AGRICULTURA FAMILIAR E SUCESSO PROFISSIONAL: NOVOS ...

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    10-Jan-2017

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    AGRICULTURA FAMILIAR E SUCESSO PROFISSIONAL: NOVOS DESAFIOS

    Ricardo Abramovay1

    Milton Luiz Silvestro2

    Mrcio Antonio de Mello2

    Clvis Dorigon2

    Ivan Tadeu Baldissera2

    RESUMO Para a maioria dos filhos de agricultores familiares do Oeste de Santa Catarina,a permanncia na profisso paterna o horizonte profissional mais desejado. A dificuldade deacesso terra um dos grandes obstculos para que este desejo possa realizar-se. Existe umaambigidade bsica nesta aspirao profissional: se por um lado, ela corresponde quilo a queos jovens se julgam mais capacitados, por outro ela tem sido, at aqui, o destino exatamentedaqueles cujo nvel de formao educacional o mais baixo. A reside uma das explicaespara o fato de a profisso agropecuria ser to minoritria como projeto das moas,contrariamente ao que ocorre com os rapazes. O trabalho preconiza uma poltica fundiriavoltada a contemplar esta aspirao profissional dos jovens agricultores: reas de agriculturafamiliar sem sucessores deveriam voltar-se prioritariamente ao atendimento das necessidadesde terra dos jovens agricultores.

    Palavras-chave: agricultura familiar; transferncia hereditria; sucesso profissional;juventude rural

    INTRODUOEste artigo faz parte de uma linha de pesquisa mais abrangente que trata da questo

    sucessria na agricultura familiar do Oeste catarinense e discute alguns fatores determinantesna formao profissional de uma nova gerao de agricultores. Este tema est sendoinvestigado desde 1997 pelo Centro de Pesquisa para Pequenas Propriedades da Epagri3.

    Os dados aqui apresentados foram obtidos em uma pesquisa de campo realizada emdez municpios representativos da agricultura familiar do Oeste de Santa Catarina. Nestapesquisa foram entrevistados os pais os filhos e as filhas de 116 estabelecimentosrepresentativos de um universo de aproximadamente 70 mil unidades familiares de produo.Para uma melhor compreenso e anlise dos dados as unidades pesquisadas foram divididasem trs estratos de renda: a) Consolidadas (mais de trs salrios mnimos/ms/por pessoaocupada); b) Em Transio ( renda entre um a trs salrios mnimos/ms/pessoa ocupada) c)Perifricas (renda inferior a um salrio mnimo/ms/pessoa ocupada).

    AS EXPECTATIVAS PROFISSIONAIS DOS JOVENS

    Opo ou fatalidadeO que mais chama a ateno no desejo de permanecer na profisso agrcola por parte

    da maioria dos rapazes do Oeste de Santa Catarina a coincidncia em suas respostas sobre o

    1 Professor da FEA e Programa de Cincia Ambiental (PROCAM/USP). abramov@usp.br2 Pesquisadores do Centro de Pesquisa Para as Pequenas Propriedades, (CPPP/Epagri); miltons@epagri.rct-sc.br

    3 Esta linha de pesquisa conta com o apoio financeiro da Secretaria de Agricultura Familiar e Pronaf, vinculadosao Ministrio do Desenvolvimento Agrrio

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    futuro almejado e o que imaginam ser seu destino provvel. claro que sempre se pode dizerque os indivduos da mesma forma que as sociedades no formulam projetos dos quaisno possam antever minimamente as possibilidades de realizao. Assim, no futuro desejadoj estariam embutidas as restries que o aproximam do futuro provvel (4).

    Entretanto, se, de fato, entre os rapazes foi notvel a coincidncia entre as duasrespostas mais de dois teros deles querem permanecer na atividade que aprenderam com ospais, como mostram os dados da tabela 1 o mesmo no pode ser dito com relao s moas.Na mesma tabela, v-se uma pequena diferena entre as duas respostas das moas: 32% delasdesejam permanecer num estabelecimento agropecurio, mas 37% julgam provvel que esteseja o seu destino. A diferena entre as duas respostas aumenta nitidamente quando seconsidera os estratos de renda: entre as moas vivendo em famlias perifricas, apenas 28%desejam permanecer no estabelecimento agropecurio, mas um total de 40% diz que a estaro seu destino. Entre as moas de menor renda h distncia, para usar a linguagem da teoria doconsumidor, entre preferncia e escolha no que se refere organizao do futuroprofissional. Permanecer numa unidade produtiva rural, para muitas delas, muito mais umafatalidade que uma opo.

