A LGICA ARISTOTLICA - Revista Pandora Brasil Pandora Brasil N 75 - outubro 2016 - ISSN 2175-3318 Aprender fazendo: potencializando as habilidades docentes no curso de filosofia

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    Aprender fazendo: potencializando as habilidades docentes no curso de filosofia

    A LGICA ARISTOTLICA

    Anna Paula Zanoni

    Luciano Bitencourt

    Erich Farina

    1 INTRODUO

    O estudo da lgica tem por objetivo organizar as ideias de modo rigoroso

    para que no haja erro nas concluses de nossos raciocnios, ela faz parte do

    nosso cotidiano sempre que conversamos com algum sobre qualquer assunto,

    usamos de argumentos lgicos para explicar ou convencer algum sobre algo,

    sendo assim importante que compreendamos no que baseia o raciocnio. O

    primeiro filsofo que trabalhou a lgica com rigor foi Aristteles, antes dele,

    Plato e os sofistas j faziam uso dessa ideia na prtica da argumentao em

    meio a gora, mas nenhum deles chegou a explanar e analisar esse sistema

    como fez o estagirita, nos textos compilados no livro rganon.

    Aristteles (Estagira, 384 a.C Atenas, 322 a.C) filsofo grego discpulo de Plato,

    considerado pai da Lgica formal.

    Em seu trabalho como pioneiro da anlise da construo do raciocnio lgico,

    possibilitou grandes avanos ao longo dos sculos, no s na filosofia, mas

    tambm nas cincias e at atualmente na matemtica e computao. Aristteles,

    que se atm a construo do raciocnio formal, onde no livro rganon, que

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    significa instrumento, ou seja, a lgica ser uma ferramenta para conduzir o

    pensamento correto, vai trabalhar com termos e proposies que vo fornecer o

    silogismo, que um raciocnio constitudo por duas ou mais proposies

    (argumentos) que fornecem uma concluso. A lgica estabelece alguns

    princpios fundamentais, sendo eles primeiros, so conhecidos de imediato e,

    dessa forma, indemonstrveis. Comumente so divididos e trs:

    IDENTIDADE Segundo o princpio de identidade, se um enunciado

    verdade, ele verdadeiro, ou seja, aquilo que no pode deixar de ser.

    NO CONTRADIO Se duas premissas so contraditrias, uma tem

    necessariamente que ser verdadeira e a outra falsa, por exemplo, se Todo

    homem mortal no pode ser verdadeiro que Algum homem imortal

    TERCEIRO EXCLUDO Uma premissa s pode ser verdadeira ou falsa,

    no existindo meio termo para isso.

    Para que o silogismo tenha sentido, h algumas regras nas quais ele estabelece

    entre os termos e proposies:

    Qualidade nas proposies so afirmativas (Todo homem

    mortal) ou negativas (Nenhum co gato)

    Quantidade Universais (Todo mamfero animal), particulares

    (Algum animal cachorro) e singulares (Scrates mortal)

    Extenso que se d aos termos e so Todo, nenhum, algum

    como visto em quantidade

    Verdadeiras/falsa Uma premissa verdadeira, quando expressa

    o fato correspondente.

    Vlida/invlida Um argumento vlido, quando sua concluso se

    deriva de uma consequncia lgica de suas premissas (no

    necessariamente sendo verdadeiro)

    Estabelecido e compreendidos esses primeiros critrios, j nos tornamos

    capazes de analisar com mais segurana em um texto ou discurso,

    compreendendo se nele h coerncia ou no, ou seja, se ele um argumento

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    concreto ou falacioso. A partir destes critrios surge o que entendemos na lgica

    como silogismo, como no exemplo 1 a seguir:

    Todo homem mortal

    Scrates homem

    Logo, Scrates mortal

    Este um silogismo considerado perfeito, por conter trs premissas,

    respectivamente: a premissa maior, a premissa menor e a concluso, sendo elas

    que formam a estrutura de um raciocnio, ou seja, uma argumentao, que o

    discurso em que encadeamos proposies para chegar a uma concluso. Elas

    as premissas vo se ligar pelos termos que a compe, no exemplo

    demonstrado, h os termos homem, Scrates e mortal, conforme a posio

    que ocupam na argumentao, cada um ter sua definio em termo menor,

    maior ou mdio. O termo mdio faz a ligao entre os outros dois, no caso

    homem, depois o termo maior o predicado da concluso mortal e o termo

    menor o sujeito da concluso Scrates.

