DENISE TEREZINHA LISBOA BASSANI - Livros Gr ? DDS - Dilogo dirio de segurana EPS - Especificao

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  • DENISE TEREZINHA LISBOA BASSANI

    SOLDADOR, O ARTESO DA INDSTRIA NAVAL OFFSHORE: UMA DISSERTAO SOBRE O CONHECIMENTO

    Dissertao apresentada ao Curso de Mestrado em Sistemas de Gesto da Universidade Federal Fluminense como requisito parcial para obteno do Grau de Mestre em Sistemas de Gesto. rea de Concentrao: Organizaes e Estratgia. Linha de Pesquisa: Sistema de Gesto pela Qualidade Total.

    Orientador:

    Prof. Emmanuel Paiva de Andrade, D.Sc.

    Niteri 2006

  • Livros Grtis

    http://www.livrosgratis.com.br

    Milhares de livros grtis para download.

  • DENISE TEREZINHA LISBOA BASSANI

    SOLDADOR, O ARTESO DA INDSTRIA NAVAL OFFSHORE: UMA DISSERTAO SOBRE O CONHECIMENTO

    Dissertao apresentada ao Curso de Mestrado em Sistemas de Gesto da Universidade Federal Fluminense como requisito parcial para obteno do Grau de Mestre em Sistemas de Gesto. rea de Concentrao: Organizaes e Estratgia. Linha de Pesquisa:Sistema de Gesto pela Qualidade Total.

    Aprovada em 28 de julho de 2006.

    BANCA EXAMINADORA:

    ______________________________________________________ Prof. Emmanuel Paiva de Andrade, D.Sc. Universidade Federal Fluminense UFF

    ____________________________________________ Prof. Miguel Luiz Ribeiro Ferreira, D.Sc. Universidade Federal Fluminense UFF

    ____________________________________________ Prof. Ricardo Miyashita, D.Sc.

    Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ

  • AGRADECIMENTOS

    Meus agradecimentos a Adiel Almeida de Matos, Aidalva Santos, Antonio Carlos da

    Silva Santos, Antonio Luciano da Silva Capistrano, Arildo dos Santos Gomes, Carlito

    Souza, Carlos Eduardo C., Carlos Mendes Queiroz, Carlos Pimentel, Carlos Pires,

    Carlos Roberto Porfrio da Silva, Clio Elias Fontes, Csar Willam F., Daniel de

    Souza Azeredo, Dulio Henrique Milagres Carvalho, Edimar Pimentel, Eraldo Lopes

    Santana, Eraldo S. da Silva, Ernane Valdo Evangelista Filho, Fbio Pereira Alves,

    Fernando Barbosa da Silva, Francisco Lucivaldo da S. Capistrano, Francisco

    Oliveira dos Santos, Francisco Pereira, Genival de Melo E Silva, Gilberto Lopes de

    Assis, Ismael Cardote, J. de Carvalho, Jean Carlos da Silva Alves, Joo Batista de

    Barros, Joel da Cruz Bastos, Jos Silva Procpio, Jos Wilson Vieira, Jorge dos

    Santos Almeida, Leandro Amaral Leo, Lourival Salles dos Santos, Luis Carlos Dias

    Batista, Luiz Carlos dos S. Filho, Luiz Gonzaga dos Santos, Marcos A. Silva, Marcelo

    Roberto da Silva, Marcos Roberto Frana Duarte, Maurcio Soares, Odilon Ferraz,

    Roberto de Menezes, Roberto Monnerat Franco, Pedro Ricardo R. Teixeira, Randal

    G., Rosinaldo Jos dos Santos, Sebastio dos Santos , Srgio O. Santos, Severino

    Jos da Silva, U. A. Cardoso, Valcir da Conceio Silva, Wagner dos Santos

    Vasconcelos, Walter Reis do Couto, Zulmar Silva, cuja compreenso e colaborao

    tornaram possvel a concluso deste estudo e especialmente ao Eng Manuel

    Franklin de S, cuja ateno e apoio foram fundamentais para a execuo das

    pesquisas de campo. Agradeo igualmente minha famlia e amigos pelos

    incentivos, a todos os funcionrios do LATEC; ao meu orientador Prof. Dr.

    Emmanuel Paiva de Andrade por sua paciente ateno; ao Prof. Dr. Osvaldo

    Quelhas pela confiana; Prof. Solange Pinheiro, amiga e mestra, pelas

    observaes agudas, surgidas espontaneamente na informalidade de nossas

    conversas; minha me, pelas incontveis palavras de encorajamento e carinho; e

    ao meu pai (in memoriam) pelas inesquecveis lies de amor e vida.

    Acima de tudo, agradeo a Deus por ter-me fortalecido sobremaneira durante as

    etapas de execuo desta pesquisa. A Ele peo que cubra com suas infinitas

    bnos a todos que me ajudaram na realizao deste trabalho.

  • RESUMO

    A presente pesquisa procura compreender e explorar as disfunes no resultado

    final do trabalho dos soldadores do setor de construo naval/offshore a partir do

    estudo de caso em uma empresa tpica, atravs da anlise de depoimentos de

    diferentes profissionais, com diferentes nveis de qualificao / competncias,

    comparando e buscando explicao para estas disfunes a partir de teorias acerca

    da produo do conhecimento, particularmente da relao e complementaridade

    entre o conhecimento tcito e o explcito. A compreenso terica do fenmeno

    permite propor / estabelecer diretrizes para elaborao de polticas de treinamento

    envolvendo a etapa de seleo / qualificao que minimizem o custo decorrente do

    descompasso entre teoria e prtica num setor como o de soldagem, onde a

    complexidade tcnica do processo alta e os efeitos dos erros tm propagao

    problemtica por todo o processo produtivo.

    Palavras-chave: Soldador, Gesto do conhecimento, comunidades de prtica, Qualidade de vida.

  • ABSTRACT The present research aims to understand and explore disorders in final results in the

    welders works in the naval / offshore on a case study basis concerning a typical

    organization through the analysis statements collected from various professionals in

    different levels of qualification / competences, comparing and seeking explanations

    for such disorders along theories about the knowledge production, particularly the

    relationship and complementarity between the tacit and explicit knowledge. A

    theoretical comprehension about the phenomenon allows to propose / establish

    directives for elaboration of training politics comprehending the selection /

    qualification stage so to minimize costs due to disharmony between theory and

    practice into a sector as welding, where the process technical complexity is high and

    the consequences of errors show problematic propagation throughout the whole

    productive process.

    Key-words: Welder, knowledge management, communities of practice and quality of life.

  • LISTA DE ILUSTRAES

    Figura 1 Sistemas de produo de petrleo offshore............................. 10

    Figura 2 Sistemas em um campo produtor de petrleo offshore............ 11

    Figura 3 Espiral de Criao de Conhecimento Organizacional............... 32

    Figura 4 Estrutura de uma comunidade de prtica................................. 36

    Figura 5 Sob o ttulo Gesto do Conhecimento.................................... 38

    Quadro 1 Situaes relevantes para diferentes estratgias de pesquisa 47

    Grfico 1 Grau de escolaridade dos indivduos entrevistados................. 68

    Grfico 2 Idade dos entrevistados............................................................ 68

    Grfico 3 Como tomou conhecimento da profisso de soldador

    qualificado?............................................................................... 69

    Grfico 4 Onde aprendeu a soldar?......................................................... 69

    Grfico 5 Sabe entender e interpretar simbologia de soldagem?............ 70

    Grfico 6 Consegue entender e interpretar um documento de I.E.I.S.?... 70

    Grfico 7 Correlao entre dados de grupos de soldadores por tempo

    de servio e dados sobre interpretao das IEIS..................... 71

    Grfico 8 Consegue identificar a causa de uma no conformidade?....... 71

    Grfico 9 Correlao entre os dados dos entrevistados agrupados por

    tempo de servio e pela identificao de no-conformidades. 72

    Grfico 10 O que pode ser feito para melhorar a qualidade da solda? ..... 72

    Grfico 11 Est satisfeito com a profisso que escolheu? ........................ 73

    Grfico 12 J influenciou algum para se qualificar em soldador? ........... 73

    Grfico 13 Deseja conseguir outra qualificao em soldagem? ................ 74

    Grfico 14 Utiliza a solda para as artes? ................................................... 74

  • LISTA DE ABREVIATURAS

    ANSI - American National Standard Institute

    ASME - American Society of Mechanical Engineers

    AWS - American Welding Society

    DDS - Dilogo dirio de segurana

    EPS - Especificao de Procedimento de soldagem

    FPSO - Floating Production and Storage Off-Loading

    FSO - Floating Storage Off-Loading

    I.E.I.S - Instruo de Execuo e Inspeo de Soldagem

    RQPS - Registro de qualificao de Procedimento de Solda

    TIG - Tungsten Inert Gas

  • SUMRIO 1 O PROBLEMA......................................................................................... 101.1 INTRODUO......................................................................................... 10

    1.1.1 Contextualizao do problema: breve relato sobre a situao da indstria naval brasileira nos ltimos anos........................................ 13

    1.2 FORMULAO DA SITUAO PROBLEMA......................................... 13

    1.2.1 Hiato entre o conhecimento exigido para a qualificao do soldador e a vastido terica sobre a disciplina da soldagem......... 14

    1.2.2 Viso geral sobre o soldador e sua atuao na indstria naval offshore................................................................................................... 17

    1.2.3 A complexidade da execuo da soldagem....................................... 171.2.4 Formao do conhecimento para o teste de qualificao de

    soldadores............................................................................................. 192 REVISO DA LITERATURA.................................................................. 262.1 ORIGEM DO CONHECIMENTO EM MBITO EMPRESARIAL............. 26

    2.1.1 Criao do conhecimento: do indivduo para o coletivo.................. 272.1.2. A disseminao do conhecimento atravs das comunidades de

    prtica..................................................................................................... 352.2 CONHECIMENTO NO MBITO ORGANIZACIONAL............................. 38

    2.2.1 Definindo conceitos e campos do conhecimento empresarial......... 382.3 O VALOR DO CONHECIMENTO NA EMPRESA................................... 41

    2.3.1 Conhecimento Traduzido Como Ativo Intelectual............................. 412.3.2 As Dimenses do Capital Intelectual................................................... 422.3.2.1 O Capital Humano................................................................................... 42

    2.3.2.2 O Capital Estrutural................................................................................. 43

    2.3.2.3 O Capital de Relacionamento.................................................................. 44

    3 METODOLOGIA..................................................................................... 453.1 CONSIDERAES GERAIS.................................................................. 45

    3.2 A ESCOLHA DO ESTUDO DE CASO COMO ESTRATGIA PARA O

    DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA................................................... 46

    3.3 COMPONENTES DE UM PROJETO DE PESQUISA............................ 49

    3.4 COLETA DE DADOS E PERFIL DO PESQUISADOR............................ 50

  • 3.4.1 Composio das habilidades desejveis para um pesquisador de

    estudo de caso...................................................................................... 503.4.2 O protocolo pra o estudo de caso....................................................... 513.4.3 Fontes de informao e coleta de evidncias.................................... 533.4.3.1 Sobre a documentao e os registros consultados................................. 53

    3.4.3.2 Entrevistas............................................................................................... 55

    3.5 PRINCIPAIS DIFICULDADES NA ELABORAO DO ESTUDO DE

    CASO...................................................................................................... 58

    4 ANLISE E DISCUSSO DOS RESULTADOS.................................... 594.1 INTRODUO....................................................................................... 59

    4.2 ANLISE DOS DEPOIMENTOS DOS ENTREVISTADOS.................... 62

    4.3 RESULTADO DOS QUESTIONRIOS RESPONDIDOS: UM

    ESBOO DO PERFIL DO SOLDADOR NA EMPRESA......................... 66

    5 CAPTULO V - CONCLUSES E RECOMENDAES........................ 75 REFERENCIAS....................................................................................... 79 GLOSSRIO........................................................................................... 82 APNDICE.............................................................................................. 88 ANEXOS................................................................................................. 90

  • 10

    1 INTRODUO

    1.1 CONTEXTUALIZAO DO PROBLEMA: BREVE RELATO SOBRE A

    SITUAO DA INDSTRIA NAVAL BRASILEIRA NOS LTIMOS ANOS

    A construo naval propriamente dita divide-se em dois ramos: a construo

    militar e a construo civil. Esta ltima, por sua vez, divide-se em dois ramos: os

    transportes martimos e a rea offshore, sendo esta ltima o ambiente focalizado

    pelo presente estudo.

    O Brasil assiste, desde o ano 2000, revitalizao da indstria naval,

    praticamente desativada desde o final da dcada de 70, a partir das encomendas da

    Petrobras, mais especificamente, construes navais voltadas para a indstria de

    petrleo offshore, objetivando o aumento da extrao de petrleo em guas

    profundas.

    Figura 1 - Sistemas de produo de petrleo offshore Fonte: Simas e Padilla, 2003

  • 11

    Em 2001 houve uma nova expanso provocada pela Petrobras que lanou o

    programa de substituio da frota de navios de apoio offshore, impondo a

    construo em estaleiros nacionais, configurando-se, portanto, uma reserva de

    mercado.

    As encomendas da Petrobras para a indstria naval offshore incluem:

    plataformas, converso dos FSO em FPSO (montagem de mdulos, comumente

    chamados "skids") e outras modalidades de sistemas para produo de petrleo

    offshore, conforme ilustrado na Figuras 1 e 2.

    Figura 2 - Sistemas de um campo produtor petrleo offshore Fonte: Simas e Padilla, 2003

    Todavia, o ressurgimento deste segmento industrial se deu em ritmo tal que a

    velocidade do crescimento da demanda provocou um novo desafio, que consiste

    em:

    Prover instalaes condizentes com a magnitude do produto a ser

    fabricado;

    Organizar e/ou criar competncias suficientes para o atendimento s

    encomendas;

    Confrontar-se com os competidores estrangeiros que fazem alianas e

    consrcios com empresas brasileiras para conseguir a sua fatia neste

    mercado agora revitalizado.

  • 12

    Desta forma, o perodo dos cinco ltimos anos tem sido generoso para a

    indstria naval no pas, promovendo a recuperao dos estaleiros. Ainda assim, h

    um hiato expressivo a ser considerado, quando se compara indstria naval brasileira

    frente aos seus concorrentes pelo mundo. A questo da especializao profissional

    vital para a indstria naval, pois se trata de indstria de mo-de-obra intensiva. A

    indstria naval / offshore demanda trabalhadores hbeis, talentosos quanto ao

    manuseio de ferramentas e qualificados segundo normas nacionais e internacionais

    para desempenhar tarefas difceis, artesanais e complexas operaes de

    montagens. Em estudo elaborado pela Universidade de Campinas em 2002 sobre a

    competitividade das cadeias integradas no Brasil concernente a cadeia da Indstria

    Naval, h um dado bastante sintomtico deste descompasso causado por mais de

    duas dcadas de estagnao, quando se defronta com a realidade de que a maior

    empresa do gnero no Brasil 25 vezes menor que a empresa lder mundial.

    No citado estudo realizado pela Universidade de Campinas, os autores

    afirmam que:

    [...] foi dada a partida para a caa aos recursos humanos qualificados, projetistas, engenheiros, executivos, gerentes, tcnicos em montagem, metalrgicos navais e soldadores certificados. Os estaleiros brigam para contratar pessoal e roubam profissionais um dos outros. A constatao que se torna essencial formar recursos humanos com rapidez. ... Alm do volume de construo naval, existem as obras de reparos navais, que prosseguem, aumentando a presso sobre o cenrio de escassez de mo-de-obra para os estaleiros, principalmente soldadores.

    A Secretaria Estadual de Energia Indstria Naval e Petrleo considera a formao de recursos humanos sua principal preocupao. A Secretaria estima a necessidade dos estaleiros, a curto prazo, em cerca de 7.000 tcnicos, principalmente soldadores e v a possibilidade de formao de apenas 1.200 atravs do Senai. (FERRAZ et al, 2002).

    A presente pesquisa parte do pressuposto da importncia e valor do

    conhecimento humano como fundamento para o sucesso e continuidade de

    qualquer empresa, incluindo o segmento industrial em tela, onde a mo-de-obra

    especializada e qualificada responsvel por grande parte da construo e

    montagem dos mdulos de topside.

  • 13

    1.2 FORMULAO DA SITUAO PROBLEMA

    1.2.1 Hiato entre o conhecimento exigido para a qualificao do soldador e a vastido terica sobre a disciplina da soldagem

    A principal questo abordada no presente estudo diz respeito ao mtodo de

    seleo / qualificao de soldadores das empresas do setor naval / offshore que

    privilegia o conhecimento prtico e de natureza tcita em detrimento do

    conhecimento explcito, terico presente nas normas tcnicas de soldagem.

    E por que a importncia do conhecimento prtico privilegiada sobremaneira

    em relao ao conhecimento terico? Porque as normas que regem as atividades da

    soldagem assim o permitem.

    Portanto, tal poltica de seleo / qualificao, ainda que amparada pelas

    diretrizes de normas cuja excelncia dos resultados no deixa dvidas sobre a

    eficincia, tem levado a problemas continuados na qualidade do resultado final das

    tarefas envolvendo soldagem, com prejuzos em prazos e custos para as empresas.

    Duas alternativas apresentam-se para superar o problema:

    A) mudar o processo de seleo / qualificao instituindo programas

    integrados com as escolas formadoras de soldadores.

    B) acoplar ao atual processo de seleo, programas de formao terica de

    forma a elevar o nvel de conhecimentos explcitos especficos presentes

    nas normas internacionais de soldagem.

    Esta pesquisa levantou informaes dos trabalhadores de uma empresa

    tpica de construo e montagem na rea naval / offshore na cidade de Niteri,

    Estado do Rio de Janeiro, segundo o prisma do conhecimento em mbito

    organizacional, buscando analisar os depoimentos de diferentes profissionais de

    vrios nveis de qualificao e competncia, diretamente relacionados s atividades

    de soldagem, com o objetivo de compreender as razes do largo hiato entre o

  • 14

    conhecimento dos soldadores e o conhecimento dos demais profissionais envolvidos

    na soldagem e as dificuldades trazidas por este hiato.

    1.2.2 Viso geral sobre o soldador e sua atuao na indstria naval offshore

    O soldador que no conhece nada de conhecimento terico como msico que no sabe ler uma partitura. Ele tem o talento para executar a msica na prtica, de ouvido ou de antena, mas se voc der a ele uma partitura, ele no conhece. (Maurcio Soares, tcnico de soldagem).

    No planejamento dos processos e da mo-de-obra que compem os projetos

    na indstria naval / offshore referentes construo de plataformas para extrao e

    produo de petrleo offshore, o soldador forma uma das camadas profissionais

    mais importantes na estrutura de mo-de-obra de um projeto de construo de

    plataformas de prospeco de petrleo em guas profundas.

    Observando-se este profissional em ao, percebe-se o quanto sua tarefa

    exige acuidade visual e percia manual, esta refinada pelo talento natural somado

    experincia adquirida ao longo das obras.

    Embora a profisso de soldador seja regulada por normas especficas

    internacionais e nacionais, a qualificao profissional demanda somente um teste

    prtico atestando a destreza no manuseio dos equipamentos de soldagem. A

    excelncia da soldagem deve ser precisamente comprovada atravs de ensaios

    no-destrutivos, como por exemplo, o ensaio radiogrfico sobre a pea soldada.

    Neste aspecto, surpreendente a constatao de que, para uma grande quantidade

    de trabalhadores do gnero, a gnese do seu conhecimento se faz empiricamente

    no ambiente de obras, partindo da observao das atividades dos colegas para a

    prtica nas horas vagas; s vezes contando com a ateno e orientao de um

    colega qualificado e mais experiente.

    Mais surpreendente ainda a constatao de que a atividade artesanal do

    soldador um dos principais fundamentos da construo desta indstria, atividade

    esta que se faz atravs do conhecimento proveniente da prtica, forjado, em grande

    maioria dos casos examinados, pela observao e imitao dos movimentos dos

    profissionais mais experientes. Para os aspirantes qualificao de soldador, tal

  • 15

    conhecimento prtico vir a ser posteriormente refinado pelo prosseguimento do

    trabalho prtico nas horas do almoo e horas vagas e se revestir da qualidade

    necessria atravs das experincias com as mquinas de solda e sucata de peas e

    consumveis. Ainda que existam cursos tcnicos especficos para o desempenho do

    ofcio de soldador, estes, da mesma forma privilegiam o ensino da prtica sobre a

    teoria. Alm do mais, os cursos profissionalizantes so bastante dispendiosos e

    sendo assim, inalcanveis para a maioria dos trabalhadores que almeja a

    qualificao em rea de soldagem; mais difceis ainda para aqueles que esto

    desempregados ou empregados em ramos de atividade caracterizados pelo excesso

    de oferta de mo-de-obra cujos salrios so bem pouco expressivos.

    A rotina da produo nos canteiros de obras nos estaleiros de Niteri e Rio de

    Janeiro realiza-se da seguinte forma: em paredes, tapumes ou divisrias prximas

    aos locais onde repousam as peas determinadas a serem soldadas, esto afixados

    documentos denominados Instruo para Execuo e Inspeo de Soldagem

    (I.E.I.S.), que reproduzem graficamente todas as diretrizes para serem seguidas

    para a soldagem adequada das peas.

    Os critrios de qualificao dos soldadores presentes nas normas nacionais e

    internacionais sobre soldagem, prescrevem que o resultado final da solda seja livre

    de defeitos como condio mnima para aprovao. Porm, as mesmas normas se

    calam quanto possibilidade e necessidade de conhecimento terico mnimo sobre

    a cincia da soldagem por parte dos soldadores/operadores de soldagem. Sendo

    assim, observa-se que vrios profissionais necessitam de receber a orientao

    atravs da transmisso oral para cumprir a rotina planejada.