    Tabela 1. Futuro profissional "desejado" e "provvel" segundo os jovens agricultores do Oestecatarinense

    RAPAZES MOASRespostas Desejado Provvel Desejado ProvvelPermanecer na agricultura como proprietrio (a) 69 71 32 37

    Permanecer na agricultura com tempo parcial 0 0 6 0

    Trabalhar e morar na cidade 20 17 43 36

    Trabalhar na cidade e morar na propriedade 0 0 10 8

    Ficar no meio rural trabalhando em atividades no agrcolas 4 5 8 5

    Outras 7 7 1 7

    Total 100 100 100 100

    Nmero de respostas 108 95 105 95

    Fonte: pesquisa de campo, 2000

    Mesmo para os rapazes, entretanto, existe uma ntida conscincia dos limites que seopem realizao de sua vocao explcita. Na tabela 2 pode-se observar como os rapazesencaram seu futuro profissional, apontando o que h de mais importante na questosucessria. A convico de que a vida profissional estar organizada em torno de umestabelecimento agropecurio bem menor, entre os rapazes, que o revelado na tabela 1.Apenas 38% dos jovens responderam ao item gosta de ser agricultor e certo que seragricultor. Mas quando se soma esta resposta quela em que o rapaz afirma que desejariaser agricultor mas v dificuldade, constata-se que alm dos 38% dos rapazes que gostam,outros 31% desejariam permanecer na profisso de agricultor, mas vem dificuldades paratanto. Entre os principais fatores que dificultam ser agricultor, 81% dos rapazes apontaram afalta de capital para investimento, 40% a falta de novas oportunidades de renda e 30% a faltade terra.

    4 Este o pressuposto bsico, em microeconomia, da teoria do consumidor: a racionalidade considerada pelateoria do consumidor pressupe portanto que no existe distncia entre preferncia e escolha: o consumidorprefere o que ele escolhe e escolhe o que prefere (Zamagni, 1984/1987:125)

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    Tabela 2. Opinio dos rapazes quanto ao seu futuro como agricultor (%)

    Respostas TotalConso-lidada

    Tran-sio

    Peri-frica

    Gosta de ser agricultor e certo que ser agricultor 38 62 44 22

    Prefere ter outra profisso, mas provavelmente ser agricultor 12 14 7 16

    Desejaria ser agricultor, mas v dificuldades 31 19 26 41

    No sabe se ser agricultor porque ainda no pensou nisso 6 5 14 0

    No deseja ser agricultor 13 0 9 21

    Total 100 100 100 100

    Nmero de respostas 110 21 43 46Fonte: pesquisa de campo, 2000

    Como pode ser visto as dificuldades so vrias, e entre elas aparece o problema doprprio acesso terra. A pesquisa constatou que apenas 21% dos rapazes, 7% entre osperifricos, a quantidade de terra a ser herdada suficiente e boa" revelando um ntidoproblema de insuficincia ou de qualidade de terra em todas as categorias de renda estudadas.

    Estas respostas variam e com impressionante coerncia segundo as classes derenda consideradas. Os dados da pesquisa mostram que o desejo de permanecer na agriculturacomo proprietrio cai conforme declina a categoria de renda considerada. Ao contrrio, aaspirao por viver na cidade tanto maior quanto menos promissor o horizonte de geraode renda no estabelecimento paterno.

    Da mesma forma, como pode observar-se na tabela 3, nada menos que 72% dosrapazes julgam que considerando seu grau de instruo tm melhores oportunidades nomeio rural, na agricultura. Note-se que a possibilidade de insero urbana encarada combastante ceticismo pelos rapazes. Somente 13% deles julgam que na cidade esto suasmelhores chances de realizao profissional. E este percentual sobe conforme cai a rendafamiliar: a cidade encarada como fonte promissora de gerao de renda para 5% dos filhosde famlias consolidadas, mas por 20% dos filhos das famlias mais pobres.

