Audiodescrio como tecnologia de acessibilidade para histrias em quadrinhos hipermiditicas

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    12-Dec-2015

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Este artigo explicita o processo de produo da audiodescrio de histria em quadrinhos hipermdia criada como objeto de aprendizagem. As diretrizes gerais da audiodescrio buscam a neutralidade, evitando a interferncia na leitura da imagem. Entretanto, essas normas no contemplam a estruturao de quadrinhos hipermiditicos, tornando-se campo aberto de pesquisa.

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AUDIODESCRIO COMO TECNOLOGIA DE ACESSIBILIDADE PARA HISTRIAS EM QUADRINHOS HIPERMIDITICAS AUDIODESCRIPTION AS ACCESSIBILITYS TECHNOLOGY FOR COMICS HYPERMEDIA Raul Incio Busarello1, Elton Vergara Nunes2, Vania Ribas Ulbricht3, Tarcsio Vanzin4 (1) Mestre, Universidade Federal de Santa Catarina e-mail: raulbusarello@gmail.com (2) Mestre, Universidade Federal de Santa Catarina/Universidade Federal de Pelotas e-mail: vergaranunes@gmail.com (3) Doutora, Universidade Federal de Santa Catarina e-mail: vrulbricht@gmail.com (4) Doutor, Universidade Federal de Santa Catarina e-mail: tvanzin@gmail.com Histrias em quadrinhos, audiodescrio, aprendizagem Este artigo explicita o processo de produo da audiodescrio de histria em quadrinhos hipermdia criada como objeto de aprendizagem. As diretrizes gerais da audiodescrio buscam a neutralidade, evitando a interferncia na leitura da imagem. Entretanto, essas normas no contemplam a estruturao de quadrinhos hipermiditicos, tornando-se campo aberto de pesquisa. Comics, audio description, learning In this paper, we explain the audio descriptions production process for comics created as hypermedia learning object. The audio descriptions general guidelines indicate to neutrality. It avoids interference in the image's reading. However, these guidelines don't cover the comics hypermedia's structure becoming it an open field of research. 1. Introduo Os princpios da acessibilidade esto fundamentados em garantir a cidadania a toda a populao, independentemente das caractersticas sensoriais, motoras ou psquicas de cada indivduo. Enfatiza-se o direito de acesso aos cidados aos mesmos lugares, objetos e contedos (BRASIL, 2010a). Ulbricht e Villarouco (2011, p. 43) consideram que investir em ferramentas para a educao inclusiva um avano na independncia das pessoas com deficincia, contribuindo ainda para melhoria da autoestima e crescimento da capacidade intelectual da populao beneficiada. Com base nesse conceito, entende-se que a criao e o desenvolvimento de objetos de aprendizagem devem ter foco em um pblico amplo, por isso exigem adaptaes na linguagem e tecnologias que facilitem o acesso de pessoas com ou sem algum tipo de deficincia (VERGARA-NUNES et al., 2011). Nesse aspecto, a pesquisa sobre a utilizao ou criao de mdias que facilitem a aprendizagem, sob a tica da acessibilidade, torna-se essencial para o fortalecimento de uma educao plena. Busarello (2011) prope a utilizao de histrias em quadrinhos, em ambiente hipermdia, como forma alternativa na aprendizagem do indivduo surdo. Dentro de sua pesquisa, vem buscando evidncias sobre a utilizao dessa mdia como recurso alternativo no processo de aprendizagem deste pblico. Conforme Gerde e Foster (2008), as histrias em quadrinhos constituem narrativas modernas e eficazes como meio de aprendizagem de temas sociais complexos. No processo de aprendizagem, os quadrinhos podem ser utilizados como mediadores para que os alunos tratem de assuntos com carga emocional elevada, como preconceito e discriminao, por exemplo. Alm disso, possibilitam que alunos possam explorar universos alternativos, estimulando a discusso de temas e termos tericos, alm do incentivo ao pensamento crtico (GERDE, FOSTER, 2008; TUNCEL, AYVA, 2010). Para Gordon (2006), as histrias em quadrinhos so mdias narrativas que exploram experincias humanas. Nesse aspecto, o autor entende que essas experincias so elementos fudamentais para que o indivduo possa construir sua memria, comunicao e o prprio conhecimento. Alm disso, Tatalovic (2009) considera que as histrias em quadrinhos so narrativas envolventes, que podem ser utilizadas como suporte para abordar conceitos de aprendizagem. Segundo Short e Reeves (2009), a utilizao de histrias em quadrinhos contribui para que os alunos possam perceber que questes universais esto presentes em contextos diversos. Gerde e Foster (2008) entendem que um dos benefcios da linguagem dos quadrinhos que vrias informaes podem ser vistas ao mesmo tempo, independentemente de sua sequencialidade. Isso porque o leitor pode desenvolver o contedo da mdia de forma nica, atravs de sua imposio e ritmo de leitura. Essas caractersticas atribuem certa independncia ao aluno durante a aprendizagem. Mcluhan (1964) entende que, como as histrias em quadrinhos exigem maior interao com o leitor, em virtude de sua estrutura narrativa, tambm constituem uma mdia com maior proximidade emocional com o leitor (HUGHES, KING, 2010), colaborando para o processo de ensino aprendizagem. Entretanto, as histrias em quadrinhos so mdias prioritariamente visuais (MOYA, 1977; CIRNE, 2000), por isso, sua utilizao por Busarello (2011) como alternativa para o aluno surdo. Para que seja uma mdia acessvel, os quadrinhos devem tambm contemplar pessoas com deficincia visual. Quevedo (2011) entende que desenvolvedores devem estar cientes das dificuldades sensoriais dos indivduos cegos, e por isso precisam focar em projetos que facilitem a incluso deste pblico. Da mesma forma, o contedo deve ser tratado de maneira a facilitar a recepo do indivduo cego. Dentro desta tica, entende-se a necessidade da aplicao e desenvolvimento de tecnologias assistivas que possibilitem o acesso a contedos visuais. Com base em Bersch (2010), as tecnologias assistivas permitem que pessoas com deficincia possam executar suas tarefas com autonomia, proporcionando independncia, incluso social, mobilidade e habilidade de aprendizado. Uma das tecnologias assistivas que permitem a leitura de imagens, tanto estticas como dinmicas, para pessoas cegas ou com deficincia visual a audiodescrio. De acordo com a portaria 188/2010 do Ministrio das Comunicaes, audiodescrio definida como a narrao, em lngua portuguesa, integrada ao som original da obra audiovisual, contendo descries de sons e elementos visuais e quaisquer informaes adicionais que sejam relevantes para possibilitar a melhor compreenso desta por pessoas com deficincia visual e intelectual (BRASIL, 2010b). Vergara-Nunes e Busarello (2011) apresentaram a aplicao da audiodescrio como recurso assistivo para que pessoas cegas tenham acesso a histrias em quadrinhos. Dessa forma, evidencia-se a necessidade de pesquisa a respeito da utilizao de histrias em quadrinhos para aprendizagem tambm do indivduo cego, tendo como base as vantagens da utilizao dessa mdia. Nesse sentido, o objetivo deste artigo explicitar o processo de produo da audiodescrio de parte dos quadros que compem a histria em quadrinhos criada por Busarello (2011), como objeto de aprendizagem. Esse objeto, inicialmente criado com foco na acessibilidade para indivduos surdos e no surdos, apresenta-se como potencial ferramenta de aprendizagem para outros pblicos, tendo em vista as caractersticas dessa mdia no processo educacional. Neste artigo, no se apresenta a testagem do experimento, apenas o processo de audiodescrio dos quadrinhos citados. 