A narrativa como uma tcnica de pesquisa fenomenolgica

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    06-Jan-2017

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    Embora esteja falando sobre essas coisas, mas eu me sinto bemagora. Acho bom estar falando. bom porque eu conversandoassim, eu desabafo mais. Voc procura tirar tudo; quando agente conversa com algum sobre alguma coisa que aconteceu,algum problema, algum tempo atrs, j vai saindo do corpo eda memria, entendeu? Voc vai procurando, como se fosseuma alma perdida. Quando a gente morre o nosso esprito nosai do corpo? Ento, pra mim a mesma coisa quando eu voucontando as histrias pra pessoa; vai saindo aos poucos...aalma perdida...Que a dor dos sofrimentos que eu j passei. Aj vo saindo essas histrias da minha vida toda. Mas no pratodo mundo que eu conto, mas s para as pessoas que eu confio que eu conto. alvio. Parece que a cada dia que eu conto aminha histria diminui o meu sofrimento (Excerto da Narrati-va 2: Valda1, 18 anos).

    E ste trecho de narrativa refere-se ao depoimento deValda, uma das jovens participantes de uma pesquisapor ns realizada (Dutra, 2000), sobre tentativa de sui-cdio de jovens e na qual este artigo se baseia. A sua fala nosdiz da sua experincia, alm de sinalizar o caminhometodolgico percorrido no referido estudo, em direo quiloque Benjamin (1994) chama de narrativa. A narrativa de Valda

    A narrativa como uma tcnica de pesquisa fenomenolgica

    Elza DutraUniversidade Federal do Rio Grande do Norte

    Resumo

    Este artigo apresenta a narrativa, segundo as idias de Walter Benjamin, como uma modalidade de pesquisa naperspectiva fenomenolgica. A partir de estudo realizado pela autora atravs de narrativas, introduzem-se osfundamentos tericos e metodolgicos da perspectiva fenomenolgica, ancorados na ontologia heideggerianae nas idias de tericos da abordagem fenomenolgica e existencial na Psicologia. Pretende-se mostrar que aexperincia, dimenso existencial do viver, pode ser abordada e compreendida atravs da narrativa, o que tornaesta tcnica apropriada pesquisa de inspirao fenomenolgica e existencial.

    Palavras-chave: Narrativas, Pesquisa fenomenolgico-existencial, Mtodo de pesquisa.

    Abstract

    Narrative as a phenomenological research technique.. The focus of this paper is the narrative as a modalityof phenomenological research according to Walter Benjamins conception. Using narratives, the author discussesthe theoretical and methodological framework of phenomenology, based on heideggerian ontology and on thephenomenological and existential psychology. The purpose of this discussion is to demonstrate that experience,as a existential dimension of living, can be studied through narratives, a suitable technique for existential andphenomenological research.

    Key words: Narratives, Phenomenological-existential research, Research method.

    revela dimenses que envolvem uma perspectivafenomenolgica e existencial da pesquisa, pois trata, basica-mente, da sua experincia ao viver uma tentativa de morte. Elanos conta a sua histria, narrando os fatos, acontecimentos eafetos que percorrem a sua trajetria vivencial. E, na medidaem que o faz, desvela a sua experincia, ao mesmo tempo emque a constri e reconstri, atravs da linguagem. Ao cont-la, ela nos introduz na sua vida, sensibiliza-nos e coloca-noscomo participantes da sua experincia, fazendo do pesquisa-dor um sujeito dessa experincia. Conforme Schmidt (1990),cabe ao pesquisador colocar-se, ento, mais como umrecolhedor da experincia, inspirado pela vontade de com-preender, do que como um analisador cata de explicaes(p. 70).

    A relevncia da participao do pesquisador no contex-to da pesquisa enfatizada por vrios autores, quando sereferem modalidade da pesquisa qualitativa. Ainda que talperspectiva metodolgica no suponha a utilizao de vari-veis apriorsticas, diferentemente de outros mtodos, noimplica a ausncia do cientista, como afirma Trivios (1995):

    ...mas isso no significa que o pesquisador assuma uma posturaneutra; ao contrrio, ele sujeito participante da pesquisa,

    Estudos de Psicologia 2002, 7(2), 371-378

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    diretamente implicado na relao pesquisador-pesquisado. (...)O investigador, sem dvida, ao iniciar qualquer tipo de busca,parte premunido de certas idias gerais, elaboradas consciente-mente ou no. impossvel que um cientista, um buscador oufazedor de verdades, inicie seu trabalho despojado de princpi-os, de idias gerais bsicas (p. 123).

    Carl Rogers (Rogers & Kinget, 1975) expressa idia se-melhante a respeito da pesquisa, ao afirmar:

    Uma das minhas convices mais profundas diz respeito razo de ser da pesquisa cientfica e da explicao terica. Emminha opinio, a finalidade capital deste tipo de empreendi-mento a organizao coerente de experincias pessoais sig-nificativas. A pesquisa no me parece, pois, alguma atividadeespecial, quase esotrica, ou um meio de adquirir prestgio.Vejo a pesquisa e a teoria como um esforo constante e disci-plinado visando descobrir a ordem inerente experincia vivi-da (p. 149).

    Schmidt (1990) vincula o pesquisar experincia, quan-do afirma que

    A pesquisa, muitas vezes, a elaborao de elementos diversose difusos da teoria e da experincia, elaborao construda emtorno de um fenmeno. Nesse sentido, uma pesquisa concluda o relato do percurso de um pesquisador ou de um grupo (p.59).

