo a rigidez de ideias que, de simples opinies, so transformadas em ver-dades absolutas e indiscutveis.6 Temporalidade e criticidade so as condies da travessia humana. A histria do ser hu-Filosoia e Cidadania80 tismo cientfico a negao da prpria cincia. No momento em que um conhe-cimento absolutizado como algo indiscutvel, eterno e imutvel, deixa de ser cincia para se tornar um dogma. A produo cientfica nunca pode perder o seu carter de verdade provisria. Como ela resulta de um contexto histrico-social, seu contedo tambm eminentemente marcado pela historicidade. Disso re-sulta que tudo objeto de discusso. Como no existem critrios de objetividade absoluta, o melhor critrio ser a postura permanentemente crtica do cientista. Para o universo da cincia, a absolutizao7 de uma teoria constitui--se em uma atitude extremamente limitadora. No existe uma concepo cient-fica que possa se arvorar a prerrogativa e a posio de verdade absoluta. Geral-mente este tipo de dogmatizao feito por quem desconhece uma globalidade cientfica e, como fruto de sua insegurana, precisa se apoiar naquilo que adqui-riu como esteio para no cair. A negao, a priori, daquilo que no se conhece uma atitude to anticientfica quanto a aceitao ingnua e simplista de tudo o que apresentado sem comprovao. O medo do desconhecido algo que emperra e impossibilita o avano das descobertas cientficas. O preconceito uma das atitudes mais odiosas verdadeira cincia. Somente a serenidade de quem admite um pluralismo de concepes poder levar aproximao cada vez maior da objetividade cientfica.A apreenso de um fato de forma absolutamente objetiva no existe. O que se consegue uma objetividade carregada de critrios subjetivos. A apreenso deste fato ser sempre uma aproximao a partir de uma determinada tica. Todo aquele que quiser ficar imune a qualquer juzo de valor, j estar valorando quan-do tomar esta deciso. Em toda investigao cientfica, desde a escolha do tema, a seleo da maneira de fazer a abordagem, o desenvolvimento da pesquisa at a sua aplicao prtica, existiro fatalmente pressupostos baseados em juzos de valor. A objetividade ser sempre aproximada. Diante da impossibilidade de uma objetividade absoluta, torna-se ne-cessrio que o cientista se posicione permanentemente de forma crtica em re-lao ao seu trabalho. Uma aproximao cada vez maior da objetividade advir de seu esforo consciente de se proteger da deturpao ideolgica dos fatos em mano acontece no mundo, dentro das dimenses do tempo e do espao. Porm, preciso que ele tenha conscincia e se situe neste mundo de forma ativa e dinmica...7 Absolutizao de uma teoria transform-la em verdade absoluta e irremovvel. Nada mais poder ser questionado e tampouco modificado. nisso que se expressa o dogmatismo cient-fico que entrava o desenvolvimento da cincia.Filosoia e IdeologiaTema | 0281 favor de determinados interesses, clarificando para si mesmo os valores para os quais luta e trabalha. Isso ser muito mais fcil de ser realizado quando feito em conjunto, ou seja, quando, como parmetro da cientificidade, for tomada a crtica mtua entre aqueles que trabalham na pesquisa cientfica. Para isso, preciso que haja uma boa dose de humildade, abertura e desprendimento por parte dos pesquisadores. Um grande cientista humilde e sabe o quanto no sabe. O cientista medocre se torna presunoso, arrogante e prepotente. Pensa saber tudo e no admite qualquer intromisso em seu presumido vasto cabedal de conhecimentos.O desenvolvimento cientfico alia ao seu carter terico, na atuali-dade, um aspecto eminentemente prtico, isto , a utilizao imediata para a transformao ou manuteno da realidade e satisfao imediata dos in-teresses financeiros. Esta uma das caractersticas bsicas do paradigma tecnolgico. Como assinala Japiassu (1975, p. 53), o termo cincia passa, cada vez mais, a significar um saber eficaz. A cincia desvinculada de in-teresses imediatos e tericos, objetiva e neutra, cedeu lugar a uma cincia de encomenda para resolver questes de ordem prtica e para utilizao rpida. a primazia da prtica e da utilizao sobre o conhecimento teri-co. Este adquire seu significado a partir da possibilidade de sua aplicao imediata.Para o mundo da cincia como um valor de uso, como preconiza o pa-radigma industrial, interessa saber o como. No importa o para qu. preciso descobrir os meios para se atingir os fins bem determinados, de forma ime-diata. No vem ao caso o questionamento sobre a validade, as implicaes e as consequncias desta consecuo. Para este carter intervencionista da cincia no existem limites. O ser humano passa a ser submetido a sua prpria obra. Deixando de fazer cincia como contemplao, na qual ele era o sujeito que agia sobre a natureza e a descobria, agora ele perde o seu verdadeiro lugar, tornan-do-se um objeto a servio da cincia e da tcnica. No importam as questes de ordem tica, mas apenas aquilo que economicamente interessante e tecnica-mente vivel. to grande o deslocamento da cincia como contemplao para a cin-cia como valor de uso, que fica muito difcil distinguir at onde temos uma teoria cientfica e onde comea a ideologia. A cincia e a tcnica perdem os seus signifi-cados maiores para se tornarem instrumentos de dominao e de concentrao de Filosoia e Cidadania82 poder. As cincias deixam de se colocar a servio da humanidade para servirem ao sistema dominante, que detm o seu controle. Assim temos, por exemplo, a eco-nomia, a sociologia, a psicologia, a medicina, etc., deixando de ser cincia a servio da humanidade, para responderem s exigncias das instituies que delas tiram proveito. Isto quer dizer que se converteram em estratgias de ao dos grupos que se utilizam de seus benefcios cientficos. Japiassu (1975, p. 66) afirma que no podemos negar, portanto, que as cincias sejam cada vez mais utilizadas para fins no-cientficos: so construdas para responder a todos os tipos de demanda.Este utilitarismo das cincias traz profundas consequncias para a vida do homem moderno. A aplicao prtica dos princpios da cincia a todos os campos da atividade humana acarreta modificaes radicais na forma do homem viver e de se relacionar com seu meio natural e social. Este processo de modernizao assume propores to avassaladoras a ponto de o ho-mem reduzir a prpria natureza a um mero objeto, manipulado exausto e, muitas vezes, ferido mortalmente. O planeta todo est se tornando um terreno minado. Os instrumentos que a tecnologia moderna confere ao homem colocam em suas mos um poder de tal grandeza, que nada escapa fria de seu controle e de sua voracidade. Ele cria, de um lado, um mundo bom para se viver e, de outro, um mundo perigoso e inseguro. Os seus aspectos contradi-trios se exacerbam na medida em que ele absolutiza os valores auferidos pela cincia e pela tcnica. O seu modo cientificista e tecnicista de ser e de viver faz com que perca a dimenso da sua prpria condio de ser humano. H um dito popular que diz: Deus perdoa sempre; o homem, s vezes; mas a natureza, nun-ca! Por isso, preciso que o homem se d conta desses paradoxos e recupere, em tempo, a sua condio humana privilegiada.As possibilidades de se fazer deste planeta um verdadeiro cu para seus habi-tantes diante da atual potencialidade tecnolgica se veem ameaadas por um rastro de destruio e de catstrofes paradoxalmente dela resultante como um subproduto indesejvel. De que depende fazer com que a cincia e a tcnica sir-vam predominantemente como facilitadoras das condies de vida no planeta? Filosoia e IdeologiaTema | 0283 Cientificismo e TecnicismoPara a concepo cientificista, a nica maneira de se atingir a verdade atravs da experimentao. Somente verdadeiro aquilo que pode ser esmiu-ado objetivamente. A verdade cientfica passa a ser nica e absoluta. Todas as realidades humanas devem ser reduzidas a objetos de anlise e somente ser vlido aquilo que for objetivamente verificado.O cientificismo tem suas razes no sculo XVIII, com o pensamento do filsofo Emanuel Kant (1724-1804) que, concebendo a realidade como sendo o binmio nmeno (essncia) e fenmeno (aparncia), afirma ser unicamente pos-svel conhecer-se o fenmeno. Reduz todo o conhecimento e, como tal, toda a verdade, ao dado fenomenolgico. Porm, no sculo XIX, com o grande floresci-mento da filosofia naturalista com Darwin (1809-1882), Spencer (1820-1903), Comte (1798-1857), etc. que o cientificismo se transforma na atitude intelectual dominante. A partir da, "aquilo que a cincia reivindica de modo exclusivo o fenmeno. Mas ela o reivindica de forma total, ou seja, para alm do fenmeno nada existe seno outros fenmenos" (JAPIASSU, 1975, p. 77). Com este natura-lismo chegou-se autossuficincia absoluta das cincias fsicas e naturais. A cer-teza cientfica passa a ser a nica e exclusiva certeza que se pode ter. Ela se funda na razo humana e tem como instrumento bsico o mtodo experimental.O cientificismo uma mentalidade que se enraza cada vez mais no pensamento e no corao do homem moderno, preconizado e afirmado pelo paradigma tecnolgico. Ele determina um novo tipo de educao em todos os nveis, onde a supremacia absoluta est com o pragmtico e o objetivo. Cria-se uma verdadeira religio, na qual os sacerdotes so os cientistas, donos da supre-ma verdade e sumos pontfices dos tempos modernos. Cria-se o mito que leva a cincia a se tornar um fim em si mesma, indiscutvel em seus princpios e fins.O cientificismo8, como ideologia da industrializao, serve para justifi-car e legitimar a estrutura de uma sociedade fundada na diviso de classes e onde uma classe, detentora dos bens de produo, explora as demais que compem a fora de trabalho. O cientificismo confunde a repartio do saber com a vulgariza-o do saber. Ora, encher um povo de ufanismo porque seus cientistas descobriram isto ou aquilo no quer dizer que o acesso a esses benefcios ser franqueado a to-8 O cientificismo e o tecnicismo so ideologias que afirmam o dogmatismo da cincia e da tcnica: tudo o que cientfico verdadeiro e tudo o que tcnico e economicamente produtivo passa a ser realizado como valor incondicional.Filosoia e Cidadania84 dos. Cria-se, com isso, uma tecnocracia a servio dos donos do mundo, na qual so justificados os mitos do desenvolvimento tecnolgico como progresso sem limites. Modernizao, porm, no significa automaticamente desenvolvimento.A crtica do cientificismo nasce das lacunas apresentadas pelos mitos que ele erige. No se concretiza a ideia de que, lenta e progressivamente, cincia e tc-nica resolvero todos os problemas e respondero a todas as questes que possam um dia vir a preocupar a humanidade. O desenvolvimento cientfico, na verdade, tem se mostrado ambivalente na sua evoluo. Ele no consegue resolver todos os problemas e, tampouco, responder a todas as perguntas que o homem possa formular. O mito de que, com a tecnologia moderna, sobrevir necessariamente a felicidade para todos, tem se mostrado falho e discutvel. A prova est no fato e na vida de muitos que conseguiram conquistar toda a riqueza do mundo e, assim mesmo, naufragaram na insatisfao e na infelicidade pessoais.Por fim, querer reduzir todo o real ao racional e resumir toda a verdade ao quantificvel esbarra em inmeras contradies. O ser humano ultrapassa cada vez mais a possibilidade de reduo do conhecimento a simples nmeros e dimenses quantificveis. Na medida em que ele objeto de conhecimento cientfico, tambm o seu sujeito. E, nesta condio, ele imprime dimenses subjetivas ao desenvolvimento da cincia. De sua subjetividade depender o uso das conquistas cientficas. Portanto, preciso que essas conquistas de fato coloquem o prprio homem integral no centro de suas buscas.O cientificismo se funda na concepo da onipotncia e da onipresena da cincia e, sobretudo, na absoluta neutralidade de seus esforos cognitivos. Entretanto, esses pressupostos cientificistas sofrem o impacto das evidncias que denunciam as contradies apresentadas pelos resultados nefastos do mau uso dos produtos cientficos e pela constatao da grande parcialidade da pes-quisa cientfica. No mundo todo, funda-se, cada vez mais, uma conscincia so-cial do cientista, enfraquecendo-se, consequentemente, a pseudomoral9 da 9 Pseudomoral uma falsidade que, de tanto ser afirmada, passa a ser aceita como algo Filosoia e IdeologiaTema | 0285 neutralidade cientfica. Este movimento d origem a uma verdadeira cincia com conscincia, como afirma Morin (2001), ou seja, a busca da compreenso do verdadeiro papel das cincias no contexto da sociedade atual.A cincia com conscincia leva construo de uma verdadeira cincia da cincia, constituindo-se na busca de todos os fatores que possam influenciar a atividade cientfica, desde os fatores econmicos e polticos, at os fatores psicol-gicos, sociolgicos, histricos e sociais. At h bem pouco tempo, a postura dos cientistas frente influncia de fatores externos sobre a atividade cientfica era de completa alienao. No reconheciam essa influncia e a negavam. Afirmavam-se neutros em suas especialidades. Hoje, constata-se uma politizao cada vez maior dos pesquisadores e uma crescente preocupao com o significado social de suas atividades. Tem-se, como exemplo e prova disso, a recente discusso sobre a questo da clonagem, da utilizao de embries humanos como clulas tronco, etc. Se j se produziram clones de animais e vegetais, a possibilidade de se produzirem clones humanos algo absolutamente consequente. Entretanto, o que isso significaria para a humanidade? Que consequncias acarretariam tais avanos da engenharia gentica para o futuro dos seres humanos? Tais questes brotam da parte dos prprios cientistas e da massa pensante, em todos os qua-drantes do planeta, como um clamor generalizado. Portanto, a exigncia por uma tica cientfica se impe cada vez mais, na medida em que a tecnologia vai tomando conta de todas as realidades do mundo moderno. Ao longo do sculo XIX, com o desenvolvimento da revoluo industrial, expressando-se em um processo de tecnificao cada vez mais sofisticado disseminao do uso da eletricidade, descoberta do motor a exploso, etc. chegou-se a pensar que a cincia e a tcnica seriam a soluo para todos os problemas humanos. Esse pensamento filosfico se estruturou nas obras de pensadores, especialmente do filsofo Augusto Comte. Todavia, o scu-lo XX chegou e, com ele, j na primeira metade, o resultado foi um grande desenvolvimento com a utilizao desse potencial todo para uma destrui-o sem precedentes em toda a histria humana. As guerras como exemplo verdadeiro. Filosoia e Cidadania86 maior levaram a humanidade a se assustar demais com o que poderia ser feito se a tecnologia fosse mal utilizada. A ambiguidade desse processo de desenvolvimento tecnolgico s pode ser revertida pela conscincia tica de quem o utiliza. A cincia e a tcnica vieram para minimizar as dificuldades e aumentar as facilidades para a vida do planeta. Isso s haver de acontecer de forma mais plena na medida em que homens e mulheres assumirem a sua condio de cidados do mundo, ou seja, passarem a se servir de todo o potencial humano e tecnolgico para cuidar do planeta e de tudo e todos que nele habitam. O cientificismo, como um produto de uma ideologia de dominao, apregoado pelo paradigma tecnolgico, transporta-se para a educao na medida em que a reduz a um mecanismo de mera transmisso de conhecimentos. A escola abre mo de seu papel de educadora ou formadora de sujeitos pensantes, para produzir tcnicos ou peas para a grande mquina social. No existe a verdade como uma frmula universal e nica. O conheci-mento no pode ser entendido como uma posse de algum iluminado, mas sim como uma constante busca do desvelamento sempre maior da realidade, na di-reo de uma verdade cada vez mais construda e clarificada. O professor dono da verdade aquele que acaba por fazer da educao um mero instrumento de dominao e de reproduo do status quo. Todo objetivo desta educao domes-ticadora reduz-se ao fazer, eliminando-se os aspectos educativos fundamentais do pensar e do criar. A super especializao buscada pela maioria das escolas pode induzir a um fechamento das conscincias e a uma fragmentao mental execrvel. O sentido dos espaos educativos o de ser um lugar no qual, por exce-lncia, possam germinar propostas de transformao da sociedade. Entretanto, o que se observa que esta viso universalizadora embotada em funo de uma perspectiva alienada e estreita de um saber compartimentado e estreito. Pare-ce que o nico objetivo a adaptao do indivduo ao preestabelecido. Quanto menos um educando questionar a realidade que o cerca, quanto mais passivo e calado ele for, mais ser aplaudido e considerado bom aluno, bom profissional e bom cidado, no futuro. Nessa pedagogia da dominao, o educando encon-trar sempre respostas prontas, acabadas e indiscutveis; e os educadores que Filosoia e IdeologiaTema | 0287 sucumbirem mquina de ideologizao, permanentemente a espalhar a se-mente da conformidade e do descompromisso, tero dificuldades em perceber a ambiguidade da tarefa profissional que exercem. Mais difcil ainda ser fazer com que estes profissionais descubram e transformem sua prtica cotidiana em uma ao historicizadora, ou seja, uma ao comprometida com a construo da cidadania. Todavia, preciso acreditar na possibilidade da mudana. o que veremos a seguir.Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vdeos, podcast, objetos de aprendizagem, a participao nos f-runs de discusso do tema e a possibilidade de tirar dvidas atravs de chats e e-mails.MORIN, Edgar. A religao dos saberes: o desafio do sculo XXI. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.Com o advento da era moderna a partir do sculo XVI a hegemonia dos fi-lsofos como os detentores de todo o conhecimento, foi suplantada pela frag-mentao do conhecimento em inmeras reas de saberes. O generalista deu lugar para o especialista. Essa fragmentao chegou a tal ponto que se perdeu a perspectiva do todo integrador. O socilogo francs Edgar Morin preconiza a reunificao dos saberes e a recuperao da perspectiva holstica como o grande desafio epistemolgico do sculo XXI. ______. Cincia com conscincia. 5. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.A hegemonia da cincia e da tcnica, no mundo contemporneo, produziu um cientificismo e um tecnicismo exacerbados. Isso quer dizer que se erigiu Filosoia e Cidadania88 uma nova religio, com seus dogmas, sacerdotes e rituais, ou seja, a cincia, a tcnica, os cientistas e tcnicos e seu poder avassalador. Os resultados fo-ram de uma ambiguidade sem precedente. Junto das infinitas possibilidades auferidas pelo poderio tecnolgico, apresentou-se um subproduto de morte e destruio. Fazer da cincia e da tcnica instrumentos de vida e no de morte, uma tarefa que se realizar pela conscincia dos prprios cientistas e tcni-cos sobre a ambivalncia de seus produtos. Filosoia e IdeologiaTema | 0289 2.4 Educao e mudanaPassamos a refletir sobre a aproximao entre o processo educativo e a tica que se constituiro na base da cidadania que buscamos, ou seja, a trans-formao de toda uma massa humana informe em um povo consciente, dinmico e fazedor de sua prpria histria. Partimos, portanto, do pressuposto de que a cidadania ser resultado de um processo de educao que coloque os valores ticos como base para todo o seu desenvolvimento.Percebe-se que muita gente j desacreditou da possibilidade da concretiza-o da utopia de um novo homem e de uma nova sociedade, sucumbindo a um ceticismo total; outros acreditam, porm, mantm-se numa postura neutra e descomprometida, encontrando uma boa razo para manter-se em sua acomodao; todavia, h quem ainda acredita de forma incondicional na possibilidade de construo de um novo homem e de uma nova sociedade. Justifique o seu posicionamento diante desta realidade. Refletir sobre a educao, seu significado, sua importncia e seus obje-tivos uma das principais questes da filosofia. A filosofia da educao precisa-r elucidar os caminhos da construo da cidadania que leve concretizao da realidade de um novo homem e de uma nova sociedade. Se a cidadania resultar de um processo educativo, preciso compreender o que se entende por educar e como se define a sua tarefa primordial. Por onde comear a mudana de uma realidade ambgua que se apresenta em nosso cotidiano? Vivemos em um mundo maravilhoso. Porm, por outro lado, temos muitos medos e medo de tudo. Viver passou a ser algo perigoso. Temos medo de no conseguir o suficiente para sobreviver; temos medo da Filosoia e Cidadania90 violncia; temos medo em nossos relacionamentos pessoais; temos medo da destruio do prprio planeta. Quem e como far acontecer a modificao da rota desta aeronave a deriva e que, a seguir o rumo que est tomando, have-r de fatalmente se autodestruir? Somente com uma mudana individual e coletiva, fruto de um processo de conscientizao que leve a assumir o com-promisso tico de, desde as pequenas coisas do nosso cotidiano, at grandes projetos polticos, fazer acontecer aes efetivas de transformao. Para isso, precisamos ser educados e educar nossos filhos, nossos alunos e nosso povo numa grande corrente de cidadania. Um ser humano adquire a sua plena humanizao na relao com outro ser humano que lhe servir de ponto de referncia. Assim, a histria s existe com o surgimento do homem e sua ao sobre o mundo. No comeo do processo de hominizao, encontramos um ser natural, que ainda no produziu histria, nem educao e nem tica. um homindeo, isto , um ser semelhante aos demais seres que habitam o planeta, como os seres inanimados, os vegetais e os animais. Estes apenas repetem um programa predeterminado pela natureza. Nada tm que acrescentar para existirem. So movidos por impulsos e por ins-tintos. So seres completos em suas realidades, em seu universo e em seus nveis de existncia. Em suas relaes, vigorar a lei da selva, ou seja, a lei do mais forte, ditada pelo instinto de sobrevivncia. O que se impe a completa amoralidade, isto , a ausncia de toda moral. uma condio de anomia, como inexistncia de qualquer tipo de regras, a no ser o programa pr-estabelecido pela natureza.Na medida em que o processo de hominizao se completa e se inicia o processo de humanizao, o ser humano passa a se apresentar como um ser aberto e inconcluso. o nico ser deste planeta que no recebe a vida pronta e acabada, diferentemente dos demais seres. Este recebe uma mera possibilidade de existir. Sua grande tarefa ser a sua prpria construo, a sua prpria fabri-cao, de acordo com as palavras de Ortega y Gasset (1963). O seu ser se consti-tui fundamentalmente naquilo que ele ainda no . Sua vida se constituir per-manentemente num contnuo vir a ser, ou seja, num projeto continuado de ser.A ruptura do fechamento em que se movimentam os seres no plena-mente humanos se evidencia pela transgresso da ordem natural das coisas. Esta se revela como a possibilidade de abertura e de diferenciao diante de Filosoia e IdeologiaTema | 0291 tudo e todos os demais seres existentes. O ser humano descobre que pode ir alm do estado natural em que jaz imerso e fechado. Neste momento, ele se apresenta como abertura, ou seja, como poder ser. Aqui se inscreve o fenmeno da educao como possibilidade de ser diferente, de ser mais e melhor e de se apresentar de forma ilimitada. Das trs primeiras possibilidades que se apre-sentam ao ser humano, duas so essencialmente ticas. Ser diferente, ser mais e melhor, so tarefas que implicam em comprometimento tico. Estas tarefas so fundamentalmente tarefas educativas. Portanto, a construo de um ser humano pleno sugere a incluso de dimenses ticas em seu desenvolvimento.A educao sempre implicar um processo amplo de transformao e de-senvolvimento do ser humano, em toda a sua pluridimensionalidade, isto , a dimenso social, econmica, poltica, religiosa, ldica etc.. A educao se dar quando forem mobilizadas as potencialidades humanas de um ser bio-psicossocial. O ser humano haver de ser tanto mais humanizado quanto pu-der avanar no desenvolvimento de suas potencialidades.Sempre que aqui se falar em educao, estaremos fazendo referncia a um processo amplo, completo, profundo e altamente comprometido com a mobilizao de todas as potencialidades humanas. Teremos somente um ser humano educado na medida em que ele crescer e for melhor sob todos os pontos de vista. Isto quer dizer que a educao mobilizar sempre suas mltiplas dimenses de um ser bio-lgico, social, espiritual, intelectual, psicolgico, material, esttico, tico etc. Ser neste sentido que se poder falar em filosofia, educao, tica e cidadania e em uma aproximao necessria entre elas. Portanto, esta aproximao ser sempre um processo constante, em busca de um desenvolvimento humano integral.Contudo, para que o conceito de educao se clarifique um pouco mais, preciso lembrar sempre da sua insero no contexto em que ela se faz. A edu-cao aparece sempre como um fenmeno social e nunca como uma fora isola-da, como j foi amplamente refletido no segundo captulo deste texto. Portanto, buscar uma aproximao entre filosofia, educao, tica e cidadania s ser pos-Filosoia e Cidadania92 svel se isto se fizer dentro de um contexto por se tratarem de aes e valores que se realizam e se expressam sempre em nvel relacional. Para pensar a busca de se aproximar educao com tica para que a cidadania possa desabrochar, a proposta de educao que se fez mais clara a pedago-gia do oprimido, de Paulo Freire. Freire aponta o tempo todo para a esperan-a de uma transformao possvel de um homem e de um mundo que ainda no existem, mas que se constitui numa utopia vivel10.Todo o trabalho de Freire se inicia e se realiza a partir de uma perspec-tiva dos oprimidos. Considerando-se que a educao, ao longo da histria, espe-cialmente da histria brasileira, sempre se constituiu em um produto de consu-mo das camadas mais privilegiadas da populao, preciso pensar-se e fazer-se uma educao como instrumento de libertao dos menos favorecidos. Segundo Freire (2001), a educao se expressar como uma pedagogia do oprimido, isto , como uma prtica da liberdade e da esperana.A educao, segundo Freire (1985), se constituir na construo do ser mais de todos os seres humanos. Em um contexto de mundo, onde somente os donos de tudo tm vez e voz, preciso que seja recuperada a dignidade de cada ser humano. A massa populacional reduzida sua condio de ser menos, silencio-sa, submissa e excluda de tudo. A estratgia desta recuperao se dar atravs da conscientizao. Cada indivduo precisa ser despertado de sua inconscincia, de sua ingenuidade e de sua passividade, para assumir a sua condio de agente da prpria histria e da histria de seu povo. A condio do ser menos corresponde anulao de algum e sua reduo a mero objeto de manipulao e de explorao. A vocao de cada ser humano a de ser mais. Ser mais quer dizer ter garantida a sua possibilidade de desabrochar em todas as suas potencialidades. S assim algum poder exercer a sua liberdade e a sua dignidade humanas.10 Utopia vivel, expresso de Paulo Freire, um sonho possvel de ser realizado. Assim, precisamos estabelecer utopias viveis, ou seja, sonhar sonhos possveis e buscar incessantemente a sua realizao.Filosoia e IdeologiaTema | 0293 Este processo de libertao no se dar de forma espontnea e mgica. Um ser humano que vive numa condio de opresso e, por conseguinte, de in-dignidade, jamais despertar em uma bela manh, iluminado espontaneamente pela conscincia de sua realidade opressiva e disposto a mudar a sua condio. Ser preciso que isto se faa pela ao coletiva dos que o rodeiam, em que um vai