    Exemplo 2

    Holmes e Watson esto acampando juntos. No meio da noite, Holmes acorda e

    d um cutuco no Dr. Watson.

    - Watson diz ele, olhe para o cu e me diga o que v.

    - Vejo milhes de estrelas, Holmes diz Watson.

    - E o que voc conclui disso, Watson?

    Watson pensa um momento.

    - Bem, diz ele astronomicamente, isso me diz que existem milhes de

    galxias e possivelmente bilhes de planetas. Astrologicamente, observo que

    Saturno est em Leo. Em termos de horrio, deduzo que devem ser

    aproximadamente trs horas. Meteorologicamente, desconfio que amanh far

    bom tempo e tambm, teologicamente, olhando essa imensido, penso o quanto

    somos pequenos e insignificantes. Ahn, o que voc conclui, Holmes?

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    -Watson, seu idiota! Roubaram nossa barraca!

    H dois tipos principais de silogismo, o indutivo e o demonstrativo (ou cientfico),

    o silogismo indutivo, parte do particular para o geral, se baseando de

    observaes gerais e objetivas para um campo universal, conforme exemplo 2,

    Sherlock Holmes, como um dos famosos detetives indutivos, recolhe provas

    individuais e eleva a um conceito mais universal para chegar na concluso,

    nesse caso, em que roubaram sua barraca, enquanto Dr. Watson, tambm o faz,

    com vrias premissas a partir dos elementos que tem, mas sem alcanar a

    mesma concluso. O silogismo indutivo, embora vlido, no pode oferecer um

    conhecimento verdadeiro das coisas, facilmente podendo ser conduzido ao erro

    a partir de premissas falaciosas, ou seja, equvocos que levam a uma concluso

    falsa.

    O Silogismo demonstrativo, por sua vez, parte do universal para o particular e

    demonstra a partir de premissas universais para chegar a concluses

    particulares e se sustentam a partir de princpios indemonstrveis, conforme

    ilustrado no exemplo 1. Diferente do silogismo indutivo, este pressupes uma

    srie de especificidades para as premissas, sendo elas: premissas verdadeiras,

    primrias, imediatas, melhor conhecidas e anteriores que sejam concluso e

    que sejam a causa desta, s a partir destes critrios, o raciocnio ganha o

    carter de cincia em Aristteles, sendo esses princpios que vo garantir a

    verdade no campo da pesquisa cientfica.

    2 O SILOGISMO DIALTICO E O SILOGISMO ERSTICO

    S se tem silogismo cientfico quando as premissas so verdadeiras e tm

    as caractersticas que examinamos.

    Quando, ao invs de verdadeiras, as premissas so simplesmente provveis,

    isto , fundadas na opinio, ento se ter o silogismo dialtico, que Aristteles

    estuda nos Tpicos. Segundo Aristteles, o silogismo dialtico serve para nos

    tornar capazes de discutir e, particularmente, quando discutimos com pessoas

    comuns ou mesmo doutas, serve para identificar os seus pontos de partida e o

    que concorda ou no com eles em suas concluses, no se colocando em

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    pontos de vista estranhos a eles, mas precisamente no seu ponto de vista.

    Assim, nos ensina a discutir com outros, fornecendo-nos os instrumentos para

    nos colocar em sintonia com eles. Ademais, para a cincia, serve no apenas

    para debater corretamente os prs e contras de vrias questes, mas tambm

    para determinar os princpios primeiros, que, como sabemos, sendo indedutveis

    silogisticamente, s podem ser colhidos indutivamente ou intuitivamente.

    Por fim, alm de derivar de premissas fundadas na opinio, um silogismo

    tambm pode derivar de premissas que paream fundadas na opinio (mas que,

    na realidade, no o so). Temos ento o silogismo erstico.