    , ento, na direo da experincia, que a pesquisafenomenolgica e existencial se encaminha, uma vez que talperspectiva enfatiza a dimenso existencial do viver humanoe os significados vivenciados pelo indivduo no seu estar-no-mundo.

    A experincia como uma dimenso existencial dovivido

    O termo experincia2 tem sido empregado para nomearsituaes das mais diversas. O uso dessa palavra costumaser variado e confuso. No entanto, a experincia sempre nosremete quilo que foi aprendido, experimentado, ou seja, aquiloque em algum momento, foi vivido pelo indivduo. Na Psico-logia, no se dispe de uma teoria da experincia, fazendocom que tal termo possa referir-se tanto a um objeto de pes-quisa relacionado a um experimento, no contexto da pesquisaexperimental, como tambm nos remete dimenso vivencialda psicoterapia, ao mundo vivido, singular e existencial doindivduo.

    Assim, Rogers e Kinget (1975) definem experincia, se-gundo a sua teoria:

    Esta noo se refere a tudo que se passa no organismo emqualquer momento e que est potencialmente disponvel cons-cincia; em outras palavras, tudo que suscetvel de ser apre-endido pela conscincia. A noo de experincia engloba, pois,tanto os acontecimentos de que o indivduo consciente quan-to os fenmenos de que inconsciente (p. 161).

    A noo descrita pelo criador da Abordagem Centradana Pessoa constitui-se numa definio psicolgica e refere-

    se a todos os acontecimentos que ocorrem no mundo feno-menal ou campo perceptual do indivduo; refere-se, ainda, atudo aquilo que afeta a experincia vivida no momento, sejamesses aspectos conscientes ou inconscientes. Ou seja, po-demos entender a experincia, tal como proposta por aqueleautor, como referncia ao mundo vivido, ao momento existen-cial da pessoa, incluindo-se a todas as vivncias que com-pem tal momento. Algumas delas no so conscientes, mascertamente fazem parte do, e influenciam o seu estar-no-mun-do em determinado momento. Nesse sentido, experimentar,para Rogers e Kinget (1975), representa a verso-processoda experincia. Reitera o que j foi dito antes, pois relaciona-se ao aspecto vivido, ativo e mutvel dos acontecimentossensoriais e fisiolgicos que se produzem no organismo (p.162).

    Gendlin (1962; 1970), um dos mais produtivos colabora-dores de Rogers, prope uma teoria do experienciar, sugerin-do que este seja considerado um processo, devendo ser vis-to em termos deste quadro de referncia. Para este autor, em-bora de usos muitas vezes confusos, a palavra experinciaem psicologia, sempre significa eventos psicolgicos con-cretos (1962, p.138), o que nos conduz ao significado deexperienciar como sendo constitudo por um processo cor-poralmente sentido, experimentado interiormente e respon-svel pelo material concreto da personalidade ou seu conte-do, formados por esse fluxo de sensaes corporais ou sen-timentos.

    Experincia e Linguagem

    Gendlin (1973) entende que ser-no-mundo a forma deMartin Heidegger, atravs da sua ontologia, definir os huma-nos como ser-a, como experienciando situaes. De acordocom ele, as situaes so diferenciadas atravs da linguageme distines lingsticas em muitas texturas de situaes comas quais ns vivemos. A linguagem usada para distinguirsituaes e para diferenci-las. Quando se estuda experin-cia e afirmaes em relao s experincias, preciso estarclaro que elas j esto ou so sempre relacionadas e essarelao ocorre em torno de situaes. Assim, no se estudaexperincia pura como se ela fosse um tipo de massa, pois aexperincia sempre organizada pela histria evolucionriado corpo e tambm pela cultura e situaes organizadas par-cialmente pela linguagem (p. 291).

    Embora a linguagem esteja sempre envolvida na comple-xa organizao da experincia, ela nunca est totalmente en-volvida. O papel da linguagem no diz tudo de uma experin-cia. Quando se relaciona a linguagem a uma situao, no seest fazendo isso pela primeira vez, pois a linguagem j estenvolvida na experincia. Nesse momento, Gendlin se referea um mtodo criado por ele, de focalizao, que pretendefazer referncia direta ao processo de sentimento, ou seja, experincia. Assim, quando a experincia direta serve comobase para afirmaes, ela no est parte da situao, j quea estrutura situacional est implcita. possvel, por isso,estruturar situaes com sentimentos e palavras (Gendlin,1973).

    E.Dutra

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    O que este autor prope no mtodo de focalizao utili-zado no contexto da psicoterapia, diz respeito aos passos dareferncia direta (uso de palavras para afirmar, separar algunsaspectos da experincia que podem ser chamados esta ouaquela experincia). As palavras usadas podem ser prono-mes demonstrativos ou podem ser algo descritivo. O que elesdizem pode ser vago, mas apontam para alguma coisa, sen-do esta a principal colocao da sua teoria, afirmando que noprocesso de referncia direta, no reconhecimento, o sen-timento parece chamar pela palavra. Se algum tem o senti-mento, ento a palavra vem. A relao entre palavras e expe-rincia aparece aqui como uma relao direta - a palavra diz aexperincia, a experincia chama pela palavra (p. 263). Talforma de considerar a experincia coloca a linguagem numlugar privilegiado dentro da Fenomenologia, pois atravs dapalavra pode-se abordar ou encontrar a experincia, a exis-tncia, o ser-a, o ser-com. A linguagem, trazendo o sentimen-to tona, revela tambm a situao, ou o contexto situacional,j que todos esto relacionados entre si.

