Castelo interior

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    22-Jun-2015

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1. CASTELOINTERIOR Santa Teresa de JesusEste tratado, chamado Castelo interior, escreveu Teresa de Jesus, freira de nossa Senhorado Carmo, para suas irms filhas, as freiras Carmelitas Descalas. 2. JHS1. Poucas coisas, das que me tem mandado a obedincia, se tornaram to dificultosas paramim como escrever agora coisas de orao; primeiro, porque me parece que o Senhor nome d nem esprito nem desejo para o fazer; depois, por ter a cabea, h trs meses, comum zumbido e fraqueza to grande, que, at sobre negcios urgentes, escrevo a custo. Mas,entendendo que a fora da obedincia costuma facilitar coisas que parecem impossveis, avontade determina-se a faz-lo de muito bom grado, ainda que a natureza se aflija muito;porque o Senhor no me deu tanta virtude, para que o pelejar com a enfermidade contnua ecom muitas e variadas ocupaes se possa fazer sem grande contradio sua. Faa-o Ele,que tem feito outras coisas mais dificultosas para me fazer merc, e em cuja misericrdiaconfio.2. Creio bem que pouco mais hei de saber dizer do que j disse em outras coisas, que memandaram escrever, antes temo que ho de ser quase sempre as mesmas: porque, como ospssaros a quem ensinam a falar, no sabem mais do que lhes ensinam ou eles ouvem, eisto repetem muitas vezes, assim sou eu ao p da letra. Se o Senhor quiser que eu diga algode novo, Sua Majestade o far ou ser servido trazer-me memria o que de outras vezesdisse, e que at com isto me contentaria, por t-la to m que folgaria em atinar comalgumas coisas, que dizem que estavam bem ditas, caso se tivessem perdido. Se nemmesmo isso me der o Senhor, com me cansar e acrescentar o mal de cabea, por obedincia,ficarei com lucro, embora do que disser, no se tire nenhum proveito?3. E assim comeo a cumpri-la hoje, dia da Santssima Trindade, ano de 1577, nestemosteiro de S. Jos do Carmo em Toledo, onde estou presentemente, sujeitando-me emtudo o que disser ao parecer de quem mo manda escrever, que so pessoas de grandesletras. Se alguma coisa disser que no v conforme ao que ensina a Santa Igreja CatlicaRomana, ser por ignorncia e no por malcia. Isto se pode ter por certo e que sempreestou e estarei sujeita, por bondade de Deus, e o tenho estado, Santa Igreja. Seja parasempre bendito e glorificado! Amm!4. Disse-me quem me mandou escrever, que estas freiras destes mosteiros de NossaSenhora do Carmo tm necessidade de que algum lhes declare algumas dvidas de orao,e lhe parecia que melhor entendem as mulheres a linguagem umas das outras. Com o amorque me tm, lhes faria mais ao caso o que eu lhes dissesse e, por esta razo, entendia teralguma importncia se se acertasse a dizer alguma coisa e, por isso, irei falando com elasnaquilo que escrever, porque parece desatino pensar que pode fazer ao caso a outraspessoas. Grande merc me far o Senhor, se a alguma delas aproveitar para O louvar umpoucochinho mais. Bem sabe Sua Majestade que eu no pretendo outra coisa; e bem claroque, quando atinar a dizer alguma coisa, elas entendero que no meu, pois no h razopara isso, nem to-pouco tivera eu entendimento e habilidade para coisas semelhantes; se oSenhor, por Sua misericrdia no mos desse. 3. PRIMEIRAS MORADASCAPTULO l. Trata da formosura e dignidade das nossas almas. Pe uma comparaopara se entender e diz o lucro que h em entend-la e saber as mercs que recebemos deDeus, e como a porta deste castelo a orao.1. Estando eu hoje suplicando a Nosso Senhor que falasse por mim, porque eu no atinavacom coisa que dissesse, nem como comear a cumprir a obedincia, ofereceu-se-me o queagora direi para comear com algum fundamento. considerar a nossa alma como umcastelo todo ele de um diamante ou mui claro cristal, onde h muitos aposentos, assimcomo no Cu h muitas moradas. Que se bem o considerarmos, irms, no outra coisa aalma do justo, seno um paraso onde Ele disse ter Suas delcias. Pois, no isso que vosparece que ser o aposento onde um Rei to poderoso, to sbio, to puro, to cheio detodos os bens se deleita? No encontro eu outra coisa com que comparar a grandeformosura de uma alma e a sua grande capacidade; na verdade, os nossos entendimentos,por agudos que sejam, mal podem chegar a compreend-la, assim como no podem chegara considerar a Deus, pois Ele mesmo disse que nos criou Sua imagem e semelhana.Pois, se isto assim , como , no h razo para nos cansarmos a querer compreender aformosura deste castelo; porque, ainda que haja diferena dele a Deus como do Criador criatura, pois criatura, basta dizer Sua Majestade que a alma feita Sua imagem, paraque possamos entender a grande dignidade e formosura da alma.2. No pequena lstima e confuso que, por nossa culpa, no nos entendamos a nsmesmos, nem saibamos quem somos. No seria grande ignorncia, minhas filhas, queperguntassem a algum quem era e no se conhecesse, nem soubesse quem foi seu pai, nemsua me, nem sua terra? Pois, se isto seria grande estupidez, sem comparao maior a queh em ns quando no procuramos saber que coisa somos e s nos detemos nestes corpos; eassim, s a vulto sabemos que temos alma, porque o ouvimos e porque no-lo diz a f. Mas,que bens pode haver nesta alma ou quem est dentro dela, ou o seu grande valor, poucasvezes o consideramos; e assim se tem em to pouco procurar com todo o cuidado conservarsua formosura. Tudo se nos vai na grosseria do engaste ou cerca deste castelo; que so estescorpos.3. Consideremos agora que este castelo tem, como disse, muitas moradas: umas no alto,outras em baixo, outras aos lados; e, no centro e meio de todas estas, tem a mais principalonde se passam as coisas mais secretas entre Deus e a alma. mister que fiqueis esclarecidas por esta comparao; talvez seja Deus servido que eupossa por ela dar-vos a entender alguma coisa das mercs que Ele faz s almas e asdiferenas que h entre elas, at onde eu tiver entendido que possvel; que, todas, serimpossvel entend-las algum, pois so muitas, e quanto mais quem to ruim como eu!Pois ser-vos- grande consolo, quando o Senhor vos fizer essas mercs, saber que coisapossvel e, a quem Ele as no fizer, para louvarem Sua grande bondade. Assim como nonos faz dano considerar as coisas que h no cu e o que nele gozam os bem-aventurados,antes nos alegramos e procuramos alcanar o que eles gozam, to pouco nos far dano verque possvel, neste desterro, comunicar-se um to grande Deus a uns vermes to cheios demau odor e am-los com uma bondade to boa e uma misericrdia to sem medida. Tenhopor certo que, a quem fizer dano entender que possvel fazer Deus esta merc nestedesterro, que estar muito falha de humildade e de amor do prximo; porque, se assim no 4. , como podemos deixar de nos alegrar de que Deus faa estas mercs a um irmo nosso ede que Sua Majestade d a entender Suas grandezas seja a quem for, pois isso no impedeque no-las faa a ns? Que algumas vezes ser s para as mostrar, como disse do cego aquem deu vista quando Lhe perguntaram os Apstolos se era cego por seus pecados ou deseus pais. E assim acontece fazer mercs, no por serem mais santos do que aqueles a quemas no faz, mas para que se conhea Sua grandeza, como vemos em S. Paulo e na Madalenae para que O louvemos em Suas criaturas.4. Poder dizer-se que parecem coisas impossveis e que bom no escandalizar os fracos.Menos se perde em que estes no o creiam, do que em deixarem de aproveitar aqueles aquem Deus as faz e de se consolar e despertar a amar mais a Quem faz tantas misericrdias,sendo to grande Seu poder e majestade; tanto mais que sei que falo com quem no correeste perigo, porque sabem e crem que d Deus ainda muito maiores provas de amor. Eu seique os que nisto no crerem, no o vero por experincia; porque Deus muito amigo deque Lhe no ponham taxa e medida a Suas obras, e assim, irms, nunca isto acontea s queo Senhor no levar por este caminho.5. Pois, voltando a nosso formoso e deleitoso castelo, temos de ver como poderemos entrarnele.Parece que digo algum disparate; porque, se este castelo a alma, claro que no se trata deentrar, pois se ele mesmo, pareceria desatino dizer a algum que entrasse num aposentoestando j dentro. Mas haveis de entender que vai muito de estar a estar; que h muitasalmas que ficam volta do castelo, onde esto os que o guardam, e que se lhes no d nadade entrar, nem sabem o que h naquele to precioso lugar, nem quem est dentro, nemmesmo que dependncias tem. J tereis visto, em alguns livros de orao, aconselhar a almaa que entre dentro de si; isto mesmo.6. Dizia-me h pouco um grande letrado, que as almas, que no tm orao so como umcorpo paraltico ou tolhido que, embora tenha ps e mos, no os podem mexer; e soassim: h almas to enfermas e to habituadas s coisas exteriores, que no h remdio nemparece que possam entrar dentro de si mesmas; porque tal o costume de tratarem semprecom as sevandijas e alimrias que esto roda do castelo, que j quase se tornaram comoelas e, sendo de natureza to rica e podendo ter a sua conversao nada menos do que comDeus, no tm remdio. E se estas almas no procuram entender e remediar sua grandemisria, ficaro feitas em esttuas de sal por no voltarem a cabea para si mesmas, assimcomo ficou a mulher de Lot por voltar a cabea para trs.7. Porque, tanto quanto eu posso entender, a porta para entrar neste castelo a orao ereflexo, no digo mais mental que vocal; logo que seja orao, h de ser comconsiderao; porque naquela em que no se adverte com Quem se fala e o que se pede equem que pede e a Quem, no lhe chamo eu orao, embora muito meneie os lbios. E, sealgumas vezes o for, mesmo sem este cuidado, ser porque se teve em outras; mas, quemtivesse por costume falar com a Majestade de Deus como falaria a um seu escravo, que nemrepara se diz mal, mas o que lhe vem boca e decorou, porque j o fez outras vezes, no otenho por orao e preza a Deus nenhum cristo a tenha desta sorte. Que entre vs, irms,espero em Sua Majestade no haver tal orao, pelo costume que h de tratardes de coisasinteriores, e que muito bom para no cairdes em semelhante bruteza.8. No falemos, pois, com estas almas tolhidas, que, se no vem o mesmo Senhor mandar-lhes que se levantem - como aquele que havia 30 anos que estava junto piscina-, tmmuito m ventura e correm grande perigo; mas sim com outras almas que, por fim, entramno castelo; porque, ainda que estejam muito metidas no mundo, tm bons desejos e 5. algumas vezes, ainda que de longe em longe, encomendam-se a Nosso Senhor econsideram quem so, ainda que sem muita demora. Alguma vez ou outra, num ms, rezamcheias de mil negcios, o pensamento quase de ordinrio nisso, porque, como esto toapegadas a eles, o corao se lhes vai para onde est o seu tesouro. Propem algumasvezes, para consigo mesmos, desocuparem-se, e j grande coisa o prprio conhecimento eo ver que no vo bem encaminhadas para atinar com a porta. Enfim, entram nas primeirasdependncias do rs-do-cho; mas entram com elas tantas sevandijas, que no lhes deixamver a formosura do castelo nem sossegar: muito fazem j em ter entrado.9. Parecer-vos-, filhas, que estou impertinente, pois, por bondade do Senhor, no soisdestas. Haveis de ter pacincia, porque, a no ser assim, no saberei dar a entender, comoeu as tenho entendido, algumas coisas interiores de orao, e ainda assim preza ao Senhorque atine a dizer alguma coisa, porque bem dificultoso o que eu quereria dar-vos aentender, se no houver experincia. Se a houver, vereis que o menos que se pode fazer tocar no que, preza ao Senhor, no nos toque a ns por Sua misericrdia.CAPTULO 2. Trata de quo feia coisa a alma que est em pecado mortal, e como quisDeus dar a entender algo disto a uma pessoa. Trata tambm alguma coisa sobre oprprio conhecimento. Diz como se ho de entender estas moradas.1. Antes de passar adiante, quero dizer-vos que considereis o que ser ver este castelo toresplandecente e formoso, esta prola oriental, esta rvore de vida que est plantada nasmesmas guas vivas da Vida, que Deus, quando cai em pecado mortal. No h trevasmais tenebrosas, nem coisa to escura e negra que ela o no esteja muito mais. Basta saberque, estando at o mesmo Sol, que lhe dava tanto resplendor e formosura no centro da suaalma, todavia como se ali no estivesse, para participar dEle, apesar de ser to capaz degozar de Sua Majestade, como o cristal o para nele resplandecer o sol. Nenhuma coisa lheaproveita; e daqui vem que todas as boas obras que fizer, estando assim em pecado mortal,so de nenhum fruto para alcanar glria; porque, no procedendo daquele princpio que Deus, do qual vem que a nossa virtude virtude, e apartando-nos dEle, no pode a obra seragradvel a Seus olhos; porque, enfim, o intento de quem faz um pecado mortal, no contentar a Deus, seno dar prazer ao demnio o qual, como as mesmas trevas, assim apobre alma fica feita uma mesma treva.2. Eu sei de uma pessoa a quem Nosso Senhor quis mostrar como ficava uma alma quandopecava mortalmente. Diz aquela pessoa que lhe parece que, se o entendessem, no seriapossvel que algum pecasse, ainda que se pusesse nos maiores trabalhos que se possampensar para fugir das ocasies. E assim, deu-lhe um grande desejo de que todos oentendessem. Assim vo-lo d a vs, filhas, de rogar a Deus pelos que esto neste estado,todos feitos uma escurido, e tais so suas obras; porque, assim como duma fonte muitoclara, claros so os arroiozitos que dela manam, assim uma alma que est em graa, poisdaqui lhe vem serem suas obras to agradveis aos olhos de Deus e dos homens, porqueprocedem desta fonte de vida, onde a alma est como uma rvore plantada; nem ela teriafrescura e fruto, se no lhe viesse dali; isto que a sustenta e faz com que no seque, e qued bom fruto. Assim a alma que, por sua culpa se aparta desta fonte e se transplanta a outrade uma negrssima gua e de muito mau odor, tudo o que dela sai a mesma desventura esujidade.3. de considerar aqui que a fonte e aquele Sol resplandecente que est no centro da alma,no perde seu resplendor e formosura, que est sempre dentro dela, e no h coisa que lhe 6. possa tirar a sua formosura. Mas, se sobre um cristal que est ao sol, se pusesse um panomuito negro, claro est que, embora o sol d nele, a sua claridade no far o seu efeito nocristal.4. almas remidas pelo Sangue de Jesus Cristo! Entendei-vos e tende d de vs mesmas!Como possvel que, entendendo isto, no procureis tirar este pez deste cristal? Olhai que,se a vida se vos acaba, jamais tornareis a gozar desta luz. Jesus! O que ver uma almaapartada dela! Como ficam os pobres aposentos do castelo! Que perturbados andam ossentidos, que a gente que vive neles! E as potncias, que so os alcaides, mordomos emestres-salas, com que cegueira, com que mau governo! Enfim, como onde est plantada arvore o demnio, que fruto pode dar?5. Ouvi uma vez a um homem espiritual, que no se espantava do que fazia quem est empecado mortal, mas sim do que no fazia. Deus, por Sua misericrdia, nos livre de togrande mal, que no h coisa, enquanto vivemos, que merea este nome de mal, seno esta;pois acarreta males eternos para sempre. disto, filhas, que devemos andar temerosas e oque temos de pedir a Deus em nossas oraes; porque, se Ele no guarda a cidade, em votrabalharemos, pois somos a prpria vaidade.Dizia aquela pessoa que tinha aproveitado duas coisas da merc que Deus lhe fez: uma, umtemor grandssimo de O ofender, e assim sempre Lhe andava suplicando no a deixassecair, vendo to terrveis danos; a segunda, um espelho para a humildade, vendo que, coisaboa que faamos, no tem seu princpio em ns mesmos, mas naquela fonte onde estplantada esta rvore das nossas almas, e neste Sol que d calor s nossas obras. Disse quese lhe representou isto to claro que, em fazendo alguma coisa boa ou vendo-a fazer, acudiaao seu princpio e entendia como, sem esta ajuda, no podamos nada; e daqui lhe procediair logo a louvar a Deus, e, habitualmente, no se lembrava de si em coisa boa que fizesse.6. No seria tempo perdido, irms, o que gastsseis a ler isto, nem eu a escrev-lo, seficssemos com estas duas coisas, que os letrados e entendidos muito bem sabem; mas anossa ignorncia de mulheres de tudo precisa; e assim, porventura, quer o Senhor que nosvenham lembrana semelhantes comparaes. Praza a Sua Majestade dar-nos graa paraisso.7. So to obscuras de entender estas coisas interiores que, a quem to pouco sabe como eu,foroso dizer muitas coisas suprfluas e at desatinadas, para que haja alguma em queacerte. necessrio terem pacincia quando isto lerem, pois eu a tenho para escrever o queno sei; e certo algumas vezes tomar o papel, como uma pessoa tonta, sem saber que dizernem mesmo comear. Bem entendo que coisa importante para vs declarar-vos algumascoisas interiores, como puder; porque sempre ouvimos quo boa a orao e temos naConstituio t-la tantas horas. No se nos declara mais do que podemos e, de coisas que oSenhor opera numa alma, declara-se pouco, digo de coisas sobrenaturais. Dizendo-se edando-se a entender de muitas maneiras, ser-nos- grande consolao considerar esteartifcio celestial interior, to pouco entendido dos mortais, embora passem muitos por ele.E, ainda que em outras coisas que escrevi, o Senhor me tenha dado algo a entender, creioque algumas no as tinha entendido como de ento para c, em especial das maisdificultosas. O trabalho que, para as chegar a declarar - como disse -, ser preciso dizermuitas coisas muito sabidas, porque no pode ser por menos para meu rude talento.8. Pois voltemos ao nosso castelo de muitas moradas. No haveis de imaginar estasmoradas uma aps outra, como coisa alinhada; mas ponde os olhos no centro que a casaou palcio onde est o Rei, e considerai-a como um palmito, que, para chegar ao que decomer, tem muitas coberturas que cercam tudo quanto saboroso. Assim aqui, em redor 7. desta morada, h outras muitas e tambm por cima. Porque as coisas da alma devem-seconsiderar com amplido, largueza e grandeza, e nisto no h demasia, pois tem maiorcapacidade do que ns poderemos considerar, e a todas as partes dela se comunica este Solque est no palcio. Isto importa muito a qualquer alma que tenha orao, pouca ou muita:que no a tolha nem a aperte. Deixe-a andar por estas moradas, em cima, em baixo e aoslados, pois Deus lhe deu to grande dignidade; no se obrigue a estar muito tempo num saposento! Oh! mas se no prprio conhecimento! E quo necessrio isto (vejam se meentendem), mesmo aquelas que o Senhor tem na mesma morada em que Ele est, pois - pormais elevada que esteja a alma -, no lhe cumpre outra coisa, nem poder, ainda que queiraque a humildade sempre fabrica o seu mel, como a abelha na colmia; sem isto, tudo vaiperdido. Mas consideremos que a abelha no deixa de sair e voar para trazer flores; assim aalma no prprio conhecimento: creia-me e voe algumas vezes a considerar a grandeza e amajestade do seu Deus. Aqui achar a sua baixeza, melhor que em si mesma, e mais livredas sevandijas, que entram nas primeiras moradas, que so as do prprio conhecimento;ainda que, como digo, grande misericrdia de Deus que a alma se exercite nisto, poistanto se peca por excesso como por defeito, - costuma-se dizer-. E creiam-me que, com avirtude de Deus, praticaremos muito melhor a virtude do que muito presas nossa terra.9. No sei se fica bem dado a entender, porque coisa to importante este conhecermo-nos,que no quereria que nisso houvesse nunca relaxao, por muito subidas que estejais noscus; pois, enquanto estamos nesta terra, no h coisa que mais nos importe que ahumildade. E assim volto a dizer que muito bom e muito melhor tratar de entrar primeirono aposento onde se trata disto, que voar aos demais, porque este o caminho; e, sepodemos ir pelo seguro e plano, para que havemos de querer asas para voar? Mas procure-se como aproveitar mais nisto; e a meu ver, jamais acabamos de nos conhecer se noprocurarmos conhecer a Deus; olhando Sua grandeza, acudamos nossa baixeza; eolhando Sua pureza, veremos nossa sujidade; considerando a Sua humildade, veremoscomo estamos longe de ser humildes.10. H dois proveitos nisto: o primeiro, est claro que uma coisa branca parece muito maisbranca ao p duma negra e, ao contrrio, a negra ao p da branca. O segundo , porque onosso entendimento e nossa vontade se tornam mais nobres e mais dispostos para todo obem, quando, s voltas consigo mesmos, tratam com Deus. E se nunca samos do nossolodo de misrias, coisa muito inconveniente. Assim como dizamos dos que esto empecado mortal quo negras e de mau odor so seus cursos de gua, assim aqui (ainda. queno so como aqueles, Deus nos livre, que isto s comparao), metidos sempre namisria da nossa terra, nunca o curso sair do lodo de temores, de pusilanimidade ecobardia: de olhar a se me olham, se me no olham; se indo por este caminho, me sucedermal; se ousarei comear aquela obra, se ser soberba; se bom que uma pessoa tomiservel trate de coisa to alta como a orao; se me ho de ter por melhor no indo pelocaminho de toda a gente; que no so bons os extremos, mesmo em virtude; que, como souto pecadora, ser cair de mais alto; no irei talvez por diante e farei dano aos bons; umacomo eu no precisa de singularidades.11. Oh! valha-me Deus, filhas, quantas almas deve o demnio ter feito perder muito poreste meio! Tudo isto lhes parece humildade e outras muitas coisas que pudera dizer, vem denunca acabarmos de nos entender; rende-se o prprio conhecimento, e, se nunca samos dens mesmos, no me espanto, que isto e mais se possa temer. Por isso digo, filhas, queponhamos os olhos em Cristo, nosso Bem, e ali aprenderemos a verdadeira humildade, eem seus santos, e enobrecer-se- o entendimento - como disse -, e no ficar o prprio 8. conhecimento rasteiro e cobarde; pois que, embora esta seja a primeira morada, muito ricae de to grande preo e, se se escapa das sevandijas que nela h, no se ficar sem passaradiante. Terrveis so os ardis e manhas do demnio para que as almas no se conheam asi mesmas nem entendam Seus caminhos.12. Destas primeiras moradas posso eu dar sinais muito certos, por experincia. Por issodigo que no considerem poucos aposentos, seno um milho deles; porque, de muitasmaneiras, entram aqui almas, umas e outras com boa inteno. Mas, como o demniosempre a tem to m, deve terem cada um muitas legies de demnios a combater para queno passem de uns a outros. Como a pobre alma no o entende, por mil maneiras nosengana, o que no pode fazer j tanto s que esto mais perto onde est o Rei Aqui, porm,como ainda esto embebidas no mundo e engolfadas em seus contentos e desvanecidas comsuas honras e pretenses, no tm fora os vassalos da alma (que so os sentidos epotncias naturais que Deus lhe deu), e facilmente estas almas so vencidas, embora andemcom desejos de no ofender a Deus, e faam boas obras. As que se virem neste estadoprecisam de recorrer amide, como puderem, a Sua Majestade, tomar a Sua bendita Mepor intercessora e a Seus santos, para que pelejem por elas, pois os seus criados pouca foratm para se defender. E, na verdade, em todos os estados necessrio que ela nos venha deDeus. Sua Majestade no-la d por Sua misericrdia, amm.13. Que miservel a vida em que vivemos! Porque, em outra parte, disse muito do danoque nos faz, filhas, no entender bem isto da humildade e do prprio conhecimento, nadamais vos digo aqui, ainda que seja o que mais importa, e praza a Deus tenha dito algumacoisa que vos aproveite.14. Haveis de notar que, nestas primeiras moradas, ainda no chega quase nada da luz quesai do palcio onde est o Rei; porque, embora no estejam obscurecidas e negras comoquando a alma est em pecado, esto de alguma maneira obscurecidas para poderem verquem est nelas e no por culpa do aposento - no me sei dar a entender -, mas porqueentraram com a alma tantas coisas ms de cobras e vboras e coisas peonhentas que no adeixam reparar na luz. como se algum entrasse em um lugar aonde entra muito sol elevasse terra nos olhos, que quase os no pudesse abrir. O aposento est claro, mas ela noo goza pelo impedimento destas feras e alimrias que lhe fazem cerrar os olhos para no verseno a elas.Assim me parece deve ser uma alma que, embora no esteja em mau estado, est to metidaem coisas do mundo e to embebida com sua fazenda ou honra ou negcios - como disse -que, ainda que de fato e verdade queira ver e gozar da Sua formosura, no a deixam nemparece que possa desembaraar-se de tantos impedimentos. E convm muito, para entrarnas segundas moradas, que procure dar de mo s coisas e negcios no necessrios, cadaum conforme seu estado; coisa que lhe importa tanto para chegar morada principal,que, se no comea a fazer isto, o tenho por impossvel; e at mesmo o estar sem muitoperigo naquela em que est, embora j tenha entrado no castelo, porque entre coisas topeonhentas, uma vez ou outra impossvel que deixem de lhe morder.15. Pois que seria, filhas, se s que j esto livres destes tropeos, como ns, e entramos jmuito mais adentro de outras moradas secretas do castelo, se por nossa culpa tornssemos asair para estas barafundas, como por nossos pecados deve haver muitas pessoas a quemDeus faz mercs, e por sua culpa se lanam nesta misria? Aqui estamos livres quanto aoexterior; no interior, praza ao Senhor que o estejamos e que Ele nos livre. Guardai-vos,filhas minhas, de cuidados alheios. Olhai que em poucas moradas deste castelo deixam decombater os demnios. verdade que em algumas tm fora os guardas para pelejar, que 9. so as potncias - como creio ter dito -; mas muito necessrio no nos descuidarmos paraentender seus ardis e no nos engane o demnio feito anjo de luz; pois h uma multido decoisas com que ele nos pode fazer dano, pouco a pouco, e, at que o faa, no oentendemos.16. J vos disse de outra vez que ele como uma lima surda, que preciso entend-lo nosprincpios. Quero dizer alguma coisa para vo-lo dar melhor a entender.D ele a uma irm vrios mpetos de penitncia, e a esta lhe parece que no tem descansoseno quando se est atormentando. Este princpio bom; mas, se a prioresa mandou queno faam penitncias sem licena e o demnio lhe faz parecer que a coisa to boa bem sepode atrever, e s escondidas se d a tal vida que vem a perder a sade e no poder fazer oque manda a sua Regra, j vedes em que vai parar tal bem.D a outra um zelo de perfeio muito grande. Isto muito bom; mas poder vir daqui, quequalquer faltita das irms lhe parea uma grande quebra e assim vir-lhe o cuidado de ver seas fazem, e de recorrer prioresa; e at, s vezes, poder ser ela no ver as suas prpriasfaltas pelo grande zelo que tem da Religio; como as outras no vem o interior, e vem ocuidado exterior, poderia ser que o no tomassem tanto a bem.17. O que aqui pretende o demnio no pouco; esfriar a caridade e o amor de umas paracom as outras, o que seria grande dano. Entendamos, minhas filhas, que a perfeioverdadeira amor de Deus e do prximo e, com quanto mais perfeio guardarmos estesdois mandamentos, seremos mais perfeitas. Toda a nossa Regra e Constituies no servempara outra coisa, seno de meios para guardar isto com mais perfeio. Deixemo-nos dezelos indiscretos, que nos podem fazer muito dano. Cada uma olhe para si mesma.Porque noutra parte vos falei largamente sobre isto, no me alongarei.18. Importa tanto este amor de umas para com as outras, que eu nunca quereria que delevos esquecsseis; porque, de andar olhando nas outras a umas ninharias que s vezes noser imperfeio, mas, como sabemos pouco, talvez o lanaremos pior parte, pode a almaperder a paz e ainda inquietar a das outras. Vede como custaria caro a perfeio! Tambmpoderia o demnio trazer esta tentao para com a prioresa e seria mais perigosa. Para isto mister muita discrio: porque, se forem coisas que vo contra a Regra e Constituio, preciso que nem sempre se lancem boa parte, mas sim avis-la; e, se no se emendar, aoPrelado: isto caridade. E tambm para com as irms, se fosse alguma coisa grave; deixarpassar tudo com medo de que seja tentao, seria a mesma tentao. Mas precisoponderar muito (no nos engane o demnio) no o tratar umas com as outras, pois dissopode o demnio tirar grande proveito e comear o costume da murmurao; mas apenastrat-lo com quem h de aproveitar, como j disse. Aqui, glria a Deus, no h tantaocasio para isso, porque se guarda to contnuo silncio; mas bom que estejamos desobreaviso. 10. SEGUNDAS MORADASCAPTULO NICO. Trata do muito que importa a perseverana para chegar s ltimasmoradas, e a grande guerra que d o demnio, e quanto convm no errar o caminho noprincpio para acertar. D um meio que experimentou ser muito eficaz.1. Agora, vejamos quais sero as almas que entram nas segundas moradas e o que fazemnelas. Quereria dizer-vos pouco, porque j disse bastante em outras partes e ser impossveldeixar de tornar a dizer outra vez muito sobre isso, porque no me lembra nada do que jfoi dito; se o pudesse guisar de diferentes maneiras, bem sei que no vos enfastiareis, comonunca nos cansamos dos livros que tratam disto, apesar de serem muitos.2. esta morada a dos que j comearam a ter orao e entendido quanto lhes importa nose ficarem nas primeiras moradas, mas no tm ainda determinao para deixar de estarnela muitas vezes, porque no deixam as ocasies, o que grande perigo. Mas j grandemisericrdia que, mesmo por pouco tempo, procurem fugir das cobras e coisas peonhentase entendam que bom deix-las.Estes, em parte, tm muito mais trabalho que os primeiros, ainda que no tenham tantoperigo; pois parece que j os entendem, e h grande esperana que entrem mais adentro.Digo que tm mais trabalho, porque os primeiros so como mudos que no ouvem, e assimpassam melhor o trabalho de no falar; mas no o passariam assim, seno muito maior, osque ouvissem e no pudessem falar. Mas, nem por isso mais de desejar o trabalho dos queno ouvem, porque enfim, grande coisa entender o que nos dizem. Assim estes entendemos chamamentos que lhes faz o Senhor, porque vo entrando mais perto onde est SuaMajestade, muito bom vizinho e to grande a Sua misericrdia e bondade que, mesmoestando ns em nosso passatempo, negcios, contentamentos e bagatelas do mundo, e atcaindo e levantando-nos em pecados (porque estas alimrias so to peonhentas e perigosasua companhia e buliosas que, s por maravilha deixaro de tropear nelas para cair), comtudo isto, tem em tanto este Senhor nosso que O amemos e procuremos a Sua companhiaque, uma vez ou outra, no deixa de nos chamar para que nos acerquemos dEle. E estavoz to doce, que se desfaz a pobre alma por no fazer logo o que lhe manda; e assim -como digo - muito mais trabalho do que no O ouvir.3. No digo que estas vozes e chamamentos sejam como outros que direi depois, mas socom palavras que se ouvem a gente boa, ou sermes ou com o que se l em bons livros eoutras muitas coisas que tendes ouvido, com as quais Deus chama; ou enfermidades,trabalhos e tambm com uma ou outra verdade que Ele ensina naqueles instantes em queestamos em orao que, seja quo frouxamente quiserdes, os tem Deus em muito. E vs,irms, no tenhais em pouco esta primeira merc, nem vos desconsoleis, ainda mesmo queno respondais logo ao Senhor. Bem sabe Sua Majestade aguardar muitos dias e anos, emespecial quando v perseverana e bons desejos. Esta perseverana aqui o maisnecessrio, porque com ela jamais se deixa de ganhar muito. Mas terrvel a violncia queaqui usam os demnios de mil maneiras, com mais tormento da alma que na moradaanterior; porque ali, estava muda e surda, pelo menos ouvia muito pouco e resistia menos,como quem tem, em parte, perdida a esperana de vencer; aqui est o entendimento maisvivo e as potncias mais hbeis; e so os golpes e a artilharia de tal modo, que a alma nopode deixar de ouvir. Porque aqui o representarem os demnios estas cobras das coisas domundo e fazerem os seus contentos quase eternos, a estima em que nele se tido, os amigos 11. e parentes, a sade que se pode perder nas coisas de penitncia (pois sempre comea a almaque entra nesta morada a desejar fazer alguma), e outras mil maneiras de impedimentos.4. Jesus, que barafunda a que pem aqui os demnios e as aflies da pobre alma, queno sabe se h de passar adiante ou voltar ao primeiro aposento! que a razo, por outraparte, representa-lhe o engano que pensar que tudo isto vale alguma coisa em comparaodo que pretende. A f ensina-lhe o que que lhe cumpre fazer; a memria representa-lheem que vo parar todas estas coisas, tornando-lhe presente a morte, e algumas sbitas, dosque muito gozaram destas coisas que viu; quo depressa so esquecidos de todos, como viupisar debaixo da terra alguns que conheceu em grande prosperidade - e at mesmo ter elapassado sobre suas sepulturas muitas vezes - e pensar que naquele corpo esto fervilhandomuitos vermes e muitas outras coisas que podem ocorrer; a vontade inclina-se a amarAquele em quem tem visto to inumerveis coisas e mostras de amor, e quereria pagaralguma; em especial, pe-se-lhe diante como nunca se aparta dela este verdadeiro Amador,acompanhando-a, dando-lhe vida e ser. Logo o entendimento acode dando-lhe a entenderque no pode encontrar melhor amigo, ainda que viva muitos anos; que todo o mundo estcheio de falsidade, e estes contentos que lhe representa o demnio, esto cheios detrabalhos e cuidados e contradies; e lhe diz que est certo que, fora deste castelo, noencontrar segurana nem paz; que se deixe de andar por casas alheias, pois a sua est cheiade bens, se a quiser gozar; que ningum acha tudo que h mister seno em sua casa, emespecial tendo tal Hspede, que a far senhora de todos os bens; se ela quiser no andarperdida, como o filho prdigo, comendo manjar de porcos.5. Razes so estas para vencer os demnios. Mas, Senhor e Deus meu! Os costumes dascoisas de vaidade e o ver que toda a gente trata disso, estraga tudo! Porque est to morta af, queremos mais o que vemos do que aquilo que ela nos diz. E, na verdade, no vemosseno excessiva m ventura nos que se deixam ir atrs destas coisas visveis. Mas issofizeram estas coisas peonhentas que tratamos; como algum que mordido por umavbora se empeonha e incha todo, assim aqui, se no nos acautelamos; claro est que parasarar so precisas muitas curas; e grande merc nos faz Deus, se no morremos disso. certo que a alma passa aqui grandes trabalhos, em especial se o demnio entende que elatem disposies de sua condio e costumes para ir muito adiante: todo o inferno se juntarpara faz-la tornar a sair para fora.6. Ah! Senhor meu! aqui mister a Vossa ajuda, pois, sem ela, no se pode fazer nada. PorVossa misericrdia no consintais que esta alma seja enganada para deixar o que comeou.Dai-lhe luz para ver como est nisto todo o seu bem e para se apartar das ms companhias.Grandssima coisa tratar com os que tratam disto e achegar-se, no s aos que vir nestesaposentos em que est, mas tambm aos que entender que j entraram nos mais interiores;porque lhe ser grande ajuda, e tanto poder conversar com estes, que ali a metam consigo.Esteja sempre de sobreaviso para no se deixar vencer; porque, se o demnio a v com umagrande determinao de que, antes perder a vida, o descanso e tudo o que ele lhe oferece,do que voltar ao primeiro aposento, muito mais depressa a deixar. Seja varo e no dosque se deitavam a beber de bruos, quando iam para a batalha, no me lembro com quem,mas determine-se: vai pelejar com todos os demnios e no h melhores armas do que as daCruz.7. Ainda que de outras vezes tenha dito isto, importa tanto, que o torno a dizer aqui; queno se lembre que h regalos nisto que principia, porque maneira muito baixa de comeara construir to precioso e grande edifcio; e, se comeam sobre areia, daro com tudo emterra; nunca deixaro de andar desgostosos e tentados. Porque no so estas moradas onde 12. chove o man; esto mais adiante, onde tudo sabe ao que uma alma quer, porque no querseno o que Deus quer. coisa muito engraada que ainda estejamos com mil embaraos eimperfeies e as virtudes que ainda no sabem andar, pois s h pouco comearam anascer, e mesmo praza a Deus que estejam comeadas; e no temos vergonha de querergostos na orao e de nos queixarmos de aridez? Nunca isto vos acontea, irms; abraai-vos com a cruz que vosso Esposo tomou sobre Si e entendei que esta deve ser a vossaempresa. A que mais puder padecer, que padea mais por Ele e ser a que melhor se liberta.O resto, como coisa acessria, se vo-lo der o Senhor, dai-Lhe muitas graas.8. Parecer-vos- que, para os trabalhos exteriores, estais bem determinadas, conquanto vosregale Deus no interior. Sua Majestade sabe melhor, o que nos convm; no temos de Lheaconselhar o que nos h de dar, pois pode com razo dizer-nos que no sabemos o quepedimos. Toda a pretenso de quem comea a ter orao (e no vos esquea isto, poisimporta muito) h de ser trabalhar e determinar-se e dispor-se, com quanta diligncia puder,a fazer conformar a sua vontade com a de Deus; e - como direi depois -, estai bem certasque nisto consiste toda a maior perfeio, que se pode alcanar no caminho espiritual.Quem mais perfeitamente tiver isto, mais receber do Senhor e mais adiante estar nestecaminho. No penseis que h aqui muitas algaravias nem coisas no sabidas ecompreendidas: nisto consiste todo o nosso bem. Pois, se erramos no princpio, querendologo que o Senhor faa a nossa vontade e que nos leve como imaginamos, que firmeza podelevar este edifcio? Procuremos fazer o que est em nossa mo e guardemo-nos dassevandijas peonhentas; que muitas vezes quer o Senhor que haja securas e nos persigammaus pensamentos e nos aflijam, sem os podermos afastar de ns, e at algumas vezespermite que nos mordam, para que ns nos saibamos melhor guardar depois e para ver senos pesa muito de O ter ofendido.9. Por isso, no vos desanimeis, se alguma vez cairdes, para deixar de ir por diante; pois,dessa mesma queda, tirar Deus bem, como faz aquele que vende a mezinha que, paraprovar se boa, bebe o veneno primeiro. Se no vssemos em outra coisa a nossa misria eo grande dano que nos faz o andarmos dissipados, s esta luta que se passa para nostornarmos a recolher, bastava. Poder haver maior mal do que no nos acharmos em nossaprpria casa? Que esperana podemos ter de encontrar sossego em outras coisas, se nasprprias no podemos sossegar? Mas to grandes e verdadeiros amigos e parentes, comquem embora no o queiramos, sempre havemos de viver, como so as nossas potncias,parece fazerem-nos guerra, como que sentidas da que lhes fizeram os nossos vcios. Paz,paz, minhas irms, disse o Senhor e admoestou os Seus Apstolos tantas vezes. Pois, crede-me que, se no a temos e no a procuramos em nossa casa, no a acharemos na dosestranhos. Acabe-se j esta guerra; pelo Sangue que Ele derramou por ns o peo eu aosque no comearam a entrar em si; e os que j comearam, que nada seja bastante para osfazer voltar atrs. Olhem que pior a recada que a queda; j vem sua perda; confiem namisericrdia de Deus e nada em si mesmas, e vero como Sua Majestade leva a alma deumas moradas a outras e a mete naquela terra onde estas feras no a podem tocar nemcansar; mas ela as sujeita a todas e faz troa delas, e goza de muitos mais bens do quepoderia desejar, ainda mesmo nesta vida, digo.10. Porque - como disse ao principio -, escrevi como vos haveis de comportar nestasperturbaes que aqui apresenta o demnio, e como comear a recolher-se no h de ir fora de braos, mas sim com suavidade, para que o possais estar mais continuamente, sdirei aqui que, a meu parecer, faz muito ao caso tratar com pessoas experimentadas; porqueem coisas que necessrio fazer, podereis pensar que h grande quebra. Contanto que no 13. se deixe este comeo de recolhimento, tudo guiar o Senhor em nosso proveito, embora noencontremos quem nos ensine; que para este mal de deixar a orao, no h remdio, se nose torna a comear, seno que, pouco a pouco, a alma vai perdendo cada dia mais, e aindapraza a Deus que o entenda.11. Poderia alguma pensar que, se to grande mal voltar atrs, melhor ser nuncacomear, mas antes iscar-se fora do castelo. J vos disse ao princpio,- e o mesmo Senhor odiz que, quem anda no perigo, nele perece e que a porta para entrar neste castelo a orao.Ora, pensar que havemos de entrar no Cu e no entrar em ns, conhecendo-nos econsiderando nossa misria e o que devemos a Deus e pedindo-Lhe muitas vezesmisericrdia, desatino. O mesmo Senhor diz: Ningum subir a meu Pai, seno porMim. No sei se disse assim, creio que sim; e quem Me v a Mim v a Meu Pai. Pois,se nunca olhamos para Ele, nem consideramos o que Lhe devemos e a morte que sofreu porns, no sei como O podemos conhecer nem fazer obras em Seu servio. Porque a f, semelas, e sem irem unidas ao valor dos merecimentos de Jesus Cristo, nosso Bem, que valorpode ter? E quem nos despertar a amar este Senhor?Praza a Sua Majestade nos d a entender o muito que Lhe custamos e como o servo no mais que o Senhor; e que precisamos fazer obras para gozar da Sua glria; para isto necessrio orar para no andar sempre em tentao. 