2. Audiodescrio como recurso assistivo A audiodescrio um recurso assistivo que traduz mensagens visuais em palavras, contribuindo para o acesso de pessoas cegas ou com deficincia visual s imagens estticas ou dinmicas. Entende-se este recurso assistivo como fator de incluso do pblico desprovido do sentido da viso a contedos audiovisuais. Para Alves (2012), sua funo a transposio de um signo visual para um verbal, classificando-se assim como uma traduo intersemitica. Motta e Romeu Filho (2010) consideram a audiodescrio como uma atividade de mediao lingustica, que contribui para o acesso de uma parcela da populao cultura e informao. Dessa forma, contribui para a incluso tanto social, quanto cultural e educacional. Este recurso tem uma abrangncia maior do que pessoas com deficincia visual, pois pode ser utilizado tambm para que pessoas com deficincia intelectual, idosos e dislxicos tenham acesso s mdias visuais (NAVARRO, LPEZ, 2010; MELO, LIMA, 2010). Vergara-Nunes e Busarello (2011) defendem a mxima da audiodescrio que a descrio fiel de uma determinada imagem, tendo como princpio descrever aquilo que se v. Alm disso, percebem que o acesso a mdias prioritariamente visuais, como as histrias em quadrinhos, ainda no so exploradas de forma acessvel. Entretanto, entendem que uma tecnologia que possibilita a incluso de pessoas com deficincia visual, contribuindo para sua cidadania. De acordo com Piety (2010), a audiodescrio surgiu como forma sistemtica em 1975, em um trabalho de ps-graduao, na Universidade de San Francisco, Estados Unidos. No Brasil, a tecnologia comeou a ser implantada nas redes de televiso em de 01 de julho de 2011, inicialmente com 2 horas semanais de programao no primeiro ano, chegando a 20 horas semanais no prazo de dez anos (BRASIL, 2010b). Do ponto de vista comercial, a audiodescrio tem ganhado espao em DVDs desde 2005, como por exemplo, a obra Irmos de F, do Padre Marcelo Rossi, e o documentrio intitulado Yuka no caminho das setas, sobre a vida de Marcelo Yuka do Grupo Rappa, lanado em junho de 2013 com audiodescrio e legendas (VIDA MAIS LIVRE, 2013). Como requisitos de descrio de uma imagem para a audiodescrio, recomenda-se (BRASIL, 2012): identificar e localizar o sujeito, objeto ou cena que devem ser descritos; utilizar adjetivos para qualificar o sujeito, objeto ou cena; utilizar verbo para descrever a ao; utilizar advrbios para descrever o contexto e referenciar o tempo da ao; identificar os enquadramentos das imagens; aps cada imagem, acrescentar fonte, legenda e descrio; garantir a fidelidade entre imagem e texto; utilizar termos adequados s reas de conhecimento; evitar deixar elementos descontextualizados; mencionar cores e demais detalhes; utilizar artigos indefinidos quando a primeira vez que um elemento ou pessoa aparece, em contrapartida, utilizar artigos definidos quando j so conhecidos; adotar sempre o presente como tempo verbal; identificar a fonte, autor e mdia (como histria em quadrinhos); no caso de histrias em quadrinhos, considerar a linguagem por faixa etria; descrever elementos de cena e tipografia, assim como formatos de balo; apontar nmero de quadros presentes e a mudana de uma para outro, marcando-os com Q e o nmero correspondente; anunciar fala dos personagens por meio de verbos como: dizer, responder e assim por diante; discriminar as paisagens, contexto onde ocorre a ao. De acordo com Campos (2010), na audiodescrio de histrias em quadrinhos, preciso que os personagens principais sejam apresentados ao pblico, alm de informaes sobre autoria e edio da obra. Alm disso, preciso que o leitor conhea alguns elementos para a navegao na histria, como: a letra Q seguida de um nmero identifica um quadro, onde descrito o ambiente e os personagens presentes na cena; a letra N identifica o narrador da histria; onomatopeias precedidas de um asterisco devem estar em letra maiscula; o nome do locutor (que l as audiodescries) deve ser indicado com o ttulo da histria. Schwartz (2010) considera que, para se alcanar o objetivo da audiodescrio, preciso que se assuma o audiodescritor locutor como o narrador da obra. Dessa forma, um narrador no deve interferir na ao, na sequncia e na interpretao dos fatos, mas deve ser sutil e fazer parte do universo audiodescrito. 