    O soldador, aps ter recebido a orientao do que dever ser feito, parte para

    executar a tarefa planejada. Aps execuo, uma amostra de sua produo dever

    passar por ensaios no-destrutivos (Raio X e outros). Os resultados do ensaio so

    anotados em um tipo de registro que se chama Controle de desempenho de

    soldadores e ento, este documento passa a ser analisado pelos profissionais da

    Qualidade, Inspetores e Engenheiros. Caso os ensaios apontem descontinuidades

    ou defeitos e o ndice de reparos for maior do que o valor de tolerncia especificado

    no projeto, o soldador poder ser sumariamente demitido; o que exigir esforos

    humanos e energia para executar os reparos necessrios. Se o percentual de

    descontinuidades estiver ainda dentro dos limites de tolerncia, o soldador poder

    ainda ser desqualificado. Esta ltima medida ainda lhe d a chance de passar por

  • 16

    novos testes de qualificao e voltar a se qualificar na mesma obra, conforme

    ilustrado em entrevista fornecida por um soldador veterano da empresa em foco.

    Ao ser indagado sobre a percepo do soldador defrontado a um ndice de

    reparos de solda de percentual acima de zero ele exemplificou:

    At uma certa altura, nada acontece. Se passar da, da tolerncia, o trabalhador desqualificado. A o trabalhador volta para o teste e se qualifica de novo. Bem, isso se a empresa tiver precisando do trabalho dele, caso contrrio, ele demitido. (S. S., soldador h 35 anos).

    Alguns dos profissionais cuja funo inclui a superviso e inspeo do

    trabalho dos soldadores no exercem atitudes ou aes para corrigir os movimentos

    do soldador no momento que est soldando. Ento, se a soldagem estiver sendo

    feita descuidadamente ou o soldador no estiver percebendo que a sua postura

    corporal favorece o aparecimento de descontinuidade ou defeito da solda, o

    resultado ser precisamente identificado pelos ensaios no-destrutivos, conforme

    relatado no trecho de uma entrevista a seguir:

    Olha, ningum vai ficar vigiando se o profissional sabe pegar na mquina corretamente, se sabe polarizar ou no. Ele vai ser detectado pela qualidade da solda. No d para enganar, o exame visual j elimina este tipo de pessoa. Isto no significa que ele v ser eliminado por no saber ver uma IEIS, um desenho, uma simbologia de soldagem... (O. F. Tcnico de estrutura na indstria naval e Inspetor de Solda Nvel I, Inspetor de Ensaios No-Destrutivos nas modalidades Lquido Penetrante e Ultra-Som, h 30 anos trabalhando na construo naval.)

    Todavia, se houver no canteiro um encarregado interessado nos bons

    resultados e com talento para o ensino, este poder corrigir a posio do brao ou

    do corpo inteiro do soldador para surtir efeitos de excelncia no resultado da

    soldagem, porque, como disse um soldador entrevistado,

    Para soldar, tem que ter tranqilidade. Outro dia estava soldando e fui sorrir para quem estava passando. Quando chegou o resultado do ensaio naquela solda, o Rx apontou uma fratura. Viu? Fui sorrir... A solda j era... (V. S., soldador qualificado h trs anos).

    Mas, um detalhe importante deve ser lembrado: o momento da identificao

    de defeitos ou descontinuidades na pea soldada significa a constatao de perdas

    irreversveis. A evidncia do defeito ou da descontinuidade da solda significa

    dispndio de energia e matrias-primas. Consumveis - gases, eletrodos, discos

  • 17

    abrasivos utilizados estaro irremediavelmente perdidos. As peas soldadas

    tubulao ou chapas em alguns casos podem ser reaproveitadas, porm, a parte

    soldada defeituosa cortada fora e d-se incio a uma nova execuo de soldagem.

    Horas-homens dispensadas com trabalho perdido no voltam mais, o que indica

    subseqente alocao de recursos humanos e de energia para se refazer o trabalho

    todo perdido ou quase todo.

    Contribuindo para as dificuldades relatadas acima, a estagnao da indstria

    naval nos ltimos vinte anos desfavoreceu a procura dos trabalhadores para os

    cursos de especializao em soldagem. Freqentemente encontram-se soldadores

    com 20, 25 at trinta anos de profisso em plena atividade nos canteiros. So

    aqueles egressos da poca do auge da indstria naval brasileira, durante os anos 70

    at incio dos 80. Entretanto, a idade avanada vai afastar inexoravelmente estes

    exmios profissionais de suas especialidades, considerando que uma das condies

    necessrias que o soldador tem que apresentar a acuidade visual. E com o avano

    da idade, todos os humanos, soldadores ou no, ficaro com a viso enfraquecida,

    malgrado o uso corretivo de culos ou lentes. A propsito, para este momento existe

    at um dito popular na comunidade de soldagem que : O soldador comea a

    carreira ponteando e termina-a ponteando. [Vide ponteamento no glossrio].

    1.2.3 A complexidade da execuo da soldagem

    A aprendizagem da soldagem de complexidade sistmica, uma vez que

    abrange tanto o aspecto prtico, no tocante ao manuseio de ferramentas, posio do

    brao e do corpo, o conhecimento e a percepo da dosagem do calor da chama

    sobre o objeto a ser soldado, placa ou tubo, quanto o terico, abarcando o contedo

    das normas internacionais e nacionais. H tambm o conhecimento prtico do

    comportamento dos materiais que compem equipamentos confrontados aos

    consumveis de soldagem. um outro grau de dificuldade, mais profundo e que

    percebe-se na prtica com a perda do material. Conforme comentrio do Inspetor de

    Solda N I Eraldo da Silva:

  • 18

    Cada equipamento destes tem o seu segredo e cada um tem uma evoluo e os consumveis de soldagem tm os seus segredos. E os processos tambm. E quando se pensa que viu tudo, a que se v que ainda tem muito a ser visto. O prprio fabricante do consumvel est se aperfeioando e ento, s vezes, no passado era uma coisa e hoje outra. Por exemplo, trincar, a gente diz: Antigamente no trincava; hoje est trincando por qu? Por causa da espessura. Antigamente a gente trabalhava com equipamentos com maior espessura. E hoje, os engenheiros resolveram diminuir a espessura. Conseguiram um material com maior resistncia e com menos espessura. A o material de soldagem tem que ser compatvel, tem que ser igual ou superior especificao do material. (E. Silva, Inspetor de Solda Nvel I).

    A orientao para a soldagem de uma junta complexa, exigindo um

    planejamento especfico traduzido pelo documento denominado Especificao de

    Procedimentos de Soldagem (EPS), que versa sobre o tipo de soldagem que dever

    ser feita para cada tipo de junta, contendo os parmetros e as condies de

    soldagem que devem ser obrigatoriamente seguidos. Tal especificao validada

    pelo Registro de Qualificao de Procedimento de Soldagem, que significa a

    qualificao do procedimento de soldagem, contendo o registro de dados de

    execuo da solda da pea de teste, alm dos resultados dos ensaios requeridos,

    sendo acompanhado dos devidos certificados de todos os materiais utilizados na

    soldagem. So acrescentados tambm os relatrios de ensaios destrutivos e no-

    destrutivos realizados sobre a pea soldada e o certificado que aponta a qualificao

    do soldador, que deve obrigatoriamente ser especfica para aquele tipo de soldagem

    indicado pela EPS. O RQPS, composto por este feixe de documentos ento

    analisado por um Inspetor de Soldagem Nvel II, que ento aprovar (ou no!) a tal

    instruo para que seja realizada no campo. Reunindo as indicaes da EPS e

    RQPS, planejado a I.E.I.S (Instruo de Execuo e Inspeo de Soldagem),

    documento que levado para o campo e afixado em locais visveis para, finalmente,

    orientar o grupo de soldadores para a atividade programada. Estes documentos que

    se constituem em diretrizes para a soldagem nas juntas do projeto so produzidos

    por especialistas na teoria da soldagem. Cabe aos soldadores apenas seguir a

    orientao presente nos documentos. Ao presente estudo, no cabe pormenorizar

    as orientaes e limites obrigatrios explicitadas pelas normas, por tal estender-se

    desnecessariamente para a compreenso do problema em tela.

    Outro aspecto abordado em vrios depoimentos diz respeito importncia do

    estado emocional do soldador. A solda vista como uma arte, da o trabalhador ser

    chamado de arteso em vrios depoimentos.

  • 19

    Eles tm problemas pessoais, emocionais, porque a solda uma arte. O soldador um arteso porque ele depende da habilidade manual para executar o trabalho dele, se ele tiver emocionalmente abalado, psicologicamente alterado, com problemas particulares com a famlia, financeiros, com o banco, ou se ele tiver ficado desempregado durante muito tempo, tiver sofrido todos estes problemas e for fazer um teste prtico, ele pode ser reprovado em funo destas condies. (Maurcio Soares, tcnico em soldagem).

    Esta observao corroborada em outro depoimento a seguir:

    Se ele [o soldador] tiver um bom conhecimento, ele vai chegar para o encarregado dele e dizer: Eu hoje no estou apto a soldar; me bote em um servio mais leve que est me acontecendo isso e isso. Se ele for um cara de alto sentimento ele vai dizer isso. Porque a solda feita com muito controle emocional, psicolgico. (Lourival Salles dos Santos, encarregado de solda, totalizando 35 anos trabalhando em soldagem).

    Situam-se como fatores importantes para a realizao de uma solda sem

    defeitos: ausncia de vento, poeira, chuva alm do funcionamento da mquina de

    soldagem dentro de regulagem perfeita.

    1.2.4 Formao do conhecimento para o teste de qualificao de soldadores

    A observao sobre os itens que determinam a qualificao do soldador

    /operador de soldagem nas normas internacionais no detecta sentenas

    estabelecendo uma orientao expressiva quanto necessidade de um

    conhecimento terico mnimo a ser comprovado pelo profissional no momento do

    teste para qualificao; tampouco exigido posteriormente no exerccio do seu

    ofcio.

    A construo das plataformas atende a normas internacionais e nacionais

    orientadoras de soldagem como aquelas emitidas pela American Welding Society

    (AWS) (para tubulao); pelo American National Standard Institute (ANSI) B 31.3

    (para planta de processo) ou pela American Society of Mechanical Engineers

    (ASME) VIII (para vaso de presso). A Petrobras, maior empresa interessada nas

    construes de plataformas no Brasil ainda emitiu a Norma n 133 para soldagem

    que referencia e complementa as normas internacionais para soldagem.

  • 20

    A Norma emitida pela ASME clara sobre os requisitos referentes

    qualificao dos soldadores e operadores de solda; segundo sua orientao, o

    objetivo dos testes de qualificao de desempenho determinar a capacidade de

    soldadores e operadores de solda para fazerem soldas robustas, [no ingls original,

    sound welds, ou seja, sem defeitos]. Em seguida, a norma aponta a

    responsabilidade de cada empresa fabricante, montadora ou contratante, em

    qualificar cada soldador ou operador de solda para cada processo de soldagem a

    ser utilizado na soldagem de produo. O teste de qualificao de desempenho

    dever ser de acordo com a Especificao de Procedimento de Soldagem

    qualificada (EPS, vide glossrio) a ser atendida para a correta execuo do teste.

    Portanto, o soldador ou operador de solda que apresentar uma amostra da

    soldagem executada sem defeito, devidamente amparada pelos resultados

    comprobatrios de radiografias da amostra, estar qualificado a soldar nos limites de

    sua especialidade. A norma ainda prossegue advertindo que o procedimento de

    teste poder ser interrompido em qualquer etapa, uma vez que esteja claro para o

    responsvel pela aplicao do teste que o candidato a soldador ou operador de

    solda no apresenta a habilidade necessria para produzir resultados satisfatrios.

    [Traduo livre do trecho extrado da ASME, Article III, Welding Performance

    Qualifications].

    De forma semelhante, a norma emitida pela AWS determina posies do

    tubo, da chapa e outros quesitos a serem observados. E, no item 4.21, sobre a

    preparao dos formulrios de qualificao de desempenho, determina que os

    trabalhadores de soldagem devem observar a EPS aplicvel ao teste de qualificao

    requerido. E prossegue determinando as informaes que devem constar no tal

    documento, qual a metodologia a ser utilizada para sua aprovao e qualificao,

    etc. e demais detalhes tcnicos que no so considerados relevantes ao escopo do

    presente trabalho. Assim como a primeira norma descrita acima, esta se cala sobre

    a necessidade ou possibilidade em comprovar se o profissional de soldagem

    conhece e sabe interpretar com clareza os smbolos matemticos, qumicos, fsicos

    constantes no documento de EPS. Esta norma apenas estabelece que o soldador ou

    operador de soldagem consegue a condio de ser qualificado uma vez que o corpo

    de prova, o que significa um naco da pea soldada no teste do soldador, seja

    submetido a testes destrutivos e no-destrutivos que comprovaro ou no a

    excelncia da solda executada.

  • 21

    Em entrevista recente, o Eng. Prof. Dr. Cardote tece o seguinte comentrio:

    Uma vez que a solda encarada at hoje somente por sua fase mecnica, foi relegado a segundo plano o nvel de instruo ou a capacidade dos soldadores de interpretarem as I.E.I.S. ou de absorverem os conhecimentos. O que requisitado sempre a habilidade mecnica. O trabalho seguia da seguinte forma: entregava-se o eletrodo ao soldador e dizia-lhe: - Voc vai soldar este material ou aquele material, com este eletrodo que estou te entregando. (Eng Prof. Dr. Cardote, engenheiro em metalurgia, especialista em soldagem na Inglaterra pelo Weld Institute, Cambridge, em 1977. Mestrado e Doutorado na USP. Qualificado pela TV para soldagem de equipamentos do circuito primrio em Usinas Nucleares).

    A respeito desta questo, destaca-se aqui um trecho de uma das entrevistas

    fornecidas pelos soldadores da empresa foco da presente pesquisa, respondendo

    sobre seu comportamento no canteiro de obras diante de um dos documentos de

    instruo de soldagem:

    - Quando voc chega [ao canteiro de obras], as IEIS j esto l e voc as l ou algum fala para voc? O que me interessa o seguinte: a pessoa chega l na rea. Atravs do qu ela vai saber o que vai ter que fazer, qual vai ser a junta, qual vai ser o material... - Ele [encarregado de solda] passa o trabalho para voc e voc vai l e faz. - Mas passa como? - Ele fala: Voc vai l soldar o spool de 12 polegadas. A voc vai l e faz. Agora, o procedimento da IEIS, eu no conheo ela totalmente. Eu no tenho a mnima idia do que significa solda de ngulo, solda de topo, entendeu? No tenho a menor idia. - Voc teria vontade de aprender? - Teria. - Acha que iria melhorar o desempenho? - Ia melhorar, porque se voc soldar e saber o que voc est fazendo, vai dar certo. Mas eu no conheo o procedimento, acho muito complicado. Tem l no painel e significa inspeo de soldagem e execuo... - Instruo de execuo e inspeo de soldagem. Na verdade um documento que rene todas as informaes que voc tem que ter. Qual o tipo da junta. Qual o tipo de soldagem, como vai ser feita a inspeo... e tem a simbologia. A simbologia tem umas setinhas para cima, para baixo, lados... Voc entende isso? - No. - Voc gostaria de aprender?

  • 22

    - Sim, acho que dentro da regra seria melhor para trabalhar. Se vierem ao campo e me perguntar alguma coisa sobre ela, eu s vou saber o que significa IEIS. Eu no vou saber responder o que significa tudo ali. - Voc acha que a pessoa tendo s a prtica, mas sem saber absolutamente nada, pode a vir a errar? - Ah pode. Se o encarregado passar um trabalho para mim, se eu no souber que aquela escala daquele tubo tem que dar um calor de 40 ou 50, se eu soldar aquela tubulao sem saber qual o calor, a solda vai trincar. Vai trincar ou vai dar poro ou escria... Ento, eu tenho que saber. [Trecho extrado da entrevista com o Luis Carlos, soldador qualificado h trs anos].

    A ausncia do requisito sobre o conhecimento terico para a qualificao dos

    soldadores d origem a um fenmeno assistido com freqncia entre os

    profissionais de soldagem: aquele que autodidata, que aprende a soldar

    empiricamente, sozinho nas horas de almoo com ou sem a ajuda de outros

    profissionais veteranos. Um dos soldadores entrevistados fez o seguinte comentrio

    que ilustra este fato:

    - A solda para a gente aprender a gente tem que querer mesmo, se no querer no consegue mesmo. Eu j tive uma semana inteira sem almoar para ficar treinando. Eu estava magrinho na poca. - Ento voc perdia a hora do almoo para treinar? - Perdia. Tinha at uns colegas meus que tambm treinavam e eu ficava brabo por no treinar tambm... Eu escolhi este lado da solda porque todo mundo, um ajuda ao outro. Todo mundo unido, no porque um ajudante e o outro soldador que vai esconder o que ele sabe para o outro. At um a j chegou e falou para mim para ver qual era a solda que eu estava para fazer e a eu quero aprender e aproveito. [Trecho extrado da entrevista com Alessandro Guedes, soldador h 01 ano].

    Este ingresso de forma abrupta obtido atravs de esforos pessoais

    motivado pelo glamour da profisso traduzido por altos salrios, praticamente

    impossveis de serem ombreados por outros profissionais com tal grau de

    escolaridade ou de competncia tcnica terica. Os depoimentos a seguir explicitam

    esta observao.

    No Brasil, no segmento de construo e montagem naval offshore, quando se fala as palavras oportunidade de negcios, surge logo o pensamento de que a melhor funo de mo-de-obra direta executiva a do soldador, por conta do percebimento salarial. Nem sempre, ou quase nunca esta percepo est vinculada qualificao. E como ns no temos no Brasil a segmentao nesta formao, os soldadores se agrupam e so autodidatas. No momento em que eles se tornam autodidatas no processo, voc recebe o soldador com uma boa qualificao e soldador com uma qualificao

  • 23

    expedita de campo. Ento, voltando ao incio do processo, existe a oportunidade de negcios, eles sabem que a oportunidade de negcios exige uma qualificao requerida, eles se intitulam detentores do conhecimento e eles se propem a fazer a inspeo, a verificao e acuidade tcnica. Quando eles se deparam com uma certificadora que transporta para processo exigncias tcnicas, inovadoras, eles se apercebem que toda aquela experincia que eles transportam, em muitas das vezes de 15 ou 20 anos, no suficiente para lograr xito na qualificao. Ento aparece um dado novo: a qualificao do soldador no est vinculada to somente experincia do soldador; ela deveria ter passado por uma doutrina, uma formatao tcnica e prtica/expedita. Isso, o Brasil nunca se preparou para este momento de crescimento. (Eng. M. Franklin de S, gestor de empresa do ramo, formado em engenharia civil e mecnica, trabalhando no segmento naval offshore h 27 anos).

    A seguir outro depoimento assevera a realidade deste tipo de aprendizagem:

    A maioria [dos soldadores] entra na obra como ajudante, passa a ser lixador, nas horas vagas comea a soldar, na hora do almoo do um jeito de se esconder, pegam uma mquina e ficam treinando. Quando podem, recebem orientao de outro soldador mais experiente. Quando a solda dele est boa, visualmente falando, dependendo do tipo de pessoa que o encarregado, o encarregado d uma chance ao soldador, coloca-o para fazer o teste de soldagem para que ele possa conseguir a qualificao. (Eng Ismael Cardote).

    Entretanto, embora este tipo de aprendizagem acontea com freqncia

    contando com a boa vontade de ensinar por parte dos soldadores mais experientes,

    h uma grande desvantagem por este processo ocorrer sem a superviso regulada

    pela metodologia da disciplina. Abaixo os comentrios extrados de depoimentos dos

    profissionais relacionados a soldagem.

    Eles aprendem a soldar dentro da empresa, com outro colega. Geralmente so ajudantes, esmerilhadores e comeam a treinar na hora do almoo, muitas das vezes acompanhado por outro colega que soldador ou treinam solitariamente. E ento, esta parte prtica ele at consegue pegar o suficiente para fazer o teste e at prossegue. Se o soldador veterano passar o pulo do gato para ele, ele vai rapidamente ficar apto a fazer um teste. Caso contrrio vai ficar muito mais tempo treinando sozinho. E, ficando sozinho, muitas das vezes, ele pega as manias do outro soldador, que pode nem mesmo ser o melhor. Ele pega os vcios do soldador veterano porque o soldador que ensinou, ele mesmo aprendeu errado. E s a parte prtica, mais nada. Se ele pega a parte prtica suficiente para fazer o teste. Ele j comea errado a porque ele no tem a parte terica, no tem uma apostila para ler, uma sala de aula para algum explicar o que solda. Qual a finalidade da fuso. Ele est derretendo ali o eletrodo, mas que material ali que est usando, no conhece. O que ele tem que fazer. Por exemplo, aqui na empresa, no se qualifica as posies 1G, 2G, 3G etc. aqui s 6G. Ento eles colocam o tubo na posio de 45 e muitos no sabem nem porqu. Ele bota l inclinado, se est em 45 ele no sabe. Disseram para ele que 45 aquela posio; porque ele no leu em lugar nenhum. E qualquer lugar est sendo feito desta maneira. A pessoa comea como ajudante, comea a praticar na hora do almoo e se ele eficiente, o

  • 24

    encarregado d a oportunidade para ele fazer o teste. Caso contrrio, ele sai da empresa e na primeira oportunidade, numa empresa que est precisando de soldador, ele tenta uma vaga como soldador. Como, na verdade, a qualificao depende da habilidade, muita gente no precisa comprovar tempo de experincia. Se ele conseguir fazer um teste sem defeitos, que a classificadora ou o Inspetor de solda que estiver acompanhando aceite o resultado, ele estar aprovado. Ento, muitos fazem este caminho: saem da empresa e tentam a oportunidade como soldador em outra empresa. Ele est treinando nesta empresa ali mas o contrato vai acabar e ele vai ser demitido. Se outra empresa precisar de inspetor, numa poca onde a procura maior do que a oferta, o esmerilhador, que nunca foi soldador vai fazer o teste e talvez at prossiga nesta carreira. (Eraldo S. Silva, Inspetor de Solda Nvel I).