14. TERCEIRAS MORADASCAPTULO 1. Trata da pouca segurana que podemos ter enquanto se vive nestedesterro, ainda que o estado seja elevado. E como convm andar com temor. Contmalguns temas muito bons.1. Aqueles que, pela misericrdia de Deus, venceram estes combates e com perseveranaentraram nas terceiras moradas, que lhes diremos, seno bem-aventurado o varo que temeo Senhor? No foi pouco fazer Sua Majestade com que entenda eu agora, nesta altura, emque costumo ser rude nestes casos, o que quer dizerem vernculo este versculo. Por certo,com razo o chamaremos bem-aventurado, pois, se no volta atrs, ao que podemosentender, leva caminho seguro na sua salvao. Aqui vereis, irms, quanto importa venceras batalhas passadas; pois tenho por certo que nunca deixa o Senhor de o pr em seguranade conscincia, o que no pequeno bem. Digo em segurana, e disse mal, pois no a hnesta vida, e por isso entendei sempre o que digo: se no voltar a deixar o caminhocomeado.2. Muito grande misria viver em vida que sempre temos de andar como quem teminimigos porta, que no pode comer nem dormir sem armas, e sempre em sobressalto,com receio de que, por alguma parte, possam arrombar esta fortaleza. meu Senhor e meuBem! Como quereis que se deseje vida to miservel, se no possvel deixar de querer epedir que nos tireis dela, se no com esperana de perd-la por Vs ou gast-la em Vossoservio, e sobretudo entender que Vossa vontade? Se o , Deus meu, morramos convosco,como disse S. Tom, porque no outra coisa seno morrer muitas vezes o viver sem Vs ecom estes temores de que pode ser possvel perder-Vos para sempre. Por isso digo, filhas,que a bem-aventurana que temos de pedir estar j em segurana com os bem-aventurados; pois com estes temores, que satisfao pode ter aquele que a tem toda emcontentar a Deus? E considerai que esta, e muito maior, tinham alguns santos que caramem graves pecados; e no temos a certeza de que nos dar Deus a mo para sair deles efazer a penitncia que esses fizeram (subentende-se o auxlio particular).3. Certo , minhas filhas, que estou com no pouco temor escrevendo isto, pois no seicomo o escrevo nem como vivo, quando disso me lembro muitas, muitas vezes. Pedi-Lhe,minhas filhas, que Sua Majestade viva sempre em mim; porque, se no for assim, quesegurana pode ter uma vida to mal gasta como a minha? E no vos pese o entender queisto assim, como algumas vezes o tenho visto em vs, quando vo-lo digo, e procede deque quisreis que tivesse sido muito santa e tendes razo; tambm eu o quisera. Mas, quehei de fazer, se o perdi somente por minha culpa?! E no me queixarei de Deus que deixoude me dar bastantes ajudas, para que se cumprissem vossos desejos. No posso dizer istosem lgrimas e grande confuso de ver que escrevo para aquelas que me podem ensinar amim. Dura obedincia tem sido! Praza ao Senhor que, pois se faz por Ele, seja para que vosaproveiteis de alguma coisa e para que Lhe peais que perdoe a esta miservel atrevida.Mas bem sabe Sua Majestade que s posso presumir da Sua misericrdia; e, j que noposso deixar de ser a que tenho sido, no tenho outro remdio, seno acolher-me a ela econfiar nos mritos de Seu Filho e da Virgem, Sua Me, cujo hbito indignamente trago, evs trazeis tambm. Louvai-O, minhas filhas, pois verdadeiramente o sois desta Senhora; eassim no tendes de vos afrontar que eu seja ruim, pois tendes to boa Me. Imitai-A e 15. considerai qual deve ser a grandeza desta Senhora, e o bem de A ter por Padroeira, pois nobastaram meus pecados e ser a que sou, para em nada deslustrar esta sagrada Ordem.4. Mas, duma coisa vos aviso: que nem por ser tal e ter to boa Me, estais seguras, quemuito santo era David, e j vedes o que foi Salomo; nem faais caso do encerramento epenitncia em que viveis, nem vos assegureis por tratardes sempre com Deus e exercitar-vos na orao to continuamente e estardes to retiradas das coisas do mundo e t-las, avosso parecer, aborrecidas. bom tudo isto, mas no basta - como disse para deixarmos detemer; e assim meditai este versculo e trazei-o na memria muitas vezes: Beatus vir, quitimet Dominum.5. J no sei o que dizia, pois distra-me muito e, em me lembrando de mim, quebram-se-me as asas para dizer coisa boa. E assim o quero deixar por agora.Voltando ao que comecei a dizer das almas que entraram nas terceiras moradas, e no lhesfez o Senhor pequena merc, mas sim muito grande em terem vencido as primeirasdificuldades. Destas, pela bondade do Senhor, creio que h muitas no mundo; so muitodesejosas de no ofender a Sua Majestade, e at mesmo dos pecados veniais se guardam, eamigas de fazer penitncia; tm suas horas de recolhimento, gastam bem o tempo,exercitando-se em obras de caridade com os prximos, muito concertadas no falar e vestir egoverno de casa, as que a tm. Decerto que estado para desejar, e parece que nada h paraque se lhes negue a entrada at ltima morada, nem lha negar o Senhor, se elas quiserem.Que bela disposio esta para que lhes faa toda a merc.6. Jesus! e quem dir que no quer um to grande bem, em especial havendo j passadopelo mais trabalhoso? Ningum. Todas dizemos que o queremos; mas, como ainda mistermais para que de todo o Senhor possua a alma, no basta diz-lo, como no bastou aomancebo quando o Senhor lhe perguntou se queria ser perfeito. Desde que comecei a falardestas moradas, trago-o diante de mim; porque somos assim ao p da letra, e o mais normal virem daqui as grandes securas na orao, ainda que tambm haja outras causas; e deixouns trabalhos interiores intolerveis que tm muitas almas boas, e muito sem culpa sua, dosquais sempre o Senhor as tira com muito lucro, e das que tm melancolia e outrasenfermidades. Enfim, em todas as coisas temos de deixar parte os juzos de Deus.Segundo tenho para mim, o mais habitual, o que disse; porque, como estas almas vemque por coisa alguma fariam um pecado, e muitas nem ainda venial deliberado, e quegastam bem sua vida e fazenda, no podem levar pacincia que se lhes cerre a porta parano entrar aonde est o nosso Rei, por cujos vassalos se tm e o so. Mas, c na terra, aindaque tenha muitos vassalos o rei, nem todos entram at sua cmara. Entrai, entrai, filhasminhas, no interior; passai adiante de vossas obrazitas, pois, por serdes crists, deveis tudoisso e muito mais, e vos basta ser vassalas de Deus. No queirais tanto, que vos fiqueis semnada. Vede os santos que entraram na cmara deste Rei e vereis a diferena que h delespara ns. No peais o que no tendes merecido, nem havia de nos vir ao pensamento que,por muito que sirvamos, o havemos de merecer, ns os que temos ofendido a Deus.7. humildade! No sei que tentao me vem neste caso, que no posso acabar de crer aquem tanto caso faz destas securas, seno que um pouco falta dela. Digo que deixo aparteos grandes trabalhos interiores que disse, pois estes so muito mais que falta de devoo.Provemo-nos a ns mesmas, minhas irms, ou antes prove-nos o Senhor, pois bem o sabefazer, embora muitas vezes no o queremos entender, e venhamos a estas almas toconcertadas; vejamos o que fazem por Deus, e logo veremos como no temos razo de nosqueixarmos de Sua Majestade. Porque, se lhe voltamos as costas e nos vamos tristes comoo mancebo do Evangelho, quando nos diz o que havemos de fazer para sermos perfeitos, 16. que quereis que faa Sua Majestade, se Ele h de dar o prmio conforme ao amor que Lhetemos? E este amor, filhas, no h de ser fabricado em nossa imaginao, mas sim provadocom obras; e no penses que olha s nossas obras, seno determinao da nossa vontade.8. Parecer-nos- a ns, que temos hbito de religio, e o tomamos por nossa vontade edeixamos todas as coisas do mundo e o que tnhamos, por amor dEle (ainda que sejam asredes de S. Pedro, pois parece que d muito quem d o que tem), que j est tudo feito.Muito boa disposio se persevera e no se torna a meter nas sevandijas dos primeirosaposentos, embora s com o desejo; pois no h dvida que, se persevera nesta desnudez edesprendimento de tudo, alcanar o que pretende. Mas h de ser com a condio, e vedeque vos aviso disto, que se tenha por servo sem proveito - como disse S. Paulo, ou Cristo, eno creia que obrigou assim a Nosso Senhor a fazer-lhe semelhantes mercs; antes, comoquem mais recebeu, fica mais endividado. Que poderemos fazer por um Deus to generoso,que morreu por ns e nos criou e nos d o ser, que no nos tenhamos por venturosos emque se v descontando alguma coisa do que Lhe devemos pelo que Ele nos tem servido(disse esta palavra de m vontade, mas isto assim, pois no fez outra coisa enquanto viveuno mundo), sem que Lhe peamos de novo mercs e regalos?9. Olhai muito, filhas, a algumas coisas que aqui vo apontadas; ainda que atabalhoadas,porque melhor no as sei declarar. O Senhor vo-lo dar a entender, para que tireis dassecuras humildade e no inquietao, que o que pretende o demnio. E crede que onde hverdadeira humildade, ainda que Deus nunca d regalos, dar uma paz e conformidade comque andareis mais contentes do que outros com regalos. E muitas vezes - como tendes lido -, os d a Divina Majestade aos mais fracos; embora creia que eles no os trocariam pelasfortalezas dos que andam com securas. Somos amigos de contentamentos mais do que decruz. Prova-nos, Tu, Senhor, que sabes a verdade, para que nos conheamos.CAPTULO 2. Prossegue no mesmo e trata das securas na orao e do que poderiasuceder, a seu parecer, e como mister provar-nos e que o Senhor prova aos que estonestas moradas.1. Eu tenho conhecido algumas almas, e creio que posso dizer bastantes, das que chegarama este estado e vivido muitos anos nesta retido e concerto, alma e corpo; ao que se podeentender. E depois disto, quando j parece haviam de estar senhores do mundo, ao menosbem desenganados dele, prova-os Sua Majestade em coisas no muito grandes, e andamcom tanta inquietao e aperto de cotao, que a mim me trazem tonta e at muitotemerosa. Pois, dar-lhes conselho, no remdio porque, como h tanto que tratam devirtudes, parece-lhes que podem ensinar a outros e que lhes sobra razo sentindo aquelascoisas.2. Enfim, eu no achei remdio nem acho para consolar semelhantes pessoas, a no sermostrar grande sentimento da sua pena (e na verdade, tem-se pena de as ver sujeitas a tantamisria), e no contradizer suas razes; porque todas as concertam em seu pensamento, que por Deus que as sentem e assim no vm a entender que imperfeio. E outro enganopara gente to aproveitada. Que o sintam, no de espantar, embora, a meu parecer, haviade passar depressa o sentimento de coisas semelhantes. Porque muitas vezes quer Deus queSeus escolhidos sintam essa misria e aparta um pouco o Seu favor e no preciso maispara que, de verdade, nos conheamos bem depressa. E logo se entende esta maneira de osprovar: para que eles compreendam a sua falta muito claramente; e, s vezes, d-lhes maispena ver que, sem estar na sua mo, sentem as coisas da terra e no muito pesadas, do que 17. daquilo mesmo de que tm pena. Isto tenho-o eu por grande misericrdia de Deus; e aindaque falta, muito vantajosa para a humildade.3. Nas pessoas que digo, no assim, seno que canonizam - como disse - em seuspensamentos estas coisas, e assim quereriam que os outros as canonizassem. Quero dizeralgumas delas, para que nos entendamos e nos provemos a ns mesmas, antes que nosprove o Senhor; pois seria bem grande coisa estarmos apercebidas e termo-nos entendidoprimeiro.4. A uma pessoa rica, sem filhos nem para quem ela queira a fazenda, vem-lhe uma quebrade riqueza; mas no de maneira que, do que lhe fica, lhe possa faltar o necessrio para si epara sua casa, e ainda de sobra. Se esta andasse com tanto desassossego e inquietao comose no lhe ficasse um po para comer, como h de pedir-lhe Nosso Senhor que deixe tudopor Ele? Aqui comea a dizer que o sente, porque o quer para os pobres. Por mim, creioque Deus mais quer que me conforme com o que Sua Majestade faz e, embora procurefaz-la, aquiete a minha alma e no esta caridade. E j que o no faz, por no a ter elevadoo Senhor a tanto, seja muito em boa hora; mas entenda que lhe falta esta liberdade deesprito e com isto se dispor para que o Senhor lha d, porque lha pedir.Tem uma pessoa bem de que comer, e at de sobra; oferece-se-lhe o poder adquirir maisfortuna: tom-la, se lha derem, seja em muito boa hora; mas procur-la, e depois de a ter,procurar mais e mais, tenha to boa inteno que quiser (e deve ter porque, como disse, soestas pessoas de orao e virtuosas), no haja medo que subam s moradas mais perto doRei.5. Deste modo acontece, quando se lhes oferece alguma coisa, pela qual os desprezem oulhes tirem um pouco na honra; pois, embora lhes faa Deus merc de que muitas vezes osofram bem (porque muito amigo de favorecer a virtude em pblico, para que no padeaa mesma virtude em que so tidos; e mesmo ser porque O tm servido, pois muito bomeste nosso Bem), l lhes fica uma tal inquietao, que no se podem valer, nem acaba de seacabar to depressa. Valha-me Deus! No so estes os que, h tanto tempo, consideramcomo padeceu o Senhor e quo bom padecer e at o desejam? Quereriam a todos toconcertados como eles trazem suas vidas, e praza a Deus que no pensem que a pena quetm pela culpa alheia e a faam meritria em seu pensamento.6. Parecer-vos-, irms, que falo fora de propsito e no convosco, pois estas coisas aquino as h, porque nem temos fazenda, nem a queremos, nem a procuramos, nem to poucoalgum nos injuria. Por isso as comparaes no aludem ao que se passa; mas tira-se delasoutras muitas coisas que podem acontecer, as quais no seria bom assinalar, nem h paraqu. Por estas entenderes se estais bem desprendidas do que deixastes porque se oferecemcoisitas, ainda que no bem desta sorte, em que vos podereis muito bem provar e conhecerse estais senhoras das vossas paixes. E crede-me que no est o negcio em ter hbito dereligio ou no, seno em procurar exercitar as virtudes e render a nossa vontade de Deusem tudo e que o concerto da nossa vida seja o que Sua Majestade dela ordenar e noqueiramos que se faa a nossa vontade mas sim a Sua. Se no tivermos chegado at aqui,tenhamos - como disse - humildade, que o unguento para as nossas feridas; porque, se atemos deveras, ainda que tarde algum tempo, vir o cirurgio, que Deus, a sarar-nos.7. As penitncias que fazem estas almas so to concertadas como a sua vida. Querem-namuito para servir a Nosso Senhor com ela, e tudo isto no mau; assim tm grandediscrio em fazer penitncias, para no causar dano sade. No tenhais medo que sematem, porque a sua razo est muito em si; no est ainda o amor para pr de parte arazo. Mas queria eu que a tivssemos para no nos contentarmos com esta maneira de 18. servir a Deus, sempre passo a passo, que nunca acabamos de andar este caminho. E, como anosso parecer sempre andamos e nos cansamos - porque crede que um caminho custoso -,j ser bem bom que no nos percamos. Mas, parece-vos, filhas, que se indo duma terra aoutra pudssemos chegar em oito dias, seria bom andar um ano por ventos, neves, chuvas emaus caminhos? No valeria mais pass-lo de urna vez? Porque tudo isto h e perigos deserpentes. Oh! que bons sinais poderia eu dar disto. E praza a Deus que tenha passadodaqui, que bastantes vezes me parece que no.8. Como vamos com tanto senso, tudo nos ofende, porque tudo tememos; e assim, noousamos passar adiante, como se ns pudssemos chegar a estas moradas e outrosestivessem a caminho. Pois, como isto no possvel, esforcemo-nos, irms minhas, poramor do Senhor; deixemos nossa razo e temores em Suas mos; esqueamos esta fraquezanatural que muito nos pode ocupar. O cuidado destes corpos tenham-no os prelados, e l seavenham; ns tenhamo-lo s de caminhar depressa para ver este Senhor; pois, embora oregalo que possais ter pouco ou nenhum, o cuidado da sade nos poderia enganar, quantomais que no se ter mais por isso, eu o sei. E tambm sei que no est o negcio no quetoca ao corpo, que isto o menos; pois o caminhar que digo, com uma grande humildade;porque, se bem e entendestes, creio estar aqui o mal das que no vo adiante e nos pareaque temos andado poucos passos e assim o julguemos, e os que andam nossas irms nospaream muito pressurosos, e no s desejemos, mas procuremos que nos tenham pela maisruim de todas.9. E, com isto, este estado excelentssimo; e, se assim no , toda a nossa vida estaremosnele e com mil penas e misrias. Porque, como no nos deixamos a ns mesmas, muitotrabalhoso e pesado, porque vamos muito carregadas com esta terra da nossa misria, queno levam os que sobem aos aposentos que faltam. Nestes, no deixa o Senhor de pagarcomo justo, e ainda como misericordioso, pois d sempre muito mais do que merecemos,dando-nos contentamentos muito maiores que os que podemos ter nos regalos e distraesdesta vida. Mas no penso que d muitos gostos, a no ser alguma vez, para nos convidar aver o que se passa nas demais moradas, para que nos disponhamos a entrar nelas.10. Parecer-vos- que contentamentos e gostos tudo o mesmo, para que eu faa estadiferena nos nomes. A mim parece-me que a h e muito grande; bem me posso enganar.Direi o que nisto entender nas quartas moradas que vm depois destas; porque, como se hde declarar algo dos gostos que ali d o Senhor, fica melhor, e ainda que parea semproveito, poder ser de algum, para que, entendendo o que cada coisa, possais; esforar-vos a seguir o melhor; e de muito consolo para as almas que Deus leva at ali, e confusopara quem lhe parece j ter tudo, e, se so; humildes, mover-se-o a dar graas. Se halguma falta disto, dar-lhes- um desgosto interior fora de propsito; pois, no est aperfeio nos gostos, nem no prmio, seno em quem mais ama e em quem melhor operacom justia e verdade.11. Direis: Para que serve tratar destas mercs interiores e dar a entender como so, se isto verdade, como ? Eu no o sei; pergunte-se a quem mo mandou escrever que eu no estouobrigada a discutir com os superiores, mas a obedecer; nem seria bem faz-lo. O que vosposso dizer com verdade, que, quando eu no as tinha, nem ainda sabia por experincia,nem pensava sab-lo em minha vida (e com razo, que grande contentamento fora paramim saber ou por conjecturas entender que agradava a Deus em algum modo), quando liaem livros destas mercs e consolos que faz o Senhor s almas que O servem, isso me davagrandssimo prazer e era motivo para minha alma dar grandes louvores a Deus. Pois, se aminha, com ser to ruim, fazia isto, as que so boas e humildes O louvaro muito mais; e 19. por uma s que O louve uma vez, est muito bem que se diga, a meu parecer, e queentendamos o contentamento e deleites que perdemos por nossa culpa. Quanto mais que, seso de Deus, vm carregados de amor e fortaleza, com que se pode caminhar mais semtrabalho e ir crescendo nas obras e virtudes. No penseis que importa pouco que isto nofalhe da: nossa parte, pois, quando no nossa a falta, justo o Senhor, e Sua Majestadevos dar, por outros caminhos, o que vos tira por este, pelo que Sua Majestade sabe, poisso mui ocultos Seus segredos; pelo menos, ser isso o que mais nos convm, sem dvidanenhuma.12. O que me parece nos faria muito proveito quelas que pela bondade do Senhor estoneste estado (que, como disse, no lhes faz pouca misericrdia, porque esto muito perto deir mais longe), exercitarem-se muito na prontido da obedincia. E mesmo que no sejamreligiosos, seria grande coisa - como o fazem muitas pessoas - ter a quem recorrer para nofazer em nada a sua vontade, que o que habitualmente nos causa dano; e no buscaralgum do seu humor, como dizem, que v sempre com muito tento em tudo, mas sim,procurar quem esteja muito desenganado das coisas do mundo, pois, de grande modo,aproveita tratar com quem j conhece o mundo para nos conhecermos e, porque algumascoisas que nos parecem impossveis vendo-se em outros to possveis e a suavidade comque as levam, anima muito e parece que, com seu vo, nos atrevemos a voar, como fazemos filhos das aves quando os ensinam. Ainda que no dem grande vo, pouco a poucoimitam os seus pais. De grande modo aproveita isto, eu o sei.Por mais determinadas que estejam em no ofender o Senhor, semelhantes pessoasprocedero com acerto, no se metendo em ocasies de O ofender; porque, como estoperto das primeiras moradas, com facilidade podero voltar a elas, porque a sua fortalezano est fundada em terra firme, como os que esto j exercitados em padecer; estesconhecem as tempestades do mundo, e quo pouco tm a temer ou a desejar seuscontentamentos; e seria possvel, com uma grande perseguio, voltarem de novo a eles. Odemnio bem as sabe urdir para lhes fazer mal, e poderia suceder que, indo com bom zelo,querendo impedir pecados alheios, no pudessem resistir ao que a isto sobreviesse.13. Olhemos as nossas faltas e deixemos as alheias, pois muito prprio de pessoas toconcertadas espantarem-se de tudo; e porventura de quem nos espantamos, bem poderamosaprender no principal. Na compostura exterior e na maneira de tratar, levamos-lhevantagem; e no isto o que tem mais importncia, embora seja bom, e nem h para ququerer logo que vo todos pelo nosso caminho, nem pr-se a ensinar o que do espritoquem porventura no sabe o que isso ; pois com estes desejos que Deus nos d, irms, dobem das almas, podemos cometer muitos erros. E assim melhor ater-nos ao que diz anossa Regra: procurar viver sempre em silncio e esperana, que o Senhor ter cuidadode nossas almas. Desde que no nos descuidemos de o suplicar a Sua Majestade, faremosgrande proveito com Seu favor. Seja para sempre bendito. 20. QUARTAS MORADASCAPTULO 1. Trata da diferena que h entre ternuras na orao e gostos, e diz ocontento que lhe deu entender que coisa diferente o pensamento e o entendimento. degrande proveito para quem se recreia muito na orao.1. Para comear a falar das quartas moradas, bem necessrio o que fiz, que foiencomendar-me ao Esprito Santo e suplicar-Lhe que, daqui em diante, fale por mim, paradizer alguma coisa das que ficam por dizer, de maneira que o entendais; porque comeam aser coisas sobrenaturais, e dificultosssimo d-las a entender, se Sua Majestade no o faz,como fez,: h catorze anos, pouco mais ou menos, quando escrevi em outra parte at ondeeu havia entendido. Ainda que me parece que tenho agora um pouco mais de luz destasmercs que o Senhor faz a algumas almas, diferente o sab-las dizer. Faa-o SuaMajestade, se da h de seguir-se algum proveito; e se no, no.2. Como estas moradas j esto mais perto de onde est o Rei, grande a sua formosura eh coisas to delicadas para ver e entender, que o entendimento no capaz de poder acharmaneira de dizer sequer alguma coisa que venha to ajustada, que no fique bem obscurapara os que no tenham experincia; pois, quem a tem, muito bem entender, em especialse j muita.Parecer que, para chegar a estas moradas, se dever ter vivido nas outras muito tempo; eembora o normal seja que se tenha estado na que acabamos de dizer, no regra certa,como tereis ouvido muitas vezes; porque o d o Senhor, quando quer e como quer e a quemquer, como bens Seus, e no faz agravo a ningum.3. Nestas moradas, poucas vezes entram as coisas peonhentas e, se entram, no fazemdano, antes deixam lucro. E tenho por muito melhor quando entram e do guerra nesteestado de orao; porque poderia o demnio enganar, volta dos gostos que Deus d, seno houvesse tentaes, e fazer muito mais dano do que quando as h, e no ganhar tanto aalma, pelo menos apartando todas as coisas que a ho de fazer merecer, e deixando-a numembevecimento habitual. Porque, quando o embevecimento habitual em um ser, no otenho por seguro nem me parece possvel estar assim sempre num mesmo ser o esprito doSenhor neste desterro.4. Pois falando no que disse que diria aqui, da diferena que h entre contentamentos naorao e gostos, contentamentos, me parece a mim, se pode chamar aos que adquirimoscom a nossa meditao e peties a Nosso Senhor, que procedem do nosso natural, aindaque, enfim, ajuda para isso Deus, pois h de se entenderem tudo quanto dissermos que nadapodemos sem Ele; mas nascem da mesma obra virtuosa que fazemos e parece que oganhamos com nosso trabalho, e com razo nos d contentamento o termo-nos empregadoem coisas semelhantes. Mas se o considerarmos bem, os mesmos contentos teremos emmuitas coisas que podem suceder na terra. Assim, numa grande fazenda que de repenteadvm a algum, o ver de sbito uma pessoa que muito amamos ter acertado num negcioimportante ou numa coisa grande, de que todos nos dizem bem; se a alguma pessoa lhedisserem que morreu seu marido ou irmo ou filho e o v chegar vivo. Eu vi derramarlgrimas dum grande contentamento e at mesmo me tem acontecido algumas vezes.Parece-me a mim que, assim como estes contentamentos so naturais, assim nos que nosdo as coisas de Deus; embora de linhagem mais nobre, ainda que aqueles tambm noeram de todo maus. Enfim comeam no que natural em ns e acabam em Deus. 21. Os gostos comeam em Deus e sente-os a natureza, e goza tanto deles como gozam os quedisse e muito mais. Jesus!, e que desejo tenho de saber declarar-me nisto! Porqueentendo, a meu parecer, mui conhecida diferena e no alcana o meu saber o dar-me aentender; faa-o o Senhor.5. Agora me lembro dum versculo que dizemos em Prima, ao fim do ltimo salmo, que aoterminar o versculo diz: Cum dilatasti cor meum. A quem tiver muita experincia, istolhe basta para ver a diferena que vai de um ao outro; a quem no a tiver, preciso mais.Os contentos que dissemos no dilatam o corao, antes habitualmente parece que oapertam um pouco, embora com grande contentamento de ver o que se faz por Deus; masvm umas lgrimas de aflio, que de alguma maneira parece as move a paixo. Eu seipouco destas paixes da alma - que talvez me desse a entender -, mas, como sou muitorude, no sei o que procede da sensualidade e o que procede do nosso natural. Saberiadeclar-lo se, assim como passei por isso, o entendesse. Grande coisa o saber e as letraspara tudo.6. O que tenho de experincia deste estado, digo destes regalos e contentos na meditao, que, se comeava a chorar por causa da Paixo, no podia acabar at que se me quebrava acabea; se o fazia por meus pecados, era o mesmo. Grande merc me fazia Nosso Senhor, eno quero agora examinar qual melhor, se um se outro. Apenas quereria saber dizer adiferena que h entre um e outro. Para estas coisas vo algumas vezes estas lgrimas eestes desejos ajudados do natural e conforme est a disposio; mas enfim, como disse,vm a parar em Deus, ainda que sejam naturais. E so para ter em muito, se houverhumildade, para entender que no se melhor por isso; porque no se pode entender setodos so efeitos do amor; e quando forem, so dados por Deus.Na maior parte tm estas devoes as almas das moradas anteriores, porque andam quasede contnuo com trabalho do entendimento, empregadas em discorrer com o entendimento eem meditao; e vo bem, porque no lhes foi dado mais, ainda que acertariam em ocupar-se um pouco em fazer atos e em louvores de Deus e em se alegrarem da Sua bondade e queseja Quem , e em desejar Sua honra e glria. Isto como puderem, porque desperta muito avontade. E estejam de sobreaviso, quando o Senhor lhes der isto; no o deixem para acabara meditao como se tem por costume.7. Porque me alarguei muito em dizer isto em outras partes, no o direi aqui. S quero queestejais advertidas que, para aproveitar muito neste caminho e subir s moradas quedesejamos, no est a coisa em pensar muito, seno em amar muito; e assim, o que maisvos despertar ao amor, isso deveis fazer. Talvez no saibamos o que amar, e no meespantarei muito; porque no est no maior gosto, mas sim na maior determinao dedesejar contentar a Deus em tudo e procurar, tanto quanto pudermos, no O ofender, erogar-Lhe que v sempre por diante a honra e glria de Seu Filho e o aumento da IgrejaCatlica. Estes so os sinais do amor, e no penseis que consiste em no pensar outra coisa,e que, se vos distras um pouco, vai tudo perdido.8. Eu tenho andado nisto, nesta barafunda do pensamento, bem apertada algumas vezes, ehaver pouco mais de quatro anos que vim a entender, por experincia, que o pensamento(ou imaginao, para que melhor se entenda) no o entendimento. Perguntei-o a umletrado e disse-me que, efetivamente, era assim, o que foi para mim grande contentamento.Por que, como o entendimento uma das potncias da alma, tornava-se-me duro estar eleto volvel, s vezes, pois normalmente voa o pensamento to rpido, que s Deus o podeatar quando assim nos ata, de maneira que parece estarmos de algum modo desatados deste 22. corpo. Eu via, a meu parecer, as potncias da alma empregadas em Deus e estaremrecolhidas com Ele e, por outra parte, o pensamento alvorotado: trazia-me tonta.9. Senhor, tende em conta o muito que passamos neste caminho por falta de saber! E omal que, como no pensamos ser preciso saber mais do que pensarem Vs, nem sabemosperguntar aos que sabem, nem entendemos que haja que perguntar, e passam-se terrveistrabalhos, porque no nos entendemos; e o que no mau, seno bom, pensamos que grande culpa. Daqui procedem as aflies de muita gente que trata de orao e oqueixarem-se de trabalhos interiores, pelo menos grande parte em gente que no tem letras,e vm as melancolias e o perderem a sade e at o deixarem-na de todo, porque noconsideram que h dentro um mundo interior; e assim, como no podemos deter omovimento dos cus, que anda pressa com toda a velocidade, to-pouco podemos deter onosso pensamento, e logo metemos todas as potncias da alma com ele e nos parece queestamos perdidas e mal gasto o tempo em que estamos diante de Deus. E a alma estporventura toda unida a Ele nas moradas muito prximas e o pensamento nos arredores docastelo, padecendo com mil animais ferozes e peonhentos e merecendo com estesofrimento; e assim, nem nos h de perturbar nem o havemos de deixar, que o quepretende o demnio. E, na maior parte, todas as inquietaes e trabalhos vm deste no nosentendermos.10. Ao escrever isto, estou considerando o que se passa na minha cabea, o grande rudoque nela h, como disse ao princpio, pelo que se me tornou quase impossvel poder fazer oque me mandavam escrever. No parece seno que nela esto muitos rios caudalosos e, poroutra parte, que estas guas se despenham; muitos passarinhos e silvos, no nos ouvidos,mas na parte superior da cabea, onde dizem estar a parte superior da alma. E eu estivenisto muito tempo, por me parecer que o grande movimento do esprito para cima subiacom velocidade. Praza a Deus me lembre, nas moradas mais adiante, de dizer a causa disto,pois aqui no fica bem, e no ser muito que o Senhor haja querido dar-me este mal decabea para melhor o entender, porque, com toda esta barafunda que nela vai, no meestorvava a orao nem o que estou dizendo, mas antes a alma est muito inteira em suaquietude e amor e desejos de claro conhecimento.11. Pois, se na parte superior da cabea est a parte superior da alma, como no a perturba?Isso o que no sei, mas sei que verdade o que digo. D pena quando no orao comsuspenso, pois ento, at que passe, no se sente nenhum mal; mas grande mal seria se,por este impedimento, eu deixasse tudo. E assim no bem que nos perturbemos com ospensamentos, nem deles nada se nos d, porque, se vm do demnio, cessar com isto; e se, como , da misria que nos ficou de pecado de Ado, com outras muitas, tenhamospacincia e soframo-lo por amor de Deus, pois tambm estamos sujeitas a comer e dormir,sem nos podermos escusar, o que grande trabalho.12. Reconheamos a nossa misria, e desejemos ir aonde "ningum nos menospreze"; poisalgumas vezes me lembro de ter ouvido isto que dizia a Esposa dos Cantares, everdadeiramente no encontro em toda a vida coisa onde, com mais razo, isto se possadizer; porque todos os menosprezos e trabalhos que pode haver na vida, no me parece quecheguem a estas batalhas interiores. Qualquer desassossego e guerra se pode sofrer.achando paz onde vivemos, - como j disse -; mas, que queiramos vir a descansar dos miltrabalhos que h no mundo, que queira o Senhor preparar-nos o descanso e que em nsmesmas esteja o estorvo, no pode deixar de ser muito penoso e quase insuportvel. Porisso, levai-nos Senhor, aonde no nos menosprezem estas misrias, que parecem algumasvezes estarem a fazer escrnio da alma! 23. Ainda nesta vida a liberta disto o Senhor, quando chegar ltima morada, como diremos,se Deus for servido.13. Nem a todas daro tanta pena estas misrias, nem as acometero, como a mim mefizeram muitos anos por ser to ruim, que parece que eu mesma me queria vingar de mim.E, como coisa to penosa para mim, penso que talvez o seja assim para vs e no faoseno diz-lo de um cabo ao outro, para ver se alguma vez acerto dar-vos a entender como coisa forosa e no vos traga inquietas e aflitas, mas deixemos andar esta taramela domoinho e moamos nossa farinha, no deixando de trabalhar com a vontade e oentendimento.14. H mais e menos neste estorvo, conforme a sade e os tempos. Padea a pobre alma,ainda que no tenha culpa; pois outras teremos pelas quais de razo que tenhamospacincia. E, porque no basta o que lemos e nos aconselham, no faamos caso destespensamentos; para ns, que pouco sabemos, no me parece tempo perdido todo o que gastoem declarar mais e em consolar-vos neste caso; mas, at que o Senhor nos queira dar luz,pouco aproveita. Mas preciso e quer Sua Majestade que tomemos conhecimento eentendamos do que faz a fraca imaginao, o natural, e o demnio, no deitemos a culpa alma.CAPTULO 2. Prossegue no mesmo e declara por uma comparao o que so gostos ecomo se ho de alcanar no os procurando.1. Valha-me Deus! Onde me meti! J tinha esquecido o que tratava, porque os negcios e asade me fazem deix-lo na melhor altura. E, como tenho pouca memria, ir tudodesconcertado por no o poder tornar a ler. E mesmo talvez seja tudo desconcerto quantodigo; ao menos o que sinto.Parece-me que fica dito das consolaes espirituais, como algumas vezes vo envoltos comas nossas paixes, trazem consigo uns alvorotos de soluos, e at ouvi a pessoas que se lhesaperta o peito e mesmo lhes vm movimentos exteriores, a que no podem ir mo; e tala fora, que lhes faz sair sangue do nariz, e coisas assim penosas. Disto no sei dizer nada,porque no passei por isso, mas deve ficar consolao; porque, como digo, tudo vaipararem desejar contentar a Deus e gozar da Sua Majestade.2. Os que eu chamo gostos de Deus - que em outra parte chamei "orao de quietude" somui de outra maneira, como entendereis as que os tendes experimentado, pela misericrdiade Deus. Faamos de conta, para o entender melhor, que vemos duas fontes com doistanques que se enchem de gua, que no acho coisa mais a propsito para declarar algumascoisas de esprito que isto de gua. Como sei pouco, e o engenho no ajuda e sou to amigadeste elemento, tenho olhado para ele com mais advertncia, que para outras coisas; poisem todas as que criou to grande Deus, to sbio, deve haver muitos segredos de que nospodemos aproveitar, e assim fazem os que os entendem, embora eu creia que, em cadacoisinha que Deus criou, h mais do que se entende, ainda que seja uma formiguita.3. Estas dois tanques enchem-se de gua de diferentes maneiras; para uma, vem de maislonge, por muitos aquedutos e artifcios; a outra est feita na mesma nascente da gua e vai-se enchendo sem nenhum rudo. E se o manancial caudaloso como este de que falamos,depois de cheio o tanque, segue um grande arroio; no preciso artifcio; nem mesmo seacaba o edifcio dos aquedutos, que sempre est correndo dali gua.A diferena est em que a gua que vem por aquedutos, a meu parecer, so os contentosque tenho dito que se tiram da meditao; porque os trazemos com os pensamentos, 24. ajudando-nos das criaturas na meditao e cansando o entendimento; e como vem, afinal,com as nossas diligncias, faz rudo quando houver alguma enchente de proveitos que traz alma, como fica dito.4. A esta outra fonte, vem a gua da sua mesma nascente, que Deus; e assim, como equando Sua Majestade quer e servido de fazer alguma merc sobrenatural, Ele produzesta gua com grandssima paz e quietao e suavidade no mui interior de ns mesmos, euno sei at onde, nem como, nem mesmo aquele contento e deleite se sente como os de cno corao - digo no seu princpio, que depois tudo enche -; vai-se derramando esta guapor todas as moradas e potncias, at chegar ao corpo; por isso disse e que comea em Deuse acaba em ns; e certo, como ver quem o tiver experimentado, todo o homem interiorgoza deste gosto e suavidade.5. Estava eu agora vendo - ao escrever isto -, que no versculo que diz: Dilatasti cormeum, disse que se dilatou o corao; e - como digo - no me parece que seja coisa quenasce do corao, mas sim de outra parte ainda mais interior, como uma coisa profunda.Penso que deve ser o centro da alma, como depois entendi e direi no fim, que certo , vejosegredos em ns mesmos que me trazem espantada muitas vezes. E quantos mais devehaver! Senhor meu e Deus meu, que grandes so Vossas grandezas! E andamos por ccomo uns pastorinhos tontos, parecendo-nos que enxergamos alguma coisa de Vs e deveser tanto como nada, pois em ns mesmos h grandes segredos que no entendemos. Digotanto como nada, para o muito, muitssimo que h em Vs; e no porque no sejam muitograndes as grandezas que vemos, mesmo no que podemos alcanar das Vossas obras.6. Voltando ao versculo, o que ele me pode aqui aproveitar, a meu parecer, aqueladilatao; pois parece que, assim que se comea a produzir aquela gua celestial destemanancial que digo, do profundo de ns mesmos, parece que se vai dilatando e alargandotodo o nosso interior e produzindo uns bens que no se podem dizer, nem mesmo a almasabe entender o que aquilo que ali se lhe d. Sente uma fragrncia interior - digamosagora - como se naquela profundidade interior estivesse um braseiro onde se lanassemolorosos perfumes; nem se v o lume nem onde est; mas o calor e o fumo perfumadopenetram toda a alma e at bastantes vezes - como j disse -, participa o corpo. Olhai eentendei-me: nem se sente calor nem se aspira perfume, pois isto coisa mais delicada queestas coisas; apenas para vo-lo dar a entender. E entendam as pessoas que no passarampor isto, que verdade isto passar-se assim e que se entende, e que o entende a alma maisclaramente do que eu o digo agora. No isto coisa que se possa imaginar, porque, pordiligncias