clarificando o outro. Juntos faro acontecer o desabrochar de uma nova realida-de para todos. A entra o papel da educao como instrumento de libertao e de esperana. Os educadores precisam compreender o seu papel como semeadores de esperana. Esta atitude, baseada na f incondicional na educabilidade do ser humano, precisa suplantar o sentimento fatalista de que nada possvel fazer.Esta educao se far numa relao educador-educando. Tanto quem tem o papel de ensinar, quanto aquele que estaria ali para aprender, ambos estaro um educando o outro dialogicamente. Mais do que meramente trans-mitir contedos, estaro vivendo uma experincia solidria de busca do conhe-cimento, isto , de saberes que representaro experincias vividas e caminhos a serem ainda percorridos por ambos. Mais do que somente acumular respostas j encontradas, ambos lanaro permanentemente perguntas desafiadoras. To importante quanto responder a estas perguntas, ser aprender a fazer novas perguntas. Freire (1985) chama a isso de problematizao.A educao que s reproduz o universo vivido ser chamada de bancria. Nesta, o educador, como um depositrio de uma mina de imensa riqueza de sa-ber, depositar, em recipientes vazios, os seus contedos insossos, indigestos, de-sinteressantes e pouco significativos. A problematizao, ao contrrio, instigar a atitude de busca incessante e de partilha de descobertas enriquecedoras. A atitu-de entre ambos, educador e educando, ser sempre marcada por uma relao de respeito e acolhimento do outro. Ambos partiro de suas leituras e de suas lingua-gens. Sero diferentes. Porm, ambos sero cultos, cada um de seu jeito. O senso comum e a simplicidade de um e o academicismo de outro no os faro superiores um ao outro. A troca far com que ambos cresam e se eduquem mutuamente. Para Freire (1985), a leitura do mundo e a leitura da palavra so duas formas de construir o conhecimento e de fazer acontecer educao. Assim tam-bm a expresso destes saberes se dar pela palavra. O ser humano se humaniza e se descobre na sua humanizao ao dizer a sua palavra. Uma forma de negar o ser humano impedir que ele diga a sua palavra. Libert-lo possibilitar a sua emergncia como um ser humano pleno, que assume o seu espao expres-Filosoia e Cidadania94 sando todas as suas potencialidades. Reduzir algum ao silncio impedir a sua possibilidade de humanizao.No pensamento de Freire, os contedos no deixaro de ser importan-tes na prtica educativa. Porm, o problema fundamental [...] saber quem es-colhe os contedos, a favor de quem e de que estar o seu ensino, contra quem, a favor de que, contra o que (FREIRE, 2001, p. 110). Portanto, a prtica da educao libertadora no minimiza o significado e a importncia dos contedos a serem transmitidos e assimilados. O que preciso que seja destacado e bem clarificado a sua significao e direcionamentos. No conceito de educao de Freire, que estamos assumindo para ali-nh-lo com o conceito de tica e na construo da cidadania, os contedos sem-pre sero importantes e significativos na medida em que forem selecionados e assumidos por professores e alunos, numa atitude de busca prazerosa e desa-fiadora, movida pela curiosidade construtora de todo o conhecimento. E toda educao ser, sobretudo, uma construo profundamente amorosa e tica. Na pedagogia dos dominadores, os contedos sempre expressaram uma re-alidade que pouco ou nada tinha a ver com a massa dos oprimidos. Agora os contedos, na pedagogia do oprimido, tero que brotar do mundo vivido por aqueles que buscam aprender. A pedagogia do oprimido de Freire se apresenta como uma educao como prtica da liberdade ou tambm como uma pedagogia da esperana. O pon-to de partida a prospectiva de futuro. Ter uma postura positiva e decisria frente ao mundo, fundada na esperana de que o ser humano e o mundo so trans-formveis condio fundamental para uma ao educativa. A expresso dessa prtica educativa se far atravs do dilogo, suplantando o silncio promovido pelo monlogo. O educando sempre ser aquele ser problematizador, ou seja, in-dagador, questionador, que faz perguntas. Como sujeito de sua prpria histria, consciente, dinmico e participativo, haver de fazer escolhas e assumir sempre o seu compromisso de fazer acontecer a ao cotidiana da busca de crescimento e libertao. O comportamento libertrio brotar sempre da indignao diante de tudo o que desumano e, portanto, inaceitvel. Contudo, diante de um mundo que ainda no aquele com que sonhamos, jamais podemos perder a esperana e a alegria pela graa imensa da vida e de se fazer parte da histria humana. A pedagogia da esperana se funda numa viso holstica, ou seja, na percepo de todos os seres do universo como fazendo parte de uma teia de Filosoia e IdeologiaTema | 0295 elementos interconectados e interdependentes de forma plena. As diferenas sempre aparecero como condies complementares e enriquecedoras de uma mesma realidade. Tudo o que representar desarmonia nas mltiplas formas de violncia destruidora so incondicionalmente consideradas inaceitveis. O que realmente conta um profundo sentido de alteridade, ou seja, o cuidado, a in-cluso e o acolhimento do outro como princpio tico a ser permanentemente promovido e desenvolvido. Assim haver de se inventar o futuro fundado na f e na esperana.Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vdeos, podcast, objetos de aprendizagem, participao do frum de discusso do tema, no acesso ao espao para tirar dvidas de contedo e atravs de e-mail. FREIRE, Paulo. Educao e mudana. 26. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007.Nesta obra, o autor apresenta o ser humano imerso em sua condio que nem sempre lhe possibilita a dignidade compatvel com a de um cidado, reduzido a um mero objeto, silenciado e oprimido, sem conscincia de si e tampouco de seu mundo. A mudana s poder brotar de um processo de despertar desta conscincia para que esse indivduo se transforme no sujeito de sua prpria histria e de seu povo. Como isso nunca acontecer de forma espontnea, ser preciso que ele seja educado para assumir a sua condio de sujeito livre, no exerccio de sua cidadania. ______. Pedagogia da autonomia. 22. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.Filosoia e Cidadania96 Um ser humano autnomo e livre s poder emergir de um processo educati-vo que promova o despertar das conscincias de cada indivduo para assumir a sua condio de cidado. O que move a roda da histria so as ideias. O ser humano se diferencia de to-dos os demais habitantes do planeta pela sua capacidade de pensar. Por no receber um mundo pronto e acabado como os demais seres do universo, cuja evoluo acontece de acordo com um processo predeterminado pela nature-za, o homem precisa dobrar-se sobre o mundo vivido para minimizar as di-ficuldades e ampliar as facilidades. Para isso, sua compreenso da realidade precisa ser a mais clara possvel para no se direcionar de forma equivocada. Quando, nas suas mltiplas relaes, o seu entendimento manipulado por quem logo descobre um jeito de dominar e controlar, a massificao resulta em concentrao de riquezas e na excluso de massas imensas da participa-o de tudo. o processo de ideologizao que se serve dos mais diferentes instrumentos de controle os meios de comunica, a poltica, a educao, a religio, a cincia, etc. para manter um nmero sem conta de seres huma-nos como massa de manobra para os interesses dos grupos que dominam. A reao e a defesa contra um mundo de excluso se far pela formao da cidadania. Cidados sero homens e mulheres conscientes, lcidos e compro-metidos eticamente com um mundo bom para todos. Para isso, tudo precisa concorrer em um processo simbiosinrgico, ou seja, em que se concentrem todas as energias em favor de um mundo de justia e de liberdade, em que todos participam dos bens da terra. Como no existe o espontaneismo hist-rico, ou seja, isso no se far de forma mgica e espontnea, ser preciso que os cidados sejam fruto e produto de um processo educativo que se constitua em uma prtica de liberdade e de cidadania.97 01030204O processo de ideologizao pode ser compreendido como fazer a cabea de algum. Isso quer dizer que a ideologia pode ser construtiva e, por ou-tro lado, instrumento de manipulao. Explique e exemplifique o que se entende por isso. ______________________________________________________________________________________________________________________________________________________Como ser possvel construir-se uma sociedade marcada profundamente pela participao de cidados ticos se o conjunto de ideias, ideais e va-lores que impregna todo o mundo atual no contempla a tica como algo necessrio? ______________________________________________________________________________________________________________________________________________________Quando e como o conhecimento em suas mltiplas formas e reas se transforma em instrumento de ideologizao, ou seja, instrumento de do-minao e de controle?______________________________________________________________________________________________________________________________________________________Na nsia de satisfazer todas as necessidades sentidas e percebidas, no se cairia em uma busca desenfreada de coisas e em um consumismo to neurotizante quanto a humilhante condio de no conseguir o mnimo para sobreviver?______________________________________________________________________________________________________________________________________________________Verifique no AVA as respostas do exerccio.Filosoia e Cidadania98 0506abcdeA Filosofia, no conjunto dos conhecimentos construdos pela humanida-de, assume a tarefa de refletir criticamente sobre todas as realidades hu-manas. A doutrina, por sua vez, prope e defende o conjunto de ideias, ideais e valores de forma clara e explcita. A utopia se constitui na grande meta a ser alcanada e pela qual preciso viver e lutar. Todos esses con-ceitos, todavia, podem se transformar em ideologia. De acordo com estas afirmaes, complete a sentena correta: Entende-se por ideologia...uma doutrina explicitada e defendida pelos seus seguidores no intuito de convencer e conquistar mais adeptos para suas ideias, ideais e va-lores.uma utopia reveladora de uma realidade inatingvel e sem sentido para a construo de um novo homem e uma nova sociedade. o estudo dos comportamentos humanos que so evidenciados nas pr-ticas de cada profisso de nvel superior. um conjunto de ideias, ideais e valores, que so utilizados tanto para formar opinies e comportamentos, quanto para mascarar a realidade e, assim, fazer com que os detentores do poder manipulem uma socie-dade inteira.uma filosofia que apresenta o pensamento dos principais pensadores de qualquer poca da histria.Em uma sociedade onde os mecanismos de ideologizao mantm uma massa passiva e inconsciente, a possibilidade de se garantir a formao da cidadania como condio de construo da utopia de um novo homem e de uma nova sociedade resulta de um processo educativo que forme ho-mens e mulheres lcidos, dinmicos, solidrios e comprometidos etica-mente com a construo desta utopia. De acordo com essa perspectiva histrica, so verdadeiras as seguintes afirmaes:I. Permitindo-se que as leis de mercado da oferta e da procura dirijam o rumo de uma sociedade para um equilbrio espontneo e natural.Verifique no AVA as respostas do exerccio.99 07II. Compreendendo-se que a excluso de uma grande maioria da popula-o da participao de tudo muito mais uma questo de culpa e desin-teresse individual do que um processo resultante de uma mquina social.III. Os mecanismos de ideologizao atualmente so to poderosos, sutis e sedutores, que absolutamente impossvel preservar nem mesmo uma pequena parte da populao de seu processo de manipulao e de contro-le. IV. Pela ampla distribuio de programas de doao de alimentos e di-nheiro para famlias pobres.V. Pela promoo de uma sociedade mais justa e equitativa, especialmen-te, atravs do acesso educao que promova uma condio de cidadania, isto , a conscincia do compromisso e engajamento ticos de quem des-perta para a responsabilidade social individual e coletiva.I e II.II e IV.III e I.I e V.Somente a V.A construo da cidadania implica uma prtica educativa marcada por uma dimenso tica em todos os seus aspectos, isto , no existe cidadania sem tica. O que fundamenta essa afirmao ... a construo da cidadania se fundamenta em uma educao tica pela prpria possibilidade da perfectibilidade humana, isto , o mundo transformvel, o ser humano educvel e essa utopia tem que ser per-seguida por todos os que acreditam e esperam um mundo melhor, es-pecialmente atravs da educao.a impossibilidade de existir uma educao voltada para a cidadania, j que a prpria escola um instrumento de reproduo de uma socieda-de que no contempla a tica como condio necessria e fundamental.aaebbcdVerifique no AVA as respostas do exerccio.Filosoia e Cidadania100 que a educao, a cidadania e a tica so elementos que no se conju-gam pelo simples fato de que a sociedade moderna no tem na tica um pressuposto para seu desenvolvimento, mas a lei da vantagem dos mais bem preparados, mais espertos e mais fortes.que a cidadania se constitui numa condio que j nasce com as pes-soas. Portanto, de pouco adiante querer promover uma educao tica para quem j vem de um ambiente em que os valores apontam para o individualismo, a competio, a ganncia e o entredevoramento.que a cidadania e a tica so conceitos excludentes na medida em que a cidadania implica somente aspectos econmicos e polticos. Dentro destas duas dimenses da realidade social no cabe a discusso de questes ticas. A cidadania exige a aprendizagem da convivncia. Para aprender a convi-ver preciso...aprender a se relacionar somente com aquelas pessoas que amamos e que esto mais perto de ns.partilhar aquilo que sobra em nossa mesa e distribuir os restos de tudo que no queremos e no precisamos mais.querer bem aqueles que nos amam e isolar a todos os que apresentam diferenas com as quais temos dificuldade em sintonizar. transitar pelo planeta de uma forma mais leve e tranquila, amorosa e cordial, tratando bem a todos e no somente aqueles que mais quere-mos e que tambm nos amam.s se aprende a conviver se formos fortes e aguerridos, ou seja, como diziam os antigos gregos e latinos, se queres a paz, prepara-te para a guerra. Portanto, a convivncia humana s pode resultar dos exerccios de beligerncia e de confronto. O conhecimento religioso um conhecimento revelado por Deus e se ba-seia na f. O conhecimento cientfico fruto e produto da inteligncia hu-aeebccdd0809Verifique no AVA as respostas do exerccio.101 mana e se baseia na razo. Esses conhecimentos so coincidentes, exclu-dentes ou possvel concili-los? Pela natureza de seu objeto, ambos os conhecimentos religioso e cientfico so completamente excludentes.Ambos os conhecimentos so diferentes. O conhecimento cientfico tem como tarefa explicar as coisas do mundo material; o conhecimento religioso explica e aponta para a realidade espiritual. Portanto, per-feitamente possvel concili-los na vida de um ser humano, na medida em que se referem a dimenses diferentes da existncia humana.Conhecimento cientfico e conhecimento religioso so coincidentes. Isto quer dizer que o que um no consegue explicar, o outro explica; a busca de respostas, ora por um, ora por outro, depende da situao vivida pelos indivduos e pelos povos.Um cientista nunca poder ser um homem de f. A razo est no fato de que o ser religioso acredita nas explicaes de f e um pesquisador s pode seguir os caminhos da razo.A cincia e a religio so conhecimentos coincidentes: quando a cincia chega ao seu limite e no consegue explicar algo, ento entra a religio como suas verdades de natureza espiritual e vice-versa. Em perodos muito remotos da histria humana, a natureza era conside-rada um obstculo intransponvel para os seres humanos. Todavia, como o nico ser que no recebeu a vida pronta e acabada, eles tiveram que aprender a conviver com a natureza e a transform-la em coadjuvadora. Por fim, a humanidade foi descobrindo todos os segredos da natureza e a domin-la inapelavelmente. Ocorre que, por fora da atuao sobre o mundo, a humanidade passou a agredi-la mortalmente. Essa ao traba-lhosa e predadora fez dela um terreno minado. Como reverter, em tempo, essa ao predatria para que a natureza no se vingue e venha a reagir de forma to violenta que acabe com as condies da vida humana sobre o planeta?aebcd10Verifique no AVA as respostas do exerccio.Filosoia e Cidadania102 J no h mais tempo. H um dito popular que afirma o seguinte: Deus perdoa sempre, o homem de vez em quando e a natureza nun-ca. Portanto, a natureza ferida pela ao humana vai acabar com quem a feriu.Toda histria humana cclica. Houve tempos de grande desenvolvi-mento e depois tudo desapareceu. O processo recomeou e o mundo se apresenta hoje do jeito como o conhecemos. De sorte que tudo vai e volta ciclicamente, o que nos leva a concluir que no adianta cuidar do planeta diante do processo natural que faz com tudo avance, atinja o seu pice e depois declina. O que preciso fazer viver como se fos-semos os primeiros, os nicos e os ltimos habitantes deste planeta.A insanidade humana to grande que o ser humano o nico que suja a gua para beb-la em seguida. Assim, no haver nada que pos-sa frear a destruio que apresenta suas consequncias gravssimas e evidentes.O trabalho, enquanto humaniza, tambm traz aspectos desumanizado-res, como a agresso natureza. Por essa razo, trabalho e cidadania no se conjugam como possibilidade de humanizar e arrumar o mundo de forma mais prazerosa e confortvel.Ainda h tempo se a humanidade se conscientizar e se engajar rpida e efetivamente com aes preservadoras e recuperadoras da nature-za. A esperana est, sobretudo, na sensibilidade e na conscincia das novas geraes que se comprometem em no mais feri-la e tampouco destru-la. preciso lembrar sempre que nossa grande meta a construo da uto-pia de um novo homem e de uma nova sociedade. A Filosofia que leva grande reflexo e formao de uma conscincia crtica que, por sua vez, fundamentam o exerccio da cidadania transformadora. Todavia, de onde viro os instrumentos que daro origem a essa grande utopia? Pensamos que, inevitavelmente, a educao ter que assumir o seu espao poltico nessa construo por que...aebcd11Verifique no AVA as respostas do exerccio.103 a educao o espao, por excelncia, que forma as novas geraes. Portanto, preciso que ela e os profissionais que nela atuam, deem-se conta da ambiguidade do papel que exercem, e optem por transform-lo em instrumento de construo de um novo homem e de uma nova sociedade.sero os educadores os profissionais que atuam num espao ambguo e que, historicamente, sempre se prestou para reproduzir situaes de controle e de dominao e assim havero de continuar atuando.a educao sempre reproduziu e garantiu os interesses dos grupos pri-vilegiados. Como espelho a refletir e instrumento a reproduzir, im-possvel esperar que ela se contraponha queles que a mantm e ope-racionalizam.a educao se constitui num espao neutro e que nada tem a ver com a construo da cidadania de um povo. Sua tarefa a de transmitir conhecimentos e, cumprindo com essa tarefa de forma excelente, o seu papel j estar perfeito de acordo com as necessidades de uma socieda-de mecanicista, individualista e excludente.os determinantes dos comportamentos humanos so resultantes de mltiplos fatores, como os hereditrios, os familiares, os religiosos etc., de sorte que a educao pouco ou nada pode fazer para que desabroche uma postura de um cidado.Em uma sociedade onde os mecanismos de ideologizao mantm uma massa passiva e inconsciente, a possibilidade de se garantir a formao da cidadania como condio de construo da utopia de um novo homem e de uma nova sociedade resulta de um processo educativo que forme ho-mens e mulheres lcidos, dinmicos, solidrios e comprometidos etica-mente com a construo desta utopia. De acordo com essa perspectiva histrica, so verdadeiras as seguintes afirmaes:I. Permitindo-se que as leis de mercado da oferta e da procura dirijam o rumo de uma sociedade para um equilbrio espontneo e natural.aebcd12Verifique no AVA as respostas do exerccio.Filosoia e Cidadania104 II. Compreendendo-se que a excluso de uma grande maioria da popula-o da participao de tudo muito mais uma questo de culpa e desin-teresse individual do que um processo resultante de uma mquina social.III. Os mecanismos de ideologizao atualmente so to poderosos, sutis e sedutores, que absolutamente impossvel preservar nem mesmo uma pequena parte da populao de seu processo de manipulao e de controle. IV. Pela ampla distribuio de programas de doao de alimentos e di-nheiro para famlias pobres.V. Pela promoo de uma sociedade mais justa e equitativa, especialmen-te, atravs do acesso educao que promova uma condio de cidadania, isto , a conscincia do compromisso e engajamento ticos de quem des-perta para a responsabilidade social individual e coletiva.I e II.II e IV.III e I.I e V.Somente a V. aebcdVerifique no AVA as respostas do exerccio.105 105 Use a sua criatividade e registre aqui as ideias principais presentes no contedo estudado, buscando construir uma sntese pessoal sobre o tema.TICA E CIDADANIAParte 0203TemaO terceiro tema tratar da construo da cidadania e da formao do cidado. A tica se apre-senta como a condio fundamental da educao que se constitua num dos principais instrumentos para a realizao da utopia de um novo homem e de uma nova sociedade. O compromisso e engaja-mento ticos resultaro de um processo educativo que desperte as conscincias dos educandos para o desafio de se construir um mundo onde haja lugar para todos os habitantes do planeta. O ponto de partida a compreenso dos conceitos filosficos que levem ao entendimen-to do que vem a ser tica e moral. Aos aspectos conceituais seguem-se as condies de formao de cidados, seres humanos engajados e com-prometidos eticamente com a integralidade da condio humana individual e coletiva.Objetivos da AprendizagemAo terminar a leitura e as atividades do Tema 3, voc dever ser capaz de: conceituar e distinguir tica e moral; despertar a conscincia, a sensibilida-de e a inquietao como condies de compromisso e engajamento ticos; destacar o processo educativo na formao do cidado; apresentar a formao integral do ser humano como condio de reali-zao de um novo homem e de uma nova sociedade. TICA E EDUCAO03TemaFilosoia e Cidadania108 3.1 tica e moral A meta deste estudo buscar uma aproximao entre a educao, tica e cidadania. Falar e fazer educao implica pensar e agir eticamente, de acordo com a afirmao de Baptista (2005, p. 9). Na grande obra da construo humana, a educao entra como uma tarefa indispensvel, atuando em um mundo e sobre seres marcados por diversidades incontveis. Diante deste universo de diferenas, de complexidades e de paradoxos, a dimenso valorativa se impe por se tratar de uma ao de sujeitos sobre o contexto circundante e por se dar em um espao de vida de educandos e de educadores. As exigncias do saber pedaggico como um sa-ber terico-prtico envolvem posturas ticas e morais desde a clarificao das fina-lidades da educao at a sua prtica como um compromisso individual e coletivo.Entre na Internet - Google e escolha os vdeos do You Tube sobre tica e Moral. Voc encontrar uma sequncia de abordagens que serviro de ilus-trao e aprofundamento do tema. Entretanto, preciso ter claro que a busca de uma educao marcada por aspectos ticos que levaro construo da verdadeira cidadania nunca se dar de uma forma absoluta e completa, como j foi dito anteriormente. Estamos sempre tratando da condio humana que, naturalmente, marcada pela imperfectibi-lidade1 e pela incompletude. Por tudo isso se impe a ideia de se buscar uma edu-cao em que os aspectos ticos estejam presentes. Contudo, isto sempre se dar de uma forma incompleta e imperfeita. Por isso, haveremos de falar, no na impossibi-lidade absoluta de haver uma educao sem tica, mas de uma busca de aproxima-o entre ambas. Porm, sabe-se que a justa medida ser sujeita a tantas variveis quantas so as relaes humanas; isto quer dizer, sero infinitas as intervenincias na construo de uma educao tica. O ideal ser sempre algo a ser atingido e nun-ca algo dado de forma acabada e perfeita. Perseguiremos, portanto, os mltiplos 1 A condio humana sempre imperfeita. Porm, tudo transformvel. Sempre possvel mudar e melhorar qualquer realidade dentro e fora do ser humano.tica e EducaoTema | 03109 caminhos que apontam para uma aproximao entre a educao e a tica, sem po-dermos quantificar os seus limites. Nesta primeira parte do estudo, para explicitar e fundamentar a busca de uma aproximao entre educao e tica como base para a construo da cidadania, partir-se- da clarificao de alguns conceitos bsicos.Para avanarmos na compreenso da relao entre educao, tica e cida-dania, faz-se necessrio clarificar a compreenso dos termos tica e moral. Muitas vezes eles so empregados como sinnimos, o que no vem a ser algo impreciso de todo. Originalmente, ambos os termos se referem s mesmas realidades, ou seja, costumes, modos de ser e de agir. Todavia, diferenci-las encaminha o entendimento para os seus significados especficos, embora no haja sempre um consenso entre os autores a respeito desta questo. Vasquez (1978) e Imbert (2002) coincidem a este respeito. Para eles, tica se refere a uma postura reflexiva sobre as questes dos valores; enquanto a moral se refere expresso normativa resultante deste es-clarecimento. A primeira se refere a questes tericas e a segunda a questes prticas. Uma, porm, est contida na outra e ambas no se excluem mutua-mente, sendo a tica reflexiva e a moral normativa. Uma postura tica compreendida como uma reflexo que leva inter-nalizao de valores ultrapassa o formalismo dos cdigos morais. Leis morais e jurdicas existem em profuso e no so garantia de uma sociedade marcada por comportamentos ticos efetivos. Um indivduo poder se submeter s leis e normas e, contudo, no ser tico. Seu comportamento adequado somente enquanto estiver ao alcance das normas sociais e morais. To logo se v fora do controle ostensivo de mecanismos eletrnicos ou de autoridades postadas em pontos estratgicos, passa a revelar sua anomia2 comportamental de imediato. Portanto, preciso que a tica seja a grande iluminadora da moral. Ambas se fazem necessrias. Todavia, a primeira a luz que impregna comportamentos 2 Anomia a inexistncia de regras, normas ou leis. A atitude que resulta da anomia de algum que vive como se para ele no existisse lei alguma.Filosoia e Cidadania110 efetivamente comprometidos, engajados e movidos por valores profundamente enraizados na construo de um mundo melhor para todos. Ser a tica a base da cidadania plenificadora da vida de um povo. Tanto a reflexo sobre os princpios quanto as normas que os aplicam so importantes para orientar o comportamento humano. Submeter-se a uma norma, simplesmente porque ela imposta, despersonaliza e massifica. A afirmao de sujeitos livres e autnomos exige uma compreenso tica e o assumir consciente dos ditames de uma lei moral ou jurdica. Somente uma compreenso tica constri a capacidade de tomar decises e de agir com responsabilidade. Conforme Baptista (2005, p. 23), sensibilidade, prudncia, solicitude ou bondade, so marcas de uma ao tica investida e que requerem o exerc-cio pessoal de uma conscincia crtica. O exerccio tico resulta de uma prtica filosfica que desinstala, inquieta e rompe com toda sorte de