    Tambm ocorre o caso de certos silogismos que s o so na aparncia: parecem

    concluir, mas, na realidade, s concluem por causa de algum erro. Temos ento

    os paralogismos, ou seja, raciocnios errados. Os Elencos sofsticos ou

    Refutaes sofsticas estudam exatamente as refutaes (lenchos quer dizer

    refutao) sofsticas, ou seja, falazes. A refutao correta um silogismo cuja

    concluso contradiz a concluso do adversrio. Mas as refutaes dos sofistas

    (e, em geral, as suas argumentaes) eram tais que pareciam corretas, mas, na

    realidade, no o eram, valendo-se de uma srie de truques para enganar os

    inexperientes.

    Regras do Silogismo

    Inferir significa extrair uma proposio como concluso de outras. O silogismo

    o argumento que, segundo Aristteles, possui trs caractersticas: mediado,

    dedutivo e necessrio.

    O silogismo mediado, pois no apreendido imediatamente da percepo,

    mas deve usar o raciocnio para compreender o real. dedutivo porque parte da

    verdade de premissas universais para se chegar a outras premissas. E

    necessrio, porque estabelece uma cadeia causal entre as premissas.

    As premissas, para formar um silogismo, devem ser assim distribudas:

    A primeira premissa, chamada de premissa maior, deve conter o

    termo maior e o termo mdio;

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    A segunda premissa, chamada de premissa menor, deve conter

    o termo mdio e o termo menor;

    A concluso deve conter os termos maior e menor.

    Abaixo, seguem algumas regras para um melhor entendimento da forma do

    silogismo:

    1. O silogismo deve sempre conter trs termos: o maior, o menor e o

    mdio;

    2. O termo mdio deve fazer parte das premissas e nunca da concluso

    e deve ser tomado ao menos uma vez em toda a sua extenso;

    3. Nenhum termo pode ser mais extenso na concluso do que nas

    premissas, porque assim, concluir-se- mais que o permitido, ou seja, uma das

    premissas dever ser sempre universal e necessria, positiva ou negativa.

    4. A concluso no pode conter o termo mdio (vide item 2);

    5. De duas premissas negativas, nada poder ser concludo. O termo

    mdio no ter ligado os extremos;

    6. De duas premissas afirmativas, a concluso deve ser afirmativa,

    evidentemente;

    7. De duas proposies particulares, nada poder ser concludo (vide

    item 2);

    8. A concluso sempre acompanha a parte fraca, isto , se houver uma

    premissa negativa, a concluso ser negativa. Se houver uma premissa

    particular, a concluso ser particular. Se houver ambas, a concluso dever ser

    negativa e particular.

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    Dessa forma, pode-se configurar alguns modos de silogismo em Aristteles:

    A. Todas as proposies so universais afirmativas.

    Ex.:

    Todos os homens so mortais.

    Todos os brasileiros so homens.

    Logo, todos os brasileiros so mortais.

    Este o famoso silogismo perfeito, porque demonstra a ligao necessria entre

    indivduo, espcie e gnero. o que visa cincia.

    B. A premissa maior universal negativa, a premissa menor

    universal afirmativa e a concluso universal negativa.

    Ex.:

    Nenhum astro perecvel.

    Todas as estrelas so astros.

    Logo, nenhuma estrela perecvel.

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    C. A premissa maior universal afirmativa, a premissa menor

    particular afirmativa e a concluso particular afirmativa.

    Ex.:

    Todos os homens so mortais.

    Joo homem.

    Logo, Joo mortal.

    D. A premissa maior universal negativa, a premissa menor particular

    afirmativa e a concluso particular negativa.

    Ex.:

    Nenhum rei amado.

    Henrique VII um rei.

    Logo, Henrique VII no amado.

    claro que pelas possibilidades, existem at 64 modos de se produzir um

    argumento ou silogismo, mas na prtica, essas so as suas formas mais

    utilizadas. Lembrando que essas regras so utilizadas para fazer o famoso

    clculo de predicados naquilo que chamamos de lgica formal aristotlica.