que faamos, no o podemos adquirir e nisto mesmo se v no ser do nossometal, seno daquele purssimo ouro da sabedoria divina.Aqui no esto as potncias unidas, a meu parecer, mas embebidas e olhando comoespantadas o que ser aquilo.7. Poder ser que nestas coisas interiores me contradiga um tanto do que tenho dito emoutras partes, No maravilha, porque em quase quinze anos desde que o escrevi, talvezme tenha dado o Senhor mais claridade nestas coisas do que ento entendia e, agora comoento, posso errar em tudo mas no mentir, que, por misericrdia de Deus, antes passariamil mortes. Digo o que entendo.8. A vontade bem me parece que deve estar unida, de certa maneira, com a de Deus; mas,nos efeitos e obras que depois se seguem, que se conhecem estas verdades da orao, poisno h melhor crisol para as provar. bem grande merc de Nosso Senhor, se a conhecequem a recebe, e muito grande se no volta atrs. Logo querereis, minhas filhas, procurarter esta orao, e tendes razo; pois - como disse - a alma no acaba de entender as mercs 25. que ali lhe faz o Senhor e o amor com que a vai achegando mais a Si. De certo est,desejando saber como alcanaremos esta merc. Eu vos direi o que nisto tenho entendido.9. Deixemos o Senhor faz-la quando servido, por Sua Majestade o querer e no por maisnada. Ele sabe o porqu; no nos havemos de meter nisso. Depois de fazermos o mesmoque fazem os das moradas anteriores, humildade, humildade! Por ela se deixa render oSenhor a tudo quanto dEle queremos. E a primeira coisa em que vereis se a tendes, emno pensar que mereceis estas mercs e gostos do Senhor, nem que os haveis de ter emvossa vida. Direis: desta maneira, como se ho de alcanar no os procurando? A istorespondo, no h outra melhor do que esta que vos, disse, e no os procurar pelas razesseguintes: Primeiro, porque a primeira coisa, que para isto mister, amar a Deus seminteresse. Segundo, porque no deixa de ser um pouco de falta de humildade pensar que,por nossos servios miserveis, se h de alcanar coisa to grande. Terceiro, porque averdadeira preparao para isto o desejo de padecer e de imitar ao Senhor e no o tergostos, ns que, enfim, O temos ofendido. Quarto, porque Sua Majestade no est obrigadoa dar-nos gostos, como o est a dar-nos a Glria se guardarmos os Seus mandamentos, pois,sem isto, nos poderemos salvar, e Ele sabe melhor que ns o que nos convm e quem Oama de verdade. Assim coisa certa, eu sei-o, e conheo pessoas que vo, pelo caminho doamor como se deve ir, s para servir a seu Cristo crucificado, que no s no Lhe pedemgostos nem os desejam, mas Lhe suplicam que no lhos d nesta vida. Isto verdade. Aquinta, porque trabalharemos debalde, pois, como no se h de trazer esta gua poraquedutos como a precedente, se o manancial no a quer produzir, pouco aproveita que noscansemos. Quero dizer que, por mais meditao que tenhamos e por mais que nosapoquentemos e tenhamos lgrimas, no por aqui, que esta gua vem. S se d a quemDeus quer e, muitas vezes, quando mais descuidada est a alma.10. Suas somos, irms; faa de ns o que quiser, leve-nos por onde for servido. Creio bemque, a quem de verdade se humilhar e desapegar (digo de verdade, porque no o h de sers em nosso pensamento, que muitas vezes nos engana, seno que estejamos desapegadasde todo), no deixar o Senhor de nos fazer esta merc, e outras muitas que no saberemosdesejar. Seja Ele para sempre bendito. Amm.CAPTULO 3. Trata do que orao de recolhimento. Na maior parte das vezes, a d oSenhor antes da orao acima dita. Diz seus efeitos e os que ficam da orao anterior emque tratou dos gostos que d o Senhor.1. So muitos os efeitos desta orao; apenas direi alguns. Mas direi primeiro outra maneirade orao que comea quase sempre antes desta, e, por t-la dito em outras partes, direipouco. um recolhimento que tambm me parece sobrenatural, porque no estar sescuras nem cerrar os olhos, nem consiste em coisa alguma exterior, posto que, sem oquerer, se faa isto de cerrar os olhos e desejar soledade; e sem artifcio, parece que se vailavrando o edifcio para a orao que fica dita; porque estes sentidos e coisas exterioresparecem ir perdendo de seu direito, para que a alma v cobrando o seu que tinha perdido.2. Dizem que a alma entra dentro de si e outras vezes que "sobe sobre si". Por estalinguagem no saberei eu esclarecer nada, que isto tenho de mau: penso que por aquilo queeu sei dizer de uma coisa o haveis de entender e talvez seja s claro para mim. Faamos deconta que estes sentidos e potncias so, como j disse, a gente deste castelo - acomparao que tomei para saber dizer alguma coisa-, que saram fora e andam com genteestranha, inimiga do bem deste castelo, dias e anos; e que, vendo sua perdio, j se tm 26. vindo acercando dele, embora no cheguem a entrar - porque este costume coisa dura -,mas no so j traidores e andam ao redor. Vendo j o grande Rei que est na morada destecastelo sua boa vontade, por Sua grande misericrdia quer traz-los de novo a Si e, comobom pastor, com um silvo to suave que at quase eles mesmos o no ouvem, faz com queconheam Sua voz e no andem to perdidos, mas voltem sua morada. E tem tanta foraeste silvo do pastor, que desamparam as coisas exteriores em que andavam alheados e semetem no castelo.3. Parece-me que nunca o dei a entender como agora, porque, para buscar a Deus nointerior da alma (onde melhor O encontramos e com mais proveito para ns que nascriaturas, como disse Santo Agostinho que a O achou, depois de O ter procurado emmuitas partes), grande a ajuda quando Deus faz essa merc. E no penseis que isto adquirido pelo entendimento, procurando pensar que tm dentro de si a Deus, nem pelaimaginao, imaginando-O dentro de si. Bom isto, e excelente maneira de meditao,porque se funda sobre esta verdade: o estar Deus dentro de ns mesmos; mas no isto,pois cada um o pode fazer (com o favor do Senhor, bem se entende). Mas o que digo demaneira diferente, e algumas vezes, antes que se comece a pensarem Deus, j esta genteest no castelo, que no sei por onde nem como ouviu o silvo do pastor. E no foi pelosouvidos, que no se ouve nada, mas sente-se notavelmente um recolhimento suave para ointerior, como ver quem passa por isto, que eu no o sei aclarar melhor. Parece-me ter lidoque como um ourio ou tartaruga, quando se escondem em si mesmos; e devia entend-lobem quem o escreveu. Mas estes entram em si quando querem; aqui isto no est no nossoquerer, seno quando Deus nos quer fazer esta merc. Tenho para mim que, quando SuaMajestade a faz, a pessoas que j vo dando de mo s coisas do mundo. No digo queseja pondo-o por obra aqueles que tm estado, que no podem, mas sim pelo desejo, poischama-os particularmente para que estejam atentos s coisas interiores; e assim creio que,se queremos dar lugar a Sua Majestade, Ele no dar s isto a quem j comeou a chamarpara mais.4. Louve-O muito quem reconhecer isto em si, porque muitssimo justo que se entenda amerc, e a ao de graas que se d por ela far com que a alma se disponha para outrasmaiores. E tambm disposio para poder escutar a Deus, como se aconselha em algunslivros, procurar no discorrer, mas estar-se atentos a ver o que o Senhor opera na alma; e, seSua Majestade no comeou a embeber-nos, no posso acabar de entender como se possadeter o pensamento de maneira que no faa mais dano que proveito, ainda que isto tenhasido contenda bem pleiteada entre algumas pessoas espirituais. Eu por mim confesso aminha pouca humildade: nunca me deram razes para que eu me renda ao que dizem. Umme alegou certo livro do santo Frei Pedro de Alcntara - que eu creio que o -, a quem eume renderia, porque sei que o sabia; e lemo-lo e diz o mesmo que eu, ainda que por outraspalavras; g mas entende-se no que disse que h de estar j desperto o amor. Bem pode serque eu me engane, mas vou por estas razes:5. A primeira, que nesta obra de esprito, quem menos pensa e quer fazer, que faz mais.O que devemos fazer pedir como pobres necessitados diante dum rico imperador e logobaixar os olhos e esperar com humildade. Quando por seus secretos caminhos parece queentendemos que nos ouve, ento bom calar, pois nos deixou estar junto dEle e no sermau procurar no trabalhar com o entendimento - se podemos, digo -. Mas, se ainda noentendemos que este Rei nos ouviu e nos v, no havemos de ficar pasmados, e no poucoo fica a alma quando isto procurou; quando se escondem em si mesmos; e devia entend-lobem quem o escreveu. Mas estes entram em si quando querem; aqui isto no est no nosso 27. querer, seno quando Deus nos quer fazer esta merc. Tenho para mim que, quando SuaMajestade a faz, a pessoas que j vo dando de mo s coisas do mundo. No digo queseja pondo-o por obra aqueles que tm estado, que no podem, mas sim pelo desejo, poischama-os particularmente para que estejam atentos s coisas interiores; e assim creio que,se queremos dar lugar a Sua Majestade, Ele no dar s isto a quem j comeou a chamarpara mais.4. Louve-O muito quem reconhecer isto em si, porque muitssimo justo que se entenda amerc, e a ao de graas que se d por ela far com que a alma se disponha para outrasmaiores. E tambm disposio para poder escutar a Deus, como se aconselha em algunslivros, procurar no discorrer, mas estar-se atentos a ver o que o Senhor opera na alma; e, seSua Majestade no comeou a embeber-nos, no posso acabar de entender como se possadeter o pensamento de maneira que no faa mais dano que proveito, ainda que isto tenhasido contenda bem pleiteada entre algumas pessoas espirituais. Eu por mim confesso aminha pouca humildade: nunca me deram razes para que eu me renda ao que dizem. Umme alegou certo livro do santo Frei Pedro de Alcntara - que eu creio que o -, a quem eume renderia, porque sei que o sabia; e lemo-lo e diz o mesmo que eu, ainda que por outraspalavras; g mas entende-se no que disse que h de estar j desperto o amor. Bem pode serque eu me engane, mas vou por estas razes:5. A primeira, que nesta obra de esprito, quem menos pensa e quer fazer, que faz mais.O que devemos fazer pedir como pobres necessitados diante dum rico imperador e logobaixar os olhos e esperar com humildade. Quando por seus secretos caminhos parece queentendemos que nos ouve, ento bom calar, pois nos deixou estar junto dEle e no sermau procurar no trabalhar com o entendimento - se podemos, digo -. Mas, se ainda noentendemos que este Rei nos ouviu e nos v, no havemos de ficar pasmados, e no poucoo fica a alma quando isto procurou; e fica muito mais seca e porventura mais inquieta aimaginao com a fora que se fez para no pensar nada. Mas quer o Senhor que Lhepeamos e consideremos estar em Sua presena, que Ele sabe o que nos convm Eu noposso persuadir-me a recorrer a destrezas humanas em coisas a que Sua Majestade pareceter posto o limite e quis guardar para Si, o que no fez a outras muitas, que podemos fazercom Sua ajuda, tanto de penitncias, como de obras, e de orao, at onde pode nossamisria.6. A segunda razo que estas obras interiores so todas suaves e pacficas, e fazer coisapenosa mais prejudica que aproveita. Chamo coisa penosa a qualquer esforo que sequisesse fazer, como seria o de conter o flego; e no isso o que convm, mas simabandonar-se a alma nas mos de Deus; faa dela o que Ele quiser, com o maiordesprendimento que puder de seu proveito e maior resignao vontade de Deus.A terceira que o mesmo cuidado que se pe em no pensar nada talvez despertar opensamento para pensar muito.A quarta , que o mais substancial e agradvel a Deus que nos lembremos de Sua honra eglria e nos esqueamos de ns mesmos e do nosso proveito, regalo e gosto. Pois, comoestar esquecido de si aquele que est com tanto cuidado, que nem ousa bulir nem sequerdeixa que seu entendimento e desejos se movam a desejar a maior glria de Deus nem sealegrem por aquela que Deus tem? Quando Sua Majestade quer que o entendimento cesse,ocupa-o de outra maneira e d ao conhecimento uma luz to acima da que podemosalcanar, que o faz ficar absorto; e ento, sem saber como, fica muito melhor ensinado doque com todas as nossas diligncias que mais o deitariam a perder. Pois, se Deus nos deu as 28. potncias para que com elas trabalhssemos e tudo tem o seu valor, no h para que t-lasencantadas, mas deix-las fazer seu ofcio, at que Deus as ponha noutro maior.7. O que entendo que mais convm alma a quem o Senhor quis meter nesta morada fazer o que fica dito, e que, sem nenhum esforo nem rudo, procure atalhar o discorrer doentendimento, mas no suspend-lo, nem ao pensamento; mas sim bom que se lembre queest diante de Deus e Quem este Deus. Se aquilo mesmo que sente em si o embeber, tantomelhor; mas no procure entender o que , porque dom feito vontade. Deixe-a gozarsem nenhuma indstria, alm de algumas palavras amorosas porque, embora noprocuremos estar aqui sem pensar em nada, est-se assim muitas vezes, ainda que por muitobreve tempo.8. Mas, - como disse noutra parte -, a causa por que nesta maneira de orao (falo naquelapela qual comecei esta morada, pois meti com esta orao a de recolhimento de que deviater falado primeiro, porque muito menos que a dos gostos de Deus de que falei mas que princpio para chegar a ela; que na de recolhimento no se h de deixar a meditao, nem otrabalho do entendimento) ... nesta fonte manancial, que no vem por alcatruzes, oentendimento se contm ou o faz conter, ao ver que no entende o que quer, e assim andade um lado para outro como tonto que em nada toma assento. Quanto vontade, ela est toassente em seu Deus, que lhe d grande pesar o bulcio do entendimento; e assim, no hque fazer caso dele, pois a far perder muito do que goza, mas deix-lo e deixar-se a si nosbraos do amor que Sua Majestade lhe ensinar o que h de fazer naquele ponto, que quasetudo achar-se indigna de tanto bem e empregar-se em ao de graas.9. Por tratar da orao de recolhimento, deixei os efeitos ou sinais que tm as almas a quemDeus Nosso Senhor d esta orao. Assim, entende-se claramente urna dilatao oualargamento na alma, tal como se a gua, que mana duma fonte, no tivesse para ondecorrer, mas a mesma fonte fosse duma coisa que, quanto mais gua manasse, maior ela sefizesse: assim parece acontecer nesta orao, e outras muitas maravilhas que Deus faz naalma, que a habilita e vai dispondo para que tudo caiba nela. Assim, esta suavidade edilatao interior se v na liberdade que lhe fica para no estar to atada como antes nascoisas do servio de Deus, mas sim com muito mais largueza de esprito. Assim, em no setolher com temor do inferno, porque embora lhe fique maior de ofender a Deus, o temorservil perde-se aqui, fica com grande confiana que O h de gozar. J no tem o temor quecostumava ter de fazer penitncia e de perder a sade; j lhe parece que tudo poder emDeus, tem mais desejos de a fazer que at ali. O temor que costumava ter aos trabalhos jvai mais moderado, porque est mais viva a f e entende que, se os passar por Deus, SuaMajestade lhe dar graa para os sofrer com pacincia; e at mesmo algumas vezes osdeseja, porque fica tambm uma grande vontade de fazer alguma coisa por Deus. Como vaiconhecendo melhor Suas grandezas, tem-se j por mais miservel; como j provou dosgostos de Deus, v que os do mundo so lixo, vai-se apartando deles, pouco a pouco, e mais senhora de si para o fazer. Enfim, em todas as virtudes fica melhorada e no deixarde ir crescendo, se no volta atrs a ofender a Deus, porque ento tudo se perde, por maisque uma alma tenha subido ao cume. To-pouco se deve entender que, por uma vez ou duasque Deus faa esta merc a uma alma, fiquem feitas todas estas que dissemos, se ela novai perseverando em as receber, pois nesta perseverana est todo o nosso bem.10. De uma coisa aviso muito a quem se vir neste estado: que se guarde muito e muito de sepr em ocasio de ofender a Deus; porque aqui no est ainda a alma criada, seno comomenino que comea a mamar; se se aparta do peito de sua me, que se pode esperar deleseno a morte? Eu temo muito que, a quem Deus tiver feito esta merc e se aparta da 29. orao, acontecer assim; no sendo por gravssimo motivo, ou se no voltar logo a ela,porque ir de mal a pior. Eu sei que h muito que temer neste caso, e conheo algumaspessoas que me trazem muito pesarosa e tenho visto o que digo, por se terem apartado deQuem, com tanto amor, se lhes queria dar por Amigo, e o mostrar por obras. E assim avisotanto que se no metam em ocasies, porque muito mais faz o demnio por uma almadestas do que por muitas e muitas a quem o Senhor no fizer estas mercs; pois lhe podemfazer grande dano com o levar outras consigo e fazer porventura grande proveito na Igrejade Deus. E ainda que no haja outra coisa seno ver que Sua Majestade lhes mostra amorparticular, isto basta para que o demnio se desfaa para que se percam; e assim so muitocombatidas e ficam muito mais perdidas do que outras, se se perdem.Vs, irms, estais livres destes perigos, tanto quanto podemos entender. Deus vos livre dasoberba e vanglria; e de que o demnio queira contrafazer estas mercs, conhecer-se-porque no far estes efeitos, mas sim tudo ao revs.11. De um perigo vos quero avisar (ainda que vo-lo disse j noutra parte) em que vi cairpessoas de orao, em especial mulheres, porque, como somos mais fracas, h mais lugarpara o que vou dizer. que algumas, de muita penitncia, orao e viglias e ainda semisto, so fracas de compleio; em tendo algum consolo, sujeita-as o natural; e, comosentem algum contento interior e quebrantamento exterior e uma fraqueza, quando h umsono a que chamam espiritual, que um pouco mais do que fica dito, parece-lhes que igual ao outro e deixam-se embevecer. E, quanto mais a isso se entregam, mais seembevecem, porque se enfraquece mais a natureza e, a seu juzo, lhes parece arroubamento;e chamo-lhe eu pasmaceira, pois no outra coisa seno estar ali perdendo tempo egastando a sade.12. A uma lhe acontecia estar assim oito horas, que nem esto sem sentido nem sentemcoisa alguma de Deus. Com dormir e comer e no fazer tanta penitncia, tirou-se-lhe isto aesta pessoa, porque houve quem a entendesse; que a seu confessor trazia enganado e aoutras pessoas e a si mesma, ainda que ela no queria enganar. Creio bem que o demniofazia alguma diligncia para tirar algum lucro e no comeava a tirar pouco.13. H de se entender que, quando coisa verdadeiramente de Deus, embora hajadecaimento interior e exterior, no o h na alma; antes tem grandes sentimentos ao ver-seto junto de Deus, e tambm no dura tanto, mas sim muito pouco tempo, bem que se tornea embevecer; mas nesta orao, se no fraqueza - como disse -, no chega a tanto quederrube o corpo nem faa nele algum sinal exterior. Por isso, estejam de sobreaviso paraque, quando isto sentirem em si, o digam prelada e distraiam-se quanto puderem, e elafaa com que no tenham tantas horas de orao, seno muito pouco tempo, e procure quedurmam bem e comam at que lhes torne a vir a fora natural, se se perdeu por isto. Se deto fraco natural que no baste isto, creiam-me que no a quer Deus seno para a vida ativa,pois de tudo tem de haver nos mosteiros; ocupem-na em ofcios e sempre se tenha conta emque no tenha muita soledade, porque vir a perder de todo a sade. Grande mortificaoser para ela; o Senhor quer aqui provar o amor que ela Lhe tem, no modo como sofre estaausncia e ser servido de lhe tornar a dar as foras depois de algum tempo e, se no, comorao vocal e com obedecer, ganhar e merecer o que deveria merecer por aqui, ouporventura mais.14. Tambm poderia haver algumas to fracas de cabea e de imaginao, -como euconheci -, que lhes parece ver tudo quanto pensam; muito perigoso. Como talvez se venhaa tratar disto mais adiante, no direi aqui mais nada, pois alonguei-me muito nesta morada,porque nela que creio entram mais almas. E, como tambm entra o natural juntamente 30. com os sobrenatural, o demnio pode fazer mais dano; pois, nas moradas que esto pordizer, no lhe d o Senhor tanto lugar. Seja Ele para sempre louvado, amm. 31. QUINTAS MORADASCAPTULO 1. Comea a tratar como na orao se une a alma com Deus. Diz em que seconhecer no ser engano.1. irms! como vos poderei eu dizer a riqueza e tesouros e deleites que h nas quintasmoradas? Creio ser melhor no dizer nada das que faltam, pois no se h de saber dizer,nem o entendimento o sabe entender, nem as comparaes podem servir para o declarar;porque so muito baixas as coisas da terra para este fim.Enviai do Cu, Senhor meu, a luz para que eu possa dar alguma a estas Vossas servas, poissois servido que gozem algumas delas to habitualmente destes gozos, para que no sejamenganadas, transfigurando-se o demnio em anjo de luz, pois elas empregam todos os seusdesejos em desejar contentar-Vos.2. E ainda que disse "algumas", bem poucas h que no entrem nesta morada que agoradirei. H mais e menos, e por isso digo que so mais as que entram nelas. Em algumascoisas das que direi que h neste aposento, creio bem que so poucas as que entram; mas,embora no seja seno chegar porta, grande a misericrdia que Deus lhes faz; porque,ainda que so muitos os chamados, so poucos os escolhidos. Assim digo agora que,embora todas as que trazemos este hbito sagrado do Carmo somos chamadas orao econtemplao (porque este foi nosso princpio, desta casta vimos, daqueles nossos santosPadres do Monte Carmelo, que em to grande solido e com tanto desprezo do mundobuscavam este tesouro, esta preciosa margarita de que falamos), poucas nos dispomos paraque o Senhor no-la faa encontrar. Porque quanto ao exterior, vamos bem para chegar aoque preciso nas virtudes; mas para chegar aqui, temos muita necessidade, e no nosdescuidar nem pouco nem muito. Por isso, minhas irms, agora pedir ao Senhor, j que dealguma maneira podemos gozar do Cu na terra, que nos d Seu favor para que no falhepor nossa culpa e nos mostre o caminho e d foras na alma para cavar at achar estetesouro escondido, pois verdade que est em ns mesmas, e isto queria eu dar a entender,se o Senhor for servido que o saiba fazer.3. Disse foras na alma, para que entendais que no fazem falta as do corpo a quem DeusNosso Senhor no as d; no impossibilita ningum de adquirir Suas riquezas; contanto quecada um d o que tiver, j se contenta. Bendito seja to grande Deus. Mas olhai, filhas, que,para isto de que tratamos, no quer que vos fiqueis com nada: pouco ou muito, tudo o querpara Si, e conforme ao que entenderdes que tendes dado, ser-vos-o feitas maiores oumenores mercs. No h maior prova para entender se a nossa orao chega ou no unio.No penseis que coisa sonhada, como a orao passada. Digo sonhada, porque assimparece que est a alma como que adormecida, que nem parece que est bem a dormir nemse sente desperta. Aqui, esto todas adormecidas e bem adormecidas s coisas do mundo ea ns mesmas (porque, na verdade, fica-se como sem sentidos durante o pouco tempo quedura, nem se pode pensar, ainda que se queira), aqui no preciso artifcio para suspender opensamento; [4] at o amar - se o faz -, no entende como, nem o que que ama, nem o quequeria; enfim; como quem de todo est morto ao mundo para viver mais em Deus. E assim uma morte saborosa, um arrancar de alma de todas as operaes que pode ter, estando nocorpo; deleitosa porque, ainda que de verdade parea que a alma se aparta dele, paramelhor estar em Deus, e de tal maneira que at no sei se lhe fica vida para respirar (agorao estava pensando e parece-me que no, ao menos se o faz no se entende que o faz), todo o 32. seu entendimento se quereria empregar em entender algo do que sente e, como no chegamsuas foras, fica-se espantado de maneira que, se no se perde de todo, no meneia p nemmo, como se costuma dizer duma pessoa que est to desmaiada, que nos parece morta.Oh! segredos de Deus! No me cansaria de procurar como vo-lo dar a entender, se pensasseacertar em alguma coisa, e assim direi mil desatinos, para se alguma vez atinar, louvemosmuito ao Senhor.5. Disse que no era coisa sonhada, porque na morada que fica dita, at que a experinciaseja muita, fica a alma duvidosa do que foi aquilo: se foi iluso, se estaria sonhando, se foidado por Deus, ou se o demnio se transfigurou em anjo de luz. Fica com mil suspeitas e bem que as tenha; porque - como disse -, at a prpria natureza nos pode enganar alialguma vez; pois, embora no haja tanto lugar para entrarem as coisas peonhentas, umaslagartixas sim, porque so delgadas e por onde quer que seja se metem; e conquanto nofaam dano, em especial se no fazem caso delas - como disse -, porque so pensamentosque procedem da imaginao e do que fica dito, importunam muitas vezes. Aqui, pordelgadas que sejam as lagartixas no podem entrar nesta morada; porque nem himaginao, nem memria nem entendimento que possa impedir este bem. E ousareiafirmar que, se verdadeiramente unio de Deus, no pode entrar o demnio nem fazernenhum dano; porque est Sua Majestade to junto e unido com a essncia da alma, que eleno ousar aproximar-se, nem mesmo deve entender este segredo. E claro; pois, se dizemque no entende o nosso pensamento, menos entenderia coisa to secreta, que Deus nem afia do nosso pensamento. Oh! grande bem, situao onde este maldito no nos faz mal!Assim fica a alma com to grandes lucros, por Deus trabalhar nela sem que ningum Oestorve, nem ns mesmos! Que vos no dar Quem to amigo de dar e pode dar tudo oque quer?6. Parece que vos deixo confusas dizendo se unio de Deus e que h outras unies. E... seas h! Ainda que sejam em coisas vs, quando c se amam muito, tambm os transportar odemnio; mas no da maneira que Deus o faz nem com o deleite e satisfao e paz e gozoda alma. sobre todos os gozos da terra, sobre todos os deleites e sobre todos os contentos,e mais ainda; pois, considerando onde se engendram, nada tm que ver estes contentos comos da terra, que muito diferente seu sentir, como o tereis experimentado. Disse eu umavez que como se fosse nesta grosseria do corpo ou na medula e atinei bem, pois no seicomo diz-lo melhor.7. Parece-me que ainda no vos vejo satisfeitas porque vos parecer que vos podeisenganar, que este interior coisa difcil de examinar; e, ainda que, para quem tenha passadopor isto, basta o que fica dito, porque grande a diferena, quero dar-vos um sinal claro,pelo qual no vos podeis enganar nem duvidar se foi de Deus, que Sua Majestade motrouxe hoje memria, e, a meu parecer, o sinal certo. Sempre em coisas dificultosas,ainda que me parea que entendo e digo a verdade, uso esta linguagem de que me parece;porque, se me enganar, estou bem preparada a acreditar no que disseram os que tm muitasletras. Porque, ainda que no tenham passado por estas coisas, tm um no sei qu, osgrandes letrados, que, como Deus os tem para luz da Sua Igreja, quando uma verdade, d-lhes luz para que as admitam; e se no so dissipados, mas servos de Deus, nunca seespantam de Suas grandezas, pois bem tm entendido que Ele pode muito e muito mais. E,enfim, embora algumas coisas no sejam to declaradas, outras devem achar escritas, poronde vem que estas tambm podem suceder.8. Disto tenho grandssima experincia, e tambm a tenho de uns meios letradosespantadios, que me custaram muito caro. Pelo menos, creio que, quem no crer que Deus 33. pode muito mais e que teve e tem por bem de o comunicar algumas vezes s Suas criaturas,tem bem cerrada a porta para receber tais mercs. Por isso, irms, nunca isto vos acontea,mas crede de Deus muito mais e mais e no ponhais os olhos em se so ruins ou bonsaqueles a quem Deus as faz, pois Sua Majestade o sabe, como vos disse. No temos de nosmeter nisso, seno com simplicidade de corao e humildade servir a Sua Majestade elouv-lO por suas obras e maravilhas.9. Pois, voltando ao sinal que digo ser o verdadeiro, j vedes esta alma a quem Deus feztonta de todo para melhor imprimir nela a verdadeira sabedoria, que nem v, nem ouve,nem entende o tempo em que est assim, que sempre breve, e at muito mais breve lheparece a ela do que deve ser. Fixa-Se Deus a Si mesmo no interior daquela alma de modoque, quando volta a si, de nenhuma maneira pode duvidar que esteve em Deus e Deus nela.Com tanta firmeza lhe fica esta verdade, que, ainda que passem anos sem Deus voltar efazer-lhe aquela merc, nem lhe esquece nem pode duvidar que esteve assim. Isto, semfalar dos efeitos com que fica, dos quais falarei depois; isto o que faz muito ao caso.10. Pois dir-me-eis: como viu e como entendeu isto, se no se v nem se entende? No digoque o viu ento, seno que o v depois claramente; e no porque seja viso, mas sim umacerteza que fica na alma, que s Deus a pode dar. Eu sei duma pessoa que no tinhachegado ao conhecimento que Deus estava em todas as coisas por presena e potncia eessncia e, por uma merc que Deus lhe fez desta sorte, o veio a crer de tal maneira, queembora um meio letrado dos que tenho dito, a quem perguntou o modo como estava Deusem ns (ele sabia to pouco como ela antes de Deus lho dar a entender), lhe disse queestava somente pela graa, ela tinha j to fixa a verdade, que no acreditou e perguntou aoutros que lhe disseram a verdade, com o que se consolou muito.11. No vos haveis de enganar parecendo-vos que esta certeza fica em forma corporal,como o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo est no Santssimo Sacramento, ainda que noO vejamos; porque aqui no fica assim, mas s a Divindade. Pois, se o que no vimos,como nos fica com essa certeza? Isso no o sei eu, so obras Suas; mas sei que digo averdade, e quem no ficar com esta certeza, no diria eu que unio de toda a alma comDeus, seno de alguma potncia, ou outras muitas maneiras de mercs que Deus faz alma.Em todas estas coisas no havemos de buscar razes para ver como foi; pois, se no chegao nosso entendimento a entend-lo, para que nos queremos desvanecer? Basta ver que todo poderoso Quem o faz, pois nada podemos, por mais diligncias que faamos para oalcanar, seno que Deus que o faz, no o queiramos entender.12. Agora me lembro, acerca disto que digo, de nada contribuirmos da nossa parte, do quetendes ouvido que diz a Esposa nos Cantares: Levou-me o Rei adega do vinho oumeteu-me, creio que diz. E no diz que foi ela. E diz tambm que "andava buscando aseu Amado, por uma e outra parte". Esta, entendo eu a adega onde nos quer meter oSenhor, quando quer e como quer; mas, por mais diligncias que faamos, no podemosentrar. Sua Majestade Quem nos h de meter e entrar Ele no centro da nossa alma; e, paramelhor mostrar Suas maravilhas, no quer; que nisto tenhamos mais parte do que a davontade que de todo se Lhe rendeu, nem que se Lhe abra a porta das potncias e dossentidos, pois todos esto adormecidos; mas entrar no centro da alma sem porta alguma,como entrou onde estavam Seus discpulos quando disse: Pax vobis, e saiu do sepulcrosem levantar a pedra. Adiante vereis como Sua Majestade quer que O goze a alma em seumesmo centro, e ainda muito mais do que aqui, na ltima morada. 34. 13. filhas! muito veremos se no quisermos ver mais que a nossa baixeza e misria, eentender que no somos dignas de ser servas de um Senhor to grande, que nem podemosalcanar Suas maravilhas! Seja Ele para sempre louvado, amm.CAPTULO 2. Prossegue no mesmo. Declara a orao de unio por uma comparaodelicada. Diz os efeitos com que fica a alma. muito para ter em conta.1. Parecer-vos- que j est dito tudo o que h a ver nesta morada, mas falta muito, porque -como disse - h mais e menos. Quanto ao que unio, no creio que saberei dizer mais;mas quando a alma a quem Deus faz estas mercs se dispe, h muitas coisas a dizer do queo Senhor opera nelas. Algumas direi e do modo como ela fica. Para melhor o dar aentender, quero aproveitar-me duma comparao que boa para este fim; e tambm paravermos como, embora nesta obra que faz o Senhor no possamos fazer nada, podemos fazermuito, dispondo-nos z para que Sua Majestade nos faa esta merc.2. J tereis ouvido as maravilhas de Deus no modo corno se cria a seda, que s Ele podefazer semelhante inveno, e como, de uma semente, que maneira de pequenos gros depimenta (que eu nunca vi, mas ouvi-o dizer, e assim, se algo for torcido, no minha aculpa), com o calor, em comeando a haver folhas nas amoreiras, comea esta semente aviver; at que haja este mantimento de que se sustenta, est como morta. E com folhas deamoreira se criam, at que, depois de grandes, lhes pem uns ramitos e a, com as boquitas,vo por si mesmas fiando a seda, e fazem uns casulos muito apertados onde se encerram eacabam esta larva, que grande e feia, e sai do mesmo casulo uma borboletazinha branca,muito graciosa. Mas, se isto no se visse e no-lo contassem de outros tempos, quem opoderia crer? E com que razes poderamos concluir que uma coisa to sem razo como uma lagarta ou uma abelha, seja to diligente em trabalhar para nosso proveito e com tantaindstria, e a pobre lagartixa perca a vida na demanda? Para um pouco de meditao bastaisto, irms, ainda que no vos diga mais, pois nisto podeis considerar as maravilhas esabedoria do nosso Deus.Pois, que seria se conhecssemos a propriedade de todas as coisas? De grande proveito ocuparmo-nos em pensar estas grandezas alegrarmo-nos em ser esposas de Rei to sbio epoderoso.3. Tornemos ao que dizia. Ento comea a ter vida esta lagarta quando, com o calor doEsprito Santo, se comea a aproveitar do auxilio geral que Deus nos d a todas, e quandocomea a aproveitar-se dos remdios que deixou na Sua Igreja, assim de como continuarcom as confisses, como tambm com boas leituras e sermes, que so o remdio que podeter uma alma que est morta em seu descuido e pecados e metida em ocasies. Entocomea a viver e vai-se sustentando nisto e em boas meditaes, at estar crescida, que oque a mim me faz ao caso, pois o resto pouco importa.4. Crescida, pois, esta lagarta - que o que fica dito no principio disto que escrevi -,comea a fabricar a seda e a edificar a casa onde h de morrer. Esta casa quereria eu dar aentender aqui, que Cristo. Em qualquer parte me parece ter lido ou ouvido que nossa vidaest escondida em Cristo ou em Deus, o que tudo um, ou que nossa vida Cristo. Queisto seja ou no, pouco faz ao meu propsito.5. Pois vedes aqui, filhas, o que podemos fazer com o favor de Deus: que Sua Majestademesmo seja nossa morada, como o na orao de unio, edificando-a ns mesmas! Pareceque quero dizer que podemos tirar e pr alguma coisa em Deus, pois digo que Ele amorada, e que a podemos fabricar para nos metermos nela. Oh! se o podemos! No tirar ou 35. acrescentar em Deus, mas sim tirar e acrescentar em ns, como fazem estas lagartixas; queno teremos ainda acabado de fazer nisto tudo quanto podemos, quando este trabalhito queno nada, junte Deus com Sua grandeza, e lhe d to grande valor, que o mesmo Senhorseja o prmio desta obra. E assim como foi Ele quem fez quase tudo Sua custa, assimtambm quer juntar nossos trabalhinhos com os grandes trabalhos que padeceu SuaMajestade; e que tudo seja uma s coisa.6. Eia, pois, minhas filhas! demo-nos pressa em fazer este trabalho e a tecer este casulo,despojando-nos do nosso amor prprio e da nossa vontade, deixando de estar presas aqualquer coisa da terra, fazendo obras de penitncia, orao, mortificao, obedincia etudo o mais que sabeis; assim fizssemos como sabemos e somos ensinadas naquilo quehavemos de fazer! Morra, morra este verme tal como o da seda em acabando de fazeraquilo para que foi criado, e vereis como vemos a Deus, e nos vemos to metidas em Suagrandeza como est esta lagartita em seu casulo. Olhai que digo ver a Deus, assim comodeixo dito que Ele se d a sentir nesta maneira de unio.7. Vejamos, pois, o que sucede a esta lagarta, pois para isto que tenho dito tudo o maisquando est nesta orao, bem morta est ao mundo, sai uma borboleta branca. Oh!grandeza de Deus! E como sai daqui uma alma por haver estado um pouquinho metida nagrandeza de Deus e to junta com Ele, que, a meu parecer, nunca chega a meia hora! Euvos digo de verdade, que a mesma alma no se conhece a si mesma, porque a diferena queh de uma lagarta feia para uma borboletazinha branca, a mesma diferena h aqui. Nosabe como pode merecer tanto bem - de onde lhe pde vir, quero dizer, que bem sabe que ono merece -; v-se com um desejo de louvar ao Senhor que queria desfazer-se e morrer porEle mil mortes. Logo comea a ter o de padecer grandes trabalhos, sem poder fazer outracoisa. Os desejos de penitncia grandssimos, o de solido, o de que todos conheam aDeus; e daqui lhe vem uma grande pena de ver que ofendido. E, ainda que na morada quesegue se tratar mais destas coisas em particular, embora o que h nesta morada e na quesegue depois seja quase tudo um, mui diferente a fora dos efeitos; porque - como disse -,se depois que Deus faz chegar uma alma at aqui, ela se esfora a ir por diante, vergrandes coisas.8. Oh! Ver o desassossego desta borboletazinha, apesar de nunca ter estado mais quieta esossegada em sua vida, coisa para louvar a Deus! No sabe onde pousar e tomar assento.Depois de o ter tido tal, tudo, da terra a descontenta, em especial quando so muitas asvezes que Deus lhe d deste vinho; quase de cada vez fica com novos. lucros. J no temem nada as obras que fazia sendo lagarta, que era tecer a pouco e pouco o casulo;nasceram-lhe asas. Como se h de contentar, podendo voar, andando passo a passo? Tudolhe parece pouco de quanto pode fazer por Deus, segundo os seus desejos. No tem pormuito o que passaram os santos, entendendo j por experincia como ajuda o Senhor etransforma uma alma que j no parece ela, nem ainda sua figura. Pois a fraqueza que antesparecia ter para fazer penitncia, j a encontra forte; o apego que tinha aos parentes, amigosou fazenda (que nem lhe bastavam atos, nem determinaes, nem o querer apartar-se, poisantes lhe parecia ento que se achava mais presa), j de maneira que lhe pesa ver-seobrigada quilo que, para no ir contra Deus, preciso fazer. Tudo a cansa, porque provouque o verdadeiro descanso no o podem dar as criaturas.9. Parece que me alongo, e muito mais poderia dizer, e a quem Deus tiver feito esta mercver que fico aqum; e assim no de admirar que esta borboleta busque novo assento,assim como se acha nova e estranha s coisas da terra. Mas, aonde ir a pobrezita? Voltar adonde saiu, no pode, que - como est dito -, no est na nossa mo, por mais que faamos, 36. at que Deus seja servido de nos tornar a fazer esta merc. Oh! Senhor, e que novostrabalhos comeam para esta alma! Quem dissera tal, depois de merc to subida? Enfim,de uma maneira ou de outra, h de haver cruz enquanto vivemos. E quem disser que, depoisque chegou aqui, sempre est com descanso e regalo, diria eu que nunca chegou, e no foiseno algum gosto, se que entrou na morada anterior, e ajudado pela fraqueza natural; eat, talvez, pelo demnio, que lhe d paz para lhe fazer depois muito maior guerra.10. No quero dizer que no tenham paz os que chegam aqui, que atm, e muito grande;porque os mesmos trabalhos so de tanto valor e de to boa raiz, que, embora muitograndes, deles mesmos sai a paz e o contentamento. Do mesmo descontentamento que doas coisas do mundo, nasce um desejo to penoso de sair dele, que, se algum alvio tem, pensar que Deus quer que viva neste desterro; e no basta, porque ainda a alma, com todosos lucros, no est to rendida vontade de Deus, como se ver adiante, conquanto nodeixe de se conformar; mas com um grande sentimento, porque no pode mais, pois maisno lhe foi dado, e com muitas lgrimas. Cada vez que tem orao esta a sua pena, queprocede, talvez em certo modo, da bem grande pena que lhe d o ver que Deus ofendido epouco estimado neste mundo e as muitas almas que se perdem, tanto de hereges, como demouros. Conquanto as