A Leitura Como Interao Entre a Escola de Dempo Integral e o Centro de Educao Infantil

  • Published on
    11-Nov-2015

  • View
    11

  • Download
    8

DESCRIPTION

A LEITURA COMO INTERAO ENTRE A ESCOLA DE DEMPO INTEGRAL E O CENTRO DE EDUCAO INFANTIL

Transcript

  • A LEITURA COMO INTERAO ENTRE A ESCOLA DE DEMPO

    INTEGRAL E O CENTRO DE EDUCAO INFANTIL

    Aroldo Alcantara de Paula Souza1

    Mariana da Silva Silveira Poquiviqui2

    Palavras-chave: leitura interao aprendizagem.

    Prembulo

    A histria da educao pblica como demanda da sociedade, est associada luta pela

    construo dos direitos sociais e humanos. Ao longo dessa histria, marcada pelas

    incessantes lutas de classes, a gnese da escola pblica obedeceu a critrios como a

    necessidade da sociedade e a viabilidade econmica (ALVES, 1998). Assim, a educao

    pblica vem sendo produzida historicamente nos embates scio-polticos, que objetivam

    conquistas e ampliao de aspectos como laicidade, gratuidade, obrigatoriedade,

    universalizao do acesso, permanncia e sucesso escolar, gesto democrtica,

    ampliao da jornada escolar, garantia de qualidade e Educao de Tempo Integral3,

    devidamente entendida conforme Leclerc e Moll (2012, p. 93): [...] o modo de retomar

    o sentido desse crescimento orgnico, humano, associado s mltiplas dimenses do

    desenvolvimento humano.

    1 Professor da Rede Municipal de Ensino de Campo Grande, cursa mestrado PROFEDUC da UEMS

    (2015-2016). Foi cursista DETI 2013-2014. E-mail: aroldoalcantara.eti@gmail.com. 2 Professora da Rede Municipal de Ensino de Campo Grande, cursa Especializao em Culturas e Histria

    dos Povos Indgenas (2014-2015). Foi cursista DETI 2013-2014. E-mail:

    mariana_poquiviqui@hotmail.com. 3 Grifo nosso, como forma de marcar que a escola em Tempo Integral poder se configurar como uma

    conquista significativa da histria da Educao pblica contempornea.

  • A Escola Municipal de Tempo Integral

    Para o enfrentamento dessa situao de desagregao e crise, a Prefeitura Municipal de

    Campo Grande, apoiada pelo seu ento consultor educacional, o Professor Pedro Demo,

    deu incio experincia da Escola em Tempo Integral, implantando duas unidades: uma

    no bairro Paulo Coelho Machado e outra no bairro Rita Vieira.

    So princpios dessa escola: a autoria docente e discente; a pesquisa; a utilizao da

    metodologia da problematizao; uma base tecnolgica a servio da aprendizagem e

    uma educao ambiental que se prope a ir alm dos esteretipos largamente

    disseminados pela mdia e pelos livros didticos.

    Na Escola em Tempo Integral a equipe gestora e pedaggica colaboram para a

    aprendizagem significativa do aluno. O objetivo favorecer a formao de um clima

    organizacional adequado para a formao de um amplo entendimento que facilitar a

    adaptao da estrutura administrativa e pedaggica da escola de maneira que estas

    estejam alinhadas proposta de educao integral. Nesse sentido fundamental o

    engajamento e o profissionalismo de todos os envolvidos para o sucesso da escola e o

    alcance do objetivo principal da escola: o aluno aprender bem4.

    O projeto pedaggico, poltico e cientfico da Escola em Tempo Integral prope a

    reconstruo da escola convencional, como uma prtica reflexiva e crtica, com o

    objetivo primordial que os alunos e professores aprendam bem por meio da pesquisa, da

    elaborao individual ou coletiva, do manuseio do computador conectado internet e de

    outras tecnologias dispostas em ambientes de aprendizagem (virtuais e fsicos)

    organizados de forma diferenciada ao logo de um tempo estendido, que ser utilizado de

    forma intensa e qualitativa. Como a proposta pedaggica da Escola em Tempo Integral

    no baseada em nenhuma teoria educacional especfica, alguns princpios norteiam

    sua formao, entre eles a pesquisa, a autoria e a educao ambiental (CAMPO

    GRANDE, 2008).