dogmatismos. A permanente reflexo crtica leva a salvaguardar a liberdade individual e coletiva de submisses escusas e de manipulaes indignas. Portanto, ao longo de todo o desenrolar deste trabalho, as expresses tica e moral sero entendidas e apli-cadas de acordo com esta compreenso acima explicitada.Imbert (2002) analisa as contradies em que est mergulhado o mun-do atual, desde as realidades econmica, poltica, social, religiosa e cultural. Os conflitos do macrocosmo se refletem no universo do microcosmo individual de cada ser humano. A crise generalizada de valores se reflete em comportamentos desprovidos de qualquer ponto de referncia ou marcados por uma rigidez con-troladora em todos os nveis: o Estado impondo as regras e exercendo o seu controle de forma autoritria, em pseudo-democracias que se perdem no cuida-do dos interesses das minorias privilegiadas; so as famlias que sucumbem a um descompromisso tico de um lado ou, de outro, impondo regras a qualquer custo, na tentativa de no sucumbirem na desestruturao; so as escolas que oscilam entre cobranas desmedidas e a permissividade perigosa, num esfor-o ingente de manter o controle sobre seus alunos; so indivduos, de todas as tica e EducaoTema | 03111 idades e de todas as condies, errando sem saberem conduzir as suas vidas, deriva do no discernimento entre o que certo e o que errado. As mais espetaculares criaes da inteligncia humana, produtos da cincia e da tcnica, se apresentam carregadas de ambiguidades na sua disse-minao e no seu usufruto. Enquanto a humanidade criou possibilidades para resolver virtualmente todos os problemas da terra, a destruio e morte cam-peiam por a de forma descontrolada e sem medida. Enquanto o potencial do desenvolvimento cresce num ritmo vertiginoso, os seres humanos se apresen-tam cada vez mais estressados, ansiosos, depressivos e infelizes. Diante de tudo o que se nos apresenta nesta realidade paradoxal, im-pem-se as perguntas: Qual a raiz destes descaminhos? O que fazer? De onde viro solues para todos estes graves problemas humanos? Como imaginar e propor uma educao identificada com uma postura tica em um mundo onde a tica no contemplada como um valor imprescindvel? Sempre importante se definirem os termos que utilizamos em nossa pro-duo acadmica. Por exemplo, tica e moral podem ser utilizados como sinnimos. Sua origem etimolgica a mesma, embora uma seja grega e a outra latina. Todavia, assumem uma significao especfica em funo de um destaque especial que queremos lhes proporcionar quando as diferenciamos. Explicite o que vem a ser a tica e o que compreende a moral, exemplificando o universo dos valores ticos e das normas morais.S ser possvel pensar-se em uma aproximao entre a educao e a tica como base para a construo da cidadania atravs da busca constante de engajamentos e comprometimentos cada vez mais intensos de todos os cidados na construo desta nova realidade. Ser atravs de uma profunda inquietao tica que poder brotar um engajamento individual e coletivo, do qual podero surgir as solues desejadas por todos. O dramtico seria uma acomodao e o ceticismo desesperanado de que nada possvel fazer. Portanto, preciso fun-dar a esperana de que o mundo transformvel.Filosoia e Cidadania112 Pode-se fundar a esperana de que o mundo transformvel na medi-da em que a semente da tica vai sendo plantada. Ela haver de brotar, nascer, crescer, florescer e produzir os seus frutos, sobretudo nas mentes e nos coraes das crianas e dos jovens, seres ainda moldveis. Na contrapartida de tantos desencantos, evidenciados em toda parte, verifica-se uma quantidade inco-mensurvel de seres humanos, homens e mulheres, tomando conscincia desta realidade paradoxal, comprometendo-se e engajando-se na construo de um mundo melhor, mais justo e mais solidrio. Para Imbert (2002), a educao que se constitui no espao e no instrumento, por excelncia, de implementao deste engajamento tico.A compreenso terica do que vem a ser tica e moral no leva, por si s, a um compromisso tico existencial. Somente uma profunda conscincia a respeito da realidade que exige uma postura tica como condio de evoluo, movida por uma inquietao que compele os cidados ao compromisso efetivo em um engajamento tico tema sobre o qual refletiremos a seguir. Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem), na forma de vdeos, podcast, objetos de aprendizagem, participao no frum de discusso, chat e tirando dvidas de contedo. JOHANN, Jorge Renato. Educao e tica: em busca de uma aproximao. Porto Alegre: EDIPURCRS, 2009. Edio digital, disponvel no link www.edipucrs.com.br/educacaoeetica.pdf.O autor defende a tese de que preciso aproximar a educao da tica para que se formem cidados para uma nova realidade humana, mais justa e equi-tativa. O processo da construo da utopia de um novo homem e de uma nova sociedade ser fruto e produto de um processo simbiosinrgico, em que tica e EducaoTema | 03113 a educao ser o principal meio de consecuo da utopia de um mundo me-lhor para todos os seres vivos. VZQUEZ, Adolfo Snchez. tica. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilizao Brasi-leira, 1978.Um texto clssico de tica, em que o mexicano Adolfo Snchez Vzquez abor-da todos os seus aspectos fundamentais: conceitos, valores, aspectos histri-cos, econmicos, polticos, culturais, religiosos etc.Filosoia e Cidadania114 3.2 O compromisso tico Na busca de uma aproximao entre a educao, tica e cidadania, servimo--nos mais uma vez dos argumentos de Imbert (2002), que defender a ideia de um necessrio engajamento tico3 efetivo na prtica educativa como formadora de cidadania. Estes argumentos ultrapassam a afirmao da mera possibilidade de uma aproximao entre a educao e a tica e colocam-na como necessidade inarre-dvel ao afirmar que o engajamento tico leva-nos a enfrentar a questo do sujeito; o reconhecimento de sua essencial singularidade... (IMBERT, 2002, p. 66).Imbert (2002) inicia seu questionamento sobre a tica no campo edu-cativo pela distino entre tica e moral, como j foi destacado anteriormente. Para ele, o engajamento tico difere da simples obedincia s regras morais. A moral composta por leis e normas, tendendo a ser lgica, previsvel, repetitiva, calculista, conformista e controladora. Assim, de acordo com a perspectiva moral, a educao tem como objetivo a aquisio de hbitos virtuosos, o que pode ser entendido como treinamento ou condicionamento. Desta forma, possvel que algum se submeta a uma norma de maneira inconsciente, passiva e acrtica.Neste sentido, uma escola orientaria pedagogicamente pela regulari-zao e pela moralizao da criana, rejeitando o seu modo de ser espontneo, inquieto e criativo. Deste jeito, esta criana estaria sendo informada e treinada, tal como se condiciona um animal. Portanto, a moral tende a produzir sujeitos passivos e que se submetem s normas. Isto se contrape ao verdadeiro senti-do do engajamento, que depende de um comprometimento tico consciente e efetivo. A tica substitui a perspectiva de uma fabricao de hbitos que garan-tem a boa conduta atravs da conformidade s normas. Esta se expressa pela conscincia de si, do seu mundo e do profundo sentido de direo que implica a sua existncia. Um ser humano sujeito de sua histria se completa no assumir o compromisso que brota de sua inquietude permanente pela realizao de suas metas individuais e coletivas. Esta a base do exerccio da cidadania. O engajamento tico no se caracteriza pelo controle e posse. A tica se constitui num questionamento existencial profundo, permitindo ao ser humano adquirir o discernimento e a capacidade de ter uma perspectiva crtica, sem se 3 Engajamento tico assumir efetivamente o compromisso com a construo de um mun-do melhor, fundado em valores que, de fato, representem uma realidade melhor para todos os hab-itantes do planeta.tica e EducaoTema | 03115 deixar englobar e massificar. A tica promove uma postura de engajamento, de fundamentao crtica, questionando a ordem e o controle produzidos pela dis-ciplina moral acrtica. O engajamento tico, portanto, resulta de uma profunda conscincia dos valores implicados nos atos humanos. Somente esta conscin-cia poder resultar em um verdadeiro comprometimento com uma postura ti-ca fundamental, constituindo-se na base da formao da cidadania. Assistir ao filme Derzu Uzal: uma histria encantadora que mostra o profundo sentido de alteridade de um ser humano em condies inimagi-nveis no que diz respeito necessidade de se pensar no outro. Sinopse: Conta a histria de um explorador do exrcito russo, que resgatado na Sibria por um caador asitico, dando incio a uma forte amizade. Quando o explorador decide levar o caador para a cidade, seus costumes se confrontam de forma esmagadora com o modo de vida bu-rocrtico na cidade, fazendo-o questionar diversos padres da sociedade. Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. preciso reafirmar que no haver espontanesmo4 nesta constru-o, mas ser necessria uma interao entre a educao e a tica, ao longo de todo o processo educativo. Isto quer dizer que todo o processo educativo precisar ser iluminado pela perspectiva tica para se constituir em um pleno processo de humanizao, ou seja, de construo da utopia da realidade de um novo homem e de uma nova sociedade. Assim como Imbert (2002) fala de engajamento tico5, Baptista (2005) usar a expresso compromisso tico para se referir questo da eticidade da educao. Tambm esta autora percebe o desafio tico como uma possibilidade de aproximao, diante de uma realidade carregada de ambigui-4 Espontaneismo diz respeito a algo que acontece ao natural, sem esforo algum.5 Engajamento tico o assumir o compromisso tico de, atravs da educao, criar es-paos de formao da cidadania. O engajamento tico uma exigncia que se estende a todos os momentos, espaos e atividades humanas.Filosoia e Cidadania116 dades e paradoxos. Os educadores precisam se movimentar, em sua prtica educativa, administrando possibilidades ticas em um contexto impregnado de moralismos descomprometidos. Muitos educadores se veem condiciona-dos pela obrigatoriedade de se submeterem a normas as mais diversas e, por vezes, de pouca significao. Submetidos assim a contingncias no-ticas, acomodam-se em legalismos que pouco ou nada acrescentam ao verdadeiro sentido educativo.Diante de uma realidade cada vez mais complexa, as exigncias que se sobrepem prtica educativa desgastante aumentam cada vez mais e cobram dos educadores uma preparao contnua e permanente. Baptista (2005, p. 27) chega a chamar a tarefa do professor de profisso de alto risco e de certo modo uma misso impossvel, tamanha a sua responsabilidade de construir seres humanos livres, responsveis, competentes e autnomos. Esta tarefa no pode ser reduzida a uma mera preparao tcnica para um fazer competente, mas implica a construo de seres humanos por inteiro. Segundo a autora, os aspectos ticos se inserem na essncia desta construo para garantir o ponto de equilbrio entre a teoria e a prtica, entre a racionalidade e a sensibilidade e outros aspectos que perfazem o humano. Uma mera preparao tcnica, baseada mesmo que na excelncia de informa-es, no construiria seres humanos inteiros. Constituir-se-ia em um ensino a reduzir-se em treinamento e ajustamentos de peas para uma grande engre-nagem social.A responsabilidade social da escola implica uma exigncia tica que vai muito alm de uma mera explicitao formal em cdigos e documentos nor-mativos. A complexificao da vida e do mundo, neste novo milnio, exige uma reflexo aprofundada, um dilogo permanente e uma busca incessante dos ca-minhos nos meandros de uma realidade marcada pela incerteza, por paradoxos desconcertantes e consequentemente por um mar de dvidas. Somente atravs de uma reflexo tica comprometida e movida pela sensibilidade dos educado-res que estes caminhos podero ser clarificados, fazendo com que a soma de acertos seja maior do que o acmulo de equvocos e de erros que possam ser cometidos. tica e EducaoTema | 03117 Esta reflexo se faz necessria, porquanto uma postura tica nunca resul-tado apenas de uma bondade natural das pessoas. Os seres humanos no so naturalmente responsveis, comprometidos e solidrios, no dizer de As-smann (2000, p. 20). Estes so valores que precisam ser semeados e culti-vados incessantemente. Esta aprendizagem tica tarefa da educao e ser fruto de uma deciso consciente, de uma prtica reflexiva permanente e que leve a aes efetivas e realizadoras.Mais uma vez, na tarefa desta iluminao reflexiva entra a educao com uma de suas finalidades primordiais, que "tornar as pessoas capazes de fazer a sua diferena no tempo, contra a indiferena, a descrena, o pessimismo e a tentao da inocncia" (BAPTISTA, 2005, p. 39). nisto que se constitui o grande compromisso tico da educao, em que se evidencia claramente a ne-cessidade da aproximao entre ambas.A proposta de Baptista (2005, p. 40) a de uma tica que possa sal-vaguardar a possibilidade de futuro "e que ela chama tambm de" responsabi-lidade prospectiva. A autora se recusa a aceitar o medo como argumento tico e prope a crena na fora do bem. Ser atravs de um debate criativo e pros-pectivo, exercitando a sua capacidade de sonhar e construir, que a humanidade poder fazer a diferena, garantindo o direito vida, o respeito pela liberdade e dignidade de cada ser ou a recusa de prticas de discriminao e de violncia (BAPTISTA, 2005, p. 41). tica cabe dar o sentido de direo e moral cabe balizar o cami-nho. Cabe tica a tarefa principal. Porm, a moral no pode ser subestimada na sua funo de demarcao concreta para um andar seguro. Esta prospectiva se estribar numa retrospectiva e numa perspectiva do momento presente. O olhar precisar estar sempre voltado para o futuro, como esperana de um so-nho possvel. Mas isto s no sucumbir em um futurismo alienante, se no se perderem a dimenso do que ficou para trs e a compreenso do que se passa no momento presente. Diz Baptista (2005, p. 43), que o futuro representa a dimenso de alteridade que fecunda qualquer possibilidade de presente. A ta-Filosoia e Cidadania118 refa do educador tico a de dar rosto ao futuro, levando o educando a se situar nas diferentes dimenses do tempo e a assumir o exerccio de sua liberdade na construo do novo amanh.O compromisso tico resulta da conscincia emergente no ser humano de que ele precisa construir uma sociedade onde caibam todos, no dizer de Ass-mann (2000, p. 13). Da conscincia de sua incompletude e de sua existncia no mundo, que precisa ser ajustado sua condio humana, fundamenta-se a dimenso tica de seu existir. Esta tarefa ele no a realizar sozinho. Como diz Freire (2001, p. 36), ningum liberta ningum; ningum se liberta sozinho; os seres humanos se libertam em comunho, mediatizados pelo mundo. Deste compromisso indi-vidual e coletivo, surgem exigncias imperiosas, pois transitar coletivamente em um mundo complexo, plural e paradoxal, implica um movimento profunda-mente tico. Os companheiros de travessia no podem ser percebidos como amea-a. Suas diferenas precisam ser compreendidas como riqueza e possibilidade. A liberdade, como diz Baptista (2005), no termina com a presena do outro, mas exatamente comea com a entrada do outro no seu mundo de relaes. Aqui a educao e a tica se aproximam atravs da convivncia humana como uma das mais importantes questes ticas e que precisam ser equacionadas pela educao.Assume-se aqui, portanto, o conceito de tica como uma permanente reflexo a respeito dos valores que orientaro a travessia humana. A tica pode-r se expressar em normas que explicitaro os balizamentos desta caminhada. Porm, sempre sero iluminadas pela criticidade tica6 que impedir o lega-lismo7 estril de regras absurdas e sem sentido. Somente a reflexo tica poder 6 Criticidade tica refletir e escolher valores que, de fato, levem construo de um novo homem e de uma nova sociedade.7 Legalismo a submisso cega s leis. Assim, algum poder at cumprir rigorosamente as leis enquanto houver controle externo. Porm, o legalista no internaliza valores para conduzir tica e EducaoTema | 03119 levar ao discernimento do que, de fato, se constitui em valor, apontando para tudo o que acrescenta na construo de um ser humano pleno. Somente uma profunda sensibilidade tica poder fazer brotar no ser humano comportamen-tos construtivos, gerados pela bondade, pela prudncia, solidariedade, justia, autonomia, liberdade, o que equivale a dizer, a verdadeira cidadania.Formar um cidado no ser uma tarefa que brote espontaneamente de uma condio meramente individual. A cidadania sempre ser resultado de um processo educativo que se inicia desde o princpio da vida de uma pessoa e perdura por toda a trajetria humana. o que se fundamentar no prximo captulo. A realidade que nos apresentada cotidianamente est repleta de exemplos de prticas ticas e antiticas, morais, amorais e imorais. Os meios de co-municao veiculam cenas escabrosas de roubos, de falcatruas e obscenida-des repugnantes ao lado de exemplos maravilhosos de comprometimentos e engajamentos ticos. O que faz com que indivduos, ocupando cargos im-portantes na realidade nacional, comportando-se de maneira indecorosa e at mesmo criminosa e, por outro lado, indivduos simples do povo, como taxistas e garis, devolvendo dinheiro encontrado em seus espaos de trabalho - expressem comportamentos to negativos e to positivos nas mais diversas situaes? O que determina a qualidade do comportamento das pessoas? Buscaremos, daqui para frente, mais argumentos que possam nos aju-dar a clarificar a necessidade de que, diante de uma realidade existencial to ambivalente, se torne possvel a aproximao da educao e da tica como con-dio de formao da cidadania. J tomamos como fio condutor desta anlise, o pensamento da filsofa Hannah Arendt, Francis Imbert, Paulo Freire e Isabel Baptista. Ainda continuaremos nos servindo desses pontos de referncia teri-cos, especialmente os da filsofa alem Arendt. Mais adiante, sero acrescenta-corretamente sua vida sem a permanente ameaa de punio.Filosoia e Cidadania120 dos outros autores para reafirmar esta linha de raciocnio segundo a qual no h cidadania sem educao e tica. Cada um deles ser apresentado na medida em que seus pensamentos forem iluminando nossa reflexo.Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vdeos, podcast, objetos de aprendizagem na participao do frum de discusso do tema, na busca de esclarecimentos atravs do chat e de e-mail.BACH, J. Marcos. Conscincia e Identidade Moral. Petrpolis: Vozes, 1985.O jesuta Marcos Bach faz uma reflexo sobre a conscincia e a liberdade como condies fundamentais de toda moral e de toda tica, enquanto abor-da os seus mltiplos aspectos: psicolgicos, espirituais, sociais, polticos, eco-nmicos, ecolgicos, histricos, culturais, sexuais etc. JOHANN, Jorge Renato. Educao e a Utopia da Esperana: um novo homem e uma nova sociedade. Canoas: ULBRA, 2008.O autor gacho JR Johann apresenta a educao como o grande instrumento de construo da utopia de um novo homem e de uma nova sociedade, em uma perspectiva de esperana de que o mundo transformvel.tica e EducaoTema | 03121 3.3 A formao do cidadoA trilha na busca de uma aproximao entre a educao, tica e cidada-nia vai se abrindo medida que nos aprofundamos na reflexo sobre a realida-de em que os seres humanos se movimentam nos dias atuais. Os paradoxos do mundo em que vivemos e as ambiguidades e contradies comportamentais se revelam constantemente em todos os momentos de nosso cotidiano. Desta per-da de pontos de referncia ticos resulta uma perplexidade e uma desorientao generalizadas no que diz respeito a quase todas as aes humanas. A quebra de paradigmas tradicionais no significou uma clarificao tica ao natural. Os va-lores que, no passado, davam segurana para gerir os comportamentos, sofreram profundos questionamentos e resultaram em transformaes radicais. Todavia, nada se colocou em seus lugares e o vazio tico se aprofundou de tal maneira que o relativismo lanou as pessoas numa desorientao preocupante. Isto se revela em todos os aspectos da vida: nas prticas econmicas e polticas; nas relaes interpessoais; nas expresses da espiritualidade; nos comportamentos afetivos e sexuais; nas relaes entre os povos; na relao com a natureza; na veiculao dos contedos dos meios de comunicao; na desintegrao dos moldes tradicionais de instituies, como a famlia, e uma legitimao de relaes antes consideradas impensadas; enfim, uma verdadeira revoluo dos costumes se verifica em todos os setores da vida humana e em todas as partes do mundo. Isto no quer dizer que a tica deixou de existir. O que se verifica o surgimento das mais diferentes prticas ticas. Por exemplo, no se pode dizer que uma sociedade capitalista neoliberal8, individualista e excludente, no tem tica. A sua tica exatamente privilegiar nica e exclusivamente o processo de acumulao e de concentrao dos bens da terra nas mos de um grupo cada vez menor dos que detm o poder. Mesmo que a sua justificao seja uma merito-cracia, que no discute as verdadeiras causas de seus aspectos nefastos, assim que ela se orienta, age e se legitima. Alis, preciso dizer que, para este modelo de sociedade capitalista, a excluso da maioria sequer considerada algo escan-daloso. De acordo com a sua tica, eliminar o maior nmero de concorrentes sinal de competncia e algo que precisa ser destacado e premiado. 8 o modelo econmico vigente em todo o mundo e cuja base a livre concorrncia e seu objetivo maior o lucro.Filosoia e Cidadania122 A cidadania surge da simples bondade das pessoas? Algumas pessoas j nas-cem propensas a se comprometer com o cuidado das outras, assim como os individualistas e descomprometidos so assim por um modo de ser herdado e nada mais possvel fazer? Ou ser que cidadania se aprende e o compro-misso e engajamento ticos podem ser produto de um processo educativo e da cpia de modelos positivos?Diante desta realidade, pensamos sobre a prtica educativa como uma fora social que tem como finalidade bsica a formao de seres humanos e, por conseguinte, de uma sociedade em que todos possam se realizar e ser felizes. Tomamos como pressuposto de que a educao formal propositadamente no inclumos nesta reflexo a ampliao do conceito de educao para outros espa-os educativos que no o universo escolar tem como objetivo a construo de um ser humano e de uma sociedade marcados por valores que os harmonizem sob todos os pontos de vista, superando as contradies, ambivalncias e para-doxos do mundo contemporneo. Esta afirmao aponta para a aproximao entre a educao e a tica. Po-rm, de imediato, temos que admitir que a prpria educao nem sempre se volta para estes objetivos e, contudo, continua sendo uma prtica educativa. A educao est inserida no contexto que a realiza e, em princpio, ela o dever reproduzir. Com esta constatao que nos lanamos no encalo de caminhos que possibilitem uma busca efetiva de aproximao entre ambas, no encalo da utopia da construo de um novo homem e de uma nova sociedade. Esta se refere a um ser humano e uma sociedade equilibrados, justos, solidrios, harmonizados e felizes. O processo de passagem de uma condio de hominizao para uma condio de humanizao no se dar de forma espontnea e tampouco instin-tiva. Hominizar refere-se simplesmente ao fato de algum ter nascido de um homem e de uma mulher. Humanizar quer dizer realizar a construo de um ser humano cada vez mais lcido, consciente, dinmico, participativo e fabricante de sua prpria existncia e de uma realidade coletiva que contemple a incluso de todos os que o rodeiam. exatamente nesta passagem da hominizao para tica e EducaoTema | 03123 a humanizao que se apresentaro os fatores determinantes da educao e da tica como propulsores desta utopia que acalentamos. Vislumbramos assim al-guns caminhos que, buscando aproximar a educao e a tica, podero ser per-corridos, no como uma receita de bolo, mas como possibilidades efetivas de sua realizao e de construo da cidadania. Destacamos, como primeira pista de aproximao, a perspectiva de Fran-cis Imbert. O caminho apontado por Imbert (2002) para uma aproxima-o entre educao, tica e cidadania fazer acontecer a passagem de uma autonomia para uma heteronomia. Ser heternomo quer dizer assumir o cuidado do outro de tal forma que este se coloca como uma primazia em relao at mesmo ao cuidado de si mesmo. Somente um indivduo mo-vido por uma profunda inquietude em relao ao outro que assumir a prtica tica de cuidar do outro. A educao ser, por excelncia, uma pr-tica tica quando deixar de ser meramente informadora ou moralizadora, isto , apenas transmissora de informaes e normas. Ser atravs de uma prtica educativa impregnada de tica que se dar a construo de um ser humano bem formado e, por conseguinte, de uma sociedade que resulte de uma autntica cidadania de seus componentes. Para Imbert (2002), a perspectiva tica se apresenta como caminho de enfrentamento de todos os dramas humanos da atualidade. Ser atravs de uma prtica da cidadania, mobilizada por uma profunda inquietao tica, que podero surgir solues para as graves contradies que afligem a humanidade. Este engajamento tico ser promovido pela educao. Engajar-se quer dizer assumir a responsabilidade individual e coletiva na construo de um mundo em que todos os seres humanos possam ter o seu lugar e a sua vez para viverem de forma cada vez mais digna e assim conseguir a felicidade para a qual foram criados. A prtica educativa exige o compromisso tico. Com a internalizao dos valores9, estes passaro a ser assumidos como compromissos viscerais, en-9 Internalizao de valores fazer com que eles sejam plantados profundamente em nossa Filosoia e Cidadania124 raizando-se na estrutura da personalidade formada pelo processo educativo.A busca de aproximao entre educao, tica e cidadania elegeu tam-bm os pontos de referncia apresentados por Arendt (2007) como fio condutor desta reflexo. E dela que tomamos a segunda pista a orientar o caminho de aproximao entre a educao e a tica. Ela parte do mais primordial dos fen-menos humanos que o nascimento de um novo ser. Deste inacabamento, ha-ver de se construir um ser humano inteiro e completo. Este processo de desen-volvimento no poder se resumir a um simples labor, atividade de provimento da subsistncia biolgica, nem tampouco atravs da fabricao, fruto e produto do trabalho humano. A plenificao humana se dar pela ao consciente e lci-da de seus fazedores de histria. Para que desabroche este sujeito de sua prpria histria, preciso que a educao assuma o seu papel de estimuladora desta ao temporalizada. O recm-chegado ter que ser acolhido e cuidado com ca-rinho. Esta a funo da educao, o que implica um profundo engajamento tico. A educao no exclui a atividade do labor e nem do trabalho. O labor, por mais simples e primitivo com que se apresente, mesmo que de forma incipiente, tambm necessitar de alguma eticidade na sua consecuo. Da mesma forma, tambm o trabalho que, com facilidade, se transforma em mera fabricao, pre-cisa da educao e da tica para que se constitua num processo mais humaniza-do. Mas na ao e no discurso, de acordo com a concluso de Arendt (2007), que se plenifica a atividade humana. A ao resulta da postura de um ser sujeito de sua prpria histria. Este algum que pensa, enxerga, ouve, fala e assume na prtica cotidiana a tarefa de transformao com a qual se compromete. O discurso, ou seja, a sua palavra proferida o identifica como um ser nico e espe-cial, da mesma forma como afirma Paulo Freire.Na