Algumas notas sobre a historia do cinema documentario etnogrfico

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  • Revista Comunicacin, N10, Vol.1, ao 2012, PP.755-766 ISSN 1989-600X 755

    Algumas notas sobre a historia do cinema documentario etnogrfico

    Rafael Franco Coelho

    Universidade Federal de Gois, Brasil

    rafaelcoelho@facomb.ufg.br

    Resumen: Este texto pretende ofrecer una breve historia del documentales etnogrfico, desde sus inicios hasta la actualidad. Adems, vamos a incursionar en el cine etnogrfico en Brasil, el aumento de las producciones ms influyentes. Desde este punto de vista histrico, hay una reflexin sobre el lenguaje audiovisual, estudiar conceptos como el documentales y la ficcin, ethnofiction, la improvisacin, funciones de la cmara, profilm y finalmente sus relaciones con la antropologa y el mtodo etnogrfico. Palabras clave: cine documental; comunicacin audiovisual; antropologa visual.

    Abstract: This text aims to provide a brief history of ethnographic documentary, from its beginning until today. In addition, will make a incursion into the ethnographic film in Brazil, raising the most influential productions. From this historical view, there is a reflection on the audiovisual language, discussing concepts such as documentary and fiction, ethnofiction, acting, improvisation, camera functions, profilm and finally its relations with anthropology and ethnographic method. Keywords: documentary film; audiovisual communication; visual anthropology.

    mailto:rafaelcoelho@facomb.ufg.br

  • Rafael Franco Coelho

    Revista Comunicacin, N10, Vol.1, ao 2012, PP.755-766 ISSN 1989-600X 756

    1. Introduo

    A histria do filme etnogrfico se confunde com a prpria histria do cinema, e mais

    particularmente do cinema documentrio, ou de filmes no-ficcionais. Este gnero, a

    que chamaremos de documentrio etnogrfico, surge em meados do sculo XIX,

    assim como sua companheira inseparvel, a pesquisa etnogrfica. Ambos se

    desenvolvem de forma independente e s comeam a apresentar certa maturidade a

    partir de 1920.

    No caso da pesquisa antropolgica e da etnografia, considerado um marco o

    trabalho do polons Bronislaw Malinowski, realizado nas Ilhas Trobiand, cuja

    pesquisa resulta na monografia Os argonautas do pacfico central (1922). Com

    Malinowski, a pesquisa de campo passa a figurar como elemento central na produo

    das teorias antropolgicas, fazendo surgir o terico-pesquisador de campo que

    descreve determinadas sociedades tendo como base a observao participante. Nesta

    pesquisa, a fotografia adquire um papel fundamental no registro e na descrio da

    cultura trobiandesa.

    Segundo Patrcia Monte-Mr no texto Tendncias do documentrio etnogrfico, a

    partir de Malinowski, a etnografia se desenvolve como um gnero cientfico e

    literrio, seguindo uma variedade de padres normativos para a pesquisa: como a

    necessidade do pesquisador viver na aldeia nativa, usar a lngua nativa, viver um

    perodo junto ao grupo estudado, investigar temas clssicos para que pudesse chegar

    ao todo por uma de suas partes, deixando de lado um inventrio ou a descrio de

    costumes. (Monte-Mr, 2004: 101)

    2. Documentrio etnogrfico

    Determinar qual foi o primeiro registro cinematogrfico com interesses cientficos e

    etnogrficos difcil e polmico. Para alguns autores, como Pierre Jordan no texto

    Primeiros contatos, primeiros olhares (1995), os primeiros filmes etnogrficos,

    pensados como documentao audiovisual para a pesquisa de campo, foram os

    realizados pelo zologo Alfred Cort Haddon durante uma expedio da Universidade

    de Cambridge para documentar a cultura dos aborgines das Ilhas do Estreito de

    Torres, entre a Austrlia e a Nova Guin.