    Tabela 3. Questo dirigida aos rapazes: Considerando o seu grau de instruo onde voc acha que tem asmelhores oportunidades (%)

    Respostas TotalConso-lidada

    Tran-sio

    Peri-frica

    No meio rural e na agricultura 72 81 81 61

    No meio rural com atividades agrcolas e no agrcolas 13 14 7 17

    Na cidade mas com a renda principal de atividades agrcolas 2 0 2 2

    Na cidade, em atividades da cidade (servios, indstria, etc.) 13 5 10 20

    Total 100 100 100 100

    Nmero de respostas 109 21 42 46Fonte: pesquisa de campo, 2000

    J entre as moas, rejeio majoritria da profisso agrcola corresponde maioresperana na insero urbana. A tabela 1 mostra que trabalhar e morar na cidade o futurodesejado de 43% das moas embora proporo menor (36%) acredite que conseguiralcanar este futuro. Se, como foi visto na tabela 3, 72% dos rapazes consideram ter melhoresoportunidades no meio rural (com base em seu grau de instruo), esta proporo cai, entre asmoas, para 54% com pode ser visto na tabela 4. E da mesma forma que entre os rapazes sque em propores maiores a cidade aparece como horizonte tanto mais promissor, quantomenor a renda familiar.

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    Tabela 4. Questo dirigida as moas: Considerando o seu grau de instruo onde voc acha que tem as melhoresoportunidades (%)

    Respostas TotalConso-lidada

    Tran-sio

    Peri-frica

    No meio rural e na agricultura 54 50 56 54

    No meio rural com atividades agrcolas e no agrcolas 13 22 16 7

    Na cidade mas com a renda principal de atividades agrcolas 7 11 3 9

    Na cidade, em atividades da cidade (comrcio, indstria, etc.) 26 17 25 30

    Total 100 100 100 100

    Nmero de respostas 106 18 43 45Fonte: pesquisa de campo, 2000

    A tabela 3 fornece tambm uma indicao recorrente neste trabalho. Apesar dasevidncias da importncia das atividades no-agrcola no meio rural brasileiro (Graziano daSilva e Campanhola, 2000) e mesmo em Santa Catarina (Mattei, 1998), os estabelecimentosestudados so fundamentalmente voltados produo agrcola e pecuria. As atividades no-agrcolas no meio rural no fazem parte da experincia cotidiana dos jovens que vivem nointerior dos estabelecimentos agropecurios. Na maioria das propriedades familiares do Oestecatarinense a renda proveniente de atividades agropecurias. A nossa pesquisa permiteafirmar que atualmente so quase inexistentes as oportunidades de gerao de renda no-agrcolas no meio rural da regio.

    A tabela 3 indica ainda uma apreciao positiva da agricultura bem maior entre osfilhos de famlias consolidadas que entre queles vivendo em unidades empobrecidas. Maschama a ateno que quase dois teros dos perifricos consideram que suas melhores chancesesto na agricultura e que apenas 20% deles considerem que as cidades oferecem-lhes asmelhores oportunidades.

    Em suma, pode-se dizer que existe uma importante aspirao de continuidade naagricultura familiar por parte dos rapazes mesmo aqueles vivendo em unidades que nochegam a gerar sequer a renda necessria reproduo familiar - e uma viso bastantenegativa a respeito deste horizonte profissional para a maioria das moas. Os filhos dasfamlias de maior renda encaram a permanncia na agricultura como promissora e isso ntido tanto entre rapazes como entre as moas. O preocupante que parece haver umaassociao forte entre a escolha profissional em torno da agricultura familiar e um nvel deeducao especialmente precrio por parte dos que encaram como desejado este futuro.

    ALGUNS DETERMINANTES DA ESCOLHA PROFISSIONAL

    A importncia da educaoA escolha profissional dos jovens agricultores determinada por um conjunto de

    fatores, dos quais os mais relevantes so suas expectativas de gerao de renda na unidadepaterna comparadas com o que imaginam ser possvel alcanar inserindo-se em mercados detrabalho assalariado. A educao um elemento decisivo no horizonte profissional dequalquer jovem: na agricultura familiar entretanto a regra, constatada em inmeros estudos daAmrica Latina (Durston, 1996), que fica no campo o filho ao qual la cabeza no le d params. Mesmo um Estado como Santa Catarina, onde o nvel educacional est entre os maisaltos do Pas, acaba no fugindo a esta regra. A gerao que hoje mais pode candidatar-se direo dos trabalhos agropecurios - os filhos que permanecem nas propriedades paterna eque j saram da escola tem formao educacional to precria que confirma a asserosegundo a qual ou se estuda, ou se fica no campo.

