A cura quntica

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    02-Dec-2014

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A cura quntica: O poder da mente e da conscincia na busca da sade integral, de Dr. Deepak Chopra

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1. Dr. Deepak Chopra A CURA QUNTICAO poder da mente e da conscincia na busca da sade integral Traduo de EVELYN KAY MASSARO E MARCLIA BRITTO 2. Ttulo original: Quantum Healing Copyright Deepak Chopra, 1989 Publicado sob licena de Bantam Books,uma diviso de Bantam Doubleday Dell Publishing Group, Inc. Todos os direitos reservados. Proibida a reproduo no todo ou em parte, por qualquer meio, sem autorizao do Editor. No permitida a venda em Portugal.Direitos exclusivos da edio em lngua portuguesa no Brasil adquiridos por EDITORA NOVA CULTURAL LTDA., que se reserva a propriedade desta traduo EDITORA BEST SELLER uma diviso da Editora Nova Cultural Ltda. Av. Brig. Faria Lima, 2000 - CEP01452 -Caixa Postal 9442 So Paulo, SP ISBN 85-7123-176-1 10 9 8 7 6 5 4 3 2 Fotocomposto na Editora Nova Cultural Ltda. Impresso e acabado na Grfica do Crculo do Livro S.A. 3. CONTRA CAPAUma viagem s fronteira da nova medicina, integrando corpo e mente.Uma nova medicina vem surgindo, na qual a mente, a conscincia, acompreenso e a inteligncia ocupam importantes papis.Um de seus arquitetos o dr. Deepak Chopra, consagrado autor deConexo Sade e O Retorno do Rishi, cujo mtodo a que deu o nomede Cura Quntica engloba o lado fsico e biolgico do ser humano,mas vai alm, como mostram alguns temas deste livro: O Corpo Possui Mente Prpria Fantasmas da Memria O Nascimento de uma Doena O Que Voc V, Voc se Torna Corpo de Bem-AventuranaBaseando-se tanto na cincia moderna como na ancestral sabedoria doAyurveda, o autor relata casos reais e histrias fascinantes em apoio aum modelo de sade e bem-estar que est em perfeita harmonia com omais profundo conhecimento espiritual.A Cura Quntica uma brilhante investigao da habilidade de umaspecto da conscincia a mente em corrigir espontaneamenteoutro aspecto da conscincia o corpo. The Washington PostO dr. Chopra escreve com simplicidade quase mgica e encanto, mas rigoroso nos fatos que apresenta e no raciocnio. Marilyn Ferguson, escritoraORELHAS DO LIVRONos ltimos anos surgiu uma abordagem da medicina, na qual a mente,a conscincia e a inteligncia ocupam papis importantes. O dr. DeepakChopra, um de seus idealizadores, batizou-a de Cura Quntica, e neste 4. livro nos apresenta esse novo modelo de sade e bem-estar, baseando-se em conhecimentos da medicina moderna ocidental, e da antigasabedoria oriental, o Ayuverda. O dr. Chopra tambm refora aspropostas de suas publicaes anteriores Conexo Sade e O Retornodo Rishi , onde d nfase s energias positivas e MeditaoTranscendental. Em A Cura Quntica, o dr. Chopra nos mostra que ocorpo humano controlado por uma rede de inteligncia, quedetermina se estamos saudveis e bem integrados com a Natureza,sendo capazes, assim, de derrotar doenas cardacas e cncer, entreoutros males. Por meio de uma narrativa envolvente, com relatos depacientes e noes bsicas de fsica e biologia, o autor nos mostra comoas clulas de nosso organismo esto ligadas s foras do cosmo e comoo pensamento individual se relaciona com as unidades fundamentais damatria e da energia. Indispensvel para quem quer manter ou recobrara sade, A Cura Quntica um livro cheio de mistrio, maravilha eesperana. DEEPAK CHOPRA nasceu na ndia em 1947 e l se formou em medicina. Desde 1971 exerce a profisso nos Estados Unidos, onde foi chefe de equipe do New England Memorial Hospital. Em 1985, tornou-se presidente-fundador da Associao Americana de Medicina Vdica. Hoje diretor do Maharishi Ayurveda Health Center em Lancaster, Massachusetts, e tambm professor-assistente de cinciasmdico-sociais na Escola de Medicina da Universidade de Boston.Realiza conferncias sobre sade e autoconscientizao nos EUA e emdiversos pases. Esteve no Brasil em 1988 para o lanamento de seulivro Conexo Sade.Do autor, pela Best Seller:CONEXO SADEO RETORNO DO RISHIIlustrao da capa: Luiz Carlos Alvim 5. De todo o corao e com os mais profundos agradecimentos a Maharishi Mahesh Yogihttp://groups.google.com/group/digitalsource 6. Agradecimentos A Gautama, Mallika e Rita, pelo amor incondicional que mededicam e pela plena aceitao de tudo o que fao. A Carla Linton, por seu empenho em criar um mundo melhor. A Muriel Nellis, por inspirar, desde o incio, minha autoconfianacomo escritor. A Toni Burbank, pela reviso que trouxe maior clareza a meuspensamentos e melhorou cada captulo deste livro. E especialmente a Huntley Dent: a nossa profunda amizade, aosinsights que vivenciamos juntos e a sua orientao literria, que foram,no todo, experincias evolutivas para mim. 7. SumrioUma Introduo PessoalPRIMEIRA PARTE: A FISIOLOGIA OCULTA 1. Aps o Milagre 2. O Corpo Possui Mente Prpria 3. A Escultura ou o Rio? 4. Mensageiros do Espao Interior 5. Fantasmas da Memria 6. O Corpo Mecnico Quntico do Homem 7. Em Lugar Nenhum e em Toda a Parte 8. Testemunha Silenciosa 9. O Mistrio do VazioSEGUNDA PARTE: CORPO DE BEM-AVENTURANA 10. No Mundo dos Rishis 11. O Nascimento de uma Doena 12. O Que Voc V Voc se Torna 13. Corpo de Bem-Aventurana 14. O Final da Guerra 8. Uma Introduo Pessoal Tenho um paciente chins que est em fase terminal de umcncer na cavidade nasal. Seu rosto foi afetado, e ele sofre dores quaseo tempo todo. Mas ele tambm mdico e acho que deveria ouvir isto. Concordei, do outro lado da escrivaninha. Estvamos nos ltimosdias do ms de outubro de 1987, em Tquio. Eu fazia uma visita a umjapons especialista em cncer, que poderia me ajudar a testar umanova teoria. Ela estava ligada a um dos grandes mistrios da medicina:o processo da cura. Naquela ocasio eu ainda no havia descoberto oconceito cura quntica, mas este foi o assunto que discutimos pormais de uma hora. Depois nos levantamos e nos dirigimos s alas dos pacientes.Enquanto caminhvamos, pude admirar de passagem os bem cuidadosjardins Zen do hospital. As crianas dormiam na ala infantil epassamos por ali em silncio. Quando chegamos ao setor dos quartosparticulares, o mdico japons se deteve diante de certa porta, dando-me passagem. Doutor Liang disse ele , pode nos dedicar alguns minutosde sua ateno? O quarto estava na penumbra. Um homem dequarenta e alguns anos, mais ou menos de minha idade, jazia na cama.Virou a cabea, cansado, quando entramos. Ns trs tnhamos vrias coisas em comum: ramos do Oriente ehavamos abandonado nossas terras para estudar medicina ocidentalavanada. Somando os trs, tnhamos cinquenta anos deespecializaes. Mas o homem deitado no leito era o nico que estaria 9. morto no ms seguinte. Cardiologista em Taiwan, ele recebera, haviamenos de um ano, o diagnstico de cncer nasofarngeo. Naquele diaseu rosto estava coberto por tiras largas, que chegavam quase at osolhos. O encontro foi um momento difcil. No baixei o olhar aocumpriment-lo, mas o dr. Liang, sim. Viemos conversar um pouco murmurou o mdico japons. No est se sentindo cansado demais? O homem no leito fez um gesto amvel e aproximamos nossascadeiras. Comecei a explicar minhas idias, como fizera antes com meuanfitrio. Em resumo, eu acreditava, por princpio, que a cura no umprocesso fsico, mas mental. Quando vamos a recomposio de umosso fraturado ou a regresso de um tumor maligno, estvamoscondicionados, como mdicos, a observar, de incio e principalmente, omecanismo fsico. Mas esse mecanismo apenas uma tela. Expliquei-lhes que por trs existe algo bem mais abstrato, uma espcie de know-how que no pode ser visto ou tocado. No entanto, eu estava convencido de que esse know-how fosseuma fora poderosa sobre a qual no tnhamos suficiente controle.Apesar dos esforos para influenciarmos o processo de cura quando elefalha, a medicina no pode explic-lo. A cura viva, complexa, holstica.Lidamos com ela presos a nossos meios limitados e ela parece obedecera nossos limites. Mas quando acontece alguma coisa estranha, comoum cncer avanado que desaparece sbita e misteriosamente, frustra-se a teoria mdica. Nossos limites parecem, ento, muito artificiais. Em minha clientela particular, muitos pacientes com cncersararam completamente depois de considerados incurveis, comprognstico de poucos meses de vida. No considerei essas curas comomilagres; achei que eram a prova de que a mente pode aprofundar-se osuficiente para mudar os prprios modelos que formam o corpo. Elapode, por assim dizer, apagar os enganos impressos na planta bsica,destruindo qualquer doena como cncer, diabetes ou um mal dascoronrias que tenha afetado o modelo corporal. Minhas palavras soavam confusas porque eu estava falando logo 10. aps a experincia mais notvel de minha vida profissional. Poucassemanas antes, durante uma visita ndia, um dos maiores sbiosvivos me transmitira algumas tcnicas usadas h milhares de anos,assegurando-me que elas restaurariam em minha mente ascapacidades de cura. Falo do Maharishi Mahesh Yogi, mais conhecidono Ocidente como o fundador da Meditao Transcendental, ou MT.Venho meditando h quase oito anos e prescrevo rotineiramente a MT aminha clientela. (O mais irnico foi ter aprendido a meditar com umamericano em Boston, e no na ndia.) Certa tarde eu visitava o Maharishi num lugarejo novo, chamadoMaharishi Nagar, a aproximadamente oitenta quilmetros de NovaDlhi. Estvamos a ss, na casa modesta em que ele vive, cercada pelosedifcios da escola e do hospital ainda em construo. Esse um dosraros locais que eu ainda considero como a verdadeira ndia. Sente-seali que uma grande cultura antiga conserva sua dignidade e suaenorme sabedoria. Graas ao Maharishi, os antigos sbios vdicos noparecem to remotos e separados de ns por milhares de anos, masmuito prximos. O lugarejo, de fato, muito prximo do local exato emque o sr. Krishna passou a noite ensinando ao grande guerreiro Arjunaos segredos da iluminao. A histria relembrada na poesia pica doBhagavad Gita. Subitamente, o Maharishi falou, olhando para mim: Gostaria de v-lo a ss, amanh, em meu quarto. Pode vir logodepois de sua meditao matinal? Surpreendi-me, mas no o pressionei com perguntas. Na manhseguinte chegava a sua porta. O Maharishi estava sentado em posiode ltus, sobre um sof coberto de seda. Convidou-me a entrar e nossentamos juntos, em silncio. Venho esperando um longo tempo para explicar algumastcnicas especiais declarou muito simplesmente. Acredito quesero a medicina do futuro. Eram conhecidas no passado longnquo,mas foram se perdendo na confuso dos tempos; agora quero que asconhea e, ao mesmo tempo, explique clara e cientificamente como 11. funcionam. Durante as horas seguintes, ele me ensinou uma srie de tcnicasmentais, inclusive a que denominava sons primordiais. Seu uso estligado prtica da meditao, embora sejam prescritas no tratamentode males especficos, inclusive os considerados incurveis no Ocidente,como o cncer. O Maharishi explicou-me claramente que aquelas eramas terapias mais fortes do Ayurveda, a velha medicina tradicionalindiana. Ensinou-as com muita simplicidade, e no foi difcil aprender oque eu deveria fazer com meus pacientes quando voltasse para casa. Aomesmo tempo, compreendi que ele estava me pedindo para ir muitoalm do papel de mdico que se conhecia no Ocidente. Quando terminamos, eu havia preenchido com anotaes vriaspginas do caderno. O Maharishi sorriu com aquela doura penetrantee aquela compaixo que sempre revejo ao me lembrar dele. Esse conhecimento extremamente poderoso repetiu. Comparadas a ele, as drogas e a cirurgia a que voc est habituado somtodos muito grosseiros. Levar tempo ainda, mas as pessoas vo sedesenvolver e compreendero isso. Depois, virou-se com absolutanaturalidade para receber outros visitantes que o procuravam paramatricular as crianas na escola de Maharishi Nagar. Poucos minutos depois, eu estava sozinho na soleira da porta,observando o deserto e aquela paisagem vermelha e nua a distncia.Este um lugar cuja existncia a maioria dos ocidentais ignora.Poderiam acreditar que ali se iniciara uma importante mudana noconceito mdico? Conheo muitos mdicos pesquisadores e no pudeconter o riso ao imaginar suas reaes. A cincia tem uma base fsicamuito slida e extremamente convincente aos olhos de qualquermdico. J o poder da mente duvidoso na mesma proporo. Para ser franco, naquele momento as dvidas pouco me atingiam.Eu seguia pela trilha empoeirada at minha hospedagem, com o solindiano queimando minha nuca, e me sentia exultante. No era umasensao de convencimento, mas de uma alegria quase impessoal,incontrolvel. No sabia por qu, mas alguns grandes segredos me 12. haviam sido revelados e eu me sentia transportado aos cus. Tinhamme mostrado como penetrar no oculto e, naquele momento, nem o calornem a poeira ou qualquer outro vnculo material me importavam. Nemmeu prprio ceticismo me incomodava, apesar de saber que logocomearia a me oprimir. Enfrentei algumas decises difceis: tinha deimaginar uma forma de tornar aquelas tcnicas dignas de crdito.Certas pessoas poderiam descart-las como cura pela f; outras meacusariam de vender falsas esperanas. Precisava demonstrar que aquela era uma cincia por seusprprios mritos. Como fazer isso? A resposta acabaria por surgir. Opensamento indiano tem se baseado sempre na convico de que Satya,a verdade, triunfa por si. A verdade simples encorajava o Maharishi. Apresente-acom clareza, deixe que se afirme e no se perca em complicaes. O nome Ayurveda originou-se h mais de quatro mil anos; emsnscrito, significa a cincia da vida. O fato de crescer na ndia, comofoi meu caso, no assegura que se aprenda muito sobre essa antigacincia. Minha av costumava esfregar aafro nas picadas de insetos,quando eu era criana, e nos avisava para nunca comermos frutascidas com leite. Era assim o Ayurveda em minha casa. O Ayurveda foieclipsado, de forma geral, pela medicina ocidental cientfica e reprimidopelo progresso em seu prprio local de nascimento. Fora das culturasinterligadas da ndia, do Tibete, Nepal e Sri Lanka, o Ayurveda desconhecido, embora tenha deixado marcas duradouras. Os sistemaspopulares de medicina oriental que lanaram algumas razes noOcidente, como a acupuntura chinesa, foram baseados nos princpiosdo Ayurveda h milhares de anos. O conhecimento primordial do Ayurveda dispersou-se atravs dossculos. Os indianos que vivem de acordo com os valores da tradio,principalmente no campo, ainda procuram seguir as prticasaiurvdicas, mas deram a elas muitas interpretaes diferentes. Muitasvises so parciais e at estrbicas. Qualquer vaidya, ou mdico vdico,costuma citar antigos mestres do Ayurveda, como Charaka e Sushruta, 13. com toda a autoridade. Isso no significa, porm, que suas prescriessejam iguais s do vaidya da vila mais prxima. Muitas tcnicas aiurvdicas desapareceram por completo;infelizmente, logo aquelas que mais poderiam oferecer contribuies medicina moderna. Os antigos mdicos da ndia eram tambm grandessbios e tinham como crena principal a idia de que o corpo criadopela conscincia. Um grande yogi ou swami tambm acreditava nisso.Portanto, a medicina que exerciam era de conscincia, e o tratamentotranscendia o mal fsico e atingia alm, o mago da mente. Quando voc observa os mapas anatmicos do Ayurveda, no vos rgos internos descritos nos manuais de anatomia, mas sim umdiagrama do fluido da mente enquanto cria o corpo. O Ayurveda tratadesse fluir. Antes de encontrar o Maharishi, eu considerava o Ayurvedauma medicina folclrica, porque s via seus costumes populares: ervas,dietas, exerccios e regras incrivelmente complicadas para a vida diria,que apenas ficam no ar quando crescemos na ndia. No entanto, o interesse do Maharishi centrava-se no Ayurvedaperdido e em sua capacidade de curar pacientes por meio de mtodosimateriais. Depois que ele me ensinou esses mtodos, eu tambmesperava contar a outros como funcionavam. Por esse motivo desejavaconversar com mdicos interessados, como o que conheci em Tquio. Naquele momento, eu repetia isso a um homem moribundo,numa cama de hospital a milhares de quilmetros de casa, e quem sabea que distncia de sua ancestralidade espiritual... Minhas palavras seperdiam no silncio do quarto sombrio. O dr. Liang j aparentavacansao. No dissera nada, mas, quando nos levantamos para sair,tocou meu brao. Esperamos que voc tenha razo disse ele. Obrigado. Enquanto voltvamos pelas alas, tornei a olhar para os pequenosjardins Zen atravs das janelas. Eram plantados em reas poucomaiores que os quartos do hospital, mas cada um deles era modelo dedevotado carinho. Os teixos, aparados com absoluta preciso, estavamlindos na quente claridade de outubro. Quando chegamos a meu carro 14. no estacionamento, o mdico japons apertou calorosamente minhamo. Eu lhe disse que primeiro comearia a testar as novas tcnicas naAmrica, mas ele seria informado de todo novo passo que fosse dado. Enquanto voltava ao hotel, resolvi que escreveria ao mdico o queo Maharishi me havia contado sobre a vida de um vaidya, um mdicovdico: Um vaidya um guerreiro invencvel porque combate oelemento da morte. Um vaidya doa, um doador da vida e, portanto,querido pela natureza. O significado dessas palavras de que o mdico precisa fazer umaviagem ao interior, estendendo sua compreenso para alm dos limitesdo corpo fsico at o ncleo de uma realidade mais profunda. Suaresponsabilidade resolver o enigma da vida e da morte. A soluoacena no horizonte com a mesma urgncia e alegria que animavam ossbios antigos. Saltando pelo vazio do tempo e do espao, sobrevivendos ondas de destruio que abalam a humanidade, a antiga sabedoriaVdica nos fala com profunda simplicidade: no perfeito desgnio danatureza, nada morre. Um ser humano to permanente quanto umaestrela; ambos so iluminados pelo resplendor da verdade. Sinto, a cada dia, a importncia da viagem interior. Acredito queainda estou dando os primeiros passos, mas quero transferi-los aosoutros, neste livro. A prtica da medicina , agora, cheia de esperanapara mim. No precisei dos conhecimentos do Ayurveda para descobrirque os mdicos lutam contra a morte. Precisei deles para descobrir quevenceremos. 15. PRIMEIRA PARTE:A FISIOLOGIA OCULTANa realidade mais profunda,alm do espao e do tempo, talvez sejamos, todos, membros de um s corpo. SIR JAMES JEANS 16. 1 Aps o Milagre Em minha carreira mdica, por vrias vezes tive o privilgio depresenciar curas miraculosas. A mais recente iniciou-se no anopassado, quando uma moa indiana de 32 anos me procurou em meuconsultrio prximo cidade de Boston. Vestida num sri de seda azul,sentou-se em silncio diante de mim. Procurando manter-se sobcontrole, ela apertava fortemente as mos entrelaadas no colo.Chamava-se Chitra, como declarou. Dirigia uma loja de importaescom o marido, Raman, num bairro de Nova York. Poucos meses antes, Chitra notou um pequeno caroo em seuseio esquerdo, sensvel ao toque. Submetera-se a uma cirurgia paraextirp-lo, mas infelizmente o cirurgio chegou concluso de que setratava de tumor maligno. Procedendo a um exame mais profundo, eledescobriu que o cncer j atingira os pulmes. Depois de retirar o seio doente e boa parte do tecido a sua volta, omdico de Chitra receitou-lhe as doses iniciais de radiao; a seguir, fezcom que se submetesse a intensa quimioterapia. Esse o procedimentohabitual nos casos de mama e tem salvado muitas vidas. Mas o cncerde pulmo era mais difcil de ser tratado, e qualquer um poderiaperceber que Chitra se encontrava numa situao muito perigosa. Ao examin-la, notei nela muita ansiedade e procurei encoraj-la.Foi quando me surpreendeu com uma declarao tocante: No me incomodo se tiver de morrer, mas sei que meu maridoficar muito solitrio sem minha companhia. s vezes, finjo que estou 17. dormindo, mas passo a noite acordada, pensando nele. Sei que Ramanme ama, mas tambm sei que, depois que me for, ele vai comear a seencontrar com as jovens americanas. No consigo suportar a idia deperd-lo para uma delas. Depois de uma pausa, olhou-me comexpresso de sofrimento e prosseguiu: Sei que no devia dizer essascoisas, mas acho que o senhor compreende. No nos acostumamos com a dor que o cncer provoca, mas sofriainda mais ao pensar que o tempo era o grande inimigo de Chitra. Porenquanto ela mantinha um aspecto saudvel. Vinha at escondendoseu mal dos parentes, porque detestava a idia de ser observadaenquanto definhava. Mas ambos sabamos que seria um processo difcilpara ela. Ningum pode afirmar que conhece uma cura para cncer demama em estado avanado. A terapia convencional tinha feito tudo oque era possvel por Chitra. Como o cncer j atingira outro rgo, osdados estatsticos indicavam menos de 10 por cento de chance de cincoanos de sobrevivncia, mesmo com a mais intensa rotina dequimioterapia que se pudesse adotar em segurana. Pedi-lhe que comeasse um novo processo de tratamento, como oprescrito pelo Ayurveda. Chitra, como eu, tambm crescera na ndia, mas tinha uma vagaidia do que era o Ayurveda. A gerao de seus avs fora a ltima aacreditar nessa medicina, eu imaginava; atualmente, qualquer indianoprogressista que viva numa grande cidade daria preferncia medicinaocidental, se tivesse condies de mant-la. No intuito de explicar aChitra por que eu queria que ela desse as costas ao progresso, afirmei-lhe que seu cncer no era apenas uma doena fsica, mas holstica.Todo seu organismo sabia que ela estava com cncer e sofria com ele;um exame do tecido dos pulmes demonstraria que as clulas malignastinham migrado para l, enquanto a amostra de tecido do fgado serianegativa. Mas o fgado era irrigado pelo mesmo sangue e recebia ossinais da doena, vindos dos pulmes. Tal conhecimento, por sua vez,afetava as funes desse rgo. 18. Da mesma forma, quando ela sentia dor no peito ou era obrigadaa sentar-se por feita de ar, os sinais percorriam todo seu corpo, saindodo crebro e voltando a ele. Sentindo a dor, o crebro era obrigado areagir. O cansao que ela sentia, aliado depresso e ansiedade, erauma reao cerebral com conseqncias fsicas. Portanto, seria erradopensar em seu cncer apenas como um tumor isolado que precisava serdestrudo. Chitra sofria de um mal holstico que exigia uma medicinaholstica. A palavra holstica, que desagrada aos mdicos ortodoxos,significa apenas um enfoque conjunto da mente e do corpo. Acreditoque o Ayurveda realize essa unio melhor do que qualquer alternativa,apesar de no demonstrar o fato de modo muito aparente. Na verdade,vrias tcnicas de mente-corpo, amplamente divulgadas como a hipnosee o biofeedback, chamam bem mais a ateno que o Ayurveda. SeChitra tivesse adoecido em Bombaim, sua terra natal, sua av teriareceitado alimentos naturais, traria da farmcia aiurvdica umsaquinho de papel pardo com ervas medicinais e insistiria para que aneta ficasse na cama. Prescreveria vrios purgantes e leos demassagens, para limpar o corpo das toxinas que geravam o cncer. Sehouvesse na famlia alguma tradio espiritual, a moa teria comeadoa meditar. Em resumo, eu a trataria do mesmo modo, com algumascoisas a mais. Ainda no existe nenhum motivo cientfico que expliquepor que esse sistema funciona, a no ser que assim. O Ayurvedaatingiu algo profundo na natureza. Seus conhecimentos no sobaseados na tecnologia, e sim na sabedoria, no que eu poderia definircomo a compreenso segura do organismo humano, adquirida atravsde muitos sculos. Quero que voc passe uma semana ou duas em uma clnicaespecial, fora de Boston disse a Chitra. Algumas coisas que volhe acontecer podem parecer extraordinrias. Voc est habituada idia de um hospital como um local com respiradores, cmaras deoxignio, aparelhos de transfuso e quimioterapia. Comparado a isso, otratamento que lhe daremos na clnica no ser nada. Em princpio, 19. quero que seu corpo atinja um profundo estado de descanso. Chitra era uma pessoa confiante e concordou em ir. Em parte, claro, porque no tinha outra alternativa. A medicina moderna fizeratodo o possvel, usando a estratgia do ataque fsico contra seu cncer.A vantagem inicial obtida ao se investir contra uma doena deve-se esperana de extirp-la o quanto antes do corpo. A enormedesvantagem que todo o organismo se danifica nesse ataque contrauma parte dele. No caso da quimioterapia, existe o perigo real deenfraquecer de tal modo o sistema imunolgico que fique aberta umaporta para que outros tumores cancerosos possam se desenvolver nofuturo. No entanto, o cncer de mama no tratado consideradomortal, e a medicina atual capaz de extirp-lo a curto prazo. Em umclima emocional em que a opinio influenciada pelo medo, as pessoaspreferem correr os riscos da cura, em vez do mal. Eu mencionava a Chitra a clnica onde trabalho, o MaharishiAyurveda Health Center, em Lancaster, no Estado de Massachusetts.Ela passou ali uma semana em tratamento e aprendeu o programa deautomedicao que deveria usar em casa, incluindo mudanas naalimentao, algumas ervas aiurvdicas, uma rotina diria de exercciossimples de ioga e as instrues de Meditao Transcendental. Essesmeios pareciam diferentes primeira vista, mas todos visavam, nofundo, trazer tranqilidade a seu dia-a-dia e, assim, construir uma basepara a cura. No Ayurveda, o requisito mais importante para a cura dequalquer desordem orgnica um nvel profundo e completo derelaxamento. Esse princpio se baseia no conceito de que o corpo sabe comomanter o equilbrio, a no ser que esteja abalado pela doena; dessemodo, se algum deseja restaurar a capacidade de cura do prprioorganismo, necessrio que faa tudo para readquirir o equilbrio.Trata-se de uma idia muito simples, mas de profundas conseqncias.Chitra tambm aprendeu duas tcnicas mentais especiais, queatuariam diretamente nas razes de seu cncer (falarei mais sobre esseassunto depois). 