A TRAJETRIA DAS NEGRAS E AFRO RELIGIOSAS NO BRASIL

  • Published on
    27-Jun-2015

  • View
    1.000

  • Download
    11

Transcript

A TRAJETRIA DAS MULHERES NEGRAS E AFRO RELIGIOSAS NO BRASIL Os caminhos que nos trouxeram at aqui remonta de um histrico de um passado no muito distante de negao dos direitos humanos elementares para a sobrevivncia de um povo, vindo de um continente distante, diferente, rico de diversidades culturais e conhecimentos cientficos. Arrancados de diversas regies da frica e escravizados no Brasil, estes Negros e Negras foram os responsveis pelo desenvolvimento econmico da colnia e de seus colonizadores. Sabe-se que milhes de Negros e Negras foram dizimados por esse processo escravocrata que sempre foi embasado na afirmao de que uma Raa Superior pode dominar, oprimir, mercantilizar uma outra raa denominada de inferior, o que costumamos chamar de Racismo. A mo de obra gratuita dos Negros e Negras foram utilizados em todos os setores da economia, exercendo todos os tipos de funes que comeavam com os trabalho nos engenhos de cana de acar, nas lavouras e plantaes agrcolas, na pecuria, na extrao de ouro e pedras preciosas, e terminavam com os afazeres domsticos da Casa Grande. Alm dos trabalhos rduos que eram impostos aos negros e negras, estes ainda eram vitimas de maus-tratos, torturas e pssimas condies de vida. A escravido tirou-lhes a condio de seres humanos, reduzindo-os condio de objetos, meros instrumentos de trabalho, sem direito algum. A Lei que decretou a Abolio da Escravatura, no trouxe nenhum beneficio para a Populao negra, simplesmente jogo-a a outra escravido, levando-a a um processo de marginalizao sem precedentes. Sem Emprego, sem escola, sem moradia, sem as condies mnimas de sobrevivncia. Este legado perdura at os dias atuais, pois a grande massa da populao negra no Brasil ainda busca resgatar, a Cidadania que lhe fora negada por muito tempo. As condies precrias de vida dos negros e negras no Brasil evidenciada pela total falta de mobilidade social e o profundo racismo enraizado nas relaes sociais, o mito da democracia racial perdura at os dias atuais, fortalecendo a idia errnea de que no existe racismo no Brasil, afirmando que a situao de misria em que vive a maioria dos negros e negras produto da sua incapacidade intelectual, preguia e indolncia prprios da raa, justificando, inclusive, uma representao social negativa sobre os negros e negras. Sabe-se que esse mito o resultado das ideologias racistas pregadas pelas classes dominantes deste pas que insistem em continuar oprimindo, dominando e determinado nas esferas do poder os seus posicionamento.

E se tratando das Mulheres Negras e Afro Religiosas a situao foi muito mais agravante, primeiro por ser mulher, tendo que suportar as ideologias machistas que impregnava todo a sociedade, segundo por ser Negra, no enfrentamento ao o Racismos exacerbado praticado de todos os moldes e por fim pobre e afro religiosa, sendo forada a conviver em um estado de violao permanente, alm da falta de acesso a uma sade de qualidade, educao, emprego e uma maternidade digna. Para falar sobre a situao atual da Mulher Negra e Afro Religiosa no Brasil imprescindvel avaliar as situaes que marcaram profundamente a vida dessas mulheres que foram marcadamente massacradas por um sistema autoritrio e desumano, de negao dos direitos humanos fundamentais, reduzindo a dignidade de pessoa humana a valores mnimos. Alguns aspectos so pertinentes e seus efeitos no campo scio-poltico e econmico, determinaram como essa situao afetou e afeta ainda hoje as novas geraes. No perodo da escravido, a mulher negra tinha mais valor para a produo do que o homem negro, pois para os senhores eram muito mais lucrativas por serem detentoras de potenciais produtivos e reprodutivos; quando engravidavam no lhes destinavam nenhum tratamento especial, sendo foradas a trabalhar arduamente como todos os outros escravos, alm de que a gravidez e a maternidade era motivo para serem molestadas por parte dos seus donos; tinham que conviver durante o desenvolvimento da gravidez em condies sub humanas, o que conseqentemente eram as causas de aborto, infanticdios e morte das mesmas durante o parto. Mas a estas mulheres negras foram reservado o papel de amas-de-leite, as mes-pretas, que amamentou e cuidou de milhares de crianas brancas, filhos dos senhores, servindo ainda para enriquecerem os seus senhores que as alugava ou as vendiam por serem eximes amas de leite. E assim, eram foradas a abandonar as suas crianas negras, negando-lhes a maternidade e, incorporando-a como pea importante para a reproduo da famlia branca. A escravido tambm deixou marcas irreparveis condio feminina, ao utilizar a mulher negra como propriedade privada, transformando-a em objeto sexual dos seus senhores, mascarando a opresso e a submisso para ganhar contornos de permissividade. Ao analisar o curso da historia vamos perceber que essas Mulheres Negras e Afro Religiosas tiveram um papel relevante na organizao e luta do Movimento Negro Nacional em busca da preservao cultural, desenvolvimento econmico- social e resistncia histrica destas populaes, afirmando os valores ancestrais trazidos do velho continente e os resignificados.