    A experincia segundo o pensamento de WalterBenjamin

    Benjamin (1994), filsofo alemo, tinha como conceitocentral de sua filosofia a experincia e, como expresso desta,a narrativa. Dizia ele que a narrativa uma forma artesanal decomunicao. Ela mergulha a coisa na vida do narrador paraem seguida retir-la dele (p. 205). Embora, na sua opinio, anarrativa estivesse desaparecendo (ele escreveu sobre issonos anos quarenta, quando, segundo ele, a experincia esta-va em baixa), esta seria a forma de comunicao mais adequa-da ao ser humano, j que reflete a experincia humana. Entre-tanto, a despeito da opinio deste autor sobre o desapareci-mento da narrativa, ainda assim esta forma de pesquisar aexperincia tem sido bastante adotada nos meios acadmi-cos. Exemplo disso a pesquisa realizada por Morato eSchmidt (1998) que estudaram, atravs de narrativas, a expe-rincia de alunos num curso de psicologia. H quem advo-gue, inclusive, em favor da utilizao da narrativa de formabem mais ampla, pelos pesquisadores atuais. Da originam-seos questionamentos de Schmidt (1990), se no seria adequa-do e pertinente, para os pesquisadores atuais,

    ... trabalhar a sua experincia e a de outros (incluindo-se sujei-tos de pesquisa, pesquisadores e tericos), transformando apesquisa num produto que, embora possa no ter a solidez e adurabilidade das narrativas de outros tempos, seja til enquantoapreenso e elaborao de fragmentos da realidade vivida? (p.64).

    Para Benjamin (1994), na narrativa, o narrador retira daexperincia o que ele conta: sua prpria experincia ou a rela-tada pelos outros (p. 201). a narrativa, pela sua caracters-tica oral, aquela que mantm as tradies e as conserva, oque no ocorre quanto ao romance, que se origina do indiv-duo isolado e trata, geralmente, do sentido da vida, encerran-do sempre a histria com um final que , ento, imposto aoleitor. Na narrativa, por sua vez, o conselho, como forma de

    sabedoria, est presente. No entanto, aqui, o conselho enca-rado de maneira distinta daquele assimilado pelo senso co-mum, uma vez que aconselhar menos responder a umapergunta que fazer uma sugesto sobre a continuao deuma histria que est sendo narrada (p. 200). Assim, o con-selho passa a significar a continuao de uma histria que setece medida que contada e carrega consigo a sabedoria deum saber que perpassa o tempo.

    Um outro aspecto que favoreceu o declnio da narrativafoi o surgimento de uma nova forma de comunicao, a infor-mao. Surge como reflexo de um momento histrico em quea burguesia se consolida, passando a imprensa a represent-la, como um dos seus mais importantes instrumentos. A infor-mao, alm de ser estranha tanto ao romance quanto narrati-va, passa a ser mais ameaadora preservao da cultura daexperincia. A informao precisa ser plausvel, o que noacontece com a narrativa, que no pretende explicar ou infor-mar qualquer fato. A consolidao deste tipo de comunica-o, a informao, implicar na alterao do que se entendepor saber. Se antes o saber vinha de longe, seja este entendi-do na sua dimenso temporal ou no sentido de se perpetuarna tradio, com a informao passa-se a exigir uma verifica-o imediata do que se comunica. Com a narrativa tal noocorre, em razo do que o autor responsabiliza a informaopelo declnio da narrativa. Nesse sentido, os fatos e as informa-es j vm trazendo as suas explicaes, diferentemente danarrativa. Segundo Benjamin (1994), metade da arte da nar-rativa est em evitar explicaes (p. 203). Faz referncias aum texto de Leskov, escritor russo, afirmando que o contex-to psicolgico da ao no imposto ao leitor. Ele livre parainterpretar a histria como quiser, e com isso o episdio narradoatinge uma amplitude que no existe na informao (p. 203).

    Benjamin (1994) considerava a arte de contar uma hist-ria, um acontecimento infinito, pois um acontecimento vivi-do finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, aopasso que o acontecimento lembrado sem limites, porque apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois (p.37). Desse modo, a narrativa, em vez de ser uma lembranaacabada de uma experincia, se reconstri medida em que narrada. Narrar alguma coisa consiste na faculdade deintercambiar experincias, configurando-se naquilo que Eco(1993) chama de obra aberta, posio antecipada por Benja-min (1994), na sua obra O Narrador, segundo prefcio daobra aqui referida.

    A narrativa contempla a experincia contada pelo narradore ouvida pelo outro, o ouvinte. Este, por sua vez, ao contaraquilo que ouviu, transforma-se ele mesmo em narrador, porj ter amalgamado sua experincia a histria ouvida. A con-sonncia com tal modo de pensar a experincia e a narrativacomo a sua expresso, levam-nos a eleger a narrativa comouma tcnica metodolgica apropriada aos estudos que sefundamentam nas idias fenomenolgicas e existenciais. Atra-vs da narrativa, podemos nos aproximar da experincia, talcomo ela vivida pelo narrador. A modalidade da narrativamantm os valores e percepes presentes na experincianarrada, contidos na histria do sujeito e transmitida naquele

    Pesquisa fenomenolgica

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    momento para o pesquisador. O narrador no informa so-bre a sua experincia, mas conta sobre ela, dando oportuni-dade para que o outro a escute e a transforme de acordo coma sua interpretao, levando a experincia a uma maior ampli-tude, tal como acontece na narrativa.