20. Chitra seguia religiosamente seu programa e vinha me ver a cadaseis semanas. Continuou tambm com o tratamento de quimioterapiaprescrito por seu mdico de Nova York. Quando falamos sobre oassunto, eu declarei: Se pudesse trat-la pelo Ayurveda e nada mais, eu o faria. Apiora de seu estado fsico seria bem menor. Mas voc veio me procurarj muito doente e sabemos que a quimioterapia atua de fora paradentro. Vamos combinar o processo externo e interno, na esperana deque levem cura completa. Segui o progresso de Chitra durante quase um ano. Ela sempreme ouvia numa atitude confiante, mas, ao voltar a cada consulta, eraevidente que no estava melhorando. As radiografias dos pulmescontinuavam ruins, ela respirava com crescente dificuldade e pareciamais fraca e abatida, medida que o mal avanava. Finalmente, chegouo dia em que Chitra no apareceu no horrio marcado. Esperei asemana toda e acabei ligando para sua casa. As notcias no eram boas. Raman, o marido de Chitra, disse-meque repentinamente ela tivera uma febre muito alta, precisando serhospitalizada no fim de semana. Seus pulmes vinham, h algumtempo, vazando fluido para a cavidade pleural que os rodeava, e omdico suspeitava que se havia instalado uma infeco. Com umprognstico to pessimista, no havia nenhuma garantia de que Chitrapudesse deixar o hospital. Ento, aconteceu uma coisa muito curiosa. Depois de um dia oudois de antibiticos, a temperatura de Chitra, que estava em 40C,baixou ao normal, o que intrigou seu mdico. Era muito raro uma febreto alta baixar assim rapidamente, tratando-se de uma infeco empaciente terminal. Poderia haver outro motivo alm da infeco? Eledecidiu fazer novas radiografias. No dia seguinte, Raman me telefonou,exultante e confuso. Ela no tem mais cncer! exclamou com grande alegria. 21. O que quer dizer? perguntei. Eles no encontraram mais nenhuma clula cancerosa, nada. Mal conseguia se conter. A princpio, o oncologista de Chitraachou que tinham trocado a chapa pela de outro paciente e quis fazernovos exames, mas agora est convencido. Arrebatado e aliviado, incapaz de explicar aquela sbita salvao,Raman considerava o restabelecimento de sua esposa um milagre.Quando telefonei para Chitra no hospital, ela ficou repetindo: Voc conseguiu, Deepak. No, no, Chitra. Foi voc que conseguiu eu insistia. Eu nunca poderia imaginar que seus tratamentos, tanto oconvencional como o aiurvdico, resultassem em cura to rpida.Fazendo uma retrospectiva, vejo que aquela febre alta foi uma espciede queima do cncer em extino, um processo conhecido como necrosedo tumor. Mas o mecanismo exato ligado a esse processo no temexplicao. Se existe algum tipo de cura miraculosa, aquela foi uma, eutenho certeza. Em poucas semanas nossa alegria comeou a mudar. O milagrede Chitra no se mantinha. Primeiramente, a sensao surgiu em seuntimo. Em vez de se mostrar capaz de confiar naquela recuperaoinexplicvel, ela entrou em conflito, com um medo mrbido de que ocncer voltasse. Procurou-me e perguntou se devia prosseguir com aquimioterapia. Faz dois meses que o cncer desapareceu disse eu. Seumdico encontrou novas clulas cancerosas? No ela admitiu. Mas ele acha que a quimioterapia mecurou e que eu devia prosseguir o tratamento. Comecei a me sentir frustrado. Eu sabia, tanto quanto seumdico, que a quimioterapia a que Chitra se submetera no produzia,pelo que se conhece, uma recuperao total daquele tipo. No,certamente, em um caso avanado, quando o cncer j comeara aatacar outras partes do corpo. Alm disso, era bvio que a moa estavaesgotada pelo sofrimento anterior. A quimioterapia lhe provocara uma 22. nusea quase constante e seu cabelo cara de modo assustador; almdisso, ela se envergonhava por ter-se submetido extirpao dos seios.Tudo isso comprometia o tratamento aiurvdico que estvamosiniciando. Se ela recebesse doses ainda mais elevadas de quimioterapia,aumentariam sua depresso, a tendncia s infeces e a fraqueza emtodos os sentidos. Ao mesmo tempo, porm, eu no tinha motivos suficientementefortes para dizer-lhe que no continuasse. E se viesse a sofrer umarecada em seis meses e acabasse morrendo? Prossiga com a quimioterapia concordei , mas com nossoprograma tambm, est certo? Ela concordou. Durante alguns meses, Chitra continuou livre da doena, mastambm se mantinha perturbada e confusa. Parecia que seu cncer foramais fcil de vencer do que aquela dvida sinistra invadindo sua vida eimpedindo-a de estar bem. O dilema torturante de Chitra o verdadeiro ponto inicial destelivro. Ela precisava de uma explicao para voltar a ficar bem. O quehavia lhe acontecido? Sua cura era um milagre, como pensara no incio,ou apenas um estgio na agonia, como acabou por temer? Acredito quese possa encontrar uma resposta aprofundando-se mais oconhecimento da ligao entre a mente e o corpo. As pesquisas de curas espontneas de cncer realizadas tantonos Estados Unidos como no Japo demonstraram que, pouco antes dorestabelecimento, quase todos os pacientes passam por uma alteraode conscincia. A pessoa sabe que vai sarar e sente que a energiaresponsvel pela cura est em si mesma, mas que no se limita apenasa ela. Estende-se alm de seus limites pessoais, por toda a natureza.Sente, subitamente: No me limito a meu corpo, tudo o que existe aminha volta faz parte de mim. Tais pacientes, nesse momento, atingemaparentemente um novo nvel de conscincia, que inibe a existncia do 23. cncer. As clulas cancerosas, ento, desaparecem literalmente do diapara a noite ou, pelo menos, estabilizam-se e no prejudicam mais oorganismo. Esse mergulho em um grau mais profundo de conscincia pareceser a chave, mas no surge necessariamente num impulso. Chitravinha cultivando esse estado de forma deliberada, atravs das tcnicasaiurvdicas. Portanto, sua capacidade de se manter em um nvel maiselevado de conscincia estava surpreendentemente relacionada com suacondio. Ela conseguia, de algum modo, motivar a ausncia do cncer,mas com a mesma facilidade poderia voltar a ele. (Penso nisso como sefosse uma corda de violino cujo som varia na medida em que o dedosobe ou desce por ela.) A palavra que vem mente, quando um cientistapensa nessas mudanas sbitas, quantum. Ela significa um saltodescontnuo de um nvel de funo para outro, mais elevado: atransio quntica. Quantum tambm um termo tcnico, antes conhecido apenaspelos fsicos, mas agora presente na linguagem popular. Precisamente,um quantum a unidade indivisvel em que as ondas podem seremitidas ou absorvidas, na definio do eminente fsico britnicoStephen Hawking. Para os leigos, o quantum um bloco de construo.A luz formada por ftons, a eletricidade, pela carga de um eltron, e agravidade, pelo graviton (um quantum hipottico, ainda no encontradona natureza). E o mesmo acontece com todas as formas de energia,cada qual baseada em um quantum que no pode ser subdividido emnada menor. As duas definies, a do salto descontnuo para um nvel maiselevado e o grau irredutvel de uma energia, parecem aplicar-se a casoscomo o de Chitra. Sendo assim, eu gostaria de introduzir o termo curaquntica para explicar o que aconteceu com ela. Apesar de ser umapalavra nova, o processo, em si, no . Sempre existiram pacientes emque no se observa o curso natural de cura. Por exemplo, uma pequenaminoria no definha com o cncer, outros desenvolvem tumores muitomais lentamente do que a estatstica prev para aquele tipo de mal. 24. Muitos restabelecimentos so de origem igualmente misteriosa, como oscasos de remisso espontnea e o uso eficiente de placebos, ou drogasenganadoras, que tambm indicam o salto quntico. E por qu? Porqueem todos esses casos a conscincia profunda parece ter promovido umdrstico salto quntico no mecanismo da cura. A conscincia uma energia pouco valorizada pela maioria daspessoas. Geralmente no enfocamos nossa conscincia mais profundanem usamos sua verdadeira energia, mesmo nos mais difceismomentos de crise. Talvez seja esta a razo pela qual as curasmilagrosas so recebidas com um misto de espanto, descrena ereverncia. Mas todos possuem esse nvel mais profundo deconscincia. Talvez, at alguns desses milagres sejam extenses decapacidades normais. Por que no consideramos um milagre o corposoldar um osso partido? Como processo de cura, complexo demaispara ser imitado pela medicina; envolve um nmero incrvel deprocessos perfeitamente sincronizados, dos quais a medicina conheceapenas os principais, e de modo imperfeito. O motivo pelo qual a mesma pessoa considera milagre a cura docncer e no pense o mesmo a respeito da fuso de um osso do braoest ligado unio entre mente e corpo. O osso quebrado parece soldar-se fisicamente, sem a interveno da mente; mas a cura espontnea docncer, segundo se acredita em geral, depende de uma qualidadeespecial da mente, de um profundo desejo de viver, de uma perspectivaheroicamente positiva, ou qualquer outra habilidade rara. Isso significaque existem dois tipos de cura, uma que normal, outra, anormal ou,pelo menos, excepcional. Acredito que essa distino seja falsa. O brao partido solda-seporque a conscincia o emenda, e o mesmo acontece na cura milagrosade um cncer, na longa sobrevivncia de um caso de AIDS, na cura pelaf e mesmo na capacidade de viver at a idade avanada, sem se deixarabater por uma doena. A razo de nem todos conseguirem levar oprocesso de cura at onde devem resulta do fato de nos diferenciarmosdrasticamente quanto a nossa capacidade de mobiliz-la. 25. Podemos comprovar isso nas diferentes reaes das pessoasdiante da doena. Uma frao mnima, bem menos de 1 por cento detodos os pacientes que contraem um mal incurvel, consegue curar-se.Um nmero maior, mas ainda abaixo dos 5 por cento, vive bem maisque a mdia. Isto confirmado pelos 2 por cento de aidticos queconseguiram sobreviver mais de oito anos enquanto a grande maioriano passa de dois. Essas descobertas no se restringem s doenasincurveis. Pesquisas demonstram que apenas 20 por cento dospacientes com doenas srias, mas curveis, recuperam-se comexcelentes resultados. Sendo assim, cerca de 80 por cento deles noconseguem sarar, ou curam-se parcialmente. Por que todesproporcionalmente elevado o ndice de insucesso nas curas? Qualser a diferena entre um sobrevivente e algum que no conseguesobreviver? Aparentemente, os pacientes bem-sucedidos aprenderam a mo-tivar a prpria cura e conseguiram, nos casos mais felizes, ir alm.Descobriram o segredo da cura quntica. So os gnios da unio entrea mente e o corpo. A medicina moderna no consegue se igualar nem delonge na reproduo de suas curas, porque nenhum tratamentobaseado em drogas ou cirurgia consegue precisar to bem o prazo, serto maravilhosamente coordenado, to benigno e livre de efeitoscolaterais, to fcil. A capacidade dessas curas vem de um nvel toprofundo que no se pode ir mais alm. Se soubssemos o que oscrebros fazem para motivar os corpos, teramos a unidade bsica doprocesso de cura em nossas mos. At agora, todavia, a medicina no conseguiu dar o salto qunticoe a palavra quantum ainda no tem aplicao clnica. Como a fsicaquntica lida com aceleradores de altssima velocidade, voc podepensar que a cura quntica emprega radioistopos ou raios X. Mas osignificado o oposto. A cura quntica afasta-se dos mtodos da altatecnologia e penetra nos meandros mais profundos do sistema mente-corpo. nesse ncleo que ela se inicia. Para atingi-lo e aprender aprovocar a resposta de cura necessrio que voc atravesse todos os 26. nveis mais densos do corpo: clulas, tecidos, rgos e sistemas;atingir, ento, o ponto de unio entre a mente e a matria, o ponto emque a conscincia realmente comea a causar um efeito. O quantum em si, o que e como se comporta, ocupa a primeiraparte deste livro. A segunda parte apresentar a mistura do quantum edo Ayurveda, promovendo uma unio das duas culturas na tentativa dese chegar a uma resposta. O panorama cientfico do Ocidente confirma,surpreendentemente, a viso dos antigos sbios da ndia. Esta umaviagem que derruba barreiras e ignora obstculos culturais. A meumodo de ver, toda a histria precisa ser descoberta. Chitra me fez essepedido, portanto estou escrevendo para ela e para todos os pacientescomo ela. At descobrirem uma resposta, continuaro com suas vidaspresas por um fio.11 Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno defacilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos DeficientesVisuais a oportunidade de conhecerem novas obras.Se quiser outros ttulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazerreceb-lo em nosso grupo. 27. 2 O Corpo Possui Mente Prpria Quando afirmei que ningum pode declarar que conhece a curado cncer de seio, estava dizendo apenas meia verdade. Se umapaciente conseguisse promover o processo de cura de dentro para fora,essa seria a cura do cncer. Casos de cura semelhantes ao de Chitrasurgem quando internamente se opera uma mudana radical,afastando-se o medo e a dvida junto com a doena. Mas o local exatodessa mudana leva a profundos mistrios. Ele desafia a sabedoriamdica a responder at a pergunta bsica: a mudana ocorreu namente de Chitra, em seu corpo, ou em ambos? Para descobrir isso, amedicina ocidental comeou recentemente a se afastar das drogas e dacirurgia, que so o apoio principal da clnica mdica, em direo aocampo mais amorfo e geralmente desconcertante, conhecido comoterapia do corpo e da mente. Esse movimento foi quase forado,porque a velha confiana apenas no corpo fsico comeou a sedesagregar. A medicina do corpo e da mente deixa muitos mdicosextremamente intranqilos. Consideram-na mais um conceito do queum campo verdadeiro. Se puder escolher entre a nova idia e a qumicafamiliar, um mdico dar preferncia segunda: penicilina, digitlicos,aspirina e Valium no exigem nenhum conceito novo do paciente (ou domdico) para fazer efeito. O problema surge quando a qumica no atua. 28. Levantamentos recentes, na Inglaterra e nos Estados Unidos,demonstraram que aproximadamente 80 por cento dos pacientessentem que sua queixa principal, a razo que os levou ao mdico, nofora satisfatoriamente atendida ao deixarem o consultrio. Estudosclssicos, datados do fim da Segunda Guerra Mundial, mostraram queos pacientes saam do hospital da Faculdade de Medicina de Yale maisdoentes do que no dia em que haviam chegado ali. (Esses estudoscorrespondem a outros, semelhantes, que demonstraram que ospacientes com queixas de doenas mentais sentiam-se melhor enquantoestavam na lista de espera para uma consulta com o psiquiatra do quedepois, quando eram realmente atendidos por ele. Portanto, este no ocaso da simples troca de um mdico que trata do corpo por um quetrata da mente.) Diante disso, uma cura miraculosa simplesmente refora anecessidade de reexame dos conceitos bsicos da medicina. O raciocniolgico da medicina atual pode impressionar ou, pelo menos, bastar,quando receitamos penicilina para curar uma infeco; mas a naturezadessa lgica capaz de inspirar medo. Muitos mdicos ficarammaravilhados ao testemunhar curas como a de Chitra, sem nenhumapista para explic-las; o termo comum para elas recuperaoespontnea, rtulo conveniente mas pouco esclarecedor, alm do fato deo paciente ter sarado por si. As recuperaes espontneas so muitoraras: uma pesquisa, em 1985, calculou que ocorrem na mdia de umaem 20 mil casos diagnosticados de cncer; alguns especialistasacreditam que so ainda mais raras (menos de dez em 1 milho), masningum sabe ao certo. Recentemente, passei vrias horas da noite conversando com umoncologista, ou especialista em cncer, do Oriente Mdio, que trata demilhares de pacientes por ano. Perguntei-lhe se conhecia algum caso derecuperao espontnea. Sinto-me pouco vontade com esse termo ele respondeu,dando de ombros. Tenho visto tumores regredirem completamente. muito raro, mas acontece. 29. s vezes, tais recuperaes ocorriam apenas por si mesmas? Eleadmitiu que isso acontecia ocasionalmente. Pensou por um momento edeclarou que, pelo que se sabe, certos tipos de melanoma (um cncer depele extremamente letal, que mata com muita rapidez) desaparecem porsi mesmos. Mas no sabia explicar como isso acontecia. No paro para pensar nesses raros incidentes disse ele. Otratamento do cncer uma questo de estatstica, obedecemos anmeros. Uma enorme maioria de pacientes reage a certas linhas detratamentos e no h tempo para pensar na minoria infinitesimal quesara por alguma razo desconhecida. Alm disso, sabemos porexperincia que muitas dessas recuperaes so apenas temporrias. Ele achava que as recuperaes completas ocorriam numaproporo de menos de um caso por milho? Respondeu-me que noeram to raras assim. No desejaria, ento, como cientista, descobrir o mecanismo queexiste por trs delas, mesmo que ocorresse apenas um caso em 1milho ou em 10 milhes? Ele novamente deu de ombros. claro que deve haver um mecanismo por trs delas admitiu. Mas no estabeleci minha clnica para cuidar disso. Deixe-me dar-lhe um exemplo: oito anos atrs, um homem me procurouqueixando-se de uma tosse que doa no peito. Fizemos algumasradiografias e descobrimos que tinha um grande tumor entre ospulmes. Ele foi internado no hospital, tiramos material para a bipsiae o diagnstico do patologista foi de um carcinoma extremamentemortal, de crescimento rpido e muito maligno. Avisei meu paciente prosseguiu ele de que o submeteramos imediatamente a umacirurgia para aliviar a presso criada por seu tumor e depois otrataramos com radiaes e quimioterapia. Ele ficou profundamenteaborrecido com a idia do tratamento e recusou. Oito anos depois, umhomem veio me procurar com um ndulo linftico muito inchado nopescoo. Tirei uma amostra para a bipsia, que revelou tratar-se de umcarcinoma do mesmo tipo encontrado no pulmo de meu antigo cliente.Foi quando percebi que se tratava do mesmo homem. Examinamos seu 30. peito com raios X o mdico continuou a relatar e no havia omenor trao de cncer no pulmo. Normalmente, 99,99 por cento dospacientes sem tratamento teriam morrido num prazo de seis meses;cerca de 90 por cento no teriam sobrevivido cinco anos, mesmo com omximo de terapia. Perguntei-lhe como tratara o cncer anterior e eleme disse que no tinha feito nada, apenas decidira que no ia se deixarmorrer de cncer. E talvez ele recuse novamente o tratamento para essesegundo cncer. Por definio, a medicina cientfica lida com resultadosprevisveis. Ainda assim, sempre que surge um caso de recuperaoespontnea, seu comportamento totalmente imprevisvel. Esses casospodem ocorrer sem a presena de uma terapia, ou podem seracompanhados pelo tratamento convencional do cncer. Dentre asmuitas alternativas referentes ao cncer que hoje existem nos EstadosUnidos, cada qual com mrito prprio, nenhuma provou recuperaesespontneas melhor que o tratamento padro de radiao equimioterapia nem que seu efeito seja pior. Tampouco pareceinfluenciar o estgio que a doena j atingiu. Tanto os pequenostumores como os grandes e extremamente malignos podem desaparecervirtualmente, da noite para o dia. Como so casos muito raros e queocorrem ao sabor da sorte, as recuperaes espontneas vm nosensinando muito pouco sobre a causa do cncer e o modo comoacontece uma cura impossvel. Parece razovel supor que o corpo est Constantemente em lutacontra o cncer e que vence a imensa maioria das batalhas. Muitostipos de cncer podem ser induzidos em tubos de ensaio ou em animaisde laboratrio, com o uso de substncias txicas (carcingenas), dietasricas em gordura, radiaes, estresse excessivo e vrios tipos de vrus,entre outras coisas. Como vivemos submetidos a todas essas condiesem grau elevado, elas devem causar dano a nosso organismo. Sabe-seque o DNA (cido desoxirribonuclico) se deteriora em tais condies,mas ele capaz de se recompor ou distinguir a matria perigosa,livrando-se dela. 31. Isso significa que tumores ainda no estgio inicial podem serpercebidos e frequentemente combatidos pelo organismo. Seampliarmos a escala desse processo, teremos o milagre de umarecuperao espontnea. Na realidade, no se trata de um milagre, demodo nenhum, mas de um processo natural que ainda precisa serexplicado, do mesmo modo que a cura da pneumonia pela penicilinaseria considerada miraculosa, se no pudssemos explic-la por meioda teoria do germe da doena. O fato que o mecanismo oculto nessascuras milagrosas no mstico nem fortuito, portanto merece serinvestigado. Na prtica comum, depois do milagre o mdico volta rotina desempre, que inclui os conceitos habituais. Mas at esses, que compemo material de trabalho da faculdade de medicina, foram deformados.Para dar apenas um exemplo: desde que passou a ser considerada umcampo de pesquisa cientfica racional, a medicina tem aceitado adegenerao das funes cerebrais nos idosos como uma ocorrncianatural. Essa deteriorao foi toda documentada com tristesdescobertas: quando envelhecemos, nosso crebro se atrofia, fica maisleve e perde milhes de neurnios a cada ano. Temos o mximosuprimento de neurnios aos 2 anos e, aos 30, o nmero deles comeaa diminuir. A perda de cada clula cerebral permanente, j que osneurnios no se regeneram. Baseado nesse fato to conhecido, odeclnio da capacidade cerebral parecia cientificamente aceitvel; triste,porm inevitvel; o envelhecimento leva obrigatoriamente falta dememria, diminuio da capacidade de raciocnio, ao enfraquecimentoda inteligncia e sintomas correlates. No entanto, essas suposies consagradas pelo tempo agoraprovaram-se errneas. Pesquisas meticulosas com idosos saudveis,comparadas s que a medicina realizava habitualmente com pessoasidosas doentes e hospitalizadas, revelaram que 80 por cento dosamericanos sos e sem distrbios psicolgicos (como solido, depressoou falta de estmulo externo) no sofrem significativa perda de memriaao envelhecer. Pode diminuir a capacidade de reter novas informaes, 32. o que explica o fato de pessoas idosas esquecerem nmeros de telefone,nomes e perambularem pela casa procura de objetos. Mas acapacidade de recordar antigos acontecimentos, a chamada memriadistante, na realidade at melhora. (Uma autoridade em envelhecimentocostuma citar Ccero: Nunca vi um velho que esquecesse onde seudinheiro estava escondido.) Nos testes de pessoas com 70 anos de idade, comparados aos dejovens de 20, os velhos conseguiram melhores resultados nessa rea damemria. Depois de terem treinado diariamente, por alguns minutos, oque chamamos de memria recente, os idosos quase alcanaram osjovens, que estavam no auge de sua capacidade mental. Talvez a plenitude da vida deva ser prolongada. O segredo, comoquase todo o resto do declnio natural da velhice, depende dos hbitosmentais, e no do conjunto de circuitos do sistema nervoso. Enquantouma pessoa se mantiver mentalmente ativa, continuar com a mesmainteligncia da juventude e da idade madura. Todo mundo continuaperdendo mais de 1 bilho de neurnios durante a existncia, numamdia de 18 milhes por ano, mas essa perda compensada por outraestrutura: os filamentos cerebrais semelhantes a ramos, chamadosdendrites, que ligam as clulas nervosas umas s outras. Toda clula nervosa costuma apresentar um formato bastanteindividual, mas possui um ncleo tpico, bulboso, de onde se irradiambraos finos como um polvo. Esses braos, ou axnios, lembramrvores, e os primeiros anatomistas os batizaram de dendrites, que emgrego significa rvore. Seu nmero varia desde menos de uma dzia amil por clula, servindo de pontos de contato para que um neurnioenvie sinais a seus vizinhos. Com o crescimento de novas dendrites, umneurnio pode abrir mais canais de comunicaes em todas as direes,como um painel telefnico distribuindo novas linhas. No sabemos como um pensamento realmente formado entre asclulas cerebrais ou como se inter-relaciona esse vastssimo nmero deligaes com milhes de dendrites se unindo em certos pontosprincipais do corpo, como o plexo solar, sem falar dos bilhes e bilhes 33. do prprio crebro. Contudo, experincias demonstraram que novasdendrites podem se formar durante a vida toda, at a idade avanada. Aopinio geral de que esse novo crescimento nos proporciona aestrutura fsica para que a funo cerebral no diminua. A senilidadeno fisicamente normal em um crebro saudvel. Uma ricamultiplicao de dendrites pode at ser a causa oculta da sabedoriacrescente na velhice, uma poca em que a vida cada vez maisencarada em sua totalidade ou, em outras palavras, fica maisinterligada, assim como as clulas nervosas se interligam atravs dasnovas dendrites. Esse exemplo demonstra como a medicina pode estarradicalmente errada ao insistir em que a matria seja superior mente.Pode ser verdade que uma clula nervosa crie pensamentos, mas igualmente verdadeiro que o pensamento cria clulas nervosas. No casodas novas dendrites, o hbito de pensar, de recordar e manter aatividade mental que cria o novo tecido. Mas essa no uma descobertaisolada. Curiosamente, logo que o conceito de uma nova velhicepareceu razovel aos olhos dos mdicos, muitas formas de degeneraocomearam a ser encaradas de outro modo. Por exemplo: enquanto voc praticar exerccios, a musculatura deseu corpo no enfraquecer e sua fora no diminuir