buscando a relao teoria e prtica em enfermagem

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  • UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARABA CENTRO DE CINCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM SOCIOLOGIA

    Srgio Ribeiro dos Santos

    SISTEMA DE INFORMAO E INTERAO SOCIAL: buscando a relao teoria e prtica em enfermagem

    Joo Pessoa 2008

  • S237s Santos, Srgio Ribeiro dos.

    Sistema de informao e interao social: buscando a relao teoria e prtica em enfermagem./Srgio Ribeiro dos Santos. - Joo Pessoa, 2008.

    216p. Orientador: Artur Fragoso de Albuquerque Perruci Tese (doutorado) - UFPB/CCHLA. 1. Enfermagem Estudo e ensino

    2. Enfermagem - Sistema de informao 3. Interao social 4. Grounded theory

    UFPB/BC CDU: 616.083(043)

  • SRGIO RIBEIRO DOS SANTOS

    SISTEMA DE INFORMAO E INTERAO SOCIAL:

    buscando a relao teoria e prtica em enfermagem

    Tese apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Sociologia, do Centro de Cincias Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal da Paraba, vinculado linha de pesquisa Sociologia do Trabalho, como requisito para obteno do ttulo de Doutor em Sociologia.

    Orientador:

    Prof. Dr. Artur Fragoso de Albuquerque Perruci

    Joo Pessoa

    2008

  • SRGIO RIBEIRO DOS SANTOS

    SISTEMA DE INFORMAO E INTERAO SOCIAL:

    buscando a relao teoria e prtica em enfermagem

    Aprovada em: ________/________________/2008

    BANCA EXAMINADORA

    Prof. Dr. Artur Fragoso de Albuquerque Perruci - Orientador/UFPB

    Prof. Dra. Maria Miriam Lima da Nbrega - Membro/UFPB

    Prof. Dr. Jos Rodrigues Filho - Membro/UFPB

    Prof. Dra. Silke Weber Membro/UFPE

    Prof. Dr. Gilson Torres Vasconcelos Membro/UFRN

  • DEDICATRIA

    A Ftima, esposa e amiga, sempre presente.

    Aos meus filhos, Sarah e Filipe, participantes desse

    processo de construo.

    Aos meus pais, Ccero e Carminha, pelo apoio e

    incentivo constante.

    s minhas irms, Ftima, Adriana e Neves.

    Aos meus familiares e amigos que, direta ou

    indiretamente, me apoiaram nesta caminhada.

  • AGRADECIMENTOS

    A Deus, Senhor da minha vida, que me sustenta e me guarda, que a minha fora e

    minha alegria.

    Ao meu orientador, Profo Dr. Artur Perruci, por acreditar na minha proposta e dar seu

    apoio e conhecimento na construo desta tese.

    Aos professores Dr. Jos Rodrigues Filho e Dra. Maria Miriam Lima da Nbrega pela

    constante colaborao e incentivo para que eu pudesse continuar lutando na busca dessa

    conquista.

    Profa Dra. Margaret de Ftima Formiga Diniz, Diretora do Centro de Cincias da

    Sade, por ter propiciado a possibilidade de restaurar a minha titulao como Doutor.

    Ao Profo Dr. Marcelo Sobral pelo incentivo e apoio para me inserir no PPGS.

    Aos enfermeiros participantes deste estudo, por me terem permitido compartilhar de

    suas experincias.

    A Coordenao do Programa de Ps-Graduao em Sociologia, na pessoa do Profo

    Ariosvaldo, pela disponibilidade sempre presente e pelo constante incentivo para que eu

    pudesse superar os desafios do conhecimento.

    Aos professores do Programa de Ps-Graduao em Sociologia, pela dedicao,

    estmulo e amizade.

    Aos colegas de curso, em especial, Marta Miriam, Maria das Graas, Eduardo Srgio,

    Elmano e Valria, pelos momentos de estudos que tivemos juntos na busca do saber

    sociolgico.

    Aos colegas do Departamento de Enfermagem, em especial, aos meus maiores

    incentivadores Profa Solange Costa, Profo Csar Cavalcanti e Profa Maria Bernadete.

    Ao Profo Flix de Carvalho, pela reviso de linguagem.

    s pessoas que, de um modo ou de outro, contriburam para a realizao deste estudo.

  • RESUMO

    SANTOS, S.R. Sistema de informao e interao social: buscando a relao teoria e prtica em enfermagem. 2008. 216f. Tese (Doutorado em Sociologia) Programa de Ps-Graduao em Sociologia do Centro de Cincias Humanas Letras e Artes da Universidade Federal da Paraba, Joo Pessoa.

    Trata-se de um estudo qualitativo, com o objetivo de compreender, atravs do discurso dos enfermeiros, a relao teoria e prtica em enfermagem e as implicaes para o desenvolvimento de sistemas de informao, a interao social e novas tecnologias. Para alcanar esse objetivo, optou-se por utilizar o interacionismo simblico e a teoria fundamentada nos dados, como referencial terico e metodolgico. A populao foi constituda por enfermeiros que atuam na Clnica Mdica do Hospital Universitrio - UFPB. Os enfermeiros foram entrevistados seguindo os procedimentos de amostragem terica. A anlise dos dados resultou no processo Buscando a interao teoria-prtica para desenvolver sistema de informao em enfermagem. Tal processo foi constitudo da integrao entre categorias no modelo do paradigma de Strauss e Corbin em dois fenmenos: Tentando aplicar os modelos formais na prtica de enfermagem e Vendo a lacuna teoria e prtica no sistema de informao em enfermagem. luz do interacionismo simblico, o processo apresentou quatro estgios: o impulso: entrada na situao; a percepo: definio da situao; a manipulao: a ao; a consumao. Neste processo, os enfermeiros definem a ao e interpretam a dimenso do conhecimento tcito ou explcito, no contexto scio-organizacional em que est inserida sua prtica. Definindo e interpretando a situao da relao teoria e prtica em enfermagem, de acordo com a sua viso de mundo, os enfermeiros traam seus objetivos profissionais, destacando-se a implantao de um sistema de informao computadorizado. Alm disso, estabelecem suas metas individuais, que so a valorizao e o crescimento na enfermagem, a partir da compreenso de que preciso ir busca da interao teoria e prtica no sistema de informao em enfermagem. Unitermos: Interao teoria e prtica. Sistema de informao em enfermagem. Interacionismo simblico. Teoria fundamentada nos dados.

  • ABSTRACT

    SANTOS, S.R. System of information and social interaction: searching the theory and practical relation in nursing. 2008. 216f. Thesis (Doctorship in Sociology) Program of Pos-Graduation in Sociology of the Center Sciences Human Social and Art of University Federal of the Paraba, Joo Pessoa. This is a qualitative study aiming at understanding, through the speech of the nurses, the relation between theory and practice in Nursing and its implications to the development of information systems. To achieve the objective, the symbolic interaction theory and the grounded theory were used as theoretical and methodological references. Nurses who work at the Clinic of the University Hospital of UFPB formed the population of this research. They were chosen according to the theoretical sampling procedures. The result of the data analysis was the process Searching for the theory-practice interaction to develop nursing information system. Such process was formed by the integration among categories having Strauss and Corbins paradigm as a model, in two phenomena: An attempt to apply the formal models in nursing practice and Examining the theory-practice gap in the nursing information system. Based on the symbolic interaction theory, the process presented four stages: the impulse: the situation input; the perception: defining the situation; the manipulation: the action; the accomplishment. In the process, the nurses define the action and interpret the tacit or explicit knowledge dimension in the socio-organizational context where they work. When defining and interpreting the relation theory and practice situation in nursing, the nurses determine their professional objectives according to their views of the world, being the implementation of a computerized information system, a marked one. They also establish their individual goals, i.e. their professional recognition and development in Nursing from the comprehension that it is necessary to look for the theory and practice interaction in the information system in Nursing. Uniterms: Theory and practice interaction. System of information in nursing. Symbolic interactionism. Grounded theory.

  • RSUM SANTOS, S.R. Systme d'informations et interaction sociale: en cherchant la relation thorie-pratique dans mtier d'infirmier. 2008. 216f. Thse (Doutorado dans Sociologie) - Programme de Pos-diplme en sociologie du Centre Sciences Humaines et Sociales Art de l'Universit Fdrale de la Paraba, de Joo Pessoa. Il s'agit d'une tude qualitative, avec l'objectif de decomprendre, travers le discours des infirmiers, la relation thorie-pratique dans mtier d'infirmier et les implications pour le dveloppement de systmes d'informations, l'interaction sociale et nouvelles technologies. Pour atteindre cet objectif, s'opte utiliser l'interacionismo symbolique et la thorie base dans les donnes ils, je mange du rfrentiel thorique et mthodologique. La population a t constitue par des infirmiers qui agissent dans la clinique mdicale de l'Hpital Universitaire - UFPB. Les infirmiers ont t interviews en suivant les procdures d'chantillonnage thorique. L'analyse des donnes a rsult dans le processus "En cherchant l'interaction thorie-pratique dans le systme d'informations dans mtier d'infirmier". Tel processus a t constitu de l'intgration entre des catgories dans le modle du paradigme de Strauss et de Corbin dans deux phnomnes : "En essayant d'appliquer les modles formels dans la pratique de mtier d'infirmier" et "Je vends la lacune thorie-pratique dans le systme d'informations dans mtier d'infirmier". la lumire de l'interacionismo symbolique, le processus a prsent quatre stages: l'impulsion : entre dans la situation; la perception: en dfinissant la situation; la manipulation: l'action; la consommation. Dans ce processus, les infirmiers dfinissent l'action et interprtent la dimension de la connaissance tacite/explicite, dans le contexte partenaire-organisationnel dans laquelle est insre sa pratique. En dfinissant et en interprtant la situation de la relation thorie-pratique dans mtier d'infirmier, conformment leur vision de monde, les infirmiers tracent leurs objectifs professionnels, se dtachant l'implantation d'un systme d'informations informatis. En outre ils, tablissent leurs objectifs individuels, qui sont l'valuation et la croissance dans la mtier d'infirmier, partir de la comprhension dont est prcis d'aller recherche de l'interaction thorie-pratique dans le systme d'informations dans mtier d'infirmier. Unitermos: Interaction thorie-pratique. Systme d'informations dans mtier d'infirmier. Interacionismo symbolique. Grounded theory.

  • LISTA DE ILUSTRAES

    Figura 1 - Autores clssicos da sociologia 30

    Figura 2 Quatro paradigmas 54

    Figura 3 - Interao social do sistema no contexto da organizao 89

    Figura 4 - Relao entre tecnologia da informao e interao social 93

    Figura 5 - Esquema do conjunto de dados necessrios ao paciente, a partir da

    experincia dos enfermeiros da Clnica Mdica do HULW 136

    Figura 6 - Modelo terico do Fenmeno 1: Tentando articular o modelo formal

    com a prtica de enfermagem para desenvolver sistemas de

    informao 142

    Figura 7 - Modelo terico do Fenmeno 2: Vendo a lacuna entre teoria e prtica

    para desenvolver sistemas de informao em enfermagem 165

    Figura 8 - Descobrindo a categoria central: Buscando a interao teoria e prtica

    para desenvolver sistemas de informao em enfermagem 170

    Figura 9 - Elementos integrados ao desenvolvimento de sistemas de informao 173

    Figura 10 - Esquema do processo da ao humana 182

    Figura 11 - Buscando a interao teoria e prtica para desenvolver sistemas de

    informao em enfermagem, luz do interacionismo simblico 196

  • LISTA DE QUADROS

    Quadro 1 - Exemplificando o agrupamento de cdigos e da categoria 112

    Quadro 2 - Procurando adequar os modelos tericos com a prtica de enfermagem 118

    Quadro 3 - Buscando utilizar os diagnsticos de enfermagem 122

    Quadro 4 - Vendo a sistematizao como um caminho para desenvolver sistemas

    de informao em enfermagem 126

    Quadro 5 - Procurando elementos da prtica de enfermagem para compor um

    sistema de informao 132

    Quadro 6 - Querendo um sistema de informao 139

    Quadro 7 - Sentindo que existe uma lacuna entre a teoria e a prtica de

    enfermagem 145

    Quadro 8 - Vendo a relao entre enfermeiro e paciente 150

    Quadro 9 - Avaliando as dificuldades na prtica de enfermagem 156

  • SUMRIO 1. Consideraes Introdutrias 14

    1.1 Percurso do pesquisador 15

    1.2 Aproximao do pesquisador com o objeto de estudo 19

    1.3 Objetivos 26

    2. Referencial Terico e Metodolgico 27

    2.1 Perspectiva terica de anlise: o interacionismo simblico 28

    2.2 Articulando o interacionismo com o objeto em estudo 37

    2.3 Apresentando a opo metodolgica 39

    3. Desenvolvimento de Sistemas de Informao 43

    3.1 Sistemas de informao 44

    3.1.1 Sistema de informao: viso rgida (hard) 45

    3.1.2 Sistema de informao: viso flexvel (soft) 47

    3.2 Paradigmas para o desenvolvimento de sistemas de informao 50

    3.3 Metodologias para o desenvolvimento de sistemas de informao 58

    3.3.1 Metodologia tradicional 59

    3.3.2 Metodologias alternativas 62

    3.4 Necessidades de novos enfoques em enfermagem 70

    4. Sistema de Informao: relao teoria e prtica em enfermagem 75

    4.1 O modelo terico e a prtica de enfermagem 76

    4.2 Conhecimento explcito e conhecimento tcito 79

    4.3 Interao do conhecimento tcito com o conhecimento explcito 82

    5. Interao Social no Sistema de Informao 86

    5.1 As organizaes e o sistema de informao 87

    5.2 Tecnologia da informao e interao social 91

    5.3 Interao social: uma ponte entre o conhecimento formal e a prtica 95

    6. Caminho Metodolgico 99

    6.1 Natureza do estudo 100

    6.2 Mtodo de abordagem 100

    6.3 Contexto da pesquisa 102

    6.4 Sujeitos colaboradores da pesquisa 102

    6.5 Estratgias para obteno dos dados 103

  • 6.6 Anlise das informaes 110

    7. Apresentao e Integrao dos Dados 114

    7.1 Relatando a experincia vivenciada pelos enfermeiros 115

    7.1.1 Fenmeno 1: Tentando articular os modelos formais com a

    prtica de enfermagem para desenvolver sistemas de

    informao 116

    7.1.2 Fenmeno 2: Vendo a lacuna entre teoria e prtica no sistema

    de informao em enfermagem 143

    7.2 Inter-relacionando os fenmenos e descobrindo a categoria central 166

    8. Construindo a Teoria 171

    8.1 Indo em busca da teorizao 172

    8.2 Discutindo o processo de ao e interao 173

    8.2.1 O contexto organizacional 173

    8.2.2 O conhecimento terico-prtico 174

    8.2.3 Sistema de informao 176

    8.3 Indo em busca do significado do processo 177

    8.4 Construindo o processo 180

    8.5 Interpretando o processo luz do interacionismo simblico 183

    9. Consideraes Finais 197

    Referncias 203

    Apndices 212

    Anexo 215

  • 14

  • 15

    1.1 Percurso do pesquisador

    Durante a nossa trajetria acadmica, sempre tivemos interesse pela rea de

    tecnologia da informao, apesar de atuarmos como docente da disciplina Administrao

    Aplicada Enfermagem. Essa identificao com o tema se acentuou quando recebemos o

    convite para lecionar a disciplina Microcomputao em Sade para os alunos do Curso de

    Graduao em Enfermagem.

    A popularizao da informtica entre os estudantes de enfermagem e docentes dos

    Departamentos de Enfermagem da Universidade Federal da Paraba (UFPB) nos permitiu

    desenvolver algumas pesquisas e, em seguida, criar o Grupo de Estudo e Pesquisa em

    Administrao e Informtica em Sade (GEPAIE).

    Assim, na tentativa de aprofundarmos os conhecimentos na rea de tecnologia da

    informao, passamos a observar o trabalho dos usurios de sistemas computadorizados no

    Hospital Universitrio Lauro Wanderley (HULW) da UFPB. Como resultado, pudemos

    constatar que havia a necessidade de se implementar recursos humanos e financeiros,

    principalmente, no gerenciamento de informaes nos servios de atendimento sade da

    populao, tais como hospitais, unidades de sade e outras entidades afins. Para tanto,

    imprescindvel que os profissionais de sade tenham conhecimento dos recursos oferecidos

    pela informao digital, atualmente disponveis, para que possam prestar cuidados de sade

    com eficincia e qualidade.

    Nesse contexto, pases como Estados Unidos, Canad, Austrlia, Inglaterra e outros

    considerados de Primeiro Mundo, tm avanado na pesquisa e no aprimoramento da

    tecnologia da informao em sade. Apesar disso, os enfermeiros desses pases somente h

    poucas dcadas passaram a descobrir o valor e a utilidade da informtica para a prtica de

    enfermagem (VORA, 1995). No Brasil, isso tambm tem acontecido e o interesse nesse

    campo do conhecimento cresce gradativamente com o surgimento de novas pesquisas

    (CIETTO, 1986; VORA et al., 1990; TEIXEIRA, 1990; MARIN, 1995; SANTOS; COSTA,

    1999; VORA; DALRI, 2002).

    Nas nossas observaes de carter formal e informal como docente e pesquisador da

    prtica de enfermagem, constatamos que a informao fundamental para a assistncia e o

    gerenciamento do servio de enfermagem. Entretanto, isso requer interpretao e integrao

  • 16

    de complexas informaes clnicas, apoiando e ajudando a tomada de deciso do enfermeiro

    no tocante resoluo e minimizao dos problemas de sade do usurio (cliente ou

    paciente). Pudemos observar tambm que os enfermeiros gastam boa parte do seu tempo,

    estima-se em torno de 40%, administrando e trocando informaes. Dessa forma, admite-se

    que a gesto da informao uma parte decisiva das atividades cotidianas desses profissionais

    (ROMANO et al., 1982; HENDRICKSON et al., 1990).

    Diante disso, nasceu o propsito de verificar, por meio de uma pesquisa, o nvel de

    satisfao dos enfermeiros com a sua prtica. Com esta preocupao, em 1990, iniciamos o

    Curso de Mestrado em Enfermagem, vinculado ao Centro de Cincias da Sade da UFPB, no

    qual desenvolvemos o trabalho intitulado "Motivao no trabalho do enfermeiro: fatores de

    satisfao e insatisfao" (SANTOS, 1992).

    Com o trmino do mestrado, resolvemos mudar o enfoque do estudo da prtica de

    enfermagem para abordar o mesmo objeto de pesquisa, s que agora sob um novo olhar. Ao

    ingressarmos no Curso de Doutorado em Sociologia, nosso interesse centrou-se em

    compreender o processo de trabalho em enfermagem, no que tange relao entre a teoria e a

    prtica, com base na vivncia dos enfermeiros. O objetivo era dispor de elementos que

    ajudassem a subsidiar o desenvolvimento de sistemas de informao e proporcionar segurana

    na prestao da assistncia ao paciente.

    Nessa perspectiva, o grande desafio saber de que informao o enfermeiro

    necessita para gerenciar com qualidade os cuidados de enfermagem. Percebemos que o

    volume de informaes sobre o paciente cresce nos protocolos de tratamento. Com isso, o

    registro manual no pronturio torna-se ineficaz para garantir o armazenamento e o

    gerenciamento dessas informaes. Alm disso, causam certo constrangimento as anotaes

    inconsistentes, ilegveis e de difcil compreenso, por falta de uma melhor sistematizao.

    Vale ressaltar que as anotaes nos pronturios so realizadas por enfermeiros

    assistenciais, auxiliares e tcnicos de enfermagem, alunos e docentes, atravs da observao e

    elaborao do plano assistencial. Outro aspecto que compromete o sistema de informao

    manual em enfermagem a falta de padronizao do vocabulrio, ou seja, a ausncia de uma

    linguagem unificada que possa ser operacional num sistema informatizado. Soma-se a isso o

    pouco conhecimento desses profissionais sobre sistemas de informao e informtica em

    sade.

  • 17

    Castells (2007) esclarece que o processo de transformao tecnolgica expande-se

    exponencialmente em razo de sua capacidade de criar uma interface entre campos

    tecnolgicos mediante uma linguagem digital comum na qual a informao gerada,

    armazenada, recuperada, processada e transmitida. Segundo Negroponte (apud CASTELLS,

    2007), vivemos em um mundo que se tornou digital.

    Sabe-se que a revoluo tecnolgica no centralizada apenas no conhecimento e na

    informao. Centra-se tambm na aplicao desse conhecimento e dessa informao para a

    gerao de conhecimentos e de dispositivos de processamento/comunicao da informao,

    em um ciclo de realimentao cumulativo entre a inovao e seu uso (DIZARD, 1985;

    FORESTER, 1985; HALL; PRESTON, 1988).

    Para mudar essa situao, fundamental identificar a informao necessria que

    satisfaa aos objetivos sociais e organizacionais. Isso implica compreender os aspectos

    terico-prticos que so indispensveis para o desenvolvimento de sistemas. Por ser

    inovadora, essa abordagem no vista nos hospitais como prioridade para efeito de

    automao do servio de enfermagem, em parte, devido aos custos, complexidade da

    informao de enfermagem e s necessidades do paciente. Alm disso, temos observado que

    os enfermeiros so relativamente frgeis, perante a posio poltica do hospital, para

    reivindicar melhores condies de trabalho. Nesse aspecto, demonstram dificuldades quanto

    ao suporte gerencial causado pelo pouco conhecimento sobre sistemas e tecnologia de

    informao.

    No caso particular do Hospital Universitrio Lauro Wanderley/UFPB, observamos

    que as perdas nos registros de informaes nos pronturios so considerveis, isso sem levar

    em conta as falhas nos mecanismos de guarda de informaes. Mas esse fato no

    exclusividade do HULW/UFPB, uma vez que tambm pode ser constatado em muitos

    hospitais do Brasil.

    Ao abordar este assunto, devemos reconhecer que a primeira revoluo da tecnologia

    da informao foi nos Estados Unidos. Por exemplo, foram desenvolvidos naquele pas, a

    partir da dcada de 1980, vrios estudos procurando delinear e implementar o que se

    denominou de dados mnimos de enfermagem. Este composto de um mnimo de itens,

    contendo informaes com definies uniformes e categorias concernentes a aspectos

    especficos ou dimenses do sistema de cuidados de sade que so usados regularmente pela

  • 18

    maioria dos enfermeiros, conforme demonstram os trabalhos de Devine; Werley (1988),

    Werley; Lang (1988), Werley; Devine; Zorn (1990), Coenen et al. (1995).

    No Brasil, as pesquisas enfocando tecnologia da informao em enfermagem ainda

    so poucas em relao aos Estados Unidos, Canad, Austrlia, Reino Unido e Escandinvia.

    Porm, existe a necessidade de se compreender o desenvolvimento de novas tecnologias da

    informao. Nessa perspectiva, observa-se a tentativa da sociedade de reaparelhar-se com o

    uso do poder da tecnologia para servir a tecnologia do poder (CASTELLS, 2007).

    Esse aspecto estratgico para que o enfermeiro possa planejar e executar aes

    capazes de auxili-lo na difcil tarefa de tomar decises quanto ao gerenciamento dos

    cuidados de enfermagem. Convm ainda destacar que um sistema de informao hospitalar

    orientado para a enfermagem e centrado no paciente pode causar significativo impacto na

    produtividade, na eficincia e na motivao dos membros da equipe de enfermagem (MARIN,

    1995).

    Assim, a dimenso social da tecnologia da informao parece destinada a cumprir a

    lei sobre a relao entre tecnologia e sociedade proposta por Kranzberg (1985, p. 18) ao

    afirmar: [...] a tecnologia no nem boa, nem ruim e tambm no neutra. Na realidade,

    uma fora que provavelmente est sob o atual paradigma tecnolgico que penetra no mago

    da vida e da mente (CASTELLS, 2007).

    A tecnologia avana, em passos largos e com muita fora, no ambiente

    organizacional. Porm, o seu uso na esfera da ao social, frente complexa rede de

    informaes em sade, uma questo que precisa ser resolvida. Os efeitos da tecnologia da

    informao so inegveis. Entretanto, os benefcios esperados para a sociedade ainda so

    tmidos, ou seja, faltam resultados concretos para a populao que procura os servios de

    sade.

    Seguindo essa linha de raciocnio, tem-se a impresso de que a sociedade est

    exigindo a discusso da especificidade das novas tecnologias da informao em sade.

    Portanto, preciso que seja enfocada a dimenso sociolgica da transformao tecnolgica da

    informao, com base na eletrnica e na comunicao on line. Os efeitos que sero

    provocados pela tecnologia da informao na sociedade vo depender do impacto que a

  • 19

    incluso digital ter em funo da penetrabilidade da informao nas organizaes de sade,

    entre os usurios e na prpria estrutura social.

    evidente que a sociedade brasileira ainda se encontra na fase de analfabetismo

    digital da grande massa da populao, em virtude da pouca intensidade da informao na

    estrutura de formao em torno de conhecimentos e informao. preciso, antes de tudo,

    educar os cidados, capacitando-os quanto s novas tecnologias da informao

    disponibilizadas. preciso disseminar os mecanismos de incluso digital no meio social, a

    fim de familiarizar a sociedade sobre as transformaes impactantes da tecnologia da

    informao e as mudanas organizacionais conexas.

    Assim, procuramos neste estudo compreender a relao que envolve teoria e prtica

    em enfermagem para o desenvolvimento de sistemas de informao. Essa compreenso parte

    da experincia dos enfermeiros, buscando desvendar o significado que essa experincia

    representa para eles.

    1.2 Aproximao do pesquisador com o objeto de estudo

    Nossa aproximao com o objeto de estudo teve incio com uma pesquisa realizada

    no Hospital Universitrio Lauro Wanderley. Nessa pesquisa, tentamos desenvolver e

    implementar um sistema de registro de dados do paciente na unidade de clnica mdica. A

    equipe envolvida com o projeto era constituda por acadmicos, programadores e analistas de

    sistemas que realizavam estudos das atividades de enfermagem para a implementao do

    registro eletrnico do paciente.

    Essa equipe reconheceu que a metodologia tradicional no era adequada para ser

    aplicada no desenvolvimento do sistema de informao em enfermagem. Por essa razo, os

    gerentes do servio de enfermagem foram convidados a fazer parte do projeto de pesquisa,

    visando ao desenvolvimento de um sistema de informao que adotasse uma abordagem

    diferente da tradicional. A metodologia foi denominada de desenho participativo, cuja

    nfase era o envolvimento do usurio na construo do sistema, desde a sua elaborao at a

    sua execuo. Como era de se esperar, a nova metodologia no foi facilmente implementada,

    devido, em parte, existncia de vrios problemas, dentre os quais podemos apontar: a cultura

    do setor pblico, a falta de infra-estrutura bsica, conhecimento escasso sobre tecnologia da

    informao, burocracia, relacionamento interpessoal e outros aspectos.

  • 20

    Nessa experincia, percebemos que o pouco conhecimento sobre tecnologia da

    informao era a principal dificuldade que obstrua a participao da enfermagem no processo

    de desenvolvimento do sistema. Durante o primeiro encontro com os enfermeiros, a equipe de

    pesquisadores discutiu a necessidade de haver o envolvimento da enfermagem no processo,

    porque o estudo seria baseado nas contribuies dos enfermeiros e desenhado com a ajuda

    deles. Entretanto, os enfermeiros no demonstraram motivao para conduzir um processo

    dessa natureza.

    Aps vrios encontros, reconhecemos que havia um requisito bsico para que se

    pudesse usar a abordagem do desenho participativo. Observamos que faltava, entre o pessoal

    de enfermagem, o conhecimento no s da tecnologia como tambm de sistemas e cincias da

    informao. Tal requisito, por ser um processo educacional, leva tempo para ser aprendido.

    Em nossa opinio, as escolas de enfermagem do Brasil ainda no esto preparadas para

    transmitir o conhecimento sobre sistemas e tecnologia da informao, contedo to necessrio

    para a profisso de enfermagem. Entendemos que o conhecimento terico em si no

    suficiente. Na verdade, para que possam gerenciar e produzir informaes relevantes em

    enfermagem, os profissionais precisam desse conhecimento e no apenas da tecnologia em si.

    Naquele projeto inicial, medidas foram tomadas para levar um pouco de

    conhecimento sobre sistemas de informao. Uma delas foi a promoo de cursos de curta

    durao. O objetivo pretendido era compartilhar com os enfermeiros meios para influenciar

    seu trabalho e resolver os problemas causados pela insegurana no uso do computador.

    Pretendia-se tambm esclarecer dvidas a respeito de sistemas e mostrar a relao entre

    programadores e usurios.

    Com essa experincia, compreendemos que a prtica do enfermeiro assistencial

    muito importante para o desenvolvimento do sistema de informao, como tambm as

    opinies dos enfermeiros gerentes. Todavia, percebemos que s quando se discute sistema de

    informao que se pode sentir a significativa diferena entre o que o gerente em

    enfermagem diz e deseja e o que os enfermeiros assistenciais acreditam ser til para eles.

    Assim, acreditamos que um sistema de informao em enfermagem deve apoiar-se

    nas necessidades do usurio, ou seja, no mbito de sua prtica como operadores do sistema.

    o enfoque do desenho centrado no usurio (user-centered design). Portanto, para desenvolver

    com maior eficcia o sistema de informao, os analistas de sistemas devem observar os

  • 21

    usurios na situao de trabalho. Fazendo isso, possvel criar uma situao de mtuo

    aprendizado entre usurios e analistas, bem como um mltiplo entendimento de pontos de

    vista dos diferentes usurios, segundo Simonsen; Kensing (apud RODRIGUES FILHO, 2001,

    p. 104).

    Antes de se tomar uma deciso sobre o uso de um determinado sistema, preciso se

    inteirar da real necessidade do servio e no somente explorar a situao do trabalho da

    enfermagem, para, em seguida, definir uma base de dados mnimos. Acreditamos que esse

    processo leve algum tempo, mas, sem dvida, ajudar a compreender o conhecimento terico

    a partir do conhecimento prtico.

    Com a nossa insero no hospital, percebemos que a enfermagem da Clnica Mdica

    do HULW passou a desenvolver um sistema de registro de paciente mais completo e

    estruturado, tentando introduzir alteraes na documentao do pronturio. Ficou-nos a

    impresso de que, naquele momento, os enfermeiros estavam mais motivados para efetuar

    mudanas no sistema de documentao manual do que participar de uma discusso mais

    ampla sobre sistemas e tecnologia da informao. Entretanto, compreendemos que isso

    importante para o desenvolvimento de um sistema de informao no contexto hospitalar.

    Mesmo diante da complexidade da prtica de enfermagem e do seu processo de

    trabalho, decidimos continuar o projeto. Acreditamos que a qualidade da assistncia de

    enfermagem depende, entre outros fatores, da habilidade do enfermeiro em estabelecer

    conexes entre os diagnsticos de enfermagem, com base nas informaes clnicas do

    paciente, nas intervenes e nos resultados. Tais procedimentos contribuem para agilizar o

    trabalho do enfermeiro e proporcionar maior disponibilidade para o cuidado do paciente com

    mais eficincia e eficcia. Entretanto, dependem do uso de informaes sistematizadas e de

    uma base de dados para proporcionar suporte s decises.

    Em nossa anlise, observamos que, apesar do desenvolvimento acadmico e do

    conhecimento formal relacionado ao sistema de classificao em enfermagem (diagnstico,

    interveno e resultados), ainda no existe um sistema de informao capaz de capturar o

    conhecimento da prtica de enfermagem e que viabilize o processo de automao.

    Percebemos tambm que a lacuna existente entre teoria e prtica do sistema de informao em

    enfermagem envolve, alm de tecnologia, muitos fatores, como: educao, mudanas de

  • 22

    atitudes, cultura, padronizao dos documentos e a prpria prtica dos cuidados de

    enfermagem.

    Estes fatores e mais a constatao de que havia resistncia s mudanas tecnolgicas

    que estavam sendo implantadas no ambiente de trabalho da enfermagem na Clnica Mdica do

    HULW da UFPB nos fizeram refletir. Por exemplo: os enfermeiros diziam que queriam usar o

    computador como instrumento de trabalho. Todavia, na prtica, demonstravam que ainda no

    tinham motivao suficiente para aprender a manuse-lo e explorar os recursos que essa

    ferramenta pode oferecer. No entendiam que ela pode aumentar sua produtividade, melhorar

    a qualidade do trabalho e reduzir a lacuna entre a teoria e a prtica do sistema de informao

    em enfermagem. Por que isso acontece? Tentaremos responder a essa questo apontando dois

    aspectos:

    a) A cultura organizacional os profissionais, em geral, esto habituados a uma

    prtica de trabalho tradicional. Assim, qualquer inovao requer muita pacincia, dedicao e

    perseverana no processo de educao. Toda mudana que implique novos conhecimentos e

    exija esforo para aprender pode gerar insegurana e medo. Isso provoca resistncia nas

    pessoas e, obviamente, dificulta a implantao e o desenvolvimento de um sistema de

    informao.

    b) O pouco conhecimento sobre sistema de informao os profissionais de

    enfermagem do HULW, em sua maioria, no cursaram disciplinas que abordassem a temtica

    referente a sistema de informao. O fato compreensvel, porque esse conhecimento s

    recentemente chegou s faculdades e escolas de enfermagem como disciplina dos cursos de

    graduao, especialmente, na regio Nordeste do Brasil. Portanto, acreditamos que essa

    lacuna tenha sido o grande obstculo que gerou resistncia. Observou-se que o pessoal de

    enfermagem tinha dvidas ao se discutir sistemas de informao, to necessrios para o

    exerccio da prtica de enfermagem.

    Como se sabe, a enfermagem composta por trs categorias, cada uma com um grau

    de formao acadmica diferente: auxiliar, tcnico e enfermeiro. Esse aspecto pode ter

    influenciado na mudana de atitude em relao ao uso do sistema de informao

    computadorizado. O estudo realizado na Clnica Mdica do HULW procurou desenvolver um

    sistema de informao hospitalar, tendo como mdulo bsico o registro de dados do paciente,

  • 23

    denominado de R-ATA (registro admisso, transferncia e alta) (RODRIGUES FILHO;

    XAVIER; ADRIANO, 2000).

    Esse mdulo estava preparado para se integrar ao mdulo de enfermagem que seria

    desenvolvido posteriormente, a partir da utilizao, experincia e necessidades apresentadas

    pelos usurios do sistema. Todavia, apesar de o mdulo R-ATA possuir uma base de dados

    mnimos eficiente, procurou-se desenvolver uma interface que fosse similar aos padres

    utilizados no dia-a-dia da equipe de sade do hospital. Para isso foram realizadas reunies

    com as equipes do Servio de Arquivo Mdico e Estatstico (SAME), e tambm com mdicos

    e enfermeiros do HULW, com vistas construo de um conjunto de informaes que fossem

    necessrias para o exerccio profissional e que lhes proporcionassem feedback, sempre que

    necessitassem de relatrios ou qualquer outra informao.

    O grande desafio, todavia, estava em encontrar uma maneira de operacionalizar o

    sistema. Os mdicos achavam a proposta excelente; os enfermeiros tambm. Mas ningum

    assumia a responsabilidade de indicar os recursos disponveis no sistema para o

    gerenciamento da Clnica Mdica do HULW. Com isso, o computador passou a ser um objeto

    a mais na unidade, sem uma utilizao prtica, sem influenciar no processo de trabalho dos

    profissionais de sade.

    Pela falta de atualizao, que deve ser um processo contnuo dentro do sistema, as

    informaes ficavam obsoletas e os relatrios no apresentavam consistncia nos dados para

    uma anlise da situao da unidade. Em decorrncia dessa situao enfrentada pela equipe de

    sade da Clnica Mdica, vrias reunies foram realizadas, no sentido de buscar um rumo que

    pudesse motivar as pessoas para fazerem uso do computador, aliment-lo com informaes e

    buscar feedback em forma de relatrios que ajudassem os gerentes a racionalizar processos e

    tomar decises.

    Todo esse esforo encontrou forte resistncia entre os profissionais da unidade de

    clnica mdica, seja por demonstrarem pouco conhecimento a respeito de sistemas e

    tecnologia da informao, seja por estarem alicerados numa cultura de anotaes manuais.

    Diante desse contexto, no podiam apresentar atitudes positivas que pudessem fazer evoluir o

    sistema. Para esse tipo de comportamento, eles apontavam as seguintes justificativas: falta

    tempo para digitar os dados; no tem ningum para fazer essa tarefa; estamos inabilitados

    para operar o sistema.

  • 24

    O passo seguinte foi elaborar um mdulo especfico para enfermagem. Nessa etapa,

    os enfermeiros participaram ativamente das reunies, onde foram levantadas opinies,

    esclarecidas dvidas sobre o manuseio do sistema e identificadas as reais necessidades da

    enfermagem. Todavia, essa motivao foi passageira. Os enfermeiros tentaram se envolver,

    mas, no decorrer do processo, comearam a perder a motivao. E assim, mais uma vez,

    fracassaram na tentativa de prosseguir com o desenvolvimento do sistema de informao.

    Como se pode observar nesse relato, no obtivemos xito no desenvolvimento do

    processo de automao dos dados do paciente e do plano de cuidados de enfermagem.

    Entretanto, ficou evidenciado que a enfermagem precisa da tecnologia para tornar a

    assistncia de enfermagem mais gil e com melhores condies para prestar cuidados de

    qualidade. Esse sistema de informao permitir que os enfermeiros possam ser liberados de

    atividades puramente burocrticas.

    Essa possibilidade de atuar junto aos enfermeiros da Clnica Mdica do HULW nos

    deu importante subsdio para repensar e redirecionar o processo de informatizao em

    enfermagem, tanto na teoria como na prtica. Vale ressaltar que consideramos a tarefa

    complexa, porque exige novos paradigmas, mas o comeo necessrio e o tempo de comear

    j havia chegado.

    A experincia que estamos vivenciando nos motiva a assumir outra dimenso em

    relao ao sistema de informao em enfermagem. Nesse aspecto, percebemos que, embora os

    enfermeiros tenham demonstrado receio em mudar, eles querem a mudana, pois sabem que

    no podem perder o rumo da tecnologia no presente sculo. Segundo Marin (1995), os

    enfermeiros precisam estar informados sobre todas as possibilidades para que possam

    idealizar sistemas computadorizados que venham trazer solues benficas aos problemas de

    documentao e comunicao.

    Nesse sentido, os estudos de Devine; Werley (1988), Werley; Lang (1988), Werley;

    Devine; Zorn (1988) nos deram importantes subsdios, na medida em que focalizam a ateno

    na identificao de dados mnimos necessrios para encontrar demandas de informaes da

    prtica de enfermagem. Esses autores valorizaram o uso eficiente e eficaz dos recursos da

    enfermagem atravs do sistema computadorizado, cuja nfase o refinamento do sistema de

    informao em enfermagem.

  • 25

    Desse modo, comeamos a vislumbrar um novo caminho para compreender o

    sistema de informao e estabelecer a interao da teoria com a prtica em enfermagem. Isto

    constitui um requisito fundamental para a aplicao do processo de trabalho em enfermagem e

    para o desenvolvimento de um modelo de sistema de informao automatizado que contribua

    para melhorar a prtica de enfermagem.

    Com base nestas consideraes, podemos dizer que um sistema desenvolvido a partir

    da experincia vivenciada no processo de trabalho da enfermagem oferece, com mais

    eficincia, informaes sobre o custo-efetividade e compara as necessidades essenciais para

    validar um sistema de informao. Alm disso, ir permitir que as atividades envolvendo o

    paciente sejam coordenadas e a educao em sade tenha um processo de atualizao mais

    rpido. Com isso, espera-se que o gerenciamento em enfermagem seja voltado para responder

    s necessidades dos pacientes, bem como s necessidades de recursos humanos e materiais,

    trazendo facilidades para a enfermagem e outras reas da sade (MARIN, 1995).

    No mbito do contexto aqui delineado, as questes emergentes que norteiam este

    estudo, para as quais pretendemos obter respostas, so as seguintes:

    ! A compreenso da relao teoria e prtica no trabalho da enfermagem

    permitiria o desenvolvimento de sistemas de informao em enfermagem mais

    adequados realidade vivenciada pelos enfermeiros?

    ! Como o enfermeiro define a interao teoria e prtica em enfermagem

    vivenciada pela sua experincia?

    O propsito deste estudo , ao menos, esclarecer estas questes, a partir dos dados

    emergentes da prtica assistencial dos enfermeiros. Compreender a relao teoria e prtica em

    enfermagem o primeiro passo para o desenvolvimento de sistemas de informao

    compatveis com a realidade. Esse entendimento, com base nos depoimentos dos enfermeiros,

    trar certamente conseqncias para o processo de informatizao do servio de enfermagem.

    Urge, portanto, compreender a complexidade do sistema de informao em

    enfermagem, tendo em vista que representa uma oportunidade para clarificar e fundamentar as

    questes sobre a enfermagem como uma prtica, uma cincia e uma arte. Enfim, o momento

    de reflexo e interpretao do significado que a informao tem para a enfermagem, a fim de

    se reconhecer sua importncia como recurso estratgico para a profisso.

  • 26

    1.3 Objetivos

    Partindo das consideraes apresentadas e dos questionamentos que este estudo se

    prope investigar, buscamos atingir os seguintes objetivos:

    compreender, atravs do discurso dos enfermeiros, a relao entre teoria e

    prtica do processo de trabalho em enfermagem e as implicaes para o

    desenvolvimento de sistemas de informao;

    elaborar um modelo terico representativo da experincia dos enfermeiros,

    luz do interacionismo simblico.

  • 27

  • 28

    2.1 Perspectiva terica de anlise: o interacionismo simblico

    Aps termos analisado o contexto objeto deste estudo, optamos pelo paradigma

    interpretativo. Buscamos, com isso, no s compreender o quadro referencial dentro do

    qual os enfermeiros interpretam as suas percepes, mas tambm apreender as vrias

    dimenses de sua prtica em termos de sistemas de informao. Nessa perspectiva,

    procuramos obter informaes atravs de pesquisadores, de documentos e da literatura.

    Buscou-se, portanto, o caminho da pesquisa qualitativa que desse nfase aos

    significados, que no so examinados em termos de quantidade, intensidade e freqncia.

    Dessa forma, foi possvel visualizar algumas alternativas para estudar a interao teoria e

    prtica, no sentido de desenvolver um sistema de informao a partir da realidade social

    dos enfermeiros. Pela sua peculiaridade e complexidade, o projeto ficaria prejudicado, se

    fosse utilizada apenas a abordagem quantitativa.

    Por esta perspectiva, a utilizao do interacionismo simblico, dentro do

    paradigma interpretativo, permitiu que a pesquisa cumprisse o objetivo de investigar o

    sentido que os atores sociais do aos objetos, pessoas e smbolos com os quais constroem o

    seu mundo social (BLUMER, 1969; COULON, 1995).

    Nesse sentido, Blumer (1969) lembra que a capacidade do ser humano para fazer

    indicaes para si mesmo d um carter distintivo para a ao humana. Isto significa que,

    ao confrontar o mundo de objetos que o rodeia, ele deve interpret-lo a fim de agir. A ao

    do ser humano consiste em levar em considerao as vrias coisas que ele observa,

    relacionando o significado das aes de outros e mapeando sua prpria linha de conduta,

    luz dessa interpretao. O indivduo constri um guia de ao, tomando por base a forma

    como ele interpreta, em vez de meramente responder aos fatores ambientais que sobre ele

    atuam.

    Assim, o interacionismo simblico uma das formas de se interpretar as

    percepes das pessoas, o significado e o sentido que elas do s coisas e como estes

    relatos se relacionam com as experincias vivenciadas. O interacionismo simblico uma

    metodologia emprica que usa procedimentos tais como: estudos de caso, entrevistas,

    observao participante, histria de vida, conversaes, anlise de documentos, cartas,

    dirios entre outros.

  • 29

    Portanto, sob a tica do interacionismo simblico e da grounded theory que

    sero delineadas algumas consideraes conceituais que regem o mtodo. Contudo, no se

    tem a pretenso de abranger todos os aspectos tericos, filosficos ou sociolgicos, em

    virtude de sua amplitude e complexidade.

    O interacionismo simblico surge de uma preocupao com a linguagem e com o

    significado. O elemento chave nesse processo o smbolo (GIDDENS, 2005). O termo

    interacionismo vem do verbo interagir, que significa agir mutuamente. O termo

    simblico vem do grego symboliks, atravs do latim symbolicu, significando aquilo

    que tem carter de smbolo (FERREIRA, 1999). A expresso interacionismo simblico

    tem sua origem na psicologia social, com base nos trabalhos de renomados estudiosos

    norte-americanos como Charles Horton Cooley (1864 1929), W. I. Thomas (1863

    1947), George Herbert Mead (1863 1931), podendo-se destacar ainda nomes como:

    Herbert Blumer, John Dewey, Robert Park, Willian James, Florian Znaniechi, J. M.

    Baldwen, R. Redfield e L. Wirth (DUPAS, 1997).

    O interacionismo simblico dirige ateno do pesquisador ao detalhe da interao

    interpessoal e forma como esse detalhe usado para dar sentido ao que os outros dizem e

    fazem. Os socilogos que utilizam o interacionismo simblico freqentemente se

    concentram na interao face a face nos contextos da vida cotidiana (GIDDENS, 2005).

    importante ressaltar que o interacionismo simblico est centrado na natureza

    social, com nfase nos smbolos e na linguagem como elementos centrais de toda interao

    humana. Significa dizer que as atividades das pessoas so dinmicas e sociais, e acontecem

    entre e dentro delas. Essa abordagem terica da sociologia foi desenvolvida por George

    Herbert Mead, psiclogo social e professor de filosofia da Universidade de Chicago. Aps

    a sua morte, seus escritos foram catalogados e agrupados em livros.

    A principal obra de George Mead um conjunto de lies sobre filosofia, mind,

    self and society, considerada a bblia do interacionismo simblico, editada em 1934. O

    principal discpulo de Mead foi Herbert Blumer, responsvel por reunir os escritos e

    pensamentos de seu mestre. Talvez tenha sido o mais importante intrprete das proposies

    filosficas de Mead (CHARON, 1989).

  • 30

    Para Giddens (2005), o interacionismo simblico uma das mais importantes e

    recentes perspectivas tericas que tem conexo direta com os clssicos fundadores da

    sociologia como Durkheim, Marx e Weber, respectivamente. No diagrama abaixo, as

    linhas contnuas indicam influncia direta, enquanto a linha pontilhada representa uma

    conexo indireta. Mead no est em dbito com Weber, mas as concepes de Weber

    ressaltando a significativa e intencional natureza de ao humana tm afinidades com os

    temas do interacionismo simblico.

    Figura 1 Autores clssicos da sociologia (GIDDENS, 2005)

    O estudo de George Mead foi o que mais contribuiu para a conceituao da

    perspectiva interacionista (HAGUETTE, 2003). Essa teoria se caracteriza por apresentar

    ligaes com a fenomenologia no que diz respeito ao estudo dos aspectos das experincias

    do comportamento humano. Em outras palavras, ela tenta compreender como as pessoas

    definem os eventos ou a realidade e como agem em relao s suas crenas (CHENITZ;

    SWANSON, 1986).

    Para compreendermos o interacionismo simblico so apontados quatro aspectos

    de fundamental importncia que o distinguem da psicologia:

    1. O interacionismo simblico cria uma imagem mais ativa do ser humano e rejeita a imagem deste como um organismo passivo e determinado. Os indivduos interagem e a sociedade constituda de indivduos interagindo.

    2. O ser humano compreendido como um ser agindo no presente, influenciado no somente pelo que aconteceu no passado, mas pelo que est acontecendo agora. A interao acontece neste momento: o que fazemos agora est ligado a essa interao.

    3. Interao no somente o que est acontecendo entre pessoas, mas tambm o que acontece dentro dos indivduos. Os seres humanos atuam em um mundo que eles definem. Agimos de acordo com o

    Augusto Comte (1798-1857) Karl Marx (1818-1883) George Herbert Max Weber Mead Emle Durkheim (1864-1920) (1863-1931) (1858-1917) Marxismo

    Funcionalismo Interacionismo Simblico

  • 31

    modo como definimos a situao que estamos vivenciando. Embora essa definio possa ser influenciada por aqueles com quem interagimos, ela tambm resultado de nossa prpria definio, nossa interpretao da situao.

    4. O interacionismo simblico descreve o ser humano mais ativo no seu mundo do que outras perspectivas. O ser humano livre naquilo que ele faz. Todos definimos o mundo em que agimos e parte dessa definio nossa, pois envolve a escolha consciente, a direo de nossas aes em face dessa definio, a identificao dessas aes e a de outras e a nossa prpria redireo. (CHARON, 1989, p. 22).

    Nessa mesma perspectiva, Blumer (1969) tenta esclarecer a natureza do

    interacionismo simblico, apontando trs aspectos bsicos:

    # Os seres humanos procuram agir, em relao s coisas, com base nos

    significados que tm para eles. Entende-se por coisas tudo o que o indivduo

    pode notar em seu mundo: objetos fsicos, outros seres humanos, individualmente

    ou em grupos, instituies, princpios orientadores, atividades dos outros, bem

    como as situaes da vida cotidiana. O significado que tudo isso tem para o

    indivduo influencia a formao do seu comportamento, e conhec-lo que pode

    nos levar a compreender a ao humana.