    Existem os cursos profissionalizantes no mercado. Porm, as taxas de

    matrcula so muito altas, proibitivas para quem est desempregado ou quem quer

    ingressar na profisso. Alm do mais, os cursos so de curta durao e, segundo os

    especialistas, no provem a formao necessria e expedita para o aproveitamento

    imediato do estudante. Ao ser questionado sobre a possibilidade de receber

    profissionais sem experincia prtica portando apenas os certificados de concluso

    de cursos de soldagem, um certo profissional responsvel pelos testes exclamou:

    No passa aqui de jeito nenhum. Eles pegam um candidato a soldador, fazem um curso de 80 horas em chapas em cima de uma mesa. Aqui o teste em um tubo de 6 de dimetro, na posio de 45 onde o grau de dificuldade muito alto. Ento todo candidato a soldador que tem o diploma do Senai medido por eles com um baixo nmero de horas de aprendizagem que chega aqui no canteiro, jamais vai passar pelo teste. Ele no tem nem idia de ergonomia, de base de tubo, ele no sabe nem se posicionar debaixo disso no Senai. O Senai nunca se importou em preparar profissionais para trabalhar em montagem. Ele se preocupa em simplesmente dar um conhecimento bsico, pequeno, que no suficiente para a pessoa ser inserida no mercado, jamais vai ser inserida. (M.S. tcnico em soldagem.)

    E foi relatado um expediente que est sendo observado recentemente, que

    o curso particular de soldagem.

    Ento hoje, o movimento que comum - e no existe estudo sobre este movimento - so cursos nas periferias, principalmente do Rio de Janeiro. Cursos-relmpago, sem estrutura nenhuma, montados por encarregados de solda, que os rene nos fundos das casas deles, conseguem comprar uma mquina de solda e do aula. um curso que o SENAI no conhece, FIRJAN no conhece, FBTS no conhece, CETEC de solda no conhece... o encarregado ganhando R$ 300,00 por aluno ou R$ 200,00, na casa dele, dando aula. Este fato, pouqussimas pessoas conhecem. Estes encarregados, ou soldadores mais antigos, esto trazendo a garotada. Hoje voc pega um encanador ou um caldeireiro, que esto na faixa salarial de R$ 780,00 R$ 820,00. Voc pega um soldador na primeira posio, 6G, para soldar ao carbono e ele j est ganhando R$ 1400,00. Voc pega um

  • 25

    soldador de ao liga e ele vai ganhar R$ 2100,00. Ento, isso atrai o jovem. S que o jovem no pode pagar FBTS, SENAI, FIRJAN, CETEC-SOLDA, mas ele pode pagar a um tio que encarregado e pode dar aula a ele em casa noite. So esses movimentos que vm acontecendo e que no fazem parte de estatstica nenhuma. Aqui no nosso canteiro, as cinco ltimas qualificaes de jovens, garotos, vieram de curso de fundo-de-quintal - sem que isto seja pejorativo -. Ele abre a garagenzinha dele, tira o Fusquinha de l, liga duas mquinas de solda e d aula para os garotos. Esse movimento mais forte do que uma FBTS. E os nossos cinco ltimos qualificados que ns promovemos aqui so advindos desta condio; desta qualificao informal dos mais antigos que esto resgatando os jovens para coloc-los no mercado. E a o jovem se compromete a pagar uns R$ 250,00 a R$ 300,00 dos seus novos salrios auferidos e, infelizmente isso no documentado, no faz parte de nenhuma amostragem, poucas pessoas conhecem este movimento, mas um movimento que vem ganhando muita fora. (Eng M. F S. gestor de empresa tpica do ramo).

    A esta altura, j est claro que o processo de aprendizagem para candidatos

    a soldadores e aprendizagem para novas qualificaes para soldadores veteranos

    segue desordenadamente e as conseqncias incidem diretamente na qualidade

    dos resultados finais de soldagem alm do desperdcio que no contabilizado

    de energia, materiais, hora-homem e fatalmente, atraso na entrega do produto final.

    Acima foi dispensada ateno ao modo sobre como as normas internacionais

    orientam a comprovao testada do conhecimento prtico/mecnico do

    profissional de solda para se qualificar. Ora, o leitor poder dizer que as normas so

    consagradamente eficazes em mbito mundial, orientando um tipo de indstria onde

    qualquer erro ou displicncia na construo e montagem poder ser fatalmente

    desastroso. Bem, no se trata aqui de discutir sobre a eficcia das normas de

    soldagem, uma vez que este tipo de trabalho primordialmente constitudo de

    trabalho prtico, artesanal, sob o comando psicomotor e emocional do profissional.

    Os dados levantados por esta pesquisa confrontaram, entretanto, que a prpria

    exigncia unicamente mecnica para a construo do profissional de soldagem

    favorece sobremaneira os indivduos apresentando graus pouco elevados de

    escolaridade. E, devido a tal, com grandes dificuldades para entender, interpretar as

    instrues dispostas graficamente e executarem a soldagem sem necessidade de

    perguntas ou orientaes e com um mnimo de defeitos, sem retrabalho.

  • 26

    2 REVISO DA LITERATURA

    Mas o saber no somente a riqueza primeira do mundo contemporneo. Vivendo de inveno coletiva, de transmisso, de interpretao e de partilha, o conhecimento um dos lugares em que a solidariedade ente os homens pode ter mais sentido, um dos elos mais fortes entre os membros de nossa espcie. (LEVY; AUTHIER, 2000, p. 24)

    Este captulo busca refletir sobre a formao do conhecimento necessrio

    produo de bens, assim como pretende refletir sobre as faces do conhecimento

    conforme se apresenta em mbito empresarial. Neste estudo de caso, a pesquisa

    privilegia a literatura que discorre sobre a formao e disseminao espontnea do

    conhecimento tambm na forma prtica, buscando refletir sobre o fenmeno da

    criao de conhecimento dentro de instalaes das indstrias e montadoras,

    responsvel pela formao da maioria do grupo de soldadores entrevistados em

    uma empresa tpica da cidade de Niteri, Estado do Rio de Janeiro.

    2.1 ORIGEM DO CONHECIMENTO EM MBITO EMPRESARIAL

    No panorama do mundo atual, o conhecimento pode ser considerado como

    um ferramental para a sobrevivncia. Se nos sculos passados a busca pela

    expanso do conhecimento tinha como objetivo o domnio do homem sobre a

    natureza, hoje em dia a expanso do conhecimento necessria inicialmente para

    que o indivduo fique familiarizado com o ambiente tecnolgico altamente

    desenvolvido sua volta.

    Drucker (1999, p. 30) diz que "aquilo que hoje consideramos conhecimento se

    prova em ao". O conhecimento a informao que forja a ao que produz

    resultados. O conhecimento que capacita o indivduo a realizar o conhecimento

    altamente especializado. Na Antiguidade, este conhecimento era considerado como

    tchne, palavra grega que designa aptido ou habilidade artesanal. A tchne

    significava pura experincia em certo ofcio; envolvia treinamento e no

    metodolgica instruo escolar. Sendo assim, a tchne era especfica e

    especializada.

  • 27

    Mas hoje no nos referimos a esses conhecimentos especializados como 'habilidades artesanais'; falamos de disciplinas....[...] "Uma disciplina converte uma 'habilidade artesanal' em metodologia como engenharia, o mtodo cientfico, o mtodo quantitativo ou o diagnstico diferencial do mdico. Cada uma dessas metodologias converte uma experincia ad hoc em sistema, histrias em informaes. Cada uma delas converte uma aptido em algo que pode ser ensinado e aprendido. (DRUCKER, 1999, p. 30).

    2.1.1 Criao do conhecimento: do indivduo para o coletivo

    Schn (2000), muito apropriadamente, faz uma abordagem de cunho

    epistemolgico ao distinguir o conhecimento profissional rigoroso, baseado na

    racionalidade tcnica, do conhecimento nascido da prtica. A racionalidade tcnica

    diz que os profissionais so aqueles que solucionam problemas instrumentais,

    selecionando os meios tcnicos mais apropriados para propsitos especficos

    (SCHN 2000, pg.15). Como diria Drucker, o conhecimento que modela ao de

    forma a produzir resultados. Contudo, o conhecimento rigoroso no suficiente para

    resolver problemas que so trazidos pela realidade, forjados por uma mescla de

    fatores ambientais, materiais e econmicos. A necessidade de tomar decises

    diante de problemas complexos e imprevisveis colocam em cheque toda a formao

    rigorosa do indivduo e, conforme a reflexo de Schn, o profissional parte para

    modelar o problema conforme o seu conhecimento armazenado. Conforme

    argumento deste autor: O caso no est no manual. Se ele quiser trat-lo de forma

    competente, deve faz-lo atravs de um tipo de improvisao, inventando e testando

    estratgias situacionais que ele prprio conduz. (SCHN, 2000, pg. 17).

    Entretanto, a forma de resolver um problema surgido subitamente pode

    esbarrar nos fatores citados acima, tornando o objeto de estudo, muitas vezes,

    impraticvel. Ora o meio-ambiente que poder ser lesado por alguma das solues

    propostas, ora poder ser o cliente que no decidir por acrescentar energias para

    tal.

    Estas zonas indeterminadas da prtica a incerteza, a singularidade e os

    conflitos de valores continua a argumentao de Schn (2000), escapam aos

    cnones da racionalidade tcnica. Quando o profissional se defronta com uma

    questo de dificuldade mpar em sua profisso, ele no conseguir solv-la com os

  • 28

    conhecimentos j adquiridos que fazem parte de sua bagagem profissional;

    conforme descrito por Schn, em situaes de conflito de valores, no h fins claros

    que sejam consistentes em si e que possam guiar a seleo tcnica dos meios

    (SCHN, 2000, pg. 17). Estas zonas indeterminadas de prtica tm merecido muita

    ateno dos estudiosos do trabalho e dos prprios profissionais que percebem que

    seus desempenhos no conseguem atender s expectativas da sociedade.

    A crise de confiana no conhecimento profissional corresponde a uma crise semelhante na educao profissional. Se as profisses especializadas so acuadas de ineficcia e inadequao, suas escolas so acusadas de no conseguir ensinar os rudimentos da prtica tica e efetiva (SCHN, 2000, pg. 18).

    Ainda que o autor situe o conflito entre o conhecimento rigoroso e explcito

    advindo dos estudos universitrios e o conhecimento oriundo da prtica, a anlise do

    conflito dos saberes de origens diferentes, e todavia no excludentes, contempla

    tambm o tipo de conhecimento que o presente estudo busca refletir: o

    conhecimento advindo da prtica artesanal cujo produto final, paradoxalmente, deve

    cumprir requisitos rigorosamente estabelecidos por normas.

    Em outras palavras, a crise se forma na formao do conhecimento

    profissional. O freqente questionamento sobre as escolas profissionalizantes

    origina-se do fato de que indivduos ali formados apresentam-se com deficincias

    para acompanhar as exigncias do campo de trabalho. A seguir o esclarecimento de

    Schn (2000):

    Por trs de tais crticas, est uma verso do dilema entre o rigor e a relevncia. O que os aspirantes a profissionais mais precisam aprender, as escolas profissionais parecem menos capazes de ensinar e a verso das escolas do dilema est enraizada, como a dos profissionais, em uma epistemologia da prtica profissional pouco estudada um modelo de conhecimento profissional implantado em nveis institucionais nos currculos e nos arranjos para a pesquisa e para a prtica. (SCHN, 2000, pg. 19).

    O citado autor conduz a sua anlise sobre o conhecimento no campo

    profissional observando que, nas primeiras dcadas do sculo XX, as universidades

    comearam a oferecer cursos profissionalizantes, que na sua percepo,

    substituam o talento artstico pelo conhecimento sistemtico, cientfico. Atualmente,

    quando se observa o vcuo entre o contedo dos cursos profissionalizantes e as

    exigncias prementes do dia-a-dia das profisses, segundo o autor, deu-se incio a

    considerar o talento artstico como um componente essencial da competncia

  • 29

    profissional e a questionar se as faculdades fariam ou deveriam fazer qualquer coisa

    a respeito e, sendo assim, como a educao para o talento artstico pode ser

    coerente como o ncleo do currculo profissional de cincia e tcnica aplicadas.

    O talento artstico um exerccio de inteligncia, uma forma de saber, embora possa ser diferente em aspectos cruciais do nosso modelo-padro de conhecimento profissional. Ele no inerentemente misterioso, rigoroso em seus prprios termos, e podemos aprender muito sobre ele dentro de que limites devemos trat-lo como uma questo aberta atravs do estudo cuidadoso das performances mais competentes. (SCHN, 2000, pg 22).

    costume dizer que o conhecimento artstico particular daquele tipo de

    profissional cuja prxis sujeita a improvisaes e em alguns casos, a

    improvisao sua prpria natureza, j ento com a denominao de artistas,

    como os escultores, compositores e outros.

    Segundo Schn, os educadores tm a percepo de que o talento artstico

    componente essencial competncia profissional, sendo que este autor define o

    termo talento artstico profissional compreendendo os tipos de competncia que os

    profissionais demonstram em certas situaes da prtica que so nicas, incertas e

    conflituosas. O talento artstico o principal nutriente de certo tipo de competncia

    que envolve reconhecimento, julgamento e performance habilidosa.

    Este um fenmeno que guarda semelhana com aquele descrito por

    Michael Polanyi, que cunhou a expresso conhecimento tcito em The Tacit

    Dimension (1967) para descrever a origem do conhecimento, expresso e contedo

    que ganhou maior difuso atravs da obra de Nonaka e Takeuchi, ao final do sculo

    XX.

    Polanyi, conforme comentado por Schn, observa que as impresses tteis

    trazem ao sujeito o conhecimento da superfcie da mesa; ou seja, a impresso

    causada pela condio de rugosidade, temperatura ou outra condio externada por

    uma mesa trariam o conhecimento tcito ao sujeito que experimenta a superfcie

    da mesa com a ponta dos dedos. Da mesma forma, ao se recorrer ao uso de uma

    ferramenta para desvendar a forma de uma matria, o indivduo se abstm de

    pensar sobre a ferramenta e compe o conhecimento do objeto atravs das

    sensaes que so fornecidas atravs da ferramenta; ainda que em nem um

    momento raciocine sobre ferramenta.

  • 30

    Capacitar-se no uso de uma ferramenta aprender a apreciar, diretamente e sem raciocnio intermedirio, as qualidades dos materiais que aprendemos atravs das sensaes tcitas da ferramenta em nossas mos...Tais processos de reconhecimento e apreciao, muitas vezes, tomam a forma de julgamentos normativos. No prprio ato atravs do qual reconhecemos algo, tambm percebemos esse algo como certo ou errado, Chris Alexandre (1968) descreveu como os artesos reconhecem o desajuste de um elemento em relao a um padro geral seu exemplo mais famoso e a confeco de xales dos camponeses eslovacos sem que haja a menor habilidade ou necessidade de descrever as normas que eles consideram ter sido violadas.... Chester Barnard escreveu, no apndice de The Functions of the Executive (1938/1968) sobre os processos no-lgicos atravs dos quais realizamos julgamentos habilidosos, decises e aes que tomamos espontaneamente, sem que possamos declarar as regras ou os procedimentos que seguimos.( SCHN, pg. 2000, 30-31).

    Schn prossegue teorizando sobre o conhecimento, afirmando que atravs da

    observao e da reflexo sobre as aes possvel fazer uma descrio do

    conhecimento tcito que as produz. E que conhecer-na-ao significa colocar de

    forma explcita o tipo de inteligncia que comea por ser tcita. Schn situa este

    fenmeno em uma situao de ao que suscita no indivduo reaes espontneas

    e rotineiras. O conhecer-na-ao um processo tcito, que se coloca espontaneamente, sem deliberao consciente e que funciona, proporcionando os resultados pretendidos, enquanto a situao estiver dentro dos limites do que aprendemos a tratar como normal. ( SCHN, pg. 33).

    E o conhecer-na-ao d margem para que acontea um outro fenmeno que

    no necessariamente nasce no momento da ao no trabalho, mas no silncio, na

    lembrana de um resultado negativo e que precisa ser evitado a todo custo. A este

    fenmeno Schn denomina reflexo-na-ao.

    O conhecimento dos soldadores se ajusta descrio de Schn quando este,

    ao descrever sobre o ator do processo conhecer-na-ao que, ao ingressar em

    uma comunidade de profissionais, aprende suas convenes, seus limites, suas

    linguagens e seus sistemas apreciativos, seu repertrio de modelos, seu

    conhecimento sistemtico e seus padres para o processo de conhecer-na-ao. E

    o autor aponta ainda uma singularidade deste tipo de aprendizagem, identificando-o

    como uma atividade compartilhada, percebendo que "a condio de aprendiz

    oferece a exposio direta s condies reais de prtica e aos padres de trabalho".

    (idem pg. 40).

    Mas o autor adverte que:

  • 31

    A maioria dos escritrios, fbricas, firmas e clnicas no est organizada para as tarefas exigentes da iniciao e da educao. As presses por um bom desempenho tendem a ser altas, o tempo escasso, e os erros, caros. Profissionais experientes aprenderam, alm disso, a esperar que os aprendizes venham equipados com habilidades prticas rudimentares. No entanto, muitos iniciantes ainda se formam atravs da condio de aprendiz e muitos profissionais e crticos experientes da educao profissional ainda a vem como uma opo de mtodo.( SCHN, 2000, pg. 40).

    Ao conhecimento iniciado na ao, no experimentar e na observao, porm

    ainda no comprovado como tal por no trazer a segurana dos movimentos e

    respostas, segue-se a inspirao dos autores Nonaka e Takeuchi ao identific-lo

    como conhecimento tcito.

    Nonaka e Takeuchi lanam mo do contedo explcito da cultura japonesa

    que privilegia o conhecimento advindo da experincia sensorial e individual em

    contraposio com a tradio racional ocidental que separa o objeto da percepo

    do sujeito, e tambm seguiram a rota aberta por Polanyi ao distinguirem o

    conhecimento em dois momentos: tcito e explcito.

    O conhecimento tcito pessoal, especfico ao contexto e, assim, difcil de ser formulado e comunicado. J o conhecimento explcito ou codificado refere-se ao conhecimento transmissvel em linguagem formal e sistemtica. (NONAKA; TAKEUCHI, 1997, p. 65).

    Na abordagem dos autores citados acima, h um confronto entre o

    conhecimento conforme visto e validado pela cultura ocidental e o conhecimento

    conforme a cultura oriental, que privilegia o saber individual. Prosseguindo com os

    comentrios dos citados,

    Enquanto os ocidentais tendem a enfatizar o conhecimento explcito, os japoneses tendem a enfatizar o conhecimento tcito. Em nossa viso, contudo, o conhecimento tcito e o conhecimento explcito no so entidades totalmente separadas e sim mutuamente complementares. Interagem um com o outro e realizam trocas nas atividades criativas dos seres humanos. Nosso modelo dinmico da criao do conhecimento est ancorado no pressuposto crtico de que o conhecimento humano criado e expandido atravs da interao social entre o conhecimento tcito e do conhecimento explcito. Chamamos essa interao de converso do conhecimento. No podemos deixar de dizer que esta converso um processo social entre indivduos e no confinada dentro de um indivduo. Na viso racionalista, a cognio humana um processo dedutivo de indivduos, mas um indivduo nunca isolado da interao social quando percebe as coisas. Assim, atravs desse processo de converso social, o conhecimento tcito e o conhecimento explcito se expandem tanto em termos de qualidade quando de quantidade (Nonaka, 1990b, apud NONAKA ; TAKEUCHI, 1997, pg. 67).

  • 32

    H semelhanas entre as abordagens de Nonaka e Takeuchi e Schn quanto

    dinmica da apropriao do conhecimento pelo indivduo, ainda que tal dinmica

    seja distinta nos dois modos de pensar. Enquanto Schn observa o desenvolvimento

    intelectual do indivduo a partir da etapa conhecer-na-ao para aprofundar-se e

    estender-se em uma etapa posterior que ele denomina reflexo-na-ao, Nonaka e

    Takeuchi privilegiam a aquisio de conhecimento, apropriao e a converso do

    conhecimento atravs de movimentos sociais, embora o conhecimento seja nascido

    no ntimo do indivduo. A converso do conhecimento se d de quatro modos:

    A. conhecimento tcito em conhecimento tcito, denominado pelos autores

    de socializao;

    B. conhecimento tcito em conhecimento explcito, denominado pelos

    autores de externalizao;

    C. conhecimento explcito em conhecimento explcito, ou combinao;

    D. conhecimento explcito para conhecimento tcito ou internalizao.

    Seguir-se- breve descrio das quatro etapas que dinamizam o conhecimento do

    indivduo e do grupo formando uma espiral do conhecimento.

    Figura 3 - Espiral de Criao de Conhecimento Organizacional Fonte: Nonaka; Takeuchi (1997, p. 62)

    A descrio do processo de socializao encaixa-se perfeitamente no

    fundamento do problema em foco do presente trabalho, que a gnese e

  • 33

    desenvolvimento do conhecimento do soldador, culminando no feixe de condies

    adequadas para sua qualificao. Segundo Nonaka e Takeuchi,

    Socializao um processo de compartilhamento de experincias e, a partir da, da criao do conhecimento tcito, como modelos mentais ou habilidades tcnicas compartilhadas. Um indivduo pode adquirir conhecimento tcito diretamente de outros, sem usar a linguagem os aprendizes trabalham com seus mestres e aprendem sua arte no atravs da linguagem, mas sim atravs da observao, imitao e prtica. [...] O segredo para a aquisio do conhecimento tcito a experincia. Sem alguma forma de experincia compartilhada, extremamente difcil para uma pessoa projetar-se no processo de raciocnio de outro indivduo. A mera transferncia de informaes muitas vezes far pouco sentido se estiver desligada das emoes associadas e dos contextos especficos nos quais as experincias compartilhadas so embutidas. (NONAKA; TAKEUCHI, 1997, pg. 69).

    O amadurecimento do conhecimento do indivduo e do coletivo na empresa

    conduz etapa denominada pelos autores como externalizao, significando o

    processo de articulao do conhecimento tcito em explcito. Trata-se do domnio do

    objeto alvo do conhecimento a ponto de capacitar queles possuidores deste

    conhecimento a faculdade de descrev-lo sob algum tipo de linguagem, facilitando

    ainda mais sua disperso no ambiente de trabalho. Nonaka e Takeuchi descrevem a

    externalizao como segue:

    um processo de criao do conhecimento perfeito, na medida em que o conhecimento tcito se torna explcito, expresso na forma de metforas, analogias, conceitos, hipteses ou modelos. Quando tentamos conceitualizar uma imagem, a expressamos basicamente atravs da linguagem a escrita uma forma de converter o conhecimento tcito em conhecimento articulvel (EMIG, 1983). Entretanto, as expresses muitas vezes so inadequadas, inconsistentes e insuficientes. Essas discrepncias e lacunas entre as imagens e expresses, contudo, ajudam a promover a reflexo e interao entre os indivduos. (NONAKA E TAKEUCHI, 1997, pg. 71).

