Artigo DIAGMA Brasil - Logstica de Loja

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    10-Jan-2017

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    Logstica de loja: o desafio da gesto do fluxo fsico na ponta da cadeia So diversas as motivaes para incorporar boas prticas logsticas e desenvolver os conceitos da Supply

    Chain nas lojas

    O papel das lojas nos fluxos da Supply

    Chain Uma cadeia de suprimentos essencialmente

    constituda de fluxos: o fluxo fsico dos produtos

    do fornecedor primrio at o cliente, o fluxo de

    informaes que viabiliza o fsico, o fluxo

    financeiro das transaes entre os diferentes

    integrantes da cadeia...

    Ainda que o e-commerce tenha alterado (e

    continue alterando) o panorama da cadeia de

    suprimentos nos ltimos anos, as lojas e

    estabelecimentos comerciais permanecem a

    ponta inescapvel dos fluxos da Supply Chain. Alm de local privilegiado de contato com o

    cliente e ponto de partida dos pedidos, as lojas

    so geralmente os ltimos destinatrios do fluxo

    fsico de produtos antes do consumidor final. Pelo

    contato com o cliente, as lojas tambm so o local

    natural de incio do fluxo de devoluo, complexo

    e oneroso para a cadeia.

    Lojas: pontos de partida ou de chegada fundamentais dos fluxos da cadeia de abastecimento

    Por Rodrigo Valente Zero

    ARTIGO CONSULTOR

  • Logstica de loja: o desafio da gesto do fluxo fsico na ponta da cadeia

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    No entanto, a orientao obviamente comercial

    das lojas acaba com frequncia ofuscando a

    dimenso desse fluxo fsico e limitando uma

    verdadeira integrao desses estabelecimentos s

    melhores prticas na gesto dos estoques.

    Mas quais as razes para dedicar uma ateno

    especial a esses fluxos fsicos no interior das lojas?

    Em primeiro lugar, esto os custos: negligenciar

    os estabelecimentos comerciais como efetivos

    agentes da Supply Chain pode custar caro s empresas. Apesar de intuitivamente associados

    indstria e aos centros de distribuio, uma

    parcela de 30 a 40% dos custos logsticos totais

    da cadeia est diretamente ligada s lojas. O

    tempo dos vendedores e promotores da loja

    dedicado a tarefas essencialmente logsticas

    como conferncia, abastecimento de gndolas e

    gesto de locais de reserva - um hidden cost com frequncia ignorado pelas reas centrais de

    Supply Chain das empresas. Um segundo motivo no menos importante a

    experincia do cliente. Uma gesto errtica dos

    fluxos fsicos na loja diminui a probabilidade de o

    cliente encontrar o produto desejado,

    consumindo seu tempo e levando por vezes

    perda da venda. uma situao bastante

    prejudicial imagem do estabelecimento em

    tempos de consumidores cada vez mais

    conectados e exigentes. Um cliente que se deu ao

    trabalho de se deslocar para realizar sua compra

    no pode ser decepcionado por problemas de

    logstica da loja.

    A mudana nas exigncias e expectativas do

    cliente tambm cria uma terceira razo para a

    melhoria do fluxo fsico nas lojas (que influencia

    diretamente o fluxo de informao): a qualidade

    dos dados. Em um contexto omnicanal, as

    informaes que partem das lojas sobre o nvel

    dos estoques devem ser precisas a todo instante,

    e somente uma gesto meticulosa dos fluxos de

    produto no interior da loja pode viabilizar esse

    objetivo.

    Aprimorando os processos de logstica

    fsica nas lojas: a inspirao dos

    centros de distribuio As atividades cotidianas das lojas incluem diversas

    tarefas logsticas: recepo, armazenagem,

    abastecimento, separao e expedio. De fato,

    toda a dinmica de um centro de distribuio

    pode muitas vezes ser perfeitamente reproduzida

    em um estabelecimento comercial, ainda que em

    menor escala. E por essa razo, as lojas podem

    colocar em prtica aprendizados dos CDs para

    cada uma das etapas do fluxo de produto.

    No seu dia-a-dia, as lojas recebem as

    mercadorias, s vezes contando inclusive com

    docas de recepo, empilhadeiras e

    transpaleteiras. Em seguida, conferem os

    produtos recebidos, com frequncia adotando

    procedimentos dispendiosos de controle 100%

    (contagem item a item). A conferncia e as

    eventuais dificuldades encontradas no

    recebimento - inconsistncias na nota fiscal,

    problemas cadastrais, desmembramento das

    embalagens - travam o fluxo fsico e impem

    obstculos para uma chegada rpida do produto

    at as prateleiras.

  • Logstica de loja: o desafio da gesto do fluxo fsico na ponta da cadeia

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    Dadas as semelhanas nos princpios, as lojas

    podem se inspirar dos centros de distribuio

    para aumentar a fluidez de suas operaes de

    recebimento. Pelo volume de veculos que

    gerenciam, os CDs buscam constantemente a

    otimizao das recepes, focando via de regra a

    conferncia detalhada nos fornecedores de

    menor confiabilidade, e trabalhando com

    percentuais amostrais para os demais.

    Alm disso, uma dinmica de compartilhamento

    de informaes cadastrais com os fornecedores

    pode ser aplicada s lojas para antecipar

    dificuldades e resolv-las antes da chegada do

    caminho, evitando produtos parados por horas

    na recepo e indisponveis aos clientes. Essas

    situaes podem ser mitigadas por alternativas de

    data sharing entre fornecedores e varejistas como EDI e GDSN.

