BAGNO, Marcos. Preconceito Linguistico

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    20-Oct-2015

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Preconceito Lingustico: o que , como se faz

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  • MARCOS BAGNO, tradutor, escritor e lingista, Doutor em Filologia e Lngua Portuguesa pela Universidade de So Paulo (USP). Professor de Lingstica do Instituto de Letras da Universidade de Braslia, publicou A lngua dc Eullia: novela sociolingstica (Ed. Contexto, 1997; em 13 ed.); Preconceito lingstico: o que , como se faz (Ed. Loyola, 1999; em 15 ed.); Dramtica da lngua portuguesa (Ed. Loyola, 2000; em 2 ed.); Portugus ou brasileiro? Um convite pesquisa (Parbola Ed., 2001; em 2 ed.); Lngua materna: letramento, variao e ensino (Parbola Ed., 2002). Alm desses ttulos, autor de duas dezenas de obras literrias. Recebeu em 1988 o Prmio Nestl de Literatura Brasileira e, em 1989, o Prmio Carlos Drummond de Andrade de Poesia, entre outros. Selecionou e traduziu os artigos reunidos em Norma lingstica (Ed. Loyola, 2001). Traduziu Histria concisa da lingstica, de Barbara Weedwood (Parbola Ed., 2002), alm de dezenas de obras cientficas, filosficas e literrias de autores como Balzac, Voltaire, H. G. Wells, Sartre, Oscar Wilde, etc. Vem se dedicando investigao das implicaes socioculturais do conceito de norma, sobretudo no que diz respeito ao ensino de portugus nas escolas brasileiras. Obras do Autor: A inveno das horas (contos), Ed. Scipione, 1988 (IV Prmio Bienal Nestl

    de Literatura Brasileira) O papel roxo da ma (infantil), Ed. L, 1989 (Prmio Joo de Barro de

    Literatura Infantil) Um cu azul para Clementina (infantil), Ed. L, 1991 Frevo, amor & graviola (juvenil), Ed. Atual, 1991 Amor, amora (juvenil), Ed. Bagao, 1992 Os nomes do amor (juvenil) (co-autoria com Stela Maris Rezende), Editora

    Moderna, 1993 A vingana da cobra (juvenil), Ed. tica, 1995 Dia de branco (juvenil), Ed. L, 1995 Miguel, o cravo & a rosa (infantil), Ed. L, 1995 Rua da Soledade (contos), Ed. L, 1995 (Prmio Estado do Paran 1989) A barca de Zo (infantil), Ed. Formato, 1995 Mirablia (contos), Editora Didtica Paulista, 1996 Uma vitria diferente (juvenil) Ed. L, 1997 Unhas de ferro (juvenil), Ed. L, 1997 A Lngua de Eullia (novela sociolingstica), Ed. Contexto, 1997 Pesquisa na escola o que , como se faz, Ed. Loyola, 1998 Machado de Assis para principiantes, Ed. Atica, 1998 Preconceito lingustico o que , como se faz, Ed. Loyola, 1999 Minimirim e o planeta que encolheu (infantil), Ed. lcone, 2000 O Processo de Independncia do Brasil, Ed. Atica, 2000 Dramtica da lngua portuguesa, Ed. Loyola, 2000 Portugus ou brasileiro? Um convite pesquisa, Parbola Editorial, 2001 Norma lingstica, Ed. Loyola, 2001 Lngua materna: letramento, variao e ensino, Parbola Editorial, 2002 O espelho dos nomes (juvenil) tica, 2002

  • Marcos Bagno

    Preconceito lingstico

    o que , como se faz

  • CCCCCCCCOOOOOOOONNNNNNNNTTTTTTTTRRRRRRRRAAAAAAAA CCCCCCCCAAAAAAAAPPPPPPPPAAAAAAAA

    Diz-se que o brasileiro no sabe Portugus e que Portugus

    muito difcil. Estes so alguns dos mitos que compem um

    preconceito muito presente na cultura brasileira: o lingstico. Tudo

    por causa da confuso que se faz entre lngua e gramtica

    normativa (que no a lngua, mas s uma descrio parcial dela).

    Separe uma coisa da outra com este livro, que um achado.

    Revista Nova Escola, maio de 1999.

    Eu gostaria que algum j tivesse escrito um livro como este sobre

    a lngua inglesa.

    Prof. Gregory Guy, Universidade de York (Canad)

    hhttttpp::////ggrroouuppss..ggooooggllee..ccoomm//ggrroouupp//ddiiggiittaallssoouurrccee

  • Edies Loyola

    Rua 1822 n 347 Ipiranga

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    meios (eletrnico ou mecnico, incluindo fotocpia e gravao) ou

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    escrita da Editora.

    ISBN: 85-15-01889-6

    48 e 49 edio: junho de 2007

    EDIES LOYOLA, So Paulo, Brasil, 1999

  • Sedule curavi humanas actiones non ridere,

    non lugere, neque detestare, sed intellegere.

    SPINOZA

    (Tenho-me esforado por no rir das aes humanas,

    por no deplor-las nem odi-las, mas por entend-las)

  • Sumrio

    PRIMEIRAS PALAVRAS .................................................................... 9

    I. A MITOLOGIA DO PRECONCEITO LINGSTICO ........................... 13

    Mito n 1

    A lngua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade

    surpreendente ............................................................................. 15

    Mito n 2

    Brasileiro no sabe portugus / S em Portugal se fala bem

    portugus ..................................................................................... 20

    Mito n 3

    Portugus muito difcil ........................................................... 35

    Mito n 4

    As pessoas sem instruo falam tudo errado ........................... 40

    Mito n 5

    O lugar onde melhor se fala portugus no Brasil o Maranho

    ........................................................................................................ 46

    Mito n 6

    O certo falar assim porque se escreve assim ......................... 52

    Mito n 7

    preciso saber gramtica para falar e escrever bem .............. 62

    Mito n 8

    O domnio da norma culta um instrumento de ascenso social

    ........................................................................................................ 69

    II. O CRCULO VICIOSO DO PRECONCEITO LINGSTICO .............. 73

    1. Os trs elementos que so quatro ............................................ 73

    2. Sob o imprio de Napoleo ....................................................... 79

    3. Um festival de asneiras ............................................................ 83

    4. Beethoven no danado ......................................................... 94

  • III. A DESCONSTRUO DO PRECONCEITO LINGSTICO ........... 105

    1. Reconhecimento da crise ........................................................ 105

    2. Mudana de atitude ................................................................ 115

    3. O que ensinar portugus ..................................................... 118

    4. O que erro ............................................................................ 122

    5. Ento vale tudo ....................................................................... 129

    6. A parania ortogrfica ........................................................... 131

    7. Subvertendo o preconceito lingstico ................................... 139

    IV. O PRECONCEITO CONTRA A LINGSTICA E OS LINGISTAS

    .................................................................................................................. 147

    1. Uma religio mais velha que o cristianismo ...................... 147

    2. Portugus ortodoxo? Que lngua essa? ............................... 154

    3. Devaneios de idiotas e ociosos ............................................... 157

    4. A quem interessa calar os lingistas? ................................... 161

    ANEXO CARTA DE MARCOS BAGNO REVISTA VEJA ............. 167

    REFERNCIAS ................................................................................. 185

    Nota da digitalizadora: A numerao de pginas aqui refere-se a edio original, a paginao original, que encontra-se inserida entre colchetes no texto.

    Entende-se que o texto que est antes da numerao entre colchetes o que pertence aquela pgina e o texto que est aps a numerao pertence a pgina seguinte .

  • Primeiras palavras

    Existe uma regra de ouro da Lingstica que diz: s existe

    lngua se houver seres humanos que a falem. E o velho e bom

    Aristteles nos ensina que o ser humano um animal poltico.

    Usando essas duas afirmaes como os termos de um silogismo

    (mais um presente que ganhamos de Aristteles), chegamos

    concluso de que tratar da lngua tratar de um tema poltico, j

    que tambm tratar de seres humanos. Por isso, o leitor e a leitora

    no devero se espantar com o tom marcadamente politizado de

    muitas de minhas afirmaes. proposital; alis, inevitvel.

    Temos de fazer um grande esforo para no incorrer no erro milenar

    dos gramticos tradicionalistas de estudar a lngua como uma coisa

    morta, sem levar em considerao as pessoas vivas que a falam.

    O preconceito lingstico est ligado, em boa medida,

    confuso que foi criada, no curso da histria, entre lngua e

    gramtica normativa. Nossa tarefa mais urgente desfazer essa

    confuso. Uma receita de bolo no um bolo, o molde de um vestido

    no um vestido, um mapa-mndi no o mundo... Tambm a

    gramtica no a lngua.

    A lngua um enorme iceberg flutuando no mar do tempo, e a

    gramtica normativa a tentativa de descrever [pg. 09] apenas

    uma parcela mais visvel dele, a chamada norma culta. Essa

    descrio, claro, tem seu valor e seus mritos, mas parcial (no

    sentido literal e figurado do termo) e no pode ser autoritariamente

    aplicada a todo o resto da lngua afinal, a ponta do iceberg que

  • emerge representa apenas um quinto do seu volume total. Mas

    essa aplicao autoritria, intolerante e repressiva que impera na

    ideologia geradora do preconceito lingstico.

    Voc sabe o que um igap? Na Amaznia, igap um trecho

    de mata inundada, uma grande poa de gua estagnada s margens

    de um rio, sobretudo depois da cheia. Parece-me uma boa imagem

    para a gramtica normativa. Enquanto a lngua um rio caudaloso,

    longo e largo, que nunca se detm em seu curso, a gramtica

    normativa apenas um igap, uma grande poa de gua parada,

    um charco, um brejo, um terreno alagadio, margem da lngua.

    Enquanto a gua do rio/lngua, por estar em movimento, se renova

    incessantemente, a gua do igap/gramtica normativa envelhece e

    s se renovar quando vier a prxima cheia. Meu objetivo

    atualmente, junto com muitos outros lingistas e pesquisadores,

    acelerar ao mximo essa prxima cheia...

    Este livro traz os primeiros resultados, sempre provisrios, das

    reflexes que venho fazendo sobre o tema do preconceito lingstico.

    Ele rene as principais concluses a que cheguei, concluses que

    pude compartilhar e discutir com as pessoas que me ouviram falar

    nas diversas palestras que dei ao longo de 1998.

    Essas palestras, e o livro que delas nasceu, s foram possveis

    graas ao esforo e ao carinho das seguintes [pg. 10] pessoas:

    ngela Paiva Dionsio, Ariovaldo Guireli, Ataliba de Castilho,

    Cludia Maia Ricardo, Doris da Cunha, sio Macedo Ribeiro,

    Irand Antunes, Jos Lus Falotico Corra, Judith Hoffnagel,

    Loureno Chacon, Lucila Nogueira, Maral Aquino, Marcos

    Marcionilo Maria Amlia Almeida, Maria Marta Scherre, Maria da

    Piedade S, Margia Viana, Rosely Falotico Corra e Sonia

    Alexandre.

  • Esta segunda edio traz mudanas bastante significativas em

    comparao com a primeira: alguns trechos foram eliminados,

    outros foram acrescentados, muitos sofreram profunda

    reformulao. Isso se deve minha vontade de manter o livro

    sempre atualizado com a evoluo de minha prpria maneira de ver

    as coisas e sintonizado com as crticas, sugestes e comentrios que

    o trabalho recebeu da parte de leitores e leitoras atentos e dispostos

    a colaborar na divulgao destas idias.

    Agradeo muito especialmente a Manoel Luiz Gonalves

    Corra, que me ajudou a preparar esta reedio, alertando-me para

    determinadas inconsistncias tericas e conceituais, nascidas de

    uma tentativa de simplificar (talvez demais) os conceitos da

    Lingstica para torn-los acessveis a um pblico mais amplo.

    claro que ainda sobram falhas e imperfeies de minha inteira

    (ir)responsabilidade e por isso convido os que desejarem

    participar desta luta que se engajem nela enviando-me suas

    opinies.

    A capa deste livro tem uma histria que merece ser contada. As

    pessoas ali fotografadas so minha sogra, Alice Francisca, meu

    sogro, Jos Alexandre, e meu cunhado [pg. 11] mais novo, Sstenes,

    cerca de vinte anos atrs. Como este um livro que trata de

    discriminao e excluso, decidi homenagear meus sogros que so,

    como costumo dizer, um prato cheio para alguns dos preconceitos

    mais vigorosos da nossa sociedade: negros, nordestinos, pobres,

    analfabetos. Alice Francisca tambm carrega o estigma de ser

    mulher numa cultura entranhadamente machista. Aprender a

    amar estas pessoas pelo que elas so, deixando de lado todos os

    rtulos discriminadores que tentam classific-las em categorias

    supostamente inferiores s que eu e pessoas de minha extrao

  • social ocupamos, tem sido uma lio fundamental para toda a

    minha vida pessoal e profissional.

    com este amor que me defendo das acusaes que s vezes

    recebo de ser autor de um livro demaggico. No demagogia:

    opo consciente, poltica, declaradamente parcial. Peo

    simplesmente aos leitores e leitoras que meditem sobre esta

    situao que tanto me angustia: homenagear com um livro pessoas

    que jamais podero l-lo. Isso explica, decerto, a grande dose de

    indignao que em certos momentos passa frente da reflexo

    cientfica serena e me faz assumir o tom apaixonado de quem no

    tolera nenhum tipo de intolerncia, principalmente quando fruto

    de uma viso de mundo estreita, inspirada em mitos e supersties

    que tm como nico objetivo perpetuar os mecanismos de excluso

    social.

    MARCOS BAGNO

    mbagno@terra.com.br

    [pg. 12]

  • I

    A mitologia do preconceito lingstico

    Parece haver cada vez mais, nos dias de hoje, uma forte

    tendncia a lutar contra as mais variadas formas de preconceito, a

    mostrar que eles no tm nenhum fundamento racional, nenhuma

    justificativa, e que so apenas o resultado da ignorncia, da

    intolerncia ou da manipulao ideolgica.

    Infelizmente, porm, essa tendncia no tem atingido um tipo

    de preconceito muito comum na sociedade brasileira: o preconceito

    lingstico. Muito pelo contrrio, o que vemos esse preconceito ser

    alimentado diariamente em programas de televiso e de rdio, em

    colunas de jornal e revista, em livros e manuais que pretendem

    ensinar o que certo e o que errado, sem falar, claro, nos

    instrumentos tradicionais de ensino da lngua: a gramtica

    normativa e os livros didticos.

    O preconceito lingstico fica bastante claro numa srie de

    afirmaes que j fazem parte da imagem (negativa) que o

    brasileiro tem de si mesmo e da lngua falada por aqui. Outras

    afirmaes so at bem-intencionadas, mas mesmo assim compem

    uma espcie de preconceito positivo, que tambm se afasta da

    realidade. Vamos examinar [pg. 13] algumas dessas afirmaes

    falaciosas e ver em que medida elas so, na verdade, mitos e

    fantasias que qualquer anlise mais rigorosa no demora a

    derrubar.

  • Estou convidando voc, a partir de agora, a fazer junto comigo

    um pequeno passeio pela mitologia do preconceito lingstico.

    Quando o passeio acabar, isto , quando tivermos terminado de

    examinar os principais mitos, vamos tentar refletir juntos para

    encontrar os meios mais adequados de combater esse preconceito no

    nosso dia-a-dia, na nossa atividade pedaggica de professores em

    geral e, particularmente, de professores de lngua portuguesa. [pg.

    14]

  • Mito n 1

    A lngua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente

    Este o maior e o mais srio dos mitos que compem a

    mitologia do preconceito lingstico no Brasil. Ele est to

    arraigado em nossa cultura que at mesmo intelectuais de renome,

    pessoas de viso crtica e geralmente boas observadoras dos

    fenmenos sociais brasileiros, se deixam enganar por ele. o caso,

    por exemplo, de Darcy Ribeiro, que em seu ltimo grande estudo

    sobre o povo brasileiro escreveu:

    de assinalar que, apesar de feitos pela fuso de matrizes to diferenciadas, os brasileiros so, hoje, um dos povos mais homogneos lingstica e culturalmente e tambm um dos mais integrados socialmente da Terra. Falam uma mesma lngua, sem dialetos [grifo meu, Folha de S. Paulo, 5/2/95].

    Existe tambm toda uma longa tradio de estudos filolgicos e

    gramaticais que se baseou, durante muito tempo, nesse

    (pre)conceito irreal da unidade lingstica do Brasil.

    Esse mito muito prejudicial educao porque, ao no

    reconhecer a verdadeira diversidade do portugus falado no Brasil,

    a escola tenta impor sua norma lingstica como se ela fosse, de

    fato, a lngua comum a todos os 160 milhes de brasileiros,

    independentemente de sua idade, de sua origem geogrfica, de sua

    situao socioeconmica, de seu grau de escolarizao etc. [pg. 15]

    Ora, a verdade que no Brasil, embora a lngua falada pela

    grande maioria da populao seja o portugus, esse portugus

    apresenta um alto grau de diversidade e de variabilidade, no s

  • por causa da grande extenso territorial do pas que gera as

    diferenas regionais, bastante conhecidas e tambm vtimas,

    algumas delas, de muito preconceito , mas principalmente por

    causa da trgica injustia social que faz do Brasil o segundo pas

    com a pior distribuio de renda em todo o mundo. So essas graves

    diferenas de status social que explicam a existncia, em nosso pas,

    de um verdadeiro abismo lingstico entre os falantes das

    variedades no-padro do portugus brasileiro que so a maioria

    de nossa populao e os falantes da (suposta) variedade culta, em

    geral mal definida, que a lngua ensinada na escola.

    Como a educao ainda privilgio de muito pouca gente em

    nosso pas, uma quantidade gigantesca de brasileiros permanece

    margem do domnio de uma norma culta. Assim, da mesma forma

    como existem milhes de brasileiros sem terra, sem escola, sem

    teto, sem trabalho, sem sade, tambm existem milhes de

    brasileiros sem lngua. Afinal, se formos acreditar no mito da lngua

    nica, existem milhes de pessoas neste pas que no tm acesso a

    essa lngua, que a norma literria, culta, empregada pelos

    escritores e jornalistas, pelas instituies oficiais, pelos rgos do

    poder so os sem-lngua. claro que eles tambm falam

    portugus, uma variedade de portugus no-padro, com sua

    gramtica particular, que no entanto no reconhecida como

    vlida, que desprestigiada, ridicularizada, [pg. 16] alvo de

    chacota e de escrnio por parte dos falantes do portugus-padro ou

    mesmo daqueles que, no falando o portugus-padro, o tomam

    como referncia ideal por isso podemos cham-los de sem-lngua.

    O que muitos estudos empreendidos por diversos pesquisadores

    tm mostrado que os falantes das variedades lingsticas

    desprestigiadas tm srias dificuldades em compreender as

  • mensagens enviadas para eles pelo poder pblico, que se serve

    exclusivamente da lngua-padro. Como diz Maurizzio Gnerre1 em

    seu livro Linguagem, escrita e poder, a Constituio afirma que

    todos os indivduos so iguais perante a lei, mas essa mesma lei

    redigida numa lngua que s uma parcela pequena de brasileiros

    consegue entender. A discriminao social comea, portanto, j no

    texto da Constituio. claro que Gnerre no est querendo dizer

    que a Constituio deveria ser escrita em lngua no-padro, mas

    sim que todos os brasileiros a que ela se refere deveriam ter acesso

    mais amplo e democrtico a essa espcie de lngua oficial que,

    restringindo seu carter veicular a uma parte da populao, exclui

    necessariamente uma outra, talvez a maior.

    Muitas vezes, os falantes das variedades desprestigiadas

    deixam de usufruir diversos servios a que tm direito

    simplesmente por no compreenderem a linguagem empregada

    pelos rgos pblicos. Um estudo bastante revelador dessa situao

    foi empreendido por Stella Maris Bortoni-Ricardo na periferia de

    Braslia e publicado no [pg. 17] artigo Problemas de comunicao

    interdialetal. Diante do que descobriu, a autora pode afirmar:

    A idia de que somos um pas privilegiado, pois do ponto de vista lingstico tudo nos une e nada nos separa, parece-me, contudo, ser apenas mais um dos grandes mitos arraigados em nossa cultura. Um mito, por sinal, de conseqncias danosas, pois na medida em que no se reconhecem os problemas de comunicao entre falantes de diferentes variedades da lngua, nada se faz tambm para resolv-los.

    A mesma autora alerta para que no se confunda a idia de

    monolingismo com a de homogeneidade lingstica. O fato de

    no Brasil o portugus ser a lngua da imensa maioria da populao

    1 As referncias bibliogrficas completas de todas as obras citadas ao longo deste livro se encontram no

    final do volume.

  • no implica, automaticamente, que esse portugus seja um bloco

    compacto, coeso e homogneo. Na verdade, como costumo dizer, o

    que habitualmente chamamos de portugus um grande balaio de

    gatos, onde h gatos dos mais diversos tipos: machos, fmeas,

    brancos, pretos, malhados, grandes, pequenos, adultos, idosos,

    recm-nascidos, gordos, magros, bem-nutridos, famintos etc. Cada

    um desses gatos uma variedade do portugus brasileiro, com sua

    gramtica especfica, coerente, lgica e funcional.

    preciso, portanto, que a escola e todas as demais instituies

    voltadas para a educao e a cultura abandonem esse mito da

    unidade do portugus no Brasil e passem a reconhecer a

    verdadeira diversidade lingstica de nosso pas para melhor

    planejarem suas polticas de ao junto populao amplamente

    marginalizada dos falantes das variedades no-padro. O

    reconhecimento da [pg. 18] existncia de muitas normas

    lingsticas diferentes fundamental para que o ensino em nossas

    escolas seja conseqente com o fato comprovado de que a norma

    lingstica ensinada em sala de aula , em muitas situaes, uma

    verdadeira lngua estrangeira para o aluno que chega escola

    proveniente de ambientes sociais onde a norma lingstica

    empregada no quotidiano uma variedade de portugus no-

    padro.

    Felizmente, essa realidade lingstica marcada pela

    diversidade j reconhecida pelas instituies oficiais encarregadas

    de planejar a educao no Brasil. Assim, nos Parmetros

    curriculares nacionais, publicados pelo Ministrio da Educao e do

    Desporto em 1998, podemos ler que

  • A variao constitutiva das lnguas humanas, ocorrendo em todos os nveis. Ela sempre existiu e sempre existir, independentemente de qualquer ao normativa. Assim, quando se fala em Lngua Portuguesa est se falando de uma unidade que se constitui de muitas variedades. [...] A imagem de uma lngua nica, mais prxima da modalidade escrita da linguagem, subjacente s prescries normativas da gramtica escolar, dos manuais e mesmo dos programas de difuso da mdia sobre o que se deve e o que no se deve falar e escrever, no se sustenta na anlise emprica dos usos da lngua2.

    So, de fato, boas novas! Espero que elas desam das altas

    esferas governamentais e se propaguem pelas salas de aula de todo

    o pas! [pg. 19]

    2 Parmetros curriculares nacionais, Lngua Portuguesa, 5a a 8a sries, p. 29.

  • Mito n 2

    Brasileiro no sabe portugus / S em Portugal se fala bem portugus

    Essas duas opinies to habituais, corriqueiras, comuns, e que

    na realidade so duas faces de uma mesma moeda enferrujada,

    refletem o complexo de inferioridade, o sentimento de sermos at

    hoje uma colnia dependente de um pas mais antigo e mais

    civilizado.

    Podemos encontrar essa concepo expressa no livro Lngua

    viva, de Srgio Nogueira Duarte, que uma coletnea de suas

    colunas sobre lngua portuguesa publicadas no Jornal do Brasil. Ali

    a gente l, na pgina 65:

    Sempre me perguntam onde se fala o melhor portugus. S pode ser em Portugal! J viajei muito pelo Brasil e j estive em todas as regies. Sinceramente, no sei onde se fala melhor. Cada regio tem suas qualidades e seus vcios de linguagem. [grifo meu]

    Por isso no consigo concordar com o ttulo do livro que est

    longe de analisar a verdadeira lngua viva usada em nosso pas ,

    nem com o subttulo: uma anlise simples e bem-humorada da

    linguagem do brasileiro. Seria mais acertado dizer que se trata de

    uma anlise preconceituosa e desinformada da lngua falada e

    escrita por aqui. Mas no podemos culpar o autor, que antes uma

    vtima do que propriamente um responsvel por esse preconceito:

    ele est apenas exprimindo uma ideologia impregnada em nossa

    cultura h muito tempo. [pg. 20]

  • a mesma concepo torpe segundo a qual o Brasil um pas

    subdesenvolvido porque sua populao no uma raa pura, mas

    sim o resultado de uma mistura negativa de raas, sendo que

    duas delas, a negra e a indgena, so inferiores do branco

    europeu, por isso nosso povinho s pode ser o que . Ora, h muito

    tempo a cincia destruiu o mito da raa pura, que um conceito

    absurdo, sem nenhuma possibilidade de verificao na realidade de

    nenhum povo, por mais isolado que seja.

    Assim, uma raa que no pura no poderia falar uma lngua

    pura. No difcil encontrar intelectuais renomados que

    lamentem a corrupo do portugus falado no Brasil, lngua de

    matutos, de caipiras infelizes, arremedo tosco da lngua de

    Cames. o que escreve, por exemplo, Arnaldo Niskier, presidente

    da Academia Brasileira de Letras, num artigo publicado na Folha

    de S. Paulo (15/1/98):

    [...] pode-se registrar o fato, facilmente comprovvel, de que nunca se escreveu e falou to mal o idioma de Ruy Barbosa. [...] A classe dita culta mostra-se displicente em relao lngua nacional, e a indigncia vocabular tomou conta da juventude e dos no to jovens assim, quase como se aqueles se orgulhassem de sua prpria ignorncia e estes quisessem voltar atrs no tempo.

    Para mostrar o quanto declaraes desse tipo se baseiam mais

    em posturas preconceituosas perpetuadas ao longo dos sculos

    pela desinformao ou m informao do que em anlises

    cientficas acuradas dos fatos lingsticos, vamos ler o seguinte

    trecho do fillogo Cndido de Figueiredo: [pg. 21]

    Quanto mais progressiva a civilizao de um povo, mais sujeita a sua lngua a deturpaes e vcios, sob a variada influncia das relaes internacionais, dos novos

  • inventos, das travancas da ignorncia, e at dos caprichos da moda. [...] Sbios e romancistas, poetas e prosadores, e nomeadamente a imprensa peridica, parece haverem conspirado para dar curso s mais extraordinrias invenes e enxertos de linguagem.

    Ora, essas palavras foram escritas em 1903 num livro chamado

    O que se no deve dizer (sim, o ttulo esse mesmo!).

    surpreendente como elas tm o mesmo tom de queixa e censura das

    palavras de Niskier, escritas noventa e cinco anos depois! Niskier

    tambm faz, neste artigo, uma referncia queixosa ao pouco apreo

    que devotamos ao gosto pela leitura. Nosso ndice per capita mal

    alcana dois livros por habitante; na Frana, por exemplo, oscila em

    torno de oito, e passa a elogiar os hbitos culturais dos franceses,

    que valorizam mais a leitura do que os brasileiros. Esqueceu-se,

    porm, de dizer que a Frana ocupa a 11 posio no quadro do IDH

    (ndice de Desenvolvimento Humano), estabelecido pela ONU para

    avaliar a qualidade de vida nos 175 pases do mundo. O Brasil, que

    em 1996 ocupava a 58a posio, caiu, em 1999, para a 79a, devido

    sensvel piora das condies sociais dos brasileiros como um todo.

    Diante de tamanha diferena, um ndice per capita de dois livros

    por ano, num pas com 60 milhes de analfabetos plenos e

    analfabetos funcionais (nmero igual ao da populao total da

    Frana), mesmo espantoso...

    E da mesma forma como Niskier lamenta a invaso dos

    anglicismos, Figueiredo diz que o enxerto da francesia [pg. 22]

    frutificou com [...] exuberncia, classificando de malria o uso de

    palavras estrangeiras. E se quisssemos recuar ainda mais no

    tempo, no teramos dificuldades em encontrar outros autores

    vociferando contra a runa da lngua portuguesa e profetizando o

    fim dela.

  • Felizmente, nenhuma dessas profecias se concretizou. Os

    galicismos, na passagem do sculo XIX para o XX, e os anglicismos,

    na virada do terceiro milnio, no tm a fora destruidora to

    temida pelos puristas e conservadores. A lngua portuguesa, nesses

    noventa e cinco anos, se manteve muito bem, obrigada, falada e

    escrita por cada vez mais gente, produziu uma literatura

    reconhecida mundialmente, propagada tambm em nvel

    internacional pelo grande prestgio de que goza a msica popular

    brasileira entre tantas outras provas de sua vitalidade. E a

    avalanche (ai, um galicismo!) de palavras estrangeiras tem de ser

    analisada sob a perspectiva da dependncia poltico-econmica (e

    conseqentemente cultural) do Brasil (e de Portugal) para com os

    centros mundiais de poder. No adianta bradar contra a invaso

    de palavras na lngua portuguesa sem analisar essa dependncia.

    querer eliminar os efeitos sem atacar as verdadeiras causas.

    E essa histria de dizer que brasileiro no sabe portugus e

    que s em Portugal se fala bem portugus? Trata-se de uma

    grande bobagem, infelizmente transmitida de gerao a gerao

    pelo ensino tradicional da gramtica na escola.

    O brasileiro sabe portugus, sim. O que acontece que nosso

    portugus diferente do portugus falado em [pg. 23] Portugal.

    Quando dizemos que no Brasil se fala portugus, usamos esse nome

    simplesmente por comodidade e por uma razo histrica,

    justamente a de termos sido uma colnia de Portugal. Do ponto de

    vista lingstico, porm, a lngua falada no Brasil j tem uma

    gramtica isto , tem regras de funcionamento que cada vez

    mais se diferencia da gramtica da lngua falada em Portugal. Por

    isso os lingistas (os cientistas da linguagem) preferem usar o

  • termo portugus brasileiro, por ser mais claro e marcar bem essa

    diferena.

    Na lngua falada, as diferenas entre o portugus de Portugal e

    o portugus do Brasil so to grandes que muitas vezes surgem

    dificuldades de compreenso: no vocabulrio, nas construes

    sintticas, no uso de certas expresses, sem mencionar, claro, as

    tremendas diferenas de pronncia no portugus de Portugal

    existem vogais e consoantes que nossos ouvidos brasileiros custam a

    reconhecer, porque no fazem parte de nosso sistema fontico3. E

    muitos estudos tm mostrado que os sistemas pronominais do

    portugus europeu e do portugus brasileiro so totalmente

    diferentes.

    Por exemplo, os pronomes o/a, de construes como eu o vi e

    eu a conheo, esto praticamente extintos [pg. 24] no portugus

    falado no Brasil, ao passo que, no de Portugal, continuam firmes e

    fortes. Esses pronomes nunca aparecem na fala das crianas

    brasileiras nem na dos brasileiros no-alfabetizados e tm baixa

    ocorrncia na fala dos indivduos cultos, o que demonstra que so

    exclusivos da lngua ensinada na escola, sobretudo da lngua

    escrita, no fazendo parte, ento, do repertrio da lngua materna

    dos brasileiros. Nossas crianas usam sem problema me e te Ela

    me bateu, Eu vou te pegar , mas o/a jamais, que so

    substitudos por ele/ ela: Eu vou pegar ele, Eu vi ela. As formas

    lo e la peg-lo, v-la , ento, nem pensar. Se as crianas no

    usam porque no ouvem os adultos usar, e se os adultos no usam

    3 Assistindo um dia desses a televiso portuguesa por cabo, ouvi os verbos uprar e dlibrar. Consegue

    adivinhar o que ? Sim, operar e deliberar. Tambm comum os portugueses evitarem hiatos como a gua introduzindo um [y] e pronunciando aygua. Alm disso, se uma palavra termina em s e a prxima comea com c, os portugueses fundem essas duas consoantes numa s, pronunciada como o x de xixi: outros cinco pronunciado otruxincu. So realizaes fonticas totalmente estranhas lngua do brasileiro.

  • porque no precisam desses pronomes. E mesmo na lngua dos

    adultos escolarizados, esses pronomes s aparecem como um

    recurso estilstico, em situaes de uso mais formais, quando o

    falante quer deixar claro que domina as regras impostas pela

    gramtica escolar. A gramtica escolar, no entanto, desconhece essa

    transformao por que a lngua est passando e insiste em

    considerar erradas construes como Eu conheo ele, Voc viu

    ela chegar etc.

    O nico nvel em que ainda possvel uma compreenso quase

    total entre brasileiros e portugueses o da lngua escrita formal,

    porque a ortografia praticamente a mesma, com poucas

    diferenas. Mas um mesmo texto lido em voz alta por um brasileiro

    e por um portugus vai soar completamente diferente, ou melhor,

    difrent! Alis, faa voc mesmo a experincia: tente tirar a letra de

    uma msica cantada por um cantor ou uma cantora da terrinha e

    veja [pg. 25] como difcil!4 E por incrvel que parea, um dos

    principais obstculos para a difuso no Brasil do cinema feito em

    Portugal justamente... a lngua alm das dificuldades de

    distribuio, ligadas ao quase monoplio do cinema americano.