durante a vida,apesar de haver um lento declnio de energia. Voc pode treinar parauma maratona aos 65 anos, contanto que esteja em boa forma fsica etreine sensatamente. Do mesmo modo, seu corao muda com a idade etorna-se menos elstico, bombeando menos sangue por batida, mas asdoenas coronrias e o endurecimento das artrias, at poucas dcadasatrs considerados normais na velhice, agora tambm podem serevitados, dependendo da alimentao e do estilo de vida. Outro mal davelhice, os derrames cerebrais, diminuram em 40 por cento durante altima dcada, graas ao melhor controle da hipertenso e diminuiode gordura na dieta alimentar. Grande parte dos males senisinevitveis foi explicada pela deficincia de vitaminas, por uma dietaalimentar pobre e pela desidratao. O resultado global dessas 34. descobertas levou a drstica mudana no enfoque da velhice; umresultado menos evidente, porm, o de que todo o organismo, emqualquer fase da vida, precisa ser repensado. O que acontece agora em todos os ramos da medicina que ocorpo saudvel vem demonstrando maior poder de recuperao eversatilidade do que se suspeitava. Enquanto a faculdade de medicinaensina que o micrbio A causa a doena B e tratada pela droga C, anatureza parece achar que essa apenas uma opo entre muitas. Oenfoque mental no tratamento do cncer, por exemplo, seriaridicularizado h uma dcada. Mas as pessoas parecem capazes departicipar de seu tratamento de cncer e at controlar o curso dadoena, usando os pensamentos. Em 1971, o dr. O. Carl Simonton,radiologista da Universidade do Texas, conheceu um homem de 61 anosque sofria de cncer na garganta. A doena j progredira muito e elemal conseguia engolir, chegando a pesar 42 quilos. O prognstico de seu caso no s era extremamente ruim osmdicos lhe davam apenas 5 por cento de chance de sobrevivncia decinco anos aps o tratamento como, por outro lado, o paciente estavato debilitado que provavelmente no corresponderia s radiaes aterapia normal em seu caso. Levado pelo desespero e, alm disso,curioso em tentar um enfoque psicolgico, o dr. Simonton sugeriu a seupaciente que ampliasse a ao das radiaes por meio da prtica devisualizao. Ele foi ensinado a visualizar seu cncer o maisvividamente possvel. Depois, pediram-lhe que visualizasse seu sistemaimunolgico sob qualquer imagem que desejasse, vendo as clulasbrancas do sangue atacarem com sucesso as clulas cancerosas e asexpulsarem do corpo, deixando restar apenas as saudveis. O homem disse que visualizou suas clulas imunolgicas como sefossem uma nvoa de partculas brancas cobrindo o tumor, assim comoa neve cobre uma rocha escura. O dr. Simonton aconselhou-o a ir paracasa e repetir essa visualizao vrias vezes por dia. O homem 35. concordou, e logo seu tumor pareceu regredir. Em poucas semanas,estava visivelmente menor, e a resposta do paciente s radiaes, quaselivre de efeitos colaterais; depois de dois meses o tumor haviadesaparecido. Naturalmente, o dr. Simonton ficou surpreso e confuso, emboraexultante, por ter a abordagem psicolgica se revelado to poderosa.Como um pensamento consegue derrotar uma clula cancerosa? Naverdade, esse mecanismo era totalmente desconhecido, j que acomplexidade desnorteante dos sistemas imunolgico e nervoso,evidentemente envolvidos no caso, continuava um mistrio. O paciente,por sua vez, aceitou a cura sem grande surpresa. Contou ao dr.Simonton que sofria de artrite nas pernas e que no conseguia pescarno rio, como gostava. Tendo se livrado do cncer, porque no poderiaacabar com a artrite por meio de visualizaes? Poucas semanas depois,foi exatamente o que aconteceu. O homem ficou livre do cncer e daartrite, durante os seis anos em que continuou sob controle. Esse caso, agora famoso, passou a representar um marco damedicina mente-corpo, mas infelizmente essa no a histria toda. Aterapia de visualizao do dr. Simonton (que passou a abranger umprograma maior mente-corpo) ainda no inspira confiana na cura docncer. Uma de minhas pacientes foi bem-sucedida e, ao que parece,curou um cncer no seio, mas empregou a tcnica por conta prpria,sem assistncia mdica constante. Levantamentos estatsticos a longoprazo, no entanto, levam-nos a questionar se esses resultadosespordicos so superiores aos do tratamento convencional.Atualmente, a terapia convencional apresenta grande vantagem. Se, porexemplo, uma mulher com cncer no seio o descobrir enquanto for bempequeno e localizado, a chance de se curar ultrapassa os 90 por cento(uma cura significa a sobrevivncia de trs anos, no mnimo, sem avolta da doena). Em comparao, os casos de recuperaesespontneas, numa estimativa mais generosa, seriam bem inferiores aum dcimo de 1 por cento. At que terapia mental e outras alternativasultrapassem as radiaes e a quimioterapia, no sero os tratamentos 36. preferidos. Mesmo que os pacientes desejem tais enfoques, a maioriados mdicos ainda os teme e no confia neles. Ainda que o paciente do dr. Simonton seja um caso raro, bastapara abalar nossa concepo de como o organismo cura a si prprio,porque nele a natureza descobre uma forma de combater a morte nuncaantes tentada por nenhum mdico. E nesse caso h tambm a sombriapossibilidade de que os mdicos, com suas tentativas habituais, estejamreprimindo a natureza em vez de ajud-la. Mdicos curiosos e ousados recorreram s experincias cominovaes nas terapias mente-corpo durante a ltima dcada, usandodesde biofeedback e hipnose at visualizaes e mudana decomportamento. Os resultados de todo esse grupo foram duvidosos edifceis de se interpretar. Durante trs anos, o psiclogo Michael Lernerempreendeu extensa pesquisa em quarenta clnicas que ofereciamenfoques alternativos para o tratamento do cncer, com mtodos quevariavam desde o emprego de ervas e da macrobitica at a visualizaode imagens mentais positivas. Ele descobriu que esses centroscomplementares de combate ao cncer eram geralmente maisprocurados por pacientes de melhor nvel cultural e mais prsperos, eque os mdicos que os dirigiam tambm eram srios e bem-intencionados, mas nada que se aproximasse da cura do cncer haviasido descoberto nos lugares que visitou. Ao entrevistar os pacientes, uma razovel porcentagem (40 porcento) pensava ter obtido ao menos uma melhora temporria naqualidade de vida. Outros 40 por cento declararam ter experimentadouma melhora real em suas condies, variando desde poucos dias avrios anos. Aproximadamente 10 por cento dividiram-se entre osextremos do espectro, um grupo declarando que no conseguira nadacom o tratamento, e outro, que havia se recuperado parcial outotalmente da doena. Em geral, os registros de enfoques alternativosdemonstram que eles do certo conforto e alvio aos pacientes, mas osdados sobre recuperao so desapontadores, no diferindo muito dosda terapia comum. 37. Existem, porm, problemas mais srios do que resultadosinconsistentes: o campo do tratamento mente-corpo continuaenfrentando a incapacidade de provar, rigorosamente, seu princpiobsico: a mente influencia o corpo e pode levar sade ou doena.Parece evidente por si mesmo que pessoas doentes e saudveis vivemem diferentes estados mentais, mas a conexo causal continuaindefinida. Em 1985, na Universidade da Pensilvnia (EUA), umaimportante pesquisa sobre cncer no seio no conseguiu encontrar arelao entre a atitude mental das pacientes e sua chance desobrevivncia alm de dois anos. No artigo que acompanhava apesquisa, publicado no famoso New England Journal of Medicine, todo oconceito de que as emoes afetam o cncer foi combatido. Declarava:Nossa idia de que a doena um reflexo direto do estado mental , emgrande parte, crendice popular. O jornal recebeu um dilvio de cartas, em particular de mdicosque discordavam violentamente da concluso do artigo. Sem dvida, seno razovel no considerar as atitudes mentais como fator deenfermidade, menos razovel ainda considerar tal pensamento comocrendice popular. Qualquer mdico que exera a profisso sabe que avontade do paciente em se curar parte vital do tratamento. Mesmointegrando a medicina severa, a maioria dos mdicos aceita a idia deque a atitude, a crena e as emoes so atuantes. Hipcrates declarou,na aurora da medicina ocidental, que um paciente mortalmente doentepoderia se recobrar pela f na deusa de seu mdico. Inmeraspesquisas modernas confirmam isso, demonstrando que as pessoas queconfiam em seu mdico e se entregam a seus cuidados tm maiorpossibilidade de se curar do que aquelas que encaram o tratamentocom desconfiana, medo e antagonismo. Aps o artigo, os nimos se agitaram e surgiram grupos cerrandofileiras por lealdade, mas o assunto ficou ainda mais confuso. Trspesquisas independentes, realizadas em meados de 1980, sobre dadosde sobrevivncia aps cncer no seio, chegaram a resultados totalmentediferentes. Em uma delas, as mulheres que demonstraram atitudes 38. fortemente positivas viviam mais que as de atitudes negativas, noimportando o quanto o cncer estivesse avanado. Aparentemente, asemoes positivas ajudavam a cura de estgios adiantados da doena,com metstase do cncer, enquanto pacientes com emoes negativasmorriam por pequenos tumores diagnosticados logo no incio. Mas uma segunda pesquisa concluiu que qualquer atitudedrstica exteriorizada, em vez de reprimida, ajudava na sobrevivnciaem relao a essa doena mortal. Enquanto a primeira pesquisabaseava-se no bom senso, na idia de que a positividade melhor que anegatividade, a segunda fazia o mesmo sob outro ngulo, com a idia deque vale a pena lutar e no desistir. Foi divulgada a chamadapersonalidade do cncer, que reprime as emoes e, de algumamaneira, transforma essa represso em clulas malignas. O opostoseria o tipo o forte sobreviver, podendo essa fora ser positiva ounegativa. Tudo isto obedece a certa lgica, exceto a pesquisa publicada noNew England Journal of Medicine, que, apoiada por outras, noencontrou correlao entre nenhum padro emocional e a sobrevivnciaao cncer de seio aps dois anos. Mesmo ao ganhar popularidade e setransformar em uma das inovaes mais bem recebidas desde a vacinaSalk, o conceito de tratamento mente-corpo continuava abalado. Agoraum novo sistema tornou-se familiar: o pblico informado de algumabrilhante vitria, enquanto os resultados clnicos desapontadores quese seguem so conhecidos apenas em crculos mdicos restritos. Um exemplo clssico foi a diviso dos pacientes de ataques docorao, dos quais mais de trs quartos so homens de meia-idade, empersonalidades tipo A de alto risco e tipo B de baixo risco. Apersonalidade tipo A seria o motorista exaltado, o trabalhadorcompulsivo, Constantemente perseguindo metas e enchendo oorganismo de hormnios de estresse oposta do tipo B, maistranqila, tolerante e equilibrada. O tipo A sofria do mal de viver compressa, portanto parecia lgico que seu corao acabasse se rebelandoe surgisse uma doena coronariana. 39. Infelizmente, pesquisas controladas indicaram que essa divisoamplamente aceita no to certa. Na realidade, as pessoas possuemparte da personalidade do tipo A e parte da do tipo B, alm de variarmuito a tolerncia ao estresse, chegando alguns grupos a declarar quese sentem melhor sob tenso. Finalmente, uma pesquisa realizada em1988 revelou que, se um homem sofre realmente um ataque do corao,o tipo A sobrevive mais que o tipo B. Seu impulso de vencer aparentemente um benefcio quando chega o enfarte. As complexidades da relao entre mente e corpo no podem serresolvidas com simplicidade. Se algum perguntar por que uma mentepositiva no pode estar facilmente relacionada boa sade, o queparece um dos fatos mais evidentes da vida, a resposta depender, emprimeiro lugar, do que ela entende por mente. Essa no umaquesto filosfica, mas de ordem prtica. Diante de um paciente comcncer, seu estado mental julgado pelo modo como se sente no dia dodiagnstico, muito antes ou muito depois? O dr. Lawrence LeShan,autor de estudos pioneiros desde os anos 50, relacionando as emoesao cncer, voltava infncia de seus pacientes para descobrir asemente sombria que envenenava sua vida psicolgica, e criou a teoriade que ela permanecia adormecida durante anos no subconsciente,antes de provocar a doena. Em minha prpria clnica, conheci um paciente com cncer nopulmo, que vivia confortavelmente com uma leso do tamanho de umamoeda naquele rgo, havia mais de cinco anos. Ele nem suspeitava deque a leso fosse cancerosa e, como j estava com mais de 60 anos deidade, ela crescia lentamente. No entanto, logo que lhe contei que aleso se coadunava com o diagnstico de cncer no pulmo, ele ficouextremamente agitado. Em um ms, comeou a tossir com sangue, e emtrs meses estava morto. Se seu estado mental contribuiu para essetriste final, aparentemente agiu bem rpido. Esse paciente podia vivercom seu tumor, mas no com o diagnstico. A questo seguinte ainda mais relevante: na personalidade geraldo paciente, o mdico est interessado na mente, e isso significa seu 40. subconsciente, suas atitudes, suas crenas mais profundas, ou algumacoisa ainda no plenamente compreendida e definida pela psicologia?Pode ser que o aspecto da mente relacionado ao adoecer ou sarar nemseja especificamente humano. Numa pesquisa sobre doenas cardacas realizada naUniversidade de Ohio (EUA), na dcada de 70, coelhos foramalimentados com uma dieta muito txica e com alto ndice de colesterol,para o bloqueio das artrias, procurando duplicar-se o efeito que essesalimentos exercem sobre as artrias humanas. Em todos os grupos decoelhos comearam a surgir os resultados esperados, menos em um,que estranhamente apresentava 60 por cento a menos de sintomas.Nada na psicologia dos coelhos podia explicar sua alta tolerncia dieta, at se descobrir, por acaso, que o estudante encarregado dealimentar aquele grupo gostava de coelhos e os agradava. Ele carregavacada animalzinho durante alguns minutos, antes de lhe dar a comida;por incrvel que seja, isso bastou para que os bichos tolerassem a dietatxica. Experincias repetidas, em que um grupo de coelhos recebiatratamento neutro e outro recebia amor, demonstraram os mesmosresultados. Vemos mais uma vez que o mecanismo que causa talimunidade completamente desconhecido. espantoso pensar que aevoluo dotou a mente do coelho de uma reao de imunidade quepode ser desencadeada pelo carinho humano. Existe at uma possibilidade, como argumentariam muitosmdicos, de que a mente seja uma fico cientfica. Quando achamosque ela est doente, o que realmente tem a doena o crebro.Seguindo-se essa lgica, as desordens mentais clssicas comodepresso, esquizofrenia e psicoses so, na realidade, desordenscerebrais. Mas tal lgica apresenta evidentes impropriedades, pois seriacomo afirmar que as colises acontecem por culpa dos carros. Mas,como o crebro um rgo fsico, podendo ser pesado e dissecado,inspira maior segurana medicina do que a mente, impossvel de serdefinida aps tantos sculos de introspeco e anlise. Os mdicosficam muito felizes por no terem de opinar a esse respeito como 41. filsofos. A capacidade dos modernos psicotrpicos as drogasinfluenciadoras da mente que aliviam os principais sintomas dedoenas mentais como depresso, manias, ansiedade e alucinaes muito maior do que a de qualquer tratamento existente no passado. Apsiquiatria qumica provavelmente estar alinhada ao lado de suaoponente, a medicina mente-corpo, formando a revoluo mdica denosso tempo. Ela tem apresentado srios resultados clnicos paraconfirmar isso, inclusive com numerosas indicaes de que osdesequilbrios qumicos no crebro esto diretamente ligados a doenasmentais. Nada poderia parecer mais intocvel do que a loucura plena deum esquizofrnico crnico, sofrendo de alucinaes visuais e vozesinteriores, com pensamentos distorcidos e completa desorientao fsicae mental. Talvez baste perguntar em que dia estamos para provocarconfuso e terror no esquizofrnico. No entanto, a diferena estruturalentre esse estado mental e a sanidade pode ser rapidamentedeterminada por uma substncia qumica chamada dopamina,secretada pelo crebro. Essa relao com a dopamina, conhecida hduas dcadas, comprovou que os esquizofrnicos produzem em excessoessa substncia qumica de importante desempenho no processo dasemoes e percepes; portanto, uma alucinao seria a percepo domundo exterior que ficou desordenada na codificao qumica docrebro. Essa hiptese foi simplificada em 1984, quando um psiquiatra daUniversidade de Iowa (EUA), dr. Rafiq Waziri, reviu o que se sabia sobrea qumica cerebral dos esquizofrnicos, descobrindo a deficincia numamolcula ainda menor, a serina, um aminocido comum, encontrado namaioria dos alimentos proticos. Ela vem sendo considerada um doselos de origem na formao da dopamina. Incapazes de metabolizarcorretamente a serina, os crebros dos esquizofrnicos superproduzema dopamina para compensar tal deficincia. Esse processo exato ainda desconhecido. Poderia a esquizofrenia total, considerada a mais 42. estranha e complexa das desordens mentais, depender do modo comoso digeridos os alimentos? Descobertas anteriores no Instituto de Tecnologia deMassachusetts (EUA) demonstraram que a qumica bsica do crebro to varivel que pode ser modificada por uma simples refeio. O dr. Waziri reforou sua teoria cuidando de um grupo deesquizofrnicos e alimentando-os com um suprimento diettico deglicina, um produto qumico supostamente produzido como parte domecanismo da dopamina. Ele pensou que o excesso de glicina talvezpudesse secundar o efeito da serina, reequilibrando a dopamina. Algunsesquizofrnicos do grupo reagiram de forma dramtica e puderaminterromper a medicao sem nenhum episdio psictico. Pela primeiravez, em anos, ficaram com os pensamentos livres da doena e dasdrogas potentes usadas no tratamento. Um enfoque das doenas mentais sob o prisma da alimentaoseria bem mais benigno do que o das terapias atuais. A possibilidade deserem descobertas novas ligaes alimentares tambm tentadora.Entre os livros mais vendidos de culinria, um foi pioneiro aoapresentar listas de alimentos felizes e alimentos tristes, em apoio teoria de que os aminocidos neles contidos chegam diretamente aocrebro e se transformam em substncias qumicas que produzemestados de nimo positivos ou negativos. O leite, o frango, bananas everduras esto entre os alimentos felizes, porque estimulam adopamina e outras duas substncias positivas do crebro. Emcontrapartida, alimentos doces e gordurosos so tristes, porqueestimulam a acetilcolina, uma substncia qumica negativa. Oscrticos declaram, justificadamente, que a qumica do crebro no tosimples assim os nveis elevados de dopamina de um esquizofrnicopodem ser considerados positivos? Tampouco provvel que amudana na ingesto de aminocidos leve diretamente a uma desejadaqumica cerebral, do mesmo modo que a quantidade de colesterol naalimentao no corresponde diretamente quantidade que existe nosangue. 43. Se a sanidade pode ser conservada por meio dos alimentos,capazes de promover at a melhora no estado de esprito, os princpiosbsicos da medicina mente-corpo ficam ainda mais confusos. Voc podeconfiar na mente para curar artrite e, ao mesmo tempo, alegar quecomer chocolate o deixa deprimido? Isso significaria uma contradio: amente domina a matria, exceto quando a matria domina a mente. Noclima atual de descobertas ambguas, as duas posies opostas tratamento do corpo atravs da mente e da mente atravs do corpo ficam igualmente no ar. O resultado que nenhum esclarecimento adequado surgiu detoda essa confuso; o mundo subjetivo da mente continua sendo umaenergia traioeira, caprichosa em sua capacidade de curar ou gerar adoena. Muitos mdicos de tendncia materialista ficariam ansiosos porconcluir que a qumica deve ser a resposta a todos os nossos mistriosmentais e fsicos. No acho que seja assim. Em minha especialidade, aendocrinologia, foram descobertas algumas das primeiras substnciasqumicas que afetam a mente: os hormnios endcrinos. Encontro todosos dias pacientes com sintomas que podem ser explicados como defeitosde equilbrio hormonal a idia distorcida da reao de um diabticopor baixa do teor de acar no sangue, as mudanas de temperamentodurante o ciclo menstrual e at uma depresso caracterstica, que oprimeiro aviso de certos tipos de cncer (um tumor no pncreas, porexemplo, pode ser pequeno demais para ser detectado, mas espalharcortisol e outros hormnios estressantes na corrente sangunea,deprimindo o paciente). Apesar disso, vejo muitas falhas no argumento de que apenasprecisamos de um conhecimento mais profundo da qumica doorganismo. O corpo possui muitas substncias qumicas (literalmente,milhares delas) produzidas em padres espantosamente complexos, quesurgem e acabam rapidamente, quase sempre em fraes de segundo. Oque controla esse fluxo constante? No podemos desvincular a menteda unio mente-corpo. Afirmar que o corpo se cura usando apenas 44. substncias qumicas como declarar que um carro troca de marchasusando apenas a transmisso. Evidentemente, o motorista necessrio,porque sabe o que est fazendo. Embora durante vrios sculos amedicina tenha conservado a idia de que o corpo funciona por si, comouma mquina automotivada, ele tambm deve precisar de ummotorista. De outro modo, a qumica de nosso corpo seria umaconfuso de molculas flutuantes, em vez do maquinrio incrivelmenteordenado e preciso que , sem dvida. Numa poca mais ingnua, achavam que o motorista era umhomenzinho a que chamavam homnculo e que vivia sentado nocorao, mudando todas as marchas necessrias para dirigir o corpo. Ohomnculo desapareceu na Renascena, quando pela primeira vez osanatomistas comearam a dissecar cadveres para verificar o quetinham por dentro. O homnculo no foi encontrado no corao (ondetambm no acharam a alma), mas isso fez surgir uma evidentedistncia entre a mente e o corpo. Desde ento, muitos cientistasprocuraram preencher esse vazio com o crebro, declarando que afuno cerebral controlar todas as outras funes do organismo. Masessa resposta leva a uma nova questo, j que o crebro apenas outramquina: ainda necessrio que se encontre ali o motorista. Possoargumentar que est ali, mas se transformou em um ser bem maisabstrato que o homnculo ou at que o prprio crebro. Ele feito daenergia inteligente que nos motiva a viver, agir e pensar. Isso pode ser provado? O prximo passo ser nos aprofundarmosna inteligncia interior do corpo, procurando descobrir o que a motiva.O campo da medicina mente-corpo no tem disposies nem regrasinflexveis, o que muito bom. Durante dcadas a medicina tementendido que muitas doenas possuem um componentepsicossomtico, mas lidar com esse aspecto tem sido como tentarrepresar o vento. Deve existir algum corpo pensante dentro de ns,respondendo aos comandos da mente, mas onde pode estar e de que feito? 45. 3 A Escultura ou o Rio? Contar o nmero de clulas do corpo humano uma tarefa todifcil como contar o nmero de pessoas existentes no mundo, mas aestimativa aceita de 50 trilhes, cerca de 10 mil vezes a atualpopulao da Terra. Isolados e expostos em um microscpio, os vriostipos de clulas do corao, fgado, crebro, rins etc. sosemelhantes a olhos inexperientes. Uma clula basicamente um sacofechado por uma membrana exterior, a parede celular, cheio de umamistura de gua e espirais qumicas. Exceto as clulas vermelhas dosangue, todas as outras possuem um ncleo que protege as espiraismuito retorcidas do DNA. Se voc tocar uma partcula do tecido dofgado, ver que tem a aparncia de fgado de boi; teria de pression-lacom fora para verificar se especificamente humano. Mesmo umgeneticista com grande prtica teria apenas 2 por cento de chance denotar a diferena entre nosso DNA e o de um gorila. Assim, diante daquantidade de funes do fgado mais de quinhentas foramrelacionadas recentemente no poderamos ter a menor idia comapenas um simples exame ocular. Uma coisa inquestionvel, apesar da confuso no assuntomente-corpo: as clulas humanas evoluram at um estgio notvel deinteligncia. O nmero de atividades Constantemente coordenadas emnossos corpos infinita, no sentido literal do termo. Como osecossistemas da Terra, nossa fisiologia parece operar emcompartimentos estanques que, na verdade, esto visivelmente ligados: 46. ns comemos, respiramos, falamos, pensamos, digerimos os alimentos,expulsamos as infeces, purificamos nosso sangue das toxinas,renovamos nossas clulas, descartamos matria intil, votamos naseleies e muito mais do que isso. Cada uma dessas atividades seentrelaa no tecido do todo. (Nossa ecologia mais semelhante doplaneta do que muita gente pensa: minsculas criaturas perambulampor nossa superfcie, to ignorantes de nosso vasto tamanho quantons de seu tamanho nfimo. Colnias de caros, por exemplo, passamtodo seu ciclo de vida em nossos clios.) Dentro da vasta organizao do corpo, as funes de uma simplesclula como um dos 15 bilhes de neurnios do crebro propiciamassunto para um extenso artigo mdico. Os volumes dedicados aqualquer dos sistemas de nosso organismo, como o imunolgico ou onervoso, ocupam vrias prateleiras de qualquer biblioteca mdica. O mecanismo de cura reside nessa complexidade geral, maspermanece oculto. Qualquer um desses processos que envolvem a curade um corte superficial na pele por exemplo, o de coagulao dosangue incrivelmente complexo. Tanto que, se esse simplesmecanismo falha, como acontece com os hemoflicos, a medicinacientfica mais avanada no consegue repetir a funo prejudicada.Um mdico pode receitar drogas para estimular o fator perdido decoagulao do sangue, mas essa ao temporria, artificial eapresenta efeitos colaterais indesejveis. O perodo de restabelecimentodo corpo no o normal, assim como no ocorre a magnficacoordenao de uma dzia de processos relacionados. Comocomparao, uma droga fabricada pelo homem como um estrangeironuma terra em que todos so parentes de sangue. Ele nunca partilhardos conhecimentos que os outros j tm ao nascer. Devemos admitir que o corpo tem uma mente prpria. Quandocompreendemos esse aspecto misterioso de nossa natureza bsica,desaparece a natureza milagrosa que atribumos cura do cncer. Oscorpos de todo mundo sabem como curar um corte na pele, masaparentemente poucos deles sabem como curar o cncer. 