3. A construo do objeto de aprendizagem As histrias em quadrinhos so mdias que, alm de entreter, apresentam-se como um meio de motivao dos leitores. Para Gerde e Foster (2008), os quadrinhos promovem tanto um apelo racional como emocional com o pblico, isso devido utilizao da imagem e do texto para formar uma nica mensagem. Eisner (2008) identifica que o leitor de quadrinhos absorve os significados dessa mdia atravs a arte contida na mesma. Nesse sentido, tanto o estilo da arte, como o contexto em que essa histria em quadrinhos ser lida faro parte do entendimento de seus significados. Partindo deste conceito, identificou-se que, para o quadrinho proposto por Busarello (2011), a escolha pelo estilo da arte e histria tem como referncia trabalhos de quadrinhistas brasileiros, com nfase em um fluxo narrativo leve e um tom de humor sutil (PATATI, BRAGA, 2006; VERGUEIRO, BARI, 2002; VERGUEIRO, 2007). Isso ocorre tendo em vista o foco de aprendizagem em adolescentes com idade acima dos 15 anos e adultos, de ambos os sexos. Definiu-se tambm que esta histria em quadrinhos um objeto de aprendizagem, por isto deve cumprir dois requisitos fundamentais: aprendizagem e reutilizao (MACEDO, 2010, p. 82). Significa que esse objeto deve ter a capacidade de ser reaproveitvel por desenvolvedores distintos e contextos instrucionais variados. Objetos de aprendizagem devem possuir trs partes: o objetivo explcito da aprendizagem, o contedo propriamente dito, necessrio para atingir os objetivos, e a prtica ou avaliao de conhecimentos. (MACEDO, 2010, p. 88). Alm disso, esse objeto deve permitir maior interatividade com o aluno, permitindo maior reflexo e culminando na formao de novos conceitos por parte do indivduo. Para Busarello (2011), cada quadro isolado da histria pode ser utilizado por professores no processo de aprendizagem, entretanto isso no forma uma histria em quadrinhos. Para isso, preciso um agrupamento significativo de quadros que formam uma narrativa sequencial lgica (MOYA, 1977; CIRNE, 2000). Identifica-se, desta maneira, que esses conjuntos mnimos de quadros, agrupados de forma lgica, formam a histria em quadrinhos proposta em sua totalidade (BUSARELLO, 2011). Por ser uma histria em quadrinhos que tem como base a utilizao de narrativas em ambientes hipermdia, sua estruturao segue a proposta de Vergara-Nunes et al. (2011), onde a no linearidade est limitada a uma nica entrada e sada do objeto de aprendizagem. Entretanto, dentro do objeto, o aluno/usurio encontra uma srie de links e caminhos possveis na histria. Alm disso, a sada est atrelada a uma avaliao da aprendizagem positiva do indivduo. Para a construo da narrativa, foi utilizado como base o paradigma de Field (2001), que salienta que um roteiro formado por uma variedade de peas individuais que, relacionadas entre si, formam uma unidade, constituda de comeo, meio de fim. Estes trs elementos tambm so formados por peas isoladas. Dessa forma, Busarello (2011) entende que, na concepo da histria, possvel estruturar a mesma de maneira que possa ser lida de forma no linear, desde que respeite certa coerncia no propsito da narrativa. Nessa mesma linha, Braga et al. (2006) identificam que uma narrativa hipertextual pode ser estruturada tanto de forma linear como no linear, isso depende da maneira como o narrador/roteirista trabalhar os elementos da linguagem. Alm disso, para McCloud (2006), uma srie de quadrinhos embutidos em outros cria uma sensao de aprofundamento da histria, por isto, links podem ser um recurso que auxilia o leitor a conhecer