Algumas notas sobre o Rito de 1965 ... - Fratres in ? Algumas notas sobre o Rito de 1965 ou A primeira

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  • Algumas notas sobre o Rito de 1965 ou A primeira etapa da Reforma Litrgica Fratres in Unum.com

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    Algumas notas sobre o rito de 1965 ou A primeira etapa da Reforma Litrgica

    Por Padre S. Dufour

    O anncio feito pelo Cardeal Castrillon Hoyos (por ocasio da audincia concedida associao

    Una Voce, na segunda-feira, 4 de setembro de 2000 1, e reiterado em uma entrevista publicada

    na revista mensal La Nef 2) sobre a possibilidade de um ordenamento do missal de 1962 em

    direo s rubricas de 1965, relanou o debate a respeito desse rito 3.

    Debater ou simplesmente se deter sobre o rito de 1965, que no teve mais que uma breve

    existncia (1965-1967: data da passagem a uma liturgia integralmente verncula), no deve

    ser algo reservado apenas aos especialistas da histria da liturgia.

    Pelo contrrio, esse assunto diz respeito a todo catlico preocupado com a integridade de f,

    sem a qual impossvel agradar a Deus 4, e que se indaga sobre a liturgia, na medida em esta

    traz conseqncias para aquela, em virtude do princpio da lex orandi, lex credendi 5.

    H j alguns anos que vrios padres Ecclesia Dei comearam a preparar, por iniciativa

    prpria 6, a reforma da reforma e, de fato, anteciparam-se ao utilizar, assim como ao

    promover, o rito de 1965.

    Para eles, o rito de Paulo VI e rito Romano Tradicional no podem coexistir eternamente na

    Igreja Latina e necessrio encontrar uma soluo. Pensam que o rito de 1965 uma boa

    conciliao entre os dois: a primeira parte da missa , grosso modo, a do rito de Paulo VI; o

    Ofertrio e o Cnon so os do rito Romano tradicional. Por conseguinte, o essencial parece

    ficar a salvo.

    Contudo, veremos que esse rito no pode ser uma soluo aceitvel porque, pelo esprito que

    o sustenta, tambm presente na origem dos gestos litrgicos que impe, no pode ser mais

    que uma etapa, mais ou menos longa, em direo missa nova.

    1 Revista Una Voce, n 214, set-out 2000.

    2 N 111 do ms de dezembro de 2000: o uso do missal de 1962, com algumas possibilidades em consonncia com as rubricas de 1965. p. 19.

    3 A Revista Una Voce, n209, nov-dez de 1999, abordava j a questo num artigo de Yves Toul: Missel tridentin ou rite hybride? [Missal Tridentino... ou rito hbrido?] Dom

    Chalufour OSB evoca igualmente o rito de 1965 em sua obra Le sainte messe, hier, aujourdhui et demain [A Santa Missa, ontem, hoje e amanh], abadia Nossa Senhora de

    Fontgombault, 2000.

    4 Hb 11,5.

    5 A esse respeito, o professor Michael Ewbank afirma: Pela prpria constituio metafsica do homem, h uma certa influncia recproca entre a f e os rituais litrgicos.

    Aquela anima estes por seu intermdio, e estes precisam e explicitam aquela Aspects historiques et thologiques du missel romain [Aspectos histricos e teolgicos do missal

    romano], Actes du 5ime congrs du CIEL, Versailles 1999, p.40. O Cardeal Stickler, por sua vez, escrevia no prefcio a La rforme liturgique en question [A reforma litrgica

    em questo] de Mons. Gamber: Dado a estreita ligao existente entre a f e a liturgia - Lex orandi, lex credendi - esta ltima obedece s leis anlogas quelas da prpria f,

    a saber, que exige ser preservada com grande cuidado, e, por conseguinte, que orientada essencialmente para a conservao. Edies Sainte Madeleine, 1992, p.9.

    Conservao: dado que h equao entre o dado da f e a sua expresso litrgica, a imobilidade de um implica a imobilidade de outro. O Norte fixo, dizia j Charles

    Pguy, no se aperfeioa o Norte! 6 Roma no lhes confiou o encargo de preparar a eventual reforma da reforma, no agindo em nada ex officio. Alm disso, o Cardeal Ratzinger afirma em uma entrevista

    concedida publicao mensal Spectacle du Monde, n 464, janeiro de 2001, que uma tal reforma no oportuna: Parece que mudar no a prioridade. o erro que se

    cometeu aps o Conclio p.70.

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    Ademais, sua utilizao habitual corre o risco de criar um terceiro rito, o que no deixar de

    acentuar as divises entre os fiis e entre os padres, e, assim, agravar a situao atual: o

    remdio aplicado poderia se revelar ainda pior que a prpria doena.

    O melhor meio de se lanar um olhar objetivo sobre os fatos muito simplesmente consultar

    os livros surgidos em 1965 para apresentar esse novo rito aos padres.

    O prprio ttulo do nosso artigo, O rito de 1965 ou: a primeira etapa da reforma litrgica 7,

    pode parecer polmico, no entanto, ele no nosso, mas de Pierre Jounel, personalidade bem

    conhecida do movimento litrgico 8 e um dos grandes cabeas do C.N.P.L. (Centro Nacional

    de Pastoral Litrgica). ele quem o emprega no ttulo de sua obra: Les rites de la messe em

    1965 9 , que tem por objetivo justificar a reforma de 1965 e comentar as rubricas deste novo

    rito (o ritus servandus, o de defectibus e o Ordo Missae).

    interessante notar integralmente uma parte de sua introduo, que tem o mrito de resumir

    a diferena entre rito de 1962 e o de 1965:

    Quando, em 1962, a Congregao dos Ritos publicou uma nova edio tpica do

    Missal Romano, a fim de adapt-lo ao Cdigo de Rubricas de 1960, congratulou-se com

    as mltiplas correes trazidas aos ritos da missa, mas ningum teve a impresso de

    uma novidade. O ritus servandus in celebratione Missae foi atualizado, simplificado em

    alguns pontos, esclarecido em sua redao aqui ou ali; mas no diferia essencialmente

    daquele que havia sido promulgado pelo Papa So Pio V em 1570. Quanto ao Ordo

    Missae, ele no sofreu nenhuma modificao 10.

