Entrevistas narrativas: um importante recurso em pesquisa ...

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  • 193Rev Esc Enferm USP2014; 48(Esp2):193-199www.ee.usp.br/reeusp/Entrevistas narrativas: um importante recurso em pesquisa qualitativaMuylaert CJ, Jnior VS, Gallo PR, Neto MLR, Reis AOA

    resumoObjetivo: Este trabalho consiste numa contribuio metodolgica em que se ex-plicitam e se enfatizam o alcance e a fecun-didade da entrevista narrativa no mbito da investigao de natureza qualitativa. Mtodo: Descrever o mtodo da narrati-va no mbito da investigao qualitativa. Resultados: O mtodo qualitativo de pes-quisa caracteriza-se por abordar questes relacionadas s singularidades do campo e dos indivduos pesquisados, sendo as entrevistas narrativas um mtodo potente para uso dos investigadores que dele se apropriam. Elas permitem o aprofunda-mento das investigaes, a combinao de histrias de vida com contextos sciohis-tricos, tornando possvel a compreenso dos sentidos que produzem mudanas nas crenas e valores que motivam e justificam as aes dos informantes. Concluso: As narrativas mostram-se muito teis em es-tudos de abordagem qualitativa, uma vez que a narratividade uma forma artesanal de comunicao cujo objetivo veicular contedos a partir dos quais as experin-cias subjetivas podem ser transmitidas.

    descritores Pesquisa qualitativaMetodologiaNarrao

    Entrevistas narrativas: um importante recurso em pesquisa qualitativa

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    AbstrActObjective: This methodological study ex-plain and emphasize the extent and fertility of the narrative interview in qualitative re-search. Method: To describe the narrative method within the qualitative research. Results: The qualitative research method is characterized by addressing issues related to the singularities of the field and indi-viduals investigated, being the narrative in-terviews a powerful method for use by re-searchers who aggregate it. They allow the deepening of research, the combination of life stories with socio-historical contexts, making the understanding of the senses that produce changes in the beliefs and values that motivate and justify the actions of possible informants. Conclusion: The use of narrative is an advantageous inves-tigative resource in qualitative research, in which the narrative is a traditional form of communication whose purpose is to serve content from which the subjective experi-ences can be transmitted.

    descriptors Qualitative ResearchMethodologyNarration

    resumen Objetivo: Este estudio es un aporte metodo-lgico en que se explica y destaca el alcance y la fertilidad de la entrevista narrativa en la investigacin cualitativa. Mtodo: Describir el mtodo de la narrativa en la investiga-cin cualitativa. Resultados: El mtodo de investigacin cualitativa se caracteriza por abordar las cuestiones relacionadas con las singularidades del campo y de las personas encuestadas, siendo las entrevistas narra-tivas un mtodo potente para uso de los investigadores que toman posesin de ella. Permiten que la profundizacin de la in-vestigacin, la combinacin de historias de vida con los contextos socio-histricos e la comprensin de los sentidos que producen cambios en las creencias y valores que mo-tivan y justifican las acciones de los posibles informantes. Conclusin: El uso de la narra-tiva se presenta un recurso de investigacin ventajosa en la investigacin cualitativa, la narrativa es una forma tradicional de comu-nicacin cuyo objetivo es servir contenido a partir de la que se pueden transmitir las experiencias subjetivas.

    descriptores Investigacin CualitativaMetodologaNarrac

    camila Junqueira muylaert1, Vicente sarubbi Jr.2, paulo rogrio Gallo3, modesto Leite rolim neto4, Alberto olavo Advincula reis5

    Narrative iNterviews: aN importaNt resource iN qualitative research

    eNtrevistas Narrativas: uN recurso importaNte eN la iNvestigaciN cualitativa

    1 psicloga. mestre em cincias. Departamento de sade materno-infantil da Faculdade de sade pblica da universidade de so paulo. so paulo, Brasil. 2 mestre em cincias. Departamento de sade materno-infantil da Faculdade de sade pblica da universidade de so paulo. so paulo, Brasil. 3 mdico. professor livre docente. Departamento de sade materno-infantil da Faculdade de sade pblica da universidade de so paulo. so paulo, Brasil. 4 psiclogo. professor livre docente. Departamento de medicina. universidade federal do cear. Fortaleza, Brasil. 5 psiclogo. professor livre docente. Departamento de sade materno-infantil da Faculdade de sade pblica da universidade de so paulo. so paulo, Brasil.

