Feira nordestina de so cristvo

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    23-Jan-2017

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30 RIO Domingo, 27 de novembro de 2011O GLOBO.O GLOBO RIO PGINA 30 - Edio: 27/11/2011 - Impresso: 26/11/2011 03: 06 h AZUL MAGENTA AMARELO PRETOUma feira popular e que nasceu da saudadeCom a ajuda dos cordis, livro conta trajetria do tradicional ponto de encontro de nordestinos em So CristvoGenilson ArajoReproduoFOTO AREA doPavilho de SoCristvo, com suasquase 700 barracasazuis: sntese dahistria de migraonordestina; ao lado,a capa do livro deSylvia NemerMarcelo PiuRAIMUNDO SANTA Helena com alguns de seus folhetos publicados: ocordelista considerado o fundador da Feira de So CristvoMarcelo PiuMESTRE AZULO e sua inseparvel viola, na Feira de So Cristvo: ele o nico cordelista que ainda faz do espao palco para sua arteReproduo do livroNORDESTINOS CHEGAM ao Rio num pau de arara, em 1966: Campode So Cristvo era o destino final de retirantes, criadores da feiraLudmilla de Limaludmilla.lima@oglobo.com.br Um livreto de cordel poucopara contar a histria da Feirade So Cristvo. Em mais de 60anos, ela passou de ponto de en-contro de nordestinos que de-sembarcavam nos paus de araraa espao de cultura popular, co-mo vista hoje. O Campo deSo Cristvo/ palco de tradi-o/Dos primeiros nordesti-nos/Que deixaram seu tor-ro/Sua famlia querida/Vieramtentar a vida/Viajando de cami-nho, lembra o cordelista JosJoo dos Santos, conhecido co-mo Mestre Azulo, no folhetoFeira de So Cristvo. Azulo um dos cones do espao, as-sim como o tambm cordelistaRaimundo Santa Helena, consi-derado oficialmente o fundadorda feira. Os dois contriburampara amarrar definitivamente atrajetria desse lugar ao cordel.Por meio desses dois parai-banos e de outros cordelistas, ahistoriadora Sylvia Nemer, pro-fessora da Uerj, chegou ao livroFeira de So Cristvo - a his-tria de uma saudade (editoraCasa da Palavra), lanado sex-ta-feira no Centro Luiz Gonzagade Tradies Nordestinas, co-mo foi batizada a feira. Ela re-monta aos primrdios do pontode encontro, no incio da dca-da de 50, por meio da poesia.Em Feira de So Cristvo,Azulo diz que ela era o lugaronde os nordestinos se encon-travam aos domingos e mata-vam a saudade das delcias doNordeste. Era l que eles tam-bm recebiam notcias de pa-rentes, entregues por aquelesque ali desembarcavam. Alipassavam momentos/ De sau-dade e alegria/Comprando coi-sas do norte/Que um e outrotrazia/Fazendo reunio/Noponto de conduo/De quemvinha e de quem ia. Joo Gordo (consideradoo primeiro comerciante) rece-bia os nordestinos e mercado-res que vinham nos caminhese paus de arara. Comprava dosmotoristas e vendia para os nor-destinos aos domingos na feira afirma o poeta de Sap, com79 anos, que veio para o Rio em1949 num navio do Loyd, comogosta de frisar.Cordelista saiu da Parabapara matar LampioSylvia, uma carioca sem li-gao com o Nordeste, j ha-via mergulhado nesse mundopara sua tese de doutorado(sobre o cordel no cinema) edepois usou a literatura comorecorte para contar a histriada feira espcie de snteseda migrao de nordestinos.Durante suas pesquisas, des-cobriu uma peculiaridade doscordis produzidos no Rio pa-ra os do Nordeste ou mesmoos de So Paulo: Os corde-l i s tas em SoPaulo falam mui-to de poltica. Ocordel do Riotem interessegrande sobre aadaptao donordestino nacidade e sobreos hbitos dosc a r i o c a s . H uma quantidadegrande de folhe-tos sobre a feira,um lugar parae n c o n t r a r o samigos, comeras comidas doNordeste, ouvirhistrias e msi-ca explica ahistoriadora.A p r p r i acriao da feira est colada aocordel. A verso oficial que afeira nasceu em 2 de setembrode 1945, quando o poeta Rai-mundo Luiz do Nascimento, oSanta Helena, leu o seu primei-ro folheto, Fim da Guerra,para um grupo de soldados ede nordestinos que aguarda-vam ali a conduo para oNordeste. No ano de quaren-ta e cinco/Troquei relquias deguerra/(No Campo de SoCristvo)/Pelas lembranasda te r ra /Mar u jo fo ra domar/Matuto longe da Serra,diz Santa Helena no folhetoFeira