Agora Livre Dramaturgias Miolo

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    23-Jun-2015

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gora_00.qxd8/9/062:20 PMPage 1(Black plate)GORA LIVRE DRAMATURGIASgora_00.qxd8/9/062:20 PMPage 2(Black plate)GORA TEATRO coordenao: Celso Frateschi Marlene Salgado Roberto Lage Sylvia MoreiraGORA LIVRE DRAMATURGIAS organizao: coordenao editorial: tratamento de textos e reviso: projeto grfico: editorao eletrnica: impresso: Celso Frateschi Marlene Salgado Confraria de Textos Pedro Becker Werner Schulz Cromosete Grfica e EditoraDados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) gor a liv re dr amaturg ias / [org anizao Celso Fr ateschi]. So Paulo : gor a Teat ro, 2006. Vr ios autores. 1. Crtica teat r al 2. Dr amaturg ia 3. Teat ro br asileiro - Histr ia e crtica I. Fr ateschi, Celso. 06-6059 ndices par a catlogo sistemt ico: 1. Peas teat r ais : Histr ia e crtica 809.2 2. Teat ro : Histr ia e crtica 809.2 CDD-809.21 edio 2006 todos os direitos desta edio reservados ao gora CDT Rua Rui Barbosa, 672 - Bela Vista - So Paulo - CEP 01326-010 telefone: (11) 3284 0290 fax: (11) 3141 2772 e-mail: agora@agorateatro.com.br www.agorateatro.com.brgora_00.qxd8/9/062:20 PMPage 3(Black plate)GORA LIVRE DRAMATURGIASgora_00.qxd8/9/062:20 PMPage 4(Black plate)gora_00.qxd8/10/061:48 PMPage 5(Black plate)SUMRIOAPRESENTAO Celso Frateschi EU NO SOU CACHORRO! Fernando Bonassi PAI Izaas Almada S MAIS UM INSTANTE Marta Ges SOBRE A ARTE DE CORTAR BIFES Hugo Possolo A CABEA Alcides Nogueira ILMO. SENHOR Naum Alves de Souza E RAMOS TODOS THUNDERBIRDS Mrio Bortolotto COR DE CH Noemi Marinho O MUNDO UM MOINHO Fauzi Arap NOVAS DIRETRIZES EM TEMPOS DE PAZ Bosco Brasil ATO SEM HISTRIA Lus Alberto de Abreu O CU DA PTRIA Jandira Martini e Marcos Caruso 7 11 23 43 95 115 129 145 193 205 289 321 333a ordem de apresentao dos textos corresponde ao cronograma de realizao do projeto gora Livre Dramaturgias, realizado em 2001gora_00.qxd8/9/062:20 PMPage 6(Black plate)gora_00.qxd8/9/062:21 PMPage 7(Black plate)7APRESENTAOEm meados do sculo passado, Friedrich Drrenmatt formulou durante uma palestra a seguinte questo: Poder o mundo de hoje ser reproduzido pelo teatro? Bertolt Brecht interessou-se pelo debate e escreveu um pequeno artigo sobre o tema afinal, essa questo estava na origem e na meta do teatro pico que professava. Segundo Brecht, para o homem do sculo XX, o valor das perguntas residia nas respostas, uma vez que se interessava por situaes que poderia enfrentar ativamente. Que, numa poca cuja cincia de tal forma consegue modificar a natureza que o mundo nos parece j habitvel, o homem no pode ser apresentado como vtima, como objeto passivo de um ambiente desconhecido, imutvel. Contudo, registrava o espanto: a natureza da sociedade humana - em contraposio natureza em geral ainda no esclareceu a possibilidade de um aniquilamento total do planeta, que ainda mal conseguimos tornar habitvel. Mais de meio sculo depois, acreditamos que a pergunta de Drrenmatt ganha cada vez mais pertinncia, neste perodo, em que os avanos tecnolgicos se aceleraram e influram de maneira decisiva na produo artstica, principalmente em sua reprodutibilidade nas formas dramticas de expresso. Com as novas tecnologias, resta algum sentido para a arte teatral? O teatro ainda tem alguma contribuio a dar, como construo e expresso especfica de prazer e conhecimento? Certamente, o lugar que ocupou ao longo de sua histria foi pelo menos em grande parte tomado por outras formas de expresso, principalmente a partir do final do sculo XIX. Todavia, no incio do sculo XXI, se faz mais teatro do que nunca. Ns, do gora Teatro, estamos ocupados em entender e praticar um teatro que fale ao contemporneo. Realizamos montagens, estudos e seminrios para desenvolver a linguagem teatral no que a distingue das demais artes. Nosso primeiro seminrio, Odissia do Teatro Brasileiro, apontou a necessidade do aprofundamento da discusso sobre a dramaturgia contempornea. A histria do teatro moderno brasileiro bastante acidentada. Quando, nos anos 1950 e 60, comeava a se estruturar um pensamento teatral consistente (que, de um lado, refletia numa dramaturgia ainda incipiente, mas, de outro, revelava caractersticas do modo brasileiro de sergora_00.qxd8/9/062:21 PMPage 8(Black plate)8GORA LIVRE DRAMATURGIASe de se relacionar), fomos atropelados pelos 20 anos de ditadura que se seguiram ao golpe militar de 1964. Nesse perodo, a ao truculenta da censura, se no chegou a criar um vazio absoluto de pensamento, limitou-o a uma ao de resistncia. Foi nesse processo que se implantaram, com enorme sucesso, os meios de comunicao de massa, processo que acompanhou e incorporou as inovaes tecnolgicas e hoje se configura irreversvel. Com o fim da ditadura, nosso teatro revelou que talvez sua ferida mais profunda tenha sido na nossa dramaturgia. A construo coletiva de um pensamento teatral cedeu lugar a tentativas dispersas de nossos dramaturgos, que pouco dialogam entre si por meio de seu trabalho. Prevalece a sensao de vitria cultural dos militares e de seus sucessores, que ainda nos mantm num nocaute tcnico, do qual no sabemos bem como acordar. Algo desesperadamente, tentamos reagir e nos manter acordados, mas sem conseguir pensar direito nem construir qualquer estratgia. Esta publicao o registro de uma tentativa de aproximao do problema ainda no claramente formulado: quais so as amarras que hoje impedem nossa dramaturgia de iar velas? Procuramos contribuir para a discusso dessa questo. Nos ltimos anos, percebemos um aumento significativo de autores novos, cuja produo convive com a de dramaturgos que esto na ativa desde os tempos da ditadura. uma produo de qualidade, mas no se caracteriza como um movimento. So processos criativos diferentes entre si e no se vinculam a preceitos estticos comuns. Os autores seguem trajetrias prprias e independentes. Ao gora Teatro interessa entender como esses artistas traduzem o homem contemporneo em suas peas e, ao mesmo tempo, como se relacionam com algumas questes que nos coloca a tradio teatral. Convidamos 13 autores contemporneos, visando abranger vrias formas, estilos e abordagens dramatrgicas, e propusemos que respondessem, atravs de pequenas peas, algumas questes j levantadas pela histria do teatro e que, segundo entendemos, ainda dialogam com o nosso contemporneo. Fernando Bonassi, Izaas Almada, Marta Ges, Hugo Possolo, Alcides Nogueira, Naum Alves de Souza, Mrio Bortolotto, Noemi Marinho, Fauzi Arap, Bosco Brasil, Lus Alberto de Abreu e Jandira Martini e Marcos Caruso escreveram suas peas motivados pelas seguintes provocaes:gora_00.qxd8/9/062:21 PMPage 9(Black plate)9 Poder o mundo de hoje ser reproduzido no teatro? Escreva sobre sua aldeia e falar do Universo. Podemos ainda falar em dramaturgia nacional? Permanece no teatro de hoje algum resqucio do sagrado? O dramaturgo um pensador? Seu personagem est no palco ou na platia? Durante os meses de setembro a novembro de 2001, essas peas foram montadas, apresentadas e discutidas com o pblico, tendo como debatedores Silvana Garcia, Chico de Assis, Fauzi Arap, Lus Alberto de Abreu, Aimar Labaki, Jefferson Del Rios, Sebastio Milar, Francisco Medeiros, Gianni Ratto e Ilka Marinho Zanotto. O resultado desse projeto foi extremamente rico, principalmente pela qualidade dos textos apresentados. Alguns deles seguiram vida prpria, com muito sucesso junto ao pblico e crtica. Com a colaborao de todos os envolvidos, temos a satisfao de publicar esse conjunto de textos, certos de estarmos contribuindo para o desenvolvimento de nossa dramaturgia, alm de proporcionar aos leitores o prazer que s o teatro pode nos proporcionar. Celso Frateschigora_00.qxd8/9/062:21 PMPage 10(Black plate)gora_01.qxd8/9/062:21 PMPage 11(Black plate)EU NO SOU CACHORRO!dramaturgo: Fernando Bonassi debatedora: Silvana GarciaMONTAGEM direo: interpretao: cenrio e figurino: luz: trilha sonora: direo tcnica: fotos: produo executiva: Elias Andreato Celso Frateschi Sylvia Moreira Elias Andreato Aline Meyer Rodrigo Guimares Jade Stickel Jerusa Francogora_01.qxd8/9/062:21 PMPage 12(Black plate)12GORA LIVRE DRAMATURGIASEU NO SOU CACHORRO!Fernando Bonassi PERSONAGEM UM ATOR ADEREOS (sugeridos) Casa de cachorro acorrentada ao p (calado com coturno militar) do Ator. Uma tigela plstica para comida e outra de gua. Panos, ossos ressecados, jornais velhos. CENA NICA No centro de ateno, uma casa de cachorro. Ao terceiro sinal, o Ator sai de dentro dela. Ele tem um p que cala coturno militar acorrentado a um dos pilares da pequena casa.gora_01.qxd8/9/062:22 PMPage 13(Black plate)13ATOR Eu no sou um cachorro. Isso no. Mas... supondo, apenas por especulao a pura especulao mesmo , que eu fosse um cachorro... bem, ento eu teria nascido numa ninhada mida e pegajosa. Seria expelido com meia dzia de irmos. Rolaria num cobertor posto especialmente para a ocasio de a minha me parir. Seria um cobertor novo, recobrindo uma caixa de papelo onde ainda poderia farejar o perfume do sabo em p. Haveria jornais do dia cuidadosamente espalhados por baixo de tudo. Jornais do dia nos protegem da frieza desses tempos... Poderia estar cercado por pessoas tensas e preocupadas. Humanos cheios de afeto e habilidades cientficas. Se, numa desventura, minha me no desse conta de sua tarefa biolgica, eles bem poderiam, mesmo que com algum nojo, meter as mos entre as suas pernas e me trazer, num puxo, para esta vida. S que eu no sou cachorro. Trata-se de especular... Se fosse um cachorro, deveria considerar muita sorte ser desmamado e logo escolhido por alguma menina mimada, que fizesse de mim o que bem entendesse. Este no um mundo onde espcies inferiores possam dar-se ao luxo de sobreviver entre os maiorais sem que sejam pisoteadas, transformadas em sabo ou mandadas para a frica da Morte ou a Amrica Latrina. Mas, de todo modo, no sou de permitir que garotas mimadas faam de mim o que entendem ser o melhor, no fundo, para elas mesmas. Ainda mais em questes to ntimas como a separao entre ces, quero dizer, entre mes e filhos. No, cachorro, no. Supondo, no entanto, que essa suposta sorte no me tivesse acontecido, que a minha melhor chance no se tivesse me apresentado, que nenhuma garota mimada surgisse para me esmagar contra os seus peitinhos, ento, nesse caso, muito cedo teria de revirar algumas latas de lixo. disso que feita a vida desses animais infelizes. Eles no se incomodam com pernas degora_01.qxd8/9/062:22 PMPage 14(Black plate)14GORA LIVRE DRAMATURGIASfaiso cobertas de vermes, camares passados, ossos limbosos, a Histria, invertebrados de qualquer espcie, juzes de direito, cerveja choca ou gua parada. Servem-se de suas guloseimas imorais na frente de todo mundo. Os mendigos os invejam... Tais seres podem mesmo, se e quando necessrio, ingerir fezes. Ora, alm dos problemas de sade inerentes a quem se d a certas liberdades com a higiene do que leva boca, como um moto-contnuo de merda, h que se considerar os aspectos evolutivos desse tipo de atitude. Eu pergunto: quantos sculos de civilizao no nos foram necessrios para separarmos a boca do cu, dando a cada um a funo especfica que tm hoje?! Trata-se de mais uma dessas dvidas que justamente provam a minha humanidade... Por exemplo: o que um cachorro pensa de um lenol limpo? No sei. No sou um cachorro. Eu mesmo no abro mo de lenis limpos, com aquele perfume inebriante do sabo em p esmagado a ferro. H equilbrio entre os meus sentidos e sei muito bem onde meto o meu... (cheira prolongadamente o ar) E, de mais a mais, meu nariz no funciona. Todos sabemos, hoje, a importncia que a troca de cheiros tem para os cachorros. Por qual outro motivo, ento, dedicam-se a esfregar-se e lambiscarem-se as partes traseiras to despojados de malcia que chega a dar inveja a todas as armadilhas mentais que utilizamos? Sociabilidade, compromissos, negociaes, pactos, contratos... temo que a confiana tenha algo a ver com gostar do fedorzinho destas ou daquelas bochechinhas molegatas encravadas de um rubic em forma de roscea enlameada... No posso negar que h tramas sociais complexas em gestos vulgares, trocas de bactrias e fluidos. Mas, de todo modo, no sou cachorro. No... se eu fosse um vira-lata de lixo desses, ento teria estampada no rosto a desolao trgica e a indiferena caractersticas desse modo de vida que em nada combina comigo. Quando lamentamos nossa prpria natureza, o fazemos num nvel mais elevado: estabelecemos relaes de causa e efeito na linha do tempo. Produzimos... conhecimento.gora_01.qxd8/9/062:22 PMPage 15(Black plate)15Se estamos infelizes, criamos confuses; se criamos confuses, partimos para a guerra; se partimos para a guerra, temos milhes de mortos; se temos milhes de mortos, outros milhes podem morrer de molstias infecciosas galopantes. A penicilina, por exemplo, foi inventada para transformar os mortos duma guerra em aleijados doutra. Isto poderia ser um outro espetculo; mas tambm uma prova: eu no sou cachorro. Se eu fosse um cachorro, nem controlaria minha morte. Alm de dormir, comer, cagar, mijar, foder rapidamente e aos pulinhos, poderia, no mximo, roer a corda e ser atropelado. Estou convencido de que a caminhada vagarosa e s cegas por auto-estradas muito rpidas a nica forma de suicdio que os danados conhecem. Em algum lugar de suas cabecinhas cheias de ossos, eles sabem que aqueles monstros de lata que vm de l, ao chocarem-se com seus corpos, o fazem como se acertassem um saco de batatas inglesas midas. Questo de comportamento reflexo. Se me comportasse assim, no mximo, ficaria exposto visitao das moscas a cu aberto. Uma vergonha. Mas eu no fao parte dessa elite de cachorros suicidas, capazes de lanar geraes e mais geraes na pista de lixo asfaltada com gosma vermelha da Histria, apenas pra que tenham um equipamento que, uma vez acionado, faz vibrar uma certa nota arrepiante no cccix de quem o possui num bolso mais atrs. No. Se eu fosse um cachorro suicida, s teria esses asfaltos quentes onde cair morto. Nem uma lpide que me lembrasse de que o melhor de pisar na grama quando sabemos que h algum l embaixo... Como um cemitrio judaico proibido. Questo de comportamento reflexo. No ltimo fim, duraria apenas o tempo da minha mancha de sangue gosmenta e o sol e a evaporao e pronto. Sem rituais. Uma obscenidade. (cheira prolongadamente o ar) Um nada obscuro como um buraco de nariz.gora_01.qxd8/9/062:22 PMPage 16(Black plate)16GORA LIVRE DRAMATURGIASSe eu fosse um cachorro e estivesse sonolento, deitaria em qualquer lugar. Meu quarto, do tamanho da cidade... Estaria submetido apenas a certos ciclos da natureza: cem sis, uma enxurrada, uma eleio de presidente, os fundos de uma churrascaria, uma desavena, um governo de intelectuais privatistas e balas perdidas. O que vem de baixo no me atinge na cabea de cima, que a mais importante. Ela me faz o que sou. No um cachorro. Que sejamos 65% gua deveria nos ensinar alguma coisa... Se eu me conheo bem, se sei que no sou cachorro, porque certamente eu seria capaz de atitudes de pssimo feitio, se o fosse: saltaria cercas, pularia muros, me meteria em buracos e tarefas srdidas, enfrentaria feras ainda mais insanas do que eu, tudo por uma bocetinha no cio. Mas eu no sou um cachorro e no do meu feitio perseguir bocetinhas no cio pela ruas ou casas de famlia. A isto chamamos... cultura. Se eu fosse um cachorro, poderia vir a morder a mo que me acaricia. J est provado que crebros, quanto menores, mais entusiasticamente pulsam. Quando se encontram em caixas cranianas reduzidas, o espao de transio entre o que a mera projeo de seus encagaamentos e o que de fato se d no mundo dos negcios praticamente inexiste. Assim se criam, solidificam-se mitos, financiam-se campanhas de sade pblica e pagamse esses constantes convites que os artistas recebem para explicar o inexplicvel em outra lngua, em que so ainda menos fluentes que na sua prpria, de origem. (cheira prolongadamente o ar) Puxa! Isso quase outro espetculo! Em suma: perde-se a pacincia com facilidade, fica-se rabugento com a polcia, engole-se qualquer coisa, quebram-se copos de cristal, fazem-se juras de amor desesperado, leva-se desaforo para casa e fica-se constantemente inseguro. Mas eu no sou de tratar mal quem me trata bem e eu no sou um cachorro com o terror constante de perder as poucas migalhas que lhe jogam. Gente! muito pouco! ou no ?! (cantando) Migalhas, migalhas, migalhas jogadas por mos carinhosas...gora_01.qxd8/9/062:22 PMPage 17(Black plate)17A memria de um cachorro, que no a de um elefante, consegue reter pouco mais que um instante. Um instante de satisfao por mil anos de memria fraca. A idia de que tudo pode acabar j, agora, neste exato instante, assola os pobres coitados. Haja osso, haja dente, haja msculo... (cantando) Migalhas, migalhas, migalhas jogadas por mos carinhosas... Se eu fosse um cachorro, no usaria roupas. E eu tenho roupas que fazem milagres por mim. Uma cala negra, uma camisa branca, um chapu de bico chato, alguns fru-frus nas mangas, uma joelheira, um anel de osso, uma corrente de prata, uma roupa de baixo em forma de V da vitria e muito mais, para o meu conforto e exposio. Por exemplo: sempre que vou seduzir uma prostituta, para que me preste seus servios com descontos e faa coisas que, digamos, estejam fora de seu menu bsico, ou quando, ainda por exemplo, reno toda a minha coragem profissional para finalmente no mijar nas calas ao pedir um verdadeiro, polpudo e justo aumento de salrio, uso meu coturno 74. Meu coturno 74 impe respeito em qualquer situao. Tem classe e firmeza entrelaados como um economista bem fornido na Escola de Chica Bom e um general de saco roxo que compra radares como quem vai Disneylndia. Obviamente, nada de ruim pode me acontecer quando eu o utilizo. Caminho, digno, sobre os dois calados rijos, certo de que a dignidade de meus passos se transfere, ato contnuo, s minhas atitudes e palavras. Esses meus panos malcosturados esto constantemente dizendo coisas a meu respeito... posso combinar feito um bombeiro sueco ao lado de um hidrante niquelado. Os cachorros andam nus em plo... Por essas e outras, no sou um cachorro. Se eu fosse um cachorro, no teria direito a voto. No elegeria meus representantes. No poderia controlar meus valores na rdea curta, com essas correntes feitas de lingia fresca, que so ainda mais fceis de quebrar quando se amarra o bicho com elas. No mximo, torceria por algum que tivesse compromissos com a proteo das criaturas irracionais. H gente assim, tidas como as melhores cabeas de cima do vasto painel de nossa sabedoria... Mas nem eu tenho compromisso com criaturas irracionais, nem sou cachorro.gora_01.qxd8/9/062:22 PMPage 18(Black plate)18GORA LIVRE DRAMATURGIASSe eu fosse cachorro, no trabalharia. O trabalho no dignifica o cachorro, como dignifica o homem. Alis, o humilha... Um cachorro sem trabalho est no seu elemento e eu, sem trabalho... bem, no poderia fazer credirio; no constituiria uma famlia dos infernos; no compraria um carro pra me esmagar num poste, nem plulas de erguer caralho; no usaria cotonetes hidrofilizados; no teria uma pistola desse tamanho pra me defender de todos os que querem apenas se defender. No poderia tirar documentos militares de trnsito, ter ttulos acadmicos nem bolsas de estudos. Mas eu tambm no sou um cachorro vagabundo, ainda que no tenha ou no saiba exatamente o que fazer, uma vez ou outra. Questo de hbito, no meu caso. Se eu fosse um cachorro, s teria meu rabo para expressar os meus sentimentos. Sentimentos exigem enorme sutileza para sua expresso e eu tenho uma infinidade de recursos para me expressar. H tantas partes moles e tantas conexes possveis entre elas. So necessrios centenas de metros por segundo de impulsos eltricos e mais de umas dezenas de msculos para fazer um reles sorriso amarelo. Cinco sentidos, 65% de gua. Tambm por isso, eu no sou um cachorro. Se eu fosse cachorro, coaria o pescoo com os ps. Ps pelas mos, se que vocs me entendem. Um cachorro tambm no um macaco, mas este, sem dvida, seria um outro espetculo... eu, pelo menos, nem sou um cachorro. Porque se o fosse, no veria com preciso os eventos da tv. Ou melhor, veria muito mais alm deles. Dizem que os cachorros so capazes de perceber os mecanismos por trs das coisas, de forma que, ao verem televiso, podem apenas apreciar a dana catica dos eltrons que so disparados ao longo do tubo, at a tela. Quando conseguem enxergar mais que essa dana maluca, vem a ausncia de cor. Estaria eu condenado ao preto e branco do fundo dos meus olhos? Teria alguma chance de ver de uma outra maneira as eternas mesmas coisas, de forma que os outros ligassem tanto para mim, que simplesmente me esquecessem? Nada de cores, de luzes, de comprimentos de onda... como querer fazer do Brasil um pas sem guerra e, para isso, necessrio mais que ogora_01.qxd8/9/062:22 PMPage 19(Black plate)19aperfeioamento da raa amulatada... seria preciso murchar o pneu da crueldade com a agulha da devoo... mas isso mais um segmento de um determinado tipo de teatro alemo, logo: um outro espetculo. Minha vida feita de cor e eu, por saber e, eventualmente, querer, que todas as cores recebam o mesmo tratamento no arco-ris, por uma simples questo de conscincia, no sou cachorro. Se eu fosse um cachorro, necessariamente me angustiaria com meus semelhantes, procurando neles e em mim sinais de... uma certa... ferocidade defensiva. o que podemos observar em praas pbicas, onde senhoras levam seus poodles molegatos para masturbar-lhes a clitnia e o tnis. Mas eu no sou cachorro e posso me dar meus prprios prazeres. Tenho a liberdade de ir e vir. O que, se fosse mais pensado, seria ainda menos excitante. Numa situao canina, minha atividade fsica seria reduzida a apanhar um pedao de madeira arremessado a distncia, o qual deveria abocanhar e levar a seu lugar de origem. Que algum jogue algo inexpressivo num lugar distante e que outro, menos esperto, se encarregue de ir buscar... a isso chamamos entendimento. Ssifo, o eterno retorno, a idia de que devemos deixar o bolo crescer pra s depois repartir... enfim: muitos espetculos num s... Mas eu no sou cachorro. Se eu fosse cachorro, no teria direito justia e ns sabemos o quanto o direito civiliza o homem e o quanto a justa reparao dos danos e perdas adensa nossa nacionalidade e o respeito s instituies. (cantando) Ptria amada, salve, salve-se! No. Eu no sou cachorro. Eu sei que a ptria congrega diversas expresses da mesma coisa, de forma que se h uma guerra, todos devem ir para defender os demais iguais de tudo o que diferente. Os cachorros, por sua vez, so vistos em terras de ningum e so capazes de cruzar campos de batalha com o maior descaramento. Tudo por uma lingia frita numa trincheira, de l ou de c. Tanto faz. Tanto que os soviticos condicionavam vira-latas da Baviera para que carregassem minas anti-tanque e se aproximassem furtivamente dos armamentos fascistas, mandando tudo pelos ares. Claro que eles no sabiamgora_01.qxd8/9/062:22 PMPage 20(Black plate)20GORA LIVRE DRAMATURGIASdisso. Um cachorro capaz de carregar sua morte presa s costas e cumprir diligentemente seu destino ideolgico. Eu no sou cachorro. Mas, se fosse, estaria em mim toda a capacidade de reparao. No teria culpa nem desculpa. Do mesmo modo, se fosse um cachorro, estaria ainda mais merc de Deus. No teria que fazer valer a minha f, nem faria trabalhos. Estaria, sem saber, destinado ao Paraso. Mas eu no sou cachorro e conquisto o que quer que seja com meus prprios mritos. Ainda que seja um lugar no maldito paraso dos homens. Alis, com licena: eu mereo. Alis, como qualquer tolo, ou homicida, ou escritor, ou ator, ou madame de recados que pega putos no meio das pernas frias. Se eu fosse um cachorro, eu abanaria meu rabo para algum sacana me jogar um pedao de carne engordurada no cho. Eu poderia saltar para peg-la da ponta de seus dedos, se fosse o caso... Ns apreciamos manifestaes de generosidade semelhantes. Claro que eu teria medo de ter a mo auto-abocanhada por mim mesmo. A fome cega qualquer um e faz do cachorro esse animal servil que . Se eu fosse cachorro, comeria tambm, se assim a providncia provesse, raes balanceadas: legumes ressecados, carne de carneiro morto e aquele p salgado com aspecto de fezes secas que tm esses tais produtos com que s mesmo um cachorro pode matar sua fome. No sou cachorro. Se eu fosse um cachorro, teria apenas uma coleira me prendendo s coisas de interesse do meu dono. Sonhar no ter escapatria. Usufruir dos meandros da priso. Enriquecer custa da misria alheia, imaginando que possvel gozar sozinho no eterno da felicidade... Seu eu fosse um cachorro e me conhecesse bem como me conheo, mal posso imaginar o que faria ou no faria pela simples oportunidade de dormir sobre uma pilha de jornais. O calor mido e pegajoso dos papis cheios de urina, numa caixa... lembranas antigas... minha mezinha me cagando com meus irmos... esse frio... No, cachorro, no... porque, se o fosse, no teria tempo. No entenderia os relgios. Poderia me contentar com o que consigo, como se fosse um pernil bem temperado numa lata de lixo coberta de vmito.gora_01.qxd8/9/062:22 PMPage 21(Black plate)21(pausa) (cheira prolongadamente o ar) Um nada obscuro como um buraco de nariz. Mas no... Tudo isso no passa de especulao, a pura especulao mesmo... eu sei muito bem a diferena entre um homem e um cachorro. Ainda bem que eu no sou um cachorro. Cachorro, no. srio. Eu no sou um cachorro. Ah, no... isso no. No sou, no mesmo? O Ator volta para a casa do cachorro. Ouve-se uma cano do grupo e perodo conhecidos como Bossa Nova. FIMgora_01.qxd8/9/062:22 PMPage 22(Black plate)22GORA LIVRE DRAMATURGIASFERNANDO BONASSI nasceu em So Paulo, em 1962. roteirista de cinema e TV, dramaturgo, cineasta e escritor de diversas obras, entre elas Um Cu de Estrelas (Siciliano); Subrbio, Crimes Conjugais e 100 Histrias Colhidas na Rua (Scritta); O Amor Uma Dor Feliz (Moderna); Uma Carta Para Deus e Vida da Gente (Formato); O Cu e o Fundo do Mar (Gerao Editorial); 100 Coisas (Angra); Declarao Universal do Moleque Invocado (Cosac & Naify) e So Paulo/Brasil (Dimenso), ambos finalistas do Prmio Jabuti nos seus anos de lanamento. Em 2003 publicada a novela Prova Contrria e em 2005 o romance O Menino que se Trancou na Geladeira, ambos pela Editora Objetiva. co-roteirista de filmes como Os Matadores (de Beto Brant); Atravs da Janela (de Tata Amaral); Castelo R Tim Bum (de Cao Hamburguer); Carandiru (de Hector Babenco Prmio TAM do Cinema Brasileiro para o melhor roteiro adaptado de 2003); Garotas do ABC (de Carlos Reichenbach), Cazuza (de Sandra Werneck Prmio TAM do Cinema Brasileiro para o melhor roteiro adaptado de 2004). No teatro, destacam-se as montagens de Preso Entre Ferragens (dirigida por Eliana Fonseca); Apocalipse 1,11 (em colaborao com o Teatro da Vertigem); Trs Cigarros e a ltima Lasanha (com Renato Borghi e direo de Dbora Dubois); Souvenirs (dirigida por Mrcio Aurlio); Arena Conta Danton (com a Cia. Livre de Teatro) e a encenao do fragmento Estilhaos de So Paulo, no espetculo Megalopolis (do Theater der Klaenge Sttutgart, Alemanha). Possui diversos prmios como roteirista no Brasil e no exterior, alm de obras literrias adaptadas para o cinema e textos em antologias na Frana, Estados Unidos e Alemanha. O romance Subrbio teve os direitos comprados pelo Deutsches Schauspielhaus de Hamburgo. A adaptao teatral estreou no dia 04 de abril de 1998. Nesse mesmo ano, foi vencedor da bolsa do Kunstlerprogramm do DAAD Deutscher Akademischer Austauschdienst. Desde 1997 colunista do jornal Folha de So Paulo.gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 23(Black plate)PAIdramaturgo: Izaas Almada debatedor: Chico de AssisMONTAGEM direo: elenco: cenrio e figurino: luz: msica original: direo tcnica: produo executiva: Roberto Lage Selma Pelizzon e Vanessa Bruno Daniela Carmona Roberto Lage Jlia Grassetti Rodrigo Guimares Ndia De Liongora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 24(Black plate)24GORA LIVRE DRAMATURGIASPAIIzaas Almada Sala de um apartamento de classe mdia. Decorao simples: um sof de dois lugares, uma poltrona, uma mesinha de centro, um abajur de p, um telefone sem fio, um porta-retratos e outros adereos de uma sala de visitas. O telefone da sala toca algumas vezes. Mariana, 52, entra apressada e atende. Veste-se com alguma elegncia, usa pouca pintura e tem gestos recatados. Uma mulher que no gosta de chamar a ateno sobre si.gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 25(Black plate)25MARIANA (enquanto caminha) J vai, j vai... (atende e fala ainda de p) Al... Bom dia!... ela mesma... Olha, se for para pedir algum tipo de auxlio... No? Ento, t bem... Exato, Mariana Toledo de Alfieri... Como?... Sou viva, sou... Meu marido... Isso, Jorge Alfieri... H mais de vinte anos... Se eu vejo televiso?... Claro, vejo televiso, leio os jornais, no todos os dias, mas leio... O senhor de algum instituto de pesquisa?... No... Hum, hum... Se eu ouvi falar do...? Sim... Sim... Tambm li nos jornais... (senta-se, denotando uma ligeira alterao na voz) Claro, claro, um cemitrio clandestino... Aqui para os lados de Perus?... Desculpe, mas quem que est falando? Homero... da Comisso... de Direitos Humanos... Secretaria de Justia... Ah, pois no, seu Homero... verdade, eu tenho acompanhado essa questo do cemitrio clandestino... Das ossadas descobertas... Certo... Os senhores querem falar comigo?... Pessoalmente? Algum motivo especial?... Se eu lembro a data do meu casamento?... (desconfiada) Olha, isso no trote, ?... T bem, t bem, o senhor compreende... a pergunta me pareceu... Se o senhor pode dizer uma data? Claro, claro... hum, hum... 13 de julho de 1968... isso mesmo, mas...? Encontraram uma aliana numa das covas... com o meu nome inscrito e a data de 13 de julho?... A mo de Mariana que segura o telefone, ligeiramente trmula, vai caindo lentamente sobre o colo at as pernas. Ela fica absorta, distante e, sem perceber, repe o telefone no gancho. Pega um porta-retratos que est sobre a mesinha da sala e contempla por instantes a fotografia do marido. MARIANA (emocionada) Santo Deus... No acredito... Isso no pode ser verdade... Assim, sem mais nem menos, depois de tantos anos, meu querido? Estou tremendo... As mos frias... Ser voc mesmo? E voltar assim, dessa maneira? No, no, no... No foi isso que ns combinamos, lembra-se?... Voc ficou de mandar um aviso antes... Um recado... Deve haver algum engano... (o telefone recomea a tocar; Mariana olha para o telefone, em dvida; repe o porta-retratos na mesinha; por fim, atende) Al... Sim... O senhor me desculpe, sr. Homero... Claro, claro...gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 26(Black plate)26GORA LIVRE DRAMATURGIASEstou bem, sim... Estou bem... Eu entendo... No se preocupe... Foi a emoo... Querem que eu ajude na identificao?... Mas... no so apenas uns ossos?... Como que eu?... Ah, sim, a aliana, verdade... T bem... Ento o senhor me deixa o seu telefone e eu ligo marcando o dia... Amanh?... J?!!... Amanh seria um bom dia? Acho que no estou preparada... Eu sei, eu sei, no se preocupe, pode ficar descansado... (anotando) Pode dizer... 33...um, um, dois, zero, zero... Ligo sim, pode ficar tranqilo... Obrigada... Bom dia. Mariana desliga o telefone. Est interiormente agitada. Olha para a fotografia. MARIANA Ah, Jorge, Jorge! Por essa eu no esperava, juro!... Assim no, meu querido... O corao quase me sai pela boca! (pe a cabea entre as mos) Ser mesmo verdade, meu Deus? E essa aliana... O aviso... Seria esse o aviso? Depois de todos esses anos? Eu no queria que fosse assim... Eu no queria que fosse assim... E ainda me pedirem para ir ver os ossos? Jlia, 23, aparece na sala de shortinho e camiseta. gil, s vezes arrogante, no esconde um jeito de ser rebelde. JLIA Falando sozinha outra vez, me? Qualquer dia ainda vo internar a senhora... Mariana procura dissimular a emoo que sente. MARIANA Quem que vai me internar, menina?... No diga bobagens... S se for voc... Isso l so horas de levantar?... Esqueceu que hoje o dia do casamento da Amelinha? JLIA Eu j tinha me esquecido da merda desse casamento... MARIANA Olha essa boca...gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 27(Black plate)27JLIA Aposto que a Amelinha vai casar virgem... MARIANA E da, qual o problema?... Voc est com inveja... JLIA (rindo) Inveja? Eu?!! De me casar com um gerente de banco? Inveja do qu?!... MARIANA O que que tem o moo ser bancrio? Uma profisso como outra qualquer... E ele nem est assim to mal de vida quanto voc pensa... Que roupa voc vai usar na igreja?... JLIA Que tal ir com aquele jeans rasgado na bunda, s para encher o saco da sua famlia, hem?... Nunca fui com os cornos da Amelinha, nem daquele pai dela... MARIANA No diga tanta besteira, minha filha... JLIA Besteira, ? Quando a gente tava na maior merda a sua irm e o besta do marido dela nunca nos ajudaram... MARIANA Voc no esquece isso, hem? J no vale a pena tocar nesse assunto... E depois a Amelinha no tem culpa de ter os pais que tem... JLIA E alm de no ajudar, o cafajeste ainda andou te dando umas cantadas... Pensa que eu no sei?... Sem-vergonha... MARIANA A minha irm tambm no tem culpa de ter casado com aquele imbecil...gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 28(Black plate)28GORA LIVRE DRAMATURGIASJLIA Eu tambm no tenho culpa de ter um pai que sumiu... MARIANA (reage com violncia) No fale assim do seu pai!!... JLIA (espantada) Eu no estou falando mal do meu pai, dona Mariana, fique calma. No comea a agredir... Eu s quis dizer que a sua irm e o maridinho dela no precisavam arranjar tantas desculpas pra no terem sido solidrios com a gente... (pequena pausa) Eu no entendi essa sua reao agora!... (fica olhando para Mariana, desconfiada) Acho que a senhora t mesmo ficando pinel... Fica conversando com quem aqui na sala? Com as paredes? MARIANA (encabulada) Comigo mesma e... (indica a fotografia) s vezes aqui com o seu pai... JLIA No acredito... caso pra internao mesmo... Depois de tantos anos... MARIANA (interrompe) isso mesmo... com o seu pai... Qual o problema? Ele sempre esteve presente nesta casa... JLIA Pra com isso, me. J no basta fazer h tanto tempo o nmero da viva incompreendida e agora ainda vai dar uma de esprita? MARIANA Veja l como que fala... Que histria essa agora de viva incompreendida?... (Mariana torna a pegar o porta-retratos e mostra a fotografia para a filha) Voc... Voc que nunca teve coragem de encarar a situao... JLIA (num incio de irritao) Qual situao? Qual situao? No comea, me... Ns j discutimos demais sobre isso...gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 29(Black plate)29MARIANA (emocionada) Viva incompreendida!... Voc fala como se soubesse das coisas... Fala como se vivesse dentro de mim... como se soubesse alguma coisa da vida... Vai procurar um emprego... Metidinha o que voc ... (brava) Voc no tem a menor idia do que est falando, menina!... JLIA Viu? Depois diz que sou eu que implico... Que comeo as discusses... Fiz uma brincadeira e a senhora j vem atropelando... MARIANA Brincadeira?!!... Eu conheo essas suas brincadeiras... Jlia retira o porta-retratos da mo da me e torna a coloc-lo sobre a mesinha. JLIA Ns temos um trato, dona Mariana, ou a senhora j se esqueceu? MARIANA No, no me esqueci... JLIA Ento no vamos comear mais uma discusso estpida... MARIANA Pois eu vou romper o trato... Agora... Queira voc ou no... JLIA Sabe das conseqncias... Mariana olha a filha por instantes. MARIANA No acredito que voc v sair de casa por causa disto... Nunca acreditei...gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 30(Black plate)30GORA LIVRE DRAMATURGIASJLIA No tenha tanta certeza assim... E se eu no estiver disposta a falar do meu pai? MARIANA Vamos falar, sim... Agora... Voc tem que encarar essa realidade, Jlia... No adianta fingir que o problema no existe... JLIA (mais irritada) No enche o saco... Isso problema meu... Eu escolho o dia pra encarar a realidade, t?... (faz meno de sair) Eu no devia ter posto os ps nesta sala... MARIANA Acabei de receber um telefonema... JLIA E da? MARIANA Um tal de Sr. Homero da Comisso de Direitos Humanos... Jlia faz um gesto para a me como que a dizer: e eu com isto?. MARIANA Acharam um cemitrio clandestino na periferia da cidade... Tudo indica que um dos corpos... uma das ossadas... JLIA (tensa e em voz alta) No quero falar disso... Ser que eu falo chins? MARIANA Voc... j ouviu sobre o cemitrio? JLIA (irritada) No quero falar desse assunto, porra!gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 31(Black plate)31MARIANA preciso, filha... o seu pai... JLIA (gritando) O meu pai o qu?!! O meu pai no morreu!... Pra que falar de cemitrio clandestino? MARIANA Encontraram uma aliana... Uma aliana com o meu nome e a data do nosso casamento... JLIA Voc est rompendo o nosso acordo, eu avisei... Voc me deu a sua palavra... Voc jurou sobre a Bblia... Eu no quero falar do meu pai... E depois, que besteira essa de cemitrio clandestino?... Ele no morreu, qual ?... Ele no morreu... (tenta ir em direo porta e contida pela me)... Quero ir embora... D licena?... Me deixa ir embora... No o meu pai... No o meu pai... Ele nos abandonou por uns tempos... No foi o que a senhora sempre disse? MARIANA Ele no faria isso... JLIA Como que agora voc pode ter essa certeza? MARIANA Voc era a filha que ele sempre quis ter... Ele no te abandonaria... JLIA (j meio histrica) Chega!... Voc est falando dele, voc est falando dele! Voc quebrou a promessa... (chora abraada me; os sentimentos confusos) Eu queria conhecer o meu pai... Eu queria ter conhecido o meu pai... Me e filha vo se deixando ajoelhar pelo peso dos prprios corpos e da dor momentnea que sentem.gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 32(Black plate)32GORA LIVRE DRAMATURGIASMARIANA Eu tambm ainda no havia perdido a esperana, filha... No havia... JLIA Depois de todos esses anos, me? Eu no acredito... Algum est querendo fazer uma maldade com a gente... MARIANA No, filha, no... (pe a mo sobre o peito) Estou sentindo aqui dentro de mim... JLIA Essa aliana?... Pode ser uma coincidncia... MARIANA O homem disse o dia, o ms e o ano... (Mariana levanta-se e vai ajudando a filha a levantar-se tambm) Fiquei de telefonar amanh... Vamos ter que ir at onde esto os ossos... Eu prometi... JLIA Para qu?!... MARIANA As famlias tm que ajudar na identificao... JLIA (com alguma aflio) Eu... Mas... Como que eu posso ajudar nessas coisas?... Eu... Eu no vou ter coragem... MARIANA Precisamos dar-lhe um enterro digno... JLIA Vamos ter que fazer um enterro? Jlia olha para Mariana, que confirma com a cabea. Em seguida, pega ogora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 33(Black plate)33porta-retratos, olha para a fotografia por instantes, beija-a e a recoloca sobre a mesinha. Tenta se recompor. JLIA Ento assim a vida? MARIANA Assim como, minha querida? JLIA (ainda nervosa) Assim... Sei l... Assim!, merda... Um belo dia nos tiram o pai com vida e vinte anos depois nos devolvem uma aliana e alguns ossos embrulhadinhos em papel para presente e dizem: desculpem, mas ainda bem que encontramos alguns desses desaparecidos... Olha, que bom... Vo poder darlhes sepultura... MARIANA exatamente isso que vai acontecer, Jlia... Ou voc esperava que fosse de outra maneira? Quem que nos dias de hoje vai se preocupar com uns desgraados que pensaram que poderiam mudar o Brasil? JLIA Eu... Eu me preocupo. Eu!... o meu pai, porra, o sangue dele corre aqui nestas veias... A senhora entende isso, me? Hem? J pensou nisso? Sou a nica pessoa que carrega o sangue dele... Aqui, nestas veias... A nica... A senhora capaz de entender isso? Algum capaz de entender isso? Enquanto eu viver ele continua vivo em mim... Quem que o matou? Hem? Onde esto os filhos da puta que mataram o meu pai? Eu queria encontrar um deles, um s que fosse... Encarar o desgraado de frente... Olho no olho... Fazer um corte na mo e deixar o sangue escorrer... e dizer: olha aqui, seu filha da puta... Isso sangue do meu pai, do meu pai, seu corno... Ele continua vivo e muito vivo... MARIANA Jlia... Jlia, minha filha!...gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 34(Black plate)34GORA LIVRE DRAMATURGIASJLIA Gostaria muito de saber por que fazem desaparecer um homem s por ele ter uma maneira diferente de pensar. E os que deram sumio nele?... Onde que andam? Os que mandaram torturar e matar? O que que eles conseguiram com isso? Conseguiram mudar o pas? Melhoraram o Brasil, por acaso? Se eles acham que conseguiram mudar alguma coisa, ento o Brasil de trinta anos atrs devia ser bem melhor, porque este de agora uma merda... Ou no ? MARIANA Jlia!!! Eu no sabia que voc se preocupava com essas questes... JLIA Claro que me preocupo, me! A senhora que nunca se deu uma oportunidade para me conhecer melhor... MARIANA No me dei uma oportunidade?... Quantas vezes eu tentei ter conversas assim com voc, minha filha! Abrir o meu corao... Falar do seu pai, das idias que ele tinha, das coisas em que ele acreditava... JLIA Mas sempre com pedras na mo, com resposta pronta pra tudo... Sempre querendo ter a ltima palavra... Me agredindo, como acabou de fazer ainda agora... Me tratando como se eu tivesse cinco anos de idade... Eu j deixei de ser criana h alguns anos, me, e se quer saber... Nunca me acostumei idia de no ter conhecido meu pai... Nunca... MARIANA E s agora voc vem me dizer isso? JLIA Se voc no estivesse o tempo todo preocupada s com o seu prprio sofrimento, j teria percebido isso... Quantas vezes eu tive que dissimular e at mentir por causa disso...gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 35(Black plate)35MARIANA Mentir?!... JLIA , mentir... Quantas vezes eu disse, com o corao apertado, que o meu pai tinha morrido s para no ser olhada com aquela falsa piedade com que algumas pessoas olham pra ns nessas situaes... No curso primrio... Lembra-se das minhas crises de choro na escola primria?... Eu via os pais irem buscar as outras crianas e ficava esperando que um dia o meu pai aparecesse na porta da escola tambm, me beijasse e abraasse, me pusesse no colo, como os outros faziam... Mas ele nunca aparecia. Voc dizia que ele estava vivo... Mas l, no meio das outras crianas, eu tinha vergonha de no ter o meu pai... Eu dizia que ele tinha morrido numa viagem... E a culpa era sua... MARIANA Minha?!! JLIA Sua!, sim, senhora... De quem mais seria? Sempre me escondendo a verdade... Sempre evitando dizer que ele tinha ido embora para sempre, que tivesse morrido... No chore, filhinha, o papai foi fazer uma longa viagem, mas qualquer hora dessas ele volta pra casa e vai lhe trazer uma linda boneca... Uma longa viagem! Parece que essa longa viagem chegou ao fim... MARIANA E o que que voc queria que eu dissesse?... Como que eu podia deixar de dizer essas coisas, se eu no sabia o que tinha acontecido... Desconfiava da morte dele, verdade, mas no tinha a certeza. Eu no queria aceitar ou descobrir que isso podia ter acontecido... Falavam de pessoas que morriam na tortura... JLIA engraado, me... Sabia? Voc me enganou, voc mentiu durante anos da minha infncia... Mas sabe que com as suas mentiras voc acabougora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 36(Black plate)36GORA LIVRE DRAMATURGIASimpedindo que ele morresse para mim durante todos esses anos?... (com um sorriso nervoso) Eu at te agradeceria por isso... Mas, e agora?... MARIANA Naquela situao eu me agarrei menor das esperanas, Jlia... Quantas e quantas noites acordei com o rudo da porta do elevador... espera de ouvir alguns toques na porta... Quantas vezes esperei por um recado, um aviso!... As tardes solitrias no Ibirapuera, com a esperana de que ele aparecesse de repente... Correndo o risco de ser assaltada ou levando cantadas de desocupados... Eu desejava do mais fundo do meu corao que o seu pai estivesse vivo, vivo, entendeu? Eu precisava acreditar que isso era verdade! Eu me agarrava a essa nica e abenoada esperana, Jlia! Tinha que ser assim para eu no enlouquecer... Eu no podia admitir a morte do homem que eu amava... (com a voz cansada) Carreguei essa esperana comigo todos esses anos, cada hora, cada minuto... Era a minha maneira de torn-lo vivo... O meu jeito de sobreviver... JLIA por isso! Ta... Coisa de quem foi perdendo o juzo... Foi essa sua esperana estpida de que ele ainda pudesse estar vivo que confundiu muito as coisas aqui em casa. Isso sempre me fez muita confuso na cabea... MARIANA E que mal pode existir no fato de eu ter desejado todo esse tempo que ele estivesse vivo? Me responda... Qual o pecado de tentar fazer com que voc acreditasse nisso tambm? JLIA O que sempre me revoltou, me, foi a sua obsesso... Ver uma pessoa como a senhora se dividir entre um sofrimento estril e uma esperana quase doentia, espera de um milagre, ou de um fantasma que entrasse por aquela porta adentro... MARIANA (num grande desabafo) De um jeito ou de outro, ele voltou... ou no voltou? , ele voltou... E ningum, ningum, ouviu?, vai fazer o meu corao esquec-lo...gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 37(Black plate)37Faz-se novamente um instante de silncio. Mariana e filha se entreolham. JLIA verdade que o pai foi o nico homem na sua vida? MARIANA Sempre fui mulher de um homem s... JLIA Que pena! Isso j no se usa, ... Faz tempo... MARIANA Que bobagem! Por que que todo jovem sempre pensa que moderno nas suas atitudes?... O amor no coisa que entre ou saia de moda... Nem se mede pelo nmero de parceiros na cama, ouviu?... JLIA T bem, no precisa agredir... Com quantos anos ele estaria agora? MARIANA O Jorge era oito anos mais velho que eu, portanto, faria sessenta anos... JLIA Juro, me, no sei se vou ter coragem... Olhar alguns ossos e pensar que tudo o que restou do meu pai... MARIANA Vai, Jlia, voc vai ter coragem sim. Eu preciso de toda a coragem que voc puder juntar... Eu no quero ir sozinha... JLIA O que que eu vou dizer para ele? Eu nem o conheci... MARIANA Oh, minha querida, voc no tem que dizer nada...gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 38(Black plate)38GORA LIVRE DRAMATURGIASJLIA Ser que ele vai me achar bonita? MARIANA Voc est falando srio? JLIA Vou vestir a minha melhor roupa... MARIANA O jeans rasgado na bunda? (as duas riem) JLIA Como que ele era?... Pode falar... Agora eu quero que voc fale... Jlia acaricia os cabelos de Mariana e faz com que ela se sente no sof. JLIA Em que que o papai acreditava? MARIANA Ele... Bom, ele acreditava num mundo mais justo, na igualdade entre os homens... JLIA Um sonhador, um Dom Quixote? MARIANA Talvez, mas tinha os ps no cho. Enfrentava as situaes mais difceis com ironia e bom humor... Era meio ranzinza, verdade... Exigente... A disciplina tinha que estar acima de tudo... Meio machista, como quase todos os comunistas que eu conheci... JLIA Sonhador, chato e machista...gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 39(Black plate)39MARIANA Era duro quando precisava... L isso era... Mas tratava com muito carinho as pessoas de quem gostava... JLIA Voc acha que ele vai gostar de mim? MARIANA Enquanto viveu, deu provas disso o tempo inteiro... Sofria com a vida clandestina que era obrigado a levar... A ltima vez que esteve com voc ficou horas brincando, te paparicando... Era mais criana do que voc... JLIA Do que que ele gostava? MARIANA Do que que ele gostava?... Hum, depende... De uma boa macarronada com frutos do mar... De uma caipirinha de vez em quando... Filmes do Fellini... Sei l... De rocknroll, d para acreditar? Rocknroll! Daquele rock pesado dos anos 50... Gostava de pera tambm... JLIA pera? Msica mais chata... MARIANA Olha quem diz... Quantas e quantas vezes voc dormiu embalada por uma, minha filha!!... (em tom de lembrana) A sua preferida era do Puccini... Lembro-me perfeitamente... Ele andava com voc pela casa... E ia cantando bem baixinho para no acord-la... (canta) Nessun dorma, nessun dorma... Nesse momento, deve entrar a ria na interpretao de Andra Boccelli em bg, subindo medida que for chegando o final da pea. JLIA Ento por isso que eu no consigo gostar de pera...gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 40(Black plate)40GORA LIVRE DRAMATURGIASMARIANA Sabe qual era um dos sonhos dele? JLIA Qual? MARIANA Ele gostaria que ns trs conhecssemos a Itlia, vivia falando em ir visitar a cidadezinha onde nasceu o seu av, perto de Npoles... J no me lembro o nome... Queria que fssemos l botar umas flores no tmulo da av e do av, que tinha o seu mesmo nome... Jlia... Jlia e Giorgio Alfieri! JLIA Ns ainda podemos fazer isso por ele... No podemos? MARIANA Quem sabe? Ele tambm queria conhecer Cuba... Nem uma coisa, nem outra, coitado... Nunca saiu do Brasil... JLIA E se ns o enterrssemos l? MARIANA No sei se permitiriam uma coisa dessas... Mas uma idia... (enxuga os olhos) Vamos, v se aprontar, seno chegamos atrasadas ao religioso... JLIA Fale um pouco mais... Fale mais um pouco do meu pai... Ele tinha os olhos claros como os meus? MARIANA (sorri) Os olhos dele eram mais bonitos...gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 41(Black plate)41A msica vai cobrindo as duas ou trs ltimas falas das duas mulheres enquanto a luz cai sobre elas. esquerda da cena, uma inscrio aparece lentamente numa bandeira que se desenrola: aos que lutaram por um Brasil mais digno, a nossa gratido. Ouve-se ainda um pouco de Puccini. A luz volta sobre as atrizes para os agradecimentos. FIM Izaas Almada julho/2001gora_02.qxd8/9/062:31 PMPage 42(Black plate)42GORA LIVRE DRAMATURGIASIZAAS ALMADA faz o curso de interpretao teatral do Teatro Universitrio de Minas Gerais (1961/1962); estuda por dois anos na Escola de Arte Dramtica de So Paulo (1963/1964); atua na pea Arena Conta Zumbi, de A. Boal e G. Guarnieri (1965); atua na pea O Inspetor Geral, de Gogol, encenao de A. Boal (1966); atua em Cndido, de Voltaire, no Studio So Pedro, encenao de Miriam Muniz (1971); com Paulo Autran, participa das montagens de Cosi e Si Vi Pari, de Pirandello, direo de Flvio Rangel e Les Femmes Savantes, de Molire, direo de Silney Siqueira e atua, ainda, no musical O Homem de La Mancha, de Dale Wassermann, com encenao de Flvio Rangel (1971/1972); participa da montagem de Cemitrio de Automveis de Arrabal, em Lisboa, com encenao de Victor Garcia (1973); trabalha como criador e realizador de filmes publicitrios (1975/1990); publica os romances A Metade Arrancada de Mim (1989 Prmio APCA de Revelao Literria) e O Medo por Trs das Janelas (1991); publica o romance Floro da Amrica (1994); ganha o Prmio Vladimir Herzog de Jornalismo com a pea Uma Questo de Imagem (1995), encenada em 2001; lana o livro de contos Memrias Emotivas (1996); co-autor da pea Lembrar Resistir, encenada no antigo DEOPS de So Paulo (1999/2000); escreve a pea Pai, apresentada no projeto gora Livre Dramaturgias do gora Teatro, em So Paulo e lana o livro de contos erticos O Vidente da Rua 46 (2001); publica o livro Teatro de Arena: Uma Esttica de Resistncia, auto-biografia de memrias sobre o Teatro de Arena de So Paulo (2004).gora_03.qxd8/10/063:27 PMPage 43(Black plate)S MAIS UM INSTANTEdramaturga: Marta Ges debatedor: Fauzi ArapMONTAGEM direo: Aline Meyer e Juca Rodrigues elenco: Carlos Baldim, Thais Aguiar e Vany Alves cenrio e figurino: Leopoldo Pacheco trilha sonora: Tunica Teixeira luz: Juca Rodrigues e Rodrigo Guimares produo executiva: Aline MeyerS Mais Um Instante uma verso do texto Quem Conta!, escrito em agosto de 2001gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 44(Black plate)44GORA LIVRE DRAMATURGIASS MAIS UM INSTANTEMarta Gesgora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 45(Black plate)45CENA 1 o presente Atrs de uma mesa tosca, Lena arranja cuidadosamente flores num vaso. Escolhe no mao sobre a mesa cada flor, corta calculadamente as hastes com tesoura de jardineiro e vai espetando no vaso. Cantarola. Cao entra correndo pelo lado oposto e perde o impulso subitamente, ao vla. Hesita, recua, faz meia volta e sai pelo mesmo lugar por onde entrou.CENA 2 10 anos antes Isa entra, com os sapatos na mo, fecha cuidadosamente a porta e cruza a sala na ponta dos ps. Pra ao ver Cao. ISA Ah, Cao, ainda bem que voc est acordado. Eu precisava falar com algum, eu no ia conseguir dormir sem contar pra algum. Cao, voc nem sabe com quem eu estava at agora, voc nem sabe quem veio me trazer em casa. Eu estou namorando o Alexandre, Cao. O Alexandre me ama, est apaixonado por mim. Escutou o que eu falei? Cao, voc est passando mal? CAO Pssimo, Isa, pssimo. A sala est rondando, a cadeira est rodando... Manda parar, Isa, por favor, manda parar. ISA Voc est bbado, Cao. O que foi que voc tomou?