ao e no discurso propostos como o essencial da atividade e da rea-lizao humana, Arendt e Freire se aproximam. Em que pese a diferena de suas matrizes tericas Freire emerge da perspectiva dialtica marxista, enquanto Arendt funda sua teoria nas origens da filosofia grega podemos alinhar os aspectos tericos de ambos: para Freire (2003), ser humano aquele que diz a sua palavra. pela palavra que ele se identifica e assume o seu significado como sujeito de sua prpria histria. A palavra fruto e produto de seu nvel de cons-mente e em nosso corao e, sem que seja necessrio o controle externo, haveremos de buscar sempre o melhor para ns prprios e para os que nos rodeiam.tica e EducaoTema | 03125 cincia crtica. Esta consiste na percepo de si e de seu mundo e da ao que ele exerce sobre a sua realidade, ultrapassando a condio de mero objeto, para tornar-se sujeito. Tambm desta forma temos mais um elemento de aproxima-o entre educao e tica. Freire (2003) evidencia que o prprio conceito de educao inclui a dimenso tica. E baseando-se nele que descrevemos os elementos fundamen-tais constitutivos de um conceito de educao. Para ele, tica e educao se im-bricam visceralmente na grande utopia da criao de um novo homem e uma nova sociedade. Entretanto, preciso, como diz o autor (2006), cultivar uma esperana histrica. Isto porque teremos que conviver com uma educao que muito pouco tica. E na reverso desta realidade que se constitui a tarefa dos educadores. A educao ter que se transformar em uma prtica da liberdade. Todavia, esta utopia haver de se construir gradativamente atravs de um pro-cesso conscientizador de aproximao. Esta ao de Freire a mesma de que fala Imbert. Ambos os autores se referem a uma postura como identificadora de um ser humano consciente e dono e senhor de sua prpria histria. Apontando outro aspecto importante na busca de aproximao entre educao, tica e cidadania, chamamos a ateno para o quanto cada ser huma-no fruto e produto de sua prpria histria. Cada ser humano tem dentro de si, impresso pelas mais diferentes maneiras seja por uma herana de uma me-mria gentica, seja por um inconsciente coletivo, seja por condicionamentos intra-uterinos ou por qualquer outra forma de estruturao de personalidade, a criana que foi e que continua sendo at mesmo na idade adulta. Todavia, um princpio da educabilidade humana o fato de que no somos prisioneiros de nossa histria. Por pior ou por mais grave que tenham sido as condies e as experincias pregressas de qualquer indivduo, sempre ser possvel cicatrizar as feridas emocionais, transformar-se e mudar os rumos a serem tomados. De uma situao de profundas marcas negativas impressas na mente e no corao de qualquer ser humano, possvel fazer com que, atravs da educao, novos valores e direcionamentos sejam aprendidos e assumidos. Com este pressuposto, no esgotamos a discusso em torno da possibi-lidade de recuperao humana. H quem afirme que existem situaes em que nem a educao mais bem elaborada e exercida poder modificar seres humanos completamente deteriorados. Contudo, em princpio, afirmamos a educabilida-de humana como pressuposto para, pelo menos, tentarmos realizar a mudana, Filosoia e Cidadania126 independentemente do quanto atingiremos os objetivos de transformao. Diante da brutalidade que o mundo conheceu no ltimo sculo e que continua nos ameaando cotidianamente at hoje, violncias que se apresentam em todos os cantos e que j esto batendo em nossa porta, urge que a educao seja tica e forme cidados, enquanto os prepara para suas especificidades tc-nicas. O sentido de alteridade uma sensibilizao que precisa ser aprendida pelas nossas crianas, jovens e educandos de todas as idades. Criar condies que despertem nos seres humanos o sentido de cuidado para com quem est ao nosso lado tarefa da educao, ou seja, uma tarefa essencialmente tica. Com isso, entendemos que a violncia tambm tem como causa, entre outros tantos determinantes, a falta de uma aprendizagem tica, estabelecendo-se aqui como tarefa educativa essencial.Assista O Clube do Imperador. O filme trata da formao do carter do cida-do, abordando as relaes que se estabelecem em uma instituio educati-va tradicional. Um mundo plural, marcado por diferenas tnicas, religiosas, culturais etc., no pode mais entender as suas diversidades como entraves sua convi-vncia e desenvolvimento. Isto ser possvel pela emergncia de uma nova cons-cincia histrica que brota por parte de todos os indivduos e povos que se veem na condio de excludos com relao s possibilidades de superao de sua ex-cluso. Verifica-se, de fato, em todo o mundo, como esse processo viceja atravs de reunies em que se discutem os problemas globais, especialmente das comu-nidades mais excludas, marginalizadas e empobrecidas. H sinais evidentes de que a busca da equidade social uma preocupao em todo o mundo, seja pela preocupao com a auto-preservao ou por um sentido de alteridade10 que, de fato, j estaria emergindo nas mentes e nos coraes da humanidade como um 10 Sentido de alteridade a sensibilidade que faz com que nos preocupemos e ocupemos com quem est ao nosso lado. Alter, no latim, quer diz outro. A alteridade que nos leva a cuidar do outro, seja ele quem for.tica e EducaoTema | 03127 todo. Tem-se, como exemplo, os ventos que varrem o planeta todo no sentido de acolhimento das diferenas como riquezas a serem compartilhadas. Na contra-partida de um mundo que acentua as diferenas por atitudes preconceituosas e discriminatrias, apresenta-se uma reao contundente a toda e qualquer ma-nifestao de preconceitos de qualquer natureza. Da mesma forma, referimo-nos ambiguidade antes citada dos meios de comunicao. Estes tanto podem levar para uma massificao alienante e avas-saladora, quanto podem se constituir em instrumentos de disseminao das cul-turas inter-relacionadas, num processo de enriquecimento mtuo e generalizado. Assim, a mdia poder ocupar um papel preponderante na semeadura de uma alteridade tica. Em vez de se prestar mais para disseminar os valores do indivi-dualismo, da competio predatria, do consumo desenfreado, da banalizao e legitimao de toda sorte de contra-valores, poder assumir o seu papel na edu-cao e formao de homens e mulheres comprometidos com o cuidado do outro. Assim, os seres humanos havero de compreender que assumir as ne-cessidades dos outros ser condio de vida e de sobrevivncia de toda a hu-manidade. Caber educao assumir a tarefa importante de disseminao de alteridade tica. Somente um processo educativo comprometido com uma pr-tica tica que impregne o educando destes valores, do princpio ao fim da vida, poder sensibilizar para a criao de comportamentos de construo da vida. O produto da ao educativa ser homens e mulheres livres, responsveis, compe-tentes e autnomos. Estas caractersticas identificam seres humanos marcados e comprometidos com valores ticos. A tarefa educativa no poder ser redu-zida a uma preparao tcnica apenas, mas ter que mobilizar o ser humano por inteiro. Enquanto se verificam as exigncias corporativistas impondo pla-nos pedaggicos que excluem qualquer formao humana em favor da exclusiva especificao tecnolgica, urge a recuperao da incluso de um currculo que integre a busca do conhecimento e das habilidades prticas com os valores da convivncia e da construo da totalidade do ser humano.Buscar a aproximao entre a educao, tica e cidadania condio de garantia de um futuro melhor para o planeta e para toda a humanidade. Os en-traves para esta construo so o imobilismo, o ceticismo e o fatalismo da terra arrasada, ou seja, a crena de que nada possvel fazer. da educao e da tica que vir o sentido da ao criadora e da moral o direcionamento do caminho a ser percorrido. esta esperanosa viso de futuro que iluminar a construo Filosoia e Cidadania128 da utopia de um mundo melhor. Isto s ser possvel se os protagonistas deste amanh a ser construdo forem temperados eticamente. A formao de um ser humano resultar de uma prtica educativa em que todos os valores lhe sero passados como moldes a serem assimilados e por ele incorporados como novas maneiras de ser e de viver. Diante da questo tica como condio fundamental para a viabiliza-o de uma condio humana digna e construtiva, h quem assuma uma postu-ra frontalmente marcada pela anomia, h quem declara sua neutralidade tica e h quem assume conscientemente o seu compromisso tico. No captulo se-guinte, refletiremos sobre a impossibilidade de haver uma realizao humana individual e coletiva plenas sem que o desenvolvimento se faa sob todos os aspectos da pluridimensionalidade do desenvolvimento humano. Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vdeos, podcast, objetos de aprendizagem, participao no frum de discusso do tema, chat e na busca de ajuda atravs do quadro para tirar dvidas. BOFF, Leonardo. tica da Vida. 2. ed. Braslia: Letraviva, 2000.A grande questo tica na atualidade no diz mais somente respeito con-dio humana, mas o que est em jogo a prpria condio da existncia humana, ou seja, a vida no planeta. Leonardo Boff reflete e expe contunden-temente o desafio de cuidarmos do planeta para que ele no se transforme em um planeta cadver. ___. O Despertar da guia. 17. ed. Petrpolis: Vozes, 2002.tica e EducaoTema | 03129 As mudanas s podero acontecer a partir do despertar de todos os seres humanos para o cuidado que precisamos ter para com tudo e todos que nos cercam. Faz-se premente a necessidade de que cada cidado do planeta assu-ma a sua parte e formemos um coletivo que cuida da prpria casa. O tempo urge e a gravidade de uma situao de destruio e de morte se expande rapi-damente. O clamor do planeta ferido se faz ouvir de todas as formas em todos os cantos do mundo. Filosoia e Cidadania130 3.4 O ser humano integral Para explicitar mais o sentido da ao educativa na construo da cida-dania, considerando-se que Arendt no estabelece explicitamente esta relao, e ampliar cada vez mais a busca de sua aproximao com a tica, acrescentam--se os argumentos de autores que se alinham, embora cada um a sua maneira, ao seu pensamento. Estes autores reafirmam a tese de uma educao tica e corroboram os argumentos que foram elencados at agora em seu favor.Reafirmando o pensamento de Arendt (2007), cabe aqui acrescentar o pensamento de Ricoeur (1991), que tambm se debrua sobre a identidade do sujeito que age e sobre as condies em que esta atuao se constri. Ele parte do pressuposto de que a ao s poder ser plenamente compreendida depois que ela se encerra e narrada. Assim como as indagaes de Arendt, suas grandes perguntas sobre a ao humana so: quem que age e qual a sua identidade?Responder s perguntas sobre os autores da ao e suas identidades exige uma reflexo que precisa ir alm da identificao de nomes prprios. preciso compreender todo o processo de construo de suas identidades. A tese fundamental de Ricoeur (1991) que esta travessia humana se constitui narrati-vamente, isto , atravs das leituras histricas e da fico. Somente dentro desta perspectiva que ela se situa e poder ser compreendida.Assim Ricoeur (1991) estabelece a relao entre educao e narrao e apresenta argumentos que fundam a possibilidade de pensar a educao como o processo de construo de uma identidade narrativa. Este enfoque tem se tor-nado cada vez mais atual, na medida em que, na crise de uma perspectiva posi-tivista, impe-se uma perspectiva crtica cada vez mais localizada, substituindo-se a racionalidade por abordagens de cunho emocional, afetivo e de natureza biogrfica. Para ele, a vida humana essencialmente histrica, concretizada e narrada em tempo e em espao bem definidos. Esta grande aventura tem como protagonista o ser humano que a expressa em sua biografia e a repensa na for-ma de um relato. A construo da prpria identidade humana precisa ser inter-pretada narrativamente.Nesta perspectiva que se d a contribuio de Ricoeur (1991) para a compreenso da ao educativa. O ser humano no pode se compreender di-retamente, mas atravs de signos que esto fora dele mesmo, como a cultu-tica e EducaoTema | 03131 ra, a religio, a sociedade, a histria, a linguagem, os smbolos e os mitos. Seu autoconhecimento, sua auto-compreenso e a conscincia de si s podem ser atingidos atravs dos produtos que ele mesmo cria. Ele se apresenta como um ser eminentemente interpretativo, buscando sua significao atravs de meios intermedirios. Esta condio de necessidade de interpretao do mundo exige o exer-ccio da leitura. atravs desta tarefa que ser possvel descobrir o mundo e saber quem somos. Esta a principal tarefa da educao narrativa. O ser huma-no vai absorvendo, desde o seu nascimento, toda uma carga de cultura atravs de todas as instituies pedaggicas encarregadas de transmiti-las, formal e in-formalmente. Resulta que a identidade dos seres humanos, desde a mais tenra infncia, construda narrativamente, ou seja, atravs das formas de mediao simblico-narrativas (linguagem, regras de conduta, concepes de mundo, ideologias...) que condicionam seu ser no mundo. At para transformar esta realidade preciso conhec-la. E s se conhece algo que j foi narrado, isto , interpretado e relatado. Assim, a educao se constitui na formadora da identidade pessoal atravs dos textos histricos e de fico. isso que faz nascer e se desenvolver o de-sejo de continuar transmitindo aos recm-chegados todas as experincias vividas. no colo da me, ou seja, atravs da linguagem materna, que se transmitem, simbolicamente, as primeiras lies de vida. estimulando a imaginao infantil os contedos fictcios que se desenvolvem adultos criativos no enfrentamento da realidade. nisto que se constitui a tarefa da educao, como algo eminentemente narrativo. E a infncia a poca em que somos educados ouvindo histrias. A infncia se caracteriza pelo ldico e pela compreenso animista do mundo. Resulta que o mundo da criana se consti-tui em um mundo mgico e criativo e tudo pode se transformar em histrias para serem contadas e recontadas.Filosoia e Cidadania132 Aprender a ser humano assim como aprender a ler e a narrar em um mundo que percebemos como plural e diverso. A literatura recria, reconstri a ao e lhe d um sentido. Para Ricoeur (1991), poetizar representar de maneira criadora, original e nova o campo da ao humana, estruturando-a ativamente mediante a inveno de uma trama, de um relato. Afirma assim, cada vez mais claramente, o quanto a ao educativa se funda na imaginao e na inveno, como formadora de identidade. A narrao remete vida. L-la um modo de viver. Isto desafiar o leitor a construir o seu prprio texto vital. Isto obriga o ser humano a afastar-se de si mesmo para chegar ao autoconhecimento. Isto pos-svel atravs da leitura. O leitor se reconhece atravs dos personagens fictcios.Assim, para Ricoeur (1991), possvel refigurar o personagem que somos atravs da leitura. Escutando relatos e narraes, melhoramos a capa-cidade para compreendermos a ns mesmos e as diferentes etapas de nossas vidas. Assim, a literatura se coloca como um laboratrio para experincias de pensamento e de vida. E a educao ter como grande tarefa introduzir os seres humanos na leitura do texto e do mundo em que vivemos. A aproximao entre a educao e a tica se baseia no prprio con-ceito de tica explicitado por Ricoeur (1991, p. 211), ao falar sobre a defi-nio da perspectiva tica: visar verdadeira vida com e para o outro nas instituies justas. Uma escola se constituir em uma instituio educativa medida que criar as condies para que os educandos se construam como seres solidrios, com uma boa autoestima e que possam viver bem com e para os outros.Cabe tambm acrescentar, como elemento de reafirmao da tese de aproximao entre a educao e a tica como fundamentos da cidadania, as ideias bsicas de Emmanuel Levinas. A razo de mais esse acrscimo se deve ao alinhamento dos pensamentos destes dois filsofos com as ideias de Arendt: assim como Ricouer (1991), Levinas (1988) vai conferir um referencial especial, propondo a formao de um profundo sentido de alteridade para a relao hu-mana. A procura do outro haver de se constituir no jeito singular de ser da ta-refa de um educador. Este sentido de alteridade, por sua vez, se constitui numa postura tica fundamental e necessria. Educar ir ao encontro do educando. O fazer de um educador, em que pesem as dificuldades e contradies de sua prtica cotidiana, ser sempre a construo de seres humanos comprometidos e abertos s necessidades dos outros.tica e EducaoTema | 03133 O contexto do qual emergiu a construo do pensamento de Levinas foram os horrores que se produziram ao longo do sculo XX. O grande questio-namento que a humanidade moderna se fez foi no sentido de explicar e compre-ender as razes de tamanhas ambiguidades deste tempo de tanto desenvolvi-mento, em todos os sentidos. O mesmo ser que foi capaz de conquistar espaos siderais o ser que destri com requintes de barbrie jamais vistos em toda histria humana. O mesmo ser que se emociona diante de uma obra de arte o ser que vai para o trabalho em um campo de concentrao.Estes paradoxos do mundo moderno levaram Levinas a questionar uma pro-posta pedaggica e tica que se fundasse na racionalidade e na autonomia dos seres humanos. Este questionamento o levou a propor uma pedagogia e uma tica baseadas na heteronomia, caracterizando a ao educativa como uma relao de alteridade, de hospitalidade, de acolhida, isto , um movimento de encontro do recm-chegado, de acordo com as palavras de Arendt (2007). Nesta relao solidria e amorosa, o ser tico se apresenta como uma condi-o essencial.Esta a proposta fundamental de Levinas (1988). Para ele, a autono-mia no ser substituda pela heteronomia, mas colocada em segundo lugar. Ser autnomo no garantia de interpretaes, de escolhas e de aes adequadas. A autonomia no pode ser a primeira palavra. A heteronomia aparece como uma resposta expresso do rosto do outro. Esta relao ser marcada profun-damente pela responsabilidade para com o outro. A prpria liberdade pessoal ceder espao ao chamado do outro. Ir ao encontro do outro exigncia que se sobrepe ao prprio cuidado de si mesmo, como uma responsabilidade que antecede at a liberdade individual. Nisto consiste o sentido de heteronomia. A autonomia s adquire o seu verdadeiro sentido ao se expressar no compromisso da heteronomia.Levinas (1988) explicita amplamente o conceito de outro e do rosto. este outro que ser a condio de possibilidade da constituio tica do sujeito e da re-Filosoia e Cidadania134 configurao tica da subjetividade. O rosto a interioridade, o rastro e a presena viva do outro. O rosto no se v, se escuta. O rosto no a face visvel, mas a presen-a mais profunda do outro. O rosto do outro transforma a ao educativa em uma recepo e em resposta a uma chamada sua. O rosto faz da educao responsabili-dade. A tica no comea com uma pergunta, mas como uma resposta demanda do outro. Isto o que significa a heteronomia: responsabilidade para com o outro. A responsabilidade a condio da liberdade, isto , ela anterior a todo compro-misso livre. A subjetividade humana se constitui na escuta e na resposta atenta da palavra do outro, uma resposta ao seu apelo e sua demanda.A educao ser entendida como uma tarefa de hospitalidade. O en-tendimento da pessoa sempre se dar atravs de sua bagagem histrica. O que leva ao encontro e ao entendimento do outro a resposta e o cuidado que se tem para com ele. O percurso para se chegar a esta alteridade no uma mera projeo mental, mas um profundo sentir com o outro. De um eu fechado em si mesmo, chega-se grande luz da alteridade. Esta grande luz o rosto do outro. O rosto abre a conscincia e atinge o eu, nico e prprio. O eu s pode ser aco-lhido pela hospitalidade. A identidade profunda de cada ser humano s pode ser conhecida pela prpria revelao. Este rosto se identifica pela palavra que expressa o grande clamor pela vida.A questo fundamental para a filosofia da educao de Levinas (1988) a responsabilidade e o cuidado do outro. o rosto que abre a relao. atravs do rosto que se busca o outro e ele se revela. Atravs da alteridade se apreende o outro. Esta a primeira tarefa e o primeiro exerccio de um professor. O rosto como o infinito. Pode ser tocado, mas nunca definido. Podemos nos aproximar do rosto, mas jamais aambarc-lo e apreend-lo de todo.O rosto o contnuo apelo de justia. o pedido incessante para que no se deixe o outro morrer. Enquanto o vestgio de Deus a ordem do bem, a ordem do mal se manifesta atravs da fome como a marca mais profunda de morte no mundo de hoje. O ser humano no se constitui somente como ser in-dividual, mas fundamentalmente na relao solidria com o outro. disto que surge e se fundamenta a questo tica. O eu e o rosto precisam estar permanen-temente em dilogo. Nesta condio, processa-se a revelao livre de um para com o outro.O bem todo o rosto humano. Educar fazer com que o outro cresa, melhorando a sua qualidade como ser humano. Uma boa educao desperta tica e EducaoTema | 03135 fundamentalmente a dimenso tica. Para que a educao assim se apresente, preciso clarear cada vez mais os seus objetivos. Somente tendo-se clareza a respeito dos fins a que a educao se prope, ser possvel direcion-la para a verdadeira construo humana. Sem uma utopia que a oriente, ser muito dif-cil fazer com que a educao se constitua em fora de plenificao humana. Para Levinas (1988), preciso que a educao se expresse, cada vez mais, como um exerccio da hospitalidade e do cuidado, baseando-se assim na tica da ateno.Assim como Arendt (2007), a condio humana refletida por Baptista (2005) na procura de uma construo social realizada atravs de uma prtica educativa que se ilumine pelos princpios ticos. Esta reflexo esbarra num per-manente desafio de conciliao entre os legados culturais que nos advm dos que nos antecederam e a necessidade de responder eticamente s exigncias de um mundo que avana, marcado por diferenas de toda ordem. A complexidade das novas questes que exigem respostas adequadas a um novo tempo carac-terizado pela perda de pontos de referncia ticos joga homens e mulheres, de todas as idades, e tambm os educadores, num mar de dvidas e incertezas. De pouco adiantaria assumir-se uma postura saudosista e anacrnica, apelando-se para os supostos valores que vigoraram no passado. So muitos os que afirmam repetidamente que bom e certo era o que se viveu antigamente e que hoje o mundo est perdido. preciso conciliar os valores que herdamos com as suas necessrias reinterpretaes luz das novas realidades que se apre-sentam. Sem sucumbir em posturas marcadas pelo relativismo, fatalismo ou ceticismo, preciso reafirmar a certeza de que, o que se apresenta de forma ca-tica e assustadora, tambm pode representar um momento frutfero, de grandes oportunidades de mudana e de esperanosas transformaes. Mais uma vez, na tarefa desta iluminao, agora na afirmao de Bap-tista (2005, p. 39), entra a educao com uma de suas finalidades primordiais, que tornar as pessoas capazes de fazer a sua diferena no tempo, contra a in-diferena, a descrena, o pessimismo e a tentao da inocncia. nisto que se constitui o compromisso tico da educao, em que se evidencia a necessidade da busca de uma aproximao entre ambas.A proposta de Baptista (2005, p. 40) a de uma tica e de uma moral que possam salvaguardar a possibilidade de futuro "e que ela chama tambm de" responsabilidade prospectiva. A autora se recusa a aceitar o medo como argu-mento tico e prope a crena na fora do bem. Ser atravs de um debate cria-Filosoia e Cidadania136 tivo e prospectivo, exercitando a sua capacidade de sonhar e construir, que a humanidade poder fazer a diferena, garantindo o direito vida, o respeito pela liberdade e dignidade de cada ser ou a recusa de prticas de discriminao e de vio-lncia (BAPTISTA, 2005, p. 41). tica cabe dar o sentido de direo e moral cabe balizar o caminho. Cabe tica a tarefa principal. Porm, a moral no pode ser subestimada na sua funo de demarcao concreta para um andar seguro. Esta prospectiva se estribar numa retrospectiva e numa perspectiva do momento presente. O olhar estar sempre voltado para o futuro, como es-perana de um sonho possvel. Mas isto s no sucumbir em um futurismo alienante, se no se perderem a dimenso do que ficou no passado e a compre-enso do que se passa no momento presente. Diz Baptista (2005, p. 43), que o futuro representa a dimenso de alteridade que fecunda qualquer possibilidade de presente. Estas palavras da autora apontam a ajudam a clarificar a busca de uma aproximao entre educao e tica. O futuro clama por uma realidade construda de acordo com valores que a tornem melhor. E mais uma vez se co-loca a educao como instrumento de construo desta utopia e que ela no se dar como um fato pronto e acabado, mas sempre como uma prospectiva ilumi-nadora a se fazer progressivamente. A tarefa do educador tico a de dar rosto ao futuro, levando o educando a se situar nas diferentes dimenses do tempo e a assumir o exerccio de sua liberdade na construo do novo amanh.A aprendizagem da convivncia uma das grandes tarefas da educao para este novo milnio. A partilha dos bens da terra um dos grandes desafios do futuro imediato. As possibilidades de se construir um mundo bom para todos so sem limites e as riquezas para isso so incomensurveis. Mas, como isso se far, se os seres humanos no so to naturalmente solidrios (Assmann, 2002, p.20)? Esta dimenso tica somente florescer se for plantada e cultiva-da no corao humano atravs da educao. Esta tarefa se exercitar desde os pequenos gestos cotidianos entre as crianas em uma sala de aula. Um cidado adulto, solidrio, criativo, perguntante, que saiba conviver com as diferenas, que ainda saiba se indignar diante de tudo o que acontece ao seu redor e que nunca perde a alegria de participar da grande festa da vida, existir se for plas-mado pela ao educativa. Este comportamento tico no pode somente se reduzir a uma relao amorosa e cordial com os que esto mais prximos de ns e que so naturalmente os mais queridos. Ser homens e mulheres amorosos em todos os espaos pelos tica e EducaoTema | 03137 quais transitamos uma exigncia tica permanente. Tratar bem a todas as pes-soas em todos os lugares revela uma eticidade essencial e contagiante. E, na con-cluso de Baptista (2005, p. 50), preciso instaurar dinmicas de hospitalidade entre povos e culturas. Transitar pelo planeta de forma mais leve e tranquilo uma exigncia que se impe para que se tenha um mundo mais humano. Os gestos de acolhimento, de cuidado e de ternura, precisam se manifestar em todos os momentos e em todos os lugares, sobrepujando as distncias e as diferenas. Assim, Baptista (2005) se alinha proposta de Levinas (1988), propondo uma prtica educativa como uma ao de hospitalidade e de alteridade.No mundo em que vivemos, o ser humano est reduzido ao ter. Os valores predominantes so produzir e consumir. Portanto, ter muito dinheiro, ter muitas coisas, ter fama, ter poder, ter... ter... ter... o que importa! O ser da pessoa no conta mais. At mesmo a felicidade reduzida s coisas que con-seguimos amealhar. Ser que possvel algum, de fato, ser feliz somente com a riqueza que conseguiu auferir? Um ser humano se completa somente com bens materiais? Ou ser que a felicidade, alm da matria, conta tambm com a satisfao de outras necessidades? Que necessidades seriam essas que precisam ser satisfeitos para que se tenha um ser humano integral e feliz?Um dos grandes descaminhos do mundo moderno, apontados por Arendt (2007), se revela no grande desenvolvimento racional, distanciado e desprovido de toda a sua humanidade. O mundo se desenvolveu fantasticamen-te sob os aspectos materiais e tecnolgicos e se perdeu no que diz respeito aos mais elementares valores humanos. Ao deslumbramento com o advento da ci-ncia e da tcnica, sobreveio uma perplexidade aterradora com os seus resulta-dos desconcertantes e destruidores. A sofisticao da parafernlia tecnolgica no pode esconder a percepo do brilho de um rosto. Este rosto ser sempre mais do que uma simples face de algum com quem entramos em contato, mas a revelao de um sujeito inteiro do qual nos aproximamos. Esta a proposta de Levinas, preconizando uma tica da alteridade, da proximidade ou do cuidado Filosoia e Cidadania138 (apud IMBERT, 2002, p. 52). Segundo este autor, da interao entre as hist-rias humanas, nicas e por vezes misteriosas, que poder emergir a riqueza de cada indivduo e de seu respectivo mundo.Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vdeos, podcast, e objetos de aprendizagem, na participao dos f-runs de discusso do tema, chat e na busca de ajuda para tirar dvidas. BAPTISTA, Isabel. Dar rosto ao futuro: a educao como compromisso tico. Porto: Profedies, 2005.A educadora portuguesa Isabel Baptista reflete sobre a importncia e a ne-cessidade de uma impregnao tica em todo o processo educativo para a formao de um cidado. Somente um mundo que recuperar seus referen-ciais ticos poder se configurar em rostos plenamente humanos e em uma natureza como terra me de todos os seus habitantes. RICOEUR, Paul. O si-mesmo como um outro. Campinas, SP: Papirus, 1991.O filsofo francs Paul Ricoeur se alinha ao pensamento de seu conterrneo Emmanuel Levinas ao preconizar o profundo sentido de alteridade, expresso no movimento histrico de cada travessia humana, como condio da utopia de um novo homem e de uma nova sociedade. O cuidado do outro compreen-dido como heteronomia ser a base de um mundo melhor para todos. tica e EducaoTema | 03139 A cidadania se constitui fundamentalmente no universo de valores que trans-formam um indivduo massificado e inconsciente em um ser humano cons-ciente, lcido, dinmico e comprometido eticamente com a construo da prpria vida e da vida da comunidade em que ele se movimenta. Portanto, cidado um fazedor de histria e no um mero objeto de controle e de ma-nipulao. Na constituio bsica da cidadania surgem a tica e moral como condies fundamentais. A tica se revela como a reflexo em torno dos va-lores que nortearo a prtica da cidadania e a moral se apresenta como a normatizao dos caminhos a serem percorridos. A tica reflexiva e a moral normativa. Ambas so importantes e complementares. Enquanto se pen-sa sobre a adequao dos valores, ser preciso codificar os parmetros valo-rativos para a orientao dos caminhos a serem percorridos pelos cidados. O comprometimento com esses valores ser fruto de uma inquietao a ser plantada na mente e nos coraes de todos. Essa sensibilidade para com os valores ticos e o respeito s normas morais havero de se iniciar como seme-adura na famlia e tero na escola um espao de formao especial. A educa-o no poder mais ser restringida a uma mera transmisso de conhecimen-tos e de informaes. Ser preciso que a educao seja integral, ou seja, o ser humano precisa ser educado em seus mltiplos aspectos de um ser material, biolgico, social, intelectual, psicolgico e espiritual. Um cidado, portanto, ser um ser humano que revela a integralidade de seu ser e a cidadania ser a expresso dos valores assumidos individual e coletivamente, com vistas a um mundo bom para todos. Filosoia e Cidadania140 0103020405Como possvel compreender, de acordo com a distino que fazemos en-tre os conceitos de tica e de moral, que algum possa ser um cumpridor das leis morais e, contudo, no ser um sujeito tico?______________________________________________________________________________________________________________________________________________________Como compreender a afirmao de que no existe realizao humana completa sem que se construa uma pessoa por inteiro. possvel que al-gum se ocupe apenas com a matria, descuidando totalmente dos outros lados de sua personalidade, e assim mesmo ser plenamente feliz?______________________________________________________________________________________________________________________________________________________Quais so e como se manifestam os compromissos ticos e morais de um cidado profundamente engajado na construo de um novo homem e de uma nova sociedade? ______________________________________________________________________________________________________________________________________________________Como possvel fazer com que a educao assuma a sua tarefa de ser um instrumento de transformao social e construo da cidadania que se ex-presse em um novo homem e uma nova sociedade? ______________________________________________________________________________________________________________________________________________________Em uma sociedade mergulhada em profunda crise de valores, onde nin-gum mais tem clareza a respeito do que certo e do que errado, onde que a sociedade busca predominantemente seus modelos para orientar Verifique no AVA as respostas do exerccio.141 06a sua vida e suas prticas polticas, econmicas, seus relacionamentos so-ciais, afetivos, sexuais e at mesmo religiosos?Os grandes modeladores ainda continuam sendo somente os valores propostos pela famlia. A famlia ainda continua sendo o grande ponto de referncia para a educao da sociedade e, sobretudo as crianas e os jovens, tm em seus pais os nicos modelos que eles copiam e se-guem fielmente.A sociedade como um todo est buscando unicamente na religio, vivi-da de forma sria, comprometida e coerente, os valores que orientam a sua vida. a fora da religio que se constitui ainda no ponto de refe-rncia maior para toda a sociedade atual.H muito que a famlia e as igrejas deixaram de ser o grande ponto de referncia moral. Os indivduos, sobretudo crianas e jovens, esto buscando fora de casa os seus modelos comportamentais: especial-mente os modelos propostos pelos meios de comunicao, ou seja, os mitos criados pelas novelas, pelos esportes e por toda a mdia escrita e falada.Os principais modeladores da tica e da moral so unicamente os lde-res polticos. Como paradigmas da tica e da moral, so os polticos que apresentam ao povo o que certo e o que errado. assim que se est construindo uma cidadania de futuro e de esperana.O que determina os comportamentos de toda a humanidade so os pa-dres estabelecidos pela tica crist. por esta razo que temos um mundo em que predominam de forma completa os valores da solida-riedade, da partilha, da alteridade e da paz em todo o planeta. Identifique quais comportamentos humanos revelam uma postura de um cidado, assinalando as assertivas corretas:I. A competio, a ganncia e o individualismo.II. A livre iniciativa e a acumulao de riquezas somente para si.aebcdVerifique no AVA as respostas do exerccio.Filosoia e Cidadania142 III. Somente a busca de vantagens e interesses particulares.IV. O sentido de alteridade, a solidariedade e a justia.V. Um verdadeiro cidado um sujeito que consegue atingir o sucesso pessoal por fora de sua esperteza e oportunismo e que sabe tirar proveito de todas as oportunidades, j que os fins justificam qualquer meio para alcan-los. II e IV.II e V.Somente a IV.IV e V.I e V.A fundamentao da tica e da moral est enraizada na prpria condio da pluridimensionalidade humana. Isto quer dizer que:O ser humano precisa se construir somente do ponto de vista biolgico e material para ser feliz.A tica e a moral so aspectos da vida de um cidado que no carecem necessariamente de um desenvolvimento. Um cidado pode viver bem em sociedade sem sequer se preocupar com qualquer tipo de valor que venha a organizar as suas relaes.A tica e a moral dizem respeito exclusivamente dimenso espiritual dos seres humanos e, portanto, so ditadas pelas diferentes doutrinas religiosas.O processo de humanizao s se completa quando um indivduo de-sabrocha sob os mltiplos aspectos de sua condio humana: pre-ciso que se desenvolva biologicamente, socialmente, espiritualmente, intelectualmente, materialmente, esteticamente, eticamente, afetiva-mente etc. Sua dimenso tica e moral surge, fundamentalmente, de seu aspecto social. Para conviver, ele precisa organizar as suas relaes atravs de uma pauta de valores que tornam possvel a convivncia em sociedade, garantindo a liberdade individual e coletiva. aaebbccdd07Verifique no AVA as respostas do exerccio.143 A pluridimensionalidade humana uma condio da qual no depende o desenvolvimento individual: perfeitamente possvel ser feliz desen-volvendo apenas um aspecto da condio humana como, por exemplo, enriquecendo apenas materialmente. Riquezas materiais so suficien-tes para fazer algum plenamente feliz e realizado. Os conceitos de tica e de moral podem ser tomados como sinnimos, j que sua origem etimolgica a mesma: ethos = comportamento (do grego) e mos = comportamento (do latim). Todavia, dentro de um rigor acadmico, pre-ciso distingui-las e conferir-lhes um significado terico e prtico prprios:tica se refere s leis, s normas e s regras, expressas em cdigos. Enquanto a moral diz respeito dimenso reflexiva a respeito dos com-portamentos humanos.tica e moral no se distinguem e no existe a possibilidade de querer conferir-lhes um significado distinto.Distinguir tica e moral se constitui num academicismo desnecess-rio e incuo. Esses conceitos no so distinguveis e preciso sempre tom-los como sinnimos.tica e moral expressam realizaes absolutamente distantes uma da outra e querer aproxim-las impossvel por se tratar de temas com-pletamente diversos.tica se refere dimenso reflexiva a respeito dos valores humanos e a moral expressa a construo prtica das normas, das regras e das leis; por-tanto, cabe tica refletir criticamente sobre a qualidade da moral que normatiza os comportamentos humanos e modific-los, se for preciso.O que se entende por Cidadania e em que ela se relaciona com a Fi-losofia?Cidadania se refere aos habitantes das zonas urbanas e nada h que se relacione com Filosofia.aaeebcd0809Verifique no AVA as respostas do exerccio.Filosoia e Cidadania144 Cidadania um valor que se refere garantia dos privilgios dos de-tentores do poder poltico de uma sociedade e a Filosofia concorre para esclarecer quais so essas vantagens a serem preservadas.Filosofia e Cidadania so abordagens sobre a condio humana que em nada podem se relacionar. Portanto, o filsofo um sonhador e o cidado um poltico preocupado com suas prprias vantagens indi-viduais.A Filosofia, que aponte para a construo da cidadania como funda-mento de uma sociedade justa e equitativa, constitui-se num pensa-mento e numa proposta utpica e, portanto, irrealizvel.Cidadania um valor que se expressa na garantia dos direitos de todos os componentes de uma sociedade e na exigncia do cumprimento dos deveres que concorrem para que haja uma condio de dignidade para todos; e a Filosofia, como reflexo crtica, leva compreenso do que seja ser um cidado engajado e comprometido.Completar a sentena com a resposta correta: Entende-se por Cidadania... algo que se refere aos habitantes das zonas urbanas e nada h que se relacione com Filosofia.um valor que se refere garantia dos privilgios dos detentores do po-der poltico de uma sociedade e a Filosofia concorre para esclarecer quais so essas vantagens a serem preservadas.um valor que se expressa na garantia dos direitos de todos os habitan-tes de uma sociedade e a exigncia do cumprimento dos deveres que concorrem para que haja uma condio de dignidade para todos os que compem esse grupo humano, sendo que a Filosofia, como reflexo crtica, leva compreenso do que seja um cidado engajado e com-prometido.o pensamento filosfico que aponte para a construo de um projeto poltico, como fundamento de uma sociedade justa e equitativa, cons-tituindo-se numa proposta utpica e, portanto, irrealizvel.aebbccdd10Verifique no AVA as respostas do exerccio.145 algo que trata de questes exclusivamente que dizem respeito poltica partidria e, portanto, no h nenhuma relao com o conhecimento filosfico. A formao humana s se completa por uma construo que desenvol-ve as mltiplas dimenses de seu ser bio-psico-social. Em que medida a cidadania faz parte desta pluridimensionalidade e se constitui em uma condio absolutamente necessria para sua concretizao?No existe ser humano completo, tampouco um verdadeiro cidado, sem que sua formao acontea sob os mltiplos aspectos da forma-o de sua personalidade. Portanto, um cidado haver de se expressar como um ser biolgico, social, espiritual, tico, esttico, econmico, material etc. Enquanto um dos aspectos no for privilegiado, no tere-mos uma cidadania por inteiro.A cidadania no depende de um desenvolvimento integral do ser hu-mano. Ser cidado se preocupar unicamente com os aspectos econ-micos e polticos que concorram com o enriquecimento individualiza-do de cada habitante de um pas. perfeitamente possvel desenvolver um ser humano com a hiper-trofia espiritual. Basta ser um sujeito ligado s coisas espirituais, sem que se preocupe com o seu irmo, que seu desenvolvimento j ser completo.A cidadania independe do desenvolvimento da pluridimensionalidade humana. Pode-se ser um cidado que se preocupe somente com seu partido, as eleies e o poder a ser garantido em favor dos correligio-nrios.A construo de um ser humano um processo que pode perfeitamen-te se dar sob uma nica direo, ou seja, se um indivduo bem suce-dido materialmente ele j pode se dar por satisfeito e plenamente feliz.aeebcd11Verifique no AVA as respostas do exerccio.Filosoia e Cidadania146 A construo da cidadania implica uma prtica educativa marcada por uma dimenso tica em todos os seus aspectos, isto , no existe cidadania sem uma formao tica. O que fundamenta essa afirmao : a construo da cidadania se fundamenta em uma educao tica pela prpria possibilidade da perfectibilidade humana, isto , o mundo transformvel, o ser humano educvel e essa utopia tem que ser per-seguida por todos os que acreditam e esperam um mundo melhor, es-pecialmente atravs da educao. a impossibilidade de existir uma educao voltada para a cidadania, j que a prpria escola um instrumento de reproduo de uma sociedade que no contempla a tica como condio necessria e fundamental.educao, cidadania e tica so elementos que no se conjugam pelo simples fato de que a sociedade moderna no tem na tica um pressu-posto para seu desenvolvimento, mas a lei da vantagem dos mais bem preparados, mais espertos e mais fortes;a cidadania uma condio que j nasce com as pessoas. Portanto, de pouco adianta querer promover uma educao tica para quem j vem de um ambiente em que os valores apontam para o individualismo, a competio, a ganncia e o entredevoramento; cidadania e tica so conceitos excludentes na medida em que a cida-dania implica somente aspectos econmicos e polticos. Dentro destas duas dimenses da realidade social no cabe a discusso de questes ticas. 12aebcdVerifique no AVA as respostas do exerccio.147 147 Use a sua criatividade e registre aqui as ideias principais presentes no contedo estudado, buscando construir uma sntese pessoal sobre o tema.03TemaO quarto e ltimo tema de Filosofia e Cidadania vislumbra a possibilidade de concre-tizao da utopia de um novo homem e de uma nova sociedade atravs da utilizao de todas as foras de que se compem o mundo em que vive-mos. Ser atravs do processo educativo que se fundar um mundo em que haja lugar para todos os habitantes do planeta. O primeiro aspecto a ser abordado o que fundamenta o exerccio da cidadania. O destaque que se apresenta como fio condutor da reflexo aponta para a condio humana que se expressa nas mltiplas atividades de que se compem o coti-diano das pessoas que o labor e o trabalho. Essas atividades precisam se constituir em aes cons-cientes, dinmicas e comprometidas eticamente. Somente assim haver de se fundar a esperana de que a utopia de um mundo melhor para todos se transformar em realidade concreta.Objetivos da AprendizagemAo terminar a leitura e as atividades do Tema 4, voc dever ser capaz de: examinar as condies que havero de despertar e promover o compro-misso tico do exerccio da cidadania; compreender o significado da ao humana que liberta, humaniza e re-aliza atravs das mltiplas ativida-des do cotidiano; explicitar a utopia da esperana de que o mundo transformvel.AO EDUCATIVA E CIDADANIA04TemaFilosoia e Cidadania150 4.1 O exerccio da cidadania S ser possvel a construo da cidadania atravs da ao educativa. Assim, continuaremos a reflexo tomando como ponto de referncia o pensa-mento da filsofa Hannah Arendt. Verificaremos a relao que se estabelece entre a educao e os diferentes momentos da construo humana quando ela se expressa como labor, como trabalho e como ao criadora, aspectos j expli-citados no terceiro captulo. A reflexo de Arendt (2007) se inicia com a referncia nova cosmo-viso resultante do incio da conquista do universo pelos seres humanos. As viagens espaciais deram humanidade a certeza de que a terra se tornara muito pequena e de que era preciso se libertar de seus limites. O incio foi feito pela conquista do planeta mais prximo. De qualquer sorte, j foi possvel olhar a terra de um outro ngulo e se assumir, diante dela, uma nova posio de atu-ao e controle. Alm disso, aqui mesmo, neste planeta, o mandado bblico de dominar a terra, cada vez mais, foi sendo executado exausto. A tecnologia se tornou, nas mos humanas, um potencial inesgotvel de aes transformado-ras. Os segredos da terra e do universo, gradativamente, vo sendo desvendados em toda a sua profundidade. As consequncias destas conquistas da humanidade vo assumindo implicaes de toda ordem: econmicas, polticas, ticas, educacionais etc. O primeiro aspecto se refere hegemonia sobre o planeta. Quem chegou primeiro anunciou pretender ser o dono da terra e do cu. Assim, durante dcadas, os po-derosos dividiram o mundo entre leste e oeste e se digladiaram perigosamente para afirmar a sua supremacia sob a gide tecnolgica, ideolgica e econmica. As foras em conflito se polarizaram entre o leste comunista e o oeste capitalis-ta, tendo como protagonistas a Rssia e os Estados Unidos. At que, por fim, a histria caminhou e eles perceberam que, no universo das conquistas espaciais, era melhor se darem as mos. Isso j representou um avano na eticidade hu-mana no que diz respeito hegemonia planetria. Porm, estas novas relaes no significam necessariamente uma so-lidariedade incondicional. As disputas polticas, de forma mais dissimulada, no conseguem esconder a ferocidade latente no jogo do poder entre as naes. E, naturalmente, a questo deixou de ser ideolgica para se transformar numa questo de interesses econmicos. O poder est nas mos de quem determina Ao Educativa e CidadaniaTema | 04151 os rumos da economia globalizada1. Para se atingir estes fins, o meio mais eficaz est no poderio tecnolgico. As consequncias deste desenvolvimento se apresentam de forma pa-radoxal. De um lado, o mundo conhece um avano sob todos os pontos de vista. Entretanto, a ambivalncia maior se constitui no fato de que emerge um meca-nismo de excluso a deixar de fora destes benefcios boa parte dos habitantes do planeta. Como ser possvel fazer com que o domnio do universo se constitua num benefcio para todos os seres humanos? As conquistas de conhecimentos cada vez mais elaborados esto ampliando as possibilidades da vida na terra ou, paradoxalmente, estariam se prestando para o exerccio do controle e da dominao de uma minoria sobre a maioria dos seres humanos? Eis as questes ticas que se impem e exigem uma resposta urgente. Um dos aspectos do desenvolvimento tecnolgico abordado por Arendt (2007), e que se coloca no centro das discusses na atualidade, diz respeito s questes referentes ao domnio da vida no planeta. Pela poca em que a autora escreve a sua obra A Condio Humana 1957 a referncia se resume genericamente s descobertas de seus segredos e a possibilidade de repro-duzi-la artificialmente. Hoje a questo assume propores de uma realidade concreta, em que a engenharia gentica obtm resultados cada vez mais sur-preendentes. O exemplo mais contundente desta conquista gentica est na reproduo atravs de clulas-tronco e atravs da clonagem. Junto com estas conquistas, vicejam questes de natureza tica a envolver a humanidade toda. Em que medida estes resultados bem sucedidos se agregaro ao potencial de humanizao do planeta? Ao se prosseguir este desenvolvimento tecnolgico, qual ser o limite e quais sero suas implicaes na artificializao da existn-cia humana? Em que medida, para se atingirem os objetivos desejados, todos os meios sero vlidos? 1 Economia globalizada se constitui em um mundo sem fronteiras para o poder econmico.Filosoia e Cidadania152 J em seu tempo, Arendt (2007) acenava para os riscos de uma tecnologia a servio da dominao humana, em que o criador poderia ser escravizado pela sua prpria criao. Ao se referir possibilidade de perdas com os avanos tecnolgicos, Arendt (2007) aponta para a liberao do homem de tarefas que o subjugam, mas que, por outro lado, poderiam acomod-lo a ponto de sequer desenvolver o seu pen-samento. Seria o resultado de uma acomodao e superficialidade eticamente inacei-tveis a que os seres humanos se entregariam. Atualmente se fala nos mecanismos da massificao que reduzem um nmero sem conta de indivduos a uma massa passiva, disforme e despersonalizada. Todas estas questes se constituem assim num desafio tico e que se relaciona com a educao como possibilidade de minimizao de seus resultados indesejveis e a maximizao dos resultados desejveis e positivos. A reflexo arendtiana continua com a anlise sobre as atividades de que se compe a condio humana neste planeta. O ser humano se enquadra, na sua ativi-dade vita activa2 a trs tipos de tarefas: o labor, o trabalho e ao. A diversidade de atuaes resulta da pluralidade humana. Cada ser humano nico e irrepetvel. Por esta razo, ele atuar de modo especial sobre o contexto em que se movimenta. Comea pelo fato mais importante de sua existncia que se constitui no dado absolutamente original de seu nascimento. O fato de ter vindo e ser um recm-chegado, o pe na condio de fazer histria. Esta se far desde o seu nascimento at a sua morte. A forma como ele haver de exercer esta sua traves-sia vai ser marcada pelos valores que determinaro as suas escolhas. Portanto, a sua existncia implicar, a cada momento, contedos de na-tureza tica. Da qualidade de suas aes resultaro os movimentos mais ou me-nos construtivos, sofrendo sempre as consequncias de seu agir. O ser humano, assim, condicionar o seu mundo pelo seu modo de ser e agir e tambm, na con-trapartida, ser condicionado pelo tipo de mundo que ele haver de engendrar. O exerccio da cidadania se revela em todos os momentos de nossa vida e em todos os espaos de nosso cotidiano. Ser cidado no se reduz somen-te ao compromisso de homens e mulheres que ocupam cargos de relevncia 2 Vita activa quer dizer vida ativa, em latim. Arendt se utiliza da expresso para se referir s diversas atividades que compem o cotidiano dos seres humanos: o labor, o trabalho e a ao.Ao Educativa e CidadaniaTema | 04153 em um pas. A cidadania o cuidado permanente que precisamos ter com tudo e com todos. Em todos os espaos, independentemente das funes que exeramos, preciso que os valores que caracterizam o perfil de um cidado sejam revelados em aes concretas. Desde o nascimento, mais um cida-do que veio ao mundo. Ele j chegou como uma infinita possibilidade e com a misso de ser mais algum para fazer uma travessia individual e coletiva amorosa e enriquecedora. o que nos prope para refletir o fio condutor do pensamento poltico de Hannah Arendt.A vita activa e a forma como o ser humano venha a exerc-la ser fru-to de uma aprendizagem. Portanto, a educao implicar uma dimenso tica a imprimir as suas condies de construo ou de destruio. O ser humano aprender a prtica do cuidado para com tudo e todos os que o rodeiam. Sempre de acordo com Arendt (2007), a natalidade se constituir no valor predominante e no a mortalidade, em que pese ser esta ltima uma con-tingncia de finalizao temporal. O fato primordial da natalidade haver de se apresentar como uma acolhida amorosa. O recm-chegado ser recebido com as boas vindas de quem introduzido num mundo em que ele tudo ter que aprender. Todas as tarefas necessrias para sua sobrevivncia lhe sero ensi-nadas para que sua travessia seja feliz e realizadora. Desde o labor at a ao contemplativa sero frutos de sua aprendizagem. Arendt (2007) chama a ateno para o perigo do ativismo3. A aprendiza-gem da ao humana ter que levar o seu sujeito a uma prtica cotidiana equilibra-da entre o agir e o contemplar. Sucumbir em um ativismo desmedido seria uma es-cravizao perigosa e desumanizadora. O prprio processo de aprendizagem seria comprometido pela agitao e pelo barulho. O ser humano aprender a equilibrar a utilizao de todas as suas potencialidades. A ao humana haver de ser exerci-da pela utilizao de suas energias externas e internas. Seu crescimento haver de acontecer para fora de si e tambm no seu universo interior. A busca deste equil-brio far parte do processo educativo que levar construo de um ser humano equilibrado e inteiro no que diz respeito pluralidade de seus potenciais.3 O ativismo se refere corrida cotidiana frentica atrs da busca de tudo o que a gente necessita e mesmo do que a gente no precisa, mas acha que no pode deixar de ter... trabalha-se dia e noite para podermos responder aos apelos do consumo que nos so impostos...Filosoia e Cidadania154 De acordo com Arendt (2007), este processo de crescimento sempre se far na relao com os outros seres humanos. Ela repete uma afirmao que advm da filosofia grega, de que o homem no existe s. O ser humano , essencialmente, um ser social. E desta condio que resulta a dimenso tica do existir humano. O homem um ser de relaes. Estas relaes implicaro sempre valores que de-terminam a qualidade desta interao. Tudo o que existe s adquire um significado pela presena humana. E o que determina o ponto de referncia desta valorao a presena de outro ser humano. Somente diante de outro ser humano que um indivduo poder aquilatar a justa medida de sua presena e de seus atos.Entrar na Internet e acessar o You Tube: escolher vdeos que apresentam ex-perincias que evidenciam o exerccio da cidadania em todas as partes do mundo, como sinal de esperana de que esse mundo transformvel. Para isso, basta pesquisar com palavras chave (cidadania, tica e cidadania, sus-tentabilidade etc.). Este universo humano poder se expressar tanto de modo privado, quanto pblico. Ambas as dimenses no se excluem, mas se complementam. preciso que o sujeito tenha preservada a sua individualidade e seu espao priva-do para que possa se revelar e interagir na esfera pblica. Tanto o fechamento em sua privatividade significaria uma asfixia pessoal quanto exposio perma-nente produziria uma despersonalizao neurotizante. Assim como o espao vital precisa ser preservado, Arendt (2007) tam-bm se refere legitimidade da propriedade privada, desde que esta no se cons-titua numa acumulao com um fim em si mesma, s custas do empobrecimento de outros tantos. O espao privado nunca poder significar um individualismo egocntrico, mas a preservao da individualidade autnoma e construtiva. At aqui se retomou resumidamente alguns dos aspectos apresentados por Arendt (2007) sobre a condio humana da vita activa. Esta se realiza num universo de atividades cotidianas, desde as mais simples at as mais elaboradas por proces-sos mentais altamente complexos. Evidenciam-se as implicaes ticas em todos os Ao Educativa e CidadaniaTema | 04155 aspectos da travessia humana e o quanto os valores ticos dependem de uma apren-dizagem. Desta forma, tica e educao precisam se fazer num processo de aproxi-mao permanente para que se atinja uma condio humana cada vez mais plena. Examinar-se-, daqui para frente, o entrelaamento e as implicaes educativas e ticas destas atividades labor, trabalho e ao - na busca desta aproximao como condies de desenvolvimento da vita activa e da construo da cidadania.Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vdeos, podcast, nos objetos de aprendizagem, na partici-pao do frum de discusso do tema, tirando dvidas por e-mail e no estudo coletivo do chat. LEVINAS, Emmanuel. tica e infinito. Lisboa: Edies 70, 2007.O filsofo francs Emmanuel Levinas preconiza o desenvolvimento do profundo sentido de alteridade como o caminho da concretizao da utopia de um mundo melhor. Ser na descoberta do rosto do outro que as pessoas havero de estabelecer relaes que revelem o compromisso tico da cidadania. ______. Humanismo do outro homem. Petrpolis: Vozes, 1993.Levinas prope a precedncia da heteronomia ao desenvolvimento da auto-nomia. O que num primeiro momento parece estranho, logo se clarifica pelo pensar o cuidado do outro como o maior ponto de referncia para a desco-berta de si mesmo. Filosoia e Cidadania156 4.2 tica, labor e trabalho A vita activa tem, na sua primeira e mais simples forma de realizao, a atividade do labor. a expresso do homo laborans. atravs do labutar cotidia-no que o ser humano resolve as questes que dizem respeito sua sobrevivncia. a eterna repetio cotidiana de tarefas que visa sua sobrevivncia biolgica. Ele as executa sozinho. Mesmo quando o labor realizado em conjunto, nada mais do que uma justaposio de indivduos que no necessariamente esto relacionados entre si. uma atividade montona, sempre igual, inconsciente e extenuante. Tanto uma atividade primitiva que, na antiguidade, ela era reser-vada aos escravos. Estes trabalhadores braais sequer eram considerados seres humanos. Como herdeiros da cultura greco-romana, at hoje, de forma dissimu-lada, existem os trabalhos considerados de grande status os de natureza inte-lectual e os trabalhos dos quais os prprios indivduos tm constrangimento os de natureza braal. Consequentemente os primeiros so mais valorizados e os servis so reduzidos a uma condio de indignidade no que diz respeito sua valorizao. O labor se constitui de tarefas que s so percebidas quando no so realizadas. Quando algum as repete incansavelmente, dia aps dia, por mais que todos delas necessitam para sobreviver, pouco so notadas e muito menos valorizadas. Assim, as pessoas que as executam, aos poucos, vo perdendo o seu encanto por elas e tambm perdendo a sua prpria autoestima, considerando-se indivduos de menos valor por terem que realiz-las. Diante de outros trabalha-dores considerados nobres por aquilo que executam, estas atividades vo assu-mindo a sua condio subalterna e subserviente. Geralmente estas tarefas no carecem de grande preparo e treinamento. So atividades simples e rotineiras, aprendidas pelo exerccio que se inicia na mais tenra idade e se repetir pelo resto da vida. No se precisa de estudo para realiz-las, tampouco diploma e, por conseguinte, sua dignificao nfima. Quantos seres humanos gastam as suas vidas envolvidos com a eterna repetio do labor cotidiano?Ao Educativa e CidadaniaTema | 04157 Sem terem tido oportunidade para aprender qualquer coisa que lhes desse possibilidades de desabrocharem seus potenciais, acabam repetindo um programa que a vida lhes imps pelas prprias circunstncias em que nela entraram. Seus pais foram pessoas simples, envelheceram e morreram na simplicidade e na pobreza de uma vida humilde e laboriosa. Jamais con-quistaram qualquer coisa que no, na melhor das hipteses, o po de cada dia. Assim, tampouco, tiveram condies de proporcionar aos filhos algo que os lanasse para uma condio melhor. Assim como vivem, acabam pensando. Convencem-se de que esta condio predeterminada e, no raramente, passam a acreditar, at mesmo, de que nasceram para sofrer e que tudo isso vontade de Deus. A massa de indivduos que atravessa a sua existncia nesta condio laboriosa no desafiada a qualquer tipo de mudana em suas vidas. Seu n-vel de conscincia ser caracterizado por Freire (2002) como marcado pela in-transitividade4. Isto quer dizer que a sua percepo da realidade circundante permanece ingnua, simples, acrtica, imediatista, dogmtica e alienada. Este indivduo simplesmente est no mundo. Nele permanece como um objeto de uso e no como sujeito atuante e transcendente. Seu projeto ser sempre o de repetir um programa predeterminado, sem avanar rumo a uma nova realidade. Manter-se- como um ser de contatos e no de relaes. Est no mundo e no com o mundo (FREIRE, 2002, p. 30).Um nvel de conscincia intransitiva no permite ver, ouvir, sentir, ex-pressar e atuar sobre o mundo. A leitura que ele faz de seu mundo ingnua. Ele o apreende da forma imediata como este lhe apresentado. Toma conhe-cimento dos fatos. Porm, no chegar a compreender as razes e os efeitos resultantes. Acaba acolhendo a realidade de forma simples e absorvendo opini-es como verdades inquestionveis e de forma dogmtica. Assim, permanecer no fechamento de uma conscincia, reduzindo seu existir ao tamanho que ele 4 um nvel de conscincia muito pequeno... de quem pouco percebe de seu mundo, das causas e dos efeitos de tudo o que acontece...Filosoia e Cidadania158 prprio lhe confere em sua simplicidade e ingenuidade. Seu horizonte, portan-to, permanecer sempre limitado percepo estreita e limitada a respeito da realidade que o cerca.A partir desta realidade e destes seres reduzidos mera condio de objetos que Freire (1985) pensa e prope a sua Pedagogia do Oprimido. O que justifica uma pedagogia dos oprimidos o fato de que a pedagogia sempre foi pensada e proposta pelos dominantes. Interpreta, da para frente, dialeti-camente, a realidade que se apresenta por relaes de dominao. H os que assumem a condio de opressores e os que acabam se submetendo condio de oprimidos. Os mecanismos que caracterizam e que mantm este binmio opres-sores/oprimidos se manifestam de mltiplas maneiras, destacando-se especial-mente a antidialogicidade5. Quem conquista e monopoliza a palavra aquele que assume o comando da relao e passa a determinar os rumos at mesmo da vida dos que o rodeiam. Sob este aspecto, retomamos o alinhamento que esta perspectiva assu-me com o pensamento de Arendt (2007), ao propor a ao e o discurso como a essncia da vita activa. Nada cria mais condies de opresso do que silenciar algum. Impea-se que algum manifeste o seu pensamento e este haver de se embotar e se anular como ser humano. O homo laborans aquele que s labuta e no pensa. Sua condio de vida passa a ser uma condio semelhante de um animal ou, na linguagem freireana, reduzido a mero objeto. Do ponto de vista da educao, um indivduo reduzido condio do homo laborans algum que excludo do processo educativo. A quem interessa um povo cuja maioria apenas labuta e se submete passiva e quietamente, sem pensar e sem exigir melhores condies de dignifi-cao para sua existncia? de se perguntar por que razes o sistema educacional brasileiro ain-da se alinha entre os mais precrios e atrasados dentre os povos do mundo? H uma escola para ricos e uma escola para pobres. Os abonados tm acesso a uma educao em instituies particulares de excelente qualidade; en-quanto a grande maioria do povo s tem, como opo, uma escola pblica suca-teada e de discutvel qualidade. Sero estes que esto sendo preparados para as-sumir as atividades subalternas do labor. Os primeiros esto sendo preparados 5 Antidialogicidade refere-se a tudo que se contrape ao dilogo... o antidilogo.Ao Educativa e CidadaniaTema | 04159 para assumir o comando hegemnico da sociedade em escolas caras e de acesso exclusivo para quem pode arcar com os seus custos. Paradoxalmente, nas escolas de nvel universitrio, supostamente de-mocrticas em seu acesso, a competio to grande que somente os mais bem preparados chegaro a usufru-la. Resulta que os mais bem preparados sempre sero os que viro das melhores escolas. Portanto, acaba acontecendo que uma sociedade pobre patrocina uma escola gratuita para os privilegiados, sobretudo em nvel superior, com o argumento legitimador da meritocracia. Observe-se, por exemplo, se numa universidade pblica existe a preocupao de ajustar os horrios para que os estudantes possam tambm trabalhar para se sustentar. As disciplinas so espalhadas nos trs turnos, de sorte que impossvel algum que tenha que trabalhar, tentar concomitantemente levar um curso em escola pblica de nvel superior. Assim, de acordo com o pensamento de Freire (1985), os mecanismos de opresso e de dominao se perpetuam atravs de artifcios plenamente jus-tificados do ponto de vista legal. Entretanto, resta a pergunta: do ponto de vista tico, como justificar os mecanismos de excluso atravs dos quais se mantm interminavelmente uma histria de privilgios e de reproduo de uma socieda-de marcada por diferenas descomunais? Verifica-se que difcil falar da aproximao entre educao e tica quando se tem um sistema educacional em que a clientela proveniente do uni-verso do labor dele no tem acesso. E se consegue ser includo, sobretudo em nveis bsicos do sistema, sucumbem pela necessidade de terem que sobreviver, evadindo-se para o mundo do labor subalterno ou para a excluso do desem-prego. Assim se repete o crculo vicioso da dominao e da reproduo de uma sociedade excludente. A educao, desprovida de sua necessria eticidade, re-presenta uma oportunidade somente para alguns. Trata-se assim de forma igual os desiguais. Nada mais equivocado e nada mais injusto eticamente do que se desconsiderarem as diferenas. preciso se perguntar se, de fato, no existiriam alguns aspectos de natureza educativa e tica na atividade do labor. Em que pesem todas as suas caractersticas que o tornam uma atividade primria de sobrevivncia, no exis-tiriam alguns valores que lhe confeririam um significado e uma beleza que jus-tificassem a sua execuo por parte de um nmero imenso de seres humanos ao longo de toda a vida? Um labor exercido com amor e dedicao, apesar de Filosoia e Cidadania160 sua repetitividade e de seu cansao inerentes, no dignificaria um ser humano de forma muito satisfatria? As atividades de subsistncia no precisariam, por mais simples que sejam, de uma aprendizagem prvia e, desta forma, estariam vinculadas aos processos educativos? A realizao responsvel e dedicada das tarefas do labor no se constituiriam em pressuposto tico extremamente sig-nificativo?A vida humana se constitui num contnuo e constante laborar. Passamos a maior parte de nossa vida nas atividades cotidianas, ou seja, trabalhando. Toda a atividade humana necessria e importante quando se constitui numa ao construtiva. Todavia, em nossa sociedade, algumas tarefas foram convencionadas como mais importantes do que as outras. Por uma herana histrica, as tarefas manuais so menos importantes do que a atividade in-telectual. Esse preconceito resulta em consequncias significativas e, muitas vezes, nefastas para o convvio social. Quem esgota todas as suas energias em atividades simples no considerado sob ponto de vista algum. Outros, por terem galgado status profissional de alta especializao, recebem toda a valorizao e importncia. Ser que podemos pensar e, sobretudo, fazer com que tenhamos um mundo mais justo e mais equitativo? Ser que possvel promover uma cultura de valorizao de toda e qualquer atividade humana, independente do que esteja sendo realizado? No se trata de uma proposta de nivelamento social absoluto, mas da promoo da justia social. Ao respondermos a essas perguntas, podemos afirmar que no labor se apresentam elementos, mesmo que de forma incipiente, que o vinculam s dimenses da educao e da tica. Em primeiro lugar, certo que, por mais que signifiquem um mero treinamento, nada impede que assumam aspectos educativos ao serem assumidos de forma positiva e dedicada. Mesmo que um ser humano se mantenha por toda a vida na atividade laboriosa, com certeza, poder haver uma postura de valorao no que se faz, adquirindo assim um sig-nificado de realizao e at mesmo de satisfao em execut-la. Percebe-se que, Ao Educativa e CidadaniaTema | 04161 portanto, mesmo que em sentido lato, o labor apresenta alguns aspectos que se acrescentam necessidade de se aproximar educao e tica. Pode-se afirmar que a educao, para que haja uma aproximao com a tica e resulte na construo da cidadania, no poder ser reduzida a um sim-ples labor apenas no sentido estrito do termo. de todo desejvel que esta apro-ximao se d numa ao efetiva. Porm, possvel conferir-se beleza e gran-deza na atividade do labor. Desta forma, tambm nele acrescentam-se aspectos educativos e ticos. Sendo assim, preciso avanar na busca de uma atividade humana educativa que, de fato, apresente mais plenamente as possibilidades de uma aproximao entre ambas. Depois do labor, a atividade humana se expressa atravs do trabalho. Enquanto o labor est relacionado s questes da sobrevivncia e seus resul-tados desaparecem to rapidamente quanto levam para ser produzidos, o tra-balho se constitui na produo de coisas marcadas pela durabilidade, mesmo que relativa. O homo faber, de acordo com a diviso das atividades humanas elaborada por Arendt (2007), dedica-se fabricao dos objetos de uso, por ela denominados de artifcios humanos. Atravs da fabricao, o homem assume o domnio da natureza, criando condies para nela se instalar com mais con-forto. Antes, atravs do labor, a natureza se apresentava ao homem como uma natura obstans6. Agora, atravs do trabalho, o ser humano descobre os seus segredos, aprende a conviver com ela e a transforma numa natura coadjuvans7. Assim, diferentemente do labor, a fabricao resulta de um objetivo planejado e de uma finalidade bem definida. Arendt (2007) apresenta o trabalho atravs do qual so fabricados os ar-tefatos que, a princpio, so construdos para facilitar a vida humana, como uma atividade que tambm apresenta ambiguidades de toda ordem. Apresenta, em primeiro lugar, a obsolescncia8 dos artefatos construdos. A fabricao se ca-racteriza pela durabilidade dos seus produtos. Entretanto, estes j so planejados para no durarem sempre e, mais do que isso, so planejados para durar, por interesses econmicos, por um tempo bem definido e cada vez mais reduzido.6 natura obstans: a natureza que se apresenta como obstculo ao homem, oferecendo-lhe mais dificuldades do que facilidades para sua sobrevivncia.7 natura coadjuvans: a natureza se apresenta como coadjuvadora do ser humano, oferecendo-lhe cada vez mais facilidades, fruto da prpria atuao do homem sobre ela.8 Obsoleto quer dizer velho, ultrapassado... esse envelhecimento planejado, com o tempo de durabilidade bem definido...Filosoia e Cidadania162 Outro aspecto que se verifica no desvio dos fins a que se destinam est o fato de os objetos fabricados assumirem outra significao que no sua origi-nal. Assim, de um instrumento de facilitao, podero se transformar em uma arma e se voltar contra o prprio homem. Alm disso, verifica-se o perigo de que, em vez de os instrumentos se ajustarem ao homem, o homem que tem que se ajustar s mquinas, submetendo-se ao seu ritmo e ao seu jeito de funcio-nar. A ergonomia9 um campo de estudos muito recente e recm agora passa a ser uma preocupao no universo do trabalho. Na contundncia dessas ambiguidades, apresentam-se ainda desvios de consequncias mais srias, como a destruio da natureza para se fabricar muito mais objetos de troca do que objetos de uso. Isto se refere ao fato de que os fins justificam todos os meios de fabricao. O nico critrio que passa a reger o sistema produtivo sua factibilidade e suas vantagens econmicas. De resto, os fins utilitaristas justificam todos os meios para sua consecuo. Resulta que esta mercantilizao10 acaba se transformando num processo de acumulao predatria e gerando um consumismo sem limites. O prprio ser humano passa a ser reduzido e avaliado pela sua capacidade de produzir e de consumir. Esta exacerbao da produo e do consumo11 atinge nveis to extremados que coloca em risco a prpria possibilidade da manuteno da vida sobre o planeta. Este risco que se configura de uma forma cada vez mais real e ameaadora poder ser expresso como sendo a natura minans12. A natureza ferida transforma-se num terreno minado. Isto , um terreno perigoso e que po-der se voltar contra o ser humano a qualquer momento. As evidncias desta re-alidade se apresentam de mltiplas formas. A reao da natureza confirma um dito popular segundo o qual Deus perdoa sempre, os homens de vez em quando e a natureza nunca. Para comprovar isso tudo, esto a os fenmenos naturais catastrficos dos tsunamis; dos vulces, entrando em erupo em todas os can-tos do mundo; as secas e as altas temperaturas avassaladoras; as tempestades e baixas temperaturas desumanas, por todos os lados; o aquecimento do planeta e o degelo das calotas polares, fruto de um aquecimento global; as radiaes 9 Ergonomia o estudo das condies em que as mquinas devero ser ajustadas ao homem...10 Para a ideologia da mercantilismo a nica lei que vale a do lucro resultante de mercado livre e da livre concorrncia. 11 Produzir e consumir necessrio para a vida humana. O que inaceitvel reduzir o prprio ser humano quilo que ele produz e consome...12 natura minans: a natureza se apresenta como um terreno minado. Ferida pela ao pre-datria do prprio homem, defende-se, reagindo violentamente. Ao Educativa e CidadaniaTema | 04163 csmicas descontroladas, resultantes da poluio que leva destruio da ca-mada protetora de oznio etc. Assista ao filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin: trata-se do ltimo fil-me mudo de Chaplin, que focaliza a vida urbana nos Estados Unidos nos anos 30, imediatamente aps a crise de 1929, quando a depresso atingiu toda so-ciedade norte-americana, levando grande parte da populao ao desemprego e fome. A figura central do filme Carlitos, o personagem clssico de Cha-plin, que ao conseguir emprego numa grande indstria, transforma-se em lder grevista conhecendo uma jovem, por quem se apaixona. O filme focaliza a vida do trabalhador na sociedade industrial caracterizada pela produo com base no sistema de linha de montagem e especializao do trabalho. uma crtica modernidade e ao capitalismo representado pelo modelo de industrializao, onde o operrio engolido pelo poder do capital e persegui-do por suas ideias subversivas.Outro aspecto que, em funo do tempo em que Arendt (2007) ela-borou suas reflexes, foi apenas mencionado sem maior nfase, diz respeito substituio do homem pela mquina. Esta realidade hoje se apresenta de for-ma contundente e preocupante. A grande massa de trabalhadores, sobretudo os jovens que recm esto chegando ao mundo do trabalho, dele so excludos, sem terem o que fazer e onde se integrar como fora ativa. O universo do traba-lho deixou de ser um direito de todos os seres humanos, para se transformar em um mercado, com suas exigncias e seus mecanismos altamente seletivos. Sem dvida alguma, um dos grandes problemas e um dos maiores desafios deste novo milnio, como equacionar o mundo do trabalho, ou seja, o que e como ocupar a imensa massa afluente de seres humanos que precisa se ocupar, ter um trabalho digno e poder, atravs de sua ao, construir um bom lugar para se viver.O homo faber revela um elemento de violncia e de manipulao da na-tureza, comportando-se como dono e senhor de toda a terra. A fabricao fun-Filosoia e Cidadania164 ciona segundo a lgica da racionalidade instrumental13, a partir da relao meios/fins. Isto quer dizer que se confundem os meios e os fins e, muitas vezes, os fins, mesmo que discutveis, justificam os meios para auferi-los. Assim tambm funciona a educao orientada pelo paradigma da ra-cionalidade tecnolgica, com seus objetivos norteados pela busca incessante do tecnicismo utilitarista. Alm do mais, o processo de fabricao organizado dentro de um planejamento de tempo bem determinado, em que o indivduo deve ficar educado e formado. O resultado final do processo de fabricao est determinado desde o princpio, de sorte que a identidade deixa de se construir, podendo resultar em sujeitos individualistas, competidores ferozes e para os quais s interessar o sucesso material a qualquer preo. Pela fabricao se re-aliza uma construo humana de acordo com um modelo pedaggico reprodu-tivista de sociedade. De acordo com este modelo, os indivduos so reduzidos a meros objetos manipulados e manipuladores. Segundo Brcena e Mlich (2000), o drama no radica somente na fa-bricao em si mesma, mas, sobretudo, na sua transferncia a todas as esferas da existncia humana. Pela generalizao da fabricao, o utilitarismo individu-alista estabelecido como a norma ltima para o mundo e para todos os homens que nele se movimentam. O mundo da fabricao no tolera a pergunta pela razo da utilidade e no se pode questionar o seu valor de uso. o predomnio da lgica da razo instrumental, isto , o melhor e maior resultado, com o mni-mo de custo e de esforo, funcionando atravs de uma estrutura burocrtica. Na educao, a fabricao pedaggica tem como sinnimas a instruo e a rigidez dos currculos. Diante desta realidade descrita e inspirada nas anlises de Arendt (2007), colocam-se as questes da educao e da tica. Voltando aos pressupostos iniciais de que a educao um dos instrumentos que refletem esta realidade e tambm a reproduzem, qual o papel que ela assume neste contexto rela-13 Racionalidade instrumental diz respeito lgica do que d para fazer e d lucro... a suprema lei do mundo tecnolgico e capitalista... tudo o que tecnicamente possvel e economica-mente interessante realizado a qualquer custo, mesmo do prejuzo humano e natural.Ao Educativa e CidadaniaTema | 04165 cionado ao mundo do trabalho? Quais implicaes ticas se ajustam a uma proposta educativa cujos objetivos so determinados pelas exigncias de um mundo de produo e de consumo? preciso lembrar que o mundo do trabalho que se apresenta na atuali-dade profundamente marcado pela ideologia que perpassa todos os movimen-tos humanos. Vivemos numa sociedade globalizada e neoliberalizante. Os valo-res que a direcionam so impostos pela ideologia do liberalismo. Esta ideologia precisa ser compreendida para que se busquem caminhos para uma travessia mais humanizadora. Com este objetivo, segue uma anlise inspirada no filsofo Antnio Sidekum, que v uma possibilidade de se realizar esta aproximao en-tre a educao e a tica no mundo do trabalho, como veremos adiante.O desafio que se impe, nesta poca marcada por profundas e descon-certantes incertezas, como estabelecer uma relao entre as exigncias da ti-ca e os valores sobre os quais se estriba uma sociedade globalizada e neoliberali-zante. Sidekum (2001) investiga a possibilidade de estabelecer esta relao luz da tica da alteridade de Emmanuel Levinas, procurando responder a pergunta de como a tica de Levinas rompe com o conceito de totalitarismo cultural, da unidimensionalidade da globalizao da economia mundial contempornea e com o pensamento poltico nico (SIDEKUM, 2001, p. 166). Na busca desta resposta, o autor acena para a emergncia de uma conscincia tica fundada, na identidade cultural e no pluralismo (SIDEKUM, 2001, p. 166). Enquanto Levinas apresenta os conceitos de totalidade, alterida-de, infinita responsabilidade tica para com o outro, a globalizao traz no seu bojo a marca do individualismo e da acumulao. Como equacionar um bin-mio to contraditrio?Empresas e instituies internacionais se interligam, possibilitadas pelas redes de computadores e telecomunicaes. Esta possibilidade ilimitada produz relaes as mais ambguas na medida que viabilizam a onipresena14 instantnea e, ao mesmo tempo, uma massificao generalizada. Na esteira do processo da globalizao econmica vem um caldo de excluso sem precedentes. Diante disto, na contrapartida, Sidekum (2001, p. 167) acena para uma nova conscincia histrica que emerge nos pases e comunidades que se encontram 14 Onipresena a possibilidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo...Filosoia e Cidadania166 excludas. Da parte do modelo econmico, surge uma evoluo para o chamado capitalismo tardio (SIDEKUM, p.183), segundo o qual se apresenta um avano para um neoliberalismo ocupado com a superao dos conflitos econmicos e ideolgicos e na busca de uma equidade social. Este neoliberalismo se manifes-taria nas chamadas Sociais Democracias, como um esforo de superao dos aspectos danosos produzidos pela globalizao, considerando de maneira oti-mista alguns fenmenos emergentes dessa era globalizada (SIDEKUM, 2001, p. 184). Estes se expressariam pela generalizao da riqueza do pluralismo t-nico e cultural, em que as diferenas e diversidades passam a ser consideradas como ganhos. Os princpios ticos precisam se inserir na tarefa da minimizao dos aspectos nefastos da globalizao e na emergncia de suas possibilidades cons-trutivas. O autor refora a importncia de se sustentar o direito de ser diferente, um novo horizonte de respeito aos direitos humanos e dos povos excludos[...] um encaminhamento do dilogo intercultural [...] (SIDEKUM, 2001, p. 187-188). Assim, por exemplo, um dos elementos bsicos da globalizao que a comunicao de massa se transforme em instrumento, no de massificao alie-nante, mas de relaes criativas e humanizadoras entre os povos. A globalizao no ser mais entendida somente como um fenmeno de natureza econmica, mas como uma infinita possibilidade de estabelecimento de relaes, da univer-salidade da cultura e dos valores da dignidade humana (SIDEKUM, 2001, p. 190).Sidekum (2001, p.168) busca em Emmanuel Levinas a fundamentao da proposta de uma globalizao orientada pela alteridade tica. Trata-se do conceito de alteridade como infinita responsabilidade tica do Eu para com Outro. As estruturas injustas do mundo contemporneo somente sero rompidas atra-vs do reconhecimento da alteridade tica. O que pode se contrapor aos aspectos excludentes da globalizao so exatamente as necessidades do outro. Estas exigncias, segundo Levinas (1988), so de dimenses imensas. Este senso de responsabilidade para com o outro diminui a nsia de poder exacerbado e insere tambm o profundo sentido de justia e de verdade. A relao com o Outro faz a verdade ser possvel. Estar em relao com a mestra verdade emergir na relao social e na relao com o Terceiro, que justia (LEVINAS, apud SIDEKUM, 2001, p. 171). Levinas apresenta a justia como a interpelao face-a-face com o outro. Nesta inter-pelao tica, que se expressa pela responsabilidade incondicional pelo outro, Ao Educativa e CidadaniaTema | 04167 que se fundam a verdade e a justia. A partir desta concepo levinasiana de tica como a interpelao do outro que se impe a necessidade da criao de paradigmas sociais que contemplem esta exigncia. Assim, o lado perverso da globalizao poder ser suplantado pela alteridade tica. Em todo o mundo se dissemina uma conscincia cada vez mais clara de que a globalizao da misria e da excluso de povos inteiros algo cada vez mais inadmissvel. Generaliza-se o clamor por uma nova ordem social que contemple as condies mnimas de cidadania para todos os habitantes do planeta. No so mais guetos isolados a sofrer a sua excluso e escravizao de forma silenciosa e ignorada. uma concepo positiva da globalizao que acena para um novo horizonte de respeito aos direitos humanos e o reconhecimento da alteridade das pessoas e dos povos excludos (SIDEKUM, 2001, p. 188). Esta forma de globalizao, apresentada pelo autor citado acima, ace-nando para a esperana de que o mundo transformvel, inclui-se na tarefa que cabe educao. a educao que se constitui na prtica por excelncia, j que molda novos seres humanos desde a mais tenra infncia. Transformar as polti-cas e as prticas educativas em paradigmas de incluso um dos discursos mais recorrentes em todo o espao educacional da atualidade. Sempre que uma rea-lidade se exacerba em seus aspectos de perversidade, surgem, na contrapartida, como uma reao natural de sobrevivncia, as reservas de energia acumuladas e fundadas no cabedal de eticidade dos indivduos e dos povos. A capacidade de se indignar e de reagir para que se promovam mudanas em favor de valores efetivamente voltados para o que h de melhor, mantm-se latente e, em tempo, vem tona.Assim, verifica-se em todos as partes do mundo, homens e mulheres de todas as raas, religies e culturas, clamando e se organizando para constru-rem um mundo onde haja lugar para todos. A cultura da paz se fortalece cada vez mais como um antdoto contra a disseminao de conflitos e violncias. Um movimento simbiosinrgico15 por um mundo melhor ecoa e se faz sentir em propostas concretas.O trabalho, dentro deste contexto de realidade, apresenta-se como um produto de mercado. Sua eticidade advir de sua transformao em um direito de cada cidado. Cada ser humano tem como vocao construir-se e construir o 15 Simbiosinergia refere-se soma de todos os tipos de energias para a construo de um mundo melhor...Filosoia e Cidadania168 seu mundo atravs de um trabalho que lhe confira condies dignas de existn-cia. O direito ao trabalho assume um sentido de realizao humana. O trabalho tem um valor em si mesmo, seja ele qual for. Enquanto o indivduo trabalha, constri a si mesmo, fabrica para si e para todos os que o rodeiam. Resulta que a educao e a tica sero elementos-chave para a consecuo desta realidade do mundo do trabalho. A educao vai se constituir em preparao para a reali-zao profissional. Porm, um tcnico preparado para uma atividade especfica no poder esconder o ser humano que a realizar. Isto implica os valores ticos de que se constituir toda prtica educativa.Na sequncia da reflexo sobre a condio humana, buscar-se- a com-preenso do que efetivamente pode levar realizao cada vez mais plena na travessia dos seres humanos pelo planeta: somente uma ao consciente os far construtores de sua prpria histria e a da histria de seu povo. Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vdeos, podcast, nos objetos de aprendizagem, na participao do frum de discusso do tema, na busca do esclarecimento de dvidas atravs de e-mails, do espao para tirar dvidas de contedo e no chat.SIDEKUM, Antnio. O trao do outro: globalizao e alteridade tica. Fi-losofia Unisinos, So Leopoldo: Unisinos, v. 2, n. 3, dez/2001, p. 165-192.O filsofo gaucha Antnio Sidekun elabora um artigo, em seu programa de ps-doutoramento, em que contextualiza a importncia e a necessidade de se promover a sustentabilidade em uma sociedade globalizada e neoliberal atravs da promoo da alteridade. Vislumbra assim aspectos positivos nos mltiplos aspectos em que se apresenta o fenmeno da globalizao. Ao Educativa e CidadaniaTema | 04169 BRCENA, Fernando; MLICH, Joan-Charles. La educacin como acontecimento tico: natalidad, narracin y hospitalidad. Barcelona: Pai-ds, 2000.Os educadores espanhis Brcena e Mlich fundamentam a eticidade educa-tiva inspirada nos filsofos Hannah Arend, Paul Ricouer e Emmanuel Levi-nas. Defendem a impossibilidade de haver uma educao sem tica. Somente uma educao impregnada profundamente pela tica poder ser uma fora social para a construo da utopia de um novo homem e de uma nova socie-dade. Filosoia e Cidadania170 4.3 Vita activa: tica e aoDas trs expresses da vita activa apresentadas por Arendt (2007), a ao humana a que se refere atividade mais completa do ser humano. Ela fruto da pluralidade dos seres humanos e se faz sempre dentro do universo das relaes. na ao, portanto, que se construir a prtica educativa de forma mais tica possvel. Desenvolver pessoas, convivendo com as diferenas, cons-tituir-se- numa tarefa tica por excelncia. Somente um profundo sentido de alteridade poder criar as condies necessrias para que se faa uma educao que atinja plenamente os seus objetivos. Para Arendt (2007, p. 189), no h vida humana sem ao e sem discurso. Com a palavra e a ao, nos inserimos na existncia humana. Atuar significa tomar a iniciativa e comear. Desde o seu nascimento, o ser humano desafiado a agir. O verdadeiro nascimento comporta fundamentalmente a novidade, a imprevisibilidade e a irreversibilidade. A verdadeira educao ao quando rompe com o previsvel e se abre para a surpresa. Em um nascimento, que ir-rompe como um verdadeiro milagre, com a avassaladora fora do imprevisto e do imprevisvel, temos a melhor metfora para um processo educativo ba-seado na ao. Por esta capacidade radical de surpreender e de inovar que o ser humano se torna um ser insubstituvel, nico e irrepetvel.A ao, como novidade radical, est ligada ao discurso, fundando o seu carter revelador. Sem a pergunta proporcionada pela narrao, o ser humano seria um rob e a educao um adestramento; como se o educador fosse re-duzido a um funcionrio que nada interroga, que s executa e repete mecani-camente as tarefas que lhe so impostas pelo patro. A formao narrativa da identidade torna possvel que o ser humano descubra o que e consiga tramar mais ou menos coerentemente o relato de sua existncia.Para Arendt (2007), a educao no fabricao, mas ao. Para ela, a educao no pode ser entendida como trabalho. A ao educativa a constru-Ao Educativa e CidadaniaTema | 04171 o do relato de uma identidade, isto , o relato de uma vida. A ao tem lugar no presente e atesta o carter no linear da histria. No h previso na ao porque no se pode prever a sua ruptura histrica. O entrelaamento do presen-te, do passado e do futuro, numa ordem linear e previsvel, s afirmado pela lgica da fabricao. Nesta lgica, no se admitem o diferente, a ruptura da or-dem estabelecida e o no previsto, o no avaliado e o no controlvel. O trabalho funciona de acordo com o logos, ou seja, a evoluo pelo controle do processo. Nele, o tempo aparece como uma entidade mensurvel quantitativamente.Acessar a Internet Google e pesquisar Trabalho e tica. Uma sequncia de textos e filmes possibilitaro a complementao de seu estudo. Para Arendt (2003, p. 223), a essncia da educao a natalidade16. Nas-cer a expresso maior de todo e qualquer comeo. O recm-nascido a mani-festao da mais radical novidade. Todo nascimento interrompe e transtorna a tranquilidade de um mundo mais ou menos organizado, constituindo-se em uma experincia que obriga a pensar e que exige muita capacidade de compreenso. Um recm-nascido um recm-chegado, isto , algum que ter que ser iniciado e introduzido em tudo. Isto implica a tica da hospitalidade e do acolhimento. Assim como a construo da vida humana se faz atravs da ao e da palavra, tambm a prtica educativa tem ambas como elementos fundamentais. Agir e se comunicar sero a base para o desabrochar de todo ser humano. Aren-dt (2007) sempre destaca o nascimento biolgico como o princpio fundamental e primeiro de tudo que compe a realidade humana. Nascer, para ela, a maior novidade que pode existir na face da terra. O fato de termos nascido constitui-se na maior graa que existe. O desabrochar desta vida de um recm-chegado haver de acontecer na medida em que ele acolhido e puder se comunicar com o mundo e com todos os demais seres humanos. O ser humano ser nico 16 Arendt destaca como o acontecimento mais importante de toda a realidade o fato de al-gum ter nascido, ou seja, ter vindo a esse mundo. A palavra chave de toda a filosofia arendtiana natalidade. Viver falar e agir.Filosoia e Cidadania172 e irrepetvel ao se manifestar atravs de sua palavra e de seu discurso. A ao humana precisa ser comunicada, mesmo que o sujeito, com isso, haver de se expor e desnudar. preciso correr este risco da exposio, sob pena de que a sua travessia no seja notada e haver de perder todo o seu significado em funo de seu fechamento. Portanto, todo ser humano se insere na vida mediante a ao e o relato. Todavia, isso no significa que seja o autor nico da histria de sua prpria vida. O relato da vida de um deve ser escrito por outro. Somos os protagonistas da his-tria de nossas vidas. Porm, no somos os nicos autores, mas sim co-autores. Aqui Arendt (2007) distingue a histria real da histria fictcia. Na pri-meira, estamos envolvidos visceralmente, enquanto a outra escrita por relato-res. Para conhecer a verdadeira identidade de algum, preciso conhecer a sua biografia, ou seja, saber como ele foi percebido pelos demais. A dificuldade maior deste se d a conhecer, da revelao da essncia do ser humano, de acordo com Arendt (2007), est no risco de que o atingvel acabe sendo somente a aparncia. Inevitavelmente o conhecimento do ser mais profundo se dar atravs do relato da multiplicidade das relaes cotidianas que configuram a histria de cada um. Esta histria ser sempre narrada por outrem. O sujeito s ser conhecido atravs de sua biografia. Portanto, esta teia de relaes contadas pelos outros implicar dimenses valorativas, emergindo o contedo tico em todos os seus momentos pelo fato de que este relato sempre expressa a subjetividade de juzos de valor. Outro aspecto apontado por Arendt (2007) a respeito da ao humana e que assume um significado relevante na busca do desenvolvimento da prtica educativa de acordo com princpios ticos refere-se ao determinismo histrico como uma ao coletiva. Mesmo sendo de iniciativa individual, os fatos his-tricos significativos havero de repercutir coletivamente, produzindo reaes e sendo narrados posteriormente. a escola, depois da famlia, o espao pri-mordial do processo de socializao dos educandos. Ensinar a conviver tarefa da educao. Esta aprendizagem se constitui numa vivncia de natureza tica, com aspectos marcadamente individuais. Porm, no existe realizao humana plena somente de forma individualizada. Uma gama significativa de desafios da humanidade exige solues de ordem coletiva. Portanto, educar e ser educado implicar sempre aes individuais e coletivas.Outra questo arendtiana relevante trata do poder. O exerccio do po-der se vincula exigncia de uma ao e um discurso coerentes. A vontade de Ao Educativa e CidadaniaTema | 04173 poder, tanto na sociedade quanto na escola, poder significar um impulso para a realizao de tudo o que for necessrio. Porm, se esta vontade perder a di-menso da justa medida, poder se exacerbar e cair num totalitarismo violento. O poder sempre ser necessrio como uma possibilidade de prestao de servi-os aos outros. Para que assim se mantenha, preciso que ele se funde na ao e no discurso. Ser atravs do dilogo que se far o entendimento e o poder ser exercido com justia e equidade. Este aspecto do poder se abre tambm para a questo dos limites. A im-posio de limites j foi compreendida como um cerceamento da liberdade. O resultado foi uma queda num relativismo comportamental nefasto, com conse-quncias muito negativas para a educao da personalidade de crianas e jovens. Tudo era permitido. Nada se podia contrapor vontade e desejos infantis e juve-nis. A perda dos valores referenciais para o comportamento de geraes inteiras redundou em insegurana, incerteza e descaminhos de toda ordem. Finalmente, pais e educadores voltam a discutir e a propor os limites como um balizamento indispensvel para a construo da personalidade humana. Valores como o res-peito, a disciplina, a obedincia aos poderes legtimos de quem tem obrigao de exerc-los, so reafirmados como bases educativas. A ao educativa se ex-pressar tambm atravs de um discurso que estabelece, sem falsos pudores, o balizamento dos caminhos a serem percorridos pelos educandos como seres em formao e que necessitam aprender pontos de referncia para suas vidas. A ao e o discurso sempre acontecero na forma de processo, isto , num permanente movimento dialtico. As aes realizadas tero uma reper-cusso em cadeia e seus efeitos se prolongaro indefinidamente. Diante desta irreversibilidade das aes humanas, acrescenta-se outra questo importante na reflexo sobre a aproximao entre a educao e a tica. Trata-se de como remediar os equvocos cometidos pela ao humana. Como articular estas aes dentro das prticas educativas para que sejam fundadas por valores ticos?Filosoia e Cidadania174 Como j vimos anteriormente, Arendt (2007) sugere o perdo como a melhor forma de se fazer a ruptura com os equvocos e dar continuidade para a ao humana. Inspirada textualmente nos princpios evanglicos, apresenta o perdo amoroso como o modelo regenerador das relaes humanas. Assim tambm o exerccio do perdo ser um contedo de aprendizagem e, como tal, tarefa da educao. Por outro lado, diante de equvocos e erros graves, a nica forma de regenerao apresentada a punio. Arendt (2007) admite e prope a punio como forma de se restabelecer o vnculo com o passado e dar conti-nuidade ao presente, como uma possibilidade extrema. Resta discutir-se, na prtica educativa, em que condies e como se executar a ao punitiva para que seja adequada e justa. A teoria da educao de Arendt se constitui em uma filosofia da natali-dade. Afirma ela que a essncia da educao a natalidade, o fato de que seres nascem para o mundo (ARENDT, 2003, p. 223). O que existe de radicalmente novo o fato de um ser humano chegar a este mundo. A capacidade humana de comear algo completamente novo se manifesta no nascimento. Isto quer dizer que o ser humano recm-chegado capaz de aes pro-fundamente inovadoras. Este dinamismo se constitui na ao bsica e funda-mental do processo educativo, assumindo uma dimenso essencialmente tica na medida em que ele sempre se d na relao com os outros homens. Isto explicitado quando ela afirma que nenhuma vida humana possvel sem um mundo que testemunhe a presena de outros seres humanos (ARENDT, 2007, p. 31). Nossa capacidade para atuar coincide assim com a faculdade de comear, de intentar, de tomar uma iniciativa. A entra a educao como possibilidade in-finita de um novo comeo, de natalidade como o poder sempre aberto fora do que nasce. A educao, norteada por princpios e valores bem definidos e bem claros, precisa ser um permanente exerccio de inovao. Um novo cidado ter na escola, depois do espao familiar, a instituio cuja finalidade fundamental introduzi-lo no processo de construo do conhecimento e de socializao. Cabe educao a tarefa de imprimir os valores que exigem o compro-misso do cuidado da vida e do planeta em cada recm-chegado e em todos os que por aqui j transitam h mais tempo. A condio humana, portanto, ser desenvolvida pela ao educativa. Este compromisso decorre da conscincia do fato salientado por Arendt (2007) como primordial e bsico em toda ao hu-mana, que a natalidade e no a mortalidade. Toda a ao humana precisa criar Ao Educativa e CidadaniaTema | 04175 condies para que o advento de novos seres humanos se transforme em um acolhimento e em uma saudao de boas vindas. O desencadear desta ao se constituir no desafiador compromisso tico e educativo, pois a ao a ativi-dade poltica por excelncia, a natalidade, e no a mortalidade, pode constituir a categoria central do pensamento poltico (ARENDT, 2007, p. 17). Nascer e construir a vida da melhor forma possvel, portanto, havero de se constituir na tarefa primordial da existncia humana. Como o ser humano o nico ser que no recebe esta tarefa pronta, ser preciso que ele aprenda a realiz-la.A condio humana que se aufere ao nascer, sendo a natalidade o fato mais importante e significativo da vida humana, precisa ser ajustada de forma realizadora e feliz. A plenificao da existncia humana se dar por uma vida ativa adequada e produtiva. O ser humano precisa ser acolhido na grande festa da vida como quem foi convidado. Para isso seu desabro-char, desde a mais tenra infncia at o trmino de sua travessia, precisa se constituir de uma passagem luminosa e digna. Esse ser humano, sujeito de sua prpria histria e da histria solidria com os que o rodeiam, have-r de se fazer atravs de sua ao e de seu discurso. A liberdade ser uma conquista que ter o exerccio da palavra como expresso maior. Matar algum impedir que ele diga a sua palavra. Portanto, a ao humana se plenificar pela conscincia com que se faz a insero no mundo e sua expresso pela palavra reveladora de um ser sujeito. Em seguida, Arendt (2007) apresenta dois outros valores ticos funda-mentais a f e a esperana como possibilidade de significao da travessia humana, referindo-se explicitamente sua origem evanglica. Acreditar em si mesmo, isto , nas potencialidades recebidas para desabrochar a partir do nas-cimento at cumprirem-se os desgnios para os quais viemos a este mundo, uma postura indispensvel para crescermos como seres humanos. Ter um senti-do de infinito, na perspectiva de f em Deus, nos confere uma significao maior e definitiva para toda a travessia humana. Assim como a esperana permanente Filosoia e Cidadania176 de que tudo, sempre, poder dar certo e que, um dia, completaremos nossas realizaes no plano infinito de Deus, plenificando a condio humana. Desta forma, Arendt (2007) confere um significado maior vida huma-na. Deste testemunho podemos depreender tambm a funo maior da educa-o como uma prtica tica indispensvel e necessria. Existir, por certo, uma educao desprovida destes valores. Entretanto, haver de se identificar apenas como uma prtica laboriosa e trabalhosa, tendo como finalidade o sucesso ma-terial e econmico. Contudo, esta ser uma prtica educativa que limitar o ser humano condio da produo e do consumo, enquanto a plenificao huma-na precisa mobilizar todos os aspectos de sua potencialidade de realizao. S assim teremos um ser humano inteiro. Quanto mais seus talentos forem mul-tiplicados, tanto mais haver de se completar como ser humano, cuja vocao s se plenificar totalmente no infinito, em Deus. Portanto, compreendendo-se a educao como a tarefa de construo de seres humanos cujas possibilidades no precisam se submeter a limitaes, ela se constituir numa prtica plena e plenificidadora enquanto for iluminada, cada vez mais, pelas luzes da tica.No encaminhamento das consideraes finais do texto de Filosofia e Cidadania, preciso apontar para os sinais que fundam a esperana de que os seres humanos e o mundo so transformveis. Tambm precisamos vislumbrar possibilidades concretas e caminhos possveis de serem transitados para que se realize a utopia de um novo homem e de uma nova sociedade. Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vdeos, podcast, nos objetos de aprendizagem, no frum de discus-so do tema, na busca de esclarecimento de dvidas e dificuldades atravs de e-mails e chat. Ao Educativa e CidadaniaTema | 04177 BOFF, Leonardo. tica da vida. 2. ed. Braslia: Letraviva, 2000.O filsofo, telogo e antroplogo Leonardo Boff direciona, cada vez mais, suas reflexes para as questes ticas que dizem respeito integrao de todos os habitantes do planeta. A centragem tica no diz mais somente respeito condio humana, mas defesa da vida e de todos os meios que a possibili-tam em uma terra (des)cuidada em todos os seus aspectos. ______. tica e eco-espiritualidade. Campinas: Verus Editora, 2003.Todos os habitantes do planeta se integram e interagem como uma teia para a preservao da vida. O universo por inteiro vibra em uma sintonia csmica e nisso que consiste a dimenso tica que envolve todos os seres criados por Deus e que evoluem indefinidamente. Filosoia e Cidadania178 4.4 A utopia da esperanaO seu mais leve olhar vai me fazer desabrochar, apesar de eu ter me fechado como um punho cerrado. Voc me abre sempre, ptala por ptala, como a primavera abre, tocando de leve, misteriosamente, sua primeira flor (E.E. Cummings).A esperana que acalentamos e que pretendemos transformar em re-alidade a de um mundo onde caibam todos, no dizer de Assmann (2000, p. 13). Este ser um mundo em que os seres humanos podero viver em paz. Para isso preciso, como preconizam os relatores da UNESCO, coordenados por Jacques Delors, em Educao, um Tesouro a Descobrir, ao elencarem os pilares da educa-o para o sculo XXI, que a humanidade aprenda a conviver. Entretanto, como continua afirmando Assmann( 2000, p. 20), os seres humanos no so natu-ralmente to solidrios quanto parecem supor nossos sonhos de uma sociedade justa e fraternal. Essa aprendizagem se constitui em uma das grandes tarefas da edu-cao. Como ser possvel encarar esses desafios da construo de um mundo mais solidrio, de mais fraternidade e de mais ternura?Existir construir. A aventura humana consiste em fazer-se a cada mo-mento sob mltiplos aspectos. A condio bio-psico-social17 do ser humano exige um desenvolvimento de todos os lados deste mero projeto em que ele, a princpio, se constitui. Enquanto toda a multiplicidade de suas dimenses no for acionada, no existir um ser completo e feliz. Um ser humano inteiro preci-sa estabelecer uma relao harmoniosa e madura consigo mesmo e com o outro (irmo-mundo-Deus). Eis a grande tarefa histrica de cada caminhante que faz a travessia humana.A primeira parte desta caminhada a procura de si mesmo. O homem no um ser humano apenas porque foi gerado por um homem e por uma mu-lher. Haver de se hominizar e humanizar na medida em que assumir a sua cons-truo material, fsica, espiritual, emocional, intelectual e comunitria. A sua per-sonificao e seu amadurecimento se daro atravs de uma insero adequada no 17 A integralidade do ser humano se expressa em um ser de mltiplas dimenses e que pre-cisam desabrochar harmoniosamente.Ao Educativa e CidadaniaTema | 04179 contexto que o cerca. Ele se far tanto mais ser humano quanto maior for a sua conscincia de si e do seu mundo. A percepo de si implica o autoconhecimento e a aceitao de seu eu e da histria passada da qual ele produto. A conscincia do mundo impe uma percepo correta da realidade circundante e a ocupao de todos os espaos que lhe cabem como fazedor de histria. Uma personalidade madura faz girar o seu eixo bem centrado dentro de si prprio. Seus pontos de referncia esto fundados e estabelecidos em va-lores enraizados profundamente em sua mente e em seu corao. Da resulta a sua autonomia e independncia em relao ao universo externo do qual ele se movimenta. Um ser humano amadurecido sabe ser responsvel por tudo o que determina o seu comportamento. Ele muito mais um ator e produtor de tudo o que acontece do que um mero reator, que apenas sofre as consequncias. O nico ponto de referncia fora de si que ele admite como absoluto est na sua transcendncia, que o projeta para a dimenso do infinito. A sua f faz com que ele funde e oriente a travessia na direo de Deus.Entretanto, no que diz respeito busca de si mesmo que o homem moderno tem experimentado mais perdas e frustraes. No dizer do poeta, o homem moderno alcanou os espaos infinitos, mas tem se mostrado incapaz de encontrar a si mesmo. So muitos aspectos que levam a humanidade a es-tar reduzida a uma massa disforme, teleguiada e manipulada. Uma quantidade sem conta de seres humanos mantida na mais primitiva inconscincia. Sem percepo alguma de sua condio e de sua dignidade e muito menos de seu contexto sem rosto e sem voz, no contam para nada e para ningum. Deser-dados de tudo, so reduzidos a meros tubos digestivos que a tudo consomem passiva e quietamente.Da deduz-se que preciso acordar. preciso que cada ser assuma a sua condio humana em toda a sua pluridimensionalidade. Isto se resume em seu processo de conscientizao. A medida da construo de um ser humano est na medida da evoluo de sua conscincia. preciso ultrapassar os nveis de um fechamento total da conscincia e de uma conscincia emergente, mas ainda ingnua e acomodada, para refletir criticamente a realidade. Isto far de um indivduo um ser verdadeiramente humano, dono e senhor de sua prpria histria. Como tanto insistia em afirmar FREIRE (2001).Todavia, a construo da vida no se faz de forma isolada. Ningum se constri sozinho. Os homens se constroem em comunho. esta dimenso Filosoia e Cidadania180 que se impe ao homem de forma desafiadora: abrir-se na direo do outro. A razo da existncia humana s se completa em um projeto de amorizao18. o amor a si prprio e ao outro (irmo-mundo) que confere um sabor e um sig-nificado maior travessia humana. Contudo, a caminhada tem se apresentado muitas vezes rida para o homem de nosso tempo. O homem moderno, como em tempo algum antes, tem sentido necessidade de encontrar companheiros. Ansiosamente tem buscado resolver o binmio EU + TU. Mas o que tem encon-trado um somatrio de perdas e muita solido. Os pensadores existencialistas ateus (Jean Paul Sartre 1905/1980 e Albert Camus 1913/1960) j h muito tempo desistiram de acreditar na possibilidade deste equacionamento. Segundo eles, o ser humano ter que se conformar com uma existncia absurda e sem significado. S e sem razo para existir, resta somente ao homem aguentar at que se consuma o nada o vazio para o qual tudo se dirige inexoravelmente.Assistir ao filme O Ponto de Mutao, do livro homnimo, do fsico austraco Fritjof Capra. A reflexo entre uma cientista, um poltico e um poeta leva busca de uma sntese integralizadora da condio humana entre o que essencial e o que circunstancial e tran sitrio.Por vezes, diante de tantos desencontros, quase que se impe esta con-vico de que impossvel estabelecer relaes amorizadas e gratificantes. As relaes de amizade so marcadas pelo utilitarismo ou sucumbem ao sem tem-po que caracteriza o cotidiano. As relaes entre pais e filhos se constituem em conflitos de toda ordem por causa das diferenas idades, interesses etc. que os colocam geralmente em polos antagnicos e opostos. As relaes conjugais, que comeam com um encantamento sem fim, acabam em incompatibilidades intransponveis e o consequente esfriamento inapelvel. O mundo do trabalho tem se revelado o palco por excelncia a expressar os anseios e os conflitos do mundo atual. nele que a ideologia da mxima produo/consumo se traduz 18 Amorizar no se reduz unicamente a um sentimento, mas a comportamentos eticamente comprometidos com a construo de um novo homem e uma nova sociedade.Ao Educativa e CidadaniaTema | 04181 em prticas desintegradoras e neurotizantes. O homem moderno tem estabele-cido o seu ponto de referncia fora de si mesmo. O prprio conceito de homem foi reduzido s coisas que ele tem. Diante disto, alguns se neurotizam por no conseguirem o mnimo suficiente para sobreviver e outros porque tm demais e se empanturram de tanto consumir. Afeitos a egosmos e a entredevoramen-tos, as relaes humanas so marcadas pela competio desmedida e por uma ganncia sem limites. Assim se constri um mundo revelia do homem e qui contra ele prprio. , sobretudo, no campo da educao que estas relaes desumanizadas se refletem e se reproduzem. A escola j recebe a criana marcada e ferida pro-fundamente