    recebido: 30/04/2014aprovado: 16/07/2014

    Doi: 10.1590/s0080-623420140000800027

    portugus / inglswww.scielo.br/reeusp

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    introduo

    as pessoas podem esquecer o que voc fez, o que voc disse, mas nunca esquecero o que voc as fez sentir. Fernando pessoa.

    As entrevistas narrativas se caracterizam como ferra-mentas no estruturadas, visando a profundidade, de as-pectos especficos, a partir das quais emergem histrias de vida, tanto do entrevistado como as entrecruzadas no contexto situacional. Esse tipo de entrevista visa encorajar e estimular o sujeito entrevistado (informante) a contar algo sobre algum acontecimento importante de sua vida e do contexto social(1). Tendo como base a ideia de recons-truir acontecimentos sociais a partir do ponto de vista dos informantes, a influncia do entrevistador nas narrativas deve ser mnima. Nesse caso, emprega-se a comunicao cotidiana de contar e escutar histrias. Jovchelovich e Bauer(1) ainda alertam para a importncia de o entrevis-tador utilizar apenas a linguagem que o informante em-prega sem impor qualquer outra forma, j que o mtodo pressupe que a perspectiva do informante se revela me-lhor ao usar sua linguagem espontnea. Essas asseres se assentam na compreenso de que a linguagem empre-gada constitui uma cosmoviso particular e, portanto, reveladora do que se quer investigar: o aqui e o agora da situao em curso.

    Desse modo, h nas entrevistas narrativas uma impor-tante caracterstica colaborativa, uma vez que a histria emerge a partir da interao, da troca, do dilogo entre entrevistador e participantes(2).

    Lukcs(3) discutindo a transformao da literatura ao longo do tempo discorre sobre o contraste entre os prin-cpios da estrutura da composio da narrativa e da des-crio: a narrativa implica uma posio de participao assumida pelo escritor em face da vida e dos problemas da sociedade. Nesse sentido, h engajamento entre os in-terlocutores. A descrio, por seu lado, se relaciona a uma posio de observao, de desvelamentos do fato per si, sem necessariamente, provocar interfaces entre o fato e os sujeitos a ele pertencente, na conjuntura do discurso.

    Nesse mesmo sentido, Benjamin(4) considera que no processo narrativo o sujeito encontra-se implicado na s-rie de eventos e acontecimento evocados, ao passo que na descrio ele, na condio de sujeito, se encontra apar-tado do relato que adquire uma dimenso objetiva, des-critiva e observacional.

    A transformao da literatura, que permite contrastar narrativa e descrio, relaciona-se ao modelo social de cada poca. Os estilos se alteram de acordo com neces-sidades histrico-sociais, sendo um produto da evoluo social. Isto no significa que o novo seja melhor que o an-tigo. A tendncia a observar e descrever implica a perda da significao artstica das coisas, rebaixando os homens ao nvel das coisas inanimadas, chegando a ser inumano.

    A descrio caracteriza uma tendncia literria da segun-da metade do sculo XIX e acompanha o caminho do capi-talismo, sendo seu resduo. Gradativamente, a descrio elimina a troca entre a prxis e a vida interior, caracters-ticas da narrativa.

    A superficialidade caracterstica da descrio que no desperta interesses mais profundos(3).

    O excesso de explicaes sobre as coisas do mundo, contrape a narrativa informao. A narrativa uma for-ma artesanal de comunicar, sem a inteno de transmitir informaes, mas contedos a partir dos quais as expe-rincias possam ser transmitidas(4). Dito isto, Benjamin(4) tinha como conceito central de sua teoria a experincia e como expresso delas a narrativa que para ele seria a for-ma de comunicao mais adequada ao ser humano.