    J para o famoso produtor de documentrios etnogrficos Jean Rouch, do qual

    falaremos adiante, este incio se d no dia 4 de abril de 1901. Neste dia, Baldwin

    Spencer, que se notabilizou por seus estudos sobre os aborgines australianos, filmou

    uma dana do canguru e uma cerimnia para a chuva. (Rouch, 1970: 13 apud

    Heider, 1995: 34)

    Apesar dessas experincias pioneiras, Rouch (1975) aponta como os verdadeiros

    precursores e pais fundadores do filme antropolgico o sovitico (originalmente

    Polons) Dziga Vertov e o americano Robert Flaherty. Acrescentaramos que eles so

    no apenas os pais do filme antropolgico, mas tambm do cinema documentrio

    de modo geral. O terico do documentrio Bill Nichols (2005) se refere Flaherty

    como o pai do documentrio, embora destaque a importncia de Vertov e do

    documentarista ingls John Grierson.

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    Para se compreender o cinema de Dziga Vertov necessrio antes contextualiz-lo.

    Aps a revoluo russa, conhecida como Revoluo de Outubro de 1917, os artistas

    russos iniciaram uma srie de debates sobre a importncia e o papel da arte na

    revoluo e nos movimentos sociais da Rssia neste perodo. O debate se intensificou

    e culminou na criao do LEF (Frente Esquerdista de Arte) pelo poeta Vladimir

    Maiakovski, ao qual Vertov se associa em 1923. O LEF fazia parte de um movimento

    mais amplo que compreendeu vrias expresses das vanguardas artsticas russas, o

    chamado construtivismo russo, que inclui artistas como Alexandr Rodchenko, o

    cineasta Siergui Eisenstein e o prprio Vertov.

    Dentro desse contexto como pano de fundo, Vertov comea sua carreira no cinema

    editando um cine-jornal de atualidades do Estado Sovitico chamado de Kinonedelia

    (Cinema Semana). Depois publica vrios manifestos com suas teorias sobre o cine-

    olho e o Kinopravda (Cinema verdade). Vertov no foi s um cineasta de vanguarda,

    mas tambm um pioneiro na produo de reflexes sobre cinema e sua teoria da

    montagem, que ele denominou de teoria dos intervalos. Em suas teorias, Vertov

    refutava qualquer forma de fico e exaltava as potencialidades do cinema verdade.

    Seu mais importante filme O homem com a cmera (1929) um exemplo claro de

    suas idias sobre cinema e montagem, sendo a ltima muito exaltada e explorada

    pelo cineasta.

    Em 1922, Robert Flaherty realizou seu mais famoso documentrio sobre a vida de um

    esquim (ou Inuit) do rtico canadense chamado Nanook of the north. Neste filme,

    Flaherty inaugura uma srie de inovaes linguagem e ao mtodo cinematogrfico

    da poca, servindo de referncia para muitas das produes posteriores. A primeira

    delas o longo processo de observao antes das filmagens. Flaherty viveu em rea

    esquim e viajou com os esquims por longos perodos entre 1910 e 1921, at iniciar

    as filmagens de Nanook na Baa de Hudson. Durante as filmagens, Flaherty inaugura

    um procedimento que mais tarde ser resgatado por Jean Rouch como um dos pilares

    da chamada antropologia partilhada. Todas as noites, aps as filmagens, Flaherty

    revelava os negativos num laboratrio improvisado e os projetava para os

    protagonistas do filme, que assistiam e opinavam sobre as cenas, participando da

    construo do filme.

    Apesar disso, algumas das crticas que se fazem aos filmes de Flaherty surgem em

    decorrncia de um procedimento exemplificado aqui por Nichols: Flaherty criou a

    impresso de que algumas cenas se passavam dentro do iglu de Nanook, quando, de

    fato, elas foram gravadas ao ar livre, com um meio iglu maior do que o normal como

    pano de fundo. Isso deu a Flaherty luz suficiente para filmar, mas exigiu que seus

    personagens atuassem como se estivessem no interior de um iglu de verdade.

    (Nichols, 2005: 120)

    Enquanto isso, segundo Ramos (2004: 81), nos anos 30, John Grierson estabelece as

    propostas estilsticas e de produo para o cinema documentrio que iro dominar a

    primeira metade do sculo at os anos 60. Utilizao intensa de voz over expositiva,

    encenao e um namoro sem m conscincia com a propaganda marcam esta

    definio do documentrio.