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    Na tabela 5, os rapazes entre 25 e 29 anos que vivem na propriedade paterna (na suaesmagadora maioria solteiros) so, evidentemente, os primeiros candidatos a sua sucesso.Dos 1.940 jovens nesta faixa etria, 1.163 (60% deles) estudaram apenas at a 4 srie, o quecorrobora a hiptese de que ficaram na propriedade aqueles que no obtiveram o passaportepara ingressar no mercado de trabalho urbano. Nesta faixa etria est a maior proporo deanalfabetos (4% do total). A idia corroborada pela situao da faixa etria imediatamenteanterior: dos 1.823 jovens entre 19 e 24 anos morando na propriedade paterna, nada menosque 697 (38% deles) estudaram apenas at a 4 srie. Entre os jovens com 13 a 18 anos, aproporo dos que possuem apenas at a 4 srie cai para 19%, mostrando que o padro defreqncia escolar alterou nitidamente. Tirar os jovens da escola ao 4 ano primrio deixou deser uma prtica socialmente dominante.

    Tabela 5. Grau de instruo dos filhos de agricultores familiares com idade entre 7 e 29 anos nosmunicpios pesquisados - em valores absolutos

    IDADE Total No alfabe-tizado

    at a 4srie

    5 a 8 srie 2 grau 3 grauincompleto

    3 graucompleto

    7 a 12 anos 3.892 35 2.774 1.083 0 0 013 aos 18 anos 3.845 45 726 2.301 763 10 019 aos 24 anos 1.823 28 697 569 465 55 925 aos 29 anos 1.940 80 1.163 456 192 28 21TOTAL 11.500 188 5.360 4.409 1.420 93 30Fonte: Censo Agropecurio Municipal - Epagri (1999).

    Pode-se dizer que o estudo serve como um passaporte para o ingresso na vida urbana eque o baixo nvel educacional tem-se associado, at aqui, permanncia na propriedadepaterna: os jovens que migram para a cidade apresentam maior escolaridade em relao aosque saram da propriedade paterna mas que permanecem no meio rural e que vo continuar naprofisso agropecuria, formando famlia e uma unidade produtiva independente da paterna. o que pode ser observado na tabela 6.

    Tabela 6. Nvel de escolaridade dos filhos que saram da propriedade segundo o local de destino ( em %)

    Grau de instruo Urbano Rural

    1 a 4 srie do primeiro grau 36 69

    5 a 8 srie do primeiro grau 45 31

    1 a 3 srie do segundo grau 16 0

    Curso superior incompleto 1 0

    Curso superior completo 2 0

    Total 100 100

    Nmero de respostas 103 72Fonte: pesquisa de campo, 2000

    Quando se consideram os estratos de renda, no existe diferena no grau deescolaridade dos jovens que migram da propriedade mas permanecem no meio rural, comopode ser observado na tabela 7. Entretanto, quando se consideram os jovens que migram paraa cidade, tabela 8, observamos que os filhos de agricultores consolidados possuem um nvelde escolaridade superior queles dos agricultores perifricos. Portanto a expectativa deretorno econmico da educao relevante quando se trata da migrao para as cidades equase inexistente para os jovens que permanecem no meio rural.

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    Tabela 7. Nvel educacional dos filhos que permaneceram no meio rural (%)GRAU DE INSTRUO Total Consolidado Transio Perifrico

    1 a 4 srie 69,4 69,2 69,6 69,4

    5 a 8 srie 30,6 30,8 30,4 30,6

    TOTAL 100,0 100,0 100,0 100,0

    Nmero de respostas 72 13 23 36

    Fonte: pesquisa de campo, 2000

    Tabela 8. Nvel educacional dos filhos que saram para a cidade (%)GRAU DE INSTRUO Total Consolidado Transio Perifrico

