Construindo solues para o futuro

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    08-Jan-2017

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  • Uma publicao do Programa CATA AO e do Instituto Walmart

    Re la tos , expe r i nc ias e boas p r t i cas de t rs i n i c i a t i vas de ca tadores

    Futura, de So Jos dos Campos: parceria com Poder Pblico trouxe articulao e autonomia

    Rede Cata Vida, de Sorocaba: Atuar em rede foi essencial desde as primeiras comercializaes

    CAEC, de Salvador: Navegao com GPS e frias remuneradas para cooperados

    Inspirao

    Construindo solues para o futuro

    Conhea a origem e como funcionam na prtica algumas das cooperativas mais inovadoras do Brasil

  • 2 INSPIRAO INSPIRAO 3

    05 APRESENTAO

    06 INTRODUO

    08 PERSPECTIvAS

    12 CAEC

    22 FUTURA

    32 REDE CATA vIDA

    40 CONCLUSO

    42 REFERNCIAS

    BIBLIOGRFICAS

    43 AGRADECIMENTOS

    45 OS REALIZADORES

    46 EXPEDIENTE

    ndice de Inspirao

    2 INSPIRAO

    Esta publicao uma iniciativa do Programa CAtA Ao, em parceria com o Instituto Walmart e com realizao da Giral - viveiro de projetos. o objetivo principal de Inspirao disseminar experincias inovadoras de cooperativas de catadores no Brasil.

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    APRESENTAO

    O posicionamento e o engajamento dos catado-res colocaram a incluso social na equao pol-tica sobre os resduos slidos. A discusso sobre a elaborao de uma Poltica Nacional passou cerca de 20 anos no Congresso sem avanar por diversos conflitos de interesses. O fato novo que destravou este processo foi a emergncia dos ca-tadores como atores atuantes na construo des-te novo marco regulatrio.

    Valdemar de Oliveira Neto, Maneto, Diretor de Negcios de Impacto da Fundao AVINA

    Uma transformao - silenciosa e ainda invisvel para grande parte da populao - vem ocorren-do no meio da catao e dos resduos slidos. Ao longo dos ltimos vinte anos, floresceram por todo o Brasil diversas cooperativas de catado-res, surgiu e se consolidou o Movimento Nacio-nal dos Catadores de Materiais Reciclveis e o Pas viu ser criada e aprovada uma nova Poltica Nacional de Resduos Slidos. A modificao do cenrio nestas dimenses s se tornou possvel com o engajamento de ca-tadores, rgos governamentais, representan-tes da sociedade civil e do meio empresarial. E como resultado dos avanos coletivos que o Pas conquistou, grandes oportunidades e desafios se colocam para os setores envolvidos com a questo. No plano regional, os catadores brasi-leiros tambm desempenharam um papel estra-tgico na articulao do movimento latino-ame-ricano, tanto pela sua atuao pioneira como ao cooperar trocando experincias e organizando e sediando os dois primeiros Congressos Lati-no-americanos de Catadores.Para contribuir com esta discusso, suscitando reflexes, apontando caminhos e questionando certezas, o Programa CATA AO e o Instituto Walmart oferecem esta publicao. Com foco especfico nas experincias de trs organizaes de catadores, Inspirao resultado de uma sis-tematizao que almeja identificar boas prticas, processos e modelos que possam servir de inspi-rao para as centenas de instituies e milhares de cidados que fazem da catao uma alterna-tiva de gerao de renda todos os dias no Brasil. Entre as diversas iniciativas que tm tido suces-so, selecionamos trs que fossem expressivas devido alguma caracterstica que foi marcante durante a estruturao de seu desenvolvimen-to. Em Salvador, a CAEC (Cooperativa de Agen-

    tes Ecolgicos de Canabrava), por exemplo, impulsionou seu negcio ao se mostrar hbil em firmar parcerias com grandes geradores de resduo da iniciativa privada. J o caso da Cooperativa Futura, de So Jos dos Campos, demonstra como uma bem-sucedida parceria com o poder pblico municipal pode servir de fio condutor para o desenvolvimento institucio-nal de uma cooperativa. A Rede Cata Vida, por sua vez, a primeira organizao de coopera-tivas de catadores a comercializar em conjunto e ilustra o potencial de realizao conquistado quando comunidades de catadores de diferen-tes municpios se aproximam.O que possvel visualizar de forma clara nestes trs casos que os espaos para a existncia de um trabalho digno para os catadores j existem. Por outro lado, permanece um caminho a ser trilhado para que as cooperativas se consolidem como Negcios Sociais Inclusivos. Este conceito utilizado para definir organizaes que visam solucionar problemas sociais a partir de meca-nismos de mercado. Segundo Graziella Comini, professora da FEA-USP, existem trs perspectivas principais para os negcios sociais inclusivos: (i) a europeia, que derivada da tradio de expres-ses da economia social, como o associativismo e o cooperativismo; (ii) a norte-americana, que enxerga os negcios sociais como organizaes privadas com lgicas de mercado dedicadas a solues de problemas sociais e (iii) a corrente predominante nos pases em desenvolvimento, que enfatiza iniciativas que visam reduo da pobreza e vulnerabilidade dos indivduos.Independente de qual caminho ser trilhado pelas cooperativas brasileiras, o papel de agen-te socioambiental e econmico desempenhado pelos catadores vem ganhando reconhecimen-to pela sociedade. Neste contexto, importante que se viabilizem condies para que as coope-rativas assumam parte das responsabilidades distribudas pela PNRS, utilizando esta oportu-nidade histrica para que uma parcela da popu-lao - antes excluda de direitos e instrumentos - possa empreender, gerenciando novos neg-cios sociais inclusivos.Esperamos que esta publicao motive e inspire ideias em todos os empreendedores sociais in-clusive aqueles que porventura no sabem que o so e que, espalhados pelo Pas, lutam dia-riamente para construir um futuro mais digno para suas famlias e comunidades.

    Programa CATA AO e Instituto Walmart.

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    INTRODUO

    Poltica Nacional de Resduos Slidos PNRS, gesto de resduos, coleta seletiva e o papel das organizaes de catadores de materiais reciclveis No dia 02 de agosto de 2010, ao sancionar a Lei Federal n 12.305, o ento Presidente da Rep-blica Luiz Incio Lula da Silva instituiu a Polti-ca Nacional de Resduos Slidos (PNRS). A nova poltica estabeleceu o marco regulatrio para o gerenciamento dos resduos slidos no Brasil e definiu a distino entre os resduos, - materiais que podem ser reutilizados ou reciclados-, e os rejeitos, isto , as substncias que no so pass-veis de reaproveitamento.A PNRS foi fruto de uma construo coletiva que envolveu rgos governamentais de diferentes instncias, empresas, universidades, ONGs e mo-vimentos da sociedade civil, entre eles represen-tantes das cooperativas de catadores de mate-riais reciclveis e ambientalistas.A nova lei institucionalizou uma srie de prin-cpios, instrumentos, objetivos e diretrizes que, em seu conjunto, capacitam o Pas a enfrentar o imenso desafio de organizar a gesto dos re-sduos slidos e a destinao adequada dos re-jeitos. H farta literatura sobre estes temas, sob abordagens especficas de diferentes disciplinas, notadamente do Direito Ambiental. Nessa pu-blicao destacamos a presena dos princpios da cooperao; da preveno e precauo; do poluidor-pagador e protetor-recebedor; da res-ponsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e da participao social.Com base nestes princpios, a legislao atribuiu papeis claros aos diversos atores envolvidos no ciclo de vida dos resduos. Entre as principais responsabilidades, importante citar aquelas relacionadas aos (i) consumidores, - que devem acondicionar e disponibilizar os materiais reci-clveis para a coleta seletiva e tambm retornar aos distribuidores os resduos elencados na lista da logstica reversa -; (ii) ao poder pblico mu-nicipal, cuja obrigao principal implementar localmente seu Plano Municipal de Gesto In-tegrada de Resduos Slidos (PMGIRS) e, desta forma, estruturar os sistemas de coleta seletiva de cada cidade e (iii) iniciativa privada, entre as quais destaca-se o sistema de logstica rever-sa, para o retorno obrigatrio aos fabricantes de determinados tipos de produtos e embalagens. H tambm uma srie de deveres atribudos aos poderes estadual e federal.

    Segundo Jos Cardoso, membro da Cooperativa Pr-Recife (PE), a PNRS um marco histrico que descortina oportunidades aos trabalhadores da catao. A aprovao da poltica demonstra um amadurecimento poltico do Pas em relao a ns, catadores, e vem somar esforos nossa luta de promover a incluso social por meio des-ta atividade econmica, afirma.A despeito das oportunidades, a cadeia produ-tiva brasileira dos materiais reciclveis traz em seu bojo uma srie de desafios estruturais para os catadores. Os produtos da cadeia so commo-dities e, portanto, seus valores esto suscetveis s variaes, muitas vezes abruptas, dos merca-dos local, regional e global.Esta condio de vulnerabilidade torna impera-tivo o apoio do poder pblico s cooperativas de catadores, visando seu desenvolvimento e a con-tinuidade de suas atividades durante o estgio em que se encontram no processo de amadureci-mento enquanto empreendimentos sociais.Para Valdemar de Oliveira Neto, Maneto, Dire-tor de Negcios de Impacto da Fundao Avina, a PNRS abre espao para esta nova viso dos catadores como agentes econmicos. A poltica no assegura, nem garante esta insero, mas cria um ambiente favorvel para que se avance nesta direo, afirma.

    Implementao dos planos municipais de gesto integrada de resduos slidos PMGIRSAo ser sancionada, a Lei n 12.305/10 concedeu aos municpios e estados brasileiros o prazo de dois anos para a elaborao de planos de gesto de resduos slidos. O prazo esgotou no final de 2012 e grande parte dos municpios no concluiu seu Plano Municipal de Gesto Integrada de Re-sduos Slidos, o que os impedir o recebimento de recursos federais para estes fins.A falta de cumprimento de prazos, inclusive, tem feito com que o governo considere a viabilidade de se adiar as metas da PNRS que contemplam desafios como o fim dos lixes e a incluso de co-leta seletiva e reciclagem em todos os municpios brasileiros at 2014. Apesar de uma parte considervel das adminis-traes municipais no estar em dia com suas obrigaes, esta no a situao que se encontra em todas as localidades.A prtica de gesto de resduos varia bastan-te de cidade para cidade. Em algumas delas, a legislao exige a participao dos catadores,

    como o caso de Foz do Iguau. Em outras, a coleta de grandes geradores de material re-ciclvel terceirizada, e, ainda, em outras a responsabilidade da Prefeitura. Procuramos desenvolver as relaes da melhor maneira possvel em cada um destes cenrios, em con-sonncia com a nossa meta global de reduzir o mximo possvel a destinao final para ater-ros sanitrios, conta Julia Faria, Coordenadora de Meio Ambiente do Walmart.Um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE, 20101) e do Ministrio das Ci-dades aponta que apenas 994 dos 5.564 muni-cpios brasileiros contam com servios de coleta seletiva, dos quais uma quantidade ainda menor (377) abrange toda a cidade.A Poltica Nacional de Saneamento (Lei Federal n 11.445/2009) permite que as prefeituras con-tratem cooperativas e associaes de catadores para servios de coleta seletiva sem a realizao de licitaes. No entanto, para que isso acontea, necessria vontade e planejamento por parte dos municpios, alm da presena de cooperati-vas estruturadas na cidade. A impresso que fica que grande parte dos gestores ainda no est preparada para lidar com este assunto. A lei d condies e h oportunidades para gerar avan-os sociais, mas falta vontade poltica para uma parcela dos nossos governantes, afirma Cardoso.H excees, como o leitor poder conhecer nesta publicao. O caso da Cooperativa Futura, de So Jos dos Campos (SP), demonstra que o poder pblico municipal pode exercer o papel de apoiador das cooperativas e, ao mesmo tem-po, articular o trabalho dos catadores com a ini-ciativa privada.Para Paulo Mindlin, Diretor do Instituto Walmart, o papel dos catadores no processo de gesto dos resduos das cidades fundamental e requer ateno da sociedade civil. A poltica deixa claro que este processo deve existir e a pergunta que precisamos responder : como podemos garantir esta participao, de modo a assegurar gerao de renda, autonomia e empoderamento dos cata-dores?, questiona.

    Acordos Setoriais e Termos de Compro-misso para a gesto compartilhada dos resduos atravs da Logstica Reversa Outro aspecto inovador da PNRS foi a criao dos Acordos Setoriais, que permitem pactos de natureza contratual entre o poder pblico e a ini-

    1 [IBGE] Pesquisa Nacional de Saneamento Bsico, 2008. Rio de Janeiro: IBGE 2010

    ciativa privada para a viabilizao dos sistemas de logstica reversa brasileiros, de acordo com o princpio da responsabilidade compartilhada. O mecanismo de logstica reversa abrange seis ca-tegorias crticas de resduos slidos: (i) agrotxi-cos, (ii) pilhas e baterias, (iii) pneus, (iv) leos lu-brificantes, (v) lmpadas fluorescentes, de vapor de sdio e mercrio e de luz mista e (vi) produtos eletroeletrnicos.De maneira geral, as instncias de dilogo forma-das por representantes do governo, da iniciativa privada, das ONGs e das cooperativas catadores tm feito a agenda de discusso progredir. Em 19 de dezembro de 2012, a ministra do Meio Am-biente, Isabela Teixeira, assinou o primeiro acor-do setorial, prevendo a implantao da logstica reversa pelas empresas envolvidas na fabricao, importao, distribuio e comercializao de leos lubrificantes embalados.A questo da logstica reversa tem gerado maior integrao entre ns catadores e as empresas. Como operadores de coleta, a sensao era de que sempre fomos deixados para segundo plano. No entanto, com estas discusses, as empresas passaram a se interessar mais pelo nosso traba-lho, relata Jos Cardoso.Outro instrumento de natureza jurdica seme-lhante ao Acordo Setorial o Termo de Com-promisso que foi includo na PNRS como uma alternativa para os casos em que uma empresa no concorde com o Acordo Setorial firmado por seu setor com o poder pblico. Nestes casos, a companhia poder celebrar diretamente com o Governo um Termo de Compromisso especfico para a realizao da logstica reversa. A lei tam-bm garante um terceiro instrumento: a regula-mentao governamental.

    EStudo do IBGE PuBlICAdo Em 2010 APoNtA quE

    994 3775.564

    apenas EM apenas

    dos

    municpios brasileiros

    cONTAm cOm SERvIOS DE

    cOlETA SElETIvA.

    O SERvIO AbRANgE TODA

    A cIDADE.