    Nonaka e Takeuchi descrevem a prxima etapa do desenvolvimento do

    conhecimento considerando que, a partir de sua organizao como explcito, tende a

    interagir com outros conhecimentos explcitos pr-existentes nos outros indivduos

    ou em registros presentes na empresa. A esta etapa os autores denominam

    combinao e assim a descrevem:

    A combinao um processo de sistematizao de conceitos em um sistema de conhecimento. Esse modo de converso do conhecimento envolve a combinao de conjuntos diferentes de conhecimento explcito.

  • 34

    Os indivduos trocam e combinam conhecimentos atravs de meios como documentos, reunies, conversas ao telefone ou redes de comunicao computadorizadas. A reconfigurao das informaes existentes atravs da classificao, do acrscimo, da combinao e da categorizao do conhecimento explcito (como o realizado em bancos de dados de computadores) pode levar a novos conhecimentos. A criao do conhecimento realizada atravs da educao e do treinamento formal nas escolas normalmente assume essa forma. (NONAKA E TAKEUCHI,1997, pg. 75).

    O conhecimento aps plenamente absorvido e diligentemente explicitado

    observado a ser tal como inerente ao indivduo. A esta etapa, Nonaka e Takeuchi

    denominam internalizao.

    A internalizao o processo de incorporao do conhecimento explcito no conhecimento tcito. intimamente relacionada ao aprender fazendo. Quando so internalizadas nas bases do conhecimento tcito dos indivduos sob a forma de modelos mentais ou know-how tcnico compartilhado, as experincias atravs da socializao, externalizao e combinao tornam-se ativos valiosos. (NONAKA E TAKEUCHI,1997, p. 77). Para que o conhecimento explcito se torne tcito, necessria a verbalizao e a diagramao do conhecimento sob a forma de documentos, manuais ou histrias orais. A documentao ajuda os indivduos a internalizarem suas experincias, aumentando assim seu conhecimento tcito. Alm disso, documentos ou manuais facilitam a transferncia do conhecimento explcito para outras pessoas, ajudando-as a vivenciar indiretamente as experincias dos outros (ou seja, reexperiment-las). (NONAKA E TAKEUCHI, 1997, p. 78).

    Os autores japoneses prosseguem descrevendo a criao do conhecimento

    em mbito empresarial utilizando como metfora uma espiral do conhecimento, cuja

    fora motriz a interao contnua e dinmica entre o conhecimento explcito e

    tcito, ora apropriado pelo indivduo e por ele disseminado, ora pelo grupo no qual

    se insere ou atravs de sees, departamentos ou pela empresa inteira. Desta

    forma o conhecimento integra pessoas e incorporado nas aes destas prprias

    pessoas que o mobilizam para os demais setores da organizao. o conhecimento

    que se cria e desenvolve na dimenso epistemolgica, conforme conceituado pelos

    autores e que a dimenso onde se situa o foco da questo examinada pelo

    presente estudo, no que busca focalizar a gnese e o aprendizado do soldador para

    qualificao e permanncia na profisso em construo naval offshore.

  • 35

    2.1.2 A disseminao do conhecimento atravs das comunidades de prtica

    O conceito de espiral do conhecimento explanado por Nonaka e Takeuchi

    busca identificar e detalhar as etapas do processo desenvolvedor da disseminao

    do conhecimento do indivduo para o grupo. observado que este conceito amolda-

    se perfeitamente ao conceito sobre a formao e desenvolvimento das comunidades

    de prtica, que aglutinam indivduos que gravitam em torno de um interesse em

    comum, permeando setores diversos de uma organizao ou mesmo extrapolando

    os limites desta.

    Em artigo publicado em 1998, Etienne Wenger observa que, contrariando a

    afirmativa to freqente nos dias atuais, de que as pessoas constituem o recurso

    mais importante da empresa, as empresas ainda apresentam dificuldades em

    escolher meios a serem empregados para aumentar ou criar o conhecimento

    necessrio para os seus processos. E, da advm o conceito da comunidade de

    prtica, formado por grupos informais e, em sua maioria, distintas das unidades

    organizacionais.

    As comunidades de prtica so formadas por indivduos cujos interesses

    convergem para o mesmo ponto. Um exemplo de comunidade de prtica pode ser o

    grupo com o qual o indivduo aprende os detalhes do seu trabalho, onde ele explora

    o significado do seu trabalho, assim construindo uma imagem da empresa e

    desenvolvendo o seu prprio senso como trabalhador. Em traduo livre, o autor

    define:

    As comunidades de prtica se desenvolvem sobre os assuntos que interessam s pessoas. Como resultado, a prtica delas se reflete no entendimento prprio dos membros sobre o que importante. Obviamente, influncias ou direcionamentos vindos de fora podem influenciar o entendimento, porm, mesmo assim, os membros desenvolvem prticas que se constituem como suas prprias respostas a estas influncias externas. Mesmo quando as aes de uma comunidade esto em conformidade com um direcionamento externo, a comunidade e no o direcionamento que produz a prtica. Neste sentido, comunidades de prtica so sistemas que organizam a si prprios fundamentalmente. (WENGER, 1998).

    Ao longo de uma vida, percebe-se que os indivduos participam de vrias

    comunidades de prtica; ora posicionando-se no ncleo gerador de conhecimento,

    ora posicionando-se na periferia, apenas como observador do movimento.

  • 36

    E. Wenger (1998) esclarece que, o que difere a comunidade de prtica das

    comunidades de interesses ou geogrficas que os membros da primeira unem-se

    atravs das atividades que realizam juntos e do conhecimento adquirido atravs

    deste engajamento mtuo. O autor identifica trs dimenses que caracterizam a

    comunidade de prtica:

    O que ela significa: um agrupamento de pessoas que continuamente

    renegociam o seu significado;

    Como ela funciona: os relacionamentos so percebidos como

    engajamento mtuo que interliga seus membros em uma entidade social;

    Que competncias ela pode produzir: o repertrio compartilhado de

    recursos em comum (rotinas, sensibilidades, artefatos, vocabulrio, estilos,

    etc.) que os membros desenvolvem ao longo do tempo.

    Figura 4 Estrutura de uma comunidade de prtica Fonte: Wenger (1998)

    A comunidade de prtica no se limita interligao dos membros de um

    departamento de uma empresa ou de uma classe de trabalhadores em uma

    organizao. Ela pode se espraiar para alm das fronteiras da organizao, pois se

    define no fazer, medida que os membros desenvolvem, entre eles, seus prprios

    entendimentos a respeito do objeto sobre o qual a prtica existe. Este processo vivo

    resulta em uma definio muito mais rica que um mero rtulo institucional, afirma E.

    Potencial Pessoas vem

    situaes similares sem o benefcio da

    prtica compartilhada.

    Coalescente Pessoas se agrupam e

    reconhecem seus potenciais.

    Ativa Pessoas se engajam no

    desenvolvimento de uma prtica.

    Dispersa Pessoas no se engajam mais de

    forma intensa, mas a comunidade ainda

    est viva como uma fora e centro de conhecimento.

    Memorvel A comunidade no

    existe como ponto central; porm, as pessoas ainda se

    lembram dela como uma parte significativa e

    suas identidades.

    Descobrir uns aos outros,

    Encontrar pontos em comum.

    Explorar conexes, Definir empreitadas

    em comum, Negociar pontos

    em comum.

    Participar de atividadesem conjunto,

    Criar de artefatos, Adaptar para mudar as circunstncias, Renovar

    interesses, comprometimentos e

    relacionamentos.

    Permanecer em contato,

    Comunicar-se, Promover reunies,

    pedir conselhos.

    Contar histrias, Preservar artefatos,

    Colecionar lembranas

    Estgios de Desenvolvimento

    Atividades tpicas

    tempo

  • 37

    Wenger (1998). E esta periferia permevel cria muitas oportunidades para

    aprendizagem.

    Um detalhe importante identificado por Wenger que uma comunidade de

    prtica diferente de uma equipe na qual a aprendizagem compartilhada e o

    interesse de seus membros so os que os mantm unidos. o conhecimento

    propriamente dito que se transforma na argamassa que aglutina pessoas numa

    comunidade de prtica e no as tarefas compartilhadas dos seus componentes. Isto

    percebido claramente, pois, vincula-se a durao da comunidade de prtica ao

    valor conferido por ela aos seus participantes. Portanto, seu incio e fim podem ou

    no coincidir com o incio ou fim de um projeto. A figura 4 sintetiza com clareza os

    estgios de desenvolvimento de uma comunidade de prtica, conforme a viso de

    Wenger.

    As comunidades de prtica so visveis no ambiente de soldagem no tipo de

    empresa como a pesquisada. A etapa do presente estudo referente pesquisa de

    campo registrou este movimento dentro da organizao, onde no s foram

    percebidos elementos disseminadores do conhecimento, mas tambm uma forma de

    tratamento reverente porm no-subserviente por parte daqueles que foram

    beneficiados pela disseminao do conhecimento destes elementos. A expresso

    disseminadores de conhecimento refere-se aos indivduos veteranos na profisso,

    admirados pela comunidade de prtica onde se inserem pela percia atravs da qual

    desenvolvem suas atividades rotineiras. No entanto, este tipo de disseminao de

    conhecimento privilegia apenas a prtica dos costumes, ou seja, o conhecimento

    mecnico do ofcio, sem haver, de forma expressiva, o movimento correspondente

    com a fundamentao no conhecimento terico. Mas, h que se valorizar este tipo

    de movimento, espontneo e eficaz que desenvolve, atualiza e dissemina a riqueza

    do conhecimento nas organizaes e principalmente em organizaes do gnero em

    tela.

  • 38

    2.2 CONHECIMENTO NO MBITO ORGANIZACIONAL

    2.2.1 Definindo conceitos e campos do conhecimento em mbito organizacional

    O Conhecimento em si um tema caro para a filosofia e desde a Antiguidade

    os pensadores buscam defini-lo desde o momento de sua gnese como buscam

    condies para a sua perpetuao na sociedade. No mundo contemporneo, este

    tema vem seduzindo estudiosos da esfera administrativa, uma vez percebida a

    riqueza do conhecimento humano para uma organizao.

    T. D. Wilson, em artigo que discute sobre a densa consistncia conceitual

    abrigada sob o ttulo Gesto do Conhecimento, relatou a pesquisa que fez

    restringindo-se apenas sobre o ttulo contendo a expresso Gesto do

    Conhecimento no site WEB of Science. O resultado foi sintetizado na figura 5.

    Figura 5 Sob o ttulo de Gesto do Conhecimento Fonte: Wilson (2002)

    Sob o ttulo de Gesto do Conhecimento

    N d

    e ite

    ns

  • 39

    Nota-se que o termo comeou a aparecer em 1986 e permaneceu sendo

    utilizado, ainda que de forma inexpressiva at 1996. Entretanto, de 1997 at 2002,

    poca da pesquisa feita pelo autor, o crescimento foi exponencial surpreendendo,

    todavia, em 2002, quando a taxa de crescimento parece diminuir.

    O autor da pesquisa comenta a falta de clareza quando se reflete sobre uma

    anlise quantitativa deste tipo, pois no se sabe exatamente a que assunto a

    expresso se referia exatamente, j que o termo parece no significar a mesma

    idia para todos... Todavia, evidente que antes do crescimento em publicaes

    em 1997, a expresso gesto do conhecimento significava um tipo de aplicao ou

    outra relativa a computadores, cuja influncia era oriunda da noo das bases de

    conhecimento no campo do sistema especialista. A anlise tambm sugere que, no

    incio, havia uma confuso sobre o significado da expresso, j que poucos se

    preocupavam em defini-la. (WILSON, 2002).

    Objetivando definir com clareza os termos ora tratados, esta pesquisa, parte

    do conceito do conhecimento segundo a forma tradicionalmente tratada pela filosofia

    e, posteriormente pela psicologia. Ou seja, o conhecimento inerente ao ser

    humano. talento, capacidade, sensibilidade, memria, todos os atributos que

    capacitam o ser humano a observar, apreender, reter, mesclar com os

    conhecimentos anteriores, utilizar e transformar o comportamento.

    Privilegia-se ento a expresso Conhecimento em mbito Organizacional

    para diferenciar da expresso Conhecimento Empresarial, definio que, na maior

    parte das vezes que utilizada, serve para indicar o conhecimento que produz

    condies para a criao de novos produtos ou a metodologia, informatizada ou no,

    de reteno de informaes.

    Vrios estudiosos do conhecimento em ambiente organizacional asseveram a

    importncia de se distinguir informao e conhecimento. Estes termos so

    comumente proferidos como se fossem sinnimos ou quase. Na verdade, os dois

    termos so revestidos de ambigidade tal que acabam por confundir os

    pesquisadores e, por conseqncia, a utilizao deficiente da informao e precria

    captao do conhecimento em mbito organizacional. Para melhor entendimento,

    distingue-se o conhecimento nas seguintes etapas, inspiradas em modelo

    apresentado por Davenport e Prusak (1999):

  • 40

    1. Dados: conjuntos de fatos distintos e objetivos, relativos a eventos. Num contexto

    organizacional, so registros de movimentaes efetuadas e disponveis para serem

    consultados. Normalmente so armazenados em sistemas e devem ter as seguintes

    qualidades: preciso, disponibilidade, clareza e atualizao. Os dados no exibem

    por si s significado: so apenas descritivos de aes passadas. Demandam

    interpretao, anlise especulativa e julgamento. No fornecem base para tomada

    de ao e sua multiplicidade pode confundir ao invs de esclarecer ou mapear uma

    situao; entretanto, constituem-se como matria-prima para qualquer exame para

    se conseguir uma fotografia precisa sobre o procedimento que se quer alterar ou

    criar e melhor: para a criao da informao.

    2. Informao: documento ou comunicao audvel ou visvel. a transmisso de

    dados de um emitente para o receptor. plena de significado, relevncia e propsito

    fornecidos pelo emitente, que intencionalmente d forma aos dados para atingir o

    objetivo do conhecimento pelo receptor. A informao tem como objetivo alterar a

    viso do receptor sobre a questo que se apresenta. Entretanto, cabe ao julgamento

    do receptor considerar se a informao relevante ou no. Os dados so

    transformados em informao quando so agregados valores.

    3.Conhecimento: O conhecimento est na cabea das pessoas. mistura de vrios

    elementos, intuio, insights, faz parte da complexidade e imprevisibilidade

    humanas. Poder-se-ia definir grosso modo o conhecimento como uma mistura fluida

    de experincia condensada, valores, crenas, informao contextual e insight

    experimentado, a qual proporciona uma estrutura para a avaliao e incorporao

    de novas experincias e informaes.

    Reafirmando a conceituao acima, T.D.Wilson procura detalhar a diferena

    entre conhecimento e informao, uma vez que, na prtica, a ambigidade destes

    dois conceitos se torna um fator de confuso para aqueles que procuram definir o

    que deve ser uma gesto do conhecimento. Segundo este autor, em traduo livre,

    conhecimento se define pelo que sabemos: conhecimento envolve os processos

    mentais de compreenso, entendimento e aprendizagem que penetram na mente e

    somente na mente e, entretanto, envolvem em grande parte a interao com o

    mundo externo e a interao com outros indivduos. Quando se quer expressar o

    que se sabe, pode-se fazer isto somente transmitindo mensagens de uma maneira

  • 41

    ou de outra oral, escrita, grfica, gestual ou at mesmo atravs da linguagem

    corporal.

    2.3 O VALOR DO CONHECIMENTO NA EMPRESA

    2.3.1 Conhecimento traduzido como ativo intelectual O capital intelectual de uma organizao formado por um quantum

    intangvel, cujo valor pode ser observado ao se mensurar e avaliar uma empresa

    verificando-se que o seu valor de mercado excede em muitas vezes o seu valor

    contbil tangvel.

    O capital intelectual compe-se de itens de diversas naturezas, sendo o

    conhecimento humano o componente fundamental, porm no exclusivo. Outros

    itens que compem esta massa intangvel de valor so os relacionamentos com

    parceiros corporativos como fornecedores e clientes, assim como a firmeza e

    eficcia das estruturas internas prprias para a captura, organizao, manuteno,

    disseminao e estmulo ao desenvolvimento do conhecimento produzido na

    empresa e tambm como valores jamais relacionados como tal pela cincia da

    administrao tradicional, tais como a lealdade e comprometimento dos funcionrios.

    O conhecimento corporativo sempre existiu. Produtos oriundos deste

    conhecimento, como marcas e patentes, h muito possuem o amparo legal, sendo

    que no Brasil, atravs do Cdigo de Propriedade Industrial, h a possibilidade de

    pessoas fsicas e jurdicas obterem o privilgio da titularidade destes bens e

    conseqentemente o lucro vindo do licenciamento de patentes, do uso da marca e

    obteno da fidelidade do cliente.

    Portanto, o capital intelectual no nenhuma novidade. A novidade a

    percepo sobre a sua ao perfurante em todas as camadas de uma organizao,

    bem como a percepo de que, como capital que agrega valor, deve ser

    considerado como componente do planejamento estratgico e como propulsor de

    dinmicas que facilitaro a formao de equipes e o compartilhamento da viso na

    empresa.

  • 42

    Mas como reconhecer a existncia deste precioso e intangvel quantum de

    saber em um ambiente corporativo? Como correlacionar o efeito de uma gesto do

    conhecimento de qualidade com o aumento do capital intelectual corporativo e

    inerentes inovaes e incrementaes? Empresas s podem administrar

    eficientemente o conhecimento se buscarem estrutur-lo e formularem ndices

    significativos do estado da base de conhecimento. Milhes so gastos em

    treinamentos e pesquisas sobre tcnicas de facilitao para a aprendizagem

    organizacional. Em proporo inversa, centavos so dispostos para avaliaes do conhecimento empresarial. Esta disparidade deve ser abordada com ateno por empresas que j conquistaram a percepo sobre o capital intelectual que

    encerram em si e que devem, ao longo de uma gesto do conhecimento por

    excelncia, avaliar os seus resultados atravs da criao de indicadores, tanto

    quanto as tcnicas e procedimentos para a captao, reteno e disseminao do

    conhecimento.

    2.3.2 As dimenses do capital intelectual

    2.3.2.1 O capital humano

    A definio do capital humano tem vinculao direta com a idia do

    conhecimento, pois o conhecimento est na cabea das pessoas. mistura de

    vrios elementos, intuio, insights e faz parte da complexidade e imprevisibilidade

    humanas. Poder-se-ia definir grosso modo o conhecimento como uma mistura fluida

    de experincia condensada, valores, crenas, informao contextual e insight

    experimentado, a qual proporciona uma estrutura para a avaliao e incorporao

    de novas experincias e informaes (DAVENPORT; PRUSACK, 1999).

    A empresa que investe em uma dispendiosa e potente estrutura para manter

    e disponibilizar informaes no mbito organizacional, convencida de que est

    investindo na robustez de sua Gesto do Conhecimento, poder ficar desapontada

    se, ao final de algum tempo, o seu investimento no lograr xito. O armazenamento

    e disposio de conhecimentos isoladamente no geram novos conhecimentos,

  • 43

    sejam incrementais ou sejam inovadores, em ambiente corporativo porque

    informao no significa conhecimento. sabido que a conhecida empresa Ernst Young admitiu a perda de cerca de 100 milhes de dlares em investimentos

    equivocados em TI (SVEIBY, 2001).

    Conhecimento processo. Sua natureza dinmica, enquanto a da

    informao estanque. O conhecimento, fora invisvel e intangvel, prov a

    capacidade de agir intelectual e materialmente. Organizaes que identificam o

    conhecimento como valor corporativo, buscam motivar as pessoas para que o

    conhecimento intrnseco seja compartilhado e se transforme em ao. A propsito,

    Oliveira Junior (2001) observa que a funo central da empresa administrar este

    ativo intangvel de forma a otimizar o desempenho organizacional. "O que vai

    determinar o sucesso da empresa a sua eficincia nesse processo de

    transformao de conhecimento existente no plano das idias para o conhecimento

    aplicado no plano das aes, em comparao com a eficincia de outras empresas."

    (KOGUT; ZANDER, 1993 apud OLIVEIRA JNIOR, 2001).

    Segundo Oliveira Jr. (2001) quando se fomenta o processo de aprendizagem

    identificando mecanismos e ferramentas de gesto que facilitem, disseminem e

    permitam que a empresa possua um maior controle sobre o processo,

    concomitantemente se est determinando as formas pelas quais o novo

    conhecimento vai ser criado o conhecimento existente vai ser alterado e como os

    fluxos de conhecimento vo ser transferidos internamente e tambm atravs dos

    limites da empresa.

    2.3.2.2 O Capital Estrutural

    Leif Edvinsson (1998) define o capital estrutural como tudo aquilo que fica na

    organizao quando as pessoas deixam o escritrio e vo embora para casa... O

    Capital estrutural formado pelo capital organizacional (composto por: capital de

    inovao em propriedade intelectual e ativos intangveis, capital de processos

    formalizado em manuais, melhores prticas, recursos na Intranet e capital cultural,

    assente em smbolos e normas que diferenciam); e o capital de 'renovao e

  • 44

    desenvolvimento de valor' (todos os itens que tero um impacto no futuro)

    (RODRIGUEZ Y RODRIGUEZ; FERRANTE, 2000).

    2.3.2.3 O Capital de Relacionamento

    O Capital de relacionamento ou tambm chamado de capital do cliente,

    compe a estrutura externa de conhecimento da organizao com a qual esta faz

    negcios, contemplando os relacionamentos dos seus membros com: Clientes,

    Alianas, Fornecedores, Sociedade. Como exemplo: Qualidade de Fornecedores,

    Parcerias comerciais, benfeitorias comunidade local, parcerias com instituies de

    ensino entre outros (RODRIGUEZ Y RODRIGUEZ; FERRANTE, 2000).

    No haver prosseguimento detalhado sobre este item e o precedente, uma

    vez que os seus escopos no se constituem como relevantes para a presente

    pesquisa.