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 46(Black plate)46GORA LIVRE DRAMATURGIASCAO Tudo, Isa, tudo. A gente foi no Samambar, eu tomei cerveja. Depois a gente foi na festa daquela garota, tinha champagne. A, depois, a gente comeou a tomar vodka. Isa, acho que eu no vou agentar. Acho que eu vou morrer. ISA Voc vomitou? CAO Vomitei, na festa. ISA Ai, que horror! Algum viu? CAO Todo mundo viu. Na frente de todo mundo. A me da ngela viu. Ai, pelo amor de deus, Isa: eu quero esquecer... ISA Voc vai ter que enfiar o dedo na garganta e vomitar mais, Cao, pra isso passar mais depressa. Eu tenho prtica, pode confiar. Seno, pode demorar horas e horas. Seno, a mame vai acordar e vai te encontrar aqui. CAO No, pelo amor de deus! Dedo na garganta, no. muito ruim, Isa, muito ruim. ISA ruim, mas passa logo, Cao. Enfia o dedo na garganta e acaba com isso de uma vez, vai. A, voc vai dormir em paz. Amanh domingo, voc pode dormir at tarde. CAO A me da ngela vai ligar pr mame. Ela vai contar tudo.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 47(Black plate)47ISA Ah, vai, , se vai. O nico jeito contar voc mesmo. Conta tudo. No nenhum crime. Assim, se a me da ngela ligar, a mame j sabe tudo. CAO Voc acha que eu posso contar tudo pr mame? ISA Claro que pode. A mame no nenhuma idiota. CAO Mas no foi s cerveja e champagne e vodka. ISA No foi s cerveja, champagne e vodka? CAO No. A gente estava queimando fumo no banheiro. ISA Queimando fumo no banheiro? E voc ainda vomitou? CAO Eu vomitei. A, ela foi olhar no banheiro e descobriu. ISA Puta que o pariu! Agora s falta voc ser viado e traficante de drogas. CAO No, Isa, juro que no. ISA Voc tem que contar pr mame antes que a me da ngela conte.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 48(Black plate)48GORA LIVRE DRAMATURGIASCENA 3 manh seguinte; cozinha Isa entra a tempo de ouvir Cao dizer a Lena: CAO Ela falou: voc sabia que eu conheci voc desse tamanhinho, mas voc no sabia que eu conheci sua me desse tamanhinho, tambm. Ns duas fomos colegas de classe. LENA Ela adora contar isso. CAO Toda vez que ela me v, ela conta. A, eu tirei ela pra danar, ela adorou. LENA Voc tirou a Olga pra danar o qu? CAO Roque, me. Eu no sei danar outra coisa. LENA E ela danou? CAO Claro, me. Por qu? to esquisito assim? (imita a amiga da me danando, antiquada; canta: pata pata?; Lena morre de rir) LENA Pra com isso, Cao, vai entornar tudo. Foi bom ontem, Isa? ISA Foi timo, me. (Lena liga a batedeira e vira de costas para Cao) Que histria essa que voc est contando pra mame, Cao?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 49(Black plate)49CAO O resto eu vou falar depois, depois. ISA Eu acho melhor voc falar de uma vez, antes que... CAO No enche, Isa. Eu sei a hora. LENA (desligando a batedeira) A Olga era chiqurrima. Desde o jardim de infncia. Ns morramos de inveja dela, porque ela tinha uma lancheira toda de estrelas e porque ela levava guaran de lanche. Na adolescncia, a gente ia muito pra fazenda dela. Depois, ficamos anos sem nos ver. Mas, quando seu pai morreu, ela me mandou um cartozinho muito carinhoso. Ela meio chata, s vezes, mas uma pessoa boa. Liga a batedeira, vira de costas, continua falando e os dois saem. CENA 4 na varanda ISA Volta l j e fala com ela. Conta tudo pra ela. Pelo menos, ela j no vai ter que engolir tudo o que a Olga vai meter nos ouvidos dela. Porque tudo o que a Olga deve estar querendo, a essa altura, que algum -que no seja a filha dela seja o culpado por essa encrenca toda. Volta l j e fala com ela! CAO No posso, Isa. No, eu no agento. ISA Sabendo por voc, a mame vai ficar em pnico, mas pelo menos no vai ter que fazer aquele nmero da me em pnico para impressionar a outra, entende? Ela vai se atracar com voc, vai perguntar onde foi que eugora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 50(Black plate)50GORA LIVRE DRAMATURGIASerrei? Vai fazer tudo. Mas voc vai explicar que voc no um viciado em drogas, eu vou dizer que eu tambm experimentei, que no vai acontecer mais nada. E no vai acontecer mais nada mesmo, est entendendo? CAO (emburrado) T entendendo, t entendendo. ISA Ento vai falar com ela agora. Som de telefone. Duas vezes. Lena atendeu l dentro. ISA Olha. T vendo? No falei? Voc um idiota, Cao, eu estou com dio de voc. dio. CAO Chega, Isa! Voc quer que eu faa o qu? Que eu me suicide? J fiz a cagada. Est feita. Eu j estou me sentindo o cara mais delinqente do mundo, o cara mais cago do mundo, se te consola. Mas o que que eu posso fazer, porra? ISA Podia ter falado. CAO No podia. Eu no sei, eu no consigo. LENA (off) Antonio Carlos! Faz favor de vir aqui, Antonio Carlos! Lena aparece na porta. Cao entra, a porta se fecha. A luz cai. CENA 5 LENA (para Isa) Ele fez tudo, exatamente tudo o que me deixa desesperada.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 51(Black plate)51Tive que ouvir da Olga aquele velho show de como que se educam os filhos, que ela adora fazer pra cima de mim. "Onde que eles esto estudando, Leninha? No Colgio Equipe? Mas no um caos? Ouvi dizer que no do o menor limite... A gente prefere uma linha mais tradicional" "A Isa volta de txi? Ah, no, l em casa, eu e o Zeca fazemos questo de pegar na festa. Pode ser a hora que for, mas a gente vai buscar". A, eu fico me achando um lixo, um horror de me. Ela faz o maior show pra cima de mim, me d conselhos, num tom meio piedoso, detestvel, porque ela acha que assim que se fala com viva. E j estou at vendo a cena do Nelson, que "bonssimo" pra ns e s quer ouvir boas notcias: primeiros lugares, notas sensacionais. Se ele souber disso, eu mato o Cao. CENA 6 CAO Falar com a mame a coisa que eu acho mais difcil no mundo, Isa. Voc no entende? ISA No. No entendo. O que que ela pode fazer? Te bater? Te matar? CAO No, Isa. Ela pode ficar triste. isso que ela pode fazer. E isso a coisa que eu tenho mais medo no mundo: ver a minha me triste. ISA Mas, Cao, todas as mes ficam tristes alguma hora. No existe um ser humano que fique alegre 24 horas por dia. Como que...? CAO Mas as outras mes, Isa, elas tm tristezas pequenas, entende? Elas ficam tristes porque a torradeira quebrou, porque o cara no veio consertar a pia, porque a festa foi ruim, e a mame... ISA E a mame o qu?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 52(Black plate)52GORA LIVRE DRAMATURGIASCAO A mame, ela lembra do dia em que o papai morreu, Isa. ISA (doce) Ela lembra, claro que ela lembra. Que nem voc, que nem eu, Cao. Mas no mais igual ao dia em que ele morreu, Cao. Aquilo j passou, ela j criou um calo, entende? Ela tocou a vida dela, a gente, a nossa. A gente tem uma vida. Pode no ser a perfeio, mas cada famlia tem l os seus bodes, mesmo quem tem pai. CAO Eu fico desarvorado, se a mame no est bem. Eu passei a vida checando se a mame estava bem. A voz da mame, a cara da mame de manh. Quando ela sorri e eu vejo que est tudo normal, ah!, que alvio. A, eu relaxo e comeo o meu dia. Se a voz est estranha, a cara ruim, eu entro em pnico. ISA Mas, Cao, impossvel fazer isso que voc queria: ficar permanentemente feliz... CAO Eu sei que loucura, Isa. Claro que loucura. Ningum pode ficar feliz o tempo inteiro. E at, depois que ela me explica: "ah, foi aquele seu Heraldo, do Ita, que devolveu um cheque meu", ou ento: "voc acredita que aquela maldita ignio quebrou outra vez?" Depois que ela me explica onde que t pegando, eu fico aliviado. Mas aquele instante em que eu olho para a mame crucial. Pra mim, a hora que eu olho para ela pode ser, outra vez, a hora em que ela contou pra gente que o papai tinha morrido. A gente chegando da escola, a casa cheia, aquelas pessoas olhando esquisito pr gente, a gente procurando a mame, tentando entender, a mame de costas, naquela janela que d pro quintal dos fundos. E de repente ela se virou para para ns e o rosto dela estava daquele jeito, daquele jeito que eu tenho pavor de ver outra vez. No era mais a me que eu tinha quando eu sa de manh pr escola. Ela abaixou pra nos abraar, ela apertou forte, eu no entendia o que ela dizia. Papai no vai mais voltar. Mas, pra mim, a nica coisa que eu pensava era: ser que mame vai ficar assim pr sempre?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 53(Black plate)53Ser que ela nunca mais vai ser daquele outro jeito, do jeito que ela era at hoje de manh? CENA 7 Lena pendura roupas no varal. Acha, secando, um suti de renda preta. Examina-o demoradamente. Isa entra, procurando alguma coisa entre as roupas penduradas. Acha o suti de renda na mo de Lena. Fica meio desconcertada. LENA (largando o suti) Vai sair? ISA Vou. LENA Vai na casa da Cam? ISA Talvez. No sei ainda. LENA Tem festa ou... ISA No. Vou sair com uns amigos. LENA Seus amigos da escola? ISA No, uns amigos novos. LENA Ah. O que que eles fazem?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 54(Black plate)54GORA LIVRE DRAMATURGIASISA Eles fazem artes plsticas. LENA Ah, que legal! Na Escola de Belas Artes? ISA No, no. Eles j se formaram. LENA Ah! So artistas! ISA . J so artistas. LENA Algum conhecido? ISA Ainda no. LENA Traz eles aqui um dia, pra eu conhecer. ISA Eu estava pensando mesmo em trazer. Eu no sabia se... Eu pensei que... LENA Voc pensou que...? ISA Tem um deles, em especial, que eu queria que voc conhecesse, me, porque a gente est namorando. LENA Ah, ? Voc est contente?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 55(Black plate)55ISA Muito, me. Eu estou muito apaixonada. LENA Filha... ISA Eu no sei se voc vai achar muito boa idia, sabe, me? LENA Eu no vou achar boa idia? ISA Ele separado, me. LENA Ele separado? ISA . LENA Quantos anos ele tem, filha? ISA Ele tem 32, me. LENA 32, filhinha!? Mas voc s tem 18! ISA E ele tem um filho. LENA (sentando) Meu deus, Maria Luisa, eu nem acredito no que eu estou ouvindo. Voc est namorando o pai de um filho?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 56(Black plate)56GORA LIVRE DRAMATURGIASISA Estou, me. LENA Mas no nada assim muito srio, ? ISA Bom, me, eu estou apaixonada por ele. Isso srio, no? LENA Um homem separado, Isa, com filho? No podia ser nada mais simples, no? ISA Me, no uma falha de carter ter um filho, ? LENA No comea, Maria Lusa, no comea a me tratar desse jeito. Como se eu fosse uma carola, uma idiota. Eu estou surpresa, tenho direito de ficar. Eu fico preocupada, eu fico confusa. Voc uma garota, devia namorar os garotos da sua idade e no um senhor de 32 anos. No legal, no saudvel, entende? Eu no vou aceitar esse namoro. Voc est proibida de namorar esse sujeito. Cao sai de repente de trs de um varal, assoviando, para disfarar que ouviu a conversa. ISA (irritada) O que , Cao, est procurando alguma coisa? CAO Nossa! Que que deu na boneca? T nervosa! (sai) Silncio pesado entre as duas. ISA Saudvel, pra voc, o qu, me? namorar uns pirralhos, dar unsgora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 57(Black plate)57amassos nas festinhas e telefonar pras amigas no dia seguinte, pra contar? Eu j passei dessa idade, voc no notou? LENA Eu notei, sim. Eu no sou to idiota quanto voc pensa. Eu sei que voc dorme com seus namorados, se isso que voc quer me dizer. ISA No, no era isso que eu queria dizer. LENA Bom, de todo modo, voc deu um jeito de eu saber, esquecendo suas plulas no meu banheiro, jogando teste de gravidez no lixo do seu banheiro. ISA Voc preferia no saber, n, me? No saber e no contar. Que nem voc faz. LENA Posso saber de qu que voc est falando? ISA Estou falando que voc tambm sai, de vez em quando, e chega de madrugada, mas segredo. Todo mundo finge que no viu. LENA Eu no tenho que dar satisfao da minha vida pra uma pirralha desrespeitosa. Voc s vezes ruim comigo, Isa. Me espanta ver a raiva de mim que de vez em quando voc bota pra fora. ISA porque voc to fechada e d to pouca brecha pra falar de mim ou pra falar de voc, que eu s boto pra fora na hora que explode. LENA Eu tenho as minhas dificuldades, como todo mundo, Maria Lusa. Sgora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 58(Black plate)58GORA LIVRE DRAMATURGIASque eu no fico falando nelas porque eu acho que a vida de vocs j foi bem difcil, pra ainda ter que agentar me lamurienta. (sai) ISA (com pena) Me... CENA 8 casa Cao entra, Lena est esperando ansiosamente. LENA Como foi, filho? CAO Oitentinha, me. LENA Como assim, oitentinha? CAO Pelo gabarito do cursinho, eu acertei oitenta por cento das questes. LENA E quanto precisa pra entrar? CAO Ah, vai depender da nota de corte. Se for igual ao ano passado, com setenta, eu j estou dentro. LENA Mas ento foi timo! Que bom, filho! Parabns. ISA (entrando) Foi boa a prova?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 59(Black plate)59LENA Ele acertou oitenta por cento, Isa! ISA Nossa, Cao! Oitenta por cento no vestibular da GV? Voc um caso rarssimo. LENA Eu estou achando que logo logo ns vamos ter um calouro em casa... CAO Me aguardem. Lena sai. ISA Cao, pra. Pra com isso. Voc sabe que foi uma merda, que a prova foi dificlima, que voc no acertou quase nada. CAO Imagina, Isa. T Louca? Quem te falou? Como que voc sabe? ISA Eu encontrei aqueles seus dois amigos cdf no metr. Eles estavam saindo da prova, conferindo gabarito. Eles estavam arrasados, Cao, e eles so dois manacos. Se matam de estudar desde que aprenderam a andar. Pra de criar essa expectativa. Vai ficar mais difcil ainda, depois. CAO Isa, eu sou uma merda, mesmo. ISA Bom, Cao, qualquer pessoa que precise ser o maior espetculo da terra 24 horas por dia acaba se sentindo uma merda, mesmo.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 60(Black plate)60GORA LIVRE DRAMATURGIASCAO Nossa, Isa, eu vou ter que contar pr mame que eu vou danar. melhor contar antes, no ? Preparar terreno. ISA E por que que voc no aproveita e conta pra voc mesmo que voc odeia administrao de empresas, que no tem nada a ver com voc? CAO Como assim, nada a ver comigo? ISA Tem a ver, Cao? Estou dizendo algum absurdo? CAO No sei por que eu no poderia estudar administrao. ISA Voc no acha estranho, Cao? Voc gosta de trabalhar com imagem, voc gosta de cinema. Vive enfiado em mostra de cinema, em vez de ir ao cursinho. CAO Eu...!? ISA Cao, pelo amor de deus: comigo voc no tem que fazer o bonzinho, n? Por que que voc no assume o que voc gosta? CAO Cinema uma aventura, Lena. Eu preciso de uma carreira segura. ISA Quer parar de ser babaca, Cao? Voc parece que tem 80 anos. Me recuso a continuar essa conversa.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 61(Black plate)61CENA 9 Lena est na sala. Cao entra. CAO Me? LENA Hmm? CAO Me, eu preciso te falar uma coisa. LENA Hmm. CAO Me, eu acho que... LENA Acha que...? CAO Eu acho que eu entrei. LENA Voc acha que voc entrou na faculdade? isso que voc est me contando? CAO . No. Calma, me, deixa eu explicar. LENA Explica de uma vez, eu estou ficando nervosa. Entrou ou no entrou? CAO Entrei, me.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 62(Black plate)62GORA LIVRE DRAMATURGIASLENA Entrou, meu filho! Voc vai estudar na GV, igual a seu pai, igual a seus tios! CAO No, me, no. No foi na GV. LENA Ah, no? Foi onde, ento? CAO Foi num curso tcnico de contabilidade na Fundao Armando lvares Penteado. CENA 10 ISA Me, eu tenho uma coisa importante pra falar com voc. Pra falar com vocs dois. LENA Ai, meu deus, coisa importante da Isa um perigo. Fala logo. CAO Que coisa? ISA Me, Cao, sabe... o Al... Eu e o Al, a gente vai casar. LENA Casar? ISA Mais ou menos. No casar no papel, dar festa, essas coisas. Mas a gente est pensando em morar juntos.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 63(Black plate)63LENA Mas, Isa, vocs se conheceram ontem! No pode ir decidindo as coisas assim, to depressa. ISA Ontem, me? J faz seis meses! LENA Seis meses no nada. (um fio de voz) Onde, minha filha? ISA No comeo, at a gente arranjar uma grana pra procurar uma casa legal, no apartamento dele, mesmo. LENA Voc vai se mudar pr casa do Al, filha? ISA Eu vou, me. LENA E voc est pensando em se mudar quando? ISA Bom, me, na verdade... amanh. LENA Ai, Isa, pelo amor de deus, Isa, no faz assim desse jeito, Isa. Eu preciso de um tempo pra me acostumar com a idia, eu fico to insegura... O que que o seu pai ia dizer de uma coisa dessas, Isa? A filhinha linda dele morando num apartamento infecto da praa da Repblica, com um artista plstico desconhecido. ISA Falando assim, parece uma tragdia, mesmo.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 64(Black plate)64GORA LIVRE DRAMATURGIASLENA Mas, filha, no verdade o que eu estou dizendo? ISA Pra mim, me, a histria assim: a filhinha linda dele fez 19 anos e foi morar com o cara por quem ela se apaixonou. O cara tambm est apaixonado e quer loucamente dormir e acordar com ela todos os dias. No uma coisa boa da vida, isso? CENA 11 a mudana de Isa; um caos de roupas, caixas abertas, malas Isa joga fora um monte de pastas de papel. ISA Quer ficar com esses discos de vinil? No vou poder levar e os armrios daqui j esto entulhados de coisas que no vo caber l. CAO (pegando a pilha) Deixa eu olhar. ISA No. A condio levar o pacote fechado. Voc depois olha um por um e joga tudo fora, se quiser. Agora, tem que tirar daqui. CAO Fechado. (sai com a pilha de discos) Isa arrasta umas caixas, v alguma coisa que lhe chama a ateno. Tira uma fita de vdeo e fica olhando. CAO (entrando) E isso, o qu? ISA Aniversrio de 7 anos.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 65(Black plate)65CAO (avanando e tomando da mo dela) Deixa eu ver? Deixa eu ver? ISA No, Cao, se eu for parar para olhar lbum de foto, eu no vou acabar isso nunca e eu quero acabar antes de a mame chegar. Evita ela se emocionar. CAO Evita voc ver ela se emocionar. ISA Pode ser. O Al vai passar s cinco e meia, com uma kombi que o tio dele emprestou. Em duas viagens, d pra levar tudo. CAO Voc, espertalhona, se mudou primeiro. Agora eu fiquei por ltimo. Vou ser o ltimo a sair e vou ter que deixar a mame sozinha. ISA At parece que voc est pronto para sair de casa. Ainda vai demorar anos, Cao. Pra que se preocupar desde j? CAO J estou at vendo a cena que a mame vai fazer na minha sada. Conheo a mame. (abre um lbum de fotos e fica vendo, enquanto Isa arruma) Foi a sua festa de Branca de Neve. Olha a Belzinha de fada! Olha o Miguel de He Man! ISA Cao, pelo amor de deus, vai ver foto agora!? Em vez de me ajudar, voc fica vendo foto. CAO S um pouquinho, s um pouquinho. Olha a dona Geni, quando ela se mudou pra casa do lado. E o Giancarlo, da vila, Isa. Olha a mame com o bolo. A mame acendendo as velas. Olha: o papai.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 66(Black plate)66GORA LIVRE DRAMATURGIASIsa larga as caixas e senta ao lado de Cao. ISA Olha o papai, Cao, que contente que ele estava. CAO Olha a mame... ISA Que linda, ela... CAO Que novinhos. Que idade eles tinham nesse dia? ISA No dia em que eu fiz sete anos? A mame tinha vinte e oito. O papai tinha 31. CAO Eu tinha cinco. ISA E ns s amos viver todos juntos mais um ano. Mas a gente nem sabia. CAO Ainda bem. Luz cai. Fica s a luz do vdeo nos rostos deles e o som da festa de aniversrio. Lena entra. Cao quer fechar o lbum. Isa o impede. ISA Vem ver, me, a minha festa de 7 anos. Os trs parados diante do vdeo e o som distante da festa.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 67(Black plate)67CENA 12 memria de Isa e Cao O lbum agora um livrinho. LENA Olha que livrinho lindinho que a mame arranjou pra contar pra vocs. ISA (meio que arrancando das mos da me) Deixa eu ver! Deixa.. Ah, j sei. aquela histria da florzinha, da abelhinha, do golfinho e do homem gorducho que pe o pinto na barriga da mulher dele! LENA (desconcertada) Ah, voc j conhece o livrinho? ISA Ih, me, faz tempo. Tem na casa de todas as minhas amigas. LENA (aliviadssima) Ah, ento voc j sabe a histria! CAO Mas eu no sei. Homem gorducho que pe o pinto na barriga da mulher dele? LENA Ah, voc no leu, Cao? CAO No, no li. Quero ver, quero ver! LENA Pois ento, Cao. Olha s que bonita que a natureza . Quando uma florzinha est madura, ela...gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 68(Black plate)68GORA LIVRE DRAMATURGIASISA Mais pra frente, me. Mais pra frente! LENA Calma, Isa! Espera. Voc j sabe, mas seu irmo, no. Deixa eu contar com calma. CAO (vido) Ento conta com calma. LENA Pois ento, a flor tem uma sementinha que as abelhinhas... CAO No, me. Eu quero ver o homem gorducho que pe o pinto na... LENA (histrica) J vai, j vai, espera um pouquinho! Cao avana e vira as pginas. CAO Olha, t aqui o homem, me. Por que ele est sem cala? LENA O homem diferente da florzinha e da abelhinha. ISA Ah, !? No acredito. Conta, me! LENA O homem e a mulher, quando eles querem fazer um bebezinho, eles tm uma sementinha tambm. Ele, dentro dessas bolinhas aqui, a mulher, dentro da barriga. Ento, quando eles querem ter um bebezinho, a sementinha dele tem que encontrar a sementinha dela.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 69(Black plate)69CAO Me, isso t parecendo mais uma plantao. LENA No . Voc vai ver. A mulher tem um buraquinho, olha s no desenho o buraquinho. CAO Me! C t por fora, hein? Esse buraquinho a a boceta! LENA Cao! Precisa falar assim, desse jeito to feio? O nome desse buraquinho vagina. E o homem pe o pnis. CAO Pnis, me?! (ele e Isa seguram o riso) LENA Ok. Pode chamar de pinto, se voc quiser. O homem pe o pinto... CAO No umbigo dela! LENA No, meu filho. No umbigo, no. Na vagina. CAO Ih, me, isso t ficando com uma cara de trepada... LENA Cao! (fecha o livro) Ah, desisto. impossvel falar com essas crianas. Eu tento, mas impossvel! CENA 13 quarto de Cao; noitegora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 70(Black plate)70GORA LIVRE DRAMATURGIASISA O Al vai morar em Barcelona, Cao. Ele arrumou uma bolsa l, pra passar um ano estudando, e eu vou com ele. CAO Voc vai morar em Barcelona, Isa? Mas como que voc vai viver em Barcelona? Voc no tem dinheiro. ISA O Al tem um pouco, pra comear. Depois, eu vou me descolar por l. CAO Mas voc no vai falar com a mame hoje, vai? ISA No sei, ainda no decidi. Estou pensando qual o melhor momento. Talvez seja melhor esperar um pouco mais, pra quando eu souber mais detalhes, pra ela ficar mais tranqila. CAO Ela vai achar um absurdo voc largar a faculdade. ISA J sei, j sei, j estou at vendo ela falar. CAO Mas voc acha mesmo uma boa pra voc? Largar tudo, s pra ir atrs do Al? ISA Como assim, s pra ir atrs do Al? Eu amo o Al. A vida sem ele no tem a menor graa, pra mim. CAO Bom, s me avisa o dia que voc for falar, por que eu no quero estarem casa.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 71(Black plate)71ISA No quer estar em casa por qu? O que que voc tem com isso? CAO No gosto dessas situaes. Fico nervoso. ISA Voc, nervoso? Imagina eu. CAO Isa, que dia voc vai? ISA (hesita) Semana que vem. CAO Isa! Voc louca? (Isa vai saindo) Voc vai matar a mame do corao! Odeio a Isa. CENA 14 sala de Lena Os dois lem em silncio. Cao espreita Lena. LENA Sabe, Cao? Quando a Isa saiu, eu fiz um drama, achei que era uma tragdia, mas outro dia eu percebi que eu estou suportando muito bem. E at, sem morar junto, estou me entendendo muito melhor com a Isa. CAO Olha s: t vendo? A gente acostuma com tudo. LENA Estava pensando at em alugar uma casa na praia, esse vero, em vez de ir viajar com a Elza. Custa quase a mesma coisa e a gente ia poder passar um tempo gostoso juntos. O que voc acha?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 72(Black plate)72GORA LIVRE DRAMATURGIASCAO Casa na praia? Onde? LENA No Sahy. Tem uma pra alugar, do lado da casa do Nelson. CAO Ah, ? LENA S que tem que tem que dar a resposta amanh, por que tem mais algum interessado. Voc no acha que a Isa ia gostar? CAO . Acho que ia. LENA Sabe o qu? Acho que eu vou ligar pro Nelson e pedir pra ela reservar a casa pra mim. CAO No, me, espera. Fala com a Isa, primeiro. V se ela j no tem algum plano para o vero. LENA Ser que ela tem, Cao? Ela te falou alguma coisa? CAO No, nada. S que... Sei l. Pergunta pra ela. (sai apressado; deixa Lena com a pulga atrs da orelha) CENA 15 Isa entra, Cao e Lena esto acabando de jantar.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 73(Black plate)73LENA Isa, meu bem! Eu estava precisando falar com voc. ISA Ah, ? O qu? LENA Eu estou tramando umas coisas aqui, pro vero. CAO D licena, me, d licena, Isa. Marquei de estudar na casa de um amigo. (chispa para fora de cena) ISA Me, tenho que te falar uma coisa. LENA Uma coisa? O qu, Isa? Voc no est grvida, est? ISA Me, o Al ganhou uma bolsa pra estudar em Barcelona. LENA Uma bolsa pra Barcelona? Que maravilha! ISA Ento, me. Eu acho que eu vou com ele. Lena senta devagarzinho. Luz cai. CENA 16 um ano depois; sala de Lena CAO (entrando) Hmmm... que cheiro bom de jantar!gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 74(Black plate)74GORA LIVRE DRAMATURGIASLENA (indo beij-lo) Fiz empado. Muito trnsito? CAO Mdio. Algum recado? LENA O lvaro ligou, radiante. Entrou na Eca. CAO O lvaro entrou na Eca? Cinema na Eca? LENA Ele no me falou se era cinema. S falou que era na Eca. CAO Desgraado! Fez a maior onda, falou que no tinha a menor chance. Entrou. O Pedro entrou, o Chico. Acho que s eu no entrei na Eca! LENA Ligou tambm o tio Nelson. Pediu pra voc ligar quando chegar. Eu acho que ele tem uma notcia boa de trabalho pra te dar. CAO A Isa? LENA Ligou depois do almoo. Arranjou bolsa, inscrio, tudo. At creche para Marina. Eu estou to em paz. Saber que a minha filha est estudando fora, e no perdendo o tempo dela com um sujeito complicado... CAO Me, ela gosta dele, me. o pai da filha dela! LENA Eu sei, meu filho. Mas ela tem 21 anos. Eu gostaria que ela cuidasse um pouquinho do futuro dela, tambm, no?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 75(Black plate)75CAO Tudo bem com ela? LENA Me pareceu que sim. Est gostando do trabalho, achou a creche simptica. Diz que a Marina deu uma choradinha, mas logo acostumou. CAO Figuraa. LENA Cao, ltima vez, prometo: voc no vai mesmo ligar pro tio Nelson? CAO Porra, me! Voc minha me ou me do tio Nelson? LENA Sabe o que , filho? Eu fico aflita. Eu acho que pode parecer descaso, e ele presta tanta ateno em voc, tem tanto interesse... Ele ficou anos esperando voc ir trabalhar com ele. Ficou radiante o dia que voc aceitou o lugar que ele te ofereceu. E s vezes voc to... frio, to... No trata o seu futuro assim, a pontaps, Cao. CAO Ok, me. Fica tranqila, fica. Eu vou cuidar direitinho do tio Nelson. Eu s no quero que ele ache que eu sou aquela fantasia dele a meu respeito: um menino muito bom, que ele ajudou a criar, pagou os cursos de lnguas, a viagem Europa, e que perfeito pra ajudar ele no escritrio. Voc entende, me? LENA Mas ruim ser algum perfeito pra ajudar ele no escritrio? Isso no te d um lugar que um monte de rapazes gostariam de ter? CAO No sei, me. Eu ainda no sei direito. E cada vez mais parece que eu no vou ter o direito de escolher.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 76(Black plate)76GORA LIVRE DRAMATURGIASLENA Ningum est te obrigando a nada, Cao. Se no isso que voc quer, s... CAO Me, que tal se a gente jantasse? CENA 17 msica: There's a kind of rush Lena, arrumadssima, se olha no espelho. Tira um estojinho da bolsa, inspeciona rigorosamente os olhos e a boca e retoca o batom. Guarda o estojo e vai saindo. Entra Cao, vindo da rua. CAO Hmm! Que linda! LENA (sem graa) Voc acha? CAO (avaliando aprovadoramente) Lindona. Vai pr balada? LENA Tenho um jantar. Um jantar com o pessoal do... Toca o interfone. Cao atende. CAO Ela j vai. (desligando) Me, tem um tal de Eugnio pedindo pra voc descer. LENA (sem graa) Ah! o Eugnio. Deixa eu ir, que j estamos em cima da hora. Tchau, meu filho. CAO Tchau, me. Divirta-se.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 77(Black plate)77LENA (off) Obrigada! Cao vai espiar pela janela. Fica agradavelmente intrigado. CENA 18 LENA Cao, eu encontrei uma pessoa. CAO Pessoa ou homem? Esse negcio de conheci uma pessoa coisa de homossexual. LENA Um homem, Cao. O que mais haveria de ser? CAO Me, voc est namorando! Ela est namorando! Tenho que ligar pra Isa, j, imediatamente. LENA No, calma, Cao. Espera. CAO Quem , me? LENA Ah, no sei se voc vai lembrar dele. Ele era amigo do seu tio, ia pra fazenda da Maria Augusta, h muitos anos, mas, naquela poca, ele era casado com a Miriam. CAO Como que ele chama?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 78(Black plate)78GORA LIVRE DRAMATURGIASLENA Eugnio. CAO Eugnio... Eugnio. No estou lembrando. Pera a, me, no o Eugnio? No o Eugnio que voc namorou? LENA ele mesmo. Ento. CAO U, me, mas voc namorou ele h anos, ele sumiu, nunca mais deu as caras, achei que tinha danado totalmente. LENA Naquela poca, no deu certo. CAO Por que no deu certo? LENA Era complicado pra mim, Cao. Era tanto conflito. Eu pensava no seu pai e... CAO Pensava no papai e... LENA Eu achava que a presena de um homem junto de mim marcava demais a ausncia de seu pai junto de vocs. Eu me sentia mal, me sentia culpada. CAO Como se, ficando bem quietinha, a gente nem fosse reparar que ele estava faltando, n, me? LENA , meu filho. Por mais absurdo que parea, foi assim que eu vivi durante anos.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 79(Black plate)79CAO Que absurdo, me. LENA Hoje eu tambm acho. Mas era complicado pra mim. Seu pai foi meu primeiro namorado. Eu sentia muita culpa de querer outro homem. Quando eu percebi que eu ainda era capaz de sentir desejo por algum, foi uma nova crise. At ali, foi como se eu tivesse morrido tambm. Eu tambm estava meio morta, estava triste, mas no tinha conflito. Mas, quando voc se apaixona, sente teso, no d pra disfarar que voc est viva, mesmo. Eu no agentava de culpa. E eu namorava escondido. Me sentia ainda mais culpada e escondia ainda mais. CAO Voc namorou escondido muitas vezes, me? LENA Algumas vezes, meu filho. CAO Voc teve muitos namorados? LENA Alguns. CAO Quantos? LENA Que importa, Cao, que diferena faz isso? CAO Mas quanto tempo depois que o papai morreu que voc... LENA Que eu tive o primeiro namorado?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 80(Black plate)80GORA LIVRE DRAMATURGIASCAO . LENA Dois anos depois. CAO Ento, quando a gente era pequeno, voc tinha namorado? LENA Tinha, meu filho. s vezes, eu tinha. CAO Ah, que bom, me. (ela ri, aliviada) E quanto tempo faz que voc reencontrou o Eugnio? LENA Ah, foi na praia, na Bahia. CAO Na Bahia? LENA Isso. Isso mesmo. CAO Mas, me, voc foi Bahia h seis meses! LENA Faz tudo isso? Meu deus! CAO Faz seis meses que voc est namorando e no contou pra gente? LENA Eu sei que vocs devem estar me achando ridcula, mas...gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 81(Black plate)81CAO Estou te achando ridcula, sim. Namorar escondido dos filhos. Me, no me conformo. Ridculo! CENA 19 casa de Lena CAO Mas o que foi que ela falou, me? LENA Ela falou que eles vo se separar, que esto se separando, e ela vai voltar para o Brasil com a Marina, na semana que vem. Mas ela chorava tanto, Cao, ela chorava tanto, que at eu entender o que estava acontecendo... Fiquei at aliviada quando ela disse o que era. Pensei que um deles tinha sofrido um acidente, ou ... ou que algum tinha morrido. CAO Ela explicou por que? Contou alguma coisa? LENA Ela disse que o Al se apaixonou por outra mulher. CAO Filho-da-puta! LENA Eu tambm fiquei com muita raiva. Mas no quero pensar assim. Essas coisas acontecem. Podia ter sido ela a se apaixonar por outro. da vida. CAO Mas logo agora, que eles tm a Marina. No podia ser antes? Encana que tem que ser pai, que no pode nem esperar a Isa se formar, e, depois que a filha nasce, ele se apaixona por outra?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 82(Black plate)82GORA LIVRE DRAMATURGIASLENA Ai, minha filha querida, em outro pas, passando por isso. Eu queria pegar um avio agora e ir l botar ela no colo, fazer uma canja, sei l. CAO Por que voc no vai? LENA Eu ofereci, mas ela me pediu pelo amor de deus pra no fazer isso, que ia ser insuportvel algum no meio daquele clima horroroso de separao e que na semana que vem ela j vai estar aqui. CAO Ela vai ficar aqui com voc? LENA Ah, claro, meu filho. Onde que ela ia se meter, sozinha, com um beb, assim, de repente? CENA 20 Cao e Isa; na sala de Lena, acolchoado com brinquedinhos de beb, no cho, um voador; um carrinho de bengalinha CAO Marina estranhou muito? ISA Nunca mais dormiu uma noite inteira. Acorda pelo menos trs vezes, chorando. As crianas percebem. Ela percebeu que eu no estava bem, primeiro. Depois percebeu a falta do Al, que nos ltimos dias ele quase no apareceu em casa, e depois a mudana, a despedida no aeroporto, outras pessoas, outra casa... O mundo dela virou de pernas pro ar. Tadinha. No est entendendo nada. CAO E voc?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 83(Black plate)83ISA Bom, eu estou dormindo, o que j uma grande conquista. Dr. Navarro me deu uma receita de dormonid, eu tomo meio e caio dura. A mame socorre a Marina, quando ela chora. A, dormindo, eu j me sinto melhor fisicamente, fico mais legal com a Marina e ela se acalma um pouco. Eu estava uma morta-viva. Exausta. CAO Faz tempo, Isa? Quando foi que ele...? ISA Bom, a deciso mesmo, a conversa final, foi na semana passada. No dia que eu liguei pr mame. Mas a histria vinha se arrastando h meses. CAO Ele te falou ou voc descobriu? ISA Primeiro, eu tive uma intuio. Mas eu no podia afirmar que era alguma coisa, mesmo, ou se era a minha insegurana. Um dia eu fui retirar um livro na biblioteca e vi o Al conversando com uma moa. No estava agarrando ela, no estava beijando, nada. S conversando. Mas ele estava numa felicidade to grande, que me chocou. A felicidade do Al conversando com aquela moa foi um soco no meu peito. Porque me caiu a ficha de que h muito tempo ele no sorria mais pra mim daquela maneira. CAO Mas podia ser uma m impresso, uma encanao. ISA Podia. Mas eu no queria perguntar pra ele, me expor no papel da mulher insegura, entende? Se a coisa est frgil, o cara ainda fica se sentindo mais sufocado. CAO . E, sei l, todo casal tem suas crises. Podia ser apenas um momento.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 84(Black plate)84GORA LIVRE DRAMATURGIASISA Eu me dizia isso a toda hora: uma fantasia, uma bobagem, isso j vai passar e eu vou encontrar de novo aquele canal com o Al. Eu, o Al e a Marina, a nossa casa, a nossa vida. Eu fiquei meses nessa dvida. s vezes, parecia bem, s vezes, parecia pssimo. Eu perguntava pra ele se estava tudo certo, ele dizia que estava s meio cansado, muito assoberbado, que nas frias... Mas, a, um dia, vi o Al beijando a Jean, ela chama Jean, dentro do nosso carro, no estacionamento da faculdade. CAO Merda, Isa. ISA Merda, uma merda. Pensei que eu ia morrer. CAO E ele? Ele falou o qu? ISA Nada. Eu esperei ele em casa, acordada, at as 2 da manh, aquela noite, pra perguntar pra ele: Al, o que que est acontecendo? Ele chegou, rodou a chave na porta, virou direto pro quarto e nem foi falar comigo. Se enfiou na cama. Quando eu desisti de esperar e entrei no quarto, ele estava dormindo, coberto at as orelhas. E foi assim no dia seguinte, e no seguinte, at que eu tive um ataque histrico, quebrei uma sopeira linda que a gente tinha comprado em Nova York. CAO A ele falou... ISA . Mdio. Ele falou que no sabia se era o fim ou se era passageiro, que ainda gostava de mim, mas que no era feliz mais, h algum tempo, desde que a Marina nasceu, que estava numa puta crise. CAO Pode ser que seja isso, mesmo, Isa. Uma puta crise. Ou ento ele no queria mais, mas no teve coragem de te falar uma coisa que ia te ferir tanto.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 85(Black plate)85ISA Ele no teve, mesmo, nenhuma coragem. Preferiu que eu descobrisse, que eu tivesse esperana, que eu perdesse a esperana, que eu entrasse em desespero e, finalmente, sozinha, assumisse a responsabilidade de dizer: Al, eu quero me separar. Gozado, se era pra no me ferir, ele escolheu o modo mais torturante. CAO Eu sei perfeitamente do que voc est falando, Isa. Mas agora me fala: o que que eu posso fazer pra voc j, hoje, imediatamente? Isa, eu no agento ver voc sofrer desse jeito. Eu queria poder te proteger, Isa. Voc me protegeu tanto, na vida. ISA No fiz nada, Cao. CAO S de voc estar l, o tempo todo, decidida, fazendo o que tinha vontade, sem ficar com medo da mame, sem ficar com medo de ningum, isso pra mim j foi uma enormidade. Eu achava voc muito mais forte que a mame, juro. ISA Pra voc ver como eu tambm sou fraca. Toda aquela pose, aquela coragem era s com a mame. Com o Al, eu fui de uma passividade que eu no acredito. Eu fui atrs dele, fazendo tudo o que ele queria. No me impus, no discordei, mesmo quando l por dentro eu discordava... Eu pareo forte, Cao. Mas eu descobri que eu no sou. CAO Espera at a semana que vem, pra voc ver...Voc vai levantar, Isa. Escuta o que eu estou te falando. Voc linda, um mulhero. Os caras vo se jogar na sua frente. ISA Irmo bom porque realista. No nem um pouco parcial.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 86(Black plate)86GORA LIVRE DRAMATURGIASCENA 21 Isa e Cao na mesa do caf ISA Voc vai chegar pra ele e vai dizer: "Tio Nelson, preciso conversar com voc. Eu adoro voc, mas eu no gosto do que eu fao aqui, do meu trabalho, e eu quero experimentar outra coisa. Eu no sou casado, no tenho filho, posso passar uns tempo sem ganhar muito. Quero me dar essa chance, tenho certeza que voc vai entender." CAO Tenho certeza que voc no vai entender, voc quer dizer, no? ISA Ah, Cao, mas voc no fala isso pra ele, claro que no. Voc d uma chance pra ele ter um mnimo de cumplicidade com voc. CAO Mas ele no vai entender, Isa, vai ficar puto. Escuta o que eu estou te dizendo.Vai falar: "Porra, por que que no falou logo? Investi um dinheiro no cara, viagens, treinamento, o diabo, e agora ele vem me falar: ah, eu no estava gostando, tio." ISA Mas a verdade, Cao. Voc no est gostando! Como que voc quer que ele descubra, se voc no contar a ele? CAO Mas eu acabei de ganhar um aumento, Isa. ISA E da? Vai passar o resto da vida infeliz, porque ganhou um aumento? Agora ele vai poder pegar esse dinheiro e pagar a algum que goste desse trabalho, entende?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 87(Black plate)87CAO (pausa) E tambm eu nem sei se vai rolar esse negcio de produtora com o lvaro e o Pedro. Eu no sei se eu tenho o menor jeito pra cinema. s vezes, eu acho que eu inventei essa histria. ISA No muda nada. Voc no sabe ainda se quer trabalhar com cinema. Voc j sabe que voc no gosta de ser administrador de empresa. Uma coisa no muda a outra. CAO (sem a menor convico) . No muda. CENA 22 noite Isa est na sala. Cao entra. CAO Oi. ISA Oi. (observa-o cruzar a sala em direo a seu quarto) ISA Ei! CAO Hmm? ISA Voc no vai me contar? CAO Contar o qu?gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 88(Black plate)88GORA LIVRE DRAMATURGIASISA (indignada) Contar o qu!? CAO No tenho nada pra contar. ISA Ah, ? Me pendura o dia todo na maior curiosidade, me envolve no seu problema, me pergunta o que que eu acho e depois fica lacnico, como se eu estivesse invadindo a sua privacidade? Vai se foder, Cao. E no me enche mais o saco! CAO Desculpa, Isa. Voc tem razo. Mas no aconteceu nada, mesmo. Eu no falei. O tio Nelson foi viajar. ISA Foi viajar, mas volta. Ou no? CAO Volta. Mas o problema que... Eu no estou conseguindo tomar essa deciso, mesmo. Desencana, t? CENA 23 Cao entra. Lena est na sala. CAO Ela j foi? LENA Foi. Hoje tarde, a kombi levou tudo. Era to pouca coisa. Praticamente a roupa. Isa vai ter que montar tudo do zero. CAO Ela no quis mesmo esperar.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 89(Black plate)89LENA Voc conhece a Isa. Uma impacincia, uma urgncia. Fica parecendo que morar na casa da me uns meses era um sacrifcio insuportvel... CAO No, me, no isso. Voc sabe. LENA Eu sei que no , mas uma pressa de sair que magoa. Eu sei que ela precisa ter a casa dela, que a Marina precisa ter a casa dela, mas, meu deus, aqui tambm um pouco a casa dela, no? CAO (abraando Lena) Claro que , me. No encana, vai. LENA Voc tambm est se sentindo sufocado aqui? CAO Voc quer saber se eu tenho planos de me mudar? LENA Quero. Porque voc tambm tem direito de tomar seu rumo. S queria que me avisasse com um tempinho, pra eu me acostumar com a idia. CAO Fica tranqila, me. (derrotado) Eu costumo demorar muito pra tomar coragem... luz indica passagem de tempo CAO (recordando) Naquele dia, eu ainda acreditava que era possvel adiar infinitamente todas as decises. Eu tinha todo o tempo do mundo, e meus sonhos podiam esperar. Logo logo eu ia aprender que a vida quem estabelece os prazos e que ns no somos os donos do tempo.