    Seguindo o fluxo, uma vez liberadas da recepo,

    as mercadorias so levadas at locais de reserva

    nas lojas - invisveis ao cliente final - ou

    diretamente at as prateleiras de venda, caso haja

    espao linear disponvel.

    Ainda que centros de distribuio no disponham

    de gndolas, a analogia entre CDs e lojas

    permanece vlida aqui: os locais de reserva das

    lojas correspondem s chamadas posies de

    estoque, e as prateleiras so as posies de

    picking. No CD, os produtos no estoque reabastecem o picking quando ele se esvazia; da mesma forma, os locais de reserva so os

    pulmes das gndolas nas lojas. Os separadores

    de pedidos dos centros de distribuio coletam os

    produtos das posies de picking para atender uma necessidade comercial; na loja, esse papel

    exercido diretamente pelos clientes finais.

    Analogia entre fluxos logsticos nas lojas e nos CDs

  • Logstica de loja: o desafio da gesto do fluxo fsico na ponta da cadeia

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    Nesse momento surge uma diferena importante:

    no CD, uma ruptura de uma posio de picking com mercadoria ainda disponvel em estoque

    resulta em perda de produtividade, mas pode ser

    facilmente sanada. Na loja, essa mesma situao

    levar muito provavelmente perda da venda: o

    cliente final desconhece a existncia de estoques

    de reserva, e dificilmente se dar ao trabalho de

    investigar paradeiros alternativos para o produto

    se no o encontrar com facilidade na prateleira.

    As chamadas rupturas aparentes produtos

    presentes fisicamente na loja mas invisveis ao

    cliente so mais impactantes do que a mera

    intuio sugere: em recentes projetos com

    clientes no varejo, a Diagma verificou nveis de

    ruptura aparente que representavam cerca de 40-

    50% da ruptura total das gndolas. Dito de outra

    forma, quase metade da ruptura da loja percebida

    pelo cliente puramente ilusria - o produto est

    presente no estabelecimento, mas oculto. Em

    todo caso, para o consumidor, pouco importa: a

    compra no se efetiva, seja a ruptura aparente ou

    real. Na dinmica do omnicanal, isso ainda mais

    grave, j que o cliente se deslocou at a loja aps

    ter a certeza (atravs do website) do estoque

    disponvel.

    Isso justifica a importncia de uma maior ateno

    ao processo de reabastecimento das prateleiras

    reduzir nveis de ruptura pela metade somente

    aprimorando processos internos da loja uma

    excelente ideia. Voltando analogia, a escola de

    boas prticas pode ser o prprio centro de

    distribuio: h dcadas os CDs se empenham

    para ganhar produtividade na separao

    garantindo que as posies de picking estejam sempre abastecidas.

    Disciplinar o abastecimento e automatizar a

    identificao de rupturas so exemplos de

    iniciativas dos centros de distribuio que podem

    ser replicadas nas lojas. A criao de rotinas

    (identificao da necessidade -> abastecimento -

    > atualizao dos controles) com as equipes de

    loja essencial para garantir que um produto

    fisicamente presente em estoque est tambm

    disponvel e visvel ao cliente.

    Processos de inventrio rotativo inteligente, com

    foco nos produtos de maior impacto em caso de

    ruptura ou maior risco de erro de estoque, so

    outro exemplo de boa prtica logstica para

    ganhar produtividade nas contagens e reduzir a

    chance de rupturas.

    Indo alm da logstica: outros eixos de

    ao para melhorar o fluxo fsico nas

    lojas Nveis de estoque otimizados tambm simplificam

    o tratamento da ruptura aparente: quanto menor

    a quantidade de estoque do produto, mais

    simples gerenciar os reabastecimentos.

    Nessa lgica, repensar a gesto dos pedidos

    uma ao importante para facilitar o fluxo de

    produto. A logstica fsica das lojas diretamente

    impactada por questes como gesto

    centralizada ou descentralizada de pedidos,

    polticas de estoque por produto e sistemas

    automticos de previso e abastecimento (APS).

    Vale lembrar que volumes de estoque adequados

    ao nvel de servio desejado trazem grandes

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    benefcios financeiros e comerciais empresa,

    muito alm de somente facilitar a logstica de loja.

    Uma maior parceria com os fornecedores

    tambm pode facilitar o fluxo fsico na ponta da

    cadeia - programas colaborativos como o CPFR e

    o VMI possuem alto potencial na reduo do nvel

    de estoque da loja (mas exigem por outro lado

    um alto grau de maturidade na relao

    fornecedor varejista). Outra iniciativa pertinente

    trabalhar com o fornecedor na adaptao das

    embalagens para diminuir a quantidade de

    manipulaes e facilitar o abastecimento - as

    chamadas cut-cases so um bom exemplo.

    Cut-case: mais facilidade no abastecimento das

    prateleiras

    Ademais, iniciativas tradicionalmente ligadas ao

    marketing podem influenciar de forma muito

    positiva o fluxo fsico nas lojas. Como exemplos, o

    gerenciamento por categoria pode tornar a

    localizao dos produtos nas gndolas mais

    intuitiva, e a definio dos planogramas pode se

    inspirar mais do conceito de slotting dos CDs e adequar as prateleiras ao giro dos produtos

    evitando reabastecimentos demasiadamente

    frequentes. A interao entre as equipes centrais

    de Supply Chain e as reas de marketing/vendas nesses pontos fundamental.

    De maneira geral, aumentar a integrao das lojas

    com as equipes da cadeia de suprimentos e

    conect-las s melhores prticas de logstica

    uma iniciativa essencial no combate s rupturas e

    na reduo dos estoques. A loja pea-chave no

    quebra-cabea da Supply Chain e precisa ser tratada como tal.