  • 8 INSPIRAO INSPIRAO 9

    PERSPEcTIvAS PARA O DESENvOlvImENTO DE NEgcIOS INclUSIvOS NO bRASIl A PARTIR DA cOlETA SElETIvA E REcIclAgEm

    Durante os ltimos vinte anos, os catadores de materiais reciclveis obtiveram um notvel progresso em relao a uma srie de questes fundamentais como a criao e desenvolvimento institucional das cooperativas; a estruturao de um movimento nacional representativo e legtimo; a aprovao do novo marco regulatrio e a expanso do reconhecimento do papel desempenhado como agente econmico junto ao poder pblico e iniciativa privada, alm do respeito de parte da populao pelo protagonismo nas reas de ao e educao ambiental.Sob este cenrio, a PNRS, ao reorganizar a atuao dos diversos atores envolvidos e imprimir uma srie de direitos e deveres a todos, reconfigurou o papel e os desafios dos catadores. Com a criao de novos mercados, isto , novas oportunidades de negcio, foi renovada a vulnerabilidade das cooperativas atuao de concorrentes do setor privado. Trata-se de um cenrio complexo e delicado para as cooperativas.Nestes ltimos anos, houve uma srie de investimentos do Governo e do Terceiro Setor em treinamentos para aspectos fundamentais

    como cooperativismo, segurana do trabalho e automatizao dos processos, entre outros. Trabalhou-se muito e observamos cooperativas muito bem estruturadas em buscar, realizar a triagem e comercializar o material. Para o futuro, um movimento importante ser aumentar a qualidade dos processos de logstica, que uma rea de grande impacto no resultado final do trabalho e que, de maneira geral, ainda tem muito potencial de aprimoramento, pontua Felipe Antunes, Gerente de Sustentabilidade do Walmart.Alm dos desafios especficos relacionados a operao, alguns especialistas chamam a ateno para questes estruturais dos setores de coleta e reciclagem. Encontramos, de um lado, a necessidade dos geradores de resduos de verem atendidas suas metas relacionadas aos acordos de logstica reversa. Do outro, vemos as cooperativas de catadores que no necessariamente esto preparadas para responder a estes desafios. As empresas e o mundo dos negcios exigem uma velocidade de atuao que exgena s cooperativas. Estas apresentam uma velocidade operacional que ditada endogenamente, a partir de condies relacionadas a escolaridade, cultura e conhecimentos incorporados por cada organizao, explica Antonio Bunchaft, economista e diretor da ONG PANGEA, parceira do Programa CATA AO.Para Bunchaft, o ponto central que atualmente h um lapso de conhecimento e expertise nas cooperativas para que estas consigam atender demanda que ser gerada. A boa notcia que existem solues para esta questo. Uma das alternativas suprir este lapso com assistncia tcnica intensiva nas organizaes, no se restringindo capacitao, mas tambm assumindo uma parte da responsabilidade na execuo do servio. Ser necessria uma combinao complexa de autogesto com assistncia tcnica, afirma.Outra alternativa apontada por Bunchaft so os empreendimentos de carter hbrido denominados negcios sociais, ideia compartilhada tambm por Maneto. preciso alcanar um nvel de organizao que ainda no encontramos hoje. Com poucas excees de lideranas empresariais, que tem viso integral do processo, nem as empresas geradoras, nem as da indstria de reciclagem esto em condio de fazer o investimento necessrio para o fortalecimento das cooperativas. de fundamental importncia a criao de novos

    negcios de empresas de reciclagem ou logstica reversa que tenham no seu DNA compartir seus ganhos com os catadores. Ser uma forma de fortalecer as cooperativas, criando um fluxo mais estvel de recursos com foco no processo de organizao, de tecnificao e de melhoria das condies operacionais das cooperativas, explica Maneto. (Leia o Box Sobre Inovao, Negcios Sociais e Compartilhamento de Valor). Para ele, a expectativa de que as cooperativas evoluiro de instituies de coleta para donas de fbricas de reciclagem no compatvel com as possibilidades e o nvel atuais de organizao nelas encontrados. Por conta desta situao, Maneto identifica como desafio central organizar e melhorar o padro de relacionamento dos catadores em duas dimenses: a externa, isto , com os grandes geradores, o poder pblico e a indstria da reciclagem, e a interna, com o aprimoramento do processo de coleta.Para Rodrigo Brito, Diretor de Oportunidades de Impacto da ONG Aliana Empreendedora, h oportunidades para catadores e tambm para os negcios sociais. Temos casos de grupos tcnicos que apoiam cooperativas h 10, 15 anos. O cenrio permitir que estes grupos virem scios de verdade. Com a participao de mais empresas e governos vir tona esta discusso: O trabalho de educar catadores e grupos lento e custoso. necessrio um terceiro perfil de negcio de impacto social? Um novo modelo societrio capaz de aproveitar as oportunidades econmicas junto com o desenvolvimento do trabalho social?, questiona Rodrigo.Segundo Ismael Gilio, economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento, dois grandes desafios se colocam no caminho dos catadores. O primeiro a complexidade de articulao, isto , o funcionamento de uma enorme quantidade de leis, envolvendo diversos atores em um curto prazo. Na opinio do economista, o segundo grande desafio impulsionar o grau de organizao dos catadores, endereando de forma efetiva solues para a srie de carncias de gesto das cooperativas, que ainda apresentam elevados custos operacionais.

    Informalidade, organizao do trabalho e conquistas alcanadas pela categoria O catador informal Segundo a estimativa do MNCR existem no Pas mais de 800 mil catadores de materiais reciclveis, um nmero equivalente, por

    os catadores so responsveis por

    S e g u n d o a e s t i m at i va d o M N C R e x i s t e m n o Pa s m a i s d e

    800 mIl CAtAdoRES dE

    mAtERIAIS RECIClVEIS,um nmero equivalente, por exemplo, populao de capitais

    como Campo Grande (mS), Natal (RN) e teresina (PI).

    exemplo, populao de capitais como Cam-po Grande (MS), Natal (RN) e Teresina (PI).

    De acordo com estudo realizado pelo De-partamento de Economia da Universidade Federal da Bahia (GERI/UFBA) e o MNCR, os catadores so responsveis por 90% de tudo que reciclado atualmente no Brasil e um catador coleta de 2 a 3 toneladas por ms, e a renda nacional mdia da categoria de R$ 136 a R$ 318 por ms.A maior parte dessas pessoas ainda trabalha em lixes e pelas ruas das cidades e, portanto, atuam de maneira desorganizada e informal. Ainda uma parcela pequena de catadores que est organizada em associaes ou co-operativas no Brasil. Isto ocorre porque o processo de organizar a atuao produtiva desta parcela da sociedade particularmen-te complexo, por uma srie de fatores. Parte desta populao flutuante, muitos so mo-radores de rua que transitam entre a coleta e a mendicncia, dentro de um cenrio for-mado por um conjunto de problemas sociais como o uso de drogas, a dependncia do lcool, a desestruturao familiar e a mar-ginalidade. Muitos vivem em situao de po-breza extrema, inclusive sem um teto para morar. Se considerarmos apenas So Paulo, dos 16 mil moradores de rua, acredita-se que 30% ganhem dinheiro exclusivamente com a coleta de reciclveis.

    * dados de acordo com estudo realizado pelo departamento de Economia da universidade Federal da Bahia (GERI/uFBA) e o mNCR.

    coleta de90% 2 a 3 toneladas

    1catador

    R$ 136 a R$ 318/ms

    de tudo que reciclado atualmente

    no Brasil

    A RENdA NACIoNAl mdIA dA CAtEGoRIA dE

    por ms

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    Alm disso, o fluxo de negcios da coopera-tiva no est baseado em um modelo de pa-gamento imediato, como ocorre na catao informal. Do ponto de vista dos catadores, a relao custo-benefcio no est equaciona-da, o que na prtica significa que existe um custo implcito para estes aderirem ao traba-lho em uma cooperativa.Como as cooperativas se relacionam com os catadores que ainda esto na informali-dade uma questo importante, que merece ser discutida com profundidade. possvel criar modelos de relacionamento mais fle-xveis com estes catadores? Este um tema que precisa ser pensado, para ampliar a base e o alcance do trabalho das cooperativas de modo a gerar um processo de incluso maior do que temos hoje, afirma Maneto.A informalidade, o reduzido nvel educacio-nal, o precrio acesso informao, a igno-rncia sobre os direitos fundamentais e a mi-sria levam o catador a vivenciar situaes de explorao por parte de pequenos e m-dios empresrios, que muitas vezes os ludi-briam na pesagem e na soma dos materiais ou pagam valores irrisrios. Alm da violao de direitos trabalhistas, vis-to que muitas vezes essas pessoas trabalham por longas jornadas diariamente em ambien-tes insalubres e sem nenhum benefcio, em algumas situaes so constatados casos de servido por dvida, vnculos estabelecidos

    por conta de vcios e, ainda, trabalho infantil e anlogo escravido. Cooperativas de catadores As cooperativas e associaes de catadores desenvolvem um papel fundamental para a sociedade e o meio ambiente ao prestar o servio de interesse pblico que a coleta dos materiais reciclveis. E no mbito in-terno, estas instituies permitem aos co-operados a ressignificao da atividade de catao e uma construo identitria que expande seu papel na sociedade, ao coloc--los como agentes ambientais. Esta incorporao ao tecido social se d no mbito da colaborao entre cidados, es-pecialmente quando se segue o mtodo de coleta porta a porta, precedido pelo traba-lho de educao ambiental nas residncias. Em algumas localidades do pas, como na cidade de Sorocaba (SP), esta interao fez germinar, entre a populao, um sentimen-to de apoio causa dos catadores.A despeito dos avanos nos planos estra-tgicos e tticos, muitas cooperativas ain-da enfrentam dificuldades para se manter acima do ponto de equilbrio e gerando renda que mantenha os cooperados enga-jados. Por este motivo, o MNCR iniciou uma campanha nacional para estimular as pre-feituras a pagarem pelo servio prestado de coleta seletiva pelas instituies de ca-tadores. Esta uma realidade que j ocorre em cidades como Araraquara, Aruj, Biriti-ba Mirim, Diadema, So Jos do Rio Preto, Orlndia e Ourinhos, no estado de So Pau-lo; em Londrina e Rio Negro, no Paran, Natal no Rio Grande do Norte e Gravata, no Rio Grande do Sul.

    Movimento Nacional de Catadores de Materiais no Brasil MNCR As discusses que originaram o MNCR tiveram incio em 1999, com a realizao do 1 Encontro Nacional de Catadores de Papel, ocorrido em Belo Horizonte (MG). Desde sua gnese, o movimento estabeleceu como prioridade contribuir para que as polticas pblicas de gesto dos resduos slidos contemplasse a incluso social dos catadores de materiais reciclveis. A fundao do MNCR ocorreu durante o 1 Congresso Nacional de Catadores, em junho de 2001, em Braslia. No ltimo dia do evento, o recm-nascido movimento promoveu uma

    marcha de 1700 catadores, acompanhados da populao de rua, para exigir alteraes no primeiro projeto de lei sobre o tema, o PL 203 de 1991, cuja tramitao encontrava-se anestesiada no Congresso Nacional. No encontro, tambm foi publicada a Carta de Braslia, manifesto que reivindica a definio e implantao, em nvel nacional, de uma poltica de coleta seletiva que priorize o modelo de gesto integrada dos resduos slidos urbanos, colocando os mesmos sob a gesto dos empreendimentos dos catadores de materiais reciclveis. Outras duas causas primordiais defendidas desde o incio pelo movimento so a erradicao do trabalho infantil e dos lixes no Pas.O MNCR contribuiu ativamente com a redao para o aprimoramento do marco regulatrio atravs da articulao com dezenas de instituies e movimentos sociais por meio do Frum Lixo e Cidadania. Essas discusses e propostas foram sintetizadas em documento, enviado em junho de 2002 para a Comisso Especial encarregada de analisar o ento Projeto de Lei. Um aspecto interessante que deve ser ressaltado foi o papel desempenhado pelos catadores na aprovao da lei. O projeto estava h 19 anos no Congresso e a entrada dos catadores no processo, - com apoio do governo Lula -, permitiu que se destravasse a discusso e gerasse urgncia na aprovao da Lei. As lideranas do governo no Congresso se envolveram, os catadores conseguiram renegociar vrios pontos e a legislao foi aprovada. J neste momento, tivemos uma contribuio muito importante dos catadores, relembra Maneto.Para ele, o grande mrito do MNCR foi criar visibilidade, posicionando os catadores como agentes econmicos e estabelecendo relaes diretas com as indstrias e com o poder pblico.Segundo o MNCR, seus membros acreditam na prtica da ao direta popular, isto , na participao efetiva do trabalhador em tudo que envolve a sua vida, abrindo caminho para a transformao da sociedade. O objetivo do movimento contribuir para a construo de sociedades justas e sustentveis a partir da organizao social e produtiva dos catadores de materiais reciclveis e suas famlias, com foco em princpios como autogesto, ao direta,

    independncia e solidariedade de classe e democracia direta.

    A Rede Latinoamericana e do Caribe de Catadores de Materiais Reciclveis Rede LACRE A Rede Lacre uma organizao represen-tativa de movimentos que agrupam os ca-tadores residentes em 18 pases localiza-dos na Amrica Latina e Caribe. Essa rede prova o quanto os catadores de materiais reciclados se desenvolveram, a ponto de ul-trapassar as barreiras de suas naes. Sua misso consiste em proporcionar di-logo entre os movimentos dos pases inte-grantes a fim de trocar experincias, dese-nhar aes e execut-las, colaborando com o desenvolvimento das condies de traba-lho dos catadores que coletam, selecionam, recuperam, transformam, comercializam e reutilizam os resduos slidos.Na execuo de suas atividades, a Rede La-cre engloba muitas exigncias, entre elas o reconhecimento por parte dos governos, o acesso aos benefcios dos trabalhadores e demandas mais especficas, como o caso, por exemplo, do repasse do negcio de re-ciclagem a empresas privadas, o que gera desemprego para uma srie de catadores.

  • 12 INSPIRAO INSPIRAO 13

    HISTRIcO, PRESENTE E fUTUROo ano de 1976 foi atpico em salvador. Chuvas torrenciais deixaram milhares de desabrigados nas reas contguas a bair-ros considerados nobres da capital baiana. O poder pblico decidiu alojar estas fam-lias em uma rea ento isolada e distante: o bairro de Canabrava, onde pouco tempo antes havia sido alocado o novo lixo da cidade. A justificativa oficial era que os de-sabrigados poderiam construir uma nova vida na rea. No entanto, no havia trans-porte, saneamento bsico, nem comrcio. Os novos moradores da regio estavam isolados e sem suporte do governo. Na luta pela sobrevivncia, voltaram-se para o ni-co recurso que dispunham: o lixo. A gen-te morava debaixo de lona. S havia o lixo e amos at l para tentar encontrar res-tos de alimentos entre os resduos, conta Dona Maria das Mercs de Oliveira, coope-rada da CAEC.Os anos se passaram. As barracas de lona deram lugar a casas de alvenaria. As fam-lias sobreviveram e, com o avano da dis-cusso sobre resduos, o poder pblico de-finiu pelo fechamento do lixo, fato que se concretizou no ms de dezembro de 2000.Naquele momento, existiam cerca de 1000 pessoas - entre elas 300 crianas - que sobreviviam das atividades de catao dentro do lixo de Canabrava. Na poca, Marlia Pessoa, uma assistente social da LIMPURB a empresa estatal responsvel pela limpeza urbana de Salvador procu-rou a ONG PANGEA, uma organizao com experincia em projetos socioambientais, e juntos iniciaram um trabalho de suporte ao grupo de catadores.Durante o ano de 2001, teve incio um tra-balho de articulao, com a constituio de um grupo de parceiros, que incluiu a Unio Europeia, para a elaborao de documentos e estudos com o objetivo de organizar uma cooperativa entre os catadores. No ano se-guinte, as ideias comearam a sair do papel e foi promovida uma capacitao tcnica e social durante nove meses. Dos 100 inscri-tos no curso, 80 completaram com suces-so as atividades e, desta turma, 50 manti-veram-se unidos, decidiram ir em frente e conseguiram, junto a apoiadores, o patroc-

    CAEC CooPERAtIVA dE CAtAdoRES AGENtES EColGICoS dE CANABRAVA - FuNdAo: 2003 - Salvador, BA - Parceira da iniciativa privada

    Alianas para o desenvolvimentoIsolada e sem assistncia do poder pblico, uma comunidade se volta para os resduos em busca de sobrevivncia. Uma cooperativa, diversas parcerias com a iniciativa privada e centenas de vidas transformadas: a histria da CAEC

    nio para alugar um galpo e uma ajuda para fretar caminhes. E foi assim que, em maio de 2003, nasceu oficialmente a Cooperati-va de Agentes Ecolgicos de Canabrava, a CAEC.Durante o mesmo ano, a liderana da CAEC se aproximou do Movimento Nacional dos Catadores de Material Reciclvel (MNCR) e comeou a trabalhar para organizar o pri-meiro encontro estadual de catadores da Bahia. O evento foi realizado em fevereiro de 2004 e reuniu catadores de 22 munic-pios baianos.As lideranas da CAEC tiveram papel fun-damental nessa articulao regional. Do en-contro, ficou a certeza de que era essencial obter uma melhor estrutura para as coope-rativas, conta Paulo Medeiros, tcnico do PANGEA que atua como consultor na CAEC.Era um momento, na Bahia, de buscar al-ternativas para fortalecer as cooperativas, buscando solues para melhorar a quali-ficao e a infraestrutura das organizaes, entre elas a CAEC. Este processo de dilogo teve como resultado a construo coletiva de uma proposta, levada Petrobras, para a organizao de uma rede de catadores no Estado, a Catabahia. A estatal se interes-sou pelo projeto e resolveu patrocin-lo, doando caminhes, prensas, balanas, uni-formes e EPIs (Equipamentos de Proteo Individual). E a CAEC, por ser sede da Ca-tabahia, tambm recebeu a doao do seu atual espao fsico.Com uma sede prpria e com uma parte das questes estruturais resolvidas, a cooperati-va comeou a buscar grandes geradores que pudessem doar material reciclvel, um gran-de marco nesta poca foi a parceria com o shopping Iguatemi de Salvador, que passou a doar os resduos gerados para a CAEC.Em 2006 uma nova etapa importante se ini-ciou: comearam as negociaes com o Wal-mart. Um engenheiro ambiental foi contra-tado para fazer o estudo gravimtrico - que identifica a composio e especificidades dos resduos slidos- de quatro lojas do poten-cial parceiro. A partir dos dados do estudo foi estabelecida uma parceria com o Walmart e, no comeo de 2007 teve incio a doao de

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    primordialmente para a comercializao.Com a cotao do papelo mantida em patamares baixos desde a crise econmi-co-financeira de 2008, existe, entre os as-sociados, o consenso de que importante investir na diversificao de produtos - o que permitir entregar ao mercado no s materiais reciclveis, mas tambm itens de maior valor agregado.