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 90(Black plate)90GORA LIVRE DRAMATURGIASCENA 24 o presente Atriz que faz Lena e Atriz arruma as flores, como na cena 1. Ator que faz Cao e Ator chega correndo. CAO (off) Corta! Corta! Entrando com figurino de diretor. Toda a sua atitude indica que ele no mais um menino medroso. CAO Vem c, Rosa, vamos rever a cena. ATRIZ No era isso? Eu achei to legal dessa vez... CAO Foi legal, mas no foi isso que eu pedi, no isso que o roteiro pede, entende? O que eu preciso o seguinte: uma mulher completamente zen. Daqui a pouco, vai chegar a filha, vai chegar a neta, que ela adora, vai chegar o filho, que est no trabalho. Tem um empado no forno e eles vo almoar juntos. Depois que tudo se acalmar, ela tambm vai sair com o namorado e mais um casal de amigos. Vo a um concerto e depois vo jantar. A vida ficou boa de novo e ela est celebrando tudo isso, em cada uma daquelas flores, voc me entende? ATRIZ Entendo. CAO Ento, d um tempo, d uma relaxada, depois a gente retoma a seqncia. (no walk talk) Rogrio, segura o Murilo, que eu quero falar com ele antes de refazer a cena.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 91(Black plate)91ROGRIO (off, no walk talk) Cao, voc no vai fazer ele repetir tudo, pelo amor de deus. CAO Vou fazer ele repetir quantas vezes for preciso para ficar bom. Um pedido normal dos diretores normais. ROGRIO Ele t ficando inseguro. CAO Ela vai ter que encarar a insegurana dele. Se ele quer fazer o papel, o mnimo que se espera que ele d conta da insegurana dele, certo? Eu tenho que dar conta de o filme passar o que tem que passar. Bota ele na linha. ROGRIO Yes, sir! CAO Murilo? Est me ouvindo bem? Hmm. Murilo, seguinte: essa cena difcil pra caralho. E tem que ficar evidente na interpretao que ela difcil pra caralho. Nesses poucos segundos que voc vai estar em cena, voc vai ter que romper essa pelcula fina que separa a rotina e a tragdia, voc vai ter que rasgar a sua prpria casca, sair daquele lugar onde voc se escondeu a vida inteira, me entende? O Cao nunca disse as verdades que poderiam frustrar a me. Ele sempre encontrou um disfarce, um escape, um subterfgio. Agora, ele no tem sada. com ele mesmo, terrvel, e ele no tem mais nenhuma ajuda, voc est me entendendo? Voc entende tudo o que est na cabea dele nesse momento? (ouve) Ento, quer tentar de novo? Ento, vamos l. CENA 25 rua Cao vem andando com a raquete no ombro. Som de freada, batida de carro. Luzes de carro de emergncia girando. Vozes de transeuntes, entrecortadas.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 92(Black plate)92GORA LIVRE DRAMATURGIASVOZ 1 O caminho perdeu o freio l em cima e veio arrastando tudo. VOZ 2 Ela tentou jogar o carro, mas no deu tempo. VOZ 3 Meu deus! Olha o que virou esse carro! Cao digita nervosamente um celular. CAO (respirando fundo) Me, voc precisa de alguma coisa? T bom, t bom. A Isa por acaso j chegou? (desliga, disca outra vez) Dona Geni, o Cao. Eu j sei, dona Geni. Eu estou na rua, no lugar do acidente, eu j sei. Era a Isa, dona Geni. A Marina est na creche. No, dona Geni, eu consigo chegar em casa, no precisa me buscar. Mas, pelo amor de deus, dona Geni, fica na porta e no deixa ningum tocar a campainha, no deixa ningum falar com a minha me at eu chegar a, a senhora est me entendendo? Pelo amor de deus, dona Geni, no deixa ningum contar pra minha me. (desliga) Deixa, que quem vai contar sou eu. Luz cai. CENA 26 presente Lena arrumando as flores concentradamente, como na cena 1. Entra Cao, com a bolsa de tnis, silenciosamente, a contempla por alguns segundos. CAO Me? LENA Filho, vai tomar uma chuveirada, sua irm j vai chegar.gora_03.qxd8/9/062:29 PMPage 93(Black plate)93Ele fica imvel, olhando. Lena olha para ele, estranhando. Luz em Isa, com o vestido da cena 1, sorridente, feliz. ISA Cao? CAO Que estranho, Isa, querida. Eu finalmente entendi como eu tenho fora. E voc no est mais aqui pra me ver. Voc ia ficar orgulhosa de mim, Isa. ISA Cao, voc no vai contar...? CAO S mais um pouquinho, Isa. Deixa ela aproveitar s mais um pouquinho. Uns segundos. (respira fundo, avana) Me, segura em mim. Segura com fora em mim. Isa sorri para eles e cruza o palco com os sapatos na mo, pisando na pontinha dos ps, at desaparecer. A luz cai.Marta Ges maro de 2002gora_03.qxd8/9/062:30 PMPage 94(Black plate)94GORA LIVRE DRAMATURGIASMARTA GES jornalista e escritora. No teatro, destacam-se os trabalhos: Turistas e Refugiados, dramaturgia para criao coletiva, direo de Renata Melo (2004); S Mais um Instante, direo de Elias Andreato (2002); Um Porto para Elizabeth Bishop, com Regina Braga, direo de Jos Possi Neto (2001); A Safe Harbor for Elizabeth Bishop, com Amy Irving, New York Stage and Film Festival (2004), com estria prevista em 2006 no Teatro Primary Stages, Nova York; A Moa que Falou Assim, direo de Maria Lcia Pereira (1997); Prepare seus Ps para o Vero, com Marisa Orth e Grace Gianoukas, Teatro Off (1987). Para a televiso, escreveu Marinalva, episdio para a srie Retrato de Mulher, TV Globo (1994); Proibido Voar e Pequenas Autoridades, episdios para a srie Joana, SBT (1986-1985); Filhos, Melhor No T-los, episdio para a srie Malu Mulher, TV Globo (1982). Traduziu Jantar entre Amigos, de Donald Margulies (2003); Margem da Vida, de Tennessee Williams (1998); Our Town, de Thornton Wilder (1996); As Avestruzes, de Micheline Bourday (1979). No jornalismo, trabalhou no Jornal da Tarde, como editora do Caderno Variedades (2001 a 2002); revista Isto , como editora de Comportamento (1977 a 2000), reprter de Artes e Espetculo e crtica teatral (1982 a 1985); revista Claudia, redatora-chefe (1994 a1997); O Estado de S.Paulo, editora do Caderno 2 e crtica teatral (1988 a 1993); revista Veja, subeditora de Geral (1985 a 1986); ltima Hora, reprter e crtica teatral (1972 a 1975); fez entrevistas para o livro Por uma Razo de Viver (Ed. Record, 1985), biografia do jornalista e empresrio Samuel Wainer. autora do livro A Menina que se Apaixonava (Companhia das Letrinhas, 2003).gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 95(Black plate)SOBRE A ARTE DE CORTAR BIFESdramaturgo: Hugo Possolo debatedor: Lus Alberto de AbreuMONTAGEM direo: Jairo Matos elenco: Ana Paula Aquino, Edson Montenegro, Javert Monteiro e Ricardo Rathsam cenrio e adereos: Delermi Produes Artsticas figurinos: Cris Bonna trilha sonora: Claudinei Brando edio de trilha sonora: Srvulo Augusto luz: Marcos Loureiro produo executiva: Cris Bonna e Elza Santosgora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 96(Black plate)96GORA LIVRE DRAMATURGIASSOBRE A ARTE DE CORTAR BIFESHugo Possolo Sentir pensar sem ter idias. Fernando PessoaPERSONAGEM AOUGUEIRO 1 AOUGUEIRO 2 AOUGUEIRO 3 TLIACENRIO Sala de um frigorfico. Uma imensa mesa sobre a qual os personagens cortam bifes com grandes faces e cutelos. O ambiente ttrico. Ganchos por todos os lados. Carnes penduradas. Uma porta. Uma lata de lixo grande. ATO NICO, NU E CRU Os trs Aougueiros esto cortando carne, em silncio. Ouvem-se apenas as pancadas de seus cutelos sobre a carne e a mesa. Entra Tlia.gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 97(Black plate)97TLIA Dionsio deixou recado para voc ligar depois. AOUGUEIRO 2 Depois, quando? TLIA De noite. Quando vocs tiverem terminado. AOUGUEIRO 1 Parece que no vai terminar nunca. TLIA Parece mesmo. Mas no deixa de ligar... AOUGUEIRO 2 Claro que no. Tlia sai. Voltam a cortar com os cutelos, pouco depois, se entreolham. AOUGUEIRO 1 Acho que s vim parar aqui por causa da Tlia. AOUGUEIRO 2 Mentiroso! Voc veio aqui por causa da grana... AOUGUEIRO 1 Ser que existe alguma razo para estarmos fazendo isto? AOUGUEIRO 2 Se no fizssemos, algum faria.gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 98(Black plate)98GORA LIVRE DRAMATURGIASAOUGUEIRO 1 No com tanto prazer. AOUGUEIRO 2 No seja presunoso. AOUGUEIRO 1 Realista, meu caro. Realista. AOUGUEIRO 2 Sempre me pergunto como que vim parar neste negcio? AOUGUEIRO 1 Ofcio, meu caro. Ofcio. AOUGUEIRO 2 Sei l, se tenho talento... AOUGUEIRO 1 Vocao, meu caro. Vo-ca-o. AOUGUEIRO 2 Para cortar bifes? AOUGUEIRO 3 Eu tive vontade. Trabalhava como lixeiro, aqui ao lado. Quando vinha buscar esta lata, ficava observando os caras que trabalhavam aqui. Fantasiava na minha cabea que um dia estaria aqui, cortando bifes de todas as maneiras. S no imaginava que faria isto ao lado de idiotas como vocs. AOUGUEIRO 2 No se abale, voc s mais um. AOUGUEIRO 3 E Tlia?gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 99(Black plate)99AOUGUEIRO 1 Nunca vai olhar para ns. AOUGUEIRO 3 Certeza? AOUGUEIRO 1 Esperan... AOUGUEIRO 2 J sei. (imitando o 1) Esperana, mau caro. Es-pe-ran-a. AOUGUEIRO 3 Acho que voc devia trabalhar como telegrafista. Mania de reduzir tudo. At seus bifes so menores... AOUGUEIRO 1 Menores e mais saborosos. AOUGUEIRO 3 Acho que era melhor ter seguido o destino. Continuava a vir aqui s para pegar o lixo. Seria mais simples. Voltam a cortar os bifes, em silncio. AOUGUEIRO 2 Olha s... Segure o bife com dois dedos. (mostra) Assim. No lembra nada? AOUGUEIRO 3 S de olhar, me d teso. AOUGUEIRO 2 Boceta! O que interessa a boceta. S fao isto aqui porque este trabalho me lembra boceta. Boceta bom. gostoso. E sonoro: BOCETA. boa at para falar.gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 100(Black plate)100GORA LIVRE DRAMATURGIASAOUGUEIRO 1 Vocs esto loucos. Tanto tempo aqui, cortando estas carnes, que vocs perderam a sensibilidade. Comparando bifes com bocetas. AOUGUEIRO 2 T certo. (mostrando os bifes) Se eu tivesse este tanto de bocetas... AOUGUEIRO 3 Meu amigo, boceta tem sobrando. Por que voc acha que tem tantos veados no mundo? AOUGUEIRO 2 Para sobrarem mais bocetas para gente!.... AOUGUEIRO 1 Prefiro xoxota. Acho mais delicado. AOUGUEIRO 2 Te peguei! Tambm est aqui por causa de bocetas... Ou melhor, de xoxotas. AOUGUEIRO 1 No. Fao porque me d prazer. AOUGUEIRO 2 Que babaca! Cortar bifes te d prazer? AOUGUEIRO 1 . Eu gosto. E da? AOUGUEIRO 3 Gosto no se discute. AOUGUEIRO 2 A que est. Eu acho que se discute, sim...gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 101(Black plate)101AOUGUEIRO 1 Tem gente que prefere xoxota, tem gente gosta de boceta... AOUGUEIRO 2 E tem aqueles que do o cu. AOUGUEIRO 3 E o que que voc tm a ver com isso? O cara t dando o cu dele, no o seu. AOUGUEIRO 2 T bom! Gosto e cu no se discutem. Mas que caralho leva algum a ficar dias e dias cortando bifes? AOUGUEIRO 1 Sabe que eu nunca me perguntei isso? AOUGUEIRO 2 Srio? AOUGUEIRO 1 Meu av j trabalhava nisso. Ele ensinou meu pai, meu pai me ensinou... Pra falar a verdade, no me importo que seja assim. Fao porque fao, e pronto. Tenho o que comer, onde morar. Jogo minha bolinha no fim-de-semana, e beleza. O que mais eu vou querer? AOUGUEIRO 3 Ningum obrigado a ter ambies. AOUGUEIRO 1 Mas eu tenho ambies. Quero cortar o bife mais perfeito do mundo. Um bife com corte desenhado. Um fil sem traos, de tal maneira requintado, como se ali nunca tivesse passado uma mo humana. AOUGUEIRO 2 Um bife dos deuses.gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 102(Black plate)102GORA LIVRE DRAMATURGIASAOUGUEIRO 1 . Minha vontade era encher de orgulho meu pai, meu av, por ter conseguido cortar um bife divino, que os homens todos na face da terra imaginassem que foi cortado por Deus. AOUGUEIRO 3 E os homens na face da terra esto l interessados em bifes? E muito menos em quem os corta. AOUGUEIRO 1 Ainda tenho a iluso de que todos possam saber dos bifes que corto. AOUGUEIRO 3 Todos? Cara, ningum se interessa pelo que fazemos, a no ser ns mesmos. AOUGUEIRO 2 Acho que voc est viajando na maionese. Pra que se apurar na tcnica de cortar os bifes? Pra que um bife divino? Olha, eles so to modificados at serem servidos, que nem mesmo ns os reconheceramos no prato. Quantas vezes, diante do prato, na hora do almoo, voc j no ficou em dvida sobre quem cortou aquele bife? E acontece assim porque voc trabalha com isto. um profissional. Voc tem sempre essa preocupao. Tem gente que come sem nem sequer olhar para a comida. No est nem a para quem preparou a comida. No vai se preocupar, nem fodendo, com quem cortou o bife. AOUGUEIRO 1 Tem gente que nem percebe que o bife veio da vaca. AOUGUEIRO 2 E se a gente cortasse um bife humano? Ser que algum perceberia? AOUGUEIRO 1 , sai pra l! No olha pra mim, no.gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 103(Black plate)103AOUGUEIRO 3 Voc t pensando o qu? AOUGUEIRO 2 No o mesmo que eu? AOUGUEIRO 3 No. Acho que no. AOUGUEIRO 1 T fora. AOUGUEIRO 2 No. No seria nenhum de ns trs. No teria graa. AOUGUEIRO 1 verdade. Um tem que ser testemunha do outro. AOUGUEIRO 2 Exato. S isso justificaria a teoria de cada um. AOUGUEIRO 1 E de que adianta saber quem tem razo? AOUGUEIRO 2 No vai me dizer que estamos aqui h horas discutindo para no querer saber de quem a razo. AOUGUEIRO 1 Eu que no quero ficar com a razo. Odeio ficar com a pior parte. AOUGUEIRO 2 No entendi. AOUGUEIRO 1 A pior parte. Quem fica com a razo fica com a pior parte...gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 104(Black plate)104GORA LIVRE DRAMATURGIASAOUGUEIRO 2 (para o 3) Acho que ele est se sentindo superior. O fracasso subiu-lhe cabea. AOUGUEIRO 3 Desculpe, mas no estou interessado nisso. Alis, nem ouo vocs falarem. S fico esperando a minha vez de falar. AOUGUEIRO 2 E o que voc diria? Qual de ns daria o melhor bife? AOUGUEIRO 1 Eu faria um bife seu. Mas colocaria uma Cibalena em cima. AOUGUEIRO 2 Que porra de Cibalena essa? AOUGUEIRO 1 Vocs nunca ouviram falar disso?... (para o 2) Sabe o que Cibalena? AOUGUEIRO 3 Sei. Um comprimido pra dor de cabea, no ? AOUGUEIRO 1 . Pois ento, rapaz, eu j fiz a experincia. Voc deixa uma Cibalena em cima de um bife... Eu fiz com um bife alto, bem gordo. Voc deixa o comprimido em cima do bife, de um dia pro outro. No dia seguinte, meu velho, d nojo. Parece que deram um tiro no bife. Fica um furo no lugar do comprimido e tudo meio preto, em volta. Tudo podre. AOUGUEIRO 2 Porra, se faz isso no bife, imagina o que no faz no estmago. AOUGUEIRO 1 E pensar que essa porra feita para curar dor de cabea...gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 105(Black plate)105AOUGUEIRO 3 Pode ter certeza que de mim os bifes j sairiam mais podres que essa merda de Cibalena a. Puta papo chato! (se afasta dos dois) AOUGUEIRO 2 Fugindo da raia, n? Fique tranqilo, que, se eu fosse fazer um bife de carne humana, voc estaria no fim da ltima fila. AOUGUEIRO 1 (para o 2) Se voc descarta ele e eu j pulei, s falta voc. AOUGUEIRO 2 Tudo bem. Se eu topasse, que tipo de bife voc faria? Qual o seu estilo? AOUGUEIRO 1 Meu estilo? (pensa) Meu estilo?... Meu? Prprio?... Estilo foda. Bem... Eu gosto de cortar em fatias finas. Com delicadeza. melhor para o paladar de quem vai comer. Os pedaos pequenos podem ser mais fceis de se desmancharem na boca. AOUGUEIRO 2 Mas nem sempre so os mais saborosos. AOUGUEIRO 1 Porra, no tem nada mais saboroso numa picanha do que aquela gordurona escorrendo. Alis, s vou em churrasco porque tem a gordurona. AOUGUEIRO 2 . Mas voc mesmo corta esse bifes secos... AOUGUEIRO 1 Secos, mas altos. Excelentes para jantares finos. Um simples pedao de alcatra pode ser servido como molho madeira e champignon, que o idiota que o devorar vai ter certeza de que estar comendo um fil mignon.gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 106(Black plate)106GORA LIVRE DRAMATURGIASAOUGUEIRO 2 Gostei! Nosso ofcio criar iluses. AOUGUEIRO 3 Que papo mais bicha. Para mim, vocs dois no passam de auxiliares de cozinha se fazendo passar por aougueiros. AOUGUEIRO 1 Quem sabe esse no o meu sonho de vida? AOUGUEIRO 2 O que isso, senhor macho man? Ento seus bifes so mais saborosos, mais bonitos, mais interessantes, porque quem faz o corte adora coar o saco? AOUGUEIRO 1 Ah! sabor do saco que d o tempero. AOUGUEIRO 3 Vo se fod, suas bichinhas. Vocs acham que sensibilidade ficar vendo o tempo passar, contemplativos. Meu nego, cada bife que eu corto sangue puro. o meu sangue escorrendo, que vou limpando para oferecer a quem degustar. Caguei pra o que vo pensar sobre quem cortou esse ou aquele bife. Quero mais enfiar goela abaixo cada gota de sangue, cada naco da carne, pra que eles compreendam que existem outras carnes. S com o gosto amargo na boca que esses imbecis vo perceber que existem outros animais em torno deles. Eles tm que se tocar que outros animais vivem. Que o mundo no se resume ao que eles pensam sobre eles mesmos. AOUGUEIRO 1 E depois ns que somos bichinhas. AOUGUEIRO 2 Voc est certo. Com gordura ou sem gordura, frescos, podres, passados, finos ou grossos, sero sempre bifes. Pedaos mortos de carne.gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 107(Black plate)107AOUGUEIRO 3 Que bosta! Tu aougueiro ou filsofo de boteco? AOUGUEIRO 2 A gente corta os bifes porque as pessoas precisam do que comer. AOUGUEIRO 1 As pessoas precisam viver. A carne alimenta. Ela mantm acesa a chama. Eleva a alma. Isso! Transcendncia, meu caro. Transcendncia. As pessoas comem para engrandecer suas almas. AOUGUEIRO 3 Comem pra cagar depois. AOUGUEIRO 2 Nada! porque as pessoas precisam de bifes no estmago. Se no come, morre. AOUGUEIRO 1 Sei. E os vegetarianos? AOUGUEIRO 2 Caralho! Nem fala nisso, que me d nojo! Aquele bando de gente anmica se achando superior s porque no se submete ao fato de que os seres humanos so carnvoros vorazes. S porque nos satisfazemos em deixar que um bicho morto termine de apodrecer mergulhado em nossos sucos gstricos. Sim. Porque os vegetarianos no entendem que a nossa natureza dispe de mecanismos que rapidamente consomem a carne morta. Ela mesma, a natureza, sozinha, demora muito mais tempo para fazer a carne sucumbir. E isso se contarmos com a ajuda de vermes e outras formas de vida inferior, que lentamente lutam para triunfar. AOUGUEIRO 1 . Mas no d pra negar que os vegetarianos tm uma pele tima.gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 108(Black plate)108GORA LIVRE DRAMATURGIASAOUGUEIRO 2 Ta! Podamos pegar um filha-da-puta de um vegetariano e fati-lo todinho! AOUGUEIRO 3 Um idiota desses no merece ser cortado por mos habilidosas. AOUGUEIRO 2 Merece. E digo mais: seria um gesto quase revolucionrio. Estaramos mostrando ao mundo nossa supremacia: A Incrvel Arte de Cortar Bifes. AOUGUEIRO 3 Sempre fico em dvida com o seu entusiasmo. Nunca sei se porque voc acredita no que faz ou porque gostaria de ser primeira pgina de jornal. AOUGUEIRO 2 J que estamos nesta condio, posso falar sem culpa. Fao pelas duas razes. AOUGUEIRO 3 Honesto, mas no resolve o problema. AOUGUEIRO 2 E quem est querendo ser honesto? Quem que vai querer resolver algum tipo de problema? Ser primeira pgina de jornal e acreditar no que fao tm o mesmo objetivo: que o mundo saiba do significado de cortar bifes. to simples. AOUGUEIRO 1 Ns cortamos bifes. S isso. Tem quem os embala. Tem quem os tempera. Tem quem os vende. Nossa funo se resume a cortar bifes. De que adianta ficar horas discutindo o que ser feito deles? Tudo bem, a gente sabe que sero mastigados, digeridos etc. Mas no controlamos isso. O melhor que temos a fazer aperfeioar nossa maneira de cortar bifes. Esse ponto. Temos que ser perfeitos no corte.gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 109(Black plate)109AOUGUEIRO 3 E chegaremos a ser to prefeitos, que os bifes perdero o sabor! AOUGUEIRO 2 Isso verdade. De que vale fazer bifes perfeitinhos, redondinhos? Vo achar que so hambrgueres. AOUGUEIRO 1 Vai ter gente falando que trabalhamos no McDonalds. AOUGUEIRO 2 Olha a, pela primeira vez no dia, estamos concordando. No queremos que nossos bifes sejam tratados como meros hambrgueres do McDonalds. AOUGUEIRO 3 Mas temos uma poro de colegas que sonham que seus bifes sejam confundidos com um "mac"! AOUGUEIRO 2 (ri) Alguns at fazem uns bifinhos bem "mac-bifes"! AOUGUEIRO 3 (ri) E pior que nem percebem! AOUGUEIRO 1 Sacanagem! Rir de caras assim chutar cachorro morto. AOUGUEIRO 2 Tem trouxa que enfeita o bife de tal maneira que tem gente que come e nem percebe que aquilo um "mac". Um "mac-bife"! AOUGUEIRO 1 Isso tem de monto.gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 110(Black plate)110GORA LIVRE DRAMATURGIASAOUGUEIRO 1 Isso tem de monto. AOUGUEIRO 2 Tem cara que enfeita a coisa pra ela ser comprada como outra. AOUGUEIRO 3 pra conseguir ou mesmo garantir o empreguinho no "Mac". AOUGUEIRO 1 E qual o problema de o cara querer um emprego assim? AOUGUEIRO 2 . Ele s quer manter sua sobrevivncia. AOUGUEIRO 3 Manter a sobrevivncia ou garantir o dele? AOUGUEIRO 2 Ainda assim. Voc no acha que o cara tem que cortar o bife como quiser? Ento, ele no tem a liberdade de querer se garantir? AOUGUEIRO 3 Toda. Que seja feliz. Mas o que me incomoda a fachada. O puto diz que faz uma coisa porque no fundo quer fazer outra? E ainda tira espao de quem quer fazer s aquilo. Eu gosto de cortar de bifes. Ponto. Se algum quiser cortar tambm, timo. Agora, o cara usar o meu ofcio para ser valorizado em outro, a foda. AOUGUEIRO 2 foda, no. falta de carter. AOUGUEIRO 1 E preciso ter carter para cortar bifes?gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 111(Black plate)111AOUGUEIRO 2 (para o 3) Vai dizer que voc nunca cortou o prprio dedo? AOUGUEIRO 1 capaz at de ter transformado a me em bife e nem ter percebido. AOUGUEIRO 3 Se transformou em bife, ainda v l! Se justifica. Duro se jogou no lixo com as gorduras que vo virar sabo. AOUGUEIRO 2 (ri) A divertido! A me virando bolhas! Burf! Burf! Mame bolha de sab-o! Mame bolha de sab-o! Mame bolha de sab-o! AOUGUEIRO 1 Cada um usa a me pro que bem entender. AOUGUEIRO 3 Afinal, a nica coisa que voc pode dizer que sua mesmo, de verdade, a sua me. Riem juntos. Silenciam. Voltam a cortar carne, fazendo forte ritmo com os cutelos na mesa. Um tempo depois... AOUGUEIRO 2 O que nos falta coragem. AOUGUEIRO 1 Pra qu? AOUGUEIRO 2 Pra fazer um bife de carne humana. AOUGUEIRO 1 Competncia, meu caro. O que nos falta competncia.gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 112(Black plate)112GORA LIVRE DRAMATURGIASSilenciam novamente. Voltam a cortar carne. Um tempo depois... AOUGUEIRO 3 Acho que ainda no temos o que precisamos. S isso. AOUGUEIRO 2 No sei... No sei. Voltam a cortar carne, com gestos mais rpidos e violentos. AOUGUEIRO 1 Essas conversas me cansam... AOUGUEIRO 2 Sempre achei que aqui era o Olimpo... AOUGUEIRO 3 Demora para descobrir que o Inferno. Tlia entra na sala. Os trs se assustam. TLIA Eu j estou indo. V se no esquece de ligar pro Dionsio? AOUGUEIRO 2 No, Tlia. No. TLIA Que jeito mais esquisito de falar no... Voc no vai ligar pro... AOUGUEIRO 2 No. No isso. Voc que no vai embora. TLIA Como?gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 113(Black plate)113AOUGUEIRO 3 Acho que j temos o que precisamos... AOUGUEIRO 2 . S falta coragem. Os trs seguram Tlia suavemente, ameaando-a com os cutelos. Luz cai lentamente. FIM?gora_04.qxd8/9/062:28 PMPage 114(Black plate)114GORA LIVRE DRAMATURGIASHUGO POSSOLO Palhao, dramaturgo, cengrafo, figurinista, ator e diretor teatral, fundador do grupo Parlapates. Participou dos principais festivais brasileiros: FIAC (SP); FILO (PR); FIT (MG); Porto Alegre em Cena (RS) e Festival de Curitiba (PR). Suas montagens j estiveram na Espanha, Portugal, E.U.A., Esccia, Colmbia e Uruguai. Em dramaturgia destacam-se: Sardanapalo (1993); Zri (1994); U Fabuli (1996), representante oficial do Brasil, na Expo 98, em Lisboa; No Escrevi Isto (1998), Prmio Shell (melhor cenografia); Farsa Quixotesca (1999), com a Pia Fraus, Prmio Panamco (autor e melhor espetculo) e APCA (melhor espetculo); Pantagruel (2001). Recebeu o Grande Prmio da Crtica APCA pelo evento Vamos Comer o Piolin. Em circo, roteirizou e dirigiu Urbes (2003), com Fractons, e Stapafrdyo (2006), Circo Roda Brasil. Foi Coordenador Nacional de Circo da Funarte, Ministrio da Cultura (2004/2005). Em pera dirigiu A Flauta Mgica (96); Gianni Schicchi (98); Il Campanello Di Notte (2005), todos sob regncia de Abel Rocha e Infidelidade Fracassada (2005), de Haydn, com regncia de Roberto Minczuc. Trabalhos mais recentes: O Bricabraque (2004), direo e a dramaturgia, e Prego Na Testa (2005), de Eric Bogosian, direo de Aimar Labaki, indicado ao Prmio Shell (melhor ator).gora_05.qxd8/9/062:27 PMPage 115(Black plate)A CABEAdramaturgo: Alcides Nogueira debatedor: Aimar LabakiMONTAGEM direo: Mrcia Abujamra elenco: Dbora Duboc, Leopoldo Pacheco e Marcelo Vrzea cenrio: Mrcia de Barros figurino: Leopoldo Pacheco e Sylvia Moreira trilha sonora: Alcides Nogueira luz: Negra e Pepe produo executiva: Jerusa Francogora_05.qxd8/9/062:27 PMPage 116(Black plate)116GORA LIVRE DRAMATURGIASA CABEAAlcides Nogueiragora_05.qxd8/9/062:27 PMPage 117(Black plate)117CENA 1 RUBRICA Um espao qualquer. o escritrio do Dramaturgo. Uma mesa est ali, com um computador. Uma luminria. H um velho tapete caucasiano. tambm uma estao de metr. Uma praa. H uma janela que d para o mundo. Ou o mundo d para esse espao. Luz de servio. O Dramaturgo olha pela janela. A Personagem est em um canto, olhando. A Rubrica est sendo uma rubrica. O Dramaturgo vem para sua mesa. Estende as mos em silncio. Olha para os seus dedos. DRAMATURGO Como se eu fosse tocar um Preldio de Scriabin. RUBRICA Ouve-se um Preldio de Scriabin, que ecoa por todo o espao, furioso, agitado. A luz cai, ficando apenas focos: sobre o Dramaturgo, que digita; sobre a Rubrica; sobre a Personagem, que se levanta. Cessa o Preldio de Scriabin. DRAMATURGO Acabei de chegar do hospital, aonde fui visitar um amigo doente. Ele vai morrer dentro de poucas horas. O cncer j tomou conta de tudo. Ele foi tirado da UTI e levado para o quarto. No vai viver mesmo... A UTI para aqueles que tm chance, e o quase-morto no pode ocupar um leito. Abri a porta do quarto e fiquei parado. Ele me olhou com dio. Como se eu estivesse tirando a vida dele. No senti nada. um amigo muito querido. Um amigo da adolescncia. Mas no senti nada quando ele disparou aquele dio contra mim, como uma bala de revlver. No nos falamos. O que poderia ser dito? Ele nem tem mais pulmo, mas deixei um mao de cigarros na mesinha ao lado da cama e sa.gora_05.qxd8/9/062:27 PMPage 118(Black plate)118GORA LIVRE DRAMATURGIASRUBRICA O Dramaturgo segue para uma estao de metr. O trem chega, ele consegue um lugar e comea a ler. uma matria dobre Guy Debord. Cai toda a luz e entra uma projeo na parede dos fundos. projeo: A Sociedade do Espetculo RUBRICA Foco sobre o Dramaturgo digitando furiosamente. PERSONAGEM Os arabescos formados no ar por esses insetos, traas, notoriamente cegos, circulando em torno de uma luz de vela noite... DRAMATURGO Sidonius Appolinarius... RUBRICA O Dramaturgo pra de digitar. Sai de sua mesa, agitado. DRAMATURGO Eu no sou bom! Por que eu deveria olhar para ele e chorar? Por que eu deveria passar as mos em sua cabea j sem os cabelos derrubados pela quimioterapia? Eu no sou um inseto cego e ele no uma luz. Esse instante... Esse pequeno instante que me paralisa... Quando eu no sei o que fazer com a vida, com a morte, com nada... Quando eu no me entendo e nem entendo o que existe... Quando eu me reduzo a um fio de metal j tomado pelo azinhavre... Quando eu me percebo a criana que gira e gira e gira, olhando para o cu, e parando subitamente, zonza, sem saber onde est seu apoio. Eu poderia ter sido um inseto cego, uma traa, e ter ido at ele... Meu amigo era a vela se apagando, mas eu poderia ter inventado a luz... somente naquele momento... somente para que eu tocasse sua mo... e, sem palavra alguma, me despedisse dele. RUBRICA O telefone toca. O Dramaturgo atende.gora_05.qxd8/9/062:27 PMPage 119(Black plate)119DRAMATURGO Como? No, voc no pode estar falando srio... Como foi isso? Ele no tinha fora para nada... PERSONAGEM Pensei que no conseguiria... Quando a enfermeira passou, eu vi como ela regulava o oxignio. Foi difcil, mas estendi o brao e fechei o ar. RUBRICA Ouve-se novamente o Preldio de Scriabin, muito alto e violento, enquanto a Personagem se deita sobre o pequeno tapete caucasiano, e o Dramaturgo se aproxima. A Personagem est de olhos fechados, e o Dramaturgo segura as mos dela. Um longo tempo de espera. Cessa a msica. DRAMATURGO Por que eu te matei? No era essa a histria. PERSONAGEM Obrigado pelos cigarros. No fumo h quinze dias. Como que meu cncer pode sobreviver desse jeito? RUBRICA Vou at a Personagem, entrego a ela um cigarro, acendo. A Personagem d uma baforada. PERSONAGEM Em qu voc est pensando? DRAMATURGO No sei... PERSONAGEM Mas voc um pensador. Todo dramaturgo . DRAMATURGO Toda pessoa ... E eu no dei essa fala a voc.gora_05.qxd8/9/062:27 PMPage 120(Black plate)120GORA LIVRE DRAMATURGIASPERSONAGEM Deita aqui e fuma comigo. RUBRICA O Dramaturgo hesita um pouco. Acaba se deitando ao lado da Personagem. Pega o cigarro dele e d uma tragada. Ficam lado a lado. Luz cai e entra projeo. projeo: Desafiar o Mundo PERSONAGEM Voc sempre pensa nisso? DRAMATURGO Estou pensando no artigo sobre Debord, que li depois que sa do hospital. PERSONAGEM Enquanto eu estava morrendo... DRAMATURGO Por que eu te matei? PERSONAGEM Quem faz as perguntas e sonega as respostas voc. Sou s o seu porta-voz. Talvez fosse melhor se interrogar... Interrogar o mundo... A poderia desafi-lo. DRAMATURGO Ou entend-lo... PERSONAGEM A sua cabea. A sua cabea. A sua cabea. A sua cabea. A sua cabea. DRAMATURGO Pra!! Eu sou uma enxaqueca literria!gora_05.qxd8/9/062:27 PMPage 121(Black plate)121PERSONAGEM Eu sonhei... Voc sonhou... Tantos sonharam... E, hoje, a sociedade capitalista est em seu mais alto grau de alienao. A relao do homem com a vida, e consigo mesmo, foi transformada num espetculo de imagens. DRAMATURGO No estou pensando mais em Guy Debord! PERSONAGEM Sua cabea virou uma mquina complexa, uma engrenagem perfeita, que produz pensamentos sem que possa escolher. Voc quer ser bom. Voc quer escrever o monlogo final de Sonia, do Tio Vanya. Escrever s isso, o tempo todo o tempo todo o tempo todo... Acreditar na generosidade humana e em um tempo melhor. Mas voc est seco. RUBRICA O Dramaturgo levanta-se rapidamente. Encara a Personagem com dio. PERSONAGEM Agora quem est expelindo dio pelos olhos voc. DRAMATURGO E nem preciso de cncer para isso! RUBRICA O Dramaturgo volta para sua mesa. A Personagem continua fumando calmamente. Eu acendo uma lanterna, porque o black-out encerra a cena. (black-out!) CENA 2 RUBRICA Foco somente sobre o Dramaturgo olhando por uma janela. DRAMATURGO Conheo aquela praa!gora_05.qxd8/9/062:27 PMPage 122(Black plate)122GORA LIVRE DRAMATURGIASPERSONAGEM Paris! Voc ficava horas nela, em 68. Eu ficava horas nela, em 68. O mundo era Paris em 68. Talvez o ltimo momento em que o homem conseguiu pensar a liberdade e s a liberdade, sem nenhum adjetivo. Ou um: a liberdade livre. RUBRICA Cai a luz e entra uma projeo. projeo: A Imaginao no Poder PERSONAGEM Como criador, voc poderia pleitear qualquer cargo no governo imaginrio. DRAMATURGO Guardei uma pedra que tirei de uma das barricadas. Uso como peso de papel. PERSONAGEM Romntico idiota! DRAMATURGO Voc no morreu ainda? PERSONAGEM De acordo com a Rubrica RUBRICA O Dramaturgo reescreveu a cena e a Personagem no tem mais cncer. PERSONAGEM Um alvio! Todas as suas personagens morrem. Cansei disso... Mas entendo. a nica maneira de voc continuar vivo. Um expediente vagabundo que voc criou para se safar. DRAMATURGO Ele destilava a maldade...gora_05.qxd8/9/062:27 PMPage 123(Black plate)123PERSONAGEM Eu me recuso a ser uma Personagem de Lautramont!... Prefiro continuar sendo sua. DRAMATURGO Morreu com 24 anos... PERSONAGEM De novo a morte... DRAMATURGO Que a minha guerra contra o homem se eternize, j que cada um de ns reconhece no outro sua prpria degradao... j que somos ambos inimigos mortais. Quer deva eu conseguir uma vitria desastrosa ou sucumbir, o combate ser belo; eu, sozinho contra a humanidade. PERSONAGEM Devo aplaudir? DRAMATURGO Cultivo a maldade, como ele. PERSONAGEM Inventa a maldade. diferente. DRAMATURGO Ser? PERSONAGEM Entendi o meu papel. RUBRICA A Personagem vai at outro ponto, de onde, olhando como se fosse a esttua da maldade, fala friamente.gora_05.qxd8/9/062:27 PMPage 124(Black plate)124GORA LIVRE DRAMATURGIASPERSONAGEM Se a terra tivesse sido recoberta por piolhos, como pelos gros de areia beira-mar, a raa humana seria aniquilada em meio a dores terrveis. Que espetculo! E eu, com asas de anjo, imvel nos ares para contempllo! DRAMATURGO Entendeu? Somos o resumo desse embate... PERSONAGEM Voc pode virar o jogo. Eu no. DRAMATURGO Eu tambm no... Penso, logo no existo!... O que eu faria sem voc, por exemplo? PERSONAGEM No poderia inventar um amigo morrendo. DRAMATURGO No saberia o que a morte. E, no sabendo o que a morte, no entenderia a vida. Existe um vo em minha cabea, por onde correm rios furiosos. Tento atravess-los, mas a gua sempre me joga para as margens... A certeza de que o cais de pedra e de saudade. Brumas sebastianistas que me envolvem. Caos feito de lembranas que se apagam. A foto polaroid que perde a cor aos poucos. Resta um contorno. J no consigo saber como eu era e como serei... A criana cruel que cresceu e destilou seus venenos ntimos. O adolescente enlouquecido que imaginou enfrentar o mundo, sem saber que armas possua. O homem que no tem mais a bssola... Restou o mapa do medo. Conheo cada um dos riscados... Decorei cada um dos limites desse mapa do mundo que invento. Onde me perco, sem saber mais qual a palavra exata. A palavra o veneno que tomo diariamente... esperando que o efeito seja devastador. E nunca ! A palavra a criana que eu desejo ser, e essa criana foge, assustada, como se eu fosse um monstro... Muitas vezes eu sou um monstro... Mas tantas outras eu sou aquele que colhe o trigo para fazer o antigo po. Minhas lavouras in-gora_05.qxd8/9/062:27 PMPage 125(Black plate)125teriores... No tenho mais arados... Voc o corvo que eu crio, e que dilacera minha colheita... E eu sou o meu prprio espantalho! RUBRICA O Dramaturgo se abate. A Personagem j sabe o que lhe cabe. A luz cai. projeo: Potlatch RUBRICA Luz muito fraca. O Dramaturgo volta sua mesa. Comea a digitar. Lentamente. A Personagem se senta ao p dele. DRAMATURGO Voc sabe o que significa? PERSONAGEM No. DRAMATURGO Um presente que no pode ser retribudo. PERSONAGEM Potlatch. DRAMATURGO Um presente raro... PERSONAGEM A minha morte! Voc deve sobreviver. DRAMATURGO Senta aqui! PERSONAGEM Na sua mesa? No!!! Isso impossvel.gora_05.qxd8/9/062:27 PMPage 126(Black plate)126GORA LIVRE DRAMATURGIASDRAMATURGO Nada impossvel! No sonhamos todos com isso tambm? Senta e digita... Voc sabe qual o texto. No esquece que tem de escrever tambm a rubrica. Ou nada acontece... RUBRICA A Personagem senta-se mesa do Dramaturgo. Este se deita sobre o tapete. A Personagem comea a digitar. DRAMATURGO Eles me tiraram da UTI porque eu estou ocupando o lugar de algum que ainda pode viver... Entendeu?... Ou preciso pensar por voc?... Minha cabea j no agenta mais... Por que voc est parado a na porta do quarto? Por que no vem at a minha cama e passa a mo na minha cabea? Porque eu j perdi os cabelos? Perdi os cabelos mas os pensamentos esto todos l dentro... Talvez enrolados como fios... Torcidos... Ns dados como em um tapete caucasiano... Mas esto l... E voc fica a, parado... No, meu olhar no de dio! No entenda assim... Meu olhar um silncio. Qual a resposta? Voc no sabe?... Ento, qual a pergunta?... A vida e a arte... Elas formam o mesmo desenho... O presente que no pode ser retribudo. Estou esperando por ele. Voc o portador. Vem! RUBRICA A Personagem sai da mesa. Vai at o Dramaturgo, que est deitado sobre o tapete. Passa a mo na cabea dele. Faz um carinho em seu rosto. Tenta fechar seus olhos. DRAMATURGO No! Eu quero Luz!... At o final... Luz! PERSONAGEM Quando tudo estiver acabado, voc perceber que o presente foi uma inveno sua. Como eu sou uma inveno sua, no posso mudar as falas, nem os gestos, nem as intenes... Sua cabea! Sua cabea a caldeira que move as palavras... Sua cabea uma usina... Voc entende o mundo...gora_05.qxd8/9/062:27 PMPage 127(Black plate)127DRAMATURGO Algo precisa mudar! Sei disso! Tire o ar, para que os meus pulmes arrebentem de vez!... Mesmo que o preo seja esse, algo precisa mudar! RUBRICA A Personagem estende o brao e fecha o oxignio. Ao som de Scriabin, black-out e FIM. projeo: Transformar a Realidade So Paulo, setembro de 2001gora_05.qxd8/9/062:27 PMPage 128(Black plate)128GORA LIVRE DRAMATURGIASALCIDES NOGUEIRA nasceu em Botucatu, em 1949. Cursou a Faculdade de Direito do Largo de So Francisco (USP). Estreou profissionalmente com a A Farsa da Noiva Bombardeada (direo de Marcio Aurelio), logo proibida pela Ditadura. O primeiro sucesso nos palcos aconteceu com Lua de Cetim, novamente dirigida por Marcio Aurelio, em 1981. Recebeu os principais prmios do teatro brasileiro (Molire, Shell, Governador do Estado, APETESP, APCA, Trofu INACEN), com peas como Feliz Ano Velho (direo de Paulo Betti), Lembranas da China (direo de Jorge Takla), Florbela (direo de Cibele Forjaz), Traas da Paixo, pera Joyce, Plvora e Poesia (direes de Marcio Aurelio) e Gertrude Stein, Alice Toklas & Pablo Picasso (direo de Antonio Abujamra e Marcio Aurelio). A Cabea (direo de Mrcia Abujamra), depois do projeto gora Livre Dramaturgias, entrou em carreira. Para a televiso, alm de novelas, escreveu em parceria com Maria Adelaide Amaral as minissries Um S Corao e JK, ambas para a TV Globo.gora_06.qxd8/9/062:25 PMPage 129(Black plate)ILMO. SENHORdramaturgo: Naum Alves de Souza debatedor: Jefferson Del RiosMONTAGEM direo: elenco: cenrio e figurino: trilha sonora: luz: produo executiva: Celso Frateschi Antonio Petrin e Valter Breda Sylvia Moreira Aline Meyer Roberto Lage Aline Meyergora_06.qxd8/9/062:25 PMPage 130(Black plate)130GORA LIVRE DRAMATURGIASILMO. SENHORNaum Alves de Souza Luz em parte do palco. Carmelo tem nas mos um envelope. Comea a abri-lo, mas pra. Olha longamente para vrios lados do apartamento, para baixo, para cima. Parece estar vendo nada, s pensando. Luz em outra parte do palco, outro apartamento. Cesrio, mais ou menos da mesma idade de Carmelo, digita um nmero no telefone. Carmelo l o que est escrito no envelope.gora_06.qxd8/9/062:25 PMPage 131(Black plate)131CARMELO Ilmo. Sr. Toca o telefone no apartamento de Carmelo. Ele se assusta e quase amassa o envelope. Hesita, mas acaba atendendo. CARMELO Quantos? Sessenta, Cesrio, o ltimo dos cticos, a velha fortaleza da Baixada do Glicrio j completou sessenta anos. CESRIO Carmelo, fazer sessenta diferente de fazer cinqenta e nove, Carmelo? CARMELO Sabe que ? Quando acordei, me olhei no espelho e vi que j estava com sessenta anos. CESRIO Acha que vai ter que trocar as lentes dos culos? CARMELO Acho, no, tenho certeza. CESRIO E os cabelos? CARMELO No contei quantos, mas sei que tem muitos fios brancos novos que eu nunca tinha visto, juro. CESRIO E o resto?gora_06.qxd8/9/062:25 PMPage 132(Black plate)132GORA LIVRE DRAMATURGIASCARMELO Se que eu entendi o que voc est perguntando, apesar do fios brancos na regio, ainda desempenho com dignidade. CESRIO Outro dia olhei para a minha perna e vi um monte de veias azuis. CARMELO Grandes, saltadas? CESRIO No. Azuis, fininhas, principalmente na canela, perto do p. E eu notei que tem menos plo na canela. J reparou alguma coisa diferente na sua? CARMELO Voc no me d parabns, no me deseja felicidade, muitos anos de vida, nada disso? CESRIO o seu aniversrio, se voc no falasse ia passar batido. Vamos comemorar? CARMELO Precisamos comemorar para voc me desejar muitos anos de vida? CESRIO No adianta eu desejar. E se eu desejar e a sua vida for longa e uma merda? CARMELO Voc acha que eu ainda estou bonito? CESRIO Qual ? Voc homem, Carmelo... Ou ser que depois de velho resolveu mudar de time? CARMELO Voc no acha que ns dois j estamos velhos para esse tipo de brincadeira?gora_06.qxd8/9/062:25 PMPage 133(Black plate)133CESRIO Por que voc no pinta os cabelos? Hoje em dia... CARMELO Voc pinta, no engana ningum. CESRIO Ningum percebe. CARMELO Ningum fala na sua frente. Sabe como fica a sua cabea quando tem muita luz em cima? CESRIO Ningum nunca falou nada. CARMELO D para ver os fios do transplante, as razes brancas. E um vermelho esquisito... CESRIO O rapaz do salo diz que tinge natural, da mesma cor, como eu era antigamente. CARMELO s bater luz que fica vermelho. Muita tinta. Dizem que derruba cabelo. CESRIO V tomar no seu cu antes que eu me esquea. Bate o telefone e fica ruminando, arrancando fios do cabelo e olhando. Chora. Carmelo ri, desliga e liga de novo para o amigo. Cesrio atende. CARMELO Cesrio...gora_06.qxd8/9/062:25 PMPage 134(Black plate)134GORA LIVRE DRAMATURGIASCESRIO Ligou para ofender mais? CARMELO Amanh eu vou me internar no Hospital da Beneficncia. CESRIO Que que voc tem, Carmelo? CARMELO Nada. CESRIO Voc est escondendo alguma coisa. grave? Quer que eu passe a para ir junto? CARMELO Pode deixar que eu vou sozinho. CESRIO No sei como voc consegue viver sozinho. CARMELO Antes s do que mal acompanhado. CESRIO Est sugerindo alguma coisa? alguma indireta? CARMELO Vou ser operado de varizes. Faz tempo que estou precisando. CESRIO Se quiser companhia, s pedir, fao qualquer negcio para sair de casa.gora_06.qxd8/9/062:25 PMPage 135(Black plate)135CARMELO Depois voc vai me visitar com a sua sogra. (Cesrio fica em silncio, atrapalhado) Cesrio? CESRIO Eu preciso lhe contar uma coisa. CARMELO U, conta. CESRIO Voc nunca teve vontade de se casar, ter filhos? CARMELO No. CESRIO Como no? CARMELO No mesmo. Voc ia me contar alguma coisa ou est querendo saber da minha vida, Cesrio? CESRIO A Guiomar continua do mesmo jeito, Carmelo. CARMELO H quanto tempo? CESRIO Oito anos. Toda vez que eu vou ao hospital o mdico sempre diz que nunca sabe quanto tempo ela ainda vai durar. CARMELO O corao...gora_06.qxd8/9/062:25 PMPage 136(Black plate)136GORA LIVRE DRAMATURGIASCESRIO O mdico diz que nunca viu corao to forte. CARMELO Nenhuma esperana, ento? CESRIO Nenhuma. CARMELO Ia ser melhor se descansasse. CESRIO Isso coisa que se fale? CARMELO Eu falei. E a sua filha? CESRIO Est no Afeganisto com o marido, ele engenheiro e arrumou trabalho numa construtora brasileira. Ela escreveu que s pode sair na rua coberta com um vu, s pode ver pelos furinhos do pano. Aqueles dois no voltam mais. Escreveram tudo errado, contaram que as crianas agora falam s aquela lngua, acho que turco, sei l... CARMELO E a sua sogra, Cesrio? CESRIO (embaraado) Outra hora eu falo disso com voc. Chegou visita. CARMELO Como chegou visita se no escutei ningum tocar a campainha? Que est acontecendo, Cesrio?gora_06.qxd8/9/062:26 PMPage 137(Black plate)137CESRIO Nada. CARMELO Como assim nada? Depois de velho deu de ficar mentiroso, Cesrio? CESRIO No sei se eu conto. Tenho medo de voc sair por a contando para todo mundo. Me promete que vai ouvir tudo sem fazer gozao. CARMELO Xiiii. Se no quiser falar, no fale. CESRIO que uma noite, ela j tinha ido se deitar... a minha sogra, voc sabe... Pensei que a Dona Zlia estivesse dormindo... sei l, fazia tempo que eu... CARMELO No enrola, Cesrio. CESRIO Calma! Pensa que fcil? Eu pus um filme porn para assistir. CARMELO No televisor da sala? CESRIO O do meu quarto estava queimado. CARMELO E da? CESRIO Ela entrou na sala e...gora_06.qxd8/9/062:26 PMPage 138(Black plate)138GORA LIVRE DRAMATURGIASCARMELO Te pegou em flagrante. CESRIO Mais que isso. (pausa) CARMELO Agora, conta. CESRIO Nem sei como, aconteceu! CARMELO Aconteceu? CESRIO Que que voc acha? Eu estava no maior atraso. CARMELO Nunca ouvi uma histria dessas. Foi s essa vez? CESRIO No. CARMELO No como? CESRIO No, a gente continua... CARMELO Entendi. E voc no fica com problemas? CESRIO Fico antes e fico depois.gora_06.qxd8/9/062:26 PMPage 139(Black plate)139CARMELO Como assim? Explica direito. CESRIO Explicar o qu? isso, fico perturbado antes e depois tambm. Pouca coisa. Depois, nenhum dos dois toca no assunto, a gente finge que no aconteceu nada. Na hora, a nica coisa ruim que eu continuo chamando ela de Dona Zlia. CARMELO E ela? CESRIO Me chama de meu filho. CARMELO Meu filho na cama no d. CESRIO Pois . Da eu me lembro da minha me e voc pode imaginar o que acontece. CARMELO Nunca imaginei que a sua sogra ainda... CESRIO E me deixa num estado de cansao... CARMELO Com aquela cara de beata? CESRIO Famlia uma merda, Carmelo, bem fez voc que ficou solteiro. Vou rezar por voc.gora_06.qxd8/9/062:26 PMPage 140(Black plate)140GORA LIVRE DRAMATURGIASCARMELO Sem exagero. CESRIO Posso ir te visitar com a Dona Zlia? CARMELO Sem problemas, eu finjo que no sei de nada, pode ficar tranqilo. Reze por mim. CESRIO Voc est com medo, Carmelo. Que foi que aconteceu com o herege ateu? CARMELO No sei se existe algum que goste de hospital. Preciso de um calmante. Um abrao, Cesrio. (desliga o telefone; apaga a luz de Cesrio) Eu que devia rezar, pedir alguma coisa a Deus no fcil para mim, nem sei como chegar a Ele. (procura e acha uma grande Bblia e comea a folhe-la; pra numa pgina e l) Lembre-se do seu Criador nos dias da sua mocidade antes que venham os maus dias e neles no encontre alegria. (ajoelha-se mas sente dor) Rezar ajoelhado, sem condies. Deus gosta que as pessoas rezem de joelhos. Quem procura a Deus tem que ficar em posio de sofrimento, humilhao. (fecha os olhos e tenta falar com Deus)gora_06.qxd8/9/062:26 PMPage 141(Black plate)141Ilustrssimo Senhor... No, parece introduo de carta, jeito antigo de sobrescritar envelope... Na hora de rezar devo dizer Voc ou Senhor? Quando escrevo Deus e Senhor, sempre com letra maiscula, o Senhor deve ter notado a vida inteira. (hesita e desiste) Amm. (pra um tempo, folheia a Bblia e encontra uma flor seca h muitos anos e uma foto velha da me, qual se dirige) Me, nem pedi nada a Deus e j fui dizendo Amm. Vou tentar de novo. (fecha os olhos) Senhor Deus, me ajude? O Senhor poderoso e vingador, no mesmo? Mas tambm est escrito que o Senhor bom e cheio de bondade. Nunca entendi essas coisas... (interrompe e abre os olhos) Me, no consigo continuar. Me, a senhora e o meu pai esto aonde? Esto perto de Deus? D para ver ou sentir como Ele ? Eu no devia ficar falando com a senhora, incomodando quem j est descansando. que Deus pode interpretar mal minha orao sem f. Deus no escuta pessoas sem f. o meu caso. Me, vou desistir de falar diretamente com Ele. Se for possvel, olha por mim. Se Deus grande como a senhora dizia, que Ele cuide de mim. Toca o telefone de Carmelo. Acende a luz de Cesrio. CESRIO Carmelo, desculpe incomodar mas eu conversei com a Dona Zlia e ela mandou eu lhe dizer que voc precisa aceitar Cristo.gora_06.qxd8/9/062:26 PMPage 142(Black plate)142GORA LIVRE DRAMATURGIASCARMELO Posso falar com ela, Cesrio? CESRIO Sem condies, ela est vendo o programa do pastor. CARMELO Diga a ela o seguinte: que eu no estou preocupado em aceitar Cristo por uma razo muito simples: eu nunca o rejeitei. Velha safada! CESRIO Que histria essa de ofender a minha mulher? CARMELO Sua mulher est em coma, Cesrio! (bate o telefone e tira-o do gancho, evitando nova chamada; Cesrio ainda fica tentando discar e a luz dele morre; Carmelo reconhece no envelope a letra do irmo) Esta carta do caulinha. Deve estar querendo dinheiro emprestado, s pode ser isso. A gente no se fala desde 68, desde aquele Dia das Mes. (pega de novo o retrato da me) Me, eu no agentei quando ele defendeu o golpe militar. Teve a coragem de dizer que aquilo era a soluo para os males do pas. A senhora deve se lembrar porque mandou a gente parar de brigar na sua frente. E justo o filho dele foi preso e assassinado, sabe Deus por qu, aquele moo no tinha nada a ver. O pai e a senhora no estavam mais aqui. No enterro do rapaz s nos olhamos de longe, nenhuma palavra. (pe de novo o retrato da me no meio da Bblia) Como ser que est esse meu irmo depois de tantos anos sem a gente se ver? Rompi com todos, um em cada data festiva. No perdoei ningumgora_06.qxd8/9/062:26 PMPage 143(Black plate)143e acho que tambm no fui perdoado. Perdo osso duro de roer. (l a carta) Estou convidando voc para almoar conosco daqui a dois domingos. Resolvi reunir todos os irmos. A gente no pode ficar desse jeito para o resto da vida. Por favor, venha e traga a mulher, os filhos... Eu nunca tive famlia. Ser alguma despedida? Ser que ele est doente? Houve um tempo em que a gente se gostava, sem fazer cobranas. Depois, cada um foi ficando mais chato que o outro e rolou muita mesquinharia! (pensa e fecha os olhos, procura de Deus) No consigo encontr-lo, Senhor Deus. Ilmo. Sr. do cu e da terra: j vou avisando: eu no vou nesse almoo. (l de novo a carta; abre a Bblia e pega a foto da me) Me, a senhora sempre teve mais intimidade com Ele, l em cima. Avise Deus. Sabe o almoo? Eu vou. FIMgora_06.qxd8/9/062:26 PMPage 144(Black plate)144GORA LIVRE DRAMATURGIASNAUM ALVES DE SOUZA diretor, dramaturgo, cengrafo, figurinista e artista plstico. Comeou profissionalmente no teatro como cengrafo e figurinista na pea El Grande de CocaCola (1974), dirigida por Lus Srgio Person. autor dos premiados No Natal a Gente Vem Te Buscar (1979); A Aurora da Minha Vida (1981); Um Beijo, um Abrao, um Aperto de Mo (1984) textos traduzidos para diversos idiomas, publicados e encenados internacionalmente. Dirigiu atores como Marieta Severo, em No Natal a Gente Vem te Busca, A Aurora da Minha Vida, Um Beijo, um Abrao, um Aperto de Mo e Cenas de Outono, de Yukio Mishima (1987); Fernanda Montenegro, em Dona Doida, sobre poemas de Adlia Prado (1990) e Suburbano Corao, de sua autoria; Srgio Britto e Cleyde Yconis, em Longa Jornada de Um Dia Noite Adentro, de Eugene ONeill (2002). Foi o criador dos cenrios e figurinos da consagrada montagem de Macunama, direo de Antunes Filho (1978), e de Falso Brilhante, show de Elis Regina dirigido por Myriam Muniz. Em cinema, fez o argumento, roteiro e dilogos de Romance da Empregada (1986), de Bruno Barreto. Na dana, roteirizou O Grande Circo Mstico, espetculo com trilha sonora de Chico Buarque e Edu Lobo, dirigido por Emlio Di Biasi(1983) e criou diversos espetculos para J. C. Violla, entre os quais Senhores das Sombras, Valsa para Vinte Veias, Flippersports, Petruchka, Salo de Baile e Doze Movimentos para um Homem S. Criou e apresentou no Teatro Municipal de So Paulo a pera do 500, com msica de Nelson Ayres e Rodolfo Stroeter; Os Pescadores de Prolas, com msica de Georges Bizet; King Arthur, de Henry Purcell; Jenufa, de Leos Jancek; alm das verses compactas para Carmen e Madame Butterfly e da direo cnica de inmeros Concertos. Teve a pea Suburbano Corao adaptada para a televiso e integrou a equipe de escritores que adaptaram diversas obras da literatura brasileira para o programa Casos Especiais, direo de Guel Arraes, ambos pela Rede Globo. Criou e confeccionou os bonecos brasileiros da srie Vila Ssamo, assim como inmeros outros mostrados em exposies, estando muitos deles em colees particulares. Em 2005 suas obras completas para o teatro foram publicadas em Coimbra, Portugal, pela Fundao Cena Lusfona.