aspectos que complementam uma narrativa principal. Murray (2003) identifica que a utilizao de links corrobora para maior interao do aluno, alm de possibilitar que contedos possam ser revisados, ou vistos de outra forma. No objeto de aprendizagem proposto por Busarello (2011), apresentado na Figura 1, a histria em quadrinhos formada por uma narrativa principal linear, onde a narrativa ficcional apresenta o contedo de projeo cilndrica ortogonal. Essa narrativa termina em uma avaliao. Alm disso, h uma narrativa secundria, com o mesmo contedo de aprendizagem, mas com diferente histria, que acessada depois da avaliao. Com base em Field (2001), as duas partes da histria foram construdas de forma que possam ser lidas tanto isoladas, como uma nica sequncia. Nessa estrutura existem links, com contedos que retomam determinado assunto. Esse aprofundamento de ordem pontual, favorecendo que o aluno possa aprofundar-se sobre a ocorrncia de alguns fatos na narrativa, principalmente na exemplificao do contedo de aprendizagem. Figura 1. Estrutura da histria em quadrinhos proposta por Busarello (2011) como objeto de aprendizagem hipermdia Por ser um objeto de aprendizagem (MACEDO, 2010), identifica-se na estrutura da Figura 1 que no processo de avaliao, se a resposta for negativa (N), o aluno remetido a uma continuao da histria, revendo o mesmo contedo e com a possibilidade de links. Entretanto, se a avaliao for positiva (S), o usurio remetido outra narrativa em quadrinhos, que apresenta contedo diferente daquele que o aluno j viu. Essa interao, no contexto de Field (2001), pode ser caracterizada como um ponto de virada, j que redireciona a histria para determinada continuidade. Quanto narrativa, Busarello (2011) cria como contexto para que o contedo de projeo cilndrica ortogonal a histria de um adolescente apaixonado por uma colega, que no consegue declarar seu amor, por causa de sua timidez. Toda vez que tenta falar com a menina, fica envergonhado, sem palavras. Para tentar superar esse problema, o jovem utiliza, em um canto de seu quarto, os conceitos do Triedro para desenhar a amada e assim, na sua imaginao, poder viver seu sonho. A narrativa interrompida quando recebe uma chamada no celular, de sua colega (BUSARELLO, 2011, p. 102). Aps a primeira avaliao, a histria continua: A adolescente, por saber que seu colega bom em entender projetos, convida-o para ajud-la a construir a casinha de sua cachorra. O adolescente, que no primeiro momento se sente tmido frente moa, vai se soltando enquanto constri a casa de cachorros. No final, a adolescente revela seu afeto pelo amigo, dando-lhe um beijo. O rapaz fica sem ao (ibidem). Como propsito deste artigo, na prxima seo apresentada a proposta de audiodescrio para tornar acessvel esta histria para pessoas cegas. 4. Audiodescrevendo os quadrinhos Nas histrias em quadrinhos, o processo da leitura dos quadros o que constroi o texto narrativo (EISNER, 2008). Silva (2010) identifica que o significado da narrativa parte da interpretao de cada quadro que compe os quadrinhos. Para Cirne (2000), o conjunto sequencial de imagens estticas que formam as histrias em quadrinhos sempre relacional, o que interfere na significao da histria. Nesse sentido, Eisner (2008) entende que a leitura dessa mdia depende da experincia do leitor para que este consiga processar determinada mensagem. Devido forma como as histrias em quadrinhos so estruturadas, sua leitura requer maior interao do leitor (MCLUHAN, 1964). Para Short e Reeves (2009), as ilustraes que compem as histrias em quadrinhos no so retrataes fieis da realidade. Entretanto, o reconhecimento dos elementos visuais possvel graas interao do leitor na interpretao das imagens e preenchimento dos espaos entre os quadros. De acordo com Schwartz (2010), a audiodescrio no se caracteriza como um