por um contexto familiar e social desestruturado. Um mundo indi-vidualista e fetichista produz crianas e jovens que consomem vorazmente e que tm dificuldade de repartir. So estas crianas e estes jovens que se constituem no objeto da atuao de uma escola que, por sua vez, tambm est inserida e produto deste mundo feroz. Resulta que a, consequentemente, as relaes tam-bm se revelam competitivas, excludentes e autoritrias. Diante de tudo isto, preciso recuperar a dimenso plenamente humana das relaes em todos os espaos em que elas se estabelecem. O que significa isso? Como fazer com que isso acontea? Em que pontos de referncia devemos fundamentar relaes que sejam amorizadas, compensadoras e gratificantes? Com certeza, na prtica educativa que se dever exercitar a construo de um novo homem e de uma nova sociedade. De que homem e de que socie-dade estamos falando? A resposta a de um homem amoroso e solidrio, cujo compromisso maior ser seu engajamento na construo de um mundo bom para todos. Vivemos em uma poca em que se exacerbam as diferenas, em que os paradoxos se tornam cada vez mais contundentes e as possibilidades de vida e de morte atingem um potencial cotidiano avassalador. preciso que rapida-mente se assumam posturas em favor da vida, do prprio homem e de todo o planeta. De novo perguntamos: ser que a escola, depois de tantos clamores e de tantas lutas pela liberdade, est assumindo o seu papel na construo desta utopia? Especialmente nas escolas que formam os futuros profissionais da edu-cao, ser que as prticas pedaggicas so coerentes com este conceito de um novo homem e de uma nova sociedade?Antes de tudo, preciso acreditar na infinita possibilidade de trans-formao do homem e do mundo. Diante de tudo o que as circunstncias atu-Filosoia e Cidadania182 ais nos apresentam, est muito difcil manter os olhos iluminados. natural que, diante de tantos desencantos, sobrevenha a tristeza e a desconfiana. Entretanto, preciso construir dentro de si muito mais do que um simples otimismo. Ser otimista fcil quando o cu de brigadeiro e o voo tranquilo. Diante da tempestade, porm, o medo e a insegurana sero resultantes inevi-tveis. Mas exatamente a que preciso manter acesa a esperana, fundada na certeza tranquila de que, por mais grave e difcil que seja o momento pelo qual se estiver passando, a seu tempo, tudo se resolve. Para tudo existe um jeito. Todos os problemas tm soluo. Depois da escurido mais profunda, sempre surge a luz.Esta postura positiva e decisria frente vida e frente ao mundo precisa se manifestar em pensamentos, palavras e comportamentos. Revela--se, atravs dela, uma personalidade bem construda e bem fundada. Toda a construo da personalidade humana se inicia ainda no ventre materno. Mesmo na barriga da me, a criana est gravando tudo o que se passa com ela. como se fosse a memria de um computador, onde se registra uma quantidade infinita de informaes, ou como se fosse uma terra preparada para o plantio. da qualidade das informaes que resultaro os bons pro-gramas. De uma boa semente que se ter uma boa colheita. Assim, preciso que o contedo mental seja da melhor qualidade. preciso que nossa mente seja repleta de pensamentos de boa qualidade. Sempre que um pensamento negativo de qualquer natureza fracasso, doena, carncia, rancor, dio, maledicncia etc. tentarem se alojar em nossa mente, preciso substitu--los imediatamente por pensamentos construtivos, de vida, de sade, de su-cesso, de amor e de paz.Cada personalidade humana resultado do tipo de programas ou de semen-tes de que se nutre o seu mundo interior. Os pensamentos plasmam a rea-lidade do sujeito. Na medida em que se alojam e se enrazam na mente, se transformam em energia que impulsiona ou trava qualquer avano. Da que este contedo precisa ser o melhor possvel. Cada pessoa aquilo que pensa e, na sua vida, vai at onde acredita que pode ir. Este pensamento positivo Ao Educativa e CidadaniaTema | 04183 no se confunde com alienao, inconsequncia, simplismo ou fuga. preci-so se nutrir de uma energia mental positiva, no porque se nega ou se subes-tima a seriedade e a gravidade das situaes a serem enfrentadas, mas pela conscincia que se tem do tamanho do enfrentamento. porque os desafios precisam ser encarados que a estrutura interna precisa ser reforada. A conscincia crtica no pode ser confundida com uma postura ran-osa e desesperanada. A autntica criticidade19 histrica se expressa sempre numa postura positiva e esperanosa frente vida. Isso tudo precisa se revelar em palavras que reflitam um interior iluminado e rico. As palavras so carre-gadas de energia e tm poder de criar a realidade. Tudo o que se profere com emoo, acaba se concretizando. As palavras mobilizam as energias internas. Da que, onde quer que elas sejam reveladas, precisam sempre ser a expresso de energias que constroem. A resultante ser comportamentos que manifestam personalidades bem plantadas e que, onde estas se movimentarem, havero de plasmar um mundo bom para se viver.Uma pessoa bem centrada, harmonizada e feliz, estabelece relaes gratificantes, compensadoras e duradouras. Antes de tudo, ela entra em comu-nicao, compartilha e torna-se comum com outra pessoa inteira, sem defini-la ou congel-la com preconceitos rgidos e imutveis. Aproxima-se dela com a mente e o corao desarmados, movido pelo senso de descoberta, de escuta e de acolhimento. Se ficar longe demais, a partilha se inviabiliza. Se dela se apro-ximar demais, corre o risco de asfixi-la, invadindo perigosamente o espao da outra e nutrindo o seu ser mais s custas do seu ser menos. A verdadeira comu-nicao se d na tangncia ou interseco de espaos de vida e de caminhada. Contudo, jamais duas individualidades deixaro de partilhar de forma autno-ma e livre.Estas relaes humanizadoras havero de se nutrir de estmulos da me-lhor qualidade. Toda relao positiva e duradoura precisa ser alimentada para que se mantenha e aumente a frequncia da resposta desejada. Do contrrio, comportamentos que no so estimulados acabam se extinguindo. Nenhum com-portamento ou relao se mantm se no houver estmulo, se os estmulos forem 19 Criticidade um nvel de conscincia que leva o ser humano a ter uma real percepo de si e de seu mundo e atuar sobre ambos de forma simbiosinrgica.Filosoia e Cidadania184 reduzidos demais ou se eles forem somente negativos. Por exemplo, se determi-nada tarefa nunca valorizada, mas s notada quando no feita, a pessoa que a realiza no manter por muito tempo a sua execuo em nvel desejvel. Carecer de estmulos para isso. Os estmulos aversivos da cobrana, da crtica e da puni-o at podem produzir respostas positivas. Entretanto, seus efeitos sero limita-dos ao tempo em que estiverem sendo dados. Dificilmente sero internalizados e transformados em comportamentos positivos e permanentes. Entrementes, so estes estmulos negativos que predominam em nos-sas relaes e em nossa educao. Desde muito cedo, os comportamentos das crianas so estimulados por um grande no. As expresses que se repetem con-tnua e constantemente so: Voc no pode isso... Voc no pode aquilo! Desse jeito, voc nunca ser nada na vida!... E assim se sucedem e se enrazam na mente da criana expresses que a condicionam de uma forma profundamente negativa. O estudo (des)motivado pelo medo da nota baixa e de no ser aprovado no final do ano. Amam-se os pais por medo de perd-los e se sujeitam a eles por medo do castigo. As leis so obedecidas por medo das multas e da priso. As-sim se evidencia um baixo nvel de conscincia de um povo que s age adequa-damente pelo taco que o pune. Do contrrio, comporta-se de forma inconse-quente, imatura e irresponsvel. As relaes afetivas nascem e crescem regadas com uma super estimulao. Depois fenecem pela ausncia total de qualquer estmulo que as possa manter. Quando algum estmulo acionado, ser sempre para magoar e ferir. As relaes de trabalho se mantm pela cobrana, por con-troles aversivos e se nutrem dos estmulos negativos da competio fratricida e da explorao. assim que o homem moderno se depara com um mundo que muitas vezes o tritura e esmaga.Falamos em utopia como algo irrealizvel. Como ento falar em utopia da esperana? Esperar por um mundo melhor uma utopia? Todavia, h um outro significado para utopia que se aplica ao que estamos falando: a utopia algo que no existe ainda, mas que ser construdo. O mundo no teria evo-ludo no tivesse havido homens e mulheres que fizeram acontecer o possvel de imediato e acreditaram que o impossvel haveria apenas de demorar um Ao Educativa e CidadaniaTema | 04185 pouco mais. Assim, lanaram seu olhar para alm de seu tempo. Por vezes, foi necessrio ainda muito tempo, at mesmo sculos, para que seus sonhos se realizassem. Por isso, preciso acreditar. Porm, esse acreditar no uma mera passividade de quem espera imobilizado. Acreditar fazer acontecer, mesmo que geraes futuras venham a colher os frutos do que foi semeado. A dimenso humana nas relaes de vida exige a trilha da amorizao. Este caminho passa pela construo de uma conscincia cada vez mais clara e comprometida com o gesto que viabiliza um mundo solidrio e bom para to-dos. At quando haveremos de nos nutrir das vsceras de quem est ao nosso lado, acreditando que, com isso, estamos construindo nossa prpria felicidade? preciso que a mo que fere e que mata, comece a acariciar e a construir; que a palavra que ataca e machuca, estimule e incentive e que o gesto que exclui e impede a partilha, se transforme em sinal de acolhida e ternura. Que o nosso povo, um dia, no tenha mais fome e nem medo. Faz-lo assim ter que ser a nossa vida como educadores. S ento teremos um novo homem e uma nova sociedade.Voc encontrar todo o contedo no Ambiente Virtual de Aprendizagem, na forma de vdeos, podcast, nos objetos de aprendizagem, no frum de discus-so do tema, na busca de esclarecimento de dvidas atravs de e-mails, chat e do espao especial para tirar dvidas tcnicas e de contedo. JOHANN, J.R. Modificao do Comportamento e Auto-Realizao. 12.ed. So Paulo: Paulus, 2006.Filosoia e Cidadania186 O autor preconiza, como caminho de autorrealizao, a modificao dos comportamentos como ao individual e coletiva. Est ao alcance de cada ser humana dar incio ao processo de mudana para que a realizao, sob todos os pontos de vista, se concretize. Se existem inmeras causas externas que impedem que uma quantidade imensa de seres humanos possa se realizar e ser feliz, na contrapartida, h posturas internas que podem ser modificadas para que eles no sejam submetidos de forma esmagadora em suas vidas. preciso descobrir os talentos que Deus deu a cada ser humano e buscar, de todas as maneiras, um jeito de multiplic-los. FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperana. 8. ed. Rio de Janeiro: Paz e Ter-ra, 2001.O educador Paulo Freire faz perpassar toda a sua obra pelo prisma da espe-rana: a esperana de que o mundo transformvel, a f incondicional na capacidade de cada ser humano se transformar em agente de sua prpria li-bertao e da de todos os que o rodeiam, a esperana fundada em homens e mulheres assumirem o seu compromisso tico na realizao de sonhos vi-veis, ou seja, na construo da utopia de um novo homem e de uma nova sociedade. O grande desafio que se impe a todos os habitantes do planeta a constru-o da utopia de um mundo bom para se viver e, sobretudo, um mundo onde caibam todos. Fala-se em desafio por causa dos paradoxos que se apresentam diante de nossos olhos: vivemos em um mundo com infinitas possibilidades e aspectos imensamente positivos, ao lado de contradies e ambiguidades assustadoras e que colocam em risco a prpria condio de vida de plane-ta e de tudo que nele habita. Porm, esse o nosso mundo, nem melhor e nem pior. Encar-lo de forma realista, positiva e enfrentadora a postura que expressa o exerccio da cidadania. Toda postura de terra arrasada em nada colabora para que tenhamos um mundo melhor. Ainda haver tempo Ao Educativa e CidadaniaTema | 04187 de transformar o que de inadequado existe e fazer acontecer a realidade de um mundo melhor. Para isso, todas as atividades humanas tero o seu sig-nificado e sua importncia, desde a simplicidade do labor, sofisticao da alta especializao dos cientistas e dos tcnicos. Essa recuperao da digni-dade da condio humana de todos os habitantes do planeta se coloca como o desafio tico fundamental. Ningum mais do que ningum pelo simples fato de exercer essa ou aquela atividade. Todas as atividades humanas so necessrias e importantes e assim precisam ser consideradas e valorizadas. O que far acontecer essa transformao um desabrochar de conscincia e se iniciar com quem se v na condio de inferioridade. preciso que cada ser humano seja ajudado a perceber a si prprio e ao seu mundo com os olhos da dignidade e da autoestima. Um ser humano que aprende a se ver como um sujeito de sua prpria histria e no como um objeto de menor valor, j ter condies de assumir uma postura positiva e decisria frente vida. Com relao ao mundo, durante muito tempo tudo representou mais dificuldades do que facilidades para os seres humanos. Com o avano da cincia e da tc-nica, tudo ficou melhor e mais confortvel. Todavia, a voracidade de produzir e consumir como valores absolutos, est estragando tudo o que nos cerca e os seres humanos naufragando sobre os prprios dejetos. Frear esse processo desmedido de acumulao e consumo, viver com mais simplicidade e com menos coisas, para voltar a ser mais como pessoa o exerccio da cidadania e a recuperao de um mundo mais humano. Um mundo que se globalizou, disseminou aspectos positivos e tambm generalizou muita destruio e mi-sria. Aprender a repartir, abrir espao para todos os habitantes do planeta e cuidar dele para que todos possamos sobreviver a tarefa tica imediata que se nos impe. o sentido de alteridade, a rejeio toda forma de violncia e a prtica da incluso que se constituem na responsabilidade tica urgente e inadivel. A utopia da esperana a certeza de que, se o que temos no nos agrada e no serve mais, haveremos de construir a realidade de que ne-cessitamos, comeando cada um consigo mesmo, cuidando de tudo e todos que nos cercam e compreendendo que no vivemos sozinhos nesse universo. Somos parte de uma obra criada e evoluda ao longo de tempos incomensur-veis e que se projeta para o infinito tanto do ponto de vista individual quanto do ponto de vista de tudo o que existe no universo. Filosoia e Cidadania188 04Paulo Freire afirma que preciso assumir uma postura positiva e deci-sria frente ao mundo. Como entender a possibilidade de ser positivo e enfrentador diante de uma realidade que nos apresenta tantos desafios, tantas diferenas e obstculos assustadores?______________________________________________________________________________________________________________________________________________________Em uma sociedade de desiguais, onde alguns se acham mais importantes do que os outros pela simples funo que executam, como garantir a ci-dadania daqueles que exercem um mundo de atividades absolutamente necessrias e indispensveis, denominadas de LABOR?______________________________________________________________________________________________________________________________________________________Vivemos em um mundo em que o grande desafio histrico e tico tambm se apresenta no mundo do trabalho: uma massa imensa de seres humanos no tem acesso ao trabalho e buscam sobreviver de forma marginal; outros tantos conseguem entrar no mercado de trabalho ironicamente chamado de mercado, quando o trabalho deveria ser um direito de todo ser humano enquanto outros ainda se submetem a qualquer atividade apenas para garantir ganhos financeiros ou por status. Quais so as exigncias que se impem para que o trabalho seja uma atividade humana plenamente reali-zadora e garantia da expresso da cidadania daqueles que o exercem?______________________________________________________________________________________________________________________________________________________Como compreender a afirmao de Hannah Arendt e tambm muitas ve-zes reafirmada por Paulo Freire de que o processo de humanizao depen-de da ao e da palavra? 020301Verifique no AVA as respostas do exerccio.189 ______________________________________________________________________________________________________________________________________________________5) Completar a sentena com a resposta correta: Entende-se por Cida-dania... algo que se refere aos habitantes das zonas urbanas e nada h que se relacione com Filosofia.um valor que se refere garantia dos privilgios dos detentores do po-der poltico de uma sociedade e a Filosofia concorre para esclarecer quais so essas vantagens a serem preservadas.um valor que se expressa na garantia dos direitos de todos os habi-tantes de uma sociedade e a exigncia do cumprimento dos deveres que concorrem para que haja uma condio de dignidade para todos os que compem esse grupo humano, sendo que a Filosofia, como refle-xo crtica, leva compreenso do que seja ser um cidado engajado e comprometido.o pensamento filosfico que aponte para a construo de um projeto poltico, como fundamento de uma sociedade justa e equitativa, cons-tituindo-se numa proposta utpica e, portanto, irrealizvel.algo que trata de questes exclusivamente que dizem respeito poltica partidria e, portanto, no h nenhuma relao com o conhecimento filosfico.6) Identifique e assinale a assertiva que apresenta os corretamente com-portamentos humanos que revelam a postura de um cidado:I. A competio, a ganncia e o individualismo.II. A livre iniciativa e a acumulao de riquezas somente para si.III. Somente a busca de vantagens e interesses particulares.IV. O sentido de alteridade, a solidariedade e a justia.0605aebcdVerifique no AVA as respostas do exerccio.Filosoia e Cidadania190 V. Um verdadeiro cidado um sujeito que consegue atingir o sucesso pessoal por fora de sua esperteza e oportunismo e que sabe tirar proveito de todas as oportunidades, j que os fins justificam qualquer meio para alcan-los. I e II.II e III.III e IV.IV e V.Somente a IV.Observando-se as diferentes atividades humanas, percebe-se quanto os que exercem o labor so desconsiderados e a cidadania lhes sonegada, reduzindo-os a seres sem voz, sem vez e sem rosto. Em que situaes des-critas abaixo comprova-se a herana da moral grega que afirmava que todo aquele que trabalhasse com as mos era indigno de ser chamado de um ser humano?Na atividade do mdico, com seu jaleco e sua postura de onipotncia, como quem o poderoso salvador de todos os males e que, por isso, pode cobrar altos valores por seus servios.Na postura de um professor universitrio, ostentando sua formao de mais alto nvel, apresentando para todos o seu ttulo de doutor, onis-ciente e bem remunerado.Nas atividades exercidas por indivduos altamente preparados, com titulao de nvel superior e de excepcional preparao tecnolgica e, consequentemente, muito bem pagos pelos seus trabalhos. Na postura de arrogncia e prepotncia de um poltico de alto escalo, que no se digna dirigir a palavra para qualquer simples mortal e, tam-pouco, escutar algum que se aproxime e que no seja de sua enverga-dura pessoal e social.Nos trabalhadores dos servios gerais em qualquer empresa, seja ela aaeebbccdd07Verifique no AVA as respostas do exerccio.191 uma fbrica ou uma universidade, para os quais ningum olha e tam-pouco confere a menor importncia. Seu servio s notado quando no feito ou quando mal feito. Quando est tudo arrumado, limpo e em seus devidos lugares, ningum se lembra de destacar e valorizar. A cidadania s pode ser exercida no mundo do trabalho quando algumas condies se somarem: um trabalho realizador, isto , poder fazer algo com que se identifica, gosta e expressa seu potencial e suas habilidades e onde haja o reconhecimento humano e financeiro, isto , a possibilida-de de garantir uma vida digna atravs do fruto do trabalho. Dificilmente essas condies se juntam e o trabalho passa a ser, na maioria das vezes e para a maioria das pessoas, um fardo pesado demais. Como falar em exerccio de cidadania nessas condies to penosas?O trabalho sempre foi e continuar sendo sempre um peso a ser car-regado como um castigo tanto quando no se consegue um trabalho digno, como quando preciso trabalhar de sol a sol. Portanto, no h exerccio de cidadania atravs do trabalho.Poder exercer um trabalho realizador e gratificante a preservao e o exerccio mximos da cidadania. preciso fazer com que, de prefern-cia, todos os seres humanos tenham acesso ao direito do trabalho. Que o trabalho deixe de ser um produto de mercado, mas uma realidade para todos os seres humanos que precisam construir a sua vida com dignidade. A est a construo da cidadania no mundo do trabalho.Ningum gosta de trabalhar. Todos preferem o fim de semana e o dia feriado. Portanto, trabalho s cansao, preocupao e insatisfao. No h cidadania no mundo do trabalho.H um dito popular que diz que o trabalho enobrece o homem. Nada mais equivocado. O trabalho embrutece e reduz os seres humanos a mquinas de produo. No ser atravs do trabalho que se construir a cidadania. Falar em cidadania nesse contexto de um mundo onde o trabalho aebcd08Verifique no AVA as respostas do exerccio.Filosoia e Cidadania192 um produto de mercado e um bom trabalho somente reservado para uma minoria privilegiada e bem preparada, absolutamente imposs-vel. Diante de tanta ganncia e prepotncia dos includos nas leis de mercado, jamais ser possvel esperar por um mundo mais justo e mais equitativo. preciso lembrar sempre que nossa grande meta a construo da uto-pia de um novo homem e de uma nova sociedade. A Filosofia que leva grande reflexo e formao de uma conscincia crtica que, por sua vez, fundamentam o exerccio da cidadania transformadora. Todavia, de onde viro os instrumentos que daro origem a essa grande utopia? Pensamos que, necessariamente, a educao ter que assumir o seu espao poltico nessa construo por que:Sero os educadores, profissionais que atuam num espao ambguo e que, historicamente, sempre se prestou para reproduzir situaes de controle e de dominao, havero de continuar atuando no sentido de perpetuar essa realidade.A educao sempre reproduziu e garantiu os interesses dos grupos privi-legiados. Como espelho a refletir e instrumento a reproduzir, impossvel esperar que ela se contraponha queles que a mantm e operacionalizam. a educao o espao, por excelncia, que forma as novas geraes. Por-tanto, preciso que ela e os profissionais que nela atuam, dem-se conta da ambiguidade do papel que exercem, e optem por transform-lo em ins-trumento de construo de um novo homem e de uma nova sociedade.A educao se constitui num espao neutro e que nada tem a ver com a construo da cidadania de um povo. Sua tarefa a de transmitir conhecimentos e, cumprindo com essa tarefa de forma excelente, o seu papel j estar perfeito de acordo com as necessidades de uma socieda-de mecanicista, individualista e excludente.Acreditar que a educao poder ser a grande fora social de mudana e de construo de um novo homem e de uma nova sociedade uma 09aebcdVerifique no AVA as respostas do exerccio.193 10iluso. As mudanas sociais no passam pela educao, mas apenas pelos aspectos econmicos e polticos.Em uma sociedade onde os mecanismos de ideologizao mantm uma massa passiva e inconsciente, a possibilidade de se garantir a formao da cidadania como condio de construo da utopia de um novo homem e de uma nova sociedade resulta de um processo educativo que forme ho-mens e mulheres lcidos, dinmicos, solidrios e comprometidos etica-mente com a construo desta utopia. De acordo com essa perspectiva histrica, so verdadeiras as seguintes afirmaes:I. Permitindo-se que as leis de mercado da oferta e da procura dirijam o rumo de uma sociedade para um equilbrio espontneo e natural.II. Compreendendo-se que a excluso de uma grande maioria da popula-o da participao de tudo muito mais uma questo de culpa e desin-teresse individual do que um processo resultante de uma mquina social.III. Os mecanismos de ideologizao atualmente so to poderosos, sutis e sedutores, que absolutamente impossvel preservar nem mesmo uma pequena parte da populao de seu processo de manipulao e de controle. IV. Pela ampla distribuio de programas de doao de alimentos e di-nheiro para famlias pobres.V. Pela promoo de uma sociedade mais justa e equitativa, especialmen-te, atravs do acesso educao que promova uma condio de cidadania, isto , a conscincia do compromisso e engajamento ticos de quem des-perta para a responsabilidade social individual e coletiva.I e II.II e IV.III e I.I e V.Somente a V.aebcdVerifique no AVA as respostas do exerccio.Filosoia e Cidadania194 A cidadania tem sua expresso mxima na ao humana plural e coletiva. O desenvolvimento de pessoas, convivendo com as diferenas e com um profundo sentido de alteridade, criar as condies para uma educao para a cidadania. Essa afirmao reitera a certeza de que:J existe um movimento em todas as partes do mundo no sentido de que possvel viver em paz e que as diferenas podem ser tomadas como fator de enriquecimento e de partilha. Portanto, esse profundo sentido de alteridade se manifesta como uma prtica educativa forma-dora de cidadania.O mundo das diferenas tem se acentuado demasiadamente. O resulta-do o avano da ferocidade humana e a disseminao de conflitos em todas as partes do planeta. Portanto, no h como esperar que a paz seja resultado de uma cidadania expressada pelos habitantes do planeta.No existe mais possibilidade de que tenhamos um mundo bom para todos; tampouco pela educao advir uma soluo para tanta destrui-o e tanta misria que existem no mundo.No existe mais nada que possa mudar os rumos da educao no sen-tido de que se transforme em formadora de cidadania. A educao que temos mascara, em discursos sobre alteridade e paz, seu verdadeiro e exclusivo objetivo de formadora de peas prontas para a engrenagem do mercado capitalista que nos governa. Acreditar na possibilidade de que, algum dia, a humanidade haver de amadurecer no sentido de uma relao marcada pela alteridade e pelo profundo respeito s diferenas, uma expectativa utpica e ingnua, isto , o entredevoramento sempre ser a lei da selva humana. Como se expressa uma postura filosfica e qual a sua importncia para a formao da cidadania?Uma postura filosfica se expressa pela capacidade de refletir critica-mente sobre toda a realidade circunstancial e que possa resultar em aaebcd1112Verifique no AVA as respostas do exerccio.195 compromisso e engajamento de um cidado consciente, dinmico e participativo;A formao da cidadania depende de uma educao formal que no contempla a Filosofia como disciplina em seu programa;Uma postura filosfica se expressa pela ingenuidade do entendimento da realidade e no tem nenhuma importncia para a formao da ci-dadania;A importncia da Filosofia para a formao de um cidado se resume apenas no discurso vazio com que intelectuais apresentam os valores que no so assumidos por ningum;A postura filosfica se manifesta atravs de um comportamento so-nhador e completamente desprovido de qualquer critrio reflexivo e racional. ebcdVerifique no AVA as respostas do exerccio.196 196 Filosoia e Cidadania196 Use a sua criatividade e registre aqui as ideias principais presentes no contedo estudado, buscando construir uma sntese pessoal sobre o tema.197 197 Filosoia e Cidadania198 RefernciasAHLERT, Alvori. 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