A OUTRA FACE DE EVA: Eva tentada

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    10-Jan-2017

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1 A OUTRA FACE DE EVA: Eva tentada O estigma de Eva como tentadora de Ado persegue ainda hoje as mulheres fazendo dos homens pobres vtimas da seduo feminina. Parece-me que este estigma consegue cegar at mesmo uma grande maioria de mulheres que acabam sentindo-se em culpa quando so vtimas de abuso sexual dos homens. Por outro lado, o papel de vtima tentada por Eva, cmodo pois desresponsabiliza alguns tipos de homem de algumas de suas aes e lhe d o O.K. para usar, sem nenhum escrpulo, a seduo do poder, do status e do dinheiro para abusar e fazer vtimas entre mulheres fragilizadas pela condio econmica, uma vez que so elas as mais expostas. Sim, a outra face da moeda, desconhecida, ignorada, ridicularizada e at mesmo compactuada. Infelizmente, a realidade de Eva tentada presente em vrias culturas e em vrios pases do terceiro mundo um grito preso na garganta de tantas mulheres, sufocado pelo medo da incompreenso e pela vergonha de uma sociedade que a v, quase sempre como tentadora do homem e, portanto, culpada pela violncia sofrida. Conheo muitas Evas tentadas , mas falarei somente sobre algumas Evas africanas. Os pases da frica assim como da Amrica Latina, so ricos de pobres que, infelizmente, so mais empobrecidos ainda pelos bombardeamentos das propagandas televisivas que criam necessidades impossveis de serem satisfeitas pela grande maioria do seu povo que acaba sendo assim, presa fcil de abusadores. Em um contexto assim, no nos surpreende que a seduo da riqueza fcil se transforme em uma arma muito eficaz que atinge tantas mulheres africanas desejosas de sair da misria econmica, de conseguir uma vida diferente daquela que os seus pais vivem. Ou seja, mulheres desejosas de conseguir terminar a escola mdia superior, 2 cursar uma faculdade, ter uma profisso, conseguir um trabalho, uma casa, ajudar seus irmos menores e, s vezes, desejam somente ter algo na panela para cozinhar e ver o sorriso voltar nos lbios dos seus irmozinhos. No entanto, tais desejos so simplesmente direitos de todo ser humano e no algo a ser conquistado com a venda do prprio corpo, com a barganha da prpria dignidade humana. Mas, por que isso acontece? Por que um direito, tantas vezes, precisa de ser comprado com o preo da prpria dignidade? A resposta s pode ser encontrada no egosmo do ser humano que encontra o seu prazer em aumentar a dose de dor a quem j est sucumbindo pela overdose de sofrimento e disposta a gestos desesperados para venc-lo. Desfila na minha mente uma quantidade de jovens africanas castigadas fisicamente por professores pelo simples fato de no aceitar os seus pedidos de prestaes de favores sexuais; outras ainda, pelo mesmo motivo, vem suas notas abaixadas a ponto de no conseguirem a mdia suficiente para passar de ano; e outras, acabam por abandonar os estudos por no suportar a presso; ou cedem, mas, acabam deixando de qualquer maneira os estudos porque jovens grvidas no podem freqentar a escola, ou optam pelo aborto com todas as conseqncias que isto comporta; ou ainda, assumem a prpria gravidez, muitas vezes sozinha. E muitas e muitas dessas jovens acabam contraindo a AIDS. Somente, um parntese: em muitos vilarejos africanos a populao est desaparecendo por causa da AIDS: restam somente as crianas morando sozinhas nas casas deixadas pelos pais e parentes falecidos. Fecho o parntese. Vejo ainda uma outra quantidade de jovens batendo nas portas de patres para conseguir um emprego e sendo obrigadas a enfrentar um estranho exame de seleo que no tem nada a ver com a sua competncia e motivao e nem com o tipo de trabalho oferecido. Mas, conseguir o trabalho tem um preo que precisa ser pago antes de comear a trabalhar: satisfazer sexualmente o patro. 