    A equalizao de todos os pressupostos e anseios desta escola passar pela adoo da

    pesquisa (Demo, 2006) como princpio-chave do seu trabalho didtico, que permear

    todos os seus ambientes de aprendizagem5, assim como os integradores (AAI - Artes e

    4 Grifo nosso. Expresso consagrada pelo Professor Pedro Demo ao longo de suas obras que versam sobre

    Educao e Escola em Tempo Integral. 5 Disciplinas que compem cada ambiente de aprendizagem da Escola em Tempo Integral:

  • Educao Fsica) e os complementares, com projetos e Lnguas Estrangeiras (CAMPO

    GRANDE, 2008, p. 59). Mais do que acessar informaes desconexas e superficiais,

    pesquisar representar o mago de uma didtica renovada, repensada, reconstruda,

    reflexiva, construda sob o signo da cooperao, da cientificidade e da necessidade. A

    questo de priorizar um tempo intenso ao invs de extenso contemplar de todas as

    formas esta escola que pesquisar intensa e qualitativamente, atentando para uma

    consciente (e necessria!) seleo de informaes significativas, a socializao dos

    conhecimentos construdos e a autoria individual e coletiva.

    A Escola Municipal de Tempo Integral Professora Ana Lcia de Oliveira Batista est

    localizada na Rua Pinus, S/N, Bairro Paulo Coelho, na periferia da regio do

    Anhanduizinho, Sul de Campo Grande (MS). Na imagem abaixo a Escola de Tempo

    Integral est assinalada com o nmero 1 e o Centro de Educao Infantil com o nmero

    2. Ambas dividem a mesma rea publica e so responsveis diretas pela educao das

    crianas de 4 (quatro) a 11 (onze) anos do Bairro Paulo Coelho Machado e adjacncias:

    (1) Escola Municipal em Tempo Integral. (2) Centro de Educao Infantil. Fonte: Google Maps.

    AA1 Lngua Portuguesa, Histria, Geografia; AA2 Matemtica, Cincia, Lngua Portuguesa; AA3 Lngua Portuguesa, Cincias, Matemtica; AA4 Lngua Portuguesa, Geografia, Matemtica; AA5 Matemtica, Lngua Portuguesa, Histria.

  • Criada atravs do Decreto Municipal 10.490 de 21 de maio de 2008. Inaugurada em 1

    de junho de 2008, seu primeiro ano letivo iniciou-se em fevereiro de 2009. Tem uma

    rea construda de 5.342 m, atendendo da Educao Infantil ao 5 ano do ensino

    fundamental.

    Na Escola de Tempo Integral (ETI), os (as) alunos (as) tm atividades das 8 s 16h, com

    aes educacionais, de pesquisa, lazer e interatividade. Durante o perodo que os alunos

    permanecem na escola so oferecidas trs refeies: caf da manh, almoo e lanche da

    tarde. Neste sentido, uma escola em Tempo Integral, com horrio acrescido de

    atendimento poder criar situaes significativas de aprendizado, ou seja, esta criana

    encontrar na escola momentos de estudo, sistematizao dos saberes, melhor

    acompanhamento por parte dos professores em sua jornada de estudos, alm de

    condies para prticas de esportes e prticas culturais que ofeream recursos

    especficos e de qualidade em reas em que normalmente no esto disponveis, como

    o caso dos bairros onde vivem muitos setores das camadas populares. O Tempo Integral

    uma condio de cidadania escolar para crianas e jovens que so vitimas histricas de

    relaes sociais, econmicas, polticas e culturais de dominao-subordinao-

    inferiorizao em nossa sociedade.

    Tal ao proporcionar uma ampliao de territrios educativos, ampliando o conjunto

    de espaos possveis no entorno escolar que podem contribuir para um aprendizado

    significativo para as crianas.

    Portanto, coube a este projeto favorecer um dilogo com os diferentes pares para a

    construo de espaos educativos significativos. A insegurana e o medo ao sairmos do

    espao escolar para outros espaos da comunidade precisam ser superados j que

    reconhecer e conhecer os espaos na comunidade para sua apropriao e fundamental

    para a construo de uma comunidade de aprendizagem, para articular os potencias

    educativos presentes no territrio, reestruturando assim uma rede de cooperao. Neste

    sentido o autor ratifica: A escola se transforma num novo territrio de construo da

    cidadania. (GADOTTI, 2006).

    Sendo assim, estabelecer aes intersetoriais entre os diversos agentes do territrio,

    integrando as polticas pblicas (sade, educao, cultura, dentre outras), os

    movimentos sociais, a sociedade civil organizada (conselhos, associaes de bairro) e os

  • agentes econmicos (empreendimentos econmicos locais) fundamental para a

    estruturao e fortalecimento de uma rede de cooperao.