    # O significado das coisas surge da interao social que os homens

    estabelecem uns com os outros. Em outras palavras, os significados so produtos

    sociais que surgem da interao.

    # Os significados podem ser manipulados e modificados atravs do processo

    interpretativo usado pelo indivduo quando lida com as coisas que ele encontra.

    Na abordagem interacionista, o comportamento humano no uma questo de

    respostas diretas s atividades dos outros, mas envolve uma resposta s intenes dos

    outros. Essas intenes so transmitidas atravs de gestos que se tornam simblicos, ou

    seja, passveis de serem interpretados. A sociedade humana est constituda na base do

    consenso, de sentidos compartilhados sob a forma de compreenses e expectativas

    comuns. Assim, quando os gestos assumem um sentido comum, isso , quando eles

    adquirem um elemento lingstico, podem ser designados de smbolos significantes. O

    componente significativo de um ato, que representa uma atividade mental, acontece atravs

    do role-taking (colocar-se na posio do outro).

  • 32

    A relao dos seres humanos entre si surge a partir do desenvolvimento de sua

    habilidade de responder a seus prprios gestos. Essa habilidade permite que diferentes

    pessoas respondam da mesma forma ao mesmo gesto, possibilitando o compartilhamento

    de experincias e a incorporao do comportamento. Dessa forma, o comportamento

    social e no meramente uma resposta aos outros. O homem responde a si mesmo da mesma

    forma que outras pessoas lhe respondem e, ao faz-lo, imaginativamente compartilha a

    conduta dos outros (HAGUETTE, 2003).

    Na anlise realizada por Blumer (1969), as pessoas levam em considerao as

    aes dos outros medida que formam suas prprias aes, atravs do processo de indicar

    aos outros como agir e de interpretar as indicaes feitas pelos outros. atravs desse

    processo de interpretao e definio que se forma a conduta humana. A sociedade est

    sempre em ao e a vida do grupo pressupe a interao entre os membros do grupo. Essa

    interao ocorre entre atores e no entre fatores que fazem aparecer o comportamento.

    Conforme se percebe nas reflexes da literatura consultada, os estudos orientados

    pelo interacionismo mostram que no existe uma viso que seja exclusiva dessa

    abordagem, em virtude da multiplicidade das coisas originadas nos seus conceitos ou

    conjecturas. Embora a teoria tenha ampla aplicao, falta unificao nos mtodos e nos

    achados. Inegavelmente, o interacionismo simblico tem sua utilidade, que originar

    novas teorias. Mas, sua exigncia a manuteno das conjecturas abordadas,

    proporcionando uma viso do homem com sua interao no processo de definir, responder,

    interagir e raciocinar (LUIS, 1991).

    Para Jorge (1997), a identificao dos limites do interacionismo simblico uma

    questo relevante que merece destaque, uma vez que existem nfases e enfoques

    diversificados dentro dessa abordagem terica. A fenomenologia e a teoria de papis so

    duas orientaes as quais o interacionismo simblico pode sobrepor. Assim, a melhor

    maneira de entender as semelhanas e diferenas entre elas apoiar-se em dois pares de

    dicotomias para descrev-las: a primeira a nfase no subjetivo versus objetivo; a segunda

    diz respeito microorientao versus macroorientao.

    Jorge (1997) destaca que a dicotomia subjetivo-objetivo, em geral, relaciona-se

    quantidade de ateno que os tericos do ao que acontece na mente humana. Noutro

  • 33

    extremo, os estudiosos enfatizam as experincias, os aspectos subjetivos, no deterministas

    da mente e tendem a uma pesquisa metodolgica completamente qualitativa. Por outro

    lado, segundo a referida autora, aqueles que se concentram nos aspectos mais objetivos de

    conceitos fundamentais tendem a dar maior nfase previsibilidade, repetitividade,

    mensurao e objetivo da conduta humana e a se encaminhar para um mtodo mais

    quantitativo.

    Nessa perspectiva, entendemos que o interacionismo simblico pode estar situado

    numa posio intermediria entre a fenomenologia e a teoria de papis, conforme se tem

    apresentado na literatura consultada (LUIS, 1991; JORGE, 1997). A seguir, sero descritos

    os conceitos centrais que servem de base compreenso das idias de George Mead a

    respeito do interacionismo simblico, sob as perspectivas apontadas por Blumer (1969) e

    Charon (1989):

    a) Smbolo

    O smbolo o ponto central do interacionismo simblico, pois sem ele os seres

    humanos no podem interagir uns com os outros. Smbolos so objetos sociais usados pelo

    ator para representao e comunicao (CASSIANI, 1994). Na realidade, a comunicao

    se faz atravs de smbolos que tm seu significado entre as pessoas e, atravs da

    interpretao desses smbolos, ocorre a interao social. Em outras palavras, por

    intermdio dos smbolos que as pessoas so socializadas, compartilham da cultura e

    entendem qual o seu papel social. Para Blumer (1969), o smbolo usado para pensar,

    comunicar, representar. Algo s simblico quando expressa um significado (uma

    representao), uma intencionalidade.

    Nessa mesma linha de pensamento, Charon (1989) enfatiza que os smbolos,

    enquanto objetos sociais, so definidos na interao social. Nesse processo, caracterizam-

    se como significativos e significantes, isto , tm um significado, envolvem um

    entendimento, tanto para os atores quanto para os indivduos a quem se dirigem as aes.

    Essa abordagem baseada na realidade social que se desenvolve a partir da interao de

    uns com os outros.

    O significado das coisas nasce de uma interpretao que as pessoas fazem da

    realidade, levando-as a agir no contexto da interao social. Assim, medida que os

  • 34

    indivduos interagem, eles esto interpretando ou definindo as aes uns dos outros, ao

    invs de meramente reagindo s aes uns dos outros. Suas respostas no so dadas

    diretamente s aes do outro, mas baseadas nos significados que eles atribuem a tais

    aes.

    A interao humana mediada pelo uso de smbolos, pela interpretao ou pela

    determinao de significados atribudos s aes dos outros (BLUMER, 1969). O mundo

    das pessoas consiste em objetos. O citado autor tratou os objetos de maneira idntica a

    Mead. Para ele, os objetos so de trs tipos: fsicos (coisas), sociais (pessoas) e abstratos

    (idias). Os objetos adquirem significado somente atravs da interao simblica.

    b) Self (o ego/a prpria pessoa)

    Na interpretao que Blumer (1969) faz do pensamento de Mead, self significa

    que a pessoa pode ser objeto de sua prpria ao, ou seja, objeto de si prpria. Ao afirmar

    que o indivduo possui um self, Mead enfatiza que, da mesma forma que o indivduo age

    socialmente com relao a outras pessoas, ele interage socialmente consigo mesmo e age

    em relao a si prprio. Assim sendo, a pessoa pode tornar-se objeto de suas prprias aes

    dentro da sociedade que, de acordo com Mead, precede a existncia do self (HAGUETTE,

    2003).

    Para os interacionistas simblicos, o self um objeto social atravs do qual o

    indivduo age. O fato de possu-lo converte o ser humano em um tipo especial de ator,

    transforma sua relao no mundo e d sua ao um carter nico (BLUMER, 1969).

    Assim, o self representa um processo social no interior do indivduo que envolve duas

    fases analticas distintas:

    1. O eu a tendncia impulsiva do indivduo. o aspecto inicial, espontneo e desorganizado da experincia humana. Logo, representa as tendncias no direcionadas do indivduo.

    2. O mim representa o outro incorporado ao indivduo. Logo, ele compreende o conjunto organizado de atitudes e definies, compreenses e expectativas ou simplesmente sentidos comuns ao grupo. Em qualquer situao, o mim compreende o outro generalizado e, raramente, um outro particular. (HAGUETTE, 2003, p. 27).

    Para os interacionistas simblicos, o self um objeto e interage com os outros. Por

    isso, definido, redefinido e muda constantemente. A esse respeito, Charon (1989, p. 65)

  • 35

    esclarece: Como eu me vejo, como eu me defino, o julgamento que tenho de mim mesmo

    so todos altamente dependentes das definies sociais que encontro na vida. Assim, as

    aes que o indivduo executa evidenciam a importncia da self-comunicao, self-

    percepo ou autoconceito, identidade, self-julgamento ou auto-estima.

    Todas as aes que so executadas dependem diretamente da comunicao

    simblica, sendo esta, ento, a mais importante de todas e a que torna as demais possveis.

    O que eu penso e sinto sobre mim mesmo, como tudo o que est relacionado ao self,

    resulta da interao. Isso faz com que o self-julgamento seja resultado, em grande parte, do

    julgamento dos outros sobre mim. No caso da criana, por exemplo, o julgamento que os

    outros significantes fazem dela importante para que ela defina seu autojulgamento

    (DUPAS, 1997).

    c) Mente

    A mente concebida por Mead como um processo que se manifesta sempre que o

    indivduo interage consigo prprio usando smbolos significantes. Esta significncia ou

    sentido tambm social em sua origem. Da mesma forma, a mente tambm social, tanto

    em sua origem como em sua funo, porque ela surge do processo social de comunicao

    (HAGUETTE, 2003).

    Na concepo de Charon (1989), mente ao que usa smbolos e dirige esses

    smbolos em relao ao self. Seguindo esse raciocnio, podemos inferir que a pessoa, ao

    tentar fazer algo, age em seu mundo e se comunica com o self atravs da manipulao de

    smbolos. O seu mundo se transforma por causa das definies de mundo interpretado pela

    mente, de modo que a ao resulta da interpretao ativa da pessoa aos objetos.

    Charon (1989) ressalta que Mead e Blumer tm opinies distintas acerca da ao

    da mente. Para Mead (1977), a ao da mente se d com o surgimento de problemas e

    quando necessitamos solucion-los. Segundo Blumer (1969), a ao mental um processo

    contnuo do indivduo, fazendo as indicaes do self em todos os dias e durante todo o

    tempo.

  • 36

    d) Interao social

    Todos os conceitos anteriormente descritos levam ao entendimento do que seja

    interao social. Podemos resumir tudo isto afirmando que, na interao social, as pessoas

    so vistas como atores que se relacionam, comunicam-se e interpretam um ao outro. A esse

    respeito, Charon (1989, p. 138) acrescenta:

    Quando interagimos, ns nos tornamos objetos sociais uns para os outros, usamos smbolos, direcionamos o self, nos engajamos em ao mental, tomamos decises, mudamos direes, compartilhamos perspectivas, definimos a realidade, definimos a situao e assumimos o papel do outro. O entendimento da natureza da interao deve reconhecer a existncia de todas essas atividades.

    A interao social construda a partir da ao social. A ao formada luz da

    situao na qual ela acontece. As pessoas agem de acordo com a forma como interpretam a

    situao. Assim, a interao simblica envolve interpretao e definio, e ocorre entre as

    pessoas envolvidas. Duas formas de interao sociais so identificadas na sociedade

    humana. Para Mead (1977), trata-se de comunicao do gesto e do uso de smbolos

    significantes; j para Blumer (1969), significa respectivamente interao no simblica e

    interao simblica.

    Cassiani (1994), abordando esse aspecto, afirma que o modelo caracterstico da

    interao se d em nvel simblico, quando se procura entender e interpretar o significado

    da ao do outro. Blumer (1969) argumenta que a interao simblica quando os atos de

    cada indivduo tm significado para o criador e o recebedor da ao. Charon (1989, p. 149)

    faz a seguinte observao sobre a importncia da interao social:

    Os seres humanos so atores sociais: eles levam outros em conta quando agem e os outros fazem diferena nas suas aes. Quando a ao social se torna mtua, quando atores se levam em conta e ajustam seus atos, eles esto engajados numa interao social. A interao social simblica: intencionalmente comunicamos quando agimos e outros interpretam o que fazemos. Na interao rotulamos outros e isso diferencia aquilo que fazemos. Freqentemente tentamos influenciar a identidade de outros, influenciando nossa ao em relao aos outros, o que freqentemente interfere na maneira de como eles agem. Porque reconhecemos a importncia de como os outros nos vem nas situaes, tentamos controlar o que apresentamos aos outros na interao. Entender a interao reconhecer o ajustamento desses aspectos.

  • 37

    e) Sociedade

    Na concepo de Mead, sociedade toda atividade grupal que se baseia no

    comportamento cooperativo. O comportamento humano envolve uma resposta s intenes

    dos outros. Essas intenes so transmitidas atravs de gestos que se tornam simblicos,

    isto , passveis de serem interpretados (HAGUETTE, 2003).

    Naturalmente, observamos que as noes de interao social e sociedade esto

    intimamente relacionadas, resultando em uma sociedade de indivduos engajados num

    processo de interao social. Charon (1989) aponta dois conceitos dominantes no seio da

    sociedade: o de cultura e de estrutura social. Cultura entendida como costume, tradio,

    norma, valor, regra, claramente derivada da ao das pessoas.

    Portanto, a sociedade uma interao cooperativa, que desenvolve cultura. Esta

    tem o mesmo sentido de consenso do grupo, ou seja, as concordncias, as divergncias, a

    linguagem, o conhecimento diverso e as regras que se supe governarem a ao. Os

    interacionistas simblicos caracterizam a sociedade como dinmica, ou seja, os indivduos

    interagem uns com os outros, definindo e alterando a direo dos atos uns dos outros.

    Nessa perspectiva, Blumer (1969, p. 79) enfatiza:

    O termo interao simblica refere-se a um carter peculiar e distinto de interao que acontece entre os seres humanos. A peculiaridade est no fato de que os seres humanos interpretam ou definem a ao um do outro, em vez de meramente reagir a elas. A resposta s aes baseada no significado que elas tm para o indivduo. Portanto, a interao humana mediada pelo uso de smbolos, pela interpretao, ou por identificar o significado de uma ou de outra ao.

    2.2 Articulando o interacionismo com o objeto em estudo

    Tentaremos fazer uma conexo entre os conceitos do interacionismo simblico e a

    viso de mundo dos enfermeiros vivenciado pela suas experincias, de acordo com o que

    representa para eles a relao entre teoria (modelos formais) e prtica. Buscamos, com

    isso, compor um sistema de informao e, assim, mapear sua linha de ao luz de uma

    interpretao em que os prprios enfermeiros procuram dar significado aos fatos inseridos

    em sua realidade. Essa linha de ao, segundo Blumer (1969), consiste em considerar as

  • 38

    vrias coisas que as pessoas observam e que as levam a formar uma regra de conduta,

    baseada na sua interpretao.

    A interao simblica focaliza o significado dos eventos para as pessoas no

    ambiente natural ou numa situao diria e est ligada ao conhecimento da filosofia

    fenomenolgica. Tanto a fenomenologia como o interacionismo simblico esto

    relacionados com o estudo dos aspectos internos ou experimentais do comportamento

    humano, ou seja, ao modo como as pessoas definem os eventos ou a realidade e como elas

    agem em relao s suas crenas. Para os interacionistas, o significado conduz o

    comportamento a um estgio de deliberao ou definio da situao que precede a ao.

    O real ou o significado da situao criado pela pessoa e esta a conduz ao e s suas

    conseqncias (CHENITZ; SWANSON,1986).

    O interacionismo v o comportamento humano como o resultado de processos. De

    acordo com Blumer (1969), todo comportamento humano o resultado de um vasto

    processo interpretativo. Nesse processo, de forma isolada ou coletiva, as pessoas se

    conduzem pela definio de um objeto, evento ou situaes por elas encontradas.

    Dessa forma, o interacionismo uma ferramenta terica que possibilita a

    compreenso do fenmeno de uma maneira mais ampla. Alm disso, revela e aponta o

    significado que a relao entre teoria e prtica em enfermagem tem para o enfermeiro e o

    que representa para o desenvolvimento de sistemas de informao. Possibilita, ainda,

    compreender se esse significado decorrente ou resultante da interao que o enfermeiro

    faz com os elementos envolvidos no processo de trabalho. Procura, por fim, saber se esses

    elementos so significativos, toda vez que interagem no seu ambiente de trabalho e como o

    enfermeiro utiliza o processo interpretativo ao agir mutuamente com os objetos mais

    significativos de sua prtica.

    Estabelecem-se a premissa de que o enfermeiro pode ou no, durante sua trajetria

    assistencial diria no ambiente hospitalar, trazer luz da razo as dificuldades encontradas

    na sua prtica. Diante de tal premissa, procuramos neste estudo desenvolver uma anlise

    que mostre a forma como ele enfrenta as barreiras profissionais tomando por base os

    fundamentos do interacionismo simblico.

  • 39

    Esta abordagem parece mais voltada para o conhecimento da percepo, assim

    como do significado que determinada situao pode apresentar. No caso deste estudo,

    procuramos saber como o enfermeiro percebe a relao teoria e prtica na sua prpria

    experincia profissional e como essa vivncia pode contribuir para desenvolver um sistema

    de informao computadorizado em que haja interao entre os usurios.

    2.3 Apresentando a opo metodolgica

    A grounded theory uma abordagem metodolgica que tem suas razes no

    interacionismo simblico. Est voltada para conhecer a realidade a partir do conhecimento

    da percepo ou significado que determinado contexto ou objeto tem para o outro. Trata-

    se, portanto, de um mtodo de pesquisa qualitativa que aplica alguns procedimentos

    sistemticos para desenvolver uma teoria. E o faz atravs dos mtodos indutivo e dedutivo,

    com base nos dados investigados, ao invs de testar uma teoria j existente (NICO, et al.,

    2007).

    O mtodo foi desenvolvido por Glaser; Strauss (1967), socilogos da

    Universidade da Califrnia, no incio da dcada de 1960. A nfase era a necessidade de

    compreender o ponto de vista do ator para entender a interao, o processo e a mudana

    social. Strauss foi influenciado pelo interacionismo simblico e pelos trabalhos de W. I.

    Thomas, G. H. Mead e Herbert Blumer. A partir de uma perspectiva mais terico-

    quantitativa, Glaser desenvolveu uma abordagem para o pensamento reflexivo, mtodos

    sistemticos de categorizao e generalizaes tericas. Nesse aspecto, recebeu a

    influncia do interacionismo simblico na compreenso de realidade social.

    O propsito da grounded theory a construo de uma teoria com base nos dados

    investigados em um determinado objeto da realidade que so obtidos de maneira indutiva

    ou dedutiva. Em seguida, esses dados so firmados em categorias conceituais que, ao

    serem estabelecidas, podem explicar o fenmeno. Os comportamentos so estudados ao

    nvel simblico e interacional e devem ser observados no ambiente, tendo em vista que os

    significados so derivados da interao social.

    Na grounded theory, os dados so coletados e a anlise ocorre simultaneamente.

    A pesquisa utiliza freqentemente os dados durante o estudo, revisa perguntas da pesquisa

  • 40

    e busca fatos que esto acontecendo no cenrio social. A constante comparao do mtodo

    usada para desenvolver e refinar as categorias teoricamente relevantes.

    Esse processo de anlise comparativa continua durante toda a coleta de dados at

    sua saturao, ou seja, quando a coleta de dados no produz novas informaes. Tal

    mtodo utilizado quando j existe um conhecimento mnimo sobre um fenmeno ou

    quando uma nova perspectiva requerida. Atravs desse processo, o investigador descobre

    os padres fundamentais da vida social ou do processo social bsico, que leva ao

    desenvolvimento da teoria.

    Segundo Cassiani (1994), a grounded theory uma metodologia de campo que

    objetiva gerar constructos tericos capazes de explicar a ao no contexto social sob

    estudo. O investigador procura analisar processos que esto acontecendo no cenrio social,

    partindo de uma srie de hipteses. Unidas umas s outras, essas hipteses podem explicar

    o fenmeno, combinando abordagens indutivas e dedutivas.

    Para Glaser; Strauss (1967), ao desenvolver uma teoria, o pesquisador deve fixar-

    se na categoria conceitual, estabelecida a partir dos fatos e dos conceitos que podem

    emergir. Por isso, na grounded theory, a coleta e a anlise dos dados ocorrem

    simultaneamente e so baseadas no mtodo comparativo constante entre eles, a fim de ser

    gerada a hiptese.

    Assim, o pesquisador continuamente formula hipteses e as descarta se no

    parecem precisas. Entretanto, os dados considerados contraditrios no podem ser

    descartados de imediato, porque podem contribuir, posteriormente, para o enriquecimento

    da teoria. Alguns conceitos bsicos para o entendimento e a utilizao dessa metodologia

    sero apresentadas a seguir:

    a) Sensibilidade terica: a qualidade pessoal do pesquisador que indica a

    percepo de sutilezas dos significados dos dados (STRAUSS; CORBIN, 1998). a

    capacidade de ter insights a respeito de um fenmeno, a habilidade de reconhecer e dar

    significado aos dados e entend-los. Segundo Glaser (1978), para se alcanar a

    sensibilidade terica, preciso entrar no cenrio da pesquisa com o mnimo de idias

    preconcebidas, especialmente aquelas logicamente deduzidas.

  • 41

    Agindo dessa maneira, o pesquisador ser capaz de permanecer sensvel aos

    dados, registrar eventos e detectar acontecimentos, sem t-los de filtrar com pensamentos e

    ajustes de hipteses ou tendncias preexistentes. Para isso preciso que mantenha um

    equilbrio entre criatividade e cientificidade e que assuma uma postura ctica ao seguir os

    procedimentos de pesquisa. O somatrio de todos esses aspectos desenvolve a

    sensibilidade terica e ajuda na formulao de uma boa teoria.

    b) Amostragem terica ou amostra proposital: constitui-se no processo de coleta

    de dados para gerar a teoria onde o analista coleta, codifica e analisa seus dados e decide

    quais dados coletar e onde encontr-los, a fim de desenvolver a teoria que est emergindo

    (GLASER; STRAUSS, 1967). O objetivo da amostragem terica selecionar eventos ou

    incidentes que so indicativos de categorias, a fim de que se possa desenvolv-las e

    relacion-las.

    Inicialmente, o investigador entrevista um grupo da populao, seguindo seus

    objetivos. Os cdigos elucidados dessas entrevistas so utilizados para direcionar a coleta

    de dados adicionais, desenvolvendo teoricamente as categorias com respeito s suas

    propriedades e sua conexo com outras categorias. A amostragem terica de qualquer

    categoria termina quando ela estiver, num processo de saturao terica, elaborada e

    integrada em uma teoria emergente (CASSIANI, 1994).

    c) Memorandos e diagramas: os memorandos constituem uma forma de registro

    referente formulao da teoria, enquanto os diagramas so representaes grficas ou

    imagens que permitem a visualizao das relaes entre os conceitos. Ambos podem ser

    expressos por notas tericas, notas metodolgicas, notas codificadas ou subvariedades

    delas.

    Os procedimentos de coleta e anlise de dados, com base no modelo de

    paradigma proposto por Strauss; Corbin (1998), tm sua estrutura apoiada nos seguintes

    elementos:

    $ Condies causais: referem-se ao conjunto de eventos, incidentes ou

    acontecimentos que levam ocorrncia ou ao desenvolvimento de um fenmeno.

    So denominadas e apontadas, nos dados, atravs de expresses como: quando,

  • 42

    onde, uma vez que, porque, devido a, por causa de. Todavia, esses dados nem

    sempre so evidentes, mas podem ser localizados.

    $ Fenmeno: a idia central, o evento ou acontecimento, para os quais as

    aes ou interaes so dirigidas ou com os quais esto relacionadas.

    $ Contexto: so as especificidades da condio causal e do fenmeno, ou seja,

    um grupo especfico de particularidades que os envolve, as condies dentro do

    qual as estratgias de ao/interao so tomadas.

    $ Condies intervenientes: indicam as condies estruturais que se apoiam

    nas estratgias de ao-interao e que pertencem ao fenmeno. Essas condies

    agem, facilitando ou restringindo as estratgias de ao-interao tomadas dentro

    de um contexto especfico. Podem incluir as seguintes condies: tempo, espao,

    cultura, status econmico, nvel tecnolgico, histria, biografia do indivduo, entre

    outras.

    $ Estratgias de ao-interao: indicam como as pessoas respondem s

    condies causais, ou seja, direcionam a ao-interao para gerenciar, lidar ou

    responder a um fenmeno e como ele se d num determinado contexto. Essas

    estratgias devem ser concebidas como processuais, seqenciais, em movimento,

    mudando ao longo do tempo, orientadas por metas, feitas por alguma razo. Elas

    so descritas normalmente por verbos de ao, tais como: manter, procurar, fazer,

    avaliar, entre outros.

    $ Conseqncias: so identificadas como os resultados ou expectativas da

    ao-interao em relao a um determinado fenmeno.

    Na concepo de Dupas (1997), o uso desse modelo capacita o pesquisador a

    pensar sistematicamente sobre os dados e a relacion-los de modo mais complexo, de

    forma que a resposta a cada um de seus elementos possa garantir a saturao terica de

    cada categoria.

  • 43

  • 44

    3.1 Sistemas de informao

    Para uma melhor compreenso deste captulo, sero apresentadas, inicialmente,

    algumas definies de sistema. A palavra sistema vem do grego sstema que significa

    reunio, grupo (FERREIRA, 1999). A disseminao do termo ocorreu a partir da Segunda

    Guerra Mundial, com o surgimento de aplicaes agregativas como os sistemas de defesa,

    sistemas hidrulicos etc. (BIO, 1996).

    No sentido mais geral, sistema uma coleo ou arranjo de entidades ou coisas,

    relacionadas ou conectadas de tal modo que formam uma unidade ou um todo

    (WETHERBE, 1986). Hoje, o termo est sendo usado em diferentes campos com uma

    variedade de significados. No campo empresarial, sistema definido como um conjunto de

    funes interdependentes, cuja interao, de acordo com o pensamento sistmico, forma

    um todo unitrio. Mas sua subdiviso em partes no necessariamente produzir valores

    parciais que, somados, sejam equivalentes ao todo (ZAMBO; ACCIOLY, 1998).

    Para Ossimitz (1997), sistema uma entidade que mantm sua existncia pela

    interao mtua de suas partes, sendo que a interao o elemento-chave da definio. As

    interaes so os elementos responsveis em atribuir as caractersticas gerais do sistema e

    no de suas partes isoladas. Somente possvel entender o sistema complexo, atravs das

    interaes e nunca atravs das partes.

    Outra definio considera sistema como um conjunto de elementos

    interdependentes, interagentes, trabalhados com objetivos definidos e mtuos (SANTOS,

    2002. p. 32). A partir dessas definies, pode-se inferir que a palavra sistema tem muitas

    conotaes, sendo difcil encontrar uma definio completa porque depende da viso de

    mundo de cada pensador.

    Aplicando o conceito ao mbito deste trabalho, sistema de informao um

    campo de estudo que se preocupa com alguns componentes bsicos da tecnologia da

    informao, a saber: tecnologia, desenvolvimento, uso e gerenciamento. Tambm nesse

    mbito, existem problemas em defini-lo exatamente. preciso tambm levar em

    considerao, a diferena das tradies cientficas ou culturais entre a cincia da

    computao e as cincias sociais, por exemplo, baseada em diferentes posies filosficas

    ou diferentes vises de mundo. Trata-se de um fato histrico que tem gerado diferentes

  • 45

    interpretaes ao campo de estudo de sistema de informao (RODRIGUES FILHO;

    LUDMER, 2005).

    Assim, numa viso formal, o sistema de informao compreende a integrao de

    vrios componentes: hardware, software, pessoas, informaes e processos. Atuando

    juntos, eles se complementam formando um conjunto de funes especficas e

    harmoniosas, com o propsito de maximizar os benefcios da capacidade humana e

    tecnolgica. Para que esses benefcios possam acontecer, preciso coletar dados,

    armazenar, processar e gerar relatrios necessrios organizao (PAHO, 2001).

    De modo geral, os sistemas informatizados nos hospitais foram construdos

    levando-se em conta a capacidade dos computadores em manipular uma grande quantidade

    de informao, armazenando-a e colocando-a disposio dos usurios, quando

    necessrio. Assim, a proposta bsica de um sistema desse tipo gerenciar a informao de

    que o profissional necessita para realizar seu trabalho de forma mais eficiente (MARIN,

    1995).

    3.1.1 Sistema de informao: viso rgida (hard)

    Os sistemas de informao so encontrados em todos os setores de sade,

    destacando-se: hospitais, clnicas, centros comunitrios de sade, agncias de sade,

    rgos de pesquisa e instituies educacionais. Sua configurao multiforme e depende

    de como ser usada, bem como do tipo de trabalho que desempenha na organizao. Para

    isso, imperativo que se faam pesquisas e que se repensem aspectos como o fluxo de

    trabalho existente, as rotinas e as prticas correntes. Assim, o objetivo do sistema de

    informao em sade facilitar a gerncia da informao clnica e administrativa de um

    servio, buscando melhorar a qualidade do atendimento e a reduo de custos.

    Embora os sistemas de informao em sade utilizem intensivamente a tecnologia

    da informao, os modelos vigentes nas organizaes tm sido construdos numa viso de

    mundo racional e mecanicista. Esse modelo tradicional de viso rgida ou hard est

    fundamentado no pensamento funcionalista. Por isso, incapaz de atender s necessidades

    do mundo organizacional, inserido no contexto de globalizao da informao, cada vez

    mais complexa e sujeito s turbulncias macroeconmicas e, conseqentemente, aos

    conflitos sociais.

  • 46

    Para que se compreenda esse pressuposto, preciso observar que a informao

    est inserida no processo scio-organizacional. Nesse sentido, a grande questo saber por

    que o modelo racional ou tradicional no satisfaz as necessidades organizacionais para o

    desenvolvimento de sistemas de informao. A esse respeito, sero apontados alguns

    aspectos do enfoque tradicional, na tentativa de responder a essa questo:

    As metodologias tradicionais para o desenvolvimento de sistemas de

    informao tm suas razes no pensamento positivista, com a influncia

    funcionalista dos cientistas da computao.

    A nfase est centralizada nas questes tcnicas do software.

    O enfoque mecanicista e fortemente influenciado pela escola de

    administrao cientfica taylorista.

    O aspecto humano da organizao ignorado, assim como a riqueza social

    na articulao dos processos de trabalho.

    A viso cientfica positivista da escola do pensamento em sistemas de

    informao supe que o mundo contm sistemas produzidos para alcanar

    objetivos.

    A viso tradicional considera que as organizaes so sistemas com

    necessidades de informao.

    O enfoque tradicional separa conceitualmente o sistema de informao das

    pessoas e suas prticas de trabalho.

    O enfoque tradicional focaliza o problema, as tarefas, as habilidades, o fluxo

    de informao e os procedimentos.

    Os tpicos apresentados tentam apontar sucintamente, no contexto da escola de

    pensamento de sistemas de informao, as caractersticas dos modelos racionais

    tradicionais ou modelos hard que entram em desarmonia com a realidade das organizaes

    do sculo XXI. Isso acontece porque tm sido incapazes de atuar, em tempos de

    globalizao e de muitas fuses, em um ambiente cada vez mais complexo e com

    perspectivas humanas conflitantes.

    Assim sendo, os conceitos de sistemas de informao tendem a fugir do modelo

    rgido, de viso puramente tcnica, para explorar outros paradigmas na organizao que

    possui no s tecnologia, mas vida social. Alguns autores tm apontado essa tendncia de

  • 47

    pesquisa, tanto nos Estados Unidos quanto nos pases europeus (EVARISTO;

    KARAHANNA, 1997; CHECKLAND; HOLWELL, 1998).

    Apesar de parecer natural, a viso comumente exposta sobre sistema de

    informao supor que as organizaes so entidades sociais, que buscam alcanar

    objetivos. Para Rodrigues Filho (2001), a atividade da administrao tomar decises e o

    papel dos sistemas de informao apoiar o processo de tomada de deciso. Comentando

    o trabalho de Checkland e Holwell, que citam o livro de Davis, o referido autor explicita

    ser funo do sistema de informao gerencial proporcionar informao para apoiar as

    operaes, a administrao e as funes de tomada de deciso das organizaes. Por outro

    lado, as organizaes so vistas como sistemas abertos, contendo um conjunto de

    subsistemas com objetivos que no podem ser alcanados sem a administrao dos

    recursos humanos e materiais.

    importante enfatizar que o paradigma racional, cuja atividade organizacional

    est baseada no processo decisrio e na busca de objetivos e de informaes, tem sido o

    modelo dominante no desenvolvimento de sistemas de informao durante vrias dcadas.

    S agora, vem sendo despertado o interesse por uma perspectiva alternativa que caracteriza

    o pensamento em sistemas flexveis, tentando, assim, compreender as atividades humanas

    e a vida organizacional.

    3.1.2 Sistema de informao: viso flexvel (soft)

    As pesquisas em sistemas de informao esto sendo desafiadas por formas

    conceituais alternativas, diferentes dos modelos descritivos, prescritivos e normativos,

    oriundos do pensamento positivista, para focalizar diferentes nveis de anlises,

    metodologias, epistemologia e interpretao crtica da realidade. Essa perspectiva

    divergente e polarizada resultante dos efeitos produzidos pela atividade humana, em

    nvel individual, na organizao e na sociedade.

    Com isso, as preocupaes sociais, ticas e tcnicas passaram a ser vistas como

    partes integrantes do sistema scio-organizacional. Portanto, se a tecnologia da informao

    capaz de mudar a rotina de nossas vidas, a participao das pessoas no desenvolvimento

    de sistemas uma oportunidade que no se pode ignorar (SCHULER, 1994).

  • 48

    Outro aspecto relevante a ser observado a relao da informao com os atores

    sociais que a utilizam. O estudo da informao pressupe a possibilidade de definio de

    vrios objetos, segundo o olhar e o paradigma no qual esto inseridos (FERNANDES,

    1995). Essa compreenso no vislumbrada no mtodo tradicional de construo de

    sistemas de informao. Da a existncia de uma lacuna entre a teoria e a prtica nessa rea

    de conhecimento, causando falhas em projetos de sistemas de informao, ausncia de

    retorno nos investimentos em tecnologia da informao e apatia dos usurios em relao

    praticidade do sistema.

    Nesse sentido, possvel perceber que o modelo tradicional de sistemas de

    informao tem suas limitaes, enquanto paradigma tcnico-funcionalista, no atual

    contexto das organizaes. Tais limitaes ocorrem, especialmente, no complexo sistema

    de sade que no exige apenas tcnica (hardware, software, nets), estruturas de dados,

    arquiteturas de dados, bancos de dados, nem ambientes e padres de interface grfica.

    Hoje, esse sistema envolve profissionais que cuidam de pessoas. Envolve tambm a

    formalizao do conhecimento associado informalizao, para proporcionar sociedade

    um servio de sade com qualidade e rapidez de atendimento para o paciente. Envolve, por

    fim, modernizao, segurana, racionalizao de atividades e desenvolvimento

    profissional.

    Nessa perspectiva, o desenvolvimento de sistemas de informao em sade

    representa um esforo que rompe os princpios do modelo tradicional para vislumbrar

    novos paradigmas na rea de conhecimento em tecnologia e sistemas de informao. Esse

    novo modelo facilita uma maior interao entre os usurios, minimiza a relao teoria e

    prtica e contribui para melhorar a qualidade e a eficincia da informao.

    Um sistema de informao tpico do ambiente hospitalar tem como objetivo o

    registro de informaes sobre os pacientes, de tal forma que possam ser compartilhadas por

    todos os setores do hospital que delas necessitem. Torna-se evidente, a partir dessa

    definio, que h valorizao dos aspectos tcnicos presentes no modelo tradicional em

    detrimento do suporte social, ou seja, dos usurios que utilizam e estudam as informaes.

    A dimenso social no desenvolvimento de sistemas de informao surge

    quebrando o consenso ortodoxo no estudo das organizaes e apontando para uma

  • 49

    pluralidade de enfoques tericos, cujas implicaes produziram novas concepes tericas

    e organizacionais. Essa alternativa ocorre num perodo em que a globalizao da

    informao influencia as organizaes quanto aos aspectos culturais, econmicos, polticos

    e sociais. As organizaes no podem mais estar atreladas a conceitos antiquados e

    fechados, quanto viso de mundo dos que desenvolvem sistemas.

    Acima de tudo, importante formar uma viso crtica em relao tecnologia da

    informao que est sobrepondo-se s dimenses sociais, tornando-se autojustificada,

    autoperpetuada e, at mesmo, onipresente. Na realidade, os tecnicistas inventam os

    sistemas e o usurio no se preocupa com os motivos dessa inveno. A tecnologia est

    redefinindo o que se entende por arte, privacidade, inteligncia, etc. Vive-se um excesso de

    tecnologia e informao, onde a individualidade minada e a liberdade comprometida.

    Assim, a compreenso de organizao est voltada para a construo de uma

    realidade organizacional na qual as intervenes simblicas so manipuladas e

    interpretadas pelos atores sociais envolvidos. Estes respondem s presses externas,

    podendo ser fortalecidos ou enfraquecidos na sua estrutura de poder estabelecido. Portanto,

    o reconhecimento da necessidade de interpretar e entender a participao das pessoas,

    como sujeitos ativos no processo organizacional, constitui um novo enfoque que rompe o

    discurso rgido estabelecido pelo paradigma funcionalista.

    Sero apresentadas a seguir algumas caractersticas fundamentais da viso flexvel

    ou soft para o desenvolvimento de sistemas de informao nas organizaes:

    a valorizao dos atores sociais no processo organizacional destacada;

    o modelo de sistema construdo de acordo com a viso de mundo das pessoas;

    a nfase do modelo soft concentra-se no "desenho participativo", por considerar o

    sistema de informao de carter eminentemente social;

    o modelo centralizado no usurio, dando prioridade s situaes, aos

    relacionamentos e s interaes de grupo.

    Essas caractersticas so instrumentalizadas com o enfoque interpretativo do

    sistema de informao que pode compreender o processo de mudana organizacional,

    fazendo um linking entre contexto social e processo social (WALSHAM, 1993). O modelo

  • 50

    alternativo interpretativo permite o entendimento das pessoas e suas aes e da forma

    como a ordem social produzida e reproduzida. Alm disso, a perspectiva interpretativa

    tem um imperativo social crtico.

    Portanto, o modelo flexvel de sistemas de informao, atravs do paradigma

    interpretativo, pode ser visto como um sistema social implementado tecnicamente, em que

    se enfatizam a natureza social da organizao e a perspectiva interacionista e poltica no

    processo organizacional como determinantes do fenmeno social.

    Iivari (1991), analisando os trabalhos de Kling e Scacchi a respeito da estrutura

    organizacional, declara que o aspecto interacionista v a organizao como uma arena na

    qual as pessoas apresentam um significado importante. Para ele, a perspectiva poltica

    como um campo de batalha no qual os participantes lutam continuamente pelo controle de

    valiosos recursos.

    Finalmente, um aspecto importante que se constata no modelo flexvel, pela sua

    posio epistemolgica interpretativa, a sua versatilidade quanto s questes sociais e

    organizacionais na construo de sistemas de informao. Isso ocorre, sobretudo, porque,

    ao romper com a metodologia ortodoxa dominante, esse modelo possibilita a produo de

    riqussimos trabalhos de pesquisa no campo do conhecimento em tecnologia e sistemas de

    informao.

    Como se pode observar, os dois enfoques (rgido e flexvel) para desenvolvimento

    de sistemas de informao produzem conhecimentos diferentes, porque so fundamentados

    em metodologias divergentes e em uma viso de mundo diferente.

    3.2 Paradigmas para o desenvolvimento de sistemas de informao

    O positivismo representa uma corrente do pensamento que alcanou, na lgica

    formal e na metodologia da cincia, avanos considerveis para o desenvolvimento do

    conhecimento geral e, em especial, no sistema de informao em enfermagem.

    Atualmente, vem sendo bastante explorado na literatura, utilizando-se de uma abordagem

    tradicional de pesquisa com razes no pensamento positivista, que uma doutrina criada no

    sculo XIX por Auguste Comte.

  • 51

    Caracteriza-se, sobretudo, pela orientao antimetafsica e antiteolgica que

    pretendia imprimir filosofia, e por preconizar como vlida unicamente a admisso de

    conhecimentos baseados em fatos e dados da experincia. O carter dessa doutrina est

    fundamentado no conhecimento de dados empricos, cujo teor, geralmente, acaba por ser

    privilegiado (sensacionismo, intuicionismo, simbolismo etc.) e, muitas vezes, leva ao

    agnosticismo, ao relativismo ou ao misticismo.

    Essa linha de pensamento gerou um movimento doutrinrio chamado Crculo de

    Viena, fundado em 1924 por Moritz Schlick (1882-1936), filsofo alemo. Nesse grupo,

    reuniu os filsofos alemes Philipp Franck (1884-1956), Otto Neurath (1882-1945), Rudolf

    Carnap (1891-1970), Hans Reichenbach (1891-1935), bem como os filsofos austracos

    Friedrich Waismann (1896-1959), Ludwig Wittgenstein, Hans Hahn (1880-1934) e outros.

    Na avaliao de Gottlob Frege e de B. Russell, esses estudiosos desenvolveram a anlise

    lgica da linguagem cientfica, associando o enfoque empirstico do positivismo ao

    formalismo lgico-matemtico.

    Surgiu tambm o movimento doutrinrio de pensadores de lngua inglesa, entre

    outros, dos filsofos ingleses Alfred Jules Ayer (1910-1989), George Edward Moore

    (1873-1958) e Gilbert Ryle (1900-1976) e do matemtico e filsofo norte-americano

    Willard van Orman Quine (1908). Esse movimento era caracterizado principalmente pelo

    fisicismo, pela crtica da linguagem e pela adoo do mtodo axiomtico (neopositivismo,

    empirismo cientfico e empirismo lgico) (FERREIRA, 1999).

    Assim sendo, o empirismo cientfico ou neopositivismo, ou ainda empirismo

    lgico, passou a predominar como mtodo cientfico e influenciou, sobremaneira, os

    sistemas organizacionais. Sucintamente, esse mtodo est fundamentado nos seguintes

    aspectos:

    ! O positivismo considera a realidade como sendo formada por partes isoladas,

    de fatos atmicos, ou seja, uma viso isolada dos fenmenos sociais. Na sua

    concepo, o mundo um amontoado de coisas separadas, fixas.

    ! O positivismo no aceita outra realidade que no sejam os fatos que possam ser

    observados.

  • 52

    ! Para o positivismo, no interessavam as causas dos fenmenos. A atitude

    positiva consistia em descobrir as relaes entre as coisas. Para isso, elaboravam-

    se determinadas estratgias (questionrios, escalas de atitudes, escalas de opinio,

    tipos de amostragem etc.) e se privilegiava a estatstica. O que interessava era

    verificar como se produziam as relaes entre os fatos (TRIVIOS, 1994).

    ! O esprito positivista defende uma forte bandeira: a da neutralidade da cincia.

    Nesse aspecto, deve-se buscar um conhecimento neutro, livre de juzo de valor.

    Seu papel apenas exprimir a realidade e no julg-la.

    ! O positivismo lgico estabelece o princpio da verificao (demonstrao da

    verdade). Em outras palavras, s ser verdadeiro aquilo que puder ser verificvel,

    confrontado com o dado.

    ! O positivismo faz distino entre valor e fato. Os fatos so objeto da cincia e

    os valores so apenas expresses culturais e, portanto, no constituem

    conhecimento cientfico.

    ! O positivismo reconhece apenas dois tipos de conhecimentos autnticos,

    verdadeiros e legtimos: o empirismo e o lgico.

    Apesar da grande influncia do positivismo nas cincias, surgiram as crticas e os

    ataques por parte dos prprios integrantes do Crculo de Viena, talvez porque esses

    pensadores pretendessem fazer do positivismo lgico uma filosofia geral da cincia. Karl

    Popper formulou o racionalismo crtico que explica o comportamento humano, o saber, as

    idias, as organizaes sociais etc. Defendeu tambm o carter hipottico de todo

    conhecimento cientfico e props o mtodo hipottico-dedutivo.

    A crtica da Escola de Frankfurt foi profunda e cavou o tmulo do positivismo.

    Seus principais representantes - Horkheimer, Adorno, Marcuse, Benjamin, Fromm e

    Habermas - dirigiram suas flechas ao positivismo que aparecia como um alvo cheio de

    pontos vulnerveis, fceis de acertar e de destruir (TRIVIOS, 1994).

    Vale salientar, ainda, a influncia do paradigma funcionalista que, ao lado do

    positivismo, constituem duas fortes correntes do domnio ortodoxo na metodologia

    tradicional para desenvolver sistemas de informao. O paradigma funcionalista originou-

    se na Frana, no incio do sculo XIX. Foi motivado pelo crescente interesse nos estudos

    da natureza do mundo, na suposio de que os modelos desenvolvidos para o estudo dos

  • 53

    animais, plantas, molculas, etc. poderiam ser aplicados ao estudo da existncia humana.

    Os principais defensores dessa corrente de pensamento so: Frederick Taylor, Auguste

    Comte e Emile Durkheim (MTROYAL, 2001).

    De acordo com Burrel; Morgan (1979), o paradigma funcionalista apresenta uma

    abordagem objetiva de anlise do mundo social. As pessoas que trabalham com esse

    paradigma esto preocupadas com o status quo, a ordem social e o consenso. Nessa

    abordagem, o mundo em volta do investigador realista, positivista e determinista. Os

    funcionalistas acreditam que h uma explicao racional para quase todas as coisas que

    acontecem e despendem considerveis esforos na tentativa de entender as leis ou as

    verdades que esto por trs dos fatos.

    Os funcionalistas desejam colocar esse conhecimento em proveito da sociedade,

    no mbito da cincia, da educao ou, at mesmo, dos consumidores em geral. Aqueles

    que trabalham com esse paradigma acreditam ainda que os modelos e mtodos

    desenvolvidos para estudar a natureza das cincias podem ser usados para uma anlise

    sobre a existncia humana. Acreditam tambm que "a verdade est l fora", somente

    requerendo procedimentos especficos e investigao livre para encontr-la. Nessa

    perspectiva, so usadas ferramentas da pesquisa, como anlise quantitativa, experimentos e

    anlise de contedo, para explicar, entender, predizer e controlar o mundo.

    Todavia, com a evoluo do conhecimento, novas alternativas de investigao

    cientfica foram surgindo para a compreenso do fenmeno a ser investigado. Burrel;

    Morgan (1979), com base na epistemologia, fazem distino entre o positivismo e o

    antipositivismo. O positivismo, segundo eles, procura explicar e predizer o que acontece

    no mundo social pelo mtodo de pesquisa, pela relao entre os elementos constituintes.

    J para o antipositivismo, o mundo social s pode ser entendido pelo ponto de

    vista do indivduo que est diretamente envolvido na atividade, o qual est para ser

    estudado. Para os citados autores, todo cientista social aborda sua disciplina atravs de

    pressupostos explcitos ou implcitos sobre a natureza do mundo social e a maneira como

    pode ser investigado. Esses pressupostos tm as seguintes dimenses:

    % ontolgica: refere-se essncia do fenmeno do ser;

    % epistemolgica: nasce das bases do conhecimento;

  • 54

    % humana: refere-se relao entre o homem e o ambiente;

    % metodolgica: surge das implicaes das dimenses anteriores.

    O conjunto constitudo desses pressupostos compe um paradigma. Nas cincias

    sociais, o termo paradigma geralmente usado para descrever os fundamentos das

    concepes bsicas coexistentes nas teorias, especialmente, para uma avaliao das

    cincias sociais. Para Gomes (2001), paradigma a viso de mundo aceita amplamente em

    uma disciplina e que determina a direo e os mtodos de seus pesquisadores. Significa

    dizer que um conjunto de vises relacionadas ao homem, sociedade e maneira de agir

    para se alcanar a verdade e que pode se tornar consenso entre os pesquisadores.

    Burrel; Morgan (1979) apontam quatro paradigmas que podem ser usados no

    estudo das cincias sociais e organizaes, alm de serem um instrumento de anlise do

    conhecimento. Segundo Rodrigues Filho; Borges; Ferreira (1999), esses paradigmas

    podem ser utilizados para a pesquisa e o desenvolvimento de sistemas de informao. No

    diagrama a seguir, apresenta-se uma matriz 2X2 em que so demonstrados os quatro

    paradigmas:

    Mudana radical

    Paradigma humanista

    radical

    Paradigma

    estruturalista radical

    Subjetivo

    Paradigma

    interpretativo

    Paradigma

    funcionalista

    Objetivo

    Regulao

    Figura 2: Quatro paradigmas (RODRIGUES FILHO; BORGES; FERREIRA,1999).

    Burrel; Morgan (apud RODRIGUES FILHO; BORGES; FERREIRA, 1999),

    dividiram o campo da teoria organizacional em quatro paradigmas. Dessa forma o

    conhecimento do mundo social pode ser concebido como sendo objetivo ou subjetivo e

    tambm em termos de ordem e conflito. As teorias de regulao pressupem que as

    sociedades modernas so caracterizadas mais pela ordem do que pelos conflitos. Por outro

    lado, as teorias de mudanas radicais conjecturam que as relaes sociais so

  • 55

    condicionadas mais por presses contraditrias, objetivando transformaes, do que por

    foras de continuidade e transformao. A seguir, sero analisados os quatro paradigmas

    apontados por Burrel; Morgan (1979):

    a) Paradigma humanista radical: reflete uma posio subjetiva e de mudana

    radical da sociedade, enfatizando que a realidade social construda e mantida, porm com

    uma postura de avaliao mais crtica. Combina a filosofia subjetivista da cincia com a

    teoria de mudana radical da sociedade. Esse paradigma compreende a ordem social como

    sendo o produto de coero e no de consentimento. A teoria crtica o enfoque mais

    influente no paradigma humanista radical. Tem em comum com o paradigma interpretativo

    a viso do mundo social numa perspectiva antipositivista, nominalista, voluntarista e

    ideogrfica. Porm, est comprometido com uma viso de sociedade que enfatiza a

    necessidade de superar e transcender as limitaes impostas pelos arranjos sociais atuais.

    b) Paradigma estruturalista radical: advoga as teorias de mudana radical a partir

    de uma perspectiva objetivista. A dimenso desse paradigma, que baseado na teoria

    marxista, centraliza-se na concepo materialista do mundo social, ligada por estruturas

    concretas e reais. As contradies estruturais tentam explicar a presena de conflitos e

    tenses sociais to freqentes nas organizaes e na sociedade. Todo esse contexto tem um

    grande potencial para mudana radical, sempre que as estruturas no possam ser capazes

    de regular a instabilidade.