    Heider (1995) afirma que muitos anos se passaram aps as primeiras filmagens de

    Flaherty para que o cinema e a etnografia finalmente se encontrassem, atravs de

    dois antroplogos, Gregory Bateson e Margareth Mead. Entre 1936 e 1939, Bateson e

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    Mead estabeleceram uma colaborao num estudo sobre uma aldeia de Bali, cujo foco

    principal eram as relaes entre cultura e personalidade, especialmente na educao

    das crianas balinesas. Este projeto trouxe diversas contribuies importantes para a

    antropologia, principalmente na integrao entre filme e fotografia nas pesquisas

    etnogrficas.

    A primeira publicao fruto desta pesquisa, Balinese Character (Bateson e Mead,

    1942), usava uma combinao de textos e fotografias, de uma forma raramente

    tentada depois disso e nunca suplantada. As gravaes em filme parecem ter recebido

    menos importncia do que as fotografias, j que s foram terminadas uma dcada

    depois, apenas sob a superviso de Mead. Seis filmes foram montados e lanados

    entre 1950 e 1951, como o filme Trance and Dance in Bali, A Balinese family e

    Karbas first years. Estes filmes so etnogrficos no sentido mais literal da palavra.

    Como faz a etnografia escrita, eles descrevem o comportamento e apresentam os

    resultados do estudo etnogrfico. Em sua maior parte, focalizam crianas interagindo

    com outras crianas e com adultos. [...] A pesquisa de Bateson e Mead foi a primeira a

    tentar resolver sistematicamente o que significa usar o filme como parte integrante da

    pesquisa antropolgica. (Heider, 1995: 40)

    Entre os anos 50 e 60, fora da Frana no ocorreram grandes avanos no campo do

    documentrio etnogrfico, e as lies deixadas por Flaherty, Bateson e Mead ficaram

    suspensas no ar. Podemos citar duas produes como significativas desse perodo:

    The Hunters, de John Marshall (1958), Dead Birds, de Robert Gardner (1962).

    J na Frana durante a dcada de 60, houve uma exploso de documentrios

    etnogrficos, sob a influncia do antroplogo-cineasta Jean Rouch, que merece

    destaque na histria do documentrio etnogrfico e do cinema de modo geral.

    Engenheiro de formao, trabalhou por algum tempo nas colnias francesas da frica

    como a Nigria construindo pontes e estradas, perodo onde surgiu seu interesse

    pelas sociedades tribais africanas. De volta Frana, comea a estudar filosofia na

    Sorbonne e decide descer o rio Niger de canoa com dois amigos, usando uma cmera

    pela primeira vez para registrar tal viagem. Este foi o ponto de partida para uma

    extensa produo de inclui vrios ttulos como Initiation la danse des possds de

    1947; Les maitres fous e Jaguar, ambos de 1953; Moi, un Noir de 1957; La Chasse au

    lion larc et aux fleches de 1957-65; o famoso Chronique d un t de 1960; Le dama

    d Ambara de 1980, dentre outros.

    A clssica relao entre observador e observado presente na antropologia, com a

    cmera de Rouch ganha uma outra dimenso. Quem filma (observador) e quem est

    sendo filmado (observado) constrem e investigam juntos e ao mesmo tempo.

    Resgatando os procedimentos inaugurados por Flaherty em Nanook, Rouch retorna a

    frica para mostrar aos observados as filmagens feitas anteriormente ou mesmo o

    filme em fase de montagem. A partir desse dilogo ele prope o que chamar de

    antropologia partilhada: ...eu j havia refletido muito sobre o absurdo de escrever

    livros inteiros sobre pessoas que nunca teriam acesso a eles, e a, de repente, o

    cinema permitia ao etngrafo partilhar a antropologia com os prprios objetos de sua

    pesquisa. (Rouch, 1975 apud Monte-Mr, 2004: 107)

    Rouch resgata no s os procedimentos de Flaherty, mas tambm as teorias de Vertov

    sobre o cinema verdade. Propor etnofices e uma srie de outros

    procedimentos que iro inovar e marcar a produo posterior. A partir da, torna-se

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    referncia fundamental tanto no cinema documentrio quanto em sua vertente

    etnogrfica, na sua proposta de cinma-vrit: No um cinema verdade, mas a

    verdade do cinema. Nas palavras do prprio Vertov: a verdade filmada no a

    verdade. A verdade real a verdade do cinema. O cinema verdade no a verdade no

    filme. a verdade do filme. E a verdade e a verdade do filme no so o mesmo.