3 O desfile de Evas tentadas continua na pessoa daquelas ainda meninas que em troca de comida, de uma casa e um mnimo de conforto para os seus, se submetem a pousar para filmes porns ou pior ainda, aceitam relaes com animais cujos filmes enriquecem empresas internacionais pornogrficas. Recordo um fato, ocorrido h vrios anos, que revoltou o povo de um pas africano: dois estrangeiros que trabalhavam em uma empresa do pas, aps divertirem-se com uma jovem, a obrigou a manter relao com o cachorro de raa deles. Embriagados, tiraram vrias fotografias. A jovem, apoderou-se da mquina fotogrfica e, naquela mesma manh, os denunciou. At agora falamos da falta de escrpulos de ricos. Mas, o que dizer diante da pobreza de pais que empurram as prprias filhas para o mundo da prostituio? Infelizmente, a pobreza material, mas tambm aspectos pobres de algumas culturas os levam a tal absurdo. Em algumas regies, as meninas que terminam a escola fundamental, ainda que menores de idade, so consideradas autnomas. Como tais, devem contribuir economicamente, com a famlia. Mas, no s economicamente, tambm numericamente. Explico-me. Terminada a escola fundamental, os pais constroem um barraco para a filha onde deve dormir sozinha. O seu compito trazer algum dinheiro para casa e tambm filhos. Amor s crianas, poderamos pensar. Talvez. Mas o motivo principal que com um filho, o pai da criana ser obrigado a sustent-lo, assim toda a famlia se beneficia. Neste contexto, um dos trabalhos das Irms empreender uma corrida contra o tempo e os meios: antes que a menina termine a escola fundamental, precisam procurar uma escola particular com internato, arrumar o dinheiro suficiente para sustentar os estudos da mesma e convencer o pai a deix-la estudar. Na realidade, somente algumas conseguem ter tal sorte. Conheci Aline quando havia 11 anos de idade. No sabia ler nem escrever, pois nunca tinha freqentado uma escola. Mas, tinha uma vontade imensa de estudar! A esta idade, j tinha que contribuir economicamente com famlia e para tal, ao cair da noite e luz da 4 lamparina, vendia salgadinhos beira da estrada. Era uma linda menina, simptica e sempre bem vestida e penteada. Assim que chegamos ao vilarejo, Aline se aproximou de ns. Comeamos a ajud-la fornecendo-lhe alguns ingredientes para os seus salgados e alertando-a sobre o perigo de vender salgados quela hora da noite. Aps algum tempo deixou de vender salgados noite e comeou a fabricar em casa, sacos de papis e vend-los para os feirantes. Quando abrimos uma pr-escola, ela pediu para freqent-la pois queria aprender a ler e escrever. Como j estvamos na metade do ano escolstico, aceitamos o seu pedido com a finalidade de prepar-la para a primeira srie. Revelou-se uma aluna excelente e em pouco tempo j sabia ler e escrever. Chegou o momento de matricular-se na 1. Srie. Acompanhada por uma das Irms foi nica escola fundamental do vilarejo. A Diretora no se ops a receb-la apesar da idade, mas, era necessrio o consentimento da me. Esta no lhe permitiu, pois no via necessidade de estudo para suas filhas, alm de ser uma perda de tempo. Mais uma vez, Aline recorreu s Irms que acompanharam-na sua casa para conversar com a me. Finalmente, a convencem e Aline comea a estudar. As Irms conseguem um padrinho da Itlia que ajuda nas despesas com os estudos. Ela sempre a primeira da classe. Estuda com entusiasmo e em casa continua a confeccionar sacos de papis para ajudar economicamente, a famlia. Quando cursava a 4. Srie do ensino fundamental, lhe vem a primeira menstruao. A me desconfia e procura de certificar-se, pois segundo o costume da sua tribo, por ocasio da menarca a menina se torna uma reclusa na prpria casa at que uma grande festa preparada. Enquanto se prepara a festa, a menina junto com outras so treinadas para a vida de casada, pelas ancis da tribo. Finalmente, no grande dia da festa apresentada ao pblico masculino. Em tal ocasio, o rapaz que lhe interessado se apresenta 5 aos pais; comea, ento, as tratativas e a preparao para o casamento. Aline sabe que corre risco, sabe que se tudo isso acontecer dever deixar de estudar e alm do mais, dever esposar-se e isto ela j havia dito que no era a sua vocao. S encontra uma alternativa: corre para a casa