  • 45

    3 METODOLOGIA

    3.1 CONSIDERAES GERAIS

    Este estudo insere-se na rea da Gesto pela Qualidade Total, na linha de

    pesquisa da Gesto do Conhecimento.

    A presente pesquisa buscou explorar o descompasso entre as exigncias de

    excelncia no resultado final do trabalho dos soldadores qualificados para a

    construo naval / offshore em confronto ausncia de exigncias quanto ao

    conhecimento terico dos mesmos sobre as normas internacionais e nacionais que

    regem o planejamento, as rotinas e os resultados dos trabalhos de soldagem. O

    fenmeno foi analisado atravs das lentes das teorias que versam sobre a Gesto

    do Conhecimento em mbito organizacional e o aspecto exploratrio e conclusivo foi

    buscado atravs dos depoimentos dos profissionais de vrios nveis e funes que

    atuam neste ambiente.

    O presente trabalho trata-se de um estudo de caso, cujo ambiente da

    pesquisa foi o canteiro de obras uma empresa tpica do citado segmento na cidade

    de Niteri, Estado do Rio de Janeiro. Nesta cidade esto localizadas algumas das

    mais importantes empresas do pas que, nos ltimos anos, vm recebendo as

    encomendas da Petrobras para a construo e montagem de plataformas de

    diversos tipos destinadas os trabalhos de extrao de petrleo em guas profundas.

    Seguem os nomes de algumas das empresas do gnero, cujos canteiros de obras

    situam-se em Niteri, beirando a Baa de Guanabara: Estaleiros Mau-Jurong,

    MacLaren, Aker Promar, UTC Engenharia, entre outras.

    importante ressaltar que a maior parte da mo-de-obra responsvel pela

    construo e montagem na indstria naval / offshore contratada por projeto. Isto

    significa que nos perodos de picos do desenvolvimento da construo destes

    projetos, alguns milhares de homens circulam pelos canteiros das empresas e

    estaleiros. Quando o projeto finalizado, se a empresa no estiver imediatamente

    engajada em outro projeto das mesmas propores, estes trabalhadores sero

    naturalmente demitidos e partiro para se encaixar em outros projetos, soldadores

    includos.

  • 46

    Quando a presente pesquisa de campo foi executada, a empresa em questo

    havia finalizado os trabalhos de construo de uma plataforma para a Petrobras e

    passava por obras de construo civil, objetivando de fazer melhorias em suas

    instalaes antes de iniciar os trabalhos em uma nova plataforma. Enquanto isto,

    manteve uma equipe de 45 soldadores de modo a atender a um contrato com outra

    empresa do ramo, que envolvia servios de soldagem para a montagem de outra

    plataforma em um estaleiro da vizinhana.

    3.2 A ESCOLHA DO ESTUDO DE CASO COMO ESTRATGIA PARA O

    DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA

    Conforme o pensamento de Yin (2005) introduzindo o conceito de estudo de

    caso, ...os estudos de caso representam a estratgia preferida quando se colocam questes do tipo como e por que, quando o pesquisador tem pouco controle sobre os acontecimentos e quando o foco se encontra em fenmenos contemporneos inseridos em algum contexto da vida real. Pode-se complementar esses estudos de casos explanatrios com dois outros tipos estudos exploratrios e descritivos. (YIN, 2005, pg. 19).

    O autor prossegue nas explanaes sobre a metodologia de estudo de caso

    ser a mais adequada para a conduo de pesquisa sobre fatos onde o pesquisador

    no tem o controle sobre o ambiente, porm deseja aprofundar a sua observao

    sobre um fenmeno pertencente s classes individuais, organizacionais, sociais,

    polticos e de grupo como demonstra o trecho a seguir.

    Em todas essas situaes, a clara necessidade pelos estudos de caso surge do desejo de se compreender fenmenos sociais complexos. Em resumo, o estudo de caso permite uma investigao para se preservar as caractersticas holsticas e significativas dos acontecimentos da vida real. (YIN, 2005, pg. 20).

    Faz-se necessrio neste momento distinguir o conceito de estudo de caso

    segundo o carter de sua finalidade. comum, nas reas de administrao, a

    utilizao de estudos de caso como recursos de ensino. Para esta finalidade,

    [...] um estudo de caso no precisa conter uma interpretao completa ou acurada de eventos reais; em vez disso, seu propsito estabelecer uma estrutura de discusso e debate entre os estudantes. Os critrios para

  • 47

    desenvolver bons casos para ensino cuja variedade, em geral, de caso nico e no de casos mltiplos so bem diferentes dos critrios para realizar pesquisa [...]. Os estudos de caso que se destinam ao ensino no precisam se preocupar com a apresentao justa e rigorosa de dados empricos; os que se destinam pesquisa precisam fazer exatamente isso. (YIN, 2005, p. 20-21).

    A partir de o reconhecimento do tratamento do problema enunciado

    presentemente como estudo de caso, mister considerar a distino dos tipos de

    estudo de caso e as estratgias de pesquisa. Ao distinguir estudos de caso dos tipos

    exploratrio, descritivo ou explanatrio e concomitantes tipos de estratgias, cujas

    caractersticas definem a conduo e a identidade da pesquisa, o autor adverte a

    respeito da possibilidade de sobreposies das mesmas caractersticas de

    estratgia, uma vez que os limites entre estas ou as ocasies em que cada uma

    usada nem sempre so claros e bem-delineados.

    O quadro a seguir significa uma orientao simplificada de Yin (2005) sobre

    as condies a serem observadas sobre as estratgias onde as primeiras consistem:

    a) no tipo de questo de pesquisa proposta;

    b) na extenso de controle que o pesquisador tem sobre eventos comportamentais

    atuais;

    c) no grau de enfoque em acontecimentos contemporneos em oposio a

    acontecimentos histricos.

    Estratgia Forma da questo

    de Pesquisa

    Exige controle sobre eventos

    comportamentais?

    Focaliza acontecimentos

    contemporneos?

    Experimento Como, por que Sim Sim

    Levantamento

    Quem, o que,

    onde, quantos,

    quanto

    No Sim

    Anlise de

    arquivos

    Quem, o eu, onde,

    quantos, quanto No Sim/No

    Pesquisa histrica Como, por que No No

    Estudo de caso Como, por que No Sim

    Quadro 1 Situaes relevantes para diferentes estratgias de pesquisa Fonte: Yin (2005).

  • 48

    A chave para diferenciar as vrias estratgias de pesquisa identificar

    precisamente a questo de pesquisa que est sendo apresentada.

    Ora, no caso da presente pesquisa, a questo problematizada pela

    discrepncia existente entre a licitude da qualificao de soldadores conseguida

    atravs de somente prova prtica por um lado; em confronto ao silncio das normas

    internacionais e nacionais face necessidade de os trabalhadores adquirirem um

    quantum mnimo de conhecimento terico sobre a soldagem, exigiu a observao

    criteriosa sobre a documentao e registros da rea de soldagem, a identificao

    dos principais atores deste setor na empresa escolhida, que por sua vez forneceram

    depoimentos devidamente registrados sobre a questo enunciada. Os resultados

    das pesquisas em suas diversas etapas foram analisados segundo as lentes das

    teorias da Gesto do Conhecimento em mbito empresarial e, sendo pesquisa

    exploratria, a sobreposio das estratgias citadas foi percebida com naturalidade.

    Em vista do exposto acima, fcil perceber que a presente pesquisa fartou-

    se da sobreposio de algumas estratgias acima delineadas para concentrar-se na

    estratgia de estudo de caso, que foi eleita como mtodo mais o adequado ao tema,

    visto que as indagaes como e por que foram mais precisas para explorar o

    problema enunciado. Alem disto, a eleio deste mtodo de pesquisa foi adequado,

    dado que houve a identificao da necessidade de se explorar o ambiente onde

    ocorre o fenmeno foco da pesquisa, sem entretanto haver considerao sobre

    qualquer tipo de controle sobre este.

    Voltando s elucidaes de Yin (2005) sobre estudo de caso, h a

    preocupao da anlise do ambiente assim como se expe, acolhendo os relatos e

    as impresses da decorrentes, sem haver a possibilidade de haver o controle sobre

    os fenmenos, que so observados de forma direta, o que pode ser exemplificado

    pela explanao que segue do j citado autor:

    O estudo de caso a estratgia escolhida ao se examinarem acontecimentos contemporneos, mas quando no se podem manipular comportamentos relevantes. O estudo de caso conta com muitas das tcnicas utilizadas pelas pesquisas histricas, mas acrescenta duas fontes de evidncias que usualmente no so includas no repertrio de um historiador: observao direta dos acontecimentos que esto sendo estudados e entrevistas das pessoas neles envolvida. Novamente, embora os estudos de casos e as pesquisas histrias possam se sobrepor, o poder diferenciador do estudo de caso a sua capacidade de lidar com uma ampla variedade de evidncias documentos, artefatos, entrevistas e observaes alm do que pode estar disponvel no estudo histrico convencional. (YIN, 2005, pg. 26).

  • 49

    Considerando-se que o mtodo de estudo de caso como estratgia de

    pesquisa, ateno dever ser dada ao seu escopo. Sendo o estudo de caso uma

    investigao emprica que busca identificar e apreender os aspectos do fenmeno

    analisado dentro do seu prprio contexto na vida real e, considerando que o tal

    contexto possa apresentar contornos no claramente definidos, a investigao do

    fenmeno sobre o qual se elabora o estudo de caso poder se deparar com muito

    mais variveis de interesse do que pontos de dados, sendo fenmeno e contexto

    nem sempre identificveis. Portanto, a investigao do estudo de caso envolve uma

    estratgia de pesquisa abrangente.

    3.3 COMPONENTES DE UM PROJETO DE PESQUISA

    Yin (2005) esclarece que os dados a serem coletados para compor um

    projeto de pesquisa devero ser norteados pelos itens que seguem abaixo.

    1) pelas questes de estudo; 2) por suas proposies, se houver; 3) por suas unidades de anlise; 4) pela lgica que une os dados s proposies; 5) pelos critrios para a interpretao das constataes. (Yin, 2005, pg. 42)

    As questes de estudo, esboadas sucintamente no item acima, se referem

    s indagaes compreendidas por como e por que relativas ao problema

    identificado sobre o hiato entre o conhecimento exigido ao soldador no momento do

    seu teste de qualificao e o conhecimento terico que far parte de sua rotina

    diria, sobre o qual no se relata episdios de treinamentos constantes dentro das

    empresas.

    As proposies que orientaram a trajetria da presente pesquisa apontaram a

    indagao e posterior evidncia trazida pelos depoimentos dos entrevistados sobre

    a necessidade criar movimentos de vrias espcies que fossem capazes de forjar o

    preenchimento desta lacuna de conhecimento terico apresentada pelos soldadores.

    As unidades de anlise foram formadas por dois grupos: o primeiro formado

    pelo grupo de soldadores contratados pela empresa poca da pesquisa. O

    segundo grupo de unidade de anlise foi composto por vrios profissionais portando

  • 50

    diferentes nveis de conhecimento e diferentes graus de responsabilidade no

    sistema organizacional da empresa analisada sendo que, todos desempenhando

    funes expressivas na rea de soldagem. O ponto forte da coleta de dados

    referente aos dois grupos obedeceu a etapas distintas, envolvendo entrevistas e o

    preenchimento de um questionrio.

    Aps o cumprimento das etapas acima, a ligao dos dados a proposies e

    os critrios para a interpretao das constataes constituram-se na etapa

    finalizadora do trabalho, onde as evidncias delineadas pela coleta de dados foram

    tratadas e analisadas luz de critrios tericos baseados em autores clssicos da

    Gesto do Conhecimento em mbito empresarial.

    3.4 COLETA DE DADOS E PERFIL DO PESQUISADOR

    3.4.1 Composio das habilidades desejveis para um pesquisador de estudo de caso Em prosseguimento orientao conferida por Yin (2005) sobre a presente

    estratgia de pesquisa, relevante citar os comentrios deste autor sobre a

    complexidade das tcnicas que modelam o corpo de procedimentos tcnicos que

    formaro um estudo de caso e porque as exigncias que um estudo de caso faz em

    relao ao intelecto, ao ego e s emoes de uma pessoa so muito maiores do que

    aqueles de qualquer outra estratgia de pesquisa.

    De preferncia, necessrio um pesquisador bem-treinado e experiente para conduzir um estudo de caso de alta qualidade devido contnua interao entre as questes tericas que esto sendo estudadas e os dados que esto sendo coletados. Durante a fase de coleta de dados somente um pesquisador mais experiente ser capaz de tirar vantagem de oportunidades inesperadas, em vez de ser pego por elas e tambm para ter cuidado suficiente para se proteger de procedimentos potencialmente tendenciosos. (YIN, 2005, p. 82 e 83).

    Das habilidades esperadas de um bom pesquisador de estudo de casos,

    pode-se listar as seguintes: Ser capaz de fazer boas perguntas - e interpretar as respostas;

  • 51

    Ser um bom ouvinte e no ser enganado por suas prprias ideologias e preconceitos;

    Ser adaptvel e flexvel, de forma que as situaes recentemente encontradas possam ser vistas co oportunidades, no ameaas;

    Ter uma noo clara das questes que esto sendo estudadas;. Ser imparcial em relao a noes preconcebidas. (grifos de YIN,

    2005, pg. 83). Um bom pesquisador deve possuir uma mente indagadora durante a coleta

    de dados. A coleta de dados segue um plano formal; porm, as informaes que

    emergem da pesquisa so totalmente imprevisveis. O bom pesquisador precisa ser

    orientado para fazer boas perguntas, que por sua vez, iro capturar boas e ricas

    respostas, que forjaro outro naipe de perguntas que, por fim, traro ao pesquisador

    uma fotografia acurada do objeto da pesquisa.

    Em conjunto s qualidades dispostas acima, o bom ouvinte ideal aquele que

    escuta as palavras exatas utilizadas, captura o humor e os componentes afetivos e

    compreende o contexto a partir do qual o entrevistado percebe o objeto da

    pesquisa.

    A adaptabilidade e flexibilidade e a clareza sobre o tema em pesquisa

    conforme os itens enunciados por Yin acima, significam que o pesquisador necessita

    ter sempre em mente a idia clara do objeto sobre o qual busca as informaes; e

    saber, quando a ocasio assim o determinar, ser flexvel o suficiente para entender

    que a entrevista toma contornos que extrapolam os limites da pesquisa e deter a

    habilidade para retornar ao cerne da pesquisa.

    Todas as consideraes acima somadas so iguais em importncia

    advertncia sobre a ausncia de vis. Toda a pesquisa poder estar maculada se

    houver, no intelecto do pesquisador, posies rgidas e pr-concebidas sobre o

    objeto do estudo.

    3.4.2 O Protocolo para o estudo de caso

    O protocolo para a elaborao da coleta de dados para um estudo de caso

    o meio para se garantir a confiabilidade da pesquisa e tem o papel de orientar o

    pesquisador a coletar os dados necessrios.

  • 52

    Um protocolo para a orientao do pesquisador ou de uma equipe de

    pesquisadores dever ser formado, segundo Yin (2005), das seguintes sees:

    Uma viso geral do projeto do estudo de caso (objetivos e patrocnios do projeto, questes do estudo de caso e leituras importantes sobre o tpico que est sendo investigado).

    Procedimentos de campo (apresentao de credenciais, acesso aos locais do estudo de caso, fontes gerais de informaes e advertncias de procedimentos).

    Questes do estudo de caso (as questes especficas que o pesquisador do estudo de caso deve manter em mente ao coletar os dados, planilha para disposio especfica de dados e as fontes em potencial de informaes ao se responder cada questo).

    Guia para o relatrio do estudo de caso (esboo, formato para os dados, uso e apresentao de outras documentaes e informaes bibliogrficas). (YIN, 2005, pg. 94).

    Os itens discriminados acima foram atendidos de maneira simples e objetiva.

    Sobre o primeiro item, a etapa da pesquisa de campo sucedeu ao perodo de

    exaustivos estudos tericos, devidamente evidenciados pelo referencial bibliogrfico

    ao final deste trabalho, o que garantiu pesquisadora bastante segurana ao

    conduzir as entrevistas. O segundo, foi facilitado pelo fato de que, poca da

    pesquisa de campo, a pesquisadora estava trabalhando no setor de Controle e

    Garantia da Qualidade de um dos projetos da empresa em foco e contava com a

    aquiescncia da ltima para concretizar as pesquisas. Portanto, houve expressiva

    reduo de algumas formalidades tais como apresentao de credenciais, etc.

    antecedendo a realizao das entrevistas e distribuio dos questionrios. O quarto

    item atende aos critrios obrigatrios para emisso deste tipo de documento

    cientfico, conforme orientao da Universidade Federal Fluminense.

    Sobre o terceiro item discriminado por Yin (2005) acima, a pesquisadora

    apresentava-se diante de cada entrevistado munida de um pequeno gravador e fitas

    que foram gravadas e, em seguida, transcritas. No item seguinte ser abordado o

    tema especfico sobre a coleta de dados ressaltando a forma da conduo das

    entrevistas, o comportamento da pesquisadora e o tratamento dispensado s

    entrevistas registradas.

  • 53

    3.4.3 Fontes de informao e coleta de evidncias

    Foram destacadas por Yin (2005) seis importantes fontes de evidncias a

    serem utilizadas na elaborao de um estudo de caso:

    Documentos;

    Registros em arquivos;

    Entrevistas;

    Observao direta;

    Observao participante;

    Artefatos Fsicos.

    O citado autor esclarece que nenhuma fonte nica possui uma vantagem

    indiscutvel sobre as outras. ideal que se esgotem todas as possibilidades de

    pesquisa no sentido de formar o mais acurado quadro de evidncias sobre a

    questo que est sendo analisada.

    No presente estudo, foram descartadas as possibilidades de utilizao das

    trs ltimas fontes discriminadas acima: observao direta, observao participante,

    artefatos fsicos por no se aplicarem ao enfoque sobre a questo.

    3.4.3.1 Sobre a documentao e os registros consultados

    A extensa pesquisa bibliogrfica foi atenta e articuladamente comentada no

    captulo anterior, sobre a reviso da literatura. Alem do material terico responsvel

    pela sustentao deste estudo de caso, foram consultados tambm jornais, revistas

    impressas e eletrnicas que faziam referncias indstria naval / offshore e, por

    conseguinte, constantemente apontaram a questo da iminente falta de mo-de-

    obra qualificada. Um exemplo disto encontra-se copiado no Anexo B deste trabalho.

    Quanto documentao sobre soldagem, detalhada e diversificada em

    qualquer empresa que atenda aos requisitos das normas nacionais e internacionais

    sobre o assunto. Alm disso, a documentao de soldagem na empresa pesquisada

    encontrava-se corretamente arquivada, catalogada e disponvel, conforme perfeito

    atendimento norma ISO 9001, requisito obrigatrio no qual a empresa em foco

  • 54

    encontrava-se devidamente qualificada. Foram inseridos no Anexo A do presente

    trabalho exemplos dos diferentes tipos de documentos e registros de dados que

    fazem parte da rotina dos trabalhos de soldagem nas empresas do gnero.

    Foi constatada a acessibilidade e disponibilidade dos documentos e registros

    concernentes disciplina e mo-de-obra relativas aos trabalhos de soldagem, que

    foram devidamente examinados. Foram observados os documentos que envolviam

    instrues e orientaes para os trabalhos de soldagem e a pesquisadora constatou

    que, luz do referencial terico que conduzia a pesquisa, esta documentao no

    se fazia relevante para ser especialmente comentada, uma vez que o escopo da

    presente pesquisa no aborda os contornos tecnolgicos da disciplina de soldagem.

    Ao examinar os registros de desempenho de soldador (modelo do qual foi

    inserido no Anexo A do presente trabalho), esta pesquisadora constatou que os

    dados ali presentes obedeciam apenas ao critrio quantitativo concernente s

    descontinuidades e/ou no-conformidades apresentadas por cada soldador durante

    um perodo. Ou seja, lamentavelmente, este tipo de registro apresenta de forma

    somente quantitativa e acumulativa o percentual de soldas reprovadas,

    rigorosamente comprovadas por Rx durante perodos semanais, o que ir formar o

    ndice de reparos de solda. Entretanto, nada, nenhum comentrio existe sobre a

    identificao das causas dos erros cometidos pelos indivduos soldadores, erros

    estes representados nos registros de desempenho.

    Portanto, os documentos propriamente especficos de soldagem relativos ao

    grupo de soldadores foco da presente pesquisa no foram computados porque sua

    estrutura e contedo no trazem qualquer indicao sobre a natureza das

    descontinuidades da solda. Isto significa que os dados evidenciados no indicam se

    tais descontinuidades foram causadas por falta de conhecimento do indivduo sobre

    a matria ou por uma distrao ou algum desconforto fsico experimentado pelo

    indivduo e consequentemente prejudicou o manuseio do instrumental de soldagem

    ou at por outros motivos tais como uma intemprie repentina ou uma falha sbita

    no equipamento de soldagem. Ou seja, os documentos apontam descontinuidades e

    fornecem clara indicao sobre o quantum a ser disponibilizado com relao a

    recursos humanos, materiais para utilizao no retrabalho e definitivamente aponta

    os indivduos que devero ser advertidos ou at demitidos, se percentual for alm da

    tolerncia planejada. Entretanto, ao se calarem sobre as causas das

    descontinuidades, no podero ser utilizados como instrumento para sinalizar o

  • 55

    caminho a ser percorrido pelo profissional de soldagem visando o refinamento e

    melhoria de qualidade da execuo da solda.

    3.4.3.2 Entrevistas

    Yin (2005) assegura que a entrevista se constitui em uma das mais

    importantes fontes de informao, considerando-a como fonte essencial de

    informao para estudo de caso.

    O estudo preocupou-se inicialmente em esboar o cenrio onde acontecem

    as atividades de soldagem, conforme descries extradas em entrevistas com

    vrios profissionais, em diversos nveis de qualificao, de competncia e de tempo

    de experincia no setor. As entrevistas foram gravadas, sob a aquiescncia prvia

    dos entrevistados e posteriormente transcritas. Devido extenso do material

    conseguido, foram utilizados extratos das entrevistas ilustrando a argumentao do

    presente trabalho.