47. Todo mdico compreende que a natureza quem cura asdoenas, Hipcrates escreveu, pela primeira vez, h dois mil anos.Ento, qual a diferena entre a forma comum de cura e a miraculosa?Talvez a diferena seja mnima e exista apenas em nossas cabeas. Sevoc est descascando batatas e corta o dedo, o corte se cura e,evidentemente, voc no fica deslumbrado com isso, porque o processode cicatrizao a coagulao do sangue para fechar o corte, aformao de uma crosta e a regenerao da nova pele e dos vasossanguneos parece uma coisa absolutamente normal. Mas devemos compreender que essa noo de normalidade nadatem a ver com o conhecimento do que a cura ou de como control-la. triste constatarmos que o volume de conhecimento existente noslivros mdicos refere-se mais morte do que vida. A maior parte dosaber mdico foi obtida realizando autpsias em cadveres,examinando-se tecidos no microscpio, analisando-se sangue, urina eoutros subprodutos do corpo. verdade que os pacientes soexaminados enquanto esto vivos, com testes de partes isoladas docorpo. Mas o conhecimento adquirido dessa forma rudimentar secomparado ao volume de dados ultra-sofisticados dedicados morte. Opoeta Wordsworth escreveu esta frase memorvel e sucinta: Nsmatamos para dissecar. Nenhuma declarao a respeito das limitaesda pesquisa mdica pode ser mais verdadeira. A primeira coisa morta no laboratrio a delicada trama dainteligncia que mantm o corpo coeso. Quando uma clula de sanguechega borda de um corte e comea a formar um cogulo, no viajouat ali ao acaso. Sabe realmente aonde quer ir e o que fazer quandochegar, com a mesma certeza de um especialista com mais at, defato, j que age de forma completamente espontnea e no procuraadivinhar. Mesmo que se reparta o conhecimento dessa clula empartculas cada vez menores, procura do segredo de algum hormniodeterminado ou de uma enzima que sirva de mensageiro, no 48. encontraremos um fio de protena com o rtulo inteligncia; mas noh dvida de que ela est atuando. Parte dessa inteligncia dedica-se cura e aparentemente umaenergia muito poderosa. Existem misteriosos sobreviventes a todas asdoenas fatais e no s ao cncer. Apesar de no se conhecer nenhumcaso de cura espontnea de AIDS, sabemos que algumas pessoasconseguem sobreviver por muito tempo umas vivem mais de cincoanos porque, de algum modo, seus sistemas imunolgicosconseguiram se defender de uma doena que em condies normaisseria totalmente devastadora. Os pesquisadores tendem a consider-lasdotadas de uma fisiologia extraordinria, caprichos bioqumicos danatureza. Partindo de amostras de sangue e isolando qualquercomponente pouco comum que consigam detectar nas clulasimunizadoras dessas pessoas, os biologistas moleculares esperamdescobrir o ingrediente desconhecido que as protege. Se esse alvo foralcanado uma tarefa extremamente tediosa e difcil, dada acomplexidade do sistema imunolgico , s ento, depois de anos detestes de milhes de dlares, poder surgir uma nova droga quebeneficie a humanidade. Assim, o que todos precisam da capacidade de fabricar essadroga maravilhosa no prprio organismo, como aconteceu com aprimeira pessoa que a produziu. E tal capacidade no pode sersintetizada. Comprar a droga no to bom quanto fabric-la? No, pormuito tempo ainda. O que chamamos ingrediente ativo de uma drogafeita pelo homem tem muito pouco know-how, comparado substnciaqumica original produzida pelo organismo. Talvez fosse mais corretochamar essa droga de ingrediente inerte. A razo disso est no nvel de nossas clulas. A membranaexterna, ou parede celular, de cada uma delas est equipada comnumerosos pontos receptores. Essa parede macia, mas os receptoresso viscosos so formados por complexas cadeias moleculares cujosltimos elos ficam abertos, espera de outra molcula que se prenda aeles. Para uma droga atuar morfina, Valium, digitlicos ou qualquer 49. outra , necessrio que seja a chave que corresponde exatamente aum receptor escolhido na parede celular, e a nenhum outro. Hormnios, enzimas e outras substncias qumicas produzidaspor nossos corpos tm admirvel conhecimento de quais receptorescombinam. As prprias clulas parecem realmente capazes de encontrarum ponto entre vrios fantstico seguir seus sinais em ummicroscpio eletrnico, enquanto traam linhas retas at os pontos emque so necessrias. O corpo tambm capaz de produzir ao mesmotempo centenas de diferentes substncias qumicas, orquestrando-asem relao ao conjunto. Se voc ouvir uma forte exploso vinda da ruae se sobressaltar em sua poltrona, numa reao instantnea, essemesmo efeito ocorre diante de um complexo evento interno. O gatilhopara esse evento o jorro de adrenalina liberado pelas glndulas supra-renais. Levada pela corrente sangunea, essa adrenalina comunica asreaes ao corao, que comea a bombear o sangue mais rapidamente s veias, que se contraem e foram a elevao da presso arterial; aofgado, que pe mais combustvel na frmula de glicose; ao pncreas,que segrega tanta insulina que mais glicose metabolizada; e aoestmago e intestinos, que param imediatamente de digerir osalimentos para que a energia seja desviada a outro lugar. Toda essa atividade que se desenvolve num ritmo violento e comefeitos poderosos em todo o organismo coordenada pelo crebro, queusa a pituitria para distribuir os sinais hormonais acima descritos.Alm disso, outras sinalizaes qumicas percorrem os neurnios,fazendo com que a vista focalize melhor, os ouvidos fiquem maisaguados, os msculos das costas se retesem e a cabea se volte emsinal de alerta. Para fazer com que todas essas reaes se desencadeiem e ces-sem novamente (ao contrrio da droga fabricada pelo homem, oorganismo sabe como reverter cada processo desses com a mesmaperfeio com que iniciou), ocorre um mecanismo de ajuste, semelhanteao da chave na fechadura. Tudo parece ilusoriamente simples, masquando se procura repetir esse evento com alguma droga os resultados 50. esto longe de ser to precisos e a orquestrao to perfeita. Narealidade, so caticos. A injeo de adrenalina, insulina ou glicosepuras no corpo causa um choque violento. Essas substncias qumicascomeam imediatamente a fluir por todos os pontos receptores sem acoordenao vinda do crebro e, em vez de se comunicarem com oorganismo, elas o assaltam com teimosa insistncia. Embora acomposio qumica da adrenalina seja idntica produzida peloorganismo, o ingrediente crtico da inteligncia precisa estar presente;de outro modo, a ao da droga no passa de um arremedo da reaoverdadeira. Vou relatar aqui um exemplo de complicaes resultantes daaplicao de uma droga aparentemente simples. Pacientes comhipertenso geralmente so aconselhados a baixar sua pressosangunea pelo uso de diurticos drogas que retiram gua dasclulas e do organismo atravs da urina. isso, exatamente, o que osrins fazem o tempo todo enquanto monitoram delicadamente a qumicado sangue, assegurando o equilbrio exato da gua, do material intil edos sais necessrios, ou eletrlitos. Mas o diurtico tem apenas umobjetivo e obcecado por ele: percorre o corpo bradando gua! gua! atodas as clulas que encontra. Como resultado, reduz-se a tenso do fluido nos vasossanguneos, na realidade o que o mdico deseja, mas o nvel de gua emtodo o organismo tambm afetado. O crebro pode, ento, ser foradoa doar parte de seu lquido, o que em condies normais s faria emcaso de extrema urgncia, provocando tontura e nuseas no paciente.Nada mais srio acontece na maioria dos casos; porm, s vezes, certasfunes cerebrais tambm se abalam, sobretudo em pacientes maisidosos: se tomarem bebidas alcolicas, mesmo com moderao, podemficar to confusos a ponto de esquecerem de ingerir gua ou alimentosna quantidade necessria. Isso poder provocar um estado dedesnutrio aliado a uma desidratao grave. Segundo algunsendocrinologistas, a desidratao induzida por certos diurticos napresena de lcool ou tranquilizante a principal causa de morte entre 51. americanos idosos. Todas essas conseqncias, leves ou graves, so comumentechamadas de efeitos colaterais indesejveis dos diurticos. Mas taldenominao inadequada, pois se refere apenas aos efeitos que, bonsou maus, se renem no mesmo pacote. Basicamente, um diurticotrabalha penetrando nos tomos de sdio, levando o corpo a descartar-se do excesso de sal, o que faz baixar o nvel de lquido nos tecidos, jque a gua se alia ao sal em nossos corpos, assim como ocorre na guado mar. O diurtico nada pode ajudar se for retirado muito sal de umlocal onde a gua ainda necessria. J que a estrutura atmica dopotssio prxima do sal, o diurtico tambm pode for-lo a seexaurir, levando fraqueza, fadiga e cibras nas pernas. (Efeitos menosnocivos so notados geralmente pela perda de vestgios de outroselementos como o zinco e o magnsio.) Alm dos sinais comuns decarncia de potssio, podem surgir outras complicaes osdigitlicos, drogas comumente ministradas a pacientes que sofrem docorao para aliviar a angina (dor no peito), sero mais txicos se oorganismo estiver com baixo teor de potssio. Ironicamente, suspeita-sehoje em dia que a deficincia de potssio seja o elo causal da altapresso sangunea, o que significa que o diurtico possa ser o promotorda prpria condio que ele pretende curar. A frustrante realidade, no que se refere aos pesquisadoresmdicos, j sabermos que o corpo vivo a melhor farmcia inventadaat hoje. Ele produz diurticos, analgsicos, tranquilizantes, sonferos,antibiticos e tudo mais que fabricado pelas indstrias de drogas,mas sua produo muito superior. A dosagem sempre certa eministrada no horrio adequado; os efeitos colaterais so mnimos ouinexistentes; as indicaes para o uso esto includas na prpria droga,como parte de sua inteligncia. Pensando em fatos to conhecidos, cheguei a trs concluses.Primeira, essa inteligncia est presente em qualquer parte de nossocorpo. Segunda, nossa inteligncia interior supera de longe qualqueroutra com que se procure substitu-la a partir do exterior. Terceira, essa 52. inteligncia mais importante que a prpria matria de nosso corpo, jque sem ela a matria ficaria dispersa, sem forma e catica. Ainteligncia que faz a diferena entre a casa projetada pelo arquiteto euma pilha de tijolos. Por enquanto, manteremos a definio da palavra intelignciato simples e prtica quanto possvel. Em vez de nos referirmos inteligncia de um gnio, que pode parecer exaltada e abstrata, eu aencararia simplesmente como know-how. O que quer que voc pensesobre inteligncia em termos abstratos, no h dvida de que ao corpodeve ser creditado uma enorme base de conhecimento. A inteligncia interior do corpo to poderosa que, quando sedesvia, o mdico tem pela frente um antagonista temvel. Por exemplo,cada clula do corpo programada por seu DNA para se dividir atdeterminado ponto, quando a clula-me se reparte em duas. Comotodo o resto regulado por nossa inteligncia interior, esse processo no puramente mecnico. A clula se divide em resposta prprianecessidade interna, aliada aos sinais gerados pelas clulas vizinhas epor rgos distantes que falam com ela por meio de mensagensqumicas. A diviso da clula cuidadosamente calculada e umadeciso bem pensada, a no ser no caso do cncer. O cncer o comportamento selvagem e anti-social de uma nicaclula, que se reproduz sem seguir o padro, sem sinais de nenhumlado, a no ser, aparentemente, de seu prprio DNA enlouquecido. Porque isso acontece ningum sabe. bem possvel que o prprio corposaiba como reverter o processo, mas, por qualquer razo igualmentedesconhecida pela cincia, nem sempre consegue. apenas umaquesto de tempo, desde o incio do processo at que as clulascancerosas consigam invadir um rgo vital, com clulas normais, evenha ento a causar a morte. Quando chega a crise final, as clulascancerosas perecem com o resto do organismo, condenadas por seuapetite incontido de auto-expanso. At agora, a medicina no descobriu como enviar uma mensagems clulas cancerosas em tempo de impedir que se realize o trgico 53. destino criado por elas. Os produtos qumicos que um mdico podeusar contra o cncer no possuem nenhuma eficincia no nvel dainteligncia. O cncer dotado de mau carter enquanto as drogas sosimplrias. O oncologista, portanto, recorre a um ataque mais violento,a uma forma de envenenamento. Geralmente a droga administradacontra o cncer txica para todo o organismo, mas, como as clulascancerosas crescem muito mais depressa que as normais, elas ingeremmaior quantidade do veneno e morrem primeiro. Toda a estratgia umrisco calculado. O paciente precisa ter sorte; seu mdico precisa serextremamente arguto quanto dosagem e ao prazo da quimioterapia,questes absolutamente vitais no tratamento. O cncer pode, ento, serderrotado, e anos de vida til sero somados existncia do paciente. Ironicamente, porm, essa terapia pode falhar porque enfraquecea prpria inteligncia que normalmente protege nossos corpos dadoena. Muitas drogas de combate ao cncer so extremamentedanosas ao sistema imunolgico do corpo; eliminam a medula sseaque fabrica nossas clulas brancas, provocando um efeito devastadorsobre sua quantidade no sangue. medida que o tratamento dequimioterapia progride, o paciente torna-se mais suscetvel a novasformas de cncer e, em certo nmero de casos que chega a 30 porcento, no caso do cncer de mama , surgem outros tipos de cncer e opaciente morre. Alm disso, estatisticamente, no possvel matartodas as clulas malignas. Estima-se que um paciente tpico de cncerpossua cerca de 10 bilhes de clulas cancerosas. Se a quimioterapiafor 99,9999 por cento eficiente, 1 milho delas iro sobreviver, mais doque o suficiente para comear o processo de novo. As clulas cancerosas no se formam do mesmo modo; algumasso mais duras que outras, portanto mais difceis de se matar. Pode serque destruindo as clulas mais fracas, numa espcie de seleodarwiniana, deixemos as mais fortes sobreviver. Nesse caso, aquimioterapia estaria, na realidade, produzindo um mal virulento emvez de cur-lo. (Do mesmo modo, as persistentes infeces porestafilococos que os pacientes contraem nos hospitais so, em geral, 54. muito resistentes aos antibiticos, porque apenas as bactrias maisteimosas conseguem viver no ambiente esterilizado dos centroscirrgicos e agentar o contnuo bombardeio das injees de penicilina.)Podemos facilmente imaginar a variedade de supercnceres que podesurgir de uma ou duas dessas clulas malignas dotadas de maiorresistncia ao tratamento. De qualquer modo, a velha promessa de que a quimioterapia iriaacabar com o cncer em nossa gerao to difundida nos anos 50 perdeu a crena inicial. Atualmente, alguns tipos de cncer sovencidos pouco a pouco, como a leucemia linfoctica infantil e certoslinfomas de Hodgkin, enquanto outros grandes assassinos como ocncer do pulmo e do crebro continuam virtualmente intocveis pormeio da quimioterapia. Nada do que eu disse at agora sobre o know-how do corpo hipottico. Fomos todos informados, mdicos e pblico em geral, sobrea maravilhosa complexidade do organismo humano. Mas insistimos emcontinuar pensando no corpo segundo um molde obsoleto: ele considerado basicamente matria, mas dotado de um tcnico eficaz emseu interior, que o pe em movimento. Esse tcnico j foi chamado dealma; agora a tendncia rebaix-lo a um simples fantasma dentro damquina, mas que continua tendo a mesma importncia. Porquepodemos ver e tocar nossos corpos, carregar seu slido peso de um ladopara o outro e bater nas portas se no formos avisados disso, suarealidade parece ser a de um material primrio como o contorno denosso mundo. Mas esse contorno tem em si um ponto cego. Apesar da enormesuperioridade de know-how do corpo, que naturalmente os cientistasreconhecem, uma quantidade mnima de tempo e dinheiro dispendidana tentativa de compreender o organismo vivo como um todo. Issoacontece por um bom motivo. O filsofo grego Herclito foi o autor dofamoso comentrio: No podemos entrar num rio duas vezes no mesmo 55. lugar, j que ele est em constante mudana com a chegada de novasguas. O mesmo acontece com o corpo. Todos ns nos parecemos muitomais com um rio do que com qualquer coisa petrificada no tempo e noespao. Se voc pudesse ver seu corpo como realmente , nunca o veriarepetir-se. Noventa por cento dos tomos de nosso corpo no estavamnele h trs meses. De certa forma, a configurao das clulas sseaspermanece a mesma; no entanto, tomos de todos os tipos atravessamlivremente as paredes celulares, o que significa que adquirimos umnovo esqueleto a cada trs meses. A pele se renova a cada ms; adquirimos novo revestimento noestmago a cada quatro dias com a renovao constante da superfcieque entra em contato com os alimentos a cada cinco minutos; asclulas do fgado se renovam de modo mais lento, mas novos tomosflutuam tranquilamente atravs delas, como a gua no leito de um rio,fabricando um fgado a cada seis semanas. Mesmo no interior docrebro, cujas clulas no so substitudas depois que morrem, o teordo carbono, nitrognio, oxignio etc. hoje inteiramente diverso do deum ano atrs. como se vivssemos num edifcio cujos tijolos fossemsistematicamente trocados a cada ano. Se for seguida a planta original,ele continuar parecendo o mesmo prdio. O corpo humano tambm continua parecendo o mesmo, dia a dia,mas atravs dos processos de respirao, eliminao e outros vive emconstante sistema de troca com o resto do mundo. Certos tomos decarbono, oxignio, hidrognio e nitrognio percorrem o corpo muitorapidamente, como parte essencial do que nos servimos de modo maisimediato: os alimentos, o ar e a gua. Se apenas existissem essesquatro elementos, estaramos literalmente criando novos corpos todosos meses. Mas o ritmo de renovao retardado por outros elementosque no nos percorrem to depressa. O clcio ligado a nossos ossospode levar um ano inteiro para ser reposto algumas autoridadesampliam esse prazo a vrios anos. O ferro, componente que fabrica as 56. clulas vermelhas do sangue, mantm-se no organismo com muitatenacidade, sendo perdido principalmente atravs do descarte dasclulas mortas da pele ou da prpria perda de sangue. Mesmo que os ndices de mudana possam diferir, ela sempreest presente. Isso a que chamo inteligncia assume o controle detodas essas mudanas para no virarmos simples pilhas de tijolos. Esse um dos fatos mais evidentes da fisiologia, mas a inteligncia tomutvel, de movimento to rpido to viva, em outras palavras que os livros de medicina no lhe dedicam quase nenhum espao. Para se ter uma idia de como limitado nosso conhecimentoatual sobre o assunto, basta considerar a estrutura de um neurnio. Osneurnios que compem o crebro e o sistema nervoso central falamentre si atravs de aberturas chamadas sinapses. Essas aberturasseparam filamentos estreitos como galhos, as dendrites, que crescemnas pontas de cada clula nervosa. Todo mundo possui bilhes dessasclulas, divididas entre o crebro e o sistema nervoso central, e, comovimos, cada uma gera dzias ou mesmo centenas de dendrites (o total estimado em 100 trilhes). Isso significa que, a qualquer momento, aspossveis combinaes de sinais saltando atravs das sinapses docrebro excedero o nmero de tomos do universo conhecido. Ossinais tambm se intercomunicam velocidade do raio. Nosso crebroleva poucos milionsimos de segundo para ler esta frase, organizandoum padro exato de milhes de sinais que logo em seguida se dissolveme jamais voltam a se repetir exatamente da mesma forma. Quando eu estava na faculdade, aprendemos um modelo simplesde comunicao de carga eltrica entre neurnios: a carga deeletricidade forma-se de um lado da sinapse e, quando cresce osuficiente, salta como uma fasca atravs da abertura, dando sinal aoutra clula nervosa. Mesmo considerando esse mecanismo correto (oque na realidade no ), a descrio de nosso livro de neurologia, em1966, no ensinava quase nada sobre o modo de agir dos neurnios navida real; o modelo descrito no livro faz sentido apenas para uma nicaclula nervosa, isolada e parada no tempo, afastada do contexto. Na 57. verdade, a ao que ocorre nas aberturas, pelo sistema nervoso, comparvel a um computador csmico reduzido a uma escalamicroscpica. Esse fantstico computador funciona continuamente,operando centenas de programas ao mesmo tempo, distribuindo-se emmltiplos bilhes de bits de informao a cada segundo e, o que aindamais miraculoso, sabe como se conduzir. Realmente, no foi nosso estudo de medicina que falhou nestecaso. Como possvel a qualquer livro descrever todo esse processo?Pensar formar dentro de ns padres to complexos, rpidos e de umariqueza to variada quanto a prpria realidade. O pensamento oespelho do mundo, nada menos do que isso. A cincia simplesmenteno tem os instrumentos para observar tal fenmeno, que , ao mesmotempo, vivo e infinito. O corpo humano no interrompe seu movimentopara que o estudem, pelo menos no como um todo. Portanto, quandocausa impacto cincia, como no caso de uma cura espontnea decncer, a medicina vacila em seu caminho, espantada por descobrir quea vida no se comporta de modo to simples quanto o modelo delaboratrio. Em 1986, um impacto abalou todo o campo da pesquisa cerebral:o neurocirurgio mexicano dr. Ignacio Madrazo implantou com sucessoclulas saudveis no crebro de um paciente que sofria de mal deParkinson. No s se realizou o transplante, que antes era consideradoimpossvel, como o paciente demonstrou impressionante melhora,recuperando 85 por cento de suas funes normais. Antes da cirurgia,esse paciente, um fazendeiro mexicano de trinta e tantos anos, tornara-se quase incapaz por causa da doena. O mal de Parkinson atinge cercade 1 por cento das pessoas com mais de 50 anos. Comea com tremoresnos msculos, rigidez dos membros ou uma tendncia a mover-semuito lentamente. A causa imediata desses sintomas a deficincia dedopamina, a mesma substncia qumica cerebral que causa aesquizofrenia, quando produzida em excesso. Por razes aindadesconhecidas, as clulas nervosas que produzem dopamina, 58. localizadas em uma parte da base do crebro chamada substantianigra, comeam a morrer, gerando a deficincia. Sem dopaminasuficiente, a capacidade do crebro em regular os movimentos dosmsculos diminui e finalmente desaparece. Qualquer dos sintomas do mal de Parkinson, ou todos eles,agrava-se com o tempo at o paciente ficar totalmente incapaz. Odramaturgo Eugene ONeill contraiu o mal de Parkinson depois dos 50anos. Ele sentia cada vez mais dificuldade em escrever, porque o tremordas mos aumentava. Havia planejado um ciclo de quatro peas queseria sua obra-prima, mas a doena destruiu tudo: um simples olharaos manuscritos revela que ONeill mal conseguia desenhar garranchose riscos, patticas letras ilegveis. Com herica resistncia ele transferiusuas palavras ao papel, mas at hoje ningum foi capaz de decifrar oque elas querem dizer. No Mxico, o paciente de Madrazo, embora bem mais jovem que amdia dos doentes de Parkinson, estava preso ao leito porque sofriatremores rtmicos e constantes que o impediam de andar sem ajuda.Depois da cirurgia ele voltou a andar, correr, alimentar-se, trabalhar nojardim e, como mostrou um filme a seu respeito, foi capaz de carregarnovamente seus filhos no colo. A operao do dr. Madrazo abriu novos horizontes a outrosdoentes de Parkinson, que apenas nos Estados Unidos ultrapassam 1milho de casos. Em fins de 1987, realizaram-se no mundo duzentasoperaes semelhantes. Madrazo executou mais vinte intervenes comsucesso considervel. (As tentativas anteriores a essa cirurgia tinhamfalhado, assim como iriam falhar as outras, posteriores. Madrazoacredita que seu sucesso se deve escolha da exata localizao dosimplantes.) Mas s agora comeam a ser consideradas asconseqncias a longo prazo subitamente, quase sem aviso, osneuropesquisadores viram-se diante de algo at ento s possvel emfico cientfica: um transplante cerebral. O que torna um enxerto de tecido cerebral to surpreendente que a medicina sempre acreditou que o crebro no fosse capaz de se 59. curar por esse motivo, quase todos os danos cerebrais causados pordoenas ou acidentes eram considerados irreversveis. Somente em1969 um pesquisador em Cambridge, Godfrey Raisman, provou atravsde um microscpio eletrnico que as clulas nervosas danificadaspodem induzir novo crescimento. Recentemente, Madrazo demonstrouque o crebro no s capaz de se curar como aceita tecidos de outrosrgos. No caso da doena de Parkinson, ele usou clulas da glndulasupra-renal, que tambm produz dopamina; a cirurgia tambm podeser realizada usando-se o tecido cerebral de outra pessoa ou at de umfeto de porco. Atualmente os neurocientistas estudam a hiptese de que ocrebro seja dotado de um complexo sistema qumico de restaurao,quase totalmente desconhecido at poucos anos atrs. Um grupo depesquisa sueco demonstrou que a perda de memria