No passado, Fundaram Terreiros de religio de matriz africana, se organizaram em confrarias e irmandades, tornaram-se empreendedoras mpares nas vendas de acarajs, abars, cocadas, feijoadas, moquecas de peixes e mariscos, tacacs, carurus, vataps, abars, maniobas, panos da costa, vestidos, sandlias etc., buscando romper com a opresso e a explorao impostas por uma sociedade racista, machista e preconceituosa. Na atualidade A mulher negra tem sido, ao longo de nossa histria, a maior vtima da profunda desigualdade racial vigente em nossa sociedade. Os poucos estudos realizados revelam um dramtico quadro que se arrasta h anos. Sua dramaticidade no est s nas pssimas condies scio-econmicas, produzidas por um capitalismo selvagem e explorador, mas tambm na negao cotidiana da condio de ser mulher negra, atravs do racismo e do sexismo que permeiam todos os campos de sua vida. O resultado o sentimento de inferioridade, de incapacidade intelectual e a quase servido vivenciada por elas. Maria Aparecida Silva Bento (1994) chama a ateno para o fato de que h dcadas as mulheres negras vm sendo apontadas como aquelas que vivem a situao de maior precariedade na sociedade brasileira, demonstrando que esse segmento isolado politicamente e as mulheres acabam por viver uma realidade absolutamente dramtica1 A situao de mxima excluso pode ser percebida quando analisamos a insero da populao feminina negra em diferentes campos social, poltico e econmico. No campo scio-econmico os problemas so de larga extenso, passando pelo campo dos direitos, do trabalho, da sade, da educao, atingindo profundamente as novas geraes. A mulher negra est exposta misria, pobreza, violncia, ao analfabetismo, falta de atendimento nos servios assistenciais, educacionais e de sade. A maioria no usufrui dos bens e servios existentes e, ainda, est exposta violncia, resultando desta situao o seu aniquilamento fsico, poltico e social. A idia discriminadora da boa aparncia restringe a participao da mulher negra em certos setores do mercado de trabalho, a exemplo das funes de vendedoras, secretrias e recepcionistas, onde as negras ocupam apenas 2,2% das referidas funes. J no servio domstico, as mulheres negras representam 32,5%. Em atividades como serventes, cozinheiras e1

BENTO, Maria Aparecida Silva. "Mulheres Negras e Branquitude". ln: Revista Teoria e Debate. Encarte Faa a Coisa certa! O Combate ao Racismo em Movimento. Secretaria Nacional de Combate ao Racismo DNPP. N 31. So Paulo, 1994; pg. 19.

lavadeiras/passadeiras, o percentual para negras o dobro em relao s brancas (16% contra 7,6%)2. Esta situao gera um outro problema: a insero precoce de crianas e adolescentes no mercado de trabalho para o sustento da famlia ou complementao da renda. O quadro de participao de crianas e adolescentes, entre 10 a 17 anos, de regies metropolitanas, que residem em domiclios cuja renda mensal familiar per capita de at 1/2 salrio mnimo, o seguinte3: O Movimento de Mulheres Negras e suas organizaes especficas, cumprem papel fundamental no enfrentamento das questes estruturais que oprimem e exploram o povo negro, empunhando bandeiras que expressam, sobretudo, princpios como: respeito s diferenas, dignidade, ao direito vida. Pois est nas mos das mulheres negras o futuro de nosso povo. Elas so as guardis de nossas tradies e de nossas vidas, desde os primrdios. A vida comea e termina com elas. Conjugando a, a dimenso individual - do ser mulher dimenso coletiva e comunitria - do ser me, ylorix. Por isso, a importncia de sua luta, pois esto a conjugadas individualidade e coletividade O futuro nos pertence... Desde 1988 at os nossos dias, o processo de organizao se efetivou e tomou novos rumos. Seguimos fortalecidas, buscando o direito de escrever a nossa prpria histria, organizando-nos coletivamente para afirmar a nossa identidade, os nossos direitos e de toda a populao negra. Das bandeiras de luta empunhadas pelo movimento de mulheres negras, destaquei aquelas que me pareceram essenciais, apesar da riqueza que este movimento comporta. So elas: O enfrentamento e o fim da opresso e da explorao de gnero, raa e classe Atualmente milhares de negros e negras vivem na pobreza ou esto em situao de indigncia, devido ao sistema scio-poltico e econmico vigente2

Idem, pag. 499.