    O Projeto

    Para Hernndez (1998) o Projeto uma forma vivel de organizar a atividade de ensino

    e aprendizagem ou os conhecimentos escolares, adotando como aspectos essenciais o

    conhecimento globalizado e a aprendizagem significativa, exatamente o que se deseja

    do estudante de hoje: o pleno desenvolvimento de competncias, habilidades e atitudes

    capazes de favorecer a produo de conhecimento atualizado e um aprendizado

    continuado ao longo da vida aprender a aprender (DELORS, 2010).

    Para Delors (2010), toda prtica pedaggica deveria preocupar-se em desenvolver os

    quatro pilares fundamentais da aprendizagem contempornea6: o aprender a conhecer,

    que aponta para o interesse, a abertura ao conhecimento, que livra da ignorncia; o

    aprender a fazer, que exalta a vontade de executar e a possibilidade de correr riscos e

    errar para aprender efetivamente; o aprender a conviver, com a necessidade da

    convivncia humana em nvel planetrio, com a aplicao do respeito e da fraternidade

    como caminho do entendimento mundial; e, finalmente, o aprender a ser, que explica

    o porqu da atualidade do acesso cidadania em nvel escolar e em tenra idade.

    Sob estes pilares, o projeto Leitura como interao entre alunos da ETI e CEINF

    foi executado entre 31 e 16 de maio de 2014, com o objetivo principal de conhecer e

    valorizar os espaos existentes em sua comunidade relacionando-se com eles criando

    laos de pertencimento e responsabilidade. Foi desenvolvido com os alunos do 3 ano

    do ensino fundamental, sob a regncia da professora e cursista Mariana da Silva Silveira

    Poquiviqui.

    Props uma interao entre alunos da Escola de Tempo Integral e o CEINF atravs de

    uma aula-visita, favorecendo assim o contato das crianas com outros espaos presentes

    em seu bairro para que se relacionem e criem laos de pertencimento e responsabilidade

    frente s questes de conflitos e vivencias em sua comunidade. Objetivou tambm

    diferenciar espaos privados de espaos pblicos existentes no bairro; conhecer os

    espaos pblicos existentes na comunidade; aprender como se portar com respeito em

    determinados ambientes pblicos; sentir-se pertencente aos ambientes pblicos

    6 Os grifos seguintes so dos autores, como forma de destacar os quatro pilares.

  • existentes em seu bairro; respeitar e valorizar os patrimnios existentes em seu bairro.

    Momentos da aula-visita esto registrados na imagem abaixo:

    Momentos da aula-visita de turma do 3 ano do ensino fundamental ao CEINF (parte 1).

    A metodologia do projeto seguiu a sequncia didtica, baseada em Lerner (2002) e

    Rangel (2008): (1) Realizar estudo atravs de pesquisa com os alunos sobre os espaos

    pblicos existentes no bairro; (2) Descrever atravs de registro escrito qual a

    importncia dos espaos relacionados acima para a comunidade; (3) Conhecer atravs

    de pesquisa a histria do CEINF: nome, ano de fundao, nmeros de alunos,

    professores etc.; (4) Discutir qual a importncia do CIENF para a comunidade; (5)

    Descobrir atravs de pesquisa quais alunos da sala que frequentaram o CEINF; (6)

    Planejar com os alunos uma visita ao CEINF organizando com os mesmos as atividades

    que realizaremos: leitura de histrias, brincadeiras e outras atividades; (7) Realizar

    visita ao CEINF; (8) Realizar atravs de registro escrito e desenho o que os alunos

    aprenderam com a visita ao CEINF. Importante salientar que o projeto objetivou que a

    atividade de leitura ficasse a cargo exclusivamente dos (as) alunos (as) da Escola de

    Tempo Integral, com a professora atuando como mediadora, como pode ser observado

    pelas imagens na prxima pgina:

  • Momentos da aula-visita de turma do 3 ano do ensino fundamental ao CEINF (parte 2).

    Concluso

    Foi possvel concluir que uma escola que deseja construir conhecimento cientfico

    precisa dispensar leitura e escrita o tratamento que merecem: como atividades-meio

    que so, viabilizam a aquisio de conhecimentos. Servem para que o estudante possa

    chegar aprendizagem significativa (um aluno que l bem pode aprender bem,

    conforme preconiza Pedro Demo), por meio da pesquisa, da problematizao e da

    autoria, essas sim, consideradas pela Pedagogia, atividades-fim. Meio ou fim, todas as

    atividades da escola, de tempo integral ou no, so merecedoras de grande cuidado, pois

    completam uma outra e juntas podem garantir o trinmio que educadores, gestores,

    formuladores de polticas educacionais, pais e alunos tanto almejam: acesso,

    permanncia e sucesso.