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    3 O SILOGISMO DEMONSTRATIVO

    A existncia de diferentes tipos de conhecimento e, consequentemente,

    de diferentes modos de conhec-los foi um dos principais objetos de estudo do

    filsofo Aristteles (384 a.C., 323 a.C.), na obra intitulada rganon. Em se

    tratando das reflexes voltadas para o silogismo, ou seja, o mecanismo que

    possibilita a maneira correta de pensar (Audi, 2004), o Estagirita promoveu uma

    distino essencial entre as diferentes espcies de conhecimento com destaque

    apresentao das caractersticas primordiais que dividem a dialtica

    principalmente a de carter platonista e o mtodo demonstrativo (ou cientfico).

    Segundo Giovanni Reale, em Aristteles, o silogismo 'cientfico' ou

    'demonstrativo' se diferencia porm do silogismo em geral porque pressupe,

    alm da correo formal da inferncia, tambm o valor de verdade das premissas

    (e das consequncias) (Reale, 2012, pg. 164). Isso porque, da afirmao ou

    negao do predicado de um sujeito, a demonstrao chega verdade atravs

    de princpios fundamentais.

    A dialtica, por sua vez, teria como alicerce contumaz premissas provveis,

    sendo, pois, apenas provvel1, ou ento, premissas que sero, para o

    interrogador, uma resposta pergunta que, de duas oraes contraditrias,

    dever ser a aceita e, para o raciocinador lgico, uma suposio do que

    aparentemente verdadeiro e geralmente aceito (Aristteles, 2010 I, 1, 24b10).

    Diferentemente, o silogismo demonstrativo parte de premissas primeiras,

    necessrias e indemonstrveis, aceitas como princpios comuns o que destaca

    o seu carter universal frente ao particularismo do discurso dialtico. Que todo

    homem mortal, por exemplo, no se trata de uma inferncia particular

    contingencial assumida meramente por oposies. Nesse caso, trata-se de um

    termo maior, universal, que permite subsumir uma proposio mdia, particular,

    1 A concepo de Abbagnano (2007) no verbete Dialtica, pg. 271, bastante

    esclarecedora: Pode-se dizer, por exemplo, que a dialtica o processo em que h um adversrio a ser combatido ou uma tese a ser refutada, e que supe, portanto, dois protagonistas ou duas teses em conflito.

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    ou seja Scrates homem, e da uma concluso tambm particular Scrates

    mortal.

    A conexo entre os trs termos fundamentais de um silogismo (premissa maior,

    premissa menor e concluso) a base daquilo que conhecemos por discurso

    lgico. A ordenao das ideias na esfera da linguagem poderia resultar, na viso

    aristotlica, em um instrumento eficaz de investigao, anlise e produo de

    conhecimento, alm de apontar indevidas ambiguidades, erros e equvocos no

    pensamento terico e prtico como um todo.

    Nos Analticos Posteriores, quarto livro do rganon, o silogismo de carter

    demonstrativo eleva-se, uma vez comparado aos demais tipos de silogismo (ou

    seja, o dialtico e o sofstico), categoria de excelncia e o saber cientfico passa

    a ser tratado de maneira peculiar e exclusiva, bem como os meios necessrios

    para obt-lo, tendo em vista que sua apreenso se faz justamente atravs de

    condies necessrias. Ou seja, atravs de princpios primeiros.

    O primeiro princpio de uma demonstrao uma premissa

    imediata, e uma premissa imediata aquela que no tem nenhuma

    outra premissa anterior a ela. Uma premissa uma ou a outra parte

    de uma proposio e consiste em um termo predicado de um outro.

    Se for dialtica, assumir uma parte ou outra, indiferentemente; se

    demonstrativa, supe definitivamente a parte que verdadeira

    (Aristteles, 2010 I, 2, 72a1 5).

    Sabemos que Todo homem mortal uma premissa imediata, porque levamos

    em considerao que ser mortal uma necessidade primeira e verdadeira,

    donde no se pode inferir, ao contrrio do silogismo dialtico, que um homem

    seja mortal e/ou imortal em razo de certas condies, digamos por acidente.

