Entrevista com Luis Fernando Verssimo

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    07-Jan-2017

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  • 15Cardernos de Letras da UFF Dossi: Literatura e humor, n 37, p. 15-18, 2 sem. 2008

    entreViStA com LuiS FernAndo VerSSimo

    Por Fernando Afonso de Almeida

    Luis Fernando Verssimo nasceu em 26 de setembro 1936, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Jornalista, iniciou sua carreira no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, em fins de 1966, onde comeou como copydesk. A partir de 1969, passou a escrever matria assinada, quando substituiu a coluna do Jocky-man, no Zero Hora. O sucesso de sua coluna garantiu o lanamento, naquele ano, do livro A Grande Mulher Nua, uma coletnea de seus textos. Escritor prolfero, so de sua autoria, dentre outros, O Popular, A Grande Mulher Nua, Amor Brasileiro, publicados pela Jos Olympio Editora; As Cobras e Outros Bichos, Pega pra Kapput!, Ed Mort em Procurando o Silva, Ed Mort em Disneyworld Blues, Ed Mort em Com a Mo no Milho, Ed Mort em A Conexo Nazista, Ed Mort em O Seqestro do Zagueiro Central, Ed Mort e Outras Histrias, O Jardim do Diabo, Pai no Entende Nada, Peas ntimas, O Santinho, Zoeira , Sexo na Cabea, O Gigol das Palavras, O Analista de Bag, A Mo Do Freud, Orgias, As Aventuras da Famlia Brasil, O Analista de Bag,O Analista de Bag em Quadrinhos, Outras do Analista de Bag, A Velhi-nha de Taubat, A Mulher do Silva, O Marido do Doutor Pompeu, publicados pela L&PM Editores, e A Mesa Voadora, pela Editora Globo e Traando Paris, pela Artes e Ofcios. Possui tambm textos de fico e crnicas publicadas nas revistas Playboy, Cludia, Domingo (do Jornal do Brasil), Veja, e nos jornais Zero Hora, Folha de So Paulo, Jornal do Brasil e, a partir de junho de 2.000, no jornal O Globo. Por ser um dos autores mais representativos do humor em nossos dias, foi convidado para esta entrevista de abertura da seo Dossi deste nmero dos Cadernos de Letras cuja temtica LETRAS E HUMOR.

    1) O convite para a entrevista de abertura dos Cadernos de Letras da UFF dedicado ao humor e ironia o coloca merecidamente como um dos autores mais representativos do humor em nossos dias. Est difcil ou mais fcil fazer humor no Brasil de hoje? Voc acha que o brasileiro um povo que tem senso de humor?

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    Entrevista Luis Fernando Verssimo

    O brasileiro tem muito senso de humor e eu acho que isso no depende muito da poca ou das circunstncias, se bem que obviamente difcil manter o bom humor em situaes de crise social. Mas como vivemos numa crise social mais ou menos crnica, acabamos nos adaptando, e adaptando o nosso humor.

    2) Certamente por ressaltar o erro e o defeito, a comdia foi tida, durante muito tempo, como um gnero menor, sobretudo se comparada trag-dia. Por que ser que, durante tanto tempo, dignidade e humor no for-mavam um bom par? Seria a conscincia cmica uma realidade dos novos tempos?

    Apesar de no saber bem o que quer dizer ps-moderno acho que o uso do humor com um propsito mais elevado, ou mais srio, uma caracterstica ps-moderna. A experincia moderna a do absurdo e nada para tratar o absurdo como o humor, que a arte do non-sense. O humor pode ser o ps-absurdo, ou o absurdo como pardia.

    3) Vrios pensadores contemporneos tentaram definir os fenmenos rela-cionados com o riso, como Freud, Bergson, Bakhtin, entre outros, trazen-do reflexes por vezes muito genricas, por vezes muito parciais. Qual o papel do humor na sociedade?

    No sei se o humor tem um papel na sociedade. Acho que ele existe acima de tudo para movimentar aqueles msculos que a gente usa para rir, que de outra forma s seriam usados para chorar, um desperdcio.

    4) Nos dias de hoje, ao se abrir o jornal em busca de um espetculo, verifica-se que h uma verdadeira exploso do gnero comdia. O que tem o hu-mor de to fascinante para a nossa poca?

    H mais maneiras de ser criativo, se bem que nem sempre ser conseqente ou importante, fazendo comdia do que fazendo drama. O humor depende muito, entre outras coisas, da surpresa, enquanto o drama depende mais de uma empatia que a surpresa at atrapalharia. Ser isso? Enfim, por a.

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    5) Das diferentes vertentes existentes atualmente, qual o tipo de humor que voc prefere enquanto leitor/espectador/ouvinte?

    Mais o humor falado do que o humor fsico e mais o sutil do que o caricato, se bem que o escorrego na casca de banana continue funcionando. Acho que no se deve desprezar nenhum tipo de humor, mesmo o chamado popu-lar, que nem sempre to fcil quanto parece. Mas gosto do humor que me surpreenda pela sacada, pela originalidade, e no pelo esperado.

    6) H cenas humorsticas que ridicularizam certos grupos (judeus, negros, homossexuais, louras...) e que so consideradas cenas politicamente in-corretas. Pode-se, a partir da, acusar o humor de ser reacionrio, precon-ceituoso? Existiria um limite entre o correto e o incorreto? O riso pode incursionar por todas as regies do territrio humano?

    O humor estereotipado uma coisa que est acabando, felizmente. A gente ironi-za o politicamente correto mas o fato que no se v mais tantos esteretipos an-tigos como o negro careteiro, a bicha louca, o judeu da prestao, etc. Agora, o humor segue os preconceitos de uma sociedade e seu alvo, ou o seu sujeito, sempre o diferente, o que foge do normal . E a tentao do duplo sentido, da analogia sexual principalmente, forte demais para que se abandone todos os clichs.

    7) Observa-se atualmente uma presena bastante freqente de textos hu-morsticos (charges, tirinhas, crnicas) em livros didticos e provas de exames vestibulares. Voc acredita que o humor possa ser um incentivo para a leitura e a interpretao de textos?

    O humor uma forma de tornar o texto ou a lio mais atraentes. Nesse sentido, uma grande ajuda.

    8) Teria o humor uma relao com o avesso das coisas? Se assim for, verda-de que quem se prope a fazer humor est exposto a um risco maior?

    No sei se entendi a pergunta. Um risco maior de represlias? No sei. A gente est sempre exposto a no entenderem a piada.

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    9) Fazer humor se aprende na escola, como ler e escrever?

    Se aprende lendo e vendo o que os outros fazem, mas isto tambm pode vir num contexto acadmico. Existem tcnicas transmissveis de redao e inter-pretao de humor. No conheo nenhum exemplo de algum que tenha se formado em humor, mas as aulas existem.

    10) Durante uma conversa, ouvi algum que parodiava um conhecido provr-bio dizer: Quem ri de si prprio ri melhor. Essa formulao faz sentido para voc?

    Acho esse provrbio melhor do que aquele, preconceituoso, que diz que quem ri por ltimo geralmente surfista. Concordo, rir de si prprio muito saudvel.