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RBSE Revista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 12, n. 35, ago.2013 - Soares 480 SOARES, Frederico Fonseca. A leitura antropolgica pelo humor stand up. RBSE Revista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 12, n. 35, pp. 480-492, Agosto de 2013. ISSN 1676-8965. ARTIGO http://www.cchla.ufpb.br/rbse/Index.html A leitura antropolgica pelo humor stand up Frederico Fonseca Soares Recebido em 23.02.2012 Aprovado em 18.05.2013 Resumo: Historiadores como Elias Thom Saliba acreditam que o humor brasileiro o reflexo da falta de identidade do Brasil, contudo o presente trabalho sugere que depende do tipo de humor que se avalia para perceber uma identidade nacional, o humor industrializado e feito para o consumo massivo, como Zorra Total, A praa nossa, Pnico na TV e outros, realmente no so caracterizados por trazerem em si uma crtica, qualquer que seja. So reprodues da estupidez humana. Em contrapartida, o humor produzido pela comdia stand up encena uma anlise refinada da sociedade e expe verdades ocultas de uma cultura sob o vu da comicidade. A proposta perceber o humor stand up como uma possvel linha terico-metodolgica da Antropologia, sendo uma eficiente ferramenta antropolgica capaz de trazer luz caractersticas socioculturais de difcil percepo. Palavras-chave: humor, stand up comedy, metodologia de pesquisa Introduo O humor pode ser pensado, tambm, como uma percepo subjetiva, prpria do indivduo e no social. Contudo, para ter sentido, ou graa, o humor tem de, alm de estar na mesma ordem temporal, ser totalmente vinculado a um contexto cultural/social especfico. O stand up a forma caricata do cotidiano, e essa caricatura o cdigo que encobre a vergonha de exteriorizar pragmaticamente as inquietaes momentneas da sociedade. Segundo o professor Christie Davies, a piada uma forma de dizer coisas proibidas, ou uma maneira de exteriorizar coisas que as pessoas sentem vergonha de dizer abertamente. A necessidade catrtica imanente ao ser humano. Exteriorizando as angstias, o indivduo encontra alvio e at a cura de certas enfermidades psicopatolgicas, como a cura pela fala, to praticada nas clnicas de psicanlise. pelo humor stand up que este trabalho busca provar que se pode esquadrinhar um contorno cultural difcil de ser percebido RBSE Revista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 12, n. 35, ago.2013 - Soares 481 superficialmente por outros mtodos antropolgicos; a prerrogativa que esse tipo de humor revela informaes ntimas da cultura ironizada. O stand up comedy exige esforo etnogrfico dos humoristas, justamente por utilizar-se dos materiais culturais disponveis no seu cotidiano social para confeccionar suas piadas. O comediante stand up Lo Lins (2009) afirmou que a piada um produto individual, no existe um comrcio de piadas, e tais piadas no devem ser repetidas ou compartilhadas por outro humorista, ou ser de conhecimento pblico. Isso fora, alm de um pensamento e uma anlise criativa e crtica, uma regionalizao, consequentemente, um olhar sobre culturas especficas para ter sentido onde so apresentados os espetculos de humor, ou, como mais manifesto, para montar paralelos comparativos com outras culturas e, sobre essas diferenas, confeccionar piadas e no apenas confrontos de pontos de vista. Os despretensiosos esforos deste trabalho em edificar uma linha terico-metodolgica da Antropologia vm se aproveitar do momento da alta ocorrncia de espetculos de humor de stand up e dos novos humoristas que compem essa modalidade de humor, na qual no se utilizam de efeitos especiais/tecnolgicos, ou fantasias, nem cenrios, apenas um microfone para realizar um monlogo, com piadas, casos, tiradas e, principalmente, observaes sociais do cotidiano. E por meio dessas observaes prprias do humorista, que envolvem o pblico e por estar em acordo com o contexto social e com a temporalidade, que o pesquisador pode decodificar a mensagem desse discurso cmico para confeccionar um delineamento da cultura, objeto de sua pesquisa, percebendo os mais profundos