    1 a 4 srie 35,9 27,3 23,7 46,3

    5 a 8 srie 44,7 36,4 52,6 40,7

    2 grau 16,5 27,3 18,4 13,0

    superior incompleto 1,0 0,0 2,6 0,0

    superior completo 1,9 9,1 2,6 0,0

    TOTAL 100,0 100,0 100,0 100,0

    Nmero de respostas 103 11 38 54

    Fonte: pesquisa de campo, 2000

    A tabela 9 corrobora esta idia e traz uma informao adicional importante: entre osrapazes que se concentra a maior parte dos que praticamente no tiveram acesso educao.Todo o universo de nossa pesquisa, compe-se de jovens que, em princpio, j deveriam tercompletado a 4 srie. Ora, nada menos que 30% dos rapazes entrevistados tm apenas estegrau de estudo. Entre as moas, esta proporo cai para 13%. E o interessante que a idademdia dos que se encontram nesta situao muito alta: 26 anos no caso das moas e 27 anospara os rapazes. Confirmando a precariedade do acesso educao, sobretudo entre osrapazes, percebe-se que somente 22% deles tm ou esto cursando o segundo grau (1 a 3srie). Esta proporo sobe a 56% entre as moas. E a que est a menor idade mdia desteuniverso, 44% dos rapazes tm ou cursam de 5 a 8 srie, contra apenas 29% das moas. Masnesta faixa etria, a idade mdia das moas muito mais baixa que a dos rapazes: 17 anos,contra 25 anos, o que leva a crer que nesta idade as moas ainda esto estudando e os rapazesj devem ter parado.

    Tabela 9. Nvel educacional e idade mdia dos jovens entrevistados

    Nvel educacional Rapazes (%)Idade mdia

    (anos) Moas (%)Idade mdia

    (anos)

    1 a 4 srie do primeiro grau 30 27 13 26

    5 a 8 srie do primeiro grau 44 25 29 17

    1 a 3 srie do segundo grau 22 19 56 18

    Tcnico agrcola 3 18 0 0

    Curso superior 1 25 2 23

    Nmero de respostas 114 - 116 -Fonte: Pesquisa de campo, 2000

    A prpria viso dos jovens a respeito das necessidades educacionais para odesempenho da profisso agrcola varia conforme sua situao social. Assim, na tabela 10pode-se ver que nenhum filho de agricultor consolidado considera possvel um bom exerccio

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    profissional apenas com a quarta srie do primeiro grau. Entre os perifricos 11% dosentrevistados dizem que possvel ser agricultor somente sabendo ler e escrever e outros12% julgam que suficiente a quarta srie do primeiro grau. Entre os em transio estaspropores so de 5% e 21%. Apenas um quarto dos filhos de agricultores perifricos e dosem transio associam nitidamente a agricultura a baixo nvel educacional. J o cursotcnico necessrio para 28% dos rapazes vivendo em unidades consolidadas, mas paraapenas 5% e 4% respectivamente dos que esto em famlias em transio e perifricas.

    Tabela 10. Opinio dos rapazes quanto ao nvel mnimo de instruo para desempenhar a profisso de agricultor(%)

    Respostas TotalConso-lidada

    Tran-sio

    Peri-frica

    Saber ler e escrever 6 0 5 11

    Primrio completo (4 srie) 13 0 21 12

    Ginsio (8 srie) 38 38 33 43

    Segundo grau 32 24 36 30Curso tcnico agrcola (segundo grau) 9 28 5 4

    Fazer curso da Casa Familiar 1 5 0 0

    Faculdade 1 5 0 0

    Total 100 100 100 100

    Nmero de respostas 110 21 43 46Fonte: pesquisa de campo, 2000

    Em suma, existe um ntido contraste entre as opinies dos jovens entrevistados arespeito das exigncias educacionais para o exerccio da profisso agropecuria e a situaoatual dos responsveis pelos estabelecimentos ou seus sucessores mais provveis, cujo nvelde escolaridade foi muito precrio. evidente que uma poltica fundiria voltada a estasregies e a agricultores na faixa etria entre 18 e 30 anos ter que associar-se a mtodosalternativos aos da educao formal para que o acesso terra venha de par com uma melhoraem suas capacidades profissionais.

    Influncia familiar e diferenciao socialA influncia familiar nas decises profissionais dos filhos que, nas geraes

    anteriores, at o final dos anos 1960, revestia-se freqentemente de considervel conotaomoral pode ser claramente interpretada com base nos diferentes nveis de renda dos queresponderam ao questionrio. Assim, entre as famlias de agricultores consolidados e emtransio, a maior parte mais at entre os em transio que entre os consolidados estimulam os filhos a permanecer na atividade. Entre os perifricos, este percentual cai para31% (tabela 11).

