S UMA PIADA Uma breve anlise sobre o stand-up ... ? 1. Consideraes em ... do stand-up brasileiro

  • Published on
    26-Sep-2018

  • View
    213

  • Download
    1

Transcript

  • Cristiane Santana Mathias

    S UMA PIADA Uma breve anlise sobre o stand-up brasileiro e o discurso preconceituoso enrustido no humor

    CELACC/ECA-USP 2015

  • Cristiane Santana Mathias

    S UMA PIADA Uma breve anlise sobre o stand-up brasileiro e o discurso preconceituoso enrustido no humor

    Trabalho de concluso de curso de ps-graduao em Gesto de Projetos Culturais e Organizao de Eventos, produzido sob a orientao do Prof. Roberto Coelho Barreiro Filho.

    CELACC/ECA-USP

  • Agradeo a meus pais por todo apoio e

    incentivo. A meu companheiro Marcondes

    Pereira pelo amor, compreenso e apoio.

    Ao meu querido amigo Guto Mardegan por

    acreditar em meu potencial, por todo

    esforo e empenho em me propiciar

    reflexes a conhecimentos to complexos

    e valiosos. A meu amigo Andr Moreira de

    Oliveira, pela pacincia, pelos conselhos,

    questionamentos e conceitos acerca deste

    tema que me foram teis. Ao Centro de

    Pesquisa e Formao SESC-SP pelo

    convite para participar do ciclo Humor,

    sublimao e alteridade, no qual as

    abordagens dos temas nesse encontro

    foram to significativas para composio

    deste trabalho. A meu orientador Roberto

    Coelho pelos apontamentos,

    direcionamentos, pelo riso, pelo bom

    humor e pela disposio para com o meu

    tema.

  • Nada descreve melhor o riso dos homens

    do que aquilo que eles acham ridculo. JOHANN WOLFGANG VON GOETHE

  • RESUMO

    Uma das singularidades humanas o riso que, por sua vez ainda desperta interesse nas demais reas do conhecimento, que no se limitem ao campo antropolgico. Este artigo tem como objetivo discutir um nicho do fenmeno humorstico, o da comdia stand-up, e analisar se e como por meio de seu discurso, este dissemina e/ou potencializa preconceitos e esteretipos.

    Palavras- chave: Humor, Riso, Preconceito, Stand-up, Discurso

  • ABSTRACT

    A human uniqueness is the laughter which in turn still arouses interest

    in other areas of knowledge that go beyond the anthropological field. This article

    aims to discuss a niche of the humorous phenomenon, the stand-up comedy,

    and analyze 'if' and 'how' through his speech, this spread and / or enhances

    prejudices and stereotypes.

    Keyboard: Humor, Laughter, Prejudice, Stand-up, Speech

  • RESUMN

    Una singularidad humana es la risa que a su vez an despierta inters

    en otras reas del conocimiento que van ms all del campo antropolgico.

    Este artculo tiene como objetivo discutir un nicho del fenmeno buen humor, la

    comedia stand-up, y analizar "si" y "cmo" a travs de su discurso, este

    diferencial y / o mejora prejuicios y estereotipos.

    Palabras clave: Humor, risa, Prejuicio, Stand-up, Discurso

  • SUMRIO

    INTRODUO ................................................................................................... 9

    1. Consideraes em torno do ato de rir ........................................................ 10

    1.1 Contextos para insero do HUMOR ....................................................................... 16

    2. O Humor e a comdia stand-up no Brasil ..................................................... 17

    3. Esteretipos, o Senso Comum e Preconceitos ............................................ 20

    3.1. A linguagem, a comunicao e o discurso no humor ............................................ 23

    4. O stand-up brasileiro sob a perspectiva fenomenolgica e semiolgica da

    cultura............................................................................................................... 25

    5. Consideraes finais .................................................................................... 27

    6. Notas ............................................................................................................ 28

    7. Referncias Bibliogrficas ............................................................................ 29

  • 9

    INTRODUO

    NO SOU NEGRO GRAAS A DEUS. Esta frase, registrada em uma

    fotografia de 22 de setembro de 2014, publicada na rede social Facebook, se

    encontra afixada em um cartaz cujo responsvel por t-la escrito o humorista

    brasileiro Danilo Gentili, esta tambm foi a motriz que impulsionou meu

    interesse sobre o universo cmico. Por certo, a fotografia no um signo de

    uma representao do stand-up comedy, mas o humorista ao lado de seu

    cartaz e com aparncia risonha, uma figura pblica e um dos representantes

    da comdia stand-up no Brasil. Um primrio e complexo questionamento

    antecedeu o desenvolvimento deste trabalho, onde tive por primeira reao, no

    que diz respeito a esta fotografia, indagar-me: Qual a graa disto?

    Posteriormente, outras questes, de igual modo complexas, comearam

    aparecer.

    Argumentar sobre a comdia stand-up e as questes que transpassam

    acerca do humorismo, da comicidade e do riso e da prpria cultura como diria

    Schopenhauer, ... pensar o que ningum ainda pensou sobre aquilo que todo

    mundo v.

    A constante das primeiras pginas deste artigo oferece uma exposio

    do sentido scio-histrico do riso, desde a Grcia Antiga com as peas

    profanas de Aristfanes, das quais no poupavam nem deuses e nem polticos,

    at o incio do Renascimento, onde o restabelecimento da concepo grega em

    que o homem o centro de todas as coisas torna a ser utilizada e as definies

    fisiolgicas sobre o riso tomam notoriedade.

    Os captulos posteriores abordaro as concepes humorsticas, a fim

    de percorrer para o eixo central qual se dispe este artigo: o stand-up, e a

    toda composio ao qual fazem parte, a comunicao, nisto subentendido por

    um lado, a linguagem e o discurso como veremos na percepo de Foucault e,

    a fenomenologia e a semitica da cultura, em Sodr.