    (Nacify, 1979)1.

    A discusso sobre a verdade no cinema documentrio se insere dentro de uma

    polmica iniciada, ou pelo menos formalizada, numa conferncia realizada em Lyon

    pela French National Broadcasting Organization (ORTF) e intitulada 1963

    Conference on New Documentary, em que americanos e franceses (inclusive Rouch)

    se dividiram respectivamente em dois movimentos, o cinema direto e o cinema

    verdade.

    Para Jean Rouch, seu parceiro Edgar Morin e Chris Marker, no cinema verdade a

    cmera deveria assumir uma presena interventiva, participativa e reflexiva, uma

    presena assumida e declarada. Como em seu filme Chronique d un t, que mostra

    no filme a forma como ele foi produzido. Sua metodologia insere na narrativa os

    depoimentos e as reflexes dos prprios autores alm da realizao de entrevistas,

    sendo considerado o primeiro documentrio a utiliz-las. Nele as pessoas no s

    falam, mas participam do processo de produo do filme, fazendo crticas e sugestes.

    A primeira cena do filme mostra uma discusso entre os diretores e os entrevistados

    sobre a forma como fariam o documentrio, que mais tarde seria projetado para

    todos os participantes assistirem e seguido de um caloroso debate, tudo

    evidentemente registrado pela cmera dos diretores e inserido no filme.

    J para os defensores do cinema direto como Richard Leacock, Robert Drew, Donn

    Pennebaker, Albert e David Maysles a cmera deveria assumir uma postura no-

    interventiva, observacional, neutra e quase ausente, de recuo diante da vida que

    transcorre atravs das lentes da cmera, de uma cmera escondida, comparada a uma

    mosca na parede. Alm disso, a encenao, algo perfeitamente normal e aceitvel

    na narrativa documentria at os anos 60, comea a ser questionada. Nas palavras de

    seus praticantes Se o material no era espontneo [...] como pode ser verdade?

    (Winston, 1993)2.

    Essa relao do homem com a cmera um dos principais pontos de divergncia

    entre o cinema verdade e o cinema direto. A partir do momento em que a cmera

    ligada, algo acontece, e o que acontece diante da cmera talvez nunca tivesse

    acontecido caso ela no estivesse ali. Ligada ou no, na mo do cinegrafista ou sobre

    um trip, sua presena, declarada ou disfarada, altera de alguma forma o modo

    como a vida que transcorre diante dela acontece. Essa uma questo at hoje

    polmica para os adeptos do cinema direto: possvel recuar ou no-intervir na vida

    que transcorre atravs das lentes da cmera? Como negar uma presena que

    comprovada pelas prprias imagens registradas pela cmera?

    1 Traduo do autor: the truth filmed is not the truth. The real truth is the truth of the film. The cinema verit is not the verit in film. It is the truth of the fim. And the truth and the truth of the film are not the same. 2 Traduo do autor: If the material was not spontaneous, they said, how could it be true?

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    3. Documentrio etnogrfico no Brasil

    No Brasil, podemos comear a falar da histria do filme etnogrfico a partir da

    Comisso de Linhas Telegrficas e Estratgicas do Mato Grosso ao Amazonas, a

    famosa Comisso Rondon. Segundo Jordan(1995), comandada pelo ento Coronel

    Cndido Mariano da Silva Rondon, a Comisso passa a utilizar a fotografia

    inicialmente para documentar os trabalhos das linhas telegrficas e, posteriormente,

    para fotografar as atividades cotidianas e os rituais dos ndios. Em 1910, Rondon

    convida o Major Luiz Thomaz Reis para ser o fotgrafo oficial da Comisso. Neste

    mesmo ano, foi criado o Servio de Proteo aos ndios (SPI), cujo presidente

    tambm era Rondon e que em 1967 se transformaria na atual Fundao Nacional do

    ndio (FUNAI).