    Como os brasileiros tm dificuldades em entender o portugus de

    Portugal, e como ficaria no mnimo estranho colocar legendas em

    filmes portugueses, o resultado que praticamente nunca se v

    filme portugus nos cinemas daqui. Temos a impresso de que

    Portugal no produz cinema, o que falso: h bons cineastas

    4 Eu mesmo uma vez passei por uma situao embaraosa: um amigo meu, francs, me enviou uma fita

    cassete com msicas do compositor portugus Jos Afonso (por sinal, maravilhoso) e me pediu para tirar a letra de uma delas, de que ele gostava muito. Depois de algumas tentativas, acabei desistindo, porque havia muitas frases inteiras das quais eu no pescava simplesmente nada. Ele, espantado, me perguntou: Mas ele no canta em portugus? Tive de explicar ao meu amigo que havia grandes diferenas entre o portugus do Brasil e o de Portugal. Mas eu tive a minha vingana. Pedi a esse mesmo amigo, pouco depois, que transcrevesse a letra de uma cano gravada por uma cantor canadense, e ele teve a mesma dificuldade, porque o francs do Canad s vezes pode ser incompreensvel para um falante do francs da Frana...

  • portugueses, um dos quais, Manuel d'Oliveira, reconhecido

    internacionalmente como um grande diretor.

    No que diz respeito ao ensino do portugus no Brasil, o grande

    problema que esse ensino at hoje, depois de mais de cento e

    setenta anos de independncia poltica, continua com os olhos

    voltados para a norma lingstica de Portugal. As regras

    gramaticais consideradas certas so aquelas usadas por l, que

    servem para a lngua falada l, que retratam bem o funcionamento

    da lngua que os [pg. 26] portugueses falam. a concepo que

    impera, por exemplo, no livro No erre mais!, de Luiz Antonio

    Sacconi, que na pgina 64 explica:

    A Lua mais pequena que a Terra

    Eis a uma frase corretssima, que muitos imaginam o contrrio. Mais pequeno

    expresso legtima, usada por todos os portugueses, que usam menor quando se trata de idia de qualidade: poeta menor, escritor menor etc. [grifo meu]

    Fica implcito, ento, que para considerar uma expresso

    legtima basta que ela seja usada por todos os portugueses, como

    se eles ditassem a norma lingstica vlida para todos os povos que

    falam portugus. Ora, todos sabemos que mais pequeno no

    funciona no Brasil, uma expresso rejeitada pela norma culta

    brasileira, que usa menor em todas as circunstncias em que h

    comparao.

    O mesmo esprito guiou a revista poca que, em sua edio de

    14 de junho de 1999, estampou uma grande reportagem sobre A

    cincia de escrever bem, acerca da redao no vestibular. Entre as

    melhores redaes apresentadas naquele ano ao vestibular da

    Universidade de So Paulo estava a de Henrique Suguri, 17 anos,

    que em determinado momento assim se expressou (p. 81):

  • O Brasil hoje no europeu, africano, asitico, indgena. Ns somos a mistura exata de tudo isso, completamente diferentes das nossas origens, nicos. E apesar disso, estamos indiscutivelmente atrelados aos princpios da nossa matriz. Talvez o ano 2000 possa servir para abrirmos os olhos e, em vez de comemorarmos os nossos cinco sculos coloniais, enterrarmos o que sobrou deles. [pg. 27]

    Essa belssima declarao de independncia, essa conscincia

    da especificidade cultural do povo brasileiro, essa valorizao de

    nossa identidade nacional, nica, parece que no foi totalmente

    compreendida pelos autores da reportagem. Pois estes, em vez de

    aceitar o convite do jovem vestibulando para enterrar o que sobrou

    dos cinco sculos de colonizao, fizeram questo de comprovar, ao

    contrrio, que ainda estamos indiscutivelmente atrelados aos

    princpios da nossa matriz, incluindo a, claro, os princpios

    lingsticos. Digo isso porque, na pgina 84 da mesma reportagem,

    aparece um quadro chamado Como escrever bem, que tem como

    subttulo:Dicas que valem para brasileiros de todas as idades.

    Acontece que a primeirssima destas dicas a seguinte:

    O uso do gerndio empobrece o texto. Lembre que no existe gerndio no portugus falado em Portugal.

    Ora, se so dicas para brasileiros que querem escrever bem, por

    que motivos eles tm de se lembrar do que existe ou no existe no

    portugus de Portugal? A dica, alm de deixar mostra sua

    inspirao neocolonialista, tambm afirma uma inverdade

    lingstica: no portugus de Portugal existe, sim, o gerndio. A

    ttulo de curiosidade, lembro-me do Fado do cime sucesso na

    voz de Amlia Rodrigues, uma das maiores cantoras portuguesas de

    todos os tempos , cuja letra a certa altura diz: antes prefiro

    morrer / do que contigo viver / sabendo que gostas dela. Esse

  • sabendo outra coisa no seno um gerndio. (Aproveito para

    chamar ateno para o antes [pg. 28] prefiro...do que, indcio de que

    os portugueses tambm erram na hora de usar o verbo preferir...)

    O que no existe no portugus falado em Portugal a

    construo do tipo estou comendo, ela est telefonando, Pedro esteve

    trabalhando muito situaes em que os portugueses usam a

    preposio a seguida do verbo no infinitivo. Imagine agora se algum

    de ns, brasileiros, disser por a frases como estou a comer, ela

    est a telefonar,Pedro esteve a trabalhar muito, que so uma das

    caractersticas mais marcantes do portugus de Portugal! Como no

    me canso de repetir, so simplesmente diferenas de uso e

    diferena no deficincia nem inferioridade. Quanto tempo ainda

    teremos de esperar para nos darmos conta, de uma vez por todas, de

    que somos completamente diferentes das nossas origens, nicos,

    como to brilhantemente escreveu Henrique Suguri em sua redao

    de vestibular?

    Por causa desse preconceito que somos obrigados a ensinar e

    aprender que o certo dizer e escrever D--me um beijo e no Me

    d um beijo, e que errado dizer e escrever Assisti o filme e

    Aluga-se casas, porque l em Portugal no assim que se faz.

    O mito de que brasileiro no sabe portugus tambm afeta o

    ensino de lnguas estrangeiras. muito comum verificar entre

    professores de ingls, francs ou espanhol um grande desnimo

    diante das dificuldades de ensinar o idioma estrangeiro. E mais

    comum ainda ouvi-los dizer: Os alunos j no sabem portugus,

    imagine se vo conseguir aprender outra lngua, fazendo a velha

    confuso entre [pg. 29] lngua e gramtica normativa. muito fcil

    atribuir aos outros a culpa do nosso prprio fracasso. Assim, em vez

    de buscar as causas da dificuldade de ensino na metodologia

  • empregada, nas diferenas de aptido individual para o

    aprendizado de lnguas ou na competncia do prprio professor,

    muito mais cmodo jogar a culpa no aluno ou na incompetncia

    lingstica inata do brasileiro.

    curioso como muitos brasileiros assumem esse mesmo

    preconceito negativo tambm em relao a outras lnguas,

    defendendo sempre a lngua da metrpole contra a lngua da ex-

    colnia. o nosso eterno trauma de inferioridade, nosso desejo de

    nos aproximarmos, o mximo possvel, do cultuado padro ideal,

    que a Europa. Todo santo dia tenho de ouvir algum me dizer que

    prefere o ingls britnico, porque acha o ingls americano muito

    feio. A essas pessoas eu dou sempre a mesma resposta: aprenda o

    ingls britnico se quiser ler Shakespeare; mas se quiser dominar

    uma lngua de uso internacional, aceita em todos os cantos do

    mundo como veculo de intercmbio cultural, comercial,

    diplomtico, tecnolgico, cientfico etc., aprenda o ingls americano.

    Se algum de ns disser a um norte-americano que ele no sabe

    ingls ou que o ingls falado nos Estados Unidos errado ou

    feio, ele decerto vai ficar chocado com nossa ignorncia. Afinal,

    existe um argumento mais do que convincente para rebater essa

    acusao: o tamanho do pas e a quantidade de falantes de ingls

    que ali vivem, alm da importncia dos Estados Unidos no

    panorama mundial. [pg. 30]

    O mesmo argumento vale para o portugus do Brasil. Nosso

    pas 92 vezes e meia maior que Portugal, e nossa populao

    quase 15 vezes superior! Quando se trata de lngua, temos de levar

    em conta a quantidade: s na cidade de So Paulo vivem mais

    falantes de portugus do que em toda a Europa! Alm disso, o papel

    do Brasil no cenrio poltico-econmico mundial , de longe, muito

  • mais importante que o de Portugal. No tem sentido nenhum,

    portanto, continuar alimentando essa fantasia de que os

    portugueses so os verdadeiros donos da lngua, enquanto ns a

    utilizamos (e mal!) apenas por emprstimo.

    Existe, embutida nesse mito, a iluso de que os portugueses

    falam e escrevem tudo certo e que seguem rigorosamente as

    regras da gramtica ensinada na escola. A professora Irand

    Antunes, de quem tive a honra de ser aluno na Universidade

    Federal de Pernambuco, me contou que quando estava para

    embarcar para Portugal, onde viveria alguns anos preparando seu

    doutorado, muitas pessoas no Brasil lhe disseram: Voc vai morar

    em Portugal? Ento agora suas filhas vo aprender a falar direito!

    No nada disso. Assim como ns aqui cometemos nossos

    pecados contra a gramtica normativa, os portugueses tambm

    cometem os deles, s que, mais uma vez, diferentes dos nossos. Em

    Portugal, por exemplo, o plural de tu no vs, como querem as

    gramticas normativas. O plural de tu vocs. Pois bem, na hora de

    usar os possessivos, os portugueses usam vosso/vossa, que,

    teoricamente, s poderiam ser usados com referncia a vs: Vocs

    trouxeram os vossos filhos? E num livro editado [pg. 31] em

    Portugal encontrei a seguinte pergunta: No vos sucede sentirem-

    se por vezes um pouco indefinidos? a famosa mistura de

    tratamento, que causa tanto arrepio e dor de estmago nos

    gramticos conservadores mistura que, em termos cientficos e

    no-preconceituosos, deve ser analisada, de fato, como uma

    reorganizao do sistema pronominal da lngua, tanto a de l como

    a de c.

    Ento, no h por que continuar difundindo essa idia mais do

    que absurda de que brasileiro no sabe portugus. O brasileiro

  • sabe o seu portugus, o portugus do Brasil, que a lngua materna

    de todos os que nascem e vivem aqui, enquanto os portugueses

    sabem o portugus deles. Nenhum dos dois mais certo ou mais

    errado, mais feio ou mais bonito: so apenas diferentes um do outro

    e atendem s necessidades lingsticas das comunidades que os

    usam,necessidades que tambm so... diferentes!

    Em seu livro Emlia no Pas da Gramtica, publicado em 1934,

    Monteiro Lobato j chamava a ateno para esse tipo de preconceito

    (que no entanto continua firme e forte no Brasil de hoje!). Numa

    conversa com as crianas do Stio do Pica-pau Amarelo, a velha

    Dona Etimologia lhes diz (pp. 100-101):

    [...] Uma lngua no pra nunca. Evolui sempre, isto , muda sempre. H certos gramticos que querem fazer a lngua parar num certo ponto, e acham que erro

    dizermos de modo diferente do que diziam os clssicos. Quem vem a ser clssicos? perguntou a menina [Narizinho]. Os entendidos chamam clssicos aos escritores antigos, como o padre

    Antnio Vieira, Frei Lus de Sousa, o padre [pg. 32] Manuel Bernardes e outros. Para os carranas, quem no escreve como eles est errado. Mas isso curteza de vistas. Esses homens foram bons escritores no seu tempo. Se aparecessem agora seriam os primeiros a mudar, ou a adotar a lngua de hoje, para serem entendidos. A lngua variou muito e sobretudo aqui na cidade nova [o Brasil]. Inmeras palavras que na cidade velha [Portugal] querem dizer uma coisa, aqui dizem outra. [...] Tambm no modo de pronunciar as palavras existem muitas variaes. Aqui, todos dizem PEITO; l, todos dizem PAITO, embora escrevam a palavra da mesma maneira. Aqui se diz TENHO e l se diz TANHO. Aqui se diz VERO e l se diz V'RO.

    Tambm eles dizem por l VATATA, VACALHAU, BACA, VESOURO lembrou Pedrinho.

    Sim, o povo de l troca muito o v pelo B e vice-versa. Nesse caso, aqui nesta cidade se fala mais direito do que na cidade velha

    concluiu Narizinho.

  • Por qu? Ambas tm o direito de falar como quiserem, e portanto ambas esto certas. O que sucede que uma lngua, sempre que muda de terra, comea a variar muito mais depressa do que se no tivesse mudado. Os costumes so outros, a natureza outra as necessidades de expresso tornam-se outras. Tudo junto fora a lngua que emigra a adaptar-se sua nova ptria.

    A lngua desta cidade [Brasil] est ficando um dialeto da lngua velha. Com o correr dos sculos bem capaz de ficar to diferente da lngua velha como esta ficou diferente do latim. Vocs vo ver.

    Monteiro Lobato, que morreu em 1948, estava muito mais por

    dentro das noes da lingstica moderna do que muito autor de

    gramtica que est por a hoje, vivo e bulindo, como se diz no

    Nordeste... [pg. 33]

    espantoso que a figura do gramtico autoritrio e intolerante

    ridicularizado por Lobato na personagem do professor

    Aldrovando Cantagalo, em seu delicioso conto O colocador de

    pronomes, de 1924 (!) tenha voltado cena neste fim de sculo,

    sob a roupagem enganosamente moderna da televiso, do

    computador e da multimdia. [pg. 34]

  • Mito n 3

    Portugus muito difcil

    Essa afirmao preconceituosa prima-irm da idia que

    acabamos de derrubar, a de que brasileiro no sabe portugus.

    Como o nosso ensino da lngua sempre se baseou na norma

    gramatical de Portugal, as regras que aprendemos na escola em boa

    parte no correspondem lngua que realmente falamos e

    escrevemos no Brasil. Por isso achamos que portugus uma

    lngua difcil: porque temos de decorar conceitos e fixar regras que

    no significam nada para ns. No dia em que nosso ensino de

    portugus se concentrar no uso real, vivo e verdadeiro da lngua

    portuguesa do Brasil bem provvel que ningum mais continue a

    repetir essa bobagem.

    Todo falante nativo de uma lngua sabe essa lngua. Saber uma

    lngua, no sentido cientfico do verbo saber, significa conhecer

    intuitivamente e empregar com naturalidade as regras bsicas de

    funcionamento dela.

    Est provado e comprovado que uma criana entre os 3 e 4

    anos de idade j domina perfeitamente as regras gramaticais de sua

    lngua! O que ela no conhece so sutilezas, sofisticaes e

    irregularidades no uso dessas regras, coisas que s a leitura e o

    estudo podem lhe dar. Mas nenhuma criana brasileira dessa idade

    vai dizer, por exemplo: Uma meninos chegou aqui amanh. Um

    estrangeiro, porm, que esteja comeando a aprender portugus,

    poder se confundir e falar assim. Por isso aquela piadinha que

  • muita gente solta quando v uma criancinha estrangeira falando

    To pequeno e j fala to bem [pg. 35] ingls [ou outra lngua]

    tem seu fundo de verdade: muito pouca gente conseguir falar uma

    lngua estrangeira com tanta desenvoltura quanto uma criana de

    cinco anos que tem nela sua lngua materna! Por qu? Porque toda

    e qualquer lngua fcil para quem nasceu e cresceu rodeado por

    ela! Se existisse lngua difcil, ningum no mundo falaria hngaro,

    chins ou guarani, e no entanto essas lnguas so faladas por

    milhes de pessoas, inclusive criancinhas analfabetas!

    Se tanta gente continua a repetir que portugus difcil

    porque o ensino tradicional da lngua no Brasil no leva em conta o

    uso brasileiro do portugus. Um caso tpico o da regncia verbal. O

    professor pode mandar o aluno copiar quinhentas mil vezes a frase:

    Assisti ao filme. Quando esse mesmo aluno puser o p fora da sala

    de aula, ele vai dizer ao colega: Ainda no assisti o filme do Zorro!

    Porque a gramtica brasileira no sente a necessidade daquela

    preposio a, que era exigida na norma clssica literria, cem anos

    atrs, e que ainda est em vigor no portugus falado em Portugal, a

    dez mil quilmetros daqui! um esforo rduo e intil, um

    verdadeiro trabalho de Ssifo, tentar impor uma regra que no

    encontra justificativa na gramtica intuitiva do falante.

    A prova mais visvel disso que aquelas mesmas pessoas que,

    por causa da presso policialesca da escola e da gramtica

    tradicional, usam a preposio a depois do verbo assistir, tambm

    dizem que o jogo foi assistido por vinte mil pessoas. Ora, se o

    verbo assistir pede uma preposio porque ele no transitivo

    direto, e s os verbos transitivos diretos podem, segundo as

    gramticas, assumir a voz passiva. Desse modo, quem diz assisti

    ao [pg. 36] jogo no poderia, teoricamente, dizer o jogo foi

  • assistido. S que essa esquizofrenia gramatical acontece o tempo

    todo. Basta ler jornais como a Folha de S. Paulo e o Estado de S.

    Paulo, cujos manuais de redao decretam que o verbo assistir tem

    que vir obrigatoriamente seguido da preposio a. Na voz ativa, a

    preposio aparece: Vinte mil pagantes assistiram ao jogo, porque

    assim manda o manual da redao. Mas na hora de usar a voz

    passiva, a gramtica intuitiva brasileira do redator se manifesta, e

    a gente encontra milhares de exemplos do tipo o jogo foi assistido

    por vinte mil pagantes. Essas pessoas, ento, ficam em cima do

    muro: acertam na voz ativa, por causa do patrulhamento

    lingstico, mas erram na passiva, porque se deixam levar pelo

    uso normal do portugus brasileiro. Tudo isso por causa da

    cobrana indevida, por parte do ensino tradicional, de uma norma

    gramatical que no corresponde realidade da lngua falada no

    Brasil. O professor Sirio Possenti, da UNICAMP, em seu excelente

    livro Por que (no) ensinar gramtica na escola, classifica a

    regncia assistir a como um arcasmo, uma forma sinttica que j

    caiu em desuso, mas continua sendo cobrada injustificadamente

    pelo ensino tradicionalista, que se recusa a admitir a extino desse

    e de muitos outros dinossauros lingsticos.

    Por isso tantas pessoas terminam seus estudos, depois de onze

    anos de ensino fundamental e mdio, sentindo-se incompetentes

    para redigir o que quer que seja. E no toa: se durante todos

    esses anos os professores tivessem chamado a ateno dos alunos

    para o que realmente interessante e importante, se tivessem

    desenvolvido [pg. 37] as habilidades de expresso dos alunos, em

    vez de entupir suas aulas com regras ilgicas e nomenclaturas

    incoerentes, as pessoas sentiriam muito mais confiana e prazer no

    momento de usar os recursos de seu idioma, que afinal um

  • instrumento maravilhoso e que pertence a todos! Falaremos disso

    na terceira parte deste livro.

    Se tantas pessoas inteligentes e cultas continuam achando que

    no sabem portugus ou que portugus muito difcil porque

    esta disciplina fascinante foi transformada numa cincia

    esotrica, numa doutrina cabalstica que somente alguns

    iluminados (os gramticos tradicionalistas!) conseguem dominar

    completamente. Eles continuam insistindo em nos fazer decorar

    coisas que ningum mais usa (fsseis gramaticais!), e a nos

    convencer de que s eles podem salvar a lngua portuguesa da

    decadncia e da corrupo. Hoje em dia, alis, alguns deles esto

    at fazendo sucesso na televiso, no rdio e em outros meios de

    comunicao, transformando essa suposta dificuldade do

    portugus num produto com boa sada comercial. Para o j citado

    Arnaldo Niskier, trata-se de uma saudvel epidemia que tomou

    conta da imprensa brasileira. Que epidemia, concordo, mas

    quanto a ser saudvel, tenho muitas e srias dvidas... livro,

    curso em vdeo-cassete, CD-ROM, Manual de Redao do Jornal

    Tal, consultrio gramatical por telefone... Eles juram que quem

    no souber conjugar o verbo apropinquar-se vai direto para o

    inferno! Na segunda parte deste livro tratarei de explicar por que

    no considero saudvel essa epidemia. [pg. 38]

    No fundo, a idia de que portugus muito difcil serve como

    mais um dos instrumentos de manuteno do status quo das classes

    sociais privilegiadas. Essa entidade mstica e sobrenatural

    chamada portugus s se revela aos poucos iniciados, aos que

    sabem as palavras mgicas exatas para faz-la manifestar-se. Tal

    como na ndia antiga, o conhecimento da gramtica reservado a

  • uma casta sacerdotal, encarregada de preserv-la pura e

    intacta, longe do contato infeccioso dos prias.

    A propaganda da suposta dificuldade da lngua , como diz

    Gnerre no livro j citado,o arame farpado mais poderoso para

    bloquear o acesso ao poder (p. 6). Sustentar que portugus muito

    difcil cavar uma profunda trincheira entre os poucos que sabem

    a lngua e a massa enorme de asnos (termo usado por Luiz

    Antonio Sacconi em seu livro No erre mais!) que necessitam,

    assim, do auxlio indispensvel daqueles mestres para saltar

    com segurana por sobre o abismo da ignorncia.

    Em termos mais brandos, a embalagem do CD-ROM Nossa

    lngua portuguesa oferece o produto como uma ajuda a evitar as

    armadilhas da lngua. Ora, no a lngua que tem armadilhas,

    mas sim a gramtica normativa tradicional, que as inventa

    precisamente para justificar sua existncia e para nos convencer de

    que ela indispensvel.

    No seria a hora de acionar a Lei de Defesa do Consumidor

    contra essa reserva de mercado? [pg. 39]

  • Mito n 4

    As pessoas sem instruo falam tudo errado

    O preconceito lingstico se baseia na crena de que s existe,

    como vimos no Mito n 1, uma nica lngua portuguesa digna deste

    nome e que seria a lngua ensinada nas escolas, explicada nas

    gramticas e catalogada nos dicionrios. Qualquer manifestao

    lingstica que escape desse tringulo escola-gramtica-dicionrio

    considerada, sob a tica do preconceito lingstico, errada, feia,

    estropiada, rudimentar, deficiente, e no raro a gente ouvir que

    isso no portugus.

    Um exemplo. Na viso preconceituosa dos fenmenos da

    lngua, a transformao de I em R nos encontros consonantais como

    em Crudia, chicrete, praca, broco, pranta tremendamente

    estigmatizada e s vezes considerada at como um sinal do

    atraso mental das pessoas que falam assim. Ora, estudando

    cientificamente a questo, fcil descobrir que no estamos diante

    de um trao de atraso mental dos falantes ignorantes do

    portugus, mas simplesmente de um fenmeno fontico que

    contribuiu para a formao da prpria lngua portuguesa padro.

    Basta olharmos para o seguinte quadro: [pg. 40]

    PORTUGUS PADRO ETIMOLOGIA ORIGEM

    branco > blank germnico

    brando > blandu latim

    cravo > clavu latim

  • dobro > duplu latim

    escravo > sclavu latim

    fraco > flaccu latim

    frouxo > fluxu latim

    grude > gluten latim

    obrigar > obligare latim

    praga > plaga latim

    prata > plata provenal

    prega > plica latim

    Como fcil notar, todas as palavras do portugus--padro

    listadas acima tinham, na sua origem, um I bem ntido que se

    transformou em R. E agora? Se fssemos pensar que as pessoas que

    dizem Crudia, chicrete e pranta tm algum defeito ou atraso

    mental, seramos forados a admitir que toda a populao da

    provncia romana da Lusitnia tambm tinha esse mesmo problema

    na poca em que a lngua portuguesa estava se formando. E que o

    grande Lus de Cames tambm sofria desse mesmo mal, j que ele

    escreveu ingrs, pubricar, pranta, frauta, frecha na obra que

    considerada at hoje o maior monumento literrio do portugus

    clssico, o poema Os Lusadas. E isso, craro, seria no mnimo

    absurdo.

    Existem, evidentemente, falantes da norma culta urbana,

    pessoas escolarizadas, que tm problemas para [pg. 41] pronunciar

    os encontros consonantais com L. Nesses casos, sim, trata-se

    realmente de uma dificuldade fsica que pode ser resolvida com uma

    terapia fonoaudiolgica. No dessas pessoas que estamos tratando

    aqui, mas dos brasileiros falantes das variedades no-padro, em

    cujo sistema fontico simplesmente no existe encontro consonantal

  • com L, independentemente de terem ou no dificuldades

    articulatrias. Quando, na escola, se depararem com os encontros

    consonantais com L, preciso que o professor tenha conscincia de

    que se trata de um aspecto fontico estrangeiro para eles, do

    mesmo tipo dos que encontramos, por exemplo, nos cursos de ingls,

    quando nos esforamos para pronunciar bem o TH de throw ou o I de

    live. preciso separar bem os dois aspectos do fenmeno.

    Se dizer Crudia, praca, pranta considerado errado, e, por

    outro lado, dizer frouxo, escravo, branco, praga considerado

    certo, isso se deve simplesmente a uma questo que no

    lingstica, mas social e poltica as' pessoas que dizem Crudia,

    praca, pranta pertencem a uma classe social desprestigiada,

    marginalizada, que no tem acesso educao formal e aos bens

    culturais da elite, e por isso a lngua que elas falam sofre o mesmo

    preconceito que pesa sobre elas mesmas, ou seja, sua lngua

    considerada feia,pobre,carente, quando na verdade apenas

    diferente da lngua ensinada na escola.

    Ora, do ponto de vista exclusivamente lingstico, o fenmeno

    que existe no portugus no-padro o mesmo que aconteceu na

    histria do portugus-padro, e [pg. 42] tem at um nome tcnico:

    rotacismo. O rotacismo participou da formao da lngua

    portuguesa padro, como j vimos em branco, escravo, praga, fraco

    etc., mas ele continua vivo e atuante no portugus no-padro, como

    em broco, chicrete, pranta, Crudia, porque essa variedade no-

    padro deixa que as tendncias normais e inerentes lngua se

    manifestem livremente. Assim, o problema no est naquilo que se

    fala, mas em quem fala o qu. Neste caso, o preconceito lingstico

    decorrncia de um preconceito social. Este tipo especfico de

    preconceito o que abordei em meu livro A lngua de Eullia.

  • Minha herona literria predileta, a boneca Emlia, de

    Monteiro Lobato, no quis saber desse tipo de preconceito. Ao

    visitar, no Pas da Gramtica, a priso onde Dona Sintaxe

    mantinha enjaulados os vcios de linguagem, revoltou-se ao ver

    atrs das grades o Provincianismo, isto , os vcios da fala rural,

    do caipira (p. 120):

    Emlia no achou que fosse caso de conservar na cadeia o pobre matuto. Alegou que ele tambm estava trabalhando na evoluo da lngua e soltou-o.

    V passear, seu Jeca. Muita coisa que hoje esta senhora condena vai ser lei um dia. Foi voc quem inventou o VOC em vez de TU, e s isso quanto no vale? Estamos livres da complicao antiga do Tuturututu.

    Como se v, do mesmo modo como existe o preconceito contra a

    fala de determinadas classes sociais, tambm existe o preconceito

    contra a fala caracterstica de certas regies. um verdadeiro

    acinte aos direitos humanos, por exemplo, o modo como a fala

    nordestina retratada [pg. 43] nas novelas de televiso,

    principalmente da Rede Globo. Todo personagem de origem

    nordestina , sem exceo, um tipo grotesco, rstico, atrasado,

    criado para provocar o riso, o escrnio e o deboche dos demais

    personagens e do espectador. No plano lingstico, atores no-

    nordestinos expressam-se num arremedo de lngua que no falada

    em lugar nenhum do Brasil, muito menos no Nordeste. Costumo

    dizer que aquela deve ser a lngua do Nordeste de Marte! Mas ns

    sabemos muito bem que essa atitude representa uma forma de

    marginalizao e excluso.

    Para mostrar que a fala nordestina nada tem de engraada

    ou ridcula, vamos fazer uma pequena comparao. Na pronncia

    normal do Sudeste, a consoante que escrevemos T pronunciada [t]

  • (como em tcheco) toda vez que seguida de um [i]. Esse fenmeno

    fontico se chama palatalizao. Por causa dele, ns, sudestinos,

    pronunciamos [titia] a palavra escrita TITIA. E todo mundo acha

    isso perfeitamente normal, ningum tem vontade de rir quando um

    carioca, mineiro ou capixaba fala assim.

    Quando, porm, um falante do Sudeste ouve um falante da

    zona rural nordestina pronunciar a palavra escrita OITO como

    [oytu], ele acha isso muito engraado, ridculo ou errado. Ora,

    do ponto de vista meramente lingstico, o fenmeno o mesmo

    palatalizao , s que o elemento provocador dessa palatalizao,

    o [y], est antes do [t] e no depois dele.

    Ento, se o fenmeno o mesmo, por que na boca de um ele

    normal e na boca de outro ele engraado, [pg. 44] feio ou

    errado? Porque o que est em jogo aqui no a lngua, mas a

    pessoa que fala essa lngua e a regio geogrfica onde essa pessoa

    vive. Se o Nordeste atrasado, pobre, subdesenvolvido ou (na

    melhor das hipteses) pitoresco, ento, naturalmente, as pessoas

    que l nasceram e a lngua que elas falam tambm devem ser

    consideradas assim...

    Ora, faa-me o favor, Rede Globo! [pg. 45]

  • Mito n5

    O lugar onde melhor se fala portugus no Brasil o Maranho

    No sei quem foi a primeira pessoa que proferiu essa grande

    bobagem, mas a realidade que at hoje ela continua sendo

    repetida por muita gente por a, inclusive gente culta, que no sabe

    que isso apenas um mito sem nenhuma fundamentao cientfica.

    De onde ser que veio essa idia? Esse mito nasceu, mais uma vez,

    da velha posio de subservincia em relao ao portugus de

    Portugal.

    sabido que no Maranho ainda se usa com grande

    regularidade o pronome tu, seguido das formas verbais clssicas,

    com a terminao em -s caracterstica da segunda pessoa: tu vais, tu

    queres, tu dizes, tu comias, tu cantavas etc. Na maior parte do

    Brasil, como sabemos, devido reorganizao do sistema

    pronominal de que j falei, o pronome tu foi substitudo por voc.

    Alis, nas palavras da boneca Emlia, o tu j est velho coroco e o

    que ele deve fazer, na opinio dela, ir arrumando a trouxa e

    pondo-se ao fresco, e mudar-se de vez para o bairro das palavras

    arcaicas. De fato, o pronome tu est em vias de extino na fala do

    brasileiro, e quando ainda usado, como por exemplo em alguns

    falares caractersticos de certas camadas sociais do Rio de Janeiro,

    o verbo assume a forma da terceira pessoa: tu vai, tu fica, tu quer,

    tu deixa disso etc., que caracteriza tambm a fala informal de

    algumas outras regies. Em Pernambuco, por [pg. 46] exemplo,

  • muito comum a interjeio interrogativa tu acha? para indicar

    surpresa ou indignao.

    Ora, somente por esse arcasmo, por essa conservao de um

    nico aspecto da linguagem clssica literria, que coincide com a

    lngua falada em Portugal ainda hoje, que se perpetua o mito de

    que o Maranho o lugar onde melhor se fala o portugus no

    Brasil.

    Acontece, porm, que os defensores desse mito no se do conta

    de que, ao utilizarem o critrio prescritivista de correo para

    sustent-lo, se esquecem de que os mesmos maranhenses que dizem

    tu s, tu vais, tu foste, tu quiseste, tambm dizem: Esse um bom

    livro para ti ler, em vez da forma correta, Esse um bom livro

    para tu leres. Ou seja, eles atribuem ao pronome ti a mesma funo

    de sujeito que em amplas regies do Brasil, nas mais diversas

    camadas sociais (cultas inclusive), atribuda ao pronome mim

    quando antecedido da preposio para e seguido de verbo no

    infinitivo: Para mim fazer isso vou precisar da sua ajuda uma

    construo sinttica que deixa tanta gente de cabelo em p.

    O que acontece com o portugus do Maranho em relao ao

    portugus do resto do pas o mesmo que acontece com o portugus

    de Portugal em relao ao portugus do Brasil: no existe nenhuma

    variedade nacional, regional ou local que seja intrinsecamente

    melhor, mais pura, mais bonita, mais correta que outra.

    Toda variedade lingstica atende s necessidades da comunidade

    de seres humanos que a empregam. Quando deixar de atender, ela

    inevitavelmente sofrer transformaes para [pg. 47] se adequar s

    novas necessidades. Toda variedade lingstica tambm o

    resultado de um processo histrico prprio, com suas vicissitudes e

    peripcias particulares. Se o portugus de So Lus do Maranho e

  • de Belm do Par, assim como o de Florianpolis, conservou o

    pronome tu com as conjugaes verbais lusitanas, porque nessas

    regies aconteceu, no perodo colonial, uma forte imigrao de

    aorianos, cujo dialeto especfico influenciou a variedade de

    portugus brasileiro falado naqueles locais. O mesmo acontece com

    algumas caractersticas italianizantes do portugus da cidade de

    So Paulo, onde grande a presena dos imigrantes italianos e seus

    descendentes, ou com castelhanismos evidentes na fala dos

    gachos, que mantm estreitos contatos culturais com seus vizinhos

    argentinos e uruguaios.