  • 10

    1. Consideraes em torno do ato de rir

    Algumas consideraes necessariamente antecedem breve analise

    do stand-up brasileiro proposta a este artigo cientfico. Consideraes

    relevantes para compreenso do tema e desta frao, o stand-up, que

    intrnseca do fenmeno do humorstico.

    No que tange a conceituao do riso, Georges Minois, historiador

    francs, em sua narrao sobre a Histria do Riso e do Escrnio, estrutura a

    histria do riso em trs nterins distintos: o riso divino, o riso mefistoflico e o

    humano.

    O primeiro nterim compreende a concepo de riso antropomrfico

    dos deuses construda sob uma tica mitolgica. Esta, instaurada com

    contribuio de pensadores gregos, como o filsofo Prcluos, que resguarda a

    crena de que o riso o gesto que retifica superioridade dos deuses.

    Posteriormente, esta concepo encontrada nos escritos poticos de

    Homero, onde os homens almejam imitarem os deuses e os heris, com

    aspirao de honr-los. Tal afirmao observa-se no argumento de Dominique

    Arnould onde,

    os mitos [...] do uma cauo divina s reaes humanas, j que tais divindades, tais heris, especializam-se no riso ou nas lgrimas e que por imitao de suas emoes que os homens podem honr-los (ARNOULD apud Minois, 2003, p.25)

    O ato de rir, at ento, uma peculiaridade remetida aos deuses, como

    observado adiante, na seguinte citao:

    O riso, nos mitos gregos, s verdadeiramente alegre para os deuses. Nos homens, nunca alegria pura; a morte sempre est por perto, e essa intuio do nada, sobre o qual todos estamos suspensos, contamina o riso. (MINOIS, 2003, p 27)

    A concepo subjacente s citaes anteriores fixa o parecer,

    compreendido neste primeiro nterim, a noo do riso como intento permeado

    de significaes propenso as divindades. O riso na Antiga Grcia, cingido de

    acepes simblicas indissocivel da religio pertencente quela sociedade,

  • 11

    pois eram nos ritos dionisacos e nas demais festividades que esta prtica se

    manifestava.

    Ao final do sculo V a.C, mudanas de carter poltico, cultural e

    religioso marcam a Grcia. A tendncia domesticao e a noo de civilidade

    era presente no certame ao riso exacerbado. O riso obducto torna-se smbolo

    de progresso e cultura.

    A transio recorrente do perodo arcaico para o perodo clssico, em

    questo, ainda inconclusa, abarca um contexto vivenciado pela antiguidade

    Grega, onde o cenrio conflituoso marcado por disputas de territrios, invases

    externas, a instaurao de um sistema poltico no mais oligrquico, mas

    democrtico, pela fortificao da civilizao grega com a formao e a

    instituio de cidades-estados e a culminncia das artes, fazem com que o riso

    anedtico seja censurado. Nas consideraes de Minois sobre o humor poltico

    predominante do fim do perodo arcaico, ele diz:

    Sobretudo os polticos atenienses, considerando-se que representavam o povo, no admitem ser expostos ao ridculo. A democracia no tolera a derriso porque no se deve zombar do povo. (MINOIS, 2007, p.40)

    A defluncia de fatores scio-histricos e posteriormente as expanses

    territoriais gregas, compreendidas no final do sculo IV, do nfase a ascenso

    do perodo helenstico caracterizado pela difuso cultural grega, motivada por

    invases militares sob o comando de Alexandre, o Grande. No que concernem

    as conquistas creditadas a ele, destacam-se trs ocupaes significativas: na

    Grcia, na Sria e no Egito.

    A expedio militar para conquista da Prsia, outrora como objetivo

    principal, adiada. E, oportunamente uma modificao de rota ocasionada,

    levando a conquista de Tiro e subseqentemente conquista do Egito. No

    percurso, compreendido entre esses dois territrios encontramos Israel. A

    anunciao da chegada de Alexandre o Grande e seu exrcito em solo

    israelense, suscita antecipadamente o encontro com o Sumo Sacerdote, o qual

    temia que este destrusse Jerusalm, como descrito no Talmud (Yoma 69a) e

    no Livro da Antiguidade, escrito pelo historiador judeu Josephus (XI, 321-47).

  • 12

    Inesperada, a reao Alexandre foi a poupar a nao judaica, o que levou a

    pacfica dominao de Jerusalm.

    Como descreve o pesquisador Rabi Ken Spiro, o mistifrio da cultura

    grega com a cultura judaica produz um novo hbrido cultural, nomeado de

    helenismo, caracterizado pela assimilao dos costumes, das artes, da

    arquitetura e da filosofia no cotidiano judaico, e essa troca mtua perdura a um

    prazo muito mais longo que o imprio de Alexandre.

    Neste processo, de apresentar o contexto histrico e social que

    influencia a relao do riso em diferentes pocas, nos deparamos com o

    encontro de duas culturas distintas, porm com um denominador em comum, o

    riso. O riso judaico peculiar de sua cultura. Seus chistes e provrbios revelam

    uma conscincia da sociedade ao qual esto inseridos. Situaes religiosas

    prprias e ensinamentos aplicveis fazem parte do contexto para provocar seu

    riso.

    Em tempos remotos, do perodo arcaico, a Grcia j fazia distino dos

    tipos de riso subdividindo-os em glan o riso simples e katageln o rir de

    caracterizado pela agressividade e zombaria.

    Segundo Jacques Le Goff, essa classificao do riso esta distante de

    ser uma exclusividade grega e, de igual forma, os judeus tambm dispuseram

    o riso de maneira dicotmica em skhaq caracterstico do riso prazenteiro e

    descomedido e Iag caracterizado pelo riso escarnecedor, este ltimo,

    estreitamente relacionado origem do nome de uma das principais

    personagens bblicas, Isaac, que significa riso.

    De acordo com Abro Slavutzky, em sua obra Humor coisa sria,

    afirma que o riso nas laudas do Antigo Testamento aparece por 29 vezes e

    das quais em 13 esto sob repreenso ou critica, logo 16 fazem parte de um

    contexto positivo, encontrados no livro dos Provrbios e nos Salmos.