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 145(Black plate)E RAMOS TODOS THUNDERBIRDSdramaturgo: Mrio Bortolotto debatedor: Sebastio MilarMONTAGEM direo: Mrio Bortolotto elenco: Aline Abovsky, Fernanda DUmbra, Joo Fbio Cabral, Joeli Pimentel, Mrio Bortolotto e Wilton Andrade cenrio e figurino: Cemitrio de Automveis trilha sonora e luz: Mrio Bortolotto produo executiva: Ndia De LionE ramos Todos Thunderbirds uma verso do texto Velhas Variaes Sobre o Mesmo Tema, tambm escrito em 2001gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 146(Black plate)146GORA LIVRE DRAMATURGIASE RAMOS TODOS THUNDERBIRDSMrio Bortolottogora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 147(Black plate)147E ramos todos invencveis. Com nossas colees de figurinhas. O tnis Kichute. As balas apache e os desenhos do Z Buscap. ramos orgulhosos de nossas cicatrizes. Da Ndia Lippi. Da Rose di Primo. Do pai bebum. De nossas bravatas adolescentes. Do Rivelino, do Clodoaldo e do Tosto. A gente queria era bandido na seleo. A gente queria o trofu abacaxi. A gente queria Rita Cadilac na televiso. A gente queria panqueca no caf da manh e vinho Sangue de Boi. Boquete da Lurdinha no Fusquinha. Nosso ideal de vida era um salo de sinuca. Ningum queria ser publicitrio. Ningum queria lavar pratos em Nova York. Ningum queria comer sashimi nem tomar santo daime. A gente queria era ver a Linda Blair dar um 180 na responsa. Cult, pra gente, era Jane Russel, malandro. ramos punheteiros jamais onanistas. ramos consumidores de penicilina. Amantes de estrias. Nossos trofus eram bandagens amarelas. A gente ia tirar a Penlope das garras do Tio Gavio. ramos iconoclastas. A gente queria pr no rabo dos Gurus, das socialites e dos corredores de Frmula 1. Era um tempo em que o mundo se dividia em fodes e cuses. A gente no usava boca de sino. No danava em discotecas e nossos heris no morriam de overdose. A gente morria da dor de existir. ramos todos Mirisolas. ramos todos Beavis & Butt Head. ramos amargos, ressentidos e cheios de raiva. ramos cnicos e orgulhosos. ramos de um tempo em que todo mundo queria ser centroavante. Estamos velhos e nostlgicos. Estamos chapados e nocauteados. Detonados no sof encarquilhado. O babaca de branco j contou at 10. Ento, fodase. Isso a gente ainda pode falar. Baixinho, mas pode. Foda-se. Mas ainda vamos chutar alguns traseiros. ramos o caralho! Paula, jogada na parede por Zero. No outro lado, Wellington chuta Jacar e joga ele contra a parede. Paula est sentada em um canto do quarto. Zero entra, vindo do banheiro, e v Paula. A princpio, ele no fala nada. Senta na cama e fica enxugando o cabelo.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 148(Black plate)148GORA LIVRE DRAMATURGIASZERO H quanto tempo voc t a? PAULA Voc no lembra? ZERO Eu lembro de bem pouca coisa. PAULA Voc no foi gentil. ZERO Conta uma novidade. PAULA Voc do tipo que bebe demais e esquece tudo. ZERO Eu no bebo pra esquecer. Mas tenho que admitir que esqueo de um bocado de coisas quando bebo. PAULA Voc parecia um louco. ZERO E agora? Pareo normal? PAULA Quase. ZERO Ok, t legal. Eu trouxe voc pra c e no te tratei bem. Grande coisa. Eu no quero saber quem voc e o que pensa de mim. Coloca uma roupa e cai fora. Eu t a fim de ficar sozinho.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 149(Black plate)149PAULA (pausa de incredulidade) Eu moro aqui. ZERO (pausa) Ah. Certo. Ento eu que vou. Zero sai e passa por Jacar, que est no cho, levando porrada de Wellington. Aproveita e tambm d uns chutes em Jacar. Madonna entra no quarto de Paula. Est vestida de maneira extravagante, com peruca e botas de salto alto. PAULA No um bom momento. MADONNA Voc sempre diz isso. PAULA Eu t falando srio. MADONNA Voc parece meio puta. PAULA Eu pareo meio puta? Eu j nasci puta... em todos os sentidos. Que porra de roupa essa? MADONNA Voc gostou? Eu no t demais? PAULA C t parecendo um travesti. MADONNA Eu vou fazer uma performance.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 150(Black plate)150GORA LIVRE DRAMATURGIASPAULA ? Do que? De Marilyn Manson? MADONNA Porra, Paula. uma performance de alto nvel. Intelectual. PAULA T vendo. MADONNA Cad o seu marido? Eu quase nunca encontro ele aqui. PAULA E eu vou l saber daquele corno? Deve t por a, com aqueles amigos inteis dele, se entupindo de maconha e assistindo desenho animado. MADONNA Por que voc trai tanto o coitado, Paula? PAULA Eu sou da seguinte opinio. Se o homem tem pau pequeno, tem que ser pelo menos bom de cama, n, caralho? E, alm do mais, eu me fodi, casei errado, sabe como ? MADONNA Como que eu vou saber? Eu nunca casei. PAULA Eu merecia um cara melhor. Podia ser assim, um publicitrio, um personal trainer, um corredor de Frmula 1. Sei l, algum com uma profisso decente, promissora. Meu marido um merda dum traficante de maconha, intil, que nem consegue traficar porra nenhuma, porque ele e seus amigos inteis fumam todo o produto que deviam comercializar. Depois enchem a cara de cerveja vagabunda e ficam esparramados num sof nojento, vendo MTV e desenho animado. Uns bostas sem futuro. A pior escria. Fracassados j no tero materno. Por isso que eu dou mesmo pra todo mundo, inclusive pros amigos dele. Egora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 151(Black plate)151eu vou te dizer. Nunca conheci sujeitinhos piores. Totalmente desprovidos de ambio. D pra eles uma lata de cerveja e um disco do AC/DC, e pronto. Os merdas abrem um sorriso majestoso, se refestelam no sof e ficam se achando os melhores do mundo. Passam o tempo inteiro falando mal de todos os caras bem sucedidos e bonites, porque, como se no bastasse, eles ainda so feios, mas so feios pra caralho, e ficam l, lamentando a ausncia de clipes de rock na MTV. Voc consegue acreditar numa coisa dessas? Parasitas como esses existem. MADONNA Eles parecem superlegais. Onde que eu posso encontrar esses caras? Gamb e Zero sentados no sof em frente tv. GAMB A, Zero, t vivendo a m expectativa de te contar uma parada a, mas t achando que no vale a pena, porque voc no vai acreditar, sacou? Eu t ligado que voc o m So Tom, m maconheiro de pouca f. ZERO Fala de uma vez. GAMB Voc quer mesmo saber? ZERO Porra, Gamb. GAMB Seguinte. Tava de rol, ali na Frei Caneca, quando de repente passa por mim, na maior languidez, adivinha quem? ZERO Quem? GAMB Dona Ciccone.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 152(Black plate)152GORA LIVRE DRAMATURGIASZERO Dona Ciccone? GAMB , porra. C no t ligado na Dona Ciccone? A, . Isso que d ficar conversando com prego. Vou traduzir pra voc, ento. Dona Ciccone nada mais, nada menos que... que... a Madonna. Sacou? A Madonna passou por mim, na Frei Caneca. ZERO A Madonna? GAMB A, no falei que tu no ia acreditar? Eu vi ela passando e fui atrs. ZERO Ah, no comea com essa merda, Gamb, eu t precisando da chave do carro. Passa pra c. GAMB Era a Madonna, Zero. T te falando. Era ela. A, eu pensei: essa a minha chance. chegada a hora da revenge. Vou dar uns tapa nessa vaca. Vou encher essa vaca de porrada. ZERO T bom. GAMB T bom? T bom? Te conto uma parada monstro dessa e isso que voc fala pra mim? T bom? ZERO Me d a chave. GAMB Eu fui atrs dela. Ela entrou no shopping Artplex.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 153(Black plate)153ZERO No shopping? GAMB . Artplex. Na porra do shopping. A vaca entrou no shopping. Acho que ela pensou que ia conseguir me despistar, a vaca. ZERO No era a Madonna. O que a Madonna ia t fazendo na Frei Caneca? GAMB C tava l? ZERO No. GAMB C tava l, maluco? ZERO No, porra. GAMB Ento, c no tava, que merda c t falando? ZERO Quem t falando merda voc. Me d a chave. GAMB Ela tava falando com um cara grande, no final da escada rolante. Um puta guarda-roupa. Devia ser um segurana dela. C t ligado que a vaca cheia dos seguranas, n? ZERO C t chapado.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 154(Black plate)154GORA LIVRE DRAMATURGIASGAMB Eu falei, vou dar um tempo. Deixa o cara distrair, e eu chego junto. Vou dar uns tapa nessa vaca. ZERO Que merda voc andou fumando? GAMB Voc sabe, ela um agente infiltrado no corao das mulheres, uma espi da CIA, ela veio pra causar tumulto em coraes e mentes femininos. ZERO Eu no sei porque eu no te dou uma porrada. GAMB E a eu incluo as bichas tambm, sabe? Elas tambm ficam gritando: Madonna, Madonna. Todas umas porras-loucas. Bando de bicha louca do caralho. ZERO Gamb, c t muito doido. Eu j falei pra voc parar de usar toda a merda da droga.A gente tem que comercializar, no consumir. O que foi que eu te falei? GAMB No usa a porra da droga. ZERO No usa a porra da droga. No usa a porra da droga. Vivo te falando essa merda. No usa. GAMB No que o cara deu uma distrada, eu chapuletei ela. ZERO Voc t me dizendo que c deu uma porrada na mulher?gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 155(Black plate)155GAMB Na Madonna, cara. Eu dei um tapo na idia da Madonna. Tu sacou, meu? Um puta tapo na idia. ZERO Meu, tu um doido filho-da-puta. GAMB Pode crer, sou meio doido, mesmo, mas algum tinha que ir l e tomar uma providncia. A gente no pode deixar essa mulher andando por a, como se no tivesse aprontado nenhuma. Ela aprontou vrias, entendeu? Vrias. Porra, Zero, c t ligado. ZERO Eu preciso da porra da chave do carro. GAMB (joga a chave para ele) Porra, tu o m incrdulo. (Zero levanta e vai saindo) Cara, escrevi um negcio muito louco ontem. Da hora. C precisava ver. ZERO Cad? GAMB O que, maluco? ZERO O troo que c escreveu. GAMB Cara, como que c t sabendo? ZERO No foi voc que falou? GAMB Cara, tu o m vidente. Tu saca tudo. C muito louco. Ah, cara. C nem sabe.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 156(Black plate)156GORA LIVRE DRAMATURGIASZERO Num sei. GAMB Que merda, cara, que merda. ZERO Filho-da-puta. Maluco filho-da-puta. GAMB Que merda, meu camarada, que merda. Zero sai fora. Gamb fica sozinho, sentado no sof. Wellington e Jacar WELLINGTON Eu j disse pra voc no se meter com minha esposa. JACAR Mas ela me ama. WELLINGTON Quem te falou? JACAR Ela disse. Disse com todas as letras. Eu te amo. Eu te amo muito. Voc o amor da minha vida. Eu no posso viver sem voc. WELLINGTON Ela disse isso pra mim. JACAR Ah, mas deve ter sido h muito tempo, no foi?gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 157(Black plate)157WELLINGTON . Foi h muito tempo. E da? JACAR Pois . Ela no sente mais nada por voc. WELLINGTON Quem te falou? JACAR Ela, Wellington. Ela me falou. Ela falou assim. Eu no sinto mais nada por aquele porco do Wellington. Mais nada. WELLINGTON Ela me chamou de porco? JACAR Foi. Eu disse a ela que no era certo chamar o marido de porco. Mas ela continuou falando. Porco. Porco. Porco. WELLINGTON E se eu te der um tiro agora? Um tiro na sua cabea? JACAR Isso no vai ser bom. WELLINGTON mesmo? E por qu? JACAR Voc vai fazer ela sofrer. Ela no consegue mais viver sem mim. Foi o que ela disse. Ela vai sofrer muito. Voc ama a sua esposa. Voc no quer fazer ela sofrer, quer? WELLINGTON E se eu der um tiro na minha cabea?gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 158(Black plate)158GORA LIVRE DRAMATURGIASJACAR Vai ser intil. Ela no vai nem se importar. WELLINGTON No? JACAR Claro que no. Ela no gosta mais de voc, Wellington. No sente mais nada por voc.Voc sabe, quando uma mulher pra de gostar, ela no d mais a mnima pro cara. Voc sabe como elas conseguem ser frias e insensveis. Voc no significa mais nada. Tanto faz se voc est vivo ou morto. Ela no sente mais nada. Acabou, acabou. WELLINGTON E se eu der um tiro nela? JACAR Bem, me parece ser a melhor soluo. Jacar e Gamb chegam na casa de Paula. JACAR E a, Paulinha, meu anjo? PAULA Voc tinha que trazer o maluco junto? GAMB A, . O maluco eu. JACAR Ele quis vir. O que eu podia fazer? PAULA Voc podia ter explicado pra ele a situao.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 159(Black plate)159JACAR Que situao? PAULA A nossa situao. Que a gente ia fazer algo ntimo. JACAR Desde quando o que a gente faz ntimo? Ah, Paula, parou, n? GAMB E a? PAULA E a o que, retardado? GAMB Vocs no vo comear? PAULA Que merda ele t pensando? JACAR Ele s quer bater uma punhetinha enquanto a gente faz. GAMB . Coisa pouca. No fao questo de participar do bagulho a, no. JACAR C no vai regular, n, Paula? PAULA Eu no vou transar com esse punheteiro olhando. GAMB Iiiiih, olha a, Jacar. A mulher t folgando. No deixa, no. Vai queimar seu filme na rea. Desce a chinela nela.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 160(Black plate)160GORA LIVRE DRAMATURGIASJACAR Olha, Paula, eu no queria te dizer, tava evitando. Mas agora eu vou falar. GAMB Fala pra ela. PAULA Falar o qu? GAMB Fala pra ela. JACAR (para Gamb) Voc acha que eu devo mesmo? GAMB Ela t precisando ouvir. PAULA Fala de uma vez. JACAR Eu tava relutando. GAMB No reluta, no. PAULA Fala de uma vez. JACAR Voc t ficando... chaaaata. PAULA mesmo?gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 161(Black plate)161GAMB Pra caralho. PAULA S porque eu no quero foder, com esse punheteiro retardado me olhando? JACAR Entre outras coisas. A rapaziada anda reclamando. Daqui a pouco, ningum mais vai querer foder com voc. GAMB . Vai secar a fonte a, maluca. PAULA Vem c, esse punheteiro j comeu alguma mulher na merda de vida dele? GAMB Ah, qual , ? T maluca? T me tirando, ? A, Jacar. JACAR Conta pra ela, Gamb. GAMB (para Paula) Voc me provocou. Eu no gosto que me provoquem. Voc me provocou. Agora fodeu. Contarei pra vocs, ento, um pouco da minha trrida vida sexual. Se algum tiver problemas cardacos, retire-se do recinto, narrarei aqui cenas porn trash hardcore. Comi uma mulher. Comi mesmo. Comi. Tinha 22 anos. Fui l, paguei e comi. Na catega. Tava de saco cheio de ser cabao. Num agentava mais de curiosidade pra saber como que era. JACAR E como que foi? GAMB Foram os melhores quinze segundos da minha vida. A, fiquei mais oito anos na punheta. Quando eu completei trinta anos, uma doidona fugida dogora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 162(Black plate)162GORA LIVRE DRAMATURGIASPinel tesou na minha fachada. JACAR Ele at namorou. GAMB Pra voc ver. Andei de mo dada. (para Paula) Morra de inveja. PAULA Noooossa. GAMB E saca s o meu itinerrio romntico com a mina. Saca s o meu itinerrio romntico. Levei ela no mesmo dia no Play Center, no Hopi Hari e no Beto Carrero. PAULA E ela ainda continuou com voc? GAMB No falei que a mulher era doida? JACAR Era muito amor. GAMB At que um dia aconteceu a grande tragdia. A grande tragdia aconteceu na minha vida. A mina me trocou. Como que pode? Ela teve a manha de me trocar. Me trocou por um psiquiatra. Um psiquiatra carioca. A, no tinha como, n? Chegava a ser desleal a disputa. PAULA E por qu? GAMB O psiquiatra carioca, mina. No t ligada no psiquiatra carioca? Psiquiatra cari-gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 163(Black plate)163oca foda. Porra, o filho-da-puta fornecia Prozac de monto pra ela. Quer dizer, ele satisfazia as necessidades primordiais dela. Ele falava assim: (com sotaque carioca e imitando o jeito calmo do psiquiatra canastro) pra voc, todo o Prozac do mundo, meu amor. Todo o Prozac que voc quiser. Vocs precisavam ver os olhinhos dela como brilhavam. No d pra competir com algum assim. PAULA Sabe, faz tempo que eu quero perguntar uma coisa pra vocs. JACAR E que porra ? PAULA Como que vocs conseguem? JACAR O qu? PAULA Ser assim... JACAR Assim? PAULA ... assim... to fodidos, to inteis, to fracassados... GAMB A, Jacar. Ela t falando de ns? JACAR Parece. GAMB Tu t muita doida, hein, mina? O bagulho que tu fumou era do bom, hein?gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 164(Black plate)164GORA LIVRE DRAMATURGIASPAULA Eu no uso drogas. GAMB C t chamando o Jacar e eu de fracassados? A gente vitorioso pra caralho. No devia, porque voc no merece, mas mesmo assim vou explicar. Sintoniza no meu raciocnio. Se liga no meu dial. A gente j t chegando nos quarenta anos e no conseguiu porra nenhuma na vida. A gente no tem nada. No tem imvel, no tem filho, no tem profisso, no tem um emprego decente, no tem futuro, nenhuma perspectiva de vida, no plantamos a porra da rvore, c t sacando? JACAR . A gente demais. GAMB Tenho a maior admirao por mim mesmo. JACAR Eu tambm. Eu sou o cara que mais curte eu. GAMB Se liga, mina. A gente vive numa porra duma sociedade que faz um moleque de 20 anos se sentir um merda se no tiver um carro do ano. A gente fodo. A gente j t nos quarentinha e no tem merda nenhuma. JACAR Vou te falar, Paula. Alm de chata, tu t ficando burra pra caralho. Vem c, Paula, voc bebe? PAULA Voc sabe que no. GAMB Nossa, Jacar. J t ficando com vontade de vomitar.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 165(Black plate)165JACAR T na hora de comear. Vamo sair daqui, Gamb. Se tem uma coisa que eu no agento mulher burra. GAMB Que porra o Wellington viu nessa vaca? JACAR Ah, ela at que gostosinha, n, Gamb? GAMB . (olhando a bunda dela) Admirando assim por esse ngulo, at que d pra comer. (para Paula) Mas no se entusiasma, no, hein? No se entusiasma, no, que c t com a bundinha meio cada. JACAR E o Wellington ainda paga academia pra uma vaca dessa. GAMB Meu, fico injuriado. Os dois saem indignados. Wellington chega em casa. Paula no d a mnima pra ele. WELLINGTON O que que eu vivo dizendo pra voc? PAULA C fala um monte de coisa. WELLINGTON Mas o que que eu vivo dizendo pra voc? Me diz. PAULA Pra eu no ficar dando pra todo mundo?gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 166(Black plate)166GORA LIVRE DRAMATURGIASWELLINGTON Por quem voc me toma? Eu jamais pediria algo assim. Com quem voc pensa que casou? Com um marido eglatra, machista, conservador, do tipo que quer a mulher apenas para satisfazer o seu banal prazer pessoal? Voc acha que eu seria capaz de priv-la de sua liberdade? Eu seria um sacrlego sem alma se a obrigasse a tal procedimento retrgrado. PAULA Voc nunca me pediu isso porque sabe que no adianta nada. Eu dou pra todo mundo mesmo e quero mais que voc se foda. WELLINGTON J que voc no capaz de constatar minha abnegao, meu jeito moderno de ser, ento pelo menos podia lembrar do que eu vivo pedindo pra voc. PAULA Eu no consigo lembrar. Eu no costumo prestar muita ateno em voc. WELLINGTON No deixa nenhum outro cara usar meu aparelho de barbear. PAULA isso? WELLINGTON isso. No deixa nenhum outro cara usar meu aparelho de barbear. Pode usar voc, eu no me importo, mas no pode usar meu aparelho de barbear. PAULA Mas ningum usou o seu aparelho. WELLINGTON Voc t querendo me dizer que eu no consigo saber quando um outro cara usou o meu aparelho de barbear?gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 167(Black plate)167PAULA Como que eu vou saber que o aparelho seu? WELLINGTON Porque sou o nico que deixa aparelhos de barbear aqui. Seus amantes no costumam deixar aparelhos de barbear aqui em casa. PAULA Por que voc tem que deixar aparelhos a? WELLINGTON Porque eu moro aqui. Porque essa a minha casa e porque eu odeio a idia de querer fazer a barba e no ter um aparelho disposio. Alm de tudo, o aparelho me d uma sensao de intimidade domstica, se que voc me entende. PAULA No. WELLINGTON Eu me sinto em casa, confortvel e totalmente seguro, se eu souber que no armarinho do banheiro est o meu aparelho de barbear, esperando pacientemente que eu o coloque em ao. PAULA Ento esconde ele. WELLINGTON Como que ? PAULA isso. Esconde o aparelho. Atrs da saboneteira, da pasta de dente, do desodorante, sei l. Esconde o treco. WELLINGTON Eu no vou esconder o meu prprio aparelho de barbear na minha prpriagora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 168(Black plate)168GORA LIVRE DRAMATURGIAScasa, apenas com a finalidade de evitar que um de seus amantes escrotos e antihiginicos venha a us-lo sem nenhuma considerao ou uma msera camaradagem masculina, que seja. PAULA Como voc egosta. Porco chauvinista. S interessado nas suas coisinhas. WELLINGTON Voc acha mesmo? PAULA Eu no sei por que eu ainda perco o meu tempo conversando com voc. Por que voc no se mata? WELLINGTON Eu tenho pensado nisso. PAULA Voc pensa demais. Zero est sozinho em casa. Gamb entra. GAMB Zero, c no vai acreditar. ZERO O que, maluco? GAMB Eu peguei ela. ZERO Ela? Pegou quem? Quem ela? GAMB A tal. A bandida. A sacana.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 169(Black plate)169ZERO De quem merda c t falando? GAMB A Madonna. (mostra Madonna, que est amarrada e amordaada e conduzida por Jacar) ZERO Gamb, seu filho-da-puta, que merda que c fez? JACAR Ele pegou a Madonna. GAMB Eu peguei ela, cara. A Madonna. A gente vai foder com ela. ZERO Porra, que foi que eu te falei? GAMB e JACAR No usa a porra da droga. ZERO No usa a porra da droga, no usa a porra da droga. GAMB Eu tava doido, mesmo, e a eu vi ela dando a m sopa, a sacana, na maior impunidade. A eu j barbarizei, n, mano? Capotei a vagaba no soco e empacotei. Agora t a. No pode fazer mais mal nenhum pra ningum. ZERO Pra ningum? GAMB . Pra ningum. C sabe, pro Sean Penn, pro Warren Beatty, pro Guy Ritchie, essa vaca fodeu todo mundo. Agora, a gente vai pr no rabo dela.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 170(Black plate)170GORA LIVRE DRAMATURGIASZERO Ela nem parece a Madonna. No tem nada a ver com ela. GAMB Essa vaca cheia dos artifcios, dos subterfgios, ela se disfara, vive mudando de cara. Esse o new look dela. ZERO Que merda. GAMB Quer ver s? (tira a mordaa dela) Vai, mostra pra ele. MADONNA Mostrar o que, pelo amor de Deus? (para Zero) Moo, esse maluco t doido. ZERO E eu num sei? GAMB Mostra pra ele. MADONNA Mas o que que eu vou mostrar, moo? GAMB Mostra que c a Madonna. MADONNA Mas eu num sou. GAMB Como, no ? Como, no ? T me tirando de maluco, ? Mostra j. MADONNA (para Zero) Moo, fala pra ele parar.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 171(Black plate)171GAMB Canta a. MADONNA Cantar, eu? Mas cantar o qu? GAMB (fala baixinho) Like a Virgin. MADONNA Como? GAMB (constrangido quase sem conseguir falar) Like a Virgin. ZERO Mas logo essa? GAMB Canta a. MADONNA Ah, eu adoro essa msica. JACAR Essa do caralho. Zero e Gamb olham perplexos para Jacar, que cai na real, percebendo a merda que falou. ZERO Canta logo e acaba com isso. Madonna canta, desafinada pra caralho. ZERO Puta que pariu. Mas horrvel. Vai cantar mal assim l no Raul Gil.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 172(Black plate)172GORA LIVRE DRAMATURGIASGAMB Caralho. JACAR Que bosta, hein? Madonna o caralho. Ela t parecendo mais a Smurfete. MADONNA Cs no gostaram? Eu achei que ficou to bonitinho. GAMB Filha-da-puta. T desafinando de propsito. MADONNA Eu juro que no, moo. Eu no consigo fazer melhor que isso. ZERO Vai, Gamb, reconhece que voc se enganou e solta a coitadinha. MADONNA , moo, solta eu. Eu t me mijando de medo do senhor. Meu, c muito louco. ZERO Mas o que que t acontecendo com voc, Gamb? GAMB Mas a Madonna. ZERO Claro que . E eu sou o Chico Csar. Gamb e Jacar ficam olhando de maneira significativa para Zero. ZERO Ah, qual ?gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 173(Black plate)173JACAR No uma hiptese absurda. ZERO Que que t acontecendo com vocs? JACAR Crise de abstinncia de videoclipe. ZERO Como que ? JACAR . Desde que a MTV parou de exibir videoclipe, vem acontecendo isso com a gente. Ns no conseguimos mais reconhecer nossos dolos pop. GAMB . Agora eles s ficam passando aqueles programinhas de namoradinho, um monte de mulher falando ao mesmo tempo, consultoria sexual. Uma bosta. Nunca mais vi o clipe do AC/DC. MADONNA Ah, mas agora t muito mais legal. Os trs olham feio pra ela. MADONNA Porra, mas eu nem posso ter minha opinio? Eu aprendi com a Marina Person que esse um direito meu. ZERO mesmo? MADONNA . Ns, Meninas-Veneno, conquistamos esse direito.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 174(Black plate)174GORA LIVRE DRAMATURGIASZERO Jacar, coloca a mordaa nela. Quando Jacar vai colocar, entra Wellington. WELLINGTON Eu no acredito. Vocs pegaram uma das Spice Girls? MADONNA Ah, no. Spice Girls, no. ZERO Onde que c tava, Wellington? JACAR Onde que c acha que ele tava? Numa pornoshop. Ele no sai de l. Tava comprando um consolo tamanho XXG. WELLINGTON S se for pra enfiar no seu cu. ZERO Porra, Wellington, no porque sua mulher anda dando pra todo mundo que voc vai ter que apelar. WELLINGTON Que histria essa de todo mundo? Ela se apaixona pelos caras. Nunca s sexo. ZERO . Eu fiquei sabendo que ela se apaixonou por toda a Mancha Verde. MADONNA No brinca. Eu conheo essa a. uma lenda viva. Mas vem c. Por que que sua mulher te trai tanto?gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 175(Black plate)175WELLINGTON porque eu sou muito voraz. JACAR Voraz, Wellington? Voc? WELLINGTON Eu quero toda hora. Sou insacivel. Sou igual ao Michael Douglas. GAMB o maior punheteiro, esse a. Quando no t no pornoshop, testando os consolos, fica de planto no banheiro dos cinema porn. Dia desses, eu estava afins de um programa cultural. A, ento eu fui assistir o Loira Arrombada 5. Uma puta atriz. Grande interpretao. Determinado momento, me senti na necessidade de me dirigir ao Vespasiano. L entrando, me deparei com o Wellington, que tava l. Ele no viu que era eu e tentou pegar no meu pau, n, maluco? ZERO Porra, Wellington. WELLINGTON Qual Spice ela ? JACAR No fao a menor idia. GAMB a Madonna, sua anta. WELLINGTON A Madonna agora entrou pras Spices? JACAR Os clipes realmente fazem muita falta.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 176(Black plate)176GORA LIVRE DRAMATURGIASWELLINGTON Primeiro, tiraram nossa esperana, vieram e foderam nossas mulheres, tiraram qualquer perspectiva de vida, de um emprego decente, de uma vida alvissareira. Agora, eles tiraram nossos videoclipes. JACAR Corja. MADONNA Mas vocs tm que entender que a MTV agora t com uma proposta educacional. ZERO Como que ? MADONNA . Alm de estar assim, mais auditrio, mais show mesmo, com mais participao da galera, entendem? Acho que a MTV devia recontratar a Adriane Galisteu e no esquecer de levar o Z Pedro, claro. Imprescindvel. ZERO Jacar, o que foi que eu falei? JACAR Porra, Zero, deixa a garota falar. Ela tem direito a se expressar. WELLINGTON Ele anda vendo muita MTV. GAMB Eu passava tardes inteiras com uma garrafa de Black Jack vendo ininterruptos clipes na MTV. Agora, eu ligo e t l o Marcos Mion. foda. JACAR A gente t perdendo o p da realidade.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 177(Black plate)177WELLINGTON Pode crer. J tem gente confundindo qualquer Spice Bosta com a Madonna. GAMB Vai me dizer que voc gosta da Madonna? JACAR Toda bicha gosta. Toda bicha chegada numa lesbo-feminista. WELLINGTON Bicha o caralho. Sou corno. Mas bicha, no. Alm de tudo, a Madonna a m ninfomanaca. GAMB S porque tu corno, no precisa ficar pegando no pau dos amigos. WELLINGTON Eu tava muito louco. ZERO Que que eu digo pra vocs? WELLINGTON, GAMB, JACAR e MADONNA No usa a porra da droga. Os trs olham feio para Madonna. MADONNA que aquela hora ele falou. A eu achei que... ah, eu no falo mais nada, deixa. ZERO No usa a porra da droga. Mas ningum me ouve. WELLINGTON (para Gamb) Mas, afinal, o que voc tem contra as bichas? Isso descriminao, hein?gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 178(Black plate)178GORA LIVRE DRAMATURGIASGAMB Eu no tenho nada contra as bichas, desde que elas no fiquem pegando no meu pau. ZERO Mas foi s uma vez. Esse fato isolado no transforma o Wellington num veado sem nenhuma classe. JACAR Eu ouvi direito? GAMB E como que voc chama um puto que fica pegando no pau dos amigos dentro do banheiro do cinema? ZERO Ele tava s experimentando uma nova possibilidade. WELLINGTON Eu tava era muito louco. ZERO A gente t um bando de vio saudosista. JACAR A gente vio pra cacete. A gente do tempo que passava clipe na MTV. MADONNA Vocs esto sendo atropelados pela modernidade implacvel. Os quatro no ligam a mnima para o comentrio dela. WELLINGTON Que horas so?gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 179(Black plate)179JACAR Mais de meia-noite. Por qu? WELLINGTON T na hora do Al Dente. MADONNA Voc tambm gosta, Wellington? WELLINGTON Sou amarrado. Ontem, passou um clipe do George Michael. JACAR Quer coisa mais Al Dente? ZERO Ok, Gamb, libera a mulher a, que a gente tem muito o que fazer. GAMB Ningum toca na Madonna. Daqui ela no sai. Ela minha. Eu a capturei. E ela vai ter que pagar por tudo. MADONNA Ai, moo, que obsesso. ZERO Ela no a Madonna. JACAR Como que voc pode ter tanta certeza? ZERO Bom... a Madonna mais... MADONNA V l o que c vai dizer. Eu t num pssimo dia.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 180(Black plate)180GORA LIVRE DRAMATURGIASZERO Mais... baixinha. MADONNA Isso , mesmo. WELLINGTON Silncio, porra. JACAR C vai mesmo ver essa merda? WELLINGTON Eu no perco um Al Dente. ZERO Wellington, a gente tem que trabalhar. Ei, pera a, no o Depeche Mode? WELLINGTON Pode crer. JACAR Eu gostava quando passava Beavis e Butt Head. GAMB South Park, maluco. JACAR Hoje em dia, neguinho se contenta vendo Depeche Mode. WELLINGTON Eu vi no site da MTV que vai passar um clipe dos Pet Shop Boys. ZERO C t brincando?gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 181(Black plate)181WELLINGTON Te juro. No demais? E vi tambm que vo gravar um MTV ao vivo da Ivete Sangalo. ZERO Caralho. Onde que c achou a Madonna, Gamb? GAMB Ah, eu peguei ela num sarau. MADONNA Eu tava fazendo uma performance. GAMB Tinha um bando de xarope no lugar. Abri caminho na cabeada. Acertei uns quatro clowns e uns cinco multimerda. ZERO Como que voc sabia que eles eram multimdia? GAMB Eles falaram. Eles diziam. Eles falam pra caralho. Eles tm o maior orgulho de ser o que eles so. Os caras so os m prego. Eles falavam assim: voc no vai passar. Ns somos multimdia. Ns cantamos, danamos, atuamos, nos beijamos, nos abraamos, nos amamos, fazemos uh-uh e participamos de reality show na tv. Eu no tive dvida. Desci a porrada. ZERO Mas, afinal, era uma performance da Madonna? MADONNA Porra nenhuma. Eu tava declamando um poema do Olavo Bilac. GAMB T vendo s? Eu no disse que a vaca era cheia dos subterfgios. Olha s a que ponto ela chegou.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 182(Black plate)182GORA LIVRE DRAMATURGIASWELLINGTON Na hora que passar os Pet Shop Boys, eu exijo silencio. ZERO, JACAR, GAMB e MADONNA Huuuummmmm!!! JACAR Wellington, eu vou no banheiro. T indo, hein? WELLINGTON Pega uma cerveja pra mim. ZERO Duas. GAMB Trs. MADONNA Quatro. GAMB, WELLINGTON e ZERO . MADONNA Mas ele disse que ia ao banheiro. ZERO Onde voc acha que a gente deixa o nosso frigobar? WELLINGTON No tem coisa melhor. MADONNA O qu?gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 183(Black plate)183WELLINGTON Cagar tomando cerveja. ZERO Rapaziada, no por nada, no, mas a clientela t esperando. WELLINGTON Zero, como que voc se sente comercializando drogas para uma juventude inocente? ZERO um trabalho como qualquer outro. WELLINGTON Eu vi uma campanha antidrogas na MTV. Confesso que fiquei muito tocado. Minha vida mudou. De agora em diante, eu no vendo mais drogas. ZERO Era s o que faltava. Esses corno, em vez de passar videoclipe, ficam querendo fazer utilidade pblica. JACAR (entrando com algumas cervejas) Eu comi a mulher do Wellington. GAMB Comeu mesmo. ZERO E o que que voc achou dela? JACAR Ah, nada de mais. WELLINGTON Nada de mais? A gente t falando da mesma mulher?gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 184(Black plate)184GORA LIVRE DRAMATURGIASJACAR um pouco espalhafatosa. do tipo que solta gritos primais, esmurra sua cara, d chave de boceta e o escambau. A, quando acaba o negcio todo, ela pergunta, fazendo cara de envergonhada: eu no fiz muito escndalo, fiz? ZERO Caralho. Ser que eu j no comi essa vagabunda? Vem c, Wellington, como que a sua mulher, assim, fisicamente? WELLINGTON Excepcional. Ei, Jacar, voc viu a campanha antidrogas da MTV? JACAR Eu vi. Desde o dia que eu vi aquilo, eu s t tomando Sukita. Eles so muito persuasivos. WELLINGTON Acho importante esse alerta. ZERO Wellington, quer parar de viadagem? A gente vende maconha, esse o nosso trabalho. JACAR A gente nunca consegue vender nada. A gente fuma tudo. WELLINGTON No mais o meu trabalho. E, no que depender de mim, tambm no ser mais o de ningum aqui. ZERO Como que ? MADONNA Muito bem. Gostei de ver. O Napo a um sujeito decidido.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 185(Black plate)185GAMB (para Madonna) Quer calar a boca? Ei, Wellington, eu vou te dar umas porrada, pra voc parar de ser to fresco. JACAR Vai comear o clipe dos Pet Shop Boys (canta um trechinho). WELLINGTON Agora eu quero silncio no recinto. ZERO Olha a contradio. Eles fazem campanha antidrogas e passam clipe dos Pet Shop Boys. (para Jacar) Jacar, me ajuda aqui. Gamb, solta essa mulher e vem me dar uma fora.GAMB Te contei que eu escrevi um troo muito louco ontem? C t ligado, n? ZERO T sabendo. Como que , rapaziada? A gente vai deixar a clientela na secura e ficar aqui vendo esses clipes de boiolagem? WELLINGTON Zero, me diga uma coisa. Em suas peripcias sexuais, voc tem se protegido de maneira adequada? ZERO (para os outros) Que porra ele t falando? JACAR Ele t querendo saber se voc usa camisinha quando trepa. ZERO Que merda voc tem a ver com isso?gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 186(Black plate)186GORA LIVRE DRAMATURGIASWELLINGTON Eu, como cidado cnscio do perigo que nossa gerao est vivendo, no s uso como tambm indago e procuro convencer os que me cercam da necessidade do uso do preservativo. ZERO Caralho!!! Foi a MTV que fez isso com voc tambm? WELLINGTON Sou f da Penlope Nova. Antes dela, eu era apenas um animal sexual. Agia apenas de acordo com meu instinto. Era selvagem e voraz. Hoje, sou apenas voraz. GAMB Rapaziada, o seguinte. Eu no sei quanto a vocs, mas eu vou encher o Wellington de porrada. Wellington sai de perto de Gamb. ZERO Porra. A gente tem que trabalhar. JACAR Acho que eu vou comer a mulher do Wellington de novo. WELLINGTON V se no usa o meu aparelho de barbear. JACAR O que c t falando? WELLINGTON Voc usou, que eu sei. Acho isso uma puta sacanagem. O sujeito comer a mulher do outro e ainda usar o aparelho de barbear do coitado do corno.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 187(Black plate)187ZERO Isso desumano, Jacar. GAMB Voc fez mesmo isso? JACAR Ah, qual o problema? Enquanto eles esto discutindo, Madonna sentou na poltrona em frente tv e est com o controle na mo. ZERO (gritando) A gente tem que trabalhar. Madonna muda de canal. Todos olham pra ela. MADONNA s vezes, na vida, a melhor alternativa mudar de canal. (pausa; todos ficam olhando) Se necessrio for, deve-se tomar at uma atitude ainda mais drstica como... desligar a tv. Ela desliga. Silncio. Alguns segundos. GAMB (para Zero) Olha o que eu escrevi ontem. A, . L pra rapaziada. Compartilha a minha sabedoria com os demais. (para Madonna) A, mina, se liga a que papo cabea. (para Wellington, que tenta ler o que est escrito no papel na mo de Zero) Porra, Wellington, sai fora. Deixa o Zero ler o bagulho a. No estrova. (Wellington se afasta um pouco) Vai, Zero, deschava. Deschava. ZERO (lendo) ramos todos Thunderbirds. Com nossa honestidade vagabunda. Com nossa santidade amaldioada. Com o nosso firme e desprezvel propsito de no chegar a lugar nenhum. Ns, que no acreditamos em nada, com nossos despertadores quebrados, nossas rotas de fuga interdidatas. Ns, que nogora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 188(Black plate)188GORA LIVRE DRAMATURGIASqueremos ser notcia, ns, que no merecemos crdito e no entramos na corrida dos ratos. Ns, que alimentamos nossas panas precoces e proeminentes. Vamos queimar em algum sol de alguma praia vagabunda. Ns e nossas erees secretas e silenciosas. Estamos procura de uma nova identidade. (silncio) GAMB Demais, hein? E a, mina? C sacou? MADONNA Mais ou menos. GAMB Do caralho. E a, rapaziada? ZERO Acho que melhor a gente tomar uma cerveja. JACAR Pode crer. Depois a gente podia ir todo mundo comer a mulher do Wellington. ZERO . Pode ser. WELLINGTON Eu tambm? JACAR Voc no, n, Wellington? Deixa de ser depravado. Quer comer a prpria mulher? Coisa mais nojenta. GAMB (dando um tapo em Wellington) Seu tarado.