em ratos pode serrevertida injetando-se neles uma das mais importantes substnciasqumicas de reparo no crebro, a protena-chave chamada NGF, oufator de crescimento nervoso. Por analogia, os danos cerebraisassociados ao mal de Alzheimer, que tambm envolve perda dememria, podem ser tratados da mesma forma. Alm disso, aexperincia sueca indica um avano sobre o enxerto de tecidoscerebrais porque no usou tecidos vivos nem cirurgia. Um aps outro, os princpios bsicos da fisiologia do crebro vmsendo reconsiderados e drasticamente modificados. Os avanoscontinuam a ser revolucionrios: outra equipe sueca mostrou-nos queas clulas nervosas podem ser implantadas na retina, cuja superfcie apenas uma extenso e alargamento do nervo ptico. Depois doimplante, as clulas comeam a desenvolver novos ramos, confirmandoa tese de que a regenerao do crebro possvel e normal. Novamente,essa pesquisa envolveu animais de laboratrio em vez de sereshumanos, mas a aplicao no tratamento de cegos evidente; domesmo modo, outros enxertos podem beneficiar vtimas de traumatismocraniano, derrame e outros males cerebrais. Quero enfatizar que nenhum desses avanos seria possvel sem a 60. mudana de conceito por parte da cincia. estranho pensar que osmesmos mdicos que, em 1989, falam confiantemente da cura docrebro demonstravam essa mesma confiana ao declar-la impossvel,em 1985. Na verdade, as bases do enxerto cerebral so bem antigas:datam de 1912, quando Elizabeth Dunn, a pesquisadora do InstitutoRockefeller, implantou clulas nervosas no crebro de um rato e foibem-sucedida. Sua pesquisa foi recebida com total indiferena. (Isso mefaz lembrar que, segundo registros da literatura mdica, observou-sepor mais de 140 vezes o mofo da penicilina matar bactrias, antes queAlexandre Fleming descobrisse o fato. Antes dele, todos ospesquisadores haviam se aborrecido porque suas culturas delaboratrio, to cuidadosamente desenvolvidas, ficavam estragadas pelainvaso do mofo verde. O prprio Fleming jogou fora suas culturasinfestadas de bactrias, e s mais tarde compreendeu que haviadescoberto a fabricao de uma droga maravilhosa.) Outro pioneiro no campo do enxerto de crebro, Don M. Gash,agora na Universidade de Rochester, foi desencorajado no incio dacarreira por um catedrtico que lhe disse: Doutor Gash, o senhor um jovem com uma brilhante carreirapela frente. No perca seu tempo com essa idia boba que no pode serverdadeira. A simples noo de que um transplante foi realizado despertagrande ceticismo. Crticos do processo de Madrazo ressaltaram que oprazo de convalescena de seus pacientes, iniciado poucas semanasaps o implante das clulas cerebrais, era muito rpido para dar tempoao novo tecido de pegar. Pode ser que o crebro sare totalmente por simesmo, segregando, em resposta ao corte cirrgico, substnciasqumicas que no so produzidas pelas novas clulas (assim como umaostra expele madreprola em resposta a um gro de areia em suaconcha). Talvez essas descobertas no nos informem tanto sobre o modo 61. de se conduzir um transplante, mas sirvam de estmulo busca denovas capacidades do crebro como rgo vivo e dinmico. Por mais quevenha sendo glorificado pela medicina moderna, ele a parte maispetrificada do petrificado modelo escultural do corpo, j que nem eracapaz de se recuperar. Diante disso, esta uma afirmao suspeita.Todas as clulas de nosso corpo, desde um folculo capilar, umneurnio ou uma clula do corao, surgem de um filamento duplo deDNA no momento da concepo. Tudo o que voc pode fazer pensar,falar, correr, tocar violo ou dirigir um pas desenvolve-se de umacapacidade programada dentro dessa molcula inicial. Sendo assim,dizer que um neurnio no pode se curar o mesmo que afirmar queseu DNA ficou aleijado. Seria uma proposta razovel? Sem dvida, oDNA decidiu ser uma clula cerebral em vez de cardaca, o que acarretaa manifestao de determinadas partes de seu potencial em detrimentode outras. Mas isso difere totalmente da afirmao de que qualquercapacidade do DNA tenha sido perdida. Nada perdido no DNA. Cadaclula do corpo contm, o tempo todo, todas as infinitas possibilidadesdo DNA, desde o momento da concepo at a morte. A prova disso estno procedimento a que chamamos clone: teoricamente, algum podepegar uma clula do interior da ma do rosto e, mediante certascondies, produzir uma cpia idntica a voc, ou um milho delas. Ogenial na natureza que ela no fabricou 1 milho de clones iguais; naverdade, apenas os organismos mais primrios consistem em clulasidnticas, e a maior parte deles feita de uma s clula, como a ameba.Ainda assim, nesse sentido, a diferena entre a ameba e o ser humanose desfaz no nvel do DNA: tudo o que a ameba est contido em seupequeno pacote de DNA, e tudo o que voc est contido no seu.Portanto, no deve ser to surpreendente que um neurnio realmentese decida (em circunstncias que no compreendemos muito bem)desobedecer prpria norma de no se recuperar e, de repente, comecea fazer exatamente isso. A verdade, neste assunto, que o crebro complexo demais para 62. se transformar em modelo, e a cincia, por definio, trabalha commodelos. Eles so teis, mas todos, sem exceo, possuem pontos cegosem seu interior. Para observar um crebro em funcionamento, ouqualquer funo do corpo, sem a presena de um modelo, teramos dev-los como algo abstrato e aparentemente contraditrio, preservando oaspecto imutvel em meio mudana dinmica. No aspecto imutvel, o corpo slido, estvel, como umaescultura congelada. No mutvel, ele mvel e fluente como um rio.Segundo o ponto de vista cientfico herdado de Newton, tem sidomentalmente impossvel unir esses dois aspectos ao mesmo tempo.Lembro-me de um fsico ter comentado que Newton comparava anatureza a um jogo de bilhar. Com isso, ele queria dizer que os fsicosclssicos estudam colees de objetos slidos as bolas de bilhar movendo-se em linhas retas, impulsionados por leis fixas demovimento. O jogo consiste em predizer em cada caso a direo, avelocidade, a fora cintica etc., como um cavalheiro ingls, tarde, emseu jogo de sinuca. Mas para fazer esses clculos voc precisa parar ojogo e desenhar-lhe um modelo, completando-o com frmulas para osngulos e trajetrias apropriados, e assim por diante. A cincia aceitou, em princpio, um sistema petrificado paramapear tudo o que acontece no mundo material; foi, portanto, naturalque a idia da escultura precedesse a idia do rio. Mas o rio no paroude correr para satisfazer a cincia a beleza do corpo humano est emse renovar a cada momento. Sendo assim, como fazer um mapa docorpo humano a cada instante? Esse o novo dilema que teremos deenfrentar. Se pudermos resolv-lo, chegaremos bem mais perto daquiloque procura-mos; no mais o conhecimento para ser guardado embibliotecas, mas novas capacidades de programar nosso computadorcsmico. 63. 4 Mensageiros do Espao Interior Subir at Machu Picchu, a cidade-fortaleza dos incas, umatarefa difcil. Depois de cruzar uma passagem no alto dos Andes, aquase 5 mil metros de altura, onde o oxignio rarefeito a ponto decausar tontura, a cidade surge acima das nuvens, e seus muros s soatingidos por meio de 3 mil degraus de pedra. Essa foi a ltimafortaleza tomada por Pizarro quando conquistou o Peru, em 1532. espantoso pensar nos atletas corredores que faziam a ligao entreMachu Picchu e todos os vilarejos espalhados pelos quase 4 milquilmetros que formavam o imprio inca. Esses corredores erammensageiros velozes, donos de uma resistncia quase sobre-humana.Corriam descalos, cobrindo imensas distncias a cada dia oequivalente a duas ou trs maratonas olmpicas. Algumas de suastrilhas saam do cume das montanhas rochosas do Colorado e subiamainda mais de 1,5 quilmetro. Devem ter sido esses corredores olhos e ouvidos do imperadorAtahualpa que o avisaram da aproximao dos espanhis. Agindotraioeiramente, Pizarro apoderou-se de uma fortuna quandosequestrou (e depois matou) Atahualpa. Espero que a lenda sejaverdadeira quando diz que a maior parte do incalculvel tesouro dosincas foi escondida a tempo em local secreto. (Pizarro, que eraexcepcionalmente ganancioso, mesmo para um conquistador, foi 64. assassinado por rivais invejosos em 1541.) Se pensarmos no crebro humano qual uma fortaleza comoMachu Picchu, ele tambm deve ter mensageiros para transmitir seucomando aos pontos mais distantes do imprio neste caso, o dedodo p. As trilhas fsicas so bem visveis o sistema nervoso centralpercorre a coluna vertebral, ramificando-se para os lados a cadavrtebra da espinha dorsal; esses nervos principais depois sesubdividem em milhes de outros, mais finos, que se comunicam comtodas as partes do corpo. Os primeiros anatomistas viram os nervosmaiores no sculo 16, mas o sistema nervoso continuava um segredo.Quem eram os mensageiros que levavam as mensagens do crebro e astraziam de volta a ele? Muitas pessoas ainda pensam que os nervos trabalhameletricamente, como um sistema telegrfico, porque at quinze anosatrs era o que os compndios mdicos ensinavam. No entanto, nadcada de 70, iniciou-se uma srie de importantes descobertas,centralizada numa nova classe de substncias qumicas instantneas,chamadas neurotransmissores. Como o prprio nome diz, essassubstncias transmitem impulsos nervosos; atuam em nosso corpocomo molculas comunicadoras atravs das quais os neurniospodem falar com o resto do corpo. Os neurotransmissores so os corredores que partem do crebro evoltam a ele, informando a todos os rgos nossas emoes, desejos,lembranas, intuies e sonhos. Nenhum desses eventos fica apenas nocrebro. Do mesmo modo, nenhum deles estritamente mental, j quepodem ser codificados em mensagens qumicas. Os neurotransmissorestocam a vida de cada clula. Sempre que um pensamento quer seformar, essas substncias qumicas tambm precisam agir, porque eleno pode existir sem elas. Pensar praticar qumica cerebral,promovendo uma cascata de respostas atravs do corpo. J vimos queessa inteligncia, como know-how, invade a fisiologia e agoraadquiriu uma base material. Isso tira o mistrio do nome deste captulo, mas no sua 65. dramaticidade. Na verdade, nenhum acontecimento recente nabiomedicina foi to revolucionrio quanto essas descobertas. A chegadados neurotransmissores em cena torna a interao da mente e damatria mais mvel e fluente do que nunca muito mais prxima domodelo do rio. Os neurotransmissores tambm ajudam a preencher oespao que aparentemente separa a mente do corpo, um dos mistriosmais profundos que o homem tem enfrentado desde que comeou apensar no que ele . No incio, em 1973, s dois neurotransmissores pareciamnecessrios: um, para ativar uma clula distante, como um msculo, eoutro, para diminuir a atividade. Duas substncias qumicas docrebro, a acetilcolina e a norepinefrina, fazem exatamente isso soos sinais de partida e parada do sistema nervoso. Foramconsideradas revolucionrias na poca, porque se provava que oimpulso enviado por uma clula nervosa a outra no era eltrico, masde natureza qumica. Imediatamente, a noo aceita de pequenasfascas saltando de neurnio a neurnio ficou obsoleta. Mas o novomodelo qumico continuou, no incio, a preservar a teoria bsica de queapenas dois sinais eram necessrios. Os computadores feitos pelohomem operam usando esse tipo de ligao binria, e o crebroaparentemente fazia o mesmo. Ento, quando os biologistas moleculares de todo o mundocomearam a investigar o assunto mais a fundo, surgiram vrios outrosneurotransmissores, cada qual com uma estrutura molecular diferentee, aparentemente, com uma diferente mensagem a transmitir. Emtermos estruturais, muitos deles foram se relacionando e ligando; comoos peptdios, complexas cadeias de aminocidos do mesmo tipo,existentes nas protenas que formam cada clula, inclusive as cerebrais. medida que essas descobertas emergiam, direta ouindiretamente, muitos e muitos enigmas comearam a ser solucionados.Se voc puder pegar um gato adormecido, retirar um pouquinho de seu 66. lquido espinhal e injetar em um gato acordado, este cairimediatamente no sono. Isso acontece porque o crebro do gato faz comque o corpo adormea quimicamente, com sua prpria poo sonfera.Para que o animal torne a acordar, preciso ser injetado seu opostoqumico, um sinal de despertar, na coluna vertebral. Nos humanos, onde se opera o mesmo mecanismo qumico, ocorpo no acordado de manh por um grosseiro alarme interno, maspor uma srie de sinais espaados, leves de incio e progressivamentemais fortes, que nos tiram do sono em vrios estgios. Todo o processoenvolve uma transio gradual, em quatro ou cinco ondas, dabioqumica do sono bioqumica do estado de viglia. Se esse processo interrompido, voc no desperta to completamente como deveria abioqumica de duas fases distintas se mistura. por isso que os pais derecm-nascidos, obrigados a levantar vrias vezes durante a noite, nose sentem muito normais durante o dia. Os relgios despertadorestambm nos arrancam de nosso padro natural de despertar,provocando uma espcie de embriaguez que pode persistir o dia todo,at que novo perodo de sono e despertar reajuste a qumica mente-corpo. Eis um exemplo que se aplica a esse tema: todos os camelosdemonstram grande tolerncia a altos ndices de dor so capazes demascar um ramo de espinheiro, enquanto apanham de vara do homemfurioso que carregam s costas. Pesquisadores curiosos examinaram asclulas cerebrais do camelo e descobriram que elas produzem grandequantidade de uma substncia qumica especfica que, ao ser injetadaem outros animais, faz com que tambm ignorem a dor. Portanto, osono e a tolerncia dor, como j se sabe, dependem de mensageirosqumicos precisos, produzidos no crebro. Uma a uma, vrias outras funes que antes estavam na cabeaagora so ligadas a neurotransmissores especficos. Os esquizofrnicosque sofrem de alucinaes e pensamentos psicticos geralmentemelhoram muito se forem submetidos a uma mquina de dilise renal,que filtra as impurezas do sangue. Como vimos, os pesquisadores do 67. crebro estabeleceram o fato de que um neurotransmissor chamadodopamina existe em nveis anormalmente elevados no crebro dosesquizofrnicos. O tratamento normal dessa doena impe o uso dedrogas psicoativas que suprimam a dopamina; talvez a mquina dedilise possa realmente remov-la ou retirar qualquer subproduto dofluxo sanguneo. Em meados dos anos 80, pouco mais de dez anos depois doprimeiro avano, mais de cinquenta desses neurotransmissores eneuropeptdios j eram conhecidos. Todos os cinquenta podem serproduzidos de um lado das sinapses entre nossos neurnios e, quandoas cruzam, podem ser recebidos pelos pontos receptores do outro lado.Existe, assim, uma incrvel flexibilidade de comunicao entre umaclula e outra. O neurnio, em si, passou a ser visto como um produtorde mensagens que no diziam apenas sim ou no, como umcomputador. O vocabulrio do crebro bem mais vasto, englobandomilhares de combinaes de sinais diferentes, a perder de* vista, j quenovos neurotransmissores continuam a ser rapidamente descobertos. Que tipos de mensagens as clulas nervosas trocam entre si? Aresposta espantosa, porque certos segmentos de nosso vocabulrioqumico parecem to especficos quanto a conversa normal, enquantooutros so muito ambguos. Nossa tolerncia para a dor, como a docamelo, depende da classe de substncias qumicas descobertas nosanos 70, chamadas endorfinas e encefalinas, que agem naturalmenteno corpo, como analgsicos. A palavra endorfina significa morfinainterna e encefalina, dentro do crebro. E essa a histria delas: souma verso da morfina produzida pelo prprio crebro. Tal capacidade, desconhecida at ento, de fabricar opiceosinternos despertou muito entusiasmo. J se suspeitava de que o corpodeveria ser capaz de regular a sensao de dor. Apesar de insistente, elanem sempre desperta nossa plena ateno. Emoes fortes, porexemplo, podem suplantar os sinais de dor do corpo, como acontececom a me que entra correndo para salvar o filho numa casaincendiada, ou um soldado ferido que continua lutando, ignorando a 68. dor dos ferimentos. Em circunstncias mais comuns, todos somoscapazes de desviar nossa ateno de pequenas dores no reparamosnuma dor de garganta, por exemplo, quando estamos conversandointeressadamente com algum. Mesmo sendo comum a dor atingir um patamar e depoisdiminuir, nenhum mecanismo justificava esse fato. Agora, a medicina jpode encontrar a explicao, no uso desses analgsicos internos asendorfinas e encefalinas , de que qualquer neurnio capaz deproduzir vontade. O pblico em geral logo ficou sabendo que o crebroproduz narcticos at duzentas vezes mais fortes que qualquer produtoque se possa comprar na rua, com a grande vantagem de que nossosprprios anestsicos no so cumulativos. Talvez, no futuro, um mdicovenha a anestesiar seus pacientes estimulando alguma regio de seuscrebros, proporcionando medicina ocidental uma forma cientfica daacupuntura chinesa. A morfina e as endorfinas bloqueiam a dor preenchendodeterminado receptor nos neurnios e impedindo a entrada de outrassubstncias qumicas que trazem a mensagem da dor. Sem essassubstncias no pode haver sensao de dor, independentemente domotivo fsico que a provoque. Segundo esse modelo, uma molcula deendorfina como uma palavra especfica, a palavra anestsico.Podemos imaginar que, quando a palavra dor chama a ateno docrebro, ele tem a opo de responder com a palavra anestsico.Infelizmente, essa imagem simples foi toldada por pesquisas recentes. Descobriu-se que os nveis de endorfina no corpo nocorrespondem na base de um-para-um dor que se sente. Isso pode serprovado pelo emprego de placebos, ou drogas falsas. Pacientes commuita dor frequentemente sentem-se aliviados ao receber um placebo,em geral uma plula de acar, com o aviso de que um poderosoanestsico. Nem todos reagem assim, mas geralmente entre 30 e 60 porcento dos pacientes declaram que a dor passou. Esse resultado,chamado efeito placebo, conhecido h sculos, mas altamenteimprevisvel. O mdico no pode avaliar previamente que pacientes 69. sero beneficiados nem o quanto. Em primeiro lugar, por que uma plula inofensiva de acar podealiviar a dor, mesmo a mais aguda, de lcera pptica ou de cirurgiatraumtica? As endorfinas devem ser a resposta, segundo foidescoberto. Uma droga chamada naloxone age como antagonistaqumico da morfina, o que significa possuir a capacidade de expulsar asmolculas de morfina de um ponto receptor. Quando o naloxone administrado depois de um anestsico, a sensao de dor voltainstantaneamente. Quando eliminado, a mesma coisa acontecer como placebo. Os pacientes que ficaram livres da dor com a plula de acardeclararam que ela voltou depois que tomaram naloxone. Isso significaque as endorfinas e a morfina devem ser basicamente a mesma droga,com a nica diferena de que as primeiras so fabricadas pelo corpo e aoutra, do pio da papoula. No entanto, mais uma vez, apenas certa porcentagem dospacientes apresentou esse resultado. Naloxone fez a dor voltar com todaa fora em determinados pacientes; em outros, o efeito placebocontinuou agindo totalmente; e em outros, ainda, voltou apenas umador mais fraca. Os pesquisadores ficaram ainda mais confusos, e assimcontinuam at hoje. As endorfinas so, sem dvida, os anestsicosinternos, mas descobrir essas novas molculas no foi a respostacompleta. Estudos sobre a dor j demonstraram que a morfina no quimicamente idntica s endorfinas, que estas interagem de um modomais completo que as drogas narcticas e que qualquer forma detratamento para alvio da dor morfina, endorfinas, acupuntura ouhipnose tem efeito muito varivel. Tambm foi descoberto que asendorfinas no podem se transformar em produtos farmacuticossatisfatrios, porque nossos anestsicos internos causam tanto vcioquanto a herona, se injetados. Em pouco tempo, as mesmas complicaes frustrantes que oscientistas enfrentaram com as endorfinas e encefalinas abrangeramtodos os outros neurotransmissores. Acontece que um neurnio no se 70. limita, simplesmente, a captar o sinal de uma clula nervosa vizinha epass-la inclume sinapse seguinte. Essa apenas uma escolha entreoutras. Mesmo no sendo possvel descrever exatamente como osneurnios recebem suas mensagens qumicas, ou como as transportampelos prprios axnios (ou troncos), sabe-se que o processo deve sermuito flexvel. A clula nervosa pode mudar a mensagem no trajeto,transformando a substncia qumica que recebeu no ponto A em outradiferente no ponto B. Os pontos receptores nas pontas das clulasnervosas tambm podem se modificar para receber diferentes tipos demensagens; a estao expedidora do outro lado da sinapse igualmenteverstil. Na verdade, essa confuso altamente encorajadora para nossospropsitos, porque prova que o corpo no pode ser compreendido sem oingrediente perdido da inteligncia. A aparncia fsica das endorfinas oude qualquer outra substncia neuroqumica no tem a mesmaimportncia de seu know-how como escolhem seus pontos decontato, o que as impele a agir, como falam com o resto do corponuma coordenao exata, e assim por diante. Mesmo no meio de umaverdadeira revoluo qumica, a mente superior matria. De fato, aestrutura molecular de qualquer neurotransmissor hoje consideradacompletamente secundria diante da capacidade do crebro emempreg-la. Os biologistas celulares constataram com enorme surpresa que,no que diz respeito s molculas, os neurotransmissores no tm nadade especial. Toda a protena de nossos corpos construda por cadeiasde vinte aminocidos bsicos, e essas cadeias formam novos arranjosem alongamentos chamados peptdios. Os neuropeptdios tmassinatura prpria, diferindo de outras cadeias de peptdios do corpo,mas a mesma fbrica, nosso DNA, produz todos eles. O DNA omanancial para todas as protenas que refazem as clulas, produzemoutras, repem peas defeituosas do cdigo gentico, curam cortes earranhes etc. Sem se preocupar em inventar uma nova classe de substncias 71. qumicas, o DNA descobriu novo uso para suas matrias-primasfamiliares, os aminos, aminocidos e peptdios. E, mais uma vez,apenas a capacidade de fazer esses diferentes produtos crucial. Noh nada de especial nas molculas em si, mesmo que sua descobertapor um biologista molecular seja especial para a cincia. Ento, de onde vem a capacidade de fazer osneurotransmissores? Talvez devssemos procurar a contribuio vindada mente. Afinal, no realmente a molcula de adrenalina que leva ame a entrar em um prdio em chamas para salvar o filho, ou umamolcula de endorfina que a protege de sentir as labaredas? O amor aimpulsiona, a determinao cega protege-a da dor. O que acontece,apenas, que esses atributos de sua mente encontraram um caminhoqumico que o crebro pode seguir para falar com o corpo. Agora chegamos ao mago da questo. A mente, em qualquerdefinio, imaterial, mas desenvolveu uma forma de trabalhar emparceria com essas complicadas molculas comunicadoras. So tointimamente associadas que, como vimos, a mente no pode serprojetada no corpo sem tais substncias qumicas. Mas essassubstncias no so a mente. Ou so? Toda essa situao paradoxal foi resumida de modo inteligente hvrios anos pelo eminente fisiologista australiano Sir John Eccles,ganhador de um Prmio Nobel, durante uma conferncia aosparapsiclogos que debatiam assuntos rotineiros da PES (PercepoExtra-Sensorial), como telecinsia a capacidade de mover objetosfsicos com a mente. Se vocs querem ver um caso real de telecinsia disse ele audincia , considerem as proezas da mente sobre a matriarealizadas pelo crebro. espantoso que, a cada pensamento, a mente consiga movertomos de hidrognio, carbono, oxignio e outras partculas das clulascerebrais. Aparentemente, nada estaria mais distante do pensamentoinsubstancial do que a slida matria cinzenta do crebro. Toda essafaanha realizada sem nenhuma ligao evidente. 72. O mistrio do domnio da mente sobre o corpo ainda no foi bemexplicado pela biologia, que prefere continuar estudando estruturasqumicas sempre mais complexas, operando em nveis mais refinadosda fisiologia. Mas permanece evidente que ningum encontrar umapartcula, por menor que seja, intitulada inteligncia. Tal evidncia seacentua quando compreendemos que toda matria de nossos corpos,pequena ou grande, foi dotada de inteligncia ao ser modelada. Oprprio DNA, apesar de reconhecido como o dirigente mental-qumicodo corpo, essencialmente formado pelos mesmos blocos bsicos deconstruo que os neurotransmissores que ele fabrica e controla. ODNA como uma fbrica feita de tijolos que tambm os fabrica. (Ogrande matemtico austraco Erich Von Neumann, alm de ser um dosinventores-descobridores do moderno computador, tambm seinteressava por todos os tipos de robs. Uma vez inventou, no papel,uma mquina verdadeiramente engenhosa, um rob capaz de fabricarrobs iguais a ele em outras palavras, uma mquina auto-reprodutora. Nosso DNA conseguiu a mesma coisa em grande escala, jque o corpo humano nada mais que variantes de DNA fabricados peloDNA.) Pode parecer fcil pensar no DNA, com seus bilhes de bitsgenticos, como uma molcula inteligente; sem dvida, ele bem maisesperto que uma molcula simples como a de acar. Que esperteza oacar pode ter? Mas o DNA, na verdade, no passa de fios de acar,aminos e outros componentes simples. Se eles no so espertos aprincpio, o DNA no poderia vir a s-lo apenas por reuni-los. Seguindoessa linha de raciocnio, por que o tomo de carbono ou de hidrogniono acar tambm no esperto? Talvez seja. Como vimos, se ainteligncia est presente no corpo, deve vir de algum lugar e esse lugarpode estar em qualquer canto. Ao seguir o prximo passo da histria do neurotransmissor,estaremos diante de outro salto quntico no que diz respeito a 73. complicaes, mas, surpreendentemente, a relao entre mente ematria comea de fato a ficar mais clara. Descobriu-se que as reas docrebro mediadoras de nossas emoes as amgdalas e o hipotlamo,tambm conhecido como crebro do crebro so especialmentericas em todas as substncias do grupo neurotransmissor. Issosignifica, portanto, que onde os processos de pensamento soabundantes (o que quer dizer que muitos neurnios esto fortementeagrupados) tambm esto as substncias qumicas associadas aopensamento. Nesse momento, ainda havia uma diviso mais ou menosdefinida entre as substncias qumicas que saltavam o espao entre asclulas cerebrais e as que partiam do crebro pela corrente sangunea.