    (SLAVUTSKY, 2014, p.188)

    O riso criticado, mas no censurado, de Sara em pocas imemorveis

    da anunciao da paternidade de Abro, intriga muitos estudiosos. A maneira

    que dada a interpretao da relao entre do Deus Judaico com o riso de

  • 13

    mseros mortais o que perpetua nas relaes cmicas da idade mdia, ainda

    sob censura social.

    O segundo nterim, caracterizado pelo riso mefistoflico, se apresenta

    com o advento da cultura judaico-crist. O riso no tem mais juno com o

    divino. E, sob esta perspectiva Minois insere o seguinte questionamento: Do

    que poderia rir um Ser todo-poderoso, perfeito, que se basta a si mesmo, sabe

    tudo, v tudo e pode tudo? (MINOIS, 2003, p.111). No enredo de sua obra, o

    autor, descreve sobre a criao divina com a ausncia do riso em todas as

    etapas e a insero o riso aps a decadncia do homem, induzido pelo Maligno

    ao pecado.

    A jocosidade somada conseqncia proporcionada pelo ato

    pecaminoso qual resultou na expulso do Homem do den, se encontra no

    seguinte trecho: a desforra do diabo, que revela ao homem que ele no

    nada, que no deve seu ser a si mesmo, que dependente e que no pode

    nada, que grotesco em um universo grotesco (MINOIS, 2003, p.112). A partir

    desta concepo, o riso passa se mostrar por todas as imperfeies humanas.

    Certamente, o que levou preeminncia crist na Idade Mdia no foi

    graa divina, mas uma imposio poltica conveniente ao reinado de

    Constantino I em Roma, no incio do sculo II, que fragilizada por no ter

    possuir tropas militares suficientes para combater os povos brbaros aderiu

    uma tolerncia para a nova religio que aflorava em seu domnio, a fim de us-

    la contra a decadncia do Imprio Romano. No entanto, s se estabelece como

    religio oficial, em Roma, no ano 380 d.C, prescrito pelo imperador Teodsio I.

    A ascenso do Cristianismo baniu o riso da porta de seus templos e

    contribuiu para demoniz-lo. Por volta do sculo IV d.C, at aproximados

    sculo VII d.C, a aparente inflexibilidade da Igreja, em relao ao riso, passa

    por modificaes. Os esforos contra o riso cessam e passam a investir nele

    dando-lhes novas roupagens, servindo em doses restritas s manifestaes

    populares.

    Com a institucionalizao da Igreja, sua organizao exigia parmetros

    de ordem e medidas de estandardizao de seus dogmas, o que corroborou

  • 14

    para a formulao dos primeiros conclios. Sob uma ressalva, ao interesse que

    permeia a temtica deste artigo, enfatizo o Conclio de Trento, em 1546, na

    Itlia.

    Na transcendncia da Idade das Trevas para as luzes do conhecimento

    propostas pelo Renascimento acontece este evento. A relevncia do Conclio

    de Trento para a histria do humor, da comicidade e do riso, reside no valor

    histrico, em que este inserido. A saber, os movimentos de contra-reforma,

    responsveis pela repudio catlico ao Cristianismo, delimitam padres

    estipulados por bispos e telogos, aos quais buscam intervir na unio da ordem

    eclesistica e, demonstram sua oposio aos abusos cometidos, at ento,

    pela Igreja. A morosidade em promulgar as decises tomadas pelo conclio fez

    com que o Cristianismo se alastrasse por uma significativa poro da Europa e

    conquistasse novos adeptos.

    Nisto, visando no perder mais fiis, a Igreja Catlica, a partir do

    Conclio de Trento, condescende s festas populares, que outrora pags, agora

    adquirem uma nova perspectiva e integra as comemoraes oficiais da Igreja,

    como o Carnaval. As referncias de culto a outras divindades so ofuscadas

    pela nova significao proveniente das decises religiosas crists, que exercia

    influncia sobre as camadas populares.

    ... O riso a fraqueza, a corrupo, a insipidez de nossa carne. o folguedo para o campons, a licena para o embriagado, mesmo a igreja em sua sabedoria concedeu o momento da festa, do carnaval, da feira, essa ejaculao diurna que descarrega os humores e retm outros desejos e de outras ambies... Mas desse modo o riso permanece coisa vil, defesa para os simples, mistrio dessacralizado para a plebe. (ECO, 2009, p.524)

    Na obra O nome da Rosa, o autor Umberto Eco apresenta uma

    releitura crtica do perodo feudal. Em sua obra literria, observo quatro

    elementos subjetivos a considerar, que so: a abadia, o povo, Aristteles e o

    riso, que reprimido por detrs de bocas cerradas dos monges no monastrio,

    encontravam sua libertao na plebe alienada.

    A abadia como representao da ordem local, cuja sua formao

    elenca uma hierarquia de poder sobre as decises internas e externas do

  • 15

    monastrio, ou seja, as decises religiosas intervm na dinmica das relaes

    humanas da era medieval, onde so os monges os nicos letrados em um

    mundo onde nem os servos nem os nobres sabem ler. (ARANHA,1993, p143).

    Cooptar pela vedao do pleno conhecimento s camadas populares, a fim de

    evitar possveis insurreies, eram as atitudes despticas do clero.

    O povo como elemento subserviente dos desgnios eclesisticos era

    extorquido sob a prdica da abdicao dos prazeres terrestres em troca dos

    deleites na ps-vida. No entanto, apesar das rdeas sacras disciplinares, cuja

    finalidade consentia em dominar a natureza humana, a pilhria, por sua vez,

    encontrava nas festas dos arredores das imediaes do monastrio a catarse

    s censuras cominatrias.