    Nesse sentido: ``Enriquecido pela trama das narrati-vas, o estilo dos textos produzidos torna-se mais fluente e mais prximo da literatura, mas, sobretudo, nos ajuda a refletir sobre questes que dizem respeito a todos, nesses difceis e complexos tempos em que vivemos(5).

    Dessa forma, nas narrativas o autor no informa sobre sua experincia, mas conta sobre ela, tendo com isso a opor-tunidade de pensar algo que ainda no havia pensado(6).

    A narrativa, portanto, pode suscitar nos ouvintes diver-sos estados emocionais, tem a caracterstica de sensibili-zar e fazer o ouvinte assimilar as experincias de acordo com as suas prprias, evitando explicaes e abrindo-se para diferentes possibilidades de interpretao. Interpre-tao no no sentido lgico de analisar de fora, como ob-servador neutro, mas interpretao que envolve a expe-rincia do pesquisador e do pesquisado no momento da entrevista e as experincias anteriores de ambos, trans-cendendo-se assim o papel tradicional destinado a cada um deles.

    Seguindo essa linha de raciocnio, as consideraes de Lukcs(3) e Benjamin(4), apontam e indicam uma opo me-todolgica de se utilizar a tcnica de entrevista narrativa quando trazem baila elementos tericos necessrios interpretao dos resultados obtidos.

    Tendo em vista que os processos macros so formados por aes individuais, a partir da tcnica de entrevistas nar-rativas pode-se evidenciar aspectos desconhecidos ou ne-bulosos da realidade social a partir de discursos individuais.

    Nesse sentido, a possibilidade de narrar o vivido ou pas-sar ao outro sua experincia de vida, torna a vivncia que finita, infinita. Graas a existncia da linguagem a narrativa pode se enraizar no outro. Sendo assim, a narrativa fun-damental para a construo da noo de coletivo(7).

    A forma oral de comunicar re-significa o tempo vivi-do, as coisas da vida, e concomitantemente a ela, emer-ge o passado histrico das pessoas a partir de suas pr-prias palavras(8). Assim uma das funes da entrevista

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    narrativa contribuir com a construo histrica da rea-lidade e a partir do relato de fatos do passado, promover o futuro, pois no passado h tambm o potencial de pro-jetar o futuro. Nessa tica, o recurso da narrativa coinci-de com a perspectiva de movimento, no sentido terico, pois atravs dela possvel conseguir novas variveis, questes e processos que podem conduzir a uma nova orientao da rea em estudo. Ou seja, a narratividade um recurso que visa investigar a intimidade dos entrevis-tados e possibilita grande riqueza de detalhes, em virtu-de disso, pode ser importante quando determinada rea de estudo encontra-se estagnada por haver se exaurido a busca por novas variveis sem conseguir, entretanto, avanar no conhecimento. Ressalta-se ainda que os re-latos orais so valorizados porque no so encontrados em documentos(9).

    o mtodo dA nArrAtiVA

    Nas entrevistas narrativas se considera que nossa me-mria seletiva, lembramos daquilo que podemos e al-guns eventos so esquecidos deliberadamente ou incons-cientemente. Nessa perspectiva, o importante o que a pessoa registrou de sua histria, o que experienciou, o que real para ela e no os fatos em si (passado versus histria).

    As narrativas, dessa forma, so consideradas represen-taes ou interpretaes do mundo e, portanto, no esto abertas a comprovao e no podem ser julgadas como verdadeiras ou falsas, pois expressam a verdade de um ponto de vista em determinado tempo, espao e contexto sciohistrico(1). No se tem acesso direto s experincias dos outros, se lida com representaes dessas experin-cias ao interpret-las a partir da interao estabelecida(8).

