Algumas Consideracoes Sobre a Variacao Linguistic A e a Mutacao Semantica

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    08-Jul-2015

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ALGUMAS CONSIDERAES SOBRE A VARIAO LINGUISTICA E A MUTAO SEMNTICA Dirley Aparecida Zolletti Zanerato1

RESUMO: Como se l no prprio ttulo, este artigo se prope a apresentar a interdependncia entre o fenmeno da mutao semntica e a variao lingstica em suas principais dimenses. PALAVRAS-CHAVE: 1. Sociolingstica. 2. Variao. 3. Mutao Semntica.

1. INTRODUO: Considerando que, na literatura lingstica existem poucos estudos acerca da mutao semntica, o objetivo deste trabalho tecer algumas reflexes sobre os processos de mutao semntica, considerando que, ao lado da variao lingstica, a mudana lingstica tambm se verifica no domnio da semntica. Para tanto, partiremos dos conceitos de mutao semntica e da variao lingstica, procurando estabelecer as relaes entre ambos. Assim, partiremos de uma informao terica com base em Mattoso Cmara Jr. (2002), Lyons (1987), entre outros.

2. MUTAO SEMNTICA E VARIAO LINCUISTICA Mutao Semntica. A semntica estuda a significao das formas lingsticas, ou seja, ela um meio de representao de sentido dos enunciados. Entende-se por mutao semntica as mudanas de sentido que ocorrem na estrutura da lngua decorrentes de fatores internos, intralingsticos, e/ou de fatores externos, extralingsticos. No primeiro caso, os fatores internos decorrem do processo de mudana lingstica, dizem respeito ao processo de evoluo da palavra ou da lngua em seu todo. No segundo caso, a mutao semntica condicionada por fatores de ordem externa estrutura da lngua, tais como a intencionalidade do falante, o contexto ou

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Professora de Lngua Portuguesa do IESA - Instituto de Ensino Superior da Amaznia. Especialista em Lingstica Aplicada Educao. Mestranda em Lingstica Descritiva pela UNIR Universidade Federal de Rondnia.

situao de uso da lngua, a identidade social do falante e do(s) ouvinte(s). Entram a, tambm, outros fatores de ordem psicossocial, social, geogrficos, religiosos, polticos, entre outros. Isso significa dizer que a construo do sentido e, conseqentemente, a mutao semntica , na verdade, contextual e que ela ocorre ao lado da variao lingstica. De acordo com Mattoso Cmara (2002: 173), a mutao semntica consiste na mudana, permuta ou cmbio que ocorre inevitavelmente no mbito interno da lngua, quando h alterao no sentido de um semantema em dada palavra, alterao essa decorrente de um processo gradativo, contudo capaz de referir fases que demarcam a diviso da histria da lngua. A esse processo d-se o nome de evoluo, permanente e inevitvel, o qual ocorre para mais ou para menos conforme as condies polticas e sociais da histria externa da lngua que o influenciem. importante deixar claro, que no fazem parte desse processo as palavras obtidas por emprstimo. Para ilustrar, por exemplo, o verbo latino tenere originalmente significava segurar. Ao longo de seu processo evolutivo, na passagem do latim clssico para o latim vulgar e deste para o portugus, o verbo tenere sofreu mudana no somente na forma fontica e conseqentemente escrita. Mais que isso, a mesma palavra sofreu tambm, mudana na estrutura morfolgica e, sobretudo, mutao semntica, significando hoje ter ou possuir, conforme o esquema a seguir: 1. tenere segurar > te ) nere > * te ) ere > * teere > teer > ter possuir. Um outro exemplo o caso da palavra vermelho. Em latim clssico, vermculo, o diminutivo de verme. Por um processo de mudana semntica, atravs da metonmia (uma parte pelo todo), a cor do sangue de um inseto ou verme, passou, em portugus a representar o nome da prpria cor, conforme esquema abaixo: 2. vermculo vermezinho > vermiclo > vermilho > vermelho cor. bom lembrar que, em latim, a palavra para nomear a cor era carmine que, na passagem para o portugus, deu carmim, a qual sinnimo da cor vermelho vivo. Nos exemplos supracitados observa-se que a mutao semntica ocorreu concomitantemente com a mudana fontica, ortogrfica e morfolgica. Mas isso no uma pr-condio para a mutao semntica. Ela pode ocorrer sem que haja mudana de forma. A palavra aula, por exemplo, em latim significava ptio ou quintal. No portugus moderno,