    Em 1912, sob o comando de Thomaz Reis, cria-se o servio cinematogrfico da

    Comisso e Reis realiza seu primeiro filme sobre os ndios Pareci e Nhambiquara.

    Este filme chamado de Os sertes de Mato Grosso lanado em 1915 e metade do

    valor arrecadado em suas bilheterias foi doado ao SPI. Em 1917, Reis lana seu mais

    importante filme, Rituaes e festas Bororo, considerado o primeiro filme etnogrfico

    verdadeiro... utilizando todas as potencialidades que lhe oferece o tipo de material de

    que dispe; Reis escreve com a cmera. (Jordan, 1995: 20). Segundo Tacca (2004),

    um dos primeiros filmes etnogrficos do mundo e contm caractersticas de

    metodologia de campo posteriormente desenvolvidas pela antropologia.

    Thomaz Reis colaborou com a Comisso at 1938, produzindo um vasto material

    fotogrfico e cinematogrfico de singular qualidade, considerados excepcionais para a

    poca.3

    O antroplogo Claude Lvi-Strauss e sua mulher Dina realizaram uma srie de

    registros fotogrficos e cinematogrficos durante suas expedies ao Brasil Central.

    Sua produo fotogrfica foi organizada e publicada em livros e j bem conhecida

    do grande pblico, enquanto que seus registros cinematogrficos ainda no foram

    devidamente divulgados e analisados em sua devida importncia.

    Segundo Patrcia Monte-Mr (2004), os filmes realizados pelos Lvi-Strauss, nos

    anos 30, so um retrato das primeiras difuses dos equipamentos cinematogrficos

    na experincia acadmica no Brasil. Alguns dos ttulos desse perodo so:

    Cerimnias funerrias entre os Bororo, Aldeia Nalike e Festa do Divino Esprito

    Santo. Estes filmes foram realizados quando Dina estava frente da Sociedade de

    Etnografia e Folclore, fundada em So Paulo, em 1936, pelo escritor Mrio de

    Andrade.

    Enquanto isso, o governo de Getlio Vargas vincular o cinema a fins culturais como

    poltica estratgica de seu governo, seguindo as tendncias europias da poca. Em

    1937, foi criado o Instituto Nacional de Cinema Educativo (Ince), posterior INC, como

    forma de impulsionar a produo documental nacional com o apoio e financiamento

    do estado. Durante esse perodo, destacamos a produo do diretor Humberto

    Mauro, que na frente do Ince produziu mais de 300 documentrios como a srie de

    curtas-metragens Brasilianas.

    3 Para maiores detalhes, ver: TACCA, Fernando de (2001): A imagtica da Comisso Rondon: etnografias flmicas estratgicas. Campinas, Papirus.

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    Dando continuidade s experincias iniciadas pela Comisso Rondon, o Servio de

    Proteo aos ndios (SPI) integra a sua equipe uma srie de fotgrafos e cinegrafistas.

    Numa parceria entre o antroplogo Darcy Ribeiro e o fotgrafo e cineasta alemo

    radicado no Brasil Heinz Forthmann, foram produzidos Um dia na vida de uma tribo

    da floresta tropical (1950) e Funeral Bororo (1953). Este ltimo, podendo ser tratado

    como a terceira gerao de filmes sobre os rituais funerrios dos Bororo, iniciado pelo

    Major Reis e seguido pelo filme dos Lvi-Strauss.

    Fruto de outras parcerias, a produo de Heinz Forthmann ainda incluir os filmes

    Kuarup (1965), com a participao do antroplogo Roberto Cardoso de Oliveira e

    Jornada Kamayur (1965) com o antroplogo Roque Laraia. Nestes filmes, a

    participao dos antroplogos mais na funo de consultores do que de realizadores

    propriamente.

    A partir da dcada de 60, influenciados pelas inovaes tcnicas e estilsticas do

    cinma-vrit Francs e do Neo-realismo italiano, o documentrio brasileiro se

    renova com a nova gerao do Cinema Novo. Neste perodo, a Caravana Farkas

    (1968-1972) foi um marco na produo de documentrios. Em busca do Brasil

    Verdade, o objetivo da caravana era mostrar o Brasil aos brasileiros. Produzindo

    filmes inicialmente destinados rede escolar, Farkas enviava jovens realizadores ao

    Nordeste e periferia do Rio com o intuito de revelar o pas. Destacamos o longa-

    metragem Brasil verdade, que a reunio de quatro mdia-metragens: Viramundo

    de Geraldo Sarno, Subterrneos do Futebol de Maurice Capovilla, Memria do

    Cangao de Paulo Gil Soares e Nossa escola de samba de Horcio Gimenez.