(Em meu campo, a endocrinologia, uma das qualidades definidoras dohormnio que ele flui pela corrente sangunea, um processogeralmente bem mais lento que o da transmisso de uma clulanervosa, que registrou uma velocidade superior a 360 quilmetros porhora; um sinal enviado da cabea ao dedo do p leva menos de umqinquagsimo de segundo.) Foi s quando a cincia pensou que podia isolar as substnciasqumicas cerebrais e categorizar suas posies que, inesperadamente, ocorpo mostrou o quanto complicado. Pesquisadores do NationalInstitute of Mental Health descobriram receptores igualmenteabundantes em outros pontos fora do crebro. Desde o incio da dcadade 80, foram descobertos receptores para neurotransmissores eneuropeptdios nas clulas do sistema imunolgico chamadasmoncitos. Receptores cerebrais em clulas brancas do sangue? No sepoderia exagerar o significado dessa descoberta. No passado, pensava-se que o sistema nervoso central fosse o nico capaz de enviarmensagens ao corpo, assim como um complicado sistema telefnico,ligando o crebro a todos os rgos com quem queria falar. Nesseesquema, a funo dos neurnios seria como a das linhas telefnicas:transmitir os sinais do crebro. Era essa sua nica funo, e no haviaoutra similar na fisiologia. 74. Soube-se, ento, que o crebro no se limita a mandar impulsosque viajam em linhas retas pelos axnios, ou ramos, dos neurnios; elescirculam inteligncia livremente, atravs de todo o espao interior docorpo. Ao contrrio dos neurnios, que esto fixos num ponto dosistema nervoso, os moncitos do sistema imunolgico viajam pelacorrente sangunea, o que lhes d livre acesso a todas as outras clulasdo corpo. Dotado de um vocabulrio cuja complexidade espelha o dosistema nervoso, o sistema imunolgico evidentemente manda e recebemensagens com a mesma variedade. Se o fato de estarmos felizes,tristes, pensativos, animados etc. obriga nossas clulas cerebrais aproduzirem neuropeptdios e neurotransmissores, as clulasimunolgicas tambm devem ser felizes, tristes, pensativas e animadas devem, enfim, ser capazes de expressar toda a gama de palavrasque os neurnios empregam. Os moncitos podem ser considerados,ento, como neurnios circulantes. Com essa descoberta, o conceito de clula inteligente tornou-seuma realidade possvel. Um tipo de inteligncia localizada j eraconhecido: a que o DNA possui em cada clula. Desde o incio de 1950,quando Watson e Crick delinearam a estrutura do DNA, a pesquisaprovou que essa molcula notvel, quase infinitamente complexa,codificava toda a informao necessria para criar e sustentar a vidahumana. Mas a inteligncia dos genes foi vista inicialmente como fixa,porque o DNA a substncia qumica mais estvel do corpo e, graas aessa estabilidade, cada um de ns pode herdar os traos genticos denossos pais olhos azuis, cabelos crespos, traos do rosto etc. epreserv-los intactos para transmiti-los a nossos filhos. O know-how transportado pelos neurotransmissores e neuro-peptdios representava algo muito diferente: a alada e fugaz intelignciada mente. A maravilha que essas substncias qumicas inteligentesno esto apenas no crebro, cuja funo pensar, mas no sistemaimunolgico, cujo papel principal nos defender das doenas. Do pontode vista de um qumico do crebro, essa sbita expanso das molculasmensageiras torna seu trabalho mais complexo. Mas, para ns, a 75. descoberta de uma inteligncia fluente confirma o modelo do corpocomparado a um rio. Precisvamos de um material bsico para afirmarque essa inteligncia flui por todo nosso corpo, e agora o temos. Qualquer indivduo percebe que sua mente est cheia de umconfuso fluir de impresses, amorfas demais para serem fixadas, paradescrev-las, a psicologia as reduziu a termos igualmente amorfos,como a famosa frase livre associao de idias (experincia individualconsiderada como uma srie contnua de ocorrncias). Hoje, como sefosse um fluxo de gua que voc realmente pode ver e tocar, ospesquisadores do crebro descobriram cascatas de substnciasqumicas cerebrais. Mas, ao contrrio do fluxo, essas cascatas noseguem um leito, mas fluem por toda a parte. No deixam de fluir nempor uma frao de segundo. Um cientista do crebro realmente pra otempo ao examinar os componentes da cascata. As substnciasqumicas que ele quer encontrar so mnimas foram necessrios oscrebros de 300 mil carneiros para formar um miligrama da molculaque o crebro usa para estimular a tireide. As clulas receptorastambm no so fceis de se captar. Danam continuamente nasuperfcie das paredes celulares e mudam de forma ao receber novasmensagens; qualquer clula pode contar com centenas ou at milharesde pontos de contato, mas apenas um ou dois podem ser analisados aomesmo tempo. A cincia aprendeu mais sobre a qumica do crebro nosltimos quinze anos do que em toda a histria anterior, mas aindasomos como estrangeiros que tentam aprender o idioma da nova terralendo rabiscos em papis apanhados na rua. At agora ningum foi capaz de captar exatamente como a cas-cata de substncias qumicas se modela, para fazer tudo o que a menteconsegue. Lembranas, sonhos e todas as atividades dirias da mentepermanecem um profundo mistrio no que diz respeito a seumecanismo fsico. Mas agora sabemos que a mente e o corpo so comouniversos paralelos. Tudo o que acontece no universo mental 76. necessariamente deixa sinais no fsico. Recentemente, os pesquisadores do crebro conseguiram umaforma de fotografar o percurso dos pensamentos em 3D, como umholograma. O processo, conhecido como PET (tomografia por emisso depsitron), consiste em injetar-se na corrente sangunea glicose, cujasmolculas de carbono foram marcadas com radioistopos. A glicose onico alimento do crebro que a utiliza muito mais depressa que ostecidos comuns. Conseqente-mente, quando a glicose injetada atinge ocrebro, as molculas marcadas de carbono so detectadas, enquantoele as utiliza, e registradas em trs dimenses pelo monitor, mais oumenos como ocorre numa tomografia. Observando essas molculasgirarem enquanto o crebro pensa, os cientistas viram que cadaacontecimento distinto no universo da mente como a sensao de dorou de uma intensa lembrana desencadeia novo modelo qumico docrebro, no apenas em um ponto, mas em muitos. A imagem semodifica a cada pensamento e, se fosse possvel ampliar a imagem parao corpo todo, no restaria dvida: ele tambm se modifica ao mesmotempo, graas s cascatas de neuro-transmissores e molculasmensageiras afins. Como se pode ver agora, nosso corpo a imagem fsica, em 3D,do que estamos pensando. Esse fato notvel escapa de nossaobservao por vrios motivos. Um deles que o contorno fsico denosso corpo no muda to drasticamente a cada pensamento. Mesmoassim, evidente que o corpo projeta os pensamentos. Literalmente,podemos ler a mente de outras pessoas pela mudana constante desuas expresses faciais; quanto a ns mesmos, ainda que sem notar,tambm registramos os milhares de gestos da linguagem do corpo comoum sinal de nosso estado de esprito e das intenes das pessoas paraconosco. Filmes realizados em laboratrios que estudam o sonodemonstraram que mudamos de posio dzias de vezes durante anoite, obedecendo a comandos do crebro de que no temosconscincia. Em segundo lugar, no vemos nossos corpos como pensamentos 77. projetados, porque muitas mudanas fsicas que eles causam soimperceptveis. Elas envolvem alteraes mnimas da qumica celular,da temperatura do corpo, da carga eltrica, da presso sangunea eassim por diante e nada disso registrado por nossa observao. Noentanto, podemos ter certeza de que nosso corpo suficientementefluido para espelhar qualquer evento mental. Nada se move semmovimentar o todo. As ltimas descobertas da neurobiologia reforaram ainda mais aidia dos universos paralelos da mente e do corpo. Quando ospesquisadores prosseguiram, indo alm do sistema nervoso e doimunolgico, comearam a descobrir os mesmos neuropeptdios e seusreceptores em outros rgos, como os intestinos, rins, estmago ecorao. Existe a expectativa de que tambm possam ser encontradosem outras partes do corpo. Isso significa que nossos rins podempensar, no sentido de que podem produzir neuropeptdios idnticosaos encontrados no crebro. Esses pontos receptores no so apenasmanchas viscosas. So questes espera de respostas na linguagem douniverso qumico. muito provvel que, se em vez dos poucos rabiscosem papis tivssemos um dicionrio completo, conseguiramosdescobrir que cada clula fala to fluentemente quanto ns. Em nosso corpo, as perguntas e respostas prosseguem sem fim.Apenas uma pequena glndula, como a tireide, tem tanto a dizer aocrebro e a suas companheiras, as glndulas endcrinas, e atravsdelas a todo o corpo, que essa cascata de conversas influencia dezenasde funes vitais como o crescimento, o ndice metablico e muito mais.A rapidez de nosso pensamento, nossa estatura, o tamanho de nossosolhos, por exemplo, dependem em parte do conselho da tireide.Portanto, podemos concluir com segurana que a mente no ficaconfinada ao crebro como numa diviso precisa, que serve a nossaconvenincia. A mente se projeta a qualquer ponto do universo interior. Um dos pesquisadores mais avanados e competentes no campo 78. da qumica cerebral, dr. Candace Pert, diretor da diviso de bioqumicacerebral do National Institute of Mental Health, salientou que muitoarbitrrio afirmar que o DNA ou um neuro-transmissor pertena aocorpo, em vez de mente. O DNA quase to puro conhecimentoquanto matria. O dr. Pert se refere a todo o sistema mente-corpocomo uma rede de informaes, e d menor nfase ao nvel grosseiroda matria e maior ao nvel sutil do conhecimento. Na realidade, existe algum motivo para se manter a mente e ocorpo afastados? Pert, ao escrever, prefere englob-lo em uma palavra bodymind (corpo-mente). Se esse termo for adotado, isso indicarclaramente que um muro caiu. Ele ainda no recebeu apoio da cinciamdica, mas isso pode mudar muito rapidamente. A cada dia fica maisclaro que o corpo e a mente so espantosamente semelhantes. J sesabe que a insulina, um hormnio sempre identificado ao pncreas,tambm produzida pelo crebro, enquanto substncias qumicascerebrais como o transferon e o CCK so produzidas pelo estmago. Isso mostra que nossa diviso organizada do corpo em sistemasnervoso, endcrino, digestivo e assim por diante apenas parcialmentecerta e, em breve, poder ser ultrapassada. H pouco tempo, ficouabsolutamente comprovado que as mesmas substncias neuroqumicasinfluenciam todo o conjunto corpo-mente. Ao nvel dos neuropeptdiostudo interligado; portanto, ao separar essas reas, estamossimplesmente fazendo o mau uso da cincia. Um corpo que pode pensar muito diferente daquele que amedicina considera atualmente. Digamos que, ao menos, ele sabe o quelhe acontece no apenas no crebro, mas em todos os pontos receptoresdas molculas mensageiras, o que significa cada clula. Isso explica, emgrande parte, os efeitos colaterais das drogas at ento desconhecidos.Algumas delas tm um nmero incrvel desses efeitos. Se eu consultarmeu Physicians Desk Reference, o ndice mdico de todos os remdiosque podemos receitar, vou encontrar pginas e pginas sobrecorticosterides. O corticosteride (ou apenas esteride) mais comum a cortisona, mas todo o grupo muito receitado no tratamento de 79. queimaduras, alergias, artrite, inflamaes ps-operatrias e dzias deoutros males. Se no conhecssemos a existncia dos pontos receptores, osesterides pareceriam muito estranhos. Digamos que eu receiteesterides a uma mulher que sofre de um caso difcil de artrite. Elesacabariam com as inflamaes das juntas de um modo dramtico, poisuma srie de coisas estranhas poderia ocorrer. Ela comearia a sequeixar de cansao e depresso; depsitos anormais de gordurasurgiriam sob a pele; e os vasos sanguneos ficariam to frgeis quecomeariam a surgir grandes manchas, difceis de desaparecer. O quepode ligar sintomas to diferentes? A resposta est ao nvel dos receptores. Os corticosteridesrepem certas secrees do crtex das supra-renais, uma camada fofa eamarelada que se deposita sobre elas. Ao mesmo tempo, eles suprimemoutros hormnios das supra-renais, como as secrees da glndulapituitria, que se localiza no crebro. Logo ao ser ministrado, oesteride percorre o corpo e inunda todos os receptores que estoouvindo certa mensagem. Quando um deles ocupado, o que vem aseguir no uma ao simples. A clula pode interpretar a mensagemde vrias formas, dependendo do tempo que esses pontos continuemrepletos. Nesse caso, o receptor fica ocupado indefinidamente. (O fato deoutras mensagens no serem recebidas importante, assim como aperda de inmeras ligaes com outras glndulas endcrinas.) A clula pode apresentar reaes agudas ao preencher umreceptor. Por analogia, basta observar uma mariposa pousada no beiraldo telhado numa noite de vero. No inseto macho, as antenas peludasda cabea so, na realidade, pontos receptores que se desenvolverampara fora do corpo. Quando o sol se pe, a mariposa espera um sinalemitido por uma fmea na vizinhana, atravs de uma molculachamada feromnio. Como so criaturas pequenas, o nmero deferomnios que enviam pelo ar infinitesimal, se comparado ao volumetotal do ar e sua imensa carga de plen, poeira, gua e outrosferomnios secretados por animais de todas as espcies, inclusive o 80. homem. difcil imaginar que duas mariposas possam se comunicar alonga distncia. Mas, quando uma nica molcula de feromnio toca a antena domacho, seu comportamento se transforma. Ele persegue a fmea einicia um complicado ritual de conquista pelo ar, que precede acobertura. Biologicamente falando, o que causa esse comportamentoto complexo uma nica molcula. Quando receito esterides a uma paciente que sofre de artrite,trilhes de molculas e pontos receptores esto envolvidos nisso. Assim,os vasos sanguneos, a pele, o crebro, as clulas de gordura etc.apresentam diferentes reaes. Em meu guia mdico, as conseqnciasdo uso de esterides por longo prazo incluem diabete, osteoporose,supresso do sistema imunolgico (a pessoa fica mais suscetvel sinfeces e ao cncer), lceras ppticas, hemorragia interna, elevaodo colesterol e muito mais. At a morte pode ser includa entre osefeitos colaterais, porque o uso de esterides por muito tempo fora ocrtex das supra-renais a se contrair (exemplo de como um rgo podese atrofiar por falta de uso). Se o esteride for retirado muitorapidamente, as glndulas supra-renais no tm tempo de se regenerar.A paciente fica sem uma defesa adequada ao estresse, que oshormnios fornecidos pelas supra-renais ajudam a debelar. Ela pode irao dentista para extrair um dente do siso uma tenso geralmentedentro dos limites normais , mas, sem os hormnios ad-renais, podeentrar em estado de choque. Uma extrao de dente pode at mat-la. Reunindo todos esses sintomas, podemos perceber que osesterides so capazes de causar, literalmente, qualquer reao. Elespodem ser a causa imediata ou apenas a primeira pea do jogo adiferena no importa paciente. Para ela, no h diferena entre aosteoporose causada por esterides ou o mal em si. O mesmo seaplica depresso, diabete ou morte. Um nico mensageiro causoutodas elas. Na verdade, no existe esse nico mensageiro cada qual um fio na rede de inteligncia do corpo. Tocando um deles, toda a redeestremece. 81. Compreendo que isso faz com que as drogas paream muito maisperigosas do que pensvamos, mesmo em uma poca obcecada emcatalogar desastres mdicos. Estamos habituados a uma idia maislimitada do que so os efeitos colaterais um toque amargo aliado doura, como o espinho na rosa ou a ressaca aps uma garrafa devinho. Em vez disso, um efeito colateral se expande e se transforma emalguma coisa que o corpo pode pensar. Estamos geralmente protegidosde danos mais srios, porque o corpo reage obedecendo a certas regrasestreitas. Um paciente que toma aspirina pode provocar umahemorragia da parede do estmago, mas no um ataque cardaco. Noentanto, cada clula do corpo tem uma ampla rea de ao um serconsciente, que percebe o mundo a sua volta. Os efeitos colateraisdescritos por meu guia mdico so apenas os observados at agora. Li recentemente a histria de um mdico, membro de uma equipehospitalar, que ficou aflito quando um de seus pacientes, homem de 70e tantos anos, subitamente passou a agir de modo paranico. Obcecadopela idia de que sua casa ia ser assaltada por ladres, comprou umaarma para guardar sob o travesseiro. Certa noite, aterrorizou a esposaao saltar da cama e correr escada abaixo com a pistola, comeando aprocurar furiosamente os assaltantes atrs das poltronas. Sabendo quea alucinao do marido era perigosa, a mulher o levou imediatamenteao mdico. O paciente no tinha nenhum antecedente de doena mentalnem estava tomando nenhum remdio alm do digitlico paraestabilizar o ritmo de seu corao. Considerando sua idade, o mdicoconcluiu que seu diagnstico era o mal de Alzheimer. No entanto, ele encaminhou o paciente a um neurologista parafazer uma tomografia que no acusou nada de anormal. Aposto que esse homem est tendo alucinaes por causa douso do digitlico comentou o neurologista. O mdico, tambm professor de medicina em Nova York, nuncavira esse efeito colateral em seus trinta anos de prtica, embora selembrasse de algum comentrio vago sobre o assunto. Ele reduziu adosagem do digitlico e, dez dias depois, o paciente voltou ao normal. 82. Parecia um fato muito estranho que a medicao, to especfica para ocorao, levasse insanidade. Se esse paciente tivesse sofridoalucinaes dcadas atrs, quando o guia mdico ainda no registravaesse efeito colateral, nenhum mdico acreditaria. Mais recentemente, oprprio mdico em questo s acreditou depois de uma sriedispendiosa de exames que afastaram qualquer outra possibilidade. O que este caso nos ensina que nunca podemos saber o que ocorpo est pensando, ou em que parte dele. E perfeitamente possvelque o corao do homem tenha enlouquecido, ou melhor, tenhamovimentado o gatilho que desencadeou a parania. O crebro e ocorao tm muitos pontos receptores em comum; e, o que maisimportante, compartilham o mesmo DNA, o que significa que a clulado corao pode se comportar como uma clula cerebral, uma clula dofgado ou qualquer outra do organismo. Aps cirurgias cardacas emque feito o corte do trax, comum pacientes sofrerem crisespsicticas e comearem a ter alucinaes. A explicao para isso queeles, subitamente, comeam a ver homenzinhos verdes passeando pelolenol, porque ficam deitados de costas no vazio estril da unidade detratamento intensivo, embriagados pela falta de oxignio no crebro.Mas, por acaso, no seria possvel responsabilizar o corao por essasalucinaes? Simplesmente, o trauma da cirurgia poderia fazer ocorao pensar que a realidade enlouqueceu, comunicando tal notciaao crebro. A descoberta de neurotransmissores, neuropeptdios e molculasmensageiras de todos os tipos ampliou enormemente nosso conceito deinteligncia. Mas, se cada clula tem um nmero infinito de mensagensque pode enviar e receber, tambm evidente que apenas um pequenonmero delas pode ser ativado em determinado momento. Quem ou oque controla tais mensagens? O fato que essa uma perguntaexplosiva. Em qualquer laboratrio de pesquisas, as reaes surgemautomaticamente aps o incio da experincia: basta apenas misturar 83. uma substncia qumica a outra. Mas algum precisa escolher essassubstncias na prateleira e iniciar a experincia. Tradicionalmente, a medicina vem preferindo ignorar esse fatoquando se aplica ao corpo humano. Vemos agora que, com milhares desubstncias qumicas em sua prateleira, uma clula no obrigadaapenas a escolh-las, mistur-las e analisar os resultados; em primeirolugar, precisa fabricar essas substncias qumicas, descobrindomilhares de frmulas para criar novas molculas de poucos elementosbsicos carbono, hidrognio, oxignio e nitrognio. Para isso, preciso uma inteligncia. Portanto, acompanhando a histria dosneuropeptdios, acabamos chegando a uma radical mudana de pontode vista. Porque, pela primeira vez na histria da cincia, a mente temuma base visvel para se posicionar. Antes, a cincia declarava quesomos mquinas fsicas que, de alguma forma, aprenderam a pensar.Agora, desponta a idia de que somos pensamentos que aprenderam acriar uma mquina fsica. 84. 5 Fantasmas da Memria Recentemente, recebi em meu consultrio de Boston uma jovemde 20 e tantos anos, que trabalha parte do tempo como modelo. Depoisde esconder, durante anos, que sofria de um problema alimentar, suafamlia conseguiu persuadi-la a procurar tratamento. A jovem eraobcecada pelo corpo desde a adolescncia. Com o tempo, essapreocupao tornou-se excessiva e acabou aflorando como uma dupladoena: anorexia nervosa e bulimia. Observando essa moa atraente e vistosa, aparentemente normal,fui levado a pensar que seu problema teria soluo fcil. Mesmo comextensa pesquisa e grande publicidade nos ltimos tempos, a anorexia ea bulimia continuam a ser doenas muito enigmticas. Por que certasmoas, entre as quais muitas bem-educadas e de posses, passam acultivar uma incontrolvel obsesso por regimes e perda de peso? Asanorxicas criam medo dos alimentos e horror ao ato de comer. Vivemconfinadas a um ritual padronizado de comportamento, que acaba porlev-las inanio voluntria (ainda sem admitir que esto magrasdemais) e, s vezes, at a morte. A bulimia, doena companheira da anorexia, pode surgirseparadamente ou coexistir com ela, como no caso dessa moa. Nabulimia, o horror aos alimentos assume a estranha forma de ingestoexagerada de comida. Geralmente, a quantidade de alimentos que umbulmico consome pode ser enorme cerca de 2 mil a 50 mil caloriasde uma vez (2 mil calorias dirias so suficientes para sustentar um 85. homem vigoroso de 70 quilos). Essa grande quantidade de alimento devolvida pelo vmito, o que gera tremenda tenso no aparelho digestivoe em todo o corpo. A doena dessa moa, em particular, tinha avanado a tal pontoque ela se obrigava a vomitar todos os dias para manter o peso umpouco abaixo do normal, como seu trabalho exigia. Contou-me que sde olhar uma sobremesa comeava a suar e o corao disparava. Elaera muito inteligente e ouviu atenta minha explicao de que a raiz deseu mal estava no fato de se enganar com sua auto-imagem. Comonossa sociedade vive obcecada pelo ideal da magreza, muitas mulheresprocuram viver com a imagem ntima que fazem de seus corpos e queno combina com sua aparncia fsica. No entanto, no caso dela, talimagem no dizia preciso ser magra, mas afirmava nunca sereimagra o suficiente. Para explicar essa doena paradoxal, necessrio que seabandone a distino entre mente e corpo, pensando em um nicosistema corpo-mente. Isso se deve ao feto de se tratar de uma doenaholstica, o oposto cruel da sade holstica. Nas mulheres anorxicas, aidia distorcida preciso ser mais magra domina a mente como umfantasma malvado e enganador. Mesmo depois de longa hospitalizao ede exaustivo tratamento psiquitrico, raramente a paciente volta acomer como uma pessoa normal. A pessoa normal teria de lutar parano comer e, quando o corpo chegasse ao estado de inanio, seussinais de fome suplantariam todos os outros no corpo-mente, at odesejo pelo alimento sair vencedor. Para algum que sofre de anorexia,a relao exatamente inversa a compulso de evitar a comida irresistvel. Enquanto eu discorria sobre o assunto, a moa me olhoutristemente e murmurou: Ento, os fantasmas existem realmente, no ? Fiquei atnito e respondi, depois de um momento: verdade, mas esse fantasma pode ser exorcizado. Falvamos do fantasma da memria, uma certa lembrana 86. escolhida e armazenada no corpo. A memria parece uma coisa muitoabstrata, enquanto os alimentos so bem concretos. Mas, neste caso, amemria muito mais real. Se uma pessoa compulsivamente magraou gorda demais, isso no depende, em princpio, do que ela come. Essa a verdade para condies menos estranhas que a anorexia. Durantesculos, a obesidade tem sido considerada uma falha de carter, o queem pocas religiosas chamava-se pecado da gula. Com isso, afirmava-seque os gordos, usando mais energia e suficiente autodisciplina,poderiam ser magros como os outros; bastava comer menos. Agora, tornou-se reconhecido que os regimes no resolvem oproblema dos doentes crnicos (como tambm no resolvem o casocontrrio, enchendo de alimentos os anorxicos), porque o crebro deum gordo manda sinais irresistveis para que se alimente em excesso.Como so emitidas essas mensagens e como transform-las no oposto uma questo em aberto. A menos que se atinja algum tipo de controleem um nvel muito profundo, as pessoas obesas podem passar a vidatoda foradas a fazer regimes, numa ttica autoderrotista que s piora adistoro mental. A perda de 2,5 quilos registrada no crebro comofome. Na prxima vez em que oferecerem comida ao obeso, seu crebrono vai querer de volta apenas os 2,5 quilos, mas 4 quilos para segarantir contra a fome seguinte. Sabe-se de casos em que obesos atganharam peso com regimes, apenas com as calorias necessrias parasustentar o metabolismo basal. Isso aconteceu porque o crebro capazde alterar o metabolismo de tal forma que as calorias passam a serestocadas como gordura, em vez de serem queimadas comocombustvel. Ningum sabe por que a inteligncia to incapaz de transformaressas distores da auto-imagem. Os fantasmas ficam mais fortalecidos medida que lutamos contra eles. Apesar de os anorxicosdesmentirem que tm um problema, quando o mdico consegue venceressa barreira de defesa fica evidente que existe uma profunda lacuna nocorpo-mente, com parte do sistema lutando para manter aracionalidade, e outra enviando furiosos impulsos irracionais. 