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 189(Black plate)189JACAR E a Madonna? GAMB Ela no a Madonna. JACAR Como que c pode ter tanta certeza? GAMB Ah. A Madonna mais... ZERO Baixinha. GAMB isso a. A Madonna a m pigmia. Vo saindo. JACAR Pode crer. Voc comia, Gamb? GAMB Quem? JACAR A Madonna. GAMB Ah, sei l. Acho que eu dava uns tapa naquela boceta. WELLINGTON Ela no faz muito o meu tipo, mas, como eu sou muito voraz, acho que at encarava, claro que com todos os cuidados necessrios. Afinal, a Madonna uma mulher muito volvel, dizem at que ela promiscua, no sei se vocs sabem.gora_07.qxd8/9/062:24 PMPage 190(Black plate)190GORA LIVRE DRAMATURGIASZERO Wellington, cala a boca. GAMB Eu vou te dar umas porrada. Madonna fica sozinha segurando o controle remoto. Liga a tv. Est passando o clipe de Like a Virgin. Ela assiste um pouquinho e at canta timidamente um trecho. Depois levanta e vai at a porta. Vira-se para a tv. Assiste mais um pouquinho. Aponta o controle remoto e muda de canal. Est passando o clipe do Kiss de Rock and Roll All night. Ela sorri e assiste um pouquinho. Depois se vira e vai embora danando. Msica fica tocando em volume alto.Mrio Bortolotto manh de ressaca de cerveja & churrasco (2001)gora_07.qxd8/9/062:25 PMPage 191(Black plate)191MRIO BORTOLOTTO escritor, dramaturgo, diretor de teatro e ator. Nascido em Londrina (PR), tem dois romances publicados: Bagana na chuva e Mame no Voltou do Supermercado, um livro de poesias (Para os Inocentes que Ficaram em Casa), um livro de textos de jornal (Gutemberg Blues) e quatro volumes com seus textos de teatro. Ganhou o Prmio Shell de Teatro como melhor autor de 2000 pelo texto Nossa Vida no Vale um Chevrolet, e Prmio APCA de 2000 pelo conjunto da obra. diretor do Grupo de Teatro Cemitrio de Automveis.gora_07.qxd8/9/062:25 PMPage 192(Black plate)gora_08.qxd8/10/061:49 PMPage 193(Black plate)COR DE CHdramaturga: Noemi Marinho debatedor: Francisco MedeirosMONTAGEM direo: interpretao: cenrio e figurino: trilha sonora: luz: produo executiva: Mrcia Abujamra Noemi Marinho Leopoldo Pacheco Aline Meyer Augusto Tiburtius Cris Bonnagora_08.qxd8/9/062:34 PMPage 194(Black plate)194GORA LIVRE DRAMATURGIASCOR DE CHNoemi Marinho Uma mulher, por volta de seus quarenta anos, urbana, espera em casa e se prepara enquanto espera. Urbana pe a mesa para um ch para dois.gora_08.qxd8/9/062:34 PMPage 195(Black plate)195URBANA (pegando a ala do bule) Arre! Tem dia que at coisa que no eltrica me d choque! , t bom assim. Um ch. Ch neutro. Caf muito informalzinho. Fica prosaico demais aquele negcio que no termina: aceita um cafezinho?, trabalho nenhum, s se j estiver feito, acabei de passar, acabei de tomar, s pr uma gua pra ferver, se no for incomodar..., eu j ia passar mesmo. J vai me dando vontade de botar umas moedas na mo da criatura que no me ajuda e despachar ela para um caf numa padaria bem longe. Ch melhor. A garrafa trmica com gua pelando de quente at a boca, o bule, a loua... tudo mo. Nenhum trabalho. Talvez eu no devesse ter posto tudo na mesa com antecedncia. Parece que eu estou recebendo para um ch. E para receber para um ch est muito mixuruca. Garrafa trmica, esses biscoitinhos maizena... Eu vou tirar os biscoitos. (tira o pratinho de biscoitos e contempla a composio) Acho que vou tirar tambm a outra xcara. Essa xcara vazia, sozinha, ao lado da outra com ch fica uma coisa muito triste. Se fosse um quadro iria se chamar A Ausncia. Ou Tarde de Solido. Pssimo, a xcara sai. (tira a xcara) Deixo s a minha. (analisa) Ficou bom, muito bom. E se fosse um quadro j iria se chamar Ch. No esconde nem revela nada, s significa. Uma coisa substantiva. Como eu. Ainda tem tempo. Parece que eu estou aflita, mas no estou, no. Estou respirando, ! E estou respirando at embaixo que eu no sou besta. Se ficar respirando s aqui em cima a maior bandeira de ansiedade.gora_08.qxd8/9/062:34 PMPage 196(Black plate)196GORA LIVRE DRAMATURGIASEstou sentindo o diafragma subir e descer, subir e descer. Prefiro essa barriga dilatada queles ombrinhos travados de gente ansiosa. Ansiosa e desinformada. Eu falava para soltar aqueles ombros, para no respirar s em cima. Voc acha que me ouvia? Claro que ningum acha que algum fosse me ouvir. Eles acham que tm a vida inteira para escangalhar que no tem problema. Eu tenho pra mim que isso piorou muito com aqueles joguinhos. Chega a me subir um calafrio quando ouo, em qualquer lugar, criana gritando Perdi uma vida! S tenho mais quatro!, Perdi outra vida! Merda! S tenho mais duas vidas!. uma coisa muito edificante mesmo! Toda aquela educao construtivista, aquela papagaiada de criana enquanto indivduo, de texturas e a criana se desenvolvendo e sendo avaliada. E sem a elementar noo de que a vida uma s! Se eu lembrar, quando eu morrer, minhas ltimas palavras sero: Merda! Perdi uma vida!. Fica aquela impresso de que eu sa jogando l do outro lado. Tomara que eu me lembre. Se bem que, se eu no sair desta vida dizendo Ufa!, j posso considerar que foi uma sada bem elegante. No verdade que eu fique pensando na morte. No acho que ela esteja to perto. Nem acredito que esteja to longe que no possa me ver de l. E essa distncia respeitosa tem construdo uma convivncia de boa vizinhana, sem muita intimidade e com bastante cerimnia. Eu no tenho nem cinqenta anos e tenho, j h muito tempo, umas coisas de gente velha. No digo manias que mania coisa para quem pode manter ou pra quem mantm quem ature. Coisa de velho que eu digo que eu tenho , por exemplo, pensar que secretria durante muito tempo no era a eletrnica. Secretria era uma escrivaninha. Quantas vezes, quando pequena, eu no ouvi: pega na secretria, guarda na secretria, deixa na secretria. E no eram recados numa memria, eram objetos num mvel. A secretria ainda existe. Est comigo. Ela fica no escritrio e s eu a chamo de secretria. Mais por teimosia, para no deixar ela se degenerar em escrivaninha, mesa de trabalho, mesinha, armrio, estante, troo. Traste. Essa volpia de quem chega de querer mudar o nome das coisas e das aes eu posso at entender, um pouco. um modo, um pouco selvagem, de dizer que aquilo deles. No s deles, mas mais deles agora que eles rebatizaram. Quando a coisa velha ganha com mais cor, com mais brilho, com mais humor, seu nome novo automaticamente resiste e fica. Geladeira! Geladeira gora_08.qxd8/9/062:34 PMPage 197(Black plate)197timo. Muito melhor do que refrigerador. A lngua tem que apanhar para aprender quem que manda. Manda quem fala, claro. Se bem que ela andou apanhando tanto que nem quem batia estava se entendendo mais. Quem bate agora, diga-se de passagem, no fala. Ao menos comigo, no fala. uma coisa absolutamente tipo-assim. Esses nossos novos estrangeiros parece que esto procurando uma palavra para completar um raciocnio. Completar exagero para comear um raciocnio. Mas no esto. J encontraram: tipo-assim. E por a ficam, como se tivessem inventado uma nova lngua do p. Eu queria-tipo-assim, comprar-tipo-assim, uma sandlia-tipo-assim ? ateno para a regra: tipo-assim vem sempre antes de verbo no infinitivo! ? pra tipo-assim-sair. Eu fico pensando se ele quer mesmo que eu entenda ou, como na lngua do p, ele est falando em cdigo justamente para eu no manjar. Mas, considerando que estamos s os dois, eu sei que ele deve ter inteno de se comunicar. Mais do que isso, ele tem o propsito de se profissionalizar, j que todos vo tipo-assim-fazer faculdade de tipo-assim-Comunicaes. No consigo imaginar os jornais, as tevs, as rdios, os teatros... No consigo. Nem tento. Eu, por acaso, fiz Comunicaes. Mas, no meu tempo... Merda! Falei! (comea a fazer abdominais) Vai pagar dez abdominais, burra! (paga as dez) Eles podem at me levar para um asilo, eu vou. A barriga pode estar solta, desarranjada, mas o abdome vai estar definido. Eu no sei precisar quando, mas o fato que aconteceu. Na rgua do tempo da histria, nasceu um grosso risco vermelho. Depois disso passou a haver o tempo deles e o meu tempo. Eu sei que no devo falar no meu... No falei! No falei! Mas continuo a imaginar esse trao vermelho. At aqui, daqui pra l. A primeira vez que um deles me chamou de histrica eu tive gana de abrir um atlas de anatomia, um livro de histria natural, quis dissecar um cadver e mostrar onde fica a histeria! Histeria nasce no tero! E eles estiveram l. Que a nica funo deste aqui foi salv-los, foi guard-los. Egora_08.qxd8/9/062:35 PMPage 198(Black plate)198GORA LIVRE DRAMATURGIASque se agora est causando distrbios porque alguma merda eles fizeram por l! Mas eles so eles e eu sou eu. (bate com os olhos na mesa e avalia) Estou achando que est faltando xcara. Vou pr mais uma. Ou duas. (pe trs xcaras) Eles esto gostando mais de portugus. Da lngua portuguesa. Talvez seja moda. J ouvi anncio de hambrguer ensinando concordncia nominal. Caguei. Ai! Esta merda de garrafa trmica est dando choque, mesmo! tero... eles no gostam de pensar nisso eu tambm no gostava , mas a nica coisa que justificou a sua existncia foram eles. Para que tero, ovrios, trompas de Falpio, anos de menstruao antes e depois deles? Parece to claro, to cristalino... (olhando o relgio de pulso) Ser que meu relgio parou? Que coisa mais antiga relgio parar, relgio atrasar, adiantar... Eles nem imaginam que a gente tinha que dar corda no relgio todo dia. Relgio bom tinha que ter uma coisa que eu nunca soube o que era: 17 rubis. Eles hoje tm que ter uma bateria. S. So de plstico, de ao e, agora sim, trabalham de graa e por conta prpria. A Rita Lee mais velha do que eu. E continua sendo. Todas as outras que eram mais velhas, hoje, no sei como, so mais novas do que eu. Bateram nos quarenta e no conseguiram ultrapassar. Ficam batendo e voltando. Batendo e voltando. No passam dos quarenta. A natureza no d ponto sem n. No foi toa que ela escolheu a frente da cabea para colocar os olhos. Porque assim a gente s v a prpria imagem por um ato de vontade. Se os olhos no fossem s dois? E se ficassem, por exemplo, nas mos? Seramos todos obrigados a nos ver o tempo todo e por todos os ngulos. Com o passar dos anos, eu possogora_08.qxd8/9/062:35 PMPage 199(Black plate)199garantir que isso no seria bom. Eu acho muito mais saudvel e ameno ter uma vaga noo do prprio rosto do que uma memria fiel e constantemente atualizada. Prefiro o choque espordico de entrar num daqueles elevadores com luz fria e branca, que vem de cima distribuindo sombras, e que reflete no espelho aquela figura assustada e travada que, h quem acredite, sou eu. No s na vida da Blanche du Bois que os espelhos se tornaram menores, as luzes, indiretas, os filtros, difusos. Isso no feng shui, no. Automaticamente vai acontecendo. Os prprios olhos comeam a pedir mais distncia deles mesmos para poderem se encarar em um reflexo. natural. A imagem que eu tenho de mim mesma ningum pode dizer que seja uma memria. Auto-imagem nunca foi auto-retrato. muito mais uma combinao feliz de fragmentos que me agradam. Ou que me agradaram um dia. E essa minha composio cubista s contrariada nesses malditos elevadores ou em algum inspito provador de roupa. Com a memria tambm assim. A memria no trai. Simplesmente a memria nunca teve nenhum compromisso com a realidade. No se armazena realidade na memria. Na memria a gente s guarda o que capaz de reconhecer. No posso guardar um dilogo em latim, no posso guardar lances de uma partida de beisebol. A minha memria um rgo de digesto de realidades. Uma vez a minha irm me disse que se eu resolvesse escrever as minhas memrias seria o primeiro caso de uma autobiografia no autorizada. Fomos criadas na mesma casa, na mesma poca, pelas mesmas pessoas e no temos nem a mesma histria e muito menos a mesma memria do que foram aqueles tempos. Comemos a mesma comida e o meu sangue e o dela contam duas vidas diversas. Alm de tudo somos mulheres. Homens usam os olhos como arremessadores de setas, tm o olhar focado. Eles olham o centro das coisas. Ns, no. Nosso olhar solto. Nossos olhos passeiam por tudo, lambem os cantinhos, passam sugando impresses. A gente no elimina o que no foco, como os homens. Em ns, tudo o que no foco significa o foco. Eu sei que sou bem assim e vivo com medo de me perder. O mundo cheio de focos que tm que ser bem focadinhos para que ele funcione. Tenho medo de perder o tal foco. Tenho medo, s vezes, de nem saber qual o tal do foco. para me ancorar que eu escrevo, eu anoto, eu fao tantas listas, tantos bilhetes. E nunca jogo fora. Quem sabe algum, algumgora_08.qxd8/9/062:35 PMPage 200(Black plate)200GORA LIVRE DRAMATURGIASdia, me pea um comprovante material da minha realidade? E vou ter l, bem guardado na secretria, um papelinho velho qualquer provando que tudo real. No prtico ser mulher. Sei que necessrio, no discuto, bonito. E tambm tarde demais para trocar um dos dois X que recebi por um determinante cromossoma Y. Mas prtico, definitivamente, no . Ter que viver com a minha memria aleatria, com meu olhar sem foco, com meus alucingenos hormnios e ter todo ano que fazer declarao para o imposto de renda? Quem pode acreditar nesse personagem? O leo? A Receita Federal? Eu no acredito que eles tenham esse tipo de conflito. Ser homem, ser mulher... eles so eles! Ser eles mais que tudo. Tem sido assim e deve ser bom que seja assim. Eles se sabem imortais. Sabem que ns somos os mortais, e que muito provavelmente eles vo ter que nos ver morrer. Natural que eles tenham que se acreditar imortais para que a roda gire. Eu j comeo a poder ter medo de ser alcanada por alguma doena degenerativa. A Terra, que a Terra, nunca antes hospedou tantos micrbios quanto agora. Nem ela se acostumou idia de nos carregar por tanto tempo. Eu me coloco no lugar dela e fico pensando: Os que j viveram no vo mais parar de viver? Vo ficar vivendo mais e mais, cada vez mais? Vamos, sim! Ah, dona Terra, aqui na superfcie tudo se renova, se recicla. No estou falando de papel, de vidro, de latinhas que isso eu me cansei de separar para depois saber que eles juntavam tudo de novo e jogavam no lixo. O que se recicla aqui so as relaes. Os maridos, as mulheres, as mulheres dos maridos, os maridos das mulheres dos maridos. Pois eu no tenho um sobrinho que tem irms que no so minhas sobrinhas e que, por sua vez, tm irms que no so nem meias-irms do meu sobrinho? Parece mais uma daquelas charadas quem sou eu?, daquelas bem antigas. No fundo a gente sabia que esta rede estava se armando. J saber se bom ou se ruim eu no preciso saber agora. Talvez eu nem v saber ao certo. Mas sei que dei minha contribuio involuntria e agora no h mais nada a fazer. Se bem que a esta altura meus recentes relacionamentos e eu mesma j somos puro reaproveitamento de material orgnico. Todos j tivemos um casamento aqui, outro ali, um filho aqui, outro l.gora_08.qxd8/9/062:35 PMPage 201(Black plate)201No foi a gente que inventou a produo, a reproduo independente? Esse modelo novo era para ser uma coisa simplesinha e acabou sobrando me, sobrando filho, sobrando pai, sobrando irmo. Tudo assim meio solto e com um pouquinho de raiva. Raiva de se chamar Brisa do Brasil, raiva de a filha querer casar virgem e morar em Miami com a famlia do pai que nunca deu bola para ela, raiva da mulher do pai que no contava com uma enteada mais velha do que ela. Raivas variadas. Essas raivas, pelo menos, ns no vamos mais provocar. So raivas fisicamente improvveis de se repetirem. Eu no sei o que eles queriam, mas estou certa de que decepcionamos a todos. Com boa inteno? Tenho certeza de que eram as melhores. Eles, por acaso, nos seguem, nos tm como modelos? Que esperana! Eles nos negam no com um novo modelo ativo, mas com um trao. Com uma tarja onde se pode ler bem claro: EXPERINCIA REPROVADA - NO REPRODUZIR. Ser que algum de ns entende perfeitamente o que se passa conosco? Ns deveramos ser como aqueles macacos da experincia em que todos tentam resolver um problema e, no instante em que um deles consegue, automaticamente, todos os outros aprendem a mesma soluo. Ns, humanos maduros, ficamos cada um em sua clula tentando tirar os vus desse mistrio que o que se passou, o que o que est se passando. Eu me pergunto se assim mesmo. Se, de fato, existe mais algum embatucado nessas tramas. Eu fui vivendo e fui tecendo uma trama que eu no via. Nesse tecido, que eu ainda no vejo, fui puxando um pouco a trama, um pouco a urdidura sem um desenho conhecido para reproduzir. Essa tapearia tem pontos irregulares. Regies de pontos apertados, regies to esgaradas que se pode ver o outro lado. Tapete e tapeceira so uma e a mesma coisa: eu mesma, minha vida e minha obra. No h distncia suficiente para poder contemplar o resultado. No posso me afastar porque no h mais fio que nos una e jamais nos reencontraramos. Eu poderia cometer o erro fatal de acreditar que qualquer outra tapearia fosse a minha, e ento a minha verdadeira vida e o meu trabalho em viv-la estariam perdidos. E talvez eu nunca viesse a descobrir esse engano. Passei a vida ento apalpando, retorcendo, alisando, querendo adivinhar o sentido do que foi feito. No o da poca em que foi feito. Procurogora_08.qxd8/9/062:35 PMPage 202(Black plate)202GORA LIVRE DRAMATURGIASsentido hoje naquilo que foi feito h tanto tempo com tanta inteno e que eu no lembro. Reconheo em mim no mnimo duas: a que preparou este futuro e a que se intriga com o presente que recebe. Enquanto eu ainda me encantar com os pontos, enquanto eu ainda suspeitar de algum desenho que possa se completar, eu saberei: est confirmado, eu estou viva. E indispensvel estar viva e com boa aparncia para poder entrar em um shopping e numa s manh poder tocar toda a infinidade de texturas que existe no meu planeta. E quem sabe, com sorte, pressentir mais um pequeno trecho de desenho. Eles, claro, figuram no meu tapete. Eu no cheguei a desejar ardentemente ser o grande medalho central no deles, mas, bem l dentro, eu tenho muita vontade de ter um destaque, sei l. Estar numa cena engraada, ser uma cor que briga, ser uma pincelada de cor de ch num fundo escuro. Como eu tambm tenho vontade de que eles descubram logo que a vida uma e s uma tapearia. Mas esses so desejos muito secretos. E, como prprio da natureza dos desejos nunca se saciarem, no h nada que eu possa fazer. (som de campainha de telefone; Urbana responde sem usar nenhum aparelho) Pronto! ... Ela no vai subir? ... Eles esto com pressa, ? ... , a esta hora no tem mesmo como parar. ... J estou indo. (som de telefone desligando; Urbana se ajeita, confere a ordem da casa, da mesa)gora_08.qxd8/9/062:35 PMPage 203(Black plate)203URBANA (para a platia) Eles tm pressa. (Urbana pega a garrafa trmica e fica com ela junto ao corpo; vai saindo do palco em direo sada para a rua) a minha carona... a ltima... . B.O. PANONoemi Marinho inverno de 2001gora_08.qxd8/9/062:35 PMPage 204(Black plate)204GORA LIVRE DRAMATURGIASNOEMI MARINHO atriz, dramaturga e diretora teatral. Esto entre suas mais recentes atuaes em teatro, cinema e televiso: Cor de Ch, de sua autoria, direo de Mrcia Abujamra (2001); Quanto Vale ou Por Quilo?, de Sergio Bianchi; Caiu o Ministrio, de Frana Jnior, adaptao de Atlio Bari, direo de Emlio de Biasi, programa Senta que L Vem Comdia, da TV Cultura (2005). Recebeu os prmios APCA, categoria atriz revelao (1978), espetculo O Segredo do Velho Mundo, direo de Iacov Hillel; e Mambembe, categoria melhor atriz (1988), espetculo Risco e Paixo, direo de Francisco Medeiros. Dirigiu os espetculos Apareceu a Margarida, monlogo de Roberto Athayde (2000); Os Reis do Improviso, comdia musical de Jandira Martini e Marcos Caruso (1997); Corte Fatal, de Paul Portener, temporada no Auditorium Casino Estoril - Cascais, Portugal (1995), entre outros. Em televiso, realizou diversos trabalhos como dramaturga: Seus Olhos, telenovela em co-autoria com Ecila Pedrosa, direo geral de Henrique Martins, SBT (2004); os programas semanais de humor Balacobaco, direo de Rodrigo Ricc, Rede Record (2001), Brava Gente, direo de Roberto Talma, SBT (1996); Sai de Baixo, direo de Daniel Filho, Rede Globo (1996); Dorothy Veiga, colaborao nos quadros para Regina Duarte, programa Fantstico, Rede Globo (1995); Era Uma Vez Zil, adaptao para a televiso de Homeless, episdio da srie Retratos de Mulher, direo de Del Rangel, Rede Globo (1994); Revistinha, programa juvenil dirio, TV Cultura (1989). autora de textos teatrais como Almanaque Brasil, cujo espetculo contou com sua direo (1993); Solteira, Casada, Viva, Divorciada, episdio Solteira, direo de Marcelo Saback (1992) e Marcelo Arajo (1995); Homeless, direo de Francisco Medeiros (1989), vencedora do prmio Shell de melhor autor (1991); Fulaninha & Dona Coisa (1988), prmio APETESP de autor revelao.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 205(Black plate)O MUNDO UM MOINHOdramaturgo: Fauzi Arap debatedores: Aimar Labaki e Gianni RattoLEITURA DRAMTICA direo: Tunica Teixeira atores convidados: Cristina Rocha, Nelson Baskerville, Nilton Bicudo, Rita Elmr e Valter Portela trilha sonora: Aline Meyer luz: Laura Figueredogora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 206(Black plate)206GORA LIVRE DRAMATURGIASO MUNDO UM MOINHOum ato de Arap ...o mundo um moinho vai triturar teus sonhos to mesquinhos, vai reduzir as iluses a p. CartolaPERSONAGEM RUBENS LUS VERA LILINHA RODOLFOvelho autor beirando os setenta anos de idade jovem aspirante a ator, recm-formado atriz batalhadora, do grupo de Lus atriz sonhadora e mstica ator bonito, tambm do grupoCENRIOS Sala do pequeno apartamento de Rubens, no centro velho de So Paulo. Muitos papis e pastas espalhados revelam que ali mora um homem s. No canto direito, o escritrio da casa de Vera, onde os atores do grupo se renem.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 207(Black plate)207CENA 1 LUS (de p, junto da porta) O senhor no vai me testar? RUBENS No, no precisa. Pode comear amanh, se puder. LUS Posso, claro. Se bem que eu achei... Disseram que o senhor queria me conhecer. RUBENS Eles entenderam mal. Eu s queria dar uma olhada, ver a cara de quem vai mexer nos meus papis. Est muito bem, est tudo bem. Amanh. LUS E eu comeo por onde? RUBENS (impaciente) Qualquer coisa, qualquer coisa est bom. Pergunta l na Secretaria. No so eles que vo te pagar? LUS Mas eles disseram que depende do senhor. No explicaram nada. RUBENS Esse negcio de memrias e organizar meus arquivos no passa de pretexto! Eles s precisam de uma desculpa pra justificar os gastos comigo! Qualquer coisa serve! A verdade que esto com medo que eu morra e resolveram me ajudar. So velhos amigos e devem achar que eu no vou durar muito. Quero s ver a cara deles, se demorar mais do que eles pensam.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 208(Black plate)208GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS O senhor est enganado, ningum est pensando nisso, de jeito nenhum! Ningum falou nada de morte, imagina! O senhor est timo, no est? (o outro no responde) E o interesse existe porque o senhor faz parte da histria da cultura, da cidade, do pas. E pra isso que servem as Secretarias de Cultura! RUBENS Papo furado. Eles sabem que essas anotaes so pessoais e, mesmo que tenham servido pra mim, no passado, no so teis pra mais ningum! E eu s aceitei porque preciso do dinheiro. LUS Bom, claro. Ningum trabalha de graa. RUBENS Voc acha que trabalho? Deixar algum vir aqui fuar meus papis, voc acha que isso algum tipo de trabalho? LUS Bom, quer dizer... O trabalho j est feito. RUBENS Responde, o que que voc acha disso? LUS No sei. Disso, o qu? RUBENS Mesmo que fosse trabalho, disso! Do dinheiro, trabalhar por dinheiro. LUS No sei, no tou entendendo. Todo mundo no trabalha por dinheiro? RUBENS O que que voc faz na vida? Sua profisso? Qual ?gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 209(Black plate)209LUS Eu sou ator. RUBENS (surpreso) Ator, como? E o que que voc veio fazer aqui? LUS Por que a surpresa? RUBENS Porque, pra mim, ator representa, ensaia e participa de espetculos. Pelo menos, no meu tempo, era assim. Voc est desempregado? LUS No. Quer dizer, eu tenho esse emprego. Seja como for, um privilgio poder estar aqui, com o senhor! RUBENS Privilgio, ora! Privilgio por qu? Quantos anos o senhor tem? Eu tenho certeza de que o senhor no sabe coisa nenhuma sobre nada do que eu fiz! LUS Como no? RUBENS O senhor no era nem nascido quando eu comecei. LUS Mas o que que tem? Eu adoro teatro, tudo que eu mais gosto e eu sei que o senhor tem muito pra ensinar. claro que nunca vi um espetculo seu, mas eu vi as fotos, li artigos. RUBENS Ento, no conhece!gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 210(Black plate)210GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS a primeira vez que eu vou fazer um trabalho assim, mas eu aprendo rpido. RUBENS A primeira vez? Ento, tambm no tem experincia? LUS Se o senhor me ajudar a levantar o material, eu tenho certeza de dou conta do recado. claro que eu estou contando com o senhor! RUBENS Pode tirar o cavalo da chuva. Contando comigo, por qu? Voc est aqui pra organizar um arquivo, certo? E vai lidar com papis. Eu espero que o nosso convvio seja o mnimo possvel. Se voc no sabe como fazer, vai ter que se virar. LUS Mas por que tudo isso? RUBENS Ora, por qu. Eu no quero ser incomodado, eu disse pra eles! E s aceitei porque me garantiram que eu no teria nem que olhar pra quem viesse aqui. LUS Mas eu tenho um prazo. RUBENS E eu com isso? LUS O senhor no pode ao menos me dar uma dica? RUBENS Dica? Que tipo de dica?gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 211(Black plate)211LUS Sei l. Por onde comear? RUBENS Eu tenho muita coisa escrita e solta, no vai faltar material! Isto aqui est um caos, voc no est vendo? Comea com qualquer coisa. Aquele monte de pastas, que tal? Espero que no seja enfadonho, para um candidato a ator. (o rapaz comea a fuar) Ah, nessas gavetas, no! S tem coisa pessoal. LUS Ento, est vendo? melhor o senhor me mostrar. RUBENS Desculpa, mas eu no suporto nem a idia de ter que olhar pra isso de novo. Pra mim, tudo matria morta. Eu prefiro que voc faa como quiser. s no mexer nas gavetas. a eles que o senhor vai ter que prestar contas, no a mim. LUS (surpreso) O senhor no tem computador, certo?! RUBENS E o que que tem? LUS Posso levar o material pra digitar? RUBENS Digitar? Aqui em baixo tem uma papelaria, que tal xerocar? LUS E fotos, o senhor tem? RUBENS Poucas. Voc no vai precisar vir todos os dias, vai?gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 212(Black plate)212GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS No, acho que no. A que horas mais confortvel pro senhor? Eu vou tentar incomodar o mnimo possvel. RUBENS Voc no acha que, pruma primeira visita, j est bom? Esses papis no servem pra nada, no queira se enganar. (aponta os papis) Eles no tm mais nada a ver! E eu s aceitei pelo dinheiro, como voc. E, por hoje, no quero perder mais tempo. Tudo bem. Pelo dinheiro. Uma vez por semana. T bem? CENA 2 RUBENS Pensei que tivesse desistido. Voc sumiu. LUS No, de jeito nenhum. Foi uma gripe. RUBENS Voc no bom mentiroso. LUS Imagina! Pra que que eu ia...? (confessa) Foi um teste que eu tive que fazer, no deu pra avisar. Eu at pensei em ligar, mas no quis incomodar. RUBENS Teste? Que tipo de teste? LUS Comercial. RUBENS (com cara de nojo) Comercial? De televiso? E eles pagam por isso? LUS Quase nada, um bico. Mas, pra quem vive duro...gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 213(Black plate)213RUBENS Bico? Mais um? Hoje em dia, ator s vive de bico? LUS Acho que a coisa mais complicada do que no seu tempo. Eu fiz escola de teatro, direitinho, me formei, mas no tem emprego pra todo mundo. Ento, a maioria vive de dublagem, d aula, faz comercial, todo mundo se vira. E o sujeito deixa um book na agncia, na esperana de ser escolhido pra alguma coisa. Se tiver sorte, arranja um comercial e sobrevive um pouco melhor, algumas semanas. (pausa) Por que o senhor no valoriza a pesquisa que vou fazer aqui, com o senhor? RUBENS (hesita) Porque uma mentira, ningum precisa dela. LUS Como no? E se o senhor tivesse morrido? RUBENS (rpido) No disse que eles esto esperando que eu morra? LUS No isso, todo mundo morre um dia... E se algum quisesse estudar sua obra!? RUBENS Voc acha que algum ainda tem tempo pra ler? Com essa correria desatada atrs de dinheiro? Inda mais uma pesquisa!? E essa coisa de obra, eu no entendo o que . (sai para a cozinha) LUS (enquanto examina o que j digitou, grita) Alguns papis esto datados e outros, no. RUBENS (responde de fora) O destino deles era a lata de lixo. (volta pra cena) E as idias, as boas idias, independem do contexto histrico. Pra que datar?gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 214(Black plate)214GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS Mas claro que importante! As datas situam o leitor. RUBENS As melhores idias vm sempre do nada, de repente, num raio! O dia e a hora no tm importncia nenhuma. Talvez a nica coisa que importe seja a verdade. LUS Que verdade? RUBENS Verdade. S existe um tipo de verdade. Quando voc se entrega e confia no outro e fala a verdade. Voc, desde que chegou, est tentando me enrolar. LUS Eu? RUBENS O que que voc est querendo? LUS Nada. S fazer meu trabalho. Eles querem um depoimento ordenado, que sirva de base para o livro. RUBENS Depoimento, que depoimento? Deixa ver se eu entendi, eles querem publicar? Como se fosse um depoimento? LUS Mas, e se publicarem, que que tem? RUBENS Voc no acha que muita pretenso sua achar que pode escrever minhas memrias, um ator que nem empregado est? Ora, ora!gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 215(Black plate)215LUS As memrias so suas, eu no vou ter nada a ver com isso. RUBENS Faz tempo que eu perdi a memria. Eu vou telefonar j pro Secretrio e suspender esse negcio. LUS Mas o que que tem de mais? (hesita) Eu no estava enrolando, eu s estava aguardando o momento certo pra falar. Eles pediram que eu perguntasse se o senhor no teria interesse em... RUBENS No tenho. Nenhum interesse, em nada. H muito tempo que eu no tenho interesse em coisa nenhuma. Mas eu vou ligar j e acabar com essa palhaada. LUS Por favor, no! (pausa) Tudo bem. A idia foi minha. Eles no tocaram nesse assunto, de jeito nenhum. A idia foi minha! RUBENS Eu acho melhor o senhor procurar outro emprego, outro bico. Eu no posso conviver com algum que mente desse jeito, pra se aproveitar. LUS No, por favor! O senhor compreendeu mal. Eu estou encantado com o que li, e acho um desperdcio que as pessoas no possam ter acesso a isso tudo. (pausa) Eu preciso deste emprego. (pausa) O senhor no acha importante deixar, quem sabe, uma herana, um testamento? RUBENS Eu no entendo sua cara-de-pau. Testamento, por qu? Eu ainda no estou morto, e nem pretendo morrer to j. Esse o ponto: todos me tratam como se eu j tivesse morrido.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 216(Black plate)216GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS Desculpa, eu no quis dizer que... RUBENS (enquanto disca) Eu sabia que no ia funcionar. Eu nunca soube conviver com esse tipo de trabalho corrupto, onde as coisas so acertadas na base do favor, pra favorecer um amigo. No podia mesmo dar certo. LUS Corrupto, por qu? RUBENS Tudo o que se faz hoje em dia em nome do dinheiro ou em nome do passado. Eu no vejo ningum fazer nada em nome do futuro. (termina a ligao) Est ocupado. O que que eles fazem naquela Secretaria, que no largam do telefone, o dia inteiro? LUS Eu j me desculpei, ser que to difcil entender? No foi por mal. (o outro vai e abre a porta) Tudo bem, eu tambm no vou morrer por causa disso. O senhor faa como quiser. Desiste, pega todos estes papis e enfia! RUBENS Que bom, desistiu do papel de bonzinho? J um comeo. LUS Quem o senhor pensa que ? Eu nunca vi tamanha arrogncia. Enfiado aqui, neste apartamento, trancado e tratando todos e tudo com um mau humor e uma condescendncia, como se fosse o dono da verdade! Tudo tem um limite. No me interessa se foram seus amigos que resolveram bancar esse estudo. O senhor deveria agradecer! RUBENS Ento, estamos conversados. Pode ir, eu no estou interessado na sua opinio!gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 217(Black plate)217LUS O senhor pensa que fcil no ter trabalho e ser obrigado a viver de bico? RUBENS (irnico) Por que que o senhor no faz televiso? Novelas? Vai fundo. LUS Quem me dera! Mas no fcil. O senhor acha que eu no faria, se fosse convidado? E o senhor devia dar graas a Deus por ter amigos e no precisar ir prum asilo! De onde vem essa pretenso? E o senhor, por que no trabalha? Se t to lcido, no t doente, e nem vai morrer, por qu? V luta, ento! Trabalha. Por que o senhor no tenta? RUBENS Ah, confessou? Agora voc confessou! por dinheiro, apenas por dinheiro que voc est aqui. No respeita meu trabalho coisa nenhuma! Nem conhece, nem respeita! LUS Respeito, claro que respeito! O senhor quem no respeita o meu! Isso aqui um servio digno, importante, que pode ajudar muita gente! Ningum tem a obrigao de conhecer o que o senhor deixa escondido a sete chaves! O senhor vive escondido, como um ermito, e h quinze anos no produz, no se manifesta. Eu at pensei que o senhor fosse mais velho do que . Por que o senhor nunca mais escreveu coisa alguma, se despreza tanto o que j fez? RUBENS Quem disse que eu nunca mais escrevi? E quem disse que eu desprezo...? Ningum est interessado! Por isso. Ningum! LUS Eu estou. Eu no estou aqui! RUBENS O teatro de hoje uma mentira! No existe, no existe mais teatro. Ningum sabe mais o que est fazendo. No existe mais ideal, nem pesquisa.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 218(Black plate)218GORA LIVRE DRAMATURGIASComo que se pode fazer teatro, sem nem conhecer quem est do seu lado? O teatro profissional no passa de putaria, se voc quer saber. Um bando de gente que se rene pra fazer uma pea porque d prestgio, pra ocupar o tempo, enquanto a televiso no chama de novo! Isso que se faz nunca foi teatro. No existem mais grupos. LUS Como no? Existem vrios! O senhor que est por fora. H quanto tempo o senhor no sai, no vai ver um espetculo? O senhor vive aqui, fechado numa ilha de preconceito, e imagina estar acima de tudo e de todos. Qual ? Isso uma doena, a pior doena. O senhor parou no tempo. (ameaa sair) RUBENS Talvez, talvez eu tenha parado. Mas o que o senhor chama de grupo com certeza depende do governo, ou da Secretaria, pra sobreviver! Duvido que eles no vivam correndo atrs de patrocnio, esmolando apoios, pra poder fazer a arte idealista que escolheram fazer. Mas, pra fazer teatro hoje em dia, preciso se vender! Isso no ser livre. No existe mais ideologia nenhuma a no ser o dinheiro. LUS O senhor est por fora. Existem grupos que so criticados porque at parecem aqueles dos anos sessenta. E o senhor no conhece. RUBENS Conheo, sim, so os piores. Porque acreditam nessa conversa mole que chamam de Histria! Na mentira da Histria! Ser que eles no percebem que a Histria que contada mentirosa? Eles s copiam a forma do que foi feito, no existe vida no que eles fazem. Parece um prato requentado, no existe vida, no! At os grupos comeam seus projetos com algum fazendo contas para ver se lucrativo, se vivel, e tomando todo tipo de compromisso com a realidade, pra no correr risco nenhum! Mas isso tira a liberdade de alma pra pensar. Ningum mais pensa, essa que a verdade. As pessoas querem consumir, consumir tudo: margarina, sexo, at a histria, o passado, a cultura embalsamada do passado, mas pensar, que bom, indigesto.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 219(Black plate)219LUS Eu quero que o senhor saiba que eu no vim s pelo dinheiro, no! Eles inventaram esse projeto por sua causa, o senhor quem est precisando! Por mim, eu poderia fazer outro trabalho qualquer! Mas o senhor quem manda. Tudo bem, eu vou andando. (vai at a porta) Desculpa qualquer coisa. RUBENS (chocado) Quem disse que eu tou precisando? LUS Desculpa, eu no deveria ter... ter dito uma coisa dessas. RUBENS Essas esmolas que do cultura so pra simular que est tudo bem. Eu tenho vergonha, o senhor est me entendendo? Eu tenho vergonha de depender desse dinheiro! Durante anos, me deixaram margem, definhando, sem resposta, sem apoio, sem coisa nenhuma, e de repente me redescobriram. Por qu? LUS Mas assim que o mundo funciona! RUBENS Eu sei, mas eu tenho vergonha de fazer parte disso! No meu tempo, eu tinha a iluso de que meu trabalho importava. Mas acabou, meu tempo passou e eu perdi todas as batalhas! Porque o mundo no mudou, nada mudou, nem vai mudar! E no foi a ditadura, nem a falta de dinheiro que acabou comigo. que eu mesmo no acredito. Eu no consigo mais acreditar em nada. Meus amigos morreram, e eu no tenho mais com quem falar, e eu tambm morri um pouco, com cada um deles. Acho que eu no passo de um morto-vivo, se o senhor quer saber! LUS O secretrio seu amigo; s quer ajudar. E a idia de fazer um livro eu s tive porque eu estou encantado com o que eu li. Sinceramente.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 220(Black plate)220GORA LIVRE DRAMATURGIASRUBENS No amigo, nunca foi. Sempre foi meu adversrio, se que o senhor me entende! Nossas idias nunca bateram. E agora eu aprendi com ele a palavra mgica - visibilidade. Eu quero te ajudar, mas voc precisa dar umas entrevistas, pra que eu possa... Talvez o senhor no tenha conscincia, mas at mesmo o senhor s se lembrou de mim por causa dos jornais. A matria que saiu, foi ele que arrumou. E foi s por isso que, de repente, eu renasci. O artifcio colou. Capa do segundo caderno, fotos e... milagre! Funcionou! Adoraram porque falei mal de tudo. Eles adoram quem fala mal. Quando algum esculhamba com o que existe, est prestando um favor a quem no quer se comprometer. LUS Mas ele quer ajudar. No sei se seu amigo, mas como se fosse. RUBENS No amigo, sempre poltico, sempre viveu pro sucesso e nunca mediu as conseqncias para ter as rdeas na mo. E, agora que tudo passou e ele venceu, quer mostrar que o poder magnnimo. Ns dois j estamos velhos, e s por isso que ele pode ter a elegncia de querer me ajudar. Existem verdades impronunciveis, que s os mais velhos conhecem. Ele deve sentir pena da minha teimosia, s isso. caridade, no amizade. Porque eu no conto mais. Fica subentendido que eu sempre estive errado. LUS No pode ser! Eu sei que ele admira o senhor! RUBENS Tanto faz, no tem mais importncia. Est tudo podre! Eu estou podre, voc tambm est! Voc no v? No sou eu quem est morrendo, um tempo que est acabando. Eu sou o ltimo estertor. Ele resolveu homenagear a agonia de tudo em que ele tambm um dia acreditou. Ns sonhvamos com um teatro para o povo. Engraado. Para o povo! Nunca conseguimos chegar nem na classe mdia, quanto mais no povo. E quem pode ir ao teatro, hoje em dia? Com tanta gente nas ruas, pedindo, bebendo, morando, morrendo nas ruas, que importncia pode ter o teatro pra essa gente? Com sorte, o que eles podem ver televiso, e olhe l! O teatro sempre foi feito pra uma elite, pra burguesia,gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 221(Black plate)221e fazer um teatro popular nunca passou de um sonho. Uma iluso, como as outras. (pausa) Pode ficar vontade, pode ir, no liga pro que eu disse. Eu sei que deve ser difcil sobreviver no mundo do jeito que est. Eu no quero te cansar. LUS O senhor no quer mesmo, ento? (o outro no responde) T bem, eu vou andando. CENA 3 RUBENS De novo? Eu pensei que ns tnhamos resolvido. O que foi agora? LUS Eles vo mandar outra pessoa, eu s vim me despedir. Eu me demiti, tou fora da Secretaria. RUBENS No sei por que essa mania de mentir e fantasiar. Deve ter sido porque eu liguei e disse que no queria. claro que foram eles... LUS No, fui eu que pedi pra sair. O senhor tem fama de difcil, eles nem ligaram. Me ofereceram um outro servio. Mas eu no aceitei. (o outro hesita) Posso entrar? RUBENS Eu estou ocupado. LUS Eu trouxe o material que ficou comigo. Um pouco s. No custa me receber. Eu no vou ganhar nada com esta visita. Eu s quero falar com o senhor. (o outro abre) RUBENS Quer um caf?gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 222(Black plate)222GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS No, obrigado. (Rubens sai, Lus fica) o senhor mesmo quem faz? RUBENS E o almoo, tambm. bom mexer na cozinha e trabalhar com as mos, me ajuda a descansar. S tem uma faxineira, que vem duas vezes por semana. LUS Tem um texto onde o senhor diz que a vida verdadeira no cabe nos arquivos de um computador e que o que importa realmente s transfervel pelo convvio vivo entre as pessoas. Mais ou menos isso! Depois da ltima visita, eu no consegui parar de pensar nisso. (Rubens volta com uma bandeja e caf) O senhor sempre viveu sozinho? Me disseram que o senhor foi casado. RUBENS H muitos anos. LUS Uma atriz? RUBENS Era. Uma atriz. Especial. LUS Disseram que ela... RUBENS Desapareceu. LUS Morreu? RUBENS Pra mim, continua viva.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 223(Black plate)223LUS Na sua memria ou...? RUBENS Acar? LUS Adoante. RUBENS Adoante no tem. LUS Acar, tudo bem. Eu... Eu posso...? Eu gostaria de poder continuar a vir aqui. RUBENS Pra qu? LUS No sei. Pra aprender. RUBENS Mas e seus compromissos, seus testes? Voc no tem tempo, tem que ganhar a vida. LUS No, de jeito nenhum, no problema. Eu descobri que ando fazendo tudo errado. No foi pra isso que eu quis estudar teatro. O senhor est coberto de razo, eu acho que eu entendi. Pra sobreviver, eu andei sacrificando o essencial, e eu quero comear tudo de novo. RUBENS O senhor est querendo me agradar?gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 224(Black plate)224GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS No, quer dizer... Eu nem sei. Eu quero crescer e acho que o senhor, aqui, margem, parece que o senhor no est contaminado por uma espcie de febre, de correria... Pelo esprito desse tempo. Por mais difcil que seja, eu quero tentar. (pequena pausa) O senhor aceita? RUBENS Eu no sei o que pensar. O que que o senhor quer de mim? LUS Eu fao parte de um grupo, e a gente anda em crise. Eu contei pro pessoal do senhor, e os olhos deles brilharam. Eles pediram pra ver se o senhor aceita uma turma de alunos. RUBENS Eu no suporto dar aula, menino. (hesita) Quantos so? LUS So quatro, comigo. O ncleo mesmo so quatro. RUBENS (ri) Quer saber? Eu no vou abrir mo do dinheiro da Secretaria. Eu continuo duro e no foi nada fcil conseguir. Tive at que me internar. Eles devem ter te contado. Antes, eu cansava de ligar e ningum me atendia. A, eu tive essa idia. Tomei os ltimos comprimidos que eu tinha e me internei. Eles falaram em suicdio, mas no foi nada disso. Foi puro teatro! Fiquei no hospital uma semana. Pra repousar. E eu precisava comer. Eu sabia que algum jornalista bobo ia descobrir e dar uma notinha, nem que fosse na pgina policial! melhor eu ligar pra eles, antes que me mandem outro chato. Vou dizer que fico com voc! LUS Mas eu no quero mais o emprego, eles j deram baixa, eu no posso mais voltar. Vo ficar loucos comigo. RUBENS Que nada, vo achar normal, deixa comigo. Burocracia a praia deles, gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 225(Black plate)225tudo o que eles tm. E vo me achar louco do mesmo jeito. Voc continua. No custa ajudar o governo a patrocinar uma pesquisa verdadeira. S que aqui muito pequeno, no vai caber todo mundo. CENA 4 VERA O projeto no era esse, Lus. Voc pirou!? A gente gastou um tempo enorme se preparando, e agora voc quer jogar tudo fora? LUS Voc no est entendendo. VERA Ns prometemos um nome famoso, algum com prestgio, eles no vo aceitar. uma multinacional, Lus! No foi fcil arranjar a grana e, pra mudar tudo agora, s se fosse um outro nome forte. Eles ainda no fecharam com a gente, e no vo querer, de jeito nenhum. LUS Mas o velho uma lenda! Ele tem histria, ele fez a histria do teatro, o que que eles podem querer mais? Vai ser a grande volta de Joo Rubens Pessoa! O homem um gnio, voc vai ver! VERA Que lenda, o qu! Ningum mais sabe quem ele . louco, isso sim! Todo mundo fala. Um velho caqutico, que consegue ficar tanto tempo longe, sem fazer coisa nenhuma, no tem nada a ver! Ningum vai querer investir, ele est mais pra l do que pra c. LUS No nada caqutico. Quando se anima, parece um menino, mais gil do que eu. Voc no conhece, por isso t falando. Ns podemos aprender um monte. VERA Cai na real, Lus, esse cara te enfeitiou. O tempo dele j era, ele j era.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 226(Black plate)226GORA LIVRE DRAMATURGIASDeve estar dando graas a Deus por ter arranjado um trouxa pra aturar suas histrias, e ainda levar uma grana. (vai pro computador) LUS No assim, me deixa falar. Calma. Presta ateno. No tem nada a ver com feitio. Eu estou com o material todo, ele tem meia dzia de textos inditos, eu tenho certeza que voc vai se apaixonar! Ele no parou de trabalhar esse tempo todo. Antes de mais nada, eu quero que voc leia parte do material... VERA E nem eu tou a fim de guru. Chega! J pastei um monte de tempo no Antunes e depois no Oficina. Agora, eu quero liberdade. Eu larguei todos meus empregos pra tocar nosso projeto. (pequena pausa) Foi ou no foi? Agora voc no pode me deixar na mo! LUS Ele um autor. No custa ler, no vai te tirar um pedao. E o Secretrio est disposto a investir nele. Acho que culpa, sei l. Os dois eram rivais, ou coisa parecida, e agora resolveu ajudar o outro. Talvez a gente nem precise mais correr atrs de patrocnio, o Secretrio banca, voc vai ver! Eles so da mesma gerao, vai rolar, eu tenho certeza. E ainda capaz de a gente ficar com alguma sala do Estado. VERA Ah, nem vem, no nada disso! O Jlio, que o brao direito do Secretrio, que apaixonado por voc e claro que capaz de fazer o que voc quiser. LUS No fica repetindo uma coisa dessas. Ele s me indicou pra pesquisa porque eu sou bom, no teve nada de pessoal. VERA Pra cima de mim, Lus? Voc anda dormindo com ele, no anda? LUS No!gora_09.qxd8/10/061:47 PMPage 227(Black plate)227VERA Voc o maior mentiroso que eu j vi. E mente at pra voc mesmo. Foi s depois que voc topou namorar com ele que ele te arranjou esse bico. Foi ou no foi? Tou falando mentira? LUS Foi coincidncia. VERA E esse patrocnio voc tinha mesmo ficado de arranjar, desde o incio. Mas pro nosso projeto, que est pronto, escrito, aqui! Eu j te falei: minha ltima tentativa. Se no der certo, eu mudo de profisso. Voc sabe quantas noites eu varei fazendo as contas e montando tudo direitinho, de acordo com a lei? Eu no vou jogar tudo fora, agora. Eles iam achar que ns piramos. O projeto no era em torno de um clssico manjado, conhecido, consagrado? Ns discutimos isso muito bem. Eles no querem saber de texto indito. Ponto. Pra eles, no interessa. Texto nacional, s se fosse de um nome muito conhecido, e que estivesse na moda. No tem cabimento essa mudana. Eu quero resolver minha vida j. Eu no sou bonitinha, a Globo no vai me chamar nunca! E no sou filhinha de papai, pra ficar enrolando. LUS Me d uma chance. Vamos fazer uma leitura. Se voc no balanar, eu prometo entrar na tua. Uma tentativa. Que tal? CENA 5 Lus e Vera lem trechos de escritos de Rubens, iluminados em contraluz. LUS (em tom de segredo) Palco iluminado: o mergulho to solitrio e particular, nico, que chega a ser um mistrio mesmo para o ator-agente do processo. Mesmo pblico, s. Criao no nunca do ego. necessrio o sacrifcio da conscincia pessoal, para o acesso ao espao realmente criador.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 228(Black plate)228GORA LIVRE DRAMATURGIASVERA E, por isso, a imagem pblica do artista anti-arte, pela prpria contradio em que mergulha o envolvido. Prmios e dinheiro, e mesmo uma plena aceitao social, obrigam o ator a abandonar a solido original implcita criao e convivncia com o Absoluto. Toda solicitao mundana que se segue ao sucesso a anttese da pobreza, do no saber, do vazio e da humildade interiores e da nudez que possibilitam o contato. (a luz clareia o ambiente) Mas nem uma pea ! So notas esparsas, no servem para nada. No existe dilogo, histria, nada. No teatro. LUS No uma pea, eu sei, mas s um ponto de partida. Ele acha que s havendo um compromisso em torno de uma idia que pode acontecer o teatro verdadeiro. Justamente por isso, no s mais uma pea. Ele tem textos prontos, tambm, no se preocupe! Eu s estou querendo te mostrar o sentido da coisa. O que ele busca, a ideologia dele. Pra ver se bate. VERA Eu acho bonito, mas eu no estou interessada, pra dizer a verdade! Eu cansei. Eu quero existir, quero virar uma profissional. Isso ele no vai poder me dar nunca! Ele tambm no sabe como conviver com a realidade, ele est pior que ns. No sabe, como ela existe, ele tambm no sabe! LUS Ele acha que, pra romper esse circulo vicioso em que transformaram a vida, s arriscando. Ele acha que a verdade tem uma fora nica. No a verdade particular de um sujeito qualquer, mas a verdade mesmo, inteira. E que existe uma catarse quando se fotografa no palco o avesso das coisas, da vida, das pessoas. E que, quando isso acontece, ningum consegue resistir. E s assim se vai poder transformar o mundo. A partir de cada um. VERA Mas ele no era comunista, esse homem? Como que agora ele vem com essa conversa mstica, de transformar as pessoas? Isso no combina.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 229(Black plate)229LUS No sei se era. Ele pode ter mudado. Quer dizer, parece que a mulher morreu torturada, presa, no sei... Ele no gosta de falar nisso. VERA Como era o nome dela? LUS Acho que... Nina, sei l. Nina Pessoa, deve ser. VERA Nina, como Nina? Quem disse que ela morreu? Aquela mulher meio louca do Secretrio tambm no chamava Nina?! LUS No sei. Que mulher? VERA Aquela, de quando ele estava no Centro Cultural, dez anos atrs. Era o brao direito dele, uma mulher linda. E diziam que ela tinha pirado na priso. LUIS No pode ser a mesma! VERA Como no? Teve toda uma histria. Foi um escndalo, o Rubens apareceu e armou o maior barraco e precisou at de polcia pra separar. Ele no casado, o Secretrio? LUS No sei. VERA a mesma, claro. No morreu coisa nenhuma. Por isso, eles no se suportam.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 230(Black plate)230GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS Se fosse, ele no aceitaria a ajuda, de jeito nenhum. O problema dele com o Secretrio outro. Ele sabe muito bem o que est fazendo. A separao pode ter acontecido, mas da a pensar que... O que eu sei que talvez ele seja uma espcie de guardio de uma verdade preciosa! VERA Que guardio, guardio de qu? LUS Guardio, sim, ele no guardou nos livros nem nas idias, sei l, mas guardou com a prpria vida. Mesmo que ele esteja errado, ele tentou manter uma tica, um compromisso. E ele precisou desse tempo pra tentar entender. Ele andou quebrando a cabea, pra tentar retomar um fio da meada da histria, recuperar a essncia do teatro que eles chegaram a praticar, um teatro de grupo, unido em torno de uma idia! VERA Pra mim, isso t com cara de desculpa. S se foi por amor. E, se no foi por amor, pior! muito utpico, muito fora do cho, Lus. Hoje no tem mais espao pruma coisa assim. LUS Tem, sim, claro que tem. A questo descobrir algum atalho que rompa esse circulo vicioso na relao com o pblico. No existe mais um espectador puro. Ele formado e contaminado pela televiso, cinema, internet, publicidade, tudo! E o pior que isso feito com muito glamour e com muita grana. Difcil resistir. No passado, eles tinham uma platia que eles mesmos formaram estudantes, idealistas e intelectuais. E havia um dilogo, um rumo: o caminho foi sendo construdo a partir disso. Ele quer encontrar uma sada pra retomar essa troca de idias, fora do jogo de cartas marcadas em que se transformou a mdia. VERA Mas o pblico no t interessado. As pessoas vivem massacradas, fazendo contas e sobrevivendo. A gente tem que se colocar no lugar delas. E, no fim de semana, tm mais que se divertir. T certo. Parece adolescente.