    No terceiro elemento encontramos Aristteles, como o pensamento

    contrrio ordem. Em um dos dilogos do romance, a personagem frei

    Guilherme de Baskerville, em defesa da comicidade encontrada nas obras do

    filsofo grego e, sobretudo adquirindo um posicionamento favorvel ao

    conhecimento lcito, externa na seguinte citao:

    Aqui Aristteles v a disposio ao riso como uma coisa boa, que pode mesmo ter um valor cognoscitivo, quando atravs de enigmas argutos e metforas inesperadas, mesmo dizendo-nos as coisas ao contrrio daquilo que so, como se mentisse, de fato nos obriga a reparar melhor, e nos faz dizer: Eis, as coisas estavam justamente assim, e eu no sabia. (ECO, 2009, p. 522)

    E, o riso como eixo central pelo qual a narrativa se desenvolve. O

    mesmo riso protagoniza como fonte do caos e do detrimento dos dogmas,

    como recurso da dvida e gerador a descrena. O receio ao pensamento

    contrrio hierarquia divina pr-estabelecida ameaava a desconstruo da

    ideologia crist, na Europa Medieval.

    Uma crtica impar e em contraposio a releitura sisuda de Eco e

    Bakhtin sobre a Idade Mdia, Jan Bremmer e Herman RoodenBerg

    esclarecem, na introduo de sua obra Uma histria cultural do humor, que

    havia o risus monasticus (o riso monstico) presentes nos breves escritos

    didticos, chamado de exempla, utilizado nos sermes catlicos desde o

  • 16

    sculo XIII, o que leva a compreenso de que o riso e o humor foram artifcios

    utilizados no perodo de Contra-Reforma no embate ao protestantismo.

    No cenrio europeu a mudana de conscincia, proporcionada pelo

    Renascimento, d origem ao terceiro nterim: O riso humano, confrontado por

    questionamentos morais da sociedade na poca. Ao mesmo tempo, do

    origem a concepes fisiolgicas do riso, comeando por Descartes, em 1649.

    Em meados do sculo XVII, a filosofia repudia costumes jocosos e emprega

    sobre eles sensores religiosos (MINOIS, 2003, p.418).

    Ainda sculo XVII, a apoderao da ideia de humor acentuada em

    territrio ingls e, em 1682, entabula-se a busca por sua definio, que dar

    origem ao sentido atual do termo.

    1.1 Contextos para insero do HUMOR

    O humor predispe uma reflexo sob trs eixos do contexto social, a

    saber: a constante antropolgica, sua concepo a partir de uma ao social e,

    como prtica de valores de um grupo.

    Sob a constante antropolgica, possvel encontrar na obra O

    Humorismo, de Luigi Pirandello (1908), a etimologia da palavra Humor, que

    advm do latim humoris, termo utilizado a princpio na medicina, o qual fazia

    aluso aos fludos corporais: o sangue, a blis e a linfa, era considerado signo

    ou causa de doena. Acredita-se que esses fluidos mantinham uma relao

    com o carter do indivduo. Progressivamente, ao final da Idade Mdia, a

    conotao do termo entra em desuso e, na Inglaterra, em 1682, o humor

    transcende a um carter espiritual.

    Logicamente, seu ensaio so se bastou nessa definio, mas na

    investigao do que o Humorismo. A princpio, Pirandello define o humorismo

    como um subgnero derivado do cmico e, indiferente sua profisso de

    dramaturgo, Pirandello equiparava o humorismo como o evento, um

  • 17

    espetculo, que demarcava a conscincia do pblico para suas questes

    subjetivas.

    No sentido da concepo, a partir de uma ao social, cabe o conceito

    exposto por Bergson, em sua obra O Riso (2001), em que o homem no

    somente um animal que sabe rir, mas bem como um animal que faz rir e,

    Para compreender o riso preciso coloc-lo em seu meio natural, que a

    sociedade; e preciso, sobretudo, determinar sua funo til, que uma

    funo social (BERGSON, 2001, p.6). Bergson delimita alguns critrios para

    compreenso do riso como ato indissolvel de uma ao social.

    Contudo, a compreenso do humor como prtica de valores de um

    grupo, sintetizada em um pensamento de Bergson, onde: Nosso riso

    sempre o riso de um grupo (BERGSON, 2001, p.5). Uma acepo oriunda

    desta afirmativa torna possvel uma traduo peculiar de que o humor, apesar

    de universal, apoderado a costumes, ideias, hbitos e a moral de uma

    sociedade especfica qual ela est inserida.

    2. O Humor e a comdia stand-up no Brasil

    O cenrio humorstico no Brasil se desenvolve no final do sculo XIX e

    inicio do sculo XX, um perodo conhecido por Belle poque, caracterizado

    pelas mudanas de mbito cientfico-tecnolgico e cultural que se torna ponto

    referncia das novas interpretaes, em contraposio as definies que

    vinham sendo sustentadas, sobre o humor. Sobre este perodo, o historiador

    Elias Thom Saliba diz:

    [...] a Belle poque representou um momento de crise e desarticulao desses dois sistemas de valores da dimenso cmica: a distino entre o bom e o mau riso e a teoria da superioridade e do distanciamento. [...] representou um momento de crise e desarticulao dessas definies clssicas do humor (SALIBA, 2002, p.21)

    Neste perodo se destaca trs obras importantes, j citadas

    anteriormente, que so: O Riso (Bergson, 1899), Os chistes e sua relao com

    o inconsciente (Freud, 1905) e O humorismo (Pirandello, 1908), que so

  • 18

    estudos significativos que contriburam para as mudanas na cultura ocidental

    acerca do cmico, no sculo XX.