    A narrativa tem a capacidade de suscitar, nos seus ou-vintes, os mais diversos contedos e estados emocionais,uma vez que, diferentemente da informao, ela no nos for-nece respostas. Pelo contrrio, a experincia vivida e transmi-tida pelo narrador nos sensibiliza, alcana-nos nos significa-dos que atribumos experincia, assimilando-a de acordocom a nossa. Nesse sentido, a narrativa se aproxima daquiloque se constitui como uma obra aberta, j defendida por Eco(1993) que, ao prop-la, faz uma distino entre esta e umaobra acadmica e cientfica, distino situada em torno dacriatividade. Discorda, inclusive, da afirmao de Paul Valrysobre a inexistncia de um sentido verdadeiro em um texto,concluindo que um texto pode ter muitos sentidos (p. 165) que o caso da obra aberta. Porm, no aceita a opinio deque um texto poder ter qualquer sentido.

    A narrativa, tendo florescido no ambiente artesanal, sejaele na terra, nos campos ou no mar, pode ser vista como umaforma artesanal de comunicao, como lembra Benjamin (1994):

    Contar histria sempre foi a arte de cont-las de novo, e ela seperde quando as histrias no so mais conservadas. Ela seperde porque ningum mais fia ou tece enquanto ouve a hist-ria. Quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais pro-fundamente se grava nele o que ouvido (p. 205).

    O autor, na sua forma de ver a narrativa, reconhece-a,legitimando-a como expresso de uma dimensofenomenolgica e existencial. Supe que, de uma certa ma-neira, o ato de contar e ouvir uma experincia envolve umestar-com-no-mundo, uma relao de intersubjetividades, quese d num universo de valores, afetos, num passado que searticula com o presente e apoiado numa situao que reflete,revela, conserva e transcende o mundo em que esses perso-nagens esto inseridos. Podemos confirmar esse pensamen-to quando ele diz que quem escuta uma histria est emcompanhia do narrador; mesmo quem a l partilha dessa com-panhia (p. 213).

    Pensamento este que tambm compartilhado porSchmidt (1990), ao reconhecer que,

    A narrativa preciosa, pois conecta cada um sua experincia, do outro e do antepassado, amalgamando o pessoal e ocoletivo. E o faz de uma maneira democrtica ou, mais preci-samente, da nica maneira possvel para que uma prtica socialseja democrtica - fazendo circular a palavra, concedendo acada um e a todos o direito de ouvir, de falar e de protagonizaro vivido e sua reflexo sobre ele (p. 51).

    Portanto, ao se trabalhar com as narrativas dos sujeitosdas pesquisas, estamos no s participando da sua histria,expressa na experincia vivida. Tambm estaremos partici-pando da sua reconstruo, atravs da profuso de sentidos,em funo do seu no-acabamento essencial, como diz JeanneMarie Gagnebin, no prefcio das Obras Completas de Benja-

    min (1994). Significa ainda dizer que esse no-acabamentoexpressa o sentido de abertura que constitui o ser na suaexistencialidade.

    Experincia e interpretao

    A nossa compreenso do significado de interpretao,tal como utilizado aqui, apia-se no entendimento propostopor Figueiredo (1994), que sugere um novo sentido para otermo. Ele prope uma terceira via de entendimento da inter-pretao, alm de outras duas mais comuns, apontadas porele: aquela que envolve um juzo reprodutivo e outra, queconsidera o significado subjetivo da obra; ambas, no entan-to, sustentando-se numa relao sujeito-objeto. Essa novaperspectiva concebe a interpretao como fala que respon-de a uma virtualidade entreouvida (p. 19).

    Desse modo, a interpretao

    ... responde obra, fala a obra, (realiza a obra) mas ainda nofala da obra, no um julgamento da obra nem uma decifraodela na sua suposta objetividade. Esta interpretao no gozada liberdade que se espera de um juzo; ela solicitada ao intr-prete pela experincia que a obra lhe propicia (e se ela nopropicia nada de muito notvel, nada haver para interpretar);ela uma exigncia ao intrprete colocada pela sua prpriaexperincia com a obra. Esta interpretao tem, portanto,uma dimenso existencial (Figueiredo, 1994, p. 20).

    Embora o autor esteja se referindo ao contexto da clnicapsicanaltica ao utilizar essa concepo de interpretao, epor isso distinto do plano da pesquisa cientfica aplicada,consideramos que tal perspectiva assemelha-se ao significa-do da compreenso tal como a exercitamos no s na relaoentre entrevistador-entrevistado, mas tambm no tratamentoe interpretao da narrativa. Significa dizer que, ao contrrioda pesquisa cientfica tradicional, a relao estabelecida nes-sa tcnica de pesquisa situa-se muito mais prxima de umarelao de intersubjetividades, prpria do existir humano e daprpria clnica, a qual se insere numa perspectiva existencial.Isso porque o encontro ao qual nos referimos aqui, implica aabertura dos sujeitos experincia, nesse caso, pesquisador-pesquisado, quando um deles revela-se para o outro, que,por sua vez, afetado por essa e na sua experincia.