    Assim, o importante o que est acontecendo no momento da narrao, sendo que o tempo presente, passado e futuro so articulados, pois a pessoa pode projetar experincias e aes para o futuro e o passado pode ser ressignificado ao se recordarem e se narrarem experincias. As entrevistas narrativas so, pois, tcnicas para gerar histrias e, por isso, podem ser analisadas de diferentes formas aps a captao e a transcrio dos dados(10). Neste processo so envolvidas as caracters-ticas para-lingusticas (tom da voz, pausas, mudanas na entonao, silencio que pode ser transformado em narrativas no ouvidas, expresses entre outras), funda-mentais para se entender o no dito, pois no processo de anlise de narrativas explora-se no apenas o que dito, mas tambm como dito. Lembramos ainda que embora as entrevistas sejam a forma mais conhecida de coleta de dados, as histrias narrativas podem ser reuni-das a partir de diferentes formas como observao, do-cumentos, imagens e outras fontes(2).

    A tabela a seguir apresenta de forma estruturada o processo a obteno das entrevistas narrativas:

    Tabela 1 - Fases principais da entrevista narrativa.

    Fases da Entrevista Narrativa Regras para a entrevista

    Preparao

    Explorao do campo.Formulao de questes exmanentes.

    Iniciao

    Formulao do tpico inicial para narrao.Emprego de auxlios visuais (opcional).

    Narrao central

    No interromper.Somente encorajamento no verbal ouparalingstico para continuar aNarrao.Esperar para sinais de finalizao(coda).

    Fase de perguntas

    Somente Que aconteceu ento?.No dar opinies ou fazer perguntassobre atitudes.No discutir sobre contradies.No fazer perguntas do tipo por qu?.Ir de perguntas exmanentes paraImanentes.

    Fala conclusiva Parar de gravar.So permitidas perguntas do tipo por qu?Fazer anotaes imediatamente depois da entrevista.

    Fonte: Jovchelovich e Bauer (2002)

    As questes exmanentes referem-se s questes da pesquisa ou de interesse do pesquisador que surgem a partir da sua aproximao com o tema do estudo, ao ela-borar a reviso de literatura e aprofundamento no tema a ser pesquisado (explorao do campo). Essas questes de-vem ser transformadas em imanentes, sendo essa tarefa crucial no processo de investigao, que deve ao mesmo tempo ancorar questes exmanentes na narrao, sempre utilizando a linguagem do informante. As questes ima-nentes so temas e tpicos trazidos pelo informante, elas podem ou no coincidir com as questes exmanentes.

    importante mencionar que inicialmente o informan-te deve ser avisado sobre o contexto da investigao e so-bre os procedimentos da entrevista narrativa. Ento, o en-trevistador expe o tpico central que tem a funo de ser disparador da narrao, os critrios de elaborao desse tpico deve seguir as seguintes orientaes(1):

    1. Necessita fazer parte da experincia do informan-te, para garantir o seu interesse e uma narrao rica em detalhes.

    2. Deve ser de significncia pessoal e social, ou co-munitria.

    3. O interesse e o investimento do informante no tpico no devem ser mencionados, para evitar que se tomem posies ou se assumam papis j desde o incio.

    4. Deve ser suficientemente amplo para permitir ao informante desenvolver uma histria longa que, a partir de situaes iniciais, passando por aconte-cimentos passados, leve situao atual.

    5. Evitar formulaes indexadas, ou seja, no referir

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    datas, nomes ou lugares, os quais devem ser trazi-dos somente pelo informante, como parte de sua estrutura relevante.

    Portanto, a conduta do entrevistador fundamental no resultado das narrativas e se houver mais de um entre-vistador na mesma pesquisa pode gerar problemas, j que o mtodo leva em considerao a interao entre pesqui-sador e informante. Caso haja mais de um entrevistador deve haver constante dilogo entre os pesquisadores, pa-ra alinhar os possveis problemas e para que haja trocas que podem enriquecer a pesquisa, uma vez que cada eta-pa preparada coletivamente(5).

    importante, ainda, que o pesquisador acolha bem o informante e tenha uma escuta comprometida que permite obter pistas para captar a senha que o portal de acesso ao informante. Assim, para obter bons resul-tados o pesquisador deve ter uma grande capacidade de interao com o outro, uma disponibilidade psicol-gica para ouvir e habilidades de escrever as experin-cias analisadas(5).