    No entanto, a questo que se coloca como mais estratgica para a viabilidade econmica da cooperativa o reconhecimento pela pres-tao do servio ambiental de coleta e destinao dos materiais. A CAEC est ne-gociando com algumas empresas - nas quais a cooperativa faz coletas peridicas e pro-gramadas de materiais reciclveis - a reviso dos contratos, com o objetivo de incorporar mecanismos que remunerem a cooperativa pelo servio prestado. Est claro que apenas a receita da venda dos materiais insuficiente para viabilizar a operao da CAEC. Para tanto, o PANGEA elaborou um estudo que demonstra os custos operacionais embutidos na atividade e os valores cobrados pelas empresas privadas para fornecer servio semelhante. Esta uma discusso fundamental para o futuro da CAEC e de outras cooperativas espalhadas pelo pas.

    CAEC - Nmeros da Produo

    Prepara em mdia 20 fardos de papelo/dia. Em torno de 250 toneladas/ms.24 toneladas/ms de plsticos (exceto PEt).10 toneladas/ms de PEt.

    materiais reciclveis levados pelos consumi-dores. Com o desenvolvimento da relao, a CAEC investiu em estruturas de armazena-gem, o que permitiu no s coletar o material deixado pelos consumidores, mas tambm retirar os resduos de plstico e papelo ge-rados pelas prprias lojas, o que alavancou os resultados da cooperativa na poca.Ainda em 2007, a CAEC tambm conseguiu regularizar de forma integral todas as ques-tes relativas previdncia social, outra im-portante conquista. E o primeiro semestre de 2008 foi bastante positivo para os coope-rados, com pr-labores acima de um salrio mnimo durante todos os meses. Contudo, a crise financeira de 2008 trouxe desafios para a organizao, principalmente devido queda do preo de vendas dos materiais e a escassez de pedidos dos compradores.A soluo foi apostar em inovao. Por meio de um edital, a CAEC conseguiu apoio da Agncia Brasileira de Desenvolvimento In-dustrial (ABDI) para exportar produtos para a Europa. Aps a realizao de estudos de mercado e contatos comerciais, a CAEC ex-portou, em novembro de 2009, um conti-ner com 22 toneladas de papelo para uma indstria na Blgica. Com o feito, foi possvel renegociar com as indstrias locais, que au-mentaram os valores pagos pelos materiais.O ano de 2010 foi marcado por um novo pa-dro de gesto. Um engenheiro de produo foi contratado para organizar o sistema de

    metas da cooperativa. A iniciativa aumen-tou a produtividade e a CAEC conseguiu obter em todos os meses do ano um pr-labore acima de um salrio mnimo um excelente resultado.No entanto, alteraes na cotao do pape-lo causaram um impacto negativo nos re-sultados do ano seguinte e a organizao se viu novamente desafiada. Como resposta, os catadores decidiram apostar na diversi-ficao do portflio de produtos, avanan-do na cadeia produtiva. Desta forma, a cooperativa iniciou o tra-balho de fornecer, por encomenda, gros plsticos (plstico reciclado em forma de gros) e tambm caixas de papelo para uso comercial, inclusive com a logomarca do cliente, se necessrio. No intuito de diversificar ainda mais as fon-tes de renda, outra iniciativas j esto em andamento, visando a produo e comer-cializao dos seguintes produtos:- gua sanitria: sob o ponto de vista do negcio, a produo de gua sanitria apresenta, alm da manipulao qumi-ca, a fabricao da embalagem de plsti-co, porm a CAEC possui tanto o plstico quanto o equipamento para confeco de garrafas, e por isso esse negcios esto nos planos da cooperativa. Atualmente, os recursos humanos j esto treinados e a CAEC aguarda a instalao de um dosador automtico para garantir a segurana no ambiente de trabalho. - biodiesel e sabo: a cooperativa j possui uma fbrica de sabo, e aguarda a obten-o da licena de operao da unidade de biodiesel que foi adquirida para atender ao consumo interno dos caminhes. A fbrica far com que a glicerina, um subproduto da produo do biodiesel, vire um produto comercializvel na forma de sabo. A coo-perativa tem parcerias estabelecidas para receber a doao de leo de cozinha, que a matria-prima utilizada para a produo de biodiesel. No momento a CAEC aguarda a obteno da licena de operao da uni-dade de biodiesel, visto que j possui este equipamento em condies de operao e tambm a fbrica de sabo.O objetivo produzir biodiesel para abastecer a frota interna de caminhes e tambm vender o excedente. J a pro-duo de sabo uma iniciativa voltada

    cONSIDERAES ESPEcfIcAS SObRE A cAEc

    Mais de 180 parcerias com a iniciativa pri-vada, fbricas de sabo, embalagem e gua sanitria e biodiesel para diversificar o por-tiflio, direito a frias, licena para ocasies especiais e um moderno sistema de moni-toramento e gesto da frota veicular. Saiba mais sobre algumas das caractersticas da CAEC e conhea algumas das inovaes que trouxeram resultado para a cooperativa.

    Regularidade Legal e Documentao

    A CAEC possui toda a documentao legal para suas operaes. A adeso e contratua-lizao junto ao INSS realizada para todos os cooperados. Esta era uma questo impor-tante que desafiava a organizao, pois a re-gularidade junto ao INSS era uma condio necessria para que a cooperativa partici-passe de diversos editais governamentais.

    Infraestrutura, mquinas e equipamentos

    Recursos Humanos: mdia de 170 cooperadosrea Prpria: edifcios, galpes e fbricasFrota: 5 caminhesMquinas e Equipamentos - 2 empilhadeiras - 10 prensas- Fbrica de Caixas de Papelo - com equipa-mento para Silcagem- Unidade de biodiesel/fbrica de sabo.- Unidade de Fabricao de Gros para todos os tipos de plsticos e equipamento de sopro de garrafas de PEAD (Polietileno de Alta Densida-de) para produzir garrafas para gua sanitria.Unidade de produo e engarrafamento de gua Sanitria.

    Processos produtivos, estocagem e transporte de insumos e produtos

    O espao fsico ocupado por frentes de traba-lho estabelecidas pelo critrio de diviso de ma-teriais. Papelo, plstico, papel branco, indstria de plstico, vidro e recepo, onde tambm so acumulados os metais: cada rea tem a sua equi-pe especfica fixa e conta com um coordenador. O material triado prensado e enfardado den-tro de seu setor e acumulado nos espaos mais prximos ao ptio, onde h acesso para que os caminhes sejam carregados e ocorra a retirada do material. H sada diria de materiais para a venda. Nas estaes de trabalho presentes nas lojas do Walmart e nos shopping centers, os cooperados contam com prensas e executam o enfardamento dos materiais in loco.Os materiais so retirados pelos compradores, com exceo do papelo - a CAEC promove a entrega desse material pagando o frete at a in-dstria compradora. Na triagem dos plsticos, as garrafas de PEAD so separadas e encami-nhadas para a Unidade de Fabricao de Gros interna a fim de que sejam recicladas e transfor-madas em garrafas para gua sanitria.Muitos dos materiais doados so deixados na

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    cesso na alfabetizao de adultos. Hoje o trabalho educacional no promovido di-retamente dentro da cooperativa, mas os cooperados so incentivados a participar de projetos nas escolas comunitrias de seus bairros, em especial a de Canabrava, onde reside a maior parte dos associados.J o treinamento sobre a atuao nas frentes de trabalho e uso de equipamentos minis-trado pelos prprios cooperados para os no-vos colegas que ingressam na CAEC.Tambm so promovidos treinamentos mo-tivacionais pela Assessoria Tcnica e so realizadas atividades visando o desenvol-vimento do relacionamento interpessoal.

    Suporte aoscooperados

    A CAEC no possui um programa especfi-co para o tema, no entanto uma coopera-da responsvel por encaminhar os coo-perados que apresentem demandas sobre questes pessoais, inclusive de sade, aos servios pblicos ou de parceiros. Quanto questo especfica de assessoria jurdi-ca, os encaminhamentos so feitos para as instituies de ensino superior. A as-sessoria tcnica estimula os cooperados a manterem seus filhos na escola e trabalha a conscientizao sobre o consumo de be-bidas alcolicas e drogas.

    Aspectos polticos, econmicos e financeiros da organizao

    Um ponto muito marcante no modelo de ne-gcios da CAEC seu retrospecto de gran-de sucesso em estabelecer relaes com a iniciativa privada: so mais de 180 par-ceiros, entre indstrias, shopping centers, supermercados, pequenos comrcios e condomnios residenciais.A parceria com os grandes geradores de resduos, notadamente os supermercados, as indstrias e os shopping centers, de importncia crucial no desenvolvimento econmico e institucional da cooperativa. Dezessete parceiros disponibilizam os ma-teriais reciclveis que correspondem a cer-ca de 80% do faturamento da cooperativa.O papelo , de longe, o material recicl-vel que tem maior peso na composio do faturamento, com cerca de 250 toneladas comercializadas ao ms. Os clientes des-te produto exigem que a CAEC entregue

    servio prestado pela cooperativa e uma boa prtica que pode servir de inspirao para ou-tras entidades no pas.

    Higiene, limpeza, sade e segurana do trabalho

    Os cooperados contam com uma grande rea de apoio, dotada de bebedouros, banheiros e vestirios. A cozinha ampla e bem equipada, o refeitrio possui espao adequado e h uma pessoa responsvel por esquentar as refeies trazidas de casa.Todos os associados recebem os Equipa-mentos de Proteo Individual (EPIs) e o treinamento de como utiliz-los e assinam o protocolo que estabelece seu uso obrigat-rio. A utilizao fiscalizada e os coopera-dos que no utilizam o EPI so impedidos de trabalhar. Quando isto ocorre, o cooperado advertido por escrito e em caso de rein-cidncia ele suspenso, na primeira vez, e desligado do quadro de associados na se-gunda reincidncia conforme previsto no regimento interno.A cooperativa est reestruturando as reas de trabalho para que algumas operaes que hoje so realizadas em rea aberta (sob o sol) dei-xem de acontecer: dois galpes cobertos com esteiras para triagem dos materiais sero colo-cados em operao.

    Treinamento e desenvolvimento humano

    A CAEC possui uma sala com computado-res conectados internet, com suporte de um tcnico para auxiliar as pessoas a acessarem e utilizarem os softwares.A preocupao com a alfabetizao e a educao dos cooperados existe desde o incio da cooperativa. Diversos programas educacionais e parcerias foram desenvol-vidos ao longo dos anos e obtiveram su-

    sede da CAEC pelos prprios geradores, en-quanto outros chegam pela coleta feita com os caminhes prprios da cooperativa junto a condomnios residenciais e ou grandes gerado-res. O time de logstica conta com um moderno sistema de navegao e monitoramento por sa-tlite: todos os caminhes possuem GPSs e um software utilizado para gerenciar os veculos na sede da cooperativa. A cooperada Maria das Mercs organiza os itinerrios e monitora os deslocamentos, promovendo alteraes nas ro-tas sempre que h necessidade, como por exem-plo quando uma loja tem muito material acu-mulado. Antes de usarmos o sistema com GPS no tnhamos como localizar o caminho mais prximo quando recebamos demandas urgen-tes dos clientes. Com o sistema, localizo qual o veculo mais prximo, quem o motorista e envio a comunicao pelo prprio aparelho, explica Maria. A iniciativa inovadora diminuiu o tempo de resposta e melhorou a qualidade do

    Merecido descansouma soluo inovadora da CAEC foi a criao do procedimento das frias para os coopera-dos. Como a legislao cooperativista no prev este direito, conceder frias para os associa-dos uma deciso que cabe a cada instituio. Na CAEC, os cooperados tm direito a trinta dias de frias por ano, perodo que utilizam para descansar e manter o equilbrio entre vida pessoal e trabalho.

    outro mecanismo muito til criado pela CAEC a folga especial de cinco dias em caso de falecimento de parente de primeiro grau. o perodo importante para que a pessoa possa cuidar dos encaminhamentos necessrios e reestabelecer seu equilbrio emocional.

    o material e a cooperativa paga cerca de R$ 320,00 por frete. Os compradores dos demais materiais retiram os produtos na sede da cooperativa. Pelo seu porte, a operao da CAEC tem custos elevados. Gastos com energia, gua, manuteno de equipamentos e da frota veicular e os pagamentos de funcionrios com vnculo empregatcio regido pela Con-solidao das Leis do Trabalho (CLT) - como os motoristas e operadores de empilhadei-ras -, e de diversas assessorias tm grande impacto nos resultados do empreendimen-to. Dentro deste contexto torna-se funda-mental que a cooperativa seja remunerada pelos servios ambientais prestados ini-ciativa privada e ao poder pblico.A margem de lucro formada pelas sobras lquidas da operao em relao ao total fa-turado. Atualmente a margem foi reduzida tendo em vista que os custos de operao aumentaram muito e o faturamento da ven-da do papelo diminuiu, explica Antonio Bunchaft, Diretor do PANGEA.

    Regimento e transparncia na gesto

    A CAEC possui estatuto e regimento inter-no no qual esto estabelecidas as funes e obrigaes dos cooperados em geral, bem como daqueles que assumem funes burocrticas. H o arquivo das Atas de

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    Caso de sucesso: A CAEC dentro dos supermercados

    A parceria da CAEC com o Walmart uma experincia que tem obtido resultados interes-santes para ambas as partes desde seu incio em 2006. Atualmente, 41 lojas do Walmart so atendidas pela CAEC, que aloca 51 cooperados para realizar o servio de coleta dos resduos de plstico e papelo gerados pela operao das lojas e, em alguns casos, dos materiais reciclveis levados pelos consumidores. Ao todo, as lojas do Walmart doam cerca de 472 toneladas de papelo e 13 de plstico por ms para a CAEC gerando um faturamento de cerca de R$ 80.000,00/ms, o que representa aproximadamente 40% do faturamento da cooperativa.

    No Hiper Bompreo Iguatemi, localizado no bairro da Pituba, em Salvador, os cooperados trabalham em uma rea especfica no exterior da loja, onde est localizada uma prensa de propriedade da CAEC. Na opinio de dona Clia, a relao com os funcionrios do Walmart positiva: o pessoal aqui respeita muito a gente, como [se fssemos] qualquer outro funcionrio da loja.

    todo o volume de papelo e plstico gerado na loja encaminhado para este local onde os cooperados prensam e preparam os fardos para posterior comercializao. A retirada do material, em mdia 10 fardos por dia, feita pelos caminhes da cooperativa. A cooperati-va mantm de 4 a 5 cooperados operando esta estao e o supermercado fornece as trs refeies dirias. os equipamentos de proteo individual so fornecidos pela CAEC.