    Numa entrevista revista Veja (10/9/97), Pasquale Cipro Neto

    disse que pura lenda a idia de que o Maranho o lugar do

    Brasil onde melhor se fala portugus. Ponto para ele. Infelizmente,

    continuando a tratar do assunto, no hesitou em afirmar que no

    cmputo geral, o carioca o que se expressa melhor sob a tica da

    norma culta e que

    a So Paulo que fala 'dois pastel' e acabou as ficha' um horror. No acredito que o fato de ser uma cidade com grande nmero de imigrantes seja uma explicao suficiente para esse portugus esquisito dos paulistanos. Na verdade, inexplicvel.

    Faltam argumentos cientficos rigorosos, por parte do

    entrevistado, que nos expliquem como chegou ao cmputo [pg. 48]

    geral que lhe permitiu atribuir ao carioca uma expresso melhor

    sob a tica da norma culta, nem com que critrios metodolgicos

    chegou concluso de que o portugus paulistano esquisito. O

    uso de expresses to generalizadoras como o carioca (de que

    classe social, de que faixa etria, com que nvel de instruo?) ou a

    So Paulo que fala (quase vinte milhes de habitantes, duas vezes

    a populao de Portugal!) acaba reforando indiretamente (devido

  • influncia inegvel de quem as formulou como formador de opinio)

    a idia de que o falar carioca melhor e digno de maior prestgio

    que os demais falares brasileiros idia que, no passado, levou at

    a se querer impor a pronncia carioca como a oficial no teatro, no

    canto lrico e nas salas de aula do Brasil inteiro!

    As pesquisas sociolingsticas que se baseiam em coleta de

    dados por meio de gravaes da fala espontnea, viva, dos usurios

    nativos da lngua confirmam uma suposio bvia: as pessoas

    das classes cultas de qualquer lugar dominam melhor a norma

    culta do que as pessoas das classes no-cultas de qualquer lugar.

    Falantes cultos do Rio de Janeiro, do Recife, de Porto Alegre, de So

    Paulo, de Catol do Rocha ou de Guaratinguet se expressaro

    igualmente bem sob a tica da norma culta. Basta consultar, por

    exemplo, o enorme acervo de centenas de horas de gravao da fala

    urbana culta recolhido pelos pesquisadores do Projeto NURC5 para

    confirmar que, [pg. 49] apesar das inevitveis variaes regionais,

    existe uma norma urbana culta geral brasileira. Muitos aspectos

    dessa norma urbana culta esto descritos nos seis volumes da

    Gramtica do portugus falado, uma grande obra coletiva publicada

    pela Editora da UNICAMP, resultado do trabalho de investigao e

    anlise de dezenas de lingistas das mais diversas regies do pas.

    De igual modo, fenmenos de concordncia do tipo dois pastel

    e acabou as ficha so facilmente encontrveis na fala carioca,

    como podemos ouvir nas fitas gravadas do Projeto CENSO, que

    5 O material do Projeto NURC pode ser consultado nos vrios livros publicados com as transcries das

    fitas gravadas nas cincos diferentes cidades que compem o projeto (Recife, Salvador, Rio de Janeiro, So Paulo e Porto Alegre). Alguns desses livros so: CASTILHO & PRETI, A linguagem falada culta na cidade de So Paulo (So Paulo, T. A. Queiroz/FAPESP, 1987 - vol. 1 - e 1988 - vol. 2); CALLOU & LOPES, A linguagem falada culta na cidade do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, UFRJ, 1992 - vol. 1 -, 1993 - vol. 2 - e 1994 - vol. 3); HILGERT, A linguagem falada culta na cidade de Porto Alegre (UFRS, 1997, vol. 1); MOTA & ROLLEMBERG, A linguagem falada culta na cidade do Salvador (UFBA, 1994, vol. 1); S, CUNHA, LIMA & OLIVEIRA, A linguagem falada culta na cidade do Recife (UFPE, 1996).

  • investiga o uso da lngua no Rio de Janeiro nas classes sociais no-

    cultas (isto , pessoas que no cursaram universidade)6. Alm disso,

    esse tipo de concordncia se verifica de Norte a Sul do Brasil e

    tambm em Portugal, segundo pesquisas recentes da professora

    Maria Marta Scherre. Essa mesma pesquisadora defendeu, na

    Universidade Federal do Rio de Janeiro, uma tese de doutorado com

    o ttulo Reanlise da concordncia [pg. 50] nominal em portugus,

    com 555 pginas, que hoje uma referncia obrigatria para quem

    se aventurar a emitir opinies a respeito. Scherre mostra que, ao

    contrrio do que pensa Cipro, aqueles fenmenos de concordncia

    so, na verdade, altamente explicveis. Portanto no representam

    uma mera esquisitice dos paulistanos, muito menos um horror.

    Convm salientar que a determinao das normas culta e no-

    culta uma questo de grau de freqncia das variantes (o que os

    normativistas considerariam erros ou acertos). Por exemplo, coisas

    como os menino tudo ou houveram fatos podem aparecer na fala

    de brasileiros cultos.

    preciso abandonar essa nsia de tentar atribuir a um nico

    local ou a uma nica comunidade de falantes o melhor ou o pior

    portugus e passar a respeitar igualmente todas as variedades da

    lngua, que constituem um tesouro precioso de nossa cultura. Todas

    elas tm o seu valor, so veculos plenos e perfeitos de comunicao

    e de relao entre as pessoas que as falam. Se tivermos de

    incentivar o uso de uma norma culta, no podemos faz-lo de modo

    absoluto, fonte do preconceito. Temos de levar em considerao a

    presena de regras variveis em todas as variedades, a culta

    inclusive. [pg. 51]

    6 A anlise de alguns fenmenos variveis do portugus falado na cidade do Rio de Janeiro, com base no

    acervo do Projeto CENSO, se encontra no livro organizado por SILVA & SCHERRE, Padres sociolingsticos, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro/UFRJ, 1996.

  • Mito n 6

    O certo falar assim porque se escreve assim

    Diante de uma tabuleta escrita COLGIO provvel que um

    pernambucano, lendo-a em voz alta, diga Clgio, que um carioca

    diga CUlgio, que um paulistano diga Clgio. E agora? Quem est

    certo? Ora, todos esto igualmente certos. O que acontece que em

    toda lngua do mundo existe um fenmeno chamado variao, isto ,

    nenhuma lngua falada do mesmo jeito em todos os lugares, assim

    como nem todas as pessoas falam a prpria lngua de modo idntico.

    Infelizmente, existe uma tendncia (mais um preconceito!)

    muito forte no ensino da lngua de querer obrigar o aluno a

    pronunciar do jeito que se escreve, como se essa fosse a nica

    maneira certa de falar portugus. (Imagine se algum fosse falar

    ingls ou francs do jeito que se escreve!) Muitas gramticas e livros

    didticos chegam ao cmulo de aconselhar o professor a corrigir

    quem fala muleque, bjo, minino, bisro, como se isso pudesse

    anular o fenmeno da variao, to natural e to antigo na histria

    das lnguas. Essa supervalorizao da lngua escrita combinada

    com o desprezo da lngua falada um preconceito que data de antes

    de Cristo!

    claro que preciso ensinar a escrever de acordo com a

    ortografia oficial, mas no se pode fazer isso tentando criar uma

    lngua falada artificial e reprovando como erradas as pronncias

    que so resultado natural das [pg. 52] foras internas que

  • governam o idioma. Seria mais justo e democrtico dizer ao aluno

    que ele pode dizer BUnito ou BOnito, mas que s pode escrever

    BONITO, porque necessria uma ortografia nica para toda a

    lngua, para que todos possam ler e compreender o que est escrito,

    mas preciso lembrar que ela funciona como a partitura de uma

    msica: cada instrumentista vai interpret-la de um modo todo seu,

    particular!

    O pintor belga Ren Magritte (1898-1967) tem um quadro

    famoso, chamado A traio das imagens, no qual se v a figura de

    um cachimbo e embaixo dela a frase escrita: Isto no um

    cachimbo.

    Em que esse exemplo pode servir nossa discusso? Isso no

    um cachimbo de verdade, mas simplesmente a representao

    grfica, pictrica de um cachimbo. O mesmo acontece com a escrita

    alfabtica, em sua regulamentao ortogrfica oficial. Ela no a

    fala: uma tentativa [pg. 53] de representao grfica, pictrica e

  • convencional da lngua falada. (Falarei mais detidamente da

    parania ortogrfica na terceira parte deste livro.)

    Quando digo que a escrita uma tentativa de representao

    porque sabemos que no existe nenhuma ortografia em nenhuma

    lngua do mundo que consiga reproduzir a fala com fidelidade.

    Algumas ortografias, como a do espanhol, tm regras mais

    generalizveis, mais simples e mais coerentes, que facilitam o ato

    de ler e escrever. Mesmo assim, no castelha-no-padro da Espanha,

    pode sempre haver dvidas: Z ou C? B ou V? G ou J?

    Outras lnguas, como o ingls, tm mais excees do que

    regras, e preciso aprender a escrever (e a pronunciar)

    praticamente cada palavra, pois a generalizao das regras

    ortogrficas tem boa chance de falhar: para um falante de

    portugus, estranho imaginar que as palavras jail e gaol tenham

    a mesma pronncia! Outras, ainda, como o chins, no buscam

    reproduzir a lngua falada, e optam pela escrita ideogrfica.

    Esta relao complicada entre lngua falada e lngua escrita

    precisa ser profundamente reexaminada no ensino. Durante mais

    de dois mil anos, os estudos gramaticais se dedicaram

    exclusivamente lngua escrita literria, formal. Foi somente no

    comeo do sculo XX, com o nascimento da cincia lingstica, que a

    lngua falada passou a ser considerada como o verdadeiro objeto de

    estudo cientfico. Afinal, a lngua falada a lngua tal como foi

    aprendida pelo falante em seu contato com a famlia e com a

    comunidade, [pg. 54] logo nos primeiros anos de vida. o

    instrumento bsico de sobrevivncia. Um grito de socorro tem muito

    mais eficcia do que essa mesma mensagem escrita.

    A lngua escrita, por seu lado, totalmente artificial, exige

    treinamento, memorizao, exerccio, e obedece a regras fixas, de

  • tendncia conservadora, alm de ser uma representao no

    exaustiva da lngua falada.

    Faa voc mesmo o teste: pegue uma palavra bem simples

    fogo, por exemplo e pronuncie-a com todas as inflexes e tons de

    voz que conseguir: espanto, medo, alegria, tristeza, saudade, ira,

    remorso, horror, felicidade, histeria, pavor... Depois tente

    reproduzir por escrito essas mesmas inflexes e tons de voz.

    impossvel. O mximo que a lngua escrita oferece so os sinais de

    exclamao e de interrogao! A mera forma escrita no capaz de

    traduzir as inflexes e as intenes pretendidas pelo falante. Por

    isso, os autores de textos teatrais indicam, entre parnteses, a

    emoo, sensao ou sentimento que o ator deve expressar numa

    dada fala.

    A importncia da lngua falada para o estudo cientfico est

    principalmente no fato de ser nessa lngua falada que ocorrem as

    mudanas e as variaes que incessantemente vo transformando a

    lngua. Quem quiser, por exemplo, conhecer o estado atual da

    lngua portuguesa do Brasil precisar investigar empiricamente a

    lngua falada (como fazem os pesquisadores dos projetos NURC e

    CENSO, que j citei, entre outros). Afinal, a escola, as gramticas

    normativas e os livros didticos at hoje afirmam que os pronomes-

    sujeitos de segunda pessoa so [pg. 55] tu e vs, que o pronome voc

    simplesmente uma forma de tratamento, que a mesclise (dar-

    vo-lo-ei, di-lo-amos, amar-nos-emos) ainda uma opo para a

    colocao dos pronomes oblquos, ou que o futuro do subjuntivo do

    verbo ver vir. Essa, porm, j no a realidade de boa parte da

    lngua escrita no Brasil, que dir da lngua falada!

    Do ponto de vista da histria de cada indivduo, o aprendizado

    da lngua falada sempre precede o aprendizado da lngua escrita,

  • quando ele acontece. Basta citar os bilhes de pessoas que nascem,

    crescem, vivem e morrem sem jamais aprender a ler e a escrever! E

    no entanto ningum pode negar que so falantes perfeitamente

    competentes de suas lnguas maternas.

    Do ponto de vista da histria da humanidade a mesma coisa.

    A espcie humana tem, pelo menos, um milho de anos. Ora, as

    primeiras formas de escrita, conforme a classificao tradicional dos

    historiadores, surgiram h apenas nove mil anos. A humanidade,

    portanto, passou 990.000 anos apenas falando!

    Quando o estudo da gramtica surgiu, no entanto, na

    Antigidade clssica, seu objetivo declarado era investigar as

    regras da lngua escrita para poder preservar as formas

    consideradas mais corretas e elegantes da lngua literria. Alis,

    a palavra gramtica, em grego, significa exatamente a arte de

    escrever.

    Infelizmente, essas mesmas regras da lngua literria

    comearam a ser cobradas da lngua falada, o que um disparate

    cientfico sem tamanho! [pg. 56]

    H cientistas que se dedicam especificamente a estudar as

    diferenas, semelhanas, inter-relaes e interaes que existem

    entre as duas modalidades. O ensino tradicional da lngua, no

    entanto, quer que as pessoas falem sempre do mesmo modo como os

    grandes escritores escreveram suas obras. A gramtica tradicional

    despreza totalmente os fenmenos da lngua oral, e quer impor a

    ferro e fogo a lngua literria como a nica forma legtima de falar e

    escrever, como a nica manifestao lingstica que merece ser

    estudada.

  • Veja-se, por exemplo, o caso da Nova gramtica do portugus

    contemporneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra. Ao definirem o

    objetivo de seu trabalho, os autores declaram, no prefcio:

    Trata-se de uma tentativa de descrio do portugus atual na sua forma culta, isto , da lngua como a tm utilizado os escritores portugueses, brasileiros e africanos do Romantismo para c. [grifo meu]

    Essa obra, portanto, s pode ser consultada por quem tiver

    dvidas no momento de escrever um texto literrio, j que, segundo

    os prprios autores, no sero abordados fenmenos caractersticos

    de outras normas escritas, como a jornalstica ou a da produo

    cientfica, muito menos os fenmenos tpicos da lngua falada.

    A gramtica de Celso Cunha e Lindley Cintra louvvel pela

    honestidade com que declara seu objeto de estudo (embora, por

    diversas razes que no cabe aqui enumerar, eles no cumpram o

    que prometem no prefcio [pg. 57] e acabem tratando de fatos da

    lngua oral ao lado de fenmenos caractersticos da escrita).

    A maioria das outras obras desse gnero, porm, no faz assim:

    seus autores assumem a norma literria como a nica digna de ser

    estudada, ensinada e praticada, e acham isso to natural que nem

    se do ao trabalho de defini-la como seu objeto de estudo. Fica

    evidente que para eles s essa norma literria conservadora merece

    o ttulo de lngua portuguesa. O que dito ali vale para todas as

    variedades do portugus, em qualquer lugar do mundo, em

    qualquer momento histrico, em qualquer classe social, em

    qualquer faixa etria. Portanto, no uma gramtica, uma

    panacia...

  • Essa nfase no texto literrio tem produzido uma viso

    redutora da lngua, identificando-a freqentemente apenas com a

    regulamentao ortogrfica.

    Como se no bastasse, os autores de compndios gramaticais,

    inclusive os mais recentes, no fazem a distino bsica, elementar,

    entre ortografia e fontica, isto , entre as regras da lngua escrita e

    os fenmenos da lngua oral. Alis, por mais incrvel que parea,

    muitos deles classificam a ortografia como uma das subdivises da

    fontica! o mesmo que querer incluir os ursinhos de pelcia na

    classe dos mamferos carnvoros!

    Gramtico muito mais criterioso e atento o rinoceronte

    Quindim personagem do Stio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro

    Lobato , que levando as crianas do stio a passear pelo Pas da

    Gramtica, insistiu muito para que seus alunos no

    confundissem letra e som (p. 6): [pg. 58]

    Trotou, trotou e, depois de muito trotar, deu com eles numa regio onde o ar chiava de modo estranho.

    Que zumbido ser este? indagou a menina [Narizinho]. Parece que andam voando por aqui milhes de vespas invisveis.

    que j entramos em terras do Pas da Gramtica explicou o rinoceronte. Estes zumbidos so os Sons Orais, que voam soltos no espao.

    No comece a falar difcil que ns ficamos na mesma observou Emlia. Sons Orais, que pedantismo esse?

    Som Oral quer dizer som produzido pela boca. A, E, I, O, U so Sons Orais, como dizem os senhores gramticos.

    Pois diga logo que so letras! gritou Emlia. Mas no so letras! protestou o rinoceronte. Quando voc diz A ou

    O, voc est produzindo um som, no est escrevendo uma letra. Letras so sinaizinhos que os homens usam para representar esses sons. Primeiro h os Sons

    Orais; depois que aparecem as letras, para marcar esses sons orais. Entendeu?

  • O ar continuava num zunzum cada vez maior. Os meninos pararam, muito atentos, a ouvir.

    Estou percebendo muitos sons que conheo disse Pedrinho, com a mo em concha ao ouvido.

    Todos os sons que andam zumbindo por aqui so velhos conhecidos seus, Pedrinho.

    Querem ver que o tal alfabeto? lembrou Narizinho. E mesmo!... Estou distinguindo todas as letras do alfabeto...

    No, menina; voc est apenas distinguindo todos os sons das letras do alfabeto corrigiu o rinoceronte com uma pachorra igual de dona Benta. Se voc escrever cada um desses sons, ento, sim; ento surgem as letras do alfabeto.

    [pg. 59]

    Esse livro de Monteiro Lobato foi publicado em 1934. Mas as

    lies do rinoceronte Quindim ainda precisam ser lembradas e

    relembradas, pois a literatura gramatical perpetua at hoje a

    confuso entre letra e fonema.

    assim que procedem, por exemplo, Pasquale Cipro Neto e

    Ulisses Infante em sua Gramtica da lngua portuguesa, publicada

    no final de 1997. Por isso a gente no deve se surpreender quando

    esses autores explicam que a letra x representa o fonema // depois

    de um ditongo, e do como exemplo de palavras com ditongo:

    ameixa, caixa, peixe, eixo, frouxo, trouxa, baixo, sem fazer a menor

    meno ao fenmeno de monotongao que j atingiu essas palavras

    na lngua falada no Brasil, inclusive em sua norma culta urbana,

    resultando nas pronncias amxa, caxa, pxe, xo, frxo e

    baxo. O termo ditongo (dois sons), que se aplica a um fenmeno

    fontico, no cabe nesses exemplos, que retratam simplesmente a

    conveno ortogrfica que ainda conserva, na escrita, as duas letras

    vogais antes do X. O que acontece que esses monotongos podem

    vir a se ditongar em situaes bem especficas, tal como a reduo

  • da velocidade da fala com finalidade de dar nfase ao enunciado.

    Pensemos, por exemplo, no uso das palavras louco e loucura quando

    usadas de modo afetado para indicar coisas surpreendentes ou

    muito boas: Foi uma louuucura!

    Os mesmos autores dizem que na palavra QUAL existe um

    ditongo crescente, quando qualquer brasileiro de ouvido mais

    afinado vai reconhecer a, na verdade, um tritongo. muito

    restrita, no portugus do Brasil, a pronncia [pg. 60] /l/ ou // para o

    L que aparece em final de slaba. Na grande maioria dos falares

    brasileiros, esse L se pronncia como a semivogal /w/.

    o velho preconceito grafocntrico, isto , a anlise de toda a

    lngua do ponto de vista restrito da escrita, que impede o

    reconhecimento da verdadeira realidade lingstica.

    Por isso, temos de desconfiar desses livros que se

    autodenominam Gramtica da lngua portuguesa sem especificar

    seu objeto de estudo. A lngua portuguesa que eles abordam uma

    variedade especfica, dentre as muitas existentes, que tem de ser

    designada com todos os seus qualificativos: Gramtica da lngua

    portuguesa escrita, literria, formal, antiga. Todos os demais

    fenmenos vivos da lngua falada e de outras modalidades da lngua

    escrita so deixados de fora desses livros. [pg. 61]

  • Mito n 7

    preciso saber gramtica para falar e escrever bem

    difcil encontrar algum que no concorde com a declarao

    acima. Ela vive na ponta da lngua da grande maioria dos

    professores de portugus e est formulada em muitos compndios

    gramaticais, como a j citada Gramtica de Cipro e Infante, cujas

    primeirssimas palavras so: A Gramtica instrumento

    fundamental para o domnio do padro culto da lngua.

    muito comum, tambm, os pais de alunos cobrarem dos

    professores o ensino dos pontos de gramtica tais como eles

    prprios os aprenderam em seu tempo de escola. E no faltam casos

    de pais que protestaram veementemente contra professores e

    escolas que, tentando adotar uma prtica de ensino da lngua

    menos conservadora, no seguiam rigorosamente o que est nas

    gramticas. Conheo gente que tirou seus filhos de uma escola

    porque o livro didtico ali adotado no ensinava coisas

    indispensveis como antnimos, coletivos e anlise

    sinttica...

    Por que aquela declarao um mito? Porque, como nos diz

    Mrio Perini em Sofrendo a gramtica (p. 50), no existe um gro

    de evidncia em favor disso; toda a evidncia disponvel em

    contrrio. Afinal, se fosse assim, todos os gramticos seriam

    grandes escritores (o que est longe de ser verdade), e os bons

    escritores seriam especialistas em gramtica. [pg. 62]

  • Ora, os escritores so os primeiros a dizer que gramtica no

    com eles! Rubem Braga, indiscutivelmente um dos grandes de nossa

    literatura, escreveu uma crnica deliciosa a esse respeito chamada

    Nascer no Cairo, ser fmea de cupim.

    Carlos Drummond de Andrade (preciso de adjetivos para

    qualific-lo?), no poema Aula de Portugus tambm d

    testemunho de sua perturbao diante do mistrio das figuras de

    gramtica, esquipticas, que compem o amazonas de minha

    ignorncia. Drummond ignorante?

    E o que dizer de Machado de Assis que, ao abrir a gramtica de

    um sobrinho, se espantou com sua prpria ignorncia por no ter

    entendido nada? Esse e outros casos so citados por Celso Pedro

    Luft em Lngua e liberdade (pp. 23-25). E esse mesmo autor nos diz

    (p. 21):

    Um ensino gramaticalista abafa justamente os talentos naturais, incute insegurana na linguagem, gera averso ao estudo do idioma, medo expresso livre e autntica de si mesmo.

    Mrio Perini, no livro que citamos acima, chama a ateno

    para a propaganda enganosa contida no mito de que preciso

    ensinar gramtica para aprimorar o desempenho lingstico dos

    alunos:

    Quando justificamos o ensino de gramtica dizendo que para que os alunos venham a escrever (ou ler, ou falar) melhor, estamos prometendo uma mercadoria que no podemos entregar. Os alunos percebem isso com bastante clareza, embora talvez no o possam explicitar; e esse um dos fatores do descrdito da disciplina entre eles. [pg. 63]

    E Sirio Possenti, j citado, lembra-nos que as primeiras

    gramticas do Ocidente, as gregas, s foram elaboradas no sculo II

  • a. C, mas que muito antes disso j existira na Grcia uma literatura

    ampla e diversificada, que exerce influncia at hoje em toda a

    cultura ocidental. A Ilada e a Odissia j eram conhecidas no

    sculo VI a. C, Plato escreveu seus fascinantes Dilogos entre os

    sculos V e IV a. C, na mesma poca do grande dramaturgo Esquilo,

    verdadeiro criador da tragdia grega. Que gramtica eles

    consultaram? Nenhuma. Como puderam ento escrever e falar to

    bem sua lngua?

    O que aconteceu, ao longo do tempo, foi uma inverso da

    realidade histrica. As gramticas foram escritas precisamente

    para descrever e fixar como regras e padres as manifestaes

    lingsticas usadas espontaneamente pelos escritores considerados

    dignos de admirao, modelos a ser imitados. Ou seja, a gramtica

    normativa decorrncia da lngua, subordinada a ela, dependente

    dela. Como a gramtica, porm, passou a ser um instrumento de

    poder e de controle, surgiu essa concepo de que os falantes e

    escritores da lngua que precisam da gramtica, como se ela fosse

    uma espcie de fonte mstica invisvel da qual emana a lngua

    bonita, correta e pura. A lngua passou a ser subordinada e

    dependente da gramtica. O que no est na gramtica normativa

    no portugus. E os compndios gramaticais se transformaram

    em livros sagrados, cujos dogmas e cnones tm de ser obedecidos

    risca para no se cometer nenhuma heresia. [pg. 64]

    O resultado dessa inverso dos fatos histricos visvel, por

    exemplo, na Gramtica de Cipro e Infante que, na p. 16, afirma:

    A Gramtica normativa estabelece a norma culta, ou seja, o padro lingstico que socialmente considerado modelar [...] As lnguas que tm forma escrita, como o caso do portugus, necessitam da Gramtica normativa para que se garanta a existncia de um padro lingstico uniforme [...].

  • Ora, no a gramtica normativa que estabelece a norma

    culta. A norma culta simplesmente existe como tal. A tarefa de uma

    gramtica seria, isso sim, definir, identificar e localizar os falantes

    cultos, coletar a lngua usada por eles e descrever essa lngua de

    forma clara, objetiva e com critrios tericos e metodolgicos

    coerentes. Sem isso no podemos confiar em gramticas como a de

    Domingos Paschoal Cegalla, que afirma simplesmente:

    Este livro pretende ser uma Gramtica Normativa da Lngua Portuguesa do Brasil, conforme a falam e escrevem as pessoas cultas na poca atual [Novssima gramtica da lngua portuguesa, p. xix].

    Mas quem so essas pessoas cultas na poca atual? Com que

    critrios o autor as classificou de cultas? Com que metodologia

    precisa identificou o modo como elas falam e escrevem? Pois

    disso precisamente que mais necessitamos hoje no Brasil: da

    descrio detalhada e realista da norma culta objetiva, com base em

    coletas confiveis que se utilizem dos recursos tecnolgicos mais

    avanados, para que ela sirva de base ao ensino/aprendizagem [pg.

    65] na escola, e no mais uma norma fictcia que se inspira num

    ideal lingstico inatingvel, baseado no uso literrio, artstico,

    particular e exclusivo dos grandes escritores. Afinal, um instrutor

    de auto-escola quer formar bons motoristas, e no campees

    internacionais de Frmula 1. Um professor de portugus quer

    formar bons usurios da lngua escrita e falada, e no provveis

    candidatos ao Prmio Nobel de literatura!

    Por outro lado, no a gramtica normativa que vai garantir

    a existncia de um padro lingstico uniforme. Esse padro

    lingstico (que pode chegar a certo grau de uniformidade, mas

    nunca ser totalmente uniforme, pois usado por seres humanos

  • que nunca ho de ser criaturas fsica, psicolgica e socialmente

    idnticas), como j dissemos, existe na sociedade,

    independentemente de haver ou no livros que o descrevam.

    As plantas s existem porque os livros de botnica as

    descrevem? claro que no. Os continentes s passaram a existir

    depois que os primeiros cartgrafos desenharam seus mapas? Difcil

    acreditar. A Terra s passou a ser esfrica depois que as primeiras

    fotografias tiradas do espao mostraram-na assim? No. Sem os

    livros de receitas no haveria culinria? Eu sei muito bem que no:

    a melhor cozinheira que conheo, capaz de preparar centenas de

    pratos diferentes, os mais sofisticados, uma pernambucana de

    quase oitenta anos, cem por cento analfabeta.

    Esse mito est ligado milenar confuso que se faz entre

    lngua e gramtica normativa. Mas preciso desfaz-la. [pg. 66]

    No h por que confundir o todo com a parte. Lembra-se do que eu

    falei na abertura do livro sobre a gramtica normativa ser um

    igap? Acho que vale a pena repetir aqui. Na Amaznia, igap

    uma grande poa de gua estagnada s margens de um rio,

    sobretudo depois da cheia. Acho uma boa metfora para a

    gramtica normativa. Como eu disse, enquanto a lngua um rio

    caudaloso, longo e largo, que nunca se detm em seu curso, a

    gramtica normativa apenas um igap, uma grande poa de gua

    parada, um charco, um brejo, um terreno alagadio, margem da

    lngua. Enquanto a gua do rio/lngua, por estar em movimento, se

    renova incessantemente, a gua do igap/gramtica normativa

    envelhece e s se renovar quando vier a prxima cheia.

  • a mesma coisa que nos explica, em termos cientficos, Luiz

    Carlos Cagliari em Alfabetizao & lingstica7:

    A gramtica normativa foi num primeiro momento uma gramtica descritiva de um dialeto de uma lngua. Depois a sociedade fez dela um corpo de leis para reger o uso da linguagem. Por sua prpria natureza, uma gramtica normativa est con-denada ao fracasso, j que a linguagem um fenmeno dinmico e as lnguas mudam com o tempo; e, para continuar sendo a expresso do poder social demonstrado por um dialeto, a gramtica normativa deveria mudar.

    Se no o ensino/estudo da gramtica que vai garantir a

    formao de bons usurios da lngua, o que vai garanti-la? Existe

    muito debate a respeito entre os lingistas [pg. 67] e os pedagogos.

    O certo que eles so praticamente unnimes em combater aquele

    mito. H lugar para a gramtica na escola? Parece que sim. Mas

    tambm parece ser. um lugar bastante diferente do que lhe era

    atribudo na prtica tradicional de ensino da lngua. Na terceira

    parte deste livro, tentarei expor algumas opinies a respeito.

    De todo modo, algumas pessoas muito competentes j

    explicaram tudo isso melhor do que eu seria capaz. Por isso, ao

    leitor e leitora interessados nesse tema recomendo a leitura, entre

    outros, dos j citados Sofrendo a gramtica, de Mrio Perini, Por

    que (no) ensinar gramtica na escola, de Srio Possenti, e Lngua e

    liberdade, de Celso Pedro Luft, e tambm Linguagem, lngua e fala,

    de Ernani Terra; Contradies no ensino de portugus, de Rosa

    Virgnia Mattos e Silva, e Gramtica na escola, de Maria Helena de

    Moura Neves. Esses livros nos ajudam a compreender melhor os

    mecanismos de excluso que agem por trs da imposio das

    normas gramaticais conservadoras no ensino da lngua e de que

    7 Citado por Ernani Terra, Linguagem, lngua e fala, p. 46.

  • modo poderamos, em nossa prtica pedaggica, tentar desmont-

    los. [pg. 68]

  • Mito n8

    O domnio da norma culta um instrumento de ascenso social

    Este mito, que vem fechar nosso circuito mitolgico, tem muito

    que ver com o primeiro, o mito da unidade lingstica do Brasil.

    Esses dois mitos so aparentados porque ambos tocam em srias

    questes sociais. muito comum encontrar pessoas muito bem-

    intencionadas que dizem que a norma padro conservadora,

    tradicional, literria, clssica que tem de ser mesmo ensinada nas

    escolas porque ela um instrumento de ascenso social. Seria

    ento o caso de dar uma lngua queles que eu chamei de sem-

    lngua?

    Ora, se o domnio da norma culta fosse realmente um

    instrumento de ascenso na sociedade, os professores de portugus

    ocupariam o topo da pirmide social, econmica e poltica do pas,

    no mesmo? Afinal, supostamente, ningum melhor do que eles

    domina a norma culta. S que a verdade est muito longe disso

    como bem sabemos ns, professores, a quem so pagos alguns dos

    salrios mais obscenos de nossa sociedade. Por outro lado, um

    grande fazendeiro que tenha apenas alguns poucos anos de estudo

    primrio, mas que seja dono de milhares de cabeas de gado, de

    indstrias agrcolas e detentor de grande influncia poltica em sua

    regio vai poder falar vontade sua lngua de caipira, com todas

    as formas sintticas consideradas erradas pela gramtica [pg. 69]

  • tradicional, porque ningum vai se atrever a corrigir seu modo de

    falar.

    O que estou tentando dizer que o domnio da norma culta de

    nada vai adiantar a uma pessoa que no tenha todos os dentes, que

    no tenha casa decente para morar, gua encanada, luz eltrica e

    rede de esgoto. O domnio da norma culta de nada vai servir a uma

    pessoa que no tenha acesso s tecnologias modernas, aos avanos

    da medicina, aos empregos bem remunerados, participao ativa e

    consciente nas decises polticas que afetam sua vida e a de seus

    concidados. O domnio da norma culta de nada vai adiantar a uma

    pessoa que no tenha seus direitos de cidado reconhecidos

    plenamente, a uma pessoa que viva numa zona rural onde um

    punhado de senhores feudais controlam extenses gigantescas de

    terra frtil, enquanto milhes de famlias de lavradores sem-terra

    no tm o que comer.

    Achar que basta ensinar a norma culta a uma criana pobre

    para que ela suba na vida o mesmo que achar que preciso

    aumentar o nmero de policiais na rua e de vagas nas

    penitencirias para resolver o problema da violncia urbana.

    A violncia urbana est intimamente ligada a uma situao

    social de profunda injustia, que d ao Brasil, como eu j disse, o

    triste segundo lugar entre os pases com a pior distribuio de

    renda de todo o mundo, perdendo apenas para Botswana, um pas

    africano desrtico, muito menor e muito menos desenvolvido.

    preciso garantir, sim, a todos os brasileiros o reconhecimento

    (sem o tradicional julgamento de valor) da [pg. 70] variao

    lingstica, porque o mero domnio da norma culta no uma

    frmula mgica que, de um momento para outro, vai resolver todos

    os problemas de um indivduo carente. preciso favorecer esse

  • reconhecimento, mas tambm garantir o acesso educao em seu

    sentido mais amplo, aos bens culturais, sade e habitao, ao

    transporte de boa qualidade, vida digna de cidado merecedor de

    todo respeito.

