a educao do ser potico

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    17-Jul-2015

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A educao do ser potico Carlos Drummond de Andrade Por que motivo as crianas, de modo geral, so poetas e, com o tempo, deixam de s-lo? Ser a poesia um estado de infncia relacionada com a necessidade de jogo, a ausncia de conhecimento livresco, a despreocupao com os mandamentos prticos de viver estado de pureza da mente, em suma? Acho que um pouco de tudo isso, se ela encontra expresso cndida na meninice, pode expandir-se pelo tempo afora, conciliada com a experincia, o senso crtico, a conscincia esttica dos que compem ou absorvem poesia. Mas, se o adulto, na maioria dos casos, perde essa comunho com a poesia, no estar na escola, mais do que em qualquer outra instituio social, o elemento corrosivo do instinto potico da infncia, que vai fenecendo, proporo que o estudo sistemtico se desenvolve, ate desaparecer no homem feito e preparado supostamente para a vida? Receio que sim. A escola enche o menino de matemtica, de geografia, de linguagem, sem, via de regra, faz-lo atravs da poesia da matemtica, da geografia, da linguagem. A escola no repara em seu ser potico, no o atende em sua capacidade de viver poeticamente o conhecimento e o mundo. Sei que se consome poesia nas salas de aula, que se decoram versos e se estimulam pequenas declamadoras, mas ser isso cultivar o ncleo potico da pessoa humana? Oh, afastem, por favor, a suspeita de que estou acalentando a inteno criminosa de formar milhes de poetinhas nos bancos da escola maternal e do curso primrio. No pretendo nada disto, e acho mesmo que o uso da escrita potica na idade adulta costuma degenerar em abuso que nada tem a ver com a poesia. Fazem-se demasiados versos vazios daquela centelha que distingue uma linha de poesia, de uma linha de prosa, ambas preenchidas com palavras da mesma lngua, da mesma poca, do mesmo grupo cultural, mas to diferentes. Se h inflao de poetas significantes, faltam amadores de poesia e amar a poesia forma de pratic-la, recriando-a. O que eu pediria escola, se no me faltassem luzes pedaggicas, era considerar a poesia como primeira viso direta das coisas e, depois, como veculo de informao prtica e terica, preservando em cada aluno o fundo mgico, ldico, intuitivo e criativo, que se identifica basicamente com a sensibilidade potica. No seria talvez despropositado cuidar de uma extenso potica das escolinhas de arte, esta idia maravilhosa que Augusto Rodrigues tirou de sua formao humana de artista para a realidade brasileira. Longe de ser uma fbrica alarmante de versejadores infantis, essa extenso, curso ou atividade autnoma, ou que nome lhe coubesse, daria criana condies de expressar sua maneira de ver e curtir a relao potica entre o ser e as coisas. Projeto de educao para a poesia (fala-se hoje em educao artstica no ensino mdio, quando o mais razovel seria dizer educao pela arte). A vocao potica teria a uma largada franca, as experincias criativas gozariam de clima favorvel sem que tal importasse na obrigao de alcanar resultados concretos mensurveis em nvel escolar. Sei de casos em que um engenheiro, por exemplo, aos 30, 40 anos, descobre a existncia da poesia... No poderia tla descoberto mais cedo, encontrando-a em si mesmo, quando ela se manifestava em brinquedos, improvisaes aparentemente absurdas, rabiscos, achados verbais, exclamaes, gestos gratuitos? Alguma coisa que se bolasse nesse sentido, no campo da Educao, valeria como corretivo prvio da aridez com que se costuma transcrever os destinos profissionais, murados na especializao, na ignorncia do prazer esttico, na tristeza de encarar a vida como dever pontilhado de tdio. E a arte, como a educao e tudo o mais, que fim mais alto pode ter em mira seno este, de contribuir para a educao do ser humano vida, o que, numa palavra, se chama felicidade? (Transcrito do Jornal do Brasil, Rio de Janeiro RJ, 20.07.74)