    A Gerente de operaes luiza comenta que o relacionamento dos associados da CAEC com os funcionrios do Hiper Bompreo Iguatemi timo. os cooperados so pr-ativos e muito respeitados aqui, diz. Alm disso, os cooperados afirmam gostar muito de traba-lhar na loja e se sentem respeitados. Esta relao interpessoal entre cooperados e funcio-nrios das lojas um dos desafios da parceria. Em alguns casos, a integrao de novos cooperados s etiquetas sociais muitas vezes demanda um tempo de maturao, neces-srio para que o comportamento seja harmonioso e satisfatrio para ambas as partes.

    Bompreo CanelaNeste supermercado a estao de trabalho, onde papel e papelo so prensados e en-fardados, fica no interior da loja, junto rea de estoque. A CAEC tambm responsvel pela coleta e comercializao. Apenas um funcionrio realiza o trabalho.

    o Gerente Enoque dantas relata estar satisfeito com a qualidade do servio prestado pela cooperativa e que tambm considera muito importante que a loja cumpra seu papel social.

    No bairro Canela os moradores so muito engajados com as questes socioambientais e os contineres da CAEC disponibilizados no estacionamento da loja recebem muito mate-rial reciclvel dos consumidores.

    Antonio Bunchaft, diretor do PANGEA, conta que est em discusso um novo arran-jo para a parceria. Foi formulada uma proposta tcnica que definiu os parmetros quantitativos e qualitativos de atendimento. A partir da aprovao desta proposta foram identificadas todas as rubricas da operao, levantados os respectivos custos, comparados aos servios no mercado e elaborada ento a proposta financeira enviada ao parceiro, explica Antonio.

    o objetivo da CAEC rediscutir os termos da parceria com o Walmart. As flutuaes para baixo dos preos dos materiais reciclveis no mercado torna difcil sustentar os servios de disponibilizao de caixas compactadoras de resduos, contineres e cooperados nas lojas somente tendo como contrapartida a doao de papelo e plstico, comenta Antonio.

    Posse das Diretorias e a cada dois anos eleito um novo presidente.Quinzenalmente, so realizadas reunies para a prestao de contas. Os dados so apresentados de forma didtica com o

    objetivo de garantir a transparncia na gesto dos valores e na diviso do lucro. Nestas reunies tambm so discutidos outros assuntos relevantes.O regimento normatiza muito bem a di-

    O TRAbAlHO DE INcUbAO, SUAS DImENSES E AS PERSPEcTIvAS DE AUTONOmIAO foco deste captulo o trabalho de apoio realizado pela instituio que atua como in-cubadora, a organizao PANGEA, e suas in-teraes com as atividades da CAEC em dife-rentes dimenses. Se em algumas questes a autonomia da cooperativa j se vislumbra no horizonte e neste aspecto serve de farol para outras instituies - , por outro existem tarefas que ainda precisaro de apoio por um tempo indeterminado para serem assu-midas pelos associados. O PANGEA - Centro de Estudos Ambientais uma Organizao Civil de Interesse Pblico (OSCIP) fundada em 1996 que desenvolve aes sociais nos campos cultural, ambiental e econmico no estado da Bahia. Sua sede est localizada em Salvador e a instituio mantm atualmente programas nas seguintes reas: Conserva-o Ambiental e Desenvolvimento Susten-tvel, Economia Social e Cooperativismo, Educao Ambiental, Protagonismo Juvenil e Turismo Sustentvel.

    Assessoria

    Jurdica & Contbil

    A CAEC utiliza prestadores de servios para a resoluo de questes jurdicas e contbeis. O papel do PANGEA mediar a relao entre a cooperativa e as instituies ou empresas que prestam os servios. A terceirizao destas atividades foi a soluo mais ade-quada encontrada pelo grupo.

    Na rea contbil, as principais demandas esto relacionadas aos processos de regu-larizao dos cooperados junto ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), rgo responsvel pelo programa de Previdncia Social brasileiro.No mbito jurdico, a conformidade com os marcos regulatrios, assim como questes relacionadas ao reconhecimento formal de novos quadros diretivos e sua representa-tividade legal, exige que a cooperativa con-trate servios de escritrios de advocacia com experincia em cooperativas. No caso das questes jurdicas de carter pessoal, o PANGEA e a CAEC auxiliam os cooperados a buscar servios de assistncia mantidos por instituies de ensino superior

    Gesto Administrativa e

    Financeira

    A gesto administrativa da CAEC obje-to de ateno especial do PANGEA. A ONG

    viso de responsabilidades e h uma preocupao muito grande com a transpa-rncia, principalmente no tocante pres-tao de contas, afirma Ctia Santos da Silva, cooperada que atua como Assistente de Incubao.Todas as horas trabalhadas pelos coope-rados no ms so computadas e somadas. Os custos operacionais so descontados do valor faturado com a venda do material e o saldo dividido pela soma de horas. Chega-se assim a um valor/hora do ms e cada cooperado recebe de forma propor-cional s horas trabalhadas naquele pero-do. A renda mensal dos cooperados hoje est em torno de R$ 400,00. Percebe-se pela comparao com a renda media obti-da por cooperados de outras cooperativas que h na CAEC um campo de oportuni-dades de melhoria visando o aumento da rentabilidade da operao e consequente-mente da renda dos associados.

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    procura estimular a participao de todos os associados nas reunies administrati-vas, apresentando ou, pelo menos, discu-tindo e votando as propostas apresentadas.O papel da assessoria tcnica que forne-cemos mediar as discusses, apontando caminhos e alertando para possveis con-sequncias. Importante ressaltar que a atuao restringe-se mediao, pois no temos poder deliberativo, nem voto nas de-cises. Isto , as decises so sempre dos cooperados. Esta uma prerrogativa do trabalho desenvolvido pelo PANGEA, conta Paulo Medeiros, consultor da ONG.J a administrao financeira realizada de forma mais autnoma pela CAEC. Nes-te caso, no h a necessidade da assessoria tcnica do PANGEA acompanhar as ativida-des de forma to prxima quanto na gesto administrativa.

    Operaes

    e Logstica

    Dois tcnicos do PANGEA atuam na asses-soria das Operaes. Eles so responsveis por auxiliar a organizao dos itinerrios da frota de caminhes da CAEC, colaboran-do para garantir a qualidade dos servios operacionais de coleta no dia a dia.No mbito institucional, a incubadora e a cooperativa dividem um termo de respon-

    gUIA RPIDO

    A estratgia de estabelecer parcerias com a iniciativa privada foi bem-sucedida, com acordos firmados com diferentes setores como comrcio, indstrias e condo-mnios residenciais.

    Com a mudana do cenrio econmico, a cooperati-va diagnosticou a necessidade de cobrar pelos servi-os ambientais prestados iniciativa privada. Foram realizados estudos para embasar as negociaes em andamento.

    A cooperativa direciona esforos na diversificao de produtos, apostando em itens de maior valor agregado

    diversificar o portfolio de produtos e servios comer-cializados, aumentando a rentabilidade da operao e a renda mdia dos cooperados.

    Colocar em operao todas as unidades do seu par-que industrial com excelncia, capacitando seus coo-perados a explorar ao mximo o potencial de negcios da rea fabril.

    Ampliar a expertise em marketing, prospeco de

    A incubadora participa nas discusses sobre presta-o de contas e gesto administrativa para garantir o espao de dilogo. Esta a atividade em que o per-odo de incubao tem potencial de se prolongar por mais tempo, pois sem a mediao externa a relao torna-se muitas vezes conflituosa entre os cooperados.

    A incubadora acompanha e media a relao com prestadores de servio como escritrios de contabili-dade e direito. No entanto, os associados j realizam grande parte da operao sem o auxlio do PANGEA e um futuro de auto-suficincia se avizinha.

    clientes, para que a chegada dos novos produtos ao mercado tenha sucesso e contribua para o negcio.

    Implementar um mtodo de treinamento com o objetivo de assegurar que a integrao de novos cooperados nas estaes de trabalho nos supermercados se d sempre da forma mais harmoniosa possvel, provendo-os das capacidades comportamentais condizentes com as situ-aes que enfrentaro no dia a dia de trabalho.

    o trabalho de operaes e logstica tambm feito de maneira razoavelmente autnomo: embora haja participao do PANGEA, a CAEC realiza as opera-es quase sem precisar de suporte. No entanto, foi necessria a participao do PANGEA como avalista das parcerias para coletas de materiais nos supermer-cados.

    A incubadora est iniciando um trabalho motivacional para os recursos humanos da cooperativa que visa melhorar a integrao e desenvolver as competncias ligadas ao equilbrio no relacionamento interpessoal.

    Solues e boas prticas da CAEC relacionados gesto e negcios

    Principais desafios da CAEC relacionados gesto e negcios

    Boas prticas, destaques e solues gestados na relao entre o PANGEA e Cooperativa

    para avanar na cadeia e j conta com um pequeno parque fabril.

    o emprego de tecnologia GPS melhorou a qualidade do servio logstico, principalmente dos transportes, capacitando a cooperativa a atender as demandas dos parceiros.

    o estabelecimento de frias e licena em caso de falecimento de parente em primeiro grau um benef-cio que contribui para o equilbrio entre vida pessoal e trabalho dos cooperados, aumentando o engajamento e o sentimento de pertencimento dos indivduos.

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    sabilidade compartilhada junto a shopping centers e varejistas parceiros. Por este ter-mo, os geradores de resduos recebem o servio, a cooperativa o presta e o PANGEA cumpre o papel de avalista da qualidade do servio. Embora em nossa metodolo-gia nosso papel seja o de incubar, atuamos tambm desta forma para atender s con-dies destas parcerias. Com o tempo, a tendncia que esta relao deixe de ser necessria, conta Paulo.

    Educao

    ambiental

    Nos anos iniciais da cooperativa, o PANGEA desenvolveu um trabalho de educao am-biental voltado ao pblico jovem, sensibili-zando moradores de condomnios residen-ciais a separar o material reciclvel para recolhimento. A iniciativa rendeu frutos e parcerias que duram at hoje para a CAEC.

    Qualidade de vida e

    relacionamento para o trabalho

    No momento de elaborao dessa publica-o, O PANGEA iniciou um trabalho com o intuito de promover atividades motivacio-nais, construindo desta forma um senti-mento de pertencimento e tambm colabo-rando com a melhora da qualidade de vida dos cooperados. O assessor tcnico informa que essa fase tem como objetivo conhecer o grupo de catadores, e depois desenhar um plano que atenda s principais necessida-des individuais e coletivas do grupo.

    Transparncia e

    governana no cooperativismo

    Como em outras dimenses, o papel do PANGEA mediar o dilogo e estimular que as aes de governana na CAEC se desen-volvam sob premissas democrticas e com transparncia. Desta forma, foi incorpora-da rotina a realizao de uma pr-reunio de prestao de contas, com a presena dos diretores administrativo e fiscal, dos coor-denadores de trabalho e dos assistentes de incubao da cooperativa, com a mediao de tcnicos da PANGEA. Nestes encontros, realizada uma prestao de contas preli-minar e discutida a expectativa de distri-buio de lucros do perodo.

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    HISTRIcO, PRESENTE E fUTUROso jos dos campos uma cidade localizada a 94 km de so paulo. Entrecortada pela ro-dovia Dutra, que liga os dois principais centros econmicos do pas, a cidade logrou substituir o desenvolvimento econmico baseado na pro-duo cafeeira por uma economia industrial dinmica e robusta. Ao longo do sculo XX, instalaram-se diversas empresas como a Pana-sonic, a Johnson & Johnson, a General Motors, a Petrobras e a Embraer. Alm disso, impor-tantes centros de ensino e pesquisa tambm foram alocados na cidade, como o Instituto Tecnolgico da Aeronutica (ITA), o Departa-mento de Cincia e Tecnologia Aeroespacial (DCTA da FAB) e o Instituto Nacional de Pes-quisas Espaciais (INPE), entre outros.Com um IDH de 0,849, So Jos dos Campos es-taria na 30 posio no Ranking de Desenvol-vimento Humano elaborado pelas Naes Uni-das caso fosse um pas - apenas duas posies abaixo do Reino Unido.Com este ambiente econmico e intelectual-mente rico, no de se surpreender que a cole-ta seletiva fosse implementada de maneira pio-neira. No ano de 1989, a cidade deu incio a seu programa e, desde ento, a conscientizao da populao sobre a importncia de segregar os materiais se tornou parte da cultura da cidade.Esta percepo disseminada de que havia valor nos materiais reciclveis se traduziu tambm no entendimento de que a catao era uma alternativa de gerao de renda para aqueles que se encontravam desempregados. Em 2003, um ano de baixo crescimento eco-nmico para o pas, a prefeitura comeou a receber muitas reclamaes da popula-o, que afirmava que os catadores estavam abrindo e revirando os sacos de lixo antes da coleta ser realizada pela URBAM, a com-panhia urbanizadora municipal. Para evitar o acmulo e disperso dos materiais pelas ruas, a empresa passou a alterar os horrios de coleta, medida esta que se mostrou inefi-caz, pois os catadores descobriam os novos horrios e se antecipavam. Frente ao problema, a prefeitura precisava agir. Dentro da prefeitura, discutiram-se dois caminhos para resolver a questo: a abordagem social ou a aplicao da lei, que estabelece que os resduos so patrimnio municipal. A prefeitura resolveu apostar em

    FutuRACooPERAtIVA dE RECIClAGEm FutuRA dE So JoS doS CAmPoS - FuNdAo: 2002 - So Jos dos Campos, SP - Parceira da Prefeitura municipal

    de mos dadas com o municpioComo catadores de materiais reciclveis e a assistncia social municipal mobilizaram o Poder Pblico e construram uma organizao efetiva na gerao de valor

    um trabalho social e, em 2004, comeamos a realizar o cadastro dos catadores, inician-do o trabalho de pesquisa que permitiria a construo desta abordagem, conta Maria do Carmo Fuga, assistente social da Secreta-ria de Desenvolvimento Social (SDS). A pesquisa teve incio em julho de 2004 e ter-minou em maio de 2005, levantando dados sobre 171 cadastrados. Informaes como a renda mdia diria, o mapeamento dos pontos de catao na rua, o valor pago pelos ferros velhos, o peso mdio carregado diariamente (cerca de 250 quilos) e os horrios e roteiros de catao passaram a ser de conhecimento da secretaria. Um dos aspectos mais cruis que constatamos foi o fato de que os donos de ferro velho ludibriavam os catadores ao comprar o material, pagando valores no cor-respondentes ao peso. Como os catadores no sabiam fazer operaes aritmticas era fcil engan-los. Alm disso, alguns catadores que moravam na rua no eram pagos em dinhei-ro, mas em cachaa, afirma Maria Quitria de Freitas, Diretora da SDS.O cadastro tinha uma pergunta sobre o inte-resse da pessoa em formalizar sua atuao ou no. Desta maneira, a prefeitura se con-centrou naqueles que desejavam atuar de maneira organizada e formal e que viviam somente da catao. Com base nestes crit-rios, foram selecionados 62 catadores e a Or-ganizao das Cooperativas do Estado de So Paulo (OCESP) foi chamada para prestar uma consultoria para este grupo inicial.Em setembro de 2005, o professor Nemsio Antnio de Souza, da OCESP, iniciou o traba-lho de discusso e desenvolvimento com os futuros cooperados e em novembro do mes-mo ano a Cooperativa Futura foi fundada.Desde o incio houve uma grande preocupa-o da nossa parte com a total conformidade da cooperativa com todos os aspectos legais do empreendimento social. Colocamos como contrapartidas primordiais o atendimento de 100% da legislao - e para isto fornecemos apoio jurdico para a instituio e o profissio-nalismo na prestao de contas. Foram aspec-tos fundamentais para que a prefeitura pudesse fornecer apoio financeiro e tcnico e tambm para que estimulssemos a participao da ini-ciativa privada no projeto, conta Kiko Sawaya,

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    No ano seguinte, com a queda no preo do papelo, os cooperados decidiram aumen-tar a quantidade de horas de trabalho. A ideia era compensar o menor valor do pape-lo com um volume de vendas maior e para isso foi necessrio criar mais um turno de trabalho. A estratgia deu certo e a coope-rativa atravessou o ano de 2008 mantendo de forma razovel seu rendimento mdio. Devido ao carter emergencial, a prefeitura tambm voltou a ceder vales-transporte de maneira temporria.Em 2009, a Futura promoveu, com apoio da Prefeitura, o III Encontro Regional dos Cata-dores do Vale do Paraba, recebendo mais de 200 catadores em So Jos dos Campos. A Fu-tura vinha dedicando esforos a esta articula-o desde 2007, quando a aproximao com o Movimento Nacional dos Catadores de Mate-riais Reciclveis se intensificou e foi formado o Comit de Catadores do Vale do Paraba. No final deste mesmo ano, a Futura enviou uma proposta para a Fundao Banco do Brasil, que mantinha um projeto de apoio ao fortalecimento da infraestrutura de coopera-tivas de catadores. A proposta foi aprovada e, em 2010, foi possvel equipar a cooperativa com novas prensas, uma empilhadeira, uma esteira, um triturador de vidro, um triturador de papel e dois novos caminhes um de qua-tro toneladas e meia e outro de menor porte, necessrio para circular em reas restritas da cidade. Alm disso, o projeto contemplava tambm a contratao de uma capacitao e de uma assessoria para treinar os coopera-dos a lidar com finanas. Este conjunto de in-vestimentos aumentou a capacidade de pro-duo da organizao e contribuiu bastante com seu desenvolvimento institucional.