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 231(Black plate)231LUS Eu sei que um achado. Ns no podemos jogar isso fora. Voc tem que conhecer a figura. Se fosse um autor morto, voc prestaria ateno. Ele tem razo, as pessoas no enxergam quem est vivo. Pra fazer parte da cultura, precisa morrer. Ou sumir. Se no, ningum leva a srio, ningum respeita. (l outro trecho) Olha aqui. Orao e f criam o que acontece. Por orao, entenda-se tudo o que se fala e, por f, at mesmo a ausncia radical de qualquer tipo de crena. VERA Por que que ele no publica? Isso literatura, no teatro, Lus, claro que no! No tem nada a ver, so palavras, Lus, no tm a ver com o mundo em que a gente vive. Vai l discutir o projeto com quem vai soltar a grana. Vo rir na sua cara. Quer saber o que mais? Eu estou interessada nessa mulher. Se ele largou tudo por ela, a, sim. No tem idealismo, mas tem uma histria de amor. Isso eu at acho bonito. Ele no tem nada escrito sobre ela? LUS Que eu saiba, no. Ah, tem uma gaveta em que ele no quer que eu mexa. S se estiver l. Mas pra qu voc quer saber dessa mulher? No interessa a vida pessoal dele! VERA s o que interessa. Um sujeito que faz uma coisa dessas por amor capaz de ter escrito alguma coisa especial. Por que que voc no tenta descobrir? LUS Mexer na gaveta? Foi a nica coisa que ele proibiu, eu no posso. No seria honesto. VERA No seria por qu? Voc no est sendo pago para organizar o que ele escreveu? uma pesquisa ou no ? Ento? V luta!gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 232(Black plate)232GORA LIVRE DRAMATURGIASCENA 6 LUS (com o livro Psicodrama nas mos, l) E, quando estiveres perto, eu arrancarei teus olhos e colocarei no lugar dos meus, e tu arrancars meus olhos e colocars no lugar dos teus e, a, eu te olharei com teus olhos, e tu me olhars com os meus. Eu no manjo nada de psicodrama. Voc acha legal? RUBENS (sorri e no responde) Voc sonha, Lus? LUS Sonho. Quer dizer, em que sentido? RUBENS De noite, quando t dormindo. LUS No, raro, muito raro. Pelo menos, eu no lembro. RUBENS E no que que voc acredita? LUS (hesita) Na vida... Em tudo... No teatro e tambm... Em tudo. RUBENS Voc no tem uma religio, uma f? Fora do teatro? LUS Minha famlia catlica, eu fui batizado, mas... Eu no sou muito ligado. Eu pensei que voc no se importasse com isso. RUBENS E poltica? Voc de algum partido? J militou por alguma causa?gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 233(Black plate)233LUS No, no, nunca! Eu no me ligo nessas coisas. Eu acho poltica um saco, pra falar a verdade. Poltico tudo igual, acho uma perda de tempo votar. Se eu pudesse, pulava esse pedao. Eu gosto de teatro, s ele me apaixona, e toma muito tempo. No d pra... Onde que voc quer chegar? RUBENS No sei. Onde que VOC quer chegar? Eu quero te conhecer melhor. LUS Mas voc j me conhece. Eu sou assim, desse jeito mesmo. No tem muito mais que isso. At que eu gostaria de ser mais profundo, de ter opinies, idias, sei l. Mas eu sou assim mesmo. RUBENS Voc acha que pode aprender comigo, se no se abrir de verdade? LUS Mas eu no estou escondendo nada, eu no estou entendendo. RUBENS Voc acha que uma relao pode existir com mo nica? Que vai conseguir aprender alguma coisa comigo, se eu tambm no aprender com voc? LUS Voc, comigo? Essa boa, imagina! RUBENS Eu no tenho nenhuma resposta pra nada. LUS Tem, claro que tem. RUBENS No tenho, por isso que eu quero saber de voc. Como que voc consegue viver assim? Colocando fora de voc o teu centro? Claro que, pra crescer,gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 234(Black plate)234GORA LIVRE DRAMATURGIASvoc pode se apoiar em algum com mais experincia, faz parte. Mas o rumo, a longo prazo, vai nascer de voc mesmo. A gente sempre acaba atraindo aquilo que deseja. LUS Ser? Eu no sei. RUBENS porque, at agora, voc nunca quis nada de verdade. LUS Eu quero ter uma vida legal, trabalhar e ser feliz. No sei se pouco, mas isso que eu quero. RUBENS Mas esse um projeto pessoal, apenas. E o resto? LUS No sei. O que que existe mais pra se querer? RUBENS O fundamental. O que importa. O que faz a diferena. Um ator de verdade precisa ter a coragem de mergulhar mais fundo que uma pessoa normal. E descobrir que, l no fundo, no existe diferena entre ele e os outros. Ele tem que encontrar aquele ponto neutro, sbio, que existe no fundo de toda pessoa, e VER o quanto uno com toda a humanidade, com tudo o que possa existir, com o bem e com o mal de cada um e de todos os outros. LUS Eu no sei. Ser que precisa disso tudo? Assim difcil. Eu no sou santo e nem quero ser. Eu no sei se eu tenho esse tipo de vocao. RUBENS Sem isso, voc acaba ficando merc das mars, das modas e das opinies de todos os outros, daqueles que te cercam. Para uma auto-referncia, s tendo essa coragem. preciso fazer essa escolha por voc mesmo.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 235(Black plate)235Ningum pode fazer isso por voc. Professor nenhum, guru de nenhum tipo, ningum, por mais sbio que seja, pode dar ao outro aquilo que ele no pretende. LUS Eu... claro que eu quero ser um profissional e poder viver da arte que eu fao. Isso errado? RUBENS Errado no . Mas o que eu estou dizendo que existe uma escolha por fazer. No tem como escapar disso. Voc tem que tomar partido na batalha que corre invisvel e perene, e da qual voc faz parte, mesmo sem querer. uma batalha entre o Bem e o Mal. LUS Mas no fica uma coisa maniquesta, simplista, dividir as coisas assim, entre bem e mal, claro e escuro? Eu acho que a gente precisa lidar com os dois lados ao mesmo tempo, e por isso difcil. RUBENS Voc tem razo. Precisa, mesmo, lidar com os dois lados ao mesmo tempo. LUS E ento?Aonde que voc quer chegar? RUBENS porque no to fcil. Essa escolha se renova. Mesmo quando algum faz sucesso porque escolheu o primeiro caminho, ele acaba tentado pelo poder. Porque a ele atrai muitas propostas rentveis, e a economia das relaes acaba reproduzindo aquilo que existe na economia global. O rico fica mais rico, e o pobre fica mais pobre. Existe uma lgica perversa para a qual no h sada, quando o sujeito no escolhe. Pra romper o crculo vicioso, talvez o nico caminho seja o sacrifcio. Mas, no mundo de hoje, todo mundo aprendeu a cuidar das suas coisas e a ficar na sua e a ser cnico com tudo e a ir tocando e a ir livrando sua cara e assim por diante.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 236(Black plate)236GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS Mas, desse jeito, difcil demais. Eu s quero fazer teatro. Eu no sou a palmatria do mundo. RUBENS Aquilo que voc projeta em mim tem tudo a ver com isso. Mas voc prefere personalizar essa verdade e achar que eu sou assim e ficar me colocando num pedestal. Mas isso no vai levar a nada. Voc tem que olhar pra tua gerao e pro que existe hoje tua volta. Nas ltimas dcadas, reduziram tudo ao filtro da esttica. E do sucesso objetivo. O filtro adotado, e que ainda vigora, com menos fora, mas ainda o mesmo, o do sucesso material, que a medida e a prova de que alguma coisa vale a pena. Claro que o sucesso quer dizer alguma coisa, mas o fracasso tambm quer. Ficar nessa resposta material da concreo de um resultado pouco, muito pouco. Da o caos espiritual que rola. Ele veste a mscara da liberdade de criao, mas uma mentira. No existe liberdade sem um compromisso maior que a ambio e o desejo pessoal. E essa escolha eu no posso fazer por voc. LUS Ser que eu entendi? Eu preciso escolher? RUBENS No precisa responder. Alis, eu acho que voc vai ter a vida toda pra pensar. E teus amigos, quando que eles vm? LUS Eles esto viajando, com um espetculo, por isso eu no marquei ainda. Mas a coisa t andando. Eu falei na Secretaria, e eles vo apoiar. Vai ter um cach, uma ajuda de custo pra todos, e eu estou preparando o projeto novo. Leva um tempo. RUBENS Projeto? De novo, pra qu? LUS Claro, o que est aprovado a pesquisa sobre sua obra e sua vida. o quegora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 237(Black plate)237ns estamos fazendo, organizando o material escrito. Mas o projeto de montagem outra coisa. RUBENS Como que pode? Viver atrelado assim? A cada passo, a cada idia, ter que correr atrs de aprovao? Assim voc acaba se sujeitando a quem no entende coisa nenhuma de teatro. Como que pode? LUS No bem assim. O assessor do Secretrio, o Jlio, um sujeito muito culto e j foi ator, t tudo bem. Ele est dando a maior fora. Est interessado mesmo. RUBENS Isso uma camisa de fora, por isso vocs no conseguem mais pensar. pior que um vcio! LUS Mas o nico jeito. Hoje em dia, tudo assim. O senhor precisa compreender o outro lado. Claro que precisa de um projeto escrito. RUBENS (muda de assunto, abrupto) Eu no acredito nessa histria de viagem. Teus amiguinhos no vieram ainda por qu? O que que eles to esperando? Sair a verba? LUS No. Quer dizer, claro que eles querem uma definio mais clara do que que a gente pretende... RUBENS Ah, claro, est tudo muito vago mesmo. Voc no disse que vocs eram um grupo? LUS E somos. Mas a gente est tentando um comportamento profissional. Eu quero muito, de verdade, mais que tudo, que esse negcio saia. Mas est difcil!gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 238(Black plate)238GORA LIVRE DRAMATURGIASConfia em mim, vai dar tudo certo. s uma questo de planejamento. Eu vou marcar uma leitura pra semana que vem, que tal? RUBENS Leitura? Que leitura? Leitura de qu? Acho que eu tou velho mesmo, eu no entendo a vida desse jeito. Sabe como era no meu tempo? Os grupos tinham um administrador, que ganhava menos que um ator. E olhe l! UM administrador. No existia produtor, captador, nada disso. Hoje, tem esse monte de gente que voc fala: precisa de produtor, captador, assessor de imprensa... gente demais. E o pior ver voc, que quer ser ator, mergulhado nesses papis e pouco se importando com o que eu tenho pra dizer. LUS Mas assim que as coisas so. Voc no disse que tambm quer aprender comigo? No disse que so dois mundos? Disse, no disse? Ento, voc est muito longe de um deles. A gente tambm precisa ter os ps no cho. Confia em mim, vai dar tudo certo. (ameaa sair) RUBENS Lus, espera. LUS Que foi, agora? RUBENS Voc mexeu naquela gaveta? Por que que ela t aberta? LUS No sei. Que gaveta? No fui eu. Talvez a faxineira tenha aberto, por engano. (Rubens vai at a gaveta, desconfiado) CENA 7 LUS Eu peguei os papis, e no adiantou. Olha aqui. Tudo em branco.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 239(Black plate)239VERA No possvel. Como tudo em branco? LUS Ele deve ter desconfiado. Eu tenho certeza que eu vi pastas e mais pastas na gaveta, cheias de papis. VERA E por que que voc escolheu justo essa? LUS S sobrou essa. Eu peguei no susto e s abri depois. Lembro que um dia eu cheguei e a gaveta estava aberta, eu vi, cheia de papis, acho que tinha at manuscritos. E agora no tem mais nada, s umas contas e um monte de papeis soltos. S se ele arrumou e jogou tudo fora, de medo de eu pegar. Se ele descobre, capaz me matar. VERA Por que voc no pediu abertamente? LUS Ele me provocou o tempo todo com uma conversa que me deixou pirado. Um papo sobre dois mundos e no sei o que mais. Eu no entendi nada do que ele estava falando, mas tive que manter a pose. VERA Voc no tem remdio, Lus. Por que que voc nunca fala a verdade? LUS Como no falo? Falo, claro que falo. (hesita) Meu Deus, ser que foi de propsito? No pode ser. Ele deve ter armado pra mim. VERA Imagina, ele no ia fazer uma coisa dessas.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 240(Black plate)240GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS Ah! Ele perguntou por que que vocs ainda no foram l comigo. VERA Voc no disse que os meninos esto viajando, como a gente combinou? LUS T vendo, voc manda mentir e depois me cobra. Claro que eu disse, mas no colou. Parece que ele enxerga atravs da gente. VERA que voc muito trouxa. Voc nunca fala a verdade e o pior que o rei da bandeira. Onde j se viu? Custava perguntar se ele no tem uma pea sobre ela? LUS Mas foi voc que me mandou pegar. VERA Olha aqui. Um bilhete.Amarelado, deve ser bem antigo. (ela l) Desculpa, eu tentei avisar, mas ele t desconfiado, no larga do meu p. No sei como que eu fui cair nessa cilada. Casar com o Fran, Santo Deus. Onde que eu estava com a cabea? Mas eu no vou me separar, eu no posso. Fran no o Secretrio? LUS No sei, pode ser. VERA Claro que , Fran de Francisco. Deve ser dela! Ser que ela traiu o marido com ele? O... o ex-amante? LUS (continua a leitura) Voc adora dar uma de bonzinho. Mas se esquece que foi voc quem me internou. VERA (interrompe) Ah, ento, s pode ser dela. Ela no era louca mesmo!?gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 241(Black plate)241LUS Que louca, o qu, espera. Deixa eu acabar. Voc costuma dizer que, quando sa da priso, no falava coisa com coisa e que estava paranica com tudo, at com voc. E foi por isso que me internou, que s quis ajudar. Mas desde quando tomar choque cura algum? Mas dinheiro ajuda, sim, e pode consertar tudo. Foi a Casa de Repouso que ele arrumou que me ajudou a voltar pros eixos. E acho que eu aprendi a lio. Agora eu quero conforto, e no quero nunca mais depender de ningum, isso que eu quero. VERA Continua! LUS s isso, no tem mais nada. VERA Procura a, v se acha. Deve estar no meio dos papis. LUS No tem nada, Vera, no t vendo? Tudo em branco. Porque que voc t obcecada com essa mulher? VERA Que obcecada, o qu! Estou curiosa s. Tenho certeza que deve existir uma pea. LUS Duvido. Ele acha que a vida pessoal no tem nada a ver com teatro. Ele no ia escrever justo sobre isso. VERA Como no? Pergunta pra ele. LUS Imagina, Vera, no tem nada a ver.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 242(Black plate)242GORA LIVRE DRAMATURGIASVERA Fala que pegou a carta por engano e que ficou curioso. Pergunta sobre ela, diz que no mostra pra ningum. Ele j acostumou com voc, ele no vai te negar, eu tenho certeza. CENA 8 RUBENS (l para Lus; revelao) Manter-se nos limites do possvel respeitar as regras cnicas do pequeno drama psicolgico embutido em histrias sem grandeza. S a deposio das mscaras que vestimos por medo garante a reconquista da verdade e da f. E pela entrega que vem a descoberta de que nunca tivemos nada a perder. Quem se assiste descobre que, alm de ator, co-autor da trama. (pra de ler) E a, que que voc acha? LUS No palco ou na vida? RUBENS Nos dois. Claro que nos dois. Na vida do palco, e fora tambm. No to difcil de entender. LUS Como se cada um fosse um personagem, e no uma pessoa? Mas isso embaralha tudo. Desse jeito, voc no sabe mais onde comea o palco e onde comea a vida. Periga enlouquecer, no periga? Misturar tudo? RUBENS Quem tem vocao, o ator, o bom ator, tem que lidar com isso. Ele percebe que at na vida as coisas se misturam. Representar fingir, e o ator descobre que, quando finge, existe um fundo de verdade, que at a mentira acaba virando verdade. O palco contguo a esse espao indefinido, a esse no saber quem se , a essa coisa que se chama loucura.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 243(Black plate)243LUS No que eu li, no tinha nada sobre isso. Voc no tem alguma pea, ou alguma coisa escrita...? RUBENS Por que que voc t perguntando? LUS Porque faz falta. Eu estou organizando o material, e parece que falta uma pea do quebra-cabea. T tudo redondo, quer dizer, quase. T fazendo falta, sim, alguma coisa, no sei o que . RUBENS Voc mexeu na gaveta, Lus? (silncio) Mexeu, no mexeu? LUS (tenta fingir) Eu... ? RUBENS (conformado) Mexeu. LUS Desculpa, no foi por querer. que tinha uma pgina solta, de uma carta, cada, que estava no meio dos papis... RUBENS Que pgina o qu, Lus? Eu tirei tudo da gaveta. LUS Ento, deve ter cado. RUBENS S deixei uma nica folha, pra te testar. LUS Desculpa, eu no sei o que dizer.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 244(Black plate)244GORA LIVRE DRAMATURGIASRUBENS Eu tinha esperana que voc ia saber resistir, mas no. Tudo bem. No fundo, eu sabia. Aquilo que se fala vai fabricando o futuro. Quando eu disse pra voc no mexer, eu selei minha sorte. Como se fosse uma pea. A famosa preparao. Voc diz no faa isso. porque isso, mais adiante, vai acontecer, ou pode acontecer. LUS Ento, eu no tive culpa. Se foi de propsito... RUBENS No tem importncia se foi de propsito ou no. Voc podia ter respeitado minha vontade. A pgina caiu na hora da arrumao, e eu resolvi correr o risco. LUS Posso... perguntar uma coisa? (o outro acede) Eu estou louco pra saber. Ela ainda est viva ou...? CENA 9 LILINHA Espera, gente, eu quero contar pra vocs! Eu estava no meio da sesso e a eu vi o Lus, e ele me apontou um senhor que parecia um anjo. RODOLFO O qu? O Lus foi l na sesso com voc? LILINHA No, Rodolfo, eu vi dentro da minha cabea. Tinha aquele senhor e, na hora, eu no consegui entender o que que ele estava querendo. Mas agora eu sei, era o Joo Rubens, eu tenho certeza. Voc no t vendo, Vera? Foi um sinal. VERA Pelo amor de Deus, Lilinha, de novo esse papo, no!gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 245(Black plate)245LILINHA (infantil) Que papo? Mais respeito. Pode tirar o cavalo da chuva, que eu no vou abrir mo da minha f. VERA No mistura as coisas, Lilinha. Desde que voc se enfiou nessa seita, no fala mais coisa com coisa. LILINHA No seita, Vera, no . No sei por que voc teima. VERA (corta de novo) o qu, ento? LILINHA Voc fala de um jeito to... to pejorativo. Pode ser seita, mas no desse jeito que voc fala. No uma loucura qualquer, o Dai-me, at o Ney j freqentou. VERA Que Ney? RODOLFO Latorraca. LILINHA Matogrosso. RODOLFO Desculpa, eu pensei... LILINHA No sei por que vocs teimam em no querer ir l comigo, tirar a prova. RODOLFO Eu? J basta ter sido coroinha, Deus me livre!gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 246(Black plate)246GORA LIVRE DRAMATURGIASLILINHA Porque, que abre a cabea da gente, abre mesmo. VERA S faltava voc embarcar na canoa do Lus. A lei t aprovada, e a gente tem uma reunio, essa semana, vo dar a resposta. Como que ns podemos chegar l e falar que mudamos de idia? LILINHA Vera, eu j te falei, voc tem que ser realista. Quem te garante que eles vo soltar a grana? No est vendo a Argentina? O que ns estamos vivendo o fim dos tempos, no adianta mentir. No adianta tentar fingir que no com voc. Est tudo um caos, e voc fica tentando fazer as coisas direitinho, pra qu? Est tudo de pernas pro ar, o fim dos tempos est a, escuta o que eu tou te dizendo. VERA No comea. Eu no quero discutir o fim dos tempos com voc, t certo? Eu sou sua scia. Aqui, pelo menos, tenta ser objetiva. RODOLFO Por enquanto, enquanto o mundo no acaba, ns temos que pagar as contas, no temos? Enquanto no acaba de vez? LILINHA A coisa que eu mais queria era encontrar algum assim como o Joo Rubens, que tivesse uma viso lcida de tudo. Eu no posso jogar fora essa chance. Na escola, eu sempre fui apaixonada pelos textos dele. VERA Ningum mais sabe que ele existe! LILINHA Mas est tudo l. Ele escreveu sobre tudo o que est rolando. Ele era adiantado demais pra poca, por isso ningum entendeu.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 247(Black plate)247RODOLFO Lilinha, no leva a mal, mas presta ateno. A gente tem que fechar logo essa porra de contrato, seno no vai ter pea nenhuma. Porque eu vou preso, t me entendendo? E a mulherada no quer saber de conversa, elas s querem saber do dinheiro. LILINHA Voc t empregado, fazendo novela, tem mais que pagar mesmo. RODOLFO Grande merda, a novela t no fim. E, com o salrio que eu ganho, voc acha que d pra manter as duas? LILINHA Quem manda sair engravidando a torto e a direito, por a? RODOLFO Aaah, por isso que voc nunca quis sair comigo? LILINHA Ah, vai te catar, Rodolfo. Eu no tenho nada a ver com isso. Eu quero fazer teatro de verdade. Tou louca pra conhecer o homem. Eu tenho certeza. Ele veio pra mudar nossas vidas. RODOLFO Vera, eu s topei porque voc garantiu que desta vez ningum ia pirar. E agora esses dois vm com porra-louquice. Qual ? VERA Eu sei. Merda. Que saco, Lilinha! Voc que tem que me ajudar, Rodolfo, porque eu no tenho mais pacincia. RODOLFO Cad o Lus, por que que ele no veio? Com essa maluca eu no quero papo, eu vou falar prele parar com enrolao.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 248(Black plate)248GORA LIVRE DRAMATURGIASCENA 10 RUBENS (l para o outro) A arte apenas profissional circunscreve e domestica o artista e, na verdade, o castra naquilo que ele tem de mais autenticamente criador. O sofrimento do ator advm do atrito entre essncia e personalidade e das contradies que obrigado a suportar. Como na prostituio, a arte exercida como profisso vincula algo de sagrado e potencialmente transcendente com comrcio. O ator comercia com a alma e, se no vende seu corpo, vende sua face. LUS Ser que eu entendi? Prostituio? Voc compara o ator a uma...? RUBENS O ator tem um grande poder a palavra. A arte tem! A publicidade no usa esse poder para vender, vender e vender cada vez mais!? LUS Faz parte. A gente tem que sobreviver. RUBENS Claro que tem. Mas, enquanto isso, voc acaba esquecendo o poder que tem nas mos. So os atores que emprestam suas vozes pra comunicar as mensagens dos patrocinadores, dos polticos... O ator o ponta de lana desse sistema, voc no pode esquecer disso. At nas novelas eles no enfiam mensagens no enredo, a torto e a direito, sem respeito nenhum pelo espectador? uma espcie de prostituio, sim, senhor! LUS Eu no sei. S sei que preciso confessar uma coisa. s vezes, eu saio daqui piradinho. Voc fala do palco como se fosse uma coisa sagrada e como se o teatro fosse uma religio. (hesita) RUBENS E . Ou poderia ser.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 249(Black plate)249LUIS Mas, se fosse, no teria como viver no mundo. RUBENS . O problema esse. LUS (muda de assunto) Voc deu uma olhada no projeto da pea? RUBENS Mais ou menos. Quer dizer, dei, mas no entendi nada. LUS No entendeu o qu? RUBENS Vai ser uma cooperativa ou no? LUS Vai, claro que vai. mais fcil, por causa da burocracia. RUBENS Mas os salrios que voc colocou no batem. LUS Por qu? Voc achou pouco o que eu pus pra voc? RUBENS Ao contrrio, porque cada um vai ganhar uma coisa. Eu no entendi. Numa cooperativa, todos no ganham igual? LUS Nem sempre, Rubens. No bem assim. Claro que a Vera e eu, que cuidamos da produo, merecemos um pr-labore maior, e voc, como autor, tambm.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 250(Black plate)250GORA LIVRE DRAMATURGIASRUBENS Claro. S que, no plano da inspirao, no existe meu e teu. No d pra saber quem merece ganhar mais. Essa diviso vai contaminar a atitude das pessoas. Elas vo achar que no tm responsabilidade igual e nem obrigao de assumir que a obra em que esto metidas tambm delas, uma propriedade coletiva, comum. LUS No mistura as coisas, Rubens, deixa comigo. Voc andou afastado e no t por dentro. Uma coisa a criao, do jeito que voc t falando, t legal. Mas a parte material diferente. Ah, eu tinha esquecido, voc tem uma firma? RUBENS Eu? Firma? Como, firma? LUS Por causa da lei. Facilita, se voc puder dar nota fiscal. RUBENS Voc t brincando. Eu no sou uma firma, eu sou um autor. O que que vocs querem de mim, Santo Deus? Agora eu vou virar uma firma? Como nota fiscal? Pra qu? LUS Calma, por causa da lei. pra prestao de contas, depois... (hesita) Tudo bem, no liga pro que eu disse. Esquece. RUBENS No, explica, eu quero saber. Se eu tenho que virar uma firma, eu quero saber. LUS Todo mundo, hoje em dia, abre uma firma. Todo mundo. mais fcil. Se voc abre, te ajuda a pagar menos imposto. RUBENS Menos imposto, como? Que imposto?gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 251(Black plate)251LUS De renda, imposto de renda! Se voc guarda as notas das despesas, das compras todas, tudo pode entrar como despesa de produo. Voc economiza e tambm ajuda o trabalho que a contadora vai ter. RUBENS Que contadora? Na equipe tem uma contadora? Na equipe tem tambm uma contadora? Vocs esto inteiramente loucos? O que que isso, Santo Deus? Voc tem coragem de me falar uma coisa dessas? Quanto tempo vocs perdem com essa loucura, com essa burocracia sem fim? impraticvel, melhor parar com tudo. Eu no quero mais. No quero mais participar dessa coisa lastimvel. LUS Mas o que que voc quer? Voc vive numa cidade, num pas, tem que pagar imposto! E se fizer sucesso, vai pagar mais. com os impostos que o governo teoricamente cuida do povo e da cidade e at dos miserveis que te comovem tanto. Claro que eles roubam e tem corrupo. Mas voc quer fazer de conta que no vive nesse mundo, Rubens. Qual ? Esquece, eu no falei por mal. Esquece. Eu prometo que vou te deixar fora disso. Desculpa! CENA 11 RODOLFO Espera a, pra a. Danou, como? Como, danou? LILINHA Eu no disse que a Argentina podia atrapalhar? Bem que eu tive uma intuio. RODOLFO D um tempo, Lilinha. VERA isso mesmo que vocs ouviram. Me chamaram com urgncia, me serviram um cafezinho, falaram e falaram, e pronto. Danou. Por enquanto, pelogora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 252(Black plate)252GORA LIVRE DRAMATURGIASmenos. Eles tm razo. Acontece que, com essa coisa toda do dlar e essa crise, esto com medo de investir e acabar ficando no vermelho. Pediram pra esperar at o fim do ano. RODOLFO (grande escndalo) At o fim do ano? Mas eu no entendo. No estava tudo certo? Eles no tinham dado a palavra? VERA , mas no estava assinado. RODOLFO Mas quem garante que no fim do ano...? VERA Ningum, ningum garante. Mas eles disseram que, se conseguirem equilibrar as contas, talvez seja possvel, mas a vai ter que ficar pro ano que vem. RODOLFO Mas que merda, Vera, no possvel. De novo? Sempre aparece uma bosta dessas no caminho? Essa crise parece que no acaba. Quando no uma coisa, outra. VERA Desculpa, eu tenho hora no analista e no posso demorar. Achei melhor avisar logo, assim, cada um vai cuidar da sua vida. Eu no consegui encontrar o Lus, ele que me desculpe. Um de vocs podia dar um toque nele. LILINHA No, Vera, espera. Mas como? Ainda tem o outro projeto. No pra hoje a reunio na casa do Joo Rubens? VERA Ah, meu Deus, pra qu? No vai dar em nada, Lilinha.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 253(Black plate)253LILINHA Agora que ns no podemos dar o cano, de jeito nenhum. Rodolfo, vocs prometeram que iam. O Lus garantiu que a Secretaria... VERA O Lus mente demais. LILINHA (apela) Rodolfo! RODOLFO Vera, quem sabe? No custa dar um pulo, ainda mais agora a gente ficou na mo. Pode ser que quebre nosso galho. VERA Voc acha que a Secretaria tem dinheiro pra torrar desse jeito? O Lus fantasia demais. Aquele menino que ele namora usa a Secretaria pra segurar o Lus. Deve ser coisa dele, no deve ter nada a ver com o Secretrio. LILINHA Vera, no fala uma coisa dessas. O Jlio apaixonado pelo Lus, e da? Claro que ele ajuda. Por isso mesmo, pode dar certo. No custa, Vera, vamos l. Ns podemos fazer agora o projeto do Joo Rubens e, no fim do ano, se Deus quiser, sai o patrocnio pra outra pea, e pronto.Voc vai ver. Combinado? (a outra vai saindo) hoje noite, hein? Vocs esto com o endereo? CENA 12 RUBENS Lilinha? LILINHA Como que o senhor adivinhou? RUBENS Voc. Pode me chamar de voc.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 254(Black plate)254GORA LIVRE DRAMATURGIASLILINHA Eu tava louca pra vir aqui. RUBENS (dirige-se outra) E voc a Vera. VERA Eu mesma. RUBENS E ele, o gal, Rodolfo. RODOLFO Que gal? Imagina. Quem me dera. S me do papel de amigo do gal. LILINHA Que aura o senhor tem. RUBENS Aura? VERA A Lilinha acha que vidente. LILINHA Acho, no, eu sou. Vocs no esto vendo? incrvel! De uma luz, de uma limpeza rara. RUBENS Vamos sentar. Lus, pega as cadeiras da cozinha. Desculpa, aqui pequeno, vocs esto vendo. O Lus me disse que vocs so um grupo. VERA Bom, nem sei o que ns somos. Ns somos amigos e amos fazer um trabalho, que agora foi adiado.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 255(Black plate)255RUBENS Foi adiado, como, Lus? LUS Adiado, o qu? (custa a entender) No, ela t falando de outra coisa. RUBENS (olhando pro Lus) Quer dizer que no so bem um grupo? LILINHA Somos, sim, a Vera que tem essa mania. Ela crtica demais. VERA Como grupo, Lilinha? Quantos espetculos a gente j fez? Meio. LILINHA No interessa. Vamos fazer muitos ainda. RODOLFO Faz tempo que a gente estava pra marcar, mas no deu pra gente vir antes. O Lus no teve culpa. Ele tem falado muito do senhor. E que tem um texto seu, maravilhoso, alis, mais de um. VERA Mas eu acho pouco provvel que a Secretaria d o dinheiro assim, a fundo perdido. LUS Mas no a fundo perdido. Eles j concordaram. VERA Concordaram quando, Lus? Deixa de ser mentiroso. LUS Ns s temos que dar umas oficinas, como forma de pagamento.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 256(Black plate)256GORA LIVRE DRAMATURGIASVERA Oficinas, Lus, de novo? At receber, a gente j vai estar duro, e vamos ter o mesmo problema: vo montar de que jeito? S a verba pra mdia j uma pequena fortuna. E eles no bancam montagens, que eu saiba. Eu tou fora. Se for um projeto alternativo, eu tou fora. Eu cansei. Eu no quero saber de nada alternativo. LUS Mas voc uma atriz alternativa. VERA Alternativa, vrgula. LUS Ningum sabe quem voc . VERA Sou uma atriz com oito anos de carreira, com muito orgulho. Todo mundo me conhece. LILINHA Gente, no vamos brigar por causa de bobagem, por favor. Vera, d um tempo. Agora responde uma coisa, Lus. Vai ter verba pra montagem, mesmo? Fala a verdade. LUS Meu Deus, eu j falei, mas parece que ningum presta ateno. As oficinas so s pra facilitar os ensaios, uma ajuda a mais, que o Jlio arrumou. Mas depois vai ter uma verba de patrocnio, eu j disse. VERA Que verba? De onde vo tirar essa verba? LUS Verba, sim, senhora. Eu j estou com o projeto quase todo formatado. O Jlio t me ajudando. Vai sair como um projeto especial. O Secretrio estgora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 257(Black plate)257empenhado. Eu j cataloguei praticamente todo o material aqui, do Rubens, e eles tm interesse em que se monte uma das peas pra coincidir com o lanamento dos arquivos, que vo ficar l, disposio, na biblioteca da Secretaria. Que foi, Vera, por que essa cara? Voc no pode chegar e querer jogar tudo pro alto. Qual ? O teu projeto que acabou no saindo. Foi ou no foi? LILINHA Calma, gente. VERA Pois , eu no comando a economia global, meu caro. O que que eu posso fazer, se justo agora a Argentina resolve falir? LILINHA Vera, o que interessa que tem essa possibilidade. O Lus no ia ser louco de inventar. No vamos perder tempo discutindo. Eu estou curiosa, eu quero saber do texto do Joo, que o que interessa. (mais baixo, s pro Lus) Lus, conta, quem sabe a Vera acalma? LUS Vera, olha isso aqui, nas minhas mos. Voc vai pirar. um texto ineditssimo do Joo, que ele acabou de escrever pra ns quatro. T legal assim, Vera? VERA Como, pra ns? novo mesmo? LUS E sobre tudo o que a gente t querendo falar. Tudo que est a, essa realidade pirante. Atual, atualssimo. ator, teatro, grupo, tudo isso. E como essa questo da globalizao afetou cada um. O Joo acha que existe um vu, um muro que impede que a gente enxergue o n da questo, o essencial. Esse bombardeio de informaes que no deixa espao pra mais nada. VERA (irnica) Ah, que maravilha, quero s ver.gora_09.qxd8/9/062:56 PMPage 258(Black plate)258GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS Vera, assim no possvel. VERA Eu estou curiosa. RUBENS Calma, Lus, no tem problema. VERA Eu s estranhei o tema. O Lus disse que o senhor nem computador tem e faz tempo que vive aqui, margem. E como que o senhor se mete agora a falar sobre o que no sabe? RUBENS Por isso mesmo. Porque estou margem, que eu acho que fui capaz de enxergar uma luz. s vezes, s quem est margem consegue enxergar o que est na cara e que ningum v. Eu podia estar vivendo no mato e, por isso mesmo, enxergar a podrido da cidade com mais clareza do que qualquer um. A senhora precisa ter mais respeito, dona Vera, no s por mim, mas pelos seus colegas. VERA Quem o senhor pensa que , pra querer me ensinar? LILINHA Vera, pra, pelo amor de Deus. Que isso? RODOLFO Segura, Vera, d um tempo. LILINHA Seu Rubens, desculpa, a Vera desse jeito, no leva a mal. Todos falam ao mesmo tempo e a coisa vira uma balbrdia.gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 259(Black plate)259LUS Ela ainda deve estar vendo na frente as cifras com que ela anda lidando. VERA Claro, vocs sempre largam tudo nas minhas costas. RUBENS (d um esporro) Chega! Aqui no hora nem lugar pra ficar discutindo desse jeito. (silncio, uma pausa) Que coisa mais rida, chata. Pra qu fazer teatro, se for assim? (pequena pausa) O que eu no entendo como que conseguiram convencer o mundo de que no h como lutar e nem contra o qu lutar! (olha pra cada um deles) T todo mundo ilhado, engasgado com essa balela de que essa a nica forma de vida possvel... E ningum mais se comunica, as pessoas s sabem fazer negcios. VERA Que conversa mais antiga. E o que que o senhor pretende? Uma revoluo comunista, por acaso? A esta altura? RUBENS Quem sabe? Ser que no existe outro jeito pra se viver? At o comunismo, apesar de tudo, me parece mais cristo do que isso que est a. Um dia, no futuro, ainda vo falar dessa paralisia diante dessa realidade que parece ter escapado ao nosso controle. E vo rir da nossa estupidez, porque claro que existe uma sada. Mas preciso comear a procurar. VERA (cnica) E o senhor no tem computador, por qu? RUBENS Quem disse pra senhora que eu no tenho? VERA Tem?gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 260(Black plate)260GORA LIVRE DRAMATURGIASRUBENS O Lus me fez o favor de comprar, com a primeira parcela da Secretaria. VERA E onde que ele est? RUBENS No quarto, pode ir l ver. muito til. Eu estou fascinado, confesso. Mas no existe o que possa substituir aquilo que voc capaz de fazer recolhido com seus botes, de madrugada, em silncio, numa hora em que esto todos dormindo. Computador nenhum capaz de fazer voc pensar com originalidade e resolver as questes que realmente importam. preciso encontrar dentro de ns por onde caminhar, e essa viso, essa inspirao no est arquivada em parte alguma do mundo. Ao contrrio do que a senhora possa pensar, eu no tenho preconceito com nada. VERA Desculpa, eu... Ando meio estressada e... Me desculpa, mesmo. LILINHA Sabe o que eu acho? Eu saquei esse lance no meio de uma sesso... (sem jeito por causa do Rubens) Quer dizer... VERA Lilinha, no. RUBENS (divertido) A senhora esprita ou o qu? LILINHA No, era uma sesso do Dai-me, o senhor sabe o que ? RUBENS Ouvi falar.gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 261(Black plate)261LILINHA Eu preciso levar o senhor pra ver. lindo, lindo. como se fosse uma internet na cabea da gente. Como se fosse a internet dos ndios e que eles deixaram pra ns. O Ayahuasca um ch que a gente prepara, e ele abre todos os canais. Com o ritual, ele consegue conectar a gente com tudo, com o astral, com tudo o que existe. Comparado com ele, essa internet do mundo parece um circo sem po. Ou um circo pros que tm po. Porque essa coisa, do jeito que est, parece que no tem mais fim. Eu j disse pra Vera que como se fosse o fim do mundo, e o anticristo tivesse tomado conta, e ela fica me gozando. Eu acho que ele est a, e como se ele no tivesse cara. Porque todo mundo pensou que era o Hitler, com aquela coisa do nazismo, e depois que era o Sadam Hussein, coitado. Tomou uma sova dos americanos. O anticristo mesmo eu acho que essa coisa que assumiu as rdeas do mundo com a economia. ou no ? (olha pra Rubens) O senhor entende o que eu...? RUBENS Entendo muito bem. RODOLFO Acho que anticristo mesmo so minhas mulheres, que dizem que acreditam em Deus, mas s pensam em dinheiro. LILINHA Ah, Rodolfo, voc me cortou. RUBENS Quantas mulheres o senhor tem? LILINHA Muitas. RODOLFO Duas. Com filhos, duas. E, depois que inventaram esse negcio de penso, o homem divorciado virou escravo. E at que a Lilinha tem razo, com essa histria de anticristo. Os bancos enlouquecem o mundo, com esse poder que eles tm, devem ser eles, mesmo. No v os juros? E os economistas tambmgora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 262(Black plate)262GORA LIVRE DRAMATURGIASdevem estar na jogada. E a gente fica sem sada. Eu estourei todos os meus cartes pra pagar as contas, mas a culpa deles, que no do colher de ch prum pai de famlia com trs filhos. LILINHA Voc, pai de famlia? RODOLFO Posso no ser de famlia, mas sou pai. Eles pegam pesado, e eu jogo sujo tambm, fazer o qu? No vou passar a po e gua, enquanto eles faturam com a minha desgraa. Pra pagar, s se eu ganhar na loteria. Porque uma bola de neve, minha dvida parece a do Brasil, s faz crescer. LILINHA T bom, Rodolfo, chega. LUS Vera, uma surpresa que eu tinha preparado pra voc, e nem sei se voc merece. Est aqui aquela pea que voc queria ler. Est aqui. A luz muda e todos os atores congelam, menos Lilinha, que vai at Lus e pega o texto que ele tem nas mos e o entrega a Vera, enquanto diz o texto que se segue. CENA 13 LILINHA (l um fragmento do que Rubens escreveu) Desmascaramento. Todos tm, oculto em si, o ator. Mdico e monstro, para ser, o ator NO . No , para que a personagem seja e, em cima dessa contradio, toda a arte teatral se processa. Quando o ator trabalha apenas com a personalidade, acaba por desprezar os veios mais profundos do tesouro que a arte pode proporcionar. Pois o teatro arte alqumica, que oferece ao adepto a oportunidade de uma transformao cabal... T vendo, Rodolfo? Televiso no a mesma coisa, porque voc tem que aparecer e brilhar. Teatro diferente. como no Dai-me. L, de tanto repetir o hinrio, eu acabo me sentindo fora de mim, de um jeito parecido com o palco.gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 263(Black plate)263LUS D um tempo, Lilinha. E a, Vera, leu a pea? O que que voc achou? Ele escreveu pra voc. VERA Claro que no foi pra mim. RODOLFO (preocupado) Mas no vai dar bode? Voc disse que o meu papel o do Secretrio, mas ele aparece como um belo dum filho-da-puta! Quando ele descobrir... LUS Bode nenhum. RODOLFO Mas ele j leu? Ele no vai querer patrocinar uma pea que... LUS Ele no vai ler. Ele no tem tempo pra ler. LILINHA Mas no a vida deles, Rodolfo, s uma pea, fico. Ningum vai perceber. Pra qu que ele ia ligar? VERA , legal. Mas uma coisa eu no entendi. Voc no disse que ela era atriz? Na histria, ela no . LUS Como no? Faz teatro de estudantes. Na vida tambm ela abriu mo do teatro profissional. S fez no comeo, por paixo. VERA Ento, tudo um pouco idealizado demais, eu acho.gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 264(Black plate)264GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS porque ela encarna o ideal deles, por isso. Eles conseguiram viver uma utopia, era um tempo mais feliz. Existia um projeto, uma esperana. No era s teatro, no era s mais uma pea, nada disso. O que norteava tudo era a perspectiva de uma mudana radical, poltica, que no veio. Eles se amaram enquanto faziam peas em sindicatos e faculdades, pela cidade, sempre pregando. VERA Deixa eu te dizer uma coisa, Lus. Voc no percebe quando mente? Me diz. LUS Por que isso agora? VERA Porque j doena. Voc no disse que era uma pea sobre ela? LUS Desculpa, que, pra ele, no tem importncia a histria pessoal. Ele preferiu colocar o amor deles dessa forma, essa paixo em ao, compartilhada, na militncia artstica e poltica. Foi por isso que ele deu a pea pra gente. Ele acha que pode ajudar a gente a se encontrar. Porque o que forma um grupo uma crena comum, e ns no temos nenhuma. VERA (sem entender) Como no? LILINHA T vendo, Vera, eu no falei? VERA (indignada) Falou o qu? Aqui, cada um pensa to diferente, que s formando quatro grupos. Um pra cada um. RODOLFO Mas teatro no igreja, nem partido, desculpa. Ns no estamos aqui reunidos, e tudo? O que que ele quer?gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 265(Black plate)265LUS Um grupo no um bando de gente reunida pra fazer uma pea. No . RODOLFO difcil, hoje em dia, o que que ele t pensando? A gente no tem nem onde ficar, nem sede, nem teatro, nem porra nenhuma. Claro que o jeito se reunir de vez em quando, conforme der. LUS Mas, pra fazer, a gente precisa discutir essa questo. Pra ele, sem um projeto maior que a pea, no existe um grupo. RODOLFO Mas ns j temos dois projetos. No tem o outro pro fim do ano? Ento... LUS Mas pouco, Rodolfo, no isso. LILINHA Pouco por qu? O Rodolfo tem razo, no tempo deles, era diferente. No d pra fazer igual. LUS Lilinha, ningum t querendo fazer igual. s uma questo de compreenso do sentido de grupo, como aparece na pea. VERA Pelo que eu entendi, eles se sentiam o centro do mundo e achavam que a Histria dependia deles. E acabaram acreditando que eram heris. Mas o que eles faziam era terrorismo. E muitos morreram por causa disso. LUS Que terrorismo, o qu. Era uma luta poltica. RODOLFO Eu no quero nem saber. O que interessa o patrocnio. Quando que sai?gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 266(Black plate)266GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS T tudo certo, s falta a gente ir l, assinar. RODOLFO A, garoto! (todos se abraam e comemoram) LUS O nico problema que eles querem que a gente leve o Rubens no dia da assinatura do contrato. LILINHA E da? LUS Ele disse que no vai, de jeito nenhum. VERA Como no? LUS E o Secretrio faz questo, a gente vai ter que dar um jeito. RODOLFO A Lilinha pode falar com ele. Ele gostou dela, deu pra ver. LUS , mas ele teimoso. E o pior que eu acho que o Secretrio est mesmo querendo humilhar ele. VERA Como, humilhar? Ele no vai bancar tudo? Claro que ele tem direito de faturar em cima, por que no? No tem cabimento. Ele a estrela do evento e no quer aparecer? Tenha pacincia. LILINHA Deixa comigo, eu falo com ele. Ele vai aceitar, sim. Ele no diz que o nogora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 267(Black plate)267e o sim so mais prximos do que parecem? Deixa comigo. CENA 14 RUBENS Pra qu essa roupa nova, menina? Eu j disse que eu vou, no disse? Vou com as velhas, mesmo, no quero enganar ningum. LILINHA Mas uma solenidade. O que custa? Olha aqui, essa camisa, que linda! (mostra uma camisa cor de maravilha) RUBENS Essa, como? Eu no posso usar uma coisa dessas. LILINHA No tem nada de mais. Prova, no discute, prova. RUBENS Vocs esto querendo me fantasiar de qu? (enquanto se troca) Ah, no, gravata, de jeito nenhum. VERA O senhor no vai ficar com ela pra sempre. LILINHA Seu Rubens, no custa. a assinatura do contrato, e os jornais vo estar l. RUBENS Jornais, pra qu? VERA o preo, homem, o que que o senhor quer? Eles querem bancar, eles vo mesmo bancar. Custa, um sacrifcio?gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 268(Black plate)268GORA LIVRE DRAMATURGIASRUBENS Eu no vou ficar confortvel. Parece uma palhaada. LILINHA Seu Rubens, foi uma sorte conseguir. Faz parte cumprir o ritual. Claro que poltica, mas faz parte. RUBENS H mais de quarenta anos que eu no uso uma gravata. (comea a dar o n) Quando eu comecei, eu era certinho, eu tinha at esquecido. At destoava dos outros, sempre de palet e gravata. Olha s, que coisa sem p nem cabea. (no espelho) Vo achar que eu enlouqueci. Esse homem a no sou eu. (comea a tirar tudo) VERA Eu desisto. RUBENS Eu odeio provar roupa, me tira do eixo. Eu s resolvi fazer teatro pra poder no ligar pra coisa nenhuma, muito menos pra roupa. Na hora, eu visto qualquer uma, pode deixar. LILINHA A gente no o que veste, mas faz parte, seu Rubens. RUBENS Eu sei que problema meu, mas eu odeio me apresentar como um autor. Porque eu no sou. Quando eu escrevo, eu no sou autor, eu no sou nada. Nada de nada. Era isso que eu queria. Queria era uma roupa de nada. LILINHA Ento, que tal essa preta? Vai parecer uma rotunda, no nada. RUBENS O artista s cria nu. No que seja sem roupas, mas a atitude de uma nudez... Assim, de alma. Ele no pode se preocupar com nada.gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 269(Black plate)269LILINHA Mas ele tem que vender seu peixe. Na hora de vender, outra coisa. VERA Eu j vou indo. No tem o menor cabimento. Eu estou convencida de que o senhor completamente louco. A gente no pode perder mais tempo. Deixa ele ir nu, se ele quiser. A reunio daqui a quinze minutos. RUBENS Como, quinze minutos? LILINHA O tempo passou e a gente no se deu conta. Vamos logo, Seu Rubens. VERA Eu vou indo, vocs vo chegar atrasados. (sai) LILINHA Por favor, seu Rubens, vamos logo. Ela vai jogar isso na nossa cara o resto da vida. to importante a gente conseguir. Por favor. RUBENS Pelo menos, sem gravata. Pronto, eu estou pronto. T bom assim? Eu sou isso, assim mesmo, desse jeito, incompleto. E j me conformei com isso. CENA 15 RODOLFO Que foi engraado, foi. O Secretrio fazendo o discurso e falando maravilhas, mas ele fingindo que no era com ele, nem olhou pra cara do outro. LILINHA Como se no estivesse entendendo nada. Como se fosse gag. (ri) RODOLFO Eu acho uma sacanagem o que ele faz com o Secretrio. Ele at simptico.gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 270(Black plate)270GORA LIVRE DRAMATURGIASNo sei como ele tem coragem. Aceita o dinheiro do outro e depois xinga o cara no palco. LUS No o Secretrio, Santo Deus! o personagem, que sabe se arrumar com o poder, s isso. RODOLFO Mas ele puxa a brasa pra sardinha do escritor, o tempo todo. LILINHA Se eles no forem diferentes, fica sem colorido. Tem que ter uma contradio. RODOLFO Claro que tinha que perder ela pro Secretrio. A mulher presa, ele ficou na dele, lavou as mos, no quis nem saber. VERA Mas o outro tambm no fez nada. LUS Eles no eram do mesmo partido. Ela fez a opo l dela, nenhum dos dois pde fazer nada. RODOLFO Que panaca! Foi o Rubens que deixou ela ir luta, sozinha. O Rubens! LILINHA Ela nem estava mais com ele. RODOLFO Ele tinha que ter pegado em armas, como ela. Tinha que ter morrido! LILINHA Que horror! Se tivesse morrido, no tinha pea.gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 271(Black plate)271VERA Mas existe uma culpa, l no fundo. Como se ele no tivesse se perdoado. LILINHA Claro, ele no internou ela? VERA Uma coisa que eu no entendo essa mania dele de dizer que ela est viva. LUS Mania, por que? Eu no te contei? porque ela est. Ela est viva, sim, senhora! VERA Como, est? E onde que ela se enfiou? LUS Ningum sabe, fugiu. Sumiu no mundo. Deu um golpe no Secretrio, pegou uma grana e caiu na estrada. Ningum sabe onde foi parar. LILINHA Que maravilhosa! Claro, nenhum dos dois merecia ela. Fez ela muito bem. VERA Mas, na pea, ela no morre? LUS o que eu tou dizendo. A pea s inspirada neles. E a culpa de que voc fala no bem essa. Ele s quis refletir sobre a dificuldade dos que no morreram. No por causa deles, mas porque ele v uma ruptura, que fez com que eles no conseguissem passar o basto da Histria pra nossa gerao. Essa a questo. como se ele assumisse que eles tm uma dvida conosco. E da o cinismo e o besteirol e o teatro desengajado que a gente pratica. Ele quer pr o dedo nessa ferida. RODOLFO Eu no entendo esse preconceito. Eu adoro besteirol.gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 272(Black plate)272GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS sua cara, mesmo. VERA Que responsabilidade? Que coisa mais neurtica! Eles no tm nada a ver com isso! RODOLFO Que cara chato! VERA Onde j se viu ele assumir uma responsabilidade desse tamanho? Que coisa mais onipotente! LILINHA O Rodolfo s est de bronca por causa do personagem dele. RODOLFO Que personagem, o caralho! Esse velho que muito enjoado. LILINHA (explode, emocionada) Enjoado, nada. Ele srio, muito srio. Voc no sabe como ele saiu da Secretaria! (culpada por ter omitido) Lus, quando eu deixei ele em casa, ele estava bem estranho. No abriu a boca, no falou nada no caminho. VERA Devia estar cansado. LILINHA (para Lus) No, no era isso. Ele estava mal. Era bom voc ir falar com ele. No custa. D uma ligada, pelo menos. CENA 16 LUS Eu fiquei preocupado. Voc desligou o telefone por qu?gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 