3

BARROS, Ricardo Paes de. MENDONA, Rosane Silva Pinto. "Determinantes da Participao de Menores na Fora de Trabalho. Texto para discusso n' 200. IPEA: ffio de janeiro, nov. 1990

no pas. Alm disso, so as vtimas preferenciais de uma poltica de extermnio que tem dado cabo, principalmente, da vida dos homens negros jovens e adultos. O racismo, o sexismo e a opresso de classe formam o trip que sustenta este sistema excludente e explorador. Como estratgia, as mulheres negras tm buscado enfrentar conjuntamente estes elementos, a partir de lutas para a melhoria das condies de vida e pela dignidade do povo negro. Outro passo fundamental para romper com a opresso e a explorao tirar do anonimato e do silncio milhares de mulheres, buscando dar visibilidade a sua condio e a sua afirmao com ser humano; e tambm fazendo valer os seus direitos. Visibilidade da mulher negra e realizao dos seus direitos mulher, duplamente explorada e oprimida, cabe-nos evidenciar a nossa situao apontando as nossas necessidades e lutando para a realizao dos nossos direitos. Direitos estes que nos tm sido negados desde quando o primeiro navio negreiro aportou no Brasil, o direito ao nosso corpo, nossa dignidade, ao respeito, individualidade e sobretudo o direito de sermos o que somos: mulheres negras. Ainda no bojo desta questo, faz-se necessrio destacar os direitos vida e ao corpo, que nos tm sido negados atravs da esterilizao em massa das mulheres negras, agora definida em lei, dos pssimos servios de sade, principalmente aqueles voltados para a sade reprodutiva e sobretudo, o extermnio das crianas, dos adolescentes e dos homens negros. Mobilizao e fortalecimento das organziaes de mulheres negras Desde a dcada de 70, as mulheres negras esto mobilizadas para a conquista do seu corpo, dos seus direitos e dos direitos de sua comunidade. Tendo como marco de luta o I Encontro Nacional de Mulheres Negras realizado em Valena, Rio de Janeiro, em 1988, onde demos o primeiro passo para a construo de uma organizao consistente e eficaz. O Encontro foi um marco decisivo para a visibilidade da mulher negra e para o impulsionamento das reflexes e aes para o combate ao racismo e ao sexismo. Desde aquela data, diferentes grupos vm se inserindo atravs dos fruns para a organizao das mulheres. Hoje, j temos saldo positivo no combate esterilizao em massa e na realizao de outras aspiraes; mas ainda pouco, nos falta liberdade, dignidade e respeito. Por isso, continuaremos lutando pela efetivao de nossa cidadania.

Cidadania e polticas pblicas O primeiro passo para a efetivao de nossa cidadania, aps vrios sculos de excluso e degradao, a incluso do povo negro como sujeito desta nao. preciso criar condies para que a populao negra saia da misria, do analfabetismo e do subemprego, atravs das polticas sociais que hoje se constituem direitos de todos e dever do Estado. Implementando os preceitos constitucionais que garantem sade, educao, assistncia social, moradia, transporte, trabalho etc. preciso restaurar a dignidade desta populao, reconhecendo e respeitando a nossa cultura, a nossa religiosidade, a nossa identidade afro-brasileira. Em suma, garantindo a participao do povo negro em todos os momentos da vida de nosso pas como sujeitos de direito, logo, cidados.

BIBLIOGRAFIAAGUIAR, Neuma. Rio de Janeiro Plural: Um Guia Para Polticas Sociais por Gnero e Raa. Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, IUPERJ, pg. 46, 1994. ANYON, Jean. Intersees de Gnero e Classe: Acomodao e Resistncia de Mulheres e Meninas s Ideologias de Papis Sexuais. So Paulo, Cadernos de Pesquisa Fundao Carlos Chagas, 1990. [Traduo de Edith P. Piza] AZEVEDO, Clia Marinho de. Onda Negra, Medo Branco. Rio de Janeiro, O Negro no Imaginrio das Elites - Sculo XIX, Paz e Terra, 1987. BENTO, Maria Aparecida Silva. Mulheres Negras e Branquitude. So Paulo, In. Revista Teoria e Debate. Encarte Faa a Coisa certa! O Combate ao Racismo em Movimento, Sec. Nacional de Combate ao Racismo DNPP, n 31, pg. 18 a 21, 1994 BOSI, Alfredo. Dialtica da Colonizao. So Paulo, Companhia das Letras, 1992. CADERNOS GELEDS. Geleds Instituto da Mulher Negra. n 4, novembro 1993. CARNEIRO, Maria Luiza T. Preconceito Racial no Brasil Colnia. So Paulo, Editora Brasiliense, 1983. CHAGAS, Fundao Carlos. Cadernos de Pesquisa. So Paulo, n 62, agosto de 1979. CHAU, Marilena. Conformismo e Resistncia: Aspectos da Cultura Popular no Brasil. So Paulo, Editora Brasiliense, 1987. CHIAVENATO, Jos Julio. O Negro no Brasil, da Senzala Guerra do Paraguai. So Paulo, Editora Brasiliense, 1980. CIEC/ECO/UFRJ. Estudos Feministas. Rio de Janeiro, v.1, n1, 1993. FREYRE, Gilberto. Introduo Histria da Sociedade Patriarcal no Brasil. Rio de Janeiro, Casa Grande & Senzala, In Obras Reunidas de Gilberto Freyre, Livraria Jos Olympio Editora, 10 edio brasileira, 1961. [1 tomo]