    Secretrio de Desenvolvimento Social do muni-cpio. Seguindo os devidos trmites, a coopera-tiva foi registrada na Junta Comercial em janeiro de 2006 enquanto, paralelamente, a prefeitura avanava na articulao com o setor privado para angariar os apoios necessrios para a Fu-tura comear a operar.No final do ms de maro de 2006, a prefeitu-ra alugou um galpo para a Cooperativa Fu-tura e comearam a surgir os primeiros par-ceiros: a Johnson & Johnson doou uma prensa e o Sindicato do Comrcio Varejista produziu carrinhos e os doou para a cooperativa.Alm disso, foi montada uma estratgia para que a transio do modelo de catao na rua para o modelo de cooperativa fosse bem-su-cedida. A prefeitura, com o objetivo de garan-tir uma vida digna, criou um pacote de bene-fcios incluindo complementao de renda, distribuio de cestas bsicas e fornecimento de vales-transporte. Partimos da premissa de que o poder pblico precisaria apoiar ini-cialmente de forma direta, complementando a renda para que eles pudessem sobreviver, e posteriormente para que conseguissem capi-talizar a cooperativa, explica Maria do Carmo.Foi uma medida muito importante pois no tnhamos certeza da renda que obteramos da cooperativa no final do ms. No comeo, havia meses em que a distribuio de lucros era muito baixa e a complementao foi fun-damental para mantermos o grupo unido no desenvolvimento da Futura. Alm disso, a

    prpria deciso de largar a catao de rua e acreditar na cooperativa foi muito difcil, pois caso tivssemos que retornar no teramos mais os pontos. Foi uma deciso muito arris-cada para todos ns, conta a cooperada Joana DArc Gonalves, Coordenadora da Futura.Aps ser iniciado em maro de 2006, o progra-ma de complementao de renda foi oferecido por dois anos, limite mximo permitido pela lei municipal. A cesta bsica tambm deixou de ser fornecida em 2008 e o vale-transporte foi en-tregue at 2009. Preparamos as pessoas para a retirada destes instrumentos de apoio, enfa-tizando que tais artifcios so empregados at que se atinja determinado nvel de renda, inclu-sive porque existe a necessidade de outros gru-pos de maior vulnerabilidade receberem estes benefcios, conta Maria do Carmo.Outro aspecto fundamental da abordagem do poder pblico foi o investimento em capaci-tao, qualificao e educao. A manuteno de um espao permanente de ensino com in-fraestrutura adequada, com carteiras e lousa de qualidade, proporcionou um ambiente de crescimento, onde foram desenvolvidas no s questes relacionadas capacitao para o cooperativismo, mas tambm cursos de al-fabetizao de jovens e adultos em parceria com a Secretaria Municipal de Educao. A Futura deu certo porque j comeou nos ca-pacitando: tivemos o curso de cooperativismo onde ganhamos noes de administrao. De l para c, tivemos um crescimento pessoal muito grande e, at hoje, quando sentimos ne-cessidade, buscamos capacitao, afirma Joa-na. Ela relata que nunca havia usado um com-putador e hoje se sente confortvel na hora de montar planilhas no MS-Excel.Apesar dos avanos, os anos de 2006 e 2007 tambm foram marcados por alguns percal-os: dois presidentes da cooperativa foram afastados por causa da m administrao. Diante disso, aumentaram-se os controles so-bre os pagamentos e os processos contbeis.No ano de 2007, a Futura conseguiu fazer va-ler o Decreto Presidencial n 5.940 de 25 de outubro de 2006, que estabelece que os r-gos pblicos federais devem separar seus resduos reciclveis e destin-los s coopera-tivas de catadores. Para tanto, foi necessria a interveno do Procurador Federal Ricardo Baldani Oquendo, que organizou um semin-rio com o intuito de aumentar a conscientiza-o das instituies sobre o decreto e promo-ver o ajustamento de conduta das mesmas.

    Sobre a SA 8000A SA 8000 uma certificao que estimula as organizaes a desenvolver, aplicar e sus-tentar determinados padres sociais no ambiente de trabalho. Foi estabelecida em 1997, pela Social Accountability International (SAI), e o conselho consultivo envolvido no seu de-senvolvimento contou com a participao de sindicatos, oNGs e empresas.

    A SA 8000 segue o modelo das certificaes ISo e requer que as organizaes aprofun-dem seu comprometimento com padres sociais, indo alm da conformidade com as legis-laes locais. Est baseada nos princpios da declarao universal dos direitos do Homem, na Conveno dos direitos da Criana da Naes unidas e nas normas de direitos humanos da organizao Internacional do trabalho.

    Estabelece padres elevados de integridade para as seguintes categorias: trabalho infantil, trabalho forado, sade e segurana, liberdade de associao e negociao coletiva, discri-minao, prticas disciplinares, horrio de trabalho, remunerao e sistemas de gesto.

    O ano de 2011 seria prdigo em realizaes. Em junho, a Futura firmou um convnio com a Secretaria de Servios Municipais, assumin-do a operao dos Pontos de Entrega Volun-tria (PEVs) da cidade e sendo remunerada por este servio. Os PEVs comearam a ser implantados em 2009, como parte do sistema integrado de gesto dos resduos da constru-o civil destinada a receber o material de pe-quenos geradores e usurios domsticos que geram at um metro cbico de resduos. (Leia mais sobre os PEVs no Box abaixo).No ms de setembro, a Futura se tornou a pri-meira cooperativa brasileira a receber a certi-ficao internacional SA8000 (Social Accoun-tability Internacional). A iniciativa teve apoio da Johnson & Johnson, parceira desde a sua fundao. A norma estabelece padres de con-formidade referentes responsabilidade social como: ausncia de trabalho escravo, infantil e compulsrio; ausncia de discriminao de qualquer natureza; prticas e mtodos disci-plinares e relacionados sade e segurana do trabalho; liberdade de associao e nego-ciao; cumprimento de horrios de trabalho; mecanismos de remunerao e sistemas de gesto. Para manter a certificao, so feitas auditorias de trs em trs meses e as pendn-cias sinalizadas geram planos de ao para a resoluo das questes at a prxima inspeo.Alm dos evidentes benefcios internos, esta certificao permite que a Futura venda seu material para diversas empresas socialmente responsveis, formando uma cadeia produtiva e conseguindo uma remunerao superior pra-ticada pelo mercado, explica Maria do Carmo.No final do ano, no ms de novembro, mais uma boa notcia: a Rede Catavale foi fundada, depois de um perodo de articulao. O grupo

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    cONSIDERAES ESPEcfIcAS DA ORgANIzAO fUTURA

    Regularidade Legal e Documentao

    A futura tem toda a documentao atualizada, le-galizada e disponvel em locais de fcil acesso a todos os cooperados - itens fundamentais para a obteno e manuteno da certificao SA 8000.A contribuio ao INSS patronal (e no individual) uma vez que os cooperados so os proprietrios da organizao.

    Infraestrutura, mquinas e equipamentos

    Recursos Humanos: mdia de 120 coopera-dos (distribudos no galpo, loja hipermer-cado e PEVs)A Cooperativa tem um contrato com a Prefei-tura responsvel pelo pagamento do aluguel do galpo, das contas de gua, energia eltrica, telefone e internet. A cooperativa aguarda a doao de uma nova sede com instalaes mais amplas, uma vez que o espao atual j no com-porta o volume de material a ser processado e

    formado por oito cooperativas do Vale do Pa-raba, entre elas a Futura, que ficou respons-vel por escrever o projeto solicitando recursos Fundao Banco do Brasil, em especial para a aquisio de dez caminhes. Com a formao da rede, outras oportunidades se abrem para as oito cooperativas. O volume de produo amplificado permite, por exem-plo, comercializar materiais com maior valor, como os resduos de embalagem longa vida, para os quais j existem indstrias interessa-das. Alm disso, com os caminhes possvel oferecer o servio de coleta s prefeituras da regio, dentro do contexto da nova Poltica Na-cional de Resduos Slidos. A Fundao Ban-co do Brasil tambm apoiou a contratao de consultores de logstica, que j iniciaram seus trabalhos, com o objetivo de sistematizar e pa-dronizar o uso dos caminhes pelas diversas cooperativas que integram a rede.

    FuturoAlm de boas perspectivas, o futuro reser-va a cooperativa uma srie de desafios. No mbito da Rede Catavale, ser necess-rio apoiar as outras cooperativas para que alcancem o mesmo nvel de conformidade com as diversas legislaes que permeiam as atividades do setor. Esta uma questo importante, pois de fundamental impor-tncia a adequao legislao para a ob-teno dos recursos oriundos de parceiros pblicos e privados que contribuem com a ampliao da capacidade operacional e produtiva da rede. A obteno da certi-ficao SA8000 pelas outras cooperativas da Catavale, por exemplo, poderia ter uma consequncia direta no dia a dia dos coo-perados inclusive pelo seu potencial de ge-rar novas oportunidades de negcios. Sob o ponto de vista do desenvolvimento dos negcios, a Futura tem duas iniciativas que devem ganhar peso em breve A primei-

    ra o programa O futuro nas mos da Futu-ra consiste em prestar o servio de coleta seletiva em treze bairros da cidade que no recebem este servio da URBAM. O projeto prope uma remunerao de R$ 350,00 por tonelada coletada, valor inferior ao que pago para a URBAM atualmente, que de R$ 520,00 por tonelada. A proposta j foi en-viada e est sob anlise da prefeitura. A outra iniciativa melhorar a produo do fertilizante de adubo feito a partir do com-posto orgnico das podas do municpio. Atualmente os cooperados no contam com uma estrutura adequada para aproveitar o potencial de comercializao do produto. A Futura procura conseguir a doao de um triturador, para que seja possvel aumentar a produo e, desta forma, o faturamento e a renda dos catadores.Por ltimo, no mbito institucional, duas aes so prioritrias. A primeira ga-rantir a doao, por parte da prefeitura, de um terreno para a construo da sede prpria da cooperativa. A cooperativa aguarda a definio sobre a solicitao de doao de terreno que fez prefeitura. Uma vez doado o terreno, a entidade ter um prazo legal de dois anos para demons-trar que est utilizando-o de maneira efe-tiva para que a posse seja garantida e a doao confirmada.A segunda questo criar mecanismos efetivos que promovam a integrao dos catadores autnomos cooperativa, seja pelo ingresso como cooperado ou pela venda do material que recolhem para a Futura. J estivemos nesta situao e sa-bemos das dificuldades. Entendemos que nosso papel tentar ajud-los, demons-trando os benefcios do trabalho organi-zado e formal, conclui Marilda Loureno, Cooperada e Conselheira Administrativa.

    os Pontos de Entrega Voluntria (PEVs) so estaes de entrega de resduos, localizadas em re-as pblicas com cerca de 600 m2 cada uma, estabelecidas com o objetivo de evitar o despejo de entulho em locais imprprios e direcionar este tipo de material para a reciclagem. Foram criados para atender a determinao da Resoluo Federal 307/2006 e fazem parte do sistema de gesto de resduos da construo civil, recebendo apenas um metro cbico de material.desde 2009, quando o primeiro PEV foi inaugurado no bairro Campo dos Alemes, a popula-o pode dar a destinao correta, de forma gratuita, aos seguintes resduos: restos de obras de construo, mveis, equipamentos domsticos, pilhas, baterias, lmpadas fluorescentes, restos de poda, tinta e leo de cozinha.Atualmente temos 11 PEVs em funcionamento e mais quatro em processo de abertura. o projeto chegarmos a 21 PEVs para atendermos todas as reas da cidade, que gera 1.200 toneladas por dia apenas de resduos da construo civil, afirma o engenheiro civil marlian machado, Secretrio de Servios municipais.uma parte dos resduos recolhidos nos PEVs volta s ruas: cerca de 50% do material britado a ser utilizado na pavimentao de vias pblicas realizada pela prefeitura reciclado pela empresa espe-cializada em resduos da construo civil que tem contrato com a prefeitura. uma das clusulas da licitao obriga a fornecedora a utilizar tanto o material oriundo dos PEVs quanto aquele recolhi-do em locais imprprios a prefeitura tem mapeado mais de 100 locais de descarte irregular na cidade, situao esta que tende a mudar com a implantao de mais PEVs, alm de uma maior fiscalizao sobre os grandes geradores e aumento do grau de conscientizao da populao.

    A coleta seletiva como ela

    PEvs pioneiros na regio

    A coleta seletiva realizada pela uRBAm (urbanizadora municipal SA), empresa de economia mista fundada em 1973 que tem a Prefeitura de So Jos dos Campos como acionista majorit-ria. o servio atende cerca de 90% do municpio e nos bairros onde no h a coleta porta a porta a empresa disponibiliza ecopontos. Ao todo, so coletadas cerca de 50 toneladas por dia e a tria-gem realizada por 186 funcionrios concursados, cuja renda de cerca de R$ 700,00 por ms. Como o ganho obtido com a venda dos materiais no cobre os custos operacionais, a prefeitura paga uRBAm R$ 520,00 por tonelada coletada.

    as reas dos banheiros, vestirios e do refeitrio so reduzidas. O espao para armazenamento dos fardos de materiais prontos para a venda tambm pequeno.A Frota composta por 3 caminhes. Mquinas e Equipamentos: 1 empilhadei-ra e 2 prensas.