    Outro fator relevante a ser observado o tamanho da narrativa, por revelar aspectos que devem ser analisados a cada caso, pode ser maior ou menor a depender do pes-quisador, do informante ou do contexto social.

    As narrativas combinam histrias de vida a contextos sciohistricos, ao mesmo tempo que as narrativas re-velam experincias individuais e podem lanar luz sobre as identidades dos indivduos e as imagens que eles tm de si mesmo(2), so tambm constitutivas de fenmenos sciohistricos especficos nos quais as biografias se en-razam. As narraes so mais propensas a reproduzir es-truturas que orientam as aes dos indivduos que outros mtodos que utilizam entrevistas. Dessa maneira, o ob-jetivo das entrevistas narrativas no apenas reconstruir a histria de vida do informante, mas compreender os contextos em que essas biografias foram construdas e os fatores que produzem mudanas e motivam as aes dos informantes(1).

    A interpretao de narrativas ainda representa um desafio aos pesquisadores que podem seguir diferentes tcnicas ou mtodos. Ao mesmo tempo em que o dom-nio de tcnicas especficas exigido, no h inteno de esgotar as possibilidades de anlise, mas sim de realizar uma anlise no sentido de abrir os sentidos(5).

    Shutze(1), delineia uma forma de anlise da entrevista narrativa bastante didtica:

    1. Aps a transcrio separa-se o material indexado do no indexado:

    O primeiro corresponde ao contedo racional, cientfico, concreto de quem faz o que, quando, onde e porque, ou seja, ordenado (consequen-temente de ordem consensual, coletiva)

    O segundo, o material no indexado vai alm dos acontecimentos e expressam valores, juzos, refe-re-se sabedoria de vida e, portanto, subjetivo.

    2. Na etapa seguinte, utilizando o contedo indexa-do, ordenam-se os acontecimentos para cada in-divduo o que denominado de trajetrias.

    3. O prximo passo consiste em investigar as dimen-ses no indexadas do texto.

    4. Em seguida, agrupam-se e comparam-se as traje-trias individuais.

    5. O ltimo passo comparar e estabelecer seme-lhanas existentes entre os casos individuais permi-tindo assim a identificao de trajetrias coletivas.

    Para analisar o material recomenda-se reduzir o texto gradativamente, operando-se com condensao de sen-tido e generalizao, divide-se o contedo em trs colu-nas, na primeira fica a transcrio, na segunda coluna a primeira reduo e na terceira apenas as palavras-chave. Ento, desenvolvem-se categorias, primeiramente para cada uma das entrevistas narrativas, posteriormente so ordenadas em um sistema coerente para todas as entre-vistas realizadas na pesquisa, sendo o produto final a in-terpretao conjunta dos aspectos relevantes tanto aos informantes como ao pesquisador.

    Para uma anlise mais aprofundada dos dados deve-mos fazer a seguinte pergunta proposta por Erving Goff-man: o que est acontecendo aqui e agora? Essa pergunta aponta os indicadores do contexto situacional (aqui) e o momento da interao em curso (agora). Os enquadres e as pistas contextuais podem nos auxiliar nesse processo, os enquadres constituem a forma como construmos e si-nalizamos o contexto da situao em curso e as pistas de contextualizao so muito importantes na sinalizao dos enquadres. Essas pistas nos remetem tanto para tra-os do contexto local, situacional, como para o contexto macro, acionando informaes de natureza institucional, cultural e social(11).

    Ainda, para o estabelecimento das categorias e as consequentes categorizaes so usados tanto o proce-dimento de codificao baseado em dados como o de codificao baseado em conceitos. A leitura prvia da li-teratura disponvel que se debrua sobre esse tema bem como o foco de interesse de investigao proporcionou a definio prvia de algumas categorias. Por outro lado, com o material obtido em campo pode-se construir novas categorias.