    Sinteticamente, Bergson conceitua o riso em uma prxis social, que

    emerge da identificao de elementos inanimados e elementos vivos. A

    publicao da obra O Riso, de Bergson, coincide com o advento das primeiras

    produes cinematogrficas de Lumire e Mlis, que impulsionavam a

    experincia coletiva do tempo como simultaneidade, ou seja, o pblico

    provava inconscientemente dos efeitos da produo humorstica da Belle

    poque e do rompimento do tempo cronolgico para um tempo psicolgico,

    nos fundos brancos das primeiras telas de cinema. Para exemplificar essa

    ruptura, se tem a comicidade - muda de Charles Chaplin, com o clssico

    Tempos Modernos, em que essa quebra do tempo cronolgico para o

    psicolgico demonstrada nas aes repetidas e obsoletas, do personagem,

    em piso fabril e fora dele. O historiador, Elias Thom Saliba relata em sua obra

    Razes do Riso, afirma que:

    O cmico nascia, assim, para Bergson, deste processo psicolgico de inverso e sobreposio de dimenses espcio-temporais, desta rigidez quase mecnica de nossos sentidos e da nossa inteligncia, pela qual continuamos a ver o que no mais est a vista, ouvir o que j no soa, dizer o que no convm, enfim, adaptar-se a certa situao passada e imaginria quando nos deveramos ajustar realidade atual.(SALIBA, 2002, p.22)

    O psicanalista Freud, em seu estudo sobre Os chistes e sua relao

    com o inconsciente, busca identificar, por veredas marginais, o sentido do jogo

    de palavras e o que ele encobre em uma anedota. O riso, na anlise de Freud,

    tem objetivo catrtico, de liberar sentimentos reprimidos e conseqentemente

    se desenvolve da compreenso do ilgico e do seu significado.

    Por outro lado, Pirandello, pontua sua obra sobre o humor, a partir de

    uma tica de desfamiliarizao, de distanciamento e de superioridade sobre o

    que risvel. O autor elucida com uma situao em que inicio do sculo XX

    incompreensvel, a qual consistia em uma velha senhora sair rua maquiada.

    Uma senhora tentar reatar traos juvenis sob efeitos de p e blush era

    inaceitvel para a poca e era considerada uma situao cmica, e

    constrangedora. O contraste desta tica envolta no mais pela percepo do

  • 19

    contrrio, mas pelo sentimento do contrrio. E, nisto, se enquadra o

    questionamento do que a faz pensar que ao se maquiar ficar mais jovem?

    Pirandello prope a conceituao do cmico e do humorstico, onde o

    humorstico ele rompe com o distanciamento, com a superioridade e nos

    aproxima daquilo que risvel, ao passo de provocar a reflexo.

    O humor da Belle poque, no Brasil, foi marcado pelo aparecimento

    dos apetrechos tecnolgicos que influram numa crescente da produo

    cmica. O humor que, no primeiro momento, era para a elite letrada, pois eram

    eles quem adquiria os jornais, onde a publicao humorstica se detinha a

    crticas scio-polticas, atravs das ilustraes caricaturais, posteriormente foi

    introduzido atravs das transmisses de rdio para os domiclios, no inicio dos

    anos de 1930. A efervescncia dos primeiros meios de comunicao massiva

    desperta o olhar empreendedor para o alcance em potencial das propagandas

    radiofnicas, quando protagonizadas pelos comediantes. A primazia ideada de

    se consolidar uma radiofonia educadora no Brasil passa pelo insucesso por

    se contrastar com a mudana do foco radiofnico para um carter vendvel,

    mais publicitrio, mas que, entretanto, investia em programaes cmicas,

    concedendo aos humoristas maior espao, credibilidade e voz.

    quando o rdio procura uma linguagem prpria, rpida, concisa e colada no dia-a-dia, suscetvel de registrar e efmero do cotidiano, ele vai encontrar aquilo que as criaes humorsticas j haviam, de certa forma, elaborado em estreita ligao com o teatro musicado, o teatro de revista, as primeiras gravaes fonogrficas, e at mesmo as primeiras produes cinematogrficas [...] (SALIBA, 2002, p.228)

    O cenrio humorstico no Brasil, como descreveu o historiador cultural

    Elias Thom Saliba, em sua palestra ao ciclo Humor, sublimao e alteridade,

    pelo Centro de Pesquisa e Formao do SESC, em abril de 2015, pode ser

    delimitado sob quatro perodos distintos, a saber: 1) A Gerao Belle poque

    do humor parnasiano publicidade (1890-1930); 2) Gerao do rdio e das

    chanchadas (1930-1960); 3) A gerao da TV e a criao das Personas

    humorsticas (1960-2001); 4) A gerao da internet e o revival do stand-up

    (2001 - )

  • 20

    O Stand-up um termo norte-americano, atualmente utilizado para

    designar um espetculo de humor, onde o comediante se apresenta sem uso

    de artifcios (objetos, fantasia e cenrio) que auxiliem seu desempenho em

    palco. Uma arte nova, mas que traz todo simbolismo onerado do processo

    evolutivo do riso, da comicidade e do humor. Ganha notoriedade nas dcadas

    de 1980.

    Herdeiro do humor radiofnico e dos monlogos teatrais nas dcadas

    de 60, perodo do surgimento da criao das personas humorsticas, o

    stand-up comedy no Brasil, atinge o seu pice, nos anos 2000, com Comdia

    em P, no Rio de Janeiro.

    A representao humorstica estimulada pelas transmutaes

    decorrentes da globalizao, com o surgimento de novos veculos mediticos

    influi, em menos de um sculo, na presena cmica em diversos segmentos,

    desde literaturas, a filmes, publicidade, sries de TV entre outros. Em um prazo

    de quatro dcadas, esta mesma representao humorstica, que outrora

    encontrava seu contentamento na televiso como rdio ilustrada, ambiciona

    novos meios de transmisso de seu contedo e encontra novas possibilidades

    e oportunidades na INTERNET.

    Para este pblico efmero e insacivel de contedos superficiais e

    imediatistas, a forma de humor lquido exigida. A caracterstica que este

    novo modo de humor assume por meio da ridicularizao, do riso a qualquer

    custo. O ataque as minorias uma regra do humor.