servio meramente tcnico, exigindo envolvimento intenso com o objetivo do projeto. Por isso, preciso encontrar um vocabulrio que seja adequado e um tom de voz para que a audiodescrio esteja integrada obra visual e audiovisual. O fato de o tom de voz ter que ser neutro no significa que no possa ser expressivo. Entretanto, no pode interferir na obra. Dessa forma, o texto para a audiosdecrio dos quadros da histria procura seguir certa neutralidade, focando em aspcetos relevantes da construo das imagens. Os udios foram gravados com voz masculina. Tanto o roteiro da audiodescrio como a narrao foram feitos por Elton Vergara-Nunes. Para a construo da audiodescrio apresentada nos quadrinhos abaixo, salienta-se que o texto correspondente fala do audiodescritor-narrador tudo aquilo que vem depois da identificao do quadro, representado pela letra Q. Nessa audiodescrio, o audiodescritor-narrador denominado "locutor" pelos autores, para diferenci-lo do narrador da histria em quadrinhos dever no somente descrever os elementos descritivos do cenrio (roupas, elementos etc.) como descrever as aes dos personagens. Como nas histrias em quadrinhos, os textos das falas, tanto dos personagens como do narrador da histria, so apresentados em forma de imagem, ou seja, fazem parte do quadrinho desenhado, necessrio que o audiodescritor-locutor (ou simplesmente locutor) diga esse texto tambm, tornando-o acessvel. Porm, deixando claro que se trata de texto. Por isso h a identificao do nome do personagem, antes de suas falas, bem como do narrador da histria, quando necessrio. Para facilitar a compactao dos dados nesse artigo, os quadros com seus respectivos textos de audiodescrio so apresentados a seguir, seguindo como base a estrutura apresentada na Figura 1. Em virtude do recorte, apresenta-se, neste artigo, o roteiro da audiodescrio de dois segmentos de quadros da narrativa proposta por Busarello (20110). No Quadro 1, apresenta-se o contedo da Narrativa Principal, e no Quadro 2 apresenta-se da Narrativa do Link 2. Quadrinho Roteiro da audiodescrio Q1. Um jovem com camiseta verde e um caderno embaixo do brao vem caminhando enquanto assovia. Q2. O jovem avista algo. Coraezinhos saem de seus olhos. Gotas caem de sua testa. Deixa cair o caderno. Q3. Uma jovem tambm segurando um caderno, com cabelo longo, blusa branca e saia vermelha rodada, cumprimenta o rapaz: SUZI: Oi Zeca. Gotas saem da testa de Zeca, sua mo esquerda treme ao comprimentar a menina. Com a direita, ele alarga o colarinho da camiseta. No consegue dizer palavra: ZECA: Uhhg! Q4. Zeca imediatamente sai correndo e diz: ZECA: que eu pre.. preciso ir, t.. tchau. Da cabea de Suzi saem um ponto de exclamao, um ponto de interrogao e um outro ponto de exclamao. Ela fica parada coando a cabea enquanto olha para Zeca. Q5. Em seu quarto, Zeca est sentado na cama, segura a cabea, tendo o cotovelo firmado na perna. Fala sozinho: ZECA: Tenho que superar minha timidez. Tenho que falar com ela, mas como fao isso? Q6. Zeca sorri, acima de sua cabea aparece uma lmpada acesa, indicando que teve uma ideia. Com o dedo indicador levantado, ele diz: ZECA: Claro, posso utilizar o conceito de triedro para projetar a imagem de Suzi. Imaginar que estou falando com ela, e acabar com minha timidez. Q7. Mos seguram uma folha de caderno dobrada no centro, tanto no sentido horizontal como sentido vertical, dividida em quatro partes. A parte do canto inferior direito retirada, as demais partes esto dobradas para dentro formando ngulos retos entre si, como um canto de uma sala. Em cada uma das faces da figura, aparece a projeo de um desenho de uma menina. Zeca fala: ZECA: muito fcil, basta eu ter trs planos, vertical, perfil e horizontal. Q8. Juntanto as pontas dos dedos polegares, com os demais levantados, formando um ngulo de noventa graus, Zeca olha