    Devemos, portanto, retirar dos dados o que de fato eles significam, no impondo uma interpretao com base em teorias preexistentes. A maior parte dos pesquisado-res se movimenta entre os ditos e os no ditos do discurso circulante, favorecendo uma anlise mais enquadrada do contexto narrado(12).

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    A nArrAtiVA como instrumento de in-VestiGAo em pesquisA quALitAtiVA

    Minayo(13) se refere ao verbo compreender como a principal ao em pesquisa qualitativa, em que questes como a singularidade do indivduo, sua experincia e vi-vncia no mbito de grupo e da coletividade ao qual per-tence, so fundamentais para contextualizar a realidade na qual est inserido. Ao buscar responder questes em um determinado contexto espao-temporal ou histrico--social, as pesquisas qualitativas no so generalizveis. Isso no significa que sejam pouco objetivas, pouco rigo-rosas ou sem credibilidade cientfica, mas sim que abor-dam e tratam os fenmenos de outra forma(14,15).

    Se por um lado a pesquisa qualitativa se preocupa em capturar um nvel de realidade que no pode ser mensu-rado quantitativamente, por outro, o pesquisador s po-der desenvolver uma postura crtica que o qualifique no aprofundamento da captura dos dados, se permanecer em uma busca ativa e atenta por novos interlocutores e observaes em campo, com o objetivo de articular e en-riquecer as informaes coletadas, uma vez que o objeto da investigao sempre um objeto construdo(13,14,16).

    Schraiber(17) afirma que a narrativa a objetivao do pensamento, dado que o pensamento externalizado apreendido em sua forma de relato oral. As narrativas assim, segundo a autora, so ferramentas bastante apro-priadas para o estudo qualitativo em que se objetiva in-vestigar representaes da realidade do entrevistado. A partir dessas representaes pode-se captar o contexto em que esse informante est inserido.

    Nessa perspectiva, as narrativas preconizam em seu instrumento de coleta a questo gerativa(18). Esta forma de abordar o sujeito da pesquisa sugere capturar a fala a par-tir de um posicionamento bastante diferenciado da entre-vista semidirigida que utilizam de roteiro semiestruturado com perguntas definidas ao qual se deseja circunscrever um dado objeto a ser investigado(14,18,19).

    O uso do roteiro semiestruturado, desde que pr-tes-tado e tendo o pesquisador prvio entendimento dos ob-jetivos de cada pergunta, permite que a entrevista flua pe-la ordem do discurso do entrevistado, possibilitando que o entrevistador lance mo de seguir um roteiro estrutura-do que, em geral, quebra a naturalidade e cria imposies restritivas tanto ao pesquisador como ao prprio sujeito da pesquisa. Ainda assim, a diretividade de cada pergunta aponta para um foco, o que limita o sujeito a responder dentro de um campo associativo bastante definido e pre-viamente delimitado pelo prprio pesquisador(20).

    mister salientar, que nas narrativas a no diretividade prope a apreenso dos significados em que o sujeito fala e, ao construir seu prprio discurso em narrativas, possa repensar os prprios acontecimentos por ele enunciados. As interferncias com perguntas pontuais para eventuais

    esclarecimentos, mais direcionadas ao foco do contedo pesquisado, so realizadas aps o trmino da gravao. Isto porque a captura em profundidade exige do entrevistador um aprender a ouvir tanto as falas quanto as pausas, siln-cios, ritmos e o prprio cenrio que vai se configurando no decorrer de uma histria que ali contada (18,21).

    A construo da intimidade entre o entrevistador e entrevistado permite ao pesquisador desprender-se do papel de controlar o discurso do participante, se est ade-quado ou no ao material que o pesquisador almeja ob-ter(10). Ao propor que o entrevistado discorra livremente a partir de uma questo aberta, a investigao possibilita o no condicionamento das respostas, o que propicia para o sujeito da pesquisa a construo gradativa de uma histria com tendncias prprias, em que os contedos implcitos e os no ditos, possam emergir com maior naturalidade e comprometimento com a realidade cotidiana (21,22,23).