tabus, mitos, medos, alegrias, ou qualquer sentimento que construa o cenrio cultural vivido pelo humorista e compartilhado pelos espectadores que legitimam o discurso em forma de risadas. Nesse sentido, o trabalho galga a possibilidade da observao do humor como um saber cientfico das Cincias Humanas e Sociais. O referencial terico se fundamenta na afirmativa de Laplantine (2007) - as piadas contadas numa determinada cultura tm muito a revelar e esclarecer sobre seus vrios aspectos simblicos. As produes simblicas so simultaneamente produes sociais que sempre decorrem de prticas sociais. No devem ser estudadas em si, mas enquanto representaes do social (LAPLANTINE 2007, p.116). Humor certamente no antnimo de verdade ou credibilidade, o humor ou o cmico podem aclarar angstias, medos, incmodos e indisposies sociais, como disse Saliba (2002 p. 29) a representao humorstica uma epifania da emoo. O humor stand up pode ser credvel e aplicvel, provar isso o objetivo deste trabalho. RBSE Revista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 12, n. 35, ago.2013 - Soares 482 Metafsica do humor O humor no um estado de esprito, mas uma viso de mundo (SALIBA apud Wittgenstein, 2002 p. 15). O humorista stand up tem a capacidade de se admirar e se espantar com o trivial, como se tudo fosse novo, esquadrinhando os fatos sociais de forma analtica sem que estes se enevoem aos olhos por serem comuns ou rotineiros. Como na metafsica aristotlica, a busca da coisa como ela em sua profundidade e no como se apresenta superficialmente, relatado por meio de uma linguagem satrica. O humorista se admira e se espanta com o trivial, com o prosaico, com o cotidiano, porque existe alguma coisa em vez de nada ou de outra, e a explicao, s vezes hiperblica, produz a comicidade. metafsica porque abarca toda a existncia percebida por ele, ou o ente qualquer coisa que existe. A metafsica do humor vence o olhar do cotidiano e enxerga a realidade por meio de outra tica, a satrica. O importante buscar a verdade, tentar conhecer a realidade, no alterar algo, que continuar inalterado; o intento buscar o conhecimento por um novo prisma, uma nova paralaxe, o que vem do mais refinado alvitre do cognitivo, o humor, mas no apenas pelo cognitivo, como afirmou Bergson (apud SALIBA 2002), a essncia do riso e do cmico no reside apenas no terreno do cognitivo, mas no terreno da sociedade. Para compreender o riso, impe-se no seu ambiente natural, que a sociedade; impe-se, sobretudo, determinar-lhe a funo til, que uma funo social. Digamo-lo desde j: essa ser a ideia diretriz de todas as nossas reflexes. O riso deve compreender a certas exigncias da vida comum. O riso deve ter uma significao social (BERGSON apud SALIBA 2002, p. 22). O riso tem uma funo social, como afirmou Saliba (2002), rimos para estabelecer os elementos vivos que compem a prpria sociedade. A essncia do risvel encontra respostas na sociedade e no na natureza humana. Mesmo assim, a angstia proveniente da metafsica a possibilidade de percebermos que no existe nenhum sentido nas coisas que conhecemos; descobrir a realidade para quem tem coragem de enfrentar as incertezas, mesmo que elas venham recobertas pela mscara do humor. Em outras palavras, o humorista stand up audacioso, porque foge da explicao bvia da realidade e confecciona uma viso particular, s vezes absurda, para compreender a coisa em si, da sua existncia, tudo fruto da sua subjetiva e criativa forma abstrata de enxergar o que est alm da coisa apresentada, tentar entender a coisa em si pelo absurdo, confeccionar teorias desprovidas de sentido aparente para sustentar uma explicao alm do observvel. No existe a pretenso de dar cabo do real, mas as observaes, absurdas que sejam, tm a RBSE Revista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 12, n. 35, ago.2013 - Soares 483 funo de abrir caminhos para o entendimento de algo s vezes ininteligvel, mesmo para um observador social atento. A filosofia primeira deixa claro que preciso pensar diferente. Sair do habitual condio sine qua non para o estudo da metafsica. Talvez um resgate do entendimento