    Supor definitivamente a parte que verdadeira o primeiro passo para se fazer

    cincia seja a matemtica, a geometria ou a fsica, as ditas cincias teorticas

    que, a exemplo da filosofia primeira, se concentram na especulao dos

    fundamentos do conhecimento enquanto tal e, por isso, se diferenciam das

    cincias prticas e poiticas.

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    A mais cientfica das figuras a primeira. No so apenas as

    cincias matemticas, como a aritmtica, a geometria e a tica, que

    veiculam suas demonstraes atravs dessa figura, mas, nos

    exprimindo em termos gerais, praticamente todas as cincias que

    investigam as causas, uma vez que mediante essa figura, seno

    universalmente, a menos a ttulo de regra geral e na maioria dos

    casos, que construdo o silogismo que estabelece a razo

    (Aristteles, 2010 I, 14, 79a1 20).

    Cincia para Aristteles , portanto, o conhecimento que produzido atravs da

    demonstrao, tendo como princpio uma esfera de conhecimento definida em

    uma determinada classe de objetos. Tambm pode-se considerar cincia como

    a demonstrao a partir de princpios primeiros que tm o papel de evitar a

    regresso ao infinito.

    Nesse sentido, Aristteles vai apontar uma srie de exemplos nos livros I e II,

    dos Analticos Posteriores, que tratam das incoerncias que podem ser obtidas

    e que, por isso, devem ser suprimidas, na lida com o silogismo demonstrativo.

    Entre elas esto: a aplicao de termos indevidos a um sujeito primariamente

    enquanto tal e as proposies indesejveis e incapazes de dar conta da razo

    de uma determinada coisa independente de se referirem ao silogismo comum,

    dialtico ou cientfico.

    Entende-se, assim, que Todo homem mortal uma tese, um princpio

    imediato e indemonstrvel. Contudo, havendo a suposio de poder ser de outro

    modo, teremos uma hiptese. Quanto a necessidade de um conhecimento

    anterior para se dar a apreenso de uma determinada proposio, Aristteles

    ento constri o axioma. Se a proposta formular a natureza de um objeto em

    investigao sem que haja a necessidade de afirmar-lhe a existncia, temos, em

    primeiro lugar, a definio.

    Inclusive, a importncia da definio para o conhecimento demonstrativo, em

    especial s cincias teorticas, segundo Aristteles, pode ser notada na

    declarao de que a matemtica jamais supe o acidental, mas apenas

    definies. Trata-se de outro aspecto que diferencia o raciocnio matemtico do

    dialtico (Aristteles, 2010 I, 12, 78a1 10).

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    A estrutura que Aristteles prope segue do termo mais simples, primeiro e

    universal, para o termo mdio, para ento chegar concluso, ou premissa

    menor (que particular e pode ser afirmativa ou negativa). Entre os exemplos

    mais conhecidos do silogismo demonstrativo est o modo j exposto: Todos os

    homens so mortais; Scrates homem; logo, Scrates mortal. Com isso,

    Aristteles formulou a regra onde Que A seja necessariamente predicado

    (afirmado) de B, e B de C e, ento, a concluso de que A se aplica a C tambm

    necessria.

    Assim, o Estagirita estabelece a trs figuras do silogismo que, segundo a

    interpretao medievalista, pressupem um conjunto de dedues tais como:

    (Primeira Figura)

    Se A pertence a B, e B pertence a C, ento A pertence a C;

    Se A no pertence a B, e B pertence a C, ento A no pertence a C;

    Se A pertence a B, e B pertence a algum C, ento A pertence a algum C;

    Se A no pertence a B, e B pertence a algum C, ento A no pertence a algum

    C.

    (Segunda Figura)

    Se M pertence a N, e M no pertence a X, ento N no pertence a X;

    Se M no pertence a N, e M pertence a X, ento N no pertence a X;

    Se M no pertence a N, e M pertence a algum X, ento N no pertence a algum

    X;

    Se M pertence a N, e M no pertence a algum X, ento N no pertence a algum

    X.