    Diante de tais discusses, se fez necessrio um projeto educativo que possa recriar

    novos sentidos na relao com outros interlocutores, outros espaos, outras polticas e

    equipamentos pblicos. Neste sentido, para se formar uma cidade educadora

    imprescindvel entender [...] que nenhuma instituio capaz de responder

    isoladamente aos desafios do desenvolvimento integral de suas crianas e adolescentes

    (SARDENBERG, 2011).

  • Para tanto, como experincia que , a Escola de Tempo Integral deve portar-se como

    uma comunidade de aprendizagem, irradiando conhecimento e atitudes positivas ao

    entorno da escola. importante que o aluno aprenda bem, dominando no apenas os

    contedos, entendendo qual a natureza das relaes infra-estruturais que determinam a

    sociedade. Nesta perspectiva, uma aprendizagem baseada em pesquisa, autoria,

    autonomia e problematizao um investimento.

    este o desafio posto a uma escola que deseja verdadeiramente acrescentar qualidade

    de vida ao educando, oportunizando o uso dos conhecimentos construdos em diferentes

    situaes e contextos, elevando-o a usurio competente dos saberes que adquiriu na

    escola.

    Para mudar a histria e alcanar conquistas, preciso ousar, romper barreiras, exercitar

    a cidadania plena, aprender a usar o poder da viso crtica, entender o contexto do

    mundo do trabalho e sua sociedade capitalista, ser o ator da prpria histria (DEMO,

    2004), cultivar o sentimento de solidariedade planetria (DELORS, 2010), lutar por

    uma sociedade mais justa e solidria e, acima de tudo, acreditar sempre no poder

    transformador da educao.

  • REFERNCIAS

    ALVES, G. L. A Produo da Escola Pblica Contempornea. Campinas, SP: Ed.

    Universidade Estadual de Campinas, 1998.

    CAMPO GRANDE. Proposta da Escola de Tempo Integral. BRITO, Angela Maria

    de. DEMO, Pedro (org). Secretaria Municipal de Educao de Campo Grande/SEMED

    Coordenadoria Geral de Gesto de Polticas Pblicas Educacionais/CGGPE. 2008.

    Campo Grande, MS. Artigo disponibilizado pelos organizadores Prefeitura Municipal

    de Campo Grande para compor o Caderno de textos do mdulo 1 do Curso de Formao

    de Professores da Escola de Tempo Integral.

    DELORS, J. Educao: um tesouro a descobrir. Braslia: UNESCO, 2010. Disponvel

    em http://unesdoc.unesco.org/images/0010/001095/109590por.pdf. Acesso em 17 out.

    2014, s 8 h.

    DEMO. P. Professor do futuro e reconstruo do conhecimento. Petrpolis, RJ:

    Vozes, 2004.

    ________. Pesquisa: princpio cientfico e educativo. So Paulo: Cortez, 2006.

    GADOTTI, M. A escola na cidade que educa. Cadernos Cenpec, pesquisa e ao

    educacional. So Paulo, 2016. Disponvel em

    http://cadernos.cenpec.org.br/cadernos/index.php. Acesso em: 21 abril 2014.

    HERNNDEZ. F. A organizao do currculo por projetos de trabalho. Porto

    Alegre: Artmed, 1998.

    LECLERC, G. F. E.; MOLL, J. Programa Mais Educao: avanos e desafios para

    uma estratgia indutora da Educao Integral e em tempo integral. Educar em Revista,

    Curitiba, Brasil, n. 45, p. 91-110, jul./set. 2012. Editora UFPR. Disponvel em

    http://www.scielo.br/pdf/er/n45/07.pdf. Acesso em 12 abril 2015.

    LERNER, D. Ler e escrever na escola: o real, o possvel e o necessrio. Porto Alegre:

    Ed. Artmed, 2002.

    RANGEL, M. Dinmicas de leitura para sala de aula. Petrpolis-RJ, Ed. Vozes,

    2008.

    SARDENBERG, A. Trilhas Educativas: o dilogo entre territrio e escola. So Paulo:

    Associao Cidade Escola Aprendiz, 2011. Disponvel em

    http://www.moderna.com.br/lumis/portal/file/fileDownload.jsp?fileId=8A8A8A8338E1

    A2E00138E776786742B3. Acesso em 21 abril 2014.

Recommended

View more >