    Para os defensores desse paradigma, as razes dos problemas e desordens sociais,

    as crises ecolgicas, a crescente depresso psicolgica, condies de trabalho degradante,

    precrias condies sociais, residem na estrutura capitalista. Segundo entendem, esses

    problemas s podem ser minimizados atravs de uma transformao radical e

    revolucionria do sistema capitalista.

    c) Paradigma funcionalista: originou-se no positivismo e reflete uma posio

    objetiva com uma teoria de regulao social. dominante nas cincias sociais e nas

    pesquisas de desenvolvimento e utilizao de sistemas de informao. Procura examinar

    regularidades e relaes que levam a generalizaes e princpios universais. Nessa

    perspectiva, preocupa-se com o entendimento da sociedade de uma forma geradora do

    conhecimento emprico.

  • 56

    d) Paradigma interpretativo: reflete uma posio subjetiva e de regulao social.

    Baseia-se na viso de que as pessoas constroem e mantm, simbolicamente e socialmente,

    suas prprias realidades organizacionais. Nessa perspectiva, a atividade humana

    considerada coesa, ordenada e integrada.

    Para Santos (2003), chega-se ao fim de um ciclo de hegemonia de certa ordem

    cientfica de um paradigma. Vive-se uma poca de perplexidade semelhante que ocorreu

    em meados do sculo XVI, quando a idia de universo orgnico, vivo e espiritual foi

    substituda pela noo do mundo comparado a uma mquina e a mquina do mundo

    converteu-se na metfora dominante da era moderna.

    Com Bacon, no sculo XVII, surge o mtodo cientfico, passando a

    cincia a ter o objetivo de dominar e controlar a natureza; com Descartes surge o mtodo

    dedutivo, segundo o qual toda a cincia conhecimento certo e evidente. Rejeitava-se todo

    conhecimento que era meramente provvel e acreditava-se naquele que no podia gerar

    dvidas. De acordo com Gomes (2001), o paradigma dominante vai sendo construdo

    neste contexto de idias. Da considerar-se o homem como uma mquina, aproximando-o

    da natureza e separando o objeto do sujeito, o conhecimento cientfico do senso comum, o

    saber cientfico do saber subjetivo.

    Japiassu (1981) prope uma alternativa para superar esse paradigma dominante,

    que atravs da cincia crtica e da interdisciplinaridade. A cincia crtica consiste em

    resistir s prticas cientficas em seu real contexto sociopoltico e cultural. J a

    interdisciplinaridade refere-se ao trabalho em comum, tendo em vista a interao das

    disciplinas cientficas, de seus conceitos e diretrizes, de sua metodologia, dos

    procedimentos de seus dados e da organizao de seu ensino.

    O conhecimento cientfico atingiu um estgio que lhe permite dialogar com outras

    formas de conhecimento e fazer intercmbio entre as cincias naturais e sociais. O mesmo

    ocorre com o paradigma interpretativo, que produto da tradio de idealistas alemes, de

    pensamento social, exemplificado nos trabalhos de Immanuel Kant. A tradio idealista foi

    quase vinculada ao movimento romntico na literatura e nas artes, iniciado na metade do

    sculo XVIII. Dentre os principais representantes desse enfoque, destacam-se: Max Weber,

    Clifford Geertz, Erving Goffman. As abordagens cientficas associadas com o paradigma

  • 57

    interpretativo so: o interacionismo simblico, a etnografia e a fenomenologia

    (MTROYAL, 2001).

    a) Interacionismo simblico: abordagem que atribui considervel importncia ao

    significado e interpretao essencial do processo humano. A realidade do mundo existe

    apenas na experincia humana e aparece somente na forma pela qual os seres humanos

    vem este mundo (BLUMER, 1969).

    b) Etnografia: o estudo descritivo de um ou de vrios aspectos sociais ou

    culturais de um povo ou grupo social. A pesquisa interpretativa etnogrfica ajuda a

    entender o pensamento humano e a ao social no contexto organizacional. Essa

    abordagem utiliza vrios mtodos: a observao participante e intensiva no campo de

    trabalho, entrevista no-estruturada, observao ilustrada por documentao de vdeo e

    outros (MERTENS, 1998).

    c) Fenomenologia: o estudo descritivo de um fenmeno ou de um conjunto de

    fenmenos em que estes se definem, quer por oposio s leis abstratas e fixas que os

    ordenam, quer por oposio s realidades de que seriam as manifestaes. Seu principal

    representante o filsofo alemo Edmund Husserl (1859-1938). Caracteriza-se

    principalmente pela abordagem dos problemas filosficos segundo um mtodo que busca a

    volta "s coisas mesmas", numa tentativa de reencontrar a verdade nos dados originrios da

    experincia, entendida esta como a intuio das essncias (TRIVIOS, 1994; FERREIRA,

    1999).

    O enfoque interpretativo, como metodologia alternativa para desenvolvimento de

    sistemas de informao, tem uma viso de processo organizacional que valoriza o aspecto

    humanstico no contexto social em que est inserido. Nesse sentido, os sistemas de

    informao no podem estar desvinculados do trabalho das pessoas. Pelo contrrio, devem

    ser compatveis com a natureza da prtica do trabalho. Caracterizam-se por estarem

    inseridos no mundo social (relaes sociais, organizaes, diviso de trabalho, motivao,

    competncia, habilidades). No se trata, simplesmente, de um arcabouo tcnico. O que

    existem so seres humanos que desenvolvem suas aes interagindo e interpretando os

    dados e informaes de acordo com a realidade social vivenciada pela experincia.

  • 58

    Os mtodos interpretativos esto demonstrando mais eficincia na compreenso

    da realidade organizacional, tendo em vista sua flexibilidade em refletir as prticas de

    trabalho, o contexto dos usurios e a interao scio-organizacional no desenho de

    sistemas. Dessa forma, o desenvolvimento efetivo de sistemas de informao requer um

    trabalho conjunto envolvendo, no somente o conhecimento tcnico organizacional, mas

    tambm os nveis comportamental e ambiental. Isso requer o uso de uma metodologia

    alternativa, descrita na perspectiva interpretativa, cujo foco no aspecto participativo dos

    usurios no desenvolvimento do sistema fundamental.

    Por outro lado, os paradigmas identificados por Burrel e Morgan, no contexto da

    pesquisa organizacional e social, tambm se manifestam no domnio do desenvolvimento

    de sistemas de informao. Essas dimenses permitem que as pessoas que atuam na

    organizao tenham condies de compreender seu papel no contexto organizacional,

    livrando-se da dominao, alienao, explorao e represso.

    Para a pesquisa em sistemas de informao, esses objetos conceptuais

    possibilitam uma anlise crtica da estrutura social existente, com o propsito de gerar

    mudanas entre a relao informao/dados, sistema de informao/organizao.

    Possibilitam tambm uma anlise da existncia humana em seus diferentes papis para o

    desenvolvimento e uso de sistemas de informao, tecnologia, organizao e a ampla

    sociedade que forma todo esse contexto.

    Neste tipo de abordagem, a participao dos atores sociais elemento integrante

    do processo de conhecimento. Isso porque eles so capazes de interpretar os fenmenos e

    atribuir-lhes um significado, pois experienciaram a problemtica na vivncia profissional.

    Por esta via, a interao sempre simblica, justificando-se da o nosso interesse em

    compreender os significados com o foco interpretativo, a partir do significado atribudo e

    interpretado pelos sujeitos investigados.

    3.3 Metodologias para o desenvolvimento de sistemas de informao

    As pesquisas em sistemas de informao so diversificadas e apresentam-se em

    diferentes formas. Nesse caso, sero feitas algumas consideraes que diferem

    acentuadamente da abordagem dominante positivista para concepes paradigmticas

  • 59

    alternativas. Contudo, impossvel analisar toda a literatura relevante sobre cada uma das

    metodologias adotadas para a pesquisa em sistemas de informao.

    O desenvolvimento conceitual como categoria de mtodo de pesquisa refere-se a

    vrios modelos e sistemas. Esses modelos, em geral, no fazem descrio alguma da

    realidade existente, mas ajudam a criar uma nova, embora no tragam, necessariamente,

    alguma realizao material (p. ex: desenvolvimento de metodologias de sistemas de

    informao). A produo de desenvolvimento tcnico como produto do artefato mdico,

    incluindo software, os modelos conceituais e os sistemas como ferramentas cognitivas e

    expansivas, bem como a compreenso do sujeito e a explorao dos detalhes sero temas

    abordados sob dois aspectos metodolgicos: tradicional e alternativo.

    3.3.1 Metodologia tradicional

    A abordagem metodolgica, predominantemente ortodoxa, para o

    desenvolvimento de sistemas de informao, em geral, e na enfermagem em particular,

    segue, tradicionalmente, os passos recomendados pela literatura positivista e funcionalista

    (SABA; JOHNSON; SIMPSON, 1994; VORA, 1995; MARIN, 2001; VORA; DALRI,

    2002). Esses passos so: planejamento, anlise, implantao, avaliao e manuteno.

    Cada passo ser analisado a seguir:

    Planejamento: a fase do conhecimento e diagnstico do servio. Nela se

    estabelece o que se pretende informatizar e como se quer fazer. Prev-se

    tambm o que ser informatizado no curto, mdio e longo prazo.

    Anlise: a fase em que so identificadas, descritas, quantificadas e

    analisadas as atividades do sistema atual e como se quer fazer a mudana.

    Implantao: essa fase se caracteriza pelo desenvolvimento e implantao do

    sistema resultante dos estudos j realizados. So indispensveis o treinamento

    dos usurios e a utilizao de teste-piloto.

    Avaliao: nessa fase procura-se avaliar o grau de satisfao do usurio em

    relao ao sistema e se este responde s expectativas e aos objetivos a que se

    prope.

    Manuteno: nessa fase, so feitas as alteraes necessrias no sistema para

    garantir a funcionalidade e diminuir os defeitos que possam existir.

  • 60

    A metodologia tradicional em sistemas de informao caracteriza-se por ser um

    sistema tcnico baseado nos pressupostos filosficos do empirismo lgico ou da

    epistemologia positivista. Esta abordagem terica trata a tecnologia como hard.

    Para o desenvolvimento de sistemas de informao na organizao, tem-se

    adotado, ao longo dos anos, a metodologia tradicional, cujo enfoque tecnicista refere-se

    aos meios tcnicos e ao know-how tecnolgico (arquitetura de sistema, estrutura cliente-

    servidor, linguagem de programao e ambiente de dados oracle, banco de dados como

    SQL, server, DB2, informix, access, e, outras plataformas de servidor windows, novell,

    linux). Os avanos das aplicaes computacionais nas empresas tm contribudo para

    acelerar as novidades em hardware e software e em telecomunicaes que surgem no

    mercado todos os dias, tornando cada vez mais prtica e rpida a vida corporativa. No

    entanto, todo esse aparato tecnolgico tem fortalecido a ortodoxia dominante da

    metodologia tradicional.

    Outro aspecto relevante a ser observado na implementao prtica de um sistema

    de informao organizacional nos modelos mecanicista e racional est nos graus variveis

    de sucesso operacional. Como ainda no h um consenso geral sobre qual o melhor

    caminho a ser seguido, muitos problemas aguardam uma soluo mais eficiente. Um dos

    problemas a ser resolvido compreender as organizaes de sade em toda a sua

    complexidade, a fim de se poder difundir a tecnologia na organizao que facilite a

    interao usurio-mquina.

    Nesse sentido, preciso entender que existem diversas peculiaridades prprias da

    contingncia organizacional. Quando os processos operacionais bsicos de um sistema de

    informao focalizam mais as aplicaes tcnicas e menos a natureza social das

    organizaes hospitalares, o sistema enfrenta problemas, porque os profissionais de sade,

    em sua maioria, no foram treinados para lidar com a tecnologia e sistemas de informao.

    Pode-se afirmar, no entanto, que, apesar da queda de preos e das vantagens

    oferecidas, a tecnologia computacional, quando inserida dentro da organizao de sade

    sem o envolvimento e participao dos atores sociais do sistema, tem decepcionado muitas

    pessoas. Em conseqncia, tem elevado os custos hospitalares de investimento e a sua

    eficincia tem sido questionada. Na impossibilidade de se encontrar uma soluo para as

  • 61

    reclamaes dos usurios, pelo menos foi possvel compreender que existe falta de

    entendimento da base terica sobre informao, gerncia e sistemas de informao, assim

    como uma limitada viso do mtodo de pesquisa organizacional.

    Todos esses aspectos tm contribudo significativamente para aumentar os

    investimentos em sistemas de informao. Entretanto, a literatura registra que cerca de

    50% dos projetos de sistemas de informao so falhos e a taxa de sucesso no passa de

    40%. A esse respeito, Rodrigues Filho; Ludmer (2005) referem-se ao trabalho de Warren e

    Adman, onde relatam dados do Ministrio da Indstria e Comrcio do Reino Unido, acerca

    dos resultados de investimentos em tecnologia da informao. O estudo mostra que esses

    resultados so desanimadores:

    ! entre 80% a 90% no alcanam os objetivos de desempenho;

    ! cerca de 80% dos sistemas so entregues fora do prazo, excedendo o

    oramento previsto;

    ! cerca de 40% dos projetos de desenvolvimento falham ou so abandonados;

    ! menos de 40% apontam a necessidade de treinamento e exigncias de

    habilidades;

    ! menos de 25% integram, de forma apropriada, os objetivos dos negcios e

    da tecnologia;

    ! apenas entre 10% a 20% atendem todos os critrios de sucesso.

    Para entender-se essa situao, parte-se do pressuposto de que existe uma grande

    lacuna entre a concepo do desenho racional do sistema de informao e o

    comportamento da realidade scio-organizacional que leva ao risco inevitvel de falha no

    sistema. Heeks; Mundy; Salazar (1999) enfatizam que as falhas acontecem,

    freqentemente, porque os sistemas de informao so fundamentados em anlises formais

    e em um modelo tecnologicamente racional das funes organizacionais.

    Por outro lado, esses sistemas, so introduzidos dentro de uma realidade informal

    e desordenada, demonstrando uma evidente falta de combinao entre os modelos formais

    (dentro do sistema de informao) e a percepo dos usurios desse sistema isso

    inevitavelmente, reflete mais uma abordagem informal e pragmtica da sua prpria

    realidade organizacional. Conseqentemente, um sistema de informao inflexvel e

  • 62

    prescritivo traz como resultado a baixa utilizao entre os usurios do sistema, ou seja, alto

    investimento em tecnologia para um feedback ineficaz.

    O sucesso ou fracasso de um sistema de informao depende do nvel de

    entendimento entre a concepo do desenho de sistema e a realidade que est sendo

    introduzida. Nesse sentido, Mumford (2006) realizou um estudo procurando fazer um

    resgate histrico do desenho sciotcnico enfatizando os valores, as pessoas envolvidas e a

    organizao. O autor mostrou que os princpios scio-tcnicos podem desenvolver

    diferentes formas de humanizar o impacto potencial da tecnologia da informao no

    mundo do trabalho e das organizaes.

    Portanto, em razo da evoluo ocorrida nos processos atravs dos quais a

    informao organizacional gerada e transmitida, a abordagem da metodologia tradicional

    utilizada no tratamento dos sistemas de informao tornou-se ineficaz. A complexidade e a

    interconectividade dos sistemas organizacionais, bem como suas dinmicas, j no

    permitem a estereotipagem da epistemologia positivista. Conforme afirmam Boland;

    O'leary (1991), outros enfoques enfatizam que a tecnologia no apenas um objeto fsico,

    mas uma forma de conhecimento prtico.

    Em outras palavras, a tecnologia uma inveno social que deve ser flexvel e

    modelada, durante a sua utilizao, porm fixando limites e abrindo possibilidades que

    modelam seus usurios. Em razo disso, preciso que se utilize cada vez mais, uma

    metodologia alternativa que reconhea a tecnologia como um componente interpretativo

    para a construo social da realidade, ou seja, a sociologia do trabalho.

    3.3.2 Metodologias alternativas

    A rea de sistemas de informao tem crescido extraordinariamente nas ltimas

    dcadas. Essa tendncia vem transformando o panorama da informao, em especial,

    devido aos seguintes fatores: evoluo das implementaes tecnolgicas de ambiente

    mainframe distribudo na arquitetura cliente - servidor, envolvendo a internet e intranets;

    mudanas na tecnologia da interface do usurio, que era baseada em caracteres, para

    interface grfica, multimdia e World Wide Web - WWW; mudanas nas aplicaes de

    transao dos sistemas de processamento em relao aos sistemas de apoio colaborativo no

  • 63

    trabalho; uso da tecnologia da informao como elemento facilitador do processo de

    negociao em reengenharia e redesenho.

    Essa tecnologia de mudanas, unida ao ambiente organizacional em

    transformao, assim como a crescente rede de comunicao e organizao virtual,

    internacionalizao e globalizao de muitas empresas, tm intensificado as mudanas de

    valores. Por outro lado, a orientao do cliente (servios de qualidade) e a qualidade de

    vida no trabalho impem novas demandas no desenvolvimento de sistemas de informao.

    Essas mudanas tm propiciado uma progressiva discusso sobre

    desenvolvimento de sistemas de informao, em particular, sobre os vrios modelos,

    ferramentas, metodologias e enfoques. Tais discusses tm possibilitado o surgimento de

    novas alternativas de enfoques e metodologias no desenvolvimento de sistemas de

    informao. Como resultado, o foco de atuao do velho paradigma (modelo tradicional)

    tornou-se insustentvel, porquanto reconhecido no meio cientfico que os sistemas de

    informao so muito mais um fenmeno social do que meramente um fenmeno tcnico

    no processo organizacional (RODRIGUES FILHO, 2001).

    Esse enfoque surge como uma tentativa de se estudar as aes organizacionais

    para enfrentar os desafios tecnolgicos da informao e da telecomunicao. Dessa forma,

    para que se possa analisar a complexidade do sistema organizacional, considerando-se os

    inter-relacionamentos das partes que o compem, necessria a utilizao de metodologias

    alternativas, ou seja, uma linha crtica e interpretativa para desenvolver sistemas de

    informao.

    Para efeito de estudo, convm esclarecer que o paradigma interpretativo apresenta

    uma abordagem subjetiva de anlise sociolgica. As pessoas que trabalham com esse

    paradigma desejam entender o mundo social como ele . Desejam chegar a uma concluso

    sobre o fenmeno que esto estudando, a partir do entendimento da experincia humana no

    nvel em que ele ocorre e no mundo sua volta.

    Partindo desse entendimento, novos enfoques e metodologias para desenvolver

    sistemas de informao comearam a ganhar espao nas pesquisas, passando a ser modelos

    alternativos ortodoxia dominante. Cita-se como exemplo a metodologia de desenho

    participativo que enfatiza o papel central do usurio no processo de desenho ou construo

  • 64

    do sistema. Esta, obviamente, uma oportunidade para que o usurio coopere no

    desenvolvimento do sistema. Logo, o desenho participativo eminentemente cooperativo e

    tem sido discutido por vrios pesquisadores na literatura (KJACR; MARSDEN, 1995;

    KYNG; MATHIASSEN, 1997; RODRIGUES FILHO, 2001).

    importante destacar que a abordagem participativa centra-se no relacionamento

    social, no conhecimento formal e informal, na competncia mtua, na interao

    interpessoal e de grupos e na experincia vivenciada pela prtica do trabalho. Nessa

    abordagem, aqueles que desenvolvem sistemas que adotam o enfoque interpretativo do

    prioridade ao contexto contingencial, ao relacionamento e interao social, com nfase na

    participao extensiva dos usurios no processo de desenho do sistema. Essa metodologia

    tem como orientao bsica desenhar o sistema com as pessoas e no para as pessoas,

    buscando extrair da realidade prtica toda a experincia do usurio. Dessa forma, procura-

    se minimizar a lacuna de conhecimentos inerentes aos requisitos de aplicao existente

    entre o produtor de sistemas e o usurio final, para garantir a usualidade.

    O desenho participativo reconhece que os usurios esto nas melhores posies

    para colher informaes sobre seu prprio trabalho. Isso abre a possibilidade para que os

    programadores cheguem a um modelo mais preciso e realista do sistema. Alm disso, por

    causa do envolvimento no processo, os usurios esto mais aptos a aceitar o sistema final,

    uma vez que so vistos como colaboradores ativos no processo de desenho.

    Nessa perspectiva, os usurios so obrigados a tomar decises. Sob a forma de

    desenho participativo, esse processo se faz atravs de consultas, onde eles so convidados

    a fornecer evidncias para a tomada de deciso, seja por meio de entrevista ou

    questionrio, seja por percepes subjetivas fornecidas pelo grupo. A tomada de deciso,

    nesse caso, assume uma conotao democrtica, na medida em que todos os participantes

    tm voz igual, responsabilidade, completa autoridade e no so pressionados por qualquer

    fora poltica. Nesse contexto, as pessoas podem tomar decises com base em seus

    prprios julgamentos.

    Alm do desenho participativo, outras abordagens metodolgicas no

    desenvolvimento de sistemas de informao apontam na direo de algumas importantes

    pesquisas em sistemas de informao que so empregadas para reforar o enfoque

  • 65

    interpretativo e crtico no campo da tecnologia da informao. A metodologia, segundo

    Hirschheim; Iivari; Klein (1997), pode ser interpretada como um conjunto organizado de

    conceitos, mtodos, crenas, valores e princpios normativos, apoiado por um conjunto de

    tcnicas, ferramentas e atividades. A tcnica, nesse contexto, consiste de uma seqncia

    bem definida de elementos operacionais que possam garantir a realizao de certos

    resultados, se executada corretamente.

    Portanto, as metodologias merecem permanente ateno, mesmo que o foco dessa

    ateno possa ser mudado para novo aspecto. Para os objetivos deste estudo, foram

    selecionados alguns enfoques que se contrapem ao domnio ortodoxo no desenvolvimento

    de sistemas de informao e representam concepes sociolgicas alternativas e

    significativamente diferentes. Esses enfoques sero analisados a seguir:

    a) Enfoque interacionista: est vinculado ao corpo da pesquisa conduzida na

    Universidade da Califrnia, por Irvine, Kling e seus colegas. O adjetivo interacionista

    caracteriza o aspecto mais distinto do enfoque, ou seja, a viso da organizao. O

    interacionismo e a perspectiva organizacional fornecem uma linguagem apropriada e

    conceitos da dinmica social que ajudam a explicar as atraes e dilemas do uso do

    computador nas organizaes. Essa abordagem j foi detalhada no captulo II desta tese.

    b) Enfoque baseado nas aes por palavras: est focalizado no significado das

    palavras que so trocadas num dilogo. Esse foco na linguagem determinado pelas

    necessidades do grupo de trabalho e outras formas de comunicao social. As aes por

    palavras so unidades bsicas de comunicao que expressam a inteno das pessoas. Para

    compreender o significado de uma ao por palavra, deve-se levar em conta a situao

    social em que ocorre (o contexto). Este consiste dos seguintes elementos: emissor,

    receptor, o tempo e o lugar da comunicao. A palavra uma forma complexa de ao

    humana, que, em determinados contextos, pode significar coisas diferentes. Portanto, esse

    enfoque procura interpretar os enunciados de fato, buscando obter a palavra que

    corresponda existncia de um estado, independentemente do contexto.

    Trabalhos pioneiros desenvolvidos no enfoque baseado nas aes por palavras nos

    Estados Unidos e na Europa vm apresentando uma origem terica comum, mas tm se

    diferenciado um pouco na sua aplicao. Nesse aspecto Hirschheim; Iivari; Klein (1997)

  • 66

    apontam alguns autores como Winograd, Flores e Lyytinen tm focalizado no discurso as

    aes por palavras. Desde 1990, o enfoque nas aes por palavras tem estimulado o

    interesse da comunidade acadmica em sistemas de informao, conduzindo vrias

    metodologias que so evidenciadas pelo crescente nmero de referncias.

    c) Metodologia de sistema soft - MSS: foi desenvolvida na dcada de 1970 por

    Peter Checkland e outros pesquisadores da Universidade de Lancaster, na Inglaterra. A

    metodologia deriva do movimento dos sistemas. Checkland v nesse modelo uma

    tentativa para dar um enfoque holstico ao problema, tendo em vista que o enfoque

    tradicionalista da cincia natural falhou nesse aspecto. O movimento dos sistemas pode ser

    localizado em disciplinas como a sociologia, a biologia, a ecologia, a economia, pesquisa

    operacional e outras. Checkland faz a distino do pensamento sistmico em hard e soft,

    numa tentativa de usar o conceito de sistemas para resolver problemas.

    Para o autor, o pensamento de sistema hard identificado nos sistemas de

    engenharia (como estratgia de pesquisa tradicional ou enfoque do desenho para

    engenheiros e tecnologistas) e anlises de sistemas (com avaliao sistemtica dos custos e

    outras implicaes que definem a necessidade de vrios caminhos). O sistema hard tem

    seu ponto de partida na construo do problema e na suposio de que os objetivos dos

    sistemas so bem definidos e consistentes. Por outro lado, o sistema soft tem como ponto

    de partida o problema que no foi construdo dentro da atividade social do sistema, no qual

    h debilidade por ser o problema mal definido. Checkland refere-se ao pensamento de

    sistemas hard como a otimizao de paradigma, enquanto o sistema soft referido como o

    estudo do paradigma (SIMONSEN, 1994).

    Para Hirschheim; Iivari; Klein (1997), a MSS uma metodologia que objetiva

    possibilitar o aprimoramento nas reas de interesse social pelas atividades das pessoas

    envolvidas na situao. O estudo se desenvolve, atravs de processo iterativo, conceitos de

    sistemas usados para refletir sobre conceitos e percepes e debate do mundo real,

    novamente, refletindo sobre os acontecimentos com base em conceitos. A reflexo e o

    debate so estruturados por modelos sistmicos. Estes so compreendidos como holsticos

    em certos aspectos do problema-situao.

  • 67

    O desenvolvimento da MSS depende muito da pesquisa-ao. Segundo Checkland

    e Scholes (apud HIRSCHHEIM; IIVARI; KLEIN, 1997), essa metodologia se distingue

    das outras vises por enfatizar a estrutura intelectual como uma pr-condio para um

    estudo efetivo da pesquisa-ao, atravs dos seguintes aspectos: a identificao da

    situao-problema; a expresso da situao-problema; a formulao da definio de base

    de sistemas; a formulao de modelos conceituais de sistemas; a comparao do modelo

    com o mundo real; a descrio de mudanas sistematicamente desejveis e praticveis; a

    ao para melhorar a situao-problema. A MSS no deve ser tratada como uma tcnica ou

    mtodo, mas como uma metodologia bem documentada. reconhecida amplamente no

    ambiente acadmico de sistemas de informao, sendo freqentemente referida na

    literatura nesta rea.

    d) Enfoque sindicalista: est focalizado na fora poltico-institucional e parece ser

    mais bem adaptado para organizar a cooperao entre gerente e sindicato. Esse enfoque

    surgiu na dcada de 1960, principalmente em trs pases escandinavos: Dinamarca,

    Noruega e Sucia. Essa prtica pode ser explicada pelo alto nvel de sindicalizao da

    fora de trabalho. Isso tem criado uma situao favorvel que assegura aos empregados e

    sindicatos o direito de participar no desenho e na tomada de deciso em sistemas de

    computador.

    O reconhecimento dessa mudana uma importante motivao para a formulao

    de estratgias do sindicato para desenvolver um sistema baseado em computador. As mais

    recentes publicaes refletem o enfoque sindicalista, denominando-o desenho

    cooperativo, que teoricamente mais uma filosofia de Heidegger e Wittgenstein do que

    de Marx.

    O enfoque no desenho cooperativo tem estimulado considerveis interesses, sendo

    considerado pr-requisito tcnico participao do usurio na atual construo de sistemas

    de informao da atualidade. Para facilitar o importante papel do usurio, tem-se apontado

    o desenvolvimento de vrias ferramentas, tcnicas e princpios para apoiar sua participao

    efetiva. Embora a tradio sindicalista tenha usado vrios nomes para caracterizar seu

    enfoque, o rtulo sindicalista originado na relao industrial da Escandinvia como

    fundo social. Destaca-se o papel do sindicalismo como patrocinador e parceiro dos

  • 68

    maiores projetos de pesquisa, evidenciando-se, alm disso, a crena no sindicalismo como

    legtimo representante dos trabalhadores (HIRSCHHEIM; IIVARI; KLEIN, 1997).

    e) Enfoque da prtica profissional no trabalho - PPT: enfatiza o estudo da prtica

    de trabalho de sistemas profissionais frente tentativa de melhor-lo. Nesse sentido, o

    enfoque PPT tem sido relacionado entre os mtodos e prticas de desenvolvimento de

    sistemas de informao. A base emprica do enfoque PPT derivada da investigao das

    condies que determinam a prtica de trabalho dos desenvolvedores de sistemas. A base

    terica est inspirada em estudos tericos da organizao, em particular, a prtica

    reflexiva.

    A base da ao organizacional, estudada na perspectiva do enfoque PPT,

    fundamenta-se em trs dicotomias: produto-orientado versus viso do processo-orientado;

    reflexo versus ao; viso versus realidade presente. O enfoque enfatiza experincias,

    reflexes e estudos no desenvolvimento da prtica do trabalho em busca do aumento do

    profissionalismo. O desenvolvimento est baseado na experincia emprica para projetos

    prticos de desenvolvimento de sistemas, sem qualquer fora pr-conceitual terica

    (HIRSCHHEIM; IIVARI; KLEIN, 1997).

    Em sntese, a questo bsica da pesquisa no enfoque PPT perguntar como a

    experincia, a reflexo e o estudo podem ser organizados no desenvolvimento da boa

    prtica de trabalho em direo ao aumento do profissionalismo. Convm, entretanto,

    ponderar que a melhor prtica de trabalho pode ser estudada pela combinao de trs

    estratgias: estudo terico (estudando novos mtodos e ferramentas ou estruturas de

    anlise); procura de uma ampla rea de alcance da experincia prtica; melhoria do estudo,

    no sentido de construir uma mente aberta para uma concepo de atitude profissional que

    encoraje as pessoas a procurarem informaes pertinentes, atravs da interao com a

    comunidade profissional e de estudo da literatura.

    Os cinco enfoques analisados no podem ser considerados completos como

    metodologias alternativas de desenvolvimento de sistemas. No entanto, representam

    significativo avano na pesquisa em sistemas de informao e tm potencial para se

    tornarem metodologias completas. Outras ferramentas e tcnicas podem dar suporte

  • 69

    informao entre os usurios e o programador. Alguns exemplos dessas ferramentas so,

    resumidamente, os seguintes:

    % Abordagem histrica: pode ser usada como um meio de descrever as

    atividades do dia-a-dia do usurio ou um cenrio particular dentro do qual o

    problema destacado e avaliado pela capacidade do usurio em determinar

    se o desenho de um novo sistema de informao est sendo conduzido na

    direo certa.

    % Exerccio de lpis e papel: permite que um desenho particular seja

    considerado e avaliado com o mnimo de recursos. O usurio apresenta um

    ensaio geral usando modelos de papel no sistema, possibilitando que

    algumas inconsistncias entre as necessidades do usurio e o desenho atual

    sejam descobertas.

    % Workshops: outra tcnica til que pode ajudar a desenvolver sistemas,

    levando o usurio a entender o desenho do ponto de vista um do outro e isso

    produz um denominador comum entre ambas as partes.

    % Brainstorming (tempestade de idias): permite ao usurio e ao programador,

    informalmente, trocarem idias sem qualquer julgamento subjetivo a ser

    alcanado.

    Em resumo, pode-se afirmar que o sucesso ou insucesso de um sistema de

    informao depende da metodologia adotada e do nvel de entendimento entre a concepo

    do desenho do sistema e a realidade na qual est inserido. Quando um sistema de

    informao deriva do modelo racional hard (enfoque positivista) de organizao, ele

    encontrar uma realidade diferente do comportamento organizacional e social. No nosso

    ponto de vista, o modelo interpretativo ou soft permite analisar a realidade corrente de

    forma participativa, para identificar aquilo que desejvel e possvel de ser implementado

    com sucesso no sistema de informao.

    Da a necessidade de compreender e interpretar a perspectiva dos atores sociais,

    participantes do processo organizacional, para, juntos, proporem um novo sistema de

    informao. Tal sistema deve ser capaz de apoiar as operaes clnicas (processamento dos

    procedimentos de rotina) e o gerenciamento (fluxo de informao, apoio gesto ou

  • 70

    sistema de informao gerencial - SIG), bem como de integrar vrios subsistemas, com o

    propsito de gerar subsdios para o gerenciamento organizacional.

    3.4 Necessidades de novos enfoques em enfermagem

    Atualmente, impossvel imaginar o servio de enfermagem sem o uso de um

    registro de informao, seja manual ou computadorizado. Na realidade, a utilizao da

    informao como veculo de comunicao na gesto hospitalar vem evoluindo de uma

    prtica tarefeira e isolada para um contexto de integrao de informao. O propsito dessa

    mudana integrar a organizao em um nico sistema nos diversos pontos de gerao e

    utilizao da informao dentro do hospital.

    No mbito da enfermagem, o sistema de informao computadorizado deve conter

    informaes suficientes para descrever e sustentar a sua prtica. Sabe-se que, existem

    sistemas ineficientes por no levarem em considerao o conhecimento tcito nem a

    cultura organizacional. Nesse caso, o pessoal de enfermagem no tem uma participao

    efetiva no desenvolvimento do sistema. Os profissionais no so suficientemente

    envolvidos com o processo, para compreenderem que no esto simplesmente preenchendo

    uma ficha. Devem entender que esto alimentando um conjunto de dados que possibilitar

    comparaes e estatsticas entre pacientes, realizao de investigaes epidemiolgicas e

    ajuda no gerenciamento das decises.

    Os modelos formais ou tericos no conseguem expressar a realidade da prtica

    de enfermagem dentro do contexto organizacional, nem sua metodologia de trabalho. Por

    essa razo, muitos sistemas de informao tm fracassado trazendo como conseqncia sua

    rejeio por parte da enfermagem. Em geral, esses modelos apresentam as seguintes

    deficincias:

    Tm uma abordagem mais voltada para aspectos administrativos do hospital

    do que para prtica assistencial de enfermagem.

    No do qualquer contribuio para o processo decisrio em enfermagem,

    ou seja, nenhum apoio ao plano assistencial de enfermagem (fenmenos,

    intervenes e resultados).

  • 71

    Enfatizam os aspectos tcnicos do software, sem a participao do usurio

    final (a enfermagem). Alm disso, apresentam pouca flexibilidade.

    Assim, possvel supor que, embora haja avanos significativos nos sistemas de

    informao em enfermagem, tais sistemas esto fadados ao fracasso por negligenciarem os

    fatores sociais e organizacionais que envolvem o sistema de informao. preciso

    enfatizar que a prtica de enfermagem no somente tcnica, mas se desenvolve num

    ambiente social e organizacional, pois est inserida num contexto sociolgico. Para Scott

    (2001), o sistema de informao em enfermagem tem potencial para modificar os

    caminhos da assistncia, melhorando a coleta e o uso dos dados. O sistema pode ser

    desenhado para apoiar a enfermagem a realizar os objetivos de fornecer custo-efetividade e

    alta qualidade no cuidado do paciente.

    Para Heeks; Mundy; Salazar (1999), os fatores sociais e organizacionais no so

    exatamente uma questo relativamente objetiva da realidade, tanto quanto o processo de

    trabalho ou estrutura organizacional. Pelo contrrio, tm uma percepo relativamente

    subjetiva. Essa a mudana que se espera no desenvolvimento de sistemas de informao

    em enfermagem: um sistema soft que leve em considerao a compreenso dos usurios

    (pessoal de enfermagem), suas expectativas e pontos de vista, contribuindo assim para o

    xito na execuo do sistema diante da complexidade da prtica de enfermagem.

    O sistema de informao em enfermagem necessita de uma mudana no

    paradigma do modelo hard para o soft, para se chegar realidade tal qual percebida pelos

    usurios, especialmente da enfermagem que cuida diretamente do paciente. , exatamente,

    nesse aspecto onde ocorrem as maiores dificuldades para os analistas de sistemas ou

    desenvolvedores, em virtude de haver uma lacuna entre a teoria (modelo formal), a

    concepo de desenho racional e a prtica (modelo informal) na realidade comportamental

    da enfermagem assistencial.

    A lacuna existente entre a concepo do desenho racional (modelo formal) e o

    comportamento da realidade do cuidado de enfermagem (modelo soft) tem conduzido a

    inevitveis falhas e dificuldade de aceitao dos usurios do sistema. A falta de uma viso

    social e organizacional, caracterstica do enfoque rgido, que inflexvel e prescritivo,

    resulta no pequeno uso do sistema pelo pessoal de enfermagem.

  • 72

    Se o sistema de informao necessita de informaes providas pela enfermagem,

    lgico imaginar que esse sistema proporcione algo em troca. Do contrrio, que vantagens

    teriam os enfermeiros em perder tempo com o computador na sua rotina j to

    sobrecarregada? Na realidade, os modelos formais que dependem da informao da

    enfermagem no contribuem quase nada para a melhoria da qualidade da assistncia ao

    paciente.

    Por outro lado, para se conseguir o envolvimento dos profissionais de

    enfermagem, necessrio, de alguma forma, proporcionar algo que lhes permita perceber

    que o tempo gasto alimentando o sistema resulta em economia de tempo e esforo. Com

    isso, eles podem realizar outras tarefas e tero mais tempo para cuidar do paciente. O

    melhor enfoque no sentindo de "proporcionar algo" para o pessoal de enfermagem o

    desenvolvimento de um sistema soft (enfoque flexvel). Sem dvida, este o principal

    meio para combinar os fatores tcnicos com os sociais e organizacionais utilizados pela

    enfermagem, interagindo a teoria e a prtica no contexto assistencial do hospital.

    Nesse sentido, h necessidade da criao de padres relacionados aos protocolos

    de comunicao nos diferentes tipos de aplicao. Esses padres devem tambm estar

    relacionados interface para com o usurio e, at mesmo, ao estabelecimento de um

    conjunto de dados mnimos em enfermagem que deve ser considerado como de natureza

    global na instituio. Segundo Ilha (1993), essa filosofia se encaixa mais adequadamente

    com a abordagem orientada a objetos, na qual os diversos mdulos, com interface padro,

    comunicar-se-iam entre si, a fim de promoverem a funcionalidade e a unicidade do sistema

    como um todo.

    Portanto, o ponto de partida de mudana do enfoque rgido para o enfoque flexvel

    est em se analisar a lacuna entre teoria e prtica em enfermagem. Todavia, no h um

    mtodo direto para a anlise dessa lacuna em direo a uma nova proposta de sistema de

    informao em enfermagem. Nesse caso, sugere-se um sistema metodolgico alternativo

    voltado para a anlise do contexto sociolgico da organizao e o desenho participativo do

    novo sistema.

    Essa anlise requer o conhecimento da realidade, seus fluxos, procedimentos,

    documentos e conhecimentos informais vivenciados pela experincia da prtica de

  • 73

    enfermagem. Essa realidade deve ser interpretada no contexto organizacional, associando-

    se ao sistema de informao computadorizado. Quanto ao desenho participativo, trata-se de

    um enfoque alternativo nessa metodologia que enfatiza a participao das pessoas na

    construo de um sistema de informao que retrate o conhecimento explcito a partir do

    conhecimento tcito.

    O sistema flexvel reconhece a existncia da lacuna entre a teoria e a prtica de

    enfermagem. Para preencher essa lacuna, defende que haja uma mudana potencial

    possibilitando-se a discusso de forma participativa dos envolvidos com o sistema,

    usurios de enfermagem e analistas de sistemas, para identificar as mudanas possveis e

    desejveis. Quando as lacunas so identificadas pelos usurios participantes, as mudanas

    possveis e desejveis sero incorporadas ao sistema de informao que poder ser

    implementado de forma bem sucedida.

    O sistema de informao em enfermagem, mesmo no enfoque flexvel, exige um

    trabalho de melhoria contnua, que deve ocorrer de forma dinmica para acompanhar os

    avanos da tecnologia, o upgrade do sistema e as mudanas organizacionais. A

    participao do pessoal de enfermagem fundamental nesse processo. preciso entender

    que no existe sistema de informao perfeito. Entretanto, um sistema ser vivel e bem

    sucedido quando procura adaptar o meio ambiente em relao aos fatores tcnicos, sociais

    e organizacionais.

    Esse modelo inclui a percepo do usurio, elemento-chave no desenvolvimento

    do sistema de informao, minimizando, assim, a distncia que existe entre a realidade

    atual e a concepo do desenho do sistema de informao em enfermagem. Esse enfoque

    extrai a viso de mundo do usurio para a concepo de um desenho mais informal,

    compatvel com a realidade comportamental dos responsveis pelos cuidados de

    enfermagem.

    A participao da enfermagem no processo de construo do sistema de

    informao computadorizado muito importante, pois o agente da prtica assistencial e o

    usurio final do sistema. Trata-se de um processo dinmico, de modo que exige a melhoria

    contnua do sistema e os ajustes para a melhoria da qualidade, facilitando o acesso mais

  • 74

    rpido da informao e possibilitando a avaliao e o repensar do processo de trabalho

    realizado.

    Atualmente, o ambiente de cuidado de sade enfatiza o controle de custos,

    eficincia, efetividade e medida dos resultados do paciente. O melhor caminho para medir

    cientificamente esses fatores o uso da informao. Essa proposio verdadeira e tem

    implicaes para a enfermagem, com educao e treinamento (SCOTT, 2001).

  • 75

  • 76

    4.1 O modelo terico e a prtica em enfermagem

    Buscando uma melhor compreenso da natureza da prtica de enfermagem, vrias

    abordagens distintas tentam interpretar a interao teoria e prtica. Nessa perspectiva,

    Wilfred Carr (apud FEALY, 1997) procura articular uma compreenso do caminho entre

    teoria e prtica. Ele fornece uma descrio de quatro enfoques para o entendimento das

    teorias educacionais e explica a viso da prtica que cada enfoque incorpora.

    As consideraes filosficas do binmio teoria e prtica oferecem duas vises:

    uma de natureza prtica e outra de natureza terica. Nesse sentido, Carr (1986) prope uma

    estrutura para descrever e criticar os caminhos pelos quais essa interao compreendida

    dentro da enfermagem. O autor pontua quatro enfoques principais, abordando-os dentro de

    uma viso explcita sobre a natureza da teoria: o senso comum, a cincia aplicada, a prtica

    e o enfoque crtico.

    a) Enfoque com base no senso comum

    A abordagem com base no senso comum sugere uma prtica conduzida pela

    teoria. Nesse caso, a teoria deriva da compreenso do conhecimento extrado da

    enfermagem assistencial, inclusive com seus insights. A relao entre o modelo terico e a

    prtica ocorre quando a teoria integrada a uma boa prtica, podendo ser utilizada para

    gui-la.

    b) Enfoque com base na cincia aplicada

    Dentro dessa abordagem, a interao entre o modelo terico e a prtica d-se

    quando a teoria vista como princpio abstrato que serve para dar consistncia e guiar a

    prtica. A relao, nesse caso, sustentada pela teoria como evidncia objetiva derivada

    da investigao emprica que pode apoiar a prtica para gui-la e regul-la. Esse enfoque

    representa uma generalizao da viso teoria e prtica em que predomina a teoria dentro da

    relao. Tem base no pensamento positivista (CARR, 1986).

    c) Enfoque com base na prtica

    Carr (1986) deixa claro que esse tipo de enfoque representa um panorama do

    conhecimento que mantm a arte de deliberao. Nessa abordagem, a relao entre o

  • 77

    modelo terico e a prtica apoiada na teoria que serve para informar enfermagem

    assistencial o significado do que seja uma "boa prtica" e, desta forma, oferecer um

    caminho adequado, justo e tico. Assim, a funo da teoria informar aos enfermeiros

    assistenciais o senso da boa conduta e as estratgias da prtica. Isso aumenta as exigncias

    atribudas deliberao da prtica e o julgamento relativo ao status da teoria e prtica,

    que pode ocupar uma posio preeminente dentro da relao.

    d) Enfoque com base na crtica

    A abordagem crtica representa uma tentativa de reconciliar a cincia aplicada

    com a prtica. Para tanto, a teoria e a prtica so interpretadas como sendo mutuamente

    indispensveis e dialeticamente relacionadas. Esse enfoque v as prticas sociais como

    algo inerente ao contexto da relao entre a teoria e a prtica. Desse modo, a enfermagem

    assistencial, quando se empenha numa crtica de auto-reflexo, poder aumentar seu

    autoconhecimento e autonomia (CARR, 1986).

    Fealy (1997) ressalta que, dentro dessa anlise, existe a viso de que a

    enfermagem uma atividade essencialmente tica. Por esse motivo, requer deliberao e

    julgamento prtico, em face das contingncias situacionais, confirmando aspectos do

    enfoque prtico. De acordo com o referido autor, as mais recentes abordagens concernentes

    relao entre o modelo terico e a prtica demonstram uma tendncia para ver a

    enfermagem como uma profisso inerentemente social. Trata-se de uma profisso que

    exige dos seus profissionais uma auto-reflexo crtica do seu desempenho, a fim de que

    possam desenvolver sua autonomia. Essa situao dentro de nossa realidade social, ao

    considerar a auto-reflexo crtica como uma forma vlida de conhecimento, aponta

    evidncias para a abordagem crtica.

    Nesse sentido, a relao entre teoria e prtica tem sido reconceitualizada para

    considerar a realidade social. Isto evidenciado nos estudos de Carr (2006) e Powers

    (2007). Segundo Wilson-Thomas (1995), a teoria crtica social pode ser explorada como

    um link da distncia entre teoria e prtica, desde que, na condio de cincia, libere as

    pessoas dos constrangimentos ideolgicos e das estruturas sociais que servem apenas para

    perpetuar suas condies sociais. A realidade social dos enfermeiros formada pela

    racionalidade tcnica, sendo representada pelos [...] fatores organizacionais e polticos

  • 78

    que promovem ou reprimem o desenvolvimento da Enfermagem. (RAFFERTY;

    ALLCOCK; LETHLEAN, 1996, p. 685).

    Desse modo, o conceito de prxis de enfermagem representa uma epistemologia

    em que a teoria e a prtica atuam juntas, ou seja, operam na mesma direo na qual a teoria

    apia determinada prtica. Entretanto, em si mesma, a prtica essencial para o

    desenvolvimento terico dos conceitos em enfermagem. Essa unidade entre o modelo

    terico e a prtica alcanada no dia-a-dia, atravs do processo de reflexo que serve para

    modificar e desenvolver a prtica. A prxis confere ao enfermeiro assistencial a fora para

    criar conhecimentos. Nesse aspecto, oferece-lhe um caminho para reduzir a distncia entre

    teoria e prtica, a fim de legitimar o julgamento do profissional de enfermagem (ROLFE,

    1997).

    oportuno lembrar que o debate epistemolgico tem progredido nas ltimas

    dcadas, apresentando inmeros conceitos. Esse debate inclui as teorias de enfermagem, o

    pensamento, a natureza e o papel do paradigma, enfatizando-se a natureza cientfica e a

    naturalstica fenomenolgica em determinadas origens das teorias de enfermagem. Nesse

    sentido, Fealy (1997) ressalta que as tentativas de tornar a enfermagem uma cincia tm

    suas origens em sociedades culturalmente complexas, que incluem a pesquisa como meio

    para influenciar o paradigma de natureza mdica. Isso pode ser verificado nas disciplinas

    de cuidados de sade. Assim, a perspectiva das origens das teorias de enfermagem, quanto

    natureza de sua prtica e relao teoria e prtica, menos polarizada e representa

    posies consideradas mais abertas, eclticas e pluralistas.

    Em sua principal tese a respeito das teorias de enfermagem, Ellis (1992)

    argumenta que os enfermeiros assistenciais, engajados no desenvolvimento da teoria,

    construram um caminho que est implcito nas aes e outro atravs do qual a teoria pode

    surgir durante o exerccio da prtica. Acrescenta que os enfermeiros conseguem

    generalizar um sistema ou uma postura terica, com relao a alguns fenmenos

    prticos e, atravs deles, testam essas generalizaes: Ns no estamos suficientemente

    conscientes da extenso na qual usamos e adaptamos a teoria na prtica. Tambm

    raramente reconhecemos, apesar de criarmos ou desenvolvermos teoria em prtica.

    (ELLIS, 1992, p.517).