do ser pelo absurdo, pelo inesperado, pelo humor retrate e questione a existncia e a sociedade. O stand up comedy Comdia em p, na traduo do ingls, uma modalidade de comdia que, segundo Lo Lins (2009), teve suas origens nos mestres de cerimnia, mais especificamente no mestre de cerimnia ingls Philip Astley, em 1770, ao inaugurar o Astleys Royal Amphitheatre of Art, que pode ter sido o primeiro circo do mundo e, desde ento, com o aparecimento de circos, boates, cabars, etc., os mestres de cerimnia faziam intromisses rpidas entre os nmeros e contavam piadas para animar os shows. Ainda, segundo as pesquisas histricas de Lins (2009), foi na primeira metade do sculo XX que grandes personalidades do rdio norte-americano, como Bob Hope, abriam seus shows fazendo piadas sobre as coisas do dia a dia (p.14). Contudo, apenas na dcada de 50, o stand up comedy assumiu sua forma atual, fazendo monlogos envolvendo observaes polticas, sociais, comportamentais, etc. No Brasil, Jos Vasconcellos, Chico Anysio, J Soares entre outros se utilizavam do formato stand up comedy nos seus shows de humor. Lo Lins (2009) afirmou acreditar que, somente agora, no sculo XXl o stand up comedy tem sua mais pura forma no Brasil. O stand up comedy um espetculo de humor no qual o comediante se apresenta sem figurino, cenrio, ou qualquer recurso teatral, apenas em p e com um microfone na mo, e, de forma analtica, relata suas percepes do cotidiano e, segundo as perspectivas de Lins (2009), tem como maior distintivo seu carter crtico e verdadeiro. O stand up comedy pode ser proposto como um fenmeno de entretenimento no Brasil desde o final dos anos 1990, substituindo at a tradicional voz e o violo nos bares e restaurantes bomios de todo o Brasil, o que mostra sua fora de difuso popular. Tal modalidade de humor se difere das piadas ou anedotas tradicionais, busca um cenrio mais atual do cotidiano para desenvolver as stiras do comportamento humano e tem sua comicidade ao ilustrar algo que comum e conhecido pelo interlocutor, que se utiliza apenas de uma distoro cmica. "As pessoas do risada porque se identificam de imediato com as histrias." (ADNET, 2011). Uma reportagem da revista Veja descreve essa relao popular do humor coloquial: No, voc no vai ouvir as manjadas anedotas de loira, de papagaio ou de portugus. A graa est, basicamente, em RBSE Revista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 12, n. 35, ago.2013 - Soares 484 satirizar fatos do cotidiano: trnsito, filas de banco, relacionamentos, notcias, a rotina dos aeroportos... Sem se esconder atrs de um personagem, os humoristas lanam mo de frases de efeito, momentos de silncio, caretas e boas doses de improviso. E haja flego: a mdia de uma piada a cada 15 segundos! "A linguagem acessvel e gil", afirma Marcelo Adnet, apresentador da MTV e um dos cabeas do coletivo Comdia ao Vivo (So Paulo, Comdia Stand up lota bares e teatros, 03/12/2008). O humor stand up se difere de todas as outras modalidades de shows humorsticos por carregar a indelvel propriedade de versar sobre a vida coloquial, sobre os mais prosaicos acontecimentos sociais, e tem sua legitimao no reconhecimento dos que assistem a ele e riem dos relatos do humorista. Lins (2009) afirmou que a piada contida na comdia stand up distorce levemente a realidade, mas s vezes, simplesmente falar a verdade o suficiente, desde que o pblico se identifique (p. 31). A comdia stand up praticada nos USA e no Brasil por atores e humoristas famosos e consagrados pela opinio pblica, dando a essa modalidade de humor um status elevado, sendo praticado densamente nas grandes cidades e em vrios nveis sociais, dos mais luxuosos e caros, com humoristas famosos nos bares e restaurantes mais requintados a barzinhos do subrbio. uma divertida e criativa forma de fazer a leitura antropolgica da cultura contempornea em diversos nveis socioeconmicos. Fernando Caruso (2009) em seu livro Comdia em p, o livro descreveu regras que estabelecem as caractersticas do gnero, segundo ele, baseado no livro homnimo da atriz norte-americana Judy Carter Stand up Comedy, the book. Para Caruso (2009), algumas normas devem ser rgidas para caracterizar o stand up comedy, por isso usaram o termo dogmas, numa aluso a certa inexorabilidade de regras enumeradas em seu livro: 1 O comediante s pode se apresentar sozinho. Jamais em dupla ou grupo. 