    Para Figueiredo (1994), desde Heidegger, compreensoe interpretao so dimenses originrias do estar-no-mun-do; ou seja, o homem compreendendo o mundo que se abrepara ele e interpretando os entes que se mostram a ele dentrodo mundo (p. 18). Para Heidegger (1927/1999), A interpreta-o se funda existencialmente na compreenso e no vice-versa. Interpretar no tomar conhecimento de que se com-preendeu, mas elaborar as possibilidades projetadas na com-preenso (p. 204). Compreenso e interpretao, desse modo,andam juntas em direo a uma abertura do ser. Isto o quese pode depreender das palavras de Heidegger (1927/1999):Toda compreenso guarda em si a possibilidade de interpreta-o, isto , de uma apropriao do que se compreende (p. 218).

    Assim como Heidegger e outros autores, Figueiredo(1995), tambm considera a linguagem como meio universal

    E.Dutra

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    da experincia (p. 67), o que a institui como abertura ao ser-com. Ainda em referncia a isso, Schmidt (1990) diz que

    A experincia, porm, como objeto de pesquisa delineia-secomo objeto e contedo de uma busca - anloga do narrador-que, seguindo o impulso central do desejo do encontro, se abre pluralidade de sentidos e esbarra sempre no indizvel, no noalienvel, no que no se entrega (p. 70).

    Pode-se dizer, portanto, que Figueiredo (1995) fala daclnica como a escuta do excludo, do que ainda no se reve-lou. atravs da escuta compreensiva que o ser se vela erevela, exercitando aquela que a vocao originria do ser:nunca atingir uma completude ou desvelamento total.

    A linguagem ocupa um lugar central na filosofiaheideggeriana. Sendo a linguagem considerada por esse fil-sofo como a morada do ser, nela, na linguagem, que o ser sedesvela. ainda a linguagem aquela que assume a conduona direo da elaborao do mtodo e da analtica existencial.

    Assim, segundo Stein (1983),

    (...) o mtodo fenomenolgico visa o redimensionamento daquesto do ser, no atravs de uma abstrata teoria do ser, nemnuma pesquisa historiogrfica de questes ontolgicas, pormnuma imediata proximidade com a prxis humana, como exis-tncia e facticidade, a linguagem - o sentido, a denotao - no analisada num sistema fechado de referncias, mas ao nvelda historicidade. (...) podemos encontrar (...) no mtodofenomenolgico de Heidegger uma certa onto-lgica do dizer,isto , uma explicitao da dimenso pr-ontolgica da lingua-gem, ligada compreenso do mundo como horizonte datranscendncia (p. 100).

    oportuno destacar a relevncia desse aspecto dahermenutica heideggeriana no que se refere pesquisa ci-entfica. Fundamenta uma prxis que ao mesmo tempo em quebusca alcanar a experincia vivida, possibilita, numa outradimenso, o encontro da verdade do ser que se desvela nalinguagem. Nesse sentido, a narrativa, modalidade adotadana pesquisa de inspirao fenomenolgica, vai ao encontrode um pensamento filosfico que, acima de tudo, respalda esustenta uma maneira de se fazer o saber cientfico.

    No entender de Heidegger (1927/1999),

    O discurso constitutivo da existncia da pre-sena, uma vezque perfaz a constituio existencial de sua abertura. A escuta eo silncio pertencem linguagem discursiva como possibilida-des intrnsecas. (...) O discurso a articulao significativada compreensibilidade do ser-no-mundo, a que pertence o ser-com, e que j sempre se mantm num determinado modo deconvivncia ocupacional (p. 220).

    Tomando como base esse pensamento, podemos pensara narrativa e a sua nfase na experincia, como uma das for-mas atravs da qual o ser-no-mundo exercita a sua compreen-sibilidade. medida que o narrador conta a sua histria, estacarrega consigo os significados que constituem o seu estar-no-mundo, cujo ser-a se revela e se encobre nas palavras,principal articuladora da sua compreenso num modo de exis-tncia. Desse modo, aproxima-se a experincia da interpreta-

    o; e a narrativa, tal como proposta por Benjamin (1994), doser-a constituinte da estrutura existencial do ser, presente naontologia de Heidegger. O que nos leva a dizer que a pesqui-sa que se utiliza da narrativa, visando compreender a experi-ncia, situa-se numa tica fenomenolgica e existencial. Sig-nifica, ainda, reconhecer que a relao pesquisador-pesquisado acontece na dimenso da experincia de ambos,transcendendo, assim, os papis destinados a esses sujeitosna pesquisa cientfica tradicional, j que a experincia com-porta um trabalho de elaborao do vivido cujo sentido secompleta ao ser comunicado, transmitido (Schmidt, 1990, p.36). Pensamento semelhante est contido nas palavras deValle (1991), ao relatar uma experincia de pesquisa:

    Em minha convivncia com os pais de crianas com cncer, oque se apresentou foi a busca de um sentido que poderia serrevelado na interseco das minhas experincias com as deles,quando retomava as minhas experincias passadas nas presen-tes ou ainda quando retomava as experincias deles nas mi-nhas. Isto se constituiu na intersubjetividade das minhas pr-prias vivncias e as dos pais com os quais me relacionei, obti-das atravs de seus discursos (p. 181).