    Processos produtivos, estocagem e transporte de insumos e produtos

    Cooperativa: 68 cooperados. A renda men-sal por cooperado varia entre R$ 798,00 a R$ 1.300,00, pois os membros da adminis-trao recebem um valor adicional. O mate-rial oriundo da coleta seletiva dos grandes geradores recolhido pelos caminhes da cooperativa e levado para o galpo, depois triado, atravs da utilizao de esteiras, e direcionado para a prensagem em mdia 30 cooperados atuam nessa tarefa. Os itens categoricamente separados - papel, plstico, vidro, metais e eletroeletrnicos - so dis-postos em reas segregadas ou contineres, localizados na parte frontal do galpo e as-sim esto prontos para serem enviados aos compradores. Os outros 38 cooperados tra-balham em atividades como a coleta, prensa-gem, movimentao interna, gesto de logs-tica e de servios aos hipermercados.A secretaria da cooperativa respons-vel por planejar a rota dos caminhes de

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    cpio, levado. O trabalho consiste no mane-jo dessa matria orgnica para a produo de adubo e tambm organizar a matria deposi-tada diariamente para facilitar o processo de decomposio e gerao de adubo. Estao de Hipermercado: Atravs de con-trato com a Futura, a empresa tem a res-ponsabilidade de remunerar mensalmente 02 cooperados que trabalham na estao de entrega de materiais reciclveis, o cha-mado ecoponto. Os cooperados recebem R$ 798,00 mensais e tem como atividades: a recepo e checagem dos materiais e a re-tirada do material da loja, alm de orientar os clientes sobre os materiais que podem ser doados. O Hipermercado doa para a cooperativa, alm do material dos ecopon-tos, todo o seu material promocional para ser reciclado.

    Higiene, limpeza, sade e segurana do trabalho

    Os itens aqui abordados fazem parte dos re-quisitos avaliados pela certificao SA8000 e, de acordo com a ltima auditoria, to-dos esto em conformidade com a mesma. O uso dos EPIs j faz parte da rotina dos cooperados. Alm disso, instrues sobre aspectos de sade e segurana so visveis nos ambientes da cooperativa, que disponi-biliza bebedouro de qualidade em local de fcil acesso. Com relao aos aspectos de higiene, os banheiros e vestirios so lim-pos e organizados.

    Treinamento e desenvolvimento humano

    A Futura possui uma sala de aula em suas dependncias e, por meio de uma parceria com a Secretaria Municipal de Educao, que disponibiliza professores e material didti-co, os cooperados recebem aulas duas vezes por semana (4 horas cada), e ao final do ci-clo recebem o certificado de alfabetizao e/ou informtica. As horas em sala de aula so consideradas como horas trabalhadas e os temas esto de acordo com a Normas da Secretaria de Educao.

    Responsabilidade Social

    Ainda relacionados com a certificao, os as-pectos trabalho infantil, trabalho forado e discriminao fazem parte das exigncias relacionadas responsabilidade social. Os

    acordo com a necessidade de retirada de material dos aproximadamente 30 par-ceiros entre hotis, empresas, restau-rantes, indstrias e rgos da iniciativa pblica (INPE, Receita Federal, Prefeitura e Ministrio Pblico, entre outros). A pro-gramao da rota feita com a anuncia dos doadores e s alterada se h alguma ocorrncia ou se h um novo ponto de re-tirada de material.PEVs: 42 cooperados (6 por ponto) so dis-ponibilizados pela cooperativa para trabalhar na gesto dos Pontos de Entrega Voluntria. A renda mensal por cooperado, igual para os que esto no galpo, varia entre R$ 798,00 a R$ 1.300,00 (trabalhadores chamados regula-res a administradores gerais). Os cooperados so responsveis por checar todo o material entregue, garantindo que so oriundos de obras realizadas por pessoas fsicas. So re-cebidas, em mdia, 450 toneladas de entulho por dia. Os cooperados tambm fornecem in-formaes populao no que tange corre-ta destinao dos resduos slidos secos, os quais devem ser destinados coleta seletiva ou aos ecopontos do municpio. So respon-sveis tambm, em coordenar com a URBAM e demais empresas parceiras a remoo e des-tinao correta dos materiais.Produo do adubo: 7 cooperados participam dessa atividade cuja renda a mesma dos de-mais. Os cooperados cuidam da rea onde o resduo verde, oriundo da podao do muni-

    cooperados no fazem desses itens apenas requisitos a constar no papel eles cobram uns dos outros o respeito no local de traba-lho. Mesmo antes da certificao, j havia no estatuto da cooperativa um dispositivo contrrio prtica de qualquer tipo de dis-criminao, seja esta relacionada cor, raa, gnero ou preferncia sexual. Na histria da Futura existem trs casos de expulso devi-do a atos discriminatrios.

    Aspectos polticos, econmicos e financeiros da organizao

    A cooperativa possui, em seu organograma os cargos de Presidente, Vice-presidente e uma Se-cretaria (tambm responsvel pela tesouraria e por lidar com o escritrio de contabilidade); trs conselheiros administrativos e trs conse-lheiros fiscais, alm de trs conselheiros fiscais suplentes. A eleio para presidente realizada a cada dois anos e, a partir de 2013, ser de 03 em 03 anos. Reunies de prestao de contas so feitas todo final de ms e os nmeros so informados por via oral e escrita os conse-lheiros auxiliam na prestao de contas, que fixada em um mural. Assembleias so realizadas para as eleies ou em casos pontuais, quando h alguma grande questo a ser debatida. A cooperativa Futura abre espao para que cooperados que queiram tirar dias de descan-so o faam muitos cooperados passaram a tirar 10 dias de descanso no remunerado. Os nmeros (mdios) de comercializao men-sal so: 15 toneladas de papelo; 5 toneladas de plstico duro; 5 a 8 toneladas de papel branco; 32 toneladas de sucata de ferro e 3 toneladas de eletroeletrnicos. O plstico flexvel no comercializado todos os meses e armazenado para ser vendido quando apresenta volume que viabilize o frete de forma competitiva.Com relao venda dos eletroeletrnicos, a comercializao pode ser realizada de duas formas: ou so vendidos por sua massa total ou so vendidos para pessoas que vo at a cooperativa em busca de itens e componentes especficos para utilizar ou revender. Alm dos compradores regulares dos ma-teriais reciclveis comercializados, ou seja, indstrias recicladoras e intermedirios de grande porte, a cooperativa mantm contato com possveis clientes para os momentos em que o produto no adquirido pelos compra-dores usuais - garantindo assim a entrada de recursos nestes meses, mesmo que o valor re-

    cebido por tonelada de material seja menor. O valor arrecadado com a venda de eletroele-trnicos direcionado para a poupana da cooperativa e utilizado para suprir as baixas no fluxo do caixa, ocasionado pelas quedas nas vendas de materiais reciclveis que geral-mente ocorrem no final do ano.Pelo convnio estabelecido com a prefeitu-ra para prestar o servio de operao dos 7 PEVs, a cooperativa recebe cerca de R$ 17 mil mensais por ponto. O valor pago por PEV foi calculado de maneira a garantir renda de pelo menos 1 salrio mnimo aos cooperados e for-necer equipamentos de segurana individual entre outros itens fundamentais para a execu-o do trabalho, alm de cobrir os demais cus-tos operacionais. A instalao de mais 4 PEVs j est em andamento.Com relao ao resduo verde, originado da poda realizada pela prefeitura e pela conces-sionria de energia, a cooperativa possui hoje uma parceria com a prefeitura para a venda do material proveniente da compostagem desse material orgnico. O material vendido para empresas que possuem marca de adubos orgnicos por R$0,50/kg. A produo , em mdia, de 10 toneladas/semana. A cooperativa Futura no possui funcion-rio em regime de contratao CLT todos os agentes que atuam nos processos so coope-rados (inclusive os motoristas).

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    gUIA RPIDO

    o investimento constante em educao e capacita-o promoveu o desenvolvimento das competncias individuais que formam a base para a autonomia dos catadores apresentado na operao do negcio e tambm da cultura organizacional que valoriza o conhecimento, a pr-atividade e o senso de constru-o coletiva das atividades.o estabelecimento de uma sala de aula com mobilirio adequado e de qualidade situada ao lado da administrao permitiu que as iniciativas de carter educacional e profissionalizante fossem realizadas a contento e explorassem o poten-cial de desenvolvimento dos indivduos.

    o estabelecimento de uma sala de aula com mobi-lirio adequado e de qualidade situada ao lado da administrao permitiu que as iniciativas de carter educacional e profissionalizante fossem realizadas a contento e explorassem o potencial de desenvolvi-mento dos indivduos.

    A obteno da certificao SA8000 no s descor-tina oportunidades de negcios como apresenta um

    Proporcionar mecanismos de integrao aos cata-dores autnomos, oferecendo oportunidade para aqueles que sofrem as consequncias de atuar na informalidade, situao crtica pelo qual j passaram todos os cooperados.

    Aprimorar constantemente o servio de coleta seleti-va nos bairros pois uma operao desafiadora, visto que envolve uma prestao de servio com qualidade que satisfaa no apenas o contratante, mas tambm a populao.

    Apoiar a Rede Catavale para que todos os envolvidos possam estar legalizados e formalizados. Em um se-gundo momento, a Rede ter que ser superar todos os desafios intrnsecos realizao de operaes conjuntas por pessoas jurdicas diferentes, incluindo a comercializao de materiais reciclveis.

    Aumentar a produtividade e a contribuio da comer-cializao de adubo, por meio de investimentos na capacidade de produo e na eficincia da operao.

    Principais desafios da Futura

    DImENSES PARA ORgANIzAO DO TRAbAlHO DE APOIO E INcUbAO A Secretaria de Desenvolvimento Social foi o agente incubador essencial na histria da cooperativa Futura, desde a pesquisa ini-cial para identificao e mapeamento dos catadores, passando pelo estabelecimento de valores que foram incorporados pelos cooperados como a total conformidade regulatria e a valorizao do conhecimen-to - at a articulao com a iniciativa priva-da em diversos projetos. As operaes rotineiras no necessitam mais da participao do time da SDS, que restringe sua participao orientao es-tratgica relacionada a questes pontuais, como a formao da rede Catavale, a busca por financiamentos ou demandas jurdicas correlatas s atividades da Futura.

    Assessoria

    Jurdica & Contbil

    A SDS atua fazendo a ligao com profis-sionais voluntrios para o atendimento das questes jurdicas relacionadas aos cooperados - dessa forma foi obtida a apo-sentadoria do primeiro catador da Coo-perativa. A segurana jurdica de todas as atividades da cooperativa garantida pela anlise prvia do departamento jurdico da prefeitura antes que qualquer proje-to seja colocado em operao. Quanto s questes contbeis, a cooperativa con-trata um escritrio de contabilidade para realizar o servio e os prprios coopera-dos lidam com o fornecedor.

    Gesto Administrativa e

    Financeira

    A gesto feita pelos cooperados. A incu-bao aponta caminhos para o planejamen-to estratgico, a diversificao de servios, a obteno de recursos para infraestrutu-ra e na conseqente redao dos projetos apresentados ao poder pblico. Atua tambm na interlocuo com mem-bros de instituies federais, como o Mi-nistrio Pblico, e na busca e seleo de

    profissionais de alto gabarito para efetuar as capacitaes necessrias.

    Operaes e

    Logstica

    No h participao da incubadora - a pr-pria cooperativa coordena sua rota de reti-rada de material nos doadores.

    Educao

    ambiental

    A prpria cooperativa e a URBAM realizam o trabalho de conscientizao da popula-o dos bairros onde os diversos servios ambientais so oferecidos.

    Qualidade de vida e

    relacionamento para o trabalho

    Quando um novo associado entra para a cooperativa, a assistente social visita sua residncia para observar os aspectos que necessitam de apoio, que feito por meio dos programas sociais do municpio. Atual-mente, a SDS concentra esforos na inclu-so social dos catadores que tambm so moradores de rua, parcela esta que apre-senta alto ndice de alcoolismo, entre ou-tros problemas de sade e sociais graves.

    Transparncia e governana

    no cooperativismo

    A SDS no participa das reunies de prestao de contas e no interfere nos processos de governana da cooperativa. O grande esforo realizado desde a formao da Futura no sentido de proporcionar aos cooperados formao em cooperativismo resultou na independncia dos cooperados nesse sentido.

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    impacto positivo nas relaes humanas dos coopera-dos e fortificam uma cultura de constante avaliao.

    mesmo antes da certificao, o estatuto da Futura j apresentava um dispositivo para coibir prticas discri-minatrias, uma necessidade constatada pelos coo-perados devido a atos de agressividade relacionados prtica homoafetiva feminina, ocorrncia comum neste segmento da populao na cidade de So Jos dos Campos.

    A articulao institucional para buscar e firmar parce-rias externas desencadeou processos que aprimora-ram a cultura organizacional.

    Capacidade de buscar parcerias externas.

    tempo estabelecido de apoio dado pela Prefeitura cooperativa, como no caso da complementao de renda necessria nos primeiros anos de trabalho.

    A integrao com programas sociais do municpio para a incluso e formao de rede de proteo aos catadores foi eficaz em garantir assistncia nos momentos cruciais e se ateve a perodos necessrios, estimulando a autonomia da cooperativa.

    Solues e boas prticas da Futura

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    HISTRIcO, PRESENTE E fUTUROa histria da rede cata vida comeou a ser escrita em 1999, na cidade de soro-caba/sp. Com cerca de 600 mil habitantes, Sorocaba o quarto municpio mais popu-loso do interior do estado de So Paulo. Sua microrregio integrada por quatorze cidades, - com uma populao total esti-mada em 1.300.000 habitantes -, e con-siderada uma representante significativa da atividade industrial no Estado, condi-o favorecida pela localizao privilegia-da, entre as regies metropolitanas de So Paulo e Campinas e com acesso a vias de escoamento da produo, como a rede fer-roviria e as rodovias Raposo Tavares, Cas-telo Branco e Santos Dumont. Em 1999, o Centro de Estudos e Apoio ao Desenvolvimento, Emprego e Cidadania (CEADEC) uma ONG com foco no desenvol-vimento de projetos de gerao de emprego, renda e na assessoria a empreendimentos autogestionrios iniciou, em parceria com membros da Igreja Catlica, um trabalho social com a populao desempregada e em estado de vulnerabilidade social na regio norte da cidade.Promovemos reunies nas igrejas e em todas as discusses surgia a demanda, por parte da populao, de se trabalhar a ques-to das cooperativas de catadores. Ficou claro, desde o incio, que este era um desa-fio que a comunidade estava trazendo para ns, conta Rita Viana, Diretora-Presidente do CEADEC.A equipe do CEADEC visitou experincias de cooperativas no estados de Minas Ge-rais, Rio Grande do Sul e Paran com o in-tuito de mapear os processos operacionais e identificar boas prticas para que o projeto pudesse ter incio. Nascia assim a Coopera-tiva de Reciclagem de Sorocaba (CORESO), inicialmente integrada por 23 cooperados que constituam um grupo heterogneo, for-mado por desempregados e catadores que j trabalhavam na catao de forma indivi-dual. Com a doao de equipamentos pela Caritas, - organizao humanitria da Igreja Catlica presente em mais de 200 pases -, as operaes puderam comear. A atuao conjunta dos 23 cooperados logrou regular o mercado comprador das latas de alum-

    REdE CAtA VIdAREdE CAtA VIdA - FuNdAo: 2001 - Sorocaba e municpio da regio - Parceria entre Cooperativas

    A uniofez a foraUma regio, diversas organizaes, o mesmo problema. A soluo? Unir esforos e aprender a comercializar em conjunto, atuando em rede.

    nio e o valor pago, que era de R$ 0,23/quilo passou para R$ 0,78/quilo. Com a divulgao realizada pelos meios de comunicao, a iniciativa obteve maior cola-borao da populao local, ao mesmo tem-po em que comeou a germinar a ideia de que esta expresso de empreendedorismo social era vivel nos municpios contguos, sobre os quais a cidade de Sorocaba exercia, - e ainda exerce -, considervel influncia.Concomitantemente s manifestaes de interesse das comunidades vizinhas, outro fator preponderante para o surgimento da Rede comeou a ficar evidente: a dificuldade de fechar negcios quando se trabalha com volumes pequenos. Demoramos 53 dias para concretizar a primeira comercializao, o que evidenciou o fato de que s consegui-ramos prosperar se acumulssemos o mate-rial de forma mais rpida, isto , alcanando montantes maiores - e possveis somente com a articulao em rede, explica Rita.Desta maneira, ao longo de 1999 e 2000, a regio presenciou o surgimento de coopera-tivas em diversas cidades que no possuam programas de coleta seletiva sob a respon-sabilidade do poder pblico. Assim, com o apoio da CORESO e da equipe do CEADEC, surgiram nas cidades vizinhas vrias coope-rativas a exemplo de Votorantim, a Coopera-tiva de Reciclagem de Votorantim (COOPER-VOT); em Capo Bonito, a Associao dos Catadores de Materiais Reciclveis (ACA-MAR); em Itapeva, a APAMARE e em Salto de Pirapora, a Cooperativa de Reciclagem de Salto de Pirapora (CORESP). Na maior parte dos casos, o apoio do poder pblico foi ape-nas pontual e todas as cooperativas viven-ciavam a mesma situao de no ter volume suficiente para comercializar diretamente com as empresas recicladoras. Neste pero-do, a CORESO, a COOPERVOT e CORESP j comercializavam em conjunto.A evoluo natural deste processo colabo-rativo de comercializao ocorreu em 2001, com a realizao do Encontro Regional, promovido pelo CEADEC na cidade de Vo-torantim. A experincia conjunta das trs cooperativas pioneiras foi relatada durante o encontro, o que estimulou a incluso de novas entidades na Rede.