das Irms e se esconde l. No demorou muito e l estava a sua me na porta da casa do convento. Furiosa, esbraveja contra as Irms que escondem a minha filha porque vocs tm medo de homem Em seguida, resolve voltar para sua casa deixando a filha l. Depois, tambm Aline voltou para sua casa e nenhuma festa lhe foi feita. A jovem conseguiu mais esta vitria e pde assim, continuar os seus estudos por mais um pouco de tempo. Aos 19 anos, quando j estava terminando a penltima srie do ensino fundamental, Aline viu escorregar das mos a sua chance de continuar os estudos. Era um dia como todos os outros, e como todos os outros dias, ela foi buscar gua para a famlia. Ali, sozinha e indefesa foi violentada por um seu admirador. Ficou grvida, deixou a escola e j quase no se via o seu belo sorriso brilhar em sua face. O seu sonho de estudo e de uma vida diferente daquela das suas irms mais velhas, evanesceu naquela tarde. Ela deu luz uma linda criana, mas, com o pai do seu filho no queria ter nada a ver. Continuou a vender salgados e morar com sua famlia. Com o tempo percebe que no era possvel alimentar toda a sua famlia e sustentar, ao mesmo tempo o seu filho. Resolve alugar um barraco e foi para l com o filho. Continua a trabalhar e, para no gastar todo o dinheiro, pede que uma das Irms o conserve. No demora muito e o pai vem reivindicar o seu direito de pai e de marido. Relutante, mas pressionada por alguns parentes, Aline o acolhe e tenta construir um relacionamento. Mas, a tentativa frustrante: a ele no agrada muito trabalhar e a maltrata. Mas Aline uma Eva lutadora: levanta-se s duas da madrugada, prepara o fermento para os salgados, dorme mais um 6 pouco, mas, s quatro da madrugada se levanta de novo, prepara a massa, frita-a e s seis da manh j est de porta em porta oferecendo os salgados para o caf da manh, enquanto o filho dorme sozinho em casa. Encontrei-a h algum tempo e ainda chorava pensando na sua grande vontade de estudar. Ora ela est freqentando um curso profissionalizante de corte e costura na casa das Irms. Uma outra Eva marcou a minha vida: Diana. Menina de poucas, mas profundas palavras. Desde pequena sabia o que queria e perseguia os seus objetivos silenciosa e persistentemente. Tambm ela se deparou, vrias vezes, com as dificuldades de ser mulher e negra. Por fortuna, vinha de uma famlia de classe remediada, mas sobretudo, de uma famlia honesta e profundamente crist. Quanto sofrimento por persistir em querer ser diferente das suas colegas de classe no aceitando pagar os favores em troca da partilha de conhecimento. Explico-me melhor. Os estudantes da escola mdia formam grupos entre eles para que um partilhe com os outros os seus conhecimentos em matrias que tm mais facilidade de aprendizagem. Fazem estes estudos fora do horrio de aulas, noite e, geralmente, na biblioteca da escola. Por no aceitar s presses do grupo, Diana se viu logo rejeitada pelos colegas e pelas colegas e exclusa do grupo de estudo. Ento, pesquisava e estudava sozinha ou com alguma colega tambm deixada margem. Infelizmente, a presso no parou a. O grupo de rapazes comeou a planejar um estupro sada da biblioteca. Chegando ao conhecimento do fato, Diana comunicou sua famlia que a compreendeu e ajudou: a partir da todas as noites a me ou um dos irmos ia busc-la sada dos estudos. 7 Ela no conseguiu entrar na faculdade. Fez alguns cursos profissionais e comeou a lutar para ter um espao no mundo do trabalho. Todas as suas iniciativas comeavam bem, mas no demorava muito a chegada de cobranas de pagamento. Ela ento era obrigada a desistir de suas iniciativas. Diana fracassou como comerciante, mas, na sua via-sacra em busca de um lugar na sociedade, aprendeu coisas que nenhuma faculdade ensina. E, como todo aprendizado autntico comporta uma mudana de vida, Diana tornou-se sempre mais sensvel aos sofrimentos da mulher pobre e de todo marginalizado pela sociedade, pois se deparou com muitos deles. Descobriu qual era o seu lugar naquela realidade de opresso: resgatar a dignidade do seu povo pobre e