    Pelo contrrio, em 7 de maro de 1965, padres e fiis descobriram uma liturgia nova,

    celebrando pela primeira vez a missa segundo o Ritus servandus e o Ordo Missae

    promulgados em 27 de Janeiro do mesmo ano, sob a autoridade conjunta do Conselho

    para a Aplicao da Constituio Litrgica e da Congregao dos Ritos. Sem dvida, o

    novo uso da lngua do pas era para muitos a descoberta, mas os ritos mesmo se

    apresentavam sob uma luz desconhecida at ento: a celebrao da liturgia da Palavra

    fora do altar, o fato de do celebrante no recitar mais em privado os textos

    proclamados por um ministro ou cantados pela assemblia, constituam inovaes

    capitais. Teriam surpreendido tanto um contemporneo de So Luis como um cristo

    do sculo XIX, pois era necessrio remontar ao primeiro milnio para encontrar uma

    viso igualmente ntida das estruturas fundamentais da missa 11.

    7 o que A. Bugnini chamar de os primeiros passos (os primeiros passos em direo nova missa) em seu livro: The Reform of the Liturgy: 1948-1975, p. 101.

    8 Na poca, Jounel era professor no Instituto Superior de Liturgia de Paris. Foi consultor na comisso conciliar preparatria sobre a liturgia na subcomisso,

    ocupando-se dos sacramentos e sacramentais, e teve um papel muito importante na redao do esquema preparatrio. Entre 1964 e 1970, tomou parte da

    reforma do missal, brevirio, calendrio, pontifical, sacramentos, etc. Teve um papel ativo na redao da missa normativa, que conduzir ao rito de Paulo VI.

    Consultor da Sagrada Congregao para o Culto Divino em 1969 e redator da constituio apostlica Missale Romanum do mesmo ano. Informaes: The

    Reform of the Liturgy (1948-1975) de Annibale Bugnini.

    9 Descle, 1965.

    10

    por isso que o rito de 1962 considerado mais como um limite que como o nec plus ultra da liturgia.

    11 Para o Padre Jounel, seria necessrio um salto de mais de quinze sculos para reencontrar a liturgia ideal, como se o Espri to Santo no tivesse,

    durante todos os sculos de f, inspirado o desenvolvimento do culto cristo. Seria bom reler a este respeito o que diz o Papa Pio XII sobre o

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    Porm, desde 7 de maro, certos problemas oriundos da reforma da liturgia tm amadurecido espantosamente rpido. Na celebrao voltada para o povo, recomendada pela instruo Inter Oecumenici 12, alguns gestos herdados da Idade Mdia, como os mltiplos beijos no altar, os sinais da cruz sobre as oblatas, as genuflexes repetidas, ou, ainda, a recitao do Cnon em voz submissa, tornaram-se um verdadeiro fardo para os padres (sic!) que, at ento, haviam observado as rubricas com toda tranqilidade. Descobre-se nesta tenso que, se o Ritus servandus de 1965 comporta novidades inegveis, permanece dependente das rubricas codificadas em 1570, sobretudo no que diz respeito liturgia eucarstica. Entre a liturgia do Conclio de Trento e a do Conclio do Vaticano II, ele constitui um ritual de transio13.

    Pouco mais adiante, o autor desenvolve esta idia em um pargrafo especial:

    O Ritus servandus de 1965 pertence, de certo ponto de vista, linhagem do Ritus de 1570, conservando a mesma estrutura e reproduzindo freqentemente os seus termos. No comentrio a seguir possvel dar, para o maior nmero de artigos do novo Ritus, a referncia ao artigo correspondente da edio de 1962. Mas, se o Ritus de 1965 reproduz freqentemente a letra do de So Pio V, ele tem um outro esprito ()

    O Ritus de 1965 quis restaurar sem maior demora a liturgia da Palavra: esta celebrada desde a ctedra do celebrante e do ambo: as leituras so realizadas pelo ministro competente; o gradual pode ser salmodiado por um cantor-leitor com resposta do povo (ver o Graduale simplex); (); a orao universal 14 [ndr: conhecida no Brasil como orao dos fiis+ vem por ltimo coroar o conjunto do rito. O futuro Ordo Missae no ter nada a acrescentar a tal prescrio. No aguardo do novo

    arqueologismo na encclica Mediator Dei, de 1947. Ao ler esta frase de Jounel no se pode deixar de pensar na reflexo que o Cardeal Ratzinger fez a

    respeito do novo rito: No lugar de uma liturgia fruto de um desenvolvimento contnuo, colocou-se uma liturgia fabricada. Samos do processo vivo de

    crescimento e de desenvolvimento para entrar no da fabricao. No se quis continuar mais o desenvolvimento e a maturao orgnicos do vivo

    atravs dos sculos, e se os substituiu -- maneira da produo tcnica -- por uma fabricao, produto banal do instante. La rforme liturgique en

    question de Mons. Gamber, p.8.

    12

    de 26 de setembro de 1964.

    13

    Les rites de la messe en 1965, p.5.