Nordestina de So Cris-tvo. A a feira foi crescendo,mas comeou assim. Era eratudo no cho, na esteira, paravender jerimum, redes, cacha-a. O pessoal vinha atrado pe-la propaganda de rdio, chega-va atrs de emprego, e noachava nada. Como s tinha aempresa Andorinha para oNordeste (o ponto era em SoCristvo), eles ficavam ali diz o poeta, de 85 anos.No tem como conversarcom Azulo e Santa Helena sem,no meio, ver o papo virar ver-sos. Suas vidas, fatos histricos,personagens ilustres e a feira jforam temas de cordel. A pr-pria histria de Santa Helena,aposentado da Marinha, d umpico. Aos 11 anos, ele deixouSanta Helena, cidade na Parabafundada por seu pai, para vingara morte dele por Lampio. Atrsdo cangaceiro, rodou o serto efoi parar em Fortaleza, ondeconseguiu entrar para a Mari-nha. Lutou na Segunda GuerraMundial, mas nunca enfrentou ocangaceiro mais famoso da his-tria. Santa Helena conta que atragdia continuou mesmo d-cadas depois, quando, em 1991,sua me se matou ao saber queLampio seria homenageado.Santa Helena tem depoimen-to gravado no Museu da Ima-gem e do Som (MIS) e j publi-cou 588 cordis. O fato de serconsiderado oficialmente o fun-dador da feira lhe rendeu famae tambm inimizades. Hoje elemora em Rocha Miranda com amulher, dona Iara, onde cultivaum museu sobre o cordel. Ele,no entanto, no leva mais suapoesia a So Cristvo.Para Santa Helena, a feira foidescaracterizada quando pas-sou para o Pavilho de So Cris-tvo, em 2003, ano em que foiincorporada prefeitura, que jlegalizara o comrcio em 1982.At ento, ela era classificadacomo uma feira clandestina. Agora considero a feiraum shopping popular nordesti-no. O que vlido comenta ocordelista, que confessa tervontade de voltar feira. Vontade eu tenho, mas no pos-so. Eu cresci tanto que a minhafama incomodou. Sou famoso,mas no sou feliz com isso.O afastamento veio antes datransferncia para o Pavilho. Omotivo foi a polmica provoca-da por ele ao criticar o barulhodo espao, que ningum aguen-ta nem falar. Antes disso, ele jtinha feito uma campanha con-tra os frequentadores que fa-ziam pipi nas rvores do Cam-po de So Cristvo. A feira era um mictrio, fa-ziam pipi nas rvores. Escrevium poema, fiz milhares, plastifi-quei e coloquei nas rvores.Deus deu rvore sagrada/Sombra, fruto, flor, beleza/Nofaa coisa safada/ Nas pernas danatureza declama o poeta.Feira recebe 100 milvisitantes por semanaO barulho na Praa Catol doRocha, que deveria ser dos poe-tas, tambm incomoda Azulo.No Pavilho, nos ltimos anos,as msicas religiosas vindas dosboxes de CDs e o forr eltricodisputam espao com o repente,a poesia e o forr p de serra.Por isso o cordelista, o nicoque ainda usa a feira como palcopara sua arte, mantm sua bar-raquinha distante da pracinha.Ele no reclama da mudanapara o Pavilho, que teria mora-lizado a feira. Embora fale emtom crtico dos frequentadoresque no tm nada de nordesti-nos, ele parece curtir a misturade pblico no espao. Todos osdomingos, ele e a mulher, Mariadas Neves, deixam EngenheiroPedreira, na Baixada Fluminen-se, onde moram, para ir a SoCristvo divulgar o cordel, en-treter o pblico e fazer umascomprinhas, como queijo demanteiga, manteiga de garrafa efarinha de tapioca. uma feira sempre prefe-rida por todo mundo. De cario-ca a gacho e gente de fora. Apoesia de cordel se propaga.Tem cordel no Japo, na China diz o poeta, honrado porser o pioneiro na feira.Na defesa de sua literaturanas praas, ele diz que foi alvoda polcia e do rapa. Ele au-tor de 318 cordis e mantm omesmo flego para o repente. JSanta Helena prefere no seidentificar como repentista. Eleconta que a feria comeou aosdomingos porque no era dia derapa. Nas primeiras dcadas, afeira era considerada ilegal e foimotivo de muita polmica e dis-putas internas. Agora ela in-corporada estrutura da Secre-taria municipal de Turismo, temquase 700 boxes e recebe umamdia de 100 mil frequentado-res por fim de semana, como in-forma Marcus Lucenna, gestordo espao pela prefeitura. O GLOBO NA INTERNETVDEO Conhea mestre Azulo,o cordelista que o cone da feiraoglobo.com.br/rio