    (Terceira Figura)

    Se P pertence a S, e R pertence a S, ento P pertence a algum R;

    Se P no pertence a S, e R pertence a S, ento P no pertence a algum R;

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    Se P pertence a algum S, e R pertence a S, ento P pertence a algum R;

    Se P pertence a S, e R pertence a algum S, ento P pertence a algum R;

    Se P no pertence a algum S, e R pertence a S, ento P no pertence a algum

    R;

    Se P no pertence a S, e R pertence a algum S, ento P no pertence a algum

    R2.

    Dessa forma, fica claro aquilo que Aristteles esclarece no livro Categorias, do

    rganon, onde afirma que nos seres concretos, ou na realidade como tal, que

    reside a verdade ou aquilo que pode ser dito de alguma coisa em outras

    palavras, que o ser pode ser dito categoricamente de diversos modos.

    4 FALCIAS

    A falcia (ou sofisma) um falso raciocnio. Falcias so argumentos que

    atacam de forma indireta um outro argumento, ou seja, no atacam de forma

    direta a argumentao oposta, mas sim atuam de forma a darem uma aparncia

    de verdade (verossimilhana) em seus argumentos atravs de um ataque

    indireto, o que torna tais argumentos inconsistentes ou invlidos. Os argumentos

    produzidos por falcias so denominados falaciosos.

    Em termos histricos, na Filosofia, as falcias foram originalmente atribudas na

    Grcia antiga aos sofistas que eram professores ambulantes que cobravam

    pelas suas aulas onde ensinavam a retrica e a arte da boa argumentao e

    esses professores eram considerados pertencentes ao que se chama de Escola

    Sofstica.

    Principais sofistas:

    2 Cf. explica Robin Smith, em Aristteles, no captulo Lgica, p. 74 e 75.

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    Protgoras de Abdera (cerca de 480 - 410 a.C.)

    "O homem a medida de todas as coisas"

    Hpias de Elis, o sofista (cerca de 460 - 400 a.C.)

    S pela lei um escravo e outro livre; pela natureza no h diferena entre

    ambos

    Grgias de Leontinos (cerca de 485 - 380 a.C.)

    "O bom orador capaz de convencer qualquer pessoa sobre qualquer coisa"

    Os sofistas foram combatidos por Scrates e Plato e tinham como diferenas

    em relao a eles o fato do sofista cobrar para ensinar, Scrates e Plato no;

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Prot%C3%A1gorashttps://pt.wikipedia.org/wiki/481_a.C.https://pt.wikipedia.org/wiki/420_a.C.https://pt.wikipedia.org/wiki/G%C3%B3rgias_de_Leontinihttps://pt.wikipedia.org/wiki/483_a.C.https://pt.wikipedia.org/wiki/376_a.C.

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    O sofista atuava com arte da argumentao retrica que buscava vencer o

    debate, Scrates propunha uma argumentao dialtica que buscava a verdade;

    O sofista refutava argumentos visando ganhar uma discusso, uma disputa

    verbal, ao passo que Scrates refutava os argumentos visando purificar a alma

    de sua ignorncia e cada vez mais se aproximar da verdade.

    Na democracia grega, a arte da argumentao e a boa capacidade em discursar

    eram consideradas extremamente valiosas. Na gora (que era a praa onde os

    cidados se reuniam para resolver os problemas dos indivduos e da Plis) o

    vencedor de um debate poderia com seus argumentos ser absolvido de um

    crime, condenar uma pessoa, resolver seus conflitos com outras pessoas e etc.

    Assim, falar bem (e conseguir convencer os outros) era altamente importante

    dentro do sistema adotado na Grcia.

    De uma certa maneira, os sofistas ao exporem um ponto de vista diverso em

    seus argumentos eles colocavam em dvida os argumentos propostos e aceitos

    e ento propiciavam com isso um espao para uma melhor reflexo sobre os

    temas discutidos e assim, estimulavam a diversidade de opinies e pontos de

    vista, que so a base do esprito a ser perseguido pelo Estado Democrtico.

    Exemplos de argumentos considerados falaciosos:

    1- Falcia Ad hominem

    Ocorre quando no se discute o argumento oposto, mas somente

    ataca-se a pessoa que faz o argumento.