a mesma palavra ainda conserva a forma original, no entanto, sofreu alterao substancial de significao, passando a significar lio ou sesso de ensino. Para citar mais um caso, a mutao semntica pode ocorrer sem que haja necessariamente mudana de estrutura morfolgica. Fenmenos como, o da gria servem de teste para a reacomodao semntica de um determinado item lexical. A palavra legal, por exemplo, em portugus, originria do latim legis, que significa lei. Ela ainda permanece com seu sentido original, ou seja, de acordo com a lei. Assim, a palavra tem sentido jurdico, preciso, sendo, portanto, um termo tcnico. Entretanto, no se sabe exatamente onde e quando, a palavra legal passou a ser utilizada como gria e ampliou-se semanticamente passando a ter os sentidos de bom, agradvel, honesto, bonito, divertido, entre outros, de acordo com a situao em utilizada. Nota-se que houve mudana de monossemia para polissemia. Assim, o sintagma Domingo Legal, ttulo de um programa do SBT (Sistema Brasileiro de Televiso), no pode ser interpretado como programa de acordo com a lei, mas como programa agradvel, ou divertido.

Mutao Semntica e Variao Lingstica: Variao lingstica o fenmeno de uma lngua sofrer variaes ao longo do tempo, do espao geogrfico, do espao ou estrutura social, da situao ou contexto de uso. Isso significa dizer que uma lngua est sujeita a reajustar-se no tempo e no espao para satisfazer s necessidades de expresso e de comunicao, individual ou coletiva, de seus usurios. Uma caracterstica de todas as lnguas do mundo o fato de no serem faladas da mesma maneira por todos os seus usurios. Alguns afirmam que isso ocorre na lngua portuguesa, porque os brasileiros no sabem muito bem o portugus. Isso no condiz com a verdade, todas as lnguas variam. A lngua portuguesa, por exemplo, provm de uma variao do latim, o latim vulgar (lngua popular), muito diferente do latim culto, que s era falado por uma pequena parte da populao da poca. A variao inseparvel do fenmeno lingstico e tm formas variveis porque as sociedades so constitudas por grupos distintos em vrios aspectos. Isso define o uso de determinada variedade e serve para identificar seus membros. Aprendemos a diferenciar as falas e, no momento em que nos comunicamos com algum, percebemos se do Paran, do Rio Grande, de Rondnia ou de outros lugares do pas. Da mesma forma percebemos outras caractersticas do falante, como, profisso, classe social etc. Os aspectos percebidos com mais facilidade so dois: a pronncia e o vocabulrio.

Contudo, a variao lingstica se manifesta em todos os nveis da lngua (sons, morfologia, sintaxe e lxico). a mistura desses fatores que torna implexo o fenmeno da variao. importante, porm, lembrar que a mutao semntica ocorre simultaneamente com a variao lingstica, sendo uma conseqncia da prpria variao. Contudo, tambm preciso distinguir os vrios tipos de variao lingstica e suas relaes com a mutao semntica. Nos tpicos a seguir, mencionaremos os vrios tipos de variao lingstica supracitados.

2.2.1 Variao diatpica e mutao semntica: No plano lxico e semntico, a variao diatpica o fenmeno de uma determinada comunidade de fala ou regio eleger expresses prprias para nomear seres ou situaes, para os quais encontraremos denominaes distintas em outras regies. Para citar alguns exemplos, no Estado do Paran o item lexical bombom tem sentido de doce de chocolate, em Porto Velho, Rondnia, tem sentido de bala, ou seja, pequena pelota de acar solidificada, com sabor. Um outro exemplo o caso de gua, que para o paranaense tem sentido de fmea do cavalo e pode ter tambm conotao pejorativa; para o rondoniense, alm destes mesmos sentidos, a mesma palavra, em certas situaes, sofre esvaziamento semntico, ou seja, perde seu sentido original e ganha outro sentido. Assim gua usada como interjeio de surpresa em certas situaes da fala, por exemplo: - gua! Como voc est bonita! bom salientar que ao se deve confundir a mutao semntica com regionalismo. Nesse caso, tm-se palavras diferentes (ou significados distintos) para um mesmo objeto. Como: no Paran o sorvete caseiro, feito geralmente com suco de frutas, conhecido como geladinho. Em Minas Gerais, conhecido como chup-chup e, em Rondnia, denominado dindim, que no Brasil como um todo, pode significar dinheiro. Lari (1991), em seu Dicionrio de Baians, cita uma srie de expresses tpicas do povo baiano, por exemplo: caf com leite, que alm do significado denotativo, na Bahia pode conotar criana que entra na brincadeira, mas no vera. (p.9).