    Isso no o que acontece, primordialmente, no contextode uma relao teraputica? Da vem a semelhana dos usosda interpretao, tal como sugerido por Figueiredo (1995) eque tem origem na clnica psicanaltica. Nesse sentido, torna-se pertinente lembrar o processo que ocorre na relao entreo que se fala, e aqui o discurso surge como parte desta fala eaquele que ouve. Heidegger (1927/1999), mais uma vez, nosoferece a oportunidade de refletirmos fenomenologicamentea esse respeito, quando afirma que

    A conexo do discurso com a compreenso e suacompreensibilidade torna-se clara a partir de uma possibilidadeexistencial inerente ao prprio discurso, qual seja, a escuta.Para ele, escutar o estar aberto existencial da pre-sena en-quanto ser-com os outros (p. 222).

    Importante ressaltar a relevncia existencial tambm da-quele que escuta e a sua capacidade para isso. A esse respei-to afirma Heidegger (1927/1999):

    Somente onde se d a possibilidade existencial de discurso eescuta que algum pode ouvir. Quem no pode ouvir e devesentir talvez possa muito bem e, justamente por isso, escutar(...). Discurso e escuta se fundam na compreenso. A compreensono se origina de muitos discursos nem de muito ouvir por a.Somente quem j compreendeu que poder escutar (p. 223).

    A despeito dos argumentos anteriores nos conduziremao entendimento do que seja uma pesquisa de inspiraofenomenolgica, no deixa de ser oportuno, ao mesmo tem-po, tecermos alguns comentrios em relao s diferentescompreenses dos significados da Fenomenologia.

    Os rumos da Fenomenologia

    Embora tenha se consolidado no incio deste sculo, aFenomenologia, na sua histria, se inaugura atravs dos tra-

    Pesquisa fenomenolgica

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    balhos de Husserl no sculo passado, os quais giravam emtorno da matemtica e da psicologia, ocasio em que os estu-dos realizados sofriam grande influncia de Franz Brentano eKarl Stumpf. A Filosofia, com o advento da Fenomenologia,provocou significativas mudanas no cenrio filosfico daEuropa naquela poca e, desde ento, em todo o mundo. Aesse respeito Stein (1983) afirma que:

    O sopro de renovao da filosofia europia continental trazi-do pela obra de um desconhecido livre-docente, as Investiga-es Lgicas de Edmund Husserl, publicadas no incio destesculo, s tem similar no movimento grandioso do idealismoalemo, nica corrente filosfica imediatamente anterior quese aproxima, pela riqueza de suas conseqncias, do movimen-to fenomenolgico (p. 30).

    Atravs das idias de Husserl, o mtodo fenomenolgicoprope a apreenso da realidade atravs de uma volta scoisas mesmas, respondendo a outro princpio, o daintencionalidade. Para Husserl, a conscincia sempre inten-cional. E nas palavras de Forghieri (1993),

    A intencionalidade , essencialmente, o ato de atribuir umsentido; ela que unifica a conscincia, o objeto, o sujeito e omundo. Com a intencionalidade h o reconhecimento de que omundo no pura exterioridade e o sujeito no purainterioridade, mas a sada de si para um mundo que tem umasignificao para ele (p. 15).

    Mas para alcanar o mundo-vivido, a essncia do fen-meno, preciso um distanciamento de tudo que existe a priori,alcanado atravs da reduo fenomenolgica. SegundoForghieri (1993), a reduo fenomenolgica consistiria numretorno ao mundo vivido. Colocar em suspenso os conheci-mentos, idias, teorias e preconceitos, retornando, assim, experincia do sujeito, visando alcanar a essncia do co-nhecimento. De acordo com essa perspectiva, atravs da re-duo fenomenolgica possvel captar o sentido e o signi-ficado que as experincias vividas possuem para as pessoasno seu viver. E est claro que nesse processo encontra-seimplicada a presena do pesquisador, a sua vivncia, comoafirma Merleau-Ponty (1945/1994): ... no contato com anossa prpria experincia que elaboramos as noes funda-mentais das quais a Psicologia se serve a cada momento (p.11). Para alcanar isso, preciso fazer a reduofenomenolgica, a qual, embora almejada, nunca ser com-pleta, como afirma Merleau-Ponty (1945/1994): O maiorensinamento da reduo a impossibilidade de uma reduocompleta (p. 22). Para ele, ento, a reduo fenomenolgicaconsiste numa profunda reflexo que nos revele os precon-ceitos em ns estabelecidos e nos leve a transformar estecondicionamento sofrido em condicionamento consciente,sem jamais negar a sua existncia.

    Entretanto, a Fenomenologia, desde Husserl, assumiunovas e complexas ramificaes, como bem o reconhece May(1963). Mesmo formando escola, Husserl, em funo das suasidias, dividiu os seus seguidores. As tendncias surgidasento se aglutinavam em torno de uma idia do movimentofenomenolgico: s coisas mesmas.

    Para Stein (1983), essa palavra de ordem escondia em sio princpio axial de toda a Fenomenologia: cada espcie deente tem seu modo prprio de se revelar ao investigador e,constataes filosficas, para terem sentido, somente podemser feitas quando fundadas nesta auto-revelao (p. 33).