  • 79

    Ao enfatizar a importncia do fenmeno da prtica e o papel do enfermeiro

    assistencial no desenvolvimento da teoria, Ellis (1992) prope uma viso da interao

    teoria e prtica em que a teoria est voltada diretamente para a prtica, devendo ser usada

    para guiar a prtica. Assim, os elementos da prtica teriam a funo de testar a teoria.

    importante notar que, no entendimento da autora, o elemento tcito encontrado

    extensivamente no discurso filosfico da enfermagem.

    4.2 Conhecimento explcito e conhecimento tcito

    Diante das consideraes expostas, faz-se necessria uma reflexo sobre a

    compreenso do conhecimento explcito e tcito em enfermagem como elementos

    indispensveis para o desenvolvimento de sistemas de informao. Os pesquisadores de

    enfermagem tm se esforado no sentido de desenvolver sistemas de informao que

    focalizem a importncia da padronizao de uma linguagem comum nesse campo. Nessa

    perspectiva, indispensvel colher informaes, a partir do ambiente de trabalho do

    enfermeiro, para que se possa ajustar esse novo paradigma tecnologia do cuidar.

    Sob essa tica, a padronizao com vista ao desenvolvimento de um sistema de

    informao tem suas limitaes, porque ela surge de fora para dentro, com o intuito de

    resolver problemas operacionais que no se adaptam dinmica do ambiente hospitalar.

    oportuno lembrar que os sistemas de classificao em enfermagem tm sido enfatizados

    como uma ferramenta destinada a melhorar o conhecimento terico-prtico da

    enfermagem. A diferena entre esse conhecimento formal ou explcito (teoria) e o

    conhecimento informal ou tcito (prtica) precisa ser considerada, no apenas para efeito

    de desenvolvimento do sistema de informao, mas especialmente com o propsito de

    melhorar a qualidade da informao gerenciada pela enfermagem.

    Convm esclarecer que a distino entre conhecimento tcito e explcito, com

    base na dimenso epistemolgica, j vem sendo estudada por Michael Polanyi desde a

    dcada de 1960. O conhecimento tcito pessoal, especfico ao contexto e, assim, difcil

    de ser formulado e comunicado. aquele conhecimento que as pessoas possuem, mas no

    est escrito em lugar nenhum, residindo apenas na cabea dos profissionais. J o

    conhecimento explcito transmitido em linguagem formal e sistemtica; aquele que est

    registrado de alguma forma e, assim, disponvel para as demais pessoas.

  • 80

    Segundo Polanyi (1997), a importncia do conhecimento tcito na cognio

    humana pode corresponder ao argumento central da psicologia de gestalt. Essa abordagem

    afirma ser a percepo determinada em termos da forma na qual integrada no padro

    geral ou gestalt. Para o autor, os seres humanos so capazes de adquirir conhecimentos a

    partir da criao e organizao ativa de suas prprias experincias. Essa tese pode ser

    evidenciada no dia-a-dia da prtica de enfermagem, quando se percebe a complexidade de

    conhecimentos que envolvem as aes de enfermagem. Portanto, esses profissionais

    podem saber muito mais do que so capazes de dizer e registrar. Porm, esse conhecimento

    um recurso que precisa ser gerenciado para atingir plenamente os objetivos da

    organizao hospitalar. A gesto do conhecimento uma rea nova confluente entre a

    tecnologia da informao e a administrao.

    O conhecimento em enfermagem um conjunto constitudo por experincias,

    valores, informaes contextuais e avaliao de novas experincias e informaes. Nessa

    perspectiva, o conhecimento visto como algo inseparvel das pessoas. Na enfermagem, o

    conhecimento se encontra no apenas nos documentos (pronturios, registros manuais,

    etc.), bases de dados e sistemas de informao, mas tambm nos processos, na prtica e na

    experincia acumulada pelo pessoal de enfermagem.

    Por outro lado, o conhecimento apreendido pelos enfermeiros ocorre de diversas

    formas: por comparao, pela experimentao, por associao com outros conhecimentos e

    por intermdio de outros profissionais (mdicos, nutricionistas, farmacuticos, etc.). Na

    realidade, o conhecimento criado no dia-a-dia do trabalho da enfermagem, sendo

    transmitido de pessoa para pessoa, atravs de meios estruturados (vdeos, livros,

    documentos, Web, etc.) e no-estruturados. Significa dizer que os enfermeiros adquirem

    conhecimento das pessoas que j o tm, ou seja, o aprendizado interpessoal e o

    compartilhamento de experincias e idias.

    Na prtica, o pessoal de enfermagem cria, em sua mente, um modelo do ambiente

    hospitalar em que est inserido, incluindo elementos cognitivos e tcnicos. O elemento

    cognitivo pode ser representado por esquemas, paradigmas, perspectivas, crenas e pontos

    de vista que ajudam a compreender o mundo em sua volta; j o elemento tcnico inclui

    know-how (conhecimento das tcnicas e habilidades de enfermagem). Esses elementos

    constituem o conhecimento tcito, o qual permite a visualizao da realidade, ou seja, o

  • 81

    que , e a percepo do que deveria ser. A compreenso desses elementos constitui o

    fator-chave para o desenvolvimento de um sistema de informao fundamentado na

    interao teoria e prtica.

    Portanto, em enfermagem no se pode desvincular a teoria da prtica, quando se

    pretende desenvolver um sistema de informao, porque eles so elementos que no se

    separam, mas se complementam. Assim, teoria e prtica interagem e cambiam atividades

    criativas que podem ser executadas de forma consistente. Pode-se afirmar que o modelo de

    sistema de informao em enfermagem deve estar fundamentado numa conjuntura crtica

    em que o conhecimento surge e se expande a cada dia, atravs da inter-relao da teoria

    com a prtica. Essa interao envolve fatores subjetivos e objetivos veiculados atravs do

    meio social, de transformao do conhecimento. Para Nonaka; Takeuchi (1997), a

    cognio humana um processo dedutivo de indivduos, mas um indivduo nunca est

    isolado da interao social quando desenvolve seus conhecimentos. Assim, atravs do

    processo de converso social, a teoria e a prtica se expandem, tanto em termos de

    qualidade, quanto de quantidade.

    Por outro lado, existe a compreenso de que o conhecimento da prtica um

    recurso imenso, mas no aproveitado. Em conseqncia, poucas pesquisas tm sido

    desenvolvidas na comunidade acadmica buscando identificar o motivo por que esses

    profissionais no usam a pesquisa baseada no conhecimento da prtica. Embora o

    enfermeiro tenha sua disposio uma estrutura hospitalar para criar novos

    conhecimentos, esse saber no codificado ou publicado. Alm disso, nem sempre

    possvel fazer uma reflexo ou estabelecer uma discusso no prprio ambiente de trabalho

    (MEERABEU, 1992).

    Em conseqncia, o conhecimento da prtica torna-se uma "dor de cabea

    metodolgica" pela escassez de pesquisas que relatem essa experincia, embora muitos

    aspectos da enfermagem possam ser pesquisados, atravs da participao dos enfermeiros

    assistenciais. Em vista disso, questes epistemolgicas envolvendo o objeto do

    conhecimento em enfermagem e sua filosofia devem ser bem analisadas, a fim de que seja

    possvel dar respostas s indagaes sobre a profisso como uma prtica, uma cincia e

    uma arte.

  • 82

    Portanto, a criao do conhecimento em enfermagem resultado de uma interao

    constante e dinmica entre teoria e prtica. a partir dessa compreenso que se pode

    moldar um sistema de informao induzido pelas diversas variveis que compem a

    realidade da enfermagem. Somente com a socializao do conhecimento, que comea no

    campo da interao, possvel compartilhar experincias e paradigmas entre as pessoas da

    equipe de enfermagem. Para externalizar suas opinies, as pessoas devem fazer uso do

    dilogo ou da reflexo coletiva, onde se discutem questes relacionadas ao trabalho,

    contribuindo para estabelecer as bases do conhecimento prtico ainda inexplorado. Quando

    esse conhecimento adquirido integrado ao conhecimento j existente, forma-se um novo

    produto.

    4.3 Interao do conhecimento tcito com o conhecimento explcito

    Com a viso focalizada nas questes humanas, sociais e organizacionais dos

    sistemas de informao, sero analisadas as razes da importncia da interao do

    conhecimento tcito e com o conhecimento explcito que levam ao sucesso ou insucesso no

    desenvolvimento de sistemas de informao. Como se sabe, os novos sistemas de

    informao tm um potencial considervel para aprimorar o funcionamento das

    organizaes de cuidado de sade (NEUMANN; PARENTE; PARAMORE, 1996;

    RAGHUPATHI, 1997).

    Todavia, esse potencial s pode ser utilizado se o sistema de informao em sade

    puder ser desenvolvido e implementado com sucesso. A esse respeito, h um grande

    nmero de pesquisas que relatam histrias de sucesso, mas parecem estar ligadas s

    imagens de um falso sucesso. Em seus estudos, Heeks; Mundy; Salazar (1999) mostram

    que h evidncias de que a maioria dos sistemas de informao revelou-se um fiasco, tanto

    no setor privado quanto no pblico, por adotar metodologias ortodoxas.

    Por conseguinte, pode-se inferir que muitos, ou talvez, quase todos os sistemas de

    informao em sade so falhos e enfrentam problemas. Vrios estudiosos em sistema de

    informao tm enfatizado essa questo com veemncia (KEEN, 1994; ANDERSON,

    1997; HEEKS; MUNDY; SALAZAR, 1999; KAUTZ; MADSEN; NORBJERG, 2007). Da

    mesma forma, pesquisas mostram que muitas instituies de sade tm investido recursos

  • 83

    financeiros em abundncia, na tentativa de implementar um sistema de informao (PAR;

    ELAM, 1998).

    Desse modo, preciso questionar por que tanto o sistema manual quanto o

    computadorizado falham. A resposta a essa questo pode estar contida na lacuna existente

    entre a teoria e a prtica. Para isso, faz-se necessrio tomar um rumo alternativo aos atuais

    padres de "livro de receita" empregado pelos analistas de sistemas. O ponto de partida

    pode estar na contingncia que visualiza no somente o desenho, mas tambm a reduo da

    lacuna entre teoria e prtica emanada da situao de trabalho. O conhecimento tcito pode

    ser reconhecido, em situaes especficas, para o desenvolvimento do sistema de

    informao e isso poder ser uma estratgia para melhorar a aceitao do sistema para o

    usurio. Nessa perspectiva, dois aspectos so fundamentais:

    a) Emparceiramento do ambiente com a tecnologia: as experincias sugerem que

    esforos para introduzir sistemas de informao clnica, dentro da situao de prtica,

    resultam em falhas de conseqncias imprevisveis, se seus aspectos tcnicos forem

    enfatizados e os fatores sociais e organizacionais forem negligenciados (ANDERSON,

    1997). As diversas experincias com sistemas de informao computadorizada deixam

    claro que os estudos clnicos na implementao desses sistemas so, eminentemente,

    sociais e organizacionais, e no somente tcnicos.

    b) Fatores sociais e organizacionais: esses fatores no devem ser considerados

    apenas uma questo objetiva da realidade no processo de trabalho ou na estrutura

    organizacional, mas tambm uma percepo relativamente subjetiva. Entretanto, essa

    dimenso s ser compreendida quando os problemas aparecem, levando a perceber-se que

    h diferena entre o modelo assumido na construo do sistema e a percepo dos usurios

    do sistema.

    Pode-se, portanto, afirmar que um bem sucedido sistema de informao em

    enfermagem aquele que tende a adaptar o meio ambiente em relao aos fatores tcnicos,

    sociais e organizacionais. Deve envolver, alm disso, a percepo subjetiva da realidade,

    ou seja, a aproximao do conhecimento tcito com o explcito. Para Heeks; Mundy;

    Salazar (1999), o sucesso ou insucesso do sistema depende da aproximao ou da distncia

    existente entre a realidade e a concepo do desenho do sistema.

  • 84

    Desse modo, a idia de desenho participativo no desenvolvimento do sistema de

    informao depende da viso de mundo dos analistas que dominam o processo e da

    enfermagem usuria desse sistema. Por outro lado, as pessoas que desenvolvem esse

    sistema so, em sua maioria, tcnicos. Diante dessa preocupao com o tecnicismo dos

    analistas de sistema, questiona-se: Aonde o analista de sistema precisa chegar para

    compreender a experincia vivenciada pela enfermagem na assistncia? O que o analista de

    sistema precisa saber para compreender a lacuna entre a teoria e a prtica em enfermagem

    e desenvolver sistemas de informao compatveis com a realidade da enfermagem?

    Cumpre assinalar que a viso de mundo do tcnico em informtica ou do gerente

    de enfermagem, quando incorporados na concepo de um desenho participativo para o

    desenvolvimento de sistemas de informao, pode causar conflitos com a realidade. Esse

    conflito pode ser provocado pela lacuna existente entre o conhecimento formal (teoria) e o

    tcito (prtica), na concepo de um desenho racional do sistema que caracterize a

    realidade dos enfermeiros assistenciais.

    Westrup (1998) relata a dificuldade dos profissionais da sade em mudarem

    velhos paradigmas para um novo paradigma, que seja racional, eficaz, reconhecido e que

    descreva a realidade do processo. Na verdade, os enfermeiros tm problemas em

    diferenciar o que fazem e o que dizem fazer e registram no pronturio do paciente. Por

    exemplo, sabe-se que, para planejar o cuidado ao paciente, a enfermagem usa uma

    metodologia denominada de processo de enfermagem. Mas, na prtica, esse processo

    visto como algo que desperdia tempo, sendo considerado at desnecessrio por muitos

    enfermeiros. Como conseqncia disso, o processo de enfermagem, geralmente, no

    realizado na prtica, tal qual apresentado pelo conhecimento terico.

    Dessa forma, uma explorao e anlise dos discursos filosficos contemporneos,

    sobre a natureza da teoria em enfermagem e sua prtica, tem mostrado evidncias que

    confirmam um dualismo na relao teoria e prtica. Mas, essas dimenses no podem ser

    dicotomizadas no processo de construo do conhecimento. Essa viso se ope ao modelo

    positivista, cuja tendncia pensar a teoria e a prtica como campos distintos.

    A enfermagem uma cincia que tenta aplicar seus conhecimentos formais na

    prtica do cuidado ao paciente, de forma tica e holstica. Num processo dinmico de auto-

  • 85

    reflexo e com base epistemolgica, a prtica faz gerar novos conhecimentos denominados

    de tcitos. Assim, a relao teoria e prtica na enfermagem tem se desenvolvido atravs de

    um discurso filosfico que pontua um estado de ecletismo, franqueza e pluralismo terico

    com respeito aos caminhos do desenvolvimento de sistemas de informao.

  • 86

  • 87

    5.1 As organizaes e o sistema de informao

    Apesar do significativo interesse da literatura em estudar as mdias digitais que

    esto transformando a sociedade contempornea e a vida institucional, preciso procurar

    entender o modo como as novas tecnologias caracterizam o dia-a-dia da conduta

    organizacional e a interao social. H um crescente nmero de pesquisas empricas que

    mostram o carter situacional e contingencial das novas tecnologias que esto na ordem do

    dia. Porm, esses estudos ainda so pouco conhecidos dentro da sociologia. Tais

    abordagens incluem a etnografia, a grounded theory, a fenomenologia, entre outros

    mtodos de pesquisa qualitativa, cujo foco a interpretao da conduta organizacional,

    interao social e sistema de informao.

    Nessa perspectiva, os pesquisadores procuram diferentes tipos de pesquisa,

    conforme o interesse. Em seguida, publicam seus trabalhos sob vrios aspectos de anlises,

    metodologias, epistemologias e conceitos de racionalidade, embora isso possa levar, em

    alguns momentos, a divergncias. Essa diversidade e pluralidade tm gerado certa

    fragmentao, fazendo com que sejam discutidas e enfocadas questes como paradigmas e

    multiplicidade metodolgica tanto no mbito da teoria das organizaes como nos sistema

    de informao.

    Na atualidade, existe um consenso de que, na sociedade ps-moderna, a

    informao fundamental para as organizaes. Para alguns estudiosos, trata-se da mais

    importante ferramenta para o gestor tomar decises que podem significar o seu sucesso ou

    fracasso. A informao pode ser considerada, em muitas organizaes, como um fator

    estruturante. Por isso, requer do gestor a percepo objetiva e precisa dos valores da

    informao e do sistema de informao. Nesse sentido, a tecnologia da informao se

    coloca como a chave para a competitividade efetiva e como diferencial para a lucratividade

    na nova sociedade.

    Sem dvida, a informao muito importante para as organizaes, embora

    muitas sejam insensveis quanto busca e manuteno dessa informao. O resultado disso

    que investem mal no desenvolvimento de sistemas de informao, quando avaliam a

    relao custo-benefcio. Significa que a informao tem valor econmico para a

    organizao e pode gerar lucro ou causar prejuzo. Deve-se esclarecer o significado da

  • 88

    palavra informao. Neste trabalho, pode ser compreendida como um conjunto de

    estruturas significantes ou interpretveis, com poder de gerar conhecimento para o

    indivduo ou sua organizao.

    Em seu estudo, Moresi (2000) descreve a arquitetura da informao no mbito de

    uma organizao, com a seguinte tipologia:

    Informao de nvel institucional: possibilita observar as variveis presentes

    nos ambientes externo e interno, com a finalidade de monitorar e avaliar o

    desempenho, o planejamento e as decises de alto nvel.

    Informao de nvel intermedirio: permite observar as variveis presentes nos

    ambientes externo e interno, monitorar e avaliar seus processos, o

    planejamento e a tomada de deciso de nvel gerencial.

    Informao de nvel operacional: possibilita ao nvel operacional executar suas

    atividades e tarefas, monitorar o espao geogrfico sob sua responsabilidade, o

    planejamento e a tomada de deciso de nvel operacional.

    Em um sentido mais amplo, a informao situa-se em todos os nveis da

    organizao. Ela flui de cima para baixo e de baixo para cima. Porm, a convergncia da

    tecnologia e dos sistemas de informao tem afetado os processos de trabalho das

    organizaes. Por essa razo, a implantao de qualquer sistema de informao, numa

    determinada organizao, de fundamental importncia para a interao social e para uma

    anlise baseada em metodologias centradas no desenho participativo para desenvolvimento

    de sistemas de informao. No entanto, cada situao tem sua especificidade. Assim,

    dever ser analisada e avaliada qual a melhor metodologia a ser utilizada na soluo do

    problema.

    Existem vrias situaes em que o mtodo cientfico pode ser utilizado com

    sucesso para o desenvolvimento de um sistema de informao nas organizaes. Mas,

    qualquer que seja a abordagem, preciso que se compreenda o comportamento da

    organizao. Deve-se fazer um exame dos processos de trabalho e uma anlise

    sciotcnico para a implementao de uma plataforma tecnolgica, conforme ilustra a

    Figura 3.

  • 89

    Figura 3 Interao social do sistema no contexto da organizao

    Evidentemente, esses elementos devem estar integrados para a construo de uma

    anlise e modelagem da informao. Significa que devem atuar como um link,

    comunicando e ordenando os resultados entre eles. Naturalmente, o mtodo participativo

    ou software apresenta um processo metodolgico em que o aprendizado e as mudanas

    ocorrem constantemente durante todo o desenvolvimento do sistema.

    O sistema envolve fatores organizacionais, humanos e tcnicos. Integrados, esses

    fatores devero atender aos objetivos planejados, proporcionando melhoria e otimizando os

    processos de trabalho e da gesto. Com isso, podem aumentar a lucratividade e a

    competitividade da organizao, melhorar o clima no ambiente interno e estabelecer a

    efetividade na administrao. Estes so alguns dos benefcios resultantes de uma

    abordagem preocupada com a interao do sistema de informao com a organizao. Na

    atualidade, observa-se que as metodologias alternativas so uma necessidade para a

    sobrevivncia das organizaes na sociedade da ps-moderna.

    importante explicar, previamente, a natureza dos termos que sero utilizados

    neste estudo. Por exemplo, interao o processo que acontece quando as pessoas agem

    em relao a outras, dentro de um contexto social. Essa concepo exige uma distino

    entre ao e comportamento. No mbito deste trabalho, comportamento significa tudo que

    o indivduo faz; ao um comportamento intencional com base na idia de como as

    outras pessoas podero interpret-lo e reagir. Portanto, na interao social, as pessoas e os

    grupos sociais elaboram idias sobre o que esperado, bem como sobre os valores, crenas

    e atitudes que a ela se aplicam. Essa base conceitual encontra respaldo em autores

    clssicos, a exemplo de Mead (1977) e Schltz (1997).

    Contexto organizacional

    Contexto organizacional

    Anlise organizacionalAnlise sciotcnico Plataforma tecnolgica

  • 90

    Outro autor clssico que procurou compreender a ao social para explic-la no

    seu desenvolvimento e efeitos foi Max Weber. Para ele, a compreenso sempre uma

    captao do sentido, ou seja, a concepo subjetiva que tm os atores sociais da ao num

    dado contexto ou a construo pelo pesquisador mediante um mtodo. O conceito

    weberiano leva em considerao, ao mesmo tempo, o outro (a ao social, os processos

    histricos, as significaes culturais) e o pesquisador, com seus interesses e valores

    (WEBER, 1969).

    Nessa concepo, o sistema de informao pode ser considerado uma parte

    integrante do sistema social que constitui a organizao envolvendo pessoas, processos e

    tecnologias. Portanto, no apenas um conjunto de instrues e programas empregados

    durante a utilizao do sistema. Em alguns estudos, o sistema de informao visualizado

    apenas como um instrumento tcnico de aplicao lgica ou computacional. Com isso, no

    so considerados os valores sociais que o modelo representa para os usurios do sistema.

    Para Rodrigues Filho (2007), a interao entre o sistema de informao e a

    organizao problemtica. Se, para muitos, a viso de sistema de informao limitada, a

    de organizao mais limitada ainda. Isso se explica porque o conceito de organizao

    esttico e rgido. Como resultado, a pesquisa em sistema de informao influenciada por

    esta concepo. No Brasil, so raras novas abordagens, ao contrrio do que ocorre nos

    pases desenvolvidos. Os pesquisadores brasileiros precisam avanar nos estudos das

    teorias das organizaes, de forma que as pesquisas em sistema de informao sejam mais

    consistentes.

    Os estudos de sistema de informao tm revelado uma importncia crescente,

    independentemente do tipo de organizao. A necessidade de mudar paradigmas

    tradicionais vem sendo demonstrada com o surgimento da sociologia da informao, que

    se preocupa com o estudo da informao sob o aspecto das questes sociais e culturais.

    Para Castells (2007), sociedade da informao um conceito utilizado para

    descrever uma sociedade, cuja economia que faz uso da tecnologia da informao e

    comunicao no sentido de lidar com a informao. , portanto, uma sociedade que usa a

    informao como elemento central de toda a atividade humana. Assim, os sistemas de

    informao com viso social permitem a democratizao da informao e o

  • 91

    desenvolvimento de tecnologias participativas e interativas. Porm, no podem deixar de

    utilizar a informao como recurso estratgico, baseado na interao dos indivduos com a

    organizao.

    Essa interao ocorre a partir das perspectivas histricas, racionais e sociais.

    Todavia, preciso frisar que tal interao tem limites, em funo das diferenas da

    dimenso humana e dos efeitos que as organizaes podem gerar no comportamento dos

    atores sociais. No entanto, importante destacar que os estudos organizacionais levam em

    considerao as diversas perspectivas para o entendimento dos diversos ngulos sociais e

    as peculiaridades da organizao.

    Atualmente, verifica-se um grande interesse da sociologia e da economia, a

    respeito das organizaes e das relaes entre os atores sociais e econmicos. Ela

    preocupa-se tambm com o impacto que isso proporciona no comportamento, desempenho,

    gesto, recursos e estratgias no desenvolvimento de sistemas de informao no nvel das

    interaes interorganizacionais e sociais (SACOMANO NETO; TRUZZI, 2002; RIBEIRO

    et al., 2003; GIDDENS, 2005).

    5.2 Tecnologia da informao e interao social

    As tecnologias da informao esto cada vez mais presentes em nossas atividades

    profissionais e pessoais, na qualidade de seres humanos, geradores de conhecimento e

    utilizadores da informao. Isso facilmente observado pela forma como nos organizamos,

    trabalhamos, nos divertimos e at mesmo o que pensamos. Todas as nossas atividades so,

    de certa forma, influenciadas pela tecnologia que funciona, no apenas como um

    instrumento que nos auxilia, mas tambm por ocupar o papel de mediadora entre a

    informao e as necessidades individuais e organizacionais.

    A tecnologia da informao, quando interage com o contexto social da

    organizao, essencial tanto do ponto de vista acadmico quanto profissional. Ela

    transforma as aes dos indivduos, valorizando sua competncia, gerando benefcios

    sociais e econmicos que estimulam o desenvolvimento. Portanto, uma fonte de recursos

    fundamentais para a formao e manuteno das redes sociais. Inegavelmente, cumpre um

    papel significativo, em particular, nos sistemas de informao, por ser um elemento

    integrador e eficaz para promover a reestruturao das organizaes.

  • 92

    Na ps-modernidade, a sociedade se encontra interconectada, com nfase na

    produtividade e na necessidade de relacionamentos, que so fatores essenciais para a

    sobrevivncia da organizao. Os avanos em tecnologia da informao crescem nas

    organizaes, recebendo investimentos vultosos e provocando o que se denomina de

    exploso da informao. Nesse novo contexto, as organizaes tm desenvolvido seus

    prprios sistemas de informao sem necessariamente pensar em cooperao com outras

    entidades fora de suas fronteiras. Muitas vezes, tambm no pensam nos agentes sociais

    que devem interagir com a tecnologia da informao.

    Agora que a conectividade tecnicamente possvel e economicamente vivel, a

    integrao entre sistemas fica mais difcil (ARCIERI, 2002). Assim, a migrao para um

    trabalho cooperativo (groupware) com a prevalncia de relacionamentos

    interorganizacionais pode ser considerada uma mudana de paradigma, porque o foco no

    aspecto humano da tecnologia pode ser visto como uma escolha estratgica e de interao

    social. Para Campos; Teixeira (2004), os usurios tm objetivos bem especficos

    (operacionais) com a implantao dos sistemas e, por isto, deveriam ser envolvidos no

    processo desde a fase inicial de levantamento.

    No entanto, os desenvolvedores de tecnologia da informao nem sempre

    entendem claramente quais os objetivos que os gestores e usurios pretendem atingir e,

    muitas vezes, no sabem disponibilizar recursos, nessa rea, que possam atingir esses

    objetivos. Assim, em muitos casos, ocorre uma lacuna entre o que esperam os usurios e o

    que oferecem os desenvolvedores. Alm disso, as aes dos tecnicistas so desenvolvidas

    de forma distinta, provocando diversos impactos nos resultados da adoo da tecnologia.

    A construo social do sistema de informao torna-se fundamental sob uma tica

    humanizada, em oposio viso positivista dos tecnicistas que ignoram a natureza da

    realidade social. Na viso humanista, os fatos sociais so conhecidos e considerados na

    interao com a tecnologia da informao. Alm disso, so levados em considerao os

    atores envolvidos no processo de construo.

    Ramonet (apud GOUVEIA; CAIO, 2004) afirma que as tecnologias da

    informao desempenham um papel ideolgico central, para estimular o pensamento. Ao

    reconhecer a influncia da tecnologia da informao em nossa sociedade, entende o citado

  • 93

    autor que a riqueza das naes, no sculo XXI, ser resultado do conhecimento, da

    informao, da capacidade de inovao e no mais da produo de matrias-primas.

    No h como desvincular a tecnologia da informao do conhecimento e da

    interao social. Essas dimenses caminham juntas, de forma dinmica e abrangente,

    considerando a integrao de diferentes agentes (desenvolvedores e usurios). Tal

    interao est baseada no processo de mtua ao que envolve a tecnologia, a organizao

    e as pessoas, que influenciam e so influenciadas pela tecnologia adotada pela organizao,

    conforme mostra a Figura 4. Como se observa na figura, a tecnologia da informao e a

    interao social podem ser analisadas sob trs aspectos: a) quanto tecnologia escolhida;

    b) quanto organizao na qual est inserida; c) quanto aos atores sociais envolvidos.

    Figura 4: Relao entre tecnologia da informao e interao social

    A tecnologia escolhida para um sistema de trabalho colaborativo tem o objetivo

    de integrar as diversas reas e unidades dentro da organizao, a fim de agilizar o processo

    de comunicao e execuo de tarefas, bem como de auxiliar na tomada de deciso. No

    entanto, essa tecnologia pode ser modificada pelas pessoas, de acordo com suas

    necessidades e interesses organizacionais. Enfim, a tecnologia um meio atravs do qual a

    ao humana facilitada ou dificultada por intermdio de esquemas interpretativos,

    facilidades e normas.

    A organizao, na qual a tecnologia est inserida, envolve as pessoas que realizam

    suas atividades e exercem sua autoridade, influenciando os atores sociais em suas

    interaes com a tecnologia. Isso pode ser exemplificado pelas intenes, normas

    profissionais, conhecimento, padres e recursos disponveis.

    Organizao

    Tecnologia Pessoas

  • 94

    Embora a tecnologia da informao seja usada para ajudar as pessoas que

    trabalham nas organizaes, muitas vezes, capaz de influenciar a prpria estrutura

    organizacional, no sentido de ampliar suas possibilidades de trabalho ou produo. Nesse

    caso, a organizao pode sofrer transformaes sociais e econmicas rpidas e intensas,

    deixando-a aberta s mudanas do ambiente externo.

    Essa possibilidade reforada por Campos; Teixeira (2004), ao afirmarem que as

    estruturas rgidas no so mais suficientes para eliminar incertezas. Com isso, as ligaes

    da organizao com o exterior esto afetando os comportamentos administrativos.

    Portanto, no existe apenas uma forma de desenhar a estrutura, o que existem so

    estruturas contingenciais internas e externas, ligadas a cada organizao.

    Por outro lado, os atores sociais envolvidos no processo de desenvolvimento de

    tecnologia da informao passam a considerar os valores por eles adotados. Esses valores,

    de certa forma, influenciam o seu comportamento na organizao, caracterizando o que se

    denomina de cultura organizacional. Nesse sentido, Weber (1969) sugere que uma

    abordagem organizacional adequada configura uma anlise da cultura organizacional.

    Assim, em termos gerais, pode-se afirmar que a cultura ajuda a normatizar o

    comportamento dos atores sociais na organizao, porque estabelece as bases a partir das

    quais as pessoas adotam uma conduta.

    importante destacar que todas essas perspectivas tericas podem ser

    compreendidas como uma tentativa de construir um modelo que supere a lacuna existente

    entre abordagens tecnicistas e sociolgicas, entre modelos tradicionais (hard) e

    interpretativos (soft) para o desenvolvimento de sistema de informao. inegvel que a

    integrao da tecnologia da informao com os agentes sociais permite um melhor

    entendimento para a adoo de novas tecnologias, formas de gesto e controle

    organizacional.

    O grande desafio das organizaes da ps-modernidade est no conhecimento dos

    detalhes, cuja origem tcita resultante ser nica para a empresa. A viso estratgica

    prope que sejam explorados os valores sociais existentes na organizao. Tais valores se

    constituem uma riqueza ativa de informaes corporativas e cabedais de conhecimento

    expressos em contedo, utilizao, usurios e contexto. O resultado final um sistema de

  • 95

    informao que proporciona, eficazmente, coleta de informaes de diversos formatos,

    aplicaes e servios.

    5.3 Interao social: uma ponte entre o conhecimento formal e a prtica

    A interao social pode ser compreendida como um processo pelo qual agimos e

    reagimos em relao queles que esto ao nosso redor. Para Giddens (2005), a interao

    social, de uma maneira ou de outra, compe a maior parte de nossa vida. Ela se refere tanto

    a situaes formais quanto a situaes informais.

    As organizaes so constitudas por uma malha de interaes sociais que do

    dinamismo ao ambiente corporativo. O conceito de interao social um dos focos da obra

    de Vygotsky(2002), na qual enfatiza a dialtica entre o indivduo e a sociedade. O autor

    destaca, o intenso efeito da interao social, da linguagem e da cultura sobre o processo de

    aprendizagem. Esse processo muito importante para o conhecimento tcito e a

    transformao de conceitos espontneos em cientficos, atravs do processo de tornar

    explcito o que antes era tcito.

    A interao social capaz de construir na organizao um ambiente de

    aprendizagem contnua, como acontece com os programas de educao em servio. Isso

    refora a idia de que o conhecimento se constri de forma compartilhada e de que esse

    compartilhamento tem forte efeito motivador no trabalho.

    possvel admitir que as tecnologias e os sistemas de informao, assim como os

    programas de educao em servio, podem propiciar, de maneira progressiva, todas as

    formas de interao, permitindo o desenvolvimento de sistemas plenamente compatveis

    com a realidade social dos usurios. Vale ressaltar que a interao social no ambiente

    organizacional quebra paradigmas do modelo tradicional de desenvolvimento de sistemas,

    herana legada pelo positivismo das cincias tecnicistas, podendo migrar progressivamente

    para abordagens do ser social.

    Assim, o ambiente organizacional passa a ter um carter social e cultural

    adquirido atravs da interao social. Em conseqncia, constitui identidades que criam

    impacto nas relaes estabelecidas pelo indivduo com o meio. As experincias

  • 96

    vivenciadas na prtica corporativa formam modalidades de interao que influenciam a

    construo da identidade cultural na organizao.

    No h como negar que a interao social contribui para a formao de uma

    cultura digital, to presente na sociedade ps-moderna. De fato, a tecnologia da informao

    est incorporada cultura, juntamente com o ethos tecnolgico, com variadas

    significaes. A interao social com a tecnologia da informao facilita o alcance de

    nveis mais elevados de desenvolvimento de sistema de informao.

    Pellanda (apud MACHADO et al., 2005) afirma que est surgindo uma nova

    cultura, que denominou de cibercultura, com um alcance muito profundo na construo da

    sociedade e dos sujeitos. Essa nova cultura permeada pela presena macia de

    componentes existentes na rede de computadores, com tecnologias que trazem como

    dispositivos novas possibilidades de ver, perceber e vivenciar o mundo, recriando formas

    de relao entre os seres humanos. Assim, a tecnologia que envolve a cibercultura

    revoluciona no s as mquinas, como tambm as interaes que os sujeitos fazem entre si

    e com a sociedade, transformando sua capacidade de se relacionar com o outro, bem como

    de ver e agir no seu mundo.

    A construo da ponte que faz a conexo entre o conhecimento formal e a prtica

    no desenvolvimento de um sistema de informao deve considerar alguns elementos

    importantes que atuam de forma integrada: o conhecimento, a ao social e a cultura. A

    presena do conhecimento est na construo daquele saber diretamente aplicvel na

    prtica. Trata-se de um conhecimento operacional que vai dar organicidade tecnologia da

    informao, eleita como agente da transformao social.

    A lacuna entre teoria e prtica demonstra que o sistema de trabalho imprime uma

    linguagem prpria para a comunicao e que a linguagem formalizada capaz de ser

    apreendida por todos os atores sociais. Portanto, a gesto do conhecimento pode explicitar

    elementos do processo de trabalho, especialmente o conhecimento das pessoas na prtica.

    Esse conhecimento tcito ainda no est legitimado como elemento de valor, no

    desenvolvimento de tecnologias da informao.

    Assim, identificar o saber tcito do trabalhador possibilita o compartilhamento

    desse conhecimento e a sua integrao na organizao, envolvendo relaes sociais to

  • 97

    amplas que podem rivalizar com os discursos da sociedade da informao. A situao da

    interao social, objeto da sociologia, permanece impermevel decifrao da forma

    desejada. Por outro lado, as metodologias tradicionais tm se expandido e afastado o

    usurio da informao. preciso refletir sobre essas questes, de modo a abrir o debate

    sobre o conhecimento ideal, para que se possa desenvolver tecnologias da informao.

    A ao social refere-se projeo individual dos participantes, enquanto sujeitos,

    tanto do ponto de vista emocional quanto social. Em outras palavras, trata-se de uma

    atitude que leva em conta aes ou reaes de outros indivduos e modificada a partir

    desses eventos. O termo "ao social" foi introduzido por Max Weber e mais abrangente

    que a expresso fenmeno social, posto que o indivduo no passivo, mas,

    potencialmente, ativo e reativo.

    Para Weber (1979), a sociologia uma cincia que procura compreender a ao

    social. Por isso, considerava o indivduo e suas aes como elemento-chave da

    investigao, evidenciando o que para ele era o ponto de partida para a sociologia: a

    compreenso e a percepo do sentido que a pessoa atribui sua conduta.

    O principal objetivo de Weber era compreender o sentido que a pessoa d sua

    conduta; perceber a sua estrutura inteligvel e no apenas limitar-se anlise das

    organizaes sociais, como afirmava Durkheim. Com efeito, preciso compreender,

    interpretar e explicar, respectivamente, o significado, a organizao e o sentido, bem como

    evidenciar irregularidades das condutas (WEBER, 1979).

    Com esse entendimento, Weber no tinha a inteno de negar a existncia ou a

    importncia dos fenmenos sociais. Seu propsito era dar importncia necessidade de

    entender as intenes e motivaes dos indivduos que vivenciam essas situaes sociais.

    Na sua concepo, no domnio dos fenmenos naturais, s se podem aprender as

    regularidades observadas por meio de proposies confirmadas pela experincia

    vivenciada na prtica. Somente assim, possvel compreend-las.

    Esse complexo e malevel sistema de relaes sociais formou o que Wellman

    (apud CASTELLS, 2003) chama de comunidades personalizadas, representando a

    privatizao da sociabilidade, que passou a ser baseada na individualidade. No entanto,

    esse novo padro de sociabilidade no considera a individualidade como uma forma de

  • 98

    isolamento, porque h uma interligao constante entre os indivduos. Esse fenmeno pode

    ser denominado de individualismo em rede, que um padro social e no um acmulo de

    indivduos isolados.

    O fato que as pessoas montam suas redes, on-line e off-line, com base em seus

    interesses, valores, afinidades e projetos. Para Castells (2003), a flexibilidade e o poder de

    comunicao da internet e a interao social on-line desempenham crescente papel na

    organizao social como um todo.

    A presena da cultura, por sua vez, evidencia-se nas manifestaes culturais que

    envolvem as pessoas dentro da organizao. As pessoas esto impregnadas de

    manifestaes decorrentes do processo de socializao. Esse processo ocorre em razo do

    estreito vnculo de amizade em que os indivduos convivem com mais freqncia no

    ambiente organizacional. Os propsitos que levam a interao social so imanentes da

    cultura dos sujeitos, a qual produzida coletivamente e permanece devido ao

    reconhecimento coletivo. Dessa forma, segundo Machado et al. (2005), estar inserido na

    cultura significa compartilhar um mundo particular objetivo.

    Portanto, a interao social para desenvolver sistemas de informao s pode

    ocorrer quando houver um vnculo entre pessoas, conhecimento e cultura. Esses elementos

    perpassam os movimentos existentes nas organizaes, com suas caractersticas e

    envolvimentos prprios das contingncias. Assim, se existe uma cultura caracterstica de

    uma determinada organizao, isso quer dizer que o sistema de informao pode estar

    contido nas premissas culturais da organizao. Com base nessas consideraes, percebe-

    se que a interao social se constitui num link que vai responder ao ambiente corporativo

    com as linguagens culturais que ela compreende e com as quais se comunica. Isso permite

    que o sistema de informao seja carregado de sentidos condizentes com a cultura

    organizacional.

  • 99

  • 100

    6.1 Natureza do estudo

    Para uma melhor compreenso do fenmeno investigado, optamos pelo enfoque

    da pesquisa qualitativa que, segundo Bogdan; Biklen (2003) apresenta algumas

    caractersticas, a saber:

    tem o ambiente natural como fonte direta dos dados e o pesquisador como

    instrumento-chave;

    descritiva;

    os pesquisadores esto preocupados com o processo e no simplesmente com

    os resultados ou o produto;

    os pesquisadores tendem a analisar seus dados indutivamente;

    o significado a preocupao essencial na abordagem qualitativa.

    Tendo em vista essas caractersticas, adotamos o mtodo qualitativo, na tentativa

    de descobrir e entender o que h por trs do desenvolvimento de um sistema de informao

    em enfermagem. Partimos do princpio de que o mtodo quantitativo no capaz de

    apresentar respostas, sem uma complexa reflexo da experincia vivenciada no dia-a-dia

    da prtica de enfermagem, onde reside o verdadeiro valor do fenmeno investigado.

    Reforando essa argumentao, Strauss; Corbin (1998) afirmam que o mtodo

    qualitativo produz resultados no obtidos por meio de procedimentos estatsticos ou outros

    meios de quantificao. Nesse aspecto, referem-se tanto s pesquisas feitas sobre a vida,

    histrias e comportamentos de pessoas, como quelas envolvendo o funcionamento

    organizacional, os movimentos sociais ou as relaes interacionais.

    Dessa forma, tomamos a deciso de trilhar a linha qualitativa, tentando ordenar as

    etapas do processo de pesquisa. Esta se inicia com o design ou plano de ao, vindo, em

    seguida, a coleta de dados, a interpretao ou anlise dos dados e a explicao do

    fenmeno investigado.

    6.2 Mtodo de abordagem

    Aps fazermos uma reflexo sobre os vrios mtodos de pesquisa, chegamos

    concluso de que a abordagem da grounded theory se mostrou mais apropriada para este

  • 101

    estudo, porque procura investigar os processos nos quais esto ocorrendo os fenmenos.

    Alm disso, busca uma fundamentao detalhada, para, a partir da, realizar a anlise

    sistemtica dos dados e fazer comparaes destes, at que surja a teoria. Na realidade, a

    teoria vista como um processo em desenvolvimento e no como um produto acabado.

    Como afirma ngelo (1989), esse mtodo consiste na descoberta e no desenvolvimento de

    uma teoria a partir das informaes obtidas e analisadas de forma sistemtica e

    comparativa.

    Chama-nos a ateno nesse mtodo o fato de que se trata de um processo contnuo

    de crescimento, em que cada etapa d seqncia prxima, at que os dados estejam

    conceitualizados em categorias para integrar a teoria. Segundo Cassiani (1994), a coleta e a

    anlise dos dados constituem um processo que os autores denominam de double-back

    steps, ou seja, move-se para frente, mas constantemente volta-se s etapas anteriores. Suas

    etapas so: coleta de dados, codificao aberta, amostragem terica, elaborao de

    memorandos e surgimento das hipteses e dos processos centrais.

    Com o conjunto de dados estruturados pelo mtodo da grounded theory,

    buscamos fazer um exame mais detalhado, na perspectiva do interacionismo simblico.

    Nesse caso, trabalha-se com os smbolos significativos, enfatizados pelo discurso dos

    enfermeiros, penetrando em seu domnio de experincia e tentando entender o valor

    individual de cada um. Com isso, possvel ver os objetos como eles vem, de forma que

    possibilite a interpretao consciente, determine padres entre os dados coletados e,

    finalmente, permita conceituar o que foi descoberto.

    Para a adoo desse mtodo, de acordo com Blumer (1969), preciso, antes de

    tudo, que o pesquisador tenha habilidade de se colocar na posio do indivduo, de assumir

    o papel do outro, de aproximar-se das pessoas, observar seus problemas, conversar com

    elas, observar suas vidas e como se relacionam. Portanto, essa viso mais prxima e

    completa no dia-a-dia do trabalho dos enfermeiros possibilitou o desenvolvimento e o

    aprimoramento da pesquisa. Os dados, as relaes analticas e as interpretaes que

    surgiram foram fundamentadas na realidade emprica em que os enfermeiros esto

    inseridos.

  • 102

    6.3 Contexto da pesquisa

    O estudo foi realizado no Hospital Universitrio Lauro Wanderley HULW, da

    Universidade Federal da Paraba. Por se tratar de um centro de referncia na formao de

    profissionais de enfermagem no Estado, essa instituio possui em desenvolvimento, na

    Unidade de Clnica Mdica, o processo de sistematizao da assistncia de enfermagem.

    Alm disso, est em fase de implantao a informatizao das unidades de internao.

    Conforme foi mencionado no captulo I, desenvolveu-se um projeto com o

    envolvimento da enfermagem para construir um modelo participativo de sistema de

    informao automatizado. Embora os objetivos do projeto no tenham sido alcanados em

    sua totalidade, a experincia em si foi muito gratificante e serviu de reflexo para estudar

    questes mais amplas relacionadas ao conhecimento terico e prtica de enfermagem no

    dia-a-dia do hospital. O presente estudo uma continuidade desse trabalho, porm com um

    foco direcionado para as idias que emergiram da percepo dos enfermeiros assistenciais

    em relao ao sistema de informao em enfermagem na prtica.

    6.4 Sujeitos colaboradores da pesquisa

    Os atores participantes da pesquisa foram enfermeiros assistenciais que trabalham

    na Unidade de Clnica Mdica do HULW. A participao desses profissionais na pesquisa

    dependeu da concordncia e disponibilidade em contribuir com o estudo. Antes de iniciar o

    processo de coleta dos dados, o projeto de pesquisa foi submetido ao Comit de tica em

    Pesquisa - CEP do Hospital Universitrio, que aprovou o parecer do relator.

    Antes do incio da coleta dos dados, os enfermeiros foram informados sobre o

    nosso interesse pela pesquisa. Fizemos um esclarecimento detalhado dos objetivos da

    pesquisa e, em seguida, uma breve exposio da proposta, a fim de no causar dvidas ou

    constrangimento a respeito do estudo. Solicitamos a permisso para utilizar as informaes

    apresentadas durante a coleta dos dados. Esclarecemos tambm que a participao deveria

    ser espontnea. Durante o transcorrer desse processo, tivemos sempre a preocupao em

    zelar pelas observncias ticas, preconizadas para a pesquisa envolvendo seres humanos,

    de acordo com a Resoluo n 196/96 do Conselho Nacional de Sade (BRASIL-MS,

    1996). Nesse sentido, foi assegurado aos enfermeiros o respeito e o sigilo quanto aos seus

  • 103

    sentimentos, opinies e informaes pessoais, em relao s quais poderiam ter pleno

    conhecimento.

    Atendendo ao princpio tico da autonomia, apresentamos, antes de iniciar a

    coleta dos dados, o termo de consentimento livre e esclarecido (Apndice A). Como se

    sabe, um instrumento imprescindvel quando se trata de pesquisa envolvendo seres

    humanos, que leva em considerao a dignidade do indivduo e defende sua

    vulnerabilidade. Em consonncia com esses princpios, foi mantido um contato preliminar

    com os enfermeiros. Quando eles concordavam em colaborar, agendvamos um encontro,

    ocasio em que eram dadas as devidas informaes a respeito do estudo e de seu objetivo,

    enfatizando-se a importncia da participao deles. Salientamos, particularmente, a

    garantia do anonimato, a privacidade, a confidencialidade, bem como a liberdade de

    participao, sem que isto viesse a interferir em nosso relacionamento como pesquisador.

    Aps a anuncia, os enfermeiros assinavam o termo de consentimento livre e esclarecido.

    A populao de enfermeiros da Clnica Mdica do HULW era constituda por

    dezessete profissionais, segundo informao colhida junto a chefia de enfermagem da

    clnica. O nmero de enfermeiros que iriam participar do estudo no foi estabelecido, a

    priori, uma vez que o mtodo de abordagem da grounded theory no adota uma

    amostragem estatstica. Esta determinada pelo propsito do estudo e pela relevncia

    terica, ou seja, o seu potencial para o desenvolvimento da teoria.

    Assim, na amostragem terica, procuramos coletar dados que pudessem subsidiar

    a teoria. Dessa forma, ao coletar, codificar e analisar os dados tivemos condies de

    decidir se havia ou no a necessidade de coletar mais dados, a fim de desenvolver a teoria

    at alcanar a saturao terica. Esta ocorre quando nenhum dado adicional consegue

    acrescentar algo novo. A saturao da amostragem foi atingida aps a realizao da 8

    entrevista. Todavia, avanamos um pouco mais, para garantir a consistncia dos dados at

    que decidimos encerrar na 12 entrevista, o que correspondeu a 70% da populao

    investigada.

    6.5 Estratgias para obteno dos dados

    As tcnicas de coleta de dados utilizadas como ferramenta de pesquisa para

    compreenso do fenmeno em estudo foram a observao participante e a entrevista.

  • 104

    Naturalmente, iniciamos a coleta por meio da observao. Para tanto, ouvimos os

    enfermeiros, procurando compreender as suas apreenses verbalizadas pela linguagem

    oral.

    Essa fase de observao permitiu uma maior interao entre pesquisador e o

    pessoal de enfermagem, inclusive, atravs da participao em reunies cientficas, em sala

    de aula. Nesse momento, eram discutidos temas voltados para a assistncia de enfermagem

    (diagnstico, interveno e resultados) e para o registro dessas informaes no plano de

    cuidado. Para os enfermeiros, a nossa presena era importante, porque possibilitava

    presenciar situaes de interao ou falas que contriburam para a compreenso do

    fenmeno investigado, sem esquecer o nosso papel de observador participante. Alm disso,

    tivemos a sensibilidade de identificar, entre eles, os que podiam contribuir com a

    investigao.