que mais a lastimam sejam as dos cristos, pois ainda que v que grande a misericrdia de Deus, e por mal que vivam se podem emendar e salvar, temetodavia que se condenem muitos.11. Oh! grandeza de Deus! Poucos anos antes, e ainda talvez h dias, estava esta alma queno se lembrava seno de si! Quem a meteu em to penosos cuidados? Embora queiramoster sobre isto muitos anos de meditao, to penosamente como o sente agora esta alma,no o poderemos sentir. Mas, valha-me Deus! se muitos dias e anos eu procuro exercitar-me a pensar no grande mal que o ser Deus ofendido e que estes que se condenam sofilhos Seus e irmos meus, e os perigos em que vivemos, e quo bem nos vai sair destamiservel vida, no bastar? Ai no, filhas; pois no a pena que se sente aqui como as dec da terra. Esta bem a poderamos ter com o favor do Senhor, pensando muito nisto; masno chega ao ntimo das entranhas, como aqui, que parece despedaa uma alma e o mi,sem ela o procurar, e ainda s vezes sem o querer. Pois que isto? Donde procede? Eu vo-lo direi.12. No tendes ouvido -pois j o disse aqui de outra vez, embora no a este propsito - daEsposa, que a meteu Deus na adega do vinho, e ordenou nela a caridade?. Pois assim isto: como aquela alma j se entrega em Suas mos, e o grande amor a tem to rendida, nosabe nem quer mais seno que Deus faa dela o que quiser (que jamais far Deus estamerc, penso eu, a no ser alma a quem j toma por muito Sua), e quer que, sem que elaentenda como, saia dali marcada com o Seu selo. Porque verdadeiramente a alma ali nofaz mais do que a cera quando algum lhe imprime o selo, pois a cera no o imprime em simesma; somente est disposta, digo, branda; e ainda, para esta disposio, to-pouco elaque se abranda, mas fica quieta e o consente. Oh! bondade de Deus, que tudo h de ser Vossa custa! S quereis a nossa vontade e que no haja impedimento na cera.13. Pois vede, irms, o que o nosso Deus faz aqui para que esta alma j se conhea por Sua;d-lhe do que tem, que o que teve Seu Filho nesta vida: no nos pode fazer maior merc.Quem, mais do que Ele, devia querer sair desta vida? E assim o disse Sua Majestade naCeia: Com desejo desejei. - Pois como, Senhor, no se Vos ps diante a trabalhosa mortede que haveis de morrer, to penosa e espantosa? - No, porque o grande amor que tenho eo desejo de que se salvem as almas sobrepuja, sem comparao, essas penas; e as 37. grandssimas que padeci e padeo, desde que estou no mundo, so bastantes para ter asoutras em nada, em sua comparao.14. assim que muitas vezes tenho meditado nisto, e sabendo eu o tormento que passa etem passado certa alma que conheo de ver ofender a Nosso Senhor, tormento que lhe toinsofrvel, que muito mais quisera ela morrer que sofr-lo, e pensa, se uma alma com topouqussima caridade, comparada com a de Cristo, que se podia dizer quase nenhuma emcomparao, sentia este tormento to insofrvel, qual no seria o sentimento de NossoSenhor Jesus Cristo, e que vida no deveria Ele passar, pois todas as coisas Lhe erampresentes e estava sempre vendo as grandes ofensas que se faziam a Seu Pai? Sem dvidaalguma, eu creio que foram muito maiores que as da Sua Sacratssima Paixo, porque entoj via o fim destes trabalhos, e com isto, e com o contento de ver o nosso remdio com Suamorte e mostrar o amor que tinha a Seu Pai em padecer tanto por Ele; se moderariam asdores, tal como acontece c na terra aos que, com a fora do amor, fazem grandespenitncias, que quase no as sentem, antes quereriam fazer mais e mais, e tudo lhes parecepouco. Pois, que seria este sentimento em Sua Majestade, vendo-se em to grande ocasiode mostrar a Seu Pai quo perfeitamente cumpria em obedecer-Lhe, e com o amor doprximo? Oh! grande deleite, padecer em fazer a vontade de Deus! Mas, o ver to decontnuo tantas ofensas feitas a Sua Majestade, e tantas almas irem ao inferno, tenho-o porcoisa to dura que, creio, se no fora mais que homem, um dia daquela pena bastava paraacabar muitas vidas, quanto mais uma.CAPTULO 3. Continua a mesma matria. Fala de outra maneira de unio que podealcanar a alma com o favor de Deus e quanto importa para isto o amor do prximo. muito proveitoso.1. Pois voltemos nossa pombinha e vejamos alguma coisa do que Deus d neste estado.Sempre se entende que h de procurar ir adiante no servio de Nosso Senhor e noconhecimento prprio; porque, se no faz mais do que receber esta merc e, como coisa jsegura, se descuida em sua vida e torce o caminho do Cu, que so os Mandamentos,acontecer-lhe- como borboleta que sai do bicho da seda: que deita a semente para que seproduzam outras e ela fica morta para sempre. Digo que deita a semente, porque tenho paramim que Deus quer que uma merc to grande no seja dada debalde; mas, j que a almano se aproveita dela para si, aproveite a outros. Porque, como fica com estes desejos evirtudes todo o tempo em que perdura no bem, faz aproveitar a outras almas e de seu calorlhes comunica calor; e ainda quando o tem j perdido, acontece ficar com essa nsia de queaproveitem outros, e gosta de dar a entender as mercs que Deus faz a quem O ama e serve.2. Eu conheci uma pessoa a quem lhe acontecia assim; que estando muito perdida, gostavade que se aproveitassem outras com as mercs que Deus lhe tinha feito e mostrar o caminhode orao s que no o entendiam, e fez-lhes muito e muito proveito. Depois voltou oSenhor a dar luz. Verdade que ainda no tinha os efeitos que ficam ditos. Mas, quantosdeve haver, que os chama o Senhor ao apostolado, como a Judas, comunicando com eles, eos chama para os fazer reis, como a Saul e depois, por sua culpa se perdem! Dondetiraremos, irms, que, para ir merecendo mais e mais e no nos perdermos como estes, asegurana que podemos ter a obedincia e no se desviar da lei de Deus; digo, aqueles aquem Ele fizer semelhantes mercs, e mesmo a todos.3. Parece-me que fica um tanto obscuro, apesar de tudo quanto tenho dito desta morada.Pois h tanto lucro em entrar nela, bom ser que no parea ficarem sem esperana aqueles 38. a quem o Senhor no d coisas to sobrenaturais; pois a verdadeira unio se pode muitobem alcanar, com o favor de Nosso Senhor, se ns nos esforamos em procur-la, notendo a vontade seno atada com o que for a vontade de Deus. Oh! Quantos haver quedigamos isto e nos parea que no queremos outra coisa e morreramos por esta verdade,como creio j ter dito! Pois, eu vos digo e di-lo-ei muitas vezes, que, quando assim for,haveis alcanado esta merc do Senhor e nada se vos d desta outra unio regalada que ficadita; pois o que h de maior preo nela, o proceder desta que agora digo; nem tenhaispena por no poder chegar que fica dita, se no muito certa a unio da nossa vontadeestar resignada na de Deus. Oh! que unio esta para desejar! Venturosa a alma que a tiveralcanado, pois viver nesta vida com descanso e na outra tambm; porque nenhuma coisados sucessos da terra a afligir, a no ser que se veja em algum perigo de perder a Deus ouver que Ele ofendido: nem enfermidade, nem pobreza, nem mortes, a no ser de quem hde fazer falta na Igreja de Deus, pois bem v esta alma que Ele sabe melhor o que faz, doque ela o deseja.4. Deveis notar que h penas e penas; porque h algumas penas produzidas de sbito pelanatureza, e do mesmo modo os contentamentos, e at da caridade apiedando-se dosprximos, como fez Nosso Senhor quando ressuscitou a Lzaro; e estas no impedem aunio com a vontade de Deus, nem to-pouco perturbam a alma com uma paixo inquieta,desassossegada, que dura muito. Estas penas passam depressa; pois, como disse dos gozosna orao, parece que no chegam ao fundo da alma, seno a estes sentidos e potncias.Andam por estas moradas anteriores, mas no entram na que est por dizer em ltimo lugar,pois, para isto preciso o que fica dito A da suspenso das potncias. Poderoso o Senhorpara enriquecer as almas por muitos caminhos e traz-las a estas moradas, e sem ser peloatalho que fica dito.5. Mas adverti bem nisto, filhas: necessrio que morra a lagarta, e mais vossa custa;porque ali ajuda muito para morrer o ver-se em vida to nova; aqui mister que, vivendonesta, a matemos ns mesmas. Eu vos confesso que ser com muito mais trabalho, mastem-se o seu preo, e assim ser maior o galardo, se sairdes com vitria; quanto a serpossvel, no h que duvidar, logo que haja unio verdadeira com a vontade de Deus.Esta a unio que toda a minha vida tenho desejado; esta a que peo sempre a NossoSenhor e a mais clara e segura.6. Mas, ai de ns, que poucos devemos chegar a ela!, embora quem se guarda de ofender aoSenhor e entrou em religio lhe parea que tudo est feito. Oh! ainda ficam umas lagartasque no se do a conhecer, at que, como a que roeu a hera de Jonas, nos roam as virtudescom um amor prprio, uma prpria estimao, um julgar os prximos, embora seja empoucas coisas, uma falta de caridade com eles no lhes querendo como a ns mesmos:ainda que, arrastando-nos, cumprimos com a obrigao, para no ser pecado, no chegamosnem de longe ao que deve ser para estarmos de todo unidas com a vontade de Deus.7. O que pensais, filhas, que a Sua vontade? Que sejamos perfeitas, para sermos um comEle e com o Pai, como Sua Majestade o pediu. Olhai quanto nos falta para chegarmos aisto! Digo-vos que estou escrevendo isto com grande pena de me ver to longe e tudo porminha culpa. E no preciso o Senhor fazer-nos grandes regalos para isso; basta o que nosdeu, dando-nos o Seu Filho, para nos ensinar o caminho. No penseis que est a coisa emque, se morre meu pai ou irmo, eu me conforme tanto com a vontade de Deus que o nosinta; e se me vierem trabalhos e enfermidades, sofr-los com contentamento. Bom , e svezes consiste em discrio, Iporque mais no podemos e fazemos da necessidade virtude.Quantas coisas destas faziam os filsofos, ou ainda que no seja destas, outras, por terem 39. muito saber! Aqui, s estas duas nos pede o Senhor: amor de Sua Majestade e do prximo; no que temos de trabalhar. Guardando-as com perfeio, fazemos a Sua vontade, e assimestaremos unidas com Ele. Mas, quo longe estamos de fazer como devemos a to grandeDeus estas duas coisas, como disse! Praza a Sua Majestade nos d graa, para quemereamos chegar a este estado, que em nossa mo est, se quisermos.8. O sinal mais certo que h, a meu parecer, para ver se guardamos estas duas coisas, guardar bem a do amor ao prximo; porque, se amamos a Deus no se pode saber, emborahaja grandes indcios para entender que O amamos, mas o amor do prximo, sim. E estaicertas que, quanto mais neste vos virdes aproveitadas, mais o estais no amor de Deus;porque to grande o que Sua Majestade nos tem, que em paga do que temos ao prximo,far crescer o que temos a Sua Majestade por mil maneiras. Disto no posso eu duvidar.9. Importa-nos muito andar com grande advertncia, vendo como andamos nisto, que, se com muita perfeio, temos tudo feito; porque eu creio que, segundo mau o nosso natural,no chegaremos a ter com perfeio o amor do prximo, se no nascer de raiz do amor deDeus. Pois tanto nos importa isto, irms, procuremos ir entendendo como vamos nesteponto, mesmo em coisas pequenas, no fazendo caso de umas muito grandes, que assim porjunto nos vm na orao, parecendo-nos que faremos e aconteceremos por amor dosprximos e por uma s alma que se salve; porque, se as obras no correspondem, no decrer que o faremos. Assim digo tambm da humildade e de todas as virtudes. So grandesos ardis do demnio que, para nos fazer crer que temos alguma, no a tendo, dar mil voltasao inferno. E tem razo, porque far muito dano, pois estas virtudes fingidas nunca vmsem alguma vanglria, como so de tal raiz; assim como as que Deus d, esto livres dela ede soberba.10. Eu gosto, algumas vezes, de ver umas almas que, quando esto em orao, lhes pareceque quereriam ser abatidas e publicamente afrontadas por Deus, e depois encobririam umafalta pequena, se pudessem, ou, se no a fizeram, lha atribuem; Deus nos livre! Pois vejabem quem isto no sofre, para no fazer caso do que a ss determinou a seu parecer; que deverdade no foi determinao de vontade, pois quando esta verdadeira, outra coisa; massim alguma imaginao, pois nesta faz o demnio seus assaltos e enganos; e a mulheres, ougente sem letras, poder fazer muitos, porque no sabemos entender as diferenas entre aspotncias e a imaginao e outras mil coisas que h interiores. irms, como se vclaramente onde est deveras o amor do prximo, em algumas de vs, e naquelas em queno est com esta perfeio! Se entendsseis o que nos importa esta virtude, no fareisoutro estudo.11. Quando vejo algumas muito diligentes em entender a orao que tm e muitoencapotadas quando esto nela, que parece no ousam bulir nem menear o pensamento,para que no se lhes v um pouquito do gosto e devoo que tiveram, faz-me ver quopouco entendem do caminho por onde se alcana a unio. E pensam que ali est todo onegcio. Mas no, irms, no; obras quer o Senhor; e, se vs uma enferma a quem podesdar algum alvio, no se te d nada de perder essa devoo e te compadeas dela; e se temalguma dor, te doa a ti tambm; e se for preciso, jejua, para que ela coma, no tanto por ela,mas porque sabes que teu Senhor quer isso. Esta a verdadeira unio com Sua vontade; ese vires louvar muito a uma pessoa, te alegres muito mais do que se te louvassem a ti. Isto,na verdade, fcil ; pois se h humildade, antes ter pena de se ver louvada. E esta alegriapor se conhecerem as virtudes das irms grande coisa, e quando virmos alguma falta emalguma, senti-la como se fosse em ns e encobri-la. 40. 12. Muito disse noutras partes sobre isto, porque vejo, irms, que, se nisto houver quebra,estamos perdidas. Praza ao Senhor nunca a haja; logo que assim seja, eu vos digo que nodeixareis de alcanar de Sua Majestade a unio que fica dita. Quanto vos virdes carecidasnisto, ainda que tenhais devoo e regalos e alguma suspensozita na orao de quietude, evos parea que j haveis chegado (que a algumas logo lhes parecer que est tudo feito),crede-me que no chegastes unio e pedi a Nosso Senhor que vos d com perfeio esteamor do prximo e deixai fazer a Sua Majestade, que Ele vos dar mais do que sabeisdesejar, desde que vos esforceis e procureis isto em tudo o que puderdes; e forar vossavontade para que se faa em tudo a das irms, embora percais do vosso direito, ou esquecero vosso bem pelo delas, por mais contradies que vos faa o vosso natural; e procurartomar para vs o trabalho para o tirar ao prximo, quando se oferecer. No penseis que istono vos h de custar e que o haveis de achar j feito. Olhai o que custou a nosso Esposo oamor que nos teve: para nos livrar da morte, a padeceu to penosa como a morte na Cruz.CAPTULO 4. Prossegue o mesmo, declarando mais esta maneira de orao. Diz o muitoque importa andar de sobreaviso, pois o demnio anda bem avisado para fazer voltaratrs no caminho comeado.1. Parece-me que estais com o desejo de ver o que faz esta pombinha e onde pousa, poisfica entendido que no em gostos espirituais, nem em contentos da terra; mais alto o seuvo. E no vos posso satisfazer este desejo at ltima morada e praza a Deus me lembreou tenha ocasio de o escrever; porque j passaram quase cinco meses desde que comeceiat agora; e, como a cabea no est para o tornar a ler, tudo deve ir desconcertado, e talvezdiga algumas coisas duas vezes. Como para minhas irms, pouco vai nisso.2. Todavia quero declarar-vos melhor o que me parece que esta orao de unio.Conforme ao meu engenho, farei uma comparao. Depois, diremos ainda mais destaborboletazinha, que no pra (ainda que sempre frutifica fazendo bem a si e a outrasalmas), porque no acha o seu verdadeiro repouso.3. J tereis ouvido dizer muitas vezes que se desposa Deus com as almas espiritualmente.Bendita seja Sua misericrdia que tanto se quer humilhar! E ainda que seja comparaogrosseira, eu no acho outra que melhor possa dar a entender o que pretendo, que osacramento do matrimnio. Conquanto seja de diferente maneira, porque nisto que tratamosjamais h coisa que no seja espiritual (e o que corpreo fica muito aqum, e os contentosespirituais que d o Senhor, comparados com os gostos que devem ter os que se desposam,vo mil lguas de uns a outros), porque tudo amor com amor, e suas operaeslimpidssimas e to delicadas e suaves, que no h palavras para as dizer; mas sabe oSenhor d-las muito bem a sentir.4. Parece-me a mim que esta unio ainda no chega a desposrio espiritual; mas, tal comoaqui no mundo, quando dois se ho de desposar, trata-se de saber se so conformes e queum e outro o queiram, e at que se vejam, para que mais se satisfaam um do outro, assimaqui. Pressupondo que o contrato est j feito e esta alma muito bem informada, quo bemlhe vai e determinada a fazer em tudo a vontade de seu Esposo, de tantas quantas maneirasela vir que Lhe dar gosto, e Sua Majestade, como quem bem entende se de fato assim,est contente com ela, e faz-lhe esta misericrdia de querer que O conhea melhor e que -como dizem -, venham fala, e a junta consigo. Podemos dizer que isto assim, porqueassim se passa, ainda que em brevssimo tempo. Ali j no h dar e tomar, mas sim o ver aalma, de uma maneira secreta, quem Este a quem h de tomar por Esposo; porque, pelos 41. sentidos e potncias, de nenhuma maneira poderia entenderem mil anos o que entende aquiem brevssimo tempo. Mas, como tal o Esposo, s com aquela vista a deixa mais digna deque se venham a dar as mos, como dizem; porque fica a alma to enamorada, que faz dasua parte o que pode para que no se desconcerte este divino desposrio. Mas, se esta almase descuida e coloca sua afeio em coisa que no seja Ele, perder tudo; e tograndssima a perda, como o so s mercs que Ele vai fazendo, e muito maior do que sepode encarecer.5. Por isso, almas crists, aquelas a quem o Senhor fez chegar a estes termos, por amordEle vos peo que no vos descuideis, mas que vos aparteis das ocasies, que ainda mesmoneste estado no est a alma to, forte que se possa meter nelas, como o est depois de feitoo desposrio,. que na morada que diremos aps esta. Porque, a comunicao no foi maisdo que uma vista de olhos, - como dizem -, e o demnio andar com grande cuidado acombat-la e a desviar este desposrio. Depois, como j a v de todo rendida ao Esposo,no ousa tanto, porque lhe tem medo, e tem experincia que, se alguma vez o faz, fica elecom grande perda e ela com maior lucro.6. Eu vos digo, filhas, que tenho conhecido pessoas muito alevantadas e chegarem a esteestado e o demnio, com a sua grande subtileza e ardil, as tornar a ganhar para si. Devejuntar-se todo o inferno para isso, pois, como digo muitas vezes, no perdem s a umaalma, mas uma grande multido. J ele tem experincia neste caso; porque, se olharmos multido de almas que Deus traz a Si por meio de uma, para Loa muito pelos milharesque convertiam os mrtires, por exemplo uma donzela como Santa rsula! Pois, quantastero sido arrancadas ao demnio por S. Domingos e S. Francisco e outros fundadores deOrdens, e perde agora por causa do padre Incio, o que fundou a Companhia! que todos,est claro, segundo lemos, recebiam mercs semelhantes de Deus! Que foi isto, seno quese esforaram em no perder, por sua culpa, to divino desposrio? Oh! minhas filhas!, queto disposto est este Senhor a fazer-nos mercs agora como ento, e at em parte maisnecessitado de que as queiramos receber, porque h poucos que olhem por Sua honra, comoento havia. Queremo-nos muito; h muita prudncia para no perder nada dos nossosdireitos. Oh! que engano to grande! O Senhor nos ilumine para no cairmos emsemelhantes trevas, por Sua misericrdia.7. Podereis perguntar-me ou estar em dvida sobre duas coisas: A primeira, se a alma estto unida com a vontade de Deus, como fica dito, como se pode enganar, pois ela em nadaquer fazer a sua vontade? A segunda, por que vias pode entrar o demnio toperigosamente, que se perca vossa alma, estando to apartadas do mundo e to chegadasaos sacramentos e em companhia - podemos dizer - de anjos? Pois, pela bondade doSenhor, todas elas no trazem outros desejos seno de O servir e de Lhe agradarem tudo;que, para os que esto metidos nas ocasies do mundo, j no muito de admirar que sepercam. Eu digo que nisto tendes razo, pois grande misericrdia nos fez Deus; mas,quando vejo - como j disse - que estava Judas em companhia dos Apstolos, e tratandosempre com o mesmo Deus, e ouvindo Suas palavras, entendo que nisto no h segurana.Respondendo ao primeiro, digo que, se esta alma estivesse sempre unida vontade deDeus, est claro que no se perderia; mas vem o demnio com umas subtilezas grandes, edebaixo da cor do bem vai-a apartando da vontade divina em coisitas de nada e metendo-aem algumas que ele lhe faz entender que no so ms e, pouco a pouco, vai-lheobscurecendo o entendimento e entibiando a vontade e fazendo crescer nela o amor prprio,at que, de uma em outra coisa, a vai apartando da vontade de Deus e chegando-a sua. 42. Com isto fica respondido ao segundo; porque no h encerramento to encerrado aonde eleno possa entrar, nem deserto to apartado aonde deixe de ir. E ainda outra coisa vos digo,que talvez o permita o Senhor para ver como se porta aquela alma a quem escolheu paraque seja luz de outras, que, se h de ser ruim, mais vale que o seja nos princpios do quedepois, quando possa causar dano a muitas.9. Depois de pedir sempre a Deus na orao que nos tenha de Sua mo e pensarmos muitode contnuo que, se Ele nos deixa, cairemos logo no abismo, como verdade, e nuncaestarmos confiadas em ns mesmas, pois seria desatino, a diligncia que a mim se meoferece por mais certa andar com particular cuidado e ateno, olhando como vamos nasvirtudes: se vamos melhorando ou diminuindo em alguma delas, em especial no amor deumas para com as outras e no desejo de sermos tidas cada uma pela menor, e em coisasnormais. Se olhamos bem a isso e pedimos ao Senhor que nos ilumine, logo veremos olucro ou a perda. E no penseis que a alma, a quem Deus fez chegar a tanto, Ele a deixe todepressa de Sua mo, que o demnio no tenha muito a trabalhar; e Sua Majestade sentetanto que ela se Lhe venha a perder, que lhe d mil avisos interiores de muitas maneiras;assim ela no poder esconder o dano a si prpria.10. Enfim, seja a concluso disto: que procuremos ir sempre adiante. Se no h isto,andemos com grande temor porque, sem dvida, algum assalto nos quer fazer o demnio;pois no possvel que, tendo chegado a tanto, deixe de ir crescendo, porque o amor jamaisest ocioso e assim ser muito mau sinal o no ir adiante. Uma alma que pretendeu seresposa do prprio Deus, e tem tratado j com Sua Majestade, e chegou ao termo que ficadito, no se h de deitar a dormir. E para que vejais, filhas, o que Ele faz com as que j tempor esposas, comecemos a tratar das sextas moradas, e vereis como pouco tudo em quepoderemos servir e padecer e fazer para nos dispormos a to grandes mercs. E poder serque Nosso Senhor tenha ordenado que mo mandassem escrever para que, postos os olhosno prmio e vendo quo sem medida Sua misericrdia, pois com uns vermes assim sequer comunicar e mostrar, esqueamos nossos contentozinhos da terra e, postos os olhosem Sua grandeza, corramos inflamadas em Seu amor.11. Praza a Deus que eu acerte a declarar um pouco de coisas to dificultosas; porque, seSua Majestade e o Esprito Santo no moverem a minha pena, bem sei que ser impossvel.E se no h de ser para vosso proveito, suplico-Lhe que no acerte a dizer nada; pois sabeSua Majestade que no outro o meu desejo, tanto quanto posso entender de mim mesma,seno que seja louvado Seu nome, e que nos esforcemos a servir a um Senhor que assimpaga ainda c na terra. Por aqui podemos entender alguma coisa do que nos h de dar noCu, sem os intervalos, trabalhos e perigos que h neste mar de tempestades. Porque, se nofora o perigo de O perder e ofender, seria um descanso que no se acabasse a vida at aofim do mundo, a fim de trabalhar por to grande Deus e Senhor e Esposo. Praza a SuaMajestade mereamos fazer-Lhe algum servio sem tantas faltas como sempre temos, aindamesmo nas obras boas, amm. 43. SEXTAS MORADASCAPTULO 1. Trata de como, em comeando o Senhor afazer maiores mercs, hmaiores trabalhos. Diz alguns e como se comportam neles os que esto nesta morada. bom para quem tem trabalhos interiores.1. Venhamos, pois, com o favor do Esprito Santo, a falar das sextas moradas, onde a almaj fica ferida do amor do Esposo e procura mais ocasies para estar a ss e deixar tudoquanto pode, conforme a seu estado, e a pode estorvar nesta soledade.Est to esculpida na alma aquela vista, que todo o seu desejo torn-la a gozar. J disseque, nesta orao, no se v nada, que se possa dizer ver, nem com a imaginao; digovista, pela comparao que usei. A alma j est bem determinada a no tomar outro esposo;mas o Esposo no, olha aos grandes desejos que ela tem de que se faam j os desposrios,pois ainda quer que o deseje mais e lhe custe alguma coisa um bem que o, maior dosbens. E, embora tudo seja pouco para to grandssimo lucro digo-vos desde j, filhas, queno deixa de ser necessria aquela amostra e sinal que j se tem dele, para se poder levaresse trabalho. Oh! valha-me. Deus! e quantos no so os trabalhos interiores e exterioresque padece at entrar nas stimas moradas!2. Certo que penso nisto algumas vezes e temo que, se o entendessem antes, seriadificultosssimo determinar-se a fraqueza natural para o poder sofrer, nem se resolvesse apassar por isso, por maiores bens que se lhe representassem, salvo se tivesse chegado stima morada; pois a j nada se teme que seja de molde a impedir a alma de se arrojardeveras a sofrer tudo por Deus. E a causa porque est quase sempre to junto a SuaMajestade, que da lhe vem a fortaleza. Creio que ser bom contar-vos alguns dos trabalhosque eu sei passarem-se com certeza. Nem todas as almas sero, talvez, levadas por estecaminho, ainda que duvido que vivam livres de trabalhos c da terra, de uma maneira oudoutra, as almas que, de tempos a tempos, gozam to deveras de coisas do cu.3. Embora eu por mim no tivesse em vista tratar disto, pensei que a alguma alma, que seveja nestes trabalhos, lhe ser grande consolo saber o que se passa nas almas a quem Deusfaz semelhantes mercs, porque ento parece verdadeiramente estar tudo perdido. No oslevarei pela ordem como sucedem, mas sim como se me oferecerem memria. E querocomear pelos mais pequenos, que uma gritaria das pessoas com quem se trata, e atmesmo daquelas com quem no se trata, e que nunca na vida pareceu que se podiam vir alembrar dela: que se faz santa, que faz extremos para enganar o mundo, e para fazer aosoutros ruins, que so melhores cristos sem essas cerimnias. E deve-se notar que no haqui cerimnia nenhuma, a no ser procurar guardar bem o seu estado. Os que tinha poramigos, apartam-se dela e so os que lhe do pior bocado, e so dos que muito se sentem:que anda perdida aquela alma dizem, e notavelmente enganada; que so coisas dedemnio, que h de ser como aquela e aquela outra pessoa que se perdeu, e ocasio deque decaia a virtude; que traz enganados os confessores, e vo ter com eles a dizer-lho,trazendo-lhes exemplos do que acontece a alguns que por aqui se perdem; mil maneiras demofas e ditos deste teor.4. Sei duma pessoa que teve muito medo de no haver quem a confessasse, segundoandavam as coisas; mas, por serem muitas, no h para que deter-me. E o pior nopassarem depressa, mas ser toda a vida, e o avisarem-se uns aos outros que se guardem detratar com pessoas semelhantes. 44. Dir-me-eis que tambm h quem diga bem. Oh! Filhas, e como so poucos os queacreditam nesse bem, em comparao dos muitos que abominam isso! Tanto mais que esse outro trabalho maior que os ditos! Porque, como a alma v claramente que, se tem algumbem, dado por Deus e no seu de maneira nenhuma, pois pouco antes se viu muito pobree metida em grandes pecados, -lhe isto um tormento intolervel, pelo menos ao princpio;que depois no tanto, por algumas razes. A primeira, porque a experincia lhe faz verclaramente que to depressa dizem bem como mal, e assim no faz mais caso de uma coisaque de outra. A segunda, porque o Senhor lhe tem dado maior entendimento para ver quenenhuma coisa boa sua, mas dada por Sua Majestade; e assim, como se a visse emterceira pessoa, esquecida de que tem a alguma parte, volve-se a Deus para O louvar. Aterceira, se j tem visto algumas almas aproveitadas por verem as mercs que Deus lhe faz,pensa que Sua Majestade tomou este meio de a terem por boa, no o sendo, para que, a elas,lhes adviesse bem. A quarta, porque, como tem diante de si a honra e a glria de Deus maisde que a sua, j no lhe vem uma tentao que d nos princpios, de que esses louvores hode servir para a sua runa, como tem visto em algumas, e pouco se lhe d de serdesacreditada, a troco de que, sequer uma vez, seja Deus louvado, por seu intermdio;venha depois o que vier!5. Estas razes e outras aplacam a muita pena que do estes louvores, embora, quasesempre, se sinta alguma; a no ser quando no se adverte nisso nem pouco nem muito. Masmaior trabalho que os ditos , sem comparao, o ver-se assim em pblico tida por boa,sem razo. E quando chega a j no ter muito trabalho com os louvores, muitssimo menoso tem com os ditos; antes folga e para ela como uma msica muito suave. Isto grandeverdade, e antes fortalece a alma que a acobarda; porque j a experincia lhe tem ensinadoo grande ganho que lhe advm por este caminho, e parece-lhe que no ofendem a Deus osque a perseguem; antes o permite Sua Majestade para seu maior lucro; e como sente istoclaramente, ganha por eles um particular amor muito terno, pois lhe parece que aqueles somais seus amigos e lhe do mais a ganhar que os que dizem bem.6. Tambm costuma o Senhor dar enfermidades grandssimas. Este muito maior trabalho,em especial quando so dores agudas, porque, se so violentas, parece-me de certo modo omaior trabalho que h na terra - digo exterior -embora entrem na conta quantos quiserem;se de muito fortes dores, digo, porque descompe o interior e o exterior, e aperta umaalma de tal maneira, que ela no sabe que fazer de si, e de muito boa vontade tomariaqualquer martrio rpido, de preferncia a estas dores; ainda que em grandssimo extremono duram tanto, que, enfim, Deus no d mais do que se pode sofrer, e Sua Majestade dprimeiro a pacincia; mas ter outras grandes dores o costume, e enfermidades de muitosgneros; [7] eu conheo uma pessoa que, desde que o Senhor lhe comeou a fazer estamerc que fica dita, h uns quarenta anos, no pode dizer com verdade que tenha estado umdia sem ter dores e outras maneiras de padecer, de falta de sade corporal, digo, sem falarde outros grandes trabalhos. Verdade que tinha sido muito ruim, e, para o inferno quemerecia, tudo lhe parece pouco. Outras, que no tenham ofendido tanto a Nosso Senhor,Ele as levar por outro caminho; mas eu sempre escolheria o de padecer, ao menos paraimitar a Nosso Senhor Jesus Cristo, ainda que no houvesse outro lucro; em especial,porque sempre h muitos.Oh! E se tratamos dos sofrimentos interiores!... Estoutros pareceriam pequenos se seacertasse em dizer estes, pois impossvel dar a entender de que maneira se passam.8. Comecemos pelo tormento que encontrar um confessor to prudente e poucoexperimentado, que no h coisa que tenha por segura: tudo teme, em tudo pe dvida, pois 45. v coisas no habituais. Em especial, se na alma que as tem, v alguma imperfeio (poislhe parece que devem ser anjos aqueles a quem Deus fizer estas mercs, e impossvelenquanto estiverem neste corpo), logo tudo condenado conta do demnio ou damelancolia. E desta est o mundo to cheio, que no me espanto; pois h tanta agora nomundo, e faz o demnio tantos males por este caminho, que tm muitssima razo osconfessores de o temer e de olhar a isto muito bem. Mas a pobre alma que anda com omesmo temor e vai ao confessor como a juiz e este a condena, no pode deixar de receberto grande tormento e perturbao, que s entender como grande este trabalho quemtiver passado por ele. Porque este outro dos grandes trabalhos que estas almas padecem,em especial se foram ruins: pensar que, por seus pecados, h de permitir Deus que sejamenganadas; e ainda que, quando Sua Majestade lhes faz a merc, esto seguras e no podemcrer ser aquilo de outro esprito seno de Deus, como coisa que passa depressa e alembrana dos pecados est sempre viva, e vem em si faltas - porquanto estas nuncafaltam -, logo vem este tormento. Quando o confessor lhe d segurana, aplaca-se otormento, ainda que volta depois. Mas, quando ele ajuda com mais temor, coisa quaseinsofrvel, em especial quando, atrs disto, vem uma tal aridez, que parece que nunca selembrou de Deus nem se h de lembrar e, quando ouve falar de Sua Majestade, comoquem ouve falar de uma pessoa que est longe.9. Tudo nada se, alm disto, no lhe vem a parecer que no sabe informar bem osconfessores e que os traz enganados; e, por mais que pense e veja que no h primeiromovimento que no o diga, no lhe aproveita; porque est o entendimento to obscuro queno capaz de ver a verdade, e s cr o que lhe representa a imaginao (que ento ela asenhora), e os desatinos que o demnio lhe quer apresentar, ao qual Nosso Senhor deve terdado licena para que prove a alma, e at para lhe fazer crer que est reprovada por Deus.Porque so muitas as coisas que a combatem com um aperto interior, de maneira tosensvel e intolervel, que eu no sei a que se possa comparar, se no aos tormentos quese padecem no inferno; porque no se admite nenhum consolo nesta tempestade. Se o quertomar do confessor, parece que acodem a ele todos os demnios para que mais a atormente.E assim, tratando um confessor com uma alma que estava neste tormento (que pareceperigoso aperto por ser de tantas coisas juntas), depois de passado, ele dizia-lhe que oavisasse quando assim estivesse atribulada; mas sempre era muito pior at que ele veio aentender que o remdio j no estava em sua mo. Pois, se quisesse tomar um livro emlngua vulgar, e pessoa que sabia ler muito bem, acontecia-lhe no entender mais do quese no conhecesse uma letra, porque o entendimento no estava capaz de entender.10. Enfim, nenhum remdio h nesta tempestade, seno aguardar a misericrdia de Deusque, em hora no esperada, s com uma palavra Sua, ou por meio de uma ocasio que seproporciona, tira tudo to depressa, que nem parece ter havido uma nvoa naquela alma,pois fica cheia de sol e de muito maior consolao. E, como quem escapou duma batalhaperigosa e tenha ganho a vitria, fica louvando a Nosso Senhor, pois foi Ele quem pelejoupara o triunfo, e a alma reconhece muito claramente no ter pelejado. Pois todas as armascom que se podia defender, parece-lhe que as v nas mos de seu contrrio, e assimconhece claramente a sua misria e o pouqussimo que podemos por ns mesmos, se oSenhor nos desamparar.11. Parece que j no tem necessidade de considerao para entend-lo, porque aexperincia de ter passado por isto, tendo-se visto de todo incapacitada, fez-lhe entender onosso nada, e quo miserveis somos; porque a graa (conquanto no deve estar sem ela,pois em toda esta tormenta no ofende a Deus, nem O ofenderia por coisa nenhuma da 46. terra), est to!Escondida, que nem mesmo lhe parece ver em si uma centelha muitopequena de amor de Deus, nem mesmo que o teve algum dia; porque, se fez algum bem, ouse Sua Majestade lhe fez alguma merc, tudo lhe parece coisa sonhada e que foi umafantasia. Os pecados, esses, sim, v com certeza que os fez.12. Jesus, o que ver uma alma desamparada desta sorte, e - como disse - quo pouco lheaproveita qualquer consolao da terra! Por isso, irms, se alguma de vs se vir assim, nopenseis que os ricos e os que esto com liberdade tero para estes momentos melhorremdio. No, no; pois me parece a mim seria como se aos condenados lhes pusessem nafrente quantos deleites h no mundo, nada disso bastaria para lhes dar alvio, antes lhesacrescentaria o tormento. Assim aqui, tudo isto vem do alto, e no valem nada as coisas daterra. Quer este grande Deus que O conheamos a Ele como Rei e a nossa misria; e istoimporta muito para o que adiante se dir.13. Pois, que far esta pobre alma, quando isto lhe durar assim muitos dias? Porque, sereza, como se no rezasse, para sua consolao, digo; porque no penetra no interior, nemela mesma entende o que reza para si, embora seja vocalmente, pois, para orao mental,no este o tempo de maneira alguma, porque as potncias no esto para isso; antes causamaior dano a solido, ainda que seja outro tormento o estar com algum ou que lhe falem.E assim, por muito que se esforce, anda com um desabrimento e m disposio exterior quemuito se deixa ver.E saber ela na verdade dizer o que tem? indizvel porque so aflies e penas espirituaisa que no se sabe dar nome. O melhor remdio - no digo para tirar este tormento, que euno o encontro, mas para que se possa sofrer - atender a obras de caridade e exteriores, eesperar na misericrdia de Deus, que nunca falta aos que nEle esperam. Seja para semprebendito, amm.14. Outros trabalhos exteriores que do os demnios, no devem ser to habituais, e assimno h para que falar neles, nem so to penosos em grande parte; porque, por muito que osdemnios faam, no chegam a inabilitar assim as potncias, a meu parecer, nem aperturbar a alma desta maneira; porque, enfim, fica ainda a razo para pensar que eles nopodem fazer mais do que o Senhor lhes der licena; e, quando esta no est perdida, tudo pouco em comparao do que fica dito.15. Outras penas interiores iremos dizendo nestas moradas, tratando das diferenas que hna orao e nas mercs do Senhor. Porque, ainda que algumas so ainda de mais duropadecer que o j dito, como se ver pelo estado em que deixam o corpo, no merecem, noentanto, o nome de trabalhos, nem razo que lho ponhamos, por serem to grandes mercsdo Senhor, e, porque, no meio deles, a alma bem entende serem mercs e muito acima deseus merecimentos. Esta pena to grande vem j para entrar na stima morada, com outrosmuitos trabalhos, dos quais direi alguns, porque todos seria impossvel, nem mesmodeclarar como so, porque vm de outra linhagem muito mais alta que os outros que disse;e se destes, sendo de casta mais baixa, no pude declarar mais que o dito, menos podereiainda nestes outros. O Senhor nos d para tudo o Seu favor, pelos mritos de Seu Filho,amm.CAPTULO 2. Trata de algumas maneiras com que Nosso Senhor desperta a alma, nasquais parece no h que temer, embora seja coisa muito subida, e sejam grandes mercs.1. Parece que temos deixado muito a pombazita, mas no; porque estes trabalhos so os quea fazem levantar ainda mais alto vo. 47. Comecemos, pois, agora a tratar da maneira como se avm com ela o Esposo, e como, antesque de todo o seja, lho faz bem desejar, por uns meios to delicados, que a prpria alma noos entende, nem eu creio acertarei a diz-lo de modo a que o entenda, a no ser as quepassaram por isto; porque so uns impulsos to delicados e subtis, que procedem do maisinterior da alma, que no sei que comparao dar e que lhes quadre.2. bem diferente de tudo o que c na terra podemos procurar, e at mesmo dos gostos queficam ditos, pois muitas vezes, estando a prpria pessoa descuidada e sem ter a memriaem Deus, Sua Majestade a desperta, maneira de um cometa que passa depressa, ou de umtrovo, ainda que no se oua rudo; mas entende muito bem a alma que foi chamamento deDeus, e to bem entendido, que algumas vezes, em especial ao princpio, a faz estremecer eat queixar-se, sem ser coisa que lhe doa. Sente-se ferida saborosissimamente, mas noatina como nem quem a feriu; mas bem conhece ser coisa preciosa e jamais quereria sarardaquela ferida. Queixa-se a seu Esposo com palavras de amor, mesmo exteriores, sempoder