273(Black plate)273RUBENS No foi nada. LUS Voc t abatido. RUBENS No nada, no. Eu estou... Nada mesmo, t tudo bem. LUS Pode falar. RUBENS Eu tentei, voc viu que eu tentei. Levei numa boa a reunio, o encontro, tudo. Mas foi um erro. Foi um erro. Um erro. Eu fiz mal, no adianta me enganar. Eu tou enojado comigo. Enojado! LUS Quando a gente vai numa dessas reunies, bate uma ressaca, faz parte. RUBENS Eu queria sumir, como ela. como se faltasse um pedao dentro de mim. Di, sabe, Lus? Di! Ele achava que ela era radical, mas, mesmo assim, era apaixonado por ela, tanto quanto eu. Ela sempre foi melhor do que ns dois juntos. Ela cobrava. O tempo todo ela cobrava. E obrigava a gente a aprofundar todas as questes. No era patrulha, era certo. Ela nunca fez mdia com coisa nenhuma. Sem isso, no resta nada! LUS Porque que voc nunca foi atrs dela? RUBENS At nisso ela foi radical: nunca escreveu, sumiu de vez. E acho que foi a coisa certa. impossvel mudar sem matar o passado. Ontem, na Secretaria, eu aceitei fazer o papel de mim, como os outros me vem. Assumi minha vida, meu passado, e eu no sou isso, claro que no. Era maisgora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 274(Black plate)274GORA LIVRE DRAMATURGIASconfortvel o papel de suicida, louco e ausente. LUS Mas ela deve ter construdo outra vida. E voc tambm precisa se cuidar. Ningum vive fora do mundo. Voc fala como se ela tivesse conseguido preservar uma pureza, mas voc tambm! RUBENS Ela deve ter encontrado uma nova trincheira, eu tenho certeza. E eu no sei inventar outra, sem ela. Porque eu fiquei aqui, apatetado, desse jeito, congelado, neste apartamento, e no entendo mais o sentido da vida, nem da minha, nem da dos outros. Depois que voc chegou com essa histria da pesquisa, eu andei tentando me enganar. Mas eu no sei. E quer saber? Eu tentei mesmo o suicdio, no foi nada forjado. Depois, eu fiquei sem graa, e inventei aquela histria toda, menti. Enquanto eu estava l pra assinatura do contrato, ela no saa da minha cabea e eu tenho certeza que o Secretrio tambm no pensava em outra coisa. Ele est pouco se lixando pro projeto. O dinheiro s tem a ver com ela. LUS Mas o que importa que ele deu. RUBENS Ningum cede impunemente. Quando voc faz o jogo do sistema, pensando em levar vantagem, voc se contamina de alguma forma. E se contagia com os vcios que quer combater, impossvel passar batido, atravessar ileso. LUS Mas, pra viver, preciso jogar, no existe outra forma. RUBENS Mas, no campo do inimigo, voc j entra em desvantagem. Ele sabe disso muito bem, ele sempre foi uma das melhores cabeas. E sabe tambm que, ao ir l, eu assinei minha rendio. Ele pragmtico e s acredita nos frutos da ao objetiva, mas, mesmo assim, eu vi uma tristeza nova nos olhos dele. Ele sabe que tambm perdeu com meu fracasso. No foi uma simples vitria, nogora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 275(Black plate)275foi uma vitria verdadeira. Nem ele, nem eu conseguimos ficar com ela, que era o que contava. E agora eu me rendi ao caos. L, enquanto assinava, eu estava me rendendo ao caos. LUS Voc no est exagerando? Foi s um contrato. Todo mundo assina contratos, faz parte. RUBENS O caos s existe e cresce cada vez mais, porque todos acham que no vale a pena resistir nem se indignar com mais nada. E eu no vejo sada. Talvez, se ela estivesse aqui, eu conseguisse compreender. Claro que pra viver voc tem que sujar as mos. Mas tem um limite. Eu no sei se vou suportar. CENA 17 LUS Gente, ele est em crise. Eu no sei se no foi um erro levar ele l. VERA Erro, por qu? Ele adulto, assumiu um compromisso, agora no pode voltar atrs. LUS Eu sei, eu sei... RODOLFO Desculpa, eu tenho que ir andando. LILINHA D um tempo, Rodolfo. RODOLFO No posso, j faltei a duas audincias. O juiz no mole. capaz de ele mandar me prender, dessa vez!gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 276(Black plate)276GORA LIVRE DRAMATURGIASLILINHA Audincias, que audincias, Rodolfo? De novo? RODOLFO As duas se juntaram, agora. Querem acabar comigo. LILINHA Vera, voc tem toda razo, a gente nunca foi um grupo. Nem sei se a gente tem condio de fazer uma pea assim, to... to... VERA Espera a, s por causa do Rodolfo? Uma coisa no tem nada a ver com outra. LILINHA O Rodolfo nunca tem tempo, e odeia discutir. Assim no d. LUS Esquece o Rodolfo, Lilinha. Eu estou preocupado com o Rubens, porque ele no est nada bem. No fingimento. Ele est dilacerado por ter aceito o patrocnio. VERA O QU? Esse homem no regula. Ele quer viver do qu? De brisa? LUS Ele diz que a ingenuidade e a pureza so a nica forma... VERA (corta) Pureza, agora? Voc sabe mentir muito bem quando te interessa, quando te convm. (furiosa) A esta altura, com tudo assinado, duvidar? Tenha pacincia. LUS Mas ele tem razo. No tem como fingir, Vera. Tem uma coisa, l dentro, que voc no consegue trair, sem se violentar. Se voc est cheio degora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 277(Black plate)277problemas, torturado, o que que voc vai fazer? Despejar seu lixo sobre os outros? VERA Isso bonito de falar. Eu quero que os outros se danem. Esse homem louco, obcecado, Santo Deus, nunca vi uma coisa igual. Eu no me conformo. Ele j escreveu a pea. Pronto. Ele que fique na dele, no tem nada que interferir. A nica coisa que me deixa segura que ele no pode mais voltar atrs. LUS Pode, sim. Claro que pode. VERA Era s o que faltava... LUS Tem uma clusula... VERA Que clusula? LUS Ele se reservou o direito de desistir, se achar que a coisa no... VERA Como que voc deixou passar uma coisa assim? Lus, como que voc fez uma cagada dessas? RODOLFO Ele no pode fazer isso com a gente! VERA Quer dizer que agora a gente vai depender do humor do homem, para saber se a coisa sai ou no sai? Ele louco, no vai dar certo.gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 278(Black plate)278GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS Chega, Vera, nem mais uma palavra, chega. Quer saber? Se a coisa no sair, a culpa vai ser sua. Voc tem que se abrir, ser que voc no entende? T pensando que vai usar o Rubens, como se ele fosse... sei l... um idiota? Ele no um idiota, e voc que est sendo estpida, burra e teimosa. Voc no me deixa falar. O projeto s saiu porque eu acreditei. Mas voc continua duvidando, e eu estou de saco cheio. Se manca. Se voc no quiser, no precisa fazer a pea com a gente, t bem assim? VERA Ah, voc est querendo me tirar, Lus? Agora que eu entendi. isso que voc quer? LUS No quero tirar ningum. S estou dizendo que justo que a coisa seja feita com a cara dele, do jeito que ele achar melhor. Ele o autor, ser que voc no entende? VERA Ele o autor, e eu sou uma atriz. LUS um sujeito perfeitamente razovel e lcido, e no vai aprontar. Se ele desistir, vai ser por uma boa causa. VERA Boa causa? LUS Eu no vou fazer nada que v contra o que ele acredita e muito menos contra o que eu acho certo. Eu confio muito mais nele do que em voc. VERA Ah, assim? Ento assim? (pros outros) Vocs ouviram? Vocs ouviram? Mas que merda! Se voc pensa que pode falar comigo desse jeito, est muitogora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 279(Black plate)279enganado. Eu no preciso dessa merda, t sabendo? Fodam-se, voc e o seu autor! Eu estou fora! FO-RA! (sai, batendo a porta) LILINHA Calma, gente. Vera, espera! CENA 18 LUS Desculpa, eu sei que tarde. Mas eu e a Vera brigamos... e eu achei melhor vir falar com voc. Eu estou precisando. RUBENS Entra. LILINHA Eu quis vir junto, o senhor se importa? RUBENS No tem problema, claro que no. Vamos entrar. LUS Desculpa, eu sei que no problema seu. Mas eu minto demais e nem sei mais quando tou falando a verdade, porque tudo to louco. S sei que est tudo errado, continua tudo errado, e no porque eu minto. Claro que no. (explode) Eu estou cansado! Cansado! Eu odeio discutir, mas ela no acredita em nada e s vive me cobrando. Parece que tem prazer! Se, pra fazer teatro, eu vou ter que brigar assim, o tempo todo, discutir tudo, sem parar, eu no sei se eu quero. Ela nunca assume o que feito pelo outro. E agora, ficou louca, quando soube da clusula que te d o direito de desistir. RUBENS Calma, ns estamos no mesmo barco. Eu no vou desistir. LUS No vai, como?gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 280(Black plate)280GORA LIVRE DRAMATURGIASLILINHA Mas, ento, voc no precisa sofrer desse jeito, Lus. Eu vou ligar j pra Vera, e vai ficar tudo bem. LUS No vai ligar nada pra ningum! Espera, Lilinha. Explica melhor, Rubens. Como, no vai desistir, por qu? Desde o incio, a gente conversou direitinho, e voc sabe que tem todo o direito de mudar de idia. RUBENS Eu tenho um compromisso com voc, Lus, e vou cumprir. Agora no existe mais teu e meu. Minha pea agora j sua tambm, por direito. Claro que . E o que estamos passando tambm problema nosso, no s seu. LUS Eu nem sei... Sabe por que que eu minto? No fundo, o que as pessoas esperam. Eu sinto isso. Ningum quer saber da verdade, porra nenhuma! Todos s querem ouvir o que escolheram como verdade. E querem a confirmao de que esto certos. Mas que verdade? E eu me viro. Ela diz que no tem preconceito com nada, mas mentira. Vive pegando no meu p por causa do Jlio. Ele me ajuda, mas no tem nada a ver com a nossa relao. No fundo, ela tem inveja, porque no tem ningum. E eu no posso sair por a anunciando que namoro o rapaz que assessora o Secretrio. Ningum ia entender. Isso no mentir! LILINHA O Seu Rubens no vai desistir, Lus, no tem mais problema. LUS Tem, porque sou eu que no quero mais. Eu no suporto mais olhar pra cara dela, nem ouvir o Rodolfo falar das mulheres dele. Parece que no tem fim. Parece que ningum quer saber do que interessa. RUBENS Senta, Lus, relaxa. Todo mundo s vezes tem vontade de jogar tudo pro alto e sumir. Mas no tem pra onde, essa que a verdade. No tem.gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 281(Black plate)281LILINHA Calma, Luisinho, vai ficar tudo bem. RUBENS A contradio faz parte da vida. Existe uma responsabilidade de quem est no comando, e, no caso, voc est. LUS Eu, no comando? Desde quando? RUBENS Desde que o projeto saiu. Voc no pode querer eliminar a Vera desse jeito. Ela est em voc, no vai adiantar. Desculpa, eu sei que a culpa foi minha. Ontem, quando voc veio, eu desabafei com voc como amigo. Mas eu no posso voltar atrs. A assinatura do contrato mexeu comigo, mas acabou sendo uma libertao. Esse tempo, todo eu me viciei em culpar o Secretrio pelos meus problemas. Mas, se eu quiser continuar a viver, eu vou ter que participar de tudo como existe. E essa sua crise tem um lado bom. Tem um nvel de pensamento que a gente s atinge quando entrega os pontos e desiste. Como se fosse uma morte. Mas, se voc pra e olha pro problema que tinha, ou que pensava que tinha, vai ver que... no tem mais importncia. LILINHA O Rubens tem razo, ns podemos no ser um grupo, mas ns somos amigos, Lus. No fundo, eu sei que voc gosta dela. LUS Eu acho que ns no estamos altura da sua pea. Como que eu posso defender no palco suas idias, se, na vida, eu no consigo praticar? RUBENS A prova de que voc est altura duvidar. Voc est muito diferente do menino deslumbrado que apareceu aqui a primeira vez. E, se cada vez que algum duvidasse, largasse tudo, o mundo no saa do lugar.gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 282(Black plate)282GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS Ela faz anlise, mas parece que no adianta. No acredita em nada. Como que vai poder fazer a personagem? RUBENS Acredita, sim, e nem sabe que acredita. s vezes, a vida obriga voc a vestir uma mscara e, depois, voc no sabe mais como tirar. E, mesmo quando um ator no conhece a personagem, nos ensaios, ele pode ir descobrindo as facetas escondidas que nem imagina que tem. E, com isso, ele cresce e se transforma. E eu duvido que ela consiga ensaiar o papel da Nina sem se envolver. Ela vai se contagiar da beleza da personagem, eu tenho certeza. Mas isso s vai ser possvel se vocs confiarem nela. LILINHA Ela tambm no me respeita, Lus, o jeito dela. No v como ela fala comigo? Eu no posso abrir a boca. Ela quase no dorme, por isso que vive tensa. Porque sono tambm vida, isso que ela no sabe. O sono no uma bno, Rubens?! Ele apaga tudo de ruim que a gente passa durante o dia. Como se fosse um perdo. E isso que a gente tem que fazer, Lus, a melhor coisa agora a gente ir dormir. Amanh, voc acorda outro, voc vai ver. LUS Mas que que eu tenho a ver com a loucura dela, me diz? RUBENS Porque no s dela, sua tambm. E o nico problema que vocs esto com medo. LUS Medo de qu? Ela no tem medo de nada. LILINHA Deixa de ser tonto, Lus. Claro, ns todos estamos mexidos. Pra ela, deve ser ainda mais difcil, porque no acredita em nada.gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 283(Black plate)283LUS (para Rubens) Mas no existe uma contradio enorme entre o que voc prega e essa forma pela qual a gente vai fazer a pea? A gente vai, pega o dinheiro, toma mil compromissos com tudo e obrigado a dar o crdito pra Secretaria, pra todos os apoios? um inferno, tudo isso. Isso no invalida tudo? RUBENS No, no invalida, no. Se no for assim, essas idias no vo sair do papel. Mesmo que exista uma contradio, o nico jeito. Pode ser que pra algum, que a gente nem sabe quem , elas possam ser um estmulo, provocar uma descoberta, ser o estopim de uma transformao, quem sabe? E vai ter valido a pena. E principalmente cada um de vocs tambm vai se transformar, com certeza. Uma pea no uma coisa morta. Eu tenho certeza de que a Vera vai se transformar, e voc e eu tambm, mesmo a distncia, todos ns vamos mudar, e isso que importa. (olha pra Lilinha) Vocs so um grupo, sim. Um grupo do incio do milnio, no Brasil, com todas dificuldades que isso possa ter. Eu quero te agradecer, Lus: voc veio at aqui e me tirou de um limbo onde eu tinha me metido. Minhas idias no servem pra nada, se no forem passadas adiante, pra ouvidos jovens, como os de vocs. LUS Por que que, na hora H, d esse frio na barriga, Santo Deus? Eu tou morto de medo! RUBENS T tudo certo, Lus.Vamos em frente. (a luz cai, em contraluz, e o iluminador d meia platia) CENA 19 LUS (se dirige cabine de luz) Pessoal, vamos dar uma passada na luz da cena final. (chama pelos outros) Rodolfo, chega aqui. Vera, vem dar uma fora. Eu j volto. (ele sai, a luz passeia pelo cenrio)gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 284(Black plate)284GORA LIVRE DRAMATURGIASRODOLFO (cantarola) ... assim pungente, no h de ser inutilmente... a esperana VERA (cantarola) cada paraleleppedo da velha cidade esta noite vai se arrepiar... Entra uma msica de transio para o final. LILINHA Gente, eu nem acredito, passou to depressa. Eu morro de medo de estria! VERA Rodolfo, suas duas mulheres esto l fora. No maior papo, juntas. Voc louco? RODOLFO Elas que quiseram, esto amigas, nem se largam mais. Ando at desconfiado. VERA Desconfiado, como? RODOLFO Brincadeira, elas me adoram. A Lilinha que no quer saber de mim. (corre atrs da atriz) LUS (entra pela platia) Pessoal, olha quem chegou! RUBENS Eu s vim dar um abrao. LILINHA Que flores lindas, Rubens, que maravilha!gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 285(Black plate)285VERA Eu tambm adorei, obrigada pelas palavras. Meu Deus, a camisa! Lilinha, no t vendo? aquela. RUBENS Em sua homenagem. Ah, o cenrio est igualzinho ao meu apartamento!? E a, tudo pronto? LUS Eu estou estranhando sua animao. No t nem um pingo nervoso? RUBENS Eu estou feliz. Pra mim, j foi um sucesso. Ela me mandou um carto. Soube da estria e mandou. LILINHA Ela, quem? No possvel! Depois de tanto tempo? Deixa eu ver. Meu Deus, veio da ndia? Ento ela est l? (l) Agora, eu vivo com Shiva. Meu Deus! RODOLFO Que filha-da-puta. Ela casou com um indiano? LILINHA (ri) Que indiano, o qu! um Deus, Rodolfo. T aqui a imagem, no carto. Aquele, de muitos braos. RUBENS Os adeptos de Shiva acreditam que a melhor forma de devoo a Deus mostrar o quanto a prpria vida um teatro. Por isso, largam tudo e vivem sem nada, pelas ruas, o rosto coberto de cinzas, sem mais nada. Abrem mo at deles mesmos. LILINHA (continua a ler) Vera, olha que lindo! Ela diz: Fora! Ns estamos juntos! A distncia no importa! Como que ela adivinhou?gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 286(Black plate)286GORA LIVRE DRAMATURGIASRUBENS E a, Lus, no pra ficar contente? VERA Rubens, vem c. Eu quero falar com voc. Obrigada... por tudo. Vai ser um sucesso. Eu nunca fiz uma pea to forte. Eu estou apaixonada pela Nina, pela pea, por voc, por tudo. Voc vai jantar com a gente, no vai? Eu no aceito recusa. RUBENS Claro, vamos jantar todos juntos e comemorar. LUS Ela est mesmo apaixonada, Rubens, melhor voc se cuidar! RODOLFO Gente, t na hora! O autor, j pra platia. Vai comear! LILINHA Rubens, espera! Eu quero te dedicar uma frase sua. (vira-se para a platia) Orao e f criam o que acontece... (pausa, torturada) Esqueci. (corre e Rubens a abraa) RUBENS Por orao, entenda-se tudo o que se fala. (sopra baixinho pra ela) E, por f... VERA (com ar maroto) ... at mesmo a ausncia radical de qualquer tipo de crena. Lilinha sai correndo atrs da outra, e Rubens descobre Lus melanclico, abre os braos e todos se abraam.gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 287(Black plate)287FAUZI ARAP ator e diretor. Estreou como diretor profissional na montagem de Navalha na Carne (1966), de Plinio Marcos, na verso carioca produzida por Tnia Carrero. Na dcada de 1970, estria como autor, com Pano de Boca, e passa uma temporada dirigindo apenas seus prprios textos: O Amor do No, Um Ponto de Luz, entre outros. No final da dcada de 1980 cria o projeto Rosa dos Ventos que ocupa o Teatro Eugnio Kusnet por dois anos e consegue recuperar o espao com encenaes, leituras e shows de msica popular. O projeto mereceu o Grande Prmio da APCA, e lanou a autora Noemi Marinho, com Fulaninha & Dona Coisa, seu texto de estria. Tambm na dcada de 1980, coordenou o seminrio permanente de dramaturgia da APART (Associao Paulista de Autores Teatrais). Seus trabalhos recentes incluem direes de peas de Leilah Assumpo, Leo Lama, Juca de Oliveira, Jos Vicente, Mrio Bortolotto, e dos shows mbar, A Fora que Nunca Seca, e Maricotinha, todos de Maria Bethnia. Seus prmios incluem dois Molire, como autor, (1977 e 1988), mais inmeros prmios Shell, Mambembe, APETESP e APCA, como diretor e autor. Pelas direes de Santidade e Caixa Dois (1997), recebeu os prmios Shell e APETESP de melhor direo; os dois espetculos tambm foram escolhidos na categoria melhores do ano. Publicou pela Editora Senac o livro Mare Nostrum (1998), relato autobiogrfico em torno de suas experincias lisrgicas, vividas nas dcadas de sessenta e setenta. O Mundo Um Moinho foi produzido no Rio de Janeiro, pela Casa da Gvea (2003), com direo do autor e tendo no elenco Caio Blat, Cludio Cavalcanti, Maria Ribeiro, Cristiana Kalache e Paulinho Giardini.gora_09.qxd8/9/062:57 PMPage 288(Black plate)gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 289(Black plate)NOVAS DIRETRIZES EM TEMPOS DE PAZdramaturgo: Bosco Brasil debatedor: Gianni RattoMONTAGEM direo: elenco: cenrio e figurino: trilha sonora: luz: produo executiva: Ariela Goldman Dan Stulbach e Jairo Matos Ariela Goldman Aline Meyer Rodrigo Guimares Aline Meyergora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 290(Black plate)290GORA LIVRE DRAMATURGIASNOVAS DIRETRIZES EM TEMPOS DE PAZuma fbula de Bosco Brasil PERSONAGEM CLAUSEWITZ SEGISMUNDOpor volta de 40 anos, ator por volta de 40 anos, interrogadorCENRIO sala na Imigrao do Porto do Rio de Janeiro POCA dcada de 40, sc. XXgora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 291(Black plate)291Segismundo est limpando as unhas nervosamente. Clausewitz abre a porta com cuidado. Segismundo sinaliza para que ele entre. Clausewitz entra e fecha a porta atrs de si. De fora, chega o apito rouco e insistente de um cargueiro que se prepara para zarpar. SEGISMUNDO Por que isso sempre acontece comigo?... (para Clausewitz) Eu tenho que ir para casa depressa. Entende? Ordens. De l de cima. (para si) Justo hoje esse sujeito me aparece? Clausewitz reage palavra sujeito. SEGISMUNDO Onde est o seu passaporte?... Eu deixei aqui, em algum lugar. Pode sentar. (sinaliza e fala com todas as letras) Sentar. Pode. Na cadeira. (tempo) S quero ver como que eu vou me entender com esse sujeito... CLAUSEWITZ (murmura) Sujeito... Predicado... Objeto... (tempo) Objetos. SEGISMUNDO Voc fala portugus? Clausewitz faz um gesto evasivo com a cabea. SEGISMUNDO Sei. Um pouco. Melhor... Deixa eu ver: a gente vai ter que preencher isto aqui. (coloca um papel na mquina de escrever) Por que mudaram a frmula do depoimento outra vez?... Esse pessoal no sabe o que quer. (datilografando) Distrito Federal... (para si) Que dia hoje? CLAUSEWITZ Dezoito de abril de 1945.gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 292(Black plate)292GORA LIVRE DRAMATURGIASSEGISMUNDO O senhor fala bem portugus, ento? Clausewitz faz mais um gesto evasivo com a cabea. SEGISMUNDO Vamos ver se acabamos logo com isto... CLAUSEWITZ Sua esposa? SEGISMUNDO Minha irm. Vamos ver... Data de hoje, nome do depoente... CLAUSEWITZ Seu nome? SEGISMUNDO Como? CLAUSEWITZ Seu nome. SEGISMUNDO Segismundo. CLAUSEWITZ Segismundo? SEGISMUNDO Meus pais morreram eu ainda era de colo. Nunca vou saber por que ganhei esse nome. CLAUSEWITZ Segismundo. (tempo) Sabe, esse nome... No. O senhor no vai se interessar. Eu tambm no me interesso por isso.gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 293(Black plate)293SEGISMUNDO (tempo) O senhor fala mesmo, o portugus. CLAUSEWITZ Eu falo. SEGISMUNDO J esteve no Brasil antes? CLAUSEWITZ Nunca antes. SEGISMUNDO Sei. E o senhor aprendeu como, o portugus? CLAUSEWITZ Estudei sozinho. Depois de tudo que eu passei... tudo que eu passei na Guerra... estudar uma lngua to estranha foi bom para mim, me fez esquecer... Eu sou grato ao x. Gastei muito tempo estudando os valores do x no portugus. Como que vocs usam de tantas maneiras uma letrinha toa?! Estudando o x eu s vezes quase esquecia da Guerra... Quase esquecia da maldade. (tempo) Claro, um funcionrio do consulado do seu pas em Manchester me emprestou alguns livros. Ele tambm repetiu no muitas vezes. Agora eu falo: no. SEGISMUNDO Era a obrigao dele. CLAUSEWITZ Repetir o no? SEGISMUNDO No se pode dar visto de entrada ao primeiro que aparece. CLAUSEWITZ Ah... Estava falando da pronncia. No. difcil dizer: no. Essas nasais da sua lngua...gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 294(Black plate)294GORA LIVRE DRAMATURGIASSEGISMUNDO Nazistas, o senhor disse? CLAUSEWITZ Por favor! Nasais! Nasais... No. Mo. Vero. SEGISMUNDO Ento, o senhor aprendeu com esse funcionrio do consulado? CLAUSEWITZ Eu j tinha estudado um pouco no seminrio. Por causa do meu professor de latim. O Professor Cracowiack... (tempo) Docta ignorantia. O senhor j ouviu isso, no? SEGISMUNDO No. O que ? CLAUSEWITZ Latim. SEGISMUNDO No estudei latim. CLAUSEWITZ O senhor nunca foi missa? SEGISMUNDO No. CLAUSEWITZ (tempo) O senhor sabe: meu pas um pas de catlicos como o seu pas. SEGISMUNDO Fui criado num orfanato luterano.gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 295(Black plate)295CLAUSEWITZ (tempo) Desculpai-me. SEGISMUNDO (tempo) Ento o senhor aprendeu portugus no seminrio... CLAUSEWITZ No. Latim... Com o professor Cracowiack, como eu disse. (tempo) Interessante. Nunca soube como o professor Cracowiack foi acabar dando aula no seminrio. (tempo) O professor Cracowiack amava as lnguas neolatinas. (tempo) Professor Cracowiack falava dezessete lnguas! (tempo) Ele tinha o exemplar de uma revista com poesia brasileira moderna. (se anima) O senhor j ouviu falar do senhor Carlos Drummond de Andrade? SEGISMUNDO o sujeito forte do ministro da Educao e da Sade. Eu sei que escreve num jornal. Parece que escritor. E o senhor, escritor? CLAUSEWITZ No, sou agricultor. SEGISMUNDO E aprendeu sozinho o portugus... No todo dia que chega um estrangeiro aqui, falando portugus. CLAUSEWITZ bom estar no Brasil. SEGISMUNDO Deve ser. (tempo) Escute, o senhor chegou num dia um pouco agitado. Precisamos resolver esta confuso logo. O senhor sabe que pela lei ainda estamos em guerra. Eu sei, eu sei... Na Europa a coisa parou. Logo vem o armistcio. Mas para ns, aqui na Imigrao, tudo continua o mesmo. Estamos esperando novas diretrizes para tempos de paz. Enquanto no chegam, continua o mesmo: se quer ficar no pas, como estrangeiro, o senhor precisa de um salvo-conduto. O senhor quer ficar no pas, no ?gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 296(Black plate)296GORA LIVRE DRAMATURGIASCLAUSEWITZ Eu quero. SEGISMUNDO Sei. Ento ns temos que esclarecer algumas dvidas a seu respeito. Se isso no for possvel, o senhor ser obrigado a voltar ao cargueiro e seguir viagem. CLAUSEWITZ Eu tenho visto. SEGISMUNDO Visto para entrar no pas, expedido pelo consulado brasileiro em Manchester... esta folhinha, estou certo? Agora... Est vendo o seu passaporte? Algum carimbo nesta folha? Ento. Quem bate esse carimbo sou eu. O senhor ainda no entrou no Brasil. O senhor no entrou em pas algum. O senhor entrou na minha sala. Eu digo se o senhor fica ou segue viagem. CLAUSEWITZ O cargueiro vai para as Ilhas Fauklands... E que eu vou fazer l? SEGISMUNDO E o que o senhor veio fazer aqui? CLAUSEWITZ Aqui? No Brasil? Trabalhar. SEGISMUNDO No seu passaporte diz que o senhor agricultor. CLAUSEWITZ O seu pas precisa de braos para a lavoura... SEGISMUNDO O meu pas precisa de muita coisa. Posso ver suas mos?gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 297(Black plate)297CLAUSEWITZ No entendi. SEGISMUNDO (gesticula) Eu quero ver suas mos. CLAUSEWITZ O senhor quer ver minhas mos... SEGISMUNDO Isso mesmo. Agora. Suas mos. Clausewitz mostra as mos. SEGISMUNDO A palma da mo, por favor. Tempo. Clausewitz vira as palmas das suas mo para cima. SEGISMUNDO O senhor nunca pegou numa enxada na sua vida. Sabe, senhor... CLAUSEWITZ Clausewitz. SEGISMUNDO Ento. Foi o que mais me chamou a ateno. Mais do que todo o resto. Um agricultor. Eu fiquei pensando o que um agricultor faz na Europa, nestes dias. O senhor fazia o qu, l? CLAUSEWITZ Nada. SEGISMUNDO Sei. E aqui, o senhor quer fazer o qu?gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 298(Black plate)298GORA LIVRE DRAMATURGIASCLAUSEWITZ O Brasil precisa de braos para a agricultura. SEGISMUNDO O Brasil sempre precisa de alguma coisa. Uma hora, precisa plantar; outra hora, precisa temperar o ao. Uma hora, o Brasil precisa de ns; outra hora, no precisa mais de ns... (tempo) O senhor no trouxe nenhuma bagagem? CLAUSEWITZ O que eu sou tudo que eu tenho. SEGISMUNDO No tem bagagem, ento. CLAUSEWITZ Eu fui deixando os meus objetos pelo caminho, da Po... Polsh... SEGISMUNDO (ajuda) Polnia. CLAUSEWITZ (assente) Da Polnia at o Brasil. (se esfora) At aqui... SEGISMUNDO O senhor embarcou em Manchester, no foi isso? No embarcou com nada? CLAUSEWITZ No. SEGISMUNDO Isso muito estranho. Quase todos que tm desembarcado aqui, nos ltimos tempos, vm trazendo mveis, tapetes, pianos... Alguns at trazem carros. CLAUSEWITZ Eu sei. Essas pessoas vo vender esses objetos para pagar por uma vida nova. Me falaram em construir fbricas, em comprar fazendas. E depoisgora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 299(Black plate)299vo comprar outros objetos outra vez. Outros tapetes, outros pianos. Objetos. Parece que esto se preparando para fugir de novo. E quando isso acontecer vo precisar de objetos para vender. SEGISMUNDO Mas o senhor no trouxe nada. CLAUSEWITZ Meus braos. SEGISMUNDO Sei. O Brasil precisa de braos para a lavoura. O cargueiro apita. SEGISMUNDO O seu navio j est para partir. CLAUSEWITZ Eu no vou ficar? SEGISMUNDO No posso me arriscar. H muitas contradies no seu depoimento. CLAUSEWITZ O senhor fala: contradies. Onde esto as contradies? SEGISMUNDO Em todo lugar. O senhor diz que agricultor, mas no tem um calo na mo. Nunca veio ao Brasil, mas fala portugus muito bem. CLAUSEWITZ O senhor acha que eu sou um espio? SEGISMUNDO No. Acho que um nazista tentando entrar no Brasil.gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 300(Black plate)300GORA LIVRE DRAMATURGIASCLAUSEWITZ Nazista?! Eu?! SEGISMUNDO Por favor... No tenho nada contra o senhor. Mas agora ns vencemos uma guerra contra o nazi-fascismo. o que esto falando. O senhor no imagina a confuso que foram estes ltimos anos... Uma hora diziam para barrar os judeus, outra hora para barrar os alemes. Enquanto no chegam as novas diretrizes para tempos de paz, tenho que resolver tudo por mim mesmo. CLAUSEWITZ Confuso! Confuso... (respira) H uma confuso. Eu no sou nazista. Eu sou... da Polnia! SEGISMUNDO Uma passageira do navio disse que conhecia o senhor. pena que ela no falava to bem o portugus. No deu para entender muito bem. Parece que viu o senhor fazendo... fazendo umas maldades... No sei bem se essa a palavra. CLAUSEWITZ Maldades? SEGISMUNDO O senhor andou cortando a lngua de uma moa. CLAUSEWITZ (tempo) Ah... Quem disse isso foi uma senhora ruiva, com uma cicatriz aqui? SEGISMUNDO Conhece? CLAUSEWITZ Na viagem, eu conheci. Ela me conhecia. Do palco! Do palco... No Teatro! Est claro? (pausa) Eu era ator.gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 301(Black plate)301SEGISMUNDO O senhor no disse que era agricultor? CLAUSEWITZ Eu era ator. Agora sou agricultor. SEGISMUNDO (tempo) Desde quando o senhor agricultor? CLAUSEWITZ Faz uns... uns quinze meses. Quando eu desisti de ser ator, tinha que escolher uma profisso. Agora sou agricultor. SEGISMUNDO Mas nunca plantou nada... CLAUSEWITZ A Europa estava na guerra. O Brasil precisa de braos para a agricultura. SEGISMUNDO O senhor ator? Ou agricultor? CLAUSEWITZ Eu decidi ser agricultor. Eu no quero mais saber do Teatro. O senhor acha que tem lugar para o Teatro no mundo, depois desta Guerra? SEGISMUNDO Eu nunca fui ao teatro. Ouvi pelo rdio, uma vez. Uma histria de uma mulher que assina umas promissrias, depois vai embora de casa. No entendi muito bem. No tinha a ver com a minha vida. CLAUSEWITZ o que eu estava dizendo. O mundo que eu vi... O Teatro nunca vai falar do mundo que eu vi. O senhor no imagina o que uma guerra dentro da sua prpria casa.gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 302(Black plate)302GORA LIVRE DRAMATURGIASSEGISMUNDO (impaciente) . Todos vocs dizem isso. CLAUSEWITZ Vocs? Quem? SEGISMUNDO Os estrangeiros. CLAUSEWITZ Mas eu vi coisas que o senhor nem pode imaginar! SEGISMUNDO (impaciente) Escute. Se o senhor tivesse alguma bagagem, alguma coisa para dar ao rapazes a da alfndega... Um presente. Assim era muito mais fcil. Mas o senhor no tem nada. CLAUSEWITZ Tenho as minhas lembranas. SEGISMUNDO Isso no vai ajudar o senhor. Para mim no quer dizer nada a sua guerra. Todos vocs querem me fazer chorar. CLAUSEWITZ Vocs? Os estrangeiros? Os estrangeiros querem fazer o senhor chorar? SEGISMUNDO Perda de tempo. O que vocs podem me contar que me cause alguma emoo diferente? como o Teatro que eu ouvi no rdio... CLAUSEWITZ O teatro no pode tocar o senhor. Estou de acordo. No depois desta guerra. Mas as lembranas... Eu vivi estas lembranas. Foi... foi um tempo difcil.gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 303(Black plate)303SEGISMUNDO O Brasil mandou tropas. Fizeram tanto escarcu nas ruas que o Presidente mandou. Estamos com as contas em dia. CLAUSEWITZ diferente. No estou falando da guerra dos soldados. Estou falando da Guerra que entrou na minha casa! (tempo) O senhor no tem idia do que uma pessoa pode fazer com outra pessoa. SEGISMUNDO Est bem: vocs mataram, vocs violaram as suas virgens, vocs comeram carne dos mortos. Eu sei. Todos vocs me contam a mesma coisa! Eu, eu digo: e da? Isso foi l na Europa. Por que isso deveria me dizer respeito? CLAUSEWITZ Porque o senhor tambm uma pessoa. um sujeito! O navio apita mais uma vez. Pausa. Segismundo pega um salvo-conduto e o assina. SEGISMUNDO Est bem. Ainda temos uns dez minutos antes do seu navio zarpar. Eu j estou atrasado mesmo. (para si) Tanto faz se eu encontrar um daqueles na rua... (tempo) Vamos fazer um trato. O senhor tem esses dez minutos para me fazer chorar. CLAUSEWITZ Fazer o senhor chorar? SEGISMUNDO Isso. Me conte suas histrias da Guerra. Se eu no chorar nos prximos dez minutos por causa das suas lembranas, o senhor embarca no navio. Se eu chorar... Est vendo este salvo-conduto? seu. CLAUSEWITZ Isto est no regulamento?gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 304(Black plate)304GORA LIVRE DRAMATURGIASSEGISMUNDO Para o senhor, agora, eu sou o regulamento. CLAUSEWITZ (tempo) O senhor chora, eu fico no Brasil? SEGISMUNDO Fica. O navio apita outra vez. SEGISMUNDO Est se preparando para zarpar. (tempo) Se quiser desistir.. Pode embarcar agora. CLAUSEWITZ Eu vou contar. Eu vou contar... Segismundo volta a limpar as unhas, calmamente. Clausewitz parece estar procurando as palavras. SEGISMUNDO Esta papelada... Nunca vi juntar tanta poeira. CLAUSEWITZ Por favor, eu preciso pensar. SEGISMUNDO Pensar no qu? s contar o que o senhor viveu. CLAUSEWITZ Eu no sei as palavras... No sei como colocar em... palavras... difcil contar essa coisa em portugus. SEGISMUNDO Eu s falo portugus.gora_10.qxd8/10/061:51 PMPage 305(Black plate)305CLAUSEWITZ difcil! SEGISMUNDO O senhor tambm fala portugus. CLAUSEWITZ No a mesma coisa! SEGISMUNDO Eu estou esperando... CLAUSEWITZ Est bem! Est bem. Eu vou tentar. Tempo. CLAUSEWITZ (sfrego) Perto da minha cidade... Perto da minha cidade. Tinha um... cheiro de carne... de carne humana no fogo... No! Eu no vou conseguir contar isso. No em portugus. O navio apita mais uma vez. SEGISMUNDO Quer desistir? CLAUSEWITZ Outra lembrana. (tempo) Prenderam o professor Cracowiack... Os alemes prenderam. SEGISMUNDO (se interessa) O professor de latim? CLAUSEWITZ O professor de latim.gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 306(Black plate)306GORA LIVRE DRAMATURGIASSEGISMUNDO Levaram para um interrogatrio, o professor? CLAUSEWITZ Levaram. Sim. Eu estava l... na mesma sala... SEGISMUNDO E a? CLAUSEWITZ Prenderam o professor numa cadeira... numa cadeira como esta. (tempo) A comearam a bater... bater em professor... no professor... com... com uma... SEGISMUNDO Uma, o qu? CLAUSEWITZ Eu no sei. Eu no tenho as palavras. SEGISMUNDO Eu vou emprestar algumas ao senhor. Antes de me mandarem para este posto, eu fazia uns servios para a Polcia Poltica... CLAUSEWITZ O senhor? SEGISMUNDO Quem me arrumou o emprego foi um padrinho. Ele era um dos chefes l dentro. Me trouxe do Rio Grande porque confiava s em mim. Sabia que eu dava conta do recado. CLAUSEWITZ (confuso) No entendi.gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 307(Black plate)307SEGISMUNDO Algum tinha de fazer o servio. CLAUSEWITZ Que servio? SEGISMUNDO Fazer aquele pessoal falar. s vezes no queriam nem que aquele pessoal falasse. Era s dar um susto. Sabe, eu sempre gostei de dar um bom susto. (tempo) ... Enquanto precisaram de mim eu fiz muita coisa para eles. (sem qualquer emoo) Cansei de ver o sujeito chegar de cinqenta dias sem ver o sol, mijando na mesma bacia esse tempo todo, e ainda ter de ficar mais vinte horas de joelhos. Os meus rapazes raspavam os pelos do corpo do sujeito, davam uns belisces e se divertiam atirando uma lata no topo da cabea dele. Quando caa de cara no cho, a sim, a era hora de comear. Eu puxava o sujeito pelos cabelos e no deixava ele dormir. Queimava o corpo inteiro do sujeito com ponta de cigarro, at no saco. Depois jogava leo de rcino em cima. Batia com o cassetete at no enxergar mais o rosto do detido. Enfiava pimenta no cu dele com um clister deste tamanho. E o sujeito ainda tinha que limpar toda a bosta do cho. Ou eu batia mais com o cassetete. Para os mais difceis eu tinha um expediente: enfiava no canal do pnis um arame. Depois eu esquentava a ponta que ficava para fora com um maarico. O sujeito parecia um leito na hora da matana. Quando acordava, pedia para assinar o depoimento. (tempo) No Brasil tudo tem que terminar num depoimento assinado. Como este aqui. CLAUSEWITZ Eu estou... estou espantado. SEGISMUNDO Espantado? Mas o senhor veio da guerra! CLAUSEWITZ No. Eu estou espantado porque nunca imaginei que essas coisas pudessem ser ditas no seu idioma. Para mim, o portugus era um latim falado por bebs, velhinhos... pessoas que no tivessem dentes! Se essa gente tivesse dentes, como poderia ter perdido tantas consoantes?gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 308(Black plate)308GORA LIVRE DRAMATURGIASSEGISMUNDO Tambm arrancvamos os dentes do sujeito, claro. CLAUSEWITZ (tempo) Eu que achava que o portugus era uma lngua falada por gente com dotes de anlise e sntese. O navio apita mais uma vez. Tempo. CLAUSEWITZ O que o sujeito fez para o senhor? SEGISMUNDO Que sujeito? Ah, aquele sujeito... Nada. Eu fazia tudo o que me mandavam fazer. Foi assim desde o tempo do orfanato. Eu era forte para a idade. Para o coral eu no servia, mas para quebrar o pescoo das galinhas eu servia. Pelo menos me deixaram ficar junto com a minha irm... Eu sempre fiz tudo o que me mandaram fazer. CLAUSEWITZ (irritado) Por que vocs fazem tudo que mandam? SEGISMUNDO Vocs?... CLAUSEWITZ Homens como o senhor. Homens como o senhor me fizeram odiar o idioma alemo. Eu amava Goethe! Agora no posso mais ouvir uma linha do Fausto. SEGISMUNDO Quem? Do que o senhor est falando? CLAUSEWITZ De teatro!gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 309(Black plate)309SEGISMUNDO Eu tinha entendido que o senhor agora era um agricultor. CLAUSEWITZ Eu sou um agricultor! Mas eu sou um agricultor no Brasil. Eu tenho que falar a lngua que se fala aqui! E o senhor est me fazendo odiar o portugus! O navio apita. Segismundo olha o relgio. SEGISMUNDO No Brasil ns falamos portugus... CLAUSEWITZ (tempo) Meu professor de latim dizia que o portugus era uma lngua falada por passarinhos... To doce, to alegre... SEGISMUNDO (tempo) O senhor nunca recebeu uma ordem em portugus. Por isso teve essa idia. Quando o meu padrinho me d uma ordem, eu obedeo. (tempo) O senhor tem suas lembranas. Eu tenho as minhas. Sabe qual foi o primeiro servio que eu fiz para o meu padrinho? Desenterrei um defunto de um ms e deixei na porta da viva. CLAUSEWITZ (estremece) Titus! SEGISMUNDO O qu?! CLAUSEWITZ Titus Andrnicus. No conhece? SEGISMUNDO Voc e o seu Teatro outra vez...gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 310(Black plate)310GORA LIVRE DRAMATURGIASCLAUSEWITZ Mas esse era o monlogo de Aaro! A passageira... A senhora ruiva... Ela me viu no papel de Aaro! Toda noite eu sugeria que arrancassem a lngua e cortassem as mos de uma jovem profanada; eu falava de mortes, estupros, massacres... Atos cometidos nas sombras da noite... SEGISMUNDO A viva era uma estancieira que estava criando problemas para o meu padrinho. J tinham mandando matar o marido dela, mas a viva continuava. Meu padrinho me disse para dar um susto na viva. Isso aconteceu! Silncio. CLAUSEWITZ Eu estava no palco quando os alemes cruzaram a fronteira do meu pas. Como todas as noites. A companhia decidiu nem interromper a sesso. Mas no dia seguinte o teatro estava fechado. Fiquei em casa. Foi a primeira vez em dez anos que eu passei uma noite fora do palco. Tanta coisa tinha acontecido na Polnia, tanta coisa tinha acontecido na Europa! E eu, no palco, esse tempo todo. Por isso eu acho que foi uma espcie de alvio quando no tive que fazer minha maquiagem naquela noite. Acho... acho cheguei mesmo a pensar que, afinal, tinha chegado a hora de viver a vida. (tempo) A vida... (tempo) Os dias foram passando e eu no sa para a rua. Via tudo da janela. Eu no sabia o que fazer no meio daquela confuso. Eu era um ator! No sabia carregar um fuzil, no sabia curar uma ferida... O melhor era ficar em casa. At o dia em que foram me buscar. No tive medo, no. Achei outra vez que, de alguma maneira, eu estava vivendo. Vivendo enquanto eu presenciava todo o horror. Porque era a nica coisa que eu podia fazer: estar presente. E guardar na memria. (tempo) Eu estava presente quando mataram professor Cracowiack. Eu estava presente quando encontraram o corpo do meu pai, que tinha se suicidado com um arame no pescoo. Eu estava presente quando meus amigos caram metralhados na fuga pela fronteira. Eu estava presente quando deixei minha mulher no hospital em Paris, esperando para morrer. Eu no vivi. Eu colecionei lembranas. O navio apita. Segismundo olha o relgio.gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 311(Black plate)311SEGISMUNDO Esto atrasados. CLAUSEWITZ (tempo) Eu achava que eu no podia falar das minhas lembranas para o senhor. Mas agora eu acho que no adianta. SEGISMUNDO Est em jogo o seu salvo-conduto. Sua vida nova no Brasil. Desistiu? CLAUSEWITZ Eu j desisti de tanta coisa. J desisti do meu pas. J desisti da minha famlia. J desisti da minha profisso. J desisti do Teatro. SEGISMUNDO Desistiu do Brasil, ento? CLAUSEWITZ No imaginava que no Brasil as pessoas tambm obedeciam ordens. SEGISMUNDO , os brasileiros obedecem ordens. CLAUSEWITZ Eu s queria entender por que vocs obedecem ordens! SEGISMUNDO Vocs? Os brasileiros? CLAUSEWITZ Vocs! SEGISMUNDO Vocs... Os homens como eu... O senhor no obedece ordens, no ? O senhor acha que melhor do que eu.gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 312(Black plate)312GORA LIVRE DRAMATURGIASCLAUSEWITZ No. Eu sei que eu sou pior que o senhor. Eu escapei. Eu estou vivo. E todos esto mortos: meus amigos, meus pais, meu pas... minha mulher... Se eu estou vivo porque eu errei. porque eu era pior que eles. Eu sou pior que o senhor, tenho certeza. SEGISMUNDO (tempo) Deve ser difcil pensar que ns somos iguais. O senhor pode aceitar que pior do que eu. Mas no pode aceitar que ns somos iguais. CLAUSEWITZ Eu cometi um crime monstruoso. Eu estive presente. E no fiz nada. Eu sobrevivi. SEGISMUNDO (pausa) Eu tambm. Por isso meu padrinho me afastou para este posto. Ele diz que preciso esperar um pouco as coisas se acalmarem. Logo vem o armistcio. Logo vm as novas diretrizes para tempos de paz. (tempo) Eu sei que ningum quer saber de mim. Eu fiz o que eles mandaram e eles querem esquecer que mandaram fazer o que eu fiz. CLAUSEWITZ E o senhor cumpriu ordens... SEGISMUNDO Sem pestanejar. Sem nem cobrir o rosto. (tempo) S uma vez eu cobri o rosto. , uma vez eu cobri o rosto com uma mscara... (tempo) Minha irm. A na foto... a minha famlia, sabe? Um dia eu viajava com ela para o Rio Grande, quando um caminho cortou a minha frente. Quando eu acordei j estava no hospital. Bem. No aconteceu nada comigo, o carro escapou de lado com a freada e foi colhido pelo caminho que vinha na outra direo. O lado do passageiro. O lado onde estava sentada minha irm. Ela ficou entre a vida e a morte. Se no fosse um mdico... Um cirurgio... Um rapaz, um rapaz simptico... Fez de tudo para salvar minha irm e conseguiu. Uns anos depois me mandaram quebrar os ossos da mo de um cirurgio que estava preso conosco. (tempo) E era ele. O mdico que salvou minha irm.gora_10.qxd8/10/061:51 PMPage 313(Black plate)313CLAUSEWITZ O senhor obedeceu? SEGISMUNDO Eu disse: foi a nica vez em que usei uma mscara. (tempo) Quebrei osso por osso das mos do mdico que salvou a vida da minha irm. CLAUSEWITZ Por que voc fez uma coisa dessas? SEGISMUNDO Porque eu sou pior que o senhor. Silncio. Foi a nica vez que eu escondi o rosto. Bobagem porque eu acho que o mdico... no sei como... o mdico me reconheceu... alguma coisa nos meus olhos... No sei o que pode ter sido. Eu estava cumprindo ordens. Silncio. Hoje soltaram todos os presos polticos do Rio. Uma poro deles passou pelas minhas mos. Meu padrinho no me ligava fazia meses. E ligou hoje. Disse para eu voltar mais cedo para casa, para tirar uns dias de frias. Algum pode querer acertar as contas comigo... Eu perguntei se era uma ordem. E ele respondeu que eu podia tomar o que disse como eu bem entender. Ele nunca tinha me dado uma ordem na vida, foi a ltima coisa que falou antes de desligar o telefone. Tempo longo. De uns tempos para c eu no posso olhar para minha irm que eu vejo nos olhos dela os olhos daquele mdico. Que raiva que eu tenho dele, senhor Clausewitiz... Que raiva...gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 314(Black plate)314GORA LIVRE DRAMATURGIASO navio apita vrias vezes. Segismundo se volta para a mquina de escrever e comea a bater o depoimento de Clausewitz. Tempo. CLAUSEWITZ Ainda vale o nosso acerto? SEGISMUNDO O seu navio j vai zarpar. CLAUSEWITZ Mas eu ainda no contei como morreu o professor Cracowiack. SEGISMUNDO Os nazistas bateram nele at a morte, na sua frente. CLAUSEWITZ Ele morreu na minha frente, sim. Mas os nazistas no bateram no professor. O oficial encarregado tinha trabalhado todo o dia. Estava cansado. Sabia que nenhum daqueles homens torturados tinha alguma coisa para falar. E sabia que nenhum deles podia resistir. Para simplificar tudo, resolveu dar um tiro no professor Cracowiack e acabar com ele de uma vez. Como o oficial tinha batido muito nos outros prisioneiros, sua mo estava trmula e ele acabou acertando o professor Cracowiack num lugar que no o matou imediatamente. Acho que o oficial estava mesmo muito cansado porque nem deu outro tiro. Mandou jogar a mim e ao professor em uma cela. O professor Cracowiack sangrou por quinze horas. Eu fiquei do lado dele at a morte. Pude observar seus olhos ficarem de loua, senti o calor e a umidade do seu ltimo bafo. Morreu com uma certa calma, depois de uma noite falando quase sem parar. Repetiu a primeira aula que ouvi dele; citou a Eneida; corrigiu meu latim. Eu vi aquele homem morrer na minha frente aos poucos. Eu estava presente. Ele falava dezessete lnguas e o ltimo som que emitiu no foi nem uma palavra. Parecia mais um mvel sendo arrastado na madrugada. (tempo) Seria bonito se o professor Cracowiack tivesse morrido dizendo Docta Ignorantia... Tempo.gora_10.qxd8/10/061:52 PMPage 315(Black plate)315SEGISMUNDO E a?.. Tempo. CLAUSEWITZ (pausa) Um pouco antes de morrer o professor Cracowiack comeou a falar sem tomar flego por um longo perodo. De repente, virou o rosto para o cu comeou a dizer umas palavras sem sentido... Se eu me lembro bem... (febril; tentando se lembrar e traduzindo ao mesmo tempo) Ai, pobre de mim! Ai, infeliz! Aqui estou para entender, Deus, j que me tratas assim, que crime, cometi contra vs nascendo? Mas se nasci j compreendo que crime cometi... A est motivo suficiente para vossa justia e rigor, porque o crime maior do homem ter nascido Segismundo estremece. E passa a prestar ateno ao que diz Clausewitz. CLAUSEWITZ (toma coragem) S queria saber, para apurar meus cuidados alm do crime de nascer que outros crimes cometi para me castigares