conscientizar a mulher sobre o seu prprio valor. Como bonito constatar o milagre de um cristianismo autntico: afasta a mgoa e o dio que levam a oprimir e transforma um oprimido em uma pessoa capaz de conquistar a liberdade pessoal e capaz de cooperar no processo de libertao do oprimido. Hoje, Diana uma voluntria em uma ONG em seu pas e, contando com homens e mulheres de boa vontade, ela dedica-se totalmente ao pobre e marginalizado do seu povo. Enquanto finalizava este artigo, recebi, no por acaso, uma mensagem via e-mail que partilho com voc convidando-lhe a voarmos juntos na reflexo sobre a grande riqueza de Deus: o ser humano formado pelo homem e mulher: NECESSITAMOS VOAR Agora mais do que nunca, a causa da mulher a causa de toda a HUMANIDADE. B. Boutros Ghali 8 Para cada mulher forte cansada de aparentar debilidade, h um homem dbil cansado de parecer forte. Para cada mulher cansada de ter que agir como tonta, h um homem agoniado por ter que aparentar saber tudo. Para cada mulher cansada de ser qualificada como ser emotivo", h um homem a quem se tem negado o direito de chorar e ser delicado. Para cada mulher catalogada como pouco feminina quando compete, h um homem obrigado a competir para que no se duvide de sua masculinidade. Para cada mulher cansada de ser um objeto sexual, h um homem preocupado com sua potncia sexual. Para cada mulher sem acesso a emprego ou a um salrio satisfatrio, h um homem que deve assumir o sustento de outro ser humano. Para cada mulher que desconhece os mecanismos do automvel, h um homem que no aprendeu os segredos da arte de cozinhar. Para cada mulher que d um passo em direo sua liberao, h um homem que redescobre o caminho da liberdade. A Humanidade possui duas asas: Uma a mulher, a outra o homem. ENQUANTO AS ASAS NO ESTIVEREM IGUALMENTE DESENVOLVIDAS, A HUMANIDADE NO PODER VOAR 9 NECESSITAMOS UMA NOVA HUMANIDADE. NECESSITAMOS VOAR. Ir. Elizabeth S. Ribeiro, CMSTMJ Com a permisso da Irm Elisabeth, quero acrescentar uma outra poesia, MARIA MARIA. Esta poesia abre o musical para bal que tem o mesmo nome, Maria Maria, escrito especialmente para o Bal Corpo, de Minas Gerais. Ela apresenta em resumo simblico a vida das mulheres pobres, sobretudo das mulheres negras do Brasil, at porque a maioria da mulheres pobres so negras. tambm o resumo da vida das mulheres negras no mundo, como vemos no texto acima. Maria Maria Milton Nascimento/Fernando Brant Maria Maria, um simples nome de mulher Corpo negro de macios segredos, olhos vivos Farejando a noite, braos fortes trabalhando o dia. Memria da longa desventura da raa, Intuio fsica da justia. Alegria, tristeza, solidariedade e solido. Uma pessoa que aprendeu vivendo E nos deixou a verdadeira sabedoria: A dos humildes, dos sofridos, Dos que tem o corao 10 maior que o mundo. Maria Maria nasceu num leito qualquer de madeira. Infncia incomum, pois nem bem ela andava, falava e sentia e J suas mos ganhavam os primeiros calos de trabalho precoce. Infncia de roupa rasgada e remendada, de corpo limpo e sorriso bem aberto. Infncia sem brinquedos, mas cheia de jogos aprendidos com as velhas que lavavam roupas nas margens do Jequitinhonha. Infncia que acabou cedo, pois j aos 14 anos, como normal na regio, ela j estava casada. Do casamento ela se lembra pouco, Ou no quer muito se lembrar. Homem estranho aquele a lhe dar Balas e doces em troca de cada filho. Casamento que em seis anos, seis filhos lhe concedeu. Os filhos se amontoavam nos quatro cantos da casa. Enquanto ela estendia a roupa na beira dos trilhos, os seis meninos sentados brincavam na terra fofa. Os seus olhinhos de espanto no entendiam nada. De repente, notcia vinda dos trilhos. Maria Maria era viva. Pela primeira vez a morte entrava em sua vida E vinha em forma de alvio. E de retalho em retalho Maria se definiu: solitria, operria e brincalhona. Ela pode ao mesmo tempo Ser Maria e ser exemplo de gente Que trabalhando em todas as horas do dia, Conserva em seu semblante Toda pura alegria, de gente que vai sofrendo E quanto mais sofre, mais sabe. 11