    Com o contato mais prximo dos enfermeiros em sala de aula ou mesmo nas

    enfermarias, alm das observaes, foram iniciadas algumas interaes por meio de

    conversas informais. Esse dilogo e as observaes que foram registradas permitiram

    compreender o significado da experincia dos enfermeiros em relao teoria e prtica

    do sistema de informao, no qual procuramos recompor o processo como um todo.

    Passamos a conhecer as evidncias, a fim de esclarecer os objetivos propostos, atravs da

    leitura meticulosa dos dados. Assim, foi possvel elaborar questes que revelassem a

    tendncia atribuda ao carter subjetivo da realidade dos enfermeiros, na esperana de

    entender a sua experincia na prtica assistencial e as possveis dificuldades concernentes

    aplicao da teoria na prtica de enfermagem.

    Durante toda a fase de desenvolvimento do mtodo, foram elaborados

    memorandos, que so registros ou anotaes relacionados ao processo, onde descrevamos

    as ideais, os insigths, as hipteses ou as snteses das codificaes. O uso de anotaes

    possibilitou registrar as informaes observadas e, posteriormente, colocadas no papel para

    se poder utilizar esse registro na complementao da anlise dos dados. Essa tcnica nos

    ajudou a compreender, com mais profundidade, as implicaes da lacuna entre teoria e

    prtica em enfermagem no desenvolvimento de sistemas de informao. Por sua natureza,

    o mtodo flexvel e propicia mais liberdade ao observador para novamente conceitualizar

  • 105

    o problema, aps sua familiarizao com a situao (POLIT; HUNGLER, 2004). Segue

    um exemplo de como foram realizados os memorandos.

    Notas do pesquisador (memorando incial): Ao presenciar a realidade da prtica assistencial do enfermeiro, eu percebo o quanto so complexas as suas atribuies e acho, inclusive, que eles tambm percebem isso. Parece-me que no est muito claro aos enfermeiros para que se presta a teoria. Qual o papel da teoria para afetar a prtica? A impresso que tenho, atravs de minha observao, que isso no passado de forma muito clara, a fim de perceberem o que uma e o que a outra e para que elas se prestam. Eu acho que existe uma lacuna entre a teoria e a prtica justamente pela falta de preparo na formao para processar essa adaptao da teoria. Isso leva muitas vezes o enfermeiro a rejeitar a teoria quando exerce sua prtica. isso que tenho observado. Vou procurar questionar esse aspecto na prxima entrevista.

    Assim, as informaes foram registradas em pequenas anotaes ou memorandos,

    frases, palavras, gestos. Isso ocorreu at mesmo com a impresso demonstrada pelo

    entrevistado no momento em que ocorria a entrevista. Todos os registros foram

    organizados obedecendo s recomendaes metodolgicas propostas por Schatzman;

    Strauss (1973), consistindo de notas de observao (NO), notas metodolgicas (NM) e

    notas tericas (NT).

    As notas de observao, conforme os citados autores, so as descries sobre os

    eventos obtidos especialmente pela observao, apresentando a menor interpretao

    possvel. Portanto, cada NO representa algum acontecimento de especial interesse para

    subsidiar o julgamento dos dados, como tambm para obter evidncias que esclaream os

    fatos, utilizando-se as expresses: quem, o que, quando, onde e como. Exemplo de NO: O

    que poderia ser feito, para que aquilo que o enfermeiro faz na prtica, possa aparecer nos

    registros de enfermagem?

    As notas tericas ocorrem quando o pesquisador tenta, ao encontrar os fatos, tenta

    registrar a interpretao, ou seja, dar o significado e estabelecer conexes entre notas de

    observaes ou conceitos j elaborados. So as interpretaes, hipteses e inferncias com

    o propsito de desenvolver conceitos. Exemplo de NT: Parece que os enfermeiros

    conferem um significado diferente para a relao teoria e prtica e sua ligao com o

    sistema de informao em enfermagem. Verificar.

    Finalmente, as notas metodolgicas se referem a alguns atos operacionais

    utilizados para instruir o pesquisador (um lembrete, uma crtica), a fim de que possa tomar

  • 106

    decises que delineiem o estudo em consonncia com os problemas encontrados na

    aquisio de novos dados e a maneira estratgica de resolv-los. Exemplo de NM: Parece

    que o conhecimento em termos de sistema de informao entre os enfermeiros

    superficial, em virtude das informaes colhidas nas entrevistas at o momento. Logo, vou

    continuar perguntando sobre o assunto e filtrando as informaes, comparando o discurso

    dos enfermeiros jovens com o dos mais experientes na unidade de clnica mdica e

    procurando ver a situao de forma a compreender a relao entre teoria e prtica.

    O incio das entrevistas aconteceu aps algumas semanas de convivncia com os

    enfermeiros no ambiente hospitalar e na sala de aula. Ns sentimos que havamos

    conquistado um relacionamento de confiana e amizade com o grupo. Ento,

    compreendemos que j havia condies para tentar obter mais da experincia dos

    enfermeiros e escolher os que poderiam colaborar com este estudo, atravs da entrevista.

    A entrevista foi realizada no decorrer do processo, como estratgia preferencial

    para a compreenso dos dados obtidos. Segundo Gil (2002), a entrevista uma das tcnicas

    de coleta de dados mais utilizadas no mbito das cincias sociais. Minayo (2006) admite

    que a entrevista uma das tcnicas mais usadas no processo de trabalho de campo. A

    entrevista pode ser definida como um processo de interao social entre duas pessoas na

    qual uma delas, o entrevistador, tem por objetivo a obteno de informaes por parte da

    outra, o entrevistado (HAGUETTE, 2003).

    Dentre as diferentes formas de entrevista, escolhemos a entrevista semi-

    estruturada. Esta, como afirma Trivios (1994), parte de certos questionamentos bsicos,

    apoiados em teorias ou hipteses que interessam pesquisa. Esses questionamentos

    oferecem amplo campo de investigao, fruto de novas hipteses que vo surgindo

    medida que se recebem as respostas do informante. Nesse sentido, elaboramos um plano de

    orientao constitudo de questes que norteavam o foco da investigao.

    A coleta dos dados teve incio com um teste-piloto, cuja finalidade foi avaliar a

    compreenso dos entrevistados a respeito dos questionamentos propostos e descobrir as

    primeiras categorias potenciais. Participaram do teste-piloto trs enfermeiros, sendo dois

    alunos de mestrado e um assistencial do HULW/UFPB. Foram elaboradas duas questes

    norteadoras:

  • 107

    $ Como voc v a relao teoria e prtica em enfermagem?

    $ Como voc descreve sua experincia prtica em relao sistematizao

    da assistncia de enfermagem?

    O procedimento para a realizao das entrevistas aconteceu da seguinte forma: ao

    entrarmos em contato com os enfermeiros, agendvamos o dia, hora e local para as

    entrevistas. Antes do incio da entrevista, esclarecamos, de forma sintetizada, os

    propsitos do trabalho. Informvamos ainda aos entrevistados que seria utilizado um

    gravador durante a entrevista, conforme explicitado no termo de consentimento livre e

    esclarecido, no tendo havido restries. As entrevistas duraram em mdia trinta minutos.

    Os entrevistados no demonstraram dificuldades em expressar suas opinies a respeito das

    questes formuladas.

    Concluda essa fase, que podemos denominar de "teste-piloto da entrevista",

    procedemos anlise dos contedos das entrevistas. Para isso, fizemos a transcrio no

    computador da fala de cada entrevistado, utilizando um editor de texto Microsoft Word -

    com numerao na margem esquerda, a fim de facilitar o recorte do discurso. Aps a

    digitao, realizamos uma reviso minuciosa do texto com a audio da gravao,

    comparando a fala com o texto, linha por linha, palavra por palavra, certificando-nos se o

    texto relatava fielmente o pensamento do entrevistado para identificar qualquer trecho

    incompleto ou com palavras erradas.

    Corrigido o texto transcrito, iniciou-se o processo de recortes ou identificao das

    unidades de anlise dos dados. Um a um, os recortes eram codificados, separados e

    impressos, numa tabela contendo, na margem esquerda, os dados identificados e, na

    margem direita, os cdigos.

    Em seguida, passamos ao processo de reflexo sobre cada cdigo atribudo aos

    dados identificados, separando-os por afinidade ou semelhana. Eram tambm separados

    se apresentassem alguma relao ou complementao de idias ou expresses. Dessa

    forma, foi possvel detectar cdigos repetidos ou que tinham o mesmo significado e, a

    partir da, foi reduzido o nmero de cdigos. Todo esse trabalho foi manual. Aps

    concluir essa etapa, o material foi digitado numa planilha, listando-se todos os cdigos de

    cada entrevista em arquivo separado.

  • 108

    O procedimento seguinte foi a impresso dessa planilha e uma anlise isolada de

    cada entrevista. Procuramos, com isso, agrupar os cdigos que tinham afinidades ou que se

    complementavam, constituindo assim, as primeiras categorias. A principal dificuldade,

    nessa tarefa, foi atribuir um significado para cada grupo de cdigos. Para todo

    agrupamento de cdigos, formulava-se a seguinte pergunta: O que significa isso? A

    resposta a essa questo indicava o nome da categoria.

    Aps a construo das categorias, foram retomadas as planilhas, fazendo-se a

    digitao, abrindo-se uma coluna para a codificao axial. Nesse momento, foram

    agrupadas todas as planilhas que estavam em arquivos separados, fazendo-se um quadro

    geral com as categorias e subcategorias existentes. A partir da, foi possvel selecionar as

    categorias que tinham o mesmo significado, reagrupando-as para construir o que se

    denomina de codificao axial. Trata-se de uma nova forma de se organizar os dados,

    formando novas categorias.

    Concluda essa etapa, as planilhas foram digitadas e impressas, abrindo-se nova

    coluna, que foi denominada de codificao seletiva. Com isso, procurou-se integrar as

    categorias estabelecidas na codificao axial por afinidades, de acordo com suas

    propriedades e dimenses. Nessa etapa, tambm surgiram dificuldades, por se tratar de um

    processo analtico e de profunda subjetividade que depende da forma como o pesquisador

    interpreta os dados.

    Aps o trmino dessa fase, percebemos que as questes elaboradas e respondidas

    pelos enfermeiros no alcanavam os objetivos do estudo em sua totalidade. Verificamos

    que faltava ainda alguma coisa. Fizemos uma releitura das entrevistas e observamos que os

    enfermeiros no apontavam, em nenhum momento de seus discursos, o sistema de

    informao. Portanto, precisava ser elaborada uma questo que provocasse uma resposta

    voltada para esse aspecto. Diante desse fato, as questes norteadoras foram reformuladas e

    passaram a ter, aps uma breve introduo, as seguintes proposies:

    Os sistemas de informao podem ajudar a enfermagem. S que esses sistemas

    nem sempre so centrados no usurio e sua prtica, mas na viso de quem os desenvolve,

    utilizando os modelos tericos. Supondo que se pretenda desenvolver um sistema de

    informao em enfermagem centrado na prtica de enfermagem, responda:

  • 109

    1. Que relao h entre teoria e prtica em enfermagem, ou seja, como voc

    percebe os modelos tericos em relao sua prtica? Eles so aplicados?

    Correspondem prtica?

    2. O trabalho de sistematizao um bom caminho para registrar a sua

    prtica ou apenas outro modelo terico que nada tem a ver com a sua

    prtica?

    3. Se voc fosse participar do processo de desenvolvimento de um sistema de

    informao em enfermagem computadorizado, que elementos de sua prtica

    voc consideraria importante para estar disponvel no computador?

    Aps isso, foi preciso retornar aos primeiros entrevistados do teste - piloto, a fim

    de avaliar quais eram sua percepo em relao s novas questes. As entrevistas foram

    realizadas com sucesso, no havendo dvidas quanto formulao das questes.

    Concludas as entrevistas, procedemos transcrio, leitura e pr-anlise dos dados e todo

    o procedimento anteriormente descrito.

    Em seguida, demos incio coleta definitiva dos dados, marcando novas

    entrevistas com outros enfermeiros. No entanto, algumas vezes era preciso remarcar o

    encontro, porque os enfermeiros tinham algum impedimento, sendo a entrevista agendada

    para um dia diferente do que fora estabelecido. Essa situao nos inquietou, mas tal fato

    comum ocorrer quando se usa esse tipo de coleta de dados.

    A cada entrevista realizada, seguamos o mesmo ritual metodolgico utilizado

    para chegar codificao seletiva. Fazamos o aprofundamento da anlise da categoria

    central, que aquela categoria mais ampla e abstrata o suficiente para envolver todas as

    expresses identificadas.

    Para uma melhor compreenso dos dados, alm de trabalharmos com arquivos

    digitalizados, foram organizados tambm, por medida de segurana, arquivos impressos

    com todos os dados coletados e analisados separadamente. Havia pastas s para

    entrevistas, para identificao de cdigos e categorias, e um quadro geral com categorias,

    codificao axial, codificao seletiva e categoria central.

    importante salientar que todas as categorias foram codificadas, obedecendo

    seqncia das entrevistas, identificadas com cdigos de dois caracteres numricos (Enf. 01

  • 110

    a Enf. 12). Com isso, buscou-se preservar o anonimato do entrevistado e facilitar a anlise,

    caso houvesse dvidas ou necessidade de realizar uma consulta no impresso ou no

    computador.

    6.6 Anlise das informaes

    Para compreender o significado dos dados que foram obtidos com as entrevistas e

    as observaes, procedemos anlise dos dados, codificando-os, categorizando-os e

    identificando a categoria central. A abordagem da grounded theory e a perspectiva do

    interacionismo simblico, como mtodos de pesquisa qualitativa, ampliaram a viso do

    fenmeno. Isso porque foram aproveitados todos os dados advindos da anlise das

    entrevistas e outros adquiridos pelo prprio investigador, como as notas de observao, as

    notas metodolgicas e as notas tericas que esto inseridas no desenvolvimento da anlise.

    Aps a concluso de cada entrevista, realizamos a transcrio, digitando-a e

    imprimindo-a. A codificao foi feita manualmente e os cdigos foram anotados na

    margem direita da pgina. Essa etapa denominada por Strauss; Corbin (1998) de

    codificao aberta. Trata-se de uma etapa do processo de anlise que ocorre durante todo o

    tempo da coleta dos dados, embora haja caractersticas distintas, dependendo do

    andamento do processo.

    Em seguida, separamos os dados ou recortes, que so as unidades de anlise, e

    nomeamos cada idia ou evento, de modo que viesse a representar os fenmenos

    identificados. A partir da, surgiram os primeiros conceitos que foram comparados uns com

    os outros, fazendo-se sempre o mesmo questionamento: O que significa isso? Com esta

    pergunta, procurava-se organizar os dados para que fenmenos semelhantes pudessem

    receber a mesma identificao.

    Nessa fase, elaboramos alguns memorandos que auxiliaram no desenvolvimento

    da teoria, em virtude de ser um registro escrito do processo de anlise dos dados, podendo

    ser considerado como o pensamento abstrato que se tem sobre os dados. Esse

    procedimento nos facilitou guardar a informao e disponibiliz-la quando necessitvamos.

    As anotaes possibilitaram maior reflexo sobre o fenmeno investigado e

    proporcionaram insigths que contriburam para uma compreenso mais apurada do estudo.

  • 111

    Na etapa seguinte, atribumos um nome conceitual ou abstrato para cada

    agrupamento de dados realizados, cdigo por cdigo, que tinha alguma semelhana entre si

    ou mesmo caractersticas distintas. Os dados categorizados receberam a denominao de

    categorias, conforme foram interpretados. Esta uma caracterstica da anlise qualitativa,

    ou seja, a intersubjetividade que busca no processo reflexivo as respostas que explicam um

    determinado fenmeno. Nesse aspecto, Strauss; Corbin (1998) afirmam que a

    categorizao permite reduzir o nmero de unidades de anlise trabalhadas.

    Essas categorias mudavam de nome, cada vez que se buscava nas entrevistas mais

    conceitos e se faziam comparaes dos dados. O nome da categoria sofria modificaes,

    at que finalmente se encontrasse uma que representasse o significado do cdigo agrupado.

    Como se pode perceber, essa fase exige muita pacincia e introjeo, porque preciso ir

    alm dos dados, para vivenciar a experincia dos informantes. So apresentados abaixo

    alguns exemplos de recortes ou unidade de anlise:

    Dando prosseguimento anlise dos dados, passamos etapa denominada por

    Strauss; Corbin (1998) de codificao axial. Esta envolve um grupo de procedimentos

    seguidos pelo investigador em que os dados so agrupados em novas formas,

    estabelecendo as conexes entre as categorias, buscando expandir e densificar a teoria

    emergente. Essas operaes so denominadas de conexes tericas. As conexes so

    estabelecidas entre uma categoria e suas subcategorias, em termos das condies causais,

    contexto, condies intervenientes, estratgias e conseqncias (CASSIANI, 1994).

    Nos agrupamentos realizados, trezentos e seis cdigos foram agrupados em

    quinze categorias. Atravs de um processo indutivo de agrupamentos dos cdigos em

    categorias e da anlise comparativa dos dados, com o propsito de identificar os cdigos

    mais significativos para construir o fenmeno, foi possvel reduzi-las para quarenta e oito

    [...] para facilitar o registro de enfermagem, eu sugiro que a evoluo seja

    informatizada, que esteja no computador.

    [...] eles (os modelos formais) no so aplicados na prtica aqui diria.

    [...] existe uma lacuna entre teoria e prtica.

    [...] o que a gente faz s visto por ns mesmos, os mdicos no tm interesse

    em conhecer o que fazemos.

  • 112

    cdigos e quatorze categorias. O Quadro 1 apresenta um exemplo desse processo. O

    desenvolvimento dessa anlise foi importante, porque forneceu a base para fazer as

    relaes entre as categorias, subcategorias e categorias maiores.

    Convm enfatizar ainda que, no transcorrer do processo de anlise, para codificar

    e categorizar os dados houve momentos de dificuldades quando no se conseguia

    interpretar o significado dos discursos expressos pelos enfermeiros. Isto retardava o

    andamento da anlise at que surgia um insight e, assim, prosseguamos com a reflexo.

    Esse trabalho foi exaustivo e s vezes gerava confuso com o volume de dados, cdigos e

    categorias que precisavam ser analisados e reduzidos.

    UNIDADES DE ANLISE CDIGOS CATEGORIA [...]a relao teoria e prtica no aplicada; no consigo aplicar na prtica.

    [...] os diagnsticos de enfermagem a gente no aplica, mas eu acho que no tinha muita condio de aplicar devido ao tempo.

    No aplicando os modelos formais na prtica.

    Sentindo que existe uma lacuna entre a teoria e a prtica de enfermagem.

    [...] existe uma lacuna entre teoria e prtica.

    [...] eu acho que existe uma lacuna muito grande entre a teoria e a prtica.

    Percebendo lacunas na prtica de enfermagem.

    [...] eu, particularmente, no consigo ainda associar as duas coisas; usar bem a teoria na prtica.

    [...] o que voc aprende, o que voc tem a desenvolver, voc nunca consegue desenvolver.

    No conseguindo associar a teoria prtica.

    [...] a gente sente essa dificuldade que a prtica uma coisa e a teoria outra.

    Percebendo a prtica diferente da teoria.

    Quadro 1: Exemplificando o agrupamento de cdigos e da categoria

    Em seguida, passamos etapa do processo analtico, onde as categorias foram

    trabalhadas em profundidade e densidade de consistncia. Esse refinamento denominado

    por Strauss; Corbin (1998) de codificao seletiva. Consiste num processo de integrao

    entre as categorias e subcategorias definidas (um nvel de anlise mais abstrato). Esse

    processo feito, aps a descrio analtica do relato, at descobrir a categoria central que

  • 113

    deve estar presente na maioria dos relatos e deve ser ampla e abstrata para incluir e

    expressar todas as outras.

    A conduo desse processo permitiu a reduo das categorias por meio da

    comparao e organizao dos dados, constituindo-se outras mais amplas e densas. uma

    atividade de pura reflexo em que a subjetividade flui durante todo o processo, indo alm

    dos dados para descobrir os pontos de ligao entre as diversas categorias, possibilitando,

    dessa forma, a sua integrao.

    O passo seguinte foi identificar a categoria central, resultante da integrao

    analtica das categorias mais amplas e densas geradas nas doze entrevistas realizadas.

    Segundo Strauss; Corbin (1998), a categoria central o cimento condutor que coloca e

    mantm adequadamente juntos todos os componentes da teoria, ou seja, a categoria central

    torna explcita a experincia vivenciada pelos enfermeiros na construo do modelo

    conceitual. Para Jorge (1997), a categoria central surge no processo de anlise, no qual se

    delineia a centralidade da categorizao, o principal tema em torno do qual giram todas as

    categorias.

    Quando essa etapa do trabalho foi atingida, buscamos inter-relacionar os

    fenmenos com as categorias representativas que traduzissem concretamente a

    sensibilidade terica para compreender o significado da experincia dos enfermeiros como

    um todo e, a partir da, desenvolver um modelo terico representativo dessa experincia. O

    fenmeno foi examinado na perspectiva do paradigma de anlise de Strauss; Corbin

    (1998), como uma forma para agrupar as categorias e facilitar a anlise dos dados. Para

    tanto, buscamos entender quais eram as condies causais em que se desenvolvia o

    fenmeno, o contexto e as estratgias que estavam sendo conduzidas, bem como as

    conseqncias que determinavam a ocorrncia. Todo esse processo ser desenvolvido nos

    captulos seguintes.

  • 114

  • 115

    7.1 Relatando a experincia vivenciada pelos enfermeiros

    Neste captulo, sero apresentados os resultados obtidos atravs das entrevistas

    realizadas com os enfermeiros, cujas reflexes tornaram-se possveis aps a aplicao

    metodolgica da grounded theory: recortes de unidades de anlise, identificao de

    cdigos, agrupamentos e categorizaes, at alcanar como resultado analtico a categoria

    central. A relao entre as categorias permitiu o estabelecimento da integrao e

    compreenso do fenmeno, tarefa que foi facilitada com a utilizao do modelo de

    paradigma de Strauss; Corbin (1998).

    A trajetria percorrida nessa etapa da investigao teve incio com a apresentao

    dos fenmenos em separado, que foram interpretados luz do interacionismo simblico.

    Procedemos, em seguida, integrao dos fenmenos gerando a categoria central, que

    permitiu a compreenso da experincia dos enfermeiros em relao teoria e prtica de

    enfermagem para o desenvolvimento de sistema de informao, representado atravs de

    um modelo terico fundamentado nos dados para cada fenmeno identificado.

    importante destacar que os dados analisados foram extrados das entrevistas e

    das observaes realizadas durante a nossa permanncia na clnica. As anlises desses

    dados possibilitaram realizar vrios agrupamentos os quais resultaram em dois fenmenos

    que renem diversas categorias e subcategorias. Esses fenmenos oferecem links que

    permitem a compreenso da transformao do conhecimento tcito em explcito na prtica

    de trabalho do enfermeiro, a fim de minimizar a lacuna entre teoria e prtica em

    enfermagem e desenvolver sistemas de informao.

    Portanto, a apresentao dos resultados deste estudo ser feita de modo a permitir

    uma compreenso das experincias dos enfermeiros, a partir da identificao de dois

    fenmenos, que receberam as seguintes denominaes: Tentando articular os modelos

    tericos com a prtica de enfermagem para desenvolver sistemas de informao; Vendo a

    lacuna entre teoria e prtica no sistema de informao em enfermagem.

    Cada fenmeno, com suas respectivas categorias e subcategorias, ser apresentado

    e interpretado em separado. Para um melhor entendimento, os fenmenos sero

    apresentados em negrito. Tambm cada etapa do modelo de paradigmas de Strauss e

    Corbin ser apresentada em negrito e as categorias destas em itlico, sendo a palavra

  • 116

    iniciada com letra maiscula. Os textos que representam as unidades de anlise ou recortes

    sero apresentados com letras minsculas.

    7.1.1 Fenmeno 1

    O Fenmeno 1 mostra a situao da prtica do enfermeiro assistencial na tentativa

    de desenvolver cuidados de enfermagem respaldados numa base terico-cientfica,

    retratada pelo modelo terico aqui denominado processo de enfermagem ou sistematizao

    da assistncia. At agora, os enfermeiros no tm um vocabulrio padronizado, nem

    taxonomia e sistema de classificao que possam servir de referncia para aplicar na

    prtica e desenvolver sistemas de informao que representem os elementos da sua prtica

    em todas as diferentes situaes vivenciadas por eles. De qualquer forma, percebemos um

    grande interesse e motivao, entre os enfermeiros, para estudar os esquemas de

    classificao em enfermagem e tentar articul-los com a prtica, a fim de desenvolverem

    padres de qualidade que maximizem os benefcios da capacidade humana e tecnolgica.

    Os enfermeiros da Clnica Mdica do HULW/UFPB ainda no dispem de um

    adequado sistema de classificao da prtica de enfermagem, apesar de que existem

    esforos no sentido de articular o conhecimento terico (explcito) da enfermagem e us-lo

    na organizao do conhecimento informal (tcito) para desenvolver sistemas de

    informao em enfermagem. A transformao do conhecimento resultante da interao

    entre o conhecimento tcito e o explcito importante por muitas razes, dentre as quais se

    destacam:

    % melhoria na comunicao entre os enfermeiros e outros profissionais, em

    virtude do entendimento da linguagem e do significado comum;

    % eliminao das ambigidades das descries dos cuidados de enfermagem

    para avaliao, aprimoramento da qualidade e gesto de apoio deciso;

    % gerao de novos conhecimentos em enfermagem, atravs da pesquisa;

    % educao e treinamento do pessoal de enfermagem;

    Tentando articular os modelos tericos com a prtica de

    enfermagem para desenvolver sistemas de informao

  • 117

    % desenvolvimento de sistemas de informao para documentao em

    enfermagem (DELANEY; MEHMERT; PROPHET, 1992; CLARK;

    LANG, 1992).

    Vale ressaltar que a articulao dos modelos tericos com o conhecimento tcito

    em enfermagem um esforo desenvolvido pelos enfermeiros para traduzir o que eles

    pensam e descrevem sobre seus pacientes nos diferentes formulrios, a fim de estabelecer

    uma terminologia comum, aceitvel e apropriada para construir sistemas de informao.

    Dessa forma, o sistema de informao poder conter informaes explcitas e tcitas, sendo

    que a informao tcita permeia a prtica clnica. Uma pequena parte pode ser representada

    pela informao explcita, embora se reconhea que nem toda informao tcita ou

    explcita esteja adequada para a automao.

    A. Destacando as condies causais

    As categorias "Procurando adequar os modelos formais com a prtica de

    enfermagem" e "Buscando utilizar os diagnsticos de enfermagem da NANDA() mostram

    as causas que desencadeiam o fenmeno em estudo. So consideradas causais porque os

    enfermeiros esto envolvidos no processo de sistematizao da assistncia de enfermagem

    em que, efetivamente, estudam os modelos tericos fundamentados nos sistemas de

    classificao e nos diagnsticos de enfermagem da NANDA. Com isso, no s apiam as

    fases do processo de enfermagem (histrico, diagnstico, interveno, implementao e

    avaliao), como tambm contribuem para o registro computadorizado em enfermagem.

    Assim, h uma louvvel tentativa dos enfermeiros em estabelecer as bases de um

    modelo de sistematizao (diagnstico, resultados e intervenes) com a prtica de

    enfermagem. Utilizam, para isso, os diagnsticos de enfermagem, apesar das limitaes e

    dificuldades encontradas, por causa da qualidade do trabalho existente na unidade de

    Clnica Mdica do HULW, conforme os relatos descritos pelos enfermeiros.

    A1 - Procurando adequar os modelos tericos com a prtica de

    enfermagem

    () NANDA North American Nursing Diagnosis Association (Associao Norte-Americana de Diagnsticos de Enfermagem)

  • 118

    Essa categoria aparece como um dos fatores que despertam a compreenso da

    relao teoria e prtica em enfermagem, por envolver um extenso volume de informaes

    clnicas e um conhecimento altamente especializado para implementar e avaliar os

    processos e resultados, a fim de que o enfermeiro tome decises clnicas e administrativas

    com mais eficincia. Nesse sentido, para desempenhar efetivamente seu papel, o

    enfermeiro procura adaptar os modelos tericos apoiados pelo ambiente da prtica clnica.

    Com isso, chega ao entendimento do seu papel na construo do conhecimento e do tipo de

    apoio que essa ligao entre o conhecimento explcito e tcito trar para o trabalho da

    enfermagem. Nessa categoria, foram encontradas quatro interaes combinadas atravs de

    subcategorias, conforme ilustra o Quadro 2:

    Cdigos Subcategorias

    A1.1 Associando os modelos tericos da enfermagem com a realidade da prtica.

    A1.2 Tentando aplicar aquilo que aprendeu.

    A1.3 Reconhecendo a importncia das teorias em enfermagem.

    A1.4 Tentando conciliar a teoria com a prtica de enfermagem.

    Quadro 2: Procurando adequar os modelos tericos com a prtica de enfermagem

    A1.1 Associando os modelos tericos com a realidade da prtica de

    enfermagem

    Nesse contexto, os enfermeiros procuram encontrar conexes entre o modelo

    terico e as atividades assistenciais de enfermagem (histria clnica do paciente,

    diagnstico, intervenes e resultados). o que se observa nos seguintes depoimentos:

    [...] o enfermeiro soma conhecimentos da sua prtica e aquilo continua sempre

    dando mais substncia, mais concretude ao seu trabalho junto ao paciente.

    [...] estamos tentando fazer a ligao com os modelos tericos que so os

    diagnsticos e suas intervenes.

    [...] o modelo que ns estamos usando parte de nossa realidade da Clnica

    Mdica.

    Apesar dessa iniciativa, ainda se percebe a existncia de uma diferena entre o

    conhecimento terico ou explcito da enfermagem que os enfermeiros, com boa vontade,

  • 119

    tentam somar com o conhecimento tcito e informal da sua realidade prtica. Sabe-se que

    as duas categorias de conhecimento so complementares e importantes na construo de

    sistemas de informao. Todavia, algumas barreiras operacionais precisam ser superadas.

    A1.2 Tentando aplicar aquilo que aprendeu

    Essa subcategoria representa o esforo dos enfermeiros em tentarem aplicar os

    conhecimentos adquiridos formalmente na prtica clnica. Vale ressaltar que esses

    profissionais participam semanalmente de atividades educativas, com o objetivo de revisar,

    aprofundar e adquirir novos conhecimentos, a fim de desenvolverem o processo de

    sistematizao, a partir do modelo formal, para serem aplicados na prtica. importante

    esclarecer que o contedo terico surge da necessidade observada na prtica assistencial,

    ou seja, o conhecimento formal a partir do informal. A criao do conhecimento pode ser

    alcanada convertendo-se o conhecimento tcito em conhecimento explcito

    (MEERABEAU, 1992; NONAKA; TAKEUCHI, 1997). A esse respeito, os enfermeiros

    enfatizam:

    [...] a gente precisa ter conhecimento para aplicar na prtica.

    [...] quando eu vi os diagnsticos, estava muito no comeo e agora j vi que tem

    classificaes novas, mas com certeza, com estudo, a gente vai conseguir aplicar.

    [...] a gente procura fazer o mximo para chegar l. Infelizmente, devido a

    muitos processos e tambm at, como eu j disse, s vezes o fator tempo no tem

    condio de a gente avanar. Mas a gente procura fazer, pelo menos na prtica, o

    certo.

    A educao permanente e um programa de treinamento em servio so

    instrumentos que fornecem a motivao necessria para os enfermeiros empreenderem

    esforos no sentido de desempenharem o processo de enfermagem voltado para as

    necessidades do cuidado do paciente.

    A1.3 Reconhecendo a importncia das teorias em enfermagem

    Os enfermeiros consideram que as teorias so importantes para a construo do

    conhecimento em enfermagem. Indubitavelmente, a teoria em enfermagem est

    fundamentada no modelo biomdico e na psicossociologia. A conceituao da enfermagem

  • 120

    como uma prtica, uma cincia e uma arte pode ser vista atravs de estudos

    epistemolgicos e filosficos. Como se sabe, a maioria dos modelos tericos existentes na

    enfermagem brasileira de origem norte-americana. Por essa razo, os enfermeiros da

    Clnica Mdica do HULW procuram meios para adequao sua prtica assistencial,

    embora ainda de forma incipiente, conforme esclarecem:

    [...] a teoria muito importante na prtica de enfermagem.

    [...] reconhecendo a importncia da teoria que temos que ter, porque voc no vai

    prestar assistncia a um paciente se voc no tem noo nenhuma do que seja

    aquilo que ele esteja portando.

    [...] voc tem que ter o embasamento, voc tem que ter a fundamentao terica.

    [...] a teoria a parte de definio de princpios de uma cincia.

    [...] a teoria seria a educao da prtica.

    inquestionvel a validade dos modelos tericos que buscam fundamentar a

    prtica de enfermagem e trabalhar no sentido de acrescentar algo novo a essa prtica, mas

    com respaldo terico. Porm, os enfermeiros tm conscincia das limitaes desse

    conhecimento acadmico, como se observa nos seguintes relatos:

    [...] a gente tem um pessoal de enfermagem mais antigo que no est muito

    acostumado com esses modelos. Esto um pouco defasados de teoria.

    [...] o enfermeiro precisa ter tempo para avaliar de forma sistematizada o que

    produzido na teoria.

    Podemos afirmar que as dificuldades atribudas pelos enfermeiros podem estar

    relacionadas aos seguintes fatores:

    ! deficincia na formao acadmica dos enfermeiros;

    ! inexistncia de programas formais de educao permanente que explorem

    contedos tericos dos modelos conceituais e filosficos em enfermagem;

    ! pouca divulgao das teorias no meio acadmico e assistencial;

    ! incongruncia entre o paradigma funcionalista da prtica de enfermagem

    hospitalar e o paradigma humanista das teorias de enfermagem.

  • 121

    A1.4 Tentando conciliar a teoria com a prtica de enfermagem

    Nesse contexto, enfatizamos a necessidade sentida pelos enfermeiros, com o

    propsito de viabilizarem a aplicao de teorias de enfermagem na prtica. Para tanto,

    preciso que haja um esforo conjunto entre enfermeiros assistenciais e docentes do

    Departamento de Enfermagem, para a construo de um corpo de conhecimento ligando a

    teoria com a prtica e a prtica com a teoria, como medidas inseparveis. Colhemos, nesse

    sentido, os seguintes relatos:

    [...] as teorias de enfermagem so vrias. A gente sempre est lendo e se

    inteirando, procurando adaptar e o que a gente pode fazer melhor para o

    paciente.

    [...] eu acho que d para conciliar teoria e prtica.

    [...] na verdade a prtica no caminha sem a teoria.

    [...] a gente est vendo os professores, nessa inter-relao, tentando passar para

    os enfermeiros os conhecimentos para a gente introduzir na prtica.

    [...] h essa importncia muito grande de voc ter a teoria e a prtica caminhando

    juntas. Isso fundamental.

    [...] a teoria no pode estar desvinculada de uma prtica.

    Cabe lembrar que, se a teoria tem por objetivo dar consistncia ao conhecimento

    tcito, descrevendo e explicando um fenmeno da prtica, a sua aplicabilidade deve ser

    trabalhada pelos enfermeiros para gerar novas teorias, aprimor-las, question-las ou at

    mesmo contest-las.

    A2 - Buscando utilizar os diagnsticos de enfermagem

    Ao tentarem articular os modelos tericos com a prtica de enfermagem, os

    enfermeiros tambm esto fazendo uso dos diagnsticos de enfermagem, na tentativa de

    utiliz-los na prtica. Portanto, a categoria "Buscando utilizar os diagnsticos de

  • 122

    enfermagem" uma seqncia da categoria "Procurando adequar os modelos tericos com

    a prtica de enfermagem" e com ela, evidentemente, apresenta relaes. Este outro fator

    provocante de causa do Fenmeno 1. Nessa categoria, foram encontradas quatro interaes

    combinadas, atravs de subcategorias, conforme ilustra o quadro abaixo:

    Cdigos Subcategorias

    A2.1 Tendo dificuldades com os diagnsticos de enfermagem na prtica.

    A2.2 Tentando usar alguns diagnsticos de enfermagem.

    A2.3 Vendo os diagnsticos de enfermagem como um assunto novo.

    A2.4 No aplicando na prtica os diagnsticos de enfermagem.

    Quadro 3: Buscando utilizar os diagnsticos de enfermagem

    A2.1 Tendo dificuldades com os diagnsticos de enfermagem na

    prtica

    O esquema de classificao de diagnsticos de enfermagem carrega em si um

    complexo conhecimento do trabalho e da funo da enfermagem nos cuidados de sade.

    Embora os diagnsticos tenham sido enfatizados como instrumento para melhorar o

    conhecimento e a prtica de enfermagem, possvel verificar que se trata de um

    conhecimento acadmico (enfoque rgido) para incorporar a realidade clnica dos

    enfermeiros. Isso se torna evidente observando-se os relatos dos enfermeiros, onde

    apontam dificuldades em dominar e aplicar os diagnsticos:

    [...] a gente sente dificuldades com os diagnsticos. Voc se depara com eles e

    pergunta: como vou fazer?

    [...] o que confunde mesmo que um paciente tem vrios diagnsticos. Quando a

    gente pega um diagnstico, pensando que est dentro daquele contexto,

    imediatamente, vem outro.

    [...] para a gente ainda est sendo um pouco difcil implementar os diagnsticos

    de enfermagem.

    [...] para as minhas colegas daqui no to fcil os diagnsticos, porque elas so

    mais antigas do que eu e algumas sentem muitas dificuldades.

  • 123

    [...] eu acho que a teoria sobre os diagnsticos, a gente no consegue aplicar hoje

    na prtica totalmente, porque o prprio trabalho em si dificulta.

    [...] a gente est comeando, caminhando devagarzinho, at poder introduzir o

    sistema de diagnstico, para poder fazer o processo de enfermagem como tal e j

    pensar em colocar esses dados no computador.

    Inegavelmente, os diagnsticos de enfermagem representam um avano para a

    enfermagem mundial. Todavia, os nossos enfermeiros ainda enfrentam dificuldades quanto

    sua utilizao e praticidade que podem ser enfocadas sob diversas perspectivas:

    & os enfermeiros tiveram pouco conhecimento sobre diagnsticos de

    enfermagem durante a formao acadmica;

    & a complexidade do conhecimento e o nmero crescente de diagnsticos de

    enfermagem que surgem a cada verso publicada pela NANDA;

    & a base de dados que compe os diagnsticos de enfermagem importada

    dos Estados Unidos, carecendo de uma traduo para o portugus que se

    adapte nossa realidade;

    & as contingncias ambientais do trabalho da enfermagem representam um

    importante fator que dificulta a utilizao dos diagnsticos;

    & a falta de um registro eletrnico dos dados do paciente para compor um

    sistema de informao computadorizado em enfermagem.

    A2.2 Tentando usar alguns diagnsticos de enfermagem

    Durante a nossa permanncia na unidade de Clnica Mdica, pudemos observar

    que havia alguns enfermeiros que enfrentavam as barreiras operacionais e tentavam usar na

    prtica os diagnsticos de enfermagem para alguns pacientes. Esse esforo era

    recompensado, principalmente, quando os estudantes de graduao buscavam aprender na

    prtica a sistematizao do cuidado de enfermagem: diagnstico, interveno e resultados.

    Vale ressaltar que pouqussimos enfermeiros utilizavam os diagnsticos no plano de

    cuidados de enfermagem, em virtude das razes anteriormente apontadas. Seus

    depoimentos comprovam isso:

    [...] para que usar as teorias, usar a NANDA, se a gente no tem os diagnsticos

    de enfermagem para fechar e fazer a sua implementao?

  • 124

    [...] s vezes alguns diagnsticos a gente faz. Alguns. Todos os diagnsticos no.

    [...] os enfermeiros do ensino, unidos a alguns enfermeiros assistenciais, esto

    trabalhando, por exemplo, num sistema de classificao.

    A falta de estabilidade advinda da utilizao dos diagnsticos de enfermagem

    torna-se um problema para o servio por no ser capaz de responder aos anseios dos

    estudantes de enfermagem que procuram desenvolver na prtica aquilo que aprenderam na

    teoria.

    A2.3 Vendo os diagnsticos de enfermagem como um assunto novo

    A principal razo para o pouco conhecimento e domnio na utilizao dos

    diagnsticos de enfermagem na prtica a alegao de que se trata de um assunto novo

    para a nossa realidade. De fato, o diagnstico de enfermagem surgiu na dcada de 1970,

    com a criao da NANDA. A partir da, vrias discusses e trabalhos de pesquisa se

    encarregaram da sua divulgao e validao nos diversos servios de enfermagem nos

    Estados Unidos, na Amrica Latina e na Comunidade Europia. Em seus depoimentos, os

    enfermeiros apontam essa lacuna:

    [...] na prtica, o diagnstico um assunto novo, porque quem terminou o curso

    h cerca de 10 a 15 anos, quando fazia a graduao em enfermagem, no teve a

    oportunidade de estudar como se est explorando hoje.

    [...] ns adquirimos o conhecimento sobre os diagnsticos, quando j estvamos

    exercendo a profisso, como enfermeiras. Na formao no tivemos esse

    conhecimento.

    [...] ns estamos estudando para comear a fazer o diagnstico de enfermagem,

    porque no uma coisa fcil.

    H uma imensa necessidade de que os diagnsticos de enfermagem sejam

    institucionalizados na prtica de enfermagem. Com isso, eles podero oferecer valiosas

    informaes sobre o processo de cuidado do paciente e o desenvolvimento de sistemas de

    informao em enfermagem.

    A2.4 No aplicando na prtica os diagnsticos de enfermagem

  • 125

    Finalmente, podemos perceber que, na realidade do HULW, os enfermeiros no

    aplicam os diagnsticos de enfermagem no seu dia-a-dia clnico. Na verdade, o que existe

    o desejo de conhecer e aprender a operacionaliz-lo no processo de enfermagem. Apenas

    alguns enfermeiros fazem uso dos diagnsticos, mas no de forma sistematizada e com

    pouqussimos pacientes. o que expressam em seus relatos:

    [...] os diagnsticos de enfermagem a gente no aplica, mas eu acho que no

    tinha muita condio de aplicar por causa do tempo.

    [...] o sistema de classificao, os diagnsticos de enfermagem, a gente no est

    bem integrado com esse sistema, devido ao tempo.

    [...] eu nunca trabalhei com os diagnsticos de enfermagem.

    [...] a gente no est com os diagnsticos de enfermagem da NANDA

    completamente traduzidos para o portugus, a fim de que possamos ter um

    acesso direto.

    Portanto, no nos surpreendeu o relato dos enfermeiros em no aplicarem os

    diagnsticos de enfermagem na prtica clnica. Isso ocorre por conta da complexidade do

    trabalho e da diversidade de papis assumidos com tarefas associadas ao processamento de

    informaes, aplicao de conhecimentos na prtica clnica e conhecimentos tcitos

    adquiridos no dia-a-dia do seu desempenho. Essas informaes fornecem valiosos insights

    que apiam o conhecimento do trabalho da enfermagem, embora no sejam capturadas

    para desenvolver sistemas de informao.

    B. Destacando o contexto

    A categoria relacionada ao contexto do Fenmeno 1 : "Vendo a sistematizao

    como um caminho para desenvolver sistemas de informao em enfermagem". Essa

    categoria explica o fato de os enfermeiros quererem aplicar os modelos tericos na prtica

    de enfermagem, a partir de uma metodologia de trabalho que sistematize suas aes e

    organize o trabalho, de forma que produzam resultados e possam ser mensurados. Os

    enfermeiros vem a sistematizao dos cuidados de enfermagem como uma forma de

    aprofundar os conhecimentos, tanto formais quanto informais, e melhorar a qualidade da

    assistncia e do registro das informaes de enfermagem, conforme se pode constatar nos

    relatos a seguir:

  • 126

    [...] eu acho a sistematizao um bom caminho para registrar a minha prtica,

    porque bom a gente estar sempre renovando.

    [...] a gente no tem tempo de estar sentado e estar revisando. E essa prtica de

    sistematizao vai nos alertando, nos orientando mais.

    [...] eu acho que a sistematizao, eu acho no, creio, comprova-se que tudo que

    organizado facilita a vida de todo mundo, sobretudo a do paciente, que o

    objeto de nosso trabalho.

    [...] a sistematizao, no somente eu, mas acredito que muitos profissionais de

    enfermagem vem como um caminho, uma forma para registro da prtica de

    enfermagem.

    [...] o trabalho de sistematizao, eu vejo como um caminho para o registro da

    prtica, que uma das coisas que falta na enfermagem.

    [...] a cada dia eu s consigo confirmar que a sistematizao nossa sada para

    fazer uma assistncia de boa qualidade. A gente no pode abrir mo disso.

    [...] eu creio que a sistematizao um bom caminho sim. Se for encarada

    realmente com responsabilidade, consegue sim. Se for encarada, se for

    supervisionada.

    A adoo do processo de sistematizao favorece a autonomia do enfermeiro e

    proporciona segurana na prtica clnica, assim como no desempenho de seu papel de

    trabalhar em equipe: o coleguismo, a parceria, a cooperao. No h como negar que esse

    contexto complementa o entendimento do Fenmeno 1, com cinco interaes, conforme

    mostra o quadro abaixo:

    Cdigos Subcategorias

    B1.1 Tentando trabalhar a sistematizao.

    B1.2 Vendo os elementos da prtica de enfermagem na sistematizao da assistncia.

    B1.3 Reconhecendo a importncia da sistematizao.

    B1.4 Sentindo dificuldades em relao sistematizao.

    B1.5 Sentindo necessidade de participao na sistematizao.

    Quadro 4: Vendo a sistematizao como um caminho para desenvolver sistemas de informao em enfermagem

  • 127

    B1.1 Tentando trabalhar a sistematizao

    Os enfermeiros da Clnica Mdica vinham, ao longo dos anos, desenvolvendo

    uma prtica baseada em normas e rotinas repetidas e com pouca reflexo sobre a sua

    atuao. Todavia, esse modelo mecanicista que no leva em conta o cientificismo da

    profisso passou a ser questionado por alguns enfermeiros que buscaram uma estratgia

    para minimizar esse problema.

    A soluo encontrada foi a utilizao de um mtodo de trabalho que favorea a

    individualidade e continuidade da assistncia, bem como o estudo de contedos que

    reforcem os conhecimentos tcitos e explcitos. Ento, optou-se por trabalhar a

    sistematizao dos cuidados de enfermagem na busca de construir um corpo de

    conhecimento prprio, fundamentado teoricamente, e que pudesse melhorar a assistncia

    de enfermagem. A esse respeito, colhemos os seguintes depoimentos:

    [...] a gente vem fazendo coisas em nvel de sistematizao e tentando melhorar a

    assistncia de enfermagem.

    [...] ns j estudvamos a implementao das etapas que a gente podia da

    sistematizao dentro da clnica, como uma necessidade de resposta para ns

    mesmos.

    [...] a sistematizao aqui no hospital j tem certo tempo que a gente est

    implementando e acrescentando melhorias.

    [...] a gente j comeou a trabalhar a sistematizao com a prescrio de

    enfermagem, levantamento de dados no histrico e evoluo diria do paciente

    feito pelo enfermeiro, que de qualidade mais estruturada.

    [...] a sistematizao uma assistncia de enfermagem planejada e registrada,

    individualizada, de acordo com as necessidades do cliente, baseada nos

    princpios cientficos que so os modelos das teorias.

    [...] a gente tem tudo de forma organizada, tudo baseado na realidade que ele est

    apresentando, porque cada indivduo um indivduo. A assistncia vai ser

    individualizada e global, dentro de um processo de necessidade deles.

    [...] a partir do momento em que voc introduz na sistematizao o plano de

    assistncia, voc v as aes sendo implementadas e as respostas que o paciente

  • 128

    apresenta. Voc vai poder avaliar a assistncia, ao nvel de qualidade, a eficcia

    dessa assistncia.

    Podemos afirmar que a sistematizao um mtodo que tem auxiliado a mudana

    da prtica de enfermagem na Clnica Mdica do Hospital Universitrio. Nessa perspectiva,

    os enfermeiros vm buscando superar as limitaes do ambiente organizacional,

    procurando alcanar os objetivos da assistncia de enfermagem com qualidade.

    B1.2 Vendo os elementos da prtica de enfermagem na sistematizao

    da assistncia

    Os enfermeiros tentaram elaborar um documento que possibilitasse colher uma

    grande quantidade de dados do paciente. Entretanto, depararam-se freqentemente com

    registros fragmentados, desestruturados e descoordenados. Buscando tornar a prtica de

    enfermagem mais visvel no processo de sistematizao, os enfermeiros desenvolveram

    estudos que os conduziram construo de um roteiro sistematizado de dados do paciente

    contemplando as necessidades potenciais de cuidados de enfermagem. Os elementos da

    prtica de enfermagem que constituem o conjunto de dados necessrios para o processo de

    sistematizao dos cuidados de enfermagem utilizado pelos enfermeiros da Clnica Mdica

    so os seguintes:

    ' identificao;

    ' motivo da internao/queixa principal;

    ' exame fsico e outras informaes;

    ' necessidades/autocuidado;

    ' fatores de risco;

    ' impresses do enfermeiro.

    importante tambm destacar que esses elementos foram extrados no apenas

    dos modelos tericos (conhecimento explcito), mas tambm da experincia vivenciada na

    prtica (conhecimento tcito). A conjuno desses conhecimentos resultou num documento

    que tem facilitado o trabalho da enfermagem, conforme depoimentos dos enfermeiros:

    [...] os elementos da prtica, eu vejo como dentro da sistematizao, mas nos

    modelos formais, eu no vejo.