fazer outra coisa; porque entende que Ele est presente, mas no Se quer manifestarde maneira a deixar-Se gozar. E grande pena, ainda que saborosa e doce; e embora no aqueira ter, no pode; mas isto no o quereria jamais. Esta pena muito mais a satisfaz que oembevecimento saboroso, que carece de pena, da orao de quietude.3. Estou-me desfazendo, irms, para vos dar a entender esta operao de amor, e no seicomo o fazer. Porque parece coisa contraditria dar o Amado claramente a entender queest com a alma e, ao mesmo tempo, parecer que a chama com um sinal to certo, que nose pode duvidar, e com um silvo to penetrante para a alma o entender, que no pode deixarde o ouvir; pois no parece seno que, em falando o Esposo, que est na stima morada, poreste modo (que no fala formada), toda a gente que est nas outras moradas no ousamexer-se: nem sentidos nem imaginaes, nem potncias.Oh! Meu poderoso Deus, como so grandes os Vossos segredos, e que diferentes so ascoisas do Esprito de tudo quanto por c se pode ver e entender, pois com nenhuma coisa sepode declarar esta to pequena, para as muito grandes que operais com as almas!4. Faz nela to grande operao, que se est desfazendo em desejos, e no sabe. O quepedir, porque claramente lhe parece que est com ela o seu Deus.Dir-me-eis: Pois, se isto entende, que deseja ela, ou que que lhe d pena? E que maiorbem quer? No sei; sei que lhe parece chegar s entranhas esta pena, e quando delas lhearranca a seta Aquele que a fere, verdadeiramente parece que lhas leva atrs de si, tal osentimento de amor que sente. Estava eu pensando agora se seria que deste fogo do braseiroincendido, que o meu Deus, saltava alguma centelha e dava na alma, de maneira a deixar-lhe sentir aquele incendido fogo, e como ainda no era bastante para a queimar, e todeleitoso, ficava com aquela pena e ao tocar nela fazia aquela operao; parece-me ser amelhor comparao que acertei a dizer. Porque esta dor saborosa - e no dor - no est emum ser; ainda que, s vezes, dura um grande bocado, outras depressa se acaba: como oSenhor o quer comunicar, pois no coisa que se possa procurar por nenhuma via humana.Mas, ainda que est algumas vezes um bom bocado, desaparece e torna de novo; enfim,esta dor nunca est fixa, e por isso no acaba de abrasar a alma, pois mal se vai a acender,morre a centelha e a alma fica com o desejo de tornar a padecer aquela dor amorosa que elalhe causa.5. Aqui no h que pensar se coisa movida pelo mesmo natural, ou causada pelamelancolia, nem to-pouco se engano do demnio, ou se coisa que se lhe afigurou;porque se deixa muito bem entender vir este movimento de onde est o Senhor que imutvel; e as operaes no so como as de outras devoes, nas quais o muito 48. embevecimento do gosto nos pode fazer duvidar. Aqui esto todos os sentidos e potnciassem embevecimento, olhando ao que poder ser, sem estorvar em nada, nem poderemacrescentar aquela pena deleitosa, nem tir-la, a meu parecer.A quem Nosso Senhor fizer esta merc (que, se lha tem feito, em lendo isto o entender),d-Lhe muitas e muitas graas, pois no tem que temer se ou no engano; tema muito seh de vir a ser ingrato a to grande merc, e procure esforar-se em servir e a melhorar emtudo a sua vida, e ver no que pra, e como recebe mais e mais. Uma pessoa que teve istopassou alguns anos assim, e s com aquela merc estava bem satisfeita, pois, se servisse aoSenhor uma multido de anos, com grandes trabalhos, ficava com ela muito bem paga.Bendito seja Ele para sempre, amm.6. Poder ser que repareis como nisto h mais segurana do que noutras coisas. A meuparecer, por estas razes: a primeira, porque jamais o demnio pode dar uma penasaborosa como esta. Poder dar sabor e deleite que parea espiritual; mas juntar pena, etanta, com quietude e gosto da alma, no da sua faculdade, pois todos os seus poderesesto por fora, e as suas penas, quando ele as d, nunca so, a meu parecer, saborosas nemcom paz, seno inquietas e com guerra. A segunda razo porque esta tempestade saborosavem de outra regio, sem ser das que ele pode senhorear. A terceira, pelos grandesproveitos que ficam na alma, os quais so, muito habitualmente, determinar-se a padecerpor Deus e desejar ter muitos trabalhos e ficar muito mais determinada a apartar-se doscontentos e conversaes da terra, e outras coisas semelhantes.7. O no ser iluso, est muito claro; porque, ainda que outras vezes o procure, no podercontra-fazer aquilo. E coisa to notria, que de nenhuma maneira isso se pode afigurar,digo parecer que , no sendo, nem duvidar de que verdade; e se alguma dvida ficar,saibam que esses mpetos no so verdadeiros; digo, se duvidar se os teve ou no; porqueassim se d a sentir, como aos ouvidos uma grande voz. E ser melancolia no leva nenhumcaminho, pois a melancolia no faz nem fabrica seus antolhos seno na imaginao; isto, aocontrrio, procede do interior da alma.Bem pode ser que eu me engane, mas at ouvir outras razes a quem o entenda, sempreestarei nesta opinio; assim sei de uma pessoa muito cheia de temor destes enganos, quedesta orao nunca o pode ter.8. Tambm costuma Nosso Senhor ter outras maneiras de despertar a alma: a qualquer hora,estando a rezar vocalmente e descuidada de coisa interior, parece que lhe vem umainflamao deleitosa, como se de repente viesse um olor to grande, que se comunicassepor todos os sentidos (no digo que olor, mas ponho esta comparao), ou coisa de estegnero, s para dar a sentir que est ali o Esposo; e move um desejo saboroso de a almagozar dEle, e com isto fica disposta para fazer grandes atos e louvores a Nosso Senhor.Esta merc nasce de onde j ficou dito; mas aqui no h coisa que d pena, nem mesmo osdesejos de gozar de Deus so penosos: isto o mais habitual senti-lo a alma. To-pouco meparece haver que temer, por algumas das razes j ditas, seno procurar admitir esta merccom ao de graas.CAPTULO 3. Trata da mesma matria e diz a maneira como Deus fala alma, quando servido, e avisa como se ho de haver nisto, e no seguir o seu prprio parecer. Dalguns sinais para se conhecer quando no engano, e quando o . muito proveitoso.1. Outra maneira tem Deus de despertar a alma; embora, de algum modo, parea maiormerc que as j ditas, poder ser mais perigosa e por isso me deterei um tanto nela. So 49. umas falas com a alma, de muitas maneiras: umas, parece que vm de fora; outras, domuito interior da alma; outras, da parte superior dela e outras, to do exterior, que se ouvemcom os ouvidos, porque parece que voz formada. Algumas vezes, e muitas, pode seriluso, em especial em pessoas de imaginao fraca ou melanclicas, digo de melancolianotvel.2. Destas duas maneiras de ser das pessoas no h que fazer caso, a meu parecer, ainda quedigam que vem e ouvem e entendem, nem inquiet-las com dizer-lhes que demnio; masouvi-las como pessoas enfermas, dizendo a prioresa ou o confessor, a quem lho disser, queno faa caso disso; no est a o essencial para servir a Deus e que muitos tm sidoenganados pelo demnio, ainda que no ser talvez assim com ela, e isto para no a afligirmais do que j est com o seu humor doentio; porque, se lhe dizem que melancolia, umno acabar: jurar que o v e ouve, porque assim lhe parece.3. Verdade que preciso ter cuidado de lhes tirar a orao, e procurar o mais que se puderque no faam caso disso; porque o demnio costuma aproveitar-se destas almas assimenfermas, embora no seja para seu dano, mas para o de outros; e tanto em enfermas comoem ss, sempre h que temer destas coisas, at ir entendendo o esprito que . E digo que omelhor sempre desfazer-lho nos princpios; porque, se de Deus, maior ajuda para iradiante, e antes cresce quando contrariado. Isto assim, mas que no seja apertandomuito a alma e inquietando-a, porque verdadeiramente ela no pode mais.4. Pois, voltando ao que dizia das falas com a alma, de todas as maneiras que disse, podemser de Deus e tambm do demnio e da prpria imaginao. Direi, se acertar, com o favordo Senhor, os sinais que h nestas diferenas e quando estas falas sero perigosas. Porqueh muitas almas que as ouvem entre gente de orao, e eu no quereria, irms, quepenssseis que fazeis mal em no lhes dar crdito, nem to-pouco em dar-lho, quando sosomente para vs mesmas, isto : de consolao, ou aviso de faltas vossas; diga-as quem asdisser, ou seja, iluso ou no, pouco vai nisso. De uma coisa vos aviso: no penseis, emborasejam de Deus, que por isso sereis melhores, pois muito falou Ele aos fariseus, e todo obem est em como se aproveitam destas palavras. E de nenhuma que no v muitoconforme Sagrada Escritura no faais mais caso delas do que se as ouvsseis ao mesmodemnio; porque, ainda mesmo que sejam s da vossa fraca imaginao, precisotomarem-se como sendo uma tentao contra. Coisas de f, e assim resistir-lhes sempre,para que se vo afastando; e; de. fato, viro a desaparecer porque trazem consigo poucafora.5. Pois, voltando ao primeiro, quer venha do interior, quer da parte superior, quer doexterior, isso no importa para deixar de ser de Deus. Os sinais mais certos que se podemter, a meu parecer, so estes: o primeiro e mais verdadeiro, o poderio e senhorio quetrazem consigo, que falando e operando. Declaro mais. Est uma alma em toda atribulao e alvoroto interior que fica dito, e escurido do entendimento e aridez. E, comuma palavra destas, que diga somente: no tenhas pena, fica sossegada e sem nenhumapena, e com grande luz, desaparecendo toda aquela pena, em que lhe parecia que, se todo omundo e os letrados se juntassem a dar-lhe razes para que no a tivesse, no poderiam, pormuito que trabalhassem, tir-la daquela aflio. Est aflita por lhe ter dito o seu confessor,ou outros, que esprito do demnio o que ela tem, e toda ela est cheia de temor; e, comuma s palavra destas que se lhe diga: Sou Eu, no tenhas medo, desaparece todo o medoe fica consoladssima, parecendo-lhe que ningum conseguir fazer-lhe crer outra coisa.Est com muita pena de alguns negcios graves, pois no sabe que resultado iro ter. Mas, 50. entendendo que lhe dizem que sossegue, que tudo suceder bem, fica com uma grandecerteza e sem pena. E deste modo, outras muitas coisas.6. A segunda razo ou sinal uma grande quietude que fica na alma, e um recolhimentodevoto e pacfico, ficando ela assim disposta para os louvores de Deus. Oh! Senhor, se umapalavra mandada dizer por meio de um Vosso pajem (pois segundo dizem, estas ao menosnesta morada, no as diz o mesmo Senhor, mas sim algum anjo), tem tanta fora, a queponto a deixareis na alma que est ligada por amor conVosco, e Vs com ela?7. O terceiro sinal no se apagarem estas palavras da memria durante muito tempo, ealgumas nunca, como se apagam as que ouvimos c na terra, digo as que ouvimos aoshomens; pois, ainda que sejam muito graves e letrados, no nos ficam to esculpidas namemria, nem mesmo se so de coisas por vir, as acreditamos como a estas; que fica umagrandssima certeza, embora algumas vezes em coisas muito impossveis ao parecer, nodeixe de lhe vir a dvida se ser ou no ser, e o entendimento ande com algumasvacilaes, na mesma alma h, no entanto, uma segurana que no se pode render, aindamesmo que lhe parea que vai tudo ao contrrio do que entendeu; e passam anos, e no selhe tira aquele pensar que Deus buscar outros meios que os homens no entendem, masque, enfim, se h de fazer e assim se faz por fim; ainda que, como digo, no se deixa depadecer quando se vem muitos desvios, porque, como j h tempos que o entendeu, e ossinais e a certeza que ao presente ficam de ser aquilo de Deus j de coisas do passado, dlugar a estas hesitaes, pensando se foi do demnio, se foi da imaginao; contudonenhuma destas dvidas lhe fica ao presente, e at morreria por aquela verdade. Mas, comodigo, com todas estas imaginaes que o demnio levanta para perturbar e acobardar aalma, em especial se em negcio que em fazer-se tal qual se entendeu h de advir muitobem s almas, e so obras de grande honra e servio de Deus, e nelas h grande dificuldade,o que no far ele? Ao menos enfraquece a f, pois grande dano no crer que Deus poderoso para fazer obras que no alcanam os nossos entendimentos.8. Apesar de todos estes combates, ainda que haja quem diga mesma pessoa que sodisparates (digo os confessores com quem se tratam estas coisas), e apesar dos maussucessos que pode haver para dar a entender que essas coisas no se podem cumprir,sempre fica - no sei onde -, uma centelha to viva, de que assim ser que, embora todas asdemais esperanas estejam mortas, no poderia, ainda mesmo que quisesse, deixar de estarviva aquela centelha de segurana. E por fim - como j disse -, cumpre-se a palavra doSenhor e a alma fica to contente e alegre, que no quereria seno louvar sempre a SuaMajestade, por ver cumprido o que se lhe tinha dito, muito mais do que pela prpria obra,ainda que nela se empenhasse muito, muito.9. No sei de que vem isto, que a alma tenha em tanto apreo que saiam verdadeiras estaspalavras de Deus, pois, se a mesma pessoa fosse apanhada em algumas mentiras, creio queno o sentiria tanto; como se ela nisto pudesse mais do que dizer o que lhe dizem. Infinitasvezes se lembrava acerca disto certa pessoa do profeta Jonas, quando temia que no sehouvesse de perder Nnive. Enfim; como esprito de Deus, razo que se lhe tenha estafidelidade em desejar que no O tenham por falso, pois a suma Verdade. E assim grandea alegria quando, depois de mil rodeios, e em coisas dificultosssimas, v aquilo cumprido;e ainda que da hajam de sobrevir grandes trabalhos mesma pessoa, ela antes os quersofrer, do que deixar-se de cumprir o que tem por certo ter-lhe dito o Senhor. Talvez nemtodas as pessoas tero esta fraqueza, se o , que eu isto no posso condenar por mau.10. Se so da imaginao, no h nenhum destes sinais, nem certeza, nem paz e gostointerior; salvo que poderia acontecer, e at eu sei de algumas pessoas a quem tem 51. acontecido, estando muito embebidas em orao de quietude e sono espiritual, pois algumasso fracas de compleio ou imaginao, ou no sei a causa, neste grande recolhimentoesto verdadeiramente to fora de si, que no se sentem no exterior e ficam toadormentados todos os sentidos, que, como uma pessoa que dorme e at talvez seja assim eestejam adormecidas, a modo de sonho lhes parece que lhes falam, e at vem coisas epensam que de Deus, e que deixam na alma seus efeitos, enfim, como de sonho. Etambm poderia ser, pedindo uma coisa afetuosamente a Nosso Senhor, parecer-lhes quelhes dizem o que querem e isto acontece algumas vezes. Mas quem tiver muita experinciadas falas de Deus, no se poder enganar - a meu parecer - nisto da imaginao.11. Do demnio h mais que temer. Mas, se h os sinais que ficam ditos, muito se podeassegurar ser de Deus, embora no de maneira que, se coisa grave o que se lhe diz, e se seh de pr por obra em coisa sua ou em negcios de terceiras pessoas, nunca faa nada, nemlhe passe pelo pensamento faz-lo sem a opinio de confessor letrado e avisado e servo deDeus; e isto, ainda mesmo que o entenda muito bem e lhe parea claramente ser coisa deDeus, porque o que Sua Majestade quer, e no deixar de fazer o que Ele manda, poisnos tem dito que tenhamos ao confessor em Seu lugar, e aqui no se pode duvidar serempalavras Suas; e estas ajudam a ter nimo, se negcio dificultoso, e Nosso Senhor o darao confessor e far que ele creia que esprito Seu, quando Ele o quiser, e se no, no estoa mais obrigados. E fazer outra coisa sem ser o que fica dito, e algum guiar-se nisto peloseu prprio parecer, tenho-o por coisa muito perigosa; e assim admoesto-vos, irms, daparte de Nosso Senhor, que nunca isto vos acontea.12. Tem o Senhor outra maneira de falar alma, que eu tenho para mim por muito certo serde Sua parte: por meio de alguma viso intelectual, que adiante direi como . to nontimo da alma, e parece-lhe ouvir to claro do mesmo Senhor aquelas palavras com osouvidos da alma, e to em segredo, que a mesma maneira de as entender, com as operaesque produz a mesma viso, assegura e d certeza de que ali o demnio no pode ter parte.Deixa grandes efeitos para se crer isto; pelo menos, h segurana de que no procede daimaginao, e tambm, se h advertncia, sempre disto a pode ter, por estas razes: Aprimeira, porque deve ser diferente na clareza da fala, que to clara que, se falta umasilaba daquilo que entendeu, se lembra, e se foi dito por um estilo ou por outro, embora sejatudo a mesma sentena; e naquilo que se afigure pela imaginao, no ser fala to clara,nem palavras to distintas, seno como coisa meio sonhada.13. A segunda porque no se pensava aqui muitas vezes no que se entendeu -digo que adesoras e at algumas vezes estando em conversao -, embora em muitas se responda aoque passa num pronto pelo pensamento ou ao que antes se tinha pensado; mas muitas vezes em coisas que nunca teve idia de que poderiam ser nem seriam; e assim no as poderiater fabricado a imaginao para que a alma se enganasse em se lhe afigurar o que no tinhadesejado, nem querido, nem tinha vindo ao seu conhecimento.14. A terceira razo porque isto como quem ouve; e o da imaginao como quem vaicompondo, pouco a pouco, o que ele mesmo quer que lhe digam.15. A quarta, porque as palavras so muito diferentes, e com uma s se compreende muito,o que o nosso entendimento no poderia compor to depressa.16. A quinta, porque muitas vezes, juntamente com as palavras, por um modo que eu nosaberei dizer, d-se a entender, sem palavras, muito mais do que elas soam.Deste modo de entender, falarei mais noutra parte, pois coisa muito delicada e para louvara Nosso Senhor. que, nesta maneira e nestas diferenas tem havido pessoas que ficammuito duvidosas, (em especial uma por quem isto passou, e assim haver outras) que no 52. chegam a entender-se. Sei, pois, que essa pessoa tem olhado a isto com muito cuidado,porque tm sido muitas as vezes que o Senhor lhe faz esta merc, e a maior dvida quetinha a princpio era nisto: se era iluso. O ser do demnio, mais depressa se pode entender,ainda que so tantas as suas subtilezas que bem sabe contrafazer o esprito de luz; mas ser- a meu parecer -s nas palavras, dizendo-as muito claras, para que tambm no fiquedvida se se entenderam tal como quando so do Esprito de Verdade; mas no podercontrafazer os efeitos que ficam ditos, nem deixar essa paz e essa claridade na alma; antes,inquietao e alvoroto. Mas pode fazer pouco dano, ou nenhum, se a alma humilde e faz oque tenho dito de no se mover a fazer nada, por mais coisas que oia.17. Se so favores e regalos do Senhor, veja com ateno se, por causa disto, se tem pormelhor; c se, quando for maior a palavra de regalo, no ficar mais confundida, creia queno esprito de Deus. Porque coisa muito certa que, quando o , quanto maior merc lhefaz, em tanto menos se tem a mesma alma, e maior lembrana lhe traz de seus pecados, emais olvidada anda de seu prprio lucro, e mais emprega sua vontade e memria em squerer a honra de Deus; nem se recorda do seu prprio proveito, e anda com maior temorde torcer em alguma coisa a Sua divina vontade, e com maior certeza de nunca ter merecidoaquelas mercs, mas sim o inferno. Logo que faam estes efeitos todas as coisas e mercsque tiver na orao, no ande a alma assustada, mas confiada na misericrdia do Senhor,que fiel, e no deixar que o demnio a engane, ainda que bom andar sempre comtemor.18. Poder ser que, quelas que o Senhor no leva por este caminho, lhes parea que estasalmas poderiam no escutar estas palavras que lhes dizem e, se so falas interiores, distrair-se de maneira a no as admitirem, e com isto andariam sem estes perigos.A isto respondo que impossvel: no falo das que se lhes afigura que ouvem, pois noestando a apetecer tanto alguma coisa, nem querendo fazer caso das imaginaes, tmremdio. Aqui no h nenhum, porque o mesmo esprito que fala, de tal maneira faz parartodos os outros pensamentos e advertir ao que se diz que, em certo modo, seria maispossvel, me parece e creio ser assim, uma pessoa que ouvisse muito bem no entender aoutra que falasse em altas vozes. Poderia no advertir, e pr o pensamento e oentendimento em outra coisa. Mas nisto de que tratamos no se pode fazer assim. No houvidos que se tapem, nem poder para pensar, a no ser no que se lhe diz; porque O que fezparar o sol - a pedido de Josu creio que era - pode fazer parar as potncias e todo ointerior.De maneira que a alma v bem que outro maior Senhor do que ela governa aquele castelo, eisto faz-lhe muita devoo e ter muita humildade. Assim que, para se escusar a isto, noh nenhum remdio. No-lo d a divina Majestade para pormos os olhos s em O contentar enos esqueamos de ns mesmos, como tenho dito, amm. Praza-Lhe que eu tenha acertadoem dar a entender o que nisto pretendia, e seja um aviso para quem tiver estas coisas.CAPTULO 4. Trata de quando Deus suspende a alma na orao com arroubamento, ouxtase, ou rapto, que tudo uma mesma coisa, a meu parecer e como mister grande.nimo para receber grandes mercs de Sua Majestade.1. Com estas ditas coisas de trabalhos e as demais, que sossego pode trazer a pobreborboletazinha? Tudo para mais desejar gozar do Esposo; e Sua Majestade, como quemconhece a nossa fraqueza, vai-a habilitando com estas coisas e outras muitas, para quetenha nimo de se unir a to grande Senhor e tom-Lo por Esposo? 53. 2. Rir-vos-eis de que diga isto, e parecer-vos- desatino; porque a qualquer de vs vosparecer que no preciso t-lo e no haver nenhuma mulher de to humilde condio,que o no tenha para desposar-se com o rei. Assim o creio eu comum da terra; mas com Odo Cu, eu vos digo ser preciso mais nimo do que pensais; porque o nosso natural muitotmido e baixo para to grande coisa, e tenho por certo que, se Deus no lho desse, apesarde quanto vedes e de quanto nos convm, seria impossvel t-lo. E assim vereis o que fazSua Majestade para concluir este desposrio, que eu entendo deve ser quando darroubamentos, que a tira de seus sentidos; porque se estando neles se visse to perto destagrande Majestade, no seria possvel porventura ficar com vida. Entende-se arroubamentosque o sejam, e no fraquezas de mulheres, como por c temos, que tudo nos parecearroubamento e xtase, e, - como creio j ter dito -, h compleies to fracas que, comuma orao de quietude, quase que morrem.Quero deixar aqui algumas maneiras que tenho entendido haver de arroubamentos (por tertrato com tantas pessoas espirituais) embora no sei se acertarei a diz-lo como disse emoutra parte onde escrevi sobre isto e algumas coisas das que vo aqui que, por algumasrazes, me pareceu que nada se perde em as tornar a dizer, ainda mesmo quando no sejaseno para que as moradas fiquem todas aqui por junto.3. Uma das maneiras que, estando a alma, ainda mesmo que no seja em orao, tocadade alguma palavra de que se lembrou, ou que ento ouve de Deus, parece que SuaMajestade desde o interior da alma faz crescer a centelha que j dissemos, movido depiedade de a ter visto padecer tanto tempo com desejo dEle e, abrasada toda ela como umaave Fnix, fica renovada e, piedosamente se pode crer, perdoadas as suas culpas (h de seentender, com a disposio e os meios que esta alma ter tido, como a Igreja o ensina). Eassim limpa, o Senhor a une consigo, sem ainda ningum o entender, a no ser os dois, nemainda a mesma alma o entende de modo a pod-lo depois dizer, conquanto no esteja semsentidos interiores; porque no como quem tomado de desmaio ou paroxismo em queno entende nenhuma coisa interior nem exterior.4. O que eu entendo neste caso que a alma nunca esteve to desperta para as coisas deDeus, nem com to grande luz e conhecimento de Sua Majestade. Parecer impossvel,porque, se as potncias esto to absortas, que podemos at dizer que esto mortas, e ossentidos na mesma, como se pode entender que entende esse segredo? Eu no sei, nemtalvez nenhuma criatura, seno o mesmo Criador, assim como outras muitas coisas que sepassam neste estado, digo nestas duas moradas; pois esta e a ltima poder-se-iam juntarmuito bem, porque, de uma outra, no h porta cerrada. Mas, porque na ltima h coisasque ainda se no manifestaram aos que no chegaram a ela, pareceu-me bem separ-las.5. Quando, estando a alma nesta suspenso, o Senhor tem por bem mostrar-lhe algunssegredos, como de coisas do Cu e vises imaginrias, isto sabe diz-lo depois e de talmaneira fica impresso na memria, que nunca jamais se esquece; mas, quando so visesintelectuais, estas to-pouco as sabe dizer; porque deve haver a este tempo algumas tosubidas, que no convm que as entendam os que vivem nesta terra para as poderem dizer,embora estando a alma s e em seus sentidos, se possam por c dizer muitas destas visesintelectuais. Poder ser que algumas de vs no entendais que coisa sejam vises, emespecial intelectuais. Eu o direi a seu tempo, porque mo mandou quem pode; e, ainda que,parea coisa impertinente, talvez para algumas almas seja de proveito.6. Mas dir-me-eis: se depois no h de haver lembrana dessas mercs to subidas que oSenhor a faz alma, que proveito lhe trazem? Oh! filhas, to grande que nem se pode 54. encarecer; porque, embora no se saibam dizer, l no muito interior da alma ficam bemescritas e jamais se esquecem.Pois, se no tm imagem, nem as entendem as potncias, como se podem lembrar? To-pouco entendo eu isso; mas entendo que ficam nesta alma umas verdades to fixas dagrandeza de Deus, que, ainda que no tivera f que lhe diga quem Ele , e que est obrigadaa t-Lo por Deus, ador-Lo-ia como tal, desde aquele momento, como fez Jacob, quandoviu a escada; porque com ela devia ter entendido outros segredos que no soube dizer, poiss com ver uma escada por onde desciam e subiam anjos, se no tivesse tido mais luzinterior, no teria entendido to grandes mistrios.7. No sei se atino no que digo, porque embora o tenha ouvido, no sei se me recordo bem.Nem to-pouco Moiss soube dizer tudo o que viu na sara, seno o que Deus quis quedissesse: Mas, se Deus no mostrasse alma alguns segredos, certamente para que visse ecresse que era Deus, no se meteria em tantos e to grandes trabalhos. Mas deve terentendido to grandes coisas dentro dos espinhos daquela sara, que lhe deram nimo parafazer o que fez pelo povo de Israel. Assim, irms, nas coisas ocultas de Deus no havemosde buscar razes para as entender, mas, assim como cremos que poderoso, est claro quehavemos de crer que um vermezinho de to limitado poder como ns, no pode entenderSuas grandezas. Louvemo-lO muito, porque servido que entendamos algumas.8. Estou desejando acertar com uma comparao para ver se posso dar a entender algumacoisa disto que vou dizendo e creio no haver nenhuma que quadre, mas digamos esta:entrais num aposento de um rei ou grande senhor, creio lhe chamam cmara, onde teminfinitos gneros de vidros e louas e muitas coisas, postas em tal ordem, que quase todasse vem logo ao entrar. Uma vez me levaram a um destes aposentos em casa da duquesa deAlba (onde, vindo de caminho, me mandou estar a obedincia, por esta senhora terimportunado os superiores com pedidos), e fiquei espantada logo ao entrar e consideravapara que podia aproveitar aquela barafunda de coisas, e via que se podia louvar ao Senhorao ver tamanha diversidade. Agora acho graa como me aproveita para isto que digo. E,ainda que estive ali algum tempo, era tanto o que havia para ver, que logo me esqueci detudo, de maneira que de nenhuma daquelas peas, me ficou mais memria como se nuncaas tivesse visto, nem saberia dizer de que feitura eram; (mas, assim em conjunto, lembro-me de o ter visto). Assim aqui; est a alma to unida com Deus, metida neste aposento docu empreo, que devemos ter no interior das nossa almas (porque est claro que, vistoDeus estar nelas, est nalguma destas moradas); e ainda que, quando a alma est assim emxtase, nem sempre o Senhor deve querer que veja estes segredos (porque est toembebida em goz-Lo, que lhe basta to grande bem), algumas vezes gosta, no entanto, queela se desembevea e veja de repente o que est naquele aposento; e assim fica, depois devoltar a si, com aquela representao das grandezas que viu; mas no pode dizer nenhuma,nem o seu natural chega a mais do que ao sobrenatural que Deus quis que ela visse.9. Logo j confesso o que foi ver, e o que viso imaginria. No quero dizer tal, pois no disto que trato, seno de viso intelectual; mas, como no tenho letras, a minha rudezano sabe dizer nada; pois, o que tenho dito at aqui, nesta orao, entendo claramente que,se vai bem, no fui eu que o disse.Eu tenho para mim que, se algumas vezes a alma, a quem Deus deu arroubamento, noentende neles destes segredos; no so arroubamentos, seno alguma fraqueza natural, quepode dar a pessoas de fraca compleio, como somos ns as mulheres, juntamente comalguma fora de esprito que sobrepuje o natural, e ficam-se assim embevecidas, comocreio ter dito na orao de quietude. Isto nada tem a ver com arroubamentos, porque, 55. quando arroubamento, crede que Deus rouba toda a alma para Si, e que, como a coisaprpria Sua e j Sua esposa, lhe vai mostrando alguma partezinha do reino que j ganhoupor ser Sua esposa; e, por pouco que seja, tudo muito o que h neste grande Deus, e noquer estorvo de ningum, nem das potncias, nem dos sentidos; seno, depressa mandafechar as portas de todas estas moradas, e s aquela em que Ele est fica aberta, para nsentrarmos. Bendita seja to grande misericrdia; e com razo sero malditos os que noquiserem aproveitar-se dela, e perderem este Senhor.10. Oh! irms minhas, que no nada o que deixamos, nem nada o que fazemos, nemquanto pudermos fazer por um Deus que assim se comunica a um vermezinho! E, se temosesperana de ainda nesta vida gozar deste bem, que fazemos e em que nos detemos? Quecoisa bastante para que deixemos um s momento de buscar a este Senhor, como o fazia aEsposa, por bairros e praas? Oh! e que farsa tudo o que h no mundo, se no nos leva eajuda a isto, ainda mesmo que durassem para sempre os seus deleites, riquezas e gozos,todos quantos se puderem imaginar, que tudo asco e lixo, comparado a estes tesouros quese ho de gozar sem fim! Mesmo estes so nada em comparao de ter por nosso ao Senhorde todos os tesouros do Cu e da terra.11. Oh cegueira humana! At quando, at quando estaremos at que nos caia esta terra denossos olhos? Pois, embora entre ns no parece ser tanta que nos cegue de todo, vejo unsargueirinhos, umas manchazinhas que, se os deixamos crescer, bastaro para nos fazergrande dano; seno que, por amor de Deus, irms, aproveitemo-nos destas faltas paraconhecer a nossa misria e elas nos dem melhor vista, como a deu o lodo ao cego a quemsarou o nosso Esposo. E assim, vendo-nos to imperfeitas, cresa mais em ns o suplicar-Lhe que tire bens das nossas misrias, para em tudo contentarmos a Sua Majestade.12. Muito me tenho desviado do assunto sem o perceber. Perdoai-me, irms, e crede que,chegada a estas grandezas de Deus, digo a falar delas, no pode deixar de me dar muitalstima ver o que perdemos por nossa culpa. Porque, embora seja verdade que so coisasque o Senhor d a quem Ele quer, se quisssemos a Sua Majestade como Ele nos quer, d-las-ia a todos. No est desejando outra coisa seno ter a quem dar, que por isso no sediminuem Suas riquezas.13. Tornando, pois, ao que dizia, manda o Esposo cerrar as portas das moradas e at as docastelo e da cerca; porque, em querendo arrebatar a esta alma, tira-se-lhe o flego demaneira que, embora dure algumas vezes um pouquinho mais na posse dos outros sentidos,de nenhum modo pode falar; ainda que de outras vezes tudo se lhe tira de repente eresfriam-se as mos e o corpo, de modo que no parece ter alma, nem se percebe algumasvezes se respira. Isto dura pouco tempo, digo, para estar num mesmo ser; porque,atenuando-se um pouco esta grande suspenso, parece que o corpo volta um tanto a si etoma alento para tornar a morrer e dar maior vida alma, e, no entanto, isto no dura muitoneste to grande xtase; [14] mas, ainda que se tira a suspenso, acontece ficar a vontadeto embevecida e o entendimento to alheio, que dura assim o dia e at dias, que parece no capaz de atender a coisa que no seja para despertar a vontade a amar e ela ali se ficamuito desperta para isto e adormecida para se lanar a apegar-se a alguma criatura.15. Oh! quando a alma torna j de todo a si, quanta no a confuso que lhe fica, e quedesejos to grandes de se empregar em Deus, de todas as maneiras que Ele se quiser servirdela! Se das oraes passadas j ficam tais efeitos como os que ficam ditos, que ser deuma merc to grande corno esta? Quereria ter mil vidas para as empregar todas em Deus, eque todas quantas coisas h na terra fossem lnguas para O louvar por ela. Desejos de fazerpenitncia, grandssimos; e no faz muito em a fazer, porque, com a fora do amor, sente 56. pouco quanto faz, e v claramente que os mrtires no faziam muito nos tormentos quepadeciam, porque, com esta ajuda da parte de Nosso Senhor, fcil, e assim se queixamestas almas a Sua Majestade quando no se lhes oferece em que padecer.16. Quando esta merc lhes feita em segredo, tm-na por muito grande; porque, quando diante de algumas pessoas, to grande a vergonha e afronta que lhes fica, que de algummodo embevece a alma do, que gozou, com a pena e cuidado que lhe d o pensar no quepensaro os que isto viram. Porque conhecem a malcia do mundo, e entendem que no olanaro porventura conta do que , mas antes aquilo por que haviam de louvar aoSenhor, talvez seja ocasio para eles fazerem maus juzos. Esta pena e vergonha parece-mede certo modo falta de humildade; mas isto j no est em sua mo; porque, se esta pessoadeseja ser vituperada, que lhe importa? Como entendeu algum, que estava nesta aflio, daparte de Nosso Senhor: No tenhas pena, porque, ou eles Me ho de louvar a Mim, oumurmurar de ti; e em qualquer destas coisas ganhas tu. Soube depois que esta pessoa setinha animado muito e consolado com estas palavras; e assim, para o caso de alguma se virnesta aflio, as deixo aqui. Parece que Nosso Senhor quer que todos entendam que aquelaalma j Sua, e que ningum h de tocar nela; no corpo, na honra, na fazenda, seja emmuito boa hora, pois de tudo se tirar honra para Sua Majestade; mas na alma, isso no;pois se ela, com muito culpvel atrevimento, no se aparta de Seu Esposo, Ele lhe seramparo contra todo o mundo e at contra todo o, inferno.17. No sei se fica dado a entender algo do que seja o arroubamento, porque tudo impossvel, como disse; e creio no se ter perdido nada em o dizer, para se poder entender oque , porque h efeitos muito diferentes nos fingidos arroubamentos. No digo fingidos,porque quem os tem queira enganar, mas porque o est ela prpria; e como os sinais eefeitos no so conformes a to grande merc, fica desacreditada de tal maneira que, comrazo, no se d depois crdito a quem o Senhor fizer esta merc. Seja Ele para semprebendito e louvado, amm, amm.CAPTULO 5. Prossegue no mesmo assunto, e declara uma maneira como Deus levantaa alma com um vo de esprito, de modo diferente ao que fica dito. Diz algumas dasrazes porque mister nimo. Declara alguma coisa desta merc que o Senhor faz porsaborosa maneira. muito proveitoso.1. H outra maneira de arroubamento, vo de esprito lhe chamo eu; pois, ainda que tudoseja um na substncia, no interior sente-se muito diferentemente; porque, algumas vezes,sente-se muito repentinamente um movimento to acelerado da alma, que parece que oesprito arrebatado com uma velocidade que deixa grande temor, em especial nosprincpios. Por isso vos dizia que preciso nimo grande z a quem Deus h de fazer estasmercs, e ainda grande f e confiana e resignao para que Nosso Senhor faa da alma oque quiser. Pensais que pouca turbao estar uma pessoa muito em seus sentidos e ver-searrebatar a alma? E at de alguns temos lido que o corpo vai com ela, sem saber para onde,ou, quem a leva ou como; porque no princpio deste momentneo movimento no h tantacerteza de que Deus.2. Haver, pois, algum remdio para se poder resistir? De nenhum modo; antes pior. E eusei isto por uma pessoa, que parece querer Deus dar a entender alma, pois j tantas vezese to deveras se tem colocado em Suas mos, e com to inteira vontade se Lhe ofereceutoda para que entenda que j no tem parte em si mesma e com um movimentonotavelmente mais impetuoso, arrebatada; e por si tomava a resoluo de no fazer mais 57. do que faz uma palha, quando a levanta o mbar, se j o tendes visto, e deixar-se ir nasmos de Quem to poderoso , pois v que o mais acertado fazer da necessidade virtude.E, como falei da palha, certo que mesmo assim, pois com a facilidade com que umgrande moceto pode arrebatar uma palha, este nosso grande e poderoso gigante arrebata oesprito.3. No parece seno que aquele tanque de gua que dissemos - creio na quarta morada, poisno me recordo bem? que com tanta suavidade e mansido, digo sem nenhum movimento,se enchia, aqui, este grande Deus, que detm os mananciais das guas e no deixa sair omar de seus limites, abriu os mananciais donde vinha a gua a este tanque; e com umgrande mpeto se levanta uma onda to poderosa, que sobe ao alto esta barquinha da nossaalma. E assim, como uma nau no pode conservar-se quieta nem o piloto, nem todos os quea governam tm poder para que as ondas, se vm com fria; a deixem estar onde elesquerem, muito menos pode o interior da alma deter-se onde quer, nem fazer com que seussentidos e potncias faam mais do que lhes tm mandado, porque do exterior aqui no sefaz caso dele.4. certo, irms, que s de o ir escrevendo, me vou enchendo de espanto ao ver como semostra aqui o grande poder deste grande Rei e Imperador; o que far pois quem passa porisso! Tenho para mim que, se aos que andam muito perdidos pelo mundo, se lhesdescobrisse Sua Majestade como o faz a estas almas, ainda que no fosse por amor, pormedo no O ousariam ofender. Oh! quo obrigadas estaro, pois, as que foram avisadas,por caminho to subido, a procurar com todas as suas foras no desgostar a este Senhor!Por Ele vos suplico, irms, quelas a quem Sua Majestade tiver feito estas mercs ou outrassemelhantes, que no vos descuideis com no fazer mais do que receber; olhai que, quemmuito deve, muito h de pagar.5. Para isto tambm preciso grande nimo, pois uma coisa que acobarda de grandemodo; e se Nosso Senhor no lho desse, andaria sempre com grande aflio; porque,olhando ao que Sua Majestade faz com ela, e tornando a olhar para si, v quo pouco servepara o que est obrigada, e esse poucochinho que faz, to cheio de faltas e quebras efrouxido, tem por melhor, a fim de no se lembrar de quo imperfeitamente faz qualquerobra, se a faz, procurar que ela se lhe esquea e trazer diante dos olhos seus pecados eesconder-se na misericrdia de Deus, pois, j que no tem com que pagar, supra a piedade emisericrdia que Ele sempre tem com os pecadores.6. Talvez o Senhor lhe responda como a uma pessoa que estava muito aflita neste pontodiante de um crucifixo, considerando que nunca tinha tido nada que dar a Deus, nem quedeixar por Ele. Disse-lhe o mesmo Crucificado consolando-a: que Ele lhe dava todas asdores e trabalhos que tinha passado em Sua Paixo, que os tivesse por prprios para osoferecer a Seu Pai. Ficou aquela alma to consolada e to rica, segundo entendi delamesma, que no o pde esquecer; antes, cada vez que se v to miservel, recordando-sedisto, fica animada e consolada.Algumas coisas destas poderia eu dizer aqui, porque, como tenho tratado com tantaspessoas santas e de orao, sei muitas; para que no penseis que sou eu, no o fao. Estaparece-me de grande proveito, para que entendais como se contenta o Senhor em nosconhecermos, e procuremos sempre mirar e remirar a nossa pobreza e misria, e que notemos nada que no o tenhamos recebido. Assim, pois, minhas irms, para isto e outrasmuitas coisas que se oferecem a uma alma a quem o Senhor j trouxe a este ponto, preciso nimo; e a meu parecer, para esta ltima mais ainda que para tudo o mais, se hhumildade. O Senhor no-la d por quem . 