    14 Trata-se do novo rito de Paulo VI, que ser promulgado cinco anos mais tarde. Mais que falar de rito de Paulo VI, deveramos falar de nova

    missa, porque no se trata apenas de um rito, mas tambm de uma concepo nova da missa, do sacerdcio, das relaes do homem com Deus e

    da f em geral. Em outubro, novembro e dezembro de 1965, ou seja, no momento mesmo em que publicado seu livro, Padre Jounel participa de

    vrias reunies em Roma, durante as quais so apresentados vrios projetos do que seria o rito ps-1965. Em 22 de outubro, ele celebra uma missa

    experimental em francs numa capela de Roma. Infelizmente, esta experincia foi revelada. Vrios rgos de imprensa noticiaram este fato e isso

    provocou queixas. O resultado foi que todo o trabalho sobre o Ordo Missae foi paralisado at o Snodo de 1967, lamenta Annibale Bugnini, em The

    Reform of the Liturgy, p.152.

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    lecionrio, cuja preparao ordenou o Conclio (SC 51), os ritos esto j estabelecidos para uma digna celebrao da palavra de Deus 15 . 16

    Por ltimo, Jounel conclui a sua introduo:

    Herdeiro da liturgia de ontem, estabelecendo hoje elementos essenciais da liturgia de amanh, o Ritus servandus de 1965 um ritual de transio. 17 Esta explicao do Padre Jounel no marginal, bem pelo contrrio. No mesmo ano, o Padre Elhinger publicou um livro intitulado: La Rforme liturgique. Dcisions et directives dapplication 18 no qual afirma claramente que o rito de 1965, por sua prpria natureza, no constitui mais que uma etapa, e no uma adaptao do rito Romano tradicional destinada a perdurar:

    Trata-se de retoques circunstanciais, ou de um esforo coerente, integrado em um projeto mais amplo, sustentado por um esprito? 19 De antemo, estamos tratando sobre o carter definitivo destas reformas. Elas so a primeira parte de um projeto de restaurao mais amplo. O trabalho parcial, mas no provisrio. O Consilium no quis tocar em questes que ainda precisam ser amadurecidas, como o rito do Ofertrio, da frao ou do envio da assemblia, porque as quer realizar definitivamente. () A Instruo Inter Oecumenici assegura a transio entre a liturgia anterior ao Conclio e a restaurao mais profunda; no uma adaptao de circunstncia, mas uma etapa. 20

    Ritual de transio, liturgia nova, etapa, etc. Estas expresses empregadas pelos dois autores citados so claras e revelam o que realmente o rito de 1965, e isso por um dos que contriburam para a sua criao. Pois se trata aqui de pareceres autorizados e no de interpretaes fantasiosas sobre o novo rito de 1965: recordamos que o Padre Jounel desempenhou um papel muito importante na redao deste rito, e, posteriormente, no rito de Paulo VI 21.

    As duas explicaes concorrem em afirmar que o rito de 1965 apenas uma etapa, uma transio, que no deve perdurar, entre o rito Romano tradicional e o rito de Paulo VI: a liturgia da Palavra estilo moderno j est instaurada, no restando seno fazer frente ao Ofertrio e ao Cnon Romano: os mesmos princpios errneos conduzem inevitavelmente s mesmas concluses falsas. Exatamente os mesmos argumentos sero retomados para justificar o novo rito de Paulo VI: retorno s origens, adaptao pastoral, etc.

    A exemplo de Jounel (tem um outro esprito) e Elhinger (sustentado por um esprito),

    Mons. Piero Marini, Mestre das Cerimnias do atual Soberano Pontfice [ndr: referncia ao

    cerimonirio do ento Papa Joo Paulo II, discpulo de Annibale Bugnini que hoje chefia o

    15 A celebrao da palavra de Deus no rito Romano tradicional seria indigna? Basta observar os gestos litrgicos que acompanham o canto da

    epstola e do Evangelho na missa solene ou na missa pontifical para constatar o quanto o rito tradicional d mais valor proclamao da Sagrada

    Escritura que o novo rito. 16

    Op. cit. p.19.

    17

    Op. cit. p.19.

    18

    Le Centurion, 1965.

    19

    Sempre este mesmo esprito reformador.

    20

    La rforme liturgique : Dcisions et directives dapplication, p.9.

    21

    O livro de Annibale Bugnini fornece informaes muito interessantes sobre as pessoas que tiveram algum papel nas duas reformas litrgicas: a de 1965 e a

    de 1968. So, alis, estas mesmas pessoas que esto na origem dos dois ritos, e por isso que encontramos num e noutro o mesmo esprito.

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    inexpressivo Comit Pontifcio para os Congressos Eucarsticos Internacionais], afirmava em

    1995 na revista Ephemerides liturgicae n 109, que o rito Romano tradicional e o rito de 1965

    no tinham o mesmo esprito:

    No que diz respeito ao esprito, no se encontra o Ritus servandus de 1570 no de

    1965. 22

    Pode-se objetar que o esprito no nada em relao ao texto. Basta, no entanto, constatar a

    diferena que h entre o Vaticano II e o esprito do Vaticano II: em nome deste esprito

    que tudo foi abalado na Igreja j h trinta anos 23. Do mesmo modo, h o rito de 1965 em si

    mesmo e h o esprito que o sustenta.

    Constatamos, por outro lado, que os textos precedentes no podem seno invalidar a tese,

    largamente difundida em certos reformadores da reforma, segundo a qual o rito de 1965 o

    fruto definitivo da constituio conciliar sobre a liturgia e que todo o mundo foi surpreendido

    pela promulgao do novo missal em 1970. Bastaria, com efeito, ler os livros de apresentao

    e explicao do rito de 1965 (como os citados acima), bem como as revistas eclesisticas da

    poca para se dar conta.