  • 129

    [...] essa proposta de sistematizao, onde a gente tem uma avaliao do doente,

    onde rene uma histria clnica, diagnsticos de enfermagem, em qualquer das

    classificaes.

    [...] a questo dos modelos tericos, na sistematizao, tem em parte.

    [...] eu acredito que seja vivel, o pequeno espao, o pouco que a gente tem

    aplicado na sistematizao. Isso, mais explicitamente, em relao aos

    diagnsticos e s intervenes.

    Para os enfermeiros da Clnica Mdica do HULW, os elementos do histrico que

    compem o processo de sistematizao tm auxiliado na validao da teoria na prtica e

    vice-versa.

    B1.3 Reconhecendo a importncia da sistematizao

    Inquestionavelmente, a sistematizao da assistncia de enfermagem representa

    um avano para a prtica clnica desenvolvida pelos enfermeiros do HULW que visa

    qualidade da assistncia a ser prestada. Esse reconhecimento dos enfermeiros sobre a

    importncia da sistematizao na enfermagem do HULW fundamental para que esses

    profissionais sejam valorizados pela organizao formal e informal, assegurando a

    continuidade do modelo assistencial. Os relatos abaixo expressam essa preocupao:

    [...] a sistematizao importante porque voc vai resgatar tudo isso que voc

    expressa verbalmente.

    [...] eu acho que qualquer experincia em nvel de sistematizar a informao hoje

    vlida no HULW.

    [...] a assistncia meio rude de um modo geral, mas a sistematizao lapida,

    ela vai conduzir a um sistema organizado.

    [...] a sistematizao vai melhorar o registro de nossa prtica.

    [...] a sistematizao importante para registrar a prtica, mas o tempo e a

    quantidade de paciente que ns ficamos fazem com que a gente no tenha.

    ...(faz uma pausa para pensar) vamos dizer... um bom andamento na

    sistematizao.

  • 130

    O reconhecimento da importncia da sistematizao por parte dos enfermeiros

    essencial para fundamentar a assistncia de enfermagem na recuperao, manuteno e

    promoo da sade do paciente, assim como para possibilitar o desenvolvimento de um

    registro de enfermagem mais confivel dentro de um sistema de informao

    computadorizado.

    B1.4 Sentindo dificuldades em relao sistematizao

    Apesar de enfatizarem a importncia da sistematizao no processo de trabalho da

    enfermagem, os enfermeiros enfrentam inmeras dificuldades, em virtude de fatores

    contingenciais (qualidade do trabalho no ambiente organizacional) e operacionais (falta de

    padronizao nos procedimentos de enfermagem). Alm disso, a falta de familiaridade e o

    pouco conhecimento de alguns enfermeiros com a metodologia do trabalho trazem

    dificuldades no desempenho do processo de sistematizao da assistncia. Nesse sentido,

    os enfermeiros apresentaram os seguintes depoimentos:

    [...] para as minhas colegas daqui no to fcil, porque elas so mais antigas do

    que eu e algumas sentem muitas dificuldades.

    [...] como voc tem trs enfermeiros de planto, dois ficam pela manh e um fica

    o dia todo. Ento fica difcil voc conseguir organizar, voc conseguir realizar

    essa sistematizao.

    [...] a gente encontra dificuldades. Imagine realmente implantar ou utilizar o que

    tem proposto de sistematizao!

    [...] eu acho que a sistematizao tem que ser uma coisa mais ao nvel de rodzio.

    Vamos fazer um rodzio. Hoje a gente fica nisso, amanh voc fica naquilo, voc

    fica na burocracia; amanh voc assiste, depois de amanh voc supervisiona.

    A educao permanente e um programa contnuo de treinamento em servio so

    estratgias que poderiam ser implantadas pela administrao do HULW, em parceria com

    os Departamentos de Enfermagem da UFPB. Com isso, haveria maior motivao para o

    pessoal de enfermagem responder s vrias questes relacionadas sistematizao,

    desempenho e avaliao no registro de dados que necessitam modificaes ou mesmo

    cancelamento.

  • 131

    B1.5 Sentindo necessidade de participao na sistematizao

    No h dvida de que o sucesso da sistematizao est centrado na participao

    de todos os componentes da equipe de enfermagem. No depende apenas dos enfermeiros,

    mas tambm dos auxiliares e tcnicos de enfermagem, que so presena constante no

    processo de cuidar do paciente. Contudo, no tem sido parte integrante do processo formal

    de informaes do paciente. A sistematizao como estratgia norteadora para organizar a

    prtica do trabalho da enfermagem no pode deixar de envolver o pessoal de nvel mdio

    da enfermagem na construo do conhecimento formal e informal, para tornar visvel o

    trabalho invisvel desses profissionais. Os enfermeiros da Clnica Mdica esto percebendo

    isso, conforme expressam em seus relatos:

    [...] o ideal seria que todos os enfermeiros participassem da sistematizao, at

    os auxiliares de enfermagem tambm. Devia ter um treinamento tanto para

    enfermeiros como para os auxiliares de enfermagem para no ficar s no papel.

    [...] eu vejo a sistematizao da assistncia de enfermagem como uma

    possibilidade, a partir do momento em que as pessoas tomam a deciso de

    investir esforos nisso.

    [...] eu acho que a sistematizao tem que ser um processo. No s enfermeiro

    est inserido, tem que ser o grupo de trabalho, a equipe como todo.

    [...] os auxiliares de enfermagem devem fazer a sistematizao, tm que ter

    conhecimento, porque eles vo fazer parte tambm da realizao do plano de

    assistncia, as atividades, as atribuies inerentes a eles.

    [...] no h o envolvimento de todos com o processo de sistematizao. Apenas

    os enfermeiros e bem poucos participam.

    O modelo participativo no desenvolvimento da sistematizao exige, como

    requisito central, o envolvimento de todos os componentes da equipe de enfermagem. Por

    outro lado, enfatiza a oportunidade de construrem o conhecimento cooperativo que venha

    influenciar na qualidade da prtica clnica e fortalecer o relacionamento social e a interao

    em grupo.

  • 132

    C. Desenvolvendo estratgias de ao

    A viso dos enfermeiros frente sua experincia vivenciada na prtica, como foi

    demonstrado, est voltada para a sistematizao da assistncia de enfermagem como um

    caminho para a construo de um conhecimento integrado (explcito/tcito). Diante da

    possibilidade de se desenvolver um sistema de informao que revele o que a enfermagem

    produz no dia-a-dia, essa percepo provocou as seguintes estratgias de ao: Procurando

    elementos da prtica de enfermagem para compor um sistema de informao; Avaliando

    as vantagens que o sistema de informao traz para a enfermagem.

    Acreditamos que a procura de elementos da prtica de enfermagem venha resgatar

    o conhecimento tcito inerente prtica clnica do enfermeiro utilizada na sistematizao.

    Alm disso, a aplicao de modelos tericos pode ser estrategicamente desenhada de forma

    adequada para automao. Nesse aspecto, vale ressaltar que os modelos tericos que no

    encontram feedback na prtica de enfermagem, geralmente, esto fadados ao esquecimento

    e ao abandono.

    Da acreditar-se que os elementos da prtica de enfermagem existentes na

    sistematizao sejam fundamentais para desenvolver sistema de informao em

    enfermagem. Essa estratgia de ao composta pela interao das seguintes

    subcategorias, conforme ilustra o quadro 5:

    Cdigos Subcategorias

    C1.1 Tornando visvel a prtica de enfermagem.

    C1.2 Propondo elementos ao sistema de informao em enfermagem.

    Quadro 5: Procurando elementos da prtica de enfermagem para compor um sistema de informao

    C1.1 Tornando visvel a prtica de enfermagem

    A maior preocupao entre os enfermeiros, e que tem gerado descontentamento na

    enfermagem, o fato de que eles trabalham muito, so sobrecarregados de atribuies,

    produzem bastante em funo do paciente e da organizao. Entretanto, o que fazem na

    prtica no visvel para efeito de mensurao da produo e avaliao da relao custo-

    benefcio em enfermagem.

  • 133

    Essa situao tem causado constrangimento, sobretudo, nos enfermeiros, porque

    eles gastam boa parte do seu tempo em tarefas relacionadas ao relato dos cuidados

    prestados ao paciente, atravs da sistematizao da assistncia. No entanto, h uma

    deficincia significativa na qualidade e quantidade de registros das atividades

    desenvolvidas na documentao clnica. Dessa forma, poucos dados capturados na

    sistematizao so processados significativamente, ou seja, se tornam visveis. Tais fatos

    so externados pelos enfermeiros da seguinte forma:

    [...] o sistema de informao torna visvel aquilo que o enfermeiro faz.

    [...] para tornar mais visvel a nossa prtica e facilitar o registro num sistema de

    informao, teria que ser um trabalho que voc comeasse desde o auxiliar de

    enfermagem, uma coisa de baixo para cima.

    [...] para tornar a prtica de enfermagem visvel, era preciso que tudo fosse

    quantificvel, porque no temos nada quantificvel. A gente no diz o quanto a

    gente vale, a gente devia dizer o quanto a gente vale, se a gente documentasse

    tudo isso que a gente faz.

    Sem dvida, o sistema de informao computadorizado capaz de tornar visvel o

    que a enfermagem faz e produz. O servio de enfermagem envolve um grande volume de

    dados e nveis de detalhes, acomodando uma variedade de informaes capturadas da

    prtica clnica e que podem apoiar o trabalho da enfermagem.

    C1.2 Propondo elementos ao sistema de informao em enfermagem

    Essa categoria uma conseqncia da necessidade de tornar visvel a prtica de

    enfermagem. Para tanto, os enfermeiros da Clnica Mdica do HULW propuseram alguns

    elementos ou dados mnimos de enfermagem que podem ser adequados ao sistema de

    informao. De acordo com Saba; McCormick (1996), os dados de enfermagem so itens

    codificados necessrios para o desenvolvimento de sistema de informao

    computadorizado. Os dados de enfermagem, uma vez processados, geram informaes em

    enfermagem que, ao serem analisadas, interpretadas e agregadas, produzem o

    conhecimento em enfermagem.

    Nos ltimos anos, o grande foco de interesse na profisso tem buscado determinar

    que dados so essenciais para garantir o cuidado de enfermagem. A grande questo saber

  • 134

    que tipos de dados so necessrios para descrever os diagnsticos de enfermagem, as

    intervenes e os resultados. Essa discusso j mobilizou os enfermeiros da Clnica

    Mdica do HULW ao implementarem a sistematizao da assistncia de enfermagem.

    Nessa perspectiva, esto estudando os dados que reflitam o julgamento clnico da

    enfermagem sobre problemas/necessidades do paciente, intervenes e atividades ou

    resultados. A ausncia desses elementos no sistema de informao em enfermagem

    impossibilita o registro das atividades que o enfermeiro faz e, inclusive, a diferena de

    cuidado realizado. Os depoimentos a seguir evidenciam essa preocupao:

    [...] elementos como histrico, a evoluo de enfermagem para assistncia direta

    ao paciente, as prescries de enfermagem.

    [...] os elementos de minha prtica que considero importantes para serem

    registrados no computador. So todas as informaes relacionadas ao paciente

    [...] do nome do paciente ao quadro clnico, medicao e aos cuidados que ele

    precisa.

    [...] os elementos de minha prtica que considero importantes para serem

    registrados no computador diariamente so o estado geral do paciente, a gente

    saber clicar l e ver como aquele paciente j passou em outros plantes, porque

    a a gente j saberia seguir, ter um acompanhamento daquilo que j est

    relacionado com ele.

    [...] a queixa principal e a queixa no momento, a aceitao da dieta, a aceitao

    da medicao, como aquela medicao est indo.

    [...] sinais vitais, temperatura, tudo que o paciente sentiu s colocar um X ali. O

    que ele tem, se est com perda de cabelo, de peso, com problema de peso, tudo

    ali, e eu s clicar, s um X e no ser preciso copiar tudo.

    [...] o relatrio, porque no relatrio a gente anota as alteraes, os exames.

    [...] eu acho que d para encaixar a os diagnsticos de enfermagem, porque as

    prescries vo ser em cima disso, o que a gente vai perceber do nosso paciente.

    [...] para a minha prtica, seria interessante que houvesse uma folha de controle

    de sinais vitais, porque a voc tem logo uma noo de como o paciente est

    apresentando [...]. Ento voc tem logo uma geral que facilita o trabalho do

    mdico.

  • 135

    [...] a fica o nome do paciente, o diagnstico, com a observao clnica que a

    situao dele e qual a dieta.

    [...] a admisso do paciente, com o histrico, prescrio de enfermagem,

    evoluo de enfermagem, diagnstico de enfermagem.

    [...] um instrumento que trabalha a prescrio e a evoluo diria e tambm um

    instrumento que o pessoal de nvel mdio lida, que a anotao de tratamentos.

    [...] a higiene, as condies de higiene oral, higiene corporal.

    [...] as condies de se alimentar, de digerir o alimento, as condies do aparelho

    digestivo.

    [...] dados sobre a condio emocional do cliente, a forma como ele se apresenta,

    como ele se dispe a conversar ou no conversar, a se expressar ou se fechar, se

    introverter.

    [...] locomoo ou inabilidade para locomover-se, que seria imobilidade no leito,

    parcial ou total.

    [...] os dados completos de identificao do paciente, o quadro clnico do

    paciente, a medicao do dia, os cuidados que se deve ter diretamente com

    aquele paciente e as observaes que porventura possam ser relacionadas com

    alguma intercorrncia, so os principais elementos da nossa prtica.

    Diante dos depoimentos apresentados pelos enfermeiros pode-se sucintamente

    delinear um conjunto de elementos mnimos de informaes do paciente que podem apoiar

    o enfermeiro no desenvolvimento da assistncia de enfermagem e no sistema de

    informao computadorizado, representando todos os elementos da prtica de enfermagem

    exercida pelos enfermeiros, conforme ilustra a figura 5:

  • 136

    Figura 5 - Esquema do conjunto de dados necessrios ao paciente, a partir da experincia dos enfermeiros da Clnica Mdica do HULW

    C2 Avaliando as vantagens que o sistema de informao traz para a

    enfermagem

    A enfermagem uma profisso muito dependente de informaes. preciso

    acess-las de forma apropriada para desempenhar uma grande variedade de intervenes

    que envolvem o cuidado de enfermagem: as exigncias administrativas e de controle, o

    crescente conhecimento biomdico, a tecnologia em sade, as modalidades teraputicas e a

    expanso do conhecimento em enfermagem que prope um crescimento de problemas

    complexos.

    Diante dessa situao, os enfermeiros reconhecem que um sistema de informao

    computadorizado pode fornecer as informaes sobre todo o processo de cuidados do

    paciente, facilitando a documentao clnica e administrativa e ajudando na sistematizao

    da assistncia. Nesse sentido, foram colhidos os seguintes depoimentos:

    Histrico

    [1] Dados de identificao do paciente

    [2] Queixa principal e a queixa no momento

    [3] Exame clnico de enfermagem

    3.1 Sinais vitais

    3.2 Descrio semitica

    3.3 Observao clnica

    [4] Alimentao

    [5] Medicao

    [6] Intercorrncias

    Diagnsticos de enfermagem

    Padro NANDA - definies e classificaes - estrutura multiaxial da taxonomia.

    Plano de intervenes ou cuidados de enfermagem

    Resultados esperados ou evoluo do paciente

  • 137

    [...] em nvel de documentao, o computador facilita, assim como o pronturio

    eletrnico.

    [...] o computador um instrumento que vai facilitar o registro.

    [...] na informtica as coisas se desenvolvem com mais facilidade. Temos com

    mais preciso todas as informaes sobre o paciente.

    [...] o sistema de informao facilita a seleo de intervenes e estabelece os

    diagnsticos de enfermagem.

    [...] o computador um instrumento que traz benefcios.

    [...] voc registra tudo que acontece com o paciente no computador. Com isso, a

    gente ganha mais tempo com o paciente.

    [...] com o computador voc se torna prtico. Eu acho que ajudaria, era uma

    forma de mostrar o que a enfermagem faz.

    [...] a gente tem as informaes visualizadas pelos enfermeiros, auxiliares de

    enfermagem e mdicos. Cada categoria tem seu relatrio.

    [...] eu penso que, se tivssemos um computador com todo o plano de cuidados

    de enfermagem e os diagnsticos nossa disposio, se no demandar muito o

    tempo da gente, com certeza que isso ajudaria.

    A documentao do processo de enfermagem um dos componentes frgeis da

    sistematizao do cuidado de enfermagem desenvolvido pelos enfermeiros da Clnica

    Mdica do HULW. As causas principais para esse problema esto relacionadas ao nmero

    insuficiente de pessoal de enfermagem, grande demanda de pacientes, falta de tempo

    para registrar os cuidados fornecidos e ausncia de formulrios estruturados para a coleta

    de dados e uma compreenso de sistemas para processamento de dados. Todavia, essa

    situao pode ser melhorada com a adoo de um eficiente sistema de documentao que

    possa ser usado pelos enfermeiros que desejam ser uma parte integrante do sistema de

    informao computadorizado.

    D. Conseqncias do Fenmeno 1

    preciso levar em considerao as contingncias do envolvimento dos

    enfermeiros com o modelo de sistematizao implementado na Clnica Mdica. Esse

  • 138

    modelo tem sido direcionado para a melhoria da assistncia ao paciente e para a interao

    da equipe da enfermagem. De acordo com os depoimentos relatados pelos enfermeiros,

    percebe-se que o processo da sistematizao converge para uma expectativa de

    desenvolvimento de um sistema de informao computadorizado em enfermagem como

    uma conseqncia potencial da necessidade de estabelecer conexes entre o modelo

    terico e o conhecimento da prtica clnica. A conseqncia resultante das expectativas

    exteriorizadas pelos enfermeiros envolve a seguinte categoria:

    D1 Querendo um sistema de informao

    Um dos maiores objetivos da informtica em enfermagem implantar um sistema

    de informao clnica que atenda as necessidades da enfermagem para processamento de

    informaes que apiem a sua prtica, inclusive as peculiaridades contingenciais e os

    padres de sistemas (LIPPEVELD; SAUERBOM; BODART 2000; SABA;

    McCORMICK, 2001; PAHO, 2001).

    Como se sabe, um sistema de informao consiste de um conjunto de elementos

    formado por pessoas, informaes, processos, hardware e software, que, trabalhando

    juntos, esses elementos se complementam para desenvolver funes especficas. As

    pessoas, o sistema e o processo de trabalho devem funcionar em harmonia para maximizar

    os benefcios da capacidade humana e tecnolgica.

    Mas, para que esses benefcios aconteam, indispensvel a participao ativa

    dos enfermeiros no desenvolvimento do sistema, a fim de potencializar o crescimento e a

    autodeterminao indispensveis para o questionamento e a transformao do

    conhecimento tcito em conhecimento explcito informatizado.

    Portanto, imperativa a participao dos enfermeiros assistenciais no desenho do

    sistema para que possam, explicitamente, comunicar suas necessidades aos

    desenvolvedores. Com isso, o sistema automatizado ser capaz de satisfazer as

    expectativas dos usurios finais e verdadeiramente servir para a prtica clnica. Os prprios

    enfermeiros reconhecem essa necessidade:

    [...] a gente v essa necessidade hoje em dia. O enfermeiro deve ter a sua posio

    tambm, sua participao dentro da equipe de sade.

  • 139

    [...] o que falta agora a gente se organizar e ter essa ferramenta.

    Os enfermeiros da Clnica Mdica sentem essa necessidade, a qual foi

    representada pela interao de duas subcategorias, segundo consta no quadro a seguir.

    Cdigos Subcategorias

    D1.1 Sentindo necessidade de um sistema de informao computadorizado.

    D1.2 Buscando um sistema de informao computadorizado que seja prtico.

    Quadro 6: Querendo um sistema de informao

    D1.1 Sentindo necessidade de um sistema de informao computadorizado

    O processo de sistematizao da assistncia e o gerenciamento da unidade de

    Clnica Mdica envolvem um grande volume de informaes e dados complexos. Estes se

    perdem no emaranhado de papis e registros fragmentados, incompletos e no confiveis

    que relatam os cuidados dos pacientes e que, muitas vezes, no so lidos pelos

    profissionais de enfermagem, nem pelos mdicos.

    Em face dessas dificuldades enfrentadas pelos enfermeiros da Clnica Mdica no

    desenvolvimento da sistematizao da assistncia de enfermagem, cresce a expectativa

    quanto necessidade de se implementar um sistema de informao computadorizado que

    possa ser til prtica do trabalho da enfermagem. O sistema deve tambm ser capaz de

    capturar e processar dados de enfermagem e de sade com ampla densidade, rea e

    detalhes, originados da prtica desde o cuidado ao paciente at o apoio gerencial da

    unidade. A esse respeito, so transcritos os seguintes depoimentos:

    [...] a gente precisa ter um sistema informatizado de relato do nosso trabalho

    junto ao paciente e eu acho at de controle administrativo das unidades.

    [...] sempre possvel procurar aquelas informaes que so mais significativas e

    que vo ajudar a compreender melhor a situao do cliente e identificar suas

    necessidades de cuidado.

    [...] eu creio que o sistema de informao pode disponibilizar dados.

    [...] quanto ao plano de cuidados informatizado aqui no tem, mas facilitaria

    demais se tivesse porque voc j faz no texto padro.

  • 140

    [...] a gente pode lidar com as informaes sem a necessidade de escrever cada

    nova coisa.

    Os enfermeiros tm um importante papel na assistncia ao paciente e podem

    influenciar positivamente na implementao de um sistema de informao

    computadorizado usando as terminologias da enfermagem. Mas, para se alcanar esse

    objetivo, preciso que se faam mudanas na forma de gerenciamento, promovendo-se

    treinamento e educao em servio. Porm, tais mudanas s ocorrero com o

    envolvimento dos enfermeiros, de modo a transformar velhos paradigmas em novos

    paradigmas. Convm ressaltar que isso no requer apenas a implementao da tecnologia

    em si, mas tambm uma mudana de atitudes, valores, habilidades e relaes sociais.

    D1.2 Buscando um sistema de informao computadorizado que seja

    prtico

    Os enfermeiros assumem muitos papis e possuem um complexo conhecimento

    da prtica clnica. Entretanto, muitas informaes deixam de ser registradas no sistema

    manual, porque eles perdem muito tempo nessa tarefa e se afastam do paciente para

    desenvolver tarefas tipicamente burocrticas. Por essa razo, os enfermeiros necessitam de

    um sistema de informao computadorizado, construdo no ambiente da prtica clnica, de

    fcil manuseio, simples e prtico, que tenha o mnimo possvel de texto livre e mais opes

    s para selecionar e clicar. Dessa forma, reduz-se o tempo de registro e aumenta-se o

    tempo de ateno direta ao paciente, conforme relatos dos enfermeiros:

    [...] uma perda de tempo que tenho, mas se eu j tivesse tudo s para clicar,

    colocar um X, seria fcil nesse sentido para mim.

    [...] hoje s est faltando a cabea para botar as idias no papel e depois na

    mquina.

    [...] a nossa sada enquanto enfermeiro investir na instituio de princpios e

    realmente em sistemas mais aperfeioados de trabalho que dem uma seqncia

    lgica para aquilo que a gente faz.

    [...] a gente tem que ousar e criar sistemas que realmente retratem o que a gente

    faz.

  • 141

    [...] eu gostaria de trabalhar com um processo instvel, mas relativamente

    tranqilo e sapiente.

    [...] nem tudo voc pode clicar. Ento voc teria que anotar no computador

    alguma coisa que no estivesse dentro daquele esquema do computador. A voc

    acrescentaria, mas que fosse o mnimo possvel.

    [...] ns precisamos usar um sistema de informao que seja competente.

    importante que o ambiente da prtica clnica da enfermagem seja transformado

    pela nova gerao de informaes e tecnologia, apoiando o trabalho do enfermeiro que

    exige mais praticidade, em termos de deciso computadorizada e que reconhece a arte da

    prtica clnica no desenvolvimento de sistemas de informao. A Figura 6, a seguir, uma

    representao grfica do Fenmeno 1.

  • 142

    Figura 6 - Modelo terico do Fenmeno 1: Tentando articular os modelos formais com

    prtica de enfermagem para desenvolver sistemas de informao.

    CONDIES CAUSAIS

    Procurando adequar os modelos formais com a prtica de enfermagem. Buscando utilizar os diagnsticos de enfermagem

    CONTEXTO Vendo a sistematizao como um caminho para desenvolver sistemas de informao em enfermagem.

    ESTRATGIAS

    Procurando elementos da prtica de enfermagem para compor um sistema de informao. Avaliando as vantagens que o sistema de informao traz para a enfermagem.

    CONSEQNCIA

    Querendo um sistema de informao.

  • 143

    7.1.2 Fenmeno 2

    Este fenmeno procura explicar as influncias que a lacuna existente entre a teoria

    e a prtica de enfermagem provoca no desenvolvimento de sistemas de informao, assim

    como no preparo dos enfermeiros. Estes tm manifestado insatisfao e uma grande

    preocupao com o bem-estar do paciente. No h dvida de que essa situao afeta o

    desempenho da prtica de enfermagem que requer uma conexo integral entre a teoria e a

    prtica e vice-versa, como medidas inseparveis. A relao teoria e prtica pode ser

    fortalecida pelo uso de uma abordagem interpretativa e pela viso de que a realidade

    socivel.

    Os discursos dos enfermeiros, relatados nas entrevistas, apontam para uma

    tendncia em pensar a teoria e a prtica como dimenses separadas. Por outro lado,

    indicam uma tendncia de ver o relacionamento como sendo uma atividade tica em que a

    compreenso da prtica, a deliberao e o julgamento so elementos exigidos para a

    conduo da prtica clnica. Como se sabe, o relacionamento entre teoria e prtica tem

    caminhos congruentes, uma vez que a prtica de enfermagem est contextualizada numa

    operao humana e social, ou seja, numa realidade social que inerentemente

    problemtica.

    Fealy (1999) enfatiza que o caminho da relao teoria e prtica no pode ser

    expresso explicitamente, mas est implcito nos debates, na viso de mundo dos

    enfermeiros, nas suas crenas e suposies. Ressalta ainda o autor que, no estado atual das

    coisas, com respeito relao teoria e prtica, h um ecletismo e pluralismo, bem como

    uma abertura ampla para contribuies de diferentes paradigmas de conhecimento, com

    vista ao desenvolvimento epistemolgico.

    A. Destacando as condies causais

    As categorias Sentindo que existe uma lacuna entre a teoria e a prtica e

    Tendo dificuldades com o preparo dos enfermeiros mostram as causas que

    desencadeiam todo o fenmeno em questo. So consideradas causais, porque nascem da

    preocupao dos enfermeiros ao perceberem que existe uma lacuna entre a teoria e a

    Vendo a lacuna entre teoria e prtica no sistema de

    informao em enfermagem

  • 144

    prtica, ou seja, o chamado vcuo teoria e prtica. Essa lacuna pode dificultar no s o

    desempenho clnico, como tambm o desenvolvimento de sistemas de informao e o

    preparo dos enfermeiros.

    Portanto, natural que os enfermeiros da Clnica Mdica questionem essa

    situao, porque a profisso de enfermagem se caracteriza por ser humanstica. Assim, o

    conhecimento que ela adota inclui aqueles que permitem a auto-reflexo e o

    reconhecimento das distores sociais inerentes.

    A1 - Sentindo que existe uma lacuna entre a teoria e a prtica

    A anlise do discurso dos enfermeiros permite compreender como eles vem o

    relacionamento teoria e prtica. Podemos perceber que, na viso dos enfermeiros, existe

    uma lacuna entre teoria e prtica. Isso importante porque retrata uma experincia coletiva

    compreendida por todos. Nesse aspecto, os enfermeiros mostram que h uma fragilidade

    no caminho da sistematizao e do sistema de registro de informaes. Estes so

    problemas que precisam ser compreendidos para o desenvolvimento de suas aes

    profissionais. Os depoimentos a seguir expressam bem essa situao:

    [...] eu vejo como realmente existindo uma distncia entre a teoria e a prtica.

    [...] o que o enfermeiro aprende, ele no aplica.

    [...] a gente no tem conseguido acompanhar na prtica o que se produz na

    teoria.

    [...] ainda existe um distanciamento entre a teoria e a prtica.

    [...] eu acho que a prtica no tem sido calcada numa teoria, pelo menos nos que

    praticam hoje.

    [...] eu acho que existe uma lacuna na teoria em relao prtica. Eu diria em

    termos de notificao, documentao.

    [...] existe uma lacuna entre a teoria e a prtica. A gente sente essa dificuldade

    que a prtica uma coisa e a teoria outra.

    [...] a nossa prtica bem diferente da teoria.

  • 145

    Alm desses depoimentos dos enfermeiros assistenciais, foram identificadas

    algumas lacunas emergidas na viso do relacionamento teoria e prtica em enfermagem,

    especialmente, nas seguintes atividades:

    ! em alguns procedimentos tcnicos;

    ! no registro de informaes em enfermagem;

    ! na administrao de medicamentos;

    ! na elaborao do plano de cuidados de enfermagem.

    Os enfermeiros sentem esse problema e esto dispostos a discutir formas para

    diminuir o impacto causado pela lacuna entre teoria e prtica. Com isso, pretendem ajudar

    na formulao de estratgias que eliminem ou minimizem essa lacuna. Nessa categoria,

    identificamos a interao de duas subcategorias, conforme mostra o quadro abaixo:

    Cdigos Subcategorias

    A1.1 Querendo aproximar a teoria da prtica.

    A1.2 No aplicando os modelos tericos na prtica.

    Quadro 7: Sentindo que existe uma lacuna entre a teoria e a prtica de enfermagem

    A1.1 Querendo aproximar a teoria da prtica

    A relao entre teoria e prtica em enfermagem complexa, porque envolve a

    concepo de enfermeiros assistenciais, enfermeiros gestores, pesquisadores e docentes

    engajados na sistematizao da assistncia de enfermagem. Para os enfermeiros

    assistenciais e docentes, a preocupao est focalizada no esforo para alcanar maior

    integrao entre teoria e prtica para, a partir da, promover prticas que melhor expressem

    a base terica e suas proposies, princpios e prescries.

    Os enfermeiros da Clnica Mdica tm procurado realizar uma prtica que se

    aproxime da teoria. Alm disso, esto preocupados em superar os problemas associados

    com a lacuna provocada pela falta de relao teoria e prtica, oferecendo um programa de

    educao em servio. Esse programa procura mostrar a viso acerca de fatos e formas, no

    sentido de entender as condies potenciais que essa lacuna pode assumir, tentando

    caracterizar a prtica com uma descrio das origens e propostas da teoria.

  • 146

    Dentro desse enfoque, os enfermeiros expressaram alguns depoimentos revelando

    a necessidade de aproximar a teoria da prtica, podendo-se destacar os seguintes:

    [...] a gente tem conseguido trabalhar nos ltimos trs anos, mais aproximado

    com a teoria e a prtica. Isso tem trazido lucro muito significativo.

    [...] se l a gente j tivesse uma prtica calcada nessa teoria, com certeza, em

    outros lugares em que saem nossos profissionais dessa escola, sairiam pessoas

    com essa prtica baseada numa teoria ou nas teorias.

    [...] a teoria e a prtica, eu vejo que elas precisam caminhar juntas.

    [...] voc estuda a teoria e vai fazer a prtica. Ento permite uma troca de

    informaes que concretiza a teoria.

    [...] muita coisa interfere na relao entre teoria e prtica de enfermagem, desde a

    organizao do hospital, as condies materiais, a quantidade de pessoal, a

    motivao, o salrio, tudo isso vai influenciar.

    [...] h certa dificuldade de voc aproximar a teoria da prtica, mas persistimos.

    [...] porque muitas colegas aqui sentem essa dificuldade em aproximar a teoria da

    prtica; pelo fato de terem terminado um curso e da terem se distanciado dos

    livros.

    Os enfermeiros evidenciam em seu discurso a necessidade de integrao teoria e

    prtica. O caminho existe e fruto de muita reflexo dentro da enfermagem. O problema

    sentido por todos e tende a estar presente nas bases conceituais, filosficas e

    epistemolgicas. Nessa perspectiva, preciso entender que a teoria alguma coisa que

    para ser usada dentro da prtica e que a prtica potencialmente til para completar a

    teoria. Estas concepes so extradas do pensamento positivista. Teoria e prtica no so

    exclusivas, nem realidades nicas, ao contrrio, so inseparveis.

    A1.2 No aplicando os modelos tericos na prtica

    Os modelos tericos aqui abordados dizem respeito a alguns modelos de sistemas

    de classificao que esto sendo desenvolvidos na Europa, pelos pases membros da Unio

    Europia, e nos Estados Unidos, onde so reconhecidos pela Associao Americana de

    Enfermagem (ANA).

  • 147

    Esses sistemas de classificao utilizam algumas fases do processo de

    enfermagem, a saber: diagnstico, plano de intervenes e avaliao. Esses elementos que

    compem o modelo formal podem fazer parte integrante do registro computadorizado em

    sade (BAKKEN et al., 2000; BEYA, 2000). Todavia, existem esquemas de classificao

    que no envolvem todos os aspectos do processo de enfermagem, mas apenas alguns, por

    exemplo: diagnsticos, resultados e intervenes.

    Na Clnica Mdica do Hospital Universitrio, os enfermeiros no utilizam na

    prtica de enfermagem nenhum dos modelos tericos existentes, tais como: o Sistema de

    Classificao Omaha (SCO), a Classificao das Intervenes de Enfermagem de Iowa

    (NIC), a Classificao dos Cuidados Domiciliares de Sade (HHCC) e a Classificao dos

    Resultados do Paciente (NOC). Apesar de saberem que a adoo de sistemas de

    classificao pode melhorar o conhecimento formalizado da enfermagem, os enfermeiros

    encontram barreiras que vo desde as questes educacionais at as operacionais. Tais

    barreiras impedem a aplicao desses modelos na prtica clnica, conforme os relatos

    abaixo:

    [...] muita coisa como os diagnsticos de enfermagem e sistemas de classificao

    ns no temos. Esses formulrios no so utilizados por ns aqui na clnica.

    [...] eu percebo que os modelos formais no so aplicados na prtica, de jeito

    nenhum.

    [...] os modelos formais no so aplicados na prtica diria aqui.

    [...] o diagnstico de enfermagem no colocado na prtica.

    [...] eu, particularmente, no consigo ainda unir as duas coisas, assim, usar um

    dos modelos formais na prtica.

    [...] a gente no aplica os modelos formais na prtica. No bem isso que o

    enfermeiro aplica, devido ao tempo.

    A ausncia de um modelo de classificao para a prtica de enfermagem traz

    algumas conseqncias para o exerccio eficiente da enfermagem. Isso atinge no somente

    a assistncia, mas, especialmente, o gerenciamento do servio e o registro de enfermagem.

    Falta um sistema de informao computadorizado que disponha de um vocabulrio

  • 148

    padronizado, taxonomia e esquema de classificao e que represente os elementos da

    prtica de enfermagem em diferentes situaes.

    A2 - Tendo dificuldades com o preparo dos enfermeiros

    Os enfermeiros, por trabalharem em um hospital de ensino, defrontam-se com um

    eterno conflito: a realidade versus o ideal, ou seja, a enfermagem como deve ser versus a

    enfermagem como . A lacuna entre teoria e prtica tem influenciado diretamente no

    preparo dos profissionais de enfermagem, em particular, dos enfermeiros. Na opinio de

    Rolfe (1996), essa lacuna no existe como resultado da falha dos enfermeiros assistenciais

    para ler e implementar os estudos realizados. O problema que a maioria dos estudos em

    enfermagem executada dentro de uma estrutura terica inadequada para a prtica de

    enfermagem atual.

    Na realidade, o modelo acadmico que prevalece no preparo dos enfermeiros o

    tcnico-racional, que descreve uma perspectiva cientfica da enfermagem como um

    conhecimento hierrquico, terico e de status acadmico. Por isso no tem preocupaes

    com os problemas existentes no ensino da enfermagem clnica e assistencial, nem busca

    solues para eliminar a lacuna entre teoria e prtica. Por outro lado, somente atravs de

    uma abordagem crtica que se pode dimensionar a cincia aplicada, o conhecimento e a

    prtica de enfermagem, que so essenciais no preparo dos enfermeiros. A viso dos

    enfermeiros, quanto ao preparo dos profissionais de enfermagem, est explicitada nos

    seguintes relatos:

    [...] a gente precisa trabalhar o preparo dos enfermeiros.

    [...] a gente v a fragilidade, a dificuldade e como a gente precisa investir para

    que aquele profissional chegue aonde a gente considera que a otimizao do

    trabalho dele.

    [...] necessrio que haja orientao, partindo dos auxiliares de enfermagem, da

    participao deles para execuo, porque no s enfermeiro que faz.

    [...] h necessidade de muito estmulo, de voc estar sempre injetando nimo nas

    pessoas, de ver a necessidade de estudar, mas estudar diariamente, de voc ficar

    sempre buscando.

  • 149

    A importncia do preparo dos enfermeiros, desde a sua formao acadmica, no

    pode ser negada, em relao sistematizao da assistncia e ao desejo de valorizao

    profissional. Dessa forma, a educao continuada, como estratgia de ensino ps-

    formao, permite ao enfermeiro uma melhor posio para reivindicar maiores recursos.

    Nessa direo, a enfermagem precisa redefinir a perspectiva coletiva e filosfica para

    questionar a eficincia qualitativa do paradigma tradicional que tem no s impedido a

    compreenso da teoria, como tambm limitado a prtica de enfermagem.

    B. Destacando o contexto

    As categorias indicativas de contexto do Fenmeno 2 so: Vendo a relao entre

    enfermeiro e paciente e Vivenciando a prtica de enfermagem. Essas categorias

    destacam o contexto em que a lacuna teoria e prtica se insere, influenciando no

    desempenho e no desenvolvimento de sistemas de informao.

    B1 - Vendo a relao entre enfermeiro e paciente

    Essa categoria est orientada para uma viso da enfermagem holstica(). Refere-se

    prtica de enfermagem em que os enfermeiros desempenham pessoalmente aes que

    proporcionem benefcios, mantenham a vida, a sade e o bem-estar do paciente.

    Na relao entre enfermeiro e paciente, imprescindvel respeitar a dignidade do

    paciente, aceitando-o, tratando-o em suas necessidades bsicas e especficas, dando-lhe

    total garantia de esforo para encontrar a soluo dos problemas e procedendo aos

    cuidados de enfermagem. Nessa relao, o enfermeiro deve proporcionar ao paciente

    conforto e segurana. O paciente prioridade para o enfermeiro. Essa preocupao est

    presente nos seguintes depoimentos:

    [...] o enfermeiro pra pouco junto ao paciente.

    [...] hoje, os enfermeiros esto querendo ser mais enfermeiros de bir mesmo, s

    ficar ali escrevendo.

    Teoria segundo a qual o homem um todo indivisvel, e que no pode ser explicado pelos seus distintos componentes (fsico, psicolgico ou psquico), considerados separadamente.

  • 150

    [...] cada vez mais que se est propalando um sistema de informao

    computadorizado, eu vejo que est ficando ainda mais distante o enfermeiro da

    assistncia de enfermagem, porque ele fica ligado naquilo, naquele computador.

    [...] a enfermagem anda muito solta. O enfermeiro chega, abre o relatrio, abre o

    horrio da medicao, mas no vai junto ao paciente.

    [...] como se no existisse uma relao direta entre a pessoa que cuidada e o

    profissional enfermeiro.

    [...] no existe uma relao direta enfermeiro-cliente.

    Com esses dados, pretendemos chamar a ateno para um aspecto considerado

    muito importante: os enfermeiros da Clnica Mdica percebem que existe uma distncia

    entre o enfermeiro e o paciente. Eles reconhecem que h falta de uma relao mais direta

    de cuidados entre enfermeiros e pacientes. Esse o grande dilema que os enfermeiros esto

    vivenciando, por abrirem mo do que lhes compete e daquilo que especfico de sua

    formao - assistir diretamente o paciente em suas necessidades - para preencherem outros

    espaos e desempenharem papis e atribuies que os afastam da sua misso de cuidador.

    preciso registrar que os enfermeiros da Clnica Mdica, em sua maioria, esto

    conscientes de que a sistematizao do cuidado, a individualidade do paciente, o

    gerenciamento da assistncia e a superviso so metas desejveis, porm eles tm sentido

    dificuldades em alcan-las. Todavia, a qualidade da assistncia no depende apenas da

    execuo de aes e tcnicas bem planejadas, mas tambm de um sentimento de empatia.

    A atitude e atuao dos enfermeiros em relao ao paciente so fundamentais para que ele

    possa superar a situao em que se encontra. Essa categoria apresentou duas interaes,

    conforme demonstra o quadro 8:

    Cdigos Subcategorias

    B1.1 Tentando trabalhar junto ao paciente.

    B1.2 Trabalhando a humanizao.

    Quadro 8: Vendo a relao entre enfermeiro e paciente

  • 151

    B1.1 Tentando trabalhar junto ao paciente

    A maior parte dos enfermeiros da Clnica Mdica tem a percepo da necessidade

    de trabalhar junto ao paciente, de sistematizar o cuidado, de utilizar mtodos e prticas que

    melhorem a qualidade da assistncia de enfermagem. Todavia, constatamos que inmeros

    fatores operacionais tm dificultado o relacionamento enfermeiro-paciente.

    Embora os enfermeiros tentem trabalhar junto ao paciente para a

    operacionalizao da sistematizao da assistncia de enfermagem, h muitas barreiras

    para serem vencidas e que interferem no cuidado de enfermagem personalizado, contnuo e

    integral. Os enfermeiros da Clnica Mdica esto preocupados com essa situao,

    conforme expressam em seus relatos:

    [...] o enfermeiro tem que trabalhar junto com o doente, nada isoladamente. Eu

    acho que tem que caminhar juntos.

    [...] quem est mais junto do paciente a enfermagem, sem sombra de dvidas.

    [...] a enfermagem quem fica vinte e quatro horas com o paciente.

    [...] eu queria escrever o mnimo possvel e dar mais assistncia ao paciente, eu

    queria trabalhar mais junto do paciente.

    [...] a gente v as reaes do paciente, at mesmo a sua evoluo, melhor do que

    os mdicos que fazem uma visita diria.

    [...] a enfermagem est muito ligada assistncia.

    [...] na prtica o que eu gosto de ser assistencial, eu gosto de assistir o paciente

    da hora que chego at o final.

    Os enfermeiros apontam a necessidade de se trabalhar junto aos pacientes, em

    funo dos aspectos da sistematizao da assistncia, individualizando-a e identificando as

    necessidades afetadas e os problemas apresentados pelos pacientes. Apesar das

    dificuldades operacionais, o trabalho sistematizado pode aproximar o enfermeiro do

    paciente e contribuir para o desenvolvimento integral do aluno e o aprimoramento do

    conhecimento dos enfermeiros.

  • 152

    B1.2 Trabalhando a humanizao

    A humanizao envolve uma poltica administrativa integrada e permanentemente

    centrada na assistncia personalizada ao paciente, com a participao de toda a equipe de

    sade. Deve ser vista como uma prtica efetiva dos princpios da qualidade, em que se

    procura superar as expectativas e necessidades dos pacientes.

    A qualidade na perspectiva humanstica do hospital to importante quanto o

    tratamento que se oferece ao paciente. Nesse sentido, o pessoal de enfermagem deve estar

    consciente de que o seu servio existe em funo das pessoas (clientes ou pacientes). Os

    antigos princpios da enfermagem, como generosidade e humanidade, devem ser

    resgatados, por exemplo: o enfermeiro pode executar atividades simples, como escrever

    uma carta para o paciente, servir as refeies, confortar, animar e assim por diante.

    Os enfermeiros tm uma grande responsabilidade com o paciente. Pode-se at

    afirmar que so os profissionais mais envolvidos e comprometidos com o cuidado ao

    paciente. Da a necessidade de desenvolverem atitudes que favoream a humanizao do

    atendimento de enfermagem, a qual deve comear desde a recepo at a unidade de

    internao. Os depoimentos a seguir enfatizam essa preocupao:

    [...] a partir do momento em que o enfermeiro trabalha a humanizao, ele

    consegue priorizar e melhorar. Sem isso, no consegue.

    [...] eu gosto muito de conversar com o paciente. Eu seguro na mo do paciente,

    pergunto como ele est e a ele comea a dizer as coisas, debulhar porque, s

    vezes, ele tem uma ansiedade, saudade de casa, da famlia, s vezes, um

    problema que est incomodando. Se voc comea a conversar e escut-lo, ele j

    se sente aliviado.

    [...] o enfermeiro tem que ouvir as pessoas, para da poder ajudar.

    [...] o paciente est dependendo de uma maior interao com o enfermeiro,

    realmente, com o enfermeiro.

    Trabalhar a qualidade significa proporcionar satisfao ao cliente, seja ele interno

    ou externo, atravs da busca contnua do conhecimento e do aperfeioamento

    disponibilizado pela tecnologia. Todavia, qualidade na rea de sade tem uma conotao

  • 153

    diferente que vai alm da mera satisfao do cliente, ou seja, significa o ato de cuidar do

    paciente holisticamente.

    Os enfermeiros so responsveis, direta ou indiretamente, por oferecer ao paciente

    uma assistncia com dignidade e humanidade e que lhe garanta o direito sade e vida.

    Neste aspecto, a equipe de enfermagem tem o compromisso de implementar aes para

    uma assistncia de qualidade, a fim de conduzir a sade de forma integrada, numa viso

    holstica do homem.

    B2 - Vivenciando a prtica de enfermagem

    Nessa categoria, os enfermeiros tentaram descrever a prtica de enfermagem

    desenvolvida na Clnica Mdica. A percepo dos enfermeiros de que a enfermagem se

    caracteriza como assistencial est pautada num antigo paradigma funcionalista que traz de

    maneira contundente o seu lado negativo, quando atribui grande nfase ao ato de cuidar do

    paciente como se fosse um ritual de aes, com inmeros procedimentos executados,

    tarefeiros e mecanicista. Nesse modelo, o que importava era somente o volume de trabalho

    realizado, geralmente fragmentado, em que o auxiliar de enfermagem era responsvel pela

    parte de tarefas (medicao, controle de sinais vitais, diurese, etc.) e os enfermeiros pela

    parte administrativa.

    Mesmo sendo uma conseqncia da enfermagem praticada no passado, a

    enfermagem atual tem se caracterizado por interferir no processo de reavaliao de

    prioridades assistenciais, buscando sempre a excelncia da prtica profissional, conforme

    indicam os relatos dos enfermeiros:

    [...] na prtica, a enfermagem do Brasil, hoje, se caracteriza como servio

    assistencial, onde se presta a assistncia prtica que pode estar ou no vinculada

    s questes tericas produzidas acerca da enfermagem.

    [...] a prtica corre-corre, tem assistncia ao paciente. Muitas vezes, a gente

    quer fazer mais por ele, mas no tem condio porque so vrios pacientes.

    [...] preciso avaliar at que ponto o enfermeiro no deve ser um mero executor

    de medidas mdicas.

  • 154

    [...] a gente precisa trabalhar mais as questes gerais de como se definem, dentro

    dos conselhos e dentro das associaes, a prtica de enfermagem.

    Observamos, pelos relatos dos enfermeiros, que h necessidade de pautar a prtica

    de enfermagem por novos paradigmas e abrir mo, por exemplo, da liderana em troca da

    delegao, disseminando a tomada de deciso entre os enfermeiros. Como resultado,

    possvel agilizar processos, priorizando as etapas mais importantes, fazendo uso da

    tecnologia da informao para a otimizao dos resultados e automatizando atividades de

    rotina (MARX; MORITA, 2000).

    A prtica de enfermagem, neste novo sculo, deve refletir uma viso holstica,

    oposta ao modelo tradicional. Nesse aspecto, deve buscar a satisfao do paciente atravs

    da sistematizao integral da assistncia de enfermagem e estimular a auto-realizao

    profissional, valorizando os aspectos ticos, sociais e organizacionais.

    C. Desenvolvendo estratgias de ao

    Os problemas decorrentes da lacuna entre teoria e prtica e as dificuldades no

    preparo dos enfermeiros, inseridos no contexto da relao enfermeiro-paciente que

    caracteriza a prtica de enfermagem, foram revelados pelos enfermeiros da Clnica

    Mdica, propiciando as seguintes estratgias de ao:

    C1 - Avaliando as dificuldades na prtica de enfermagem.

    C2 - Avaliando as dificuldades com o sistema de registro manual.

    C3 - Procurando minimizar as restries ao sistema de informao

    computadorizado.

    C1 - Avaliando as dificuldades na prtica de enfermagem

    A prtica de enfermagem do HULW, particularmente, da Clnica Mdica

    apresenta muitas dificuldades que tm preocupado os enfermeiros por causa do

    comprometimento com a qualidade da assistncia prestada ao paciente, e ainda com a

    satisfao profissional. Os enfermeiros externaram suas inquietaes, atravs dos seguintes

    depoimentos:

  • 155

    [...] a gente v uma insatisfao muito grande por parte dos enfermeiros e

    auxiliares de enfermagem, insatisfao no trabalho.