    Assim, importante esclarecer que falar em pesquisa deinspirao fenomenolgica no significa adotar, entre outrosaspectos, a perspectiva husserliana de reduofenomenolgica. O mtodo utilizado no estudo ao qual temosnos referido neste artigo ancora-se numa perspectivafenomenolgica que no contempla a reduofenomenolgica. Ao contrrio, parece caminhar no sentidoinverso. Ou seja, justamente por saber-se da impossibilidadede uma reduo completa, tal como j fora reconhecido porMerleau-Ponty (1945/1994), entendemos que o retorno aomundo da experincia implica no reconhecimento de que so-mos seres de abertura e de relao.

    O pensamento acima aponta para uma das diferenasreconhecidas entre Heidegger e Husserl, quanto questodo objeto e mtodo da Filosofia, j apresentada por Stein(1983), referindo-se s diferenas entre Heidegger e Hegel.Segundo ele, Heidegger se afasta do modelo especulativo-dialtico (tridico) de Hegel, em razo deste se apoiar na sub-jetividade, constituindo-se no seu estatuto fundamental.Desde Ser e Tempo, a superao da subjetividade coloca-se como a sada para o redimensionamento da questo do ser.Heidegger, no seu mtodo fenomenolgico, busca libertar-sedas conotaes subjetivas j presentes em Husserl. Diantedo que Stein (1983) afirma que o mtodo especulativo-dialticode Hegel tem como organon a razo ligada subjetividade.Por sua vez, o mtodo especulativo-hermenutico, deHeidegger, se constitui a partir da compreenso ligada aoser-a.

    As divergncias filosficas entre Husserl e Heideggerdo-se, principalmente, a partir da idia de mundo da vida, dafacticidade da vida e o ser-no-mundo. Esta dimenso do ser-no-mundo constitui-se, ademais, no aspecto que interroga oser, alm de representar o ncleo que sustenta a crtica dessefilsofo Fenomenologia transcendental de Husserl.

    Para Heidegger (1927/1999),

    O ser-a j vem sempre envolto na autenticidade einautenticidade, na verdade e na no-verdade, no velamentoque acompanha todo o desvelamento. Desta maneira afenomenologia no ser mais o instrumento de reduo detudo subjetividade, nem um caminho para transformar tudoem objeto. A fenomenologia heideggeriana vigiar o mbitodo velamento e desvelamento em que residem todas as essn-cias (p. 142).

    Acredita Heidegger (1927/1999) que essa a vocao dohomem: o ser de abertura e de relao (ser-a e ser-com), queo coloca no mundo, junto a outros seres e entes. Esta posi-o elimina qualquer teoria, mtodo ou qualquer coisa queclassifique o ente em mundo interno e externo, ou que o frag-mente em partes ou momentos, tal como se faz necessrio nareduo fenomenolgica. Como j afirmara Heidegger (1927/

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    1999), existimos numa disposio afetiva, num Befindlichkeitque, inclusive, nos dota de uma compreensibilidade anterior dimenso cognitiva e da conscincia. Esse o mundo vivi-do, o mundo da experincia e da existncia e, por isso,irredutvel. Ns somos e ex-sistimos de forma total, nes-se momento, inseridos no mundo da experincia, que se cons-tri e reconstri medida em que existimos junto-com o mun-do, no se limitando, assim, subjetividade.

    Narrativa e depoimento: um encontro possvel

    As narrativas, no estudo anteriormente mencionado,desenvolveram-se durante entrevistas realizadas com jovensadolescentes, atravs de depoimentos sobre a sua experin-cia de quase-morrer. Adotamos o termo depoimento apscontato com os textos de Queiroz (1991), que empreende vas-to estudo acerca de tcnicas de pesquisa. Para ela, nas Cin-cias Sociais este termo no possui a mesma conotao quetem na sua rea de origem, a jurdica. Enquanto que nesta, odepoimento significa o conhecimento a respeito do fato sobjulgamento, nas Cincias Sociais este termo significa o rela-to de algo que o informante efetivamente presenciou, experi-mentou, ou de alguma forma conheceu, podendo assim certi-ficar (p. 7).

    A mesma autora estabelece algumas diferenas entre odepoimento e a histria de vida. As diferenas residem nasdistintas formas de agir do pesquisador, em uma e outra tc-nica. Diferentemente da forma como atua nas histrias devida, no depoimento o pesquisador dirige a entrevista emdireo ao assunto que lhe interessa, alm do depoimentopoder ser finalizado em apenas um encontro. Isto no aconte-ce quando se pretende pesquisar uma histria de vida, queexige vrios encontros, os quais so dirigidos,prioritariamente, pelo narrador.

    Das caractersticas que constituem o depoimento talcomo as apresentadas pela autora, adotamos aquela da bre-vidade, podendo o depoimento ocorrer em somente um en-contro, como realmente aconteceu em todas as entrevistas, epela definio de depoimento, que se insere na narrativa. Noque respeita ao relacionamento entre narrador e pesquisador,embora o depoimento se limite apenas a uma parte da histriade vida do narrador, o relato da sua experincia revela e trans-mite dimenses existenciais que assumem configuraes pr-prias naquele momento, com aquele pesquisador, que tam-bm tocado na sua experincia por tal narrativa. Emboraseja a histria de algo que lhe aconteceu, naquele momento aexperincia ganha um novo formato e se revela de acordocom o total da estrutura existencial das pessoas envolvidas.