58. 7. Pois, voltando a este apressurado arrebatamento do esprito, de tal maneira, queverdadeiramente parece que sai do corpo, e, por outro lado, claro que esta pessoa no ficamorta; pelo menos ela no pode dizer se est no corpo ou no, por uns instantes. Parece-lheque toda inteira esteve em outra regio muito diferente desta em que vivemos, onde se lhemostra outra luz to diferente desta de c, que, se toda a sua vida a estivesse a fabricar,juntamente com outras coisas que ento v, seria impossvel alcan-las. E aconteceensinarem-lhe num instante tantas coisas juntas, que em muitos anos que trabalhasse em asordenar com a imaginao e o pensamento, de mil partes no poderia ordenar uma s. Istono viso intelectual, seno imaginria v-se com os olhos da alma muito melhor do quevemos aqui com os do corpo, e sem palavras se lhe do a entender algumas coisas; digo,como se v alguns santos, conhece-os, como se tivesse tratado muito com eles.8. Outras vezes, juntamente com as coisas que v com os olhos da alma, representam-se-lheoutras por viso intelectual, em especial multides de anjos com o Senhor deles, e sem vernada com os olhos do corpo nem da alma. Por um conhecimento admirvel que eu nosaberia dizer, representa-se-lhe o que digo e outras muitas coisas que no so para dizer.Quem passar por elas, e tenha mais habilidade do que eu, talvez as saiba dar a entender,ainda que me parece bem dificultoso. Se tudo isto se passa, estando a alma no corpo ou no,eu no o sei dizer; pelo menos no juraria que est no corpo, nem to-pouco que est ocorpo sem alma.9. Muitas vezes tenho pensado, se assim como o sol estando no cu, seus raios tm tantafora que, no se mudando ele de ali, num pronto chegam at ns, assim a alma e o esprito,que so uma mesma coisa, como o o sol e os seus raios, ficando ela no seu posto, com afora do calor que lhe vem do verdadeiro Sol de Justia, pode alguma parte superior sairsobre si mesma. Enfim, eu no sei o que digo. O que verdade que, com a mesmapresteza com que sai a bala dum arcabuz quando lhe pem fogo, levanta-se no interior umvo (eu no sei que outro nome lhe d), o qual, ainda que no faa rudo, faz ummovimento to claro que no pode ser imaginao de maneira alguma; e j muito fora de simesma, para tudo quanto ela pode entender, se lhe mostram grandes coisas; e, quando tornaa sentir-se em si, com to grandes lucros e tendo em to pouco todas as coisas da terra,que, em comparao das que viu, lhe parecem lixo; e de a em diante vive nela com muitapena, e no v coisa das que lhe costumavam parecer bem, que delas agora j nada se lhed. Parece que o Senhor quis mostrar-lhe algo da terra aonde h de ir, tal como levaramsinais da terra de Promisso os que l enviaram do povo de Israel, para que passe ostrabalhos deste caminho to trabalhoso, sabendo onde adi ir descansar. Embora coisa quepassa to depressa no vos parea de muito proveito, so to grandes os que deixa na almaque, a no ser quem por isto passa, ningum saber entender o seu valor.10. Por aqui se v bem no ser coisa do demnio; pois da prpria imaginao impossvel,nem o demnio poderia representar coisa que tanto efeito, paz, sossego e aproveitamentodeixe na alma, em especial trs coisas em muito subido grau: o conhecimento da grandezade Deus, porque, quantas mais coisas virmos dela, mais se nos d a conhecer. Segundarazo: o prprio conhecimento e humildade, ao ver como coisa to baixa, em comparaodo Criador de tantas grandezas, tem ousado ofend-lO, nem como ousa olhar para Ele;terceira, terem muito pouco todas as coisas da terra, se no forem das que pode aplicar aoservio de to grande Deus.11. Estas so as jias que o Esposo comea a dar Sua Esposa, e so de tanto valor que noas por em mau recato; porque ficam to esculpidas na memria estas vistas, que creio impossvel esquec-las at que as goze para sempre e, se assim no fora, seria para seu 59. grandssimo mal; mas o Esposo que lhas d, poderoso para lhe dar graas a fim de queno as perca.12. Pois, voltando ao nimo que preciso, parecer-vos- que to leve coisa? queverdadeiramente parece que a alma se aparta do corpo, porque se v a perder os sentidos, eno entende para qu. Mister , pois, que lho d Aquele que d tudo o mais. Direis que bempago vai este temor; assim digo eu tambm. Seja para sempre louvado Aquele que tantopode dar. Praza a Sua Majestade que nos d com que possamos servi-1O, amm.CAPTULO 6. Diz um efeito da orao que fica dita no captulo passado, com o qual seentendera que verdadeira e no engano. Trata de outra merc que o Senhor faz almapara a empregar em seus louvores.1. Destas mercs to grandes fica a alma to desejosa de gozar de todo de Quem lhas faz,que vive com grande tormento, embora saboroso; umas nsias grandssimas de morrer, eassim, com lgrimas constantes, pede a Deus que a tire deste desterro. Tudo, quanto vnele, a cansa; em vendo-se a ss, tem algum alvio, mas logo surge esta pena e, em estandosem ela, j no se acostuma. Enfim, no acaba esta borboletazinha por achar assento queperdure; antes, como anda a alma to terna de amor, qualquer ocasio que sirva para maisincender este fogo, a faz voar. E assim, nesta morada, so muito contnuos osarroubamentos, sem haver meio de os evitar, ainda que seja em pblico; e logo so asperseguies e murmuraes, que ainda que ela queira estar sem temores, no a deixam,porque so muitas as pessoas que lhos metem, em especial os confessores.2. E, ainda que no interior da alma parece que tem, por um lado, grande segurana, emespecial quando est a ss com Deus, por outro anda muito aflita, porque teme serenganada pelo demnio de maneira que ofenda a Quem tanto ama, que das murmuraessente pouca pena, a no ser quando o prprio confessor aperta com ela, como se ela pudessemais. No faz seno pedir oraes a todos, e suplicar a Sua Majestade que a leve por outrocaminho, porque lhe dizem que o faa, que este muito perigoso; mas, como ela achou porele to grande aproveitamento, que no pode deixar de ver que o tem, como l e ouve esabe pelos mandamentos de Deus o que leva ao Cu, no consegue desejar outro, emboraqueira, mas entrega-se em Suas mos. E at o no poder desejar isto lhe d pena, por lheparecer que no obedece ao confessor; pois em obedecer e no ofender a Nosso Senhor lheparece estar todo o seu remdio para no ser enganada; e assim no faria um pecado venialcom advertncia, segundo lhe parece, ainda que a fizessem em pedaos; e aflige-se muitode ver que no pode deixar de fazer muitos sem dar por isso.3. D Deus a estas almas um desejo to imensamente grande de no O descontentar emcoisa alguma, por pouquito que seja, nem fazer uma imperfeio, se pudesse, que s poristo, embora no fosse por mais nada, quereria fugir das gentes e tem grande inveja dos quevivem e tm vivido nos desertos. Por outro lado, quereria meter-se no meio do mundo, paraver se pode contribuir para que uma alma louve mais a Deus; e, se mulher, aflige-se de sever atada pelo seu natural, porque no pode fazer isto, e tem grande inveja dos que tmliberdade para dar vozes, publicando quem este grande Deus dos Exrcitos.4. Oh! pobre borboletazinha, atada com tantas cadeias, que no te deixam voar comoquererias! Tende compaixo dela, meu Deus; ordenai j de modo a ela poder cumprir emalguma coisa os desejos para Vossa honra e glria. No vos recordeis do pouco que merecee da baixeza do seu natural. Poderoso sois Vs, Senhor, para que se retire o grande mar e ogrande Jordo, e deixem passar os filhos de Israel. No lhe tenhais lstima, que, ajudada 60. com a Vossa fortaleza, pode passar muitos trabalhos; est determinada a isso e deseja-ospadecer. Estendei, Senhor, o Vosso poderoso brao; no se lhe passe a vida em coisas tobaixas. Resplandea a Vossa grandeza em coisa to feminil e baixa, para que, entendendo omundo que nada dela, Vos louvem a Vs, custe-lhe o que lhe custar, pois isso quer, e darmil vidas, se tantas tivera, para que uma s alma, por meio dela, Vos louve umpoucochinho mais; d-as por muito bem empregadas e entende com toda a verdade quenem merece padecer por Vs um trabalho muito pequeno, quanto mais morrer.5. No sei a que propsito disse isto, irms, nem para qu, que no me entendi a mimmesma. Entendamos que so estes os efeitos que ficam destas suspenses ou xtases, semdvida nenhuma; porque no so desejos que passam, mas que esto em um ser, e quandose oferece alguma coisa em que o mostrar, v-se que no eram fingidos. Para que digo quepermanecem em um ser? Algumas vezes se sente a alma cobarde, at nas coisas maisbaixas, e atemorizada com to pouco nimo que nem lhe parece possvel t-lo para coisaalguma. Entendo eu que o Senhor a deixa ento ao seu natural, para muito maior bem seu;porque v ento que, se teve nimo para alguma coisa, foi dado por Sua Majestade, e istocom uma claridade que a deixa aniquilada a si mesma e com maior conhecimento da glriade Deus e da Sua grandeza, pois, em coisa to baixa, a quis mostrar. Mas o mais habitual estar como antes dissemos.6. Mas adverti uma coisa, irms, nestes grandes desejos de ver a Nosso Senhor: oprimemtanto algumas vezes, que mister no ajudar a isso, seno distrair-vos, se podeis, digo;porque em outros casos, que direi adiante, no se pode, de maneira nenhuma, como vereis.Nestes princpios, alguma vez sim se poder, porque a razo est inteira para se conformarcom a vontade de Deus, e dizer o que dizia S. Martinho, e poder-se- volver o pensamentoa considerar outra coisa se muito apertam estes desejos; porque, como a nosso parecer, desejo que j parece de pessoas muito aproveitadas, bem o poderia mover o demnio paraque pensssemos que o estamos, e sempre bem andar com temor. Mas tenho para mimque ele nunca poder dar a quietude e a paz que esta pena d alma, mas ser movendocom isso alguma paixo, tal como se tem quando, por coisas do sculo, sentimos algumapena. Mas, quem no tiver experincia de uma e outra coisa, no o entender; e pensandoque uma grande coisa, ajudar esses desejos quanto puder, e far-lhe- muito dano sade;porque contnua esta pena ou pelo menos muito freqente.7.Adverti tambm que a compleio fraca costuma causar destas penas, em especial se empessoas ternas, que choram por qualquer coisita: mil vezes lhes far pensar que choram porDeus, no sendo assim. E at mesmo pode acontecer, (quando vm lgrimas por atacadodigo, que em certas ocasies, a cada palavrinha que oiam ou pensem de Deus, j lhes nopodem resistir), ter-se achegado algum humor ao corao, o qual ajuda mais a isto do que oamor que se tem a Deus, e parece que no ho de acabar de chorar; e, como j entenderamque as lgrimas so boas, no se vo mo, nem quereriam fazer outra coisa, e ajudamquanto podem a elas. Pretende aqui o demnio que se enfraqueam de tal maneira, quedepois nem possam ter orao nem guardar a Regra.8.Parece-me que vos estou vendo perguntar que devereis fazer, se em tudo vejo perigo, poisnuma coisa to boa como as lgrimas, me parece poder haver engano; que sou eu aenganada; e, bem pode ser, mas crede que no falo sem ter visto que o pode haver emalgumas pessoas, embora no em mim; porque no sou nada terna, antes tenho um coraoto duro, que algumas vezes me d pena; ainda que, quando o fogo l dentro grande, porduro que seja o corao, destila como faz um alambique; e bem entendereis quando vmdaqui as lgrimas, pois so muito confortadoras e pacificam, e no alvorotadoras, e poucas 61. vezes fazem mal. O bem que neste engano, - quando o for -, ser dano do corpo (digo, seh humildade) e no dano da alma; e mesmo quando no h engano, no ser mau ter estasuspeita.9. No pensemos que est tudo feito em chorando muito, mas deitemos mo ao trabalharmuito, e adquirir virtudes, porque o que nos h de fazer ao caso, e venham as lgrimasquando Deus as enviar, no fazendo ns diligncias para as ter. Estas deixaro regada estaterra seca, e so uma grande ajuda para ela dar fruto; e tanto mais, quanto menos caso delasfizermos, porque gua que cai do cu; a que tiramos, cansando-nos a cavar para a tirar,nada tem que ver com esta, pois muitas vezes cavaremos e ficaremos modas, e noacharemos nem uma poa de gua, quanto mais um poo manancial. Por isso, irms, tenhopor melhor que nos ponhamos diante do Senhor e olhemos Sua misericrdia e grandeza e nossa baixeza, e d-nos Ele o que quiser, quer seja gua, quer seja secura: Ele sabemelhor o que nos convm. E com isto andaremos descansadas e o demnio no ter tantaocasio para nos enganar.10. Entre estas coisas, h um tempo penosas e saborosas, d Nosso Senhor algumas vezesuns jbilos e orao estranha, que a alma no sabe entender o que . Para que, se vos fizeresta merc, O louveis muito e saibais que coisa que pode dar-se, a deixo aqui. , a meuparecer, uma grande unio das potncias, mas deixa-as Nosso Senhor com liberdade paragozarem deste gozo, e os sentidos na mesma, sem entenderem o que que gozam e como ogozam. Parece isto uma algaravia, mas certo passarem-se assim as coisas, e um gozo toexcessivo da alma, que ela no quereria goz-lo a ss, seno diz-lo a todos, a fim de aajudarem a louvar a Nosso Senhor, pois para isto vai todo o mpeto. Oh! que festas e quedemonstraes faria se, pudesse, para que todos entendessem o seu gozo! Parece que seachou a si mesma, e como o pai do filho prdigo, quereria convidar a todos e fazer grandesfestins, por ver a sua alma em estado que no pode duvidar que est em segurana, aomenos por ento. E tenho para mim que com razo; porque tanto gozo interior do maisntimo da alma, e com tanta paz, e todo o seu contento que s incita aos louvores de Deus,no possvel dar-lho o demnio.11. E muito , estando com este grande mpeto de alegria, que possa calar e dissimular, oque no pouco penoso. Isto devia sentir So Francisco, quando o encontraram os ladres,pois andava pelo campo gritando e lhes disse que era pregoeiro do grande Rei; e outrossantos, que se vo para os desertos para poder apregoar, como So Francisco, esteslouvores de Deus. Eu conheci um, chamado Frei Pedro de Alcntara, - pois creio que o ,segundo foi a sua vida -, o qual fazia isto mesmo, e o tinham por louco os que alguma vez oouviram.` Oh! que boa loucura, irms, se Deus no-la desse a todas! E quanta merc vos fezem vos ter num lugar onde, ainda mesmo que o Senhor vos faa esta, e deis mostra disso,antes ser para vos ajudar e no para murmurao, como fora se estivsseis no mundo, ondese usa to pouco este prego, que no de admirar que dele murmurem.12. Oh! desventurados tempos e miservel vida, na qual agora vivemos, e ditosas aquelas aquem coube to boa sorte, que esto fora do mundo! Algumas vezes para mim gozoparticular, quando; estando juntas, vejo estas irms t-lo interiormente to grande que, aque mais pode, mais louvores d a Nosso Senhor de se ver neste mosteiro; porque se vmuito claramente que saem aqueles louvores do interior da alma. Muitas vezes quereria,irms, que fizssemos isto, porque uma que comea, desperta as demais. E, em que melhorse pode empregar a vossa lngua quando estais juntas, do que em louvores de Deus, poistemos tanto por que Lhos dar? 62. 13. Praza a Sua Majestade dar-nos muitas vezes esta orao, pois to segura e de tantoslucros. Adquiri-la, no poderemos, porque muito sobrenatural; e acontece durar um dia, eanda a alma como algum que bebeu muito, mas no a ponto de ficar alienado dos sentidos;ou como um melanclico, que de todo no tenha perdido o siso, mas no sai duma coisaque se lhe ps na imaginao, nem h quem lha tire.Muito grosseiras comparaes so estas para coisa to preciosa, mas no alcana outras omeu engenho, porque isto assim: pois este gozo traz a alma to olvidada de si e de todasas coisas, que no adverte nem acerta a falar, a no ser no que procede do seu gozo, que solouvores de Deus. Ajudemos todas a esta alma, filhas minhas. Para que queremos ter maissiso? Que nos pode dar maior contento? E ajudem-nos todas as criaturas, por todos ossculos dos sculos, amm, amm, amm.CAPTULO 7. Trata de como a pena que sentem de seus pecados as almas a quemDeus faz as ditas mercs. Diz quo grande erro no se exercitar, por espiritual que seseja, em trazer presente a humanidade de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, e suasacratssima paixo e vida, e a Sua gloriosa Me e os santos. muito proveitoso.1. Parecer-vos-, irms, que estas almas, a quem o Senhor se comunica to particularmente(em especial no podero pensar isto que direi as que no tiverem chegado a estas mercs,porque se o tiverem gozado, e se de Deus, vero o que eu direi), estaro j to seguras deque ho de goz-lO para sempre, que no tero que temer nem que chorar seus pecados; eser um engano muito grande, porque a dor dos pecados cresce tanto mais quanto mais serecebe de nosso Deus. E tenho para mim que esta pena no nos deixar, at que estejamosonde nenhuma coisa no-la possa dar.2. verdade que umas vezes aperta mais que outras, e tambm de diferente maneira;porque no se lembra da pena que h de ter por eles, mas sim de como foi to ingrata aQuem tanto deve, e a Quem tanto merece ser servido; porque, nestas grandezas que se lhecomunicam, entende muito mais a de Deus. Espanta-se de como foi to atrevida; chora oseu pouco respeito; parece-lhe coisa to desatinada o seu desatino, que no acaba nunca deo lastimar, quando se lembra das coisas to baixas pelas quais deixava uma to grandeMajestade. Muito mais se lembra disto do que das mercs recebidas, sendo elas to grandescomo as ditas e as que esto por dizer; parece que as leva um rio caudaloso e as traz a seutempo; mas isto dos pecados esto como lodo, pois sempre parece que se avivam namemria e bem grande cruz.3. Sei de uma pessoa que, deixando de querer morrer para ver a Deus, o desejava para nosentir to habitualmente a pena de quo desagradecida tinha sido a Quem tanto deveusempre e havia de continuar a dever; e assim lhe parecia no poder haver ningum cujasmaldades pudessem chegar s suas, porque entendia que no haveria a quem Deus tantotivesse sofrido e tantas mercs tivesse feito. No que toca a medo do inferno, nenhum tm. Ode poderem vir a perder a Deus, s vezes aflige muito; mas poucas vezes. Todo o seutemor que no as deixe Deus de Sua mo e O venham a ofender, e se vejam em estado tomiservel como se viram em outros tempos, pois de sua prpria pena ou glria no tmcuidado; e, se desejam no estar muito tempo no purgatrio, mais para no estaremausentes de Deus, enquanto ali estiverem, do que pelas penas que ho de passar.4. Eu no teria por seguro, por favorecida que uma alma esteja de Deus, que ela seesquecesse de que nalgum tempo se viu em miservel estado; porque, embora seja coisapenosa, aproveita para muitas coisas. Talvez que, como eu tenho sido to ruim, me parea 63. isto, e esta a causa de o trazer sempre na memria; as que tm sido boas, no tero quesentir; embora sempre haja quebras enquanto vivemos neste corpo mortal. Para esta penano alivio nenhum pensar que Nosso Senhor j tem perdoados e esquecidos os pecados;antes acresce pena ver tanta bondade e fazerem-se mercs a quem no merecia seno oinferno. Penso que foi este um grande martrio em So Pedro e na Madalena; porque, comotinham o amor to acrescido e tinham recebido tantas mercs e tinham entendida a grandezae majestade de Deus, seria bem duro de sofrer, e com muito terno sentimento.5. Tambm vos parecer que quem goza de coisas to sublimes, no ter meditao nosmistrios da sacratssima Humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque j seexercitar toda em amor. Isto uma coisa que escrevi largamente em outra parte, econquanto nisso me tenham contradito e dito que no o entendo, porque so caminhos poronde leva Nosso Senhor e quando as almas j passaram dos princpios, melhor tratar emcoisas da Divindade e fugir das corpreas, a mim no me faro confessar que bomcaminho. Bem pode ser que me engane, e que digamos todos a mesma coisa; mas eu vi queo demnio me queria enganar por a, e assim estou to escarmentada, que penso, embora otenha dito mais vezes, dizer-vo-lo outra vez aqui, para que andeis nisto com muitaadvertncia; e olhai que ouso dizer que no acrediteis a quem vos disser outra coisa. Eprocurarei dar-me a entender melhor do que o fiz em outra parte; porque, porventura, sealgum que o escrever, como ele o disse, mais se alargasse em o declarar, dizia bem; masdiz-lo assim por junto s que no entendemos tanto, pode fazer muito mal.6. Tambm lhes parecer a algumas que no podem pensar na Paixo; pois menos poderopensar na Santssima Virgem, nem na vida dos Santos, que to grande proveito e alento nosd a sua memria. Eu no posso pensarem que pensam; porque, apartados de tudo o que corpreo, para espritos anglicos o estar sempre abrasados em amor, no para os quevivemos em corpo mortal, que preciso tratar, pensar e se acompanhar dos que, tendocorpo, fizeram to grandes faanhas por Deus; quanto mais apartar-se propositadamente detodo o nosso bem e remdio, que a Sacratssima Humanidade de Nosso Senhor JesusCristo. Eu no posso crer que o faam, mas no se entendem, e assim faro dano a si e aosoutros. Pelo menos eu lhes asseguro que no entram nestas duas ltimas moradas porque,se perdem o guia, que o bom Jesus, no acertaro com o caminho: muito j ser, se ficamnas outras moradas com segurana. Porque o mesmo Senhor nos disse que caminho etambm disse o Senhor que luz, e que ningum pode ir ao Pai seno por Ele; e quem Mev a Mim, v a Meu Pai. Diro que se d outro sentido a estas palavras. Eu no sei essesoutros sentidos; com este, que sempre a minha alma sente ser verdade, me tem ido muitobem.7. H algumas almas - e so muitas as que o tm tratado comigo - que, mal Nosso Senhorlhes chega a dar contemplao perfeita, quereriam sempre ficar-se ali, e no pode ser; masficam, com esta merc do Senhor de tal maneira, que depois no podem, como antes,discorrer nos mistrios da Paixo e da vida de Cristo. E no sei qual a causa, mas isto muito freqente: o entendimento fica mais inabilitado para a meditao. Creio que a causadeve ser esta: como na meditao tudo buscar a Deus, uma vez que O encontra e a almase acostuma a torna-1O a buscar por obra de vontade, j no se quer cansar com o trabalhodo entendimento. Tambm me parece que, como a vontade j est encendida, no quer estapotncia generosa aproveitar-se daqueloutra, se puder; e no faz mal, mas ser impossvel,em especial at que chegue a estas ltimas moradas, e perder tempo, porque muitas vezesprecisa de ser ajudada do entendimento para encender a vontade. 64. 8. E notai, irms, este ponto, que importante e assim o quero declarar melhor. Est a almadesejando empregar-se toda em amar e no quereria atender a outra coisa, mas no poderainda que queira; porque, ainda que a vontade no esteja morta, est amortecido o fogo quea costuma fazer arder, e preciso quem o sopre para de si lanar calor. Seria bom que aalma se ficasse para ali com esta aridez, esperando fogo do cu que queime este sacrifcioque est fazendo de si a Deus, como fez Elias, nosso Pai? No, por certo; nem bemesperar milagres. O Senhor os faz, quando servido, por amor desta alma, como fica dito ese dir adiante; mas Sua Majestade quer que nos tenhamos por to ruins que pensemos nomerecer que no-los faa, mas que nos ajudemos a ns mesmos em tudo o que pudermos. Etenho para mim que, at que morramos, por subida que seja a orao, isto necessrio.9. Verdade que, a quem o Senhor mete j na stima morada, muito poucas vezes, ouquase nunca, as que precisa de fazer esta diligncia, pela razo que nela direi, se melembrar; mas muito contnuo o no se apartar de andar com Cristo Nosso Senhor, por ummodo admirvel, em que divino e humano juntamente sempre sua companhia. Assim,pois, quando no se acendeu na vontade o fogo que fica dito, nem se sente a presena deDeus, preciso que a busquemos; que isto quer Sua Majestade como o fazia a Esposa nosCantares, e que perguntemos s criaturas quem as fez -, como diz Santo Agostinho, creioque nas suas Meditaes ou Confisses -, e no nos fiquemos pasmados, perdendo tempo, aesperar o que uma vez nos deu porque nos princpios poder ser que no no-lo d o Senhorem um ano, e at em muitos; Sua Majestade sabe o porqu; ns no havemos de querersab-lo, nem h para qu. Visto que sabemos o caminho e como nele havemos de contentara Deus pelos mandamentos e conselhos, e em pensar na Sua vida e morte, e no muito queLhe devemos, andemos nisto muito diligentes; o demais, venha quando o Senhor quiser.10. Aqui vem o responderem que no podem deter-se nestas coisas; e, pelo que fica dito,talvez tenham razo em certo modo. J sabeis que discorrer com o entendimento umacoisa, e representar a memria verdades ao entendimento, outra. Direis, talvez, que nome entendeis, e verdadeiramente poder ser que no o entenda eu para sab-lo dizer; masdi-lo-ei como souber. Chamo eu meditao ao discorrer muito com o entendimento destamaneira: comeamos a pensar na merc que Deus nos fez em nos dar o Seu nico Filho, eno paramos ali, mas vamos adiante aos mistrios de toda a Sua gloriosa vida; oucomeamos na orao do Horto, e no pra o entendimento at estar pregado na Cruz; outomamos um passo da Paixo, digamos tal como a priso, e andamos neste mistrioconsiderando, por mido, as coisas que h que pensar nele e que sentir, assim da traio deJudas, como da fuga dos Apstolos, e tudo o mais; e admirvel e muito meritria orao.11. Esta a orao que eu digo que ter razo para dizer que no a pode fazer quem chegoua ser levado por Deus a coisas sobrenaturais e perfeita contemplao; porque, - comodisse -, no sei a causa, mas o mais normal no poder. Mas no a ter, digo razo, se dizque no se detm nestes mistrios, nem os traz presentes muitas vezes, em especial quandoos celebra a Igreja Catlica; nem possvel que perca assim a memria a alma que recebeutanto de Deus em mostras de amor to preciosas, porque so vivas centelhas para a inflamarmais no amor que tem a Nosso Senhor; seno que a alma se no entende com a meditaoporque j entende estes mistrios por um modo mais perfeito. porque lhos representa oentendimento, e gravam-se-lhe na memria de tal maneira, que s de ver o Senhor cadopor terra com aquele espantoso suor no Horto, lhe basta no s para uma hora, seno paramuitos dias, vendo numa simples vista de olhos quem Ele , e quo ingratos temos sido ato grande pena. Mas logo acode a vontade, ainda que no seja com ternura, desejar servirem alguma coisa to grande merc e a desejar padecer alguma coisa por Quem tanto 65. padeceu e a outras coisas semelhantes, em que ocupa a memria e o entendimento. E creioque, por esta razo, no pode passar a discorrer mais largamente sobre a Paixo, e isto lhefaz parecer que no pode pensar nela.12. E se no faz isto, bem que o procure fazer, porque sei que no lho impedir a muitasubida orao, e no tenho por bem que no se exercite nisto muitas vezes. Se daqui asuspender o Senhor, que seja muito em boa hora, pois ainda que no queira, a far deixaraquilo em que est. E tenho por muito certo que no estorvo esta maneira de proceder,seno grande ajuda para todo o bem; o que seria estorvo se trabalhasse muito no discorrerque disse ao princpio, e tenho para mim que no poder quem chegou a mais. Bem podeser que sim, pois, por muitos caminhos leva Deus as almas; mas no se condenem por issoas que no puderem ir por ele; nem as julguem inabilitadas para gozar de to grandes benscomo esto encerrados nos mistrios do nosso Bem, Jesus Cristo; nem ningum me farentender, seja to espiritual quanto quiser, que ir bem por aqui.13. H uns princpios, e at meios, que tm algumas almas: logo que comeam a chegar orao de quietude e a gostar dos regalos e gostos que d o Senhor, parece-lhes que muitogrande coisa estarem ali sempre gostando. Mas creiam-me, e no se embeveam tanto -como j disse em outra parte - que a vida longa, h nela muitos trabalhos, termosnecessidade de olhar e ver como o nosso modelo Jesus Cristo os passou, e at SeusApstolos e Santos, para levarmos os nossos com perfeio. muito boa companhia o bomJesus para que nos apartemos dela e de Sua Sacratssima Me e gosta muito de que noscondoamos de Suas penas, embora deixemos o nosso contentamento e gosto algumas vezes.Tanto mais, filhas, que no to freqente o regalo na orao, que no haja tempo paratudo; e a que disser que est sempre no mesmo ser, eu o teria por suspeitoso; digo, quenunca poder fazer o que fica dito; e assim, tendo-vos tambm por tal, e procurai sair desseengano, e desembevecei-vos com todas as vossas foras; e, se no bastarem, digam-no prioresa, para que vos d um ofcio de tanto cuidado, que tire esse perigo; ao menos para ojuzo e para a cabea seria bem grande se durasse muito tempo.14. Creio que fica dado a entender quanto convm, por espirituais que sejam, no fugirtanto de coisas corpreas, que lhes parea at fazer dano a Humanidade sacratssima.Alegam o que o Senhor disse a Seus discpulos, que convinha que Ele se fosse. Eu noposso sofrer isto. Por certo que no o disse Sua Me Sacratssima, porque Ela estavafirme na f, sabia que era Deus e homem; e embora O amasse mais que eles, era com tantaperfeio, que isso antes A ajudava. No deviam estar ento os Apstolos to firmes na fcomo depois estiveram, e ns temos razo para estarmos agora. Eu vos digo, filhas, que otenho por caminho perigoso, e que o demnio poderia vir por aqui a fazer perder a devoopara com o Santssimo Sacramento.15. O engano que me pareceu a mim que eu levava, no chegou a tanto como isto, mas sima no gostar de pensar tanto em Nosso Senhor Jesus Cristo, e a ficar-me naqueleembevecimento, aguardando aquele regalo. E vi claramente que ia mal; porque, como no opodia ter sempre, andava o pensamento daqui para ali, e a alma, me parece, como uma averevoando, a qual no acha onde pousar, e perdendo muito tempo, e no aproveitando nasvirtudes nem medrando na orao. E no entendia a causa, nem a entenderia, a meuparecer, porque me parecia que era aquilo muito acertado; at que, tratando da orao quetrazia com uma pessoa serva de Deus, ela me avisou. Depois vi claramente como ia errada,e nunca se me acaba o pesar de ter havido algum tempo em que eu no entendesse que malse podia ganhar com to grande perda; e, mesmo quando pudesse, nenhum bem quero,seno adquirido por Quem nos vieram todos os bens. Seja Ele para sempre louvado, amm. 66. CAPTULO 8. Trata de como se comunica Deus a alma por viso intelectual e d algunsavisos. Diz os efeitos que faz quando verdadeira. Recomenda o segredo destas mercs.1. Para que vejais mais claramente, irms, que assim o que vos disse, e que quanto maisadiante vai uma alma mais acompanhada deste bom Jesus, ser bem que tratemos decomo, quando Sua Majestade o quer, no podemos mais seno andar sempre com Ele,como se v claramente pelas maneiras e modos com que Sua Majestade se nos comunica, enos mostra o amor que nos tem, por meio de algumas aparies e vises to admirveis. Epara que no fiqueis espantadas, se Ele vos fizer algumas destas mercs, quero dizer-vosem suma - se o Senhor for servido que acerte - alguma coisa destas, ainda que no no-lasfaa a ns, a fim de que O louvemos muito por assim se querer comunicar a uma criatura,sendo Ele de tanta majestade e poder.2. Acontece, estando a alma descuidada de que se lhe haja de fazer esta merc, nem terjamais pensado merec-la, que sente junto a si Jesus Cristo Nosso Senhor, embora no Oveja, nem com os olhos do corpo nem da alma. Chamam a isto viso intelectual, no seiporqu. Vi esta pessoa, a quem Deus lhe fez esta merc, com outras que adiante direi, muitofatigada nos princpios, porque no podia entender que coisa era aquela, pois no O via eentendia to certo ser Jesus Cristo Nosso Senhor quem se lhe mostrava daquela sorte, queno podia duvidar, digo, que estava ali aquela viso; se era de Deus ou no, conquantotrouxesse consigo grandes efeitos para julgar que era, todavia andava com medo, poisnunca tinha ouvido nada a respeito de viso intelectual, nem pensou que a houvesse de talsorte. Entendia, porm, muito claramente que era o Senhor quem lhe falava muitas vezes damaneira que fica ditada porque, at que lhe fez esta merc que digo, nunca sabia quem lhefalava, embora entendesse as palavras.3. Sei que, estando temerosa desta viso (porque no como as imaginrias que passamdepressa, antes dura muitos dias, e at mais de um ano alguma vez), foi ter com o seuconfessor muito aflita. Ele lhe disse que, se no via nada, como sabia que era NossoSenhor; que lhe dissesse que rosto tinha? Ela disse-lhe que no sabia, nem via rosto, nempodia dizer mais do que tinha dito; o que sabia era, que era Ele quem lhe falava, e que noera iluso. E ainda que lhe punham grandes temores muitas vezes no entanto, no podiaduvidar, em especial quando lhe dizia: No tenhas medo, que sou Eu. Tinham tanta foraestas palavras, que no o podia duvidar por ento, e ficava muito esforada e alegre com toboa companhia. Via claramente ser-lhe isso de grande ajuda para andar com uma habitualmemria de Deus, e um grande cuidado de no fazer coisa que Lhe desagradasse, porquelhe parecia que Ele a estava sempre olhando. E cada vez que queria tratar com SuaMajestade na orao, e mesmo fora dela, parecia-lhe estar to perto que no O podia deixarde ouvir; quanto a entender as palavras, no era quando ela queria, mas sim em qualqueraltura, quando era mister. Sentia que Ele andava a seu lado direito, mas no com essessentidos com que podemos sentir que est junto de ns uma pessoa; porque por outra viamais delicada, que no se saber dizer; mas to certo e com tanta certeza e at muito mais,porque bem se nos poderia afigurar, mas nisto no, vem com grandes lucros e efeitosinteriores, e no os poderia haver se fosse melancolia, nem to-pouco o demnio faria tantobem, nem a alma andaria com tanta paz e com to contnuos desejos de contentar a Deus, ecom tanto desprezo de tudo o que no a chega mais a Ele. E depois entendeu-se claramenteno ser demnio, porque mais e mais se ia dando a entender.4. Contudo sei que, por momentos, andava muito temerosa; outros com grandssimaconfuso, pois no sabia por onde lhe tinha vindo tanto bem. ramos, ela e eu, de tal 67. maneira uma s coisa, que no se passava coisa alguma em sua alma que eu o ignorasse, eassim posso ser boa testemunha, e podeis crer ser verdade tudo o que nisto disser. merc do Senhor, que traz consigo grandssima confuso e humildade. A ser do demnio,tudo seria ao contrrio. E, como coisa que notavelmente se entende ser dada por Deus, eno bastaria indstria humana para assim se poder sentir, de nenhum modo pode pensarquem isto tem, que este bem seu, mas sim dado pela mo de Deus. E embora, a meuparecer, sejam maiores mercs algumas das que ficam ditas, esta traz consigo um particularconhecimento de Deus, e desta companhia to contnua nasce um amor ternssimo para comSua Majestade, e uns desejos ainda maiores que os que ficam ditos, de se entregar toda aSeu servio, e uma limpeza de conscincia; porque em tudo faz advertir a presena que trazjunto a si. Porque, ainda que j saibamos que Deus est presente a tudo que fazemos, onosso natural tal, que se descuida de o pensar: o que no se pode descuidar aqui, pois adesperta o Senhor, que est junto dela. E mesmo as mercs que ficam ditas, como a almaanda quase de contnuo com amor atual quele a quem v ou entende estar junto a si, somuito mais freqentes.5. Enfim, no ganho da alma v-se que grandssima merc e muito, muito de apreciar eagradecer ao Senhor, que lha d; sem ela a poder merecer, e por nenhum tesouro nemdeleite da terra a trocaria. E assim, quando o Senhor servido tirar-lha, fica em muitasoledade; mas todas as diligncias possveis que fizesse para tornar a ter aquela companhia,aproveitam pouco; que isto d o Senhor quando quer, e no se pode adquirir. Algumasvezes, tambm a presena de algum santo, e tambm de grande proveito.6. Direis que, se no se v, como se entende que Cristo, ou quando a Sua Megloriosssima ou um santo? Isto no o saber dizer a alma, nem pode entender como oentende, seno que o sabe com uma grandssima certeza. Ainda quando o Senhor fala, maisfcil parece; mas conhecer ao santo que no fala, seno que parece que o coloca ali oSenhor para ajuda daquela alma e para sua companhia, mais para maravilhar. Assim sooutras coisas espirituais que no se sabem dizer, mas entende-se por elas quo baixo onosso natural para entender as imensas grandezas de Deus; pois estas mesmas no somoscapazes de atingir, seno que as receba com admirao e louvores a Sua Majestade a alma aquem Deus der. estas mercs. E d-Lhe assim particulares graas por elas, pois, j que no merc. que se faz a todos, h de se estimar muito, e procurar fazer maiores servios, poispor tantas maneiras a ajuda Deus para isso. Daqui lhe vem no se ter por isso em maiorconta, e parecer-lhe- que a que menos serve a Deus de quantos h na terra; porque lheparece,que, est mais obrigada a isso do que ningum, e qualquer falta que faz lhe trespassaas entranhas e com grandssima razo.7. Estes efeitos, que ficam ditos e com que anda a alma, qualquer de vs os poder advertirpara entender que no engano nem to-pouco iluso; porque - como disse -, no julgopossvel durar tanto tempo sendo coisa do demnio, fazendo to notvel proveito alma etrazendo-a com tanta paz interior, pois no do seu costume, nem pode, ainda mesmo quequeira, coisa to m como o demnio fazer tanto bem; porque logo haveria uns fumos deprpria estimao, e pensar ser melhor de que os outros. Mas este andar sempre a alma tounida a Deus e com o pensamento to ocupado nEle, daria tanta raiva ao demnio que,ainda que o intentasse, no voltaria muitas vezes; e Deus to fiel, que no permitir dar-lhe tanta entrada numa alma que no pretende outra coisa seno agradar a Sua Majestade, edar a vida por Sua honra e glria, mas sim ordenar de modo a que seja logo desenganada.8. No que eu teimo e ser que, se a alma andar da maneira como aqui se disse que adeixam estas mercs de Deus, Sua Majestade a far sair com vantagem, se permitir alguma 68. vez que o demnio se atreva a tent-la enganar, e este ficar corrido. Por isso, filhas, sealguma de vs for por este caminho - como disse - no andeis assombradas. Bom que hajatemor e andemos com mais cuidado; nem to-pouco andeis confiadas em que, por serdesto favorecidas, vos podeis descuidar mais, pois isto ser sinal de no ser de Deus, se novos virdes com os efeitos que ficam ditos. bom que aos princpios o comuniqueis debaixode confisso com um muito bom letrado, que so os que nos ho de esclarecer, ou, comalguma pessoa muito espiritual, se a houver; se no o for, melhor um muito letrado; e se ohouver, com um e com outro. E, se vos disserem que iluso, no se vos d nada disso:esta iluso, pouco mal ou bem pode fazer vossa alma; encomendai-vos DivinaMajestade, para que no consinta que sejais enganadas. Se vos disserem que o demnio,ser maior o trabalho; ainda que no o dir se bom letrado e houver os efeitos ditos; mas,quando o disser, eu sei que o mesmo Senhor que anda convosco, vos consolar eassegurar, e a ele lhe ir dando luz para que vo-la d a vs.9. Se pessoa que, embora tenha orao, no a tem levado o Senhor por esse caminho, logose espantar e o condenar. Por isso vos aconselho que seja muito letrado, e se se achar,tambm espiritual; e a prioresa d licena para isso, porque ainda que a alma v segura porver a sua boa vida, a prioresa est obrigada a deixar que se comunique, para que ambasandem com segurana. E, tratando com estas pessoas, aquiete-se e no ande mais a darparte destas coisas; porque algumas vezes, sem