2 S permitido se apresentar com texto prprio. No pode usar piadas que j caram em uso popular ou foram recebidas pela Internet. Muito menos usar aquele truque muquirana de contar a anedota como se o fato tivesse acontecido de verdade, tipo eu tenho um tio portugus... 3 - No pode fazer personagem. Tambm no vale transformar a si mesmo em personagem ou usar figurinos engraados. Use roupas que voc usaria normalmente, no dia a dia. 4 Evitar contar casos. O material deve ser preferencialmente de tpicos de observao. RBSE Revista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 12, n. 35, ago.2013 - Soares 485 5 Deixar bem clara a persona de cada um. No tente fingir ser quem voc no . Seja voc mesmo, sempre. Se voc mal- humorado, seja assim no palco, por exemplo. E se em determinado dia voc estiver de saco cheio, assuma; se estiver eufrico, idem; assuma o seu estado diante da plateia. Alis, importante tambm tentar trazer sua rotina pro mais perto de voc o possvel. Se o comediante for judeu, em algum momento fale de judeus, se for gay, fale sobre gays, se for nerd, fale sobre ser nerds,etc. 6 No permitido o uso de trilha sonora ou qualquer tipo de sonoplastia. 7 No permitido fazer nenhuma marcao de luz. Use apenas a iluminao bsica do palco. 8 No permitido o uso de cenografia ou adereo. 9 Os comediantes podem e devem testar material novo diante da plateia. Vale desde improvisar tendo apenas o tpico em mente at ler as piadas, caso elas no estejam decoradas ainda. 10 No forar a barra. Se voc tem apenas cinco minutos de material, faa uma apresentao de cinco minutos e saia. Tudo bem. No enrole. As apresentaes, alis, sero sempre de 5, 10 ou 15 minutos (CARUSO, 2009, p. 9;10). Efetivamente, ao contrrio do que afirmou Caruso (2009), tais princpios no so normas regulares, ou leis, como disse o comediante Bruno Motta em seu site na Internet, no h um ministrio da comdia stand up que proba esta ou aquela maneira de fazer1, contudo so diretrizes aplicveis e delineadoras do gnero e por essas diretrizes podemos perceber sua distinta forma de perceber o meio, a cultura e a sociedade ironizadas, Gonzaga (in CARUSO, 2009, p.14) reafirma esse conceito assim: Defendo a ideia de que o comediante precisa de uma vida normal: andar de conduo, enfrentar filas de banco, ir a supermercados, shoppings, estdios de futebol. Ver televiso, ouvir rdio (preferencialmente AM) e principalmente estar com o nmero mais variado de tipos de pessoas. Acho que o comediante precisa viver. Quando fica longe disso, ele perde a sua fonte. Tudo que escrevi eu colhi na rua. A afirmativa de Gonzaga (ibdem) corrobora com a teoria deste trabalho de que o comediante stand up um etngrafo que, por meio do deboche, da crtica, da stira, faz uma anlise social, e ele, de forma caricata, esquematiza o meio em que vive e descreve 1 Disponvel em: < http://www.brunomotta.com.br/standupcomedy/> Acesso em:15 de dezembro de 2011, s 21:50 RBSE Revista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 12, n. 35, ago.2013 - Soares 486 caractersticas, tendncias e faces, s vezes, ininteligveis para o mais experiente etngrafo acadmico. Lins (2009 p. 16) concluiu: Entre as principais caractersticas do stand up comedy esto seu carter crtico e verdadeiro. O humor sempre foi umas das formas de fazer crticas sociedade, sejam crticas polticas, sociais... E com o stand up no diferente. Humor e realidade Cathcart & Klein (2008) acreditam que a construo e a recompensa dos conceitos filosficos e do humor so feitos da mesma matria, ambas estimulam a mente de forma similar, isso porque o humor, assim como os conceitos filosficos, so os impulsos que perturbam e agitam o mundo superficialmente observvel e trazem tona verdades ocultas sobre a vida, que, segundo esses autores, muitas vezes so incmodas. O humor elaborado na poro mais complexa e