    3. Esteretipos, o Senso Comum e Preconceitos

    No indiferente, mas interligado ao fenmeno humorstico e

    conseqentemente comdia stand-up, encontramos trs componentes

    passveis de um minucioso estudo, so eles Esteretipos, o Senso Comum

    e Preconceitos, todos estes termos transportam uma carga ideolgica.

  • 21

    Tomando o conceito exposto pelo terico Luis Mauro S Martino, em seu

    livro Teoria da Comunicao: ideias conceitos e mtodos, acerca dos

    esteretipos, ele afirma:

    Esteretipos so imagens mentais criadas pelo indivduo a partir da abstrao de traos comuns s um evento previamente vivido. [...] Neste sentido, o esteretipo um conhecimento imediato e superficial, ganhando em tempo o que perde em profundidade. (MARTINO, 2009, p.21)

    Logo, os esteretipos so imagens prvias e representaes imediatas

    paralelas de uma realidade vivenciada ou no, que concebem a assimilao de

    situaes cotidianas. Segundo Martino, a ausncia de esteretipos implicaria

    em um gasto considervel de tempo at a compreenso dos acontecimentos.

    Duas vertentes so ramificadas a partir da definio de esteretipo

    proposta por Martino, a saber: o senso comum, que est implcito na sentena:

    essa representao, quando utilizada por um grande nmero de pessoas,

    tende a ganhar status de verdade e, o preconceito que formado a partir do

    momento que a representao toma o lugar do representado.

    No ensejo que esta ramificao sobre os esteretipos proporciona,

    cabvel enfatizar a definio proposta pela marxista Agnes Heller, em seu livro

    o Cotidiano e a Histria, acerca dos preconceitos, onde ela estipula conceitos-

    chave para compreenso da qual o termo est envolto, sendo elucidado que o

    preconceito um juzo provisrio concebido a partir de uma ultrageneralizao.

    Essa ultrageneralizao faz parte do complexo social, pelo qual os homens se

    orientam.

    Paralelamente, a idia de definio sobre os esteretipos, Bernd (1984,

    apud MOURA, 2011, p.35), disserta que:

    O esteretipo parte de uma generalizao apressada: toma-se como verdade universal algo que foi observado em um s indivduo. Conheci um gordo que era preguioso, um judeu desonesto e um negro ignorante, por exemplo, e generalizo, afirmando que todo gordo preguioso, todo judeu desonesto e todos os negros so inferiores aos brancos (BERND, 1984, p.11, apud MOURA, 2011, p.35)

  • 22

    Uma definio imprescindvel abordada por Heller, que vm sintetizar a

    ideia transmitida no captulo que, conseqentemente pauta esta discusso, se

    encontra na seguinte citao:

    Os preconceitos, portanto, so obra da prpria integrao social que experimenta suas reais possibilidades de movimento mediante ideias e ideologias isentas de preconceito. Os preconceitos servem para consolidar e manter a estabilidade e a coeso da integrao dada. [...] O aumento dos preconceitos pode ento se acelerar espontaneamente, embora tambm possa resultar de uma manipulao poltica. [...] A maioria dos preconceitos, embora nem todos, so produtos das classes dominantes. (HELLER, 2008, p.76-77)

    Dentre as questes complexas a qual este artigo se prope a

    responder, existe uma em que preciso identificar se a construo do discurso

    humorstico no Brasil corrobora, ou no, com o sustento de preconceitos

    sociais existentes. Certamente que Heller, ao definir que a maioria dos

    preconceitos so produtos das classes dominantes, d um carter histrico a

    tal desfecho. Por tanto, utilizando deste raciocnio, surge um aspecto, a

    identificao dos preconceitos advindos de um common sense, como

    veremos adiante, atribudos s demais camadas sociais e os estigmas que os

    categorizam, se historicamente foram determinados pela elite brasileira.

    Da mesma forma como o grotesco encontrado nas peas de

    Aristfanes (445 a.C. 386 a.C.) exaltava o insulto, onde nada era poupado:

    nem deuses, nem polticos, nem filsofos, nem amantes, assim a comdia

    stand-up. A ridicularizao de outrem a regra do humor contemporneo.

    Como descreve Heller (2008, p.78), o desprezo pelo outro, a apatia pelo

    diferente, so to antigos quanto prpria humanidade.

    Na compreenso sugerida por Heller, de que a vida cotidiana produz

    em sua dimenso social, os preconceitos, bem como de que a base

    antropolgica dessa produo a particularidade individual, partimos do

    pressuposto de que, os preconceitos existentes em uma piada podem ser

    provenientes do sujeito que a emite, a partir da sua conscincia, e nisto, cada

    um responsvel pelos seus preconceitos (HELLER, 2008, P.85)

  • 23

    Debrua-se sobre a definio de senso comum o terico Clifford

    Geertz, em sua publicao O saber local: novos ensaios em antropologia

    interpretativa, o autor interpreta o senso comum como um sistema cultural, os

    quais se baseiam outros sistemas culturais semelhantes; aqueles que o

    possuem tm total convico de seu valor e de sua validade. [...] As coisas tm

    o significado que lhes queremos dar. (GEERTZ, 1997, p 116)

    Assim como, segundo Heller (2008, p.67-69) crer em preconceitos

    cmodo porque nos protege de conflitos essa conformidade se converte em

    conformismo e faz com que o sujeito no usufrua das possibilidades

    individuais, [...], sobretudo nas decises morais e polticas, fazendo com que

    essas decises percam o seu carter de decises individuais; e

    complementando em Geertz, como uma forma de fechar os olhos e ignorar

    as dvidas sobre estas crenas. (GEERTZ, 1997, p.121). As definies de

    encontradas em Heller e Geertz transmitem a ideia de que os preconceitos

    subsistem da dependncia direta com o senso comum, logo, possvel

    considerar que o senso comum como sistema cultural guarnecido pelas

    representaes imediatas que independem de serem vivenciadas ou no.

    Como disse Goethe, ... fcil crer no que cr a multido.