    Como fcil perceber, o que est em jogo no a simples

    transformao de um indivduo, que vai deixar de ser um sem-

    lngua padro para tornar-se um falante da variedade culta. O que

    est em jogo a transformao da sociedade como um todo, pois

    enquanto vivermos numa estrutura social cuja existncia mesma

    exige desigualdades sociais profundas, toda tentativa de promover a

    ascenso social dos marginalizados , seno hipcrita e cnica,

    pelo menos de uma boa inteno paternalista e ingnua.

    Por isso eu me pergunto: ser que doando a lngua padro a

    um indivduo das classes subalternas ele vai, automaticamente,

    tornar-se um patro? No mera coincidncia etimolgica o fato de

    padro e patro serem duas formas divergentes de uma mesma

    origem comum: o latim patronu-, que tem tambm a mesma raiz de

    paternalismo e patriarcalismo.

    Valer mesmo a pena promover a ascenso social para que

    algum se enquadre dentro desta sociedade em que vivemos, tal

    como ela se apresenta hoje? Basta pensar um pouco nos indivduos

    que detm o poder no Brasil: no so (quando so) apenas falantes

    da norma culta, mas so sobretudo, em sua grande maioria,

    homens, [pg. 71] brancos, heterossexuais, nascidos/criados na

    poro Sul-Sudeste do pas ou oriundos das oligarquias feudais do

    Nordeste.

    Como eu j tinha avisado na abertura do livro, falar da lngua

    falar de poltica, e em nenhum momento esta reflexo poltica pode

    estar ausente de nossas posturas tericas e de nossas atitudes

  • prticas de cidado, de professor e de cientista. Do contrrio,

    estaremos apenas contribuindo para a manuteno do crculo

    vicioso do preconceito lingstico e do irmo gmeo dele, o crculo

    vicioso da injustia social. [pg. 72]

  • II

    O crculo vicioso do preconceito lingstico

    1. Os trs elementos que so quatro

    Os mitos que acabamos de examinar so transmitidos e

    perpetuados em nossa sociedade, cada um deles em grau maior ou

    menor, por um mecanismo que podemos chamar de crculo vicioso

    do preconceito lingstico. Esse crculo vicioso se forma pela unio

    de trs elementos que, sem desrespeitar meus amigos telogos,

    costumo denominar Santssima Trindade do preconceito

    lingstico. Esses trs elementos so a gramtica tradicional, os

    mtodos tradicionais de ensino e os livros didticos:

    Como que se forma esse crculo? Assim: a gramtica

    tradicional inspira a prtica de ensino, que por sua [pg. 73] vez

    provoca o surgimento da indstria do livro didtico, cujos autores

    fechando o crculo recorrem gramtica tradicional como fonte

    de concepes e teorias sobre a lngua.

  • gramtica tradicional, em sua vertente normativo-

    prescritivista, continua firme e forte, como fcil verificar nos

    compndios gramaticais mais recentes. As prticas de ensino

    variam muito de regio para regio, de escola para escola, e at de

    professor para professor, de acordo com as concepes pedaggicas

    adotadas. A tendncia atual, mencionada no incio deste livro,

    crtica dos preconceitos e ao exerccio da tolerncia tem tornado o

    ambiente escolar bastante mais respirvel e democrtico do que,

    por exemplo, na poca em que estudei, em plena ditadura militar.

    Como j vimos, a mais alta instncia educacional do pas, o

    Ministrio da Educao, tem feito esforos louvveis para provocar

    uma reflexo sobre os temas relativos tica e cidadania plena do

    indivduo, para estimular uma postura menos dogmtica e mais

    flexvel, por parte, pelo menos, das escolas pblicas. Os j citados

    Parmetros curriculares nacionais reconhecem que existe

    muito preconceito decorrente do valor atribudo s variedades padro e ao estigma associado s variedades no-padro, consideradas inferiores ou erradas pela gramtica. Essas diferenas no so imediatamente reconhecidas e, quando so, so objeto de avaliao negativa.

    Para cumprir bem a funo de ensinar a escrita e a lngua padro, a escola

    precisa livrar-se de vrios mitos: o de que [pg. 74] existe uma forma correta de

    falar, o de que a fala de uma regio melhor do que a de outras, o de que a fala correta a que se aproxima da lngua escrita, o de que o brasileiro fala mal o portugus, o de que o portugus uma lngua difcil, o de que preciso consertar a fala do aluno para evitar que ele escreva errado.

    Essas crenas insustentveis produziram uma prtica de mutilao cultural [...]1

    1 Ministrio da Educao e do Desporto (1998): Parmetros curriculares nacionais, Lngua Portuguesa,

    5 a 8a sries, p. 31.

  • Temos ainda de esperar para ver em que medida esses esforos

    se refletiro na prtica quotidiana, efetiva, dos professores em sala

    de aula. Acompanhando esse movimento, muitas editoras vm

    tentando produzir um material didtico mais compatvel com as

    novas concepes pedaggicas, e o sistema oficial de avaliao dos

    livros didticos, apesar de muito criticado, tem contribudo para

    uma reviso das formas tradicionais de elaborao desse tipo de

    livro.

    Mas os preconceitos, como bem sabemos, impregnam-se de tal

    maneira na mentalidade das pessoas que as atitudes

    preconceituosas se tornam parte integrante do nosso prprio modo

    de ser e de estar no mundo. necessrio um trabalho lento,

    contnuo e profundo de conscientizao para que se comece a

    desmascarar os mecanismos perversos que compem a mitologia do

    preconceito. E o tipo mais trgico de preconceito no aquele que

    exercido por uma pessoa em relao a outra, mas o preconceito [pg.

    75] que uma pessoa exerce contra si mesma. Infelizmente, ainda

    existem muitas mulheres que se consideram inferiores aos

    homens; existem negros que acreditam que seu lugar mesmo de

    subservincia em relao aos brancos; existem homossexuais

    convictos de que sofrem de uma doena que pode, inclusive, ser

    curada...

    Do mesmo modo, muitos brasileiros acreditam que no sabem

    portugus, que portugus muito difcil ou que a lngua falada

    aqui toda errada. E ao contrrio dos demais preconceitos, que

    vm sendo atacados com algum sucesso com diversos mtodos de

    combate, o preconceito lingstico prossegue sua marcha. Se j

    existe uma mudana de atitude nos livros didticos e na pedagogia

  • oficial, por que o crculo vicioso do preconceito lingstico continua

    girando?

    Intrigado com isso, comecei a prestar ateno minha volta e

    cheguei concluso de que o crculo vicioso no estava completo.

    Descobri que, assim como os Trs Mosqueteiros de Alexandre

    Dumas so quatro, tambm existe um quarto elemento oculto

    dentro daquele crculo. Como este quarto elemento no to

    compactamente institucionalizado quanto os demais, a gente deixa

    de perceb-lo.

    Mas, afinal, que quarto elemento esse? aquilo que resolvi

    chamar de comandos paragramaticais. todo esse arsenal de

    livros, manuais de redao de empresas jornalsticas, programas de

    rdio e de televiso, colunas de jornal e de revista, CD-ROMS,

    consultrios gramaticais [pg. 76] por telefone e por a afora... a

    saudvel epidemia a que se refere Arnaldo Niskier no artigo que

    citei ao falar do Mito n 2, epidemia que, para mim, nada tem de

    saudvel, e vou explicar por qu. O que os comandos

    paragramaticais poderiam representar de utilidade para quem tem

    dvidas na hora de falar ou de escrever acaba se perdendo por trs

    da espessa neblina de preconceito que envolve essas manifestaes

    da (multi)mdia. Assim, tudo o que elas fazem de concreto

    perpetuar as velhas noes de que brasileiro no sabe portugus e

    de que portugus muito difcil.

    uma pena que seja assim. Todo esse formidvel poder de

    influncia dos meios de comunicao e dos recursos da informtica

    poderia ser de grande utilidade se fosse usado precisamente na

    direo oposta: na destruio dos velhos mitos, na elevao da auto-

    estima lingstica dos brasileiros, na divulgao do que h de

    realmente fascinante no estudo da lngua. Mas no assim. Toda

  • vez que algum se pe a falar da situao lingstica do Brasil,

    para repetir as mesmas queixas e lamrias de cem anos atrs ou

    mais.

    Um exemplo. Na entrevista de Pasquale Cipro Neto revista

    Veja, que citamos na primeira parte deste livro, o texto que

    antecede a entrevista propriamente dita repisa aqueles mesmos

    chaves bolorentos:

    [...] professor de portugus um idioma que, de to maltratado no dia-a-dia dos brasileiros, precisa ser divulgado e explicado para os milhes que o tm como lngua materna. [pg. 77]

    E a primeira pergunta, como era de prever diante de uma

    abertura to pessimista, s podia ser: Por que o portugus to

    mal falado e to mal escrito no Brasil? E o entrevistado parte logo

    para a explicao das causas visveis dessa situao, sem

    contestar em momento algum a afirmao, fcil de negar, contida

    na pergunta. E da mesma forma como Cndido de Figueiredo, em

    1903, e Arnaldo Niskier, em 1998, ele investe contra os

    estrangeirismos declarando que

    o sujeito que usa um termo em ingls no lugar do equivalente em portugus , na minha opinio, um idiota.

    Ora, se ele mesmo reconhece que o uso de estrangeirismos a

    face mais irritante de um pas colonizado culturalmente como o

    nosso, injusto chamar de idiota a pessoa que , de fato, uma

    vtima dessa colonizao cultural. Se nosso comrcio est repleto de

    nomes em ingls porque os comerciantes e os industriais sabem

    que isso atrai mais o pblico, que qualquer produto com aparncia

    de estrangeiro tem maior aceitao por parte do consumidor.

  • Quanto aos comandos paragramaticais, no faltam exemplos

    do preconceito lingstico que os orienta. Como o espao de que

    disponho neste livro muito pequeno, no ser possvel fazer um

    exame pormenorizado de muitas dessas manifestaes

    preconceituosas, por isso me limitarei a algumas mais gritantes,

    que merecem ser denunciadas. [pg. 78]

    2. Sob o imprio de Napoleo

    O mais respeitado e renomado propagador do preconceito

    lingstico por meio de comandos paragramaticais no Brasil foi,

    durante longas dcadas, o professor Napoleo Mendes de Almeida,

    at falecer no comeo de 1998, aos 87 anos. Ele nunca escondeu sua

    intolerncia e seu autoritarismo em suas colunas de jornal, e fcil

    verific-lo nas mais de 600 pginas de seu Dicionrio de questes

    vernculas. Como ele foi (e ainda ) aclamado por muitos como um

    defensor intransigente da lngua, parece-me oportuno mostrar de

    que maneira ele exerceu essa sua defesa.

    O verbete VERNCULO do citado Dicionrio comea assim:

    Os delinqentes da lngua portuguesa fazem do princpio histrico quem faz a lngua o povo verdadeiro moto para justificar o desprezo de seu estudo, de sua gramtica, de seu vocabulrio, esquecidos de que a falta de escola que ocasiona a transformao, a deteriorao, o apodrecimento de uma lngua. Cozinheiras, babs, engraxates, trombadinhas, vagabundos, criminosos que devem figurar, segundo esses derrotistas, como verdadeiros mestres de nossa sintaxe e legtimos defensores do nosso vocabulrio.

    Basta esse pargrafo para demonstrar que, alm do preconceito

    lingstico, est a manifestado um profundo preconceito social. Em

    outras passagens do livro, ele fala novamente de lngua de

    cozinheiras e de infelizes caipiras. [pg. 79]

  • Para Napoleo Mendes de Almeida, a literatura brasileira

    morreu em 1908, junto com Machado de Assis. Toda a vasta

    produo do Modernismo e dos perodos seguintes merecedora de

    seu mais profundo desprezo:

    Escritor o que tem forma e contedo; aquela ter quem conhecer o idioma; este, quem tiver erudio e, principalmente, cultura. Se somente a forma, temos o frvolo; se somente o contedo, temos o tcnico; se as duas coisas, temos o escritor; se nenhuma delas, teremos o... modernista.

    Recusa-se a escrever o nome de Carlos Drummond de Andrade,

    a quem nega o ttulo de poeta e escritor por ter usado o verbo ter no

    lugar de haver no clebre poema No meio do caminho, pecado

    suficiente para conden-lo ao inferno dos gramticos!

    As explicaes de Napoleo se baseiam exclusivamente em

    comparaes com o latim e o grego, e freqentemente atribuem a

    origem dos supostos erros da sintaxe dos brasileiros imitao

    servil do francs ou do ingls, desconsiderando sistematicamente

    todas as contribuies da cincia lingstica moderna. Alis, no

    verbete LINGSTICA, ele deixa transparecer sua desinformao

    acerca do que realmente essa cincia:

    A lingstica no estuda idioma nem gramtica nenhuma, a lingstica estuda a fala, explica fatos naturais de articulao, de formas de expresso oral do ser humano; como estudo da estrutura das lnguas em geral, no vai alm da fontica. Enganam-se os pais, enganam-se os filhos quando pensam estar a escola, a faculdade ensinando gramtica, ensinando a lngua da terra porque no programa consta lingstica. O objeto da lingstica [pg. 80] a lngua no sentido da fala, de dom de expressar o homem por palavras o pensamento; um estudo sem utilidade especfica para este ou aquele idioma. [...] um dos grandes enganos de certas faculdades de letras fazer alunos acreditar que esto a aprender a lngua de

  • sua terra com explanaes de estrutura da fala do homem. a lingstica um dos estorvos do aprendizado da lngua portuguesa em escolas brasileiras.

    Para ele, estudar lingstica fixar inteis, pretensiosas e

    ridculas bizantinices. Fica evidente por essas palavras que o

    professor Napoleo jamais ps os ps numa boa universidade depois

    que o ensino da lingstica foi institudo nos cursos de letras do

    Brasil. E que tampouco leu um nico sequer dos muitssimos livros

    intitulados Introduo lingstica para saber qual o verdadeiro

    objeto de estudo dessa cincia. Acreditar que a lingstica no vai

    alm da fontica de uma ingenuidade imperdovel em algum

    que julgava ter autoridade suficiente para policiar a lngua dos

    jornalistas e dos escritores, para decretar o que certo e errado

    no portugus brasileiro, para afirmar, sem papas na lngua, no

    verbete VERNCULO, que

    portugus estropiado que no Brasil se fala, lngua de gria, lngua sem peias sintticas, lngua de flexo arbitrria, lngua do 'deix v', do 'mande ele', do 'j te disse que voc', do no lhe conheo', do 'fiz ele estudar', do 'vi os meninos sarem'.

    Esse seu total desconhecimento da lingstica que lhe

    permite fazer conjecturas sem nenhum fundamento cientfico ou de

    qualquer outra natureza como: [pg. 81]

    A gramtica, no que diz respeito funo da palavra, internacional. O que sujeito em portugus sujeito em chins; o que objeto direto em nosso idioma objeto direto em qualquer outro, e o mesmo se diga de todas as funes sintticas e de todas as classes de palavras.

    Essa gramtica internacional pura fico, fruto da

    ignorncia lingstica do autor. Para comprovar isso, e usando o

  • exemplo que ele mesmo sugeriu o chins basta um breve

    exame da literatura cientfica especializada:

    [em chins] no existe nenhuma morfologia de casos que assinale diferenas entre relaes gramaticais como sujeito, objeto direto ou objeto indireto, nem existe qualquer concordncia ou flexo verbal para indicar o que sujeito e o que objeto. No chins, de fato, h poucas razes gramaticais para se postular relaes gramaticais, embora haja, claro, meios de distinguir quem fez o qu a quem, tal como existem em todas as lnguas2.

    Alm disso, o mesmo estudo diz que em chins no h nada que

    se possa classificar de adjetivos, desmentindo, portanto, o que

    Napoleo pensa acerca da internacionalidade das classes de

    palavras.

    No caso de Napoleo Mendes de Almeida, a carga de

    preconceito lingstico j no a neblina espessa a que me referi

    mais acima: uma verdadeira parede de rocha impermevel e

    intransponvel, que impede o acesso a [pg. 82] qualquer eventual

    utilidade que suas explicaes possam ter. Seu Dicionrio de

    questes vernculas, da perspectiva da tica mais elementar,

    desrespeita os direitos lingsticos dos cidados brasileiros.

    3. Um festival de asneiras

    Na mesma linha de conduta preconceituosa se encontra o livro

    No erre mais!, de Luiz Antonio Sacconi. A edio que tenho a 23a,

    de 1998, o que mostra o amplo sucesso da obra, um verdadeiro best-

    seller. Trata-se, contudo, de um prato cheio (420 pginas!) para

    quem desejar ver, em letra impressa, a perpetuao de todos os

    preconceitos que examinamos na primeira parte deste livro.

    2 LI, Charles & THOMPSON, Sandra. Chinese, in COMRIE, B. (ed.), The World's Major Languages,

    London, Routledge, 1987, pp. 824-825.Traduo minha.

  • Quais so os problemas de No erre mais!?. Para comear, o

    livro no tem o mais remoto critrio de organizao: os supostos

    erros so encadeados caoticamente, um aps o outro, sem

    nenhuma distribuio baseada em tipos de erros (ortogrficos,

    fonticos, sintticos, morfolgicos) nem na mais elementar ordem

    alfabtica de assunto.

    Em seguida, tenta ensinar coisas perfeitamente inteis, como a

    pronncia correta do nome ingls do modelo de um carro que, por

    sinal, j deixou de ser fabricado (Monza Classic SE) e tambm das

    siglas FNM e DKW (igualmente extintas), a grafia correta do

    apelido da apresentadora de televiso Xuxa (que, segundo ele,

    deveria se escrever Chucha), ou a conjugao do verbo apropinquar-

    -se, que ningum em s conscincia usa no Brasil, a menos que

    queira provocar risos ou passar por pedante... [pg. 83]

    Alm disso, corrige erros cometidos por uma nica pessoa, em

    determinada ocasio, em determinado momento, que no tm,

    portanto, a freqncia de uma regra varivel (o que os

    prescritivistas chamam de erro comum), mas lapsos cometidos por

    algum, o que no justifica sua incluso num livro desse tipo.

    Mas o pior de tudo a enxurrada de expresses

    preconceituosas que inundam o livro de ponta a ponta. Apesar de

    Sacconi atribu-las sua ndole espirituosa e dizer que isso nada

    tem que ver com desprezo ou menosprezo aos ignorantes, o uso

    mesmo do termo ignorantes j constitui um sinal desse desprezo

    ou menosprezo. Porque, lendo o livro, o leitor descobre que todos os

    brasileiros, com exceo do autor, so ignorantes no que diz

    respeito lngua: a cada pgina surge uma invectiva contra uma

    entidade amorfa e indefinida chamada povo, contra os jornalistas

    em bloco, contra os autores de dicionrios, contra a Academia

  • Brasileira de Letras, contra escritores clssicos, contra outros

    gramticos, contra especialistas nas mais diversas cincias e

    tcnicas... Fica claro, ento, que a norma culta uma flor nica,

    que s germina no jardim da casa dele. Afinal, se todos os mapas e

    livros de geografia trazem a forma Antrtida, que autoridade tem

    Sacconi para dizer que isso lamentvel e que a forma certa

    Antrtica?

    Vamos examinar apenas as primeiras cem pginas de No erre

    mais! (ir alm disso seria maltratar demais o estmago do leitor).

    Nelas aparecem doze palavras derivadas [pg. 84] de asno

    (asinino,asneira,asnice) para se referir queles mesmos

    ignorantes mencionados no texto de abertura do livro. Sendo ao

    todo 420 pginas, podemos imaginar quantas mais no aparecero!

    (Lngua de jacu outra das expresses favoritas dele.)

    Sacconi se revela, desse modo, um discpulo fiel e imitador

    perfeito de Cndido de Figueiredo, que em O que se no deve dizer

    (de 1903!) declara:

    Em geral, os espritos fortes... na asneira julgam microscpicas as questes de letras, e at as questes de palavras (vol. 1, p. 17).

    Os jornalistas so o alvo preferido das tiradas preconceituosas

    do autor de No erre mais!:

    [...] essa mesma imprensa, para no fugir sua regra maior, que ignorar a coerncia, pe os ps pelas mos (p. 30).

    Essa gente que escreve em jornais uma gracinha! (p. 40).

    Alguns de nossos jornais e jornalistas se tornaram um problema a mais para todos os professores de Portugus. At quando? (p. 45).

  • [...] excrescncias comuns na boca e na pena de certos jornalistas versados em esporte. (p. 52).

    H jornalistas que, de fato, inventam a toda a hora, aprontam com todo o mundo... (p. 54).

    Os jornalistas usam: o aumento do funcionalismo, o aumento da gasolina, o aumento da carne. o mais puro aumento da incompetncia... (p. 68). [pg. 85]

    Os brasileiros, por exemplo, vivem mal e parcamente num pas onde os jornalistas escrevem muito mal e parcamente... (p. 77).

    Pra quem no sabe, redao de jornal um lugar aonde s deveria ir gente que conhecesse um pouquinho a lngua. S um pouquinho... (p. 78).

    Essa gente ainda vai um dia inventar uma nova lngua, inteligvel s para si mesmos (p. 82).

    No vamos aumentar o diapaso de crticas que temos feito a alguns jornalistas... (p. 86).

    A qualidade de nossos jornais piora ( preciso acrescentar ainda mais?) (p. 94)

    No bastasse esse ataque aos jornalistas, Sacconi no hesita

    em ofender preconceituosamente outros segmentos sociais. Para ele,

    a regncia namorar com coisa de italianos (p. 7). Para ele, a

    forma peozada s pode existir na fala, pois o correto na escrita

    peonada, e aconselha os pees a que tenham o bom-senso de trocar

    essa forma pela outra quando escrevem. Se que escrevem... (p. 8),

    mostrando que, na sua opinio, todo peo necessariamente

    analfabeto. O mesmo acontece em relao aos erros supostamente

    cometidos por caminhoneiros: Camioneiros, contudo, incansveis

    trabalhadores, merecem todo o perdo deste mundo... (p. 21).

    Seu iderio poltico tambm fica manifesto em declaraes do

    tipo:

  • Hoje em dia existem pessoas que fazem curso superior em greves, formam-se no assunto e mostram-se to competentes [pg. 86] no ofcio, que decidem em nome de toda a classe que representam: pela continuidade da greve! (p. 10).

    Recentemente, todavia, um comentarista de futebol, membro do PT, corintiano, resolveu dizer, no ar, mais asneiras do que comumente diz sobre aquilo que diz entender: futebol (p. 13).

    H declaraes preconceituosas para quase todos os segmentos

    da sociedade:

    Costumo dizer que algarismo romano como vizinho: devemos evit-lo tanto quanto possvel (p. 65).

    Leu-se, porm, num jornal: Martins quase um octogenrio. Certamente, quem escreveu isso estaria bem para l disso... (p. 68).

    So os [dicionrios] que j passam dos setecentos anos, seno a obra, o seu autor... (p. 68).

    Na Bahia, porm, na sempre formidvel Bahia, as pessoas se acordam. O mais interessante que se acordam e vo direto praia... (p. 73).

    Sacconi aceita a crena primitiva e ingnua de que a palavra e

    o objeto a que ela se refere so uma e a mesma coisa: se a forma da

    palavra est errada, o objeto no existe. Falando do nome

    Antrtida (p. 15) ele diz: Eis a uma regio do globo que, em

    verdade, no existe. Ao comentar o deslize de um reprter de

    televiso que pronunciou ibero em lugar de ibro ao referir-se a

    um festival de rock, Sacconi afirma: Esse festival, garantimos, no

    existiu. E ao condenar o uso do artigo a diante do nome da cidade

    de Franca (conforme tradio [pg. 87] antiga entre os l nascidos)

    na frase Moro na Franca, ele rebate: No mora.

  • Numa atitude totalmente oposta de um cientista da

    linguagem cuja tarefa principal seria a descrio dos fatos da

    lngua ou de um professor que se esforaria em justificar,

    com explicaes razoveis, a preferncia por esta ou aquela forma

    de uso da lngua ele, aps decretar o que certo ou errado,

    reafirma nosso Mito n 3:

    No perca nenhum tempo em perguntar por qu, caro leitor: basta no esquecer que estamos estudando a lngua portuguesa. Com certeza... (p. 14).

    Ou seja, a lngua portuguesa difcil e cheia de mistrios

    inexplicveis, como reza a mitologia do preconceito lingstico.

    Do ponto de vista das concepes lingsticas do autor, o livro

    tambm um desastre. Condena usos que j esto h muito

    consagrados na norma culta real (e no na fictcia, que s ele

    conhece), abonados nos mais diversos dicionrios e na obra de

    muitos escritores de reconhecido talento. Tenta impor formas

    arcaicas, que causariam estranheza a qualquer falante bem

    instrudo, e abolir construes que so perfeitamente aceitveis,

    resultantes das inevitveis transformaes por que a lngua passa.

    Sua desinformao acerca das noes bsicas de lingstica,

    sobretudo de sociolingstica e de histria da lngua, levam-no a

    atribuir obsessivamente Bahia e a uma suposta influncia

    africana uma srie de variantes do [pg. 88] portugus do Brasil

    que se encontram documentadas nas mais diversas regies do pas,

    inclusive naquelas em que a presena negra foi ou mnima. O que

    ele diz a respeito das lnguas indgenas carece igualmente de toda

    fundamentao cientfica:

  • Alguns preferem usar taio, no lugar de talho, transformando o lh em i, fato comum em certas regies do Pas, mormente naquelas que receberam influncia do elemento africano (p. 32).

    Em algumas regies do Brasil (na Bahia, principalmente), o d dos gerndios no soa. Dizem, ento: correno, andano, cano, em vez de correndo, andando, caindo. Trata-se de um caso tpico de influncia africana, que a Bahia recebeu enormemente. Tambm ao elemento negro devemos o fato de pronunciarmos muitas vezes:

    a) os infinitivos sem o r final (cas, vend, menti); b) apenas o el tnico final (pap, an, coron); c) tamm (em vez de tambm), ful (em vez de flor), sinh, sinh (em vez de senhor, senhora) fed (em vez de fedor), etc.; d) mui (em vez de mulher), paiao (em vez de palhao) (p. 38).

    Ocorre que, nas regies banhadas pelo legendrio rio Tiet, utilizado pelos bandeirantes, as pessoas realmente trocam o l pelo r (arto, iguar, tarco, etc.), por influncia da lngua dos indgenas, que no conheciam o som l, mas apenas o som r brando, de caro, barato. Os bandeirantes, preocupados em se aproximar dos ndios (e das suas riquezas), faziam o que podiam para serem compreensveis, para serem amveis, gentis. Assim, toda palavra que tinha l sofria a natural modificao [...] Comeou, ento, dessa forma, o hbito de trocar o l por r, fenmeno conhecido pelo nome de rotacismo, muito comum [pg. 89] nas cidades paulistas de Tatu, Piracicaba, Tiet, Laranjal, Porto Feliz, Itu, Salto, Capivari, etc. (p. 98).

    A vocalizao do fonema //, que representamos graficamente

    com o LH, um fenmeno que se verificou na histria do francs e

    que est amplamente representado em diferentes variedades do

    castelhano faladas na Espanha e em pases da Amrica Central e do

    Sul. No me consta que essas lnguas tenham recebido influncia

    negra nem muito menos baiana. Alm disso, esse fenmeno no

    acontece apenas em certas regies do Pas: ele est presente em

    todas as variedades no-padro do portugus brasileiro, do

  • Amazonas ao Rio Grande do Sul. Ele tem explicaes fonticas e

    sociolingsticas muito mais complexas do que a mera influncia

    africana.

    Quanto assimilao do tipo -nd- > -nn- > -n-, sobretudo nos

    gerndios, ela se verifica tambm no dialeto napolitano, falado

    numa regio (o sul da Itlia) onde, at que os historiadores me

    desmintam, no houve escravido de negros africanos nem

    colonizao baiana. Ela existe amplamente documentada, mais uma

    vez, em todas as variedades no-padro do portugus brasileiro e

    at mesmo na fala descontrada de muitas pessoas das camadas

    urbanas cultas. Trata-se, novamente, de um fenmeno fontico

    muito natural, que um rpido exame da histria da lngua esclarece

    sem dificuldades.

    Por seu turno, a explicao dada pelo autor ao fenmeno do

    rotacismo um verdadeiro disparate cientfico. Primeiro, porque os

    bandeirantes simplesmente no falavam [pg. 90] portugus: a

    lngua que a grande maioria deles empregava era o que ento se

    chamava lngua geral, lngua braslica ou nheengatu, uma lngua

    de base tupi que funcionava como instrumento de comunicao

    entre as diferentes naes indgenas em todo o litoral brasileiro e

    parte do interior. No sculo XVII, em cada cinco habitantes da

    cidade de So Paulo, apenas dois conheciam o portugus. O

    bandeirante paulista convocado para destruir o quilombo de

    Palmares, Domingos Jorge Velho, foi descrito pelo bispo de

    Pernambuco como um brbaro que nem falar sabe, e as

    autoridades pernambucanas que o contrataram tinham de usar um

    intrprete para se comunicar com ele, que s falava a lngua geral.

    Como nos explicam os historiadores, os bandeirantes, em sua

    maioria, eram mamelucos, isto , filhos de pai portugus e me

  • ndia, desconheciam totalmente a lngua paterna e s falavam a

    materna:

    Nos primeiros dois sculos aps a chegada de Cabral, o que se falava por estas bandas era o tupi mesmo. O idioma dos colonizadores s conseguiu se impor no litoral no sculo XVII e, no interior, no XVIII. Em So Paulo, at o comeo do sculo passado, era possvel escutar alguns caipiras contando casos em lngua indgena. No Par, os caboclos conversavam em nheengatu at os anos 40. [...] Era o idioma do povo,enquanto o portugus ficava para os governantes e para os negcios com a metrpole.

    [...] Derivado do dialeto de So Vicente, o tupi de So Paulo se desenvolveu e se espalhou no sculo XVIII, graas ao isolamento geogrfico da cidade e atividade pouco crist dos [pg. 91] mamelucos paulistas: as bandeiras, expedies ao serto em busca de escravos ndios.3

    Por isso, os bandeirantes no precisavam fazer o que podiam

    para serem compreensveis, para serem amveis, gentis. Muito

    pelo contrrio, o que a histria nos conta que os bandeirantes

    eram de uma crueldade desumana para com os ndios, a quem

    buscavam escravizar a toda fora, despojando-os de suas terras, de

    suas riquezas e, muitas vezes, de suas vidas. Conta-se de uma

    expedio bandeirante que capturou, no serto, 500 ndios para

    escraviz-los, mas que desses s 50 chegaram a So Paulo, por

    causa dos esforos dos bandeirantes para serem amveis, gentis.

    Segundo, o rotacismo que se verifica em alto > arto tambm

    aconteceu na lngua portuguesa padro, em seu perodo de

    formao. Assim, do rabe AL-MAKHAZAN deriva o portugus

    armazm. O que acontece, de fato, que as consoantes /l/ e /r/ so,

    3 Superinteressante, dezembro de 1998, pp. 82 e 84. Essa matria da revista, muito bem

    elaborada, apia-se em depoimentos de alguns importantes conhecedores das lnguas indgenas brasileiras, inclusive aquele considerado o maior deles, o professor Aryon Rodrigues, da Universidade de Braslia.

  • do ponto de vista articulatrio, parentas muito prximas, o que faz

    com que, na histria de muitas lnguas (e no s do portugus das

    regies banhadas pelo legendrio rio Tiet) elas se substituam

    uma outra indiferentemente. So as chamadas consoantes

    lquidas, que tambm tm muito parentesco com as vogais (o que

    faz tambm com que, em algumas variedades, [pg. 92] sejam

    substitudas por vogais, como o caso do L. de final de slaba que

    em quase todo o Brasil pronunciado como um /w/).

    Assim, o nome prprio Guilherme nos veio de um germnico

    WILHELM, enquanto nosso Geraldo veio do tambm germnico

    GEHRHARDT. Na lngua culta coexistem as formas aluguel e aluguer,

    e nosso papel se originou do provenal papr (e este do grego

    papyros). No portugus medieval ao lado de flor havia a forma frol,

    cujo plural, fres, sobreviveu como nome de famlia. A cidade do

    norte da frica que em francs se chama Alger (do rabe al-jazird)

    em portugus Argel, donde o nome do pas, Arglia (em francs,

    Algrie). E a nossa palavra poro deriva do latim planu-: deve ter

    ocorrido primeiro o rotacism pl- > pr- e depois a quebra do grupo

    consonantal com a introduo de uma vogai o, exatamente como

    acontece na forma dialetal brasileira ful. E tudo isso uns bons

    sculos antes da descoberta da Bahia!

    A troca de /r/ por /l/ se chama lambdacismo. Ela ocorre, no

    portugus no-padro, em variantes como calvo, celveja, galfo. O

    que as pesquisas dos sociolingistas e dos foneticistas nos explicam

    que tanto o rotacismo quanto o lambdacismo ocorrem em ambien-

    tes fonticos especficos, isto , diante de determinadas consoantes

    (quem diz calvo, por exemplo, no diz calta, mas sim carta) ou de

    acordo com a posio do fonema na palavra.