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    cONSIDERAES ESPEcfIcAS SObRE A REDE cATA-vIDA

    Regularidade Legal e Documentao

    A rede possui CNPJ prprio, tendo como Sede o Municpio de Sorocaba, no interior de So Paulo, e conta com uma carta de princpios que estabelece as prerrogativas para suas entidades-membro. No que tan-ge regularidade legal, a rede exige que as cooperativas j estejam legalmente consti-tudas sob os princpios do cooperativismo e as diretrizes de economia solidria.

    Infraestrutura, mquinas e equipamentos

    Fbrica de plsticos: todo o material plsti-co polietileno e polipropileno so lavados, modos e comercializados em forma de flocos (flakes) os demais tipos de plsticos so en-fardados e vendidos. A Rede j possui os equi-pamentos necessrios para a reciclagem des-ses plsticos, isto , capaz de transform-los em gros e tubos. No entanto, busca escala

    remunerao das cooperativas pela prestao de servios. Um primeiro passo foi dado. No dia 22 novembro de 2012, a Cmara Municipal de Sorocaba aprovou o Projeto de Lei n 169/2009, de autoria do vereador Izdio de Brito Correia, que institui o Programa Municipal de Coleta Seletiva Solidria. O projeto contempla a remunerao das cooperativas de catadores pelo mesmo valor estabelecido para contratos de coleta convencional de resduos domiciliares, e reconhece os catadores como agentes ambientais de limpeza urbana. Aps sua aprovao, o projeto foi vetado pelo ento prefeito Vitor Lippi mas, no dia 26 de fevereiro de 2013, a Cmara Municipal derrubou o veto. A posio dos catadores de manter o dilogo com a atual administrao municipal, para que esta no tente reverter a deciso com uma Ao Direta de Inconstitucionalidade na Justia. O caso de Sorocaba especialmente importante porque o municpio, como centro econmico da regio, exerce influncia sobre as demais cidades. Uma conquista dos catadores em Sorocaba pode significar o nosso reconhecimento em toda a regio, conclui Darci.

    J no mbito institucional, o encontro tes-temunhou o nascimento formal da Rede Ca-ta-Vida - Rede Solidria das Cooperativas de Reciclagem de Sorocaba [e regio] formada pelas cooperativas dos municpios de Soro-caba, Votorantim, Salto de Pirapora, Capo Bonito e Itapeva. Alm do estabelecimento da Coordenao Regional dos Catadores, - um rgo de discusso, deliberao e repre-sentao das cooperativas. Nesse momento tambm foi redigida a Carta de Princpios dos Catadores e Catadoras da rede. Com o estabelecimento da Rede, os esfor-os foram concentrados em otimizar os recursos disponveis nas cooperativas e diminuir os custos operacionais. Devido sua localizao estratgica, a CORESO foi escolhida como sede da Central de Triagem e Comercializao da Rede, tornando-se o

    local de recebimento e guarda do material a ser comercializado.

    Desenvolvimento Institucional e OperacionalUma prtica inovadora foi a criao do modelo de gesto administrativa das cooperativas, por meio de um sistema padronizado de organiza-o. Esta iniciativa, que contou com o apoio tc-nico do CEADEC, uniformizou as informaes e, ao faz-lo, trouxe confiabilidade e controle dos processos internos nos mbitos financeiro, con-tbil e administrativo.Outro vetor de desenvolvimento muito impor-tante se deu na seara institucional da Rede. Teve incio um processo de capacitao das lideran-as e fortalecimento das cooperativas que for-mavam a Rede Cata-Vida.Sob este aspecto, o ano de 2003 foi um divisor de guas. A Rede inscreveu e aprovou um proje-to junto Petrobras. Esse foi o primeiro projeto de uma rede de catadores apoiado pela empre-sa estatal. Com este apoio,foi possvel adquirir caminho, uniformes, caambas, computadores e EPIs. Alm disso, tambm houve um investi-mento no aspecto educacional do empreendi-mento, com a realizao de um curso de capaci-tao para os cooperados.Aps os resultados positivos desta primeira ini-ciativa, a Rede Cata-Vida aprovou outro projeto com apoio da Petrobras em 2005. A meta era ambiciosa: aumentar a escala de produo, por meio da integrao de cinco novas cooperativas e a incluso de mais catadores. Era um gran-de desafio, mas havia uma grande demanda nos municpios da regio e o projeto teve xito nes-tas misses, conta Rita. Neste perodo tambm foi implementado o cha-mado Processo de Humanizao da Coleta Sele-tiva, que consistiu na aquisio de novos equi-

    pamentos para as cooperativas e para a Rede, de forma a tornar mais saudvel e prtico o traba-lho cotidiano dos cooperados.Em 2007, membros da Rede conseguiram, junto ao BNDES, verbas para a construo de um gal-po de 2 mil m2, que foi erguido em um terreno cedido pela prefeitura. Entre as atividades de capacitao deste novo projeto, foi promovida uma discusso que contemplou a realizao de uma pesquisa, pela qual os catadores aponta-ram quais seriam os prximos objetivos, a sa-ber: uma fbrica de polmeros e a explorao do leo residual de frituras.No ano de 2008, com a queda acentuada do valor dos materiais reciclveis, instalou-se a crise no setor em todo o Pas. Na Rede Cata-Vi-da no foi diferente: com a brusca diminuio da renda, muitos cooperados desistiram dos projetos e passaram a buscar outras formas de subsistncia. A CORESO, que em seu pi-ce tivera at cerca de 145 catadores, chegou a contar com apenas 32 cooperados. A crise foi devastadora para toda nossa cadeia conta Darci de Oliveira, cooperado. Foram tempos difceis e as cooperativas s co-mearam a identificar sinais de recuperao dos preos no incio de 2010. De l para c, houve um processo de rearticulao do grupo: durante o longo perodo de crise, algumas cooperativas no cumpriram os compromissos da Carta de Princpios e deixaram a Rede.

    Presente e futuroAtualmente, a Rede desenvolve um projeto apoiado pela Petrobras, iniciado em julho de 2012, cujos objetivos principais so a ampliao da coleta seletiva para cinco municpios e o fortalecimento da rede. estrutura operacional da rede, foram acrescidos um caminho, trs prensas, duas balanas e uniformes alm de recursos para materiais de comunicao e capacitaes. Outro programa, que deve ter incio em 2013, um projeto voltado incluso de 300 catadores, j aprovado junto Secretaria Nacional de Economia Solidria do Ministrio do Trabalho. A iniciativa visa integrar catadores individuais que atualmente apresentam renda abaixo da linha de pobreza. Desta forma, a Rede hoje rene 15 cooperativas, atuando em 16 municpios. O maior desafio da Rede Cata-Vida ver os municpios da regio implantando a

    Relacionamento prximo s comunidades

    A capacitao denominada Abordagem qualificada uma das boas prticas desenvolvida pela Rede Cata-Vida. Criada em 2003, e aperfeioada em 2005, a Abordagem qualificada garante um padro de atendimento norteador de relaes interpessoais positivas e saudveis entre os catadores e os moradores dos bairros onde a coleta realizada. Esta nfase no trabalho casa--a-casa uma caracterstica muito forte da Rede e a interao dos cooperados com a comu-nidade um fenmeno muito interessante. A populao tem um carinho muito grande pelos catadores e compreende o papel de agente ambiental que eles desenvolvem, afirma Rita.

    A capacitao dos novos catadores feita pelos prprios cooperados, que multiplicam o conhecimento sobre os procedimentos de abordagem e transmitem a experincia de quem conhece bem as atividades de campo.

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    cializadas aproximadamente 20 toneladas de plsticos processados e sete mil litros de leo.

    para otimizar o funcionamento da fbrica - o intuito dialogar com outras redes de coo-perativas para que estas utilizem tambm o maquinrio, ampliando o alcance dos ganhos para outros grupos de cooperados e fortale-cendo o relacionamento inter-redes;- Fbrica de filtragem de leo: o leo de cozi-nha coletado passa por um processo de cla-rificao a partir de um sistema de filtros e ento comercializado. Essa pode ser a etapa inicial de uma fbrica de biodiesel, fazendo com que a Rede futuramente avance tambm para esse tipo de produo;- Galpo de concentrao de carga: um gal-po de 200m2 utilizado para concentrar os materiais oriundos de todas as cooperativas da Rede. A movimentao dos materiais feita atravs de empilhadeiras a gs e os ma-teriais so distribudos por tipo nas depen-dncias do galpo. A coleta seletiva feita com os caminhes prprios da Rede.

    Processos produtivos, estocagem e transporte de insumos e produtos

    O caminho da Rede vai buscar as cargas nas cooperativas e encaminha para o galpo da sede em Sorocaba. Todos os materiais so comercia-lizados em Rede, exceto a sucata frrica devido dificuldade de seu transporte. As cargas so acompanhadas por duas vias do documento in-titulado Movimentao de Materiais, no qual esto discriminados os materiais por tipo, peso

    e valor. Cada cooperativa contribui com uma taxa por kg de material comercializado, para cobrir os gastos logsticos e de movimentao, independente da distncia que se encontre do galpo da rede. Os materiais recebidos so conferidos conforme as informaes disponibi-lizadas no referido documento e h uma aten-o especial s caractersticas dos materiais e padronizao dos fardos, uma vez que isso fundamental para que a rede, a qual recebe ma-teriais de diferentes cooperativas, possa comer-cializar cargas com o mesmo padro de quali-dade (o forte trabalho em educao ambiental dos moradores garante que os materiais sejam disponibilizados j limpos). Alm disso, com um critrio rgido de padronizao, a Rede ope-ra com uma gerao muito pequena de rejeito: apenas 3%. A Nota Fiscal de comercializao feita em nome da Rede. O pagamento s coo-perativas feito de acordo com as quantidades informadas no documento de movimentao de materiais e obedece a uma tabela de preos previamente estabelecida por todas as coope-rativas da Rede, conforme os preos praticados no mercado. Quando ocorre alguma oscilao brusca, os representantes das cooperativas se renem e rediscutem os valores. H uma grande quantidade de compradores cadastrados para garantir a venda de 100% do material. A insti-tuio priva pela no exportao para que rela-es comerciais slidas no sejam abaladas por uma relao pontual (mesmo que seja uma ven-da grande). Outro aspecto interessante que a Rede garante a comercializao do vidro apenas quebrado, evitando assim falsificaes de pro-dutos a partir da utilizao de embalagens em boas condies.

    Higiene, limpeza, sade e segurana do trabalho

    Tanto nas fbricas, quanto no galpo de con-centrao e comercializao de cargas, es-sas questes so bastante trabalhadas e o grau de exigncia adequado. Com relao s cooperativas, a carta de princpios esta-belece que seja observada a obrigatoriedade dessas questes e aborda inclusive, o esta-belecimento de parcerias para aes preven-tivas e defensivas sade dos catadores.

    Treinamento e desenvolvimento humano

    A promoo de polticas de capacitao so-cioambiental e tcnica dos cooperados est garantida na carta de princpios da Rede.

    Responsabilidade Social

    As questes de responsabilidade social tam-bm esto estabelecidas na carta de princ-pios da Rede. Esto em destaque a no uti-lizao do trabalho infantil, a orientao da manuteno dos filhos na escola e a incluso dos catadores e catadoras desorganizados.

    Aspectos polticos, econmicos e financeiros da organizao

    A coordenao da Rede formada pelas lide-ranas das Cooperativas constituintes (geral-mente o Presidente da Cooperativa mais um catador) e responsvel pela eleio do pre-sidente da Rede, que eleito a cada dois anos. Recentemente, a Rede conseguiu, atravs de verba de um projeto, remunerar a alocao de sete cooperados de diferentes cooperativas para a funo de facilitadores, os quais so capacitados e percorrem as cooperativas au-xiliando nos processos de educao ambien-tal, coleta, trabalho interno, cadastramentos e fechamentos financeiro-contbeis, gesto de conflitos e recrutamento de esforos para mutires de triagem em cooperativas com excesso de material, entre outras atividades. A cada 15 dias, os facilitadores se renem e abordam diversas questes observadas nas instituies pela equipe da organizao incu-badora (o Presidente da rede tambm tem seu papel articulador e percorre as instituies, apoiando no que for necessrio).A renda mdia da rede varia em torno de R$ 550 a 600 por ms.A Rede conta com um profissional contratado, pago por uma verba de projeto, que respon-svel pela gesto da administrao e comercia-lizao dos materiais, assegurando a presena de expertise gerencial ao empreendimento.Cerca de 85% dos materiais so comercia-lizados diretamente para indstrias recicla-doras, dispensando a figura do atravessador.O material de maior volume de comercia-lizao o papel (branco, misto, papelo e embalagem longa vida) responsvel hoje por, em mdia, 45 toneladas/ms.Com os ganhos relacionados ao valor agre-gado dos plsticos processados e do leo de cozinha filtrado, a Rede consegue pagar bons preos aos materiais das cooperativas e tam-bm prazos mais curtos de pagamento para aquelas instituies que enfrentam maiores dificuldades financeiras. Por ms, so comer-

    DImENSES PARA ORgANIzAO DO TRAbAlHO DE APOIO E INcUbAONo ecossistema organizacional da Rede Ca-ta-Vida, o CEADEC o agente incubador e indutor dos vetores de estruturao das cooperativas, atuando de forma coordenada em diferentes esferas como a discusso das polticas pblicas municipais, o aperfeioa-mento dos mecanismos de funcionamento da Rede e o acompanhamento de aes de empreendedorismo especficas de algumas unidades cooperadas. Ao longo dos anos, o grau de autonomia da rede, da CORESO e das outras cooperativas, foi gradativamente aumentando, medida em que os investi-mentos em capacitao comearam a entre-gar o retorno esperado no capital humano dos empreendimentos. Para Rita Viana, ao avanar na escala de desenvolvimento de uma organizao, novos desafios se impem e o processo de incubao muda seu foco para nveis mais complexos do negcio. Em termos operacionais a Rede tem con-sidervel grau de autonomia, porm, nas

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    questes de natureza mais estratgica ou poltica, a participao do agente incuba-dor nas tradicionais etapas de um projeto, - anlise, desenho, execuo e monitoramen-to ainda se faz necessria.

    Assessoria Jurdica & Contbil

    No passado, os cooperados fizeram um curso de Noes Contbeis e atualmen-te so responsveis pela elaborao e envio da documentao necessria para que o escritrio de contabilidade tercei-rizado cumpra as exigncias legais. Na diretoria do CEADEC h um advogado que fornece assessoria jurdica Rede quando necessrio.

    Gesto Administrativa eFinanceira

    A gesto feita pelos cooperados. Duas cooperadas fazem o trabalho da Rede, sen-do responsveis pela comercializao, pela logstica dos materiais, pelo repasse para as cooperativas e por uma srie de outros processos administrativos.

    Operaes e Logstica

    As operaes de logstica so administra-das pelos cooperados, que tem pleno dom-nio sobre os diferentes processos relacio-nados rea.