GONZALEZ, Llia. Sankofa. Resgate da Cultura Afro-Brasileira. Rio de Janeiro, SEAFRO, 1994. GIACOMINI, Sonia. Mulher e Escrava: Uma introduo histrica ao estudo da mulher negra no Brasil. Petrpolis, Vozes, 1988. HASENBALG, C. A. Discriminao e Desigualdade Raciais no Brasil. Rio de Janeiro, Graal, 1979. HOLANDA, Srgio Buarque de. Razes do Brasil. Rio de Janeiro, Livraria Jos Olympio Editora, 5 edio, 1960. IANNI, Otvio. Escravido e Racismo. So Paulo, Editora Hucitec, 1978. IFCS/UFRJ. Dossi Mulheres Negras. Rio de Janeiro, In Estudos Feministas, v. 3, n2, pg. 434552, 1995. IPEA. IV Conferncia Internacional da Mulher (Pequim/95). II Seminrio Nacional: Polticas Econmicas,Pobreza e Trabalho. Srie Seminrios, n 7, maio, 1994. LOPES, Helena Theodoro; NASCIMENTO, Beatriz Maria; SIQUEIRA, Jos Jorge. Negro e Cultura no Brasil. Rio de Janeiro, UNIBREDE/UNESCO, 1987. LUZ, Madel. O lugar da Mulher: Estudos Sobre a Condio Feminina na Sociedade Atual. Rio de Janeiro, Coleo Tendncias, Organizao Madel Luz, Edies Graal, n 1, 1982. MORAES, Aparecida Fonseca. Como Pensar as Diferenas? Rio de Janeiro, Mimeo, 1988. PAOLI, Maria Clia. Mulheres: Lugar, Imagem, Movimento. Rio de Janeiro, In: Perspectivas Antropolgicas da Mulher 4, pg. 65-99, Jorge Zahar, 1985. PARKER, Richard G. Corpos, Prazeres e Paixes. So Paulo, A cultura sexual no Brasil Contemporneo, Traduo de Maria Therezinha M Cavallari, 2 edio, Editora Best Seller, 1991. REVISTA HUMANIDADES. Editora UnB, n 17. REVISTA TEORIA E DEBATE. Encarte Faa a Coisa certa! O Combate ao Racismo em Movimento, So Paulo, Sec. Nacional de Combate ao Racismo DNPP, n 31, 1994. SAFFIOTI, Heleieth. A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e Realidade. Petrpolis, Vozes, 1976. ______O Poder do Macho. So Paulo, Coleo Polmica, Editora Moderna, 1987. SANTOS, Juana Elbeien. Os Nag e a Morte. Petrpolis, Vozes, 1997. SILVA, Martiniano Jos da. Racismo Brasileira: Razes Histricas. Distrito Federal: Thesaurus Editora, 1987. SODR, Muniz. A Verdade Seduzida: Por um Conceito de Cultura no Brasil. Rio de Janeiro, Codecri, 1983. SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se Negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascenso social. Rio de Janeiro, Coleo Tendncias, v. 4, Edies Graal, 1983. SANTANNA, Wnia; PAIXO, Marcelo. Desenvolvimento Humano e Populao Afro-Descendente no Brasil: uma questo de raa. Rio de Janeiro, In Proposta, n 73, ano 26, pg. 20-37, Fase, junho/agosto 1997. THEODORO, Helena. Mito e Espiritualidade: Mulheres Negras. Rio de Janeiro, Pallas Editora, 1996.

__________________________________

A AUTORA Lcia Maria Xavier de Castro Assistente Social, aluna do Curso do Mestrado de Engenharia de Produo - COPPE/UFRJ, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1984.

Recommended

View more >