    O Concilium trabalhava desde 1964 na reforma completa dos livros litrgicos. No ficou parado

    em 1965. De fato, a divulgao na imprensa da missa experimental do Padre Jounel (Cf. nota

    14) atrasou qualquer outra reforma imediata da missa 24. Todavia, os membros do Concilium

    prosseguiram seus trabalhos de modo que no Snodo Romano de 1967 fosse apresentada a

    missa normativa que, apesar de rejeitada por aquela assemblia, seria mantida e

    promulgada aps algumas mudanas menores. Passemos, agora, s reformas implementadas

    no rito de 1965 25:

    1) No Ordo da missa em geral:

    Supresso do salmo Judica me no incio da missa.

    O ltimo Evangelho suprimido.

    As oraes recitadas ou cantadas pela schola ou pelo povo no so

    mais rezadas em particular pelo celebrante.

    Introduo da orao universal no incio do ofertrio.

    Na missa solene, o subdicono no segura a patena, que permanece

    sobre o altar. No utiliza, por conseguinte, mais o vu umeral para

    levar o clice da credncia ao altar no incio do ofertrio. No

    segurando mais a patena durante o Cnon, o subdicono incensa a

    hstia e o clice durante a elevao, como nas missas de Requiem.

    22

    P. Marini: Il Consilium in piena attivita in un clima favorevole (ottobre 1964-marzo 1965), p.120.

    23

    por isso que de nada serve avanar -- por exemplo -- os textos de Sacrosanctum Concilium para pedir a manuteno ou o restabelecimento do gregoriano

    ou do latim nas parquias: todo interlocutor eclesistico objetar que o esprito do Conclio mais importante que a letra.

    24 Cf. The Reform of the Liturgy, p.152, note 30.

    25

    No comentamos sistematicamente as rubricas do missal de 1965 pargrafo por pargrafo, pois seria muito fastidioso. O leitor poder faz-lo por conta

    prpria.

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    A incensao do clero simplificada: todas as ordens, com exceo da

    ordem episcopal, so confundidas e incensadas em uma s vez para

    cada lado do presbitrio.

    O celebrante no mais incensado pelo dicono aps o Evangelho.

    No Credo, no se ajoelha mais no Et incarnatus est ... et homo factus

    est.

    Canta-se a secreta na missa cantada, e nas outras missas, reza-se em

    voz alta.

    A doxologia no fim do Cnon cantada ou rezada em voz alta, os sinais

    da cruz so suprimidos e, ao fim, o padre faz a genuflexo apenas aps

    o Amem do povo.

    O Pai Nosso pode ser recitado ou cantado pelo povo juntamente com

    o celebrante 26.

    O Liberas nos aps o Pater rezado em voz alta.

    Ao distribuir a Sagrada Comunho, emprega-se a breve frmula Corpus

    Christi. Em seguida, o celebrante d a Comunho sem fazer o Sinal da

    Cruz com a hstia.

    O Padre autorizado a celebrar a missa cantada com a assistncia

    exclusiva do dicono, sem o subdicono.

    permitido aos bispos celebrar a missa cantada ao modo de simples

    padres.

    O padre se persigna no mais que trs vezes, pois as persignaes

    seguintes foram suprimas: Adjutorium nostrum, Intrito, fim do Gloria,

    fim do Credo, Sanctus e Libera nos.

    O celebrante, qualquer que seja a missa (cantada, solene, baixa),

    preside de sua sede a liturgia da palavra, como o faz o bispo quando

    celebra pontificalmente ao trono. Aps a incensao do incio da

    missa, ele retorna ao altar apenas no ofertrio.

    Os beijos litrgicos foram suprimidos pela Instruo Inter Oecumenici.

    Devido igualmente Instruo Inter Oecumenici, a missa pode ser dita

    voltada para o povo 27.

    O aclito no levanta mais a casula do celebrante nas duas elevaes.

    O aclito no toca mais a sineta no Sanctus e no Per Ipsum.

    A Comunho sob duas espcies foi introduzida, podendo os fiis,

    doravante, comungar de p 28.

    26

    uma idia fixa nos reformadores, a de fazer todos os fiis cantar o Pater. Contrariamente ao costume oriental e galicano, a Igreja Romana reservou, a partir

    do sculo VI, o canto do Pater ao celebrante, como testemunha So Gregrio Magno numa carta a Joo de Siracusa (Registrum 9,26): A orao do Senhor, entre

    os gregos, dita por todo o povo; entre ns, apenas pelo padre. Esta prtica confirmada por Santo Agostinho: Na igreja, recita-se cada dia no altar de Deus

    esta orao domincal, que os fiis escutam Sermo 58.

    27 Ver o livro de Klaus Gamber: Tourns vers le Seigneur [Voltados para o Senhor], edies Sainte Madeleine; assim como o cap. 6 de La Rforme liturgique en

    question das mesmas edies.

    28 Rite de la communion sous les deux espces, n4-8.

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    O padre l ou canta a orao da ps-comunho no meio do altar, com

    o missal sua esquerda (o missal est nesse lugar desde o incio do

    ofertrio e l permanece at ao fim da missa).

    2) Nas leituras e nos cantos entre as leituras:

    Nas missas celebradas com o povo (rezadas, cantadas ou solenes), no

    se recita nem canta a Epstola voltado para o altar e o Evangelho para o

    norte, mas se recita voltado para o povo desde um ambo ou da grade do

    coro 29.

    Nas missas no solenes celebradas com povo, as lies e a Epstola,

    com os cantos entre as leituras, podem ser lidos por um leitor capaz ou por

    um coroinha, enquanto que o celebrante continuar sentado e lhe ouvir.