    Em 1966 os americanos Sol Worth, um professor de comunicao e John Adair, um

    antroplogo, iniciaram uma srie de experincias inovadoras na qual os ndios

    Navajos faziam filmes sobre sua prpria cultura, na tentativa de dar aos nativos uma

    voz e olhar prprios.

    Seguindo a trilha aberta por Worth e Adair, nos anos 80 o antroplogo Terence

    Turner introduz equipamentos de vdeo junto s populaes indgenas brasileiras

    como os Caiap. Essa experincia influencia profundamente os integrantes do Centro

    de Trabalho Indigenista (CTI), uma organizao no-governamental fundada em

    1979 por um grupo de antroplogos e de educadores que desejavam estender sua

    experincia de pesquisa etnolgica na forma de programas de interveno auto-

    sustentveis e adequados s comunidades indgenas com as quais se relacionavam.

    (Gallois; Carelli, 1995)

    Neste contexto, em 1987 surge o projeto Vdeo nas Aldeias, coordenado por Vincent

    Carelli, e as antroplogas Dominique Gallois e Virgnia Valado. Inicialmente, o

    objetivo do projeto era realizar oficinas e cursos de formao e capacitao das

    populaes indgenas para a realizao de produtos audiovisuais sobre a sua cultura,

    tornando acessvel o uso do vdeo a um nmero crescente de comunidades indgenas,

    promovendo a apropriao e manipulao de sua imagem de acordo com seus

    projetos polticos e culturais. Mas no decorrer do projeto essas metas foram

    extrapoladas, no s pela qualidade dos resultados obtidos, mas tambm pela

    quantidade e diversidade de usos do vdeo feitos pelas sociedades indgenas

    brasileiras que participam do projeto.

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    Dentre os vrios filmes desenvolvidos, podemos citar: O esprito da TV de 1990, A

    arca dos Zo de 1993, Eu j fui seu irmo de 1993, Morayngava de 1997, Segredos

    da Mata de 1998, alm de outros ttulos sobre os Xavante como Wai: o segredo dos

    homens de 1988, Wai rini: o poder do sonho de 2001, Daritiz: aprendiz de

    curador de 2003 e finalmente Wapt Mnhn: a iniciao do jovem Xavante de

    1999.

    Com o projeto Vdeo nas aldeias, foram produzidos documentrios e etno-fices

    dos mais variados tipos: registros de rituais, fruto da parceria entre os ndios e o

    projeto; registros de conflitos contra invases e pela demarcao de terras; sries

    para a televiso educativa e o ensino fundamental; alm dos filmes produzidos no

    decorrer das oficinas de capacitao e das chamadas vdeo-cartas. Esta ltima merece

    especial ateno devido a sua originalidade. Trata-se de produes feitas pelos ndios

    e enviadas a outras aldeias como uma carta. L o filme exibido e se inicia uma

    produo para ser enviada como resposta. Um dilogo inter-tnico rico e

    diversificado.

    Os mritos do projeto Vdeo nas Aldeias, alm do seu pioneirismo, fornecer

    instrumento poltico e subsdios para a autonomia dos povos indgenas brasileiros

    frente aos rgos governamentais. Alm disso, o vdeo propicia as condies

    necessrias para a expresso de suas prprias vozes, viabiliza e potencializa a

    comunicao entre grupos tnicos diferentes espacial e culturalmente e tambm

    auxilia no registro de momentos histricos especficos, atuando na preservao de

    tradies culturais em constante transformao. Segundo Gallois e Carelli (1995) O

    projeto pretendia contribuir a esse movimento, colocando disposio dos povos

    indgenas a oportunidade de um dilogo adaptado a suas formas de transmisso

    cultural. O vdeo representa, de fato, um instrumento de comunicao e um veculo

    de informao apropriado ao intercmbio entre grupos que no s mantm tradies

    culturais diversas, mas desenvolveram formas diferenciadas de adaptao ao contato

    com os brancos.