  • A vocalizao do //, a assimilao -nd- > -nn- > -n- e o

    rotacismo so fenmenos que caracterizam as variedades [pg. 93]

    no-padro (sobretudo rurais) do portugus do Brasil e que, por

    isso, recebem uma forte carga de estigmatizao, isto , sofrem um

    grande preconceito por parte dos falantes das variedades urbanas.

    Tentei explic-los cientificamente e (espero) sem preconceitos no

    meu livro A lngua de Eullia.

    Como fcil concluir, o livro No erre mais! est repleto de

    erros erros de descrio dos fenmenos lingsticos e, sobretudo,

    erros de conduta: preconceituosa e nada tica. Podemos dizer,

    portanto, usando as palavras do prprio Sacconi (p. 63), que se trata

    de um verdadeiro festival de asneiras.

    4. Beethoven no danado!

    Nossa ltima investigao da presena epidmica (para usar

    de novo o termo proposto por Arnaldo Niskier) do preconceito

    lingstico nos comandos paragramaticais usar como material de

    anlise uma coluna de jornal chamada Dicas de Portugus,

    assinada por Dad Squarisi.

    Vamos reproduzir o texto tal como publicado no Dirio de

    Pernambuco de 15/11/98. Essa mesma coluna, porm, j tinha sido

    estampada no Correio Braziliense algum tempo antes (22/6/96),

    poca em que o presidente Fernando Henrique Cardoso, numa

    visita a Portugal, acusou os brasileiros de serem todos caipiras,

    declarao infelicssima e desastrosa (caipira no pode ser usado

    como ofensa), com a qual, todavia, Squarisi parece concordar

    plenamente, j que qualifica o presidente de iluminado. [pg. 94]

    A republicao da coluna mais de dois anos depois prova que se

    trata de material distribudo por agncia de notcias, com

  • possibilidade de j ter sido ou de ainda vir a ser publicado em

    outros jornais uma perspectiva que, confesso, me d arrepios. Por

    qu? Leia voc mesmo e descubra:

    Portugus ou Caipirs?

    Dad Squarisi

    Fiat lux. E a luz se fez. Clareou este mundo cheinho de jecas-

    tatus. direita, esquerda, frente, atrs, s se v uma paisagem.

    Caipiras, caipiras e mais caipiras. Alguns deslumbrados, outros

    desconfiados. Um s um iluminado. Pobre peixinho fora

    d'gua! To longe da Europa, mas to perto de paulistas, cariocas,

    baianos e maranhenses.

    Antes tarde do que nunca. A definio do carter tupiniquim

    lanou luz sobre um quebra-cabea que atormenta este pas capiau

    desde o sculo passado. Que lngua falamos? A resposta veio das

    terras lusitanas.

    Falamos o caipirs. Sem nenhum compromisso com a

    gramtica portuguesa. Vale tudo: eu era, tu era, ns era, eles era.

    Por isso no fazemos concordncia em frases como No se ataca as

    causas ou Vende-se carros.

    Na lngua de Cames, o verbo est enquadrado na lei da

    concordncia. Sujeito no plural? O verbo vai atrs. Sem choro nem

    vela. Os sujeitos causas e carros esto no plural. O verbo, vaquinha

    de prespio, deveria acompanh-los. Mas se faz de morto. O matuto,

    ingnuo, passa batido. Sabe por qu?

    O sujeito pode ser ativo ou passivo. Ativo, pratica a ao

    expressa pelo verbo: Os caipiras (sujeito) desconhecem (ao) [pg.

    95] o outro lado. Passivo, sofre a ao: O outro lado (sujeito)

  • desconhecido (ao) pelos caipiras. Reparou? O sujeito o outro

    lado no pratica a ao.

    H duas formas de construir a voz passiva:

    a. com o verbo ser (passiva analtica): A cultura caipira

    estudada por ensastas. Os carros so vendidos pela concessionria.

    b. com o pronome se (passiva sinttica): estuda-se a cultura

    caipira. Vendem-se carros. No caso, no aparece o agente. Mas o

    sujeito est l. Passivo, mas firme.

    Dica: use o truque dos tabarus cuidadosos: troque a passiva

    sinttica pela analtica. E faa a concordncia com o sujeito. Vende-

    se casas ou vendem-se casas? Casas so vendidas (logo: Vendem-se

    casas). No se ataca ou no se atacam as causas? As causas no so

    atacadas (no se atacam as causas). Fez-se ou fizeram-se a luz? A

    luz foi feita (fez-se a luz). Firmou-se ou firmaram-se acordos?

    Acordos foram firmados (firmaram-se acordos).

    Na dvida, no bobeie. Recorra ao truque. S assim voc chega

    l e ganha o passaporte para o mundo. Adeus, Caipirolndia.

    O que mais me impressionou nesse texto foi seu poder de

    sntese: em poucos pargrafos, a autora conseguiu reunir

    praticamente todos os chaves ranosos que compem o preconceito

    lingstico. Os preconceitos sociais e tnicos tambm foram

    contemplados.

    O preconceito se manifesta j no ttulo: Portugus ou

    caipirs? A partir da, como milho de pipoca em leo quente,

    pululam as palavras de contedo semntico fortemente

    preconceituoso: mundo, jecas-tatus, caipiras, caipiras e mais

    caipiras, deslumbrados, tupiniquim, [pg. 96] capiau,

  • caipirs, matuto, tabarus, Caipirolndia. ou no um

    poderoso trabalho de sntese? Dispensa comentrios.

    Isso quanto forma. Quanto ao contedo gramatical abordado

    pela autora, encontramos, mais uma vez, a atitude preconceituosa

    da pessoa que, conhecendo uma nica variedade da lngua, se

    arroga o direito de ofender, desprezar e ridicularizar os falantes das

    outras dezenas (seno centenas) de variedades. Mas j sabemos que

    o preconceito fruto da ignorncia, e o que Squarisi faz questo de

    afirmar em seu texto seu absoluto desconhecimento da

    complexidade dos fenmenos lingsticos. Temerosa de se aventurar

    na corrente vertiginosa do rio que a lngua, ela prefere continuar

    presa gua estagnada e malcheirosa de seu igap...

    A questo da partcula se em enunciados do tipo Vende-se casas

    vem sendo investigada h muito tempo nos estudos gramaticais e

    lingsticos brasileiros. O que todos os estudiosos concluem que,

    na lngua falada no Brasil, no portugus brasileiro, ocorreu uma

    reanlise sinttica nesse tipo de enunciado, isto , o falante

    brasileiro no considera mais esses enunciados como oraes

    passivas sintticas.

    O que a gramtica normativa insiste em classificar como

    sujeito a gramtica intuitiva do brasileiro interpreta como objeto

    direto. Respeitados fillogos e lingistas da primeira metade do

    sculo XX, como Manuel Said Ali, Antenor Nascentes e Joaquim

    Mattoso Camara Jr., reconheceram o fenmeno. Muitas pesquisas

    cientficas, baseadas [pg. 97] em coleta de dados da lngua real, em

    levantamentos estatsticos rigorosos e em teorias lingsticas

    consistentes, mostram que a imensa maioria dos brasileiros de

    todas as classes sociais, cultos ou no, na lngua falada e na lngua

    escrita usam verbos no singular nos enunciados em que aparece o

  • se com um verbo transitivo e um substantivo no plural: Vende-se

    casas, Aluga-se salas, Joga-se bzios, Avia-se receitas...

    Mas no porque somos caipiras, jecas-tatus, matutos ou

    tabarus. porque a lngua muda com o tempo, segue seu curso,

    transforma-se. Afinal, se no fosse desse modo, ainda estaramos

    falando latim... Na verdade, falamos latim, um latim que sofreu

    tantas transformaes que deixou de ser latim e passou a ser

    portugus. Da mesma forma, o portugus do Brasil queiram os

    gramticos ou no tambm est se transformando, e um dia,

    daqui a alguns sculos, ser uma lngua diferente da falada em

    Portugal mais diferente do que j ...

    Em meu livro A lngua de Eullia, tratei com bastante detalhe

    das questes relativas s assim chamadas oraes passivas

    sintticas (que na minha opinio e na de muitos lingistas

    simplesmente no existem). Me ocuparei aqui apenas do

    esfarrapado truque, com o qual a autora da coluna Portugus ou

    caipirs? acredita, ingenuamente, resolver todos os problemas da

    fala dos caipiras, caipiras e mais caipiras.

    Falar construir um texto, num dado momento, num

    determinado lugar, dentro de um contexto de fala definido, visando

    um determinado efeito. Quando o falante usa [pg. 98] uma frase

    com a partcula se, ele quer se valer dos recursos que esse tipo de

    construo sinttica lhe oferece para chegar ao efeito que visa

    provocar naquele determinado contexto. Trocar essa frase por outra

    trocar, tambm, ao mesmo tempo, o efeito visado.

    H situaes em que s as oraes com se funcionam. Imagine

    um carro em cujo vidro traseiro lemos um cartaz escrito: Vende-se.

    Se fssemos aplicar o truque sugerido pelas gramticas

    normativas teramos: vendido. Que efeito pode ter uma frase

  • assim, afixada num carro? Como disse Manuel Said Ali, ela s

    servir para fazer o leitor duvidar da sanidade mental de quem a

    escreveu.

    Em outras ocasies, apenas as oraes na voz passiva atingem

    o efeito desejado: Animais mortos foram trazidos com a enchente.

    Aplicando o truque: Animais mortos se trouxeram com a

    enchente... Algum diz isso assim?

    Podemos tambm perguntar por que Vende-se esta casa

    igual a Esta casa vendida e somente a isso? Por que no dizer

    que tambm igual a Esto vendendo esta casa, Algum est

    vendendo esta casa etc.?

    Alm disso, a substituio de mo nica: Alugam-se salas

    igual a Salas so alugadas, mas a substituio no sentido

    contrrio no funciona: De que so feitos esses doces? pode ser

    substitudo por De que se fazem esses doces? ou por De que esses

    doces se fazem? sero essas construes naturais, espontneas,

    caractersticas da lngua portuguesa? Me parece que no. [pg. 99]

    Se na capa de uma revista sobre telenovelas est escrito

    Henrique preso isso equivale a Henrique se prende?

    Uma reportagem intitulada O que fazer quando se tem

    problemas com o vizinho tambm poderia chamar-se O que fazer

    quando so tidos problemas com o vizinho?

    Onde est, portanto, a alegada equivalncia?

    Um dia desses, meu filho de 9 anos chegou em casa revoltado

    porque a professora queria que, numa festa da escola, as meninas

    danassem uma msica de Beethoven. Sua reao foi dizer: No se

    dana Beethoven! Na mesma hora pensei em como ficaria essa frase

    substituda por sua equivalente na voz passiva analtica:

    Beethoven no danado! Faz algum sentido para voc? Para mim

  • tambm no, mas talvez ns sejamos demasiado capiaus para

    atingir o nvel de iluminao a que s a professora Squarisi e o

    presidente Fernando Henrique Cardoso tm acesso.

    O truque tambm falha porque, na obteno do efeito

    desejado, a colocao dos termos na orao importantssima:

    (1) Com este mtodo, mistura-se a gua com a areia. (2) Com este mtodo, a gua mistura-se com a areia.

    Est claro que em (1) temos uma orao na voz ativa em que o

    sujeito indeterminado e o objeto de MISTURA--SE GUA. J em (2)

    o sujeito passa a ser GUA e a partcula se indica que se trata de um

    verbo reflexivo. [pg. 100]

    A posio dos elementos no enunciado, quando alterada, altera

    tambm a interpretao de seu significado, desviando-se do efeito

    pretendido pelo falante. o que acontece com

    (3) No se encontra Joo no prdio. (4) Joo no se encontra no prdio.

    Em (3) JOO o objeto do verbo ENCONTRA, ao passo que em (4)

    JOO o sujeito.

    Compare-se ainda esses trs enunciados:

    (5) Muita gente demitiu-se da Ford. (6) Demitiu-se muita gente da Ford. (7) Muita gente foi demitida da Ford.

    Em (5) est claro que a demisso foi voluntria porque o sujeito

    evidente da orao MUITA GENTE. Em (6) o sujeito

    indeterminado, e essa indeterminao est indicada pela partcula

    se, sendo MUITA GENTE O objeto da demisso. As oraes (5) e (6)

    podem ser perfeitamente classificadas de ativas. J em (7) temos,

  • sim, uma verdadeira orao na voz passiva em que o sujeito, MUITA

    GENTE, sofre a ao praticada: demitir. Se no lugar de MUITA GENTE

    tivssemos MUITOS OPERRIOS e quisssemos fazer a mesma

    anlise, obteramos:

    (8) Muitos operrios demitiram-se da Ford. (9) Demitiu-se muitos operrios da Ford. (10) Muitos operrios foram demitidos da Ford.

    A frase (9) no teria o mesmo efeito se o verbo estivesse no

    plural: Demitiram-se muitos operrios da Ford [pg. 101] seria

    simplesmente a mesma frase (8) com o sujeito colocado depois do

    verbo, ao contrrio da ordem natural do portugus, que a do

    sujeito antes do verbo. Se a inteno do falante dizer que muitos

    operrios perderam, a contragosto, seus empregos, o verbo tem de

    ser conjugado no singular porque os operrios, neste caso, so o

    objeto da demisso, sofreram com essa ao, no a praticaram.

    Minhas explicaes levam em conta, como fcil perceber, trs

    critrios de anlise dos enunciados lingsticos:

    1) o sinttico a colocao dos termos na orao; 2) o semntico o significado que cada tipo de enunciado assume segundo a

    posio ocupada pelos termos na orao; 3) o pragmtico o efeito visado pelo falante ao escolher enunciar uma orao

    na voz ativa, passiva ou reflexiva.

    A anlise de Dad Squarisi bem mais pobre, pois s leva em

    conta o critrio sinttico, reduzindo-o a um jogo de supostas

    equivalncias. a atitude comum do gramtico tradicionalista, que

    encara a lngua como um objeto descontextualizado, inerte,

    congelado, morto, fora do tempo, fora do espao, independente das

    pessoas que a falam. Para ela e para outros membros dos comandos

  • para-gramaticais, defensores intransigentes da norma oculta, no

    h diferena nenhuma entre No se dana Beethoven e Beethoven

    no danado, diferena que uma criana de 9 anos conhecedora,

    como todas as crianas de sua idade, das regras constitutivas de sua

    lngua materna [pg. 102] soube reconhecer intuitivamente no

    momento de enunciar sua reao, alcanando em cheio o efeito

    desejado.

    A autora da coluna diz que no temos nenhum compromisso

    com a gramtica portuguesa. Talvez ela no saiba e se soubesse

    decerto ficaria muito triste , mas nem mesmo os portugueses tm

    esse compromisso. Lendo anncios publicados no jornal lisboeta

    Dirio de Notcias de 22/07/97, a lingista Maria Marta Scherre4

    verificou que ali havia alternncia entre verbos no plural e no

    singular, embora todos os substantivos estivessem no plural:

    Vendem-se lotes de prdios c/ licenas a pagamento Vende-se magnficas instalaes loja com armazm Vendem-se andares novos Vende-se lotes de terreno Vende-se andares no lumiar Aluga-se escritrios Laranjeiras Compra-se dois espaos de garagem Procura-se reas at 150 m2

    Teremos de incluir Portugal entre as provncias da

    Caipirolndia?

    Por fim, Dad Squarisi apia-se no nome glorioso de Cames (e

    glorioso mesmo!) para justificar seus ataques [pg. 103] grosseiros

    4 A professora Scherre analisou detalhadamente o preconceito contido nessa e em outras colunas

    assinadas por Dad Squarisi no texto Preconceito lingstico: doa-se lindos filhotes de poodle, a ser publicado brevemente em obra coletiva organizada pelo professor Dermeval da Hora, da Universidade Federal da Paraba. Agradeo a ela a gentileza de ter-me possibilitado ler seu excelente ensaio antes de entreg-lo publicao.

  • contra quem no se enquadra na lei da concordncia. Ora, n'Os

    Lusadas encontra-se os seguintes versos:

    E como por toda frica se soa, / lhe diz, os grandes feitos que fizeram (canto II, 103).

    Seria o caso de incluir Cames entre os jecas-tatus? Afinal,

    pelas regras sintticas da lngua da professora Squarisi, os

    GRANDES FEITOS o sujeito de SE SOA, e por isso o verbo deveria

    estar no plural... S que no est.

    Parece incrvel que, depois de tanto tempo em vigor na lngua

    falada no Brasil, esta regra de uso do pronome SE ainda seja

    rejeitada pelos gramticos prescritivistas. Eles continuam agindo

    como o professor Aldrovando Cantagalo, do conto O colocador de

    pronomes de Monteiro Lobato, publicado em 1924. Ao ver uma

    placa com os dizeres Ferra-se cavalos, o histrico gramtico tentou

    explicar ao ferreiro que o verbo deveria estar no plural porque o

    sujeito da frase era cavalos. E foi obrigado a receber esta aula

    perfeita de sintaxe brasileira:

    V. Sa. me perdoe, mas o sujeito que ferra os cavalos sou eu, e eu no sou plural. Aquele SE da tabuleta refere-se c a este seu criado.

    Algum j viu um cavalo pr ferradura em si mesmo? Talvez o

    professor Aldrovando Cantagalo em seus delrios normativistas, que

    ainda acometem muita gente hoje em dia! [pg. 104]

  • III

    A desconstruo do preconceito lingstico

    1. Reconhecimento da crise

    De que modo poderemos romper o crculo vicioso do preconceito

    lingstico? Como conseguiremos escapar do igap estagnado e

    mergulhar nas guas dinmicas e vivificantes do grande rio da

    lngua?

    Uma coisa no podemos deixar de reconhecer: existe

    atualmente uma crise no ensino da lngua portuguesa. Muitos

    professores, alertados em debates e conferncias ou pela leitura de

    bons textos cientficos, j no recorrem to exclusivamente

    gramtica normativa como nica fonte de explicao para os

    fenmenos lingsticos. Por outro lado, sentem falta de outros

    instrumentos didticos que possam, seno substituir, ao menos

    complementar criticamente os compndios gramaticais tradicionais.

    Muita gente acredita e defende que a norma culta que deve

    constituir o objeto de ensino/aprendizagem em sala de aula. Mas o

    que e onde est essa norma culta?

    No difcil perceber que a norma culta por diversas razes

    de ordem poltica, econmica, social, cultural algo reservado a

    poucas pessoas no Brasil. Vimos isso no Mito n 1 e no n 8. o

    mesmo que acontece com a alimentao, [pg. 105] a sade, a

    educao, a habitao, o transporte, o acesso s novas tecnologias

    etc. Uns poucos privilegiados se locomovem em carros importados,

  • enquanto a grande maioria usa um transporte pblico deficiente,

    precrio e, se no bastasse, caro demais conheo pessoas

    humildes que vo a p para o trabalho, despertando no meio da

    madrugada e caminhando durante horas da periferia at os bairros

    centrais, porque seu salrio no lhes permite tomar nibus, trem

    nem metr.

    Podemos identificar trs problemas bsicos a esse respeito.

    Primeiro, e mais bvio, a quantidade injustificvel de

    analfabetos que existe neste pas. Estatsticas oficiais, do IBGE,

    falam de 18 a 20 milhes de analfabetos com mais de 15 anos de

    idade duas vezes a populao de Portugal! Some-se a isso os

    milhes de crianas em idade escolar que no freqentam nenhuma

    escola. Temos tambm um alto ndice de analfabetos funcionais, isto

    , pessoas que freqentaram a escola por um perodo insuficiente

    para desenvolver plenamente as habilidades de leitura e redao. A

    mdia nacional de educao da fora de trabalho de 3,9 anos de

    escola: seriam, no total, 45 milhes de analfabetos funcionais ou

    semi-analfabetos. Analfabetos plenos e analfabetos funcionais

    seriam, ao todo, mais de 60 milhes de brasileiros: duas vezes a

    populao da Argentina!

    Numa lista de 175 pases elaborada pela ONU, o Brasil ocupa o

    93 lugar em ndice de escolarizao, ficando atrs at mesmo de

    pases como a Etipia e a ndia, exemplos clssicos de

    subdesenvolvimento crnico. S que o Brasil [pg. 106] uma das

    dez maiores economias do planeta! Ocupamos tambm o 80 lugar

    em investimentos na educao. E ningum pode alegar que isso se

    deve ao tamanho do pas ou da populao: a China, bem maior que o

    Brasil e com uma populao de 1,2 bilho de habitantes, tem 6 % de

    analfabetos, enquanto o Brasil tem 18,4 %, segundo o Banco

  • Mundial. E na China esses analfabetos vivem em reas muito

    remotas, nas montanhas ou nos desertos, enquanto os nossos esto

    na periferia das grandes cidades e at mesmo trabalhando dentro

    de nossas casas. Tudo isso num pas cuja Constituio diz que a

    educao dever do Estado.

    A norma culta, como vimos, est tradicionalmente muito

    vinculada norma literria, lngua escrita. Com tantos

    analfabetos, lamentar a decadncia ou a corrupo da norma

    culta no Brasil , no mnimo, uma atitude cnica.

    Segundo, por razes histricas e culturais, a maioria das

    pessoas plenamente alfabetizadas no cultivam nem desenvolvem

    suas habilidades lingsticas no nvel da norma culta. Ler e,

    sobretudo, escrever no fazem parte da cultura das nossas classes

    sociais alfabetizadas. Isso se prende aos velhos preconceitos de que

    brasileiro no sabe portugus e de que portugus difcil,

    veiculados pelas prticas tradicionais de ensino. Esse ensino

    tradicional, como eu j disse, em vez de incentivar o uso das

    habilidades lingsticas do indivduo, deixando-o expressar-se

    livremente para somente depois corrigir sua fala ou sua escrita, age

    exatamente ao contrrio: interrompe o fluxo natural da expresso e

    da comunicao com a atitude corretiva (e muitas vezes punitiva),

    cuja conseqncia [pg. 107] inevitvel a criao de um sentimento

    de incapacidade, de incompetncia.

    Em minha experincia de tradutor profissional, j me deparei

    algumas vezes com situaes que poderamos classificar de

    surrealistas. Pessoas que fizeram doutorado no exterior me

    procuram para que eu traduza para o portugus teses escritas

    originalmente em ingls ou francs. Quando pergunto pessoa por

    que ela mesma no faz a traduo, a resposta que eu recebo

  • chocante: porque eu no sei portugus. Como possvel? Uma

    pessoa que escreveu uma tese de 500 ou 600 pginas num idioma

    estrangeiro, e que obteve assim o seu grau de doutor, de Ph.D., em

    sua especialidade cientfica, tem receios de escrever em sua prpria

    lngua materna? Existe algum problema a, e eu no posso aceitar a

    explicao dada por tantos professores de que os alunos que so

    preguiosos e no conseguem aprender, ou, pior ainda, que

    portugus muito difcil. O problema certamente est no modo

    como se ensina portugus e naquilo que ensinado sob o rtulo de

    lngua portuguesa.

    Terceiro, o dilema relativo norma culta se prende ao fato de

    que esse termo usado pela tradio gramatical conservadora para

    designar uma modalidade de lngua que, como j vimos na primeira

    parte deste livro, no corresponde lngua efetivamente usada

    pelas pessoas cultas do Brasil nos dias de hoje, mas sim a um ideal

    lingstico inspirado no portugus de Portugal, nas opes

    estilsticas dos grandes escritores do passado, nas regras sintticas

    que mais se aproximem dos modelos da gramtica latina, ou

    simplesmente no gosto pessoal do gramtico [pg. 108] para

    Napoleo Mendes de Almeida, por exemplo, o certo dizer eu odio

    e no EU ODEIO...1

    Dentro desse conceito de norma culta, a proibio de comear

    um perodo com pronome oblquo (Me empreste seu livro)

    justificada com a afirmao de que em Portugal (!) ningum fala

    assim. De igual modo, a recusa dos gramticos conservadores em

    aceitar que em frases como Vende-se casas o pronome se

    1 Outros termos empregados indistintamente pelos prescritivistas so: norma padro, lngua padro,

    lngua culta, padro culto. Todos eles, porm, carecem de uma definio terica rigorosa, sendo usados basicamente como um sinnimo geral de bom portugus, em contraste com tudo o que no portugus.

  • desempenha uma funo semelhante de sujeito se baseia no fato

    de que, em latim (!!), o pronome se nunca exercia essa funo. Dizer

    ou escrever eu prefiro mais X do que Y um pecado, na opinio

    deles, porque o prefixo prae- em latim (!!!) funcionava para formar

    superlativos analticos, contendo em si mesmo a idia de muito ou

    mais do que... Alm disso, errado dizer outra alternativa

    porque alter em latim (!!!!) j significava outro. Mas desde quando

    ns falamos latim no Brasil?

    A distncia entre norma culta real e norma culta ideal pode ser

    medida em afirmaes como esta, de Rocha Lima, em sua

    Gramtica normativa da lngua portuguesa (p. 15):

    Em extensas faixas do Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, a consoante /l/, quando em final de slaba, apresenta uma pronncia relaxada, que a aproxima da semivogal /w/. Este [pg. 109] fato faz que desapaream oposies como as de mal e mau, alto e auto, servil e serviu oposies que a lngua culta procura cuidadosamente observar [grifo meu].

    Basta ouvir os locutores de rdio, os apresentadores de

    telejornal e os professores universitrios trs profisses que

    exigem educao de nvel superior e, portanto, domnio da norma

    culta para verificar que a afirmao de Rocha Lima no se baseia

    na realidade empiricamente analisvel. provvel que nenhum

    falante da lngua culta se preocupe, hoje em dia, em fazer a

    distino entre as palavras por ele citadas. No acervo de gravaes

    da lngua urbana culta coletado pelo Projeto NURC, a que j me

    referi no Mito n 5, no se percebe essa suposta preocupao em

    distinguir as duas pronncias. A pronncia do L como /l/ e no

    como /w/ s se verifica na fala de pessoas bastante idosas ou de

  • falantes de variedades bem especficas de portugus, como a gacha

    (e, mesmo assim, no de modo geral).

    Essa mesma idealizao da norma culta como um padro

    lingstico 100% puro como uma pedra preciosa sem nenhuma

    jaa, como uma pepita de ouro livre de toda ganga se verifica, por

    exemplo, num texto publicado por Pasquale Cipro Neto em sua

    pgina na revista Cult (n 11, junho de 1998, p. 44). Para ele, os

    usos no-normativos de onde constituem uma praga. E o uso feito

    por Chico Buarque, numa cano, de onde no lugar de quando

    indica que o poeta-compositor caiu na esparrela.

    Lemos no texto de Cipro que a diferena entre onde e aonde

    tambm deixa muita gente de cabelo em p. [pg. 110] Depois de

    explicar o uso correto de cada uma das duas formas, ele diz que

    mesmo em escritores renomados se v o emprego de onde e aonde

    sem critrio, e cita o exemplo do poema A onda de Manuel

    Bandeira, que escreveu: Aonde anda a onda. E chama a ateno

    para o fato de que em termos de lngua culta, para cada 99

    ocorrncias corretas de onde, h uma de aonde. Diante dessa

    estatstica (que ele cita sem indicar a fonte de seus dados nem a

    metodologia empregada para colet-los), a lgica nos leva a concluir

    que o problema ento no est na falta de critrio dos falantes da

    norma culta, mas sim na concepo que o autor do texto tem de

    lngua culta. Afinal, se Chico Buarque, Manuel Bandeira e

    Machado de Assis (que no poema Nini, parte III, estrofe 2,

    escreveu:Mas aonde te vais agora, / Onde vais, esposo meu?) no

    servem como exemplos de usurios da lngua culta, quem servir?

    Em seu livro Com todas as letras (que tem o sugestivo subttulo

    de o portugus simplificado, que nos remete logo ao Mito 3), o

    jornalista Eduardo Martins tenta ensinar o uso correto do verbo

  • pedir. Depois de ler as explicaes dadas ali, na pgina 16, passei a

    aplicar um teste para controlar se o que ele chama de norma culta

    realmente merece esse nome. Assim, toda vez que vou dar uma

    palestra em congressos e seminrios ou conversar com professores

    de portugus, escrevo o seguinte enunciado na lousa e pergunto o

    que h de errado com ele:

    Joo est doente, por isso me pediu para vir aqui no lugar dele. [pg. 111]

    Deixo que as pessoas reflitam e dem suas opinies. Cada uma

    arrisca uma hiptese, mas ningum detecta o erro denunciado por

    Martins em seu livro. E voc, j descobriu qual ? Pois saiba, caro

    leitor, cara leitora, que a construo pedir para s pode ser

    empregada quando o sentido o de pedir permisso, licena ou

    autorizao. Segundo o autor de Com todas as letras, se a idia de

    permisso ou licena no estiver implcita ou subentendida, o

    certo usar pedir que + subjuntivo: Joo est doente, por isso me

    pediu que viesse aqui no lugar dele. E ele abre suas explicaes

    afirmando:

    A locuo pedir para um dos melhores exemplos do abismo existente entre a linguagem coloquial e a norma culta do idioma.

    E eu me vejo obrigado a reagir dizendo: Nada disso, senhor

    jornalista! A locuo pedir para um exemplo do abismo que

    existe, sim, mas entre a verdadeira norma culta usada pelas

    pessoas cultas do Brasil e aquilo que ele e outros no-especialistas

    em lingstica, que se baseiam exclusivamente na norma

    gramatical mais conservadora e prescritiva, chamam de norma

    culta. O que Martins rotula de linguagem coloquial (termo, alis,

    que quase sempre empregado com sentido pejorativo) , na

  • verdade, uma manifestao da norma culta objetiva, real,

    empiricamente coletvel e analisvel. E a prova maior disso que

    os falantes cultos (professores de portugus!) a quem ofereo meu

    teste reconhecem tranqilamente a gramaticalidade, a

    aceitabilidade de construes como a do enunciado que escrevo na

    lousa. Como possvel, [pg. 112] ento, falar de erro se a

    construo no causa estranheza a falantes cultos e perfeitamente

    assimilada do ponto de vista semntico e pragmtico, se no h

    nenhuma ambigidade em sua interpretao (que o argumento

    quase sempre apresentado pelos prescritivistas, que normalmente

    analisam a lngua sem levar em conta o contexto da enunciao)?

    De onde vem esse abismo entre o conceito sociolingstico de

    norma culta e a noo vaga (e preconceituosa) de lngua culta

    exibida pelos comandos paragramaticais? Como tantos especialistas

    de verdade vm insistindo em mostrar, esse abismo nasce da recusa

    dos defensores da gramtica tradicional de acompanhar os avanos

    da cincia da linguagem. Consultando, por exemplo, a bibliografia

    do livro Com todas as letras, de Eduardo Martins, lanado no incio

    de 1999, verifica-se que dos 26 ttulos consultados por ele nenhum

    de obra cientfica especializada: 10 so comandos paragramaticais

    em forma de livros que listam no-sei-quantos-mil erros de

    portugus (entre os quais o Manual de Redao e Estilo do jornal O

    Estado de S. Paulo, de autoria do mesmo Martins); 11 so

    dicionrios de lngua e/ou de regncias verbais e nominais (obras

    escritas moda antiga e no segundo os critrios da lexicografia

    contempornea), e 5 so gramticas normativas. Como todo

    comando para-gramatical digno do nome, este tambm se

    caracteriza por sua inflexvel endogamia: para conservar a pureza

  • de sua lngua, s aceita manter relaes com indivduos de sua

    prpria casta. [pg. 113]

    Como reconhece o prprio Ministrio da Educao, no

    documento j citado,

    no se pode mais insistir na idia de que o modelo de correo estabelecido pela gramtica tradicional seja o nvel padro de lngua ou que corresponda variedade lingstica de prestgio (p. 31).

    Para separar o ideal do real, como eu j disse, necessrio

    empreender a identificao e a descrio da verdadeira lngua

    falada e escrita pelas classes cultas do Brasil. uma tarefa que tem

    de ser feita, e que est sendo feita. Infelizmente, os resultados j

    obtidos na execuo dessa tarefa so de acesso difcil maioria das

    pessoas porque se encontram expostos em livros e teses escritos em

    linguagem extremamente tcnica como de fato exige o rigor

    cientfico , e recorrem, em suas anlises e interpretaes, a

    diferentes modelos tericos, todos eles muito sofisticados e de difcil

    compreenso para o leitor comum no familiarizado com eles.

    preciso escrever uma gramtica da norma culta brasileira

    em termos simples (mas no simplistas), claros e precisos, com um

    objetivo declaradamente didtico--pedaggico, que sirva de

    ferramenta til e prtica para professores, alunos e falantes em

    geral. Sem essa gramtica que nos descreva e explique a lngua

    efetivamente falada pelas classes cultas, continuaremos merc das

    gramticas normativas tradicionais, que chamam erradamente de

    norma culta uma modalidade de lngua que no culta, mas sim

    cultuada: no a norma culta como ela , mas a norma [pg. 114]

    culta como deveria ser, segundo as concepes antiquadas dos

    perpetuadores do crculo vicioso do preconceito lingstico.