    [...] a gente tem dificuldade, mas estamos lutando para buscar mais

    conhecimento.

    [...] e h ainda essa dificuldade, porque tem muitas enfermeiras que dizem: o que

    sei o suficiente.

    [...] algumas enfermeiras no correm atrs da evoluo propriamente dita das

    coisas. Ento, ainda existe essa dificuldade.

    [...] voc trabalha de manh, uma rotina, tarde outra e noite outra

    completamente diferente.

    [...] s vezes, voc fica temeroso de tomar deciso, de fazer uma tomada de

    posio.

    [...] a enfermagem no tem muito valor, porque os prprios profissionais no

    conquistam.

    A partir dos relatos acima, alguns aspectos merecem ser destacados como

    dificuldades percebidas pelos enfermeiros:

    a insatisfao no trabalho do pessoal de enfermagem;

    o comodismo de alguns enfermeiros;

    a variedade de rotinas;

    o receio em tomar decises;

    a falta de valorizao da enfermagem.

    Para os enfermeiros, essas dificuldades transcendem a capacidade de atuao,

    embora estejam dispostos a lutar para super-las. No entanto, outras dificuldades foram

    detectadas e categorizadas em trs interaes, conforme ilustra o quadro 9:

  • 156

    Cdigos Subcategorias

    C1.1 Sentindo dificuldade em supervisionar.

    C1.2 Tendo dificuldades na execuo da prtica de enfermagem.

    C1.3 Percebendo a existncia de dficit do pessoal de enfermagem.

    Quadro 9: Avaliando as dificuldades na prtica de enfermagem

    C1.1 Sentindo dificuldade em supervisionar

    Os enfermeiros tm se deparado com ausncia de superviso para acompanhar o

    desenvolvimento das atividades assistenciais de enfermagem. Essa carncia resultante da

    falta de enfermeiros efetivamente preparados para o exerccio dessa funo. Cabe ao

    enfermeiro supervisor direcionar os interesses e valores, de tal forma que haja uma forte

    afinidade entre os objetivos individuais e organizacionais.

    O fato de a equipe de enfermagem trabalhar de forma dividida, fragmentada, faz

    com que os responsveis pela assistncia aos pacientes precisem ser acompanhados,

    orientados e supervisionados. Essa medida necessria, para que possam ser detectados

    possveis problemas inerentes contingncia da prtica de enfermagem e promovidas as

    correes, atravs de medidas educativas e treinamento em servio. A respeito dessa

    situao, os enfermeiros apresentaram os seguintes relatos:

    [...] a coisa mais difcil no nosso trabalho supervisionar os outros, porque

    aquilo que a gente executa pode garantir e o que a gente no executa, a gente

    co-responsvel sem, nem sempre, poder estar vendo.

    [...] os enfermeiros e auxiliares de enfermagem esto acostumados a atuar

    rotineiramente, sem uma superviso direta. Fazem aquilo que rotina fazer e no

    aquele cuidado que geral.

    [...] a gente tem que estar sempre cobrando, cheque isso, cheque isso aqui.

    Algum faz, outro no faz, s vezes o planto est muito tumultuado e no d

    para fazer.

    [...] falta um compromisso maior, um assumir mais a situao, um dedicar-se

    mais, falta superviso.

    [...] no existe uma superviso, onde eu falo que importante a superviso.

  • 157

    [...] se no existir ningum cobrando, supervisionando, com certeza, nada vai ser

    feito.

    Como se observa, os enfermeiros buscam na superviso uma forma de motivar

    seu desempenho profissional com a criao de um ambiente organizacional adequado

    liderana. Isso quer dizer que o enfermeiro supervisor deve exercer sua autoridade e

    influncia, para criar um ambiente de satisfao no trabalho do pessoal de enfermagem, de

    modo que os profissionais se sintam razoavelmente seguros e motivados. Alm disso, para

    ser eficiente, a superviso deve desenvolver a competncia do pessoal, proporcionando-lhe

    treinamento contnuo e experincia.

    C1.2 Tendo dificuldades na execuo da prtica de enfermagem

    No exerccio da prtica de enfermagem, os enfermeiros enfrentam dificuldades de

    carter operacional, que prejudicam o desempenho da sistematizao da assistncia. Os

    enfermeiros assumem muitos papis e carregam uma complexidade de informaes que

    comprometem o andamento do trabalho assistencial e gerencial. De acordo com o relato

    dos enfermeiros, as principais dificuldades so as seguintes:

    assumem mltiplos papis e atribuies;

    apresentam sobrecarga de trabalho;

    so mal remunerados;

    trabalham de forma no programada;

    tm pouco conhecimento em sistema e tecnologia da informao;

    no recebem orientaes dos superiores.

    Ressaltamos ainda que, devido a esses problemas, os enfermeiros no vem

    possibilidades de mudanas organizacionais em todo o contexto j exposto, conforme

    declaram:

    [...] eu acho que essas questes a gente resolve no dia-a-dia, porque, na

    realidade, ns somos assistenciais, ns somos mdicos de planto, ns somos

    administradores do hospital, ns somos supervisores de limpeza, ns somos a

    nutricionista, a copeira em muitas horas, ns somos farmacutico e, na realidade,

    isso s nos traz prejuzo para nossa prtica essencial.

  • 158

    [...] h sobrecarga de trabalho para a equipe de enfermagem.

    [...] nem todos os enfermeiros esto interessados em mudanas; uns se

    interessam, outros no.

    [...] a nossa remunerao muito baixa.

    [...] o trabalho da enfermagem um trabalho assistencial. Ele nem sempre

    programado pela gente.

    [...] a gente sabe que h uma quantidade pequena de resistentes e de pessoas que

    ainda no usam a informtica na prtica de enfermagem.

    [...] tem plantes que a gente acumula funes que no so nossas, mas que a

    gente tem que resolver pelo bem do paciente e isso atrapalha.

    [...] teramos que ter um chefe que chegue para voc e que lhe cobre sim. A o

    doente, vamos ver onde ele melhorou ou onde no melhorou. Isso que tem de

    haver na enfermagem.

    C1.3 Percebendo a existncia de dficit do pessoal de enfermagem

    Os enfermeiros se defrontam com uma dura realidade: o dficit de pessoal de

    enfermagem. A falta de uma poltica de recursos humanos tem comprometido o

    quantitativo de pessoal de enfermagem, agravado pelas aposentadorias, absentesmos e

    remanejamentos ocorridos na Clnica Mdica do HULW. A ausncia de uma poltica de

    pessoal apropriada percebida pelos enfermeiros como uma grande dificuldade para o

    exerccio da sistematizao da assistncia, conforme esses depoimentos:

    [...] ns, como seres humanos, temos o nosso contexto, as nossas complexidades

    e existe dficit de pessoal.

    [...] para a gente fazer uma enfermagem de qualidade cientfica, ns, com

    certeza, precisamos de mais enfermeiros e auxiliares de enfermagem.

    [...] ns temos o problema de que pouqussimos enfermeiros estarem na rea

    gerencial, como um todo, nas instituies hospitalares e ambulatoriais de sade

    no Brasil.

  • 159

    [...] eu acho que a gente no tem muito tempo porque a gente tudo,

    enfermeira, secretria, enfim, tudo.

    [...] eu noto que ns quase no temos enfermeiro assistencial. So pouqussimos

    os enfermeiros assistenciais. O enfermeiro assistencial est sendo extinto

    totalmente. o que eu sinto no meu ambiente de trabalho.

    As falhas em suprir as necessidades de pessoal resultam em problemas de

    alocao. Os sinais e sintomas de m alocao podem ser verificados no quantitativo de

    pessoal, nas inmeras atribuies e responsabilidades e nos gastos excessivos ou

    insuficientes de pessoal, equipamento e manuteno. Dependendo da localizao e da

    causa do problema, as intervenes devem ser planejadas.

    C2 - Avaliando as dificuldades com o sistema de registro manual

    Esta categoria representa mais uma dificuldade enfrentada pelos enfermeiros

    comprometendo a prtica de enfermagem e o sistema de registro manual vigente. Atravs

    de seus relatos, os enfermeiros apontam as falhas no mecanismo de armazenamento de

    dados. Apesar da tentativa em desenvolver a sistematizao da assistncia, os registros no

    sofreram qualquer mudana que viesse a agilizar a recuperao dos dados, organiz-los e

    disponibiliz-los para o livre acesso dos profissionais de sade.

    O sistema de registro manual da Clnica Mdica permaneceu inalterado com os

    velhos problemas (registro no estruturado metodologicamente). Em face das falhas no

    registro manual, os enfermeiros anseiam por uma mudana que torne o registro de

    enfermagem mais organizado, claro, objetivo e de fcil recuperao. Nos relatos a seguir,

    os enfermeiros expressam suas opinies em relao ao registro manual:

    [...] eu acho que a gente teria hoje que partir para registrar as nossas aes, o

    essencial de nossas aes pelo menos e poder avaliar as nossas aes.

    [...] a questo essencial para a enfermagem hoje seria registrar a nossa atividade

    junto ao paciente.

    [...] eu acho que a onde est o fruto do nosso trabalho, no registro. E muitas

    vezes a gente se perde nisso.

  • 160

    [...] eu registro tudo que eu fao com o meu paciente, mas no o que eu sinto

    com todos os enfermeiros. Eles deixam lacunas demais para preencher no

    registro.

    [...] registramos no livro de ocorrncia da clnica tudo que acontece de

    anormalidade com aquele paciente, qualquer intercorrncia que tiver. O que a

    gente observar, a gente registra no livro e na prpria evoluo do paciente para

    que seja visto pelo mdico e pelos prprios enfermeiros que esto recebendo o

    planto.

    [...] a gente est discutindo a falta de informao. O no registro uma falha que

    a gente tem.

    [...] os outros profissionais no lem o que a enfermagem escreve nos registros.

    No visto, nem pelos prprios profissionais de enfermagem, nem pelos

    mdicos.

    [...] a gente encaminha dados de pacientes que se confundem com o que o

    servio social encaminha.

    [...] a gente tem dificuldade de separar o que a gente vai registrar e o que no vai.

    [...] a gente tem muita dificuldade com as letras dos mdicos.

    [...] nem sempre a gente consegue registrar todas as informaes que colhemos

    do paciente, principalmente, quando a gente est sozinho no planto.

    [...] para voc reunir, assistir e registrar muito difcil. Ou voc assiste muito

    bem ou voc aplica sua teoria muito bem.

    [...] a enfermagem atua muito e registra pouco.

    [...] a gente teria por obrigao de escrever l no pronturio, como est a

    evoluo do paciente e as ocorrncias, mas nem sempre d tempo.

    [...] eu acho que, para tornar a prtica de enfermagem mais visvel e facilitar o

    registro no sistema de informao, preciso boa vontade. A o principal, ter

    boa vontade.

    [...] juntando aqueles papis no serve de nada, porque no h ali uma

    informao que seja sistematizada, que tenha alguma importncia.

  • 161

    [...] o que a gente precisa realmente primar mais pelos registros, documentar e

    tambm aprofundar mais essas questes.

    As dificuldades apresentadas nesses relatos podem ser assim resumidas:

    % falta um conjunto de dados mnimos em enfermagem para que se possa

    registrar o essencial das aes de enfermagem;

    % h perdas de informaes com o registro manual;

    % existem lacunas no registro das informaes;

    % os profissionais no lem o que a enfermagem registra;

    % h diversidade de instrumentos de registro que subutiliza o pronturio;

    % ilegibilidade dos escritos mdicos;

    % deficincia de pessoal acarretando falta de tempo para o registro;

    % excesso de papis no pronturio;

    % a enfermagem atua muito e registra pouco.

    No obstante as dificuldades apontadas pelos enfermeiros da clnica mdica, eles

    reconhecem a importncia do registro para a prtica de enfermagem. Sentem necessidade

    de um sistema de informao que contemple todos os elementos necessrios prestao de

    cuidados de enfermagem em qualquer que seja a unidade de internao.

    Como se pode observar, as dificuldades provocadas pelo sistema manual de

    registro exigem mudanas de atitude dos enfermeiros, a partir da conscincia de que o

    registro importante. preciso implantar um sistema mais moderno, que apresente

    flexibilidade e conectividade, que melhore o desempenho, oferea segurana e proteo

    aos dados. preciso criar-se uma interface que motive o pessoal de enfermagem a usar o

    sistema com facilidade, integrando o aspecto tcnico com o scio-organizacional.

    C3 - Procurando minimizar as restries ao sistema de informao

    computadorizado

    Esta categoria gera, para os enfermeiros, a percepo de que seus conhecimentos

    em tecnologia e sistemas de informao so superficiais e no lhes do segurana para o

    desenvolvimento do registro eletrnico em enfermagem inerente sua funo. Mediante

    essa percepo, os enfermeiros sentem a necessidade de adquirir conhecimentos que lhes

  • 162

    proporcionem o entendimento das necessidades de informao em enfermagem para usar a

    tecnologia adequada, especialmente, a habilidade para comunicar esse conhecimento para

    outros, atravs do uso de um sistema de informao computadorizado. o que deixam

    transparecer em seus depoimentos:

    [...] mesmo que essas informaes se encontrassem no computador, eu acho que

    no ajudaria. Apesar de ser mais trabalhoso a gente prescrever manualmente, eu

    ainda acho que o computador no iria ajudar muito nisso no, porque ia ser o

    mais restrito possvel.

    [...] muitas enfermeiras no sabem ainda lidar com o computador, por isso

    muito difcil para a gente dizer que utiliza o computador.

    [...] a gente tem um computador na unidade, mas a gente no usa muito ele,

    porque ele s foi colocado aqui para a gente admitir e dar alta ao paciente.

    [...] eu sei que difcil encontrar todas as informaes no computador, por causa

    da complexidade da enfermagem, mas existem coisas que voc tem que registrar.

    Outro fator que causa restrio ao uso do computador pelos enfermeiros,

    conforme seus relatos, o distanciamento do paciente, em virtude do tempo gasto na frente

    do computador para digitar informaes. Obviamente, tem-se claro que os enfermeiros no

    conhecem as ferramentas tecnolgicas (cdigos de barra na identificao do paciente,

    medicamentos e exames, computadores de mo, coletores de dados sem fios para consultar

    pronturios e registrar procedimentos e resultados, mesmo beira do leito do paciente).

    Essas e outras ferramentas podem agilizar a coleta de dados, fazendo com que o

    enfermeiro no perca tempo digitando no computador, visto que esse trabalho pode ser

    feito por um digitador. Essa problemtica pode ser percebida nos seguintes depoimentos:

    [...] eu acho que o computador pode prender um pouco o profissional a ele.

    [...] eu vejo uma dificuldade, o enfermeiro ficar s ligado no computador.

    [...] eu acho que eu perco tempo digitando no computador.

    [...] a gente v o enfermeiro escravizado no computador e s vezes at o paciente

    est precisando de ateno e assistncia e o enfermeiro no tem esse tempo.

  • 163

    A educao permanente e um programa de treinamento em servio podem

    fornecer a motivao para o pessoal de enfermagem responder com atitudes positivas o

    modo de registro de dados por computador.

    D. Conseqncias do Fenmeno 2

    Como conseqncia da percepo dos enfermeiros de que existe uma lacuna entre

    a teoria e a prtica de enfermagem, as condies causais e o contexto em que se inserem,

    bem como as estratgias estabelecidas resultaram na categoria Entendendo o sistema de

    informao como um caminho para a valorizao e o crescimento da enfermagem.

    Os enfermeiros gostariam de ser valorizados como profissionais e acreditam que

    tero o reconhecimento do seu trabalho pelos mdicos, funcionrios, colegas e pela

    sociedade. Tal sentimento tem aflorado nos enfermeiros, mesmo diante de situaes

    adversas da prtica de enfermagem. Eles querem contribuir com seus conhecimentos para

    ajudar o paciente a recuperar a qualidade de vida.

    Com esse propsito, os enfermeiros caminham em direo aos seus objetivos,

    olhando constantemente para si mesmos e avaliando se esto aptos a alcan-los. Esse

    sentimento vivenciado pelos enfermeiros, ao reconhecerem que, apesar das dificuldades,

    a enfermagem tem valor, conforme expressam nos relatos:

    [...] a gente devia dizer o quanto a gente vale, se a gente documentasse tudo isso

    que a gente faz.

    [...] a gente no diz o quanto a gente vale. Ento se agrava mais ainda a

    necessidade de saber o que a gente est produzindo.

    [...] eu estou querendo alguma coisa, eu estou querendo melhorar, querendo

    crescer, querendo oferecer o melhor para o paciente.

    [...] eu acho que a enfermagem tem jeito. Mas, um trabalho rduo e bem longo,

    um trabalho longo, muito longo mesmo.

    [...] a enfermagem tem bons profissionais, tem pessoas qualificadas, tem pessoas

    que estudam, o dia-a-dia est nos ensinando.

  • 164

    [...] o que voc coloca na sua escrita, da que vem a valorizao do nosso

    trabalho. As pessoas podem ver que, realmente, a enfermeira detecta problemas e

    que ela tambm tem suas intervenes.

    [...] a gente tem uma riqueza, tem uma riqueza muito grande, porque a gente est

    ali, direto com o paciente.

    [...] a melhor assistncia vai ser de acordo com a nossa capacidade de

    aperfeioamento, vontade e coeso do grupo.

    Outro aspecto que merece ser destacado que os enfermeiros, ao mesmo tempo

    em que desejam ser valorizados, tambm vem a necessidade de crescimento no meio

    cientfico e no ambiente de trabalho. Esto atentos expanso do conhecimento e

    aplicao de novas tecnologias que tm aberto espaos para o surgimento de especialidades

    em enfermagem. A partir da percepo de que a enfermagem est em constante mudana e

    crescimento, os enfermeiros sentem-se mais estimulados a continuar no caminho

    escolhido, conforme relatam:

    [...] a enfermagem tem gradativamente crescido na conscincia crtica do

    profissional, na fundamentao cientfica.

    [...] a enfermagem hoje tem uma posio diferente, de realmente estudar, de

    questionar com os outros profissionais e isso est trazendo um crescimento muito

    grande.

    [...] a enfermagem vem crescendo nesses ltimos tempos, devido ao

    conhecimento.

    [...] eu quero que a enfermagem cresa mais, enquanto profisso.

    A categoria Entendendo o sistema de informao como um caminho para a

    valorizao e o crescimento da enfermagem representa o alvo desejvel dos enfermeiros

    na superao de diversos obstculos estruturais e humanos. Esses obstculos se originam a

    partir da lacuna entre teoria e prtica e do preparo dos enfermeiros, at o contexto do

    ambiente organizacional com a dificuldade em desenvolver sistemas de informao em

    enfermagem. A Figura 7 uma representao grfica do Fenmeno 2.

  • 165

    Figura 7 - Modelo terico do fenmeno 2: Vendo a lacuna entre teoria e

    prtica no sistema de informao em enfermagem.

    Sentindo que existe uma lacuna entre a teoria e a prtica. Tendo dificuldades com o preparo dos enfermeiros.

    Vendo a relao entre enfermeiro e paciente. Vivenciando a prtica de enfermagem.

    CONDIES CAUSAIS CONTEXTO

    ESTRATGIAS

    Avaliando as dificuldades na prtica de enfermagem. Avaliando as dificuldades com o sistema de registro manual. Procurando minimizar as restries ao sistema de informao computadorizado.

    CONSEQNCIA

    Entendendo o sistema de informao como um caminho para a valorizao e o crescimento da enfermagem.

    FENMENO 2

  • 166

    7.2 Inter-relacionando os fenmenos e descobrindo a categoria central

    Atravs da inter-relao dos dois fenmenos obtidos neste estudo Tentando

    articular os modelos tericos com a prtica de enfermagem para desenvolver sistemas de

    informao e Vendo a lacuna entre teoria e prtica no sistema de informao em

    enfermagem, procuramos integrar as categorias em termos de contexto, condies

    causais, estratgias e conseqncias, para descobrir a categoria central que rena todas as

    outras.

    Os dois fenmenos e seus respectivos componentes, de acordo com o modelo de

    paradigma de Strauss; Corbin (1998), foram reunidos e analisados teoricamente. A anlise

    estabelecida a partir dessa correlao no foi um processo rpido e fcil. Pelo contrrio,

    exigiu muita reflexo, que tomou por base a compreenso da experincia dos enfermeiros,

    suas ligaes e relaes mtuas, a fim de se chegar identificao da categoria central, que

    o cerne deste processo de integrao. Como estratgia para apresentar um modelo terico

    que melhor expresse o entendimento do fenmeno investigado foi elaborado um diagrama,

    ilustrado na Figura 8, apresentada adiante, o qual passamos a descrever.

    A categoria central que rene as outras categorias representada pelo processo

    Buscando a interao teoria e prtica para desenvolver sistema de informao em

    enfermagem. Esse processo apresenta duas dimenses: a formal ou explcita e a informal

    ou tcita. A dimenso explcita caracterizada pela formalizao do conhecimento em

    enfermagem (contedo e raciocnio) e est diretamente relacionada s causas geradoras do

    fenmeno tal qual se apresenta para os enfermeiros. aqui denominada de situao. A

    situao real, especfica, o contexto em que as aes e interaes sociais esto ocorrendo.

    J a dimenso tcita representa o conhecimento capturado da prtica, ou seja, a informao

    informal que permeia a prtica clnica da enfermagem. Est apresentada na Figura 8 como

    sendo as estratgias de ao e as conseqncias para o fenmeno investigado.

    A condio causal est representada pelas categorias Procurando adequar os

    modelos tericos com a prtica de enfermagem; Buscando utilizar os diagnsticos de

    enfermagem; Sentindo que existe uma lacuna entre a teoria e a prtica e Tendo

    dificuldades com o preparo dos enfermeiros. Os enfermeiros demonstraram interesse em

  • 167

    conhecer os modelos tericos e procuram, na medida do possvel, articul-los com a sua

    prtica. Para isso, utilizam o modelo terico da NANDA com seus diagnsticos.

    No entanto, inmeras barreiras tm obstaculizado essa prtica e, assim, emerge o

    sentimento de que existe uma lacuna entre a teoria e a prtica que compromete o preparo

    dos enfermeiros e o processo de trabalho (prtica clnica). Esse contexto est representado

    pelas categorias Vendo a sistematizao como um caminho para desenvolver sistema de

    informao em enfermagem; Vendo a relao entre enfermeiro e paciente e

    Vivenciando a prtica de enfermagem.

    Os enfermeiros tm vivenciado um contexto dinmico na prtica de enfermagem,

    com o advento de novas tecnologias e mtodos de trabalho. A sistematizao percebida

    pelos enfermeiros como um caminho para ultrapassar as barreiras e visualizar a resoluo

    dos problemas da prtica e do sistema de informao em enfermagem. Alm disso, no

    contexto da sistematizao, a relao enfermeiro-paciente possibilita uma prtica social

    humanizada e individualizada.

    Todo esse contexto constitui a vivncia da prtica de enfermagem da Clnica

    Mdica. Como se pode observar, as relaes apresentadas se configuram,

    indubitavelmente, com a situao tal qual se apresenta para os enfermeiros. Assim,

    definindo-se a situao, a causa e o contexto, foi possvel vislumbrar as estratgias de ao

    a serem desenvolvidas e as conseqncias que as interligam.

    Como estratgias, esto representadas, na parte lateral da Figura 8, as categorias

    que manifestam interesse de buscar alternativas que venham fortalecer a interao teoria e

    prtica no sistema de informao em enfermagem. Com esse objetivo, identificamos as

    seguintes categorias: Procurando elementos da prtica de enfermagem para compor um

    sistema de informao; Avaliando as vantagens que o sistema de informao traz para

    a enfermagem; Avaliando as dificuldades na prtica de enfermagem; Avaliando as

    dificuldades com o sistema de registro manual e Procurando minimizar as restries ao

    sistema de informao computadorizado.

    Percebemos, mais uma vez, a inter-relao, pois os enfermeiros procuram

    elementos da prtica de enfermagem, ou seja, o que eles fazem, descrevem e pensam sobre

    os cuidados do paciente e o gerenciamento das informaes. Nesta ao, so avaliadas as

  • 168

    dificuldades vivenciadas na prtica de enfermagem e no sistema de informao manual.

    Tambm so percebidas e avaliadas as restries ao sistema de informao

    computadorizado que pode ser um instrumento de estmulo para superar as dificuldades de

    atuao na instituio.

    Aps terem traado as estratgias de ao, os enfermeiros vem as conseqncias

    que essa ao gera para a sua prtica, representada nas seguintes categorias: Querendo um

    sistema de informao e Entendendo o sistema de informao como um caminho para a

    valorizao e o crescimento da enfermagem.

    Em consonncia com as estratgias fundamentadas nos elementos da prtica, nas

    avaliaes e na tentativa de minimizar as restries ao sistema de informao

    computadorizado, os enfermeiros apontaram caminhos inter-relacionados, demonstrando

    que querem um sistema de informao que seja participativo em seu desenho, alm de

    criativo, porque reconhecem as vantagens que o sistema traz para a prtica de enfermagem.

    Tudo isso significa para eles a busca da valorizao do seu trabalho diante dos

    outros profissionais, da organizao hospitalar e da sociedade. Alm disso, acreditam no

    crescimento da enfermagem, a partir dessas mudanas, concretizando a busca de sua

    realizao e estabilizao profissional que convergem na interao teoria e prtica.

    Obviamente, as conseqncias advindas das estratgias assumidas e a integrao

    dos fenmenos expostos nos levaram a compreender que aquelas categorias apontavam

    para a seguinte categoria central: Buscando a interao teoria e prtica para desenvolver

    sistema de informao em enfermagem. Dessa maneira, todas as categorias foram

    integradas ao fenmeno central. Nesse processo de anlise e integrao, constatamos que

    os enfermeiros procuram, atravs da experincia vivenciada na prtica, diminuir a lacuna

    entre teoria e prtica, fazendo com que tenham aspiraes com relao ao futuro

    profissional.

    O processo mostra que, apesar das limitaes organizacionais e funcionais, os

    enfermeiros querem um sistema de informao que retrate a realidade da sua prtica clnica

    (conhecimento tcito), mas que possa conter elementos do modelo terico (conhecimento

    explcito), adequando-os a um sistema automatizado que contemple o processo de

    enfermagem na sua integralidade.

  • 169

    A categoria central Buscando a interao teoria e prtica para desenvolver

    sistema de informao em enfermagem tambm indica que esta uma deciso

    estritamente individual, tendo pouca ou nenhuma influncia da organizao que, se no

    estimula, tambm no desestimula. Os enfermeiros percebem que podem procurar um

    caminho, atravs do processo de sistematizao, que os conduza a concretizar o

    desenvolvimento de um sistema de informao que proporcione segurana e satisfao no

    exerccio da prtica de enfermagem.

    Por outro lado, em nvel social, esse processo mostra a vontade dos enfermeiros

    de crescer e sentir-se valorizados junto sociedade, de modo que possam concretizar suas

    metas profissionais, tornando-as socialmente significativas. Neste sentido, o desejo de

    crescer e ser valorizado est integrado no processo Buscando a interao teoria e prtica

    para desenvolver sistema de informao em enfermagem. Essa interao permite tornar

    visvel o conhecimento invisvel que s existe em nvel tcito e que est baseado no

    processo de trabalho da enfermagem. A interao teoria e prtica significa, para os

    enfermeiros, a maneira pela qual eles podem tentar reduzir a lacuna entre a teoria e a

    prtica no sistema de informao. Assim, os enfermeiros buscam um sistema de

    informao que seja guiado por um corpo de conhecimento terico derivado da teoria

    embutida na prtica clnica.

    Em resumo, a categoria central Buscando a interao teoria e prtica para

    desenvolver sistema de informao em enfermagem ao, conseqncia e processo. Ela

    significa um caminho a seguir em direo valorizao e ao crescimento da enfermagem.

    Portanto, ser interpretada na perspectiva interacionista, no captulo seguinte.

  • 170

    TENTANDO ARTICULAR OS MODELOS FORMAIS COM A PRTICA DE ENFERMAGEM PARA

    DESENVOLVER SISTEMAS DE INFORMAO

    VENDO A LACUNA ENTRE TEORIA E PRTICA NO SISTEMA DE INFORMAO EM ENFERMAGEM

    Figura 8 - Descobrindo a categoria central: Buscando a interao teoria e prtica para desenvolver sistema de informao em enfermagem.

    CONDIES CAUSAIS

    ! Procurando adequar os modelos formais com a prtica de enfermagem.

    ! Buscando utilizar os diagnsticos de enfermagem.

    ! Sentindo que existe uma lacuna entre a teoria e a prtica.

    ! Tendo dificuldades com o preparo dos enfermeiros.

    CONTEXTO

    ! Vendo a sistematizao como um caminho para desenvolver sistemas de informao em enfermagem.

    ! Vendo a relao entre enfermeiro e paciente.

    ! Vivenciando a prtica de enfermagem.

    ESTRATGIAS Procurando elementos da

    prtica de enfermagem para compor um sistema de informao.

    Avaliando as dificuldades na prtica de enfermagem.

    Avaliando as dificuldades com o sistema de registro manual.

    Procurando minimizar as restries ao sistema de informao computadorizado.

    Avaliando as vantagens que o sistema de informao traz

    CONSEQNCIAS Querendo um sistema de

    informao. Entendendo o sistema de

    informao como um caminho para a valorizao e o crescimento da enfermagem.

    BUSCANDO A INTERAO TEORIA E PRTICA PARA DESENVOLVER SISTEMA DE INFORMAO EM ENFERMAGEM

    DIM

    EN

    S

    O IN

    FO

    RM

    AL/T

    C

    ITA

    DIM

    EN

    S

    O F

    OR

    MA

    L/

    EX

    PLC

    ITA

  • 171

  • 172

    8.1 Indo em busca da teorizao

    O objetivo deste captulo analisar os dados apresentados no captulo anterior,

    tendo como base terica o interacionismo simblico, a fim de compreender o processo

    Buscando a interao teoria e prtica para desenvolver sistema de informao em

    enfermagem. Antes de iniciar essa teorizao, preciso destacar que o interacionismo

    simblico envolve uma srie de conceitos. No entanto, este estudo no tem a inteno de

    explorar todos, procurando deter-se naqueles que podem ter alguma relao com os dados

    e a anlise realizada.

    Para essa discusso, tomamos por base o pensamento de Blumer (1969), no que se

    refere interao simblica, conforme descrita no captulo II deste estudo. Na perspectiva

    interacionista, o significado assume papel central no prprio processo social. Assim sendo,

    a interpretao consciente a nfase dada concepo interacionista do significado. Nesse

    sentido, para se interpretar a ao humana, preciso partir da posio do ator, ou seja, ver

    a situao como ele a v, perceber o objeto como ele o percebe, identificando seu

    significado, conforme o significado que aquele objeto tem para o ator e seguindo a linha de

    conduta organizada por ele.

    Ao se entrar nesse contexto, preciso estar no papel do ator e ver seu mundo do

    ponto de vista dele (BLUMER, 1969). Assim, o significado que as pessoas atribuem s

    suas experincias, bem como o processo de interpretao, so elementos essenciais e

    construtivos para entender suas aes e identificar o mundo de seus objetos. Para tanto,

    elas so preparadas para agir de acordo com o significado que atribuem aos objetos que

    compreendem o seu universo.

    Com base na orientao interacionista, buscamos entender a ao dos enfermeiros

    diante da relao teoria e prtica no sistema de informao em enfermagem.

    Necessariamente, importante ver os objetos da maneira como so vistos pelos prprios

    enfermeiros. Portanto, tentamos, a partir desses princpios, compreender o agir dos

    enfermeiros em relao ao fenmeno central: Buscando a interao teoria e prtica para

    desenvolver sistema de informao em enfermagem. No desenvolvimento desse processo,

    sero preservadas as falas dos enfermeiros, interpretando-as e tentando-se visualizar a

    situao tal como ela aparecia para os enfermeiros, observando-se tudo aquilo que

  • 173

    consideram importante e anotando-se a forma como descrevem e interpretam as aes

    pretendidas.

    8.2 Discutindo o processo de ao e interao

    O processo desenvolvido para entender a relao teoria e prtica em enfermagem

    no sistema de informao conduziu a situaes que se inter-relacionam, dentro da viso de

    mundo dos enfermeiros, vivenciado a partir da experincia desses profissionais. Assim

    sendo, partiu-se da compreenso de que o processo Buscando a interao teoria e prtica

    para desenvolver sistema de informao em enfermagem est integrado, conforme Figura

    9, aos seguintes elementos: ao contexto organizacional, ao conhecimento (terico-prtico)

    e ao sistema de informao. Esses elementos sero analisados a seguir.

    Figura 9 - Elementos integrados ao desenvolvimento de sistemas de informao

    8.2.1 O contexto organizacional

    Uma organizao deve ser interpretada como um sistema complexo, com

    inmeros subsistemas interdependentes. No macroambiente organizacional, existe um

    conjunto de pessoas que formam uma sociedade onde ocorrem as interaes. Nessa

    sociedade, os enfermeiros esto interagindo, trocando informaes, interpretando,

    dirigindo e controlando o self, definindo e alterando a direo dos atos um do outro.

    Portanto, a organizao no se constitui de uma entidade isolada ou estanque,

    principalmente, no hospital em que os enfermeiros formam um corpo social que est

    INTERAOConhecimento

    explcito Conhecimento

    tcito

    Organizao

    Sistema de informao

  • 174

    constantemente interagindo, construindo e reconstruindo um processo social, ao lidarem

    com a interdisciplinaridade, em que os significados so tambm socializados.

    Assim, na complexa organizao hospitalar, particularmente no HULW, os

    enfermeiros interagem uns com os outros como se estivessem num cenrio de dificuldades

    e no numa organizao racional. Esta viso gera a impresso de que a idia de se

    implantar um sistema de informao, nesse contexto, onde ocorrem as interaes sociais,

    problemtica, uma vez que a informao est fundamentada no significado.

    Na perspectiva organizacional para desenvolver sistema de informao em

    enfermagem, conforme mostra a Figura 9, os enfermeiros atribuem intersubjetivamente

    significados ao mundo e so capazes de construir uma viso de informao concernente

    sua realidade social. Tais manifestaes relativas ao contexto organizacional podem ser

    utilizadas para uma melhor interpretao e para dar um significado a algumas

    complexidades do mundo vivenciado pelos enfermeiros. Esta interpretao pode

    desencadear aes e interaes entre esses setores.

    Desta forma, a organizao, passa de objeto fsico a objeto social, a partir do

    momento em que os enfermeiros constroem a realidade organizacional por intermdio de

    processos de poder e de intervenes simblicas, que manipulam, a comear de sua ao.

    Dentro desse processo, interpretam as demandas, atravs das definies dos objetos, de tal

    maneira que podem fortalecer ou abalar a ordem estabelecida. De acordo com Checkland;

    Holwell (1998), a organizao deve ser vista como um processo social onde o mundo

    interpretado de forma que reconhea como legtimas as aes participativas que

    estabelecem normas e padres sociais compartilhados. Portanto, no se podem discutir

    sistemas de informao sem enfocar o contexto organizacional.

    8.2.2 O conhecimento (terico-prtico)

    Na organizao hospitalar, os enfermeiros assumem muitas atribuies e trazem

    consigo um complexo conhecimento de trabalho. Antes de analisar essa questo, preciso

    fazer as seguintes observaes: o conhecimento diz respeito a crenas e compromissos,

    sendo uma funo de atitude, perspectiva ou inteno especfica; o conhecimento est

    relacionado ao, com algum objetivo; o conhecimento diz respeito ao significado, sendo

    relacional e especfico ao contexto (NONAKA; TAKEUCHI, 1997).

  • 175

    Desta forma, a complexidade do conhecimento de enfermagem reflete-se nas

    tarefas associadas, como o processamento da informao, nas quais se incluem a

    acumulao de dados, uso de informao, aplicao do conhecimento no trabalho e os

    novos conhecimentos em geral. Nesse sentido, para que possam desempenhar efetivamente

    seu papel, os enfermeiros se apiam no ambiente da prtica clnica para interpretar os

    eventos ou objetos, tornando visveis os significados antes invisveis na sua funo de

    aplicadores do conhecimento. Por isso, o conhecimento em enfermagem est

    essencialmente relacionado com as aes de enfermagem.

    O conhecimento em enfermagem criado pelos prprios enfermeiros e depende

    do contexto organizacional em que est inserido. Entretanto, temos observado uma lacuna

    entre a teoria (conhecimento explcito) e a prtica clnica (conhecimento tcito). A

    natureza da lacuna entre a teoria e a prtica em enfermagem tem sido uma grande

    preocupao para os enfermeiros assistenciais, pesquisadores e profissionais engajados em

    educao e treinamento de pessoal. O propsito explorar em que nvel a prtica reflete a

    teoria e como minimizar os problemas associados com a disfuno da relao teoria e

    prtica. Os enfermeiros trazem consigo um vasto conhecimento formal e vo, ao longo do

    tempo da vivncia prtica, adquirindo conhecimentos, a partir de suas prprias

    experincias, de forma que eles podem saber mais do que admitem. Portanto, o

    conhecimento depende do contexto scio-organizacional e da interao teoria e prtica.

    O conhecimento tcito e o explcito no so totalmente separados, mas

    mutuamente complementares. Como opera nas duas direes, essa interao chamada de

    converso do conhecimento e constitui um processo social (NONAKA; TAKEUCHI,

    1997). A interao teoria e prtica em enfermagem o caminho para desenvolver sistemas

    de informao com base nas seguintes suposies:

    % a teoria algo que deve ser usado ou integrado dentro da prtica;

    % a prtica tem um conhecimento potencial para completar ou quase

    completar a integrao com a teoria.

    Na interao teoria e prtica, a teoria deve estar voltada diretamente para a prtica,

    enquanto as aes da prtica tm a funo de testar a teoria. Benner; Wrubel (2001), com

    base na tradio descritivo-interpretativa, afirmam que a excelncia da prtica est

  • 176

    embutida na prtica em si e que a teoria derivada da prtica. Afirmam tambm que a

    prtica um ato social e no meramente uma cincia aplicada. Portanto, a caracterizao

    do conhecimento em enfermagem um processo de viso que tem por base uma

    epistemologia interpretativa, em que a teoria necessria para descrever, interpretar e

    explicar a prtica.

    8.2.3 Sistema de informao

    Tomando-se por base a Figura 9, o sistema de informao em enfermagem deve

    ser entendido como um processo complexo que envolve estudos tcnicos, organizacionais,

    comportamentais e ambientais. A integrao do sistema dentro da prtica e do processo de

    enfermagem refere-se a muitos fatores como educao, mudanas de atitudes, cultura

    organizacional, padronizao da linguagem e prtica sistematizada, exceto a tecnologia. Na

    opinio de Goossen; Epping; Abraham (1996), o sistema de informao em enfermagem

    no somente um software ou um hardware. Mais do que isso, envolve pessoas, estrutura

    organizacional e processos que permitem a coleta de dados, o processamento e o uso

    racional da informao.

    Nessa perspectiva, os enfermeiros da clnica mdica e pesquisadores tentam

    desenvolver um sistema de informao usando a metodologia tradicional e ignorando o

    complexo contexto organizacional e social que os envolve. Na realidade, os enfermeiros,

    assim como os demais profissionais de sade e as pessoas em geral, tm pouco

    conhecimento em tecnologia e sistemas de informao e acreditam que a tecnologia, por si

    s, a soluo para todos os problemas.

    H uma m interpretao na definio de tecnologia, que vista, geralmente,

    como o computador e seus programas. A Organizao Pan-Americana de Sade define

    tecnologia da informao como um conjunto de conhecimentos tcnicos e tarefas, que tem

    o objetivo de satisfazer as aplicaes dos usurios. Envolve a criao, a direo e o

    suprimento de recursos tecnolgicos (hardware, software e comunicao), necessrios para

    o desenvolvimento e a operao de aplicaes documentais de uma organizao (PAHO,

    2001).

    Para Rodrigues Filho (2001), a tecnologia est voltada para um mercado onde as

    pessoas so convidadas a adaptar-se a ela, em vez de irem procurar outras formas que

  • 177

    podem ser adequadas. Em outras palavras, a tecnologia deve ir ao encontro das

    necessidades das pessoas, beneficiando-as no seu bem-estar e na qualidade de vida. Essa

    abordagem sugere que a tecnologia usada no desenvolvimento do sistema de informao

    deva ter uma configurao sciotcnica. Isso pressupe um enfoque tanto emprico-

    analtico como fenomenolgico-hermenutico, alm de uma viso de mundo socialmente

    determinada pela experincia vivenciada na prtica.

    Assim, para que se possa estabelecer a interao teoria e prtica no sistema de

    informao em enfermagem, indispensvel a participao dos enfermeiros no processo de

    desenho do sistema. Para tanto, eles devem considerar o que est acontecendo na prtica

    em termos de definio, interpretao, significado, conhecimentos baseados no trabalho,

    objetos, comunicao, smbolos, processos e comportamento social. Vale salientar que a

    interao da organizao e do conhecimento (tcito/explcito) com o sistema de

    informao supe a captura e o processamento de dados de enfermagem com ampla

    densidade de detalhes. Essa medida permite o estabelecimento de um registro longitudinal

    do indivduo, que pode ser desenvolvido atravs de sistemas computadorizados e do

    registro eletrnico do paciente.

    8.3 Indo em busca do significado do processo

    Inicialmente, importante apontar algumas concepes tericas para que se possa

    entender o processo a partir do referencial interacionista. Nesse aspecto, deve-se partir da

    idia de que as coisas tm um significado para as pessoas. Este um aspecto bsico; o

    ponto inicial para o entendimento de qualquer comportamento que se deseje investigar.

    Desconsiderar esse princpio falsificar o comportamento pretendido, segundo Blumer

    (1969).

    As premissas relacionadas ao significado esto expostas no captulo II deste

    estudo. Todos os conceitos vistos anteriormente surgem da interao social e so parte

    dela. A interao social constituda a partir da ao social. A ao interpretada como

    social, quando as pessoas so levadas em considerao, ou seja, quando nossas aes so

    orientadas pelo que os indivduos fazem numa situao, porque eles so considerados

    objetos sociais. Dupas (1997) afirma que a ao social significa o seguinte: o que o ator faz

    envolve outra pessoa ou pessoas. Para que ela seja simblica, deve haver comunicao, que

  • 178

    pode ser manifestada em forma de palavras ou atos que expressem quem somos ns e o

    que pensamos.

    preciso esclarecer que a interao simblica abrange a interpretao e a

    definio, ocorrendo em e entre as pessoas envolvidas, fazendo com que haja mudanas,

    dependendo da adaptao que ocorre nas aes dos atores envolvidos. Assim sendo, o que

    os atores fazem depende, em parte, do que os outros fazem na mesma situao.

    interessante observar que, as pessoas no so a causa do que ns fazemos. Ns interagimos

    com elas e essa interao que determina o que fazemos (BLUMER, 1969).

    Portanto, o significado dos objetos para as pessoas no obra do acaso. Pelo

    contrrio, ele se forma atravs da interao social que o indivduo estabelece consigo

    mesmo e com as outras pessoas. Em nossa opinio, a experincia humana mediada pela

    interpretao. Nessa perspectiva, Bogdan; Biklen (2003) enfatizam que o significado

    atribudo pelas pessoas s suas experincias, assim como os processos de interpretao, so

    elementos fundamentais e indispensveis para se compreender o significado necessrio

    captao das definies e dos processos que esto subjacentes construo destes.

    Desta forma, os enfermeiros agem e atuam no contexto hospitalar, de acordo com

    o significado que os objetos sociais tm para eles. Esse significado formado atravs da

    interao com os diversos grupos com os quais os enfermeiros tm contato ou por

    intermdio de indivduos que so significantes. Os significados de um objeto podem ser

    diferentes para diferentes indivduos, e a ao em torno desse objeto se diversificar

    conforme variam os significados. Entretanto, eles no so imutveis, pois podem ser

    modificados ou transformados atravs da interao social (CASSIANI, 1994). Neste

    estudo, constatamos que alguns enfermeiros, inseridos num contexto de trabalho

    exatamente igual, viam o mesmo objeto de forma diferente, quando faziam afirmativas do

    tipo:

    [...] o diagnstico aquilo que a gente j faz e no sabe que o diagnstico de

    enfermagem na realidade.

    [...] os diagnsticos de enfermagem a gente no aplica.

  • 179

    Essa diferente interpretao interfere na ao dos enfermeiros em relao ao

    objeto ou sistema de classificao da prtica de enfermagem. Isso pode ser um meio de

    explicar o interesse ou no de desenvolver a sistematizao da assistncia. Tais definies

    foram construdas a partir da viso de cada um. Convm destacar que, nesse caso, o

    significado que tudo isso tem para os enfermeiros influencia no seu comportamento.

    Buscar conhec-lo nos parece uma forma de compreender as suas aes.

    A esse respeito, Blumer (1969) afirma que o sentido das coisas derivado, ou se

    origina, da interpretao social que o indivduo estabelece consigo mesmo e com os outros.

    No caso do exemplo anterior, a definio de diagnstico de enfermagem que os

    enfermeiros manifestaram estabelece uma relao com a viso que eles tm de si mesmos,

    dos diagnsticos e da interao com os outros. possvel que haja vrias pessoas que

    pensem da mesma forma daqueles que tenham influenciado e, por sua vez, recebido a sua

    influncia, conforme se depreende desse depoimento:

    [...] a gente est comeando, caminhando devagarzinho, at poder introduzir o

    sistema de diagnstico, para poder fazer o processo de enfermagem como tal e j

    pensar em colocar esses dados no computador.

    Como se observa, h interesse dos enfermeiros em caminhar na direo de um

    sistema que facilite o processo de enfermagem. Esse outro significado tambm

    compartilhado pelos auxiliares de enfermagem. Portanto, no importa a maneira como os

    enfermeiros agem em relao aos diagnsticos; de uma forma ou de outra, eles reconhecem

    que a sistematizao do cuidado de enfermagem conduzir a resultados positivos.

    importante ressaltar que a interao no ocorre somente entre os enfermeiros, mas tambm

    dentro deles. Por isso, para Blumer (1969), os significados so manipulados e modificados

    atravs de um processo interpretativo usado pela pessoa ao lidar com as situaes que ela

    encontra.

    Nesta abordagem, destacamos um importante conceito para nossa anlise: o

    processo de interpretao. Neste, o indivduo visualiza um objeto em dois momentos

    distintos: no primeiro, indica para si mesmo as coisas em relao s quais ele est agindo,

    isto , interage consigo mesmo; no segundo, interpreta os significados luz da situao na

    qual est agindo (HAGUETTE, 1990). Ao fazer essas interpretaes, o indivduo est

  • 180

    interagindo consigo mesmo, atravs de um processo social internalizado, denominado de

    self.

    Quando manifesta que est caminhando devagarzinho, o enfermeiro tem

    expectativas de alcanar a excelncia no trabalho. Por isso, age de acordo com o

    significado que atribui ao modelo terico representado pelos diagnsticos de enfermagem e

    a sistematizao da assistncia. Assim, o interesse manifestado pelos enfermeiros em

    caminhar na direo de uma prtica sistematizada d-se porque acreditam no potencial que

    a enfermagem tem para desenvolver esse tipo de atividade.

    O processo de interpretao ocorre quando a pessoa interpreta os significados e

    trabalha com eles. Nesse momento, seleciona, confere, reagrupa e modifica o significado,

    luz da situao em que est inserida. Isso significa que, aps a interpretao e comunicao

    consigo mesma, a pessoa transforma o significado das coisas atravs da ao. Para o

    enfermeiro, o significado da interao teoria e prtica no sistema de informao em

    enfermagem surge atravs de um processo de interao que indica a si mesmo as coisas

    que tm ou no sentido para o sistema. O enfermeiro interpreta este significado sob a

    perspectiva da sua situao e direciona a sua ao, atravs de um processo social

    internalizado. Nesse caso, constri uma linha ou direo, luz dessa interpretao, ou

    seja, ele busca recursos para conseguir o seu intento ou ficar como est, se estiver

    desinteressado.

    Segundo Blumer (1969), a pessoa um organismo atuante que est sempre

    lidando com situaes, a partir do significado que determinado objeto tem para ela. Age

    com base na interpretao da situao em que est inserida. E assim, define as coisas que

    devem ser levadas em conta, as avalia e toma decises sobre sua linha de ao. Portanto, as

    aes s tm sentido a partir do significado do objeto para a pessoa que influencia na

    formao do comportamento, fazendo indicaes aos outros e a si mesma, e interpretando-

    as.

    8.4 Construindo o processo

    A trajetria da experincia vivenciada pelos enfermeiros foi identificada nos

    dados com o referencial terico escolhido. Alm disso, aqueles conceitos relacionados com

    a ao trazem uma compreenso profunda para os achados. Neste estudo, definimos a

  • 181

    categoria central Buscando a interao teoria e prtica para desenvolver sistema de

    informao em enfermagem como um processo de ao a partir da definio e

    interpretao da situao organizacional, da dimenso do conhecimento tcito/explcito e

    do sistema de informao.

    Para descrever o que acontece na interao, Charon (1989) aponta os elementos

    mais compreensivos ao processo que trata da ao humana, o qual est esquematizado na

    Figura 10. Descrevendo essa interao, Mead (1977) identificou quatro estgios na ao

    humana. Esses estgios foram levados em considerao para melhor compreender o

    processo Buscando a interao teoria e prtica para desenvolver sistema de informao

    em enfermagem.