87. Certa vez, passei horas aconselhando outra vtima de anorexia,uma mulher de 30 e alguns anos, que, embora pesasse menos de 40quilos, acabara de ter um filho. Seu declnio fsico era rpido (10 porcento dos anorxicos morrem de inanio deliberada ou de causasligadas m nutrio). Seu caso era especialmente estranho, porque oque ela mais apreciava era ir para casa e cozinhar para a grande famliaitaliana, servindo pratos de massa a dzias de irmos, irms, primos,tias e tios. Nossa conversa prosseguia razovel, apesar da naturaldificuldade, at que ela me fez uma pergunta repentina: Voc acha, realmente, que vai conseguir me afastar disso comessa conversa? Compreendo tudo perfeitamente, sabe? O que noadiantou nada. Deixe-me em paz. assim que preciso me alimentar. Diga-me ela prosseguiu, olhando-me com indisfarada hostilidade ,quantas pessoas deixaram de fumar porque voc conversou com elas?Todas sabem o que a nicotina pode causar, o perigo de cncer nopulmo e tudo o mais. Mas no adianta falar com elas nem comigo. Encostei-me na poltrona, sentindo ondas geladas de dioenquanto ela falava. Como conseguia conviver com tudo aquilo, naqueleemaranhado confuso de idias? A verdadeira questo no se posso ajud-la, no mesmo? comentei, quando se acalmou. Trata-se de saber se voc capaz dese ajudar. Ela pareceu ligeiramente mais amigvel e continuei: Sabe, voc no est me ferindo por no comer. No est ferindoningum, mas apenas algo que no passa de uma imagem. Tudo estem seu interior, e essa a parte mais difcil, tanto para voc, comopessoa, quanto para mim, como seu mdico. Essa histria no tem um final rpido e feliz. Sem dvida, minhapaciente estava certa quanto inutilidade de conversarmos sobre adoena. Ela continua sendo uma pessoa muito hostil e confusa, mastenho esperana de que, no grupo de discusso de problemas quepassar a freqentar, outros anorxicos e bulmicos podero ajud-la.Para exorcizar seu fantasma da memria, ela ter de chegar ao nvel em 88. que ele vive. At o fantasma desaparecer, pacientes como ela nosentem que sofrem de uma doena eles so a doena. Afirmo isso de modo categrico. O que acontece quando voc vuma cobra e d um salto para se desviar dela? O pensamento geradopelo medo Cuidado, uma cobra! vem a sua mente no mesmoinstante em que a adrenalina o leva a saltar. Geralmente, a idia e aao esto ligadas a tal ponto que o pensamento consciente nemencontra tempo para formar palavras. Voc apenas v a cobra e salta.Portanto, no existe espao para erguer uma diviso entre eles. No casode um anorxico, a simples viso do alimento desperta uma onda derevolta. Talvez a vista e o cheiro de po fresco enviem o pensamentoOh, no posso comer isso, enquanto o estmago se contorce, asglndulas salivares secam e todo o trato digestivo alertado e deixa defuncionar. Claro que essa uma reao distorcida, mas ocorre junto com opensamento, e no h espao para se erguer uma diviso entre ambos.O que funciona, neste caso, algo que podemos denominar impulso deinteligncia, o que significa um pensamento e uma molcula ligadoscomo os dois lados de uma moeda. Assim que surge o impulso, no hmais volta. O pensamento a molcula, a molcula o pensamento. Noinstante em que acontece, o impulso de inteligncia constitui toda arealidade interior do paciente. Quando uma pessoa anorxica senterepulsa pela comida, sua reao (pelo menos, naquele momento) a deser sua prpria doena. O mesmo verdade para um obeso que procuraresistir comida, ao fumante que procura no fumar outro cigarro, eassim por diante. Voc no pode mudar um pensamento depois de t-lo formulado todo o esforo interno de tais pacientes uma tentativa intil. Masexiste outro componente no impulso de inteligncia, alm dopensamento e da molcula. O terceiro componente o silncio; esse ocomponente que no se v. Como todos ns, os anorxicos precisamarrancar esses pensamentos da regio mais profunda que a das idias,porque ali que a cura pode surgir. 89. A compreenso horrvel do anorxico eu sou minha doena podeser verdadeira, mas no definitiva. Se a pessoa conseguissetranscender suas compulses, observando-as sem se envolver, a doenaterminaria. Sendo apenas uma testemunha silenciosa, ficaria livre dofantasma. Arquimedes declarou que se tivesse uma alavanca longa osuficiente e um local para apoi-la poderia mover a Terra presume-seque teria de ficar em p no espao exterior. A anorxica precisa desselocal; infelizmente, o ser humano confinado ao espao interior.Ningum tem um sistema nervoso extra pendurado no armrio, no casode o primeiro ficar com idias estranhas. triste mas inevitvel: no hlugar l fora para ficarmos em p. Sem nos apercebermos, confiamos muito no fato de nossospensamentos desencadearem as substncias qumicas adequadas paranossos corpos; a mente e suas molculas mensageiras so combinadasde um modo automtico e perfeito. Mas esse processo pode serinterrompido e, ento, a convulso resultante ser como acionarmosdois programas diferentes no mesmo computador quando o inputest avariado, no de se estranhar que o printout, seu corpo, fique emdesordem. Por exemplo, uma das drogas mais ambguas j descobertas o Valium. Ele pertence a uma classe de substncias qumicas chamadasbenzodiazepinas, usadas tanto como tranquilizantes quanto comosonferos. Quando surgiram, essas substncias foram consideradasrevolucionrias. Suas predecessoras, os barbituratos, apresentavamefeitos notrios: provocavam grande dependncia; induziam ao sono dem qualidade, porque bloqueavam os sonhos, e uma overdose poderiaser fatal. Em contrapartida, o Valium e seus similares davam maissono, provocavam menos ressaca e era mais difcil ocorrer umaoverdose; no incio, ainda, pareciam no criar dependncia. No auge desua popularidade, calculava-se que ele representava uma quarta partede todas as receitas fornecidas nos Estados Unidos. 90. Agora, j se sabe que o Valium provoca dependncia e produzirregularidades no sono (interferindo com o terceiro e quarto estgios dosono profundo e sem sonhos) e que tambm ocorrem srios sintomas dereabsoro, depois de uso prolongado. Se observarmos no plano dosreceptores da parede celular, nada disso surpreendente, porque oValium vence a competio das substncias neuroqumicas doorganismo e ocupa seus pontos receptores. Esse tipo de interfernciatalvez fosse vantajoso, se ele apenas competisse com os neuropeptdiosresponsveis pela causa das sensaes de ansiedade (chamadosoctadecaneuropeptdios). Mas o efeito calmante da droga no vemsozinho; o Valium confunde todo o sistema nervoso. Alm disso,descobriu-se recentemente que os moncitos do sistema imunolgicotambm so agredidos por ele. Portanto, quando um mdico receita oque considera um sonfera ou tranquilizante, est afetando ao mesmotempo o sistema imunolgico, criando grande confuso entre osreceptores celulares. Ningum sabe se isso tem causado algum mal, principalmenteporque as descobertas sobre o sistema imunolgico so recentesdemais. Talvez se descubra que a natureza j dotou nossos corpos dealguma substncia interna semelhante ao Valium, o que significa queestamos reproduzindo mal alguma coisa que j existe de forma quaseperfeita. Se me perguntarem se gosto da idia de introduzir diariamentea mesma substncia qumica em minhas clulas imunolgicas, de ummodo to indiscriminado como aconteceu com o Valium a milhes depacientes, principalmente mulheres, durante trinta anos, a resposta bvia. As clulas imunolgicas tm uma razo para cada receptor.Usam-nos para pensar, agir, compreender e responder com preciso.Uma pessoa utiliza os mesmos dois olhos para ver o mundo todo; umaclula, no entanto, tem um olho diferente para cada coisa. Em outraspalavras, um receptor Constantemente ocupado deixa a clula cegapara determinada coisa. Numa poca em que a incidncia de casos decncer na mama continua aumentando, enviar mensagens 91. desconhecidas para dentro do sistema imunolgico parece uma medidamuito arriscada. Atualmente, est acontecendo no tratamento das doenasmentais uma revoluo qumica, de aparncia to milagrosa quanto ado Valium, trinta anos atrs. Os mdicos tm receitado a seus doentesmentais certas substncias que alteram a mente, os psicotrpicos. Sodrogas que afastam os sintomas evidentes da doena, principalmente adepresso, a mania e as alucinaes. Os sintomas geralmente soaliviados, algumas vezes at de modo sbito e dramtico, pois muitospacientes no toleram o embotamento mental nem a fadiga, que so osefeitos colaterais mais comuns. No que tais efeitos sejam simples:certos antidepressivos podem piorar a depresso do paciente durante asprimeiras semanas, ou transform-la no oposto, tornando-a uma maniafuriosa. Os crticos dessas terapias base de drogas costumam cham-lasde lobotomias qumicas e as acusam de destruir a dignidade humanado paciente. Sem dvida, ocorrem muitos abusos, principalmente nosgrandes hospitais pblicos para doentes mentais, que possuem poucosfuncionrios para o atendimento. necessria uma percepo agudapara se estabelecer a dosagem correta de qualquer droga psicotrpica, econtam-se muitas histrias sobre pacientes deprimidos que reagiram demodo to negativo aos medicamentos que acabaram se suicidando emvez de se curarem. Mesmo assim, o sucesso nesse campo estrepresentado pelo momento em que o uso de determinadas drogaspossa curar a esquizofrenia e a depresso ao mesmo tempo; no hoje,mas no futuro. Ainda no existe nenhum esquizofrnico curado por processosqumicos. Isso acontece simplesmente porque mais difcil ser umapessoa normal do que no ter alucinaes. Quando voc interrompe asvises e as vozes que enchem a cabea e os ouvidos de um paciente,no encontra uma pessoa normal, mas uma verdadeira concha. Alteraro nvel qumico de dopamina, mesmo que fosse um processo mil vezessuperior ao atual, no bastaria para levar cura. A razo est contida 92. na lio que aprendemos com os prprios neurotransmissores: paracada avano qumico surge tambm uma barreira qumica. A boa notcia sobre os neurotransmissores que eles so matria.Um pensamento saudvel ou louco difcil de ser apreendido por serinatingvel; no nada que se possa tocar ou sentir. Mas osneurotransmissores so tangveis, sem dvida, apesar de tominsculos e com vida to curta. O papel do neurotransmissor combinar-se a um pensamento. Para isso precisa ter molculas toflexveis quanto as idias, igualmente fugazes, vagas, mutantes e leves. Tal flexibilidade uma espcie de milagre e ao mesmo tempo umamaldio, j que ela cria uma barreira quase intransponvel. Nenhumadroga fabricada pelo homem pode imitar essa flexibilidade, tantoatualmente quanto num futuro previsvel. De fato, nenhuma droga seequipara a um pensamento. Basta examinar a estrutura de um receptorpara isso ficar evidente. Os receptores no so fixos; eles foramapropriadamente descritos como semelhantes a folhas flutuantes dolrio aqutico que emergem do ncleo da clula. Como as folhas desseslrios, suas razes penetram at o centro, onde fica o DNA. Muitos tiposde mensagens entram em comunicao com o DNA, e seu nmero potencialmente infinito. Portanto, durante todo o tempo, ele fabricanovos receptores e faz com que flutuem at a parede celular. No existeum nmero fixo nem uma disposio determinada dos receptores naparede celular. Provavelmente, nem mesmo deve existir limite para suasintonia. A parede de uma clula pode ter to poucas folhas de lriosaquticos quanto um tanque no inverno, ou pode ficar to cheia delascomo o tanque na poca de seu florescimento, em junho. O nico fato constante sobre um receptor sua imprevisibilidade.Por exemplo, pesquisadores descobriram recentemente que umneurotransmissor chamado imipramina anormalmente produzido nocrebro de pessoas deprimidas. Enquanto localizavam a distribuiodos receptores de imipramina, eles se surpreenderam ao encontr-losno apenas nas clulas cerebrais como nas da pele. Por que a pelecriaria receptores para uma molcula mental? O que esses receptores 93. da pele teriam a ver com a depresso? Uma resposta plausvel que a pessoa fica deprimida por inteiro est com o crebro triste, a pele triste, o fgado triste e assim pordiante. Do mesmo modo, os pesquisadores examinaram pacientes quese queixavam de aflio o tempo todo e descobriram nveisanormalmente altos das substncias qumicas epinefrina enorepinefrina em seus crebros e nas glndulas supra-renais. Mastambm foram encontradas grandes concentraes nas plaquetas dosangue, o que demonstrava que eles tambm tinham clulassanguneas aflitas. Os mdicos sentiram-se frustrados ao perceberem a complexidadedesse assunto em termos gerais. As esperanas de cura daesquizofrenia, depresso, alcoolismo, dependncia de drogas e outrosmales foram afastadas em meados dos anos 70, pouco depois de seremisoladas as primeiras endorfinas, em 1973. Agora, a barreira qumicaest mais forte do que nunca, enquanto a confirmada flexibilidade dasmolculas mensageiras vem sendo divinizada. Ao pensar nesse problema, tive de me colocar uma questo maisprofunda: uma droga pode realmente exorcizar o fantasma da memria?Minha experincia mdica responde que no j vi por demaispacientes curados por drogas e que, ainda assim, transmitiam umadoentia sensao de vazio. Para comear, em vez de se confiar nasdrogas, preciso que se descubra como a memria doentia do pacienteentrou em seu sistema qumico. Porque mais do que evidente que amemria imaterial est ali. Talvez valha a pena coloc-la numamolcula, mas a vida da memria no depende disso. O caso seguinteserve como exemplo. Walter cresceu nas ruas do sul de Boston, no fim da dcada de70; sentia o mesmo dio violento que nutriam todas as pessoas negrasque vinham morar naquele bairro. Para escapar disso e da pobreza queo perseguira a vida toda, entrou para o Exrcito ao completar 18 anos. 94. Seis meses depois estava no Vietn. Participou de combates esobreviveu, mas dois anos depois, quando voltou s ruas, estava viciadoem herona, usada por muitos soldados para tornar a guerra menostraumtica. Ao contrrio da maioria, Walter no tinha motivo para sair doExrcito quando voltou. Finalmente, a polcia acabou prendendo-o e,por ordem do tribunal, ficou sob meus cuidados no hospital deveteranos, especializado em drogas. Nossa maior preocupao era simplesmente a de desintoxicar oorganismo de Walter. Se fosse um caso comum, sairia pela portagiratria depois disso e estaria de volta s ruas. Mas, enquanto ficou nohospital, passei a visit-lo regularmente. Ele era, sem dvida, umapessoa excepcional. Apesar de seu desespero, no parecia corrodo pelaviolncia interior e lutava corajosamente contra o vcio. Walter ficoumeu amigo. Seu progresso clnico foi rpido; um ano depois dadesintoxicao, mantinha seu emprego e falava animadamente sobre avida normal que desejava levar. Foi quando aconteceu um estranho incidente. Um dia, o carro deWalter enguiou e ele foi obrigado a ir para o trabalho de metr, o queno fazia desde muitos meses. Pegou o trem para Dorchester, umalinha muito antiga, com velhos trilhos barulhentos. Detestou o rudo dotrem e no conseguiu ignor-lo. O ventilador estava quebrado em plenocalor de julho. Poucos minutos depois de ficar fechado naquelecompartimento quente, abafado, passou a achar o vago insuportvel. Asensao desagradvel se transformou em extrema agitao e, quandosaiu do metr, estava completamente louco, irracional. Nada do que foifeito acalmou sua agitao. Quando o vi, dois dias depois, Walter tinhavoltado herona e dessa vez no demonstrava desejo de se recuperar. O que aconteceu a esse homem? Uma explicao qumica no suficiente para o incidente do trem. Continuo me lembrando dele comseu terno riscadinho de trabalho, confiante e preparado para a novavida, mas obrigado a voltar ao mesmo trem que usava quando tinhaproblemas e era dependente de herona. Em algum meandro traioeiro 95. da memria, o passado voltou e com ele seu anseio pela droga. Onde seescondera aquela nsia durante um ano inteiro antes de voltar? Decerto modo, isso o que a medicina comea a elucidar: a memria deuma clula capaz de viver mais tempo que a prpria clula. Em qualquer ponto do corpo-mente duas coisas se aliam umapartcula de informao e uma partcula de matria. Das duas, ainformao tem vida mais longa que sua matria slida correspondente.Enquanto os tomos de carbono, oxignio, hidrognio e nitrogniogiram por nosso DNA como pssaros de passagem, que descansam umpouco e continuam a migrar, a partcula de matria se modifica, massempre existe uma estrutura espera dos prximos tomos. O DNAnunca movimenta mais que um milsimo de milmetro de sua estruturaprecisa, s porque os genmios, partculas de informao no DNA (elesso 3 bilhes), lembram para onde tudo vai. Esse fato nos leva acompreender que a memria deve ser mais permanente que a matria.Ento, o que uma clula? uma memria que construiu um pouco dematria a sua volta, formando um modelo especfico. Nosso organismo,portanto, apenas o lugar que nossas memrias chamam de lar. difcil discutir essa concluso luz de tudo o que sabemos atagora sobre as formas de inteligncia qumica, e a medicina resisteteimosamente em aceitar tais implicaes. Por exemplo, em geral seacredita que as pessoas dependentes de lcool, cigarros ou drogasadquirem uma dependncia qumica, o que significa que suas clulasficam viciadas em nicotina, em lcool, herona etc.; porm, se asestudarmos no plano da qumica do organismo, vamos descobrir que aherona ou a nicotina colam-se aos mesmos receptores das paredescelulares que todos possuem. Um dependente no tem receptores queexibam anseios anormais. Por analogia, a parede do estmago de um homem gordo no viciada em comida apenas aceita o que lhe do. Na verdade, pareceque a memria das clulas que se vicia com a substncia que provocao hbito e ela continua criando clulas distorcidas que refletem suafraqueza. Em outras palavras, um vcio uma memria distorcida. 96. apenas nossa inclinao material que continua atendendo clula.(Essas memrias perniciosas podem ser herdadas, quando um vcio seespalha por famlias inteiras, mas, mesmo que seja um gene dedependncia especfico, somos forados a considerar as condiesimateriais que levaram o DNA a enviar esse gene. Nossos ouvidos soformados porque um gene os codificou; no entanto, em primeiro lugar, arazo de terem se desenvolvido h milhes de anos certamente foiimaterial algum organismo comeou a responder ao som.) Quando se cuida de um dependente, desintoxicando seuorganismo e mantendo-o afastado do lcool e das drogas durantemuitos anos, todas as clulas antigas que haviam ficado quimicamentedependentes se acabaro. Mas sua memria permanecer, e, se lhedermos uma chance, ela o levar de volta s substncias queprovocaram a dependncia. Um cardiologista colombiano, meu amigo,deixou de fumar h quinze anos. Nesta primavera foi visitar sua terranatal e resolveu ir ao cinema, um acontecimento raro em sua vida. Ele um homem muito ocupado, mais do que os cardiologistas em geral, enem se lembrava mais do ltimo filme a que tinha assistido. Havia umintervalo na sesso e, ao chegar sala de espera, ele sentiu umavontade incontrolvel de fumar. Sabe, passei a adolescncia em Bogot contou-me depois e costumvamos fumar nos intervalos dos filmes. Eu voltei ao mesmocenrio e a necessidade de fumar foi imediata. Achei-me diante damquina automtica de cigarros, procurando moedas no bolso. Sconsegui me controlar repetindo: Isso uma loucura, voc umcardiologista. Foi o nico modo de resistir. Mesmo assim, sa correndodo cinema e at hoje fico imaginando como o filme acabou. O que torna o vcio to assustador que os receptores do crebroesto sempre dispostos a cooperar com as instrues da mente.Lembre-se de sua reao de tenso ao ouvir o motor de um carro a suascostas, quando, ento, a adrenalina infiltrada em seu sangue.Sabemos que parte da reao geral o estmago e os intestinosinterromperem o processo de digesto. Mas, como a reao do estresse 97. temporria, essa uma atividade correta do organismo e aconteceautomaticamente. Porm, se voc prefere viver em um ambiente que cria estresseconstante, chegar um momento em que seu organismo vai querervoltar a digerir os alimentos. Surgir, ento, um conflito profundo,porque a reao ao estresse ser de dizer no ao estmago, enquantooutra parte do crebro (o hipotlamo, provavelmente) dir sim. Adesordem resultante criar contraes no estmago e clicas nosintestinos. Esses rgos comeam a perder seu ritmo natural e, se vocno lhes der chance de recuper-lo, acabaro se transformando emvtimas de memria errnea, to certamente quanto algum contrai umvcio. O estmago vai comear a produzir suco gstrico nas horaserradas, o clon entrar em espasmos e a suave articulao do sistemagastrintestinal entrar em colapso. Disso resultam as lceras e airritao permanente do clon, que afetam tanta gente sob tenso. No caso de um dependente, uma das reaes bloqueadas peladroga a capacidade de pensar racionalmente e perceber as coisas comnitidez. Enquanto seus receptores esto cheios, o viciado sente-seeufrico e sua percepo fica suavemente embotada, uma condio quepode ser agradvel a curto prazo, mas devastadora se continuar porlongo tempo sem a clara percepo das coisas, o crebro no podeemitir as instrues bsicas para pensar, comer, trabalhar, relacionar-se com outras pessoas e tudo o mais. Todas as atividades da vidaexigem pensamento claro, e ele precisa de grande quantidade deneurotransmissores diferentes, mas o viciado restringe-se apenas aalguns e prende-se a eles desesperadamente. Do mesmo modo, uma explicao estritamente fsica para ocncer tambm no convincente. Ela precisa estar ligada a algumadistoro mais abstrata; talvez possa ocorrer uma memria distorcidaao nvel celular. Digamos que um mdico mande um pacientesubmeter-se a um exame de raios X e descubra um tumor maligno. Um 98. ano depois, o mesmo tumor aparecer em outra chapa. O mdico nopode se referir a ele com preciso como o mesmo cncer, porque asclulas que viu um ano antes foram inteiramente substitudas. O que ele est vendo, de fato, o resultado de uma memria quepersistiu, reencarnando uma, duas e mais vezes em novo tumor. Ocncer no tanto uma clula louca e transviada como a planta bsicadistorcida dessa clula, um conjunto de instrues errneas quetransformam o comportamento celular normal numa mania suicida decncer. Quando temos sorte, o organismo enfrenta essa situao emnvel primrio. O DNA percebe qualquer desvio da memria, inclusivetumores incipientes, e os elimina rapidamente. Sendo assim, no sabemos como apagar as memrias cancerosasno plano celular, porque no podemos penetrar na parede da clula efalar com o DNA. No entanto, j se sabe que esse passo importante dado quando o sistema imunolgico segrega certos agentes contra ocncer, chamados interleucinas uma classe de protenas que seassemelha aos hormnios. Nossas clulas imunolgicas produzeminterleucinas em muitas situaes cortes, arranhes, infeces,ferimento nos tecidos internos e alergias so capazes de provoc-las. (Onome interleucinas foi escolhido porque os pesquisadores primeirodescobriram que essas substncias qumicas enviam sinais entreleuccitos, ou clulas brancas do sangue.) Como surgem naturalmente, as interleucinas existem emquantidades mnimas; portanto, ficam proibitivamente dispendiosas seforem imitadas em escala comercial. Apesar desse obstculo, ospesquisadores extraram recentemente grande quantidade deinterleucina-2 (IL-2) e fizeram transfuses em 450 pacientes em estadoavanado de cncer de pele e do fgado (o custo atual de uma sriesimples de tratamento chega a 80 mil dlares). Com essa terapia, entre5 e 10 por cento dos pacientes tiveram rpida regresso de seustumores, mas sofreram srios efeitos colaterais que chegaram a mataralguns deles. A questo de que a IL-2 pode influenciar o resto do corpoa longo prazo continua sem resposta. 