    A riqueza do mtodo das narrativas prope ainda um desafio ao pesquisador: o de se tornar parte do processo, em que ouvir em profundidade o que emerge dos partici-pantes implicados em suas prprias histrias, admite que seja atravessado pela singularidade da trama de significa-es que criada por cada sujeito (18,22).

    Assim, as entrevistas narrativas so mais apropriadas para captar histrias detalhadas, experincias de vida de um sujeito ou de poucos sujeitos. Deve-se passar um tem-po considervel com cada entrevistado e captar informa-es por meio de diferentes tipos de fontes, que podem ser de origem pessoal, familiar ou social. Alguns exemplos so cartas, fotografias, documentos, correspondncias, dirios, entre outros. O pesquisador deve tambm estar atento a contextualizar pessoalmente, culturalmente e historicamente o sujeito de pesquisa, bem como reesto-riar os relatos e outras informaes obtidas de forma que se construa algum tipo de estrutura para posteriormente inserir a histria em uma sequncia cronolgica(2).

    Por sua fecundidade, as narrativas podem potencial-mente capturar circunstncias nas quais o pesquisador al-meja investigar mediaes entre experincia e linguagem, estrutura e eventos, ou ainda situaes da coletividade envolvendo memria e aes polticas. As narrativas so uma forma dos seres humanos experienciarem o mundo, indo alm da simples descrio de suas vidas, pois ao re-pensarem suas histrias as que contam e ouvem refle-tem quem so reconstruindo continuamente significaes acerca de si(18,24).

    Portanto, o pesquisador colabora com o entrevistado e o envolve na pesquisa, de modo que ambos saem modi-ficados desse encontro(2). Nesse sentido, Clandinin e Con-nelly compreendem a narrativa como forma de entender a experincia, sendo a experincia o fundamental a ser captado nas pesquisas.

    Por fim, a pesquisa narrativa amplia a conexo do pes-quisador com o campo, seu contexto e tessitura, ao pos-

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    sibilitar que a tenso do enigma de pesquisa (o problema em questo) no se perca, uma vez que o material coleta-do oferece rica consistncia de experincias e significados - pela escuta prolongada e pela noo da importncia dos eventos que o encadeamento das narrativas permite cap-turar, e no precipita no pesquisador a busca por recons-tituir vivncias e atribuies dos entrevistados pela anco-ragem de referenciais tericos que pela prpria empiria captada no campo(23).

    concLuses

    O mtodo qualitativo de pesquisa caracteriza-se por abordar questes relacionadas s singularidades que so prprias do campo e dos indivduos pesquisados. O estu-do qualitativo por meio das narrativas permite capturar as tenses do campo, de maneira que as ressonncias e dissonncias de sentidos que emergem pelas falas, sejam problematizadas a partir do encadeamento das falas que

    constitui a trama em que relatos biogrficos e fatos viven-ciados se entrelaam. As narrativas permitem ir alm da transmisso de informaes ou contedo, fazendo com que a experincia seja revelada, o que envolve aspectos funda-mentais para compreenso tanto do sujeito entrevistado individualmente, como do contexto em que est inserido.

    Ao romper com a tradicional forma de entrevistas ba-seadas em perguntas e respostas, o mtodo das narrati-vas revela-se um importante instrumento para se realizar investigaes qualitativas, dispondo para os pesquisado-res dados capazes de produzir conhecimento cientfico compromissado com a apreenso fidedigna dos relatos e a originalidade dos dados apresentados, uma vez que per-mitem no aprofundamento das investigaes, combinar histrias de vida a contextos sciohistricos, tornando possvel a compreenso dos sentidos que produzem mu-danas nas crenas e valores que motivam (ou justificam) as aes dos informantes.

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    correspondncia: camila Junqueira muylaertsecretaria do Departamento materno-infantilav. Dr. arnaldo, 715 - consolaocep 05415-010 so paulo, sp, Brasilcamilajmuylaert@gmail.com

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