Dirio de obra: um ms na vida de uma arquiteta (sample)

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    07-Mar-2016

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Amostra com 22 pginas do livro "Dirio de obra: um ms na vida de uma arquiteta", da autora Al Motta.

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  • Copyright 2012 da Editora Jaguatirica DigitalTodos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998.

    proibida a reproduo desta obra, mesmo parcial, por qualquer processo, sem prvia autorizao, por escrito, da autora e da Editora.

    Fale com a autora: cma.ale@gmail.comCapa: Vinicius Amaro

    Dados internacionais de Catalogao-na-Publicao (CIP)

    Mot917 Motta, Al Dirio de Obra: um ms na vida de uma arquiteta / Al Motta. - 1. Ed. - Rio de Janeiro: Jaguatirica Digital, 2012. 1 v. ; 14x21cm. - ISBN 978-85-912314-5-4 (broch.) 1. Literatura infanto-juvenil brasileira. I. Ttulo.

    CDD 808.899282Bibliotecria Responsvel: Amanda Araujo de Souza Carvalho CRB 7/6351

    Rua da Quitanda, 86, 2o andar - CentroRio de Janeiro - RJ - CEP 20.091-902

    Tel.(21) 3185-5132

    Email: jaguatiricadigital@gmail.comSite: www.jaguatiricadigital.com

    Twitter: twitter.com/jaguatiricadigitalFacebook: facebook.com/jaguatiricadigital

  • Para os meninos da minha vidaAlberto, Calebe, Fernando e Marecil

  • DIRIO DE OBRA OU MANUAL DE AUTOAJUDA PARA AQUELES QUE AS

    ENFRENTAM

    Conheci Al Motta durante o perodo em que ela foi responsvel por uma obra em meu apartamento no Rio de Janeiro. Os trabalhos atrasaram bem menos do que eu esperava e percebi, ao longo do tempo, que parte do segredo dela era a boa relao que ela estabelecia com seus empregados (os famosos pees).

    Durante aqueles meses, fui conhecendo um pouco da mulher, por trs da autora que o leitor ora tem em mos, e constatei que seu bom humor era a chave para seu sucesso. Al conseguia manter-se bem humorada mesmo no meio da maior catstrofe, quando todos pareciam se desesperar.

    Os problemas da relao construtor/contratante, como todos sabem, j acontecem h muito mais tempo do que poderamos supor. Acho mesmo que, na pr-histria da humanidade, algum j brigava com seu construtor sobre a reforma na caverna que no sara conforme o combinado ou no respeitara o prazo estabelecido.

    Agora, com Dirio de Obra - um ms na vida de uma

  • arquiteta, o leitor pode finalmente conhecer o outro lado da moeda. Com uma linguagem simples e bem humorada (sua marca registrada) Al passeia pelas mazelas e agruras de uma arquiteta tentando levar a cabo suas diversas atividades. uma leitura fcil, rpida e extremamente divertida. Al mergulha no universo por trs dos panos e nos leva numa visita ao mundo das coxias das obras, do comportamento dos pees a seu linguajar caracterstico, mostrando a dureza da vida de uma mulher que, alm de profissional, tem que dar conta de inmeras tarefas.

    Ao terminar de ler Dirio de Obra acho que finalmente entendi a razo e a origem de uma antiga maldio hispnica, usada nos momentos de extrema fria: Deus te d uma obra! Mas isso uma coisa da qual no podemos fugir e que, mais cedo ou mais tarde, acontecer em nossas existncias, ento sugiro que o livro de Al Motta, alm de diverso, seja utilizado como um manual de autoajuda para aqueles que acreditam que, no caso das obras, no h luz no fim do tnel. sempre produtivo olhar para o outro lado da moeda, acreditem! E divirtam-se, pois o relato de Al no pretende outra coisa.

    Miguel Falabella, ator e diretor

  • Arquitetar uma boa histria literria um dom, uma beno, um exerccio, uma vocao. Eu vejo esse dom na Al Motta, que sabe entrar nos canteiros da nossa imaginao.

    Ento, espero que esta seja a primeira de muitas obras da Al e que os leitores tenham cada vez mais vontade de morar em cada uma das suas pginas.

    Mrcio Vassallo, jornalista e escritor.

  • Al Motta

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    CAPTULO 1

    Rio, segunda-feira, dia 02, muito sol e calor

    O trnsito um horrorO humor como o trnsito

    Tarefas do dia uma lista sem fim

    Cinquenta e sete minutos. Nenhuma chance do engarrafamento acabar e meu carro entrar no tnel.

    Tentei prestar ateno s notcias do rdio, mas encarar o engarrafamento interminvel e ouvir o locutor detalhar que o trnsito de toda a cidade estava pssimo no ajudou muito.