  • 2. Mudana de atitude

    Enquanto essa gramtica no chega, temos de combater o

    preconceito lingstico com as armas de que dispomos. E a primeira

    campanha a ser feita, por todos na sociedade, a favor da mudana

    de atitude. Cada um de ns, professor ou no, precisa elevar o grau

    da prpria auto-estima lingstica: recusar com veemncia os velhos

    argumentos que visem menosprezar o saber lingstico individual

    de cada um de ns. Temos de nos impor como falantes competentes

    de nossa lngua materna. Parar de acreditar que brasileiro no

    sabe portugus, que portugus muito difcil, que os habitantes

    da zona rural ou das classes sociais mais baixas falam tudo

    errado. Acionar nosso senso crtico toda vez que nos depararmos

    com um comando paragramatical e saber filtrar as informaes

    realmente teis, deixando de lado (e denunciando, de preferncia)

    as afirmaes preconceituosas, autoritrias e intolerantes.

    Da parte do professor em geral, e do professor de lngua em

    particular, essa mudana de atitude deve refletir-se na no-

    aceitao de dogmas, na adoo de uma nova postura (crtica) em

    relao a seu prprio objeto de trabalho: a norma culta.

    Do ponto de vista terico, esta nova postura pode ser

    simbolizada numa simples troca de slaba. Em vez de REPETIR

    alguma coisa, o professor deveria REFLETIR sobre [pg. 115] ela.

    Diante da velha doutrina gramatical normativa, o professor no

    deveria limitar-se a transmiti-la tal e qual ela se encontra

    compendiada nos manuais gramaticais ou nos livros didticos.

    necessrio lanar dvidas sobre o que est dito ali,

    questionar a validade daquelas explicaes, filtr-las, tomando

    inclusive como base seu prprio saber lingstico, devidamente

  • valorizado: Eu no falo assim, no escrevo assim; meus colegas

    tambm no; escritores que tenho lido no seguem essa regra

    ser que ela pertence de fato norma culta?

    Posta a dvida, passa-se investigao, ao levantamento de

    hipteses, busca de explicaes que esclaream o fenmeno que

    provocou o questionamento. Se milhes de brasileiros de norte a sul,

    de leste a oeste, em todas as regies e em todas as classes sociais

    falam e escrevem Aluga-se salas ou se h flutuao no uso de onde e

    aonde, o problema, evidentemente, no est nesses milhes de

    pessoas, mas na explicao insuficiente (errada, at, nesses casos)

    dada a esses fenmenos pela gramtica tradicional.

    Nessa nova postura de reflexo, indispensvel que o professor

    procure, tanto quanto possvel, estar sempre a par dos avanos das

    cincias da linguagem e da educao: lendo literatura cientfica

    atualizada, assinando revistas especializadas, filiando-se a

    associaes profissionais, freqentando cursos em universidades,

    aderindo a projetos de pesquisa, participando de congressos,

    levantando suas dvidas e inquietaes em debates e mesas-

    redondas... [pg. 116]

    Do ponto de vista prtico, a nova postura pode ser

    representada na eliminao de uma nica slaba tambm. Em vez

    de REPRODUZIR a tradio gramatical, o professor deve PRODUZIR

    seu prprio conhecimento da gramtica, transformando-se num

    pesquisador em tempo integral, num orientador de pesquisas a

    serem empreendidas em sala de aula, junto com seus alunos. Parar

    de querer entregar regras (mal descritas) j prontas, e comear a

    descobrir mtodos inteligentes e prazerosos para que os prprios

    aprendizes deduzam essas regras em textos vivos, coerentes, bem

    construdos, interessantes, tanto de lngua escrita como de lngua

  • falada. Tentei dar uma contribuio inicial a esse processo na

    segunda parte do meu livro Pesquisa na escola: o que , como se faz.

    A gramtica tradicional tenta nos mostrar a lngua como um

    pacote fechado, um embrulho pronto e acabado. Mas no assim. A

    lngua viva, dinmica, est em constante movimento toda

    lngua viva uma lngua em decomposio e em recomposio, em

    permanente transformao. uma fnix que de tempos em tempos

    renasce das prprias cinzas. uma roseira que, quanto mais a

    gente vai podando, flores mais bonitas vai dando. E o professor

    tambm deve preferir ser uma metamorfose ambulante, do que ter

    aquela velha opinio formada sobre tudo, como cantava Raul

    Seixas (contrariando, nesses mesmos versos, a velha opinio

    formada de que o verbo preferir no pode ser usado com a

    construo do que...).

    Tudo muda no universo, e a lngua tambm. A comparao da

    lngua a um rio me faz lembrar do filsofo grego [pg. 117] Herclito

    que disse que ningum se banha duas vezes no mesmo rio: na

    segunda vez, j no a mesma pessoa, j no o mesmo rio.

    No precisamos ter medo disso quando formos dar aula de

    portugus. Um professor de qumica, fsica, biologia ou histria sabe

    perfeitamente que muito do que ele est ensinando hoje pode vir a

    ser reformulado ou at negado amanh por alguma nova

    descoberta, por algum novo avano tecnolgico que permitir ver

    coisas que antes no se via. Toda cincia, para merecer esse nome,

    tem que ser, como se diz em ingls, work in progress, um trabalho

    em andamento, uma construo ininterrupta, uma obra aberta. E

    a lingstica (dentro da qual se inclui a gramtica) uma cincia

    assim. Por isso,

  • no h razo para que o professor de gramtica seja dispensado da formao cientfica que se exige de um professor de biologia ou de psicologia. [...] definitivamente necessrio comear a conceber a gramtica como uma disciplina viva, em reviso e elaborao constante.

    Essas palavras de Mrio Perini em sua Gramtica descritiva

    do portugus (pp. 16 e 17) sintetizam o que eu disse mais acima a

    respeito de uma nova postura terica e prtica por parte do

    professor de lngua portuguesa.

    3. O que ensinar portugus?

    Para romper o crculo vicioso do preconceito lingstico no

    ponto em que temos mais poder para atac-lo a prtica de ensino

    , precisamos rever toda uma srie [pg. 118] de velhas opinies

    formadas que ainda dominam nossa maneira de ver nosso prprio

    trabalho.

    Logo de incio, convm fazer a pergunta: o que ensinar

    portugus? Que objetivo pretendemos alcanar com nossa prtica

    em sala de aula?

    Os mtodos tradicionais de ensino da lngua no Brasil visam,

    por incrvel que parea, a formao de professores de portugus! O

    ensino da gramtica normativa mais estrita, a obsesso

    terminolgica, a parania classificatria, o apego nomenclatura

    nada disso serve para formar um bom usurio da lngua em sua

    modalidade culta. Esforar-se para que o aluno conhea de cor o

    nome de todas as classes de palavras, saiba identificar os termos da

    orao, classifique as oraes segundo seus tipos, decore as

    definies tradicionais de sujeito, objeto, verbo, conjuno etc.

    nada disso garantia de que esse aluno se tornar um usurio

    competente da lngua culta.

  • Quando algum se matricula numa auto-escola, espera que o

    instrutor lhe ensine tudo o que for necessrio para se tornar um

    bom motorista, no ? Imagine, porm, se o instrutor passar onze

    anos abrindo a tampa do motor e explicando o nome de cada pea,

    de cada parafuso, de cada correia, de cada fio; explicando de que

    modo uma parte se encaixa na outra, o lugar que cada uma deve

    ocupar dentro do compartimento do motor para permitir o

    funcionamento do carro e assim por diante... Esse aluno tem

    alguma chance de se tornar um bom motorista? Acho difcil.

    Quando muito, estar se candidatando a um emprego de mecnico

    de automveis... Mas quantas pessoas existem por a, dirigindo

    tranqilamente seus [pg. 119] carros, tirando o mximo proveito

    deles, sem ter a menor idia do que acontece dentro do motor?

    Hoje em dia, cada vez mais pessoas esto usando um

    computador. A retumbante maioria delas consegue fazer um bom

    uso de sua mquina conhecendo apenas os programas, os softwares.

    O hardware, isto , a parte mecnica do computador, a estrutura

    fsica das placas, dos chips, das conexes etc., fica para os

    especialistas, os tcnicos.

    E ento? O que pretendemos formar com nosso ensino:

    motoristas da lngua ou mecnicos da gramtica? Devemos insistir

    nos componentes hard ou devemos dar preferncia ao bom manejo

    dos soft?2

    Ns, sim, professores, temos que conhecer profundamente o

    hardware da lngua, a mecnica do idioma, porque ns somos os

    instrutores, os especialistas, os tcnicos. Mas no os nossos alunos.

    Precisamos, portanto, redirecionar todos os nossos esforos, volt-

    2 Hard em ingls significa duro, rgido, enquanto soft significa macio, malevel. Qual dessas duas

    opes de ensino voc acha que nossos alunos escolheriam se tivessem chance?

  • los para a descoberta de novas maneiras que nos permitam fazer de

    nossos alunos bons motoristas da lngua, bons usurios de seus

    programas.

    Por isso que Srio Possenti, depois de exibir argumentos com

    os quais concordo integralmente, diz nas pginas 53-54 de Por que

    (no) ensinar gramtica na escola:

    Todas as sugestes feitas nos textos anteriores s faro sentido se os professores estiverem convencidos ou puderem ser convencidos de que o domnio efetivo e ativo de uma lngua [pg. 120] dispensa o domnio de uma metalinguagem tcnica. Em outras palavras, se ficar claro que conhecer uma

    lngua uma coisa e conhecer sua gramtica outra. Que saber uma lngua uma coisa e saber analis-la outra. Que saber usar suas regras uma coisa e saber explicitamente quais so as regras outra. Que se pode falar e escrever numa lngua sem saber nada sobre ela, por um lado, e que, por outro lado, perfeitamente possvel saber muito sobre uma lngua sem saber dizer uma frase nessa lngua em situaes reais.

    Quando digo coisas assim em pblico, algumas pessoas

    levantam a objeo de que o ensino da nomenclatura tradicional,

    das definies, das classificaes, da anlise sinttica necessrio

    porque so essas coisas que sero cobradas ao aluno no momento de

    fazer um concurso ou de prestar o vestibular. Se assim, cabe a

    ns, professores, pressionar pelos meios de que dispomos

    associaes profissionais, sindicatos, cartas imprensa para que

    as provas de concursos sejam elaboradas de outra maneira,

    trocando as velhas concepes de lngua por novas. No temos de

    nos conformar passivamente com uma situao absurda e

    prosseguir na reproduo dos velhos vcios gramatiqueiros

    simplesmente porque haver uma cobrana futura ao aluno.

  • Quanto ao vestibular Deus seja mil vezes louvado! , ele

    est desaparecendo. Diversas universidades pblicas e privadas

    esto encontrando novos meios de seleo e admisso de alunos aos

    cursos superiores. Afinal, poucas instituies houve no Brasil to

    obtusas, nefastas, injustas, antidemocrticas e perniciosas quanto o

    vestibular. Nunca consegui entender por que uma pessoa [pg. 121]

    que quer estudar Direito precisa fazer prova de fsica, qumica,

    biologia e matemtica, se o que ela aprendeu dessas matrias j foi

    avaliado na concluso do 2 grau.

    Com o fim do vestibular, desaparecer tambm assim

    esperamos ardentemente toda a indstria que se formou em

    torno dele: os nefandos cursinhos onde ningum aprende nada,

    onde no h nenhuma produo de conhecimento mas apenas

    reproduo de informaes desconexas, onde centenas de alunos se

    apinham numa sala, onde tudo o que se faz entupir a cabea do

    aluno com truques e macetes que em nada contribuem para a

    sua verdadeira formao intelectual e humanstica.

    4. O que erro?

    Outro modo interessante de romper com o crculo vicioso do

    preconceito lingstico reavaliar a noo de erro. A noo

    tradicional (eu diria at folclrica) de erro que permite que pessoas

    como Sacconi escrevam livros absurdos como No erre mais! e

    vendam milhares de exemplares deles.

    Como vimos na primeira parte do livro, o Mito 6 expressa a

    prtica milenar de confundir lngua em geral com escrita e, mais

    reduzidamente ainda, com ortografia oficial. A tal ponto que uma

    elevada porcentagem do que se rotula de erro de portugus , na

    verdade, mero desvio da ortografia oficial. O vigor desse mito se

  • depreende, por exemplo, num exerccio de pesquisa sugerido por um

    livro didtico de publicao recente (Carvalho & Ribeiro, 1998: 125).

    Aps apresentar o poema [pg. 122] Erro de portugus, de Oswald

    de Andrade, os autores pedem ao aluno:

    1. Procure localizar erros de portugus em cartazes, placas, ou at mesmo na fala de pessoas que voc conhece. Transcreva-os em seu caderno.

    Ora, em cartazes e placas no aparecem erros de portugus e,

    sim, erros de ortografia. Escrever, digamos, LOGINHA DE

    ARTEZANATO onde a lei obriga a escrever LOJINHA DE ARTESANATO

    em nada vai prejudicar a inteno do autor da placa: informar que

    ali se vende objetos de artesanato. Neste caso, nem mesmo a

    realizao fontica da placa certa e da placa errada vai

    apresentar diferena. O fato tambm de haver erro na placa no

    significa de forma nenhuma que os objetos ali vendidos sejam de

    qualidade inferior, errados ou feios.

    Se mais acima escrevi lei porque se trata exatamente disso.

    A ortografia oficial fruto de um gesto poltico, determinada por

    decreto, resultado de negociaes e presses de toda ordem

    (geopolticas, econmicas, ideolgicas). No incio do sculo XX o

    certo era escrever: EM NICTHEROY ELLE POUDE ESTUDAR SCIENCIAS

    NATURAES, CHIMICA E PHYSICA. Se hoje o certo escrever: EM

    NITERI ELE PDE ESTUDAR CINCIAS NATURAIS, QUMICA E FSICA,

    isso no altera a sintaxe nem a semntica do enunciado: o que

    mudou foi s a ortografia.

    O exerccio proposto por Carvalho & Ribeiro, alm de confundir

    portugus com ortografia do portugus, tambm admite

    implicitamente a existncia de erros na [pg. 123] fala de pessoas

    que voc conhece. O problema aqui ainda mais grave porque, do

  • ponto de vista cientfico, simplesmente no existe erro de portugus.

    Todo falante nativo de uma lngua um falante plenamente

    competente dessa lngua, capaz de discernir intuitivamente a

    gramaticalidade ou agramaticalidade de um enunciado, isto , se

    um enunciado obedece ou no s regras de funcionamento da

    lngua.

    Ningum comete erros ao falar sua prpria lngua materna,

    assim como ningum comete erros ao andar ou ao respirar. S se

    erra naquilo que aprendido, naquilo que constitui um saber

    secundrio, obtido por meio de treinamento, prtica e memorizao:

    erra-se ao tocar piano, erra-se ao dar um comando ao computador,

    erra-se ao falar/escrever uma lngua estrangeira. A lngua materna

    no um saber desse tipo: ela adquirida pela criana desde o

    tero, absorvida junto com o leite materno. Por isso qualquer

    criana entre os 3 e 4 anos de idade (se no menos) j domina

    plenamente a gramtica de sua lngua. O resultado disso , como

    diz Perini (1997:11), que nosso conhecimento da lngua ao mesmo

    tempo altamente complexo, incrivelmente exato e extremamente

    seguro.

    E o mesmo autor prossegue, afirmando (p. 13) que

    qualquer falante de portugus possui um conhecimento implcito altamente elaborado da lngua, muito embora no seja capaz de explicitar esse conhecimento. E [...] esse conhecimento no fruto de instruo recebida na escola, mas foi adquirido de maneira to natural e espontnea quanto a nossa habilidade de andar. Mesmo pessoas que nunca estudaram [pg. 124] gramtica chegam a um conhecimento implcito perfeitamente adequado da lngua. So como pessoas que no conhecem a anatomia e a fisiologia das pernas, mas que andam, danam, nadam e pedalam sem problemas.

  • Assim, podemos at dizer que existem erros de portugus, s

    que nenhum falante nativo da lngua os comete! Por exemplo,

    seriam errados os enunciados abaixo (o asterisco indica construo

    agramatical):

    (1) *Aquela garoto me xingou (2) *Eu nos vimos ontem na escola (3) *Jlia chegou semana que vem (4) *No duvido que ele no queira no vir aqui (5) *Que o livro que a moa que Lus que trabalha comigo me apresentou

    escreveu bom no nego.

    Esses enunciados, precisamente por serem agramaticais, isto ,

    por no respeitarem as regras de funcionamento da nossa lngua,

    no aparecem na fala espontnea e natural de falantes nativos do

    portugus do Brasil, mesmo que sejam crianas pequenas que ainda

    no freqentam escola ou adultos totalmente iletrados.

    O que est em jogo aqui, evidentemente, a noo de erro e seu

    estreito vnculo com o que tradicionalmente chamado de

    portugus. Como j mostrei, existe, no nvel da lngua escrita, a

    confuso entre portugus e ortografia oficial da lngua portuguesa.

    No nvel da lngua falada, os termos que se confundem, ou que so

    tomados como equivalentes, so portugus, gramtica normativa e

    variedade padro. [pg. 125]

    Em relao lngua escrita, seria pedagogicamente proveitoso

    substituir a noo de erro pela de tentativa de acerto. Afinal, a

    lngua escrita uma tentativa de analisar a lngua falada, e essa

    anlise ser feita, pelo usurio da escrita no momento de grafar sua

    mensagem, de acordo com seu perfil sociolingstico. Uma pessoa

    com poucos anos de escolarizao, pouco habituada prtica da

    leitura e da escrita, tendo como quadro de referncia apenas uma

  • suposta equivalncia unvoca entre som e letra, far uma anlise

    dotada de reduzido instrumental terico, empregando como

    ferramenta bsica a analogia. Assim, quem escreveu CHCARA em

    vez de XCARA no fez isso porque quis errar, mas sim porque quis

    acertar. Se existe CHINELO, CHICOTE, CHIQUEIRO, CHICLETE, por

    analogia se chega possibilidade de tambm haver CHCARA.

    importante notar que os erros de ortografia so constantes: troca

    de J por G, de S por Z, de CH por X e assim por diante justamente

    por serem casos em que necessrio fazer uma anlise da relao

    fala-escrita que ultrapassa os limites tericos da suposta

    equivalncia som-letra. Dificilmente algum vai tentar escrever

    XCARA usando um J, um G, um S no lugar do X oficial, porque

    faltam dados de experincia para uma analogia razovel. Por outro

    lado, uma pessoa que tenha freqentado a escola por muitos anos,

    que leia e escreva assiduamente, que se tenha familiarizado com o

    uso do dicionrio, que tenha sido despertada para a existncia das

    regularidades e irregularidades da lngua escrita, saber que a

    simples analogia no ser suficiente como guia no momento de

    escrever outros quadros de referncia tero de ser acessados: a

    cultura [pg. 126] erudita, a etimologia das palavras, as reformas

    ortogrficas, os critrios de normativizao da ortografia etc.

    Quanto lngua falada, fica bvio que o rtulo de erro

    aplicado a toda e qualquer manifestao lingstica (fontica,

    morfolgica e sinttica, principalmente) que se diferencie das regras

    prescritas pela gramtica normativa, que se apresenta como

    codificao da lngua culta, embora na verdade seja a codificao

    de um padro idealizado, que no coincide com a verdadeira

    variedade culta objetiva. Dentro dessa conceituao, so igualmente

    errados os enunciados abaixo

  • (6) A Joana uma menina que ela sabe o que faz (7) *A Joana que ela sabe uma menina o que faz,

    muito embora (6) seja perfeitamente inteligvel, decodificvel,

    interpretvel e, portanto, gramatical, aceitvel, enquanto (7)

    claramente agramatical e, por conseguinte, no ocorre na fala

    normal de nenhum brasileiro. No entanto, (6) considerado to

    errado quanto (7) porque nenhum dos dois enunciados se

    enquadra nas prescries da gramtica normativa (e de seus

    autoproclamados defensores, os comandos paragramaticais). O

    enunciado (6), porm, tem uma sintaxe, uma semntica e uma

    pragmtica que qualquer falante nativo do portugus do Brasil (sem

    preocupaes normativistas) aceita com tranqilidade, e a prova

    disso que enunciados desse tipo so proferidos aos milhes

    diariamente em todos os cantos do pas, por pessoas de todas as

    classes sociais, inclusive as consideradas cultas. ( certo que

    construes [pg. 127] desse tipo no aparecem em textos cultos

    escritos, mas preciso distinguir as variedades cultas faladas das

    variedades cultas escritas, coisa que os prescritivistas em geral no

    fazem.) Trata-se, aqui, de uma regramaticalizao do pronome que,

    de toda uma complexa perda de casos gramaticais, fenmeno que

    vem sendo estudado h bastante tempo, tendo sido j tema de

    muitos ensaios, dissertaes e teses cientficas. Mas a prova

    oferecida pelo uso intenso de construes sintticas como a de (6)

    no convence os defensores da gramtica normativa e os membros

    dos comandos paragramaticais, que no conseguiriam sobreviver

    sem a noo de erro.

    preciso ter sempre em mente que tudo aquilo que

    considerado erro ou desvio pela gramtica tradicional tem uma

  • explicao lgica, cientfica, perfeitamente demonstrvel. S por

    isso que os agentes dos comandos paragramaticais podem falar de

    erros comuns. Os gramticos conservadores no se do conta de

    que o prprio adjetivo comum usado por eles mostra que se trata

    de um fenmeno amplo de variao, de uma transformao que est

    se processando nos mecanismos de funcionamento geral da lngua.

    Em sua cegueira dogmtica, eles falam de vcio comum, erro

    vulgar, praga, corrupo muito difundida, sem perceber que

    esto, na verdade, reconhecendo que aquilo que eles consideram

    certo que deve apresentar algum problema, alguma disfuno,

    alguma impossibilidade de uso que impede que a maioria das

    pessoas obedea quela regra. A nica explicao inaceitvel

    (embora seja a preferida dos conservadores) a de que essas

    pessoas so asnos, ignorantes ou idiotas. [pg. 128]

    A nova postura terica e prtica consiste em procurar conhecer

    as regras que esto levando os falantes da lngua a usar X onde se

    esperaria Y, identificar essas regras, descrev-las, pesquisar

    explicaes cientficas para elas, e, se possvel, apresent-las a seus

    alunos. Foi o que tentei fazer em meu livro A lngua de Eullia, e

    foi tambm o que fiz neste livro ao contestar a explicao paleozica

    de Dad Squarisi para a alta freqncia de Vende-se casas em lugar

    de Vendem-se casas.

    O bom professor age como o filsofo Spinoza, que escreveu:

    Tenho-me esforado por no rir das aes humanas, por no deplor-las nem odi-las, mas por entend-las.

    Pessoas como Napoleo Mendes de Almeida, Luiz Antonio

    Sacconi e Dad Squarisi agem exatamente ao contrrio de Spinoza.

    Sacconi, ao recorrer a um humor de gosto duvidoso, chega mesmo a

  • escrever, preto no branco:Eu, porm, odeio gente que s diz

    asneiras... (p. 43). De um verdadeiro professor devemos sempre

    esperar compaixo, solidariedade, empatia, nunca o dio muito

    menos o riso deplorador.

    5. Ento vale tudo?

    Algumas pessoas me dizem que a eliminao da noo de erro

    dar a entender que, em termos de lngua, vale tudo. No bem

    assim. Na verdade, em termos de lngua, tudo vale alguma coisa,

    mas esse valor vai depender de uma srie de fatores. Falar gria

    vale? Claro que [pg. 129] vale: no lugar certo, no contexto

    adequado, com as pessoas certas. E usar palavro? A mesma coisa.

    Uma das principais tarefas do professor de lngua

    conscientizar seu aluno de que a lngua como um grande guarda-

    roupa, onde possvel encontrar todo tipo de vestimenta. Ningum

    vai s de mai fazer compras num shopping-center, nem vai entrar

    na praia, num dia de sol quente, usando terno de l, chapu de

    feltro e luvas...

    Usar a lngua, tanto na modalidade oral como na escrita,

    encontrar o ponto de equilbrio entre dois eixos: o da

    adequabilidade e o da aceitabilidade.

    Quando falamos (ou escrevemos), tendemos a nos adequar

    situao de uso da lngua em que nos encontramos: se uma

    situao formal, tentaremos usar uma linguagem formal; se uma

    situao descontrada, uma linguagem descontrada, e assim por

    diante. Essa nossa tentativa de adequao se baseia naquilo que

    consideramos ser o grau de aceitabilidade do que estamos dizendo

    por parte de nosso interlocutor ou interlocutores. Podemos

    representar tudo isso graficamente mais ou menos assim:

  • totalmente inadequado, por exemplo, fazer uma palestra

    num congresso cientfico usando gria, expresses [pg. 130]

    marcadamente regionais, palavres etc. A platia dificilmente

    aceitar isso. claro que se o objetivo do palestrante for

    precisamente chocar seus ouvintes, aquela linguagem ser muito

    adequada... No adequado que um agrnomo se dirija a um

    lavrador analfabeto usando uma terminologia altamente tcnica e

    especializada, a menos que queira no se fazer entender. Como

    sempre, tudo vai depender de quem diz o qu, a quem, como,

    quando, onde, por qu e visando que efeito...

    6. A parania ortogrfica

    A atitude tradicional do professor de portugus, ao receber um

    texto produzido por um aluno, procurar imediatamente os erros,

    direcionar toda a sua ateno para a localizao e erradicao do

    que est incorreto. uma preocupao quase exclusiva com a

    forma, pouco importando o que haja ali de contedo. sobretudo

    aquilo que chamo de parania ortogrfica: uma obsesso neurtica

    para que todas as palavras tragam o acento grfico, que todos os

  • tenham sua cedilha, que todos os J e G estejam nos lugares certos...

    e assim por diante. Alis, uma porcentagem enorme do que todo

    mundo chama de erro de portugus diz respeito a meras

    incorrees ortogrficas.

    Ora, saber ortografia no tem nada a ver com saber a lngua.

    So dois tipos diferentes de conhecimento. A ortografia no faz

    parte da gramtica da lngua, isto , das regras de funcionamento

    da lngua. Como vimos no Mito n 6, muitas pessoas nascem,

    crescem, vivem e morrem sem jamais aprender a ler e a escrever,

    sendo, no entanto, conhecedores perfeitos da gramtica de sua

    lngua. [pg. 131]

    A ortografia oficial fruto de um decreto, de um ato

    institucional por parte do governo, e fica muitas vezes sujeita aos

    gostos pessoais ou s interpretaes dos fenmenos lingsticos por

    parte dos fillogos que ajudam a estabelec-la. Por isso, na virada

    do sculo XIX para o XX se escrevia ELLE; na primeira metade do

    sculo XX se escreveu LE e agora, no limiar do sculo XXI, se

    escreve ELE.

    Por isso, a lei nos manda escrever HUMO OU HMUS, mas MIDO

    e UMIDADE, embora sejam todas palavras da mesma famlia (em

    Portugal todas essas palavras tm H).

    Por isso tambm temos de escrever ESTRANHO e ESTRANGEIRO,

    com s, embora sejam palavras formadas com base no prefixo EXTRA-

    , presente em EXTRAORDINRIO, EXTRAVAGANTE, EXTRAPOLAR etc.

    (em espanhol se escreve EXTRNEO e EXTRANJERO).

    Por isso o adjetivo EXTENSO e o substantivo EXTENSO

    apresentam um x, mas o verbo ESTENDER (v l saber por qu!) se

    escreve com um s. E o adjetivo MACIO se escreve com c embora seja

    derivado de MASSA, com SS.

  • Se os legisladores da lngua podem ser to incoerentes no

    momento de definir a ortografia oficial, no h por que estranhar

    (ou extranhar) que as pessoas em geral tambm se confundam. Mas

    no o que pensam Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante, que na

    p. 33 de sua Gramtica, escrevem:

    No admissvel que com um alfabeto to restrito (apenas 23 letras!) se cometam tantos erros ortogrficos pelo Brasil afora. Estude com cuidado este captulo para integrar o grupo de cidados que sabem grafar corretamente as palavras da lngua portuguesa. [pg. 132]

    Essa Gramtica filia-se tradio que atribui ao domnio da

    escrita um elemento de distino social, que na verdade um

    elemento de dominao por parte dos letrados sobre os iletrados.

    Existe um mito ingnuo de que a linguagem humana tem a

    finalidade de comunicar, de transmitir idias mito que as

    modernas correntes da lingstica vm tratando de demolir,

    provando que a linguagem muitas vezes um poderoso instrumento

    de ocultao da verdade, de manipulao do outro, de controle, de

    intimidao, de opresso, de emudecimento. Ao lado dele, tambm

    existe o mito de que a escrita tem o objetivo de difundir as idias.

    No entanto, uma simples investigao histrica mostra que, em

    muitos casos, a escrita funcionou, e ainda funciona, com a

    finalidade oposta: ocultar o saber, reserv-lo a uns poucos para

    garantir o poder queles que a ela tm acesso.

    Como nos informa Leda Tfouni em seu livro Adultos no

    alfabetizados: o avesso do avesso, a escrita na ndia esteve

    profundamente ligada aos textos sagrados, a que s tinham acesso

    os sacerdotes, os iniciados, os que passavam por um longo

    processo de preparao: no fundo, a garantia de que poderiam ler

  • aqueles textos guardando-os em segredo. De fato, a clebre

    gramtica de Panini (sculo V a. C), que esmiua toda a estrutura

    da lngua snscrita clssica, tinha um objetivo especfico: permitir a

    leitura correta e a interpretao exata dos textos sagrados. Era,

    portanto, a filologia a servio da casta sacerdotal. Convm lembrar

    que foi necessria a Reforma protestante, no sculo [pg. 133] XVI,

    para que a Igreja catlica romana permitisse a popularizao da

    Bblia, tolerando que as Escrituras fossem lidas e estudadas em

    outras lnguas vivas e no somente em latim. A primeira traduo

    da Bblia para o portugus, por exemplo, s aconteceu em 1719, por

    obra de um protestante, Joo Ferreira de Almeida.

    Na China, o sistema ideogrfico de escrita exerceu durante

    sculos a funo de assegurar o poder aos burocratas e aos

    religiosos. Realmente, a grande quantidade de ideogramas,

    juntamente com o alto grau de sofisticao de seus desenhos, eram

    obstculos para que as pessoas do povo pudessem aprender a ler e

    escrever. Pesquisadores citados por Tfouni relatam que apesar de os

    chineses conhecerem a escrita alfabtica desde o sculo II d.C, eles

    se recusaram a aceit-la at a poca atual, provavelmente porque

    seu cdigo antigo, mais complexo e pouqussimo prtico, h sculos

    se estabelecera como o meio de expresso de uma vasta produo

    literria, alm de estar inextricavelmente ligado s instituies

    religiosas e de ser aceito como marca distintiva das classes

    educadas (grifos de Tfouni).

    A mesma autora (p. 12) atribui introduo da escrita

    alfabtica na Grcia, no sculo V-VI a.C, todo um processo de

    radicais transformaes culturais, polticas e sociais:

  • O aparecimento, entre outras coisas, do pensamento lgico-emprico e filosfico, a formalizao da Histria e da Lgica enquanto disciplinas intelectuais, e a prpria democracia grega tm ntima relao com a expanso e solidificao da escrita fontica na Grcia e na Jnia. [pg. 134]

    Por qu? Porque, ao contrrio de outras civilizaes suas

    contemporneas, a grega no tem uma casta sacerdotal

    monopolizadora dos livros sagrados. A prpria escrita no um

    segredo dos governantes e escribas, mas de domnio pblico e

    comum, possibilitando, agora sim, a ampla difuso e discusso de

    idias.

    Assim, se por um lado a escrita pode ser apontada como uma

    das causas fundamentais do surgimento de civilizaes modernas e

    do desenvolvimento cientfico, tecnolgico e psicossocial das

    sociedades em que foi adotada, por outro, no convm negligenciar

    fatores como as relaes de poder e dominao que governam a

    utilizao restrita ou generalizada de um cdigo escrito.

    Ao convidar o leitor a fazer parte do grupo de cidados que

    sabem grafar corretamente as palavras da lngua portuguesa,

    Cipro e Infante afirmam, implicitamente, que esse conhecimento

    no amplo e generalizado (nem poderia ser: 60 milhes de

    analfabetos!), mas sim restrito a um grupo de cidados.

    Outra idia ingnua dos autores achar inadmissvel o

    nmero de erros de ortografia cometidos pelo Brasil afora j que

    nosso alfabeto tem apenas 23 letras! Ora, o alfabeto tem 23 letras,

    sim, mas elas podem se juntar em centenas (seno milhares) de

    combinaes diferentes, criando a riqueza inumervel das palavras

    da lngua portuguesa. E essas combinaes possveis nada tm de

    coerentes: nosso sistema ortogrfico, como explica Miriam Lemle, ,

    ao mesmo tempo, um sistema de representao fonmica, um

  • sistema de representao [pg. 135] morfofonmica, um sistema com

    memria etimolgica e um sistema que privilegia uma variedade

    dialetal em detrimento de outra3.

    Para termos uma idia das complexas combinaes possveis

    entre as letras de nosso alfabeto e os sons que elas podem

    representar, vamos ver as relaes que existem entre os fonemas

    [k], [s], [] (este o som da letra x em xixi) e [z] e suas possveis

    representaes ortogrficas4

    [pg. 136]

    3 Ver o interessante prefcio de Miriam Lemle ao livro Leitura, ortografia e fonologia, de Myrian

    Barbosa da Silva. 4 Este quadro inspira-se no da p. 32 do livro de Myrian Barbosa da Silva, com pequenas alteraes.