refinado do ser, no tem ligao, pelo menos aparente, com o instinto humano primitivo de sobrevivncia. O humor se reproduz para dar prazer intelectual e tem total identificao com a cultura e a realidade que o indivduo vive. Na sntese freudiana, o humor tem a funo de dar prazer e superar as dores da realidade, colocando-se acima delas: As piadas tm como objetivo principal propiciar prazer aos que se renem para compartilh-las. J o humor o meio de se obter prazer apesar dos afetos dolorosos que se apresentam nas situaes em que ele emerge. Assim, a produo e a fruio do prazer uma caracterstica essencial dessas formaes psquicas carregadas de comicidade (FREUD Apud KUPERMANN 2010, p. 39). O humor tem sua fruio perante as produes sociais e culturais, o homem, como buscador incansvel de prazer, procura no que lhe familiar as inspiraes para produzir humor e consequentemente prazer, e para ser cmico ou engraado deve, invariavelmente, ser familiar e real para ele, quando algo antropomrfico e socialmente ntimo, como os animais que agem ou se caracterizam como humanos socialmente contextualizados. Se um cachorro usa chapu ou culos, se torna divertidamente reconhecvel pela sua aparncia civilizada, da mesma forma um papagaio quando pronuncia uma palavra ou reproduz uma frase que tem sentido real. Os exemplos citados formularam uma realidade ldica e genrica do ser humano social, contudo, em propores relativas, um humor extremamente crtico ou erudito, que exige do interlocutor uma bagagem de conhecimentos histricos, filosficos, etc. pode ser totalmente sem graa quando apresentado para um grupo de indivduos de baixa polidez intelectual e vise-versa, no h familiarizao, e familiarizao realidade percebida. familiar porque tangvel, tem o sentido de realidade vivida e perpetrada, os valores culturais tm a mesma fora diante do poder RBSE Revista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 12, n. 35, ago.2013 - Soares 487 social, ou seja, o que percebemos como normal determinado pela forma como a sociedade exerce seu controle, o que certo ou errado, quem normal ou anormal, o que moral ou imoral. Essa realidade relativa dos valores foucaultianos ilustrada pela piada de Cathcart & Klein (2008 p.204) Pat: Estou ligando da estrada com meu celular novo. Mike: Tome cuidado, Pat. Acabaram de falar no rdio que tem um maluco dirigindo na contra-mo dessa estrada. Pat: Um maluco? Eu diria que so centenas! risvel porque existe uma compreenso unvoca do que foi estabelecido pelo estado, ou seja, uma realidade vivida por Mike e perpetrada pelo estado de que direo seguir. O humor est indissociavelmente ligado realidade do humorista e de quem assiste a ele e s risvel por construir cenrios e cenas que confrontam os valores e smbolos culturais dentro de um contexto de assimilao. Leo Lins (2009) ponderou que o risvel normalmente a observao crtica e criativa do cotidiano produzindo identificao com o pblico que assiste a ele. Para ilustrar tais afirmativas, destacamos uma piada de stand up que produz identificao criticando o sistema de sade privada: Recebi a conta de hospital. Seis mil e duzentos reais. S de material... material, no remdio! Fralda, sabonete, algodo... essas coisas. S de material foram 800 reais. Como um velhinho de 85 anos pode gastar 800 reais de algodo? Estavam embalsamando meu pai? O que mais me espantou que de honorrios mdicos forma 300 reais. Quer dizer, melhor ningum estudar para ser mdico. melhor estudar para ser algodo (GONZAGA in CARUZZO, 2009 p. 27,28). A piada s se sustenta porque o episdio criticado tem embasamento real. Normalmente, como na Antropologia cientfica tambm, a piada se utiliza da comparao para ressaltar caractersticas prprias de uma cultura: O Japo um pas superseguro. Isso impressionante. Voc deixa seu laptop na rua, voc volta e ele ta l e ainda instalaram o Windows nele. claro que sempre tem uns caras preocupados que falam: cuidado, o Japo perigoso. Eu falei: querido, eu moro no Rio de Janeiro, l se eu andar sem camisa me roubam os mamilos. [...] L tem sinal de pedestre que nem aqui, mas l, querido, se o sinal