    O padre permanece sentado durante todas as leituras. Ele abenoa o

    subdicono e o dicono; ele impe o incenso, abenoa-o e continua

    sentado. Ele entoa da banqueta o Gloria e o Credo. Preside, por ltimo, a

    orao universal a partir da banqueta, ao menos que o faa do ambo ou

    da grade do coro.

    3) O papel atribudo ao vernculo na missa:

    Nas missas, quer cantadas, quer rezadas, as lies, a Epstola, o

    Evangelho e a orao universal devem ser lidas em vernculo.

    O Kyrie, o Gloria, o Credo, o Sanctus e o Agnus Dei podem ser recitados

    ou cantados na lngua do pas.

    Todo o prprio da missa pode ser recitado ou cantado em vernculo: a

    antfona de entrada (Introito), o orao da coleta, o gradual, o Alleluia

    e o seu versculo, o tracto, a sequncia, a antfona do ofertrio, a

    secreta, a antfona da comunho e a orao da ps-comunho.

    O que resta das oraes ao p do altar pode ser dito em vernculo:

    Confiteor, Misereatur, Indulgentiam, etc.

    Alm disso, as aclamaes, as saudaes e as frmulas de dilogo

    como o prefcio podem ser ditas em vernculo (Dominus Vobiscum

    29 Foi na Idade Mdia que se introduziu o costume de cantar a epstola voltado para o altar, pois o altar Cristo. Segundo a interpretao

    alegrica, a leitura da epstola precede a do Evangelho como So Joo Batista precede Cristo. Assim, o subdicono representa simbolicamente So

    Joo Batista, o qual, por sua pregao da penitncia, aponta a Cristo, ou seja, ao altar. Esta explicao pode parecer estranha a uma pessoa

    proveniente de uma sociedade dessacralizada, que perdeu esta forma de linguagem prpria para exprimir uma realidade espiritual que o

    simbolismo. Mas para um fiel mergulhado na Cristandade isso tinha um sentido, e pode ainda ter para ns se soubermos ver por detrs do gesto

    litrgico a realidade espiritual que ele representa. Para o Evangelho, o simbolismo ainda mais rico. Antes de cantar, o dicono pe o evangelirio

    sobre o altar, dado que o Evangelho deve ser a palavra de Cristo, o smbolo de Cristo, e deve, por conseguinte, vir do altar (o altar Cristo). Em

    seguida, o dicono canta o Evangelho voltado para o norte: a Luz do mundo proclamada de fronte para as trevas. Pius Parsch dizia: No

    Evangelho Cristo que aparece e que nos fala. No consideremos tanto o Evangelho como um ensinamento, mas antes como uma epifania

    (aparecimento ou manifestao) de Cristo. Le guide dans lanne liturgique, p.16, Casterman 1944.

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    substitudo por O Senhor esteja convosco, o Oremus por rezemos

    ao Senhor, etc.) 30.

    O Pater e o Libera nos podem ser recitados ou cantados em vernculo

    por todo o povo 31.

    O Domine non sum dignus pode ser dito em vernculo.

    Ao fim desta lista das mudanas operadas no rito de 1965, no se pode deixar de

    pensar no que Mons. Klaus Gamber escreveu sobre as mltiplas pequenas mudanas

    inseridas no rito de Paulo VI:

    Depois de tudo, a questo a seguinte: o que se quis alcanar com essas

    modificaes, algumas das quais so mnimas? Talvez muito simplesmente se

    quis realizar as idias favoritas de alguns especialistas em liturgia, mas s

    custas de um rito com mais de 1500 anos! 32

    igualmente o caso da reforma que aqui estudamos.

    necessrio notar que entre todas as mudanas, algumas so mais importantes que outras. As

    trs inovaes mais discutveis so o uso do vernculo para tudo o que se diz em voz alta pelo

    celebrante ou pela assemblia; a diviso da missa ao meio, de tal modo que o padre abandone

    o altar at o ofertrio; e as escolhas mltiplas deixadas ao padre, permitindo-lhe adaptar a

    liturgia (segundo quais critrios?).

    Para a questo do uso do vernculo na liturgia e do problema das tradues, retornemos s

    numerosas obras e artigos publicados sobre este assunto j h mais trinta anos 33. Mas

    necessrio notar que, paradoxalmente, vrios padres que levam adiante o uso do latim em sua

    defesa do rito tradicional, sonham apenas com uma coisa: rezar em vernculo tudo o que

    dito em voz alta na missa, ou seja, tudo que os fiis ouvem 34.

    Nisso, j no rito de 1965 a unidade que caracteriza o Rito Romano Tradicional era perdida.

    Ademais, se o uso do vernculo introduzido para unificar as duas comunidades, que

    tradues sero utilizadas em tais assemblias: o vs ou tu? No nos deixes cair em

    tentao ou no nos sujeiteis tentao? Consubstancial ao Pai ou da mesma natureza

    que o Pai? etc. [nota da redao: tais variaes de traduo no idioma francs no

    correspondem verso portuguesa. Em nosso caso, poder-se-ia questionar sobre perdoai-nos

    as nossas dvidas ou perdoai-nos as nossas ofensas, e com teu esprito ou ele est no

    meio de ns, etc].

    30 O uso de lngua verncula na liturgia classificado por Dom Guranger entre as heresias anti-litrgicas em Les institutions liturgiques, publicado

    em 1840. *Tirem a lngua latina+ e vejam se o povo ir por muito tempo ouvir o pretenso primaz do Glia gritar: O Senhor esteja convosco; e os

    outros a lhe responder: e com o vosso esprito. 31

    Cf. nota 26.

    32

    La Rforme liturgique en question p.52.

    33

    Compendium Missae etc.

    34

    O latim? Tudo bem! Mas para o padre, no para os fiis.