ainda mais? No nasceram tambm todos os outros? Pois se os outros nasceram, que privilgios tiveram que jamais gozei? Nasce a ave, e, embelezada por seu ricos enfeites, no passa de flor de plumas, ramalhete alado, quando, cortando veloz os sales areos, recusa piedade ao ninho que abandona em paz. E eu, tendo maior alma, tenho menos liberdade? Nasce a fera, e, com a pele respingada de belas manchas, lembrando as estrelas graas ao douto pincel logo, atrevida e feroz, a necessidade humana lhe ensina a crueldade, monstro de seu labirinto. E eu, com melhor instinto, tenho menos liberdade? Nasce o peixe, que nem respira, aborto de ovas e lodo, e, feito um barco de escamas sobre as ondas, seu espelho gira por toda parte, exibindo a imensa habilidade que lhe d o corao frio; e eu, com mais escolha, tenho menos liberdade? Nasce o regato, serpente prateada, que dentre flores surge de repente e de repente entre flores se esconde, onde, msico, celebra a piedade das flores que lhe do a majestade do campo aberto sua fuga. E tendo eu mais vida, tenho menos liberdade? Assim chegando a esta paixo, um vulco, qual o Etna, quisera arrancar do peito pedaos do corao. Que lei, justia ou razo pde recusar aos homens privilgio to suave, exceo to nica, que Deus deu a um cristal, a um peixe, a uma fera e a uma ave?gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 316(Black plate)316GORA LIVRE DRAMATURGIASSilncio. Segismundo est chorando. E deixa cair uma lgrima sobre o salvo-conduto. SEGISMUNDO Merda. Borrei seu salvo conduto. CLAUSEWITZ (tempo) O meu salvo-conduto? SEGISMUNDO O pior que eu no entendi nada o que o sujeito disse... (entrega o salvo-conduto) Tome. Eu cumpro minhas promessas. E pode esquecer este depoimento... Hoje, no Brasil, ningum vai assinar depoimento algum! Agora pode ir. CLAUSEWITZ (tempo) O senhor no vai me levar de volta ao navio? SEGISMUNDO O Brasil precisa de braos para a lavoura. Pode ir, eu j disse. O navio apita vrias vezes. CLAUSEWITZ O cargueiro vai embora. O apito do navio vai ficando distante. CLAUSEWITZ Eu preciso contar uma coisa... SEGISMUNDO Chega das suas lembranas, senhor Clausewitz. CLAUSEWITZ sobre o que eu acabei de contar.gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 317(Black plate)317SEGISMUNDO Fale logo, senhor Clausewitz. CLAUSEWITZ (tempo) Nem tudo verdade... SEGISMUNDO (tempo) Como ? CLAUSEWITZ Eu vi o professor Cracowiack morrer. Mas ele no disse nada disso que eu disse que ele disse. O professor Cracowiack passou as ltimas horas da sua vida me explicando com se prepara um mingau que s fazem no vale onde nasceu. SEGISMUNDO (tempo) E o que era todo aquele monte de palavras? CLAUSEWITZ Teatro. SEGISMUNDO Teatro? CLAUSEWITZ Um monlogo de uma pea de um autor espanhol. Eu recitei esse monlogo todas as noites durante um ano... SEGISMUNDO Isso no est certo. Eu disse que o senhor tinha que me fazer chorar com as suas lembranas. CLAUSEWITZ Eu forcei a minha memria e s lembrei de trechos de peas nas quais eu atuei. Eu me lembro dos alemes cruzando a fronteira do meu pais. Mas me lembro tambm da primeira vez em que li um autor espanhol.gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 318(Black plate)318GORA LIVRE DRAMATURGIASSEGISMUNDO Isto no est certo, senhor Clausewitz ! Eu no devia deixar o senhor sair desta sala. CLAUSEWITZ Mas eu ganhei a aposta. O senhor chorou. Olhe aqui o salvo-conduto manchado com as suas lgrimas. SEGISMUNDO Foi o seu Teatro que me fez chorar! Foi a merda do seu Teatro que me fez chorar! CLAUSEWITZ (pensa) ... Foi. Foi o Teatro. SEGISMUNDO O que o senhor acha que provou para mim? CLAUSEWITZ Nada. Para o senhor eu no provei nada. Eu provei para mim mesmo. Olha, eu sei que o Brasil precisa de braos para a agricultura, mas eu sou ator. Esta a minha profisso. Eu ainda no sei para que serve o Teatro no mundo depois da Guerra. S sei que eu tenho que continuar a fazer o que eu sei fazer. Um dia algum vai saber para que serve. Se serve. Para mim me basta fazer. Fazer teatro. como a receita do mingau do professor Cracowiack. Algum precisa saber como se faz esse mingau... SEGISMUNDO Saia da minha sala, o senhor, o teatro e o mingau. Segismundo volta a limpar as unhas. Tempo. Clausewitz assente e vai saindo. SEGISMUNDO Senhor Clausewitz.gora_10.qxd8/9/062:38 PMPage 319(Black plate)319CLAUSEWITZ Sim. SEGISMUNDO Como essa histria? CLAUSEWITZ Que histria? SEGISMUNDO Estou falando dessa pea, desse autor espanhol. CLAUSEWITZ Ah... (tempo) Certo dia, no reino da Polnia... SEGISMUNDO (atalha) Se passa na sua Terra, ento... CLAUSEWITZ Se passa na minha terra. Como eu dizia... disfarada em homem, Rosaura chegava durante a noite Polnia, acompanhada por Clarin, decidida a vingar sua honra, quando d com uma estranha torre. De dentro, ento, sai um homem envolto em peles e acorrentado. Sabe como se chama esse homem? Voc no vai acreditar. Segismundo. SEGISMUNDO Est falando srio? CLAUSEWITZ Segismundo olha para o cu... e diz... Contando com toda a ateno de Segismundo, o senhor Clausewitz segue a contar a trama de A Vida Sonho... E CAI O PANO. So Paulo, outubro e novembro de 2001gora_10.qxd8/9/062:39 PMPage 320(Black plate)320GORA LIVRE DRAMATURGIASBOSCO BRASIL formado em Teoria do Teatro (Dramaturgia e Crtica Teatral) pela Escola de Comunicaes e Artes (ECA), da Universidade de So Paulo. Autor de teatro, rdio e TV, assume a direo artstica do Teatro de Cmara de So Paulo, em 1994. Em 1995 cria a Caliban Editorial, lanando a coleo Teatro Brasileiro de Bolso, dedicada dramaturgia contempornea brasileira. Como dramaturgo, teve vrios textos encenados como Esquina dos Otrios (1983), Jornal das Sombras (1986), Morto no Assina (1993), Qualquer um de Ns (1996), entre outros. Recebeu os prmios Shell e Molire de melhor texto de 1994, por Budro; indicaes para os prmios Shell e Mambembe, por Atos & Omisses, em 1995; Os Coveiros, 1997, que fez temporada em So Paulo e viajou por todo Brasil e Portugal; O Acidente, 1998, indicado para melhor texto. Novas Diretrizes em Tempos de Paz, prmio Shell e APCA como melhor texto de 2001, apresentou-se em So Paulo e Rio de Janeiro, viajou por todo pas e fez temporada em Portugal; sua verso argentina estria em Buenos Aires em 2004. Vrias de suas peas j tiveram leituras dramticas pblicas na Frana, Itlia, Grcia e Mxico. Blitz foi editada na Frana em 2005 e sua verso radiofnica foi transmitida pela Radio Culture de Paris no mesmo ano. Atualmente a nova verso de Os Coveiros, com Marcos Pasquim e Andr Matos viaja o pas, depois de temporada em So Paulo, no Teatro Folha.gora_11.qxd8/9/062:40 PMPage 321(Black plate)ATO SEM HISTRIAdramaturgo: Lus Alberto de Abreu debatedora: Ilka Marinho ZanottoMONTAGEM direo: Ednaldo Freire elenco: Aiman Hammoud, Ale Saleh, Edgar Campos, Luti Angeleli e Mirtes Nogueira, da Fraternal Companhia de Arte e Malas-Artes produo: Ndia De Liongora_11.qxd8/9/062:40 PMPage 322(Black plate)322GORA LIVRE DRAMATURGIASATO SEM HISTRIALus Alberto de Abreu PERSONAGEM MESTRE PRIMEIRO HOMEM SEGUNDO HOMEM ME PRLOGO A rea de representao delimitada por uma corda estendida no cho. um retngulo de 4m x 3m que tem em cada um dos quatro ngulos uma flor artificial. Ao fundo, fora da rea de representao, trs cadeiras de madeira, simples. Uma, direita, est ocupada por uma mulher. Outras duas, esquerda, esto ocupadas por homens. Ao centro, em p, atrs de uma pequena mesa, est o velho. Sobre a pequena mesa coberta por uma toalha branca esto alguns objetos: um velho chapu de feltro, uma faca de cozinha, uma flor artificial, um jornal dobrado, um molho de chaves. Ao iniciar-se a representao, o velho pega o chapu e entra na rea de representao. Anda em direo ao pblico.gora_11.qxd8/9/062:40 PMPage 323(Black plate)323MESTRE Boa noite. Houve um tempo em que no se imaginava um homem sem chapu. Sou desse tempo. Nesse tempo, tinha-se tambm, como hoje, pequenos e grandes medos. Os grandes eram parecidos com os de hoje. Os pequenos que eram diferentes, e para se defender de alguns deles usavase chapu: tinha-se medo de insolao do dia e da garoa da noite; de friagem, que perrengava os quartos da gente; de corrente de ar, que endurecia as juntas; do vento encanado, que fazia dor nas cadeiras; de golpe de vento, que deixava a cara torta e de vento tomado de revestrs, que eu nunca soube direito o que era, mas, por via das dvidas, usava chapu. Dos medos grandes havia principalmente o pavor de morrer de repente, sem preparo, sem visita e consolo dos amigos. Sou um velho desse tempo, do tempo do ona, tempo dantanho, dos mil-ris, tempo de se comprar tosto de mel coado. Outro dia minha neta implicou porque no largo desse velho chapu. Queria jogar fora e me dar um novo. Ah, mas eu catei meu fiapo de voz, juntei com um pouco de raiva e um restinho de autoridade que ainda tenho e trovejei: ningum pe a mo nesse chapu! (com orgulho) Ordem minha saiu alta, de fazer gosto, mandante mesmo! Fez eco nas paredes da casa, deve de ter chegado at na rua! Como antigamente! Usar chapu faz bem pra memria!, argumentei. (rpido) Explico antes que pensem que estou caducando como pensou minha neta. Quando o tempo passa, a lembrana dos acontecimentos e das pessoas fica guardada nas coisas. Numa velha ferramenta, numa foto, na fachada de uma casa ou nesse chapu. Ele me remete ao tempo, aos amigos que j foram. Eles ocupam as ruas da minha lembrana e ouo suas vozes nas tardes daquele tempo. No, no era um tempo melhor que o de agora. Melhor este, em que alm de viver posso lembrar. Mas no daquele tempo que quero falar. Conto uma lembrana de poucos anos atrs, uma lembrana guardada ainda na pele (com a mo direita pega um jornal sobre a mesa) e neste velho jornal: conto uma histria deste tempo de homens sem chapus. (com um gesto da outra mo, chama Homem 1 para que entre na rea de representao; Homem 1 obedece)gora_11.qxd8/9/062:40 PMPage 324(Black plate)324GORA LIVRE DRAMATURGIASAconteceu nesta mesma rua de asfalto que por baixo tem os trilhos de bonde; que por baixo tem calamento de pedra; que por baixo tem a terra nua. E todas essas camadas tm seu tempo e suas histrias. Como esse chapu. Mas diferentemente de todas as coisas, aquele homem no tinha histria. (entrega o jornal para o Homem 1; ele abre o jornal, l por alguns instantes com ateno e olha o lugar com interesse; velho afasta-se para o fundo) CENA 1 Um homem sem memria HOMEM 1 Foi aqui, com certeza! (para o pblico, como se se explicasse) Coisas trgicas sempre me atraem. normal, no existe nada de mrbido nisso! A desgraa e entre todas as desgraas a morte e entre todas as mortes a morte bruta, sbita, nos atrai. Tem pesquisa, estatstica que prova isso! por isso que, antigamente, marcava-se o local de um acidente ou assassinato com uma cruz. Por isso vim aqui. Pode parecer estranho mas normal! Meu analista disse que normal, ento normal! E quem que, aqui, vai discordar de analista? Ento, normal! uma coisa que parece um negcio de resduo primitivo, coisa assim, que todo mundo tem! Por isso vim. (Mestre pega o molho de chaves sobre a mesinha e, num gesto expressivo, o estende ao Homem 2, que permanece absorto, sentado sobre a cadeira; o homem olha a chave e olha o Mestre sem entender; com um pequeno e incisivo gesto, o Mestre faz com que o homem pegue a chave; depois, indica-lhe a rea de representao; o homem guarda a chave com um gesto lento e desorientado e levantase para entrar na rea de representao; Homem 1 perscruta o ambiente procura de indcios) Hoje em dia essas coisas so to comuns que ningum mais se lembra de marcar o lugar. E foi quando procurava indcios do triste acontecimento que encontrei, ali, pasmado, aquele homem sem histria. Bom dia, senhor! HOMEM 2 (ainda desorientado, sorri) Bom dia. HOMEM 1 O senhor podia me informar, por favor, se foi mesmo aqui que aconteceugora_11.qxd8/9/062:40 PMPage 325(Black plate)325essa morte de que todo mundo fala? Faz hoje uma semana. Aquele caso rumoroso, saiu at no jornal... (para o pblico) Eu falo demais! Eu sempre falo demais, puxo conversa com qualquer um, minha finada mulher me dizia, emendo assunto sem tampa em assunto sem fundo, costuro conversa toa com prosa fiada... (cai em si) J sei, estou falando demais, de novo, mas j vou concluir! Pois, s depois de conversar um tempo com aquele homem, falando de tudo e de nada, do tempo, do sol forte, bom pra amadurecer manga no Par, e da chuva, boa pra plantar arroz no Mato Grosso, foi que percebi que s eu estava falando. (ao Homem 2) Aquele homem sem histria s sorria como se fosse um tonto. HOMEM 2 que eu sou um tonto. Acho que sou. No sei muito de nada, no! Lembro de um homem que me disse bom dia e falava coisas que eu no conseguia entender. (meneia a cabea e muda, instantaneamente, de tom e assunto) Tenho muitas vontades. (comea a rir enquanto fala) Umas horas vem a vontade de rir. Vontade forte, doida, muito, sem juzo... eu rio. (ri mais; ainda rindo, comea a transitar para a melancolia) Outras horas comeo a ficar triste sem saber e quero rir mas a tristeza vai crescendo, aumentando, at ficar maior que eu. Agora, por exemplo, estou triste. Minha cabea sempre est vazia de passado, mas agora uma imagem me veio. Acho que minha me. (a um sinal do Mestre, a Me se levanta; o Mestre pega a flor da mesinha e a entrega Me; a Me olha para a flor, tem uma emoo forte mas se contm a um gesto do Mestre; entra na rea de representao) CENA 2 A morte brusca ME Sou mulher pequena, frgil, sempre fui. Penso que por isso que me assusto com a grandeza das coisas. E, entre as coisas grandes, as imensas, est o amor. E a dor outra coisa entre as maiores. Eu, pequena como sou, trago essas duas imensides somadas e unidas dentro de mim. HOMEM 2 (sorri e aproxima-se, encantado, da mulher; mulher, depois de o olhargora_11.qxd8/9/062:40 PMPage 326(Black plate)326GORA LIVRE DRAMATURGIASfixamente, se afasta) Lembranas eram raras na cabea daquele homem sem histria. Por isso, ele, agora, preso recordao dessa mulher que talvez seja a me que ele conheceu na infncia, no prestou muita ateno ao homem que carrega um jornal e lhe disse bom dia. Aquele homem que fala demais. HOMEM 1 Sim, eu sei, reconheo que falo demais, mas no disse mais do que duas frases quele homem! (Homem 2 tira a chave do bolso e a olha sem ainda lembrar; afasta-se da mulher) No tem sentido o que depois aconteceu! Eu s vim ver o local do crime, do acontecimento rumoroso. estranho, est certo, mas normal! ME Sou me, e dizendo isso vocs j imaginam tanto a razo do meu amor quanto a da minha dor. Sou me comum, dessas que preferem dar o peito ao filho do que ao marido que, de resto, nunca tive. Um homem me deu amor por poucas noites de minguado prazer e ao sumir no mundo me deixou um filho. Desfrutei do amor de meu filho por trs anos apenas. HOMEM 2 (tenso) Que lembrana distante essa que mal recordo? Que me essa que talvez seja a minha? (irritado) E que esse homem que me diz bom dia? O que quer esse homem que me diz bom dia? HOMEM 1 Bom dia! Foi s isso que eu disse! E depois perguntei sobre o crime, s! At aquele momento minha vida vinha caminhando normal, tinha sentido. Um sentido pequeno, mas tinha! Eu tinha at alguns sonhos, pequenos tambm pescaria no Mato Grosso, um pequeno stio - que queria realizar no futuro... Eu sempre adio as coisas! Sei que falo demais, mas isso no razo... ME Por trs anos tive meu filho. Tinha cabea grande, de cabelos cheios e finos onde eu gostava de perder a mo. No quarto ano ele foi separado de mim e de todos os muitos anos que eu teria junto dele.gora_11.qxd8/9/062:40 PMPage 327(Black plate)327HOMEM 2 (com tenso crescente) Sou uma pessoa normal, tranqila. Ando pela cidade, vou a festas, tenho amigos, com certeza, no lembro muito bem. s vezes, tenho medo do que no lembro. Essa mulher que talvez seja lembrana de minha me... ME (furiosa) No sou sua me! (Homem 2 sente o impacto da revelao; Mestre pega a faca sobre a mesinha) MESTRE Aquele homem sem histria tentou vasculhar seu passado para identificar aquela lembrana: no havia passado. HOMEM 1 Aquele homem sem histria tinha apenas o presente. ME Um homem sem histria no tem registro do que foi, memria, passado. Tem apenas o corpo presente, a sensao presente. No presente tudo novo. HOMEM 2 Um homem sem histria um homem novo, que nasceu agora, j adulto. Sem velhos costumes, velhos hbitos, velhos amigos ou inimigos. Um homem sem histria um homem sem o velho homem que conhecemos. HOMEM 1 A paixo, a ira, as vontades que se acumularam pouco a pouco no passado que ele no lembra surgem agora, imensas, novas, urgentes, senhoras do homem sem histria. HOMEM 2 s vezes, no sei de onde, vem a vontade de rir. A vontade cresce e eu rio. Vem a vontade de patinar no parque, de beber, de zoar na noite. s vezes crescem outras vontades. (Mestre entrega-lhe a faca; homem pega a faca, brinca com ela e a guarda) No sei quem me deu a faca, no lembro.gora_11.qxd8/9/062:40 PMPage 328(Black plate)328GORA LIVRE DRAMATURGIASME Deixei meu filho com a vizinha e sa. Vizinha no cuida direito, no filho dela, eu sei, mas eu precisava procurar trabalho. HOMEM 1 Eu s queria ver o local. O crime tinha sido h uma semana. O que tem isso de mau? De mrbido? Disse bom dia, ele respondeu. HOMEM 2 Bom dia. HOMEM 1 A, s fiz uma pergunta, mostrei o jornal e comecei a falar, eu sempre falo demais, e a resposta foi fria, foi ao veloz que eu mal percebi... HOMEM 2 S lembro de um homem que falava demais. Eu devo ter tentado segurar meu brao, ele deve ter me provocado, talvez ele fosse meu inimigo, no sei, no lembro! HOMEM 1 Nem tive tempo de gritar pelo primeiro golpe e ele j desferia o nono, o dcimo, no contei. Lembro que olhei perplexo para aquele homem desconhecido: eu ainda esperava a resposta para minha pergunta. E mal entendi por que me cobri de vermelho e mal entendi que j estava morto. Eu tinha uns pequenos sonhos a realizar. (Homem 1 sai da rea de representao, devolve o jornal ao Mestre e se senta) CENA 3 A me separada do filho HOMEM 2 No sei, no lembro. (Me olha para Mestre, que faz um gesto para que ela continue a representao) ME Eu no quero lembrar.gora_11.qxd8/9/062:40 PMPage 329(Black plate)329MESTRE preciso. ME Sou gente comum, me solteira como tantas. Deixei o menino com a vizinha e sa para a rua. Sem dinheiro, sem emprego, sem muito futuro, a gente espera milagre, sorte na loteria, achar dez reais que sejam, perdidos por quem tem muito. A gente espera, sempre, um homem que goste da gente, que ajude a gente, porque viver no fcil. A gente confia em Deus, na sorte. Confiei naquele homem sem histria. HOMEM 2 Posso, claro que posso, desejo, quero! boa essa vontade que cresce, pensou o homem sem histria. Na ausncia de passado a nica coisa concreta o corpo. O corpo pede. ME Falou que eu tinha rosto de modelo, que conhecia um fotgrafo de revista, que eu era bonita. No acreditei, mas existem tantas histrias com final feliz, tantas moas que do dia pra noite...Fui. Quis acreditar... HOMEM 2 Tive a impresso de j ter estado naquele lugar outras vezes, mas no com aquela mulher. Acho que ela estava com medo, no sei. Acho que eu tambm tinha medo de que algum me visse, de que ela gritasse, do que eu ia fazer porque meu corpo mandava e eu queria, eu podia, eu posso, eu quero, eu fao. Acho que foi isso, no lembro. ME Quis acreditar. Que que a gente vira se no acredita na inocncia humana, na bondade humana? Num milagre, num amor que nasce do nada? No me culpem por acreditar! HOMEM 2 Fizeram retrato falado, vi pendurado numa banca de jornal. No era eu, no estive naqueles lugares. algum parecido.gora_11.qxd8/9/062:40 PMPage 330(Black plate)330GORA LIVRE DRAMATURGIASME Meu ltimo pensamento foi para o menino. Meu ltimo desejo foi perder minha mo em sua cabea grande, farta de cabelos longos e finos. HOMEM 2 Quem essa mulher? Que imagem essa que me vem cabea? ME Di esse nada, esse mistrio em que me encontro. Estou morta, meu filho vive. Di a separao, a ausncia, e di tanto que ora desejo o impossvel, que estar com ele, viva; ora sonho a blasfmia de ele estar aqui, comigo, morto. (vira-se para Homem 2) Maldito! (afasta-se, soluando baixinho; entrega a flor ao Mestre e senta-se) EPLOGO HOMEM 2 s vezes, cai de vez, sobre o homem sem histria, o peso de uma insuportvel tristeza e ele vasculha o passado que no lembra em busca de sua origem. (emocionando-se) Se lembrasse eu poderia olhar o horror e me assustar com meu rosto no espelho. E me ferir e me cortar e purgar e pagar e uivar e chorar cada dia por cem anos at que a exposio da minha dor e do meu sincero pesar comovessem os seus coraes. (despe-se de qualquer emoo) Mas no lembro, no choro nem estou chorando agora. A tristeza uma hora se desfaz e o homem sem histria caminha pelas ruas carregando seu presente sem passado. (olha a faca com estranhamento, guarda-a e caminha assobiando tranqilamente; sai da rea de representao e do palco; Mestre coloca o chapu e caminha para o pblico) MESTRE (l no jornal) Desculpem a dureza da histria e espero poder, numa outra vez, receb-los com histrias ternas ou divertidas. Histrias de amores impossveis e, no entanto, vividos, que nos faam acreditar e que no nos culpem por acreditar em milagres e na inocncia humana. E histrias de risos inconseqentes e irrefreveis. Porque este nosso tempo feito tambm dessas histrias, que so to reais e importantes como asgora_11.qxd8/9/062:40 PMPage 331(Black plate)331histrias duras. Quanto a mim, eu sigo com a cabea enterrada neste chapu, e pouco me importo se me acham ridculo, anacrnico, fora de moda. Tenho medo de insolao do dia, da garoa da noite, de golpe de ar e vento tomado de revestrs que eu nem sei o que . Mas tenho mais medo de perder minha histria. Boa noite, obrigado pela presena. FIMgora_11.qxd8/9/062:40 PMPage 332(Black plate)332GORA LIVRE DRAMATURGIASLUS ALBERTO DE ABREU dramaturgo. autor de mais de quarenta peas teatrais encenadas, entre as quais Bella Ciao; Cala a Boca J Morreu; A Guerra Santa; O Livro de J. Teve as seguintes peas encenadas no exterior: E Morrem as Florestas (Dinamarca); Xica da Silva (Japo e Coria do Sul); Guerra Santa (Inglaterra); O Livro de J (Dinamarca, Austrlia e Rssia). Foi mencionado como um dos mais importantes dramaturgos da atualidade, na Amrica Latina, pela publicao espanhola Escenrios de Dos Mundos Inventrio Teatral de Iberoamrica, preparado pelo Centro de Documentao Teatral do Ministrio de Cultura da Espanha Instituto Nacional de Las Artes Escnicas y de la Msica. roteirista dos filmes Kenoma (1998) e Narradores de Jav (2000), ambos dirigidos por Eliana Caff. Organizou os ncleos de dramaturgia da Escola Livre de Teatro de Santo Andr (SP) e da Associao Galpo de Belo Horizonte (MG).gora_12.qxd8/10/061:46 PMPage 333(Black plate)O CU DA PTRIAdramaturgos: Jandira Martini e Marcos Caruso debatedor: Aimar LabakiMONTAGEM direo: Marcos Caruso direo musical: Dagoberto Feliz elenco: Antnio de Andrade, Antonio Petrin, Eduardo Silva, Eliana Rocha, Francarlos Reis, Jairo Matos e Snia Guedes coro: Ana Paula Aquino, Augusto Jucal, Carlos Baldim, Carol Novak, Cris Piratininga, Eliane Batista, Eliana Ferraz, Flvia Ercoli, Mari Mazzo, Maurcio Inafre, Vanessa Bruno e Wladimir Candini cenrio e figurino: Sylvia Moreira luz: Marcos Loureiro trilha sonora Aline Meyer montagem: Delermi Produes Artsticas produo executiva: Cris BonnaO Cu da Ptria o nico texto que no foi escrito originalmente para o projeto gora Livre Dramaturgiasgora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 334(Black plate)334GORA LIVRE DRAMATURGIASO CU DA PTRIAJandira Martini e Marcos Caruso A Artur Azevedo e a todos os revisteiros que to bem entenderam este pas, os autores dedicam esta Revista em Quatro Quadros, um Prlogo e uma Discreta Apoteose Por que toda vez eu afundo na eleio?! Neste cu de opereta h de haver explicao para eu ser sempre o segundo?CENRIO O do ttulo. Um azul muito azul. Anil. Nuvens muito brancas. Sendo este cu o nosso, tem, naturalmente, mais estrelas e um sol de raios flgidos. Algumas bananeiras esparsas do-lhe um leve toque verde. Quase no proscnio, uma passarela de nuvens. PRLOGO Entram correndo, montados num grande cometa-patinete, dona Ordem e seo Progresso. Personagens alegricas, vestem-se com as cores da bandeira e usam faixas com os respectivos nomes.gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 335(Black plate)335ORDEM Mais rpido, Progresso, mais rpido, antes que ele nos alcance! PROGRESSO No falei, Ordem, pra voc no ficar dando bandeira? ORDEM Eu fiz o que me mandaram. No mandaram fiscalizar a eleio? Fazer boca-de-urna? Puxar a brasa pra sardinha do nosso candidato? PROGRESSO Sim. E em nosso prprio nome. Em nome da Ordem e do Progresso, mas voc poderia ser mais discreta. Acho que aquele barbudo nos seguiu e bem capaz de vir at aqui tirar satisfaes... ORDEM Ele no nem louco. Aqui no entra qualquer um, afinal somos ns os porteiros e... (vira-se e v a platia) Meu Deus!! PROGRESSO (assustado) ele?! ORDEM No, so eles. (progresso no entende) O pblico! PROGRESSO (sem jeito) Oh! Os senhores... mil perdes!! ORDEM (falando com a platia) Boa noite, cavalheiros!gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 336(Black plate)336GORA LIVRE DRAMATURGIASPROGRESSO (idem) Boa noite, senhoras, damas... ORDEM Eu sou a Ordem, ele o Progresso... PROGRESSO Bem vindos ao cu da Ptria!! (msica) Deste cu azul anil, mui amado, varonil, somos diletos porteiros e dos deuses mensageiros. Na terra estivemos rondando, pesquisando, xeretando os meandros, os bueiros, excessos eleitoreiros, pra no dar nenhum chabu e no vir um urubu a mandar l no Brasil. Tudo foi to bem armado, planejado e vigiado, sem nem pingo em i faltar! Deu-se, ento, o esperado: nosso belo candidato, moo fino e de bom trato, sucedeu a Itamar. Ao final da msica, ouve-se uma grande exploso. O cu treme. H muita fumaa. QUADRO 1 UM RABO DE FOGUETE ORDEM (assustada) O que houve?!gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 337(Black plate)337PROGRESSO Que estrondo foi esse?! Entra correndo, aflito, o Verde-Louro. , como o nome indica, um papagaio verde, que lembra, vagamente, Z Carioca. VERDE-LOURO Seo Progresso! Seo Progresso! Seo Progresso! PROGRESSO Diga logo, Verde-Louro! O que houve? VERDE-LOURO Temos problemas, senhor! PROGRESSO Problemas de ordem... ou de progresso? VERDE-LOURO Problemas de ordem, senhor. PROGRESSO Ento com ela! (aponta dona Ordem) VERDE-LOURO Dona Ordem, a situao grave, grave, grave... ORDEM Pare de se repetir como um papagaio, diga logo! VERDE-LOURO Um intruso acaba de invadir o cu da Ptria, ptria, ptria... ORDEM Fechem tudo! Tranquem todas as portas! Intrusos no podem entrar no cu do Brasil!gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 338(Black plate)338GORA LIVRE DRAMATURGIASFoco de luz sobre Lula, que entra agarrado a um rabo de foguete. LULA Desculpe, dona Ordem, mas j entrei! PROGRESSO O miservel pegou um rabo de foguete! VERDE-LOURO Bem-feito, bem-feito, bem-feito... (muito surpresos e assustados, dona Ordem, seo Progresso e Verde-Louro cantam) Que desplante, que ousadia! Que coragem, que ironia! Sai pra l, volta pra trs Quisto aqui no bordel! Vade-retro, Satans! Quisto aqui o nosso cu! LULA T sabendo. O cu do Brasil. Por isso que eu estou aqui. (os outros trs continuando a cantar) Que acinte! Que ambio! Que vieste c fazer? Se acabaste de perder outra vez a eleio? LULA (cantando conforme a msica) isso que me traz c. No tenho medo careta E nem vou fugir da raia, Se perdi pela segunda, Se levei um p na bunda, H de haver uma razo!gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 339(Black plate)339Perguntei a meio mundo: Por que, raios, eu afundo Toda vez nessa eleio?! Me disseram: S Deus sabe! Sobe l, barbudo! Neste cu de opereta H de haver explicao. Quero ver qual a mutreta Qual a maracutaia Preu ser sempre o segundo??? PROGRESSO Ainda que mal pergunte, meu senhor... companheiro... camarada?!... No importa! Quem o senhor acha que vai responder essa sua pergunta?! LULA (seco) Deus. Todos gargalham. As gargalhadas ecoam no cu da Ptria nesse instante. ORDEM Deus no recebe encanadores! PROGRESSO Que isso, Ordem? Controle-se! Mas por que o senhor veio procurar Deus justamente aqui? LULA Este no o cu do Brasil? (os trs, muito compenetrados, cantam) Muito amado, varonil! Salve! Salve! Ave! Ave! Viva! Viva! Anau!gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 340(Black plate)340GORA LIVRE DRAMATURGIASLULA Pois ento! Chamem Deus. VERDE-LOURO Como chamem Deus?! Pensa que fcil, fcil, fcil? LULA (para Progresso) O senhor nunca ouviu dizer que Deus brasileiro? PROGRESSO Ouvi. Mas, pra ser sincero, nunca acreditei. LULA Nem eu. Mas j que tenho que procurar... VERDE-LOURO Pra falar a verdade, meu amigo, ns nunca o vimos por aqui, aqui, aqui... LULA Vocs tm certeza de que Ele no est aqui? ORDEM Isso no podemos afirmar. Dizem que Deus est em toda parte... LULA Pois, ento, me dem licena...(e vai saindo) PROGRESSO Onde que o senhor pensa que vai? LULA A toda parte. Esse Deus eu vou achar. ORDEM Volta aqui, barbudo! Aqui no assim, no. O que que o senhor est pensando? Que o cu a casa da sogra? O fiof da Maria Joana? Aqui temosgora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 341(Black plate)341regras, estatutos, Constituio! LULA Vocs pensam que vo me engabelar, ? Cad essa Constituio? (desafiando) Eu quero ver essa Constituio! QUADRO 2 DONA CONSTITUIO A Constituio papel da primeira vedete da companhia entra com roupas adequadas, mas provocantes. jovem e muito bonita. CONSTITUIO Deixem o companheiro entrar! PROGRESSO Companheiro?! Mas, dona Constituio...! CONSTITUIO No atravanque, Progresso! LULA (muito surpreso, encantado mesmo) Dona Constituio! Que surpresa! CONSTITUIO (msica) Sou da terra mais garrida A vedete preferida! Sou do bosque o sabi, Cotovia do terreiro, Sou o coco do coqueiro, Caruru e mungunz! LULA (ainda encantado) Pra quem nasceu nos tempos do Imprio, a senhora at que muito... conservada!!!gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 342(Black plate)342GORA LIVRE DRAMATURGIASCONSTITUIO (msica) So reformas, so emendas, J enfrentei muitas contendas, J entrei na faca bea! So muitos anos de plstica, De fazer muita ginstica, Inda querem reviso: homessa!! LULA A senhora , efetivamente... do cacete! CONSTITUIO (msica) S Deus sabe a quantas ando, Venho h anos capengando, Sem reclamar nem dar pio, Mas no verde destas matas, Neste cu azul anil, Finco p contra bravatas, Defendendo o meu Brasil! TODOS (menos Lula) Glria, glria! Salve! Salve! Viva! Viva! Anau! LULA J que a senhora se apresentou, permita que eu me apresente... CONSTITUIO Que isso? Eu conheo o companheiro de longa data. um prazer receb-lo no cu da Ptria! PROGRESSO (furioso) Ela vai deixar o cara entrar! Que absurdo! (e sai)gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 343(Black plate)343ORDEM (no menos furiosa) Que asneira! Ela ensandeceu! (e sai) VERDE-LOURO Ensandeceu! Ensandeceu! (vai saindo e repetindo) LULA Bom, dona Constituio, eu vou ser curto e grosso... CONSTITUIO Nem precisa, meu filho. J sei de tudo. Voc veio ao lugar certo. Um giro pelo cu da Ptria vai clarear suas idias... LULA (entra msica; falando no ritmo) No me fala em giro. Chega de girar! Girei o pas inteiro, fiz carreata, botei gravata, tanto showmcio, que desperdcio! Montei em jegue, troquei de vice, comi buchada, no deu em nada! (cantando) Procurei no dar tropeo, Fiz das tripas corao, Veja s se no mereo DEle um pouco de ateno! CONSTITUIO Dele? Dele quem? Voc est falando de quem? LULA De Deus. Eu quero falar com Deus. Entra o General e Silva carregando confetes, serpentinas, cornetinha e lngua-de-sogra. LULA (para Constituio) Quem esse? Acho que j vi esse cara.gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 344(Black plate)344GORA LIVRE DRAMATURGIASCONSTITUIO o General e Silva. E SILVA Ora, quem vejo! Querida Constituio! CONSTITUIO No seja falso, E Silva! Voc nunca me respeitou... E SILVA Isso so guas passadas, querida. Estou indo para a concentrao. Voc no vai desfilar conosco? (e sai tocando sua cornetinha) LULA Hoje carnaval aqui? CONSTITUIO Aqui sempre carnaval! LULA Esto comemorando alguma coisa? CONSTITUIO A vitria. E se quer um conselho, siga esse homem. (vendo um bloco que se aproxima) No precisa mais. Eles esto vindo a, em bloco. QUADRO 3 O PATRIDROMO Vem entrando na passarela de nuvens o Bloco do Poder. Dona Ordem a porta-bandeira, seo Progresso, o mestre-sala. O bloco composto por alguns marechais e generais, muitos empresrios e uma infinidade de puxa-sacos. Cada um deles tem uma mamadeira enorme. Todos chupam sofregamente. A comisso-de-frente, chefiada por Verde-Louro, desenrola uma passarela de veludo vermelho, sobre a qual o bloco vai passando e cantando.gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 345(Black plate)345O poder nosso vcio, O poder nosso po, Desde sempre nosso ofcio Governar esta nao. Ela a nossa mamadeira, Nossa me de encantos mil! Nossa eterna bandalheira, Somos donos do Brasil! (breque) Por isso nis (estribilho) mama, mama, mama, mama, mama oc, passa pra mim, mama, mama, mama, mama, mama tudo, at o fim! LULA Por que eles esto falando tudo errado agora? CONSTITUIO Demagogia. Querem ser populares... O bloco continua desfilando, repetindo a msica do incio. LULA Eu vou falar com eles. Eles devem ser assim (faz gesto) com o Homem! (indo at um dos componentes do bloco) , companheiro, por favor... FOLIO Sai pra l. No v que est atrapalhando, no? LULA S uma pergunta... FOLIO Quer tirar esse p imundo do nosso tapete?!!gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 346(Black plate)346GORA LIVRE DRAMATURGIASLULA Calma, companheiro... FOLIO Calma, porra nenhuma! (e d um puxo no tapete, obrigando Lula a pular fora) A msica prossegue e continuar at o bloco desaparecer na coxia. CONSTITUIO Ento? Conseguiu alguma coisa? LULA Que nada! Me puxaram o tapete! CONSTITUIO Esses no mudam nunca! Conheo essa gente de outros carnavais! Mas olha l! Vem vindo outro! Surge o Bloco dos Vira-Casacas. Todos muito bem-vestidos, com casacas de cores variadas. As casacas so double-face, tm cores diferentes por dentro, e so rapidamente viradas pelos atores, no estribilho da msica. um bloco de coreografia complicada e movimentao muito rpida. Muito geis, mas sorrateiros, eles cantam. (estribilho) Oi vira que vira, fcil virar, Oi vira a casaca E vais te salvar! (repete) J foste PB, PPP, PQP, So siglas avulsas, De resto, que importa? Qualquer probleminha, Tu mesmo te expulsas, Nem perdes a linha, E de outro partidogora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 347(Black plate)347J bates porta. UM VIRA-CASACA S claro, bandido, E um preo estipula! OUTRO Virar custa tanto! TODOS Se frase to chula, Tem l seu encanto E te querem pagar... Vira a casaca! Afinal, no s santo! Se viras a tempo, Tu vais te salvar! (e recomeam a cantar) LULA (indo at um deles) , companheiro... (Vira-Casaca vira-lhe a cara; ele tenta outro) Companheiro... (comportamento idntico ao do anterior; Lula desiste e volta para perto da Constituio) CONSTITUIO Conseguiu alguma coisa? LULA Me viraram a cara... Nem bem o Bloco dos Vira-Casacas acaba de desaparecer na coxia e j pula na passarela um passista-malabarista, que num enorme megafone grita. PASSISTA Olha o voto til na avenida, gente!gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 348(Black plate)348GORA LIVRE DRAMATURGIASIrrompe, magnfica, soberba, gloriosa, a Escola de Samba Unidos do Voto til, empolgando com seu samba, que nada mais do que um plgio descarado de Lata dgua, de Lus Antonio e Jota Jr. Voto til na cabea! L vai Maria, L vai co'as outras... Sobe o moo na pesquisa, Um pro outro j avisa: Votamos contra! Deslancha o candidato, desembesta, No tenho opinio, no tenho guia, O pouco de carter que me resta Acaba onde o Ibope principia! (e repete da capo...) Durante a passagem dessa Escola, Lula tenta se dirigir a alguns de seus passistas, que, ocupados em suas criativas evolues, nem ao menos o vem e acabam por derrub-lo. Ele, ainda meio confuso, volta para perto de Constituio. CONSTITUIO E a? LULA Me derrubaram... CONSTITUIO Essa gente uma praga! LULA A senhora foi muito gentil, mas eu vou indo. Tenho coisa mais importante pra resolver... CONSTITUIO Espera. Falta s um. O ltimo sempre o mais rico e mais luxuoso!gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 349(Black plate)349Vem surgindo o Bloco da Vnus. , de fato, luxuosssimo. Traz uma enorme alegoria, do alto da qual uma inacreditvel loura seminua joga beijos. um bloco de muita luz, cmeras e muita ao. BLOCO DA VNUS Raiou dengosa, enluarada A nossa Vnus iluminada! Vnus loura, d'amplas madeixas, De que te queixas? De que te queixas? Um dos integrantes do bloco, com uma cmera na mo, se dirige Constituio, focalizando-a. CMERA Ento, Dona Constituio, como se sente vendo o nosso desfile?! LULA (colocando-se em frente do Cmera) Deixa eu aproveitar, companheiro... Do alto de sua alegoria a Vnus grita. VNUS Corta! Corta! O Cmera volta, rapidamente, a se integrar no bloco, que continua cantando. BLOCO DA VNUS Vnus formosa, flor daucena! Ordena, pede, sussurra, acena, Diz logo, deusa da perna torta, O que te serve? O que te importa? Porque o resto a gente corta! Vnus blonde, Vnus bendita, Sossega, deusa, a periquita!gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 350(Black plate)350GORA LIVRE DRAMATURGIASQuem te perturba? Diz logo, apita! Porque o resto a gente edita... (estribilho) Edita e corta, torna a cortar! s tu a musa desta eleio! Reinas impune na imensido, Oh, minha deusa televiso! (e, repetindo seu belo estribilho, vo saindo...) CONSTITUIO Bom, meu filho, o que eu tinha pra te mostrar era isso... LULA E o povo? Onde que fica o povo? CONSTITUIO Aqui?? Aqui no tem povo nenhum. LULA Como no tem povo? CONSTITUIO Este cu o cu da elite. E agora, se voc d licena, tenho que fazer meus curativos. A ltima plstica me deixou com vrias emendas soltas. (vai saindo e se despedindo) At a vista, Lus Incio! Lula, sozinho e arrasado, canta. LULA Deus, oh Deus, onde ests que no respondes? Te procuro e tu te escondes, Onde que eu vou te achar? Deus, oh Deus, Isto muita sacanagem! Ficar s e abandonado! At tu vais me faltar?gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 351(Black plate)351Mas ser que a um filho teu, Que lutou to destemido pelo povo desvalido, No estendes tua mo? Deus, oh Deus, onde ests que no respondes? Te procuro e tu te escondes, Para a Terra eu vou voltar! LULA Txi! Txi! QUADRO 4 TXI ESPECIAL Entra um Cmulus-Txis-Nimbos, dirigido por um velho de longas barbas brancas, e breca ruidosamente. O Velho desce do txi com um bloquinho de papel e uma caneta na mo. VELHO O companheiro poderia me dar um autgrafo? LULA Claro, companheiro. Eu estou indo para a Terra. O senhor conhece o caminho mais curto? VELHO Eu sou o caminho! LULA (desconfiado) Eh! Que que , hem? Est pensando que quem? VELHO Deus. Nesse momento, raios de luz incrveis iluminam o cu da Ptria e ouve-se uma divina msica cantada por um coro de Anjos, Arcanjos, Querubins e Serafins.gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 352(Black plate)352GORA LIVRE DRAMATURGIASLULA No acredito! No pode ser! Meu Deus! Alis, Seo Deus! O senhor veio aqui pra me dar a resposta?? DEUS (canta) A resposta j tiveste, Viste tudo l e c. Sempre haver quem te conteste, Mas no deixes de lutar! Se uma idia tu defendes Se na alma a tens bem clara No deixes que a impacincia, Te tire toda a prudncia, A coerncia to rara! Vai nessa, Lus Incio, Se vencer nem sempre fcil, Mais vale na vida o lutar! (discreta apoteose) Entram Querubins apressados e vo se acercando de Deus. QUERUBINS APRESSADOS Oh, Senhor! Oh, Senhor! Estvamos preocupados! Vs sumistes! Deveis voltar ao Vosso Reino de Glria!! Apressadamente, colocam Deus sobre uma nuvem que vai subindo. LULA (com o bloquinho e a caneta na mo) O Senhor no queria um autgrafo? DEUS Que cabea a minha! Se eu chego l sem esse autgrafo, ele me mata! LULA O autgrafo no pro Senhor?gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 353(Black plate)353DEUS No. para o meu filho. Lula assina e entrega o bloquinho para Deus. A nuvem vai subindo, enquanto os Querubins cantam e Deus acena para Lula, at desaparecer no mais alto dos cus possvel dentro de um teatro.gora_12.qxd8/10/061:46 PMPage 354(Black plate)354GORA LIVRE DRAMATURGIASJANDIRA MARTINI atriz, autora e diretora. autora de A Vida Uma pera; Sonho de uma Noite de Outono (que dirigiu em montagem teatral); O Eclipse (sobre Eleonora Duse, a ser encenado em 2007). Junto com Marcos Caruso, escreveu os textos Sua Excelncia o Candidato; Jogo de Cintura; Porca Misria; Os Reis do Improviso; Operao Abafa; e o roteiro dos filmes O Casamento de Romeu e Julieta e Trair e Coar S Comear. co-autora, em parceria com Eliana Rocha, do texto Em defesa do Companheiro Gigi Damiani, que tambm dirigiu em teatro. Traduziu, adaptou e dirigiu A Revoluo Est Chegando e Eu No Sei O Que Vestir, de Lvia Cerrini; e Gato Por Lebre, de Georges Feydeau. Como atriz, destacam-se seus trabalhos mais recentes nos espetculos teatrais Porca Misria, direo de Gianni Ratto; Os Reis do Improviso, direo de Noemi Marinho; O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Jos Saramago, adaptao de Maria Adelaide Amaral, direo de Jos Possi Neto; Operao Abafa, direo de Elias Andreato. Pela Rede Globo, participou das telenovelas O Clone e Amrica, de Glria Perez, e das minissries Os Maias e A Casa das Sete Mulheres, de Maria Adelaide Amaral.gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 355(Black plate)355MARCOS CARUSO ator, autor e diretor. Esto entre seus mais recentes trabalhos como ator em teatro, Operao Abafa, de sua autoria e de Jandira Martini; Intimidade Indecente, de Leilah Assuno (2001 a 2005); Honra, de Joanna MurraySmith (1999). Participou de diversos filmes nacionais, como Memrias Pstumas (1999), de Andr Klotzel; Depois Daquele Baile (2004), de Roberto Bontempo; Irma Vap, o Retorno (2004), de Carla Camurati. Na televiso, atuou na minissrie Presena de Anita (2002), de Manoel Carlos, e nas novelas Corao de Estudante (2002), de Emanuel Jacobina; Mulheres Apaixonadas (2003), de Manoel Carlos; Como Uma Onda (2005), de Walter Negro; Pginas da Vida (2006), de Manoel Carlos todas pela Rede Globo. Dirigiu os espetculos teatrais Brasil S/A (1996) e S.O.S. Brasil (1999), ambos de Antonio Ermrio de Moraes; Estrias Roubadas, de Donald Margulies, com Beatriz Segall e Rita Elmr (2000). Para a televiso, escreveu a novela Brao de Ferro, TV Bandeirantes (1993); A Histria de Ana Raio e Z Trovo, Rede Manchete (1992); Brava Gente, SBT (1996), e dirigiu Fala Dercy, SBT (2002). Em parceria com Jandira Martini, escreveu Sua Excelncia o Candidato; Jogo de Cintura; Porca Misria, vencedor dos prmios Mambembe, APCA e Shell de melhor autor (1994); Os Reis do Improviso; Operao Abafa. autor de Trair e Coar S Comear, espetculo brasileiro de mais longa temporada.gora_12.qxd8/9/062:42 PMPage 356(Black plate)gora_13.qxd8/9/062:43 PMPage 357(Black plate)357GORA TEATROAssociao sem fins lucrativos, criada em 1998 por Celso Frateschi e Roberto Lage, que atualmente a coordenam em parceria com Marlene Salgado e Sylvia Moreira. O encontro destes quatro profissionais ocorreu na montagem de Sonho de um Homem Ridculo, espetculo teatral baseado no conto homnimo de Fidor Dostoievski, sucesso de pblico e crtica, cuja adaptao e interpretao de Celso Frateschi (prmio Qualidade Brasil 2005, como melhor ator), direo de Roberto Lage, cenrios e figurinos de Sylvia Moreira e direo de produo de Marlene Salgado. A montagem mais recente, envolvendo estes profissionais, Ricardo III, adaptao de Celso Frateschi ao texto de William Shakespeare, que marca a abertura do espao gora Teatro totalmente reformado e preparado para abrigar uma intensa e diversificada programao. Ao longo de sua existncia o gora Teatro, se destacou no cenrio teatral paulistano pelo dilogo reflexivo sobre o fazer teatral e a sua relao com a sociedade. Nesta perspectiva, desde o incio, elaborou e realizou seminrios, mostras de dramaturgia e montagens de espetculos. Manteve constantemente cursos de aperfeioamento para o trabalho do ator e um ncleo de investigao. Dentre as atividades realizadas destacam-se: Odissia do Teatro Brasileiro (2000), seminrio, posteriormente publicado pela editora Senac, que abordou as formas de evoluo do teatro brasileiro, visando colaborar com a construo de um pensamento teatral contemporneo. Esta atividade reuniu profissionais como: Aderbal Freire Filho, Aimar Labaki, Antunes Filho, Antnio Arajo, Augusto Boal, Enrique Diaz, Eduardo Tolentino, Fauzi Arap, Fernando Peixoto, Gianfrancesco Guarnieri, Gianni Ratto, Joo das Neves, Jos Celso Martinez Corra, Mrcio de Sousa, Paulo Autran, Sbato Magaldi e Srgio de Carvalho; gora Livre Dramaturgias (2001), ciclo de debates, onde questes presentes na histria do teatro ocidental, formuladas a 13 autores contemporneos, foram respondidas na forma de textos e montagens: Eu No Sou Cachorro!, de Fernando Bonassi, direo Elias Andreato; Pai, de Izaias Almada, direo Roberto Lage; S mais um Instante, de Marta Ges, direo Aline Meyer e Juca Rodrigues,gora_13.qxd8/9/062:43 PMPage 358(Black plate)358GORA LIVRE DRAMATURGIAS Sobre a Arte de Cortar Bifes, de Hugo Possolo, direo Jairo Matos, A Cabea, de Alcides Nogueira, direo Mrcia Abujamra, Ilmo. Senhor, de Naum Alves de Souza, direo Celso Frateschi, Velhas Variaes Sobre o Mesmo Tema, texto e direo Mrio Bortolotto, Cor de Ch, de Noemi Marinho, direo Mrcia Abujamra, O Mundo Moinho, de Fauzi Arap, direo Tunica Teixeira, Novas Diretrizes em Tempo de Paz, de Bosco Brasil, direo Ariela Goldman, O Cu da Ptria, de Jandira Martini e Marcos Caruso, direo Marcos Caruso. Este projeto recebeu o Prmio Shell 2001 na categoria especial; gora Metrpolis XXI (2002): surgiu da demanda de estender-se a prospeco na rea da dramaturgia, focando desta vez questes pertinentes vida na metrpole; gora Livre Atores (2001): dilogos pblicos com jovens atores e artistas consagrados, como: Raul Cortez, Lineu Dias, Marco Ricca, Leona Cavalli, Renato Borghi, Alexandre Borges, Eva Wilma, Jos Moreira (ator portugus), Nicete Bruno, Miriam Rinaldi e Brian Stirner (professor, ator e diretor ingls); gora Livre Grupos (2001): visando o desenvolvimento de um pensamento teatral, grupos com reconhecido trabalho de pesquisa viabilizaram discusses, a partir das suas experincias; gora Livre Diretores (2003), dilogos com diretores conhecidos por linguagens e metodologia distintas; Albert Camus (2003), seminrio abordando a obra e a trajetria de Camus; Diana, de Celso Frateschi (2000), Tio Vnia, de A.Tchekov (2000) e Os Justos, de A. Camus (2003), so alguns dos espetculos teatrais produzidos.gora_13.qxd8/9/062:43 PMPage 359(Black plate)gora_13.qxd8/9/062:43 PMPage 360(Black plate)