de pedestre no abre, ningum anda. No importa. Duas da manh, nenhum carro na rua, ficam quarenta japoneses de cada lado. Eles ficam parados at o sinal abrir. E s vezes voc t com pressa, quer atravessar, fica meio impaciente, voc afinal de contas brasileiro. E voc fica meio: vambora, Japo, RBSE Revista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 12, n. 35, ago.2013 - Soares 488 claramente no t vindo ningum. A vontade que d empurrar e pronto, virou So Paulo. Mas voc no atravessa. Se voc atravessa tem sempre algum pra falar: al, s podia ser brasileiro, al. Fodendo a cultura milenar, al. Eu at atravessava no sinal vermelho, mas eu dizia: Perdn, yo soy de Argentina, perdn (PORCHAT in CARUZZO, p.48). Essa piada explora ironicamente, por meio de comparao com outra cultura, a falta de educao do paulistano e ainda exterioriza a rivalidade com os argentinos. Lins (2009 p. 31) ponderou que a piada distorce levemente a realidade, mas s vezes, simplesmente falar a verdade, o suficiente, desde que o pblico se identifique, nessa afirmativa reside, sucintamente, a realidade percebida e compartilhada por uma sociedade. Lins (2009, p.35) explica: claro que quanto mais prximo da realidade das pessoas presentes no pblico, mais engraado .. O autor ilustra essa afirmativa com o exemplo do discurso de outros humoristas stand up: Luiz Frana aborda os problemas causados por motoboys de So Paulo, Hlio Barbosa fala sobre o fracasso de seu casamento. Todos estes temas geram identificao por parte do pblico. Falar sobre seu cime dos esquiadores dos jogos de inverno, realizado em Aspen, dificilmente vai ter o mesmo nvel de conexo com a plateia (p. 36). Em suma, o humor, em especial o stand up, est visceralmente ligado realidade vivida pelo humorista e pelos seus espectadores, dentro de uma atualidade abordando de forma crtica e verdadeira tudo que podemos considerar grandioso o prosaico dentro de uma determinada cultura. A rebeldia libertadora do humor O dicionrio de filosofia (ABBAGNANO, 2007, p 180) explica que no cmico eliminado o imperativo moral dos cdigos institucionais (situaes, papis, mscaras sociais), ou seja, o humor ultrapassa o limite do politicamente correto e infiltra-se no cerne dos problemas que molestam a sociedade. O psicanalista Daniel Kupermann (2003) assinala que a transgresso autorizada que reside na piada suspende a represso e o recalque social, permitindo que se tenha uma satisfao pulsional ao mesmo tempo em que se reforam os laos sociais. Tomando tambm a proposio de Kupermann (2003) de que transgresso e lei esto originalmente associados no momento do nascimento da cultura (p.22), deduzimos que o humor como transgresso autorizada imanente ao processo cultural. O autor ainda refora que o carter rebelde caracterstico do humor se ope resignao do sujeito perante as adversidades do real e os imperativos sociais. RBSE Revista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 12, n. 35, ago.2013 - Soares 489 Quando Freud (1927, p.166) afirmou que O humor no resignado, mas rebelde, percebemos que o humor ultrapassa a barreira do politicamente correto em busca da libertao do que realmente habita nos anseios individuais e, consequentemente, sociais. O humor rebelde fruto das resenhas individuais que s fazem sentido quando compartilhadas e compreendidas pelo outro, o humor no teria sua nfase cmica se no rompesse com o politicamente correto, se no fosse alm do superficialmente observvel; no burlesco o humorista compreende a verdadeira percepo que ele, como ator social, tem da sua realidade. Consideraes O humor, aparentemente, no est no hall da lista dos objetos mais estudados pelas cincias rigorosas, por talvez no produzir uma preleo credvel, ou talvez por causa da rigidez gnosiolgica que exclui o riso das cincias humanas e sociais. O cmico foi percebido por Aristteles como um engano, algo irracional, uma imitao de homens ignbeis. Kant acreditava que o cmico no tinha nada de jubiloso para o intelecto, e Plato, o maior responsvel pela proscrio do riso no desenvolvimento intelectual, afirmou que o rigor do pensamento e a