  • Algumas notas sobre o Rito de 1965 ou A primeira etapa da Reforma Litrgica Fratres in Unum.com

    9

    O leitor pode imaginar a cacofonia que provocaria tal reforma: os fiis tradicionais querendo

    guardar com toda a razo as tradues tradicionais e os fiis modernos as suas. Mais divises

    vista.

    Vimos que no rito de 1965, aps as oraes ao p do altar (ou daquilo que delas resta), o

    celebrante se encaminha diretamente banqueta ou ao ambo e l permanece at o

    ofertrio.

    A concepo dos reformadores sobre a missa vai provocar sua diviso em duas partes bem

    distintas 35: o altar reservado liturgia eucarstica; quanto liturgia da Palavra, ela se

    passa integralmente fora do altar (exceto a incensao do incio da missa).

    Essa diviso o que choca, primeira vista, no rito de Paulo VI e j no de 1965.

    At o rito de 1962, o padre que celebra a missa solene est sempre no altar: de l que ele

    entoa o Gloria e o Credo, de l que ele canta a coleta. Ele abenoa o subdicono e o dicono,

    assim como o incenso, para as diferentes incensaes durante a missa. Ele permanece na

    banqueta apenas durante a epstola e os cantos do coro.

    Em contrapartida, no caso da missa pontifical ao trono (a do bispo em sua diocese), o pontfice

    no vai ao altar at o ofertrio (exceto, evidentemente, na incensao do incio da missa). Ele

    senta ao trono, que originalmente uma ctedra, por conseguinte, um lugar fixo afastado do

    altar.

    Com efeito, o bispo em sua diocese representa o Cristo Soberano Pontfice, e apenas ele tem o

    direito de ocupar o trono. Tem no apenas a plenitude do sacerdcio, mas tambm o poder de

    jurisdio.

    Os gestos litrgicos vo, naturalmente, exprimir isso: o Santssimo Sacramento retirado do

    Tabernculo do altar-mor, ajoelha-se diante do bispo durante a cerimnia e, como dissemos,

    ele no se dirige ao altar, mas permanece ao trono (que se encontra do lado do Evangelho,

    que lado mais digno) onde realiza as funes pontificais e isso at o ofertrio: ele celebra

    fora do altar.

    A missa pontifical ao trono , em certa medida, uma manifestao da Igreja: a partir da

    renovao do Sacrifcio da Cruz se estrutura toda a Igreja, com o conjunto do clero por ordem

    hierrquica que cerca o bispo, que representa simultaneamente Cristo-Sacerdote, Cristo-

    Pastor e Cristo-Mestre da f.

    Compreende-se, ento, a importncia da liturgia na Igreja: Ato da Igreja, a liturgia se modela

    sobre a prpria constituio da Igreja. 36

    Se um bispo celebra fora da sua diocese, tem o poder de ordem, mas no o de jurisdio, e por

    esta razo no celebra ao trono (ao menos que o ordinrio do lugar lhe permita), mas ao

    35 Nisso, a eles se unem os reformadores da reforma. Ver o artigo do Padre de Servigny na revista Tu es Petrus, n 58-59. Nota 10, pgina 42.

    36 Initiation la liturgie, do Padre Dalmais o.p, 1963, pp.63-74.

  • Algumas notas sobre o Rito de 1965 ou A primeira etapa da Reforma Litrgica Fratres in Unum.com

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    faldistrio, que uma sede mvel que se coloca na dependncia imediata do altar, do lado

    direito. Neste caso, o bispo exerce as mesmas funes que o bispo ao trono, mas prximo ao

    altar, voltando-se freqentemente para ele, manifestando assim como o altar permanece o

    plo organizador da celebrao.

    No caso do padre durante a missa solene, h uma semelhana entre o faldistrio e a banqueta:

    ambos so colocados prximos ao altar, do lado direito. A diferena que o faldistrio do

    bispo orientado em direo aos fiis (como era na antiga catedral), enquanto a baqueta fica

    perpendicular ao altar.

    Enquanto que o trono se encontra elevado em um ou vrios degraus, a banqueta permanece

    in plano. Ela deve ser mvel e o costume de no a deixar entre duas cerimnias comum.

    O padre permanece na banqueta apenas durante os cantos executados pelo coro, bem como

    durante a epstola, e do altar que realiza os atos presidenciais 37 prprios do celebrante. A

    ausncia de jurisdio manifestada por esta presena do padre no altar para todas as

    funes propriamente sacerdotais: o seu poder sacerdotal est como que ligado ao altar,

    emana do altar. Isso particularmente visvel quando, ao abenoar com a sua mo direita o

    incenso, o dicono ou o subdicono, o padre mantm sua mo esquerda sobre o altar. Certo, o

    uso contrrio existiu, mas permanece uma exceo e era percebido como tal ao se falar a seu

    respeito enquanto privilgio:

    O Pontfice permanece ao trono at o ofertrio, de onde recita ou canta, durante este

    tempo, tudo o que deve ser recitado ou cantado. Deste mesmo privilgio gozam

    igualmente todos os celebrantes da Igreja de Reims, mesmo que no sejam bispos. Eles

    no recitam nem cantam nada desde o altar at o ofertrio, mas sobre um atril

    colocado ao lado do altar 38.

    Um estudo histrico do Padre Emmanuel OSB, no 3 colquio do CIEL 39 (de onde foi tirado o

    essencial de nossa matria sobre este assunto), expe claramente este problema e conclui:

    No incio deste estudo, fizemos a seguinte pergunta: A regra em vigor at em 1962

    (presidncia ao altar para o simples padre) universalmente atestada na histria da

    missa romana ou h excees? Ao fim de nosso estudo, podemos responder: Na

    medida em que os textos a que hoje temos acesso nos permitem julgar, a missa

    romana, tanto no uso da cria como no das dioceses e ordens religiosas, mostra-nos o

    simples padre se mantendo no altar para o Gloria, a Coleta e o Credo, e isso inclusive

    at 1962. O Ordo Missae de 1965 se afasta, portanto, da prtica em uso -- de maneira

    quase geral -- at ento, ao colocar o simples padre sede para tal.