2.2.2 Variao diastrtica e mutao semntica: Por variao diastrtica, entende-se as variaes que a lngua apresenta na estrutura social, ou seja, so as variaes que ocorrem de um grupo social para o outro. Assim, fatores

tais como sexo, faixa etria, condio socioeconmica, profisso, religio e at mesmo convices poltico-partidrias e esportivas, entre outros, condicionam mudanas no uso efetivo da lngua. Evidentemente, se h variao, h mutao: a palavra bacana originria de bacanal sofreu variao e mutao ao longo de sua histria evolutiva. Usada por algum tempo como gria especfica de determinados grupos sociais, incorporou-se ao portugus do Brasil e hoje usada e aceita indistintamente por quaisquer segmentos sociais. No entanto, para um determinado segmento social especfico, os malandros e marginais, sobretudo os cariocas, a palavra bacana pode ganhar em certas situaes de uso a conotao de rico ou privilegiado, como na expresso festa de bacana (=festa de rico). Para citar mais um exemplo, o mesmo ocorre com a palavra homem. Para quaisquer falantes de portugus, homem pode ter um sentido amplo, geral, de ser humano ou mais especfico, isto ser humano do sexo masculino. No entanto, em certas situaes de uso, a mesma palavra pode significar polcia, como em -Corre, que l vem os home!, ou patro, como em O homem te mandou embora?.

2.2.3 Variao diafsica e mutao semntica: Este tipo de variao lingstica diretamente ligado aos fatores psico-emocionais, por isso pode-se denomin-la intencional ou situacional e inclusive explic-la pela simples observao das atividades verbais que so adequadas ao ato da fala pelas circunstncias em que se encontra o falante. Assim, pode-se dizer que o contexto de uso da lngua condiciona tambm a variao e, consequentemente, a mutao semntica. De fato, a palavra mulher, no diminutivo, ou seja, mulherzinha pode, de acordo com a situao e a inteno do emissor, significar: a) mulher pequena, donotativamente; b) minha esposa oi minha amada, afetivamente; c) mulher vulgar ou prostituta, pejorativamente; d) homem frouxo ou covarde, pejorativamente, se aplicada a um homem. Nota-se, portanto, que determinadas palavras nocionais, sobre tudo as que tm alta freqncia de uso, podem sofrer e geralmente sofrem mudanas de significao condicionadas por fatores extralingsticos, situacionais ou diafsicos.

3. CONCLUSO

Das reflexes e exemplos supracitados, pode-se concluir que o material semntico da lngua extremamente volvel, pois as palavras ou expresses podem sofrer mudanas de significao condicionadas pela situao de uso. Isso significa dizer, na verdade, que o sentido de uma palavra, de uma expresso, de uma frase ou de um texto como um todo no independente da variao lingstica em suas mltiplas dimenses.

BIBLIOGRAFIA: CMARA JR., Joaquim Mattoso. Petrpolis: Vozes, 2002. Dicionrio de Lingstica e Gramtica. 24.ed.

LARI, Nivaldo. Dicionrio de baians. Salvador: edio do autor, 1991. LYONS, John. Linguagem e Lingstica. Traduzido por Marilda Winkler Averburg & Clarisse Sieckenius de Souza. Rio de Janeiro: LTC Livros Tcnicos e Cientficos S.A, DUBOIS, J. et al. Dicionrio de Lingstica. 13. ed. So Paulo: Cultrix, 2005.