profundidade intelectual no podem ser distanciados pela alegria efmera causada pelo riso. Plato era conhecido com o filosofo que no ria. Com o julgamento de pensadores como Aristteles, Plato e Kant, como algo a ser rejeitado pelo homem racional, o humor no teria mesmo uma carreira acadmica muito promissora. Contudo, os esforos deste despretensioso trabalho mostraram que h, sim, algo de prolfico e profcuo por trs dos cdigos humorsticos o qual pode revelar caractersticas culturais, s vezes, invisveis. Se pela sensvel afirmativa de Geier (2011, p.11) de que o riso humano pertence s coisas mais belas do mundo, se as compreendermos do ponto de vista da prxis da vida, podamos, sem dvida, iniciar uma linha terico-metodolgica da Antropologia. Argumentos no faltam para conectar, de forma cientfica, a relao da experincia construda na realidade com as piadas contadas pelos seus humoristas stand up. Pode-se assegurar que o humor stand up em essncia o pensamento do homem sobre o homem. O humorista stand up o sujeito observante, e o objeto observado contemplado por meio das suas experincias vivenciadas, que se legitimam, ou tomam forma de real, quando o interlocutor, ou a plateia concorda em forma de risadas. O riso um produto exclusivo do homem, fruto de suas produes simblicas e intelectuais. Segundo o Guia dos curiosos, a risada resultante da inteligncia humana e do contexto social que se insere e, no, um fenmeno biolgico. As risadas so reaes comportamentais que envolvem componentes emocionais e cognitivos (relacionados RBSE Revista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 12, n. 35, ago.2013 - Soares 490 inteligncia). Diante de determinados estmulos, algumas reas do crebro entendem as situaes como engraadas e uma resposta motora desencadeada. Para que ela acontea, contraem-se o diafragma, a glote e parte da musculatura facial (p.86). O humor o mais requintado produto do intelecto humano na sua perene arte de produzir prazer, a forma de libertao da opresso do real, justamente por critic-la e se colocar acima dela. a maneira como a sociedade se expressa para demonstrar suas insatisfaes, inquietaes, a forma mais pragmtica de fugir do politicamente correto na busca da liberdade da alma. Luiz Felipe Pond (2010, p.64) disse: Um dos traos bregas da nossa poca supor que se pode ter vida moral sendo feliz. A hipocrisia do cristianismo de outrora hoje habita a casa da praga do politicamente correto. Sua catrtica afirmativa revela a impossibilidade de ser feliz controlando suas vontades primitivas, seus instintos e desejos humanos em nome de uma conduta especfica, ou seja, o comportamento observvel efetivamente no a expresso da realidade sentida. H um vu sobre a essncia do desejo, e o que se observa do comportamento humano em sociedade no o retrato fiel das suas emoes e desejos, mesmo que a vida contempornea liberal incentive a liberdade individual na sua forma mais primitiva, o coletivo nem sempre pode ser analisado na sua verdadeira essncia. Pond (2010) concluiu que vivemos uma vida superficial e que Somos escravos da felicidade, mas a infelicidade que nos torna humanos (p.65). Como podemos ter certezas sobre determinada cultura se o que se observa quase sempre o simulacro, o imageticamente apresentvel? Onde todos esto presos aos comportamentos coletivos aceitveis, ou politicamente corretos? O politicamente incorreto tem muito a revelar sobre a essncia, as angstias e as inquietaes de uma sociedade, e o humorista stand up pode ser a janela para essas descobertas, onde nas teorias da psicologia social reside em um enfoque sobre a relao indivduo-cultura, denominada cultura na mente ou narrativa dos atores culturais, essa uma proposta que supe um conjunto de interpretaes ou narrativas das atividades do sujeito em seu cotidiano, ou seja, modos de pensar, aes e intenes que ilustram um processo autobiogrfico de vrios autores. Em suma, uma leitura social proveniente dos seus atores para desenhar uma cultura especfica (BONIN in STREY, 2010). Kupermann (2003, p.360) afirmou que os humoristas profissionais ou leigos- fazem incidir seu