    Aos profissionais entrevistados, todos eles ligados diretamente s atividades

    de soldagem e aos soldadores, foram solicitadas opinies sobre:

    a) A questo da exigncia somente do teste prtico para a qualificao dos

    soldadores;

    b) O que este fenmeno acarreta em termos de dificuldades e outras

    particularidades;

    c) Como enxergam o nvel de qualidade apresentado pelos soldadores

    atualmente nas obras, visto que o fenmeno do ressurgimento da indstria

    naval / offshore se deu em passos gigantescos nos ltimos cinco anos e, a

    julgar pelas informaes do noticirio nacional, esta indstria tende a

    requisitar mais e mais este tipo de trabalhador altamente qualificado.

    d) Quais os tipos de erros so normalmente cometidos pelos soldadores,

    gerados principalmente pela ausncia de conhecimento terico;

    e) Qual a opinio que detm sobre a exigncia apenas do teste prtico para

    a qualificao;

  • 56

    f) Os profissionais entrevistados foram: alguns soldadores escolhidos

    aleatoriamente e outros profissionais de diferentes nveis de conhecimento

    e responsabilidades na empresa sendo suas funes diretamente ligadas

    aos trabalhos de soldagem.

    Um encarregado de soldagem (responsvel por dar ordens, orientar e

    corrigir o trabalho dos soldadores no local da soldagem) h 35 anos

    trabalhando em soldagem como soldador ou encarregado, sendo os

    ltimos 20 anos apenas como encarregado. A escolha deste indivduo

    entre os encarregados foi aleatria. A pesquisa foi favorecida pelo fato

    de ser um trabalhador com longa carreira no ramo.

    Um Inspetor de Solda Nvel I, contratado pela empresa em tela, h 23

    anos trabalhando em soldagem, sendo os ltimos 8 anos qualificado

    como Inspetor de Solda Nvel I. Qualificou-se tambm como

    especialista em ensaios no-destrutivos nos processos de Ensaio por

    Lquido penetrante, por partcula magntica e visual de solda. Este

    Inspetor N1 acompanhou todos os trabalhos do grupo de soldadores

    apontado neste estudo.

    Um Inspetor de Solda Nvel I contratado por empresa terceirizada

    fornecedora de servios, h 30 anos trabalhando em rea naval.

    tcnico de estrutura na indstria naval e qualificou-se como Inspetor de

    Solda Nvel I, Inspetor de Ensaios No-Destrutivos nas modalidades:

    Lquido Penetrante e Ultra-Som.

    Um tcnico de soldagem (tem conhecimento terico e atua junto aos

    demais especialistas em soldagem e o engenheiro de produo) h 35

    anos trabalhando em soldagem, sendo os 10 primeiros como soldador.

    Posteriormente foi qualificado como Inspetor de Soldagem, fez vrios

    cursos nesta disciplina. No passado exerceu as funes de soldador,

    supervisor e atualmente tcnico de soldagem. Este profissional

    contratado pela empresa e tambm foi o responsvel em sua rea

    pelos trabalhos do grupo de soldadores em questo.

    Um Inspetor Nvel II, prestador de servios para a empresa poca da

    pesquisa. Responsvel pela elaborao da orientao terica

    especfica para os processos de soldagem.

  • 57

    Um engenheiro gerente de produo, formado em engenharia de

    metalurgia em 1976. Especialista em soldagem na Inglaterra pelo Weld

    Institute, Cambridge, em 1977. Mestrado e Doutorado na USP.

    Qualificado pela TV para soldagem de equipamentos do circuito

    primrio em Usinas Nucleares. Este profissional o nico de sua

    especialidade na empresa com neste nvel de conhecimento sobre

    soldagem e foi solicitado, na entrevista, a expor o seu ponto de vista

    como profissional de sua categoria e como professor.

    Um engenheiro, gestor da empresa pesquisada, h 27 anos no

    segmento naval offshore, tendo exercido funes tambm na rea

    petroqumica, planta de montagem. Este profissional foi solicitado a

    fornecer o seu depoimento sobre a questo da pesquisa visando trazer

    o ponto de vista empresarial.

    Alguns soldadores foram escutados a respeito do ingresso na

    profisso, se sentiam dificuldades por no terem recebido o

    conhecimento terico entre outros comentrios que foram permitidos a

    serem feitos, sem direcionamento rgido da entrevista. Estes

    soldadores foram escolhidos aleatoriamente.

    Na segunda fase do trabalho, foi distribudo somente aos soldadores um

    questionrio formulado com o objetivo de esboar um perfil contendo informaes

    sobre faixa etria, local de origem, grau de escolaridade, origem do conhecimento

    profissional, indicaes sobre os desejos de cada um sobre o progresso profissional,

    amor pela profisso e necessidades de mais conhecimento para desempenhos com

    maior nvel de excelncia. Uma cpia deste questionrio est exposta no Apndice.

    O Questionrio foi preenchido por 42 soldadores, perfazendo 93,33% do total

    de soldadores empregados pela empresa poca da pesquisa, todos eles

    qualificados nos processos de soldagem na especialidade de eletrodo revestido ou

    na especialidade TIG. Cabe esclarecer que a concentrao de soldadores

    qualificados somente nestes dois processos de soldagem foi porque somente estes

    processos eram necessrios para atender s necessidades da empresa poca da

    presente pesquisa.

    Os resultados do questionrio foram dispostos em estatsticas nas forma de

    grficos de pizza ou de barras so comentados no captulo IV a seguir.

  • 58

    3.5 PRINCIPAIS DIFICULDADES NA ELABORAO DO ESTUDO DE CASO

    As dificuldades principais originaram-se da questo de no haver divulgao

    de estudos abordando o prisma da criao e desenvolvimento do conhecimento de

    operrios dentro dos canteiros de obras, provavelmente devido ao ressurgimento

    recente do segmento da indstria naval offshore no pas.

    A questo particular do foco principal da pesquisa, sobre o conhecimento do

    soldador, houve a dificuldade de encaix-lo nas atuais teorias de administrao

    sobre recursos humanos e especialmente sobre a gesto do conhecimento, uma vez

    que se situa no fato de que o conhecimento que rege as atividades da soldagem

    pr-existente, em forma de normas tcnicas internacionais e nacionais, cujo

    atendimento obrigatrio. Portanto, o conhecimento, em tese, no criado, mas

    descoberto, revelado a cada esforo individual daquele que quer ingressar ou

    aprimorar-se na profisso.

    As principais dificuldades encontradas na elaborao da presente pesquisa:

    Falta de estatsticas ou outras pesquisas sobre o conhecimento e o

    comportamento deste profissional em canteiros de obras.

    Dificuldade no acesso documentao registrando a mensurao dos

    gastos com reparos, homens/horas, desperdcio de material e agresso

    ambiental, por serem informaes estratgicas e privadas ou no-

    existentes.

    A natureza voltil dos empregos no segmento de construo naval / offshore,

    conforme comentado anteriormente, favorece sobremaneira a mobilidade da mo-de-

    obra qualificada pelos canteiros de obras e estaleiros do pas. Isso quer dizer que o

    trabalhador que fazia parte da empresa pesquisada poca deste estudo, hoje ou

    amanh poder (ou no!) estar trabalhando em canteiros de outras empresas do gnero.

    Isto significa tambm que as respostas e informaes obtidas revelam um panorama que

    no se apresenta exclusivamente na empresa focalizada.

    Em suma, os procedimentos adotados permitiram que a pesquisadora elaborasse

    algumas generalizaes analticas que foram suficientes para a anlise do material

    reunido e montagem das diretrizes.

  • 59

    4 ANLISE E DISCUSSO DOS RESULTADOS

    4.1 INTRODUO

    interessante perceber que a literatura especfica sobre a gnese do

    conhecimento em mbito empresarial farta no que tange ao conhecimento relativo

    adaptao do indivduo ao ambiente, fato que cria condies para a socializao e

    o amadurecimento profissional que capacita o indivduo a dominar perfeitamente o

    objeto de sua produo e at produzir inovaes. Entretanto, este no o caso

    analisado. Embora as descries sobre o ato de conhecer conforme conceituaes

    dos autores Schn e Nonaka e Takeuchi privilegiem o conhecimento oriundo da

    experincia individual, como seria fcil de ser observado no caso da aprendizagem

    do soldador, a grande diferena que existem normas rgidas e prescritivas que

    regem todo o trabalho de soldagem na rea naval offshore.

    O conhecer-na-ao e posterior reflexo-na-ao, conceitos to bem

    elaborados por Schn cabem como uma luva nas descries de alguns soldadores

    que foram ouvidos. Por exemplo:

    Olha... Eu acho que desenvolver mais s depende da fora da pessoa. A soldagem tem, assim, uma malandragem da soldagem. Tem umas manhas que a pessoa tem que a soldagem sai at mais legal. A maioria no tem ningum que trabalha igual ao outro. No tem um soldador que trabalhe igual ao outro. Mas o cara para ficar bem na soldagem tem que estar, assim, com a profisso bem alta, uns sete anos, uns dez anos... A o cara j est bem na soldagem. Est bem safo. J sabe o que ele vai fazer, j sabe qual a posio que vai fazer... que tem vrios tipos de trabalhos com isso a... Ento, agora eu me sinto que estou mesmo na soldagem... J estou h trs anos na soldagem sem parar, e agora estou sentindo que estou me desenvolvendo melhor ainda... Mas depende muito de mim, se eu querer fazer algum trabalho, se eu querer acabar com a hora, depende muito de mim e tambm das mquinas... (Valcir C. Silva, soldador qualificado h trs anos).

    Outro depoimento semelhante:

    Um soldador que trabalhou aqui, um colega meu, que me perguntou se eu queria aprender a profisso e a ele ia me ensinar. Eu disse: Eu quero. Ele falava Procura ver direitinho o que estou fazendo e a ento voc vendo voc vai aprender o bsico at voc pegar na ferramenta. A eu trabalhava at meio-dia, almoava, quando era meio-dia e meia eu j estava l junto

  • 60

    com ele, treinando. Ele me ajudava todo dia [durante] meia hora. A eu fui pegando prtica, at fazer sozinho. A eu aprendi a profisso. (Luis Carlos dos Santos Filho, qualificado como soldador h trs anos).

    O comentrio a seguir ilustra bem o comportamento de um soldador j

    qualificado, que quer se desenvolver na profisso e atualmente treina para conseguir

    mais uma qualificao.

    Eu olho as pessoas. Eu coloco a minha lente e olho o cara que est fazendo. Eu vou observando e vou tentar fazer tambm. Agora eu estou treinando at no argnio a. J estou saindo legal, estou sentindo que estou melhorando, a cada dia que passa eu sinto que estou gostando mais... Porque, nos primeiros dias voc no gosta. Voc apanha, d vontade de largar tudo, abandonar, no d certo... questo de pacincia. A, voc vai indo e vai passando a gostar. A, no momento que voc vai passando a gostar de fazer aquilo, voc vai aprendendo mais. A depois, voc vai indo, vai indo at que chega a ser um profissional, igual a muitos que tm a, tem muito cara bom a, profissional... Muita gente boa mesmo nos trabalhos de soldagem. Ento, o cara que faz, a gente olha. Eu no acho feio no, voc olhar uma pessoa fazer uma solda bonita... No vergonha para ningum. Sempre eu gosto de olhar o cara que faz uma raiz numa [solda] TIG. Isso a eu tambm estou praticando. A um chega e diz: Tem que fazer assim e pra mim uma beleza. (V.S., qualificado como soldador h trs anos).

    Com clareza percebe-se o incio da aprendizagem pelo processo conhecer-

    na-ao e posteriormente o aperfeioamento ou extenso do conhecimento para

    outros processos, estando o indivduo se apercebendo a cada instante das novas

    dificuldades causadas pelos materiais e tcnicas desconhecidos por ele. Esta etapa

    equivaleria ao estgio da reflexo-na-ao, moldado pelo incio da espiral do

    conhecimento, onde se percebe o fenmeno da socializao.

    Mas, por que o candidato a soldador ou soldador em busca de

    aperfeioamento precisa comear do zero, se existem uma estrutura slida, rgida e

    explcita formada pelas normas nacionais e internacionais, que trazem como ponto

    bsico, conhecimentos inerentes soldagem como a simbologia e a terminologia

    prprias?

    Schn tece um brilhante comentrio quando afirma que aprender uma prtica

    por conta prpria tem a vantagem da liberdade liberdade para experimentar sem

    os limites das vises recebidas de outros. Porm, este comentrio no se aplica no

    caso presente, simplesmente porque ao soldador no conferida a liberdade de

    criar. Como j dito vrias vezes acima, as normas so rgidas e meticulosamente

    projetadas com limites estreitos de tolerncia. No h o que criar; h diretrizes,

  • 61

    documentos como IEIS, espalhados pelo canteiro de obras direcionando as

    instrues precisas que devem ser seguidas sem discusses. E, importante

    ressaltar que o prprio Schn conclui o pensamento acima afirmando que aprender

    por conta prpria, oferece a desvantagem de exigir que cada aluno reinvente a

    roda, ganhando pouco ou nada da experincia acumulada de outros. (SCHN, pg.

    39). O trecho a seguir extrado de uma das entrevistas com os soldadores ilustra

    bem a percepo dos trabalhadores quanto questo:

    - Quando voc recebe uma instruo, voc sabe que tem que cumprir risca, porque a soldagem muito rgida e no permite criar. Voc se sente mal com isso? - No, no sinto no. Porque eu penso que se estou num troo que vai ser bom para mim, eu at concordo com a pessoa. Se no for bom para mim fazer, ento a gente fica um pouquinho chateado porque... Voc quer fazer uma coisa sem precisar de se matar muito e fazer o contrrio do que se manda fazer... A fica ruim, o cara fica chateado, mas se tem que fazer ele vai fazer. Porque a soldagem, a gente que fica fazendo que tem que escolher o ritmo que faz. No pode ser o encarregado que vem e diz Ah, voc tem que fazer isso, voc tem que fazer aquilo... Se voc vai fazer a solda em algum lugar a, pode ser um lugar apertado, voc tem que procurar um jeito. Deitado de um lado, levantado de outro, caar recursos... A soldagem tem que ser feita com muita tranqilidade, o pessoal tem que ser muito calmo. Se a pessoa for nervosa no vai conseguir soldar nada. Comea a tremer e no sai nada de bom. Soldagem tem que usar a tranqilidade, um jeito, um jeito de soldar. (V. C. S., Soldador qualificado h trs anos.).

    E, de volta a anlise da literatura escolhida para amparar teoricamente este

    estudo, depara-se com a interrupo da espiral do conhecimento, cuja elaborao

    conceitual de Nonaka e Takeuchi to aguda e abrangente.

    Da espiral do conhecimento, observa-se o acontecimento da primeira etapa,

    da converso do conhecimento tcito em conhecimento tcito, denominada pela

    socializao. Os relatos dos soldadores descritos acima a ilustram com perfeio. J

    a partida para as outras etapas no to fcil de ser caracterizada. Observando que

    o conhecimento tcito possa se tornar explcito, admitindo o fenmeno da

    externalizao; que ele possa ainda atravessar esta fase e aumentar atravs do

    fenmeno da combinao e de novo para a internalizao, observa-se que o

    movimento defeituoso, pois no prov aos soldadores um conhecimento da teoria

    que poderia embasar previso de causas, evitando causar descontinuidades nas

    soldas. Caso assim no fosse, a seguinte declarao de um soldador veterano no

    aconteceria:

  • 62

    A senhora me perguntou se consigo ler uma IEIS e eu disse que com alguma ajuda fcil de entender. Mas tem pessoas da liderana que se vir uma IEIS no vai saber ler, vai gaguejar. (S. O., soldador qualificado h 25 anos).

    Assim como no se escutaria a declarao do encarregado de solda,

    profissional responsvel por passar as instrues de rotina no canteiro de obras no

    seguinte dilogo:

    Como que o Sr. passa as ordens para o que o soldador deve fazer? Ah, muito simples. Eu digo para ele: Olha, isso aqui tal ao, a gente vai ter que dar tantos graus... Ou ento: Veja, isso aqui no tem calor, o material tal, v l na estufa e pegue tal eletrodo.. E vrias vezes eu passo por perto para observar se alguma coisa est errada. O Sr. percebe se eles escutam com ateno ou se desorientam na hora de fazer, ou confundem as ordens?. Ah, eles confundem bastante. Ento esto sempre perguntando alguma coisa e a gente tem que estar preparado para dizer a eles o que tm que fazer quando tm dvidas. Ento este comportamento o normal? normal. por minuto que o soldador est perguntando. Olha, trincou l, o que que vou fazer? Sr., eu dou mais calor? Eles sempre perguntam. Eles no fazem nada sem perguntar a gente quando eles tem dvida. Eles no vo direto na IEIS. Eles perguntam sempre. Se eu mesmo tiver dvidas, eu vou ao Maurcio (tcnico de soldagem) e pergunto para voltar a passar para eles. (Dilogo extrado da entrevista com Lourival Salles, encarregado de solda).

    E assim transcorre a rotina no canteiro de obras no obstante estarem todas

    as explicaes previamente agrupadas nos documentos de IEIS, afixados por todo o

    local de trabalho. Estes documentos se constituem verdadeiramente como

    conhecimento explcito. Conhecimento que no se sabe quando ir ser internalizado

    por cada indivduo.

    4.2 ANLISE DOS DEPOIMENTOS DOS ENTREVISTADOS

    Todos os entrevistados responderam favoravelmente sobre a necessidade de o conhecimento terico de soldagem passar a ser mais acessvel aos soldadores,

    embora reconhecidamente, a falta de conhecimento terico no se constitua como

  • 63

    um nico fator causador de descontinuidades na solda, da mesma forma que a

    aquisio de todo o conhecimento terico no constri um bom soldador. Segundo o

    encarregado de soldagem,

    No s o problema particular dele que faz o soldador deixar a solda ruim como muitos outros problemas fazem o trabalho ficar defeituoso. Muito vento para quem est soldando ao ar livre: a solda enche de porosidade. Eletrodo, a pessoa pode trabalhar com o eletrodo errado. Ou um calor que a pea pede e ele no deu. Uma srie de coisas que faz a perda da radiografia. Regulagem da mquina, ngulo de trabalho... (Lourival Salles dos Santos, encarregado de soldagem).

    curioso observar que, em todos os exemplos acima descritos pelo

    encarregado de solda, um grau mais profundo de informao sobre a solda e o

    comportamento dos metais seria o suficiente para que o soldador se prevenisse

    sobre a possibilidade de erros (ou descontinuidades).

    Sobre a necessidade de o soldador obter mais informaes da parte terica

    da soldagem, segue inicialmente um trecho da entrevista ao tcnico de soldagem:

    Para exemplificar a questo, vamos imaginar um soldador que um arteso, ele tem um ndice de reparo igual a zero, empregado em uma obra atrs da outra, em suma, ele perfeito naquilo que ele faz. Ser que ele tem necessidade deste conhecimento terico? Tem, com certeza. Primeiro porque ele vai ser mais valorizado na empresa. Sempre ouvimos de colegas chacotas como soldador profissional analfabeto. No que sejam propriamente analfabetos, mas qualquer analfabeto pode ser um bom soldador. Assim como voc pode pegar um bom elemento com faculdade e se ele no tiver um dom natural da solda, ele no vai ser um bom soldador. Mas se eu pegar qualquer pessoa do morro, totalmente analfabeto, mas tiver uma propenso natural para a coisa, ele vai ser um bom soldador. Agora, a partir do momento que ele tenha conhecimento tcnico, terico, ele vai ser mais valorizado, vai poder discutir at com o prprio encarregado. Isso porque o encarregado s vezes o manda fazer um trabalho, de certa forma, no totalmente certo. E ele faz, porque no tem conhecimento para saber. Se o encarregado pedir para ele fazer uma solda com certo metal de base e der um eletrodo trocado para ele, ele vai executar de forma errnea, porque ele no conhece o material que ele trabalha. Qualquer eletrodo ou vareta, qualquer consumvel que for dado para o soldador, ele vai usar porque ele no tem conhecimento terico do trabalho que ele exerce. Ele vai executar o trabalho sem identificar o material de base e os de adio. Muitos no conseguem interpretar uma IEIS porque no sabem ler. Lem de forma muito precria, escrevem de forma muito precria. Outra coisa tambm, no s o trabalhador de montagem, mas o brasileiro de uma forma geral, no tem o costume de ler. Ele sai do trabalho, vai para a casa assiste televiso... (Dilogo extrado da entrevista com Maurcio Soares, tcnico de soldagem).

  • 64

    Esta opinio compartilhada com o professor doutor em soldagem Eng.

    Cardote:

    - Vamos enfocar a questo do conhecimento do soldador. Considerando um soldador que seja bom profissional, tendo acuidade visual e tendo recebido instrues corretas, existe algum momento em que o conhecimento terico pudesse melhorar ainda mais o trabalho deste? - Sim. O conhecimento evitaria que ele cometesse erros. Isto , se ele sabe interpretar um desenho, se ele sabe que existe uma junta e se ele sabe escolher a melhor I.E.I.S. que se aplica ao caso, isto diminui a margem de erro que possa ocorrer. Mas o problema nosso hoje que ele pode saber aplicar uma determinada instruo, mas no sabe por que ela foi aplicada. - Se for passada uma instruo errada ele vai atender assim mesmo? - Ele vai cumpri-la totalmente. O soldador no sabe a razo de que, em certos momentos, ele tem que pr-aquecer e em outros ele no pode pr-aquecer. Ele pode saber na prtica, porque ouviu falar, mas se mostrar para ele Este o ao A; aquele o ao B, para ele tudo igual. S que o ao A deve ser super-aquecido e o B deve ser trabalhado em temperatura ambiente; e o soldador no sabe a razo. Ento, ele vai, no mximo, seguir a instruo: se a instruo manda trabalhar assim, ele vai assim; se manda trabalhar de outro, ele segue sem questionar. E quando acontece algum problema, ele no sabe a causa; tambm no sabe como corrigi-lo. Existe uma rea da soldagem que sempre comento nos cursos que dou que a Identificao de Causas e Correo dos Defeitos. Isto leva a indagar sobre o defeito, o que o causou, etc. para evitar que este erro se repita. (Dilogo extrado da entrevista com o Eng. Cardote).