para um canto do seu quarto, em que as duas paredes se encontram com o piso. Ele comenta: ZECA: Esse canto do meu quarto um triedro perfeito. Q9. Zeca se aproxima parede que est a sua frente. Comenta: ZECA: Eu s preciso desenhar ela de frente aqui. Q10. Zeca desenha o corpo de uma garota na parede de frente, e logo comea a desenh-la na outra parede, enquanto comenta: ZECA: De perfil aqui. Q11. Aps desenhar o corpo da garota de perfil, senta-se no piso e comea a desenhar. Ele comenta: ZECA: E aqui como se eu a visse de cima. Q12. Os olhos de Zeca se iluminam. Deixa cair o lpis e sorri largamente. Ele diz: ZECA: s utilizar a minha imaginao... Q13. Zeca completa a frase: ZECA: ...e juntar os trs desenhos. Enquanto a imagem de sua amada se forma a partir das projees dos trs planos em que ele a desenhou. Q14. De boca aberta e com os olhos arregalados, Zeca exclama: ZECA: Uau! Q15. Zeca aproxima-se da imagem de Suzi, da qual saem pequenas estrelinhas por toda volta. O rapaz fecha os olhos. Estica os lbios para perto da boca da garota. N: Bizzzzz! Bizzzz! Q16. Repentinamente a imagem de Suzi desaparece, quando algo vibra no bolso de Zeca. Ele reclama: ZECA: S me faltava essa agora. Q17. Em um telefone celular vibrando, aparece a foto do rosto de uma garota com o nome Suzi embaixo. Q18. Zeca segura o celular. Olhos arregalados, boca torcida. Parece engolir em seco: ZECA: Glup! Quadro 2. Roteiro de audiodescrio da Narrativa Principal do objeto de aprendizagem em histrias em quadrinhos proposto por Busarello (2011) Quadrinho Roteiro da audiodescrio Q28. Uma folha de caderno, no sentido vertical. LEGENDA: Para montar o triedro, voc pode ter um objeto plano como esta folha de papel. Q29. Duas setas nas pontas das folha indicam a dobra horizontal no meio da folha. LEGENDA: Voc deve dobrar o papel uma vez na horizontal. Q30. Com a folha aberta, as setas saem dos lados, indicando uma dobra na vertical, dividindo a folha ao meio. LEGENDA: Depois dobre na vertical. Q31. A folha novamente aberta, dividida em quatro partes retangulares, pelas marcas das dobras na horizontal e na vertical. LEGENDA: O resultado ser quatro partes iguais. Q32. Uma tesoura corta o retngulo inferior direito nas dobras. LEGENDA: Corte uma das partes. Q33. As trs partes restantes da folha so unidas, formando ngulos retos, como um canto de uma sala em que se encontram duas paredes e o piso. LEGENDA: E dobre as outras duas formando ngulos de noventa graus em relao as outras partes. Q34. A folha de papel formando trs faces, uma na horizontal, uma no lado direito e uma no fundo. Sobre a face horizontal est colocada a pea do jogo de xadrez chamada cavalo. LEGENDA: Voc pode ter qualquer elemento nele, como essa pea de xadrez. Q35. A pea de xadrez aparece projetada em cada uma das faces da folha denominadas planos. Os planos so identificados por letras: PV para plano vertical, que coincide com a parede do fundo; PP para plano perfil, representado pela parede da direita; e PH para plano horizontal, identificado como piso de uma sala. No plano vertical, a imagem do cavalo do xadrez aparece como visto de frente. No plano perfil, a imagem da pea de xadrez, aparece como vista de lado, de perfil. A projeo da imagem no piso a imagem do cavalo vista de cima. LEGENDA: Em cada plano de projeo, voc ter a representao de uma das vistas do objeto. Q36. A folha de caderno com os trs planos aparece agora aberta, em que a parte inferior direita foi recortada. Nos planos vertical, horizontal e perfil, aparecem as projees do cavalo visto de frente, de lado, e de cima. LEGENDA: Desdobrando a folha de papel teremos a projeo planificada do triedro. Quadro 2. Roteiro de audiodescrio da Narrativa do Link 2 do objeto de aprendizagem em histrias em quadrinhos proposto por Busarello (2011) 5. Consideraes Finais Entende-se que a