    Educao ambiental

    No mbito interno, a incubadora trabalha conceitos de educao ambiental junto aos novos cooperados, integrando-os ao uni-verso temtico da Rede.

    Qualidade de vida e relacionamento para o trabalho

    O CEADEC atua junto aos cooperados, es-timulando boas prticas relacionadas qualidade de vida e adoo de um estilo de vida saudvel. Como em outros casos analisados nesta publicao, a realidade de grande vulnerabilidade de parte signi-ficativa dos cooperados expe a ausncia de condies bsicas de higiene e acesso sade de alguns extratos sociais da popu-lao brasileira. H convnio com institui-es de ensino locais para a realizao de capacitaes e exames mdicos simples.

    Transparncia e governana no cooperativismo

    Cada cooperativa preserva a autonomia de sua gesto. Questes como a forma de pa-gamento dos cooperados e a diviso das re-tiradas decidida por cada cooperativa de forma isolada. Para as questes relativas Rede, feita uma reunio, uma vez por ms, com dois cooperados de cada municpio. Estes dois representantes tm espao nes-te frum criado para assegurar uma instn-cia de transparncia, debate e deliberao. Neste encontro, tambm feita uma pres-tao de contas com os resultados da Rede.

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    cONclUSO

    O conjunto de informaes reunidas du-rante as visitas tcnicas e entrevistas realizadas para a realizao deste traba-lho permite identificar alguns pontos re-levantes sobre os rumos que o Pas vem adotando para enderear a questo dos resduos slidos.Em termos gerais, os trs empreendimen-tos so exemplos prticos do impacto so-cial positivo que a aplicao dos conceitos da Poltica Nacional de Resduos Slidos pode desempenhar na vida de indivduos e coletivos marginalizados. Em seu conjun-to, as histrias das cooperativas demons-tram que a incorporao dos mecanismos que estimulam e fomentam a participao dos catadores tem obtido sucesso em inte-gr-los cadeia existente, ao mesmo tem-po em que permite vislumbrar o desenho de um novo modelo que concentre menos e distribua melhor a renda gerada pelo se-tor. Est claro que o Programa Pr-Cata-dor, institudo pelo decreto n. 7.405/2010, vem conseguindo cumprir sua finalidade de integrar e articular as aes do Gover-no Federal voltadas aos catadores. Os trs casos representam e denotam tam-bm a importncia da articulao dos ca-tadores junto s diferentes esferas de seu universo de negcios: o setor pblico, o setor privado e as outras cooperativas. A capacidade de criar e sustentar relaciona-mentos consistentes e que proporcionam ganhos mtuos mostrou-se de grande va-lia para as cooperativas. Ressalte-se o fato de que, cada vez mais, a pluralidade na formao de relacionamen-tos ser de grande relevncia para deter-minar o sucesso dos empreendimentos so-ciais, como j possvel verificar nos trs empreendimentos retratado. Embora cada uma das cooperativas sirva como exemplo de sucesso no relacionamento com deter-minado setor, nenhuma das trs se abstm de desenvolver constantemente seus rela-cionamentos com os meios pblico, priva-do e com as outras cooperativas.Uma constatao positiva a preocupao com as condies de segurana, limpeza e uso adequado de materiais de trabalho que as cooperativas exibiram. O caso da cooperativa Futura, que conquistou a cer-

    tificao SA 8000, um exemplo de evo-luo institucional e consiste em valiosa fonte de inspirao para os demais empre-endimentos. Outro aspecto importante retratado a verticalizao da cadeia produtiva. Exem-plos como as fbricas de plsticos da rede Cata Vida e da CAEC sinalizam a importn-cia estratgica de incorporar mais valor e diversificar os negcios das cooperativas.No entanto, dois pontos crticos no po-dem ser negligenciados e merecem grande ateno das cooperativas: a logstica e a transparncia na gesto. Devido a caracte-rsticas especficas dos resduos slidos, a eficincia no recolhimento tm acentuada importncia e demanda alto grau de pro-fissionalismo. A utilizao de aparelhos de navegao por satlite, como suporte a um plano de gesto logstica, uma inova-o empregada pela CAEC que pode auxi-liar diversas organizaes.J a transparncia na gesto - com adoo de polticas de governana que assegurem o livre acesso dos cooperados s informa-es - garante a manuteno do pacto co-operativista e contribui para a uniformi-zao das informaes das cooperativas. Trata-se de um desafio institucional cada vez mais estratgico e necessrio dentro do ambiente de negcios que est sendo construdo sob o marco regulatrio esta-belecido pela Poltica Nacional de Resdu-os Slidos. No entanto, embora j existam gestes que adotem mecanismos de trans-parncia, esta prtica ainda no est dis-seminada como padro, a despeito do fato de que os principais beneficiados por sua adoo sejam as prprias cooperativas. Na mesma situao encontra-se a adoo de metas, que melhora a produtividade e au-menta o grau de profissionalismo dos coo-perados. O setor como um todo ter muito a ganhar ao adotar estas prticas.Em termos organizacionais, constatou-se a grande relevncia dos investimentos fei-tos em educao, treinamento e desenvol-vimento. Nos locais onde as aes de trei-namento e desenvolvimento foram mais consistentes ao longo dos anos, o grau de autonomia operacional dos cooperados tornou-se elevado o suficiente para ser possvel vislumbrar um grande potencial para a evoluo para um negcio social in-clusivo gerenciado de forma autnoma pe-

    los catadores. Da mesma forma que ocorre em outros setores da economia, o investi-mento no capital humano resulta em um retorno duradouro.Outro ponto que merece ateno a liga-o das entidades com o Movimento Na-cional de Catadores de Materiais Recicl-veis. Embora o grau de proximidade com o MNCR varie de acordo com cada caso, ntido que h intercmbio de informa-es, alinhamento de ideias e um senso de pertencimento a uma causa coletiva e a uma plataforma poltica que une uma parte dos catadores e das cooperativas com o movimento.Tal consonncia de ideias explcita em relao percepo equnime sobre o pagamento a ser recebido por servios ambientais prestados. Aps a crise de 2008 - que afetou de forma dramtica o funcionamento de todas as cooperativas - cristalizou-se a certeza de que funda-mental pleitear a remunerao por estes servios para a sobrevivncia do negcio. Em algumas cidades, as cooperativas j so remuneradas, se no no mesmo valor do que era feito iniciativa privada, pelo menos por uma parte deste valor. Trata-se de um avano, pois esta umas alternati-vas de faturamento que pode contribuir para o erguimento dos negcios sociais inclusivos no setor. O pagamento pelos servios ambientais configura-se como uma das questes estratgicas dentro do debate sobre a perenidade e evoluo das cooperativas, pois pode diminuir a vulne-rabilidade das organizaes s flutuaes globais e locais de preos s quais esto sujeitos os materiais reciclveis. Trata-se de uma mudana que envolve o engaja-mento de diversos atores e a adoo de uma mentalidade que contemple e valo-rize, de forma efetiva, os benefcios dos impactos sociais dos negcios.Um longo caminho foi percorrido pelos catadores brasileiros nos ltimos anos. Da invisibilidade nas ruas e nos lixes ao pro-tagonismo que abriu espaos e consolidou direitos na construo da Poltica Nacio-nal de Resduos Slidos vigente, muito foi construdo em um espao de tempo rela-tivamente curto, se comparado s dimen-ses das conquistas.Desta forma, embora a proporo dos de-safios seja considervel, o panorama for-

    mado pelo marco regulatrio, o empre-endedorismo social e a colaborao com a sociedade constitui um trip capaz de atrair e manter perspectivas de negcios bastante positivas para que os catadores continuem escrevendo uma histria que tem significado gerao de renda e resga-te da dignidade de milhares de brasileiros.

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    REfERNcIAS bIblIOgRfIcAS

    [ABRELPE] ASSOCIAO BRASILEIRA DE EMPRESAS DE LIMPEZA PBLICA E RES-DUOS ESPECIAIS. Panorama de Resduos S-lidos no Brasil 2010. So Paulo: Abrelpe, 2011.

    BESEN, G.R. Coleta Seletiva com incluso de catadores: construo participativa de in-dicadores e ndices de sustentabilidade. So Paulo, 2011. Tese (Doutorado em Cincias da Sade), Faculdade de Sade Pblica, Uni-versidade de So Paulo.

    [BRASIL] Lei de Saneamento Bsico n11.445/2007 em http://www.planal-to.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/Lei/L11445.htm

    [BRASIL] Lei Federal n 12.305/2010: insti-tui a Poltica Nacional de Resduos Slidos. Disponvel em: http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/b2394d7e1ab9a970032569b9004e148d/42c9233bee8de0d183257774003fd3b0?OpenDocument

    [BRASIL] Decreto federal n 7.404/2012: regulamenta a Lei n. 12.305/2010, que ins-titui a PNRS, cria o Comit Interministe-rial da PNRS e o Comit Orientador para a Implantao dos Sistemas de Logstica Re-versa, e d outras providncias. Disponvel em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/Decreto/D7404.htm

    [CEMPRE] COMPROMISSO EMPRESARIAL PARA A RECICLAGEM. Pesquisa Ciclosoft 2010. Disponvel em: http://www.cempre.org.br/ciclosoft.php

    [CEMPRE] Linhas de crdito do BNDES apoiam cooperativas. CempreInforma, n. 109, jan/fev. 2010. Disponvel em: http://www.cempre.org.br/ci_2010-0102_reci-clando.php

    [IBGE] Pesquisa Nacional de Saneamento Bsico 2008. Rio de Janeiro, 2010. Dispo-nvel em : http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/pnsb2008/PNSB_2008.pdf

    AgRADEcImENTOS

    Agradecemos aos catadores, catadoras e demais pessoas envolvidas que, aos dispor de seu tempo e de sua ateno, tornaram possvel a realizao deste trabalho.

    Adilson Correa da SilvaAndr VilhenaAntonio BunchaftDaiane Batista RamosDarci de OliveiraEdilson Ferreira FranaElizabete Maria RochaFelipe AntunesIsmael GilioJeane dos SantosJoana DArc GonalvesJoo Francisco Sawaya de LimaJos CardosoJuelice Silva SantosJulia FariaMaria das Mercs Silva de OliveiraMaria do Carmo FugaMarilda LourenoMaria Quitria de FreitasMarlian MachadoNaiara Rejane GarbinOtavio GranPaulo Henrique Lomi MedeirosRita de Cssia Gonalves VianaRoberto RochaRodrigo BritoRuth Maria Ramos da SilvaSilvano SilvrioValdemar de Oiveira Neto

    [INSTITUTO WALMART] Mapa de Solues Inovadoras Tendncias de empreende-dores na construo de negcios sociais e inclusivos. So Paulo: Instituto Walmart e Ashoka, 2011.

    [IPEA] INSTITUTO DE PESQUISA ECON-MICA APLICADA. Pesquisa sobre pagamento por servios ambientais urbanos para gesto de resduos slidos. Relatrio de Pesquisa. Braslia: IPEA, 2010.

    JACOBI, P.R. (Org.) Gesto compartilhada de resduos slidos no Brasil: inovao com in-cluso social. So Paulo: Annablume, 2006.

    [MNCR]MOVIMENTO NACIONAL DOS CATA-DORES DE MATERIAIS RECICLVEIS. Anli-se do custo de gerao de postos de trabalho na economia urbana para o segmento dos catadores de materiais reciclveis. Relatrio Tcnico Final. Janeiro de 2006.

    [MNCR] MOVIMENTO NACIONAL DOS CATA-DORES DE MATERIAIS RECICLVEIS. Car-ta de Braslia. Disponvel em: http://www.mncr.org.br/box_1/principios-e-objetivos/carta-de-brasilia

    [MNCR] MOVIMENTO NACIONAL DOS CATA-DORES DE MATERIAIS RECICLVEIS. Mode-los de Contratao de organizaes de cata-dores em http://www.mncr.org.br/box_2/instrumentos-juridicos

    [LACRE] RED LATINOAMERICANA DE RECI-CLADORES. Definicin y Historia. Disponvel em: http://www.redrecicladores.net/es/quienes-somos

    VALVERDE, J.; JARDIM, A; YOSHIDA, C. Polti-ca Nacional,Gesto e Gerenciamento de Res-duos Slidos. Barueri: Manole, 2012.

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    OS REAlIzADORES

    Instituto WalmartO Instituto Walmart uma organizao da sociedade civil de interesse pbli-co (Oscip), sem fins lucrativos. Criado em 2005 e mantido com recursos do Walmart Brasil, responsvel pela orientao estratgica e gesto do Inves-timento Social Privado, e tambm pelo apoio a prticas de Responsabilida-de Social Corporativa da empresa. A organizao estreita a interface com as comunidades das regies onde o Walmart est presente. Ao todo so 18 Es-tados, incluindo o Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, e Distrito Federal. O Investimento Social Privado direcionado para trs causas: Juventude e Trabalho, Desenvolvimento Local e Gerao de Renda. As atividades den-tro desses eixos de atuao tm como objetivo promover, em mdio e lon-go prazo, o desenvolvimento humano e socioeconmico de populaes e de territrios vulnerveis a riscos sociais no Brasil. Para alcan-lo, o Instituto realiza vrios programas e apoia financeiramente projetos de parceiros com experincia em trabalhos sociais. O trabalho do Instituto tambm orienta-do pelas premissas de relevncia local, empoderamento de mulheres, segu-rana alimentar e busca do desenvolvimento sustentvel.

    Programa CATA AOO Programa CATA AO um modelo de interveno socioeconmica lo-cal, realizado a partir de aes de integrao social e organizao produtiva. Suas aes visam contribuir para a sustentabilidade econmica e a cidada-nia plena de catadores e suas famlias, atravs de uma melhor integrao na cadeia produtiva, no desenvolvimento de opes de gerao de trabalho e renda no contexto da economia solidria e do fortalecimento dos laos co-munitrios de solidariedade.O Programa fruto da parceria entre a Fundao Avina, o Banco Intera-mericano de Desenvolvimento (BID), atravs do Fundo Multilateral de In-vestimentos (FOMIN) e o Departamento de gua e Saneamento, a empresa Coca-Cola Brasil, a Organizao Intereclesistica de Cooperao para o De-senvolvimento (ICCO), o Ministrio de Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS) e Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicl-veis (MNCR).

    GIRAL viveiro de projetosGIRAL vem de jirau, palavra tupi comum no Norte do pas que significa estrutura de suporte. Essa a essncia da Giral: ser um suporte para a germinao e desenvolvimento de novas ideias e ecossistemas de ne-gcios sustentveis.Somos uma empresa de consultoria criada com a proposta de atuar no uni-verso da gesto para a transformao social. Temos expertise nas diversas etapas de gerenciamento de planos estratgicos, programas e projetos: con-cepo, planejamento, pesquisa, anlise, implementao, monitoramento e avaliao de resultados.Nascida do relacionamento entre o universo corporativo e o das organiza-es da sociedade civil, a empresa traz em sua essncia os princpios da ar-ticulao intersetorial.Trabalhando com organizaes do primeiro, segundo e terceiro setor, acredi-tamos que pela integrao tica e comprometida destes atores que chega-remos a um real processo de desenvolvimento inclusivo, justo e sustentvel.C

    arol

    ina

    Rolim

    | GI

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    Programa CATA AOwww.cataacao.org.br

    Conselho Gestor Nacional Flvia Neves, Ismael Gilio, Oscar Fergutz, Severino Lima

    Jnior, Valdemar de Oliveira Neto e Victor BiccaCoordenao/ Fernanda Ferreira

    Giral viveiro de ProjetosDireo / Mateus MendonaConsultora / Janaina Pires

    Consultor e Editor / Maurcio ArajoRedao / Thais Medina

    Design / Denise MatsumotoFotografia / Carolina Rolim e Maurcio Arajo

    Instituto Walmart

    Diretor / Paulo MindlinGerente / Adriana Mariano

    Colaborao / Cntia Rinaldi, Priscila Ohira e Tatyane Nunes

    Expediente

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    | GI

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