    Da mesma forma, o pensamento de um dos inspetores de solda nvel I.

    ...Resumindo esta conversa, a palavra chave disso tudo uma s: treinamento. Treinamento dos artesos, que so os soldadores, dos supervisores, dos inspetores e dos engenheiros. Todos que esto envolvidos nesta rea tem que ser treinados, como em qualquer profisso. S assim a empresa vai ganhar esta fatia no mercado, ela vai sair na frente. OK? Treinamento em sala-de-aula, com professores capacitados para tal situao, no qualquer um. No porque eu sou soldador que estou preparado para dar aula, mas algum preparado para dar aula de solda. De repente, eu prprio estou precisando de treinamento e todos os profissionais que esto envolvidos com a solda em si, que so os soldadores, mas todos os profissionais que esto envolvidos no processo. (E. S. Inspetor de Solda Nvel I).

    Mas o problema no to simples. A construo de uma estrutura eficaz de

    treinamento, embora reconhecidamente benfica aos olhos de todos, tem obstculos

    ainda difceis de serem contornados. A ilustrar este problema, segue o comentrio

    de um gestor de uma empresa do gnero:

  • 65

    Olhando para o mercado, os grandes contratos que temos hoje, so contratos EPC, que envolvem engenharia, envolvem procurement que suprimentos e envolvem a montagem. Contratos desta magnitude quase sempre so na ordem de 01 bilho de dlares, 800 milhes de dlares. Estes contratos mais recentes agregam exigncias de treinamento e escolaridade mnima para o soldador e outras funes. Se voc est diante de um contrato de 800 milhes de dlares ou 01 bilho de dlares em trs anos de obra, voc pode empreender e colocar este soldador na escolinha dentro da sua empresa. E por que no no mercado? Porque dentro da empresa, voc j vai doutrin-lo para aquela modalidade de contrato, para aquela condio de soldabilidade, para aqueles materiais. Ento, se voc olhar para o mercado, e o mercado te possibilitar esta tipo de contrato, a voc tem condies. Mas se voc quiser trabalhar no varejo, que o que muitas das vezes acontece conosco por fora das condies de mercado, fazer grandes e pequenos contratos, contratos nobres e contratos no-nobres, ento voc obrigado a conviver com turn over, onde voc recebe soldadores do pas inteiro, das mais diversas qualificaes e asseverar de conhecimento em que voc tem um contrato de trs meses, voc no tem condio. E a vem a pergunta: e qual a soluo? No existe soluo. O que existe uma tica do empreendedor para o custo / benefcio. E geralmente para o empreendedor, quando ele vai orar o homem-hora do soldador, dependendo do tempo do contrato e dependendo do nvel dos materiais empregados no projeto face s suas especificidades tcnicas, ns j colocamos um percentual de perda e re-trabalho que, evidentemente, se traduz numa majorao dos custos, que algumas empresas trabalham com ferramentas modernas como Seis Sigma, Curva de Risco... E outras empresas trabalham com a experincia dos seus gestores. (M. Franklin de S, engenheiro, gestor de uma empresa do gnero).

    evidente que a questo do treinamento para uma populao de

    trabalhadores que no fixa na empresa um fator que dificulta qualquer

    planejamento. Mas, este mesmo profissional acima, que observa as dificuldades a

    serem transpostas para construir um programa de treinamento na empresa, citou

    uma experincia ocorrida recentemente, onde as dificuldades previstas foram

    absorvidas atravs de um trabalho de experimentao e treinamento. Segue o relato

    do mesmo gestor:

    Um exemplo claro aqui dentro da nossa obra, ns estamos soldando duplex e super-duplex que uma exigncia atual no caso dos cascos duplos, embarcaes e plataformas e o nosso ndice prximo a 0 %. E o que ns fizemos de diferente no mercado? Nada. Fizemos o dever-de-casa. Temos aqui o Eng Cardote, um professor e um autodidata, que foi para dentro do processo para ensinar aos soldadores. Porque a minha expectativa, como gestor, era um ndice de reprovao acima de 50%. At pelo ineditismo do processo no Brasil. Mas, por qu? Porque ns tivemos a oportunidade de dispor de um professor de solda. E ento, isto fica claro: se as empresas no mercado direcionarem o treinamento, que no precisa ser fora, no precisa ser entidade de classe, voc pode auferir resultados fantsticos, porque o nosso profissional e eu j estive no exterior trabalhando! o nosso profissional tem uma maleabilidade e uma condio de manuseio de soldagem que no se v em lugar nenhum no mundo! Ele um artista. S que ele no estuda, ele no l, at mesmo porque ningum incentiva. Ento, quando voc coloca uma pessoa frente, d resultado. E por que que d resultado? Porque voc tem uma receita cobrindo este custo. No

  • 66

    existe mistrio para uma equao que tem que ser equilibrada. Fora disto magia, fantasia e no existe. Ento, se voc tem uma receita que combata o custo, se voc tem competncia de qualificar, mensurar este custo, voc tem resultados fantsticos na solda. Ns temos um exemplo dentro de casa, sem muito sacrifcio e sem muita engenharia. [...] Por conta da norma IMO, que uma norma internacional onde, havendo esta condio de perfurar cascos e ter vazamentos para os petroleiros das plataformas, existe exigncia para se trabalhar com casco duplo. E o casco duplo, obrigatoriamente por condies de projeto, voc tem que usar um ao diferente, um ao indito no mundo inteiro que o tal do ao duplex e o super duplex, que leva a vrios cuidados antecipados de limpeza, preparo, manuseio, endurecimento do gro, perda de hidrognio [...] E ento existem mquinas especiais. Ns ganhamos um contrato da empresa X, onde s ao duplex. E ns sabamos que haveria problemas. E o que ns fizemos? Fizemos o que nossa obrigao. No tem nada de mrito nisso. Trouxemos para c o que h de melhor na empresa com relao solda e delegamos a ele da seguinte forma: Pega o teu conhecimento e transfere para a equipe l no campo. E demos a ele a autonomia para ele criar o que ele quisesse; dentro de amparos de receita e custos. Essa equao no pode ser esquecida. (M.F.S.)

    O caso relatado um belo exemplo de vrias condies de desdobramento

    do conhecimento e eficcia dos resultados. Houve o reconhecimento do capital

    intelectual presente na empresa. Partindo deste reconhecimento, foram providos

    recursos para que este capital, personificado pelo professor de soldagem, pudesse

    estabelecer um plano de estudo e com isso, a empresa teve xito no produto final

    atravs do processo de aprendizagem dos soldadores administrado com eficincia.

    Embora havida a constatao do valor do capital intelectual formado pelos

    esforos de enriquecimento de conhecimento do grupo de soldadores, o movimento

    de disseminao do conhecimento esboado acima por Nonaka e Takeuchi continua

    se apresentando de forma defeituosa e incompleta. Isto fica evidente dado que o

    conhecimento foi compartilhado pelo grupo presente na poca da pesquisa, mas no

    ser permanente na empresa visto o carter transitrio do emprego destes

    trabalhadores, o que j foi comentado acima.

    4.3 RESULTADO DOS QUESTIONRIOS RESPONDIDOS: UM ESBOO DO

    PERFIL DO SOLDADOR NA EMPRESA

    Durante a poca da elaborao da presente pesquisa, a empresa dispunha

    de 45 soldadores em seu quadro de funcionrios. Deste grupo onde todos foram

  • 67

    solicitados a participar da pesquisa, 42 indivduos responderam ao questionrio

    apresentado no Apndice.

    Grau de escolaridade dos indivduos entrevistados

    31%0%

    48%

    21%Fundamental (Primrio)

    Fundamental(Ginsio)

    Mdio(Colegial)

    Universitrio

    Idade dos entrevistados

    20 a 29 anos 20%

    30 a 39 anos38%

    50 anos em diante...

    14%

    40 a 49 anos28%

    20 a 29 anos

    30 a 39 anos

    40 a 49 anos

    50 anos emdiante...

    Os dados revelam que o nvel de escolaridade no alto. Considerando o

    fato de que a maior parte dos soldadores tem idade acima dos 30 anos, h que ser

    observado que o nvel de escolaridade declarado deve causar grandes dificuldades

    para algum que precisa ler instrues com smbolos grficos, geometria, alm da

    necessidade do domnio do conhecimento sobre o sistema mtrico. E, ainda

    considerando a conjugao dos dois fatores, idade e escolaridade, a concluso

    subseqente a conjetura sobre a compreenso real destes trabalhadores sobre os

    Grfico 1 - Grau de escolaridade dos indivduos entrevistados

    Grfico 2 Idade dos entrevistados

  • 68

    documentos de soldagem repletos de smbolos matemticos, qumicos, etc. que

    podem ser visualizados conforme modelo no Apndice.

    Como tomou conhecimento da profisso de soldador qualificado?

    37%

    3%60%

    parentes/amigos

    mdia

    obra

    v

    No de surpreender apenas 3% tenham conhecido a profisso fora dos

    canteiros de obras e do contato com outros trabalhadores do ramo.

    Onde aprendeu a soldar?

    5% 8%

    79%

    8%

    CursoSzinhoC/ VeteranoEscolinha

    Deve-se ressaltar que estes resultados so coerentes com a questo anterior,

    onde foi indagado como o profissional conheceu a profisso. impressionante

    observar o alto percentual daqueles que aprenderam a soldar sob orientao de

    veteranos: 79% dos entrevistados. Entretanto, um fato sempre presente nas

    entrevistas com profissionais especializados na superviso dos soldadores destaca

    que a orientao de um soldador veterano nem sempre significa a aprendizagem

    perfeita, conforme j comentado acima em um dos extratos de entrevistas. Uma vez

    Grfico 3 Como tomou conhecimento da profisso de soldador

    Grfico 4 Onde Aprendeu a Soldar

  • 69

    que a qualificao s exige o teste prtico, o soldador veterano pode ter, por sua

    vez, aprendido de maneira falha, com erros de posicionamentos, etc. e, ainda que a

    qualidade dos seus trabalhos possa ser satisfatria, a solda poder conter erros

    dentro da tolerncia permitida. Por outro lado, percebe-se com clareza como se

    inicia uma comunidade de prtica na rea de soldagem, que pode ultrapassar os

    limites do projeto ou mesmo da prpria empresa.

    Sabe entender e interpretar simbologia de soldagem?

    72%

    18% 10%

    Sim

    Sim, com dificuldades

    No

    Consegue entender e interpretar um documento de IEIS?20%

    51%

    29%Sim

    Sim, com dificuldades

    No

    A questo sobre a compreenso da simbologia de solda e especialmente

    sobre a compreenso e interpretao de uma IEIS, se 20 % declaram saber

    interpretar corretamente o documento e 51% declaram no saber, importante

    detalhar a pesquisa para demonstrar que o grau de compreenso da teoria da

    soldagem no se d na mesma proporo do tempo de qualificao que cada

    indivduo tenha. Ou no teramos indivduos contando de 19 at 38 anos de trabalho

    na rea de soldagem que declaram no saber interpretar o contedo de um

    documento de IEIS. A seguir o resultado da pesquisa sobre o item acima, agrupando

    Grfico 5 Sabe entender e interpretar simbologia de soldagem?

    Grfico 6 Consegue entender e interpretar um documento de I.E.I.S.?

  • 70

    os dados sobre interpretao da IEIS em correlao com os dados sobre o tempo de

    trabalho qualificado na rea de soldagem.

    5%

    32%

    22%

    2%

    10%

    2%

    12%10%5%

    05

    101520253035

    Quantidade percentual de entrevistados

    0 a 10 anos 11 a 20 anos 21 anos emdiante

    Tempo de trabalho com qualificao em soldagem

    Consegue interpretar uma IEIS?

    Sim

    Sim, comdificuldades

    No

    Com os dados correlacionados acima, pode-se surpreender at com o

    inesperado percentual de trabalhadores acima de 10 anos de trabalho em soldagem,

    que declaram no entender e interpretar o contedo de uma IEIS, documento

    supostamente criado para facilitar o entendimento das instrues de soldagem no

    campo.

    Consegue identificar a causa de uma no conformidade?

    55%

    0%10%

    35%

    SimNem sempreNo, mas quero aprenderNo e no quero aprender

    A declarao de 55% daqueles que sabem identificar a causa de no

    conformidade, de certa forma contraria o exposto pelas entrevistas e pode-se

    Grfico 7 Correlao entre dados de grupos de soldadores por tempo de servio e dados sobre interpretao das IEIS

    Grfico 8 Consegue identificar a causa de uma no conformidade?

  • 71

    considerar que quase a metade do grupo sob pesquisa no consegue identificar

    causas de no conformidade. Esmiuando esta questo, os resultados acima foram

    reunidos correlacionados com os dados do tempo de servio dos indivduos foco da

    presente pesquisa.

    33%

    21,5%

    5%0%

    7%7%2,5

    0%

    14%10%

    0%0%

    05

    101520253035

    Percentual de indivduos por

    categoria

    0 a 10 anos 11 a 20anos

    21 anos emdiante

    Consegue identificar causas de no conformidade?

    Sim

    Nem sempre

    No mas queroaprender

    No e noquero aprender

    Visto por este prisma, surpreendente o grau de desconhecimento terico

    sobre a soldagem que d espao para que 19,5% dos indivduos com um histrico

    de 11 anos ou mais qualificados na profisso ainda respondam no conseguir

    identificar causas de no-conformidade. Cabe lembrar aqui que se o soldador obtiver

    um ndice de reparos de solda acima da tolerncia ele pode ser punido com a

    desqualificao ou at mesmo com a demisso.

    O que pode ser feito para melhorar a qualidade da solda?

    60%

    0%

    40%Mais teoriaMais prticaNada pode ser feito

    Grfico 9 Correlao entre os dados dos entrevistados agrupados por tempo de servio e pela identificao de no-conformidades

    Grfico 10 O que pode ser feito para melhorar a qualidade da solda?

  • 72

    E, parece que todos concordam que podem se aperfeioar mais na qualidade

    dos trabalhos de soldagem. Surpreendentemente todos responderam que gostariam

    de aprender mais, demonstrando a clara percepo sobre a necessidade de

    conhecimento terico.

    Est satisfeito com a profisso que escolheu?

    66%

    0%34%

    Muito satisfeitoSatisfeitoNo gosto

    A questo acima que visou observar o sentimento expressado pela profisso

    e os resultados demonstrando o apreo pela profisso e ofcio esto muito acima da

    mdia, o que foi tambm claramente observado durante as entrevistas.

    J influenciou algum para se qualificar em soldador?

    17,5%

    82,5%

    Sim

    No

    Os grficos acima demonstram o agrado que os soldadores tm com sua

    profisso. Nenhum declarou estar insatisfeito com a profisso; ao contrrio, 82.5%

    declaram haver influenciado outros conhecidos a entrar nesta rea, onde

    percebido um fato curioso: famlias de soldadores, com componentes de vrias

    geraes. Este fato fortalece ainda mais a idia das comunidades de prtica que se

    Grfico 11 Est satisfeito com a profisso que escolheu?

    Grfico 12 J influenciou algum para se qualificar em soldador?

  • 73

    desenvolvem em torno do aprendizado da soldagem e se perpetuam para alm dos

    muros da organizao.

    Deseja conseguir outra qualificao em soldagem?

    12%

    88%

    SimNo

    importante perceber o ndice de 88% dos soldadores que querem obter

    outras qualificaes em confronto com o dado apurado na presente pesquisa, onde

    foram entrevistados indivduos de todas as idades e 14% apresentavam mais de 50

    anos. Ou seja, h a confiana dos trabalhadores jovens e outros j com anos de

    profisso exercida sobre a melhoria de qualidade de vida atravs desta profisso.

    Alis, foi notado no decorrer das entrevistas fornecidas pelos soldadores que

    seguramente existe a percepo de que a oferta de empregos no mercado atual e

    futuro ser mais alta e estaro em melhores condies aqueles que apresentarem

    qualificaes em vrios processos de soldagem. a percepo sobre a melhoria da

    qualidade de vida proporcional diversificao na qualificao da soldagem.

    Utiliza a solda para as artes?

    45%

    55%

    SimNo

    Grfico 13 Deseja conseguir outra qualificao em soldagem?

    Grfico 14 Utiliza a solda para as artes?

  • 74

    Quanto ltima questo, defronta-se com o percentual surpreendentemente

    alto, de 45 % de trabalhadores que utilizam seus ofcios para expandirem a

    criatividade inata. H que se considerar com delicadeza este ltimo quesito presente

    no questionrio dos soldadores, porque uma bela traduo do carinho que

    demonstram por esta profisso. Esta pesquisadora, durante as entrevistas tomadas

    aleatoriamente com os soldadores, pode perceber sentimentos de orgulho pela

    profisso adotada e admirao por aqueles a quem consideram acima de si prprios

    em graus de importncia dentro da profisso, por demonstrarem talento e

    habilidades fora do comum no exerccio da soldagem.

    Entretanto, cabe observar que esta admirao demonstrada claramente

    atravs da forma reverente ao lidar com algum outro soldador a quem consideram

    como exemplo a ser imitado, tem tambm o seu lado negativo. Como dito acima

    pelo Inspetor N 1 no item 1.2.4, o soldador ao copiar at aprender a soldar somente

    pela imitao dos movimentos do veterano [...]muitas das vezes, pega as manias do

    outro soldador, que pode nem mesmo ser o melhor. Ele pega os vcios do soldador

    veterano porque o soldador que ensinou, ele mesmo aprendeu errado[...]. E, foi o

    modelo de aprendizagem de ndice mais alto na presente pesquisa e tambm aquele

    que esteve mais presente nas entrevistas informais havidas no campo entre

    soldadores de diversas idades e vrias modalidades de especializao.

    Ao desenvolver este trabalho, esta pesquisadora percebeu que estava diante

    de uma classe de trabalhadores bastante incomum. So profissionais altamente

    qualificados e de importncia singular no segmento industrial naval offshore.

    Adotaram como profisso um ofcio nobre, regido por instrues e normas rgidas

    internacionais e nacionais a prescreverem uma qualidade de resultados de

    excelncia tal sobre o fruto de seus trabalhos dirios que precisa ser comprovada

    pelo trespasse certeiro e inconteste do Raio X, entre outros. E, no entanto, numa

    comparao sonhadora e at inesperada neste ramo de atividade, empunham as

    mquinas de solda sobre chapas e tubos como se escultores fossem a manusear

    cinzis sobre mrmores e granitos e tal como estes ltimos, orgulham-se quando

    fazem uma solda bonita, brilhosa, limpinha, paralisam as atividades que esto

    fazendo para admir-la, no que so acompanhados pelos companheiros de

    soldagem, que sem nenhum pudor, admiram e elogiam para outros o responsvel

    pela arte. O soldador tem a percepo da arte do seu ofcio, o que lhe aumenta o

    gosto pela profisso. Ele o arteso da indstria naval offshore.

  • 75

    5 CONCLUSES E RECOMENDAES Diante de todas as declaraes em entrevistas e atravs dos questionrios respondidos, fica evidente a necessidade de aprofundamento no treinamento, tanto

    terico quanto prtico, na percepo de quase todos, soldadores e especialistas em

    soldagem em confronto s dificuldades trazidas pela ausncia do conhecimento

    terico para a qualidade dos trabalhos de solda.

    Contudo, a exigncia somente da formao prtica que garante a

    possibilidade de executar o teste para a consecuo do certificado de qualificao

    do soldador dificilmente lograr ser mudada, diante da enorme necessidade de

    trabalhadores aptos para enfrentar as encomendas anunciadas pelo noticirio,

    exemplificado no recorte de jornal apresentado no Anexo B. Este mesmo noticirio

    vem apresentando iniciativas de instituies de ensino para fomentar o

    aparelhamento da indstria naval com trabalhadores qualificados. Porm, os cursos

    preparatrios de soldagem em geral so dispostos em um espao de durao de

    poucas horas, o que desanima os responsveis pelo recrutamento e seleo de

    pessoal na rea de soldagem dos estaleiros e empresas de montagem. A afirmativa

    destes que o nmero de horas reservado para a durao dos cursos baixo e o

    ambiente de ensino dificilmente reproduz as condies rudes de trabalho no canteiro

    de obras, o tipo de material a ser soldado de espessura significativamente maior e

    mais pesada, o que gera a necessidade de maior calor para ser soldado. Quem

    recruta e seleciona este pessoal garante que os profissionais de soldagem recm-

    egressos dos cursos preparatrios e sem nenhuma experincia nos estaleiros e

    canteiros de obras dificilmente agentam a rotina pesada dos trabalhos nos

    canteiros da indstria naval offshore.

    Se, todavia, existe a percepo praticamente unnime da necessidade de um programa de treinamento mais extenso visando obteno de um fundamento terico

    mais firme e contudo, de ordem prtica tambm, os obstculos para se construir um

    espao para treinamento dentro das empresas tambm existem e so difceis de

    serem abatidos. importante ressaltar que a percepo sobre a necessidade de

    aquisio de conhecimento terico foi expressa tanto pelos prprios soldadores

    qualificados quanto pelos profissionais de todos os nveis de conhecimento que

    fazem parte desta complexa estrutura de recursos humanos neste segmento de

  • 76

    soldagem industrial. Lamentavelmente, no contabilizado o desperdcio de tempo,

    energia e materiais advindo dos erros, defeitos e descontinuidades que poderiam ser

    atribudos pela falta de conhecimento nas atividades da soldagem. No h

    correlao das horas-homens gastas em retrabalho; no h medio do material

    consumvel desperdiado e a possibilidade de investimento sobre um quadro de

    funcionrios temporrios, pela prpria natureza do trabalho concorrem por

    inviabilizar projetos voltados para a aprendizagem dos soldadores.

    Este estudo adverte que a idia das comunidades de prtica poderia ser uma

    soluo, contando com a possibilidade de a atividade prosseguir sob a orientao de

    tcnicos especialistas em soldagem. E, seria muito simples, porque as comunidades

    j existem. E, a idia da socializao e cooperao no ambiente de soldagem j

    to cristalizada no ambiente de obras, que mal bastaria que um novo projeto se

    iniciasse que pouco a pouco se poderia assistir formao de uma comunidade de

    prtica. O resultado de um trabalho orientado e monitorado pela prpria empresa ou

    por um convnio com uma organizao de treinamento sobre uma comunidade de

    prtica em ambiente de obras, no s agradaria a todos como os benefcios j

    seriam sentidos em pouco tempo.