    Tabela 11. Questo dirigida aos pais: Voc estimula seus filhos a serem agricultores (%)

    Respostas TotalConso-lidada

    Tran-sio

    Peri-frica

    Estimula todos os filhos a serem agricultores 48 52 64 31

    Estimula s um filho a ser agricultor 3 5 0 6

    Desestimula seus filhos a serem agricultores 12 10 7 16

    No influencia os filhos nem a favor e nem contra 37 33 29 47

    Total 100 100 100 100

    Nmero de respostas 115 21 45 49Fonte: pesquisa de campo, 2000

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    Quando perguntados sobre as razes que os levavam a influir num sentido ou noutroas respostas dos pais variaram segundo os nveis de renda: assim, para os agricultoresconsolidados e em transio, a proximidade da famlia e a rejeio ao assalariamento sofatores importantes para o desejo de que os filhos prossigam na profisso paterna. Para osperifricos, a rejeio ao assalariamento irrisria: que, na verdade, a reproduo da famliaj depende fundamentalmente do trabalho assalariado e sua pobreza agrcola mostra poucasperspectivas de que a explorao da unidade produtiva seja uma fonte essencial de renda. interessante observar que a obrigao de ficar com os pais tambm francamenteminoritria, confirmando que o padro sucessrio anterior em que o filho destacado paracuidar dos pais era compensado com a herana da propriedade (Abramovay et al. 1998) foiclaramente ultrapassado.

    Isso no significa porm que as relaes familiares percam importncia nas decisessobre o futuro. Colocados diante da questo em que condies voc aceitaria ser agricultorfora do Oeste Catarinense (tabela 12), metade dos rapazes entrevistados dizem que nosairiam da regio onde moram hoje. Mas h uma ntida diferena social nas respostas: para osfilhos de agricultores consolidados mais visvel o horizonte de se estabelecer em outraregio do Pas. Assim, 33% deles afirmam que no sairiam do Oeste catarinense e 43% ofariam, desde que obtivessem crdito fundirio e de instalao. Entre os perifricos 57% noaceitariam sair da regio e apenas 19% conseguem encarar a perspectiva de mudana combase em crdito fundirio e de instalao. Para aqueles que vo se habituando a gerir umnegcio com certa prosperidade a idia de expandir suas atividades e mesmo de instalar-selonge bem mais verossmil que para os rapazes cujo cotidiano marcado pela imensadificuldade de reproduzir a unidade produtiva e garantir a manuteno da famlia.

    Tabela 12. Em que condies os rapazes aceitariam ser agricultor fora da regio Oeste de Santa Catarina (%)

    Respostas TotalConso-lidada

    Tran-sio

    Peri-frica

    Somente com crdito fundirio e de instalao 22 43 16 19

    Somente atravs da reforma agrria 1 0 2 0

    Somente em terras de melhor qualidade 22 19 26 19Em qualquer das situaes anteriores 5 5 5 5

    No aceitaria sair da regio 50 33 51 57

    Total 100 100 100 100

    Nmero de respostas 106 21 43 42Fonte: pesquisa de campo, 2000

    Pobreza e estreitamento das relaes sociaisA imagem de isolamento freqentemente associada vida no meio rural no apenas

    um preconceito. Os grupos de jovens da Igreja Catlica so a mais importante forma desocializao dos rapazes e das moas do Oeste de Santa Catarina. Convm lembrar que amaioria deles no so grupos constitudos permanentemente. Os encontros acontecem deforma espordica e com o objetivo principal de discutir questes religiosas e relacionadas aolazer. Quase nunca tratam das questes ligadas ao seu futuro profissional. Dos rapazesentrevistados, 20% declaram no manter qualquer relao com agentes externos. Entre estes, agrande maioria vive nas famlias perifricas: 44% dos rapazes destas famlias vivem numimpressionante isolamento social. No freqentam sequer as atividades dos grupos de jovensda Igreja. Uma vez que estes jovens so exatamente os que mais exercem atividadesassalariadas fora da propriedade, possvel que seu crculo de relaes sociais no estejaincludo entre as alternativas do questionrio aplicado na pesquisa. Mas o mais provvel que