    Pensei que comearia a ter algum problema irreversvel na minha viso (de tanto olhar para a entrada do tnel) ou uma alterao mental (desespero que me fizesse gritar e pular na pista de asfalto quente).

    Msica. Quem sabe pode ser a soluo?

  • Dirio de Obra

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    Mudei a estao do rdio (quatro vezes) e pude concluir, ou melhor, pude afirmar que Michel Tel me persegue. No suporto mais o Ai se eu te pego. Socorro, algum tenha piedade dos meus ouvidos e salve-me do que provavelmente virou o hit das manhs caticas de segunda-feira.

    Coloquei o cd, o ambiente mudou, comecei a sorrir como nenhum outro motorista sorria na intragvel fila pr-tnel: punk-rock de nvel, altura mxima para desanuviar a mente.

    O sol envolveu meu corpo inteiro e decidi cantar alucinadamente, encarando a msica pesada como remdio ideal para esquecer as dificuldades: pernas dormentes e rosto incendiando.

    O celular tocava, o sol incomodava, o nextel tocava, meu mestre de obras estava atrasado, o engenheiro estava atrasado, os estagirios estavam atrasados, os pees eu nem arriscava perguntar. O Flamengo perdeu, eles vo atrasar muito ou nem vo aparecer na obra.

    Posso fazer o solo da guitarra com a voz para acalmar?

    O tempo correndo e os problemas se amontoando. Novos problemas apareciam e a vontade de no atender o nextel e o celular era to intensa quanto a vontade de bater no Michel Tel.

  • Al Motta

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    Assim que o mestre de obras, o engenheiro e os estagirios chegarem s obras, vai ser tenso. Quando eu chegar ento...

    Parte 2

    (Manh inteira no engarrafamento, 39 graus e pacincia virou um raro/precioso tesouro escondido. Onde ele est, eu no fao ideia).

    Meu mestre de obras foi rpido descrevendo a matemtica do dia: Oito pees faltaram. Amanh as tristezas sero contadas, vamos olhar com cara de nada* para os oito.

    *Cara de nada aquela cara que fazemos quando definitivamente nada pode ser feito, nem pelo Lula, nem pela Dilma ou mesmo pelo poderoso Obama. aquela cara que fazemos quando entregamos a situao para Deus: o nico capaz.

    Problemas por todo lado e a metade do dia se foi.

    Pergunta que no me responderam

    Eu e meu mestre de obras ao lado de um barulhento martelete em ao:

    - Fez besteira? Mas ele no tinha feito este servio no cliente Q e no cliente W? Perguntei surpresa

    - No Q, no W e no K.

  • Dirio de Obra

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    - Pois , tinha esquecido do K. Ficou to bom nos trs lugares, servio perfeito.

    - Hmm (grunhido inexprimvel do mestre de obras)

    - Fez tantas vezes e to bem, como esse peo foi errar agora?

    - Hmm (grunhido inexprimvel e irritante do mestre de obras)

    - Como?

    Dilogo encerrado. Talvez o calor afete suas respostas.

    Momento lute pelo que seu

    Ligao telefnica feita por mim ao financeiro de um dos meus clientes, aps o clamor do meu engenheiro que no aguenta mais pedir, solicitar e est prestes a cair no soco com o cara. No sendo a favor da violncia, entrei em ao:

    - Meu engenheiro conferiu, o depsito no foi feito. Pode priorizar esse pagamento para mim, por favor?

    - Semana retrasada no ? Dia 23, est a data da parcela aqui sim...

    Claro que est, essa a nona parcela, o valor igual,

  • Al Motta

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    sempre de 15 em 15 dias, nada novo

    Resolvi ser educada:

    - Ento, o que estou falando. O depsito no foi feito.

    - Ah... (Ah de quem descobriu a frmula do noenvelhecimento) Pode conferir se no entrou na sua conta?

    - Ento, ns j conferimos, no entrou.

    Eu no estaria reclamando se os pagamentos estivessem em dia, estou lotada de tarefas

    - Ah... (Ah de quem descobriu o amor da sua vida) Tem certeza?

    - Sim. Pode acelerar isso?

    - Claro... (Claro com a mesma entonao do Ah, muito batido para a continuidade do dilogo-apelo-ao-que--meu-de-direito) Me passa seus dados?

    - a mesma conta de sempre.

    - Ah... (voltou o Ah dos descobridores) Mas pode enviar por email?

    - Envio sim e dito agora para voc.

  • Dirio de Obra

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    - No preciso ditar, me manda por email.

    - Ok. (meu Ok de desnimo)

    Vou mandar o email agora e ainda assim aposto mais uns trs dias de atraso...

    O dia teve muitas outras emoes, mas vou parar por aqui.

  • Al Motta

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    CAPTULO 2

    Rio, tera-feira, dia 03, quente-demais-da-conta, 35 graus e ainda nem so nove da manh

    O trnsito nada maravilhoso na cidade maravilhosa.