    Estgio 1: o impulso - Mead sugere que o ato comea com o organismo em

    estado de desequilbrio. H um desconforto relacionado ao comportamento e uma

    ativao atravs da interrupo. O impulso uma disposio generalizada para agir, mas

    no determina a direo do ato; apenas indica haver algum tipo de ao.

    Estgio 2: a percepo - Nesse estgio, os indivduos definem sua situao,

    procuram estmulos externos (objetos), notam e definem aspectos do ambiente que podem

    ser usados para alcanar os seus objetivos para aquela situao. Para tanto, procuram

    alguma coisa em toda a situao. Os objetos so vistos pelos indivduos como teis ao que

    procuram e, conseqentemente, agem em direo a ele. Os indivduos agem num mundo de

    significados, num mundo de objetos, especialmente do objeto social, que definido de

    acordo com seu uso pelos objetivos definidos numa situao.

    Estgio 3: a manipulao - Nele, os atores manipulam seu ambiente, agem e

    entram em contato com aspectos relevantes, usando os objetos de acordo com os

    propsitos que foram definidos para si mesmos. Os atores manipulam as coisas e as

    pessoas pela aparncia fsica, pela conversa, pelos escritos ou at mesmo pelas

    transgresses.

    Estgio 4: a consumao - o ato final onde o objetivo alcanado e o

    equilbrio restaurado, embora seja por um momento apenas. Os atos nem sempre so

    consumados, uma vez que a pessoa pode comear outro ato antes que o anterior termine.

    o que acontece quando focaliza sua ateno sobre alguma outra coisa ou se desvia da

  • 182

    seqncia da ao. Aps a consumao, acontece outra seqncia de impulso - percepo e

    definio, manipulao e consumao - dando continuidade linha de ao.

    A importncia da descrio de Mead (1977) est no fato de que a atividade

    humana percebida, definida e manipulada em seu ambiente para alcanar objetivos. No

    mbito do presente estudo, essa abordagem pertinente para a anlise e a compreenso do

    significado do processo Buscando a interao teoria e prtica para desenvolver sistema

    de informao em enfermagem.

    Figura 10 - Esquema do processo da ao humana (CHARON, 1989)

    Determina objetivos.

    Aplica perspectivas de grupos de referncia e de outros significantes.

    V-se no lugar do outro na situao.

    Destaca, aponta, define para o self os objetos na situao.

    Aplica as experincias passadas.

    Considera o futuro.

    V o self na situao.

    A ENTRADA DO ATOR NA SITUAO

    Elementos que definem a situao para a pessoa: self, pensamento, smbolos, perspectivas, outros significantes, grupos de referncia, habilidade de colocar-se no lugar do outro, memrias do passado.

    O ATOR DEFINE A SITUAO PARA O SELF

    O ATOR DETERMINA A LINHA DE AO EM DIREO AO OBJETO (INCLUINDO

    OUTROS ATORES)

    O ATOR AGE PUBLICAMENTE (UM ATO SOCIAL)

    Os outros do significado ao ato pblico do ator, de acordo com suas perspectivas e definem a situao (inclui assumir o papel do outro).

    Os outros determinam a linha de ao.

    Os outros agem publicamente (atos sociais).

    O ATOR INTERPRETA OS ATOS DOS OUTROS E AVALIA OS PRPRIOS ATOS LUZ DOS ATOS DOS OUTROS (DETERMINA O QUE ELES SIGNIFICAM, REPRESENTAM) - A INTERPRETAO BASEADA NO ASSUMIR O PAPEL DO OUTRO NA SITUAO.

    O ATOR REVISA AS SUAS PERSPECTIVAS, A DEFINIO DA SITUAO E A DIREO DA LINHA DE AO.

  • 183

    8.5 Interpretando o processo luz do interacionismo simblico

    O processo Buscando a interao teoria e prtica para desenvolver sistema de

    informao em enfermagem luz do interacionismo simblico, conforme mostra a Figura

    9 no final deste captulo, apresenta os quatro estgios da ao humana, propostos por Mead

    (1977): o impulso (entrada da situao); a percepo (definio da situao); a

    manipulao (a ao) e a consumao (conseqncias). A seguir sero analisados, por meio

    de conexes, os estgios do processo.

    Estgio 1: o impulso (entrada da situao)

    O primeiro elemento a destacar na interpretao o impulso para agir, revelado

    no estgio 1, ou seja, a entrada da situao. Tomando-se por base o diagrama apresentado

    na Figura 11, percebe-se que o enfermeiro entra na situao, exercendo seu papel com um

    self. Com isso, passa a ter metas, grupos de referncia e outros significantes, influenciando

    e recebendo influncias, atravs das aes e das interaes no trabalho. O enfermeiro

    manifesta certo desequilbrio causado pela situao, embora a princpio no desenvolva

    qualquer ao. Esse estgio caracterizado pelas categorias Procurando adequar os

    modelos formais com a prtica de enfermagem; Buscando utilizar os diagnsticos de

    enfermagem; Sentindo que existe uma lacuna entre a teoria e a prtica e Tendo

    dificuldades com o preparo dos enfermeiros.

    Os enfermeiros definem o modelo terico como sendo o sistema de diagnstico de

    enfermagem da NANDA. Os dados reunidos nessas categorias revelam que os enfermeiros

    procuram aplicar e utilizar esse modelo na prtica clnica. Entretanto, no conseguem

    trabalhar de modo sistematizado com todos os elementos do processo de enfermagem

    (histrico, diagnstico, intervenes e resultados), por se sentirem desmotivados,

    sobrecarregados, desvalorizados e inquietos. Tais sentimentos so exteriorizados pelos

    enfermeiros ao manifestarem que existe uma lacuna entre a teoria e a prtica em

    enfermagem.

    Diante dessa realidade, no se pode deixar de considerar a maneira como eles

    vem, definem e julgam a situao. Nessa atitude, percebem as dificuldades existentes com

    o preparo dos enfermeiros, ou seja, eles vem a si mesmos enfrentando dificuldades com a

    prtica de enfermagem, em virtude de tentarem articular os modelos tericos na prtica.

  • 184

    Porm, no conseguem, por causa da lacuna entre o que aprenderam (conhecimento

    explcito) e o que fazem (conhecimento tcito). Essa percepo est evidenciada nos

    seguintes relatos:

    [...] se fez um curativo, uma injeo, ajudou o paciente a se alimentar, fez um

    banho no leito, ento a se encerra a atividade de enfermagem. Mas no bem

    por a, a gente quer muito mais que isso.

    [...] a teoria ns temos que colocar em prtica para que, a partir da, os que forem

    se formando passem a ver uma prtica.

    Tais percepes sugerem uma dependncia nas definies sociais que so

    encontradas na vida profissional ou pessoal do enfermeiro. Alm disso, o self, que a

    perspectiva dos grupos de referncia, utilizado pelo enfermeiro como um quadro de

    referncia na organizao de sua rea perceptual. importante destacar que o enfermeiro,

    assim como qualquer pessoa, se relaciona com vrios grupos sociais, na famlia, no

    trabalho e entre amigos. As perspectivas desses grupos influenciam na definio da

    situao. No Hospital Universitrio, conforme se observou os grupos de referncia com os

    quais o enfermeiro se relaciona lhe so significantes: so os companheiros de trabalho, as

    chefias de clnica e de diviso, o pessoal mdico e os outros profissionais da sade.

    No entanto, a percepo que o enfermeiro tem de alguns de seus colegas da

    enfermagem a de que eles no demonstram interesse em atualizar seus conhecimentos,

    inovar a prtica clnica, participar de grupos de estudos que contribuam para o

    desenvolvimento de sistema de informao e melhoria da qualidade assistencial da prtica

    de enfermagem, entre outras atividades que podem propiciar o crescimento profissional.

    So pessoas apticas, que no acreditam na instituio em que trabalham, nem na prpria

    enfermagem, de forma que no se pode contar com o apoio desses profissionais.

    Ao definirem sua perspectiva em relao a alguns colegas, os enfermeiros tambm

    apontam outros que formam um grupo atuante na organizao, especialmente em termos

    de estudos e viso profissional. Esse grupo responde positivamente aos estmulos externos

    e internos, quanto melhoria nos sistemas e na qualidade do cuidado de enfermagem.

    Trata-se de elementos importantes porque podem assumir outro significante para o

    enfermeiro. Nesse sentido, observamos que os enfermeiros estimulados interagem com o

  • 185

    grupo de estudo da sistematizao que se rene periodicamente para discutir temas de sua

    prtica clnica. Isso, para eles, significante porque v a perspectiva de continuar

    estudando contedos a partir da experincia vivenciada na prtica (prxis).

    interessante notar que os docentes dos Departamentos de Enfermagem da UFPB

    tambm interagem com o grupo de enfermeiros, ministrando aulas a partir das

    necessidades sentidas por eles. Alm disso, realizam estgios com os estudantes de

    enfermagem no prprio campo de atuao do enfermeiro, na tentativa de minimizar a

    lacuna entre teoria e prtica em enfermagem. Contudo, esses professores no so

    considerados o outro significante para os enfermeiros, uma vez que sua participao na

    clnica no contnua e tambm porque no se submetem hierarquia organizacional do

    hospital. o que expressa uma enfermeira assistencial neste depoimento:

    [...] o enfermeiro-docente tem tempo para pesquisar, disponibilidade e condies

    para produzir o que cientfico na enfermagem e no na assistncia.

    Na percepo do enfermeiro, o docente apenas um elemento facilitador para o

    ensino e a pesquisa clnica em enfermagem. Ele no atua plenamente na rotina assistencial

    vivenciada pelo enfermeiro, ou seja, o docente est envolvido com o grupo, mas no faz

    parte da equipe.

    Estgio 2: a percepo (definio da situao)

    A definio da situao o momento no qual o enfermeiro percebe em que

    contexto se encontra. V que a organizao no oferece muitas possibilidades de mudanas

    e entende que ele mesmo tem que buscar os resultados. Esse estgio caracterizado pelas

    seguintes categorias: Vendo a sistematizao como um caminho para desenvolver

    sistemas de informao em enfermagem; Vendo a relao entre enfermeiro e paciente;

    Vivenciando a prtica de enfermagem. Assim, o enfermeiro define a sua situao para o

    self.

    Na opinio de Haguette (2003), a definio da situao preliminar a qualquer ato

    do comportamento autodeterminado e supe um estgio de exame e deliberao. Charon

    (1989) considera a definio da situao como a soma das informaes relevantes,

    reconhecidas pelo ator para a localizao de si mesmo e dos outros, de forma que possa se

  • 186

    engajar numa determinada linha de ao e interao. Esse estgio ocorre internamente,

    com o exerccio das experincias vivenciadas no passado e a perspectiva de futuro, dentro

    dos grupos de referncia em relao s metas estabelecidas, assim como dos outros

    significantes. Portanto, tendo entrado na situao ou contexto, o enfermeiro percebe

    claramente a relao entre a situao que est vivenciando e suas perspectivas pessoais.

    Ao tentar definir a situao, o enfermeiro utiliza-se de um artifcio a que se pode

    denominar de background(). Por essa razo, existem trs diferentes definies para uma

    mesma situao. Todavia, as divergncias existentes na definio da situao tm relao

    entre si, quando se focaliza o contexto da enfermagem na Clnica Mdica do Hospital

    Universitrio. Nesse aspecto, pode-se observar que a sistematizao da assistncia est

    diretamente vinculado relao enfermeiro-paciente que, por sua vez, constitui a prtica de

    enfermagem. Logo, a interao desses elementos fundamental para se entender o

    contexto da situao.

    Quando se insere na situao, o enfermeiro passa a viver uma realidade pessoal e

    social, que desenvolvida a partir das interaes estabelecidas pelo ambiente

    organizacional que o leva a interpretar os atos e os objetos sociais. Assim, quando define

    que a sistematizao o caminho para desenvolver sistemas de informao, o enfermeiro

    interpreta a situao que est vivenciando, independentemente de como esteja funcionando

    o sistema. Nesse caso, ele considera a situao fundamental para transformar a realidade da

    prtica de enfermagem. Ao definir a situao para a relao enfermeiro-paciente, o

    enfermeiro est categorizando uma relao na qual est envolvido diretamente, que a

    assistncia de enfermagem. Essa situao encontra-se implcita nele e todas as suas

    decises e aes esto voltadas para este referencial.

    Quando define a situao Vivenciando a prtica de enfermagem, o enfermeiro

    acrescenta seu ponto de vista pessoal, e sua concepo de mundo para a prtica clnica e

    gerencial da enfermagem. Nesse sentido, estabelece para si objetivos e aplica a perspectiva

    de um outro significante ou grupo de referncia que podem ser relevantes na situao.

    vivenciando a prtica de enfermagem que o enfermeiro se define, ou seja, exterioriza o que

    est fazendo e acontecendo na situao em que se encontra em relao ao self, sendo capaz

    de se julgar perante a situao. Em outras palavras, identifica-se vivenciando a prtica de () Acontecimento que explica fatos posteriores; ltimo plano de uma perspectiva.

  • 187

    enfermagem e interpreta o que est vivendo. Relembra experincias passadas em situaes

    parecidas e define o futuro, conforme se pode inferir desse relato:

    [...] a enfermagem uma profisso do futuro e vai ficar muito mais ainda se ela

    tiver na sua prtica usando a ferramenta que a sociedade hoje mais utiliza para

    ser veloz nas suas respostas, veloz na ao.

    Na dinmica da vivncia prtica, o enfermeiro vai definindo e interpretando seu

    prprio contexto para construir sua linha de ao. Neste ponto, nosso estudo converge com

    o pensamento de Blumer (1969), quando afirma que o importante que o indivduo esteja

    construindo sua linha de ao, ao invs de receber indiferentemente as aes determinadas

    por outrem.

    Assim, ao se construir teoricamente o processo Buscando a interao teoria e

    prtica para desenvolver sistema de informao em enfermagem, uma reflexo gerou o

    seguinte questionamento: At que ponto o enfermeiro, ao definir sua situao, tem uma

    atitude que o predisponha a uma ao? Convm salientar que uma atitude concebida

    como um propsito ou maneira de se manifestar esse propsito, um estado de prontido

    que gera a ao, dirigindo-a e moldando-a. Charon (1989) considera atitude como uma

    tendncia para a ao que pode ser usada para esclarecer um tipo de ao. Portanto, a

    atitude do enfermeiro pode explicar o processo Buscando a interao teoria e prtica

    para desenvolver sistema de informao em enfermagem.

    Blumer (1969) contra-argumenta, afirmando que no uma tendncia organizada

    que provoca a ao. Segundo o autor, a atitude meramente um elemento no

    desenvolvimento do ato, uma proposta inicial para uma linha de ao. Nesse caso, no

    importa a tendncia, mas sim o processo pelo qual o ato foi construdo, ou seja, a atitude

    o processo definidor do ato, a capacidade que tem o indivduo de indicar uma ao.

    Ao interpretar sua vivncia, o enfermeiro toma a atitude em direo ao. Dessa

    maneira, ele se v na situao como sujeito ativo e estabelece estratgias para superar os

    obstculos da interao teoria e prtica no sistema de informao em enfermagem. Essa

    atitude est representada pelas seguintes categorias: Procurando elementos da prtica de

    enfermagem; Avaliando as dificuldades na prtica de enfermagem; Avaliando as

    dificuldades com o sistema de registro manual; Avaliando as vantagens que o sistema

  • 188

    de informao traz para a enfermagem e Procurando minimizar as restries com o

    sistema de informao computadorizado.

    Essas estratgias so construdas dentro das duas dimenses do conhecimento:

    terico ou explcito e informal ou tcito. Na epistemologia tradicional, o conhecimento

    deriva-se da separao do sujeito e do objeto da percepo. Ento, o enfermeiro, como

    sujeito da percepo, adquire conhecimento mediante a anlise da sua experincia

    vivenciada na prtica. Quando est procurando elementos da prtica de enfermagem, o

    enfermeiro envolve-se com o objeto da sua prtica, ou seja, h um envolvimento e

    compromisso pessoal com aquilo que ele realiza. atravs da interao que o enfermeiro

    rompe com as dicotomias tradicionais e interpreta seu objeto, o qual passa a constituir uma

    fonte de conhecimento. Grande parte de nossos conhecimentos fruto de nosso esforo

    voluntrio de lidar com o mundo (NONAKA; TAKEUCHI, 1997).

    Dessa forma, o conhecimento tcito ou informal est implcito nos elementos da

    prtica de enfermagem, incluindo os elementos cognitivos e tcnicos. Os elementos

    cognitivos so denominados de modelos mentais. Segundo Johnson-Laird (1983), as

    pessoas criam modelos do mundo estabelecendo e manipulando analogias em suas mentes,

    como, por exemplo, os esquemas, paradigmas, perspectivas, crenas e pontos de vista que

    as ajudam a perceber e definir seu mundo. Por sua vez, o elemento tcnico do

    conhecimento tcito designa os conhecimentos tcnicos, culturais e administrativos.

    Convm observar que o enfermeiro, ao avaliar as dificuldades na prtica de

    enfermagem, refere-se s imagens da sua realidade e sua viso do presente e perspectiva do

    futuro. Quando procura elementos da prtica de enfermagem, ele mostra o que e

    quando avalia as dificuldades, visualiza o que deveria ser. Dessa forma, estabelece

    estratgias para alcanar suas metas e, ento, nasce no seu eu a conscincia de seu papel

    na relao entre a teoria (conhecimento explcito) e a prtica (conhecimento tcito) em

    enfermagem.

    Essa conscincia tem despertado o enfermeiro, no sentido de reconhecer as

    vantagens do sistema de informao computadorizado para uma prtica de enfermagem

    sistematizada, segura e gil. Os dados informatizados em enfermagem so as ferramentas

    bsicas usadas para elaborar e registrar o processo de enfermagem, atravs da

  • 189

    sistematizao: diagnsticos, intervenes, resultados, documentao e avaliao dos

    cuidados de enfermagem ao paciente. O que importa para o enfermeiro em relao ao

    sistema de informao computadorizado no est apenas nas facilidades que o sistema traz

    para a enfermagem. O mais importante o que ocorre no seu contexto, fazendo-o agir ou

    procurando aes que indicam a busca da valorizao e do crescimento da enfermagem.

    Na viso interacionista, que representa as condies causais no modelo do

    paradigma de Strauss; Corbin (1998), os eventos, os estmulos e as emoes no fazem

    parte do pensamento que diz ser a conduta humana uma resposta a estes fatores. Isso

    significa que o enfermeiro quer um sistema de informao e reconhece suas vantagens. E o

    faz porque acredita que isto valoriza e enriquece a enfermagem. Logo, os seus atos so

    dirigidos para alcanar suas metas.

    importante compreender que o enfermeiro lida com um grande volume de dados

    e informaes, que tm detalhes variados, gastando muito tempo com o registro manual

    desses dados. Essa dificuldade avaliada pelo enfermeiro atravs da difuso interativa do

    conhecimento que pode subsidiar a criao de um sistema de informao computadorizado.

    Ao mesmo tempo em que libera o conhecimento tcito para criar nova tecnologia de

    registro do paciente, o enfermeiro se depara com a resistncia do pessoal de enfermagem

    ao sistema automatizado.

    Como estratgia, o enfermeiro est procurando minimizar as restries ao sistema

    de informao computadorizado, atravs da identificao das dificuldades enfrentadas pelo

    pessoal de enfermagem na formalizao e comunicao do conhecimento tcito. Nesse

    sentido, um pr-requisito para o desenvolvimento de sistemas computadorizados em

    enfermagem a socializao como meio de compartilhar o conhecimento tcito entre o

    pessoal de enfermagem. A partir da, os profissionais de enfermagem podem representar

    seus conceitos: funes, nomenclaturas, descrio de sinais, sintomas, intervenes e

    resultados, classificao de pacientes, medicao, estabelecimento de prioridades, etc.

    A relao desses elementos capturados na base do conhecimento tcito ampliada

    para uma estrutura de organizao de dados. Estes podem ser convertidos em

    conhecimento formal, atravs de um conjunto de instrues no computador. Como

  • 190

    resultado, possvel a criao de um novo conhecimento que alcana diferentes nveis

    organizacionais e interacionais entre a equipe interdisciplinar de sade.

    Para que essa estratgia funcione com eficcia, essencial a participao de todo

    o pessoal de enfermagem na definio do modelo de sistema, analisando cuidadosamente

    as estruturas, as categorias e a terminologia que ser usada para descrever os conceitos de

    enfermagem. O modelo lgico ser usado como a base do conjunto de dados mnimos de

    enfermagem e conceitos de sistemas de classificao para o desenvolvimento adequado do

    software, com uma interface interativa, que facilite a utilizao do usurio.

    Ao construir a linha de ao, estabelecendo estratgias, o enfermeiro est sendo

    objeto de si mesmo, guiando suas aes de acordo com a base desse objeto. Para Blumer

    (1969), o que importa o ser humano como objeto de si mesmo, capaz de guiar suas aes

    no sentido daquilo que lhe significante. Nesse caso, o self objeto emerge atravs do

    processo de interao social (enfoque participativo). Nessa perspectiva, qualquer que seja a

    ao do enfermeiro, ela concebida quando aponta as divergncias existentes entre o

    pessoal de enfermagem, relacionadas ao sistema de informao computadorizado. Dessa

    forma, quando o enfermeiro atribui um significado ao seu objeto (sistema de informao),

    ele julga sua adequao estratgia de ao e toma decises com base nesse julgamento,

    fixando metas para si prprio e partindo para aes concretas, a fim de alcan-las.

    Estgio 3: a manipulao (ao)

    Nesse estgio, tendo elaborado suas estratgias de ao, levando em conta as

    dimenses do conhecimento explcito e tcito, o enfermeiro parte para a construo da

    linha de ao Buscando a interao teoria e prtica para desenvolver sistema de

    informao em enfermagem. Nessa ao, pode agir ou no em direo interao teoria e

    prtica no sistema de informao. Tambm pode demonstrar interesse em outras aes, no

    sentido de buscar significado para o sistema de informao em enfermagem.

    Ao buscar a interao teoria e prtica em enfermagem, o enfermeiro est

    atribuindo um significado ao objeto e interagindo com o meio social e organizacional.

    Julga que, atravs das estratgias de ao, poder buscar o significado para o que faz,

    tornando visvel sua prtica. Agindo na direo contrria, o enfermeiro indica que no est

  • 191

    atribuindo significado s suas aes, julgando que estas no lhe daro respostas para o

    significado que procura em relao ao desenvolvimento de sistemas de informao.

    importante ressaltar que as pessoas agem considerando as vrias coisas que tm

    significado para elas, ou seja, desejos, objetivos, aes de outros, auto-imagem e, por

    conseguinte, uma provvel linha de ao. Nessa perspectiva, Blumer (1969) afirma que o

    homem um organismo respondente, pois somente responde aos apelos de seu mundo ou

    de si prprio. um organismo ativo que manipula e lida com tais fatores. Assim fazendo,

    cria e dirige sua linha de ao.

    Essa a razo pela qual este estgio foi denominado de manipulao, uma vez

    que o enfermeiro age por si mesmo, buscando concretizar suas metas. Portanto, para

    interpretar o que esboa, o enfermeiro molda uma estratgia de ao, para poder agir

    consigo mesmo e com o mundo sua volta, com os objetos e a situao organizacional.

    Atravs dessa ao, capacita-se a transformar o conhecimento de grupo em conhecimento

    organizacional que o rodeia e guia as aes que desenvolve.

    Na dimenso epistemolgica, representada no eixo horizontal pelo conhecimento

    explcito e tcito (Figura 11), o enfermeiro, atravs do processo de auto-interao, tem a

    conscincia de que esses eixos no so independentes entre si, mas interagem mutuamente

    e continuamente no ambiente organizacional. Os depoimentos a seguir expressam essa

    conscincia:

    [...] o enfermeiro adquire novos conhecimentos com sua prtica e isso

    contnuo. Sempre vai existir mais e mais durante toda sua vida profissional,

    dando-lhe mais experincia ao seu trabalho de cuidar do paciente.

    [...] eu reconheo a importncia da teoria que precisamos ter para prestar

    assistncia ao paciente. Mas eu acho que o conhecimento adquirido com a

    prtica tambm fundamental, porque o que a gente faz no dia-a-dia, com

    certeza, a gente no esquece, fica para sempre.

    Essa condio exposta na perspectiva do enfermeiro, segundo Blumer (1969),

    consiste numa srie de indicaes que a pessoa faz para si mesma, usando-as para dirigir a

    ao. Da, a razo por que o enfermeiro busca os meios ou as estratgias para a interao

    entre o conhecimento tcito e o explcito. Procura, com isso, atingir a sua meta, que

  • 192

    desenvolver um sistema de informao que represente a sua experincia vivenciada na

    prtica. Esse ato poder ser designado como a manipulao e consumao da meta. Assim

    sendo, representa o momento em que o enfermeiro, aps ter definido e interpretado o

    objeto, responde, atravs de aes, meta estabelecida. Nesse sentido, o ato sempre uma

    resposta para agir. O enfermeiro indica o que quer, estabelece uma meta ou objetivo,

    mapeia uma linha de conduta, amolda-se ao ambiente organizacional e verifica o resultado.

    Essas cinco aes esto evidenciadas nos seguintes depoimentos:

    Indica o que quer: [...] um sistema de informao que torne visvel aquilo que a gente faz na prtica.

    Estabelece uma meta ou objetivo: [...] a gente tem que ter um sistema informatizado que relate o nosso trabalho junto ao paciente.

    Mapeia uma linha de conduta: [...] a gente tem que juntar esforos para construir um sistema de informao em enfermagem que espelhe a capacidade que a gente tem de

    produzir um trabalho de qualidade.

    Amolda-se ao ambiente organizacional: [...] a nossa sada, enquanto enfermeiro, investir na educao contnua e no treinamento em servio para a gente se ajustar aos

    sistemas que visem melhorar o nosso trabalho e dar uma seqncia lgica quilo que a

    gente faz.

    Verifica o resultado: [...] com um sistema de informao computadorizado, a enfermagem daqui se consolida como uma profisso que no tem como recuar nesse

    processo assistencial exigido hoje pela sociedade.

    importante esclarecer que o fato de dar referncia ao ato no significa to-

    somente que o enfermeiro esteja buscando a interao teoria e prtica para desenvolver

    sistema de informao em enfermagem. O ato tambm representa os objetos sociais e

    organizacionais dos quais o enfermeiro retira a linha de ao com a inteno de decidir

    algo no presente. Por exemplo: se o enfermeiro sente restries ao uso do computador

    como ferramenta auxiliar de trabalho, ele age segundo uma linha de ao que traou. Essa

    determinao entendida como sendo influenciada pela interao com os outros

    enfermeiros e com o self.

  • 193

    Estgio 4: a consumao (conseqncia)

    Nesse estgio, o enfermeiro demonstra interesse age. O seu ato concretizado

    atravs do desencadeamento das seguintes categorias: Querendo um sistema de

    informao e Entendendo o sistema de informao como um caminho para a

    valorizao e o crescimento da enfermagem. Conseqentemente, ao demonstrar que

    busca a interao teoria e prtica no sistema de informao em enfermagem, o enfermeiro

    manifesta significados importantes para a construo de seus ideais, que so a valorizao

    e o crescimento profissional, possibilitando-lhe caminhar na direo de um sistema de

    informao eficiente. Por outro lado, o enfermeiro que no manifesta interesse representa a

    categoria Tendo sentimentos de restries ao sistema de informao. Ele no acredita

    nas mudanas, aptico e pessimista em relao organizao e ao meio social onde

    interage. Mesmo assim, pode buscar outra forma de encontrar um significado para o

    sistema de informao.

    Neste processo, um ato concreto est definido: o enfermeiro da Clnica Mdica do

    HULW quer um sistema de informao computadorizado e isso representa uma mudana

    de mentalidade. O enfermeiro interpreta sua experincia vivenciada na prtica e percebe

    que o registro manual das aes de enfermagem limitado, inseguro, de difcil

    acessibilidade, de natureza complexa.

    Em sua luta para conseguir o desejado, o enfermeiro responde aos estmulos, no

    apenas por ser um organismo ativo, mas porque tais estmulos so coerentes com sua viso

    de mundo e expectativa de futuro. Alm disso, no pensamento interacionista, o enfermeiro

    est envolvido na interao social, faz indicaes a si mesmo e responde a essas

    indicaes. Na realidade, o enfermeiro um elemento social que trabalha com a percepo

    das coisas sua volta. Atravs do processo de auto-indicao, ele valoriza aquilo que

    observa, atribuindo significados, podendo us-los para dirigir sua ao. Assim, quando ele

    atribui um significado ao objeto, tende a guiar sua ao para esse significado. Por outro

    lado, quando no possvel identificar um significado, tambm no h possibilidade de se

    desenvolver uma ao concreta em volta desse objeto.

    Blumer (1969) afirma que essa viso do indivduo dirigindo-se e indicando-se est

    em oposio a pontos de vista estabelecidos que consideram uma srie de fatores ao

  • 194

    humana. Esse ponto de vista traz tona a idia de que tais vises ignoram o processo de

    auto-interao, ou seja, o indivduo projeta seu mundo e constri sua ao. Embora o

    enfermeiro tenha liberdade para agir, como uma resposta da ao humana, o seu

    comportamento dentro da organizao passa a ser explicado mediante estmulos do

    ambiente social com o qual interage. Nesse aspecto, inclina-se a esclarecer sua linha de

    ao ou conduta como conseqncia de motivos individuais e estabelece um estado

    intrnseco que antecede a ao. Portanto, no existe definio nem interpretao da

    situao. possvel que haja falhas nesse tipo de explicao que no leva em conta o

    modelo e a maleabilidade da conduta humana.

    interessante ressaltar que o enfermeiro, ao assumir o direcionamento de seu

    caminho, atribui razes para suas aes e as esclarece para si prprio e para os outros,

    determinando motivos s circunstncias. o que se observa nos seguintes depoimentos:

    [...] as pessoas precisam saber por que o enfermeiro senta no balco e fica

    escrevendo. Muitas vezes, elas no entendem, no sabem que aquilo ali uma

    prtica nossa e que ele est inserido naquela prtica.

    [...] preciso que o enfermeiro saiba cumprir as suas tarefas, mas tendo

    conhecimento, porque ele est fazendo aquela tarefa, tem que ter esse

    conhecimento.

    Para o enfermeiro, o importante agir, empenhar-se pelo que quer, embora os

    motivos sejam recursos teis ao, capacitando-o a compreender a direo de sua ao

    num contexto significativo, to bem quanto de outros. Conforme Charon (1989), quando

    atribuem motivos aos atos, os indivduos no reagem, mas sim agem usando seu ambiente

    e respondendo a ele. Essa ao torna-se uma interao complexa de atividades que so, s

    vezes, encobertas ou expostas.

    Diante disto, o enfermeiro atribui motivo a seu ato de querer um sistema de

    informao computadorizado que interaja com sua prtica. Nesse caso, aponta razes para

    suas aes nem sempre adequadas sua conduta e muitas vezes involuntrias e ingnuas.

    Essas razes podem ser denominadas motivos encobertos, porque nem sempre so reais.

    Na verdade, pode-se inferir que muitas vezes o enfermeiro no tem conscincia de seus

    motivos, conforme expressam esses relatos:

  • 195

    [...] eu quero trabalhar com um sistema de informao estvel, que seja simples,

    mas criativo.

    [...] eu acho que a gente tem que ter tudo programado, informatizado para que

    todos falem a mesma linguagem.

    A perspectiva interacionista, voltada para este estudo, mostra que o enfermeiro

    est vivenciando uma situao na qual tem que agir, observar, interpretar e investigar os

    objetos sociais. Deve agir em direo ao desenvolvimento de um sistema de informao

    capaz de interagir ou comunicar-se com o enfermeiro e a equipe de enfermagem. A partir

    da auto-interao e da auto-indicao, o enfermeiro desenvolve uma linha de ao para a

    construo de um sistema de informao em enfermagem. Indica que dados do

    conhecimento tcito devem ser capturados pelo sistema, ou o que lhe exigido da prtica

    que precise ser informatizado.

    Nessa atitude, estabelece sua meta de trabalho, avalia o processamento das

    informaes, que so complexas por terem diferentes origens, e estabelece sua linha de

    ao. Nessa auto-interao para desenvolver sistemas de informao, o enfermeiro mantm

    sua atitude prospectiva que pode ser abandonada, revista ou substituda. Qualquer que seja

    a conduta, segundo o interacionismo, este um recurso no qual o ser humano se engaja na

    ao social (BLUMER, 1969).

    Diante disto, no processo Buscando a interao teoria e prtica para

    desenvolver sistema de informao em enfermagem, o enfermeiro est interagindo

    consigo mesmo e com os outros, definindo e interpretando a situao, seus atos e os atos da

    equipe de enfermagem. Somente atravs dessa definio e interpretao da situao que o

    enfermeiro poder desenvolver um sistema de informao em enfermagem. Para isso, deve

    decidir seus objetivos e estabelecer sua linha de ao, de acordo com o significado que

    atribui ao seu objeto social.

    O processo de auto-indicao origina-se de uma situao de instabilidade que leva

    o enfermeiro a agir, em virtude das condies scio-organizacionais desfavorveis que tem

    vivenciado na sua prtica. Portanto, a categoria central Buscando a interao teoria e

    prtica para desenvolver sistema de informao em enfermagem mais do que um

  • 196

    roteiro de ao. o processo de auto-indicao que ocorre de forma individual, mesmo

    reconhecendo a possibilidade de influncia de fatores extrnsecos.

    Figura 11 - O processo Buscando a interao teoria e prtica para desenvolver sistema de informao em enfermagem luz do interacionismo simblico

    ESTGIO 1 (O IMPULSO)

    Entrada na situao Procurando adequar os modelos formais com a prtica de enfermagem. Buscando utilizar os diagnsticos de enfermagem. Sentindo que existe uma lacuna entre a teoria e a prtica. Tendo dificuldades com o preparo dos enfermeiros.

    ESTGIO 2 (A PERCEPO)

    Definindo a situao Vendo a sistematizao como um caminho para desenvolver sistemas de informao em enfermagem. Vendo a relao entre enfermeiro e paciente. Vivenciando a prtica de enfermagem.

    Construo da linha de ao BUSCANDO A INTERAO TEORIA E PRTICA

    PARA DESENVOLVER SISTEMA DE INFORMAO EM ENFERMAGEM

    ESTRATGIA DE AO % Procurando elementos da

    prtica de enfermagem para compor um sistema de informao. % Avaliando as dificuldades na

    prtica de enfermagem. % Avaliando as vantagens que o

    sistema de informao traz para a enfermagem.

    ESTRATGIA DE AO % Avaliando as dificuldades com o

    sistema de registro manual. % Procurando minimizar as

    restries ao sistema de informao computadorizado.

    DIMENSES DO CONHECIMENTO EXPLCITO

    E TCITO

    ESTGIO 3 (A MANIPULAO)

    AO

    Os enfermeiros agem em direo interao teoria e prtica no sistema de

    informao em enfermagem.

    Os enfermeiros no agem em direo interao

    teoria e prtica no sistema de informao em

    enfermagem. ESTGIO 4 (A CONSUMAO)

    CONSEQNCIAS (ATO CONCRETIZADO)

    CONSEQNCIAS

    Querendo um sistema de informao. Entendendo o sistema de informao como um caminho para a valorizao e o crescimento da enfermagem.

    Tendo sentimentos de restries ao sistema de informao

  • 197

  • 198

    Nestas consideraes, procuramos ressaltar alguns pontos de vista e posies

    expostas ao longo do trabalho. No se trata de resumir os temas abordados, mas sim de

    evidenciar algumas teses de importncia geral. A interpretao situou-se luz do

    interacionismo simblico, utilizando, para isso, a grounded theory como referencial

    metodolgico que possibilitou uma nova perspectiva e compreenso para a situao

    investigada.

    O significado atribudo pelos enfermeiros ao sistema de informao requer uma

    ampliao. Ao invs de designar simplesmente um modelo tcnico, o desenvolvimento de

    sistemas engloba um conjunto de fatores sociais e organizacionais que interagem com

    diversos aspectos contingenciais, considerando-se os inter-relacionamentos das partes que

    o compem.

    O estudo revelou que os enfermeiros reconhecem a existncia de uma lacuna entre

    teoria e prtica no processo de trabalho da enfermagem. Esse fato dificulta o preparo dos

    profissionais de enfermagem, alm de trazer implicaes para o desenvolvimento de

    sistemas de informao. Essa situao merece ser considerada sob duas dimenses: a

    dimenso do conhecimento terico/explcito e a dimenso do conhecimento

    informal/tcito.

    A dimenso do conhecimento explcito diz respeito aos modelos tericos,

    representados aqui pelo processo de enfermagem, atravs da sistematizao do cuidado

    (histrico e problemas de enfermagem, diagnsticos, intervenes e resultados). Os

    enfermeiros buscam utilizar e articular o conhecimento terico com a prtica, mas no

    conseguem aplic-lo em sua totalidade por causa de inmeras barreiras pessoais e

    operacionais.

    Por outro lado, a dimenso do conhecimento tcito inclui o conhecimento prtico,

    vivenciado pela experincia dos enfermeiros que emerge da complexidade dos problemas

    de enfermagem compartilhados pelos enfermeiros. As dimenses desse conhecimento

    foram referidas neste estudo, levando-se em considerao a percepo identificada pelos

    enfermeiros, o significado que atribudo interao teoria e prtica em enfermagem e sua

    repercusso no sistema de informao.

    Ao se considerar a lacuna entre teoria e prtica em enfermagem no

    desenvolvimento de sistemas de informao como paradigma percebido e definido na

    viso de mundo dos enfermeiros da Clnica Mdica do HULW, pretendeu-se trabalhar com

  • 199

    esses enfermeiros para diminuir essa lacuna, atravs da converso do conhecimento, ou

    seja, da interao social entre o conhecimento explcito e o conhecimento tcito.

    No se pode deixar de mencionar que se trata de um processo social entre

    indivduos e dentro do sistema organizacional. Dessa forma, para se desenvolver um

    sistema de informao em enfermagem, faz-se necessrio o compartilhamento do

    conhecimento entre os enfermeiros. Esse conhecimento deve ser interpretado e avaliado no

    processo prtico da informao. Nesse aspecto, preciso reconhecer que nem todo

    conhecimento em enfermagem pertinente para computadorizao.

    Com essa noo bsica em mente, os enfermeiros podem tentar codificar e

    padronizar um conjunto de dados mnimos, no sentido de fornecer um ponto de partida da

    informao. Esses dados devem ser incorporados atravs da interao entre o

    conhecimento explcito e tcito (teoria e prtica), fornecendo apoio aos complexos papis

    desempenhados pelos enfermeiros da Clnica Mdica do HULW.

    Observou-se ainda que, para o enfermeiro, a sistematizao da assistncia o

    caminho mais adequado para se atingir os objetivos dos cuidados de enfermagem

    compatveis com a filosofia de trabalho da enfermagem da Clnica Mdica do HULW.

    Alm disso, esse mtodo de trabalho est fundamentado numa base terica que permite

    uma contnua reviso de contedo, possibilitada pelas reunies cientficas desenvolvidas

    de forma peridica na citada unidade.

    Faz-se necessrio entender que a sistematizao da assistncia permite uma maior

    aproximao na relao enfermeiro - paciente. Nesse processo, o enfermeiro um

    educador, facilitador e promotor, tendo sempre o propsito de ajudar o paciente a

    recuperar sua qualidade de vida. A sistematizao vivenciada na prtica de enfermagem

    da Clnica Mdica e deve ser reconhecida pela instituio para garantir a continuidade do

    processo de enfermagem, porque ela representa o real papel desses profissionais.

    Por outro lado, como mtodo de trabalho, a sistematizao possibilita que o

    enfermeiro disponha de um maior nmero de informaes a respeito do paciente. Para isso,

    o sistema de registro deve ser claro e preciso, de modo a tornar visvel a prtica invisvel

    da enfermagem. Assim, o processo de trabalho em enfermagem voltado para a

    sistematizao da assistncia torna-se um caminho vivel para o desenvolvimento de

    sistemas de informao em enfermagem, de acordo com a vivncia prtica (conhecimento

  • 200

    tcito), aliada a uma base terica (conhecimento explcito), para validar a teoria na prtica

    e vice-versa.

    O estudo revelou ainda que os enfermeiros traam estratgias para si (self). Nessa

    perspectiva, procuram elementos da prtica de enfermagem para incorporar ao sistema de

    informao, avaliam as dificuldades vivenciadas com a prtica de enfermagem e com o

    registro manual de informaes, procurando tambm minimizar as restries com o

    sistema de informao computadorizado. Tudo isso feito, atravs do processo de auto-

    indicao, ou seja, os enfermeiros so capazes de apontar ou no determinadas aes, de

    acordo com o significado atribudo quele objeto, mesmo que no tenham uma noo exata

    da dimenso desse processo.

    Para o desenvolvimento de sistemas de informao, a partir do estabelecimento de

    aes, tal qual apregoa o modelo participativo ou enfoque soft, o que importa identificar

    o conhecimento tcito que os enfermeiros querem capturar da prtica e trabalhar com

    aqueles que tm significado para compor uma base de dados computadorizados. S dessa

    maneira, haver garantias de sucesso e continuidade no desenvolvimento de sistemas de

    informao. Esta pode at ser uma concluso apressada, mas a realidade que nem todos

    os enfermeiros tm oportunidade de participar e interagir na construo de sistemas e de

    traar sua prpria linha de ao que torne visvel aquilo que fazem e dizem.

    No processo Buscando a interao teoria e prtica para desenvolver sistema de

    informao em enfermagem, foram identificadas as aes nas quais os enfermeiros

    podem agir: uns em direo interao teoria e prtica no sistema de informao; outros

    na direo contrria. O ato concretizado pela ao revela que os enfermeiros querem um

    sistema de informao que seja criativo e soft, porque reconhecem as suas vantagens.

    A razo que leva os enfermeiros a defenderem um sistema de informao a

    busca da valorizao e do crescimento profissional. Eles vem nisso uma maneira de

    encontrarem o prprio sentido para seu trabalho nesta ao. Dessa forma, os enfermeiros

    descobriram o significado que a interao teoria e prtica em enfermagem tem para o

    sistema de informao, ou seja, identificaram um sentido para seu trabalho, significado

    real, por ter partido da realidade social e organizacional.

    Assim, o enfermeiro constri uma concepo de si mesmo, quando busca a

    interao teoria e prtica, ao mesmo tempo em que elabora uma representao simblica

    do mundo a sua volta. exatamente em relao a essa concepo sobre si mesmo que o

  • 201

    enfermeiro, ao interagir com as condies scio-organizacionais, estabelece as metas e os

    projetos que conduzem ao seu crescimento e sua valorizao profissional.

    O processo Buscando a interao teoria e prtica para desenvolver sistema de

    informao em enfermagem fruto da nossa percepo do fenmeno, capturado no

    contexto histrico vivenciado pelos enfermeiros da Clnica Mdica do HULW. Esse fato

    revela algumas limitaes do estudo, destacando-se as seguintes: outros eventos

    organizacionais com potencial de influenciar as variveis em estudo que ainda no foram

    alcanadas; deixaram de ser contemplados alguns aspectos concernentes cultura

    organizacional e estrutura conceitual, descrita como abstratas e de difcil entendimento

    entre os enfermeiros, existindo, dessa forma, a possibilidade de ser o tema ampliado e

    aprofundado; a coleta de dados envolveu enfermeiros da Clnica Mdica do HULW, at

    atingir um nvel de saturao da amostra, de forma que os resultados podem no

    representar uma generalizao.

    Por essa razo, acreditamos que seja preciso desenvolver outros estudos e

    envolver diferentes instituies, pblicas e privadas, para buscar compreender os diferentes

    pontos de vista que possam influenciar no desenvolvimento de sistemas de informao.

    As discusses deste estudo tm implicaes para a comunidade acadmica e

    assistencial da enfermagem. Assim sendo, merecem investigaes posteriores que

    salientem tanto o aspecto da interao teoria e prtica, como a complexidade e a

    interconectividade dos sistemas de informao em sade, bem como sua dinmica. As

    conseqncias decorrentes da divulgao deste trabalho para a enfermagem devem servir

    de alerta aos enfermeiros para a necessidade de refletirem, conjuntamente, sobre a

    converso do conhecimento por meio da interao teoria e prtica. O propsito

    desenvolver sistemas de informao que atendam as suas necessidades e ajudem a alcanar

    as metas a que se propem, em especial, o crescimento e a valorizao profissional, atravs

    de um modelo soft de produo do conhecimento em servio.

    preciso tambm observar que o estudo trouxe um efeito positivo para os

    enfermeiros da Clnica Mdica do HULW. Sem dvida, proporcionou uma rica

    experincia, atravs da interao como sujeitos ativos no processo de construo do

    conhecimento, captado no contexto scio-organizacional que os circunda, em que a teoria e

    a prtica se inter-relacionam. Nesta ao compartilhada, a percepo dos enfermeiros

    mostra a importncia do conhecimento tcito na construo de sistemas de informao.

  • 202

    Mesmo que eles enfrentem dificuldades operacionais, no devem desistir, mas persistir

    para que possam alcanar o alvo: Buscando a interao teoria e prtica para desenvolver

    sistema de informao em enfermagem.

    Acreditamos que essa investigao, luz do interacionismo simblico e do

    enfoque metodolgico da grounded theory, possa contribuir para a mudana na maneira de

    pensar pesquisa em sistemas de informao. Esperamos tambm que os enfermeiros e

    pesquisadores definam um enfoque centrado na interao teoria e prtica, em que esses

    profissionais, como sujeitos e no objeto receptor de informaes, sejam receptivos s

    mudanas sociais e ao aperfeioamento do sistema.

    Por fim, convm salientar que este estudo no se esgota aqui. Ao contrrio, temos

    expectativas de que seus resultados e concluses sejam vistos como um ponto de partida

    para compreender a prtica de enfermagem no sistema de informao automatizado.

  • 203

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  • 212

  • 213

    Apndice A

    Termo de Consentimento Livre e Esclarecido De acordo com a Resoluo n 196 de 10 de outubro de 1996,

    do Conselho Nacional de Sade Prezado (a) Senhor (a):

    Esta pesquisa trata sobre Sistema de informao e interao social: buscando a

    relao teoria-prtica em Enfermagem. Est sendo desenvolvida por Srgio Ribeiro dos Santos, aluno do Programa de Ps-Graduao em Sociologia do Centro de Cincias Humanas Letras e Artes da Universidade Federal da Paraba, sob a orientao do Prof Dr. Artur Fragoso de Albuquerque Perruci.

    O objetivo do estudo compreender a relao entre teoria e prtica do processo de trabalho em enfermagem e as implicaes para o desenvolvimento de sistemas de informao. Busca, com isso, contribuir para o desenvolvimento de sistemas de informao que venham atender a necessidade da prtica de enfermagem melhorando seus registros e a sistematizao da assistncia.

    Solicitamos a sua colaborao para realizarmos uma entrevista gravada, como tambm sua autorizao para apresentar os resultados deste estudo em eventos da rea de sade e public-los em revista cientfica. Por ocasio da publicao dos resultados, seu nome ser mantido em sigilo.

    Esclarecemos que sua participao no estudo voluntria e, portanto, o(a) senhor(a) no obrigado(a) a fornecer as informaes nem a colaborar com as atividades solicitadas pelo pesquisador. Caso decida no participar do estudo, ou resolva a qualquer momento desistir do mesmo, no sofrer nenhum dano, nem haver modificao na assistncia que vem recebendo na Instituio.

    Os pesquisadores estaro a sua disposio para qualquer esclarecimento que considere necessrio em qualquer etapa da pesquisa. Contato com o pesquisador responsvel: Caso necessite de maiores informaes sobre o presente estudo, favor ligar para o (a) pesquisador pelo telefone 9984.4329. Endereo (Setor de Trabalho):Departamento de Enfermagem do Centro de Cincias da Sade da Universidade Federal da Paraba. Telefone: (083)3216.7248 Atenciosamente,

    Assinatura do Pesquisador Responsvel

    Diante do exposto, declaro que fui devidamente esclarecido(a) e dou o meu

    consentimento para participar da pesquisa e para publicao dos resultados. Estou ciente de que receberei uma cpia deste documento. ______________________________________

    Assinatura do Participante da Pesquisa

  • 214

    Apndice B

    Roteiro de Entrevista

    Os sistemas de informao podem ajudar a enfermagem. S que esses sistemas nem

    sempre so centrados no usurio e sua prtica, mas na viso de quem os desenvolve,

    utilizando os modelos tericos. Supondo que se pretenda desenvolver um sistema de

    informao em enfermagem centrado na prtica de enfermagem, responda:

    1. Que relao h entre teoria e prtica em enfermagem, ou seja, como voc

    percebe os modelos tericos em relao sua prtica? Eles so aplicados?

    Correspondem prtica?

    2. O trabalho de sistematizao um bom caminho para registrar as sua prtica ou

    apenas outro modelo terico que nada tem a ver com a sua prtica?

    3. Se voc fosse participar no desenvolvimento de um sistema de informao em

    enfermagem computadorizado, que elementos de sua prtica voc consideraria

    importantes para serem disponibilizados no computador?

  • 215

  • 216

    CERTIDO DO COMIT DE TICA EM PESQUISA DO HULW

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