haver de que temer, pe o demnio unstemores to excessivos, que foram a alma a no se contentar por uma vez; em especial se oconfessor de pouca experincia, e ela o v medroso, e ele mesmo a faz andarcomunicando, vem-se a publicar o que de razo devia estar muito secreto, e a alma a serperseguida e atormentada. Porque, quando pensa que tudo est secreto, o v pblico; daquisucedem muitas coisas trabalhosas para ela, e poderiam suceder para a Ordem, segundoandam estes tempos. Assim, preciso grande aviso nisto, e o encomendo muito sprioresas.10. E no pense que, por uma irm ter coisas semelhantes, melhor d que as outras: leva oSenhor a cada uma como v ser mister. Boa preparao para vir a ser muito serva deDeus, se se ajuda; mas, s vezes, leva Deus por este caminho s mais fracas. E, assim, noh nisto que aprovar nem condenar, seno olhar s virtudes, e a quem serve a Nosso Senhorcom mais mortificao e humildade e limpeza de conscincia; essa ser a mais santa, aindaque, de certeza, pouco se pode aqui saber, at que o verdadeiro juiz d a cada um o quemerece. L nos espantaremos de ver quo diferente o Seu juzo do que podemos aquientender. Seja Ele para sempre louvado, amm.CAPTULO 9. Trata de como o Senhor se comunica alma por viso imaginria, e avisamuito que se guardem de desejar ir por este caminho. D para isso razes. muitoproveitoso.1. Venhamos agora s vises imaginrias, que dizem ser aquelas em que o demnio se podemeter mais do que nas j ditas, e assim deve ser; mas, quando so de Nosso Senhor, dealgum modo me parecem mais proveitosas, porque so mais conformes ao nosso natural;salvo das que o Senhor d a entender na ltima morada, que a estas nenhuma chega.2. Pois vejamos agora, como vos disse no captulo anterior, como est presente este Senhor: como se, num estojo de ouro, tivssemos uma pedra preciosa de grandssimo valor evirtude. Sabemos de certeza que est ali, ainda que nunca a tenhamos visto; mas a virtudeda pedra no deixa de nos aproveitar, se a trazemos conosco. E, conquanto nunca a 69. vssemos, nem por isso a deixamos de apreciar, porque, por experincia, temos visto quenos tem sarado de algumas enfermidades para as quais apropriada; mas no ousamosolhar para ela, nem abrir o relicrio, nem podemos; porque a maneira de o abrir s a sabe apessoa de quem a jia e, ainda que no-la tenha emprestado para que nos aproveitssemosdela, ficou-se com a chave e, como coisa sua, a abrir quando no-la quiser mostrar, e at aretomar, quando lhe parecer, como faz por vezes.3. Pois digamos agora que, algumas vezes a quer abrir por instantes para fazer bem a quema emprestou. Claro est que depois ser-lhe- de muito maior contentamento, quando selembrar do admirvel resplendor da pedra, e assim ela lhe ficar mais esculpida namemria. Pois, assim acontece aqui: quando Nosso Senhor servido regalar mais a estaalma, mostra-lhe claramente a Sua Sacratssima Humanidade da maneira que Ele quer; oucomo andava no mundo, ou depois de ressuscitado. E, embora seja com tanta presteza, quea poderamos comparar de um relmpago, fica to esculpida na imaginao esta imagemgloriosssima, que tenho por impossvel que se lhe tire at que a veja onde sempre a possagozar.4. Ainda que digo imagem, entende-se que no parece pintada a quem a v, mas simverdadeiramente viva, e algumas vezes est falando com a alma, e at mostrando-lhegrandes segredos. Mas haveis de entender que, embora nisto se detenha algum espao detempo, no se pode estar olhando para ela mais do que se est fitando o sol, e assim estavista passa sempre muito depressa; e, no porque o seu resplendor, como o do sol, faasofrer a vista interior, que a que v tudo isto (pois quando com a vista exterior, nosaberei dizer coisa nenhuma sobre isso, porque esta pessoa que digo, de quem toparticularmente posso falar, no tinha passado por isso; e do que no h experincia, mal sepode dar razo certa), que seu resplendor como uma luz infusa, e de um sol coberto deuma coisa to transparente como um diamante, se se pudera lavrar; como uma Holandaparecem as vestes, e quase de todas as vezes que Deus faz esta merc alma, fica-se emarroubamento, que no pode sua baixeza sofrer to espantosa vista.5. Digo espantosa, porque, com ser a mais formosa e de maior deleite que uma pessoapossa imaginar (embora vivesse mil anos e trabalhasse em o pensar, porque vai muito almde quanto cabe em nossa imaginao e entendimento), a sua presena de to grandssimamajestade que causa grande espanto alma. A ousadas, no preciso aqui perguntar comoa alma sabe quem , sem que lho tenham dito, pois se d bem a conhecer que o Senhor docu e da terra; o que no se d com os reis c deste mundo que, por si mesmos, em bempouco sero tidos, se no vai junto deles o seu acompanhamento, ou se no dizem quemso.6. Oh! Senhor, como Vos desconhecemos os cristos! Que ser aquele dia quando nosvierdes julgar? Pois vindo aqui, to de amizade, a tratar com Vossa esposa, infunde tantotemor o olhar para Vs!... Oh! filhas, que ser quando, com to rigorosa voz, disser: Ide,malditos de meu Pai?.7. Fique-nos agora isto na memria, desta merc que Deus faz alma, o que no ser parans pouco bem, pois So Jernimo, ainda que santo, no a apartava da sua memria e assimno nos parecer nada quanto aqui padecermos no rigor da religio que guardamos; poismesmo quando durar muito, um momento, comparado com aquela eternidade. Eu vosdigo de verdade que, com ser to ruim como sou, nunca tive tanto medo dos tormentos doinferno, que no fosse menos que nada em comparao do que tinha quando me lembravaque os condenados haviam de ver irados estes olhos to formosos e mansos e benignos doSenhor, porque parece que no o podia sofrer meu corao: isto tem sido toda a minha vida. 70. Quanto mais o temer a pessoa a quem assim se tem representado, pois tanto osentimento, que a deixa sem sentir! Esta deve ser a causa de ficarem suspenso; porque oSenhor ajuda sua fraqueza para que se junte com Sua grandeza nesta to subidacomunicao com Deus.8. Quando a alma puder estar com muito vagar olhando este Senhor, eu no creio que serviso, mas sim alguma veemente considerao, alguma figura fabricada na imaginao;ser como coisa morta em comparao com esta outra.9. Acontece a algumas pessoas (e sei que verdade, pois que o tm tratado comigo, e notrs ou quatro, seno muitas) serem de to fraca imaginao, ou de entendimento to eficaz,ou no sei o que , que se embevecem na imaginao de modo que tudo o que pensam, lhesparece claramente que o vem; se, porm, tivessem visto a verdadeira, entenderiam, semlhes ficar dvida alguma, o engano; porque elas mesmas que vo compondo o que vemcom a sua imaginao, e depois no faz isso nenhum efeito, mas ficam frias, muito mais doque se vissem uma imagem devota. coisa que bem se entende que no para fazer caso, eassim esquece-se muito mais do que uma coisa sonhada.10. Na viso de que tratamos no assim, seno que, estando a alma muito longe de cuidarque h de ver alguma coisa, nem lhe passa pelo pensamento; de repente se lhe representamuito por junto, e revolve todas as potncias e sentidos com um grande temor e alvoroto,para os pr logo naquela ditosa paz. Assim como, quando foi derrubado So Paulo, veioaquela tempestade e alvoroto do cu, assim aqui, neste mundo interior, se faz tambmgrande movimento, e num instante - como j disse - fica tudo sossegado e esta alma toensinada em umas verdades to grandes, que no precisa de outro mestre. A verdadeiraSabedoria, sem trabalho seu, tirou-lhe a ignorncia, e durante algum tempo a alma fica comuma certeza de que esta merc de Deus, que, por mais que lhe dissessem o contrrio,nunca lhe poderiam, por ento, meter o temor de que ali possa haver engano. Depois,metendo-lho o confessor, deixa-a Deus, para que ande vacilando se, por seus pecados, seriapossvel; mas no o acreditando - como eu disse nestas outras coisas - seno maneira detentaes em coisas de f, nas quais o demnio pode alvorotar, mas no pode fazer com quea alma deixe de estar firme; antes, quanto mais a combate, mais ela fica com a certeza deque o demnio no a poderia deixar com tantos bens, e assim , pois no pode tanto nointerior da alma; poder, sim, representar-lho, mas no com esta verdade e majestade eoperaes.11. Como isto no pode ser visto pelos confessores, nem, porventura, aqueles a quem Deusfaz esta merc lho sabero dizer, temem e com muita razo. E assim mister ir comcuidado, at aguardar o tempo do fruto que do estas aparies e ir, pouco a pouco, olhando humildade em que deixam a alma, e fortaleza na virtude; que, se demnio, depressadar sinal e o apanharo em mil mentiras. Se o confessor tem experincia e passou por estascoisas, pouco tempo precisa para o entender, pois logo ver na relao se Deus ouimaginao ou demnio; em especial, se Sua Majestade lhe deu o dom de conhecer osespritos, que, se o tem e se teta letras, embora no tenha experincia, o conhecer muitobem.12. O que muito preciso, irms, que andeis com grande lhaneza e verdade com oconfessor; no digo j em dizer os pecados, que isso claro est, seno em contar a vossaorao. Porque, se no h isto, no vos asseguro que ides bem, nem que Deus quem vosensina; porque Ele muito amigo de que, ao que est em Seu lugar, se trate com a mesmaverdade e claridade como a Ele mesmo, desejando que o confessor entenda todos os nossospensamentos, quanto mais as obras, por pequenas que sejam. E com isto no andeis depois 71. perturbadas nem inquietas, que, ainda mesmo que no fosse de Deus, se tendes humildade eboa conscincia, no vos danificar. Sua Majestade sabe tirar bens dos males e, pelocaminho por onde o demnio vos queria fazer perder, ganhareis mais. Pensando que Deusvos faz to grandes mercs, esforar-vos-eis em content-lO melhor e andar sempre com amemria ocupada na Sua imagem; porque, como dizia um grande letrado, o demnio grande pintor, e se lhe mostrasse, muito ao vivo, uma imagem do Senhor, que no lhepesaria avivar com ela a sua devoo e para fazer guerra ao demnio com suas mesmasmaldades; porque, ainda que um pintor seja muito mau, nem por isso se h de deixar dereverenciar a imagem que ele faz, se essa imagem a de todo o nosso Bem.13. Parecia-lhe muito mal o que alguns aconselham, que faam figas quando assim viremalguma viso; porque dizia que, onde quer que vejamos pintado o nosso Rei, O devemosreverenciar; e vejo que tinha razo, porque at mesmo aqui se sentiria. Se uma pessoa quequer bem a outra, soubesse que ela lhe fazia semelhantes vituprios ao seu retrato, nogostaria disso. Quanta maior razo no , pois, que sempre se tenha respeito onde quer quevejamos um crucifixo, ou qualquer retrato do nosso Imperador. Ainda que tenha escrito istoem outra parte, folgo de o pr aqui, porque vi uma pessoa andar aflita por lhe mandaremservir-se deste remdio. No sei quem o inventou para tanto atormentar a quem no podefazer menos do que obedecer, se o confessor lhe d este conselho, parecendo-lhe que vaiperdida se o no faz. O meu conselho que, embora vo-lo d, lhe digais esta razo comhumildade, e no o aceiteis. Em extremo me quadraram muito as boas razes que me deuquem mo disse neste caso.14. Grande lucro tira a alma desta merc do Senhor, pois, quando pensa nEle ou em SuaVida ou Paixo, recorda-se de seu mansssimo e formoso rosto, o que grandssimoconsolo, tal como aqui no-lo daria maior o ter visto uma pessoa que nos faz muito bem, doque se nunca a tivssemos conhecido. Eu vos digo que d grande consolao e proveito tosaborosa memria.Outros muitos bens traz consigo, mas como j tanto fica dito dos efeitos que fazem estascoisas, e se h de dizer mais ainda, no me quero cansar nem cansar-vos, mas s avisar-vosmuito que, quando souberdes ou ouvirdes que Deus faz estas mercs s almas, nunca Lhesupliqueis nem desejeis que vos leve por este caminho; [15] embora vos parea muito bom,e se haja de ter em muito e reverenciar, no convm faz-lo, por algumas razes: aprimeira, porque falta de humildade querer que se vos d o que nunca haveis merecido, eassim creio que no ter muita quem o desejar; porque, assim como um pequeno lavradorest longe de desejar ser rei, parecendo-lhe impossvel, porque no o merece, assimtambm o est o humilde de coisas semelhantes; e creio eu que estas coisas nunca se daro,porque, primeiro que faa estas mercs, d o Senhor um grande conhecimento prprio.Pois, como entender, com verdade, que se lhe faz uma muito grande merc em no estar jno inferno, quem tem tais pensamentos? A segunda, porque muito certo ser enganado, ouestar muito em perigo de o ser; porque o demnio no precisa mais do que ver umapequena porta aberta para fazer mil trapalhices. A terceira; que a mesma imaginao,quando h um grande desejo, faz entender prpria pessoa que ela v e ouve aquilo quedeseja, tal como os que andam com vontade de uma coisa durante o dia e pensando muitonela, lhes acontece virem a sonhar com ela de noite. A quarta, muito grande atrevimentoquerer eu escolher caminho, no sabendo qual o melhor, mas sim deixar ao Senhor, que meconhece, que me leve por aquele que me convm, para que em tudo faa a Sua vontade. Aquinta, pensais que so poucos os trabalhos que padecem aqueles a quem o Senhor faz estasmercs? No, so grandssimos e de muitas maneiras. E sabeis vs se sereis pessoas para 72. os sofrer? A sexta, porque talvez por a mesmo por onde pensais ganhar, perdereis, comoSaul, por ser rei.16. Enfim, irms, alm destas h outras; e crede-me que, o mais seguro, no querer senoo que Deus quer, pois nos conhece e ama mais do que ns mesmos. Ponhamo-nos em Suasmos, para que seja feita a Sua vontade em ns; e no poderemos errar se, com determinadavontade, nos ficamos sempre nisto. Deveis advertir que, por se receberem muitas mercsdestas, no se merece mais glria, porque antes ficam esses mais obrigados a servir, poisrecebem mais. Quanto ao merecer mais, no no-lo tira o Senhor, pois est na nossa mo; eassim h muitas pessoas santas que nunca souberam que coisa receber uma destas mercs,e outras que as recebem, e no o so. E no penseis que so contnuas; antes, por uma vezque o Senhor as faz, so muitos os trabalhos; e assim a alma no se lembra de pensar se ash de receber mais vezes, mas sim em como servir por elas.17. Verdade que deve ser isto de grandssima ajuda para se ter virtudes em mais subidaperfeio; ms aquele que as tiver por as ter ganho custa do seu trabalho, muito maismerecer. Eu sei de uma pessoa, a quem o Senhor tinha feito algumas destas mercs, - e atde duas, e uma era homem -, que estavam to desejosas de servir a Sua Majestade, suacusta, sem estes grandes regalos, e to ansiosas de padecer, que se queixavam a NossoSenhor porque lhas dava, e se pudessem no as receber, as escusariam. Digo regalos, nodestas vises porque, enfim, vem seu grande lucro e que so muito de estimar seno dosque o Senhor d na contemplao.18. Verdade que estes desejos tambm so sobrenaturais, a meu parecer, e de almas muitoenamoradas, as quais quereriam que o Senhor visse que no O servem a soldo; e assim, -como disse -, nunca se lembram de que ho de receber glria por qualquer coisa, para seesforarem mais a servir por esse motivo, mas sim para contentar o amor, cujo natural operar sempre de mil maneiras. Se pudesse, quereria buscar invenes para a alma seconsumir nEle; e, se fosse preciso ficar para sempre aniquilada para maior honra de Deus,fa-lo-ia de muito boa vontade. Seja Ele louvado para sempre, amm; que, abaixando-Se acomunicar com to miserveis criaturas, quer mostrar Sua grandeza.CAPTULO 10. Diz outras mercs que Deus faz alma por modo diferente das queficam agora ditas, e do grande proveito que delas fica.1. De muitas maneiras se comunica o Senhor alma com estas aparies; algumas, quandoest aflita; outras, quando lhe h de vir algum trabalho grande; outras, para Sua MajestadeSe regalar com ela e a regalar a ela. No h motivo para particularizar mais cada coisa, poismeu intento no seno dar a conhecer cada uma das diferenas que h neste caminho, atonde eu as entender, para que entendais, irms, de que maneira so e os efeitos que deixam;e tambm para que no se vos afigure que cada imaginao uma viso e para que, quandoo for, entendendo que possvel, no andeis alvorotadas e aflitas. Pois ganha muito odemnio, e goza grande de ver uma alma aflita e inquieta, porque v que isso lhe estorvo para se empregar toda em amar e louvar a Deus.Por outras maneiras se comunica Sua Majestade, assaz mais subidas e menos perigosas;porque o demnio, creio, no as poder contrafazer e, assim, mal se podem dizer, por sercoisa muito oculta, porquanto as imaginrias melhor se podem dar a entender.2. Acontece, quando o Senhor servido, estando a alma em orao e muito em seussentidos, vir-lhe de repente uma suspenso, na qual o Senhor lhe d a entender grandessegredos, que parece os v no mesmo Deus. Estas, porm, no so vises da sacratssima 73. Humanidade, e embora diga que v, no v nada, porque no viso imaginria, senointelectual, na qual se lhe descobre como em Deus se vem todas as coisas, e Ele as temtodas em Si mesmo. E de grande proveito, porque, ainda que passa num momento, ficamuito gravada, e causa grandssima confuso; v-se mais claramente a maldade de quandoofendemos a Deus, porque no mesmo Deus - digo, estando dentro dEle - fazemos grandesmaldades. Quero fazer uma comparao, se acertar, para vo-lo dar a entender, porque,embora isto seja assim e o ouamos muitas vezes, ou no reparamos nisso, ou no oqueremos entender, pois no parece que seria possvel sermos to atrevidos, se seentendesse tal como .3. Faamos agora de conta que Deus como uma morada ou palcio muito grande eformoso, e que este palcio, como digo, o mesmo Deus. Pode porventura o pecador, parafazer suas maldades, apartar-se deste palcio? No, por certo; seno que, dentro do mesmopalcio, que o mesmo Deus, passam-se as abominaes e desonestidades e maldades quefazemos ns os pecadores. Oh! coisa temerosa e digna de grande considerao e muitoproveitosa para os que sabemos pouco que no acabamos de entender estas verdades e noseria possvel ter atrevimento to desatinado! Consideremos, irms, a grande misericrdia esofrimento de Deus em no nos aniquilar ali imediatamente; e demos-Lhe muitas graas, etenhamos vergonha de nos sentirmos por coisa que se faa ou diga contra ns; que a maiormaldade do mundo ver que Deus Nosso Criador sofre tantas dentro de Si, mesmo s Suascriaturas, e que ns sintamos alguma vez uma, nica palavra que se diga em nossa ausncia,e talvez sem m inteno.4. Oh! misria humana! Quando, mas quando, filhas, imitaremos em alguma coisa estegrande Deus? Oh! e no se nos v afigurar que j fazemos algo em sofrer injrias! Maspassemos, de muito boa vontade, por tudo e amemos a quem no-las faz, pois este grandeDeus no deixou de nos amar a ns, ainda que O tenhamos ofendido muito, e assim Ele temrazo de sobejo em querer que todos perdoem, por mais agravos que lhes faam.Eu vos digo, filhas, que embora passe depressa esta viso, uma grande merc que fazNosso Senhor a quem a faz, se se quiser aproveitar dela, trazendo-a presente na memriamuito de habitualmente.5. Tambm acontece, assim muito de repente e de maneira que nem se sabe dizer, mostrarDeus em Si mesmo uma verdade que parece deixa obscurecidas todas as que h nascriaturas, e muito claramente d a entender que s Ele a verdade que no pode mentir; ed-se bem a entender o que diz David em um salmo, que todo o homem mentiroso; coisaque nunca jamais se entenderia assim, ainda que se ouvisse muitas vezes, e verdade queno pode falhar. Lembro-me de Pilatos, o muito que perguntava a Nosso Senhor, quandoem Sua Paixo Lhe disse: O que a verdade, e de quo pouco aqui entendemos destasuma Verdade.6. Eu quisera poder dar-me melhor a entender neste caso, mas no se pode dizer. Tiremosdaqui, irms, que, para nos conformarmos com o nosso Deus e Esposo em alguma coisa,ser bem que procuremos muito andar sempre nesta verdade. No digo s que no digamosmentiras, pois nisso, glria a Deus, j vejo que tendes em grande conta nestas casas de noa dizer por coisa nenhuma, mas que andemos em verdade diante de Deus e das gentes, dequantas maneiras pudermos; em especial, no querendo que nos tenham por melhores doque somos e, em nossas obras, dando a Deus o que Seu e a ns o que nosso, eprocurando em tudo a verdade, e assim termos em pouco este mundo que todo mentira efalsidade e, como tal, no perdurvel. 74. 7. Uma vez estava eu considerando por que razo era Nosso Senhor to amigo desta virtudeda humildade, e logo se me ps diante - a meu parecer sem eu considerar nisso, mas derepente - isto: porque Deus a suma Verdade, e a humildade andar na verdade. E muito grande verdade no termos coisa boa de ns mesmos, seno a misria e sermos nada;e, quem isto no entende, anda em mentira. Quem melhor o entende, mais agrada sumaVerdade, porque anda nela. Praza a Deus, irms, nos faa merc de no sairmos nuncadeste prprio conhecimento, amm.8. Nosso Senhor faz destas mercs alma, porque, como a verdadeira esposa, que j estdeterminada a fazerem tudo a Sua Vontade, lhe quer dar alguma notcia daquilo em que ah de fazer, e de Suas grandezas. No h para que tratar de mais coisas, e destas duas faleipor me parecer de grande proveito; pois, em coisas semelhantes no h que temer, senolouvar ao Senhor, porque as d; porque a meu parecer, nem o demnio, nem mesmo aimaginao prpria, tm aqui grande cabida; e assim a alma fica com grande satisfao.CAPTULO 11. Trata de uns desejos to grandes e impetuosos, que Deus d alma de Ogozar, que a pem em perigo de perder a vida, e do proveito que fica desta merc que oSenhor faz.1. Tero bastado todas estas mercs que o Esposo tem feito alma, para que a pombinha ouborboletazinha esteja satisfeita (no penseis que a tenho esquecida), e tome assento onde hde morrer? No, por certo; antes est muito pior. Ainda mesmo que haja muitos anos querecebe estes favores, sempre geme e anda chorosa, porque de cada um deles lhe fica maiordor. A causa porque, como vai conhecendo mais e mais as grandezas de Deus, e se vestar to ausente e apartada de O gozar, cresce muito mais o desejo; porque tambm cresceo amor, quanto mais se lhe descobre o muito que merece ser amado este grande Deus eSenhor; e nestes anos tem vindo crescendo, pouco a pouco, este desejo, de maneira que atrazem to grande pena, como agora direi. Disse anos, conformando-me com o que sepassou com a pessoa de que tenho falado aqui, que bem entendo que a Deus no h que prlimites, pois num momento pode fazer chegar uma alma ao mais subido quer aqui se diz.Poderoso Sua Majestade para tudo o que quiser fazer e desejoso de fazer muito por ns.2. Pois h ocasies em que estas nsias e lgrimas e suspiros e os grandes mpetos queficam ditos (e tudo isto parece proceder do nosso amor, com grande sentimento, mas tudono nada em comparao deste outro, porque este parece um fogo que est fumegando, epode sofrer-se, embora com pena), andando assim esta alma abrasando-se em si mesma,acontece muitas vezes, por um pensamento muito ligeiro, ou por uma palavra que ouve deque nos tarda o morrer, vir de outra parte - no se entende donde nem como - um golpe, oucomo se viesse uma seta de fogo? No digo que seta, mas, seja que coisa for, v-seclaramente que no podia proceder do nosso natural. Tambm no golpe, embora digagolpe; mas fere agudamente. E no , a meu parecer, onde se costumam sentir as penas,seno no muito fundo e ntimo da alma, onde este raio que passa depressa, deixa tudoquanto encontra, desta terra de nosso natural, feito em p. E, pelo tempo que dura, impossvel ter memria de coisa alguma do nosso ser; porque, num instante, ata aspotncias, de maneira que ficam sem nenhuma liberdade para nada, seno para as que lheho de fazer acrescer esta dor.3. No quereria que isto parecesse encarecimento, porque vou vendo verdadeiramente quefico aqum, porque no se pode dizer tudo. um arroubamento de sentidos e potncias,para tudo o que no , como disse, ajudar a sentir esta aflio. Porque o entendimento est 75. muito vivo para entender a razo que h para sentir o estar aquela alma ausente de Deus; eajuda Sua Majestade com to viva notcia de Si naquele tempo, de maneira que faz crescera pena em tal grau, que, quem a tem, comea a dar grandes gritos. Apesar de ser pessoasofrida e habituada a padecer grandes dores, no pode ento fazer mais; porque estesentimento no no corpo, como fica dito, mas sim no interior da alma. Por istocompreendeu esta pessoa quanto mais fortes so os sentimentos da alma que os do corpo, ese lhe representou ser desta maneira os que se padecem no purgatrio, pois, o no ter corpo,no impede de padecer muito mais que todos os que padecem c na terra, tendo-o.4. Eu vi uma pessoa assim, e verdadeiramente pensei que morria, e no era grandemaravilha, porque, na verdade, grande perigo de morte; e assim, ainda que dure pouco,deixa o corpo muito desconjuntado, e naquele tempo tem os pulsos to abertos, como se jquisesse dar a alma a Deus, e no para menos; porque o calor natural falta, e o abrasa demaneira que, com mais um pouco, ter-lhe-ia Deus cumprido seus desejos. No porque sintapouca ou muita dor no corpo (ainda que se desconjunta - como tenho dito - de maneira quefica durante uns dois ou trs dias sem ter foras sequer para poder escrever, e com grandesdores; e at me parece que o corpo lhe fica sempre com menos fora do que antes); o nosentir, deve ser porque muito maior o sentimento interior da alma, e no faz caso denenhuma coisa do corpo; como se tivssemos uma dor muito aguda em qualquer parte e,ainda que haja outras muitas, sentimo-las pouco; isto tenho-o eu bem provado. Aqui, nisto,nem pouco nem muito, nem creio sentiria se a fizessem em pedaos.5. Dir-me-eis que imperfeio; pois, porque no se conforma com a vontade de Deus, seLhe est to rendida? At aqui podia fazer isso, e com isso suportava a vida. Agora no,porque sua razo est de tal sorte, que no senhora dela, nem de pensar mais que ria razoque tem para penar; pois, se est ausente seu Bem, para que quer a vida? Sente umasoledade estranha, porque nenhuma criatura de toda a terra lhe faz companhia, nem creiolhe fariam as do Cu, a no ser Aquele a quem ama, antes tudo a atormenta. V-se comourna pessoa dependurada, que no assenta em coisa da terra, nem pode subir ao Cu;abrasada com esta sede, e no pode chegar gua. E no sede que se possa sofrer, mas jem tal extremo, que nenhuma gua lha tiraria, nem quer que se lhe tire, a no ser comaquela que Nosso Senhor disse Samaritana, e essa no lha do.6. Oh! valha-me Deus, Senhor, como afligis aos Vossos amadores! Mas tudo pouco parao que lhes dais depois. Bem que o muito custe muito; quanto mais que, se para purificaresta alma, a fim de que entre na stima morada, assim como os que ho de entrar no Cu selimpam no purgatrio, to pouco este padecer, como seria uma gota de gua no mar.Tanto mais que, com todo este tormento e aflio que, segundo creio, no o pode havermaior entre todas as aflies que h na terra, (e esta pessoa tinha passado muitas, assimcorporais como espirituais, mas tudo lhe parece nada em comparao com esta), a almasente que de tanto preo esta pena, que entende muito bem no a poder merecer; todaviaeste sentimento no de modo que a alivie em coisa alguma, mas, no entanto, a sofre demuito boa vontade, e sofreria toda a sua vida, se Deus nisso fosse servido; ainda que noseria morrer de uma vez, seno estar sempre morrendo; verdadeiramente no menos queisso.7. Pois consideremos, irms, aqueles que esto no inferno, que no esto com estaconformidade, nem com este contentamento e gosto que Deus pe na alma, nem vem lucroneste padecer, seno que padecem sempre mais e mais. Sendo os tormentos da alma muitomais custosos que os do corpo, e os que eles a padecem, maiores em comparao do queestes que temos aqui dito, e ver que estes sero para sempre sem fim, qual no ser o 76. tormento destas desventuradas almas? E que podemos fazer em vida to curta, ou padecer,que no seja menos que nada para nos livrar de to terrveis e eternos tormentos? Eu vosdigo que ser impossvel dar a entender quo sensvel coisa o padecer da alma e como diferente ao do corpo, se no se passa por isso; e quer o mesmo Senhor que o entendamos,para que melhor conheamos o muito e muito que Lhe devemos em nos trazer a estado emque, por Sua misericrdia, temos esperana de que nos h de livrar e perdoar nossospecados.8. Pois, tornando ao que tratvamos (que deixamos esta alma em grande pena), este rigorpouco lhe dura; ser, quando muito, trs ou quatro horas, a meu parecer, porque, se muitodurasse, a no ser por milagre, seria impossvel sofr-lo a fraqueza natural. J temacontecido no durar mais de um quarto de hora e ficar feita em pedaos. Verdade quedesta vez perdeu de todo os sentidos, tal o rigor com que veio (e estando em conversao naPscoa da Ressurreio, no ltimo dia, e tendo estado toda a Pscoa com tanta aridez, quequase no entendia que o era), s de ouvir uma palavra de no ver acabar-se a vida. Epensar-se em poder resistir! Nem mais que, se metida num fogo, quisesse fazer com que achama no tivesse calor para queimar. No sentimento que se possa passar comdissimulao, sem que as pessoas que esto presentes entendam o grande perigo em queest, embora do interior no possam ser testemunhas. verdade que lhe so de algumacompanhia, mas como se fossem sombras apenas; e assim lhe parecem todas as coisas daterra.9. E para que vejais que possvel, se alguma vez vos virdes nisto, acudir aqui nossafraqueza e natural, estando a alma como tendes visto, que morre por morrer, acontecealguma vez, quando isto aperta tanto que j parece que para sair do corpo no lhe faltaquase nada, que teme verdadeiramente e quereria ento que afrouxasse a pena para noacabar de morrer. Bem se deixa entender que este temor de fraqueza natural, pois, poroutra parte, no se tira o seu desejo, nem possvel haver remdio para tirar esta pena, atque lha tire o mesmo Senhor, o que quase sempre se d com um arroubamento grande, oucom alguma viso, onde o verdadeiro Consolados a consola e fortalece, para que queiraviver, enquanto for de Sua divina vontade.10. Coisa penosa esta, mas fica a alma com grandssimos efeitos e perdido o medo aostrabalhos que lhe podem suceder; porque, em comparao do sentimento to penoso quesentiu sua alma, lhe parece que no so nada. De tal maneira fica aproveitada, que gostariade a padecer muitas vezes. Mas tambm no pode faz-lo de maneira alguma, nem hremdio nenhum para a tornar a ter, at que o Senhor queira, assim como no o h para lheresistir nem tir-la quando vem. Fica com maior desprezo do mundo do que antes, porquev que nenhuma coisa dele lhe valeu naquele tormento, e muito mais desapegada dascriaturas, porque j v que s o Criador Quem pode consolar e fartar sua alma, e commaior temor e cuidado de no O ofender, porque v que tambm pode atormentar, assimcomo consolar.11. Duas coisas h neste caminho espiritual que me parece a mim serem perigo de morte:uma esta, e verdadeiramente o , e no pequeno; a outra, de muito excessivo gozo edeleite, o qual em to grandssimo extremo, que verdadeiramente parece desfalecer aalma, de sorte que no lhe falta mesmo nada para acabar de sair do corpo; e na verdade noseria pouca a sua dita.Aqui vereis, irms, se tive ou no razo em dizer que preciso nimo, e que ter razo oSenhor, quando Lhe pedirdes estas coisas, de vos dizer o que respondeu aos filhos deZebedeu: se poderiam beber o clice. 77. 12. Creio, irms, que todas responderemos que sim, e com muita razo; porque SuaMajestade d esforo a quem v que o necessita, e em tudo defende estas almas, e respondepor elas nas perseguies e murmuraes, como o fazia por Madalena, ainda que no sejapor palavras, ser por obras; e enfim, enfim, antes que morram, lhes paga tudo por junto,como agora vereis.Seja para sempre bendito, e louvem-nO todas as criaturas, amm. 78. STIMAS MORADASCAPTULO 1. Trata das grandes mercs que Deus faz s almas que chegaram a entrarnas stimas moradas. Diz como, a seu parecer, h alguma diferena entre alma eesprito, ainda que tudo seja um. H coisas dignas de ter em conta.1. Parecer-vos-, irms, que j est dito tanto deste caminho espiritual, que no possvelficar nada por dizer. Grande desatino seria pensar isto; pois, se a grandeza de Deus no temlimites, to-pouco o tero as Suas obras. Quem acabar de contar Suas misericrdias egrandezas? impossvel, e assim no vos espanteis do que est dito e do que se disser, poisno mais que uma insignificncia de quanto h para contar de Deus. Grande misericrdianos faz em ter comunicado estas coisas a pessoa de quem as podemos vir a saber, para que,quanto mais soubermos que se comunica s criaturas, mais louvemos Sua grandeza, e nosesforcemos por no ter em pouco almas com quem tanto se deleita o Senhor. Cada uma dens tem alma; porm, como no as prezamos como merece criatura feita imagem deDeus, no entendemos os grandes segredos que nelas esto contidos.Praza a Sua Majestade, se assim servido, mova minha pena e me d a entender comodizer-vos algo do muito que h para dizer, e Deus d a entender a quem introduz nestamorada. Muito o tenho suplicado a Sua Majestade, pois sabe que meu intento que nofiquem ocultas as Suas misericrdias, para que seja mais louvado e glorificado o SeuNome.2. Tenho esperana de que, no por mim, mas por vs, irms, Ele me h de fazer estamerc, para que entendais o que vos importa no ser por vossa culpa que vosso Esposodeixe de celebrar este matrimnio espiritual com vossas almas, pois traz tantos bensconsigo, como vereis. grande Deus! Parece que treme uma criatura to miservel comoeu, ao tratar de coisa to alheia d que mereo entender! E verdade que tenho estado emgrande confuso, pensando se seria melhor acabarem poucas palavras esta morada; porqueme parece que ho de pensar que eu sei isto por experincia, o que me causa grandssimavergonha, porque, conhecendo eu quem sou, terrvel coisa, Por outra parte, pareceu-metentao e fraqueza, embora faais mais juzos como este. Seja Deus louvado e conhecidoum nadinha mais, e grite contra mim todo o mundo; tanto mais que talvez eu j estejamorta, quando isto se vier a ler. Seja bendito Aquele que vive e viver para sempre, amm.3. Quando Nosso Senhor servido ter piedade do que padece e tem padecido por seu desejoesta alma, a quem espiritualmente j tomou por Esposa, antes de se consumar o matrimnioespiritual, mete-a em Sua morada, que esta stima; porque, assim como a tem no Cu,deve ter na alma uma manso, digamos outro cu, onde s mora Sua Majestade. Porqueimporta-nos muito, irms, que entendamos que a alma no alguma coisa escura; pois,como no a vemos, o mais freqente ser parecer que no h outra luz interior alm destaque vemos, e que dentro da nossa alma est alguma escurido. Da que no est em graa,eu vo-lo confesso, e no por falta do Sol de Justia, que est nela dando-lhe o ser; mas sim,por ela no estar capaz para receber a luz, como creio ter dito na primeira morada, que umapessoa tinha entendido que estas desventuradas almas esto assim como num crcereescuro, atadas de ps e mos, sem poderem fazer nenhum bem que lhes aproveite paramerecer, e cegas e mudas. Com razo nos podemos compadecer delas e olhar a que, nalgumtempo, nos vimos assim e que o Senhor pode tambm ter misericrdia delas. 79. 4. Tomemos, irms, particular cuidado de Lho suplicar e de no nos descuidarmos, pois grandssima esmola rogar pelos que esto em pecado mortal; muito maior do que seria sevssemos um cristo de mos atadas atrs das costas com uma forte cadeia, e amarrado aum poste, morrendo de fome, e no por falta de comida, pois tem junto de si mui apuradosmanjares, mas sim porque no os pode tomar para os levar boca; mesmo est com grandefastio, e v que vai j expirar, e no com morte como a de c; mas eterna. No seria grandecrueldade estar a olhar para ele e no lhe chegar boca qualquer coisa de comer? E se porvossas oraes lhe tirassem as cadeias? J estais a ver. Por amor de Deus vos peo quetenhais sempre nas vossas oraes uma lembrana para semelhantes almas.5. No falamos agora com elas, mas sim com as que, por misericrdia de Deus, j fizerampenitncia de seus pecados, e esto em graa. E podemos considerar a alma no uma coisametida a um canto e limitada, mas sim um mundo interior, onde cabem tantas e to lindasmoradas como tendes visto; e razo que assim seja, pois dentro desta alma h moradapara Deus.Quando, pois, Sua Majestade servido de lhe fazer a dita merc deste divino matrimnio,f-la primeiro entrar em Sua morada, e quer Sua Majestade que no seja como de outrasvezes que a meteu nestes arroubamentos, nos quais eu bem creio que a une ento consigo,assim como na orao de unio que fica dita, ainda que alma no parea que tochamada para entrar em seu centro, como aqui nesta morada, seno somente partesuperior. Nisto vai pouco; seja de uma maneira ou de outra, o Senhor a une consigo, masfazendo-a cega e muda, como ficou So Paulo em sua converso, e tirando-lhe o sentircomo ou de que maneira aquela merc que goza; porque o grande deleite que ento sentea alma de se ver junto de Deus. Mas, quando a junta consigo, nenhuma coisa entende,pois se perdem todas as potncias.6. Aqui de outra maneira. Quer j o nosso bom Deus tirar-lhe as escamas dos olhos, e queveja e entenda alguma coisa da merc que lhe faz, embora seja por uma maneira estranha; emetida naquela morada por viso intelectual, por certa maneira de representao daverdade, mostra-se-lhe a Santssima Trindade, todas as Trs Pessoas, com uma inflamaoque primeiro lhe vem ao esprito, maneira de tema nuvem de grandssima claridade. E poruma notcia admirvel, que se d alma, entende com grandssima verdade serem estasPessoas distintas todas Trs uma substncia e um poder e um saber e um s Deus. Demaneira que, o que acreditamos por f, ali o entende a alma, podemos dizer, por vista, aindaque no vista dos olhos do corpo, porque no viso imaginria. Aqui se lhe comunicamtodas as Trs Pessoas e lhe falam, e lhe do a entender aquelas palavras que diz oEvangelho que disse o Senhor: que viria Ele e o Pai e o Esprito Santo a morar com a almaque O ama e guarda Seus mandamentos.7. Oh! Valha-me Deus! Quo diferente coisa ouvir estas palavras e crer nelas, ou entenderpor este modo quo verdadeiras so! E cada dia se espanta mais esta alma, porque lheparece que nunca mais se apartam dela, antes v notoriamente, da maneira que fica dita,que esto no interior de sua alma, e no mais interior, em uma coisa muito profunda, que nosabe dizer como , porque no tem letras, sente em si esta divina companhia:8. Parecer-vos-, segundo isto, que no andar em si, mas to embebida que no possaatender a nada. Atende, sim e muito mais que antes, a tudo o que servio de Deus e, emlhe faltando as ocupaes, fica-se com aquela agradvel companhia; e, se a alma no falta aDeus, jamais Ele lhe faltar, a meu parecer, em lhe dar a conhecer to conhecidamente aSua presena; e ela tem grande confiana de que Deus no a deixar, pois, se lhe fez esta 80. merc, no para que a perca; e assim se pode pensar, ainda que ela no deixe de andarcom mais cuidado que nunca, para no Lhe desagradar em nada.9. O trazer em si esta presena entende-se que no to inteiramente, digo, to claramente,como se lhe manifesta na primeira vez e algumas outras em que Deus lhe quer fazer esteregalo; porque, se isto assim fosse, era impossvel atender a outra coisa, nem mesmo viverentre gente; mas, ainda que no com esta luz to clara, sempre adverte que se acha comesta companhia. Digamos agora que como se uma pessoa estivesse com outras numaposento muito claro, e fechassem as janelas e ficasse s escuras: no porque lhe tiraram aluz para as ver e porque at voltar luz no as v, deixa de entender que esto ali. casopara perguntar se, quando volta luz e ela as quer tornar a ver, se poder. Isto j no estem sua mo, mas s quando Nosso Senhor quer que se abra a janela do entendimento; jbem grande misericrdia lhe faz em nunca se apartar dela e de querer que ela o entenda toclaramente.10. Parece-me que a Divina Majestade quer aqui dispor a alma para mais com estaadmirvel companhia; porque est claro que ser bem ajudada para em tudo ir adiante naperfeio, e perder o temor que trazia algumas vezes, das demais mercs que lhe fazia,como fica dito. E assim foi, que em tudo se achava melhorada, e lhe parecia que, por maistrabalhos e negcios que tivesse, o essencial de sua alma jamais se movia daquele aposento.De maneira que lhe parecia, de certo modo, que havia diviso em sua alma, e andando comgrandes trabalhos, que os teve pouco depois de Deus lhe ter feito esta merc, queixava-sedela, maneira de Marta quando se queixou de Maria, e algumas vezes dizia que ela seficava sempre a gozar daquela quietude a seu prazer, e a deixava a ela em tantos trabalhos eocupaes, que no Lhe podia fazer companhia.11. Isto, filhas, parecer-vos- desatino, mas verdadeiramente passa-se assim; pois, aindaque se entende que a alma est toda junta, no fantasia o que disse, porque coisa muitocomum. Pelo que eu dizia que se vem coisas interiores, de maneira que certo entender-sehaver diferena, de certo modo, e muito conhecida, entre a alma e o esprito, embora sejatudo um. Conhece-se entre eles uma diviso to delicada, que algumas vezes parece operade diferente modo um do outro, conforme o sabor que lhes quer dar o Senhor. Tambm meparece que a alma coisa diferente das potncias, e que no tudo uma mesma coisa. Htantas e to delicadas no interior, que seria atrevimento pr-me eu a declar-las. L overemos, se o Senhor nos fizer merc de nos levar, por Sua misericrdia, aonde entendamosestes segredos.CAPTULO 2. Prossegue no mesmo. Diz a diferena que h entre unio espiritual ematrimnio espiritual. Declara-o com delicadas comparaes.1. Pois, venhamos agora a tratar do divino e espiritual matrimnio, ainda que esta grandemerc no se deve realizar com perfeio enquanto vivermos, pois, se nos apartssemos deDeus, perder-se-ia este to grande bem.A primeira vez que Deus faz esta merc, quer Sua Majestade mostrar-Se alma por visoimaginria de Sua sacratssima Humanidade, para que o entenda bem e no esteja ignorantede que recebe to soberano dom. A outras pessoas ser por outra forma; a esta de quemfalamos, representou-se-lhe o Senhor, acabando de comungar, em forma de granderesplendor e formosura e majestade, como depois de ressuscitado, e lhe disse que j eratempo dela tomar as coisas dEle por suas, e Ele teria cuidado das coisas dela, e outraspalavras que so mais para se sentir do que para se dizer. 