    Alm da produo de filmes, o projeto tambm implantou uma rede de videotecas e

    centros de produo de vdeos em 12 aldeias, entre os povos Waipi (Amap),

    Enawen Naw, Xavante e Nambikwara (Mato Grosso), Gavio-Parkatj e Xikrim-

    kayap (Sul do Par), Krinkati (Maranho), Terena e Guarani (Mato Grosso do Sul).

    4. Documentrio etnogrfico contemporneo

    Atualmente, quando tendncias ps-modernas redefinem a pesquisa etnogrfica, o

    texto antropolgico tem sua autoridade questionada, sendo construdo como

    narrativas ficcionais. Concebida como dilogo e polifonia, a pesquisa hoje questiona

    as relaes entre sujeito e objeto. Com os novos paradigmas da disciplina, os

    antroplogos descobrem que contam histrias, procurando tambm cont-las

    atravs das imagens. (Monte-Mr, 2004)

    Da mesma forma, o documentrio etnogrfico hoje questiona uma srie de

    procedimentos tidos como referncias clssicas. Contamina-se com o cinema

    contemporneo e com a fico, enquanto a fico se aproxima da esttica do

    documentrio. As fronteiras entre documentrio e fico se confundem com a

    insero de vrias vozes e vrios pontos de vista nos filmes, inclusive a dos nativos.

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    Revista Comunicacin, N10, Vol.1, ao 2012, PP.755-766 ISSN 1989-600X 763

    A Mostra Internacional do Filme Etnogrfico, ocorrida anualmente na cidade do Rio

    de Janeiro e atualmente organizado pela antroploga Patrcia Monte-Mr e pelo

    documentarista Jos Incio Parente, passou a organizar a sua programao incluindo

    a categoria Etnoclip. Nesta categoria, foram exibidos videoclipes musicais de carter

    comercial que valorizam a etnicidade em sua proposta imagtica, como em Maracatu

    atmico de Chico Science e Z Limeira de Mestre Ambrsio. (Monte-Mr, 2004)

    A mais longa tradio de filmes etnogrficos vem da Austrlia. Desde Baldwin

    Spencer, citado aqui nas origens do filme etnogrfico, at as recentes experincias de

    David e Judith MacDougall. Da extensa produo dos MacDougalls podemos citar

    como exemplo a trilogia Wedding camels (1980). Segundo Nichols (2005), nesses 3

    filmes sobre os Turkanas do norte do Qunia, os diretores adotam vrias estratgias

    reflexivas para nos conscientizar do envolvimento ativo dos cineastas na elaborao

    das cenas. So feitas perguntas aos expectadores ou usadas legendas para gerar uma

    atitude reflexiva dos expectadores diante do filme.

    Seguindo a trilha das inovaes que ocorrem no filme etnogrfico atualmente,

    podemos citar a obra da Vietnamita Trinh T. Minh-ha. Seu filme Reagrupamento

    (1982), filmado numa rea rural do Senegal, fala sobre os problemas e as convenes

    do filme etnogrfico. No filme, Trinh torna-se uma persona ou personagem em seu

    prprio filme, alm de sua criadora. Segundo Bill Nichols (2005: pg. 163) Em

    Reagrupamento, a declarao de Trinh T. Minh-h, de que vai falar prxima da

    frica, em vez de falar sobre a frica, simboliza essa mudana [...] rompendo com as

    convenes realistas da etnografia para questionar o poder do olhar fixo da cmera de

    representar, ou descrever enganosamente, os outros.