    Voltando s palavras de Valda, estas revelam o processoexistencial que o momento vivenciado representa, significan-do compartilhar-com-o-outro a sua dor e, assim, ameniz-la. o ser-com que a se revela. Como diz ela, a alma perdida quebusca se encontrar. Essa busca do encontro pode ser enten-dida como a revelao do ser, pois pela fala que o homem, oente, se manifesta. atravs dela que o homem se revela,explicita-se e pode captar o significado das suas experinci-as, pois medida em que se expressa, ele se transforma, exer-

    citando a sua possibilidade de um construir-se, de um vir-a-ser constante. a angstia que, ao se revelar nas palavras,encontra o outro, o ser do outro. E na medida em que a suaexperincia se abre para o ser-com, coloca-nos como partedela. No se trata, portanto, de um pesquisador que observao sujeito. No significa ouvir a sua histria de longe, anali-sando-a, interpretando-a logicamente; enfim, no existe umapostura de estar de fora, como observador, da experincia.Pelo contrrio, a experincia da narrativa uma experinciatambm de quem a escuta. O pesquisador participa em todasas suas dimenses existenciais, como profissional e pessoa,ou seja, na sua totalidade, naquele momento ali presente dasua vivncia. Existimos, naquele momento, como seres-com;numa imbricao impossvel de ser definida ou classificadacomo mundo interno e externo ou como dentro e fora. A suaexperincia narrada toca a nossa experincia de viver aquelemomento. Os afetos, a nossa disposio afetiva, esto ali,atuantes. Ou seja, existimos naquele momento, com um afeto,um humor, ou estado de esprito. Por isso o pesquisador nose coloca como algum indiferente ou inatingvel pelo queest ocorrendo. Ele vive ali, existe na experincia do outro,que se articula com a nossa experincia. Existimos com-junta-mente, como seres que exercitam a sua estrutura de ser-no-mundo, encontrando ressonncia nas palavras de Benjamin(1994): O narrador retira da experincia o que ele conta: suaprpria experincia ou a relatada pelos outros. E incorpora ascoisas narradas experincia dos seus ouvintes (p. 201).

    A escolha de um mtodo de inspirao fenomenolgicaparece o mais adequado quando se pretende investigar econhecer a experincia do outro, uma vez que o ato do sujeitode contar a sua experincia no se restringe somente a dar aconhecer os fatos e acontecimentos da sua vida. Mas signi-fica, alm de tudo, uma forma de existir com-o-outro; significacom-partilhar o seu ser-com-o-outro.

    Quanto aos procedimentos metodolgicos no que se re-fere aos depoimentos, estes devem ser gravados, transcritose literalizados. Posteriormente, devem ser submetidos apre-ciao dos entrevistados, para que os mesmos possam con-ferir a sua fidelidade narrativa feita. A seguir, os depoimen-tos so comentados e interpretados, a partir dos significadosque se revelam na experincia narrada e como produto dasreflexes feitas pelo pesquisador na sua trajetria de vidapessoal e profissional, ancoradas numa tica existencial dacondio humana.

    Assumir uma estratgia qualitativa de pesquisafenomenolgica, como a narrativa, significa, antes de tudo,adotar como horizonte terico e filosfico a existncia, com-preendida na experincia vivida. E compreender a experinciahumana representa uma tarefa de extrema complexidade, umavez que o homem constitui-se numa subjetividade que pen-sa, sente e tem na linguagem a expresso da sua existncia. Eesta fluida, processual, semelhante e distinta de todos osoutros, o que exclui a possibilidade de explic-lo atravs deverdades estticas e aplicveis a todos os outros seres. Anarrativa, portanto, ao considerar essa dimenso do mundovivido, nos sinaliza com a possibilidade de nos aproximarmos

    Pesquisa fenomenolgica

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    do outro, sem que se perca a principal caracterstica que odistingue no mundo, que a existncia.

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    Recebido em 07.01.02Revisado em 11.07.02

    Aceito em 23.12.02

    Elza Dutra, doutora em Psicologia Clnica pela Universidade de So Paulo, SP, professora do Departamentode Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande de Norte, RN.Endereo para correspondncia: Caixa Postal, 1572, 59075-970, Natal, RN. Tel: (84)215.3590, Fax:(84)215.3589. E-mail: dutra.e@digi.com.br.

    1 Nome fictcio, na inteno de preservar a identidade da jovem.2 Segundo o Dicionrio de Filosofia (Mora, 1998), o termo experincia empregado em vrios sentidos: (1)

    A apreenso por parte de um sujeito de uma realidade, uma forma de ser, um modo de fazer, uma maneira de

    viver etc. A experincia , ento, um modo de conhecer algo imediatamente antes de todo juzo formulado

    acerca do apreendido; (2) A apreenso sensvel da realidade externa. Diz-se, ento, que essa realidade dada por

    intermdio da experincia, mais comumente tambm antes de toda reflexo - e, como diria Husserl, pr-

    predicativamente. De acordo com o Dicionrio de Psicologia e Psicanlise (Cabral, 1979), experincia a

    aquisio prtica, pelo indivduo, dos conhecimentos que o contato direto com os eventos fsicos ou mentais

    lhe proporciona. Segundo Titchener, a totalidade dos fenmenos mentais diretamente recebidos em determi-

    nado momento, assim excluindo a inferncia.

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    Nota

    E.Dutra

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