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    a pobreza esteja associada a esta restrio no crculo de relaes sociais. Tambm importante observar que dos 116 rapazes entrevistados, apenas 38 possuem o bloco doprodutor rural: a proporo baixa, uma vez que este documento corresponde a uma espciede pagamento previdencirio sem qualquer nus para a famlia. Apenas 19 rapazes, dos 116entrevistados, tm conta corrente bancria individual. Entre as moas 28% declaram nomanter contatos permanentes com qualquer organizao local. Como no caso dos rapazes, agrande maioria destas vivem em famlias perifricas. Apenas 5 moas (das 116entrevistadas) possuem conta corrente e somente 14 o bloco do produtor rural.

    Os resultados da pesquisa mostram que existe uma ambigidade envolvida nasexpectativas profissionais dos jovens. Por um lado, claro o desejo dos rapazes de darcontinuidade profisso paterna. Esta preferncia no pode ser caracterizada como oresultado do exerccio do que Amartya Sen (2000) chama de liberdades: ela se apoiafundamentalmente na percepo realista de que o nvel educacional de que dispem nopermite grande maioria destes rapazes um horizonte minimamente promissor fora do meiorural. J entre as moas, a menor preferncia por permanecer na profisso agropecuriaassocia-se nitidamente a melhor nvel educacional.

    Ao mesmo tempo, clara a conscincia de que a dotao de conhecimento com quecontam os jovens hoje insuficiente para os desafios de gerar renda numa unidade produtivarural. Esta conscincia abre um amplo espao para polticas pblicas cujo eixo esteja namudana do ambiente educacional existente hoje no meio rural.

    CONCLUSESA pesquisa constatou um impressionante atraso educacional, entre os jovens que

    pararam de estudar e que so os mais provveis sucessores, o que dificulta o desempenho daatividade agrcola e principalmente a organizao e o desenvolvimento das novas atividadeque se colocam para o meio rural. O nvel de escolaridade atual compromete o prprioexerccio de cidadania, uma vez que eles no conseguem sequer ter acesso aos direitoslegalmente constitudos, como por exemplo, a obteno da condio de agricultor atravs do"bloco do produtor".

    A pesquisa possibilitou constatar que a regio Oeste catarinense comea apresentarvazios demogrficos que comprometem o desenvolvimento regional. Nestes espaos j estosendo destrudas as relaes sociais anteriormente existentes, limitando as possibilidades dapopulao remanescente. Esta situao aumenta o isolamento da populao local diminuindoas chances de construo de projetos de desenvolvimento.

    Como agravante, as instituies e organizaes de representao e de apoio ligadas aomeio rural so muito frgeis, sobretudo aquelas ligadas aos agricultores mais pobres. Nestesentido, importante que se fortalea a rede que articula os principais atores dodesenvolvimento rural no Estado de Santa Catarina e suas agncias, prefeituras, cooperativas,sindicatos, ONGs. Para tanto, necessrio criar novos espaos de participao e deciso, quemobilizem esses atores em torno de um frum regional de desenvolvimento e que esse sesubdivida em cmaras setoriais, como de reordenamento fundirio, educao e formaoprofissional, criao de oportunidades de trabalho e renda, entre outros.

    Existe um forte desejo de continuidade na agricultura familiar por parte dos rapazes,mesmo no caso daqueles que vivem em unidades com rendimento econmico precrio, pormh uma viso bastante negativa das moas a respeito desta alternativa profissional.

    A populao vivendo hoje no meio rural do Oeste de Santa Catarina (a incluindotambm suas pequenas aglomeraes urbanas) suficientemente importante para que umconjunto ativo de polticas possa despertar o interesse dos jovens em sua valorizao.

    Entre estas aes, duas so das mais importantes: a que procura destinar as terras cujossucessores j saram do meio rural aos jovens agricultores desprovidos de terra e a que cria

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    um programa de educao formal e de capacitao profissional para os jovens que sero osprovveis sucessores das atuais unidades produtivas.

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

    ABRAMOVAY, R.; SILVESTRO, M.; CORTINA, N.; BALDISSERA, I. T.; FERRARI, D.TESTA, V. M. Juventude e agricultra familiar: desafio dos novos padressucessrios. Braslia: Unesco, 1998. 104 p.

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    Sumrio:

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