doce veneno sobre os pontos cegos do prprio campo psicanaltico. Podemos plagiar sua afirmativa concluindo que os humoristas tambm fazem incidir seu doce veneno sobre os pontos cegos do campo antropolgico, o que pode ser reforado pela afirmativa de Judy Carter (apud Lins 2009, p. 36) de que voc tem uma fonte inesgotvel de material: sua RBSE Revista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 12, n. 35, ago.2013 - Soares 491 vida, ou seja, seu cotidiano lhe fornece temas e motivos para escrever as piadas que vo construir seu ponto de vista sobre os pontos cegos da sociedade. O humor stand up se difere das outras formas de humor por tratar essencialmente de questes polticas, sociais ou prosaicas de forma particular, ntima e crtica, sem censuras ou vnculos institucionais miditicos. O humor stand up tem atributos que o habilitam a fornecer dados credveis sobre determinada sociedade a ponto de confeccionar uma identidade nacional, ao contrrio de outras formas de humor industrializado. Por meio dos relatos dos humoristas stand up, essa forma de humor tem compromisso com a realidade, como assume Lins (2009, p.42): O stand up no tem que ser verdadeiro? Sim ele tem que ser verdadeiro, mas voc no vai mudar de opinio em relao a um assunto, voc apenas vai mudar a forma de olhar aquele assunto, para descobrir algo engraado. Podemos concluir que o humor, especificamente o stand up, deposita seus esforos ao buscar aspectos sociais, remexendo em detalhes que causam inquietao ou desconforto, sempre comprometido com uma contextualizao sociocultural. O livro de Leo Lins, Notas de um comediante Stand up a confirmao da organizao metdica e rigorosa do humor pela observao social. Nesse livro, exposto todo o complexo que envolve tal investigao, da coleta do material, ou seja, dos aspectos sociais, construo da piada e contextualizao com o pblico. O esforo desse e de outros livros feitos para o humor stand up e pelo humor stand up reafirmam a tese de que esse humor rompe com o simplista, burlesco e ridculo, buscando uma anlise social sofisticada que encontra na comicidade sua forma de difuso. Referncias ABBAGNANO, Nicola. Dicionrio de filosofia. So Paulo: Martins Fontes, 2007. CARUSO, Fernando (Org.). Comdia em p, o livro. Rio de Janeiro: Mirabolante, 2009. CATHCART, Thomas; Daniel KLEIN. Plato e um ornitorrinco entraram num bar... Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. FREUD, Sigmund. O humor. Rio de Janeiro: Imago, 1927. GEIER, Manfred. Do que riem as pessoas inteligentes? Rio de Janeiro: Record, 2011. KUPERMANN, Daniel. Ousar a rir, humor, criao e psicanlise. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2003. LAPLANTINE, Franois. Aprender antroplogia. So Paulo: Brasiliense, 2007. LINS, Lo. Notas de um comediante stand-up. Curitiba: Nossa Cultura, 2009. POND, Luiz Felipe. Contra um mundo melhor. So Paulo: Leya, 2010. REZENDE, Cludia Barcellos; Maria Cludia COELHO. Antropologia das emoes. Rio de Janeiro: FGV, 2010. RBSE Revista Brasileira de Sociologia da Emoo, v. 12, n. 35, ago.2013 - Soares 492 SALIBA, Elias Thom. Razes do riso. So Paulo: Cia das Letras, 2002. STREY, Marlene Nevs (Org.). Psicologia social contempornea. Petrpolis: Vozes, 2010. Abstract: Historians like Thom Elias Saliba believe that humor Brazil reflects the lack of identity in Brazil, but this study suggests that depends on the type of humor that evaluates to realize a national identity, humor industrialized and made for mass consumption, as "Zorra Total", "A praa nossa" "Pnico na TV" and others, really are not characterized by bringing itself a criticism, whatever. They are reproductions of human stupidity. In contrast, the mood produced by stand-up comedy stages a refined analysis of society and exposes hidden truths of a culture under the veil of humor. The proposal is to realize the humor stand up as a possible theoretical and methodological line of Anthropology, Anthropological being an efficient tool capable of bringing to light sociocultural characteristics of difficult perception. Keywords: humor, standup comedy, research methodology