    Alis, o fator tempo o maior entrave para os programas de treinamento. Os

    programas, se forem curtos demais, cumprem necessidades contratuais e

    superficiais; mas no enriquecem a empresa com trabalhadores mais cultos na

    teoria da soldagem. Por outro lado, o empreendedor sente-se temeroso por investir

    sobre o treinamento de indivduos que, por caractersticas do contrato, ficaro no

    canteiro de obras somente por alguns meses. Entretanto, deve-se ter em mente que,

    a acontecer o que est plenamente anunciado pelo noticirio nacional, haver muito

    que ser feito no segmento industrial naval/offshore. Isso significa que o trabalhador

    cujo conhecimento se investiu em passado recente, poder ser um trabalhador mais

    preparado nas obras seguintes na mesma empresa, sem significar desperdcio de

    material e energia; ao contrrio, significaria bons resultados, livres de defeitos e

    descontinuidades resultantes de um slido investimento no treinamento prtico e

    disseminao das bases tericas da cincia da soldagem.

    Outra via para facilitar o trabalho seria adequar os documentos de soldagem

    ao nvel mdio de escolaridade apresentado pelos soldadores. hora de se

    reconhecer que o grau de educao bsica apresentado nos soldadores

    entrevistados, dificilmente seria capaz de prover o suporte intelectual para que o

  • 77

    profissional de soldagem consiga entender facilmente os citados documentos.

    Ento, por que no modific-los de modo a facilitar o entendimento? Por que no

    pode ser criada uma linguagem mais fcil e objetiva, com o objetivo pedaggico de

    adequar o documento ao nvel mdio de escolaridade do trabalhador?

    H que ser lembrado que investimento risco. Investir no aprendizado de

    funcionrios igualmente um risco. Sempre poder aparecer um motivo para que

    um ou muitos funcionrios deixem uma empresa em busca de uma oferta de

    trabalho mais vantajosa. E ento, exatamente neste momento que a empresa deve

    usar artifcios que no signifiquem simplesmente salrios mais altos. Em primeiro

    lugar porque este expediente incidiria imediatamente na balana do custo/benefcio

    de uma obra podendo gerar resultados contrrios a este equilbrio concretizando

    perdas para a empresa. E, em segundo lugar, uma vez observado que desejo dos

    prprios soldadores receberem incentivos para incrementar sua formao

    profissional, o investimento em treinamentos objetivos e seguros na rea de

    soldagem poderia ser atraente aos olhos dos bons funcionrios. Soldadores,

    artesos exmios, certamente pensaro muito ao fazerem suas escolhas de trabalho,

    se houver a oportunidade de deixar uma empresa onde se investe no funcionrio por

    outra que, ainda que provendo um salrio um pouco mais alto, no ser significativa

    para o desenvolvimento de suas carreiras.

    Uma possibilidade a ser vista como uma mudana mais radical sobre a

    questo da qualificao dos soldadores envolve a hiptese de modificao das

    normas que poderiam passar a exigir dos candidatos a soldadores um nvel de

    escolaridade determinado, que possibilitasse melhor entendimento do contedo dos

    documentos de soldagem expostos nos canteiros de obras. E, considerando que a

    atual qualificao dos soldadores e operadores de soldagem favorecem uma parte

    da populao adulta com baixos nveis de escolaridade, poder-se-ia conjeturar na

    determinao de um prazo de alguns anos para que os atuais trabalhadores

    pudessem ingressar em escolas que os habilitasse a conseguir atingir o grau de

    escolaridade determinado.

    Fundamentando-se no presente estudo e concluses, esta pesquisadora

    aponta a relevncia da continuidade da pesquisa neste tema sugerindo os seguintes

    temas para trabalhos futuros:

  • 78

    Investigao com enfoque econmico-financeiro sobre os custos reais de

    todas as atividades de soldagem, enfatizando o somatrio de perdas

    advindas de todas as condies que propiciaram retrabalho.

    Pesquisa com enfoque psicolgico para refletir sobre a incidncia do

    estado emocional abalado na perda da qualidade do resultado final do

    trabalho deste tipo de profissional.

  • 79

    REFERNCIAS

    ALLERTON, Haidee E. KM Today.Laurence Prusak discusses knowledge management Interview - Training & Development Magazine, Julho 2003 - http://www.findarticles.com/p/articles/mi_m0MNT/is_7_57/ai_105096154; Acesso em: janeiro/2005.

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  • 82

    GLOSSRIO

    Certificado de Qualificao de Soldador

    Documento certificando que o soldador executa

    soldas de aordo com padres estabelecidos. [FBTS,

    1999].

    Consumvel Material empregado na deposio ou proteo de

    solda, tais como: eletrodo, vareta, arame, anel

    consumvel, gs e fluxo.

    Corpo de prova Amostra retirada da chapa ou tubo de teste para

    execuo de ensaios mecnicos, qumicos ou

    metalogrficos

    Descontinuidade

    Interrupo das estruturas tpicas de uma pea, no

    que se refere homogeneidade de caractersticas

    fsicas, mecnicas ou metalrgicas. No

    necessariamente um defeito. A descontinidade s

    deve ser considerada defeito, quando, por sua

    natureza, dimenses ou efeito acumulado, tornar a

    pea inaceitvel por no satisfazer os requisitos

    mnimos da norma tcnica aplicvel.

    Eletrodo Revestido O Processo de Soldagem a Arco com Eletrodo Revestido um processo que produz a coalescncia

    entre metais pelo aquecimento e fuso destes com

    um arco eltrico estabelecido entre a ponta de um

    eletrodo revestido e a superfcie do metal de base na

    junta que est sendo soldada. O metal fundido do

    eletrodo transferido atravs do arco eltrico at a

    poa de fuso do metal de base, formando assim o

    metal de solda.

  • 83

    Ensaios mecnicos So considerados como ensaios destrutivos, pois na maioria das vezes provocam a ruptura ou a

    inutilizao da pea ensaiada. So ensaios

    destrutivos: trao, dobramento, fratura, dureza,

    impacto charpy, impacto drop-Weight, macrogrfico.

    Ensaios no-destrutivos Constituem-se nos seguintes processos utilizados para registrar as condies da junta soldada:

    radiografia, ultra-som, partculas magnticas, lquido

    penetrante, teste por ponto, teste de estanqueidade,

    visual, gamagrafia, emisso acstica,

    eletromagntico.

    Ensaio Visual o ensaio no-destrutivo bsico. Tdos os outros ensaios no-destrutivos devem ser executados aps

    a inspeo visual, que pode ser feita vista

    desarmada, com o auxlio de lupa ou com aparelhos

    ou instrumentos para inspeo remota

    (endoscpios).

    EPS Especificao de Procedimento de Soldagem: Documento que determina os limites para o conjunto

    de variveis e condies de um procedimento de

    soldagem, que devem ser seguidos na sua

    execuo.

    A EPS um documento preparado para fornecer aos

    soldadores e operadores de soldagem as diretrizes

    para a produo de soldas. usada pelo inspetor de

    soldagem para o acompanhamento das qualificaes

    e da soldagem de produo, com o objetivo de

    verificar se os parmetros e condies estabelecidas

    esto sendo seguidos.

  • 84

    ESCOLINHA DE SOLDA Espao reservado no prprio canteiro de obras para treinamento de soldagem. Costuma ser composto de

    cabines com instalaes apropriadas para o

    treinamento de soldagem, dentro da prpria empresa

    ou nos limites do espao fsico do Projeto. Existiam

    para dar a chance de novos treinamentos para

    soldadores que eventualmente passavam por

    desqualificao ou ento para prover treinamento

    para nefitos em soldagem. Este expediente

    atualmente no largamente utilizado pelas

    empresas, como era feito antigamente.

    IEIS Instruo de execuo e inspeo de soldagem.

    Documento tcnico que elaborado para cada um dos

    equipamentos. Deve conter, para cada junta a ser

    soldada, os parmetros principais dos procedimentos

    de soldagem qualificados e aindicao dos exames e

    ensaios exigidos. Este documento elaborado a a

    partir de desenhos de fabricao e montagem dos

    equipamentos, procedimentos de soldagem

    qualificados e requisitos das normas tcnicas

    aplicveis. composto de trs partes:

    Parte 1: Desenho do equipamento com a identificao

    de todas as juntas a serem soldadas.

    Parte 2: Parmetros principais da operao de

    soldagem, obtidos nos procedimentos de soldagem da

    executante qualificados, para cada junta a ser soldada.

    Parte 3: Exames e testes a serem executados, para

    cada junta a ser soldada. Os dados para

    preenchimento so obtidos na norma de projeto e nas

    normas de fabricao e montagem do equipamento.

  • 85

    Inspetor de soldagem Profissional qualificado e certificado, segundo os requisitos estabelecidos pelo Sistema Nacional de Qualificao e Certificao de Inspetores de Soldagem, empregado pela executante dos servios, para exercer as atividades de controle de qualidade relativas soldagem.

    Junta Regio onde duas ou mais peas sero unidas por

    soldagem. Metal de adio Metal ou liga a ser adicionado para a fabricao de

    uma junta soldada. Metal de base Metal ou liga a ser soldado, brasado ou cortado. Operador de soldagem Pessoa capacitada e qualificada a operar mquina

    ou equipamento de soldagem mecanizado. Pea de teste Pea soldada e identificada para a qualificao de

    procedimentos de soldagem e/ou qualificao de pessoal.

    Poa de fuso Volume localizado de metal lquido proveniente de

    metal de adio e metal de base antes de sua solidificao como metal de solda.

    Ponteamento Modalidade de soldagem provisria onde o soldador

    emenda uma pea a outra atravs de pontos de solda, com a finalidade de fixar as partes que vo receber a soldagem definitiva.

    Procedimento de soldagem

    Documento emitido pela executante dos servios, descrevendo detalhadamente todos os parmetros e as condies da operao de soldagem para uma aplicao especfica para garantir repetibilidade.

    Processo de soldagem Processo utilizado para unir materiais pelo

    aquecimento destes a temperaturas adequadas, com ou sem aplicao de presso e com ou sem a participao de metal de adio.

    Qualificao de procedimento

    Demonstrao pela qual, soldas executadas por um procedimento especfico podem atingir os requisitos pr-estabelecidos.

  • 86

    Qualificao de soldador Demonstrao de habilidade de um soldador em executar soldas, de acordo com as variveis previamente estabelecidas. Independente da norma utilizada, sempre requerido que o soldador ou operador de soldagem execute a soldagem em peas de teste. Durante a soldagem da pea de teste, o soldador ou operador de soldagem deve ser acompanhado pelo inspetor de soldagem que verifica se a soldagem est sendo executada de acordo com o procedimento de soldagem. Uma vez completada a soldagem, a pea de teste submetida a ensaios que determinaro se a pea atende aos requisitos de qualidade previstos pela norma aplicvel. O tipo de pea de teste, o material da pea de teste, os ensaios, o critrio de avaliao, etc. so determinados pela norma de qualificao aplicvel. O corpo de prova resultante do teste submetido a ensaios destrutivos e no-destrutivos. Os ensaios destrutivos atribudos ao teste de qualificao de soldadores o de dobramento, fatura e macrogrfico.

    RQPS Registro de Qualificao de Procedimento de

    Soldagem: documento que aprova a qualificao do procedimento de soldagem, registrando os dados de execuo da solda da pea de teste, alm dos resultados dos ensaios requeridos. A qualificao do procedimento de soldagem feita observando todos os parmetros e condies estabelecidas na EPS, seguida de ensaios e exame da chapa ou tubo de teste. Os parmetros principais da operao de soldagem e os resultados dos ensaios e exames so registrados em formulrio denominado Registro da Qualificao de Procedimento de Soldagem. OBS.: - Diversas EPS podem ser preparadas com base em um RQPS, em funo da variveis essenciais. - Podem ser necessrios vrios RQPS para dar suporte a um EPS (ex. pea de teste soldada em mais de uma posio de teste).

    Smbolos de soldagem Constituem um importante meio tcnico em

    engenharia para transmitir informaes. Os smbolos fornecem todas as informaes necessrias soldagem, tais como geometria e dimenses do chanfro, comprimento da solda, se a solda deve ser executada no campo, etc.

  • 87

    Solda Unio localizada de metais ou no-metais, produzida pelo aquecimento dos materiais a temperatura adequada, com ou sem aplicao de presso, ou pela aplicao de presso apenas, e com ou sem a utilizao de metal de adio.

    Soldador Profissional qualificado a executar soldagem manual

    ou semi-automtica Soldagem Tcnica que consiste em unir duas ou mais partes

    que passam a constituir um todo, assegurando a continuidade do material, assim como suas caractersticas mecnicas e fsicas. (MAGRINI,1999, apud Silva, 2003).

    TIG Sigla para Tungsten Inert Gas, significa processo de

    soldagem a arco eltrico com eletrodo no consumvel de tungstnio ou liga de tungstnio sob uma proteo gasosa de gs inerte ou misturas de gases inertes. Pode ou no ser utilizado material de adio. A soldagem TIG a unio de metais pelo aquecimento e fuso destes com um arco eltrico estabelecido entre um eletrodo de tungstnio no consumvel e a pea.

    Trinca Tipo de descontinuidade planar caracterizada por

    uma ponta aguda e uma alta razo comprimento e largura.

  • 88

    APNDICE A Questionrio distribudo aos soldadores da empresa pesquisada

    Sr. Soldador: este questionrio faz parte de uma pesquisa para um trabalho universitrio sobre o conhecimento dos profissionais na rea de soldagem na indstria de petrleo offshore.

    ATENO: NO H RESPOSTA ERRADA. H RESPOSTA VERDADEIRA. 1- Seu nome (ou iniciais) __________________________________________________________ 2-Idade________anos 3- Em que cidade o Sr. reside? ____________________________________________________ Estado: ____________ 4-H quanto tempo qualificado?______ 5 -Quais so as suas especializaes:________________________________ 6- Estudou no colgio at que nvel? a) [ ] 1 grau (1, 2, 3, 4 anos =antigamente,curso primrio) c) [ ] 2 grau (antigamente era cientfico, clssico) b) [ ] 1 grau (5, 6, 7, 8 anos =antigamente, Ginsio) d) [ ] 3 grau Universidade 7- Como tomou conhecimento da existncia da profisso de soldador? [ ] Por parentes / amigos; [ ] Atravs de meios de informao: jornais, revistas, televiso, etc. [ ] Descobriu a profisso no prprio canteiro. 8- Onde aprendeu a soldar? [ ] Atravs de um curso; [ ] Sozinho, nas horas vagas; [ ] Em um canteiro de obras, orientado por um soldador mais antigo; [ ] Em Escolinha de Solda. 9- Consegue entender e interpretar a simbologia de soldagem? [ ] SIM, todos os desenhos; [ ] SIM, com alguma dificuldade; [ ] No entendo a simbologia. 10- Consegue entender e interpretar uma IEIS? [ ] SIM, todos os desenhos, smbolos e cdigos; [ ] SIM, com alguma dificuldade; [ ] No entendo nada e tenho que perguntar. 11- Quando no consegue entender a simbologia e/ou IEIS, a quem costuma pedir orientao? [ ] Encarregado / supervisor; [ ] Inspetor de solda; [ ] A um colega que sabe mais sobre soldagem do que eu.

  • 89

    12- O Sr. geralmente consegue identificar a causa de uma no-conformidade ou reparo na solda? [ ] SIM. [ ] Nem sempre; [ ] No conheo as causas, mas gostaria de aprender mais para poder identificar. [ ] No conheo e no me interesso pelas causas das no-conformidades nas soldas. 13- Na sua opinio, o que poderia melhorar a qualidade das soldas ? [ ] Melhoraria se os profissionais pudessem aprender a parte terica da soldagem. [ ] Melhoraria se os profissionais tivessem mais treinamento prtico. [ ] Nada pode ser feito para melhorar. 14- Em relao sua profisso, o Sr. se considera: [ ] MUITO SATISFEITO [ ] SATISFEITO [ ] NO GOSTO DA PROFISSO 15- Lembra-se se influenciou algum parente, amigo, conhecido a ser soldador como o Sr. ou a seguir alguma outra carreira na rea da soldagem? [ ] SIM Quantas pessoas? ___________________________________________________________ [ ] NO 16- O Sr. gostaria de se qualificar em outra(s) modalidade(s) de Soldagem? [ ] SIM [ ] NO 17- O Sr. utiliza os conhecimentos de soldagem no campo das artes, por ex., fazendo esculturas, inventando novas formas para utenslios, etc.? [ ] SIM [ ] NO

  • 90

    ANEXO A - Exemplos de documentos de soldagem

    Exemplo de EPS (1/1)

  • 91

    Exemplo de RQPS (1/2)

  • 92

    Exemplo de RQPS (2/2)

  • 93

    Exemplo de I.E.I.S (1/4)

  • 94

    Exemplo de I.E.I.S (2/4)

  • 95

    Exemplo de I.E.I.S (3/4)

  • 96

    Exemplo de I.E.I.S (4/4)

  • 97

    Exemplo de Registro de Qualificao de Soldador/Operador de Soldagem (1/1)

  • 98

    Exemplo de Controle de Desempenho de Soldadores/Operadores de Soldagem (1/1)

  • 99

    ANEXO B Extrato do noticirio local sobre a indstria naval offshore

  • 100

  • 101

  • 102

  • Livros Grtis( http://www.livrosgratis.com.br )

    Milhares de Livros para Download: Baixar livros de AdministraoBaixar livros de AgronomiaBaixar livros de ArquiteturaBaixar livros de ArtesBaixar livros de AstronomiaBaixar livros de Biologia GeralBaixar livros de Cincia da ComputaoBaixar livros de Cincia da InformaoBaixar livros de Cincia PolticaBaixar livros de Cincias da SadeBaixar livros de ComunicaoBaixar livros do Conselho Nacional de Educao - CNEBaixar livros de Defesa civilBaixar livros de DireitoBaixar livros de Direitos humanosBaixar livros de EconomiaBaixar livros de Economia DomsticaBaixar livros de EducaoBaixar livros de Educao - TrnsitoBaixar livros de Educao FsicaBaixar livros de Engenharia AeroespacialBaixar livros de FarmciaBaixar livros de FilosofiaBaixar livros de FsicaBaixar livros de GeocinciasBaixar livros de GeografiaBaixar livros de HistriaBaixar livros de Lnguas

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ww.livrosgratis.com.br/cat_11/comunicacao/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_11/comunicacao/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_11/comunicacao/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_11/comunicacao/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_11/comunicacao/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_12/conselho_nacional_de_educacao_-_cne/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_12/conselho_nacional_de_educacao_-_cne/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_12/conselho_nacional_de_educacao_-_cne/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_12/conselho_nacional_de_educacao_-_cne/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_12/conselho_nacional_de_educacao_-_cne/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_12/conselho_nacional_de_educacao_-_cne/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_12/conselho_nacional_de_educacao_-_cne/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_12/conselho_nacional_de_educacao_-_cne/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_12/conselho_nacional_de_educacao_-_cne/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_12/conselho_nacional_de_educacao_-_cne/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_12/conselho_nacional_de_educacao_-_cne/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_12/conselho_nacional_de_educacao_-_cne/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_12/conselho_nacional_de_educacao_-_cne/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_12/conselho_nacional_de_educacao_-_cne/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_12/conselho_nacional_de_educacao_-_cne/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_13/defesa_civil/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_13/defesa_civil/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_13/defesa_civil/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_13/defesa_civil/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_13/defesa_civil/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_13/defesa_civil/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_13/defesa_civil/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_13/defesa_civil/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_13/defesa_civil/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_14/direito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_14/direito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_14/direito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_14/direito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_14/direito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_14/direito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_14/direito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_15/direitos_humanos/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_15/direitos_humanos/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_15/direitos_humanos/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_15/direitos_humanos/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_15/direitos_humanos/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_15/direitos_humanos/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_15/direitos_humanos/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_15/direitos_humanos/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_15/direitos_humanos/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_16/economia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_16/economia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_16/economia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_16/economia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_16/economia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_16/economia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_16/economia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_17/economia_domestica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_17/economia_domestica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_17/economia_domestica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_17/economia_domestica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_17/economia_domestica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_17/economia_domestica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_17/economia_domestica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_17/economia_domestica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_17/economia_domestica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_18/educacao/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_18/educacao/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_18/educacao/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_18/educacao/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_18/educacao/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_18/educacao/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_18/educacao/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_19/educacao_-_transito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_19/educacao_-_transito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_19/educacao_-_transito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_19/educacao_-_transito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_19/educacao_-_transito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_19/educacao_-_transito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_19/educacao_-_transito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_19/educacao_-_transito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_19/educacao_-_transito/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_20/educacao_fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_20/educacao_fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_20/educacao_fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_20/educacao_fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_20/educacao_fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_20/educacao_fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_20/educacao_fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_20/educacao_fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_20/educacao_fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_21/engenharia_aeroespacial/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_21/engenharia_aeroespacial/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_21/engenharia_aeroespacial/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_21/engenharia_aeroespacial/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_21/engenharia_aeroespacial/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_21/engenharia_aeroespacial/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_21/engenharia_aeroespacial/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_21/engenharia_aeroespacial/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_21/engenharia_aeroespacial/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_22/farmacia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_22/farmacia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_22/farmacia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_22/farmacia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_22/farmacia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_22/farmacia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_22/farmacia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_23/filosofia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_23/filosofia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_23/filosofia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_23/filosofia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_23/filosofia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_23/filosofia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_23/filosofia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_24/fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_24/fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_24/fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_24/fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_24/fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_24/fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_24/fisica/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_25/geociencias/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_25/geociencias/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_25/geociencias/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_25/geociencias/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_25/geociencias/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_25/geociencias/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_25/geociencias/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_26/geografia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_26/geografia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_26/geografia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_26/geografia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_26/geografia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_26/geografia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_26/geografia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_27/historia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_27/historia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_27/historia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_27/historia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_27/historia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_27/historia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_27/historia/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_31/linguas/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_31/linguas/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_31/linguas/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_31/linguas/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_31/linguas/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_31/linguas/1http://www.livrosgratis.com.br/cat_31/linguas/1

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