    Sobrenome Viet nome de batismo Nam (1989), outro filme de Trinh, se baseia em

    entrevistas com mulheres do Vietn descrevendo as condies opressivas que

    enfrentam desde o fim da guerra. Durante o filme descobrimos que as mulheres que

    representam o papel de mulheres vietnamitas no Vietn so, na verdade, emigrantes

    que foram para os Estados Unidos e que recitam, num cenrio, relatos transcritos e

    editados por Trinh de entrevistas realizadas no Vietn por outra pessoa com outras

    mulheres. Essa mistura entre fato e fico, de cenas preparadas e no preparadas, de

    entrevistas ensaiadas e entrevistas aparentemente espontneas, instiga-nos a

    repensar a utilidade de qualquer idia de documentrio como forma que transmite

    informaes ou verdade naturalmente. (Nichols, 2004)

    Da mesma forma, David MacDougall em seu livro Transcultural Cinema (1998), no

    captulo 3, intitulado The subjective voice in ethnographic film questiona o realismo

    e a objetividade da linguagem documental e afirma que O valor da voz subjetiva, na

    antropologia e nos filmes documentrios, que ela pode dar acesso ao cruzamento de

    diferentes instantes em relao a sociedade para o qual caso contrrio seria

    contraditrio, ambguo e paradoxal.

    Nichols (2005) no seu livro Introduo ao documentrio afirma que nos vdeos e

    filmes documentrios podemos identificar seis modos de representao que

    funcionam como subgneros do gnero documentrio propriamente dito: potico,

    expositivo, observativo, participativo, reflexivo e performtico. A ordem desses seis

    modos corresponde, aproximadamente, a cronologia de seu surgimento na histria,

    mas a identificao de um filme com um certo modo no total, mas sim com

  • Rafael Franco Coelho

    Revista Comunicacin, N10, Vol.1, ao 2012, PP.755-766 ISSN 1989-600X 764

    dominantes. Um documentrio potico pode conter tomadas e caractersticas

    observativas ou expositivas.

    Atualmente, pode-se observar como caracterstica da produo atual no s a mistura

    entre estes modos de representao mas tambm entre gneros como o documentrio

    e a fico. A ausncia de fronteiras e a transdiciplinariedade trazem novas

    perspectivas no horizonte do documentrio etnogrfico.

    REFERENCIAS BIBLIOGRFICAS

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  • Algumas notas sobre a historia do cinema documentario etnogrfico

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    Chronnique dun t. Dir: Jean Rouch, Edgar Morin. Frana, 85min, P&B, 16mm,

    1959.

    Dead Birds. Dir: Robert Gardner, Nova Guin Ocidental/Estados Unidos, 83 min,

    1963.

    Hepari Idubrada, obrigado irmo. Dir.: Divino Tserewahu. Vdeo Cor, 17 min., 1998.

    Prod.: CTI

    Jaguar. Dir: Jean Rouch. Frana, 110min, Cor, 1954.

    Karbas First Years: A Study of Balinese Childhood, B&W, 1952, 20 minutes.

    Moi, un Noir. Dir: Jean Rouch. Frana, 80min, P&B, 16mm, 1959.

    Nanook of the North. Dir: Robert Flaherty. EUA, P&B, 55 min, 1922.

    O homem com a cmera. Dziga Vertov, Unio Sovitica, 103 min, 1929.

    Rituaes e festas Bororo. Luiz Thomaz Reis, 20 min, 1917.

    Tem que ser curioso. Dir.: Caimi Waiasse. Vdeo Cor, 16 min., 1997. Prod.: CTI

    The Hunters. Dir: John Marshall, 72 minutos , 1958.

    Trance and dance in Bali. Dir: Gregory Bateson & Margareth Mead, 1951, 20 min.

    Wapt Mnhono - iniciao do jovem Xavante. Dir.: Bartolomeu Patira et al. Vdeo

    Cor, 75 min.,1999. Prod.: CTI

    Wai'a e o mundo Xavante. Dir.: Rodrigo Guimares. Vdeo cor, VHS, 2001. Prod.:

    Rodrigo Guimares

  • Rafael Franco Coelho

    Revista Comunicacin, N10, Vol.1, ao 2012, PP.755-766 ISSN 1989-600X 766

    Wai'a Rini: O poder do sonho. Dir.: Divino Tserewahu. Vdeo Cor, VHS NTSC, 65

    min., 2001. Prod.: Vdeo nas Aldeias

    1. Introduo2. Documentrio etnogrfico3. Documentrio etnogrfico no Brasil4. Documentrio etnogrfico contemporneoREFERENCIAS BIBLIOGRFICASFILMOGRAFIA

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