    O caso que estudamos particularmente representativo da relao que existe entre a teologia

    e a liturgia. O poder de ordem e o poder de jurisdio, que so noes teolgicas, so, pelos

    gestos litrgicos, claramente manifestados durante a Missa Pontifical ao trono. O poder de

    37

    Sacerdos enim oportet praeesse , Pontifical Romano, de Ordinatione Presbyteri.

    38

    De antiquis Ecclesiae ritibus de Dom Martne. Lib.I, Cap.IV, Art.4

    39

    Le clbrant et lautel avant et aprs Vatican II, p.131-144

  • Algumas notas sobre o Rito de 1965 ou A primeira etapa da Reforma Litrgica Fratres in Unum.com

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    ordem sem o poder de jurisdio da mesma maneira expresso pela missa pontifical ao

    faldistrio. Por ltimo, a missa solene do simples padre, exercendo o seu poder de ordem a

    partir do altar, mostra a ausncia da plenitude do sacerdcio nele, que no recebeu o

    episcopado.

    A quase totalidade dos telogos atuais e o magistrio dos ltimos cinqenta anos sustentam

    que o episcopado uma ordem bem distinta do sacerdcio 40. A concepo medieval diz que

    no h seno uma diferena de grau entre o sacerdcio e o episcopado; o padre recebeu por

    sua ordenao todos os poderes episcopais, mas estes lhes so atados 41. Fala-se, a este

    respeito, da no-sacramentalidade do episcopado. No entanto, no mbito do sinal, ou seja, da

    liturgia, constata-se um movimento inverso: enquanto que o rito Romano tradicional torna

    nitidamente visvel a diferena de grau entre o presbiterado e o episcopado, e isso pelas

    numerosas variaes entre a missa pontifical e a missa solene, o novo rito de 1965 (como o de

    Paulo VI) no manifesta mais de maneira distinta a diferena entre o padre e o bispo.

    Os padres tm, doravante, privilgios pontificais: podem presidir desde a banqueta -- ou se

    deveria dizer pontificar banqueta? Quanto aos bispos, podem doravante celebrar uma

    missa solene como simples padres, sem nenhuma diferena litrgica com estes ltimos, sem

    nenhum gesto exprimindo a plenitude do sacerdcio que receberam. No entanto, como

    afirmou um liturgista ao concluir um estudo sobre o cerimonial Papal:

    Dos ritos significativos que cercam a celebrao sacramental, Santo Toms de Aquino

    diz que alguns so realizados a fim de representar a Paixo de Cristo, outros se referem

    ao Corpo Mstico que manifestado por este sacramento, outros, por ltimo,

    exprimem a devoo e a reverncia devidas a este mistrio. 42 O aspecto cerimonial nos

    parece consistir, sobretudo, na manifestao da estrutura hierrquica da Igreja na

    celebrao do sacramento. Conclui-se que os livros litrgicos (...) contemplam a

    celebrao eucarstica como o ato por excelncia no qual a Igreja se realiza. Eles se

    organizam e se estruturam em torno do ato central do sacrifcio sobre a base de uma

    tradio teolgica e de uma tradio litrgica intimamente relacionadas e, hoje,

    infelizmente, contestadas 43

    Com 1965 chega o reino do vel, vel, vel [ndr: ou, ou, ou em latim] e isso faz a alegria do Padre

    Jounel:

    Ressaltamos que o Ritus servandus de 1570 recusava ao celebrante qualquer

    liberdade na apreciao das condies concretas da celebrao. Ora, o Ritus de 1965

    40

    Constituio Sacramentum Ordinis de Pio XII (30-XI-1947) e Vaticano II, Lumen Gentium, 21.

    41 Para Santo Toms, o episcopado no uma ordem sacramental (IV sent., d.24, Q.3, a.2, sol.2)

    42

    IIIa, Q.83, a.5

    43 O autor prossegue: Ora, sentimo-nos profundamente ligados a esta Tradio, bem como a tudo que ela gerou na ordem da civilizao e da

    cultura, enquanto cristos vivos no espao e no tempo. Vnration et administration de lEucharistie. Actes du second congrs du C.I.E.L.1996. pp

    229-230

  • Algumas notas sobre o Rito de 1965 ou A primeira etapa da Reforma Litrgica Fratres in Unum.com

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    oferece constantemente a escolha entre diversas solues: por exemplo, aps o Kyrie o

    celebrante se dirige sede ao menos que, de acordo com a disposio de cada igreja,

    parea-lhe melhor permanecer ao altar at a orao (RS 23); do mesmo modo, vrios

    casos esto previstos para as leituras; o celebrante faz a homilia e dirige a orao

    universal desde sua sede, do altar, do ambo ou da cancela [ndr: a parte superior da

    igreja prxima ao altar-mor, separada do restante por uma cancela], de maneira a

    assegurar a participao do fiis nas melhores condies (RS 50,51). 44

    Os fiis devero se habituar em adentrar uma igreja atendida por um padre tradicional,

    como os outros fiis em qualquer parquia, sem saber a que se assemelhar a sua missa

    dominical? Como no se sentir como uma cobaia nas mos de padres que no deixaro de

    fazer experincias litrgicas e de dar vazo s suas fantasias, ao seu humor do dia,

    resumidamente, sua subjetividade? 45

    Tomemos o exemplo do Pater cantado ou recitado por todos no rito de 1965 (ponto que, em

    si, no importante). Por que querer a todo custo alterar o costume tradicional estabelecido

    em nossas comunidades, sob unnime satisfao dos fiis? No seria para acostumar os

    nossos fiis s mudanas, para faz-los adentrar uma mentalidade nova, este novo esprito?