    O humor melhor nem comentar, ainda tera, incio de semana, vou

    tentar no acumular estresse.

    Tarefas do dia impossvel dar conta

    Na primeira obra cheguei antes do mestre de obras, que estava atrasado trocando o pneu furado do carro (dcimo terceiro pneu em 10 meses). Coitado, seu trajeto recheado de pregos e alfinetes tenebrosos que perseguem os pneus do seu carro. Muito triste.

    Quando no Rio de Janeiro no existia o helicptero

  • Dirio de Obra

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    que fornece a situao real do trnsito, nem a internet mostrando tudo o que acontece na cidade, (o prdio que pega fogo, a piriguete que... Esquece...) o trajeto do meu mestre de obras era cheio de acidentes e engarrafamentos. Agora so os pregos e alfinetes tenebrosos.

    A minha ideia era adiantar com ele um monto de tarefas, mas quem tem poder contra pregos e alfinetes tenebrosos? Vou embora para a segunda obra e o trnsito continua lindo.

    Na segunda obra o estagirio passa alguns detalhes, tudo vai bem e na metade do relatrio que ele faz (se sentindo o Lula no palanque) eu no ouo nada do que dito, porque me incomodo com o peo pendurado no telhado, com o cinto desamarrado:

    - Pescocinho! - Berro para ele (o peo, no o estagirio) - Ele sorri seu sorriso sem muitos dentes e estica seu pescoo nada discreto.

    - Fala, doutora.

    - Pescocinho, coloca o cinto.

    - Eu t com o cinto.

    - Est com o cinto na cintura e ele no est preso a lugar algum.

    O sorriso do Pescocinho transforma-se em

  • Al Motta

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    segundos:

    - Doutora, no d para trabalhar to amarrado assim.

    No, realmente, to amarrado tudo o que voc no est, voc est nada amarrado

    - Pescocinho, sua vida o mais importante. Amarra o cinto. Se voc morrer como fica sua esposa?

    - Doutora... O pior no morrer, o pior ficar aleijado e virar corno.

    Com uma frase dessas eu fico sem argumentao.

    No meio da tarde minha sobrinha de dezoito anos (um metro e setenta, olhos azuis, cabelos encaracolados loiros e andar de modelo) encontrou comigo trazendo uns documentos do meu irmo.

    Ela encontrou comigo na terceira obra do dia.

    A terceira obra estava com os servios adiantados.

    Servios adiantados at minha sobrinha passar por l e ficar dois minutos.

    Ateno - Magia das loiras altas:

    Os pees babam;

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    as paredes no sobem;

    a massa no fica pronta;

    a pastilha no colocada;

    as placas de piso no vo para seu lugar no cho.

    Nunca achei soluo para o caso.

    Fazer o qu, magia consegue ser pior que pregos e alfinetes tenebrosos!

  • Al Motta

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    CAPTULO 3

    Quarta-feira abafada, dia 04, trs reunies.

    O trnsito infernalO humor abraando tentativas

    Tarefas do dia nmero interminvel

    Reunies

    A primeira reunio do dia a que termina me presenteando com: dor de cabea, mal estar, desconfiana da existncia de algum vrus no meu corpo e finalmente, a certeza de que envelheci uns trs anos em trs horas.

    Tive de explicar para meu cliente que o valor da obra estava fechado e sim, eu tinha dado um grande desconto (dei desconto trs vezes, se desse mais desconto podia virar pipoqueiro, no ia ter lucro

  • Dirio de Obra

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    nem pagaria salrio a ningum).

    No pense que isso tudo aconteceu no primeiro dia ou primeira semana da obra. Segundo ms, parcelas definidas, projeto aprovado.

    Ufa, a vida pode ser complicada em meio a cimento e tijolos.

    A segunda reunio do dia era com o meu mestre de obras, o meu engenheiro e quatro empreiteiros. Nenhum empreiteiro chegou na hora, metade dos assuntos da reunio ficou para a prxima reunio. A data da prxima reunio no ficou definida, claro.

    A terceira reunio era com um cliente que queria um oramento urgentssimo:

    Ele queria orar a mudana de todo o piso da varanda.

    Ele queria orar a retirada do jardim.

    Ele queria orar um novo e prtico porto para a garagem.

    Ele queria orar a troca total do telhado da casa.

    Ele queria orar a cozinha nova.

    Ele queria orar tudo.

  • Al Motta

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    Ele queria fazer obra, mas no definiu nada da obra.

    Ele queria iniciar a obra, mas no decidiu quando iniciar.

    A reunio durou duas horas e meia e foi feita no fim do mundo.

    Peguei todos os engarrafamentos da noite e cheguei em casa uma hora da manh. Com fome, calor, cansao e nenhuma definio do cliente.

  • Impresso pela Singular Digitalna primavera de 2012

    Transforme ideiasem livros

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