busca por ferramentas que auxiliem no processo de aprendizagem um fator desafiador tanto para pesquisadores como para desenvolvedores das mais variadas reas. Esse desafio intensifica-se quando esses objetos de aprendizagem tm carter acessvel. Isso implica um aprofundamento em realidades especficas, tendo como base os sentidos de captao de informao de cada indivduo. Ao mesmo tempo necessrio encontrar pontos em comum para que uma nica mdia possa servir a um grupo heterognico de pessoas. Nesse sentido, as tecnologias assistivas contribuem para que determinadas mdias possam servir a pblicos distintos. Percebe-se que as histrias em quadrinhos so mdias eficientes para o aprendizado. Entretanto, encontra-se pouca aplicao dessa mdia sob o aspecto acessvel. Nesse contexto, criou-se um objeto de aprendizagem com base em histrias em quadrinhos que pudessem servir tanto ao pblico surdo, como no surdo. Essa aplicao ainda se encontra em pesquisa, mas vem demonstrando resultados eficientes. Entretanto, por partir-se de um vis acessvel, a questo como esta mesma mdia pode adaptar-se para um pblico desprovido do sentido da viso. Dessa forma, entende-se que tecnologias assistivas, como a audiodescrio, podem contribuir para o acesso a mdias prioritariamente visuais, por parte do pblico cego. Nesse sentido, este artigo apresentou a primeira abordagem sobre a audiodescrio de uma histria em quadrinhos com foco na aprendizagem acessvel. No se pretendeu aqui mostrar resultados de aplicaes do objeto com o pblico, mas apenas explicitar o processo de transposio da mdia visual para textual. A partir disso, salienta-se que o processo de traduo da imagem para o texto um procedimento complexo. A audiodescrio se baseia em normas que favorecem a neutralidade do narrador, para que no haja interferncia na leitura da imagem. Da mesma forma, quando se trata de uma mdia como as histrias em quadrinhos, algumas diretrizes so apontadas. Percebe-se que pela complexidade das informaes visuais em cada quadro, deve-se fazer uma escolha quanto aos itens recomendados para se audiodescrever, uma vez que o texto pode ficar muito longo e isso pode prejudicar o entendimento por parte do aluno. Entretanto, esta hiptese s poder ser fundamentada a partir das aplicaes do objeto com alunos cegos. De forma anloga, muito do que apontado como recomendaes para audiodescrio no contemplado na estruturao de quadrinhos quando aplicados no ambiente hipermdia. Atravs dessa mudana de ambiente, as histrias em quadrinhos podem ser configuradas das mais variadas formas, onde as possibilidades so mais complexas do que a linearidade da mdia tradicional. Conclui-se que so necessrias mais pesquisas sobre este tpico, j que englobam reas pertinentes da contemporaneidade, alm de terem um forte apelo scio-cultural. O exposto faz parte de um primeiro experimento onde so apresentadas apenas solues dadas leitura dos quadros. Entretanto, ainda h uma srie de outros fatores que devem ser considerados, como, por exemplo, o prprio teste com alunos cegos. Uma das hipteses que o desenvolvimento de objetos de aprendizagem, como o proposto, deve ser visto como uma atividade interdisciplinar, em que o processo de construo de um objeto deve partir das necessidades e especificidades de um amplo contingente de indivduos, para solues que se adaptem a cada realidade. 6. Referncias Bibliogrficas Alves, Soraya Ferreira. 2012. Traduo intersemitica: interfaces, ressignificaes e crtica das adaptaes da literatura para o cinema. Disponvel em . Acesso em: 11 dez. 2012. Audio Description. 2010. Disponvel em: . Acesso em: 08 mai. 2010. Bersch, Rita. 2010. Curso de tecnologia assistiva. Disponvel em: . Acesso em: 20 set. 2010. Braga, M. C. G et al. T. 2006. Hipermdia: uma jornada entre narrativas e roteiros. 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