    Afirmamos a relao profunda que existe entre o dogma e a liturgia, havendo, com efeito, uma

    relao ntima entre os dois da mesma maneira que a alma no se faz seno uma com o

    corpo e que o pensamento se exprime, atravs de uma misteriosa unidade, pela palavra

    pronunciada. O dogma e a liturgia tm por finalidade ltima e comum a salvao das almas, o

    que idntico ao nico fim ao qual pode tender o homem. 46

    A liturgia segue paralelamente o progresso do dogma. Conseqentemente, se h um

    desenvolvimento da liturgia, este corresponde a um progresso do dogma 47. No caso que nos

    interessa, qual desenvolvimento do dogma justifica tal mudana na liturgia? Pode-se

    realmente qualificar de progresso uma tal evoluo?

    Nas sucessivas reformas dos anos 60, no se quis mais considerar o dogma e continuar a

    construir sobre esta rocha, mas preferiu-se aventurar-se sobre as areias movedias de uma

    44

    Les rites de la messe en 1965, p.17.

    45 Yves Toul dizia num artigo de Una Voce N209: Felizmente, o Papa Joo Paulo II concedeu, no motu proprio de 2 de julho de 1988, somente o uso

    do missal de 1962, sem nenhuma mistura entre os textos e os ritos, como precisa o Indulto de 3 de outubro de 1984. Os catlicos ligados tradio

    tridentina, assim, esto seguros contra os eventuais desvios. Os padres podem se consagrar celebrao do Santo Sacrifcio sem se verem obrigados

    missas la carte em funo dos meios, porta aberta ao subjetivismo. Os fiis, por seu lado, no tm de temer ser cobaias de experincias

    litrgicas. p.198.

    46 M. Ewbank. Aspects historiques et thologiques du missel romain, p.40 47

    A liturgia afirma igualmente o dogma contra a heresia, como a introduo da orao do ofertrio Suscipe sancta Trinitas, para combater as heresias

    cristolgicas. Histoire des prires de loffertoire por Dom Tirot, p.25.

  • Algumas notas sobre o Rito de 1965 ou A primeira etapa da Reforma Litrgica Fratres in Unum.com

    13

    histria de ritos arqueologizantes, da sociologia 48, da pastoral moderna 49, do ecumenismo,

    etc.

    Assim, por todas as razes mencionadas neste trabalho, no nos possvel aceitar o rito de

    1965, que conduz ao rito de Paulo VI, pois provm dos mesmos princpios.

    Ademais, no perodo de crise que atravessa a Igreja, importante no alterar em nada a

    liturgia 50. O Papa So Pio V o havia compreendido bem quando codificou o Rito Romano, que

    a petrificava, certamente, mas sobretudo a protegia da heterodoxia. Deveremos esperar

    tempos melhores antes de aceitar quaisquer mudanas, que no viro de outro lugar seno da

    autoridade: Roma. 51

    48 O livro do Pe. Nichols, Liturgie et modernit, mostra que a cultura descristianizada dos anos 60 est na origem da reforma litrgica. Ele se serve de

    contribuies histricas, sociolgicas, antropolgicas e lingsticas descobertas desde a reforma para fazer a crtica e minar as bases cientficas hoje

    ultrapassadas. 49

    A pastoral do rito romano tradicional no deve ser to m, dado que converteu os cinco continentes e continua a faz-lo por toda a parte onde mantida.

    50

    Em tempos de crise espiritual, importante no alterar nada, como afirma S. Incio nos seus exerccios espirituais (aconselhando mesmo a agere contra)

    51

    O Cardeal Ratzinger no deseja -- como dissemos na nota [6] -- a reforma do missal romano tradicional, consistindo a eventual reforma da reforma apenas

    ao novo rito e no ao missal tradicional. que afirmou, em julho de 2001, na abadia de Fontgombault, como nos traz a Correspondance Europenne, n65,

    31/07/01: A questo litrgica foi o tema de uma reunio de estudos em Fontgombault, de 21 a 24 de julho, sob a presidncia do Cardeal Ratzinger, prefeito da

    Congregao para a Doutrina da F. Estavam presentes os bispos de Versailles e de Namur, Mons. Perl, secretrio da Ecclesia Dei, os padres abades do Barroux,

    Fontgombault, Randol e Triors, os superiores da Fraternidade S. Pedro e da S. So Joo (EUA). Estiveram representados os cnegos regulares da Me de Deus, o

    Instituto Cristo Rei, a Frat. S. V. Ferrer, os Legionrios de Cristo e a S. S. Vicente de Paulo. Leigos, como o Prof. Spaemann, tambm participaram dos trabalhos. O

    Cardeal Ratzinger quis trazer o problema litrgico s suas bases teolgicas, enfatizando a necessidade de reencontrar a dimenso do sagrado e o verdadeiro

    sentido da liturgia, fundada sobre o conceito de sacrifcio. O Cardeal tambm precisou que o que se chama reforma da reforma, da qual muito se fala, refere-

    se apenas ao novo rito e no missa tradicional. Assim, ele fez suas as observaes do Professor Spaemann: o que deve ser modificado hoje no a liturgia

    tradicional, que permanece o ponto de referncia, mas a liturgia reformada, que tem tendncia a se decompor numa multido de ritos. Resumo pela carta de

    informao Foi et Tradition, de n45.

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