    Ex: No vou considerar o que ela fala porque ela uma recalcada

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    2- Falcia Non Sequitur

    Ocorre quando na concluso no h sequncia lgica das premissas.

    Ex: J que voc hoje no pediu hambrguer voc vegetariano.

    3- Falcia Tu Quoque

    Ocorre quando se considera um argumento aceitvel apenas porque

    seu oponente tambm fez.

    Ex: Seus argumentos so agressivos.

    E da? Os seus tambm so.

    4- Falcia do Declive Escorregadio

    Ocorre quando se alega que a ocorrncia de um certo evento

    acarretar dano, mas sem apresentar provas.

    Ex: Se voc comer banana com leite voc pode morrer de indigesto.

    5- Falcia do Espantalho

    Ocorre quando o argumento visa distorcer a posio de algum para

    que possa ser atacada mais facilmente, porm no se atacando o

    verdadeiro argumento.

    Ex: Para ser me dizer que no existem fadas voc precisa vasculhar

    todo o Universo e todos os lugares onde elas poderiam estar. J que

    obviamente voc no fez isso, sua posio indefensvel.

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    6- Falcia da inverso da Prova

    Ocorre devido a obrigao de se provar algo que afirma.

    Neste caso, a falcia consiste em colocar a obrigao da prova

    contrria no indivduo que negou uma afirmao, admitindo ento que

    se outro no prova o contrrio ento algo verdadeiro mesmo sem

    provas.

    Ex: Dizer que os discos voadores no existem fcil eu quero que

    voc prove que eles no existem.

    A) Exerccio de fixao

    Relacione as colunas:

    (a) Falcia Non Sequitur ( ) Ocorre devido a obrigao de se

    provar algo que afirma.

    (b) Falcia do Espantalho ( ) Ocorre quando se considera um

    argumento aceitvel apenas porque

    seu oponente tambm fez.

    (c) Falcia Tu Quoque ( ) Ocorre quando o argumento visa

    distorcer a posio de algum para

    que possa ser atacada mais

    facilmente, porm no se atacando o

    verdadeiro argumento.

    (d) Falcia da inverso da Prova ( ) Ocorre quando na concluso no

    h sequncia lgica das premissas.

    (e) Falcia Ad hominem ( ) Ocorre quando no se discute o

    argumento oposto mas somente

    ataca-se a pessoa que faz o

    argumento.

    B) Exerccio discursivo

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    Quais so as principais caractersticas que definem um argumento falacioso?

    C) Proposta de debate em sala

    Divida a sala em dois grupos e com base na figura abaixo proponha que um

    grupo argumente em favor da posio sortico-platnica e que o outro grupo

    argumente em favor da posio sofista.

    Respostas

    1- d, c, b, a, e

    2- atacam de forma indireta, so uma verdade aparente, so invlidos

    BIBLIOGRAFIA

    Coleo Os Pensadores. Aristteles, Nova Cultural, So Paulo. 1999.

    Coleo Os Pensadores, Plato, Nova Cultural, So Paulo. 1999.

    DICIONRIO AKAL DE FILOSOFA. Robert Audi (editor). Traduccin: Huberto

    Marraud y Enrique Alonso. Madrid: Ediciones Akal, 2004.

    ABBAGNANO, NICOLA. Dicionrio de Filosofia. Traduo: Alfredo Bosi. Rev. e

    trad.: Ivone Castilho Benedetti. 5 edio rev. e ampliada. So Paulo: Martins

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    Fontes, 2007.

    ARISTTELES. Metafsica. Traduo de Giovanni Reale, So Paulo: Editora

    Loyola, 2014.

    ARISTTELES. rganon. Traduo de Edson Bini, So Paulo: Editora Edipro,

    2010.

    AUBENQUE, PIERRE. O Problema do Ser em Aristteles. Traduo: Cristina de

    Souza Agostini. So Paulo: Paulus, 2011.

    BARNES, JONATHAN. Aristteles. Traduo: Ricardo Hermann Ploch Machado.

    So Paulo: Ideias e Letras, 2009.

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