  • Contando o nmero de flechas, identificamos ao todo 21

    relaes entre realizao fontica e representao grfica. Mas se

    fssemos levar em conta toda as diversidades de pronncia que

    existem no universo da lngua portuguesa, no Brasil e fora dele,

    certamente encontraramos muitas mais5. Vamos dar exemplos s

    das 21 relaes do nosso esquema:

    1. QU [ku]: obliqe 2. QU [kw]: quase 3. QU [k]: quero 4. C [k]: casa 5. C [s]: cu 6. S [s]: sol 7. S []: festa (na pronncia carioca, paraense, lisboeta, entre outras) 8. S [z]: rosa 9. Z [z]: azul 10. Z []: raiz (nas mesmas pronncias citadas em 7) 11. X [s]: prximo 12. X [ks]: fixo [pg. 137] 13. X [z]: exame 14. X []: xcara 15. [s]: ao 16. SS [s]: osso 17. XC [s]: exceto 18. XS [s]: exsudar 19. SC [s]: descer 20. S [s]: cresa

    5 Gosto de propor o seguinte desafio s pessoas que ainda se iludem com o mito de que o certo

    escrever assim porque se fala assim: voc sabia que a letra s pode representar o som do J em j? Depois de alguns momentos de reflexo, dou a resposta: na pronncia do Rio de Janeiro, de Belm ou de Lisboa, numa palavra como MESMO O S tem som de J, e o prprio nome de Lisboa na fala de seus nativos se pronuncia lijboa. Nessas pronncias, uma frase como AS MESMAS BOAS GAROTAS soa aj mejmaj boaj garotax, por causa de caractersticas fonticas tpicas do portugus (culto inclusive) falado nesses locais. Alm disso, na fala no-culta do Rio de Janeiro comum a pronncia mermo ou me'mo para o que se escreve MESMO. A complexidade da relao letra-som, como se v, muito maior do que as pessoas em geral pensam, sobretudo quando se leva em conta todas as variedades nacionais, regionais, sociais, estilsticas etc. da lngua.

  • 21. CH []: chave

    Parece complicado? E ! Diante de uma situao dessas, que

    apenas uma das muitas sries de inter-relaes entre letra e som

    que existem na lngua portuguesa, no nos parece nem um pouco

    inadmissvel a existncia de dvidas e hesitaes por parte dos

    brasileiros, inclusive dos bem alfabetizados, no momento de

    escrever.

    Vamos abandonar, portanto, a idia (preconceituosa) de que

    quem escreve tudo errado um ignorante da lngua. O

    aprendizado da ortografia se faz pelo contato ntimo e freqente

    com textos bem escritos, e no com regras mal elaboradas ou com

    exerccios pouco esclarecedores.

    Ao recebermos um texto escrito por algum (ou ao ouvir algum

    falar), vamos procurar ver, antes de tudo, o que ele/ela est

    querendo comunicar, para s depois nos preocuparmos com os

    detalhes de como ele/ela est se comunicando. Vamos fazer a ns

    mesmos as seguintes perguntas:

    Esse texto (ou esse discurso) coerente? Traz idias originais? [pg. 138] Ofende algum princpio tico? preconceituoso? Reproduz idias autoritrias ou intolerantes? Mostra um esprito crtico e/ou criativo? Demonstra um senso esttico? Comunica que sentimentos? Ensina-me alguma coisa?

    Desperta minhas emoes? Quais? ...

    E assim por diante. Isso que educar: dar voz ao outro,

    reconhecer seu direito palavra, encoraj-lo a manifestar-se... Sem

  • isso, no de admirar que a atividade de redao seja to

    problemtica na escola.

    Eu confesso que sinto muito maior prazer ao ler (ou ouvir) um

    texto cheio de erros de portugus mas com idias originais,

    inovadoras, coerentes, bem expressas , um texto isento de

    preconceitos e de idias ranosas, do que ao ler um texto com todas

    as vrgulas no lugar, com todas as regncias cultas respeitadas,

    todas as concordncias verbais e nominais, mas repleto de intole-

    rncia, de deboche, de sarcasmo, de concepes degradantes e por a

    afora.

    7. Subvertendo o preconceito lingstico

    Por mais que isso nos entristea ou irrite, preciso reconhecer

    que o preconceito lingstico est a, firme e forte. No podemos ter

    a iluso de querer acabar com ele de uma hora para outra, porque

    isso s ser possvel [pg. 139] quando houver uma transformao

    radical do tipo de sociedade em que estamos inseridos, que uma

    sociedade que, para existir, precisa da discriminao de tudo o que

    diferente, da excluso da maioria em benefcio de uma pequena

    minoria, da existncia de mecanismos de controle, dominao e

    marginalizao. Apesar disso, acredito tambm que podemos

    praticar alguns pequenos atos subversivos, uma pequena guerrilha

    contra o preconceito, sobretudo porque ns, professores, somos

    muito importantes como formadores de opinio. E quais so estes

    pequenos atos de sabotagem contra o preconceito?

    Primeiro, formando-nos e informando-nos. No me canso de

    insistir: preciso que cada professor de lngua assuma uma posio

    de cientista e investigador, de produtor de seu prprio conhecimento

  • lingstico terico e prtico, e abandone a velha atitude repetidora e

    reprodutora de uma doutrina gramatical contraditria e incoerente.

    Segundo, fazendo a crtica ativa da nossa prtica diria em

    sala de aula. Por questo de sobrevivncia (s vezes at

    sobrevivncia fsica mesmo!), talvez tenhamos de continuar

    ensinando aquelas coisas que nos so cobradas pela sociedade, pela

    direo das escolas, pelos pais dos nossos alunos. Mas podemos

    ensinar essas coisas criticando-as ao mesmo tempo e deixando bem

    claro que aquilo ali no tudo o que se pode saber a respeito da

    lngua, que h um milho de outras coisas muito mais [pg. 140]

    interessantes e gostosas para descobrir no universo da linguagem.

    Terceiro, diante das cobranas de pais, diretores ou donos de

    escola, mostrar que as cincias todas evoluem, e que a cincia da

    linguagem tambm evolui. Que as mentalidades mudam, que as

    posturas do prprio Ministrio da Educao hoje so outras. No se

    pode negar que os Parmetros Curriculares Nacionais representam

    um grande avano para a renovao do ensino da lngua

    portuguesa. Vamos tentar adquirir, copiar, ter sempre mo esses

    Parmetros para nos defender das pessoas que nos cobram um

    ensino moda antiga: Olha aqui, , o Ministrio da Educao t

    dizendo que a gente deve ensinar de uma maneira diferente, nova,

    atualizada. Ou voc quer que seu filho continue aprendendo coisas

    que no servem mais para nada?.

    H algumas boas comparaes que nos ajudam a argumentar

    melhor. Quando eu estava na escola, o certo em astronomia era que

    somente o planeta Saturno tinha anis. Hoje, graas s inovaes

    tecnolgicas, j sabemos que Urano e Netuno tambm tm anis. A

    cada ano so descobertas dezenas de espcies novas de animais e

    plantas (no mesmo ritmo, infelizmente, das que so extintas para

  • sempre). Recentemente, encontrou-se o fssil de um dinossauro

    carnvoro maior e mais forte que o tiranossauro, considerado

    durante muito tempo o maior predador que jamais existiu. Os

    achados dos arquelogos a todo momento nos fazem rever e

    reformular nossas idias sobre [pg. 141] a histria dos povos

    antigos. Os mapas com as divises polticas da Europa de dez anos

    atrs j no tm nenhuma utilidade prtica hoje em dia, a no ser

    para o pesquisador investigar o que mudou de l para c. Se tantas

    mudanas acontecem nas outras reas do conhecimento,

    decorrentes das transformaes do universo, da natureza e da

    sociedade, sendo acolhidas como naturais e inevitveis, por que s o

    estudo-ensino da lngua estaria isento de crtica e reformulao?

    Quarto, assumir uma nova postura, usando como matria de

    reflexo as seguintes noes, que chamei de DEZ CISES, porque

    representam de fato uma ciso, um corte do cordo umbilical que

    sempre nos prendeu s velhas doutrinas gramaticais (o smbolo de

    infinito no final da lista um convite a quem quiser acrescentar

    outras cises):

    DEZ CISES

    para um ensino de lngua

    no (ou menos) preconceituoso

    1) Conscientizar-se de que todo falante nativo de uma lngua

    um usurio competente dessa lngua, por isso ele SABE essa lngua.

    Entre os 3 e 4 anos de idade, uma criana j domina integralmente

    a gramtica de sua lngua. Sendo assim,

  • 2) aceitar a idia de que no existe erro de portugus. Existem

    diferenas de uso ou alternativas de uso em relao regra nica

    proposta pela gramtica normativa. [pg. 142]

    3) No confundir erro de portugus (que, afinal, no existe) com

    simples erro de ortografia. A ortografia artificial, ao contrrio da

    lngua, que natural. A ortografia uma deciso poltica, imposta

    por decreto, por isso ela pode mudar, e muda, de uma poca para

    outra. Em 1899 as pessoas estudavam psychologia e histria do

    Egypto; em 1999 elas estudam psicologia e histria do Egito.

    Lnguas que no tm escrita nem por isso deixam de ter sua

    gramtica.

    4) Reconhecer que tudo o que a Gramtica Tradicional chama

    de erro na verdade um fenmeno que tem uma explicao

    cientfica perfeitamente demonstrvel. Se milhes de pessoas

    (cultas inclusive) esto optando por um uso que difere da regra

    prescrita nas gramticas normativas porque h alguma regra

    nova sobrepondo-se antiga. Assim, o problema est com a regra

    tradicional, e no com as pessoas, que so falantes nativos e

    perfeitamente competentes de sua lngua. Nada por acaso.

    5) Conscientizar-se de que toda lngua muda e varia. O que

    hoje visto como certo j foi erro no passado. O que hoje

    considerado erro pode vir a ser perfeitamente aceito como certo

    no futuro da lngua. Um exemplo: no portugus medieval existia um

    verbo leixar (que aparece at na Carta de Pero Vaz de Caminha ao

    rei D. Manuel I). Com o tempo, esse verbo foi sendo pronunciado

    deixar, porque [d] e [l] so consoantes aparentadas, o que permitiu

    a troca de uma pela outra. Hoje quem pronunciar leixar vai estar

  • cometendo um erro (vai ser acusado de desleixo), muito embora

    essa forma seja mais prxima da origem [pg. 143] latina, laxare

    (compare-se, por exemplo, o francs laisser e o italiano lasciare). Por

    isso bom evitar classificar algum fenmeno gramatical de erro:

    ele pode ser, na verdade, um indcio do que ser a lngua no futuro.

    6) Dar-se conta de que a lngua portuguesa no vai nem bem,

    nem mal. Ela simplesmente VAI, isto , segue seu rumo, prossegue

    em sua evoluo, em sua transformao, que no pode ser detida (a

    no ser com a eliminao fsica de todos os seus falantes).

    7) Respeitar a variedade lingstica de toda e qualquer pessoa,

    pois isso equivale a respeitar a integridade fsica e espiritual dessa

    pessoa como ser humano, porque

    8) a lngua permeia tudo, ela nos constitui enquanto seres

    humanos Ns somos a lngua que falamos. A lngua que falamos

    molda nosso modo de ver o mundo e nosso modo de ver o mundo

    molda a lngua que falamos. Para os falantes de portugus, por

    exemplo, a diferena entre ser e estar fundamental: eu estou infeliz

    radicalmente diferente, para ns, de eu sou infeliz. Ora, lnguas

    como o ingls, o francs e o alemo tm um nico verbo para

    exprimir as duas coisas. Outras, como o russo, no tm verbo

    nenhum, dizendo algo assim como: Eu - infeliz (o russo, na escrita,

    usa mesmo um travesso onde ns inserimos um verbo de ligao).

    Assim,

    9) uma vez que a lngua est em tudo e tudo est na lngua, o

    professor de portugus professor de TUDO. (Algum j me disse

    que talvez por isso o professor de portugus devesse receber um

  • salrio igual soma dos salrios de todos os outros professores!)

    [pg. 144]

    10) Ensinar bem ensinar para o bem. Ensinar para o bem

    significa respeitar o conhecimento intuitivo do aluno, valorizar o

    que ele j sabe do mundo, da vida, reconhecer na lngua que ele fala

    a sua prpria identidade como ser humano. Ensinar para o bem

    acrescentar e no suprimir, elevar e no rebaixar a auto-estima do

    indivduo. Somente assim, no incio de cada ano letivo este

    indivduo poder comemorar a volta s aulas, em vez de lamentar a

    volta s jaulas!

    [pg. 145]

  • IV

    O preconceito contra a lingstica e os lingistas

    1. Uma religio mais velha que o cristianismo

    O ensino de lngua na escola a nica disciplina em que existe

    uma disputa entre duas perspectivas distintas, dois modos

    diferentes de encarar o fenmeno da linguagem: a doutrina

    gramatical tradicional, surgida no mundo helenstico no sculo III

    a.C, e a lingstica moderna, que se firmou como cincia autnoma

    no final do sculo XIX e incio do XX. Qualquer pessoa bem

    informada acharia no mnimo estranho se um professor de biologia

    ensinasse a seus alunos que as moscas nascem da carne podre, ou

    se um professor de cincias dissesse que a Terra plana e o Sol gira

    em torno dela, ou ainda se um professor de qumica afirmasse que a

    mistura dos quatro elementos (ar, gua, terra e fogo) pode

    resultar em ouro! So idias mais do que ultrapassadas e que

    comearam a ser substitudas por novas concepes mais

    verossmeis a partir do perodo da histria do conhecimento

    ocidental conhecido como o nascimento da cincia moderna (sculo

    XVI em diante). Ningum se espanta, porm, quando um professor

    de lngua ensina que os substantivos [pg. 147] so palavras que

    representam os seres em geral, ou que sujeito o ser do qual se

    diz alguma coisa, ou que verbo a palavra que exprime ao ou

    movimento. So afirmaes to imprecisas e incoerentes (para no

    dizer francamente falsas) quanto a de que as avestruzes enterram a

  • cabea na areia ou que apontar para as estrelas faz nascer verruga

    nos dedos! E no entanto elas continuam sendo estampadas nos

    manuais de gramtica, nos livros didticos, nas apostilas, e

    cobradas em testes, exames e provas de vestibular!

    A doutrina gramatical tradicional, mais velha que a religio

    crist, passou inclume pela grande revoluo cientfica que abalou

    os fundamentos do conhecimento e do pensamento ocidental a

    partir do sculo XVI. Basta examinar o que acontece na escola.

    muito comum o ensino das outras disciplinas fazer uma abordagem

    crtica dos saberes do passado, mostrando de que maneira a

    evoluo da sociedade, da cincia e da tecnologia levou o ser

    humano a abandonar velhas crenas e supersties. Em livros

    didticos de biologia, fsica, qumica, histria, geografia etc.,

    freqente encontrar afirmaes do tipo: Durante muito tempo se

    acreditou que [...], mas os avanos da pesquisa e do conhecimento

    revelaram que [...]. Quem no se lembra de algum professor

    contando a histria de Coprnico, Galileu, Newton, Darwin, Pasteur

    e outros que revolucionaram o conhecimento humano? Isso s no

    acontece nas aulas de lngua! Os termos e conceitos da Gramtica

    Tradicional estabelecidos h mais de 2.300 anos! continuam a

    ser repassados praticamente [pg. 148] intactos de uma gerao de

    alunos para outra, como se desde aquela poca remota no tivesse

    acontecido nada na cincia da linguagem. O ensino tradicional

    opera assim uma imobilizao do tempo, um apagamento das

    condies sociais e histricas que permitiram o surgimento e a

    permanncia da Gramtica Tradicional.

    A Gramtica Tradicional permanece viva e forte porque, ao

    longo da histria, ela deixou de ser apenas uma tentativa de

    explicao filosfica para os fenmenos da linguagem humana e foi

  • transformada em mais um dos muitos elementos de dominao de

    uma parcela da sociedade sobre as demais. Assim como, no curso do

    tempo, tem se falado da Famlia, da Ptria, da Lei, da F etc. como

    entidades sacrossantas, como valores perenes e imutveis, tambm

    a Lngua foi elevada a essa categoria abstrata, devendo, portanto,

    ser preservada em sua pureza, defendida dos ataques dos

    barbarismos, conservada como um patrimnio que no pode

    sofrer runa e corrupo. Nessa concepo nada cientfica, lngua

    no toda e qualquer manifestao oral e/ou escrita de qualquer ser

    humano, de qualquer falante nativo do idioma: a Lngua, com

    artigo definido e inicial maiscula, somente aquele ideal de

    pureza e virtude, falado e escrito, claro, pelos puros e virtuosos

    que esto no topo da pirmide social e que, por isso, merecem

    exercer seu domnio sobre as demais camadas da populao. A

    lngua deixou de ser fato concreto para se transformar em valor

    abstrato.

    Querer cobrar, hoje em dia, a observncia dos mesmos padres

    lingsticos do passado querer preservar, [pg. 149] ao mesmo

    tempo, idias, mentalidades e estruturas sociais do passado. A

    Gramtica Tradicional, funcionando como uma ideologia

    lingstica, foi e ainda , como toda ideologia, o lugar das certezas,

    uma doutrina slida e compacta, com uma nica resposta correta

    para todas as dvidas. Por isso, o que no est abonado na

    gramtica normativa erro ou simplesmente no portugus, e

    se alguma palavra no se encontra no dicionrio porque

    simplesmente ela no existe! A lingstica moderna, ao encarar a

    lngua como um objeto passvel de ser analisado e interpretado

    segundo mtodos e critrios cientficos, devolveu a lngua ao seu

    lugar de fato social, abalando as noes antigas que apresentavam a

  • lngua como um valor ideolgico. Assim, a lingstica, como toda

    cincia, o lugar das surpresas, das descobertas, do novo, da

    substituio de paradigmas, da reformulao crtica das teorias.

    Ora, o novo assusta, o novo subverte as certezas, compromete

    as estruturas de poder e dominao h muito vigentes. No por

    acaso que, mesmo entre profissionais que deveriam ter a lingstica

    como seu corpo terico e prtico de referncia, a doutrina

    gramatical tradicional ainda encontre um apoio e uma defesa quase

    irracionais. o que se v, hoje em dia, na imprensa e na mdia

    brasileira, com os comandos paragramaticais analisados neste livro,

    essa enxurrada de programas de televiso e de rdio, colunas de

    jornal e revista que tentam preservar as noes mais conservadoras

    do certo e do errado, desprezando o saber acumulado por mais

    de um sculo [pg. 150] de cincia lingstica moderna, que tem no

    Brasil centros de pesquisa de excelncia reconhecida

    internacionalmente. Isso para no falar tambm dos grupos de

    pessoas que dizem promover ridculos movimentos de defesa da

    lngua portuguesa, como se fosse necessrio defender a lngua de

    seus prprios falantes nativos, a quem ela pertence de fato e de

    direito. A matria de capa da revista Veja de 7/11/2001 (Falar e

    escrever bem) e a estria de Pasquale Cipro Neto no programa

    Fantstico da Rede Globo no mesmo ano so exemplos perfeitos do

    obscurantismo anticientfico que envolve, nos meios de

    comunicao, tudo o que diz respeito lngua e ao ensino da lngua.

    A participao de Pasquale no Fantstico faz regredir em pelo

    menos 25 anos os grandes avanos j obtidos pela Lingstica na

    renovao do ensino de lngua na escola brasileira.

    O grande problema est na confuso que reina na mentalidade

    das pessoas que atribuem uma crise lngua, quando, de fato, a

  • crise existe na escola, no sistema educacional brasileiro,

    classificado entre os piores do mundo, apesar de nosso pas ser o

    mais rico e industrializado do Hemisfrio Sul, alm de ser a dcima

    economia capitalista do planeta. A lngua no est em crise, muito

    pelo contrrio: nunca em toda a sua histria o portugus foi to

    falado, to escrito, to impresso e to difundido mundo afora pelos

    mais diferentes meios de comunicao. E a participao do Brasil,

    com seus 170 milhes de falantes nativos, de longe a mais

    relevante [pg. 151] e a mais importante. Crise existe, sim, na

    escola pblica brasileira, de todos os nveis, desde o pr-primrio

    at a universidade, sobretudo depois que o duplo governo presidido

    por Fernando Henrique Cardoso passou a empregar todos os

    esforos possveis para demolir, sistematicamente, o j cambaleante

    e sucateado sistema de ensino pblico do Brasil (como tem feito,

    alis, com todo o patrimnio pblico dos brasileiros). essa escola

    arruinada, com professores despreparados e pessimamente

    remunerados, que no oferece aos alunos as mnimas condies de

    letramento necessrias para o pleno exerccio da cidadania. Tentar

    atribuir as deficincias dos brasileiros no uso mais formal da lngua

    aos prprios brasileiros que no tm amor ao idioma ou, pior

    ainda, ao prprio idioma, no querer ver a realidade, lanar a

    culpa sobre quem, de fato, a vtima maior deste processo perverso.

    Desse modo, achar que a lngua est em crise e que para

    superar essa crise necessrio sustentar a doutrina gramatical

    sem submet-la a uma crtica serena e bem-fundada , a meu ver,

    uma atitude que s pode ter duas explicaes: a ignorncia

    cientfica (a pessoa nunca ouviu falar de lingstica) ou a

    desonestidade intelectual (tendo entrado em contato com a cincia

    lingstica, finge que no a conhece) pior ainda quando essa

  • atitude se sustenta num indisfarado e indisfarvel preconceito

    social. No podemos aceitar nenhuma dessas explicaes para

    justificar o trabalho daqueles que se proclamam especialistas em

    questes de linguagem. Que um leigo continue a repetir os mitos

    preconceituosos e as idias [pg. 152] infundadas que circulam na

    sociedade sobre lngua e linguagem algo que podemos

    compreender e explicar com base numa anlise sociolgica e

    histrica. Mas que assim proceda um autoproclamado especialista

    que, ainda por cima, se atribui o papel de julgar e condenar o

    comportamento lingstico de seus semelhantes... algo que no

    podemos aceitar e que devemos, sim, denunciar e combater.

    Pelas mesmas razes que levaram transformao da

    Gramtica Tradicional num instrumento de dominao e excluso

    social que a atividade dos lingistas brasileiros vem sofrendo

    ataques grosseiros por parte de auto-intitulados filsofos que

    representam, na verdade, a reao mais conservadora (e muitas

    vezes com acentos claramente fascistas) contra qualquer tentativa

    de democratizao do saber e da sociedade. a mesma ira que leva

    os fundamentalistas (pseudo)cristos a querer impedir o ensino da

    teoria evolucionista de Darwin em escolas norte-americanas. Assim

    como esses fundamentalistas, para defender seu ponto de vista

    obscurantista, acusam Darwin de afirmar que o homem descende

    do macaco (coisa que ele jamais escreveu em nenhuma de suas

    obras: sua teoria a de que os humanos e os demais primatas

    descendem de um ancestral comum), tambm os atuais detratores

    da cincia lingstica acusam os estudiosos da linguagem de

    defenderem o no-ensino das formas padronizadas do portugus,

    numa tentativa de transformar toda uma argumentao detalhada

  • e sofisticada em duas ou trs afirmaes toscas e propositadamente

    deturpadas. [pg. 153]

    2. Portugus ortodoxo? Que lngua essa?

    fcil mostrar de que modo essa oposio cincia lingstica

    est viva e ativa no Brasil nos dias de hoje. Para comear, vamos

    invocar novamente o espectro daquele que se tornou uma espcie de

    arqutipo folclrico do gramtico autoritrio, conservador e

    intolerante: Napoleo Mendes de Almeida. Tudo o que ele escreveu

    constitui um material suculento e abundante para diversos tipos de

    investigao sobre idias no-cientficas: como j vimos na segunda

    parte deste livro, dos textos de Napoleo gotejam preconceitos

    sociais, raciais, lingsticos entre outros; ao mesmo tempo, pululam

    neles as afirmaes mais estapafrdias possveis sobre lngua,

    gramtica e ensino. Vamos repetir aqui o que ele escreveu no

    Dicionrio de Questes Vernculas, no verbete lingstica:

    Para fixar inteis, pretensiosas e ridculas bizantinices, perde o estudante o tempo que deveria dedicar ao conhecimento efetivo da lngua. [...] Que adorno cultural representa um diploma de lingstica a quem escreve, ou deixa meia dzia de vezes passar num mesmo artigo de jornal, os mais tolos erros de gramtica? [...] Enganam-se os pais, enganam-se os filhos quando pensam estar a escola, a faculdade ensinando gramtica, ensinando a lngua da terra porque no programa consta 'lingstica'. O objeto da lingstica a lngua no sentido da fala, de dom de expressar o homem por palavras o pensamento; um estudo sem utilidade especfica para este ou aquele idioma. [...] a lingstica um dos estorvos do aprendizado da lngua portuguesa em escolas brasileiras. [pg. 154]

    Como j comentei esse texto mais atrs (pp. 80-81), vou apenas

    chamar a ateno para o seguinte fato: Napoleo Mendes de

    Almeida morreu em 1998 (aos 87 anos). Se tivesse escrito esse

  • verbete at 1930, seria mais fcil entender sua postura

    anticientfica, analisando-a dentro do contexto das idias e das

    concepes de lngua e linguagem que vigoravam naquela poca, em

    que a cincia lingstica ainda no tinha se instalado

    definitivamente nos grandes centros de ensino e de pesquisa. Mas,

    em 1998, muita gua j tinha passado debaixo da ponte cientfica,

    os estudos da linguagem j tinham enfrentado diversas revolues

    epistemolgicas, amplamente divulgadas nos meios acadmicos e

    at nas escolas fundamental e mdia. No h nada que possa

    justificar esse conceito to mesquinho e tacanho, essa idia tola de

    que a lingstica s estuda os sons da fala...

    Volto a falar de Napoleo Mendes de Almeida porque sua

    morte mereceu um artigo assinado por Pasquale Cipro Neto na

    Folha de S. Paulo, jornal onde Pasquale consultor de portugus.

    Nesse artigo, depois de falar do estilo rebuscado e barroco de

    Napoleo, Pasquale escreveu o seguinte (27/4/1998):

    Talvez por isso, os lingistas autoproclamados de vanguarda o tm como conservador e consideram intil o estudo de sua obra. Meticuloso, Napoleo era essencialmente gramtico e como tal deve ser encarado. Muita gente o admira e respeita, sobretudo por seu curso de portugus e latim por correspondncia. [pg. 155]

    E conclui o artigo com estas palavras:

    Uma coisa, porm, incontestvel: quem quiser estudar o portugus ortodoxo para prestar concurso pblico, advogar, exercer a magistratura ou carreira diplomtica certamente precisar consultar a obra de Napoleo.

    muito interessante aqui o uso da expresso portugus

    ortodoxo. Como se sabe, a noo de ortodoxia foi inventada

    pouco depois da instituio do cristianismo como religio oficial do

  • imprio romano para definir os dogmas oficiais da Igreja, as

    nicas maneiras certas e admissveis de acreditar em Deus, em

    Cristo, na Virgem Maria, na Santssima Trindade etc. Quem se des-

    viasse desses dogmas era acusado de heresia e condenado s mais

    diversas punies, como o exlio, a priso, a tortura e a morte na

    fogueira. O conceito de ortodoxia se relaciona com uma srie de

    outras noes do mesmo campo semntico: dogma, intolerncia,

    inflexibilidade, pecado, penitncia, castigo, excomunho e outras

    aparentadas. Ao erro do hertico corresponde a infalibilidade do

    ortodoxo. Se possvel falar em portugus ortodoxo porque

    certamente tambm deve existir, na mentalidade de seus

    defensores e em oposio a ele, um portugus hertico, um

    portugus pecador, que merece castigo e excomunho... E ns

    sabemos que precisamente essa mentalidade de perseguio,

    acusao e condenao que est por trs, at hoje, da ao dos

    defensores intransigentes dessa nebulosa ortodoxia gramatical.

    [pg. 156]

    3. Devaneios de idiotas e ociosos

    Mas o que ser, afinal, o portugus ortodoxo de Pasquale

    Cipro Neto? No muito difcil descobrir, basta ler com ateno as

    coisas que ele escreve. Analisando, por exemplo, a fala do poltico

    Francisco Rossi, candidato ao governo de So Paulo em 1998,

    Pasquale escreveu, na mesma Folha de S. Paulo (21/8/1998):

    Referindo-se a Gilson Menezes, Rossi disse que o prefeito de Diadema foi um dos que levantou bandeira. Alguns lingistas perdem seu precioso tempo em devaneios com que tentam explicar por que o falante brasileiro prefere o singular nesses casos. Dizem que essa opo ocorre porque o que se quer colocar em

    evidncia o elemento de que se fala. Balela. Por que no se aceita que se diga Ela

  • uma das moas bonita da sala, ou Ele um dos deputados inscrito para falar? Porque no se quer dizer que ela a nica moa bonita, nem que o deputado o nico inscrito. Das moas bonitas, ela uma. Dos deputados inscritos para falar, ele um. Dos que levantaram bandeira, Gilson um. Ento Gilson foi um dos que levantaram bandeira.

    Temos aqui uma das muitas ocasies em que Pasquale,

    sistematicamente, s menciona os lingistas para lanar sobre eles

    as mais diversas acusaes. Nesse texto, temos a associao de

    lingistas com devaneios e balela. Mas sempre assim. Quem

    consultar, por exemplo, o cd-rom que rene todas as edies do

    jornal Folha de S. Paulo entre os anos de 1994 e 2000, vai ver que

    nas colunas assinadas por Pasquale, a palavra lingista vem

    sempre [pg. 157] acompanhada de alguma nota depreciativa.

    Tambm na revista Cult, onde escreve regularmente, Pasquale j

    chamou os lingistas de deslumbrados.

    Sobre o fato gramatical que ele analisa, detectando erro

    comum na fala de Francisco Rossi, muito instrutivo ler o que o

    fillogo e gramtico Evanildo Bechara afirmou numa entrevista ao

    jornal UERJ em questo (n 72, fevereiro/abril de 2001). Para

    justificar a suposta necessidade de elaborao de uma gramtica

    normativa com a chancela da Academia Brasileira de Letras,

    Bechara declarou:

    Vejamos um exemplo: a expresso um dos que. A lngua permite que voc diga: Carlos um dos alunos que trabalha; ou um dos alunos que trabalham. H professores que consideram mais lgica a concordncia do verbo no plural. Outros acham que a concordncia deve ser no singular. Mas a lngua admite as duas possibilidades. O que no se pode fazer optar por uma forma e considerar a outra errada, como muitas vezes fazem as bancas examinadoras.

  • Evanildo Bechara , sem a menor possibilidade de dvida, o

    mais importante gramtico brasileiro vivo. Apesar de sua inegvel

    competncia como estudioso da lngua, suas posturas polticas e

    pedaggicas no tm nada de revolucionrias, e o simples fato de

    pertencer Academia Brasileira de Letras exemplo de sua filiao

    a um iderio conservador e elitista ele j declarou, por exemplo,

    que a funo da escola levar os alunos a falar melhor e com os

    melhores porque na sua opinio existe uma necessidade da

    vigncia da hierarquizao e da [pg. 158] normatividade,

    esquecendo-se de que a hierarquizao s pode parecer necessria

    para os que ocupam, evidentemente, o topo da hierarquia e se

    consideram, naturalmente, os melhores...1 Ora, Pasquale Cipro

    Neto consegue ser mais conservador e elitista ainda do que

    Bechara. Para o gramtico profissional, a lngua admite as duas

    possibilidades. Para o colunista da Folha, a admisso dessas

    possibilidades representa devaneios e balela. Agora fica mais

    fcil entender o que Pasquale chama de portugus ortodoxo: um

    conceito de lngua certa que mais certa ainda do que a lngua dos

    gramticos profissionais, da prpria Academia Brasileira de Letras.

    Em outra coluna (28/5/1998) ele fala de lingistas defensores

    do vale-tudo, numa absoluta distoro do verdadeiro papel do

    lingista como investigador de todos os fenmenos da lngua, e no

    s como caador de erros e juiz do uso.

    Vejamos um ltimo exemplo dessa concepo obscurantista que

    Pasquale Cipro Neto divulga da lingstica e dos lingistas, e que

    em nada difere da opinio de Napoleo Mendes de Almeida. A nica

    diferena entre os dois que Napoleo nunca escondeu suas

    1 Evanildo Bechara, A sobrevivncia da lngua culta, in Academia Brasileira de Letras na Imprensa

    1999, Rio de Janeiro, ABL, 1999, pp. 63-70.

  • posies retrgradas, tendo-as assumido com toda franqueza e

    nitidez ao longo de sua vida, ao passo que Cipro Neto tenta dar

    verniz moderno sua atividade, posando de progressista. O

    abismo entre seu discurso e sua prtica, no [pg. 159] entanto,

    amplo, largo e fundo. Numa coluna publicada em 20/11/1997,

    comentando a fala de representantes do governo numa entrevista

    na televiso, Pasquale escreveu:

    Quem assistiu entrevista coletiva concedida pela equipe econmica no ltimo dia 10 deve ter tido congesto de de que. Um dos membros da equipe, cujo nome melhor no citar, abusou do direito de usar a bendita expresso: O governo considera de que; No nos parece de que esse caso; Penso de que no ser etc.

    Santo Deus! De onde o homem, graduadssimo, professor, tirou tanto de? Os verbos considerar, pensar e parecer pedem a preposio de? bvio que no. Algum pensa algo, algum considera algo, algo parece a algum. Onde est o de? Perguntem ao homem.

    Nada de de que: No nos parece que, Penso que, O governo considera que.