    3.1. A linguagem, a comunicao e o discurso no humor

    Em continuidade discusso iniciada, no tpico anterior, torna-se

    possvel determinar que o preconceito e o senso comum, dependem de um

    vis, um meio pelo qual possam ser transmitidos. Seu canal de disseminao e

    manuteno atravs da linguagem, da comunicao e do discurso.

    Para Muniz Sodr, em sua obra Reinventando a Cultura, a linguagem

    a ordem de acolhimento das diferenas e de promoo da dinmica

    mediadora entre os homens. (SODR, 1996, p.11) e compreende por

    comunicao, a aliana simblica entre os indivduos.

    O discurso como nicho inerente da linguagem, e esta, incapaz de

    possuir subjetividade, pois quem a utiliza, de modo algum despretensioso, ou

  • 24

    seja, tem a inteno de propagar ou reforar uma ideologia. Na comdia

    stand-up, o discurso humorstico na busca de inverso e a deformidade do que

    srio e/ou institudo (GRUDA, 2010, p. 749) empenha-se sobre preconceitos

    e esteretipos vigentes.

    Em um artigo para a revista eletrnica Travessias, Mateus Pranzetti

    Paul Gruda denota sobre os discursos, onde afirma que:

    O discurso pode se manifestar de vrias maneiras pretendendo comunicar inmeros sentidos e significaes conforme o contexto no qual se insere, s condies nas quais produzido e, sobretudo, conforme a ideologia qual se vincula. (GRUDA 2010, p.748)

    Condicionado a isto, o discurso aufere uma inclinao analtica no

    pensamento de Michel Foucault, em sua obra Arqueologia do Saber, o autor

    relaciona os enunciados dos discursos com as relaes de poder.

    Em suma, as modalidades diversas da enunciao no esto relacionadas unidade de um sujeito - quer se trate do sujeito tomado como pura instncia fundadora de racionalidade, ou do sujeito tomado como funo emprica. [...] no a manifestao, majestosamente desenvolvida, de um sujeito que pensa que conhece, e que o diz: , ao contrrio, um conjunto em que podem ser determinadas a disperso do sujeito e sua descontinuidade em relao a si mesmo. (FOUCAULT, 1967, p.60-61)

    Neste trecho Foucault prope que quem fala, no fala um discurso

    unicamente prprio, mas um consciente coletivo ao qual se atribu na fala. Do

    mesmo modo, como ocorre no stand-up, o discurso do qual o humorista e o

    cmico se apropria um discurso construdo no meio-comum, do qual

    apropriado e re-colocado em outra situao tende a adquirir outro significado.

    Em seu livro Teoria da Comunicao: Ideias, conceitos e mtodos, o

    autor Lus Mauro S Martino analisa sob uma perspectiva de Mikhael Bakhtin

    que os discursos encontram sua origem na sociedade, mas so retrabalhados

    a cada novo modo de uso, [...] que mostra que nenhum texto [discurso]

    completamente autnomo (MARTINO, 2013, p. 123). O carter poltico dos

    signos consiste em sua ligao com as condies sociais. Logo, o discurso

    a vis pela qual as referncias esto comprimidas, vinculadas e imersas em

    uma trama de significados.

  • 25

    Sobre isto, Martino afirma: as palavras, os signos, o pensamento so

    dotados de vnculos sociais; o discurso a manifestao desses vnculos na

    comunicao. (MARTINO, 2013, p. 122)

    4. O stand-up brasileiro sob a perspectiva fenomenolgica e semiolgica

    da cultura

    Reconstruir o discurso da comdia stand-up sob uma compreenso

    baseado no campo fenomenolgico e sob uma perspectiva da semitica da

    cultura, no corresponde a uma tarefa fcil.

    Ao que se refere a uma anlise fenomenolgica, compreendida sob o

    sentido da intencionalidade, o discurso humorstico no stand-up comedy tem a

    inteno de envolver o pblico, e este envolvimento o que Freud chama de

    tenso, pela qual encaminhar o desfecho do chiste a uma ruptura de

    determinismo, ou seja, o inesperado rompe a lgica do contexto da piada e

    onde ela pretendia chegar segundo a imaginao para quem ela dirigida. E,

    subjetivamente se prope a no ser uma linguagem real, mas imaginria, onde

    o comediante e/ou humorista idealiza um momento especfico e mostra isso ao

    pblico, atravs deste mesmo discurso.

    O acordo estabelecido entre o pblico e o cmico, est na relao de

    significao do discurso humorstico para o campo do irreal, do imaginrio.

    Deste acordo, nossa percepo de realidade deve ser suspensa e ento se

    passa a no associar o humorista fora dos limites de sua representao.

    Compreendendo que a representao o fenmeno em que o sujeito delega a

    um outro (o representante, o signo) o poder de interpret-lo em sua ausncia

    (SODRE, 2010, p. 29). Quando essa fronteira se rompe surgem os confrontos

    ideolgicos em torno do humor, como o caso do politicamente correto.

    Reconstruir uma anlise da representao humorstica, do stand-up

    comedy, a partir da semitica sovitica analisar a produo cultural do riso

    brasileiro, sob a utilizao dos signos.

    Yuri Ltman, um responsvel pelo desenvolvimento do estudo da

    semitica da cultura no Centro de Estudos da Universidade de Tartu, na

  • 26

    Estnia, procurou evidenciar a presena dos signos em todas as relaes

    humanas e que de maneira intrnseca, se organiza em torno das referncias

    constitudas no mbito social.

    Os preconceitos, os esteretipos reforados no stand-up comedy por

    meio da linguagem, dos signos e do discurso, so identificados, por Saliba

    como premissas culturais desde a Belle poque e, que se perduraram at os

    dias atuais.