81. 2. Parecer-vos- que isto no era novidade, pois j de outras vezes o Senhor tinha-serepresentado a esta alma desta maneira. Mas foi to diferente, que a deixou bem desatinadae espantada; primeiro, porque foi com grande fora esta viso; segundo, pelas palavras quelhe disse, e tambm porque no interior da sua alma, onde esta viso se lhe representou, notinha visto outras, a no ser a viso passada. E emendei que h grandssima diferena entretodas as vises passadas e as desta morada, e to. Grande entre o desposrio espiritual e omatrimnio espiritual, como a que h entre dois desposados, e os que j no se podemapartar.3. J disse que, embora se dem estas comparaes, porque no h outras mais a propsito,entenda-se que aqui no h mais memria de corpo de que se a alma j no estivesse nele,mas s de esprito; e no matrimnio espiritual muito menos, porque esta secreta uniopassa-se no centro mais interior da alma, que deve ser onde est o mesmo Deus, e, a meuparecer, no preciso porta para entrar. Digo que no preciso porta, porque em tudo o quese tem dito at aqui, parece que por meio dos sentidos e potncias e este aparecimento daHumanidade do Senhor assim devia ser; mas o que se passa na unio do matrimnioespiritual muito diferente. Aparece o Senhor neste centro da alma sem viso imaginria,mas intelectual, ainda que mais delicada que as ditas, como apareceu aos Apstolos, sementrar pela porta, quando lhes disse: "Pax vobis". um segredo to grande e uma merc tosubida o que Deus ali comunica alma num instante, e o grandssimo deleite que a almasente, que eu no sei a que o comparar: mas o Senhor quer-lhe manifestar, por aquelemomento, a glria que h no Cu, por uma maneira mais subida que nenhuma outra viso egosto espiritual. No se pode dizer mais seno que - tanto quanto se pode entender - fica aalma, digo, o esprito desta alma, feito uma coisa com Deus; pois, como Ele tambmesprito, Sua Majestade quis mostrar o amor que nos tem, dando a entender a algumaspessoas at onde chega, para que louvemos Sua grandeza, porque de tal maneira se quisjuntar com a criatura, que, assim como os que j se no podem apartar, no se quer Eleapartar dela.4. O desposrio espiritual diferente, pois muitas vezes se apartam, e a unio tambm o ;porque, embora unio seja juntarem-se duas coisas numa s, enfim, podem-se apartar eficar cada coisa de per si, como vemos ordinariamente que passa depressa esta merc doSenhor, e depois fica a alma sem aquela companhia, digo de modo que ela o entenda. Nestaoutra merc do Senhor, no; porque sempre fica a alma com o seu Deus naquele centro.Digamos que a unio como se duas velas de cera se juntassem em tal extremo, que toda aluz fosse uma, ou que o pavio, a luz e a cera fosse tudo um; mas depois pode-se apartarmuito bem uma vela da outra, e ficam duas velas, e o pavio da cera. Aqui, como se cassegua do cu num rio ou numa fonte, onde fica tudo feito gua e no se poder j dividirnem apartar o que gua do rio e a que caiu do cu; ou se um pequeno arroiozito entra nomar, no haver meio de os apartar; ou como, se num aposento houvesse duas janelas poronde entrasse muita luz; ainda que entra dividida, se faz toda uma luz.5. Talvez seja isto o que disse So Paulo: O que se arrima e chega a Deus, faz-se umesprito com Ele, tocante a este soberano matrimnio, que pressupe Sua Majestade j terchegado a Si a alma por unio. E tambm disse: Mihi vivere Christus est, mori lucrum;assim me parece pode dizer aqui a alma, porque onde a borboletazinha que dissemos;morre, e com grandssimo gozo, porque a sua vida j Cristo.6. Isto entende-se melhor, com o andar do tempo, pelos efeitos, porque se entendeclaramente, por umas secretas aspiraes, ser Deus o que d vida nossa alma, e muitasvezes to vivas, que de maneira nenhuma se pode duvidar, porque as sente muito bem a 82. alma, ainda que no se sabem dizer, mas tanto este sentimento que produzem algumasvezes umas palavras regaladas; que parece que no se pode deixar de dizer: vida daminha vida, e sustento que me sustentas! E coisas deste gnero. Porque, daqueles peitosdivinos, onde parece Deus estar sempre sustentando a alma, saem uns veios de leite, queconforta toda a gente do castelo; parece querer o Senhor que de algum modo gozem domuito que goza a alma, e que daquele rio caudaloso, onde se absorve esta fontezitapequenina, saia algumas vezes algum jacto daquela gua para sustentar aqueles que nocorporal ho de servir a estes dois desposados. E, assim como sentiria esta gua uma pessoaque est descuidada, se a banhassem de repente nela, e no podia deixar de o sentir, damesma maneira, e ainda com mais certeza, se entendem estas operaes que digo. Porque,assim como no nos poderia sobrevir um grande jacto de gua, se no tivesse seu princpio- como disse -, assim tambm se entende claramente que h no interior da alma Quemarroje estas setas e d vida a esta vida, e que h sol donde procede uma grande luz, enviadado interior da alma s potncias. Ela - como j disse - no se muda daquele centro, nemperde a paz; porque o mesmo Senhor que a deu aos Apstolos, quando estavam juntos, lhapode dar a ela.7. Tenho-me lembrado que esta saudao do Senhor devia ser muito mais do que soa, assimcomo o dizer gloriosa Madalena que fosse em paz; porque, como as palavras do Senhorso em ns como obras feitas, de tal modo deviam operar naquelas almas j dispostas, queapartasse nelas tudo o que corpreo na alma, e a deixasse como puro esprito, para que sepudesse juntar nessa unio celestial com o Esprito incriado, pois muito certo que, em nosesvaziando de tudo o que criatura, e desapegando-nos dela por amor de Deus, o mesmoSenhor a h de encher de Si mesmo. E assim, orando uma vez Jesus Cristo Nosso Senhorpor Seus Apstolos - no sei onde -, disse que fossem uma coisa com o Pai e com Ele,como Jesus Cristo est no Pai e o Pai est nEle. No sei que maior amor pode haver do queeste! E aqui no deixamos todos de entrar, pois assim o disse Sua Majestade: No rogo spor eles, seno por todos aqueles que ho de crer tambm em Mim, e diz ainda: Eu estouneles.8. Oh! Valha-me Deus! Que palavras to verdadeiras, e como as entende a alma, que nestaorao o v por si mesma! E como o entenderamos todas, se no fosse por nossa culpa!Porque as palavras de Jesus Cristo, nosso Rei e Senhor, no podem falhar! Mas, como nsfaltamos em nos dispor e desviar de tudo o que pode embaraar esta luz, no nos vemosneste espelho que contemplamos, onde est esculpida a nossa imagem.9. Voltando pois ao que dizamos, em o Senhor metendo alma nesta Sua morada, que ocentro da mesma alma, assim como dizem que o cu empreo, onde est Nosso Senhor, nose move como os demais, assim parece que, em entrando aqui, j no h nesta alma osmovimentos que costuma haver nas potncias e imaginao, de modo que a prejudiquem elhe tirem a paz.Parece que quero dizer que, chegando a alma a ponto de Deus lhe fazer esta merc, estsegura da sua salvao e de no tornar a cair. No digo tal; e em quantas partes o tratardesta maneira, dizendo que parece, estar a alma em segurana, entenda-se que enquanto aDivina Majestade a tiver assim de Sua mo, e ela no O ofender. Pelo menos, sei de certezaque, embora se veja neste estado e lhe tenha durado anos, no se tem por segura, mas simque anda com muito mais temor que antes em se guardar de qualquer pequena ofensa aDeus, e com to grandes desejos de O servir, como se dir adiante, e habitualmente compena e confuso de ver o pouco, que pode fazer e o muito a que est obrigada, que no pequena cruz, seno bem grande penitncia, porque, quanto a fazer penitncia esta alma, 83. quanto maior, mais prazer lhe d. A verdadeira penitncia para ela quando Deus lhe tira asade e as foras para a poder fazer; pois, ainda que noutra parte disse a grande pena queisto lhe d, aqui muito maior, e tudo lhe deve vir de onde est plantada a raiz; pois, assimcomo a rvore que est junto das correntes das guas tem mais frescor e d mais fruto, porque maravilhar-nos dos desejos que tenha esta alma, se o verdadeiro esprito dela est feitoum com a gua celestial, que dissemos?10. Pois, voltando ao que dizia, no se entenda que as potncias, sentidos e paixes estosempre nesta paz; a alma sim. Mas nestas moradas no deixa de haver tempos de guerra, detrabalhos e de fadigas; mas so de maneira que no sai da sua paz nem do seu posto: isto o normal?Este centro da nossa alma, ou este esprito, coisa to dificultosa de dizer, e at mesmo decrer, que, por no me saber dar a entender, penso vos d, irms, alguma tentao de nocrer o que digo; porque dizer que h trabalhos e penas, e que a alma est em paz, coisadificultosa de acreditar. Quero dar-vos uma comparao ou duas: praza a Deus que, sejamtais que diga alguma coisa com elas; mas, se assim no for, eu sei que sou verdadeira noque digo.11. Est o Rei no seu palcio, e h muitas guerras em seu reino, e muitas coisas penosas,mas nem por isso deixa de estar em seu posto; assim tambm aqui, embora nessas outrasmoradas ande muita barafunda e haja feras peonhentas, e se oua o rudo, ningum entranaquela morada que a faa sair dali; nem as coisas que ouve, ainda que lhe dem algumapena, no de modo a que alvorocem e lhe tirem a paz, porque as paixes esto jvencidas, de sorte que tm medo de entrar ali, porque sairo mais rendidas. Di-nos todo ocorpo; mas, se a cabea est s, porque nos di o corpo, no doer a cabea. Estou-me a rirdestas comparaes, que no me contentam, mas no sei outras. Pensai o que quiserdes;mas verdade o que disse.CAPTULO 3. Trata dos grandes efeitos que causa esta dita orao. preciso prestarateno, e lembrar-se dos efeitos que faz, porque coisa admirvel a diferena que hentre estes e. os anteriores.1. Agora, pois, dizemos que esta pequena borboleta j morreu, com grandssima alegria deter encontrado repouso, e que nela vive Cristo. Vejamos que vida faz, ou que diferena hde quando ela vivia; porque nos efeitos veremos se verdadeiro o que ficou dito. Ao que euposso entender, so os que direi.2. Primeiro, um esquecimento de si, que verdadeiramente parece que j no existe, comofica dito; porque est toda ela de tal maneira, que no se conhece nem se lembra que paraela h de haver cu, nem vida, nem honra, porque est toda empregada em procurar a deDeus; parece que as palavras que Sua Majestade lhe disse fizeram efeito de obra, e foi queolhasse pelas coisas dEle, que Ele olharia pelas suas? E assim, de tudo quanto podesuceder, no tem cuidado, mas sim um estranho esquecimento, pois, - como digo -, pareceque j no , nem quereria ser nada de nada, a no ser quando entende que pode haver, dasua parte, alguma coisa com que acrescente um ponto glria e honra de Deus, porquantoela daria por isto, de muito boa vontade, a sua vida.3. No entendais por isto, filhas, que deixe de ter conta com dormir e comer, o que no lhe pequeno tormento, e de fazer tudo a que est obrigada conforme a seu estado; falamos emcoisas interiores, que de obras exteriores pouco h a dizer; antes esta a sua pena: ver que 84. nada o que podem as suas foras. Em tudo que pode e entende que servio de NossoSenhor, no o deixaria de fazer por nenhuma coisa da terra.4. O segundo um grande desejo de padecer, mas no de modo a inquiet-la, comocostumava; porque em tanto extremo o desejo que fica nestas almas de que se faa nelas avontade de Deus, que tudo que Sua Majestade faz, tm por bom. Se quiser que padea,seja muito em boa hora; se no, no se mata por isso como costumava.5. Tm tambm estas almas um grande gozo interior quando so perseguidas, com muitomais paz do que ficou dito, e sem nenhuma inimizade para com aqueles que lhes fazem malou desejam fazer; antes; lhes cobram particular amor, de maneira que, se os vem emalgum trabalho, sentem-no ternamente, e tomariam qualquer trabalho sobre si para os livrardele, e encomendam-nos a Deus de muito boa vontade, e das mercs que lhes faz SuaMajestade folgariam perder, para que as fizesse a eles, a fim de que no ofendam a NossoSenhor.6. O que mais me espanta de tudo isto, que j tendes visto os trabalhos e aflies quetiveram estas almas desejando morrer para gozar de Nosso Senhor; agora to grande odesejo que tm de O servir, e que por elas seja louvado, e de fazer aproveitar alguma alma,se puderem, que no s no desejam morrer, mas sim viver muitos anos padecendograndssimos trabalhos, para que, se pudessem, o Senhor fosse louvado por elas, emborafosse em coisa muito pouca. E se soubessem de certeza que, em saindo a alma do corpo,haviam de gozar de Deus, isso no lhes faz ao caso, nem o pensar na glria que tm osSantos; no desejam, por ento, de se verem nela. A sua glria, tm-na posta em poderajudar alguma coisa ao Crucificado, em especial quando vem que to ofendido, e ospoucos que h que olhem deveras por Sua honra, desprendidos de tudo o mais.7. verdade que, algumas vezes que se esquece disto, voltam com ternura os desejos degozar de Deus e desejar sair deste desterro, em especial vendo que O serve to pouco; maslogo torna a si e v que O tem de contnuo consigo, e com isto se contenta, e oferece a SuaMajestade o querer viver, como uma oferenda, a mais custosa que ela Lhe pode dar.Temor nenhum tem da morte, no mais do que teria de um suave arroubamento. O caso que, Quem lhe dava aqueles desejos com tormento to excessivo, lhe d agora estes. Sejapara sempre bendito e louvado.8. Enfim, os desejos destas almas j no so de regalos nem de gostos, pois tm consigo omesmo Senhor, e Sua Majestade Quem agora vive. Claro est que Sua vida no foi senoum contnuo tormento, e assim faz com que o seja a nossa, ao menos em desejos, pois nosleva como a fracos no resto, ainda que muito nos caiba de Sua fortaleza quando v que delatm necessidade.H um desapego grande de tudo, e um grande desejo de estar sempre a ss ou ocupados emcoisa que seja de proveito para alguma alma. Nem aridez, nem trabalhos interiores, mas simuma memria e ternura com Nosso Senhor, que no quereria estar seno dando-Lhelouvores; e quando nisto se descuida, o mesmo Senhor a desperta da maneira que fica dita,em que se v clarissimamente que aquele impulso, ou no sei como lhe chame, procede dointerior da alma, como se disse dos mpetos. Aqui, com grande suavidade, mas nemprocede do pensamento, nem da memria, nem de coisa que se possa entender que a almatenha feito de sua parte. Isto to habitual e tantas vezes -que se pode ver bem, comadvertncia -, porque, assim como um fogo, por maior que o queiram acender, no deita achama para baixo mas para cima, assim tambm se entende aqui que este movimentointerior procede do centro da alma e desperta as potncias. 85. 9. Por certo que, quando no houvesse outro ganho neste caminho de orao, senoentender o particular cuidado que Deus tem de se comunicar conosco e de nos andarrogando - que no parece isto outra coisa - para que estejamos com Ele, bem empregadosme parecem todos os trabalhos que se passam para gozar destes toques do Seu amor, tosuaves e penetrantes.Isto, irms, tereis experimentado; porque penso que, em se chegando a ter orao de unio,anda o Senhor com este cuidado, se ns no nos descuidamos de guardar Seusmandamentos. Quando isto vos acontecer, lembrai-vos que desta morada interior, ondeest Deus em nossa alma, que vm estes toques, e louvai-O muito; porque certamente Seuaquele recado ou bilhete escrito com tanto amor, e de maneira que s quer que vsentendais aquela letra e o que por ela vos pede. E de maneira nenhuma deixeis de respondera Sua Majestade, ainda que estejais ocupadas exteriormente e em conversao com algumaspessoas; porque acontecer muitas vezes querer-vos Nosso Senhor fazer esta secreta mercem Pblico, e - como a resposta h de ser interior -, muito fcil fazer o que digo, fazendoum ato de amor, ou dizer o que disse So Paulo: que quereis Senhor que eu faa? Demuitas maneiras vos ensinar aliem que Lhe agradar, e tempo aceitvel; porque pareceque se entende que Ele nos ouve, e quase sempre este toque to delicado dispe a alma parapoder fazer o que fica dito, com vontade determinada.10. A diferena que h aqui nesta morada, o que j se disse; que quase nunca h arideznem alvorotos interiores, como havia em todas as outras, de tempos a tempos, seno que aalma est quase sempre em quietude; o no temer que esta merc to subida possa sercontrafeita pelo demnio, mas estar em um ser com a certeza de que Deus; porque - comofica dito - nada tm que ver aqui os sentidos nem as potncias; pois se descobriu SuaMajestade alma, e a meteu consigo onde, a meu parecer, no ousar entrar o demnio,nem o Senhor o deixar; e todas as mercs que Deus faz aqui alma, so - como j disse -sem nenhuma ajuda da mesma alma, a no ser a que ela j fez de se entregar toda a Deus.11. Passa-se com tanta quietude e to sem rudo tudo quanto o Senhor aqui faz e ensinapara aproveitamento da alma, que me parece a mim que como na edificao do templo deSalomo, onde no se havia de ouvir nenhum rudo; assim neste templo de Deus, nesta Suamorada, s Ele e a alma se gozam com grandssimo silncio. No tem que bulir nem buscarnada o entendimento; o Senhor que o criou, o quer sossegar aqui, e que por uma pequenafresta veja o que se passa. Embora de tempos a tempos se perca esta vista e o no deixeolhar, pouqussimo o intervalo; porque, a meu parecer, aqui no se perdem as potncias,mas no operam e esto como espantadas.12. Eu tambm o estou ao ver que, em chegando aqui a alma, tiram-se-lhe todos osarroubamentos, a no ser uma ou outra vez, e esta no com aqueles arrebatamentos e vo deesprito. E so muito raras vezes e essas quase sempre no em pblico como antes, o queera muito habitual, nem lhe fazem ao caso as grandes ocasies de devoo que tem, comoantes lhe acontecia; porque, se via uma imagem devota ou ouvia um sermo, ou msica, eraquase o mesmo como se no ouvisse; e como a pobre borboleta andava to ansiosa, tudo aespantava e a fazia voar. Agora, ou porque encontrou seu repouso, ou porque a alma temvisto tanto nesta morada, ou ainda porque no se acha com aquela soledade que costumavasentir, no se espanta de nada, pois goza de tal companhia. Enfim, irms, eu no sei qualseja a causa, mas, em comeando o Senhor a mostrar o que h nesta morada, e em metendoali a alma, tira-se-lhe esta grande fraqueza, que lhe dava no pouco trabalho, da qual antesela se no libertara. Talvez seja que o Senhor a tenha fortalecido, dilatado e habilitado; oupode ser que quisesse dar a entender em pblico o que fazia com estas almas em segredo, 86. por alguns fins que Sua Majestade sabe; Seus juzos esto acima de tudo quanto aquipodemos imaginar.13. Estes efeitos, assim como todos os demais que temos dito serem bons nos graus deorao que ficam ditos, d-os Deus quando achega a Si a alma, com este sculo que pedia aEsposa, pois eu entendo que se cumpre aqui esta petio. Aqui se do as guas emabundncia a esta cora que vai ferida. Aqui se deleita no tabernculo de Deus. Aqui acha apombinha, que No enviou a ver se era acabada a tempestade, a oliveira, em sinal de queachou terra firme no meio das guas e tempestade deste mundo. Oh! Jesus! Quem soubesseas muitas coisas da Escritura que deve haver para dar a entender esta paz de alma! Deusmeu! Pois vedes quanto importa, fazei que os cristos a queiram buscar, e queles a quem atendes dado, no lha tireis, por Vossa misericrdia; que, enfim, at que lhe deis averdadeira e a leveis aonde ela se no pode acabar, sempre se h de viver com este temor.Digo a verdadeira paz, no porque entenda que esta no o , mas porque se poderia voltar guerra primeira, se nos apartssemos de Deus.14. Mas, que sentiro estas almas ao ver que poderiam carecer de to grande bem? Isto asfaz andar mais cuidadosas, e procurar tirar foras de sua fraqueza, para no deixarem, porsua culpa, de fazer coisa que se lhes possa oferecer, para mais agradar a Deus. Quanto maisfavorecidas de Sua Majestade, tanto mais acobardadas e temerosas andam de si mesmas. E;como nestas grandezas divinas, mais tm conhecido suas prprias misrias, e se lhe tornamreais graves os seus pecados, andam muitas vezes de modo que no ousam alar os olhos,como o Publicano; outras, com desejos de acabar a vida para se verem em segurana, aindaque voltam logo, com o amor que Lhe tm, a querer viver para O servir - como fica dito - econfiam, tudo quanto lhes toca, da Sua misericrdia. Algumas vezes as muitas mercs asfazem andar mais aniquiladas, pois temem que, como uma nau que vai com demasiadacarga se vai ao fundo, lhe acontea o mesmo.15. Digo-vos, irms, que no lhes falta cruz, salvo que no as inquieta nem lhes faz perder apaz; mas passam depressa, como uma onda, algumas tempestades, e torna a bonana;porque a presena do Senhor que trazem consigo, faz com que logo lhes esquea tudo. SejaEle para sempre bendito e louvado por todas as Suas criaturas, amm.CAPTULO 4. Com o qual acaba, dando a entender o que lhe parece que pretende NossoSenhor em fazer to grandes mercs alma, e como necessrio que andem juntasMarta e Maria. muito proveitoso.1. No haveis de entender, irms, que estes efeitos que tenho dito, esto sempre em ummesmo ser nestas almas e por isso, quando me lembro, digo habitualmente; porque,algumas vezes, as deixa Nosso Senhor em seu natural, e no parece seno que se juntamento todas as coisas peonhentas do arrabalde e das outras moradas deste castelo, para sevingarem delas do tempo em que no as podem haver s mos.2. verdade que isto dura pouco; um dia quando muito, ou pouco mais. E neste grandealvoroto, que procede normalmente de alguma ocasio, v-se o que ganha a alma nesta boacompanhia que tem; porque lhe d o Senhor uma grande inteireza, para no torcer nada emcoisa que seja do Seu servio e boas determinaes; mas antes parece que lhe crescem, enem por um primeiro movimento muito pequeno se desviam desta determinao. Comodigo, isto poucas vezes, mas quer Nosso Senhor que ela no perca a memria de seu ser,para que sempre esteja humilde, e tambm para que entenda melhor o que deve a SuaMajestade, e a grandeza da merc que recebe, e O louve. 87. 3. To-pouco vos passe pelo pensamento que, por estas almas terem grandes desejos edeterminao de no fazer uma imperfeio por coisa alguma c da terra, deixem de fazermuitas, e at pecados. Com advertncia no, pois que, a estas almas, o Senhor deve darcertamente ajuda muito particular para isto. Digo pecados veniais, que dos mortais, quantoelas entendem, esto livres, ainda que no seguras; pois tero alguns que no entendem, oque no lhes ser pequeno tormento. Tambm lho do as almas que elas vem que seperdem; e embora tenham, de certo modo, grande esperana de no serem dessas, quandose recordam de alguns daqueles de que diz a Sagrada Escritura que pareciam serfavorecidos do Senhor, como por exemplo um Salomo que tanto comunicou com. Suadivina Majestade, no podem deixar de temer, como tenho dito; e aquela de vs que se vircom mais segurana de si mesma, tema mais; porque bem-aventurado o varo que teme aDeus, diz David. Sua Majestade nos ampare sempre; suplicar-Lhe isto para que no Oofendamos, a maior segurana que podemos ter. Seja para sempre louvado, amm.4. Ser bom dizer-vos, irms, qual o fim para que o Senhor fez tantas mercs neste mundo.Ainda que nos efeitos delas j o tereis entendido, se advertistes nisso, eu vo-lo quero tornara dizer aqui, para que no pense alguma que s para regalar essas almas, o que seriagrande erro; porque Sua Majestade no no-lo pode fazer maior que em dar-nos vida queseja imitando a que viveu Seu Filho to amado; e assim tenho por certo serem estas mercspara fortalecer a nossa fraqueza - como aqui j tenho dito alguma vez para pod-Lo imitarno muito padecer.5. Sempre temos visto que aqueles que mais de perto acompanhavam a Cristo NossoSenhor, foram os que tiveram maiores trabalhos. Vejamos os que passou Sua gloriosa Me,e os gloriosos Apstolos, Como pensais que poderia So Paulo sofrer trabalhos tograndes? Por ele podemos ver que efeitos fazem as verdadeiras vises e a contemplao,quando so de Nosso Senhor, e no imaginao ou engano do demnio. Porventuraescondeu-se com tais mercs para gozar daqueles regalos, e no atender a outra coisa? Jvedes que no teve dia de descanso, ao que podemos entender; e to-pouco o devia ter tidode noite, pois nela ganhava o que havia de comer. Gosto muito de So Pedro, quando iafugindo do crcere e lhe apareceu Nosso Senhor e lhe disse que ia a Roma para sercrucificado outra vez. Nunca rezamos desta festa, onde isto se l, que no me d particularconsolo. Como ficou So Pedro com esta merc do Senhor, ou que fez? Ir logo para amorte; e no pequena misericrdia do Senhor encontrar quem lha d.6. Oh! irms minhas, que esquecido deve ter o seu descanso, e que pouco se lhe deve dar dahonra, e que longe deve andar de querer ser tida em algo a alma onde o Senhor est toparticularmente! Porque, se ela est muito com Ele, como de razo, pouco se develembrar de si; toda a memria se lhe vai em content-lO mais, e em qu ou como Lhemostrar o amor que Lhe tem. Para isto a orao, filhas minhas; para isto serve estematrimnio espiritual: que nasam sempre obras, obras.7. Esta a verdadeira prova de ser coisa e merc feita por Deus, - como j vos disse -,porque pouco me aproveita ficar-me ali a ss muito recolhida, fazendo atos com NossoSenhor, propondo e prometendo fazer maravilhas por Seu servio, se, em saindo dali, e seoferece ocasio, fao tudo ao revs. Digo mal, que aproveitar pouco, pois tudo o que se fazse se est com Deus, aproveita muito; e estas determinaes, embora depois sejamos fracosem as cumprir, alguma vez nos dar Sua Majestade com que o faamos; e talvez, atmesmo, embora nos pese, como acontece muitas vezes; pois como v uma alma muitocobarde, d-lhe um trabalho muito grande, bem contra vontade dela, e f-la sair com lucro;e, depois, como a alma entende isto, fica mais perdido o medo para mais se oferecer a Ele. 88. Quis dizer que pouco, em comparao do muito mais que conformar as obras com osatos e palavras, e quem no o puder por junto, seja a pouco e pouco. V dobrando a suavontade, se quer que lhe aproveite a orao; dentro destes recantos em que viveis, nofaltaro muitas ocasies em que o possais fazer.8. Olhai que isto importa muito mais do que eu vos saberei encarecer. Ponde os olhos noCrucificado e tudo se vos far pouco. Se Sua Majestade nos mostrou o Seu amor com toespantosas obras e tormentos, como quereis content-lO s com palavras? Sabeis o que ser espiritual deveras? fazer-se escravos de Deus, para que, marcados com o Seu ferreteque a cruz, pois j Lhe deram a sua liberdade, os possa vender por escravos de todo omundo, como Ele o foi; e no lhes faz nenhum agravo nem pequena merc. E se a isto seno determinam, no haja medo que aproveitem muito, porque de todo este edifcio - comoj disse - seu fundamento a humildade; e se no h esta muito deveras, at para vosso bemno querer o Senhor subi-lo muito alto, para no dar com tudo em terra. Assim, irms,para que leve bons alicerces, procurai ser a menor de todas e sua escrava, vendo como ouem qu as podeis servir e dar-lhes prazer; pois, o que fizerdes neste caso, o fazeis mais paravs do que para elas, pondo pedras to firmes, que no vos caia o castelo.9. Volto a dizer que, para isto necessrio no assentar vossos alicerces s em rezar econtemplar; porque, se no procurais virtudes e o exerccio delas, sempre ficareis ans; epraza a Deus que no seja s no crescer, porque j sabeis que, quem no cresce, decresce;porque tenho por impossvel que o amor, onde o h, se contente de ficar em um ser.10. Parecer-vos- que falo com os que comeam, e que depois j podem descansar. J vosdisse que o sossego que estas almas tm no interior, para muito menos o terem, nem oquerem ter, no exterior. Para que pensais que so aquelas inspiraes que disse, ou paramelhor dizer, aspiraes; e aqueles recados que a alma envia do centro interior gente decima do castelo e s moradas que esto fora daquela onde ela est? para que se deitem adormir? No, no, e no; pois dali mais guerra lhes faz, para que no estejam ociosas aspotncias e os sentidos e todo o corporal, do que fazia quando andava com eles padecendo;porque ento no entendia lucro to grande que h nos trabalhos, que foram porventurameios de que Deus se serviu para a trazer at ali, e como lhe d foras muito maiores quenunca a companhia que tem em si. Porque, se at c David nos diz que com os santosseremos santos, no h que duvidar de que estando feita uma coisa com o Forte, por unioto soberana de esprito com esprito, se lhe h de apegar fortaleza alma, e assim vemos aque tiveram os Santos para padecer e morrer.11. muito certo que, ainda com aquela fortaleza que ali se lhe pega, acode a todos os queesto no castelo, e at ao mesmo corpo, embora parea muitas vezes que no se sente; mas,encorajado com o esforo que tem a alma, bebendo do vinho desta adega, onde a trouxe seuEsposo e no a deixa sair, redunda no corpo fraco, tal como o manjar recebido no estmagod fora cabea e a todo o corpo. E assim esta alma tem muito m ventura enquanto vive;porque, por muito que faa, muito maior fora interior e a guerra que se lhe d, poistudo lhe parece um nada. Daqui deviam vir as grandes penitncias que fizeram muitosSantos, em especial a gloriosa Madalena, criada sempre em tanto regalo, e aquela fome queteve o nosso Pai Elias da honra do seu Deus; e a que teve So Domingos e So Francisco deajuntar almas para que o Senhor fosse louvado; e eu vos digo que no deviam passar poucotrabalho, esquecidos de si mesmos.12. Isto quero eu, irms minhas, que procuremos alcanar, e no para gozar, mas sim parater estas foras para servir; desejemos e ocupemo-nos na orao; no queiramos ir porcaminhos no andados, pois nos perderemos na melhor altura; e seria caminho bem novo 89. pensar ter estas mercs de Deus por outro sem ser aquele por onde Ele foi e tm ido todosos Seus Santos. No vos passe isto pelo pensamento; crede-me que Marta e Maria ho deandar juntas para hospedar ao Senhor, e t-Lo sempre consigo, e no Lhe dar mhospedagem, no Lhe dando de comer. Como Lha daria Maria, sentada sempre a Seus ps,se sua irm no a ajudasse? Seu manjar que, de todas as maneiras que pudermos;ganhemos almas para que se salvem e sempre O louvem.13. Dir-me-eis duas coisas: uma, que o Senhor disse que Maria tinha escolhido a melhorparte. que j tinha feito o oficio de Marta, regalando ao Senhor em Lhe lavar os ps eenxugando-os com seus cabelos. E acaso pensais que lhe seria de pouca mortificao, umasenhora como ela era, ir por essas ruas, e porventura s, porque no fervor que levava noentendia a como ia, e entrar aonde nunca tinha entrado, e sofrer depois as murmuraes dofariseu, e outras muitssimas que devia ter sofrido? Porque, no se v no povo uma mulher,e como ela, fazer tal mudana, entre gente to m como sabemos, que bastava verem quetinha amizade com o Senhor, a Quem eles tinham em tanto, aborrecimento, para trazerem memria a vida que ela tinha levado e que se queria agora fazer santa, porque, claro est,logo mudaria de vestidos e tudo o mais. Pois, se agora se diz o mesmo das pessoas que noso to nomeadas, que seria ento? Eu vos digo, irms, que essa melhor parte vinha jdepois de muitos trabalhos e mortificaes, pois, ainda que no fosse seno ver a seuMestre tido em tanto aborrecimento, isso era para ela trabalho intolervel. E ento osmuitos que depois passou na morte do Senhor! Tenho c para mim que, o no ter recebidomartrio, foi por t-lo passado em ver morrer o Senhor, e nos anos que ainda viveu, queseriam de terrvel tormento, em se ver ausente dEle. Pelo que se v que no estava semprecom regalo de contemplao aos ps, do Senhor.14. A outra, que no podeis, nem sabeis como levar almas a Deus; que o fareis de muitoboa vontade, sim; mas, no tendo de ensinar nem de pregar como faziam os Apstolos, nosabeis como. A isto j respondi por escrito algumas vezes, e at no sei se neste Castelo;mas, porque coisa que creio vos passa pelo pensamento, com os desejos que vos d oSenhor, no deixarei de o dizer aqui: J vos disse noutra parte, que algumas vezes odemnio nos d grandes desejos, para que no lancemos mo do que temos mo, paraservir a Nosso Senhor em coisas possveis, e fiquemos contentes com ter desejado simpossveis. Deixando de parte que na orao ajudareis muito, no queirais aproveitar atodo o mundo, mas sim s que esto em vossa companhia, e assim ser maior a obra,porque a elas estais mais obrigadas. Pensais que de pouco lucro, que a vossa humildadeseja to grande, e a mortificao, e o servir a todas, e uma grande caridade para com elas, eum amor do Senhor, que esse fogo as incendeie a todas, e com as demais virtudes as andeissempre despertando? No ser seno servio muito e muito agradvel ao Senhor, e, comisto que pondes por obra, e que podeis, entender Sua Majestade que fareis muito mais; eassim vos dar prmio, como se Lhe ganhsseis muitas almas.15. Direis que isto no converter, porque todas so boas: E, quem vos manda meter nisto?Quanto melhor forem, mais agradveis sero ao Senhor seus louvores, e mais aproveitarsua orao aos prximos.Enfim, irms minhas, aquilo com que quero concluir que no faamos torres semfundamentos, porque o Senhor no olha tanto grandeza das obras como ao amor com quese fazem; e, desde que faamos o que pudermos, Sua Majestade far com que vamospodendo cada dia mais mais, conquanto no nos cansemos logo, mas; no pouco que duraesta vida, e porventura ser ainda menos do que cada uma pensa, ofereamos interior eexteriormente ao Senhor o sacrifcio que pudermos, pois que Sua Majestade o juntar com 90. o sacrifcio que Ele ofereceu por ns na Cruz a Seu Pai, para que tenha o valor que o nossoamor tiver merecido, embora sejam pequenas as obras.16. Praza a Sua Majestade, irms e filhas minhas, que nos vejamos todas onde sempre Olouvemos, e me d graa para que eu faa alguma coisa do que digo, pelos mritos de SeuFilho, que vive e reina por todo o sempre, amm; que eu vos digo que grande confusominha, e assim vos peo, pelo mesmo Senhor, que no esqueais em vossas oraes estapobre miservel. 91. EPLOGOJ. H. S.1. Ainda que, quando comecei a escrever isto que aqui vai, foi com a contradio que digoao princpio, depois de acabado, me tem dado muito contento, e dou por bem empregado otrabalho, embora confesso que foi bem pouco. Considerando o muito encerramento e aspoucas coisas de divertimento que tendes, irms minhas, e sem casas to suficientes comoconvm em alguns dos vossos mosteiros, parece-me que vos ser de consolao deleitar-vos neste Castelo Interior pois, sem licena dos superiores, podeis entrar e passear nele aqualquer hora.2. verdade que nem em todas as moradas podeis entrar s por vossas foras, embora vosparea que as tendes grandes, se a vos no mete o mesmo Senhor do Castelo. Por isso vosaviso que no faais nenhuma fora, se encontrardes qualquer resistncia; porque Odesgostareis de modo que nunca vos deixe entrar nelas. muito amigo da humildade.Tendo-vos por tais que nem sequer penseis merecer entrar nas terceiras, ganhar-Lhe-esmais depressa a vontade para chegar s quintas; e de tal maneira ali O podeis servir,continuando a ir a elas muitas vezes, que vos meta na mesma morada que Ele tem para Si,donde no saiais mais, a no ser chamadas pela prioresa, cuja vontade quer tanto esteSenhor que cumprais, como a Sua mesma. E ainda que estejais muito tempo fora por seumandado, sempre, quando voltardes, vos ter a porta aberta. Uma vez habituadas a gozardeste Castelo, em todas as coisas achareis descanso, embora sejam de muito trabalho, coma esperana de voltar a ele, que ningum vo-la pode tirar.3. Ainda que no se trata seno de sete moradas, em cada uma destas h muitas: por baixo,por cima, dos lados, com lindos jardins e fontes, e coisas to deleitosas, que desejareisdesfazer-vos em louvores do grande Deus, que o criou Sua imagem e semelhana? Sealguma coisa achardes bem na ordem seguida em vos dar notcia dEle, credeverdadeiramente que foi Sua Majestade que o disse para vos dar contento; e, o mau queachardes, dito por mim.4. Pelo grande desejo que tenho em ser parte para vos ajudar a servir a este meu Deus eSenhor, vos peo que, em meu nome, cada vez que lerdes aqui, louveis muito a SuaMajestade, e Lhe peais o aumento da Sua Igreja, e luz para os luteranos; e, para mim, queme perdoe meus pecados, e me tire do purgatrio; que talvez l esteja, por misericrdia deDeus, quando isto se vos der a ler, se estiver de modo que se veja, depois de visto porletrados. E se alguma coisa estiver em erro, por mais no entender; e em tudo me sujeitoao que ensina a Santa Igreja Catlica Romana, que nisto vivo e protesto e prometo viver emorrer. Seja Deus Nosso Senhor para sempre louvado e bendito, amm, amm.5. Acabou-se isto de escrever no mosteiro de So Jos de vila, no ano de mil quinhentos esetenta e sete, vspera de Santo Andr, para glria de Deus, que vive e reina para sempresem fim, amm.