    E agora, ao ataque:

    Alguns lingistas (alguns), idiotas, diro que a lngua falada no merece reparo, que a fala sempre boa etc. Esses ociosos no conseguem perceber que os homens no estavam na mesa de um boteco, batendo papo. Estavam falando para o pas, sobre um assunto tcnico, usando linguagem teoricamente culta. Quem assiste a esse tipo de transmisso normalmente acredita nessas pessoas, tem-nas como modelo. Adolescentes que vo fazer vestibular ouvem o cidado dizendo de que, de que, de que e acham que isso o mximo. A Fuvest faz uma questo a respeito, como j fez h dois ou trs anos. E muitos, ingenuamente, erram. E alguns idiotas, ociosos, dizem que a fala sempre boa, que isso e aquilo. [pg. 160]

    Esse tipo de afirmao to chocante, reveladora de um

    tamanho desconhecimento, de uma ignorncia to manifesta, que

  • leva mesmo a pensar que Pasquale no acredita no que escreve.

    Que deve haver alguma razo secreta para ele publicar coisas que

    depem to abertamente contra sua prpria inteligncia! Afinal, o

    fenmeno do dequesmo j tem merecido, nos ltimos quinze anos

    pelo menos, a ateno de diversos pesquisadores, j foi tema de

    dissertaes e de teses, de artigos publicados em livros e revistas

    cientficas... (alm disso, tambm ocorre no espanhol culto falado na

    Amrica Latina, no sendo, portanto, inveno de brasileiro

    burro...). Ser que custava tanto assim ele procurar ler, informar-

    se sobre o fenmeno? E quem so afinal esses lingistas idiotas e

    ociosos que dizem que a lngua falada no merece reparo, que a

    fala sempre boa etc.? Pasquale nunca d nome aos bois. Por isso,

    apesar de sempre escrever alguns lingistas, ele nunca diz quem,

    onde e quando. Assim, fica fcil deduzir que esse alguns um

    mero disfarce para seu preconceito contra todos os lingistas.

    4. A quem interessa calar os lingistas?

    Finalmente, vamos ver um caso interessante de preconceito

    contra os lingistas, no por discriminao explcita, como no caso

    de Pasquale Cipro Neto, mas por absoluta desconsiderao, por

    omisso.

    Em seu to debatido projeto de lei (de 1999) sobre a promoo,

    a proteo, a defesa e o uso da lngua portuguesa, [pg. 161] o

    deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP), embora tratando de assuntos

    que dizem respeito ao campo de investigao da lingstica terica e

    aplicada, em nenhum momento faz referncia aos cientistas da

    linguagem, s pessoas que se dedicam profissionalmente ao estudo

    da lngua. Dos pouqussimos autores citados na justificativa do

    projeto, nenhum lingista. Um Machado de Assis por sinal,

  • numa citao que o deputado, parece, no soube ler corretamente,

    porque nela Machado desmente, em poucas linhas, cada uma das

    idias contidas no projeto. Dois outros so jornalistas que

    publicaram, na poca da redao do projeto, artigos em que se

    queixavam do atual estado de crise da lngua.

    E a Academia Brasileira de Letras? Seu esprito elitista,

    conservador e feudal o deputado no critica: muito pelo contrrio,

    Aldo Rebelo escreve que Academia Brasileira de Letras

    continuar cabendo o seu tradicional papel de centro maior de

    cultivo da lngua portuguesa no Brasil e que Academia

    Brasileira de Letras incumbe, por tradio, o papel de guardi dos

    elementos constitutivos da lngua portuguesa usada no Brasil

    afirmaes que no significam rigorosamente coisa nenhuma,

    fazendo a gente at se perguntar se esse projeto de lei mesmo

    para ser levado a srio ou se no passa de uma pea de prosa

    surrealista... A Academia Brasileira de Letras nem de longe pode

    ser chamada de centro maior de cultivo da lngua portuguesa no

    Brasil: afinal, por que atribuir essa qualidade a um reduzido grupo

    de 40 indivduos (dos quais, para piorar, somente um nmero

    nfimo composto de [pg. 162] verdadeiros escritores), quando o

    portugus do Brasil falado (ou seja, de fato cultivado) por mais

    de 170 milhes de pessoas? Alm disso, os elementos constitutivos

    de uma lngua pertencem ao grupo social que fala essa lngua,

    pertencem a seus falantes nativos, e no precisam de guardies...

    alis, novamente, os nmeros voltam a gritar: podem 40 senhores e

    senhoras defender a lngua contra o suposto ataque de seus 170

    milhes de falantes? Somente uma ideologia ultraconservadora,

    colonialista e elitista ao extremo que pode justificar a pretenso

  • de defender o portugus contra os seres humanos que tm ele como

    sua prpria lngua materna!

    O nico autor citado no projeto de Aldo Rebelo que tem alguma

    coisa a ver com o estudo e o ensino da lngua , novamente,

    Napoleo Mendes de Almeida. No entanto, muito divertido ver

    que, no texto, Napoleo apresentado como um dos nossos maiores

    lingistas. Ora, conhecendo a opinio de Napoleo sobre a lings-

    tica, s podemos rir da piada (involuntria?) do deputado. Chamar

    Napoleo de lingista um desrespeito sua memria, uma vez

    que para ele a lingstica era um estorvo e uma coleo de

    bizantinices.

    Fechamos assim mais um crculo preconceituoso que comea

    em Napoleo, com seus ataques contra a lingstica, passa por

    Pasquale Cipro Neto, que elogia Napoleo e segue suas concepes

    obscurantistas sobre a cincia da linguagem, e termina com Aldo

    Rebelo, que novamente recorre a Napoleo para justificar seu

    projeto insustentvel de uma lei impraticvel. [pg. 163]

    muito curiosa a situao desse projeto de lei do deputado

    Aldo Rebelo. A retumbante maioria dos lingistas tem se

    manifestado nas mais diversas ocasies contra o projeto,

    denunciando seus equvocos lingsticos, polticos, histricos,

    sociolgicos etc. A indignao dos lingistas profissionais se

    concretizou at na forma de um livro coletivo Estrangeirismos:

    guerras em torno da lngua (So Paulo, Parbola Editorial, 2001),

    organizado por Carlos Alberto Faraco. Mas ningum d ouvido aos

    lingistas. O projeto continua sua marcha vitoriosa pelo Congresso

    Nacional, e tudo indica que vir a ser aprovado para se tornar mais

    uma lei que ningum vai cumprir, at porque seu cumprimento

    invivel.

  • o caso de perguntar: se um deputado sem formao em

    medicina inventasse um projeto de lei que tivesse relao com a

    prtica cirrgica e se todos os mdicos do pas se manifestassem

    contra o projeto, ser que ele conseguiria ser aprovado? Por que

    toda e qualquer pessoa se acha no direito de dar palpites

    infundados e preconceituosos sobre as questes que dizem respeito

    lngua? Por que os profissionais de outras reas conseguem se

    fazer ouvir, mas os lingistas permanecem no ouvidos? Ser que

    os lingistas, apesar de se dedicarem ao estudo da lngua, no

    falam? Ser que no se do conta de seu papel social e poltico, ou,

    mesmo conscientes desse papel, h outras foras que no nos

    deixam falar? A quem interessa manter calados os estudiosos da

    linguagem? Por que o discurso gramatical tradicional, j to

    amplamente criticado pelos cientistas da linguagem com base em

    teorias [pg. 164] e mtodos consistentes e coerentes, ainda tem

    tanto vigor e obtm tanta defesa? Que ameaa ao tipo de sociedade

    em que vivemos representa a democratizao do saber lingstico, a

    divulgao ampla das descobertas deste campo cientfico, a

    liberao da voz de tantos milhes de pessoas condenadas ao

    silncio por no saber portugus ou por falar tudo errado? A

    quem interessa defender o portugus ortodoxo de uns

    pouqussimos melhores contra a suposta heresia gramatical de

    muitos milhes de outros?

    Espero que a discusso feita neste livro ajude voc a encontrar

    suas prprias respostas para perguntas to inquietantes. [pg. 165]

  • ANEXO

    Carta de Marcos Bagno revista Veja

    Em seu nmero 1725 (novembro de 2001), a revista Veja publicou

    uma extensa reportagem, anunciada na capa, com o ttulo Falar e

    escrever bem, eis a questo. O texto, assinado por Joo Gabriel de

    Lima, deixou a comunidade dos educadores e lingistas estarrecida

    por causa da quantidade de absurdos, distores e acusaes

    grosseiras que continha. Em reao a isso, Marcos Bagno escreveu e

    enviou uma longa carta ao editor da revista, no para ser

    publicada, mas para marcar a posio dos pesquisadores

    comprometidos com o avano da cincia brasileira diante de

    atitudes to assumidamente obscurantistas e retrgradas.

    So Paulo, 4 de novembro de 2001.

    Sr. Editor,

    Em 1990, o lingista e educador britnico Michael Stubbs

    escrevia que toda a rea da lngua na educao est impregnada

    de supersties, mitos e esteretipos, muitos dos quais tm persistido

    por sculos e, s vezes, com distores deliberadas dos fatos

    lingsticos e pedaggicos por parte da mdia. triste constatar

    que essas palavras, publicadas h mais de uma dcada, se [pg. 167]

    aplicam com preciso impressionante ao que ainda ocorre hoje em

    dia no Brasil. Afinal, de que outro modo qualificar a reportagem de

    capa do nmero 1725 de VEJA seno como uma srie de distores

    deliberadas dos fatos lingsticos e pedaggicos por parte da

    mdia?

    O texto assinado pelo Sr. Joo Gabriel de Lima demonstra o

    quanto nossos meios de comunicao de massa se encontram,

  • perdoe-me o lugar-comum, na contramo da Histria quando o

    assunto lngua. H um absoluto despreparo de jornalistas e

    comunicadores para tratar do tema (um exemplo gritante disso veio

    a pblico em outra edio recente de VEJA, a de nmero 1710, com a

    reportagem Todo mundo fala assim).

    Se falo de contramo porque passados mais de cem anos de

    surgimento, crescimento e afirmao da Lingstica moderna como

    cincia autnoma , a mdia continua a dar as costas

    investigao cientfica da linguagem, preferindo consagrar-se

    divulgao e sustentao das supersties, mitos e esteretipos que

    circulam na sociedade ocidental h mais de dois mil anos. Isso

    ainda mais surpreendente quando se verifica que, na abordagem de

    outros campos cientficos, os meios de comunicao se mostram

    muito mais cuidadosos e atenciosos para com os especialistas da

    rea. Quando o assunto lngua, porm, o espao maior

    invariavelmente ocupado por alguns oportunistas que, apoderando-

    se inteligentemente dessas supersties, mitos e esteretipos,

    conseguem transformar esse folclore lingstico em bens de

    consumo que lhes rendem muito lucro financeiro, alm [pg. 168] de

    fama e destaque na mdia. Basta comparar o espao dedicado, no

    ltimo nmero de VEJA, ao Prof. Luiz Antnio Marcuschi

    (reconhecido hoje no Brasil como um dos nomes mais importantes

    da cincia lingstica entre ns) e aos atuais pregadores da tradio

    gramatical que infestam o cotidiano dos brasileiros com suas

    quinquilharias multimiditicas sobre o que certo e errado na

    lngua.

    Seria espantoso ver uma matria de VEJA em que aparecessem

    zologos falando mal da Biologia, ou engenheiros criticando a

    Fsica, ou cirurgies maldizendo da Medicina. No entanto, ningum

    se espanta (e muitos at aplaudem) quando o Sr. Joo Gabriel de

    Lima, fazendo eco aos detratores da Lingstica (como o Sr.

    Pasquale Cipro Neto), fala da existncia de certa corrente

    relativista e escreve absurdos como trata-se de um raciocnio torto,

  • baseado num esquerdismo de meia-pataca, que idealiza tudo o que

    popular inclusive a ignorncia, como se ela fosse atributo, e no

    problema, do povo'. O que esses acadmicos preconizam que os

    ignorantes continuem a s-lo. Seria muito fcil retrucar que

    estamos aqui diante de um direitismo de meia-pataca que acredita

    na existncia de uma ignorncia popular, mas, como cientista,

    prefiro recorrer a outro tipo de argumento, baseado na reflexo

    terica serena e na experincia conjunta de muitas pessoas que h

    anos se dedicam ao estudo e ao ensino da lngua portuguesa no

    Brasil.

    Segundo a reportagem, as crticas que o Sr. Pasquale Cipro

    Neto recebe dessa corrente relativista deixam-no [pg. 169]

    irritado. Ora, o que parece realmente irritar o Sr. Pasquale o

    fato de que, apesar de obter tanto sucesso entre os leigos, nada do

    que ele diz ou escreve levado a srio nos centros de pesquisa

    cientfica sobre a linguagem, sediados nas mais importantes

    universidades do Brasil centros de pesquisa lingstica, diga-se

    de passagem, reconhecidos internacionalmente como entre alguns

    dos melhores do mundo. Muito pelo contrrio, se o nome do Sr.

    Pasquale mencionado nas nossas universidades, sempre como

    exemplo de uma atitude anticientfica dogmtica e at

    obscurantista no que diz respeito lngua e seu ensino (em vrios

    de seus artigos em jornais e revistas ele j chamou os lingistas de

    idiotas,ociosos, defensores do vale-tudo e deslumbrados).

    Se o Sr. Pasquale se irrita com os cientistas da linguagem,

    porque sabe que no tem como responder s crticas que recebe por

    parte dos pesquisadores, dos tericos e dos educadores empenhados

    num conhecimento maior e melhor da realidade lingstica do nosso

    pas. Digo isso com base na experincia de j ter participado de trs

    debates junto com o Sr. Pasquale e ter conhecido sua estratgia de

    nunca responder com argumentos consistentes s crticas a ele

    dirigidas, preferindo sempre retrucar com arrogncia, prepotncia,

    grosserias e ataques pessoais (chamando os lingistas de

  • ortodoxos seja isso l o que for e de bichos-grilos) ou

    fazendo-se de vtima de alguma perseguio (num desses encontros

    ele declarou sentir-se como um boi de piranha). [pg. 170]

    A razo para essa falta de argumentos consistentes muito

    simples: o Sr. Pasquale no tem formao cientfica para tratar dos

    assuntos de que trata. Suas opinies se baseiam exclusivamente na

    arcaica doutrina gramatical normativo-prescritiva, cuja

    inconsistncia terica e cujos problemas epistemolgicos graves vm

    sendo demonstrados e criticados pela Lingstica moderna desde

    pelo menos o final do sculo XIX. As concepes do Sr. Pasquale de

    certo e de errado esto em franca oposio, no s com as teorias

    cientficas mais atuais, mas at mesmo com a postura investigativa

    dos gramticos profissionais de slida formao filolgica (coisa que

    ele definitivamente no ), para no mencionar as diretrizes

    pedaggicas das instncias superiores da Educao nacional. O

    documento do Ministrio da Educao chamado Parmetros

    Curriculares Nacionais, por exemplo, bem explcito em seu

    volume dedicado ao ensino da lngua portuguesa:

    A imagem de uma lngua nica, mais prxima da modalidade escrita da

    linguagem, subjacente s prescries normativas da gramtica escolar, dos manuais e mesmo dos programas de difuso da mdia sobre 'o que se deve e o que no se deve falar e escrever', no se sustenta na anlise emprica dos usos da

    lngua.

    E este mesmo documento enftico ao afirmar que:

    h muitos preconceitos decorrentes do valor social relativo que atribudo aos

    diferentes modos de falar: muito comum se considerarem as variedades

    lingsticas de menor prestgio [pg. 171] como inferiores ou erradas. O problema do preconceito disseminado na sociedade em relao s falas dialetais deve ser

    enfrentado, na escola, como parte do objetivo educacional mais amplo de educao para o respeito diferena. Para isso, e tambm para poder ensinar

    Lngua Portuguesa, a escola precisa livrar-se de alguns mitos: o de que existe uma

  • nica forma 'certa' de falar a que se parece com a escrita e o de que a escrita

    o espelho da fala e, sendo assim, seria preciso 'consertar' a fala do aluno para

    evitar que ele escreva errado. Essas duas crenas produziram uma prtica de

    mutilao cultural que, alm de desvalorizar a forma de falar do aluno, tratando

    sua comunidade como se fosse formada por incapazes, denota desconhecimento de

    que a escrita de uma lngua no corresponde inteiramente a nenhum de seus

    dialetos, por mais prestgio que um deles tenha em um dado momento histrico.

    provvel, no entanto, que o Sr. Pasquale Cipro Neto e o Sr.

    Joo Gabriel de Lima acreditem que os Parmetros Curriculares

    Nacionais sejam obra de membros daquela corrente relativista

    que conseguiram se infiltrar no Ministrio da Educao e se

    apoderar da redao do documento oficial. Vamos, ento, deixar de

    lado as propostas oficiais de ensino e lanar um olhar sobre a

    prpria prtica normativo-prescritiva de pessoas como o Sr.

    Pasquale assim ficar mais fcil descobrir por que ele no

    encontra argumentos para reagir s crticas bem-fundadas dos

    lingistas e educadores srios e por que s consegue fazer sucesso

    entre os leigos e os que se recusam (certamente por motivaes

    ideolgicas) a aceitar uma concepo de lngua mais democrtica.

    [pg. 172]

    Consultando a gramtica que Pasquale Cipro Neto assina em

    parceria com Ulisses Infante (Gramtica da Lngua Portuguesa,

    Editora Scipione, So Paulo, 1998), encontra-se, s pp. 521-522, a

    seguinte explicao para o uso supostamente correto do verbo

    custar:

    Custar, no sentido de ser custoso, ser penoso, ser difcil tem como sujeito uma orao subordinada substantiva reduzida. Observe:

    Ainda me custa aceitar sua ausncia.

    Custou-nos encontrar sua casa.

    Custou-lhe entender a regncia do verbo custar.

  • No Brasil, na linguagem cotidiana, so comuns construes como Zico custou a

    chutar ou Custei para entender o problema [...] Na lngua culta, essas construes em que custar apresenta um sujeito indicativo de pessoa so rejeitadas. Em seu lugar, devem-se utilizar construes em que surja objeto indireto de pessoa: Custou a Zico chutar (= Custou-lhe chutar).

    Quero chamar a ateno, aqui, para a seguinte afirmao dos

    autores: Na lngua culta, essas construes [...] so rejeitadas.

    Aqui est um exemplo claro e ntido de uma concepo abstrata da

    lngua, tratada como uma espcie de entidade viva, de sujeito

    animado, capaz de rejeitar alguma coisa. Ora, que lngua culta

    essa que supostamente rejeita essas construes? Ser a lngua dos

    nossos grandes escritores, que sempre serviu de material para o

    trabalho dos gramticos normativistas? Basta investigar para

    descobrir que no , porque os exemplos de [pg. 173] uso do verbo

    custar com sujeito so mais do que abundantes na nossa melhor

    literatura:

    (1) Seixas custou a conter-se (Jos de Alencar)

    (2) ... as moas custavam a se separar (Clarice Lispector)

    (3) Renato custou a acordar (Carlos Drummond de Andrade)

    (4) Felicidade, custas a vir e, quando vens, no te demoras

    (Ceclia Meireles)

    Ser que Alencar, Clarice Lispector, Drummond e Ceclia

    Meireles no so bons exemplos de usurios da lngua culta? Se

    no na literatura, quem sabe, ento, se recorrermos imprensa

    contempornea? Ser que l que mora a famosa lngua culta que

    rejeita essas construes? Ora, consultando o jornal onde o prprio

    Pasquale Cipro Neto escreve (Folha de S. Paulo) e onde presta

    servios de consultor de portugus (seja isso l o que for),

    encontramos:

  • (5) Quem foi ao show de Maria Bethnia, anteontem noite,

    depois de assistir o sbrio concerto de Joo Gilberto, custou

    a crer que estivesse na mesma cidade (22/6/1998, pp. 5-10).

    (6) O tcnico colombiano, Hernn Daro Gmez, [...] custou a

    admitir a superioridade rival (16/6/ 1998, pp. 4-14).

    (7) O nome Kubitschek era complicado de pronunciar, custou a

    ser assimilado pela fontica eleitoral (21/11/1997, pp. 4-3).

    [pg. 174]

    Se lembrarmos que Jos de Alencar morreu em 1877, fica

    muitssimo claro que essa construo est viva e presente na nossa

    lngua h muito mais de um sculo! Os autores da gramtica esto

    proferindo uma inverdade ao dizer que essa construo tpica do

    Brasil quotidiano. Os Srs. Pasquale e Ulisses, em vez de se curvar

    realidade concreta dos fatos, tentam nos convencer de que a opo

    que eles preferem, s porque a tradicional, que deve ser

    considerada a melhor. uma atitude essencialmente dogmtica,

    que se recusa a empreender a pesquisa emprica mnima necessria

    para afirmaes sobre o que existe e o que no existe na lngua.

    Alm disso, essa atitude ainda mais conservadora do que a

    posio assumida por gramticos de geraes anteriores deles,

    como Celso Pedro Luft e Domingos Paschoal Cegalla, que

    reconhecem a vitria da construo eu custo a crer que...

    Esse apenas um pequeno exemplo de como fcil, para um

    pesquisador munido de instrumental terico consistente e de

    metodologia cientfica adequada, desautorizar uma a uma, e de

    modo convincente, as afirmaes presentes no trabalho do Sr.

    Pasquale Cipro Neto e de outros atuais defensores da doutrina

    gramatical tradicional mais normativa e mais prescritiva possvel.

    Por causa de tudo isso que a estria do Sr. Pasquale no programa

    Fantstico da Rede Globo representa, para a grande maioria dos

    cientistas da linguagem e dos educadores conscientes, mais um

    exemplo de como o nosso trabalho ainda est no comeo, apesar de

  • tudo o que j temos dito e feito. O quadro do Sr. Pasquale no

    Fantstico faz regredir [pg. 175] em pelo menos 25 anos os grandes

    avanos j obtidos pela Lingstica na renovao do ensino de

    lngua na escola brasileira. No consigo, portanto, deixar de repetir

    o chavo: ele se encontra na contramo da Histria.

    Como j enfatizei acima, pessoas como o Sr. Pasquale s

    conseguem fazer sucesso entre os leigos, porque dizem exatamente o

    que as pessoas desejam ouvir: os mitos, as supersties e as crenas

    infundadas que, h mais de dois mil anos, guiam o senso comum

    ocidental no que diz respeito lngua. Refiro-me ao senso comum

    ocidental porque essa situao de embate entre uma cincia

    lingstica moderna e uma doutrina gramatical arcaica tambm se

    verifica em outros pases basta ler os livros Language Myths,

    publicado na Inglaterra sob organizao de L. Bauer e P. Trudgill, e

    o Catalogue des ides reues sur le langage, publicado na Frana por

    Marina Yaguello. por isso que escrevi, acima, que nossa luta

    ainda est no comeo. uma pena que no possamos contar com a

    ajuda dos meios de comunicao para dissipar todos esses mitos e

    preconceitos, que impedem a formao, no Brasil em particular, de

    uma auto-estima lingstica, uma vez que tudo o que os brasileiros

    ouvem e lem so os mesmos chaves, repetidos h sculos, de que

    brasileiro no sabe portugus e que a lngua que falamos

    portugus estropiado. (O pesquisador canadense Christophe

    Hopper localizou lamrias e queixas sobre a runa e a

    decadncia do francs em textos publicados em 1933, 1905, 1730 e

    1689, o que prova a [pg. 176] antiguidade desse discurso alarmista

    e preconceituoso sobre o fenmeno da mudana das lnguas ao longo

    do tempo!)

    Outro fato lamentvel, na reportagem de VEJA, que seu autor

    no tenha prestado o grande favor sociedade de identificar quem

    so os membros dessa certa corrente relativista, para que todos,

    pblico leitor em geral e lingistas profissionais em particular,

    pudssemos nos precaver contra o suposto raciocnio torto de um

  • esquerdismo de meia-pataca dos que acreditam que ensinar a

    norma-padro no seria til para as classes sociais desfavorecidas.

    Minha curiosidade ficou especialmente aguada porque, como

    pesquisador dedicado h muitos anos ao estudo das relaes entre

    lngua, ensino de lngua e fenmenos sociais, at hoje no encontrei

    uma nica obra assinada por lingista de formao ou por

    educador profissional que negasse a importncia do ensino da

    norma-padro na escola brasileira, que pregasse a idia torpe de

    que no se deve ensinar as formas prestigiosas da lngua, ou que

    preconizam que os ignorantes continuem a s-lo, para citar as

    palavras infelizes da reportagem de VEJA.

    Entre os membros da comunidade acadmico-cientfica que no

    se intimidam diante da presso esmagadora das supersties,

    mitos e esteretipos sobre a lngua podemos citar a Profa. Magda

    Soares (reconhecida como uma das mais importantes educadoras

    brasileiras de todos os tempos) e o Prof. Srio Possenti (que nunca

    teve papas na lngua para denunciar e demolir cientificamente os

    absurdos proferidos por gente como Pasquale Cipro [pg. 177] Neto).

    Ora, j em 1986, Magda Soares, em seu livro (um clssico da

    educao brasileira) Linguagem e Escola (Editora tica), escrevia,

    sem hesitao (p. 78):

    Um ensino de lngua materna comprometido com a luta contra as desigualdades

    sociais e econmicas reconhece, no quadro dessas relaes entre a escola e a

    sociedade, o direito que tm as camadas populares de apropriar-se do dialeto de

    prestgio, e fixa-se como objetivo levar os alunos pertencentes a essas camadas a domin-lo, no para que se adaptem s exigncias de uma sociedade que divide e

    discrimina, mas para que adquiram um instrumento fundamental para a parti-

    cipao poltica e a luta contra as desigualdades sociais.

    Tambm em seu muito divulgado livro Por que (no) ensinar

    gramtica na escola (Ed. Mercado de Letras, 1996), Srio Possenti

    faz questo de enfatizar (pp. 17-18):

  • O PAPEL DA ESCOLA ENSINAR LNGUA PADRO

    [...] adoto sem qualquer dvida o princpio (quase evidente) de que o objetivo da escola ensinar o portugus padro, ou, talvez mais exatamente, o de criar

    condies para que ele seja aprendido. Qualquer outra hiptese um equvoco poltico e ideolgico.

    E eu mesmo, que no tenho hesitado em combater abertamente

    a manuteno das concepes arcaicas e preconceituosas de lngua,

    escrevi em meu mais recente livro publicado (Portugus ou

    Brasileiro? Um convite pesquisa, Parbola Editorial, 2001):

    [...] como responder a pergunta (invariavelmente presente na fala dos professores de lngua): qual o objeto de ensino nas [pg. 178] aulas de portugus? O que devemos ensinar a nossos alunos em sala de aula?

    Uma resposta concisa e rpida seria: devemos ensinar a norma-padro. J que s

    se pode ensinar algo que o aprendiz ainda no conhece, cabe escola ensinar a

    norma-padro, que no lngua materna de ningum, que nem sequer lngua,

    nem dialeto, nem variedade, como enfatizei acima. Ensinar o padro se justificaria pelo fato dele ter valores que no podem ser negados em sua estreita associao

    com a escrita, ele o repositrio dos conhecimentos acumulados ao longo da

    histria. Esses conhecimentos, assim armazenados, constituiriam a cultura mais

    valorizada e prestigiada, de que todos os falantes devem se apoderar para se

    integrar de pleno direito na produo/conduo/transformao da sociedade de que

    fazem parte.

    Tenho, portanto, a conscincia muito tranqila (como decerto

    tambm a tm Magda Soares, Srio Possenti e, de fato, a maioria

    dos lingistas e educadores brasileiros comprometidos com a

    democratizao de nossa sociedade) de no fazer parte daquela

    corrente relativista e de no poder ser acusado de ter um

    raciocnio torto. Por isso, volto a lamentar que o Sr. Joo Gabriel

    de Lima no tenha dado nome aos bois, para que, juntos,

    pudssemos combater esse suposto esquerdismo de meia-pataca.

    No nomear seus adversrios no plano intelectual, no entanto,

  • prtica corrente de pessoas como Pasquale Cipro Neto que, embora

    alegando referir-se a alguns lingistas, nunca se d ao trabalho de

    dizer quem so os idiotas, ociosos e deslumbrados a que se

    refere. [pg. 179]

    A grande diferena entre os lingistas e educadores que

    defendem o ensino da norma-padro e os apregoa-dores da doutrina

    gramatical arcaica est no fato de que j se sabe hoje em dia que,

    para aprender as formas mais padronizadas e prestigiosas da

    lngua, no necessrio conhecer a nomenclatura gramatical

    tradicional, as definies tradicionais, nem praticar a velha e

    mecnica anlise lexical e muito menos a torturante anlise

    sinttica. Em seu depoimento a VEJA, O Sr. Pasquale Cipro Neto

    lamenta que ningum mais saiba diferenciar sujeito de

    predicado, nem mesmo os professores. Ora, todo um longo

    trabalho de investigao terica e de pesquisa em sala de aula no

    Brasil e no resto do mundo , trabalho que se faz h pelo menos

    trinta anos, j deixou muito claro que no decorando as pginas

    da gramtica normativa que uma pessoa ser capaz de falar, ler e

    escrever adequadamente s diversas situaes. O j citado M.

    Stubbs escrevia, em 1987, que

    Muita gente lamenta o fim do ensino da gramtica formal (anlise sinttica e coisas assim), alegando que ele ajudava as crianas a escrever melhor, com mais preciso e assim por diante. [...] duvidoso que aquele ensino jamais tenha ajudado muita gente a escrever melhor, e ntido que ele afugentou um grande nmero de pessoas. A relao entre anlise e compreenso, e entre compreenso

    consciente e produo de linguagem efetiva, difcil de demonstrar.

    E o pedagogo canadense Gilles Gagn, em 1983, j dizia:

    O uso da lngua procede da inteno para a conveno [...] ao passo que a escola procede infelizmente ao contrrio, isto [pg. 180] , das convenes lingsticas para as intenes de comunicao; intenes, alm disso, quase sempre artificiais

    e impostas ou sugeridas pelo mestre.

  • E aquele que considerado hoje, inclusive internacionalmente,

    como o nome mais importante da pesquisa cientfica sobre o

    portugus brasileiro contemporneo o Prof. Ataliba T. de

    Castilho, da USP, atual presidente da Associao de Lingstica e

    Filologia da Amrica Latina e coordenador do grande Projeto da

    Gramtica do Portugus Falado (projeto apresentado de maneira

    distorcida e preconceituosa no nmero 1710 de VEJA) escreve

    com toda clareza em seu livro A lngua falada e o ensino de

    portugus (Ed. Contexto, 1998):

    [...] os recortes lingsticos devem ilustrar as variedades socioculturais da Lngua Portuguesa, sem discriminaes contra a fala verncula do aluno, isto , de sua

    fala familiar. A escola o primeiro contato do cidado com o Estado, e seria bom

    que ela no se assemelhasse a um bicho estranho, a um lugar onde se cuida de

    coisas fora da realidade cotidiana. Com o tempo o aluno entender que para cada

    situao se requer uma variedade lingstica, e ser assim iniciado no padro

    culto, caso j no o tenha trazido de casa.

    Desse modo, prossegue o autor,

    a gramtica deixar de ser vista pelos alunos como a disciplina do certo e do

    errado, reassumindo sua verdadeira dimenso, que a de esquadrinhar atravs dos

    materiais lingsticos o funcionamento da mente humana. [pg. 181]

    Afinal, o que aconteceu, ao longo dos sculos, segundo Castilho,

    foi que

    a gramtica, que no era uma disciplina autnoma, assumiu na escola uma vida

    prpria, desgarrada de suas origens, e concentrada apenas na sentena, na palavra

    e no som, obscurecendo-se sua argumentao e empobrecendo-se seu alcance.

    Se existe, porm, uma grande resistncia contra o

    redimensionamento do lugar do ensino da gramtica na escola

    porque todos sabemos que, ao longo do tempo, o conhecimento

    mecnico da doutrina gramatical se transformou num instrumento

  • de discriminao e de excluso social. Saber portugus, na

    verdade, sempre significou saber gramtica, isto , ser capaz de

    identificar por meio de uma terminologia falha e incoerente o

    sujeito e o predicado de uma frase, pouco importando o que essa

    frase queria dizer, os efeitos de sentido que podia provocar etc.

    Transformada num saber esotrico, reservado a uns poucos

    iluminados, a gramtica passou a ser reverenciada como algo

    misterioso e inacessvel da surgiu a necessidade de mestres e

    guias, capazes de levar o ignorante a atravessar o abismo que

    separa os que sabem dos que no sabem portugus...

    Em concluso, Sr. Editor, gostaria de lhe pedir que, uma vez

    que to amplo espao foi concedido aos defensores da idia medieval

    de que os brasileiros no sabem falar bem, caberia agora a VEJA

    conceder igual espao aos verdadeiros especialistas, s pessoas que

    dedicam toda sua energia, toda sua inteligncia, toda sua vida,

    enfim, ao [pg. 182] estudo dos fenmenos da linguagem humana e

    proposio de novos mtodos de ensino, capazes de dar voz aos que,

    por fora de tantas estruturas sociais injustas, sempre foram

    mantidos no silncio. Talvez assim VEJA possa se livrar do risco de

    ser acusada de promover distores deliberadas dos fatos

    lingsticos e pedaggicos.

    Atenciosamente,

    MARCOS BAGNO

    [pg. 183]

  • Referncias

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