    O advento da Repblica e os efeitos combinados a nova expanso europia da Belle poque representaram uma esperana para essas geraes da intelligentsia brasileira do incio do sculo XX. Mas dotados de um equipamento intelectual herdado das linhagens positivistas e evolucionistas equipamento este j originado de uma situao de crise da racionalidade cognitiva, acabariam oscilando entre a adoo de modelos deterministas e a reflexo sobre suas implicaes, entre a exaltao de uma modernidade nacional e a verificao de um pas como tal, era invivel. Sem possuir propriamente uma nao, marcado por extremas diversidades regionais, convivendo com a chaga social do trabalho escravo como herana, e com um Estado praticamente reduzido ao servilismo poltico, o pas apresentava-se aos olhos desses intelectuais de forma inslita e dramtica: como construir uma nao se no tnhamos uma populao definida ou um tipo definido? Frente quele amlgama de passado e futuro, alimentado e realimentado pela Repblica, quem era o brasileiro? (SALIBA, 2002, p.34-35)

    Entretanto, estas representaes humorsticas brasileiras, da Belle

    poque, estavam envolvidas dinamicamente no processo de inveno do

    imaginrio nacional.

    Segundo Saliba, o humor, por muitas vezes, foi utilizado para destruir,

    modificar e desmistificar tipos e esteretipos. Todavia, a petulncia presente

    no stand-up comedy faz com que seja, continuamente, uma arte mal

    interpretada.

  • 27

    5. Consideraes finais

    O historiador francs George Minois, considerou em uma citao: O

    ser humano tem duas caractersticas que o diferenciam dos outros animais: o

    nico que sabe que vai morrer e que ri, a ambigidade contida nessa frase e

    que propensa a se pensar em um ato de rir sob uma perspectiva de

    superioridade, da qual nem a morte o amedronta e, isso faz com que se

    aproxime do riso produzido pelos deuses gregos.

    Contextualizando: o breve histrico do humor permitiu que,

    gradativamente encaminhssemos para o desfecho deste artigo, incita no a

    uma concluso definitiva, mas consideraes acerca do humor contido na

    comdia stand-up, onde de modo provocativo, sob a tica de superioridade do

    ser, inferioriza e despreza ( e por vezes, exagera o defeito) do outro.

    As piadas desenvolvidas no calor do momento, sobre uma condio

    irreal, traada sobre a intencionalidade, alada de significaes sob o risco

    de uma censura imediata de quem, por ela se ofende.

    O stand-up no cria preconceitos, mas em dada proporo os

    potencializa e, neste nterim o que interessa, de fato, o alvio e o espanto do

    inesperado do discurso humorstico. Aqueles, cuja compreenso de uma piada

    ultrapassa o limite do imaginrio, de uma condio de suspenso da realidade,

    e invade o senso real, fazem com que as catarses que o humor proporciona

    sejam sufocadas.

  • 28

    6. Notas

    1. Grasso ET AL.,1996, 511. In: MININNI, Giuseppe. Psicologia Cultural

    da Mdia. So Paulo: A Girafa Editora: Edies: SESC-SP, 2008, p.160.

    2. Depoimento de Andr Dahmer para o documentrio O riso dos

    outros Disponvel em:

    acessado em 14

    de Abril de 2015.

    3. GRUDA, Matheus Pranzetti Paul. O DISCURSO DO HUMOR

    CIDO E POLITICAMENTE INCORRETO DE SOUTH PARK:

    SIGNIFICADOS EM

    TRANSFORMAO. Disponvel em < http://e-

    revista.unioeste.br/index.php/travessias/article/view/3644/2895> ,

    acessado em 26 de Abril de 2015.

    4. DEBORD, Guy. A sociedade do espetculo. Disponvel em

    e

    Acessado em 26 de

    Abril de 2015.

  • 29

    7. Referncias Bibliogrficas

    BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Mdia e no Renascimento: O

    contexto de Franois Rabelais. So Paulo: HUCITEC, 1996.

    BERGSON, Henry. O riso. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.

    BERND, Z. O que negritude. In: MOURA, Vagner Aparecido de. A capa da

    invisibilidade enviesada nas relaes raciais da sociedade brasileira

    contempornea. Extraprensa USP, 2011, p.35.

    BREMMER, Jan. Uma histria cultural do humor. Rio de Janeiro: Editora Record,

    2000.

    ECO, Umberto. Pirandello Ridens. In: ECO, Humberto. Sobre os Espelhos e outros

    ensaios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

    _______________. O nome da rosa. Rio de Janeiro: Best Bolso, 2012

    FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitria,

    2010.

    FREUD, Sigmund. Os chistes e a sua relao com o inconsciente. Rio de Janeiro:

    Imago, 1996.

    GEERTZ, Clifford. O senso comum como sistema cultural. IN: GEERTZ, Clifford. O

    Saber Local: Novos ensaios em antropologia interpretativa. Petrpolis: Vozes, 1997.

    HELLER, Agnes. O cotidiano e a histria. So Paulo: Paz e Terra, 2008.

    LIPOVETSKY, Guilles. A sociedade humorstica. In: LIPOVETSKY, Guilles. A era do

    vazio. Barueri: Manole, 2005

    MARTINO, Lus Mauro S. Teoria da Comunicao: Ideias, Conceitos e Mtodos.

    Petrpolis, RJ: Vozes, 2009.

    MININNI, Giuseppe. Psicologia Cultural da Mdia. So Paulo: A Girafa Editora:

    Edies: SESC-SP, 2008.

    MINOIS, Georges. A histria do Riso e do Escrnio. So Paulo: UNESP, 2003.

    PIRANDELLO, Luigi. O Humorismo. So Paulo: Experimento, 1996.

    SALIBA, Elias Thom. Raizes do Riso: A representao humorstica na histria

    brasileira, da Belle poque aos primeiros tempos do rdio. So Paulo: Companhia

    das Letras, 2002.

    SLAVUTZKY, Abro. Humor coisa sria. Porto Alegre: Arquiplago Editorial, 2014.

    SODR, Muniz. Reinventando a cultura: a comunicao e seus produtos.

    Petrpolis, RJ: Vozes, 2010

Recommended

View more >