99. Apesar dos recuos, as interleucinas esto chegando ao ponto deserem transformadas na nova promessa de cura do cncer, como ointerferon, uma substncia qumica bem prxima dela que foi aesperana de cura nos anos 70. Grupos de engenheiros geneticistas jesto competindo nos clculos de fabricao dessa substncia emescala comercial. Com desapontamento, percebe-se que nasce maisuma falsa esperana. Por que a promessa nunca cumprida? Amedicina conhece centenas de fatos sobre as interleucinas, como oseguinte: As cadeias alfa e beta da interleucina-1 so apenas 26 porcento homlogas no nvel aminocido de seus genes; ou seja, ambas seprendem aos receptores com grande afinidade no raio molar de 10 -10.Quando compreendemos tal jargo, esses fatos no so insignificantes. Mas literalmente eles no declaram nada sobre a inteligncia dasinterleucinas, que o ponto mais importante. Se as interleucinassabem quando e onde devem lutar contra o cncer, no so suasmolculas que devem nos interessar, mas algo invisvel a capacidadedas clulas em reconhecer que a memria cancerosa est presente eprecisa ser erradicada. Isso no pode ser injetado no corpo. A guerra doorganismo contra o cncer uma briga de inteligncia contrainteligncia. As manifestaes fsicas interferon, interleucina,hormnios, peptdios etc. podem ser consideradas como armas, seassim o desejarmos, mas primeiro necessrio um bom alvo. No sentido mais profundo, por isso que no tenho f no enfoquede um projtil mgico. A penicilina foi um tiro certo porque no eranecessrio que o alvo desejado fosse to preciso, uma vez que oantibitico entra na corrente sangunea, ataca automaticamente asparedes celulares da bactria e as destri. Da mesma forma, aquimioterapia primitiva contra o cncer era uma bala grosseira,semelhante batalha qumica da Primeira Guerra Mundial. (De fato, asdrogas mais txicas usadas contra o cncer eram chamadas agentesalquilantes, criados com mostarda de nitrognio, o infame gs demostarda que tanto aterrorizou os soldados naquela guerra.) Tipos maisrecentes de quimioterapia, como os vrios hormnios das supra-renais 100. e o estrgeno, derivados do prprio corpo, tinham um alvo menosaproximado; mas agora vemos que esse avano, na realidade, pode ser oltimo suspiro da teoria de um projtil mgico. Em determinado ponto, as substncias qumicas que se quer usarso to precisas que sua ao s eficiente dentro de limites mnimos.Quando se tem um hormnio como alvo, preciso atingir seu receptor eno apenas as amplas avenidas da corrente sangunea que a penicilinapercorre. Se o receptor que se pretende atingir est envolvido numprocesso complexo, como no caso das interleucinas, nenhum alvo sersuficientemente preciso, porque a vida ou a morte da clula implicauma perfeita correspondncia de cada um dos elementos qumicos dela.Por analogia, quando se desafina uma corda de um piano, todo oinstrumento ficar desafinado; uma sonata no soar corretamente seuma nota estiver fora do tom. No pretendo fazer com que isto parea uma afirmaosentenciosa. Milhes de pacientes foram bem-sucedidos no tratamentocom drogas contra o cncer. A toxicidade da quimioterapia tem sidoConstantemente reduzida e, em muitos casos, os indesejados efeitoscolaterais, que davam to m reputao ao tratamento, diminurammuito; em especial, se considerarmos o risco de deixar um cncer semtratamento. E, ainda assim, verdade que o cncer incurvel se nofor percebido no incio. Se um paciente com cncer no pulmo vem meprocurar, nem a descoberta prematura adianta. Posso submet-lo radiao e dar a isso o nome de terapia, mas em 95 por cento dos casostrata-se apenas de um breve alvio talvez seja um meio que ele e euencontramos de afastar o desespero por no existir nenhum tratamentopara o caso. Outros tipos comuns de cncer, como os melanomas,pertencem mesma categoria. Precisamos desesperadamente de uma medicina sem projteis. Seobservarmos as interleucinas sem nos influenciarmos por seu aspectomaterial, perceberemos que seus maiores atributos so invisveis. Asinterleucinas so produzidas pelo DNA das clulas imunolgicas emdosagens, combinaes e prazos exatos fatores mais importantes que 101. a prpria molcula. Uma clula branca engolfando um invasor, como um micrbio ouuma clula cancerosa, de uma simplicidade decepcionante quandovisto em microscpio. Parece uma gota de mbar envolvendo umamosca. Na realidade, no existe processo mais complicado no corpohumano. Uma interleucina entra no cenrio em um ponto bemdeterminado, numa manobra exata. Podemos chamar a isso de caa aocncer, mas grande parte do processo imunolgico altamenteabstrata. Ele quase todo conduzido por troca de informaes. Atingir oalvo no um dos maiores objetivos da campanha. Antes que um macrfago, ou clula imunolgica, chegue asegregar qualquer agente anticncer, o sistema imunolgico toma vriasoutras providncias. Primeiro, precisa notar que o problema existe eidentific-lo exatamente; uma clula cancerosa no um vrus, enenhum dos dois um micrbio. Usando uma classe de mensageiroschamados clulas-T ajudantes, o corpo avisa o resto do sistemaimunolgico para se ativar e comear a produzir clulas assassinasnaturais. Para se certificar de que as assassinas no vo destruir o alvoerrado, o corpo coloca um rtulo qumico nos macrfagos com aidentidade do inimigo, e eles o mostraro s outras clulas queencontrarem. Isto apenas um simples esboo da sequncia inicial deao do sistema imunolgico, que tem muitas ramificaes,justaposies e desdobramentos inexplicados. Tendo apenas sondado a grande complexidade do sistemaimunolgico durante os ltimos cinco anos, os pesquisadores gostam decompar-lo ao crebro sob tal aspecto. Como o crebro, esse sistematem uma capacidade fenomenal de absorver novas informaes,percebendo e gravando na memria a identidade de qualquer novadoena no organismo, escolhendo bilhes de partculas deconhecimento. Com a mesma facilidade, poderamos dizer que o crebroe o sistema imunolgico no so iguais eles so o mesmo sistema,porque operam na mesma rede qumica. A nica diferena entre uma clula imunolgica e uma cerebral 102. que o DNA de cada uma preferiu enfatizar alguns e suprimir outrosaspectos de seu conhecimento total. A interleucina tem uma estruturaaproximada de um neuropeptdio (a literatura de pesquisa adenomina polipeptdio semelhante ao hormnio). Isso significa que,quando nossas emoes se unem a molculas, como um cavaleiro e suamontaria, elas escolhem montarias quase idnticas da interleucina.Seria falso cham-las de mensagens de cura, ou mesmo dividir asclulas entre as que levam tais mensagens e as receptoras, porque,apesar de certas clulas imunolgicas segregarem interleucinas comoparte de seu papel especfico, qualquer clula do corpo virtualmentecapaz de receb-las e, portanto, de fabric-las. Talvez essa capacidadesilenciosa seja ativada em recuperaes espontneas. Ou sero os nveis de pensamento que travam uma luta corpo acorpo com os fantasmas da memria, e essas clulas fsicas que vemosno passam de cpsulas das balas detonadas e espalhadas pelo campode batalha? Para que essa ltima possibilidade seja verdadeira, a menteprecisaria ser diretamente conscientizada de que h a ameaa de umamemria cancerosa. certo que o viciado e o anorxico sabem que essefantasma est ali. E j mencionei certos tumores, como o do pncreas,que primeiro tornam o paciente instvel e deprimido, para s depois dealgum tempo o mdico descobrir fisicamente o tumor maligno. Esseaviso prvio depende da efetiva presena de uma clula cancerosa. Noentanto, isso no exclui um aviso ainda mais prematuro. Para descobrirmos de onde ele pode vir, teremos de nosaprofundar ainda mais na questo da afinidade entre a inteligncia e amatria. Acredito na necessidade imperiosa de que isso seja feito antesque a teoria do projtil mgico entre em colapso. A interleucina no uma bala, mas uma partcula de vida em movimento com a intelignciado cavaleiro invisvel. A prpria vida inteligncia que est em toda aparte, montada em substncias qumicas. No devemos cometer oengano de pensar que cavaleiro e cavalo so um s. A inteligncia livrepara ir aonde desejar, mesmo at onde as molculas no conseguem. 103. 6 O Corpo Mecnico Quntico do Homem Noventa anos depois de comearem a surgir, os insights da fsicaquntica continuam sendo um mistrio para a maioria das pessoas.Mesmo assim, quando se compreende o significado da descoberta dosneuropeptdios, a compreenso do quantum exige apenas mais umpasso. Essa descoberta foi muito importante por ter mostrado que ocorpo suficientemente fluido para se misturar mente. Graas smolculas mensageiras, eventos que aparentemente no tm nenhumaligao como um pensamento e uma reao do corpo agoramostram-se mais consistentes. O neuropeptdio no um pensamento,mas move-se como ele e serve como ponto de transformao. Oquantum faz exatamente a mesma coisa, s que o corpo estudado nessaquesto o universo, ou a natureza como um todo. Precisamos estudar o quantum de uma molcula. Um neuro-peptdio aflora na existncia ao toque de um pensamento, mas de ondevem esse afloramento? Um pensamento de medo e a substncia em queele se transforma esto de algum modo ligados a um processo oculto natransformao da no-matria em matria. A mesma coisa acontece em toda a natureza, s que nocostumamos chamar esse processo de pensar. Quando voc chega at onvel dos tomos, a paisagem no mais feita de objetos slidosmovendo-se volta de outros, como parceiros de dana que seguem 104. passos previsveis. As partculas subatmicas so separadas porenormes espaos, numa proporo, para cada tomo, de 99,999 porcento de vazio. Isso verdade quando se trata de tomos de hidrogniodo ar, de tomos da madeira de que so feitas as mesas, assim como detodos os tomos slidos em nossas clulas. Portanto, tudo o queconsideramos slido to vazio quanto o espao intergalctico. Como essas to vastas extenses de vazio, salpicadas de longe emlonge por partculas de matria, podem se transformar em sereshumanos? Para responder a essa questo necessria uma perspectivaquntica. Com a compreenso do quantum, entramos numa vastarealidade que abrange desde os quarks s galxias. Ao mesmo tempo, ocomportamento da realidade quntica acaba ficando muito ntimo defato, ela a linha mais tnue que separa o corpo humano do corpocsmico. Em seu projeto monumental para convencer todos os fsicos aseguirem certas leis consistentes e racionais, Isaac Newton explicava asobras da natureza em termos de corpos slidos, movimento em linhasretas e constantes fixas que regulavam todos os eventos fsicos. Este omodelo da natureza como um complicado jogo de bilhar, sendo Newtono principal jogador. Como a matria e a energia permaneceram dentrodessas regras estabelecidas, no havia necessidade de teorizar sobreum mundo oculto; tudo acontecia s claras. Podemos expressar essaidia com um simples diagrama: Aqui, A uma causa e B, um efeito. Esto ligados por uma linhareta, demonstrando que causa e efeito esto ligados logicamente nomundo que nos familiar, o mundo dos sentidos. Se A e B so duas 105. bolas de bilhar, fazer com que uma bata na outra um eventoprevisvel. No entanto, se A for um pensamento e B, um neuropeptdio, essediagrama j no serve. No existe uma linha reta de ligao entre umpensamento imaterial e um objeto material, mesmo que seja minsculocomo uma molcula-peptdio. Em vez desse, necessrio um diagramaque tenha uma curva: O formato em U mostra que o processo que deve acontecer no serealiza acima da linha, no mundo racional de Newton. Existe umatransformao oculta em andamento, a de um pensamento emmolcula. Essa transformao no leva nenhum tempo nem aconteceem algum lugar realiza-se apenas por impulso do sistema nervoso.Quando voc pensa na palavra rosa, muitas clulas nervosas precisamser acionadas (ningum sabe quantas, mas digamos 1 milho, o quetalvez seja absurdamente pouco), mas essas clulas no se comunicamumas com as outras passando a mensagem de A a B, a C, e assim pordiante, at todo o milho t-la recebido. O pensamento apenasacontece, localizando-se subitamente no espao e no tempo, e com eletodas as clulas do crebro mudam sincronicamente. A perfeitacoordenao desse pensamento-evento com 1 milho de clulascerebrais que fazem os neurotransmissores certamente aconteceuabaixo da linha. Toda a rea abaixo da linha no uma regio para ser visitada noespao nem no tempo; ela apenas est presente aonde quer que voc v, 106. quando seus pensamentos se transformam em molculas. Ela poderiaser imaginada como uma sala de controle que relaciona qualquerimpulso mental com o corpo. Em qualquer tempo, os 15 bilhes deneurnios do sistema nervoso podem ser coordenados com perfeitapreciso pelo comando abaixo dessa linha. A mesma mudana de causas e efeitos, de linhas retas em curvas,em formato de U, ocorreu ao nascer a fsica quntica. Mesmo quandotudo na natureza parecia acontecer acima da mesa de jogo, de acordocom a teoria clssica newtoniana obviamente os fsicos deixam oseventos mentais fora do quadro , umas poucas coisas no podiam serexplicadas sem uma curva. A mais evidente era a luz. A luz pode secomportar como A, uma onda, ou B, uma partcula. As duas sototalmente diferentes na fsica newtoniana, j que as ondas soimateriais e as partculas, concretas. Mas a luz, de algum modo, atuacomo uma ou outra, dependendo das circunstncias. Nesse caso, deveter feito uma curva abaixo da linha: fcil ver a luz como uma onda ou vibrao. Um prisma divide aluz branca nas vrias cores do arco-ris, e isso ocorre porque ela secompe de diferentes comprimentos de ondas luminosas; tal fato setorna aparente quando as ondas so separadas em um espectro. A luzde uma lmpada incandescente tem seu prprio espectro decomprimentos de ondas, que gerado quando a eletricidade atravessa ofilamento de tungstnio. Mas, quando se diminui sua luminosidadegradativamente at que reste um mnimo de luz, ela no se irradiar 107. como uma onda e sim como uma partcula. (Ainda no existe nenhuminterruptor com dimmer que seja to sensvel e exato, mas os fsicosdifundiram a luz de tal forma que ela exps sua granulosidade.) Anatureza tambm equipou nossos olhos para reagirem fisicamente luznesse nvel quntico se apenas um fton penetra na retina, umlampejo transmitido pelo nervo ptico. Mas nossos crebros noprocessam apenas esse lampejo. A palavra quantum do latim, que significa quanto descreve a menor unidade a ser chamada de partcula. Um fton umquantum de luz, porque no se pode dividi-lo em partculas menores. Ofton se manifesta quando um jorro de eltrons atinge um tomo detungstnio; os eltrons em movimento na eletricidade colidem com oseltrons que giram na rbita exterior do tomo de tungstnio, e dessacoliso precipita-se um fton, um quantum de luz. Esse quantum uma partcula muito estranha, porque no tem massa, mas para nossospropsitos o que importa nele sua capacidade de se transformar emuma onda de luz, tendo de fazer a curva abaixo da mesa. Atransformao ocorre em um domnio desconhecido, que escapa s leisde Newton. J que no estamos procurando estudar fsica, no vou entrar emmaiores detalhes. Basta saber que depois de Einstein, quando MaxPlanck e outros fsicos pioneiros foram capazes de, na virada do sculo,demonstrar a natureza quntica da luz, disso resultaram muitasconcluses bastante curiosas. Fatos considerados evidentes no mundodos sentidos precisaram ser conciliados com estranhas distores detempo e espao e o foram. Como no caso do neuropeptdio, oquantum capaz de deixar a natureza to flexvel que se torna possvela inexplicvel transformao de no-matria em matria, de tempo emespao, de massa em energia. Este modelo para um evento quntico bsico mostra a curva quesempre sai fora do alcance dos eventos comuns: 108. Como o pensamento e o neuropeptdio, a luz no pode ser umaonda e um fton ao mesmo tempo; uma coisa ou outra. E claro quea lmpada de tungstnio no passa a uma outra realidade quando desligada. Mas, de algum modo, a natureza estabelece suas leis paraque a luz possa ser A ou B, enquanto ambas so mantidas dentro damesma realidade, construindo um ponto de transformao. (Ainda hojemuitas pessoas acreditam que Einstein destruiu a teoria de Newtonquando, de fato, ele salvou e expandiu a crena do prprio Newton naordem perfeita.) Uma viso surpreendentemente elegante da mente e do corpopode surgir desse evento bsico; para isso, basta um diagrama: A mente e o corpo ficam acima da linha. A um evento mental,um pensamento; todas as outras letras correspondem a processosfsicos que se seguem a A. Se voc fica com medo (A), as outras letrasso os sinais enviados s glndulas supra-renais, a produo deadrenalina, o batimento cardaco rpido, a presso do sangue elevada, eassim por diante, correspondendo a B, C, D etc. Todas as mudanas 109. fsicas no organismo podem estar ligadas a uma cadeia natural decausa e efeito, exceto o espao depois de A. Esse o ponto em queprimeiro ocorre a transformao do pensamento em matria e precisaocorrer, ou os outros eventos no acontecero. preciso haver uma curva em algum ponto da linha e nesseponto ela se rompe, porque a mente no toca a matria acima da mesa.Se quisermos erguer o dedo mnimo (A), um mdico pode acompanhar oneurotransmissor (B) que ativa o impulso que percorre o axnio donervo (C), fazendo uma clula muscular responder (D), o que resulta nodedo se erguendo (E). Mas nada do que o mdico possa descreverexplicar o que acontece de A a B isso exige uma curva. A imagemassemelha-se a uma fila de pessoas passando baldes umas s outras,onde todas o apanham da anterior, menos a primeira, que o pega nosabendo de onde. De lugar nenhum. Lugar nenhum um termo quase exato neste caso, porque nose pode descobrir o ponto em que os ftons se transformam em ondasde luz. O que acontece exatamente nessa zona ? no conhecido pelosfsicos, tampouco pela medicina. As curas milagrosas parecemexemplos de mergulho na zona ?, porque, em tais casos, a cooperaoda mente com a matria provoca um inesperado salto quntico; mas,como outros episdios mente-corpo, realiza-se de modo misterioso. Muitos anos atrs, um bombeiro de Boston, com bem mais de 40anos, chegou certa noite ao pronto-socorro de um hospital suburbano,queixando-se de sbitas e violentas dores no peito. O mdico interno oexaminou e no encontrou nada de anormal no funcionamento de seucorao. O paciente partiu pouco convencido e logo voltou com osmesmos sintomas. Foi enviado para que eu, como mdico da equipeprincipal, o examinasse, mas tambm no encontrei nada de errado emseu corao. Apesar do exame completo, o bombeiro voltava repetidamente aohospital, quase sempre tarde da noite. A cada vez que chegava, sempreagitado, ele insistia com absoluta certeza de que estava sofrendo docorao. Mas nenhum exame, inclusive os mais sofisticados 110. ecocardiogramas e angiogramas, registrou o menor problema.Finalmente, diante da crescente ansiedade do homem, fiz-lhe umarecomendao para aposentadoria, no por incapacidade fsica, maspuramente por motivos psicolgicos. A diretoria do setor mdico doDepartamento de Bombeiros recusou o pedido por no ter provasmateriais do caso. Dois meses depois, o homem apareceu pela ltimavez no pronto-socorro. Dessa vez viera estendido na maca, porquesofrera um enfarte violento. O ataque cardaco destruiu 90 por cento domsculo do corao; dez minutos depois, o paciente estava morto. Mas,antes, ele teve energia suficiente para virar a cabea em minha direoe murmurar: Agora o senhor acredita que eu sofria do corao? O que esse caso atesta de modo to dramtico que a curva dazona ? de tal forma poderosa que pode mudar qualquer realidadefsica no organismo. Acho que devo chamar o ocorrido de efeitoquntico, porque no seguiu as regras de causa e efeito observadas pelamedicina e estabelecidas como reaes normais do corpo. Muitaspessoas cultivam receio de ter um ataque cardaco, mas no morremdele; no caso oposto, muitos ataques do corao ocorrem sem o menoraviso da mente. Mesmo se afirmssemos, de acordo com a medicinamente-corpo, que um pensamento causou o ataque do corao, comoele encontrou o meio de levar avante sua inteno fatal? Ao programar o conceito de ataque do corao em umcomputador, saberemos exatamente o que estamos fazendo. Para obteros dados processados, os circuitos podero ser ativados para lev-los tela e os manipulamos segundo o mtodo operacional de seu sistema.Mas o pensamento ataque do corao no agiu desse modo com meupaciente. Ele no sabia de onde viera o pensamento; quando estesurgiu, ele no conseguiu escapar; em vez de ficar em seu lugar, opensamento invadiu o corpo todo com resultados desastrosos. Essa apenas a metade do mistrio de um evento quntico a metadenegativa; a viagem zona ? tambm pode ter resultados positivosadmirveis. 111. Outra paciente minha, uma senhora tmida de mais de 50 anos,veio me procurar h dez anos queixando-se de fortes dores abdominaise de ictercia. Imaginando que ela sofresse de clculos biliares,encaminhei-a imediatamente cirurgia; porm, quando estava namesa, revelou-se um grande tumor maligno que lhe invadira o fgado,com ramificaes por toda a cavidade abdominal. Julgando o casoinopervel, os cirurgies fecharam a inciso sem tocar em nada. Como afilha pediu para no contarmos nada me, disse-lhe que os clculosbiliares haviam sido removidos e que a operao fora bem-sucedida.Imaginei que a famlia contaria a verdade depois de algum tempo,porque provavelmente a mulher tinha poucos meses de vida pelomenos poderia viv-los com tranqilidade. Oito meses depois, espantei-me ao v-la de volta a meuconsultrio. Vinha fazer exames de rotina, que no revelaram ictercianem dores, ou qualquer sinal de cncer. S um ano depois ela me fezum comentrio estranho. Doutor disse ela , h dois anos eu tinha certeza de queestava com cncer, e eram apenas clculos biliares; ento, jurei a mimmesma que nunca mais ficaria nem um dia doente na vida. O cncer dessa senhora nunca reapareceu. Ela no usounenhuma tcnica e aparentemente se curou a partir de uma profundaresoluo, o que lhe bastou. Tambm devo chamar esse caso de eventoquntico, devido transformao fundamental em nvel mais profundoque o dos rgos, tecidos, clulas e at do DNA, ocorrida diretamente nafonte de existncia do corpo, no tempo e no espao. Meus dois pacientes uma, com pensamentos positivos, e outro, com negativos conseguiram mergulhar no domnio ? e dali ditaram a prpriarealidade. Casos to misteriosos como esses sero, realmente, exemplos deeventos qunticos? Um mdico poderia criar objees, considerandoque estamos apenas fazendo metforas, que o mundo oculto das 112. partculas elementares e das foras fundamentais exploradas pelosfsicos qunticos muito diferente do mundo oculto da mente. Aindaassim, pode-se argumentar que a regio inconcebvel de onde tiramos opensamento de uma rosa a mesma de onde emerge um fton ou ocosmos. A inteligncia, como vamos descobrir, tem muitas propriedadesqunticas. Para deixar isso claro, comearemos com o esquema familiarexposto nos livros de estudo, que apresenta o corpo humanoverticalmente, com uma hierarquia de sistemas, rgos, tecidos eclulas: Sistema rgo Tecidos Clulas DNA Nesse quadro, cada nvel do corpo est logicamente relacionadoao seguinte enquanto nos mantemos acima da linha, os processosque se assemelham vida acontecem numa sequncia definida. Issopode ser demonstrado pelo feto no tero: um beb comea comopartcula de DNA situada no centro do vulo (clula) fertilizado; com otempo, a clula se multiplica at formar uma bola de clulassuficientemente grande para comear a se dividir em tecidos efinalmente em rgos, como o corao, o estmago, a espinha dorsal eassim por diante; ento surge todo o sistema nervoso, o aparelhodigestivo e o respiratrio; por fim, no exato momento do nascimento, ostrilhes de clulas do recm-nascido esto coordenados para manter avida de todo o organismo, sem o auxlio da me. Mas se o DNA o degrau inicial dessa escadinha organizada, oque o faz se expandir, em primeiro lugar? Por que ele inicialmente se 113. divide, no segundo dia da concepo, e comea a formar o sistemanervoso no dcimo oitavo? Como todos os eventos qunticos, algoinexplicvel acontece abaixo da superfcie, para formar a intelignciaonisciente do DNA. O que nos importa no o DNA ser complexodemais para ser compreendido nem tratar-se de uma molculasupergenial; o que torna o DNA to misterioso que ele vive no pontoexato da transformao, como um quantum. Ele passa toda sua vidagerando mais vida, o que definimos como a inteligncia ligada ssubstncias qumicas. O DNA est Constantemente transferindomensagens do mundo quntico para o nosso, ligando novas partculasde inteligncia e novas partculas de matria. Localizado no meio de cada clula, completamente fora de cena, oDNA consegue coreografar tudo o que acontece no palco. Pode soltarpedacinhos de si mesmo, que viajam pela corrente sangunea comoneuropeptdios, hormnios e enzimas, enquanto faz aflorar outros, at aparede da clula, como receptores, instalando antenas para ouvir asrespostas a um turbilho de perguntas. Como o DNA consegue sersimultaneamente a pergunta, a resposta e o observador silencioso detodo o processo? A resposta no est no plano da matria. H muito tempo osbilogos moleculares subdividiram o DNA em componentes menores,mas toda a operao continua acima da linha do inundo newtoniano: DNA Submolculas Orgnicas tomos Partculas Subatmicas Como j vimos, o DNA no feito de nada em especial. Seusfilamentos de material gentico podem ser subdivididos em molculas 114. mais simples, como acares e aminas, e essas, em tomos de carbono,hidrognio, oxignio etc. Quando no est no DNA, um tomo dehidrognio ou de carbono no tem nenhum tipo de aparelho de controledo tempo em si. Em bilhes de combinaes diferentes, o hidrognio e ocarbono simplesmente existem; mas no DNA eles contribuem para umcontrole do tempo, uma habilidade de produzir algo novo a cada dia,que perdura nos seres humanos por mais de setenta anos cadaestgio da vida se desenvolve de acordo com o prazo estabelecido peloDNA. (Em certas rvores, o DNA tem programao para mais de dois milanos.) No importa de que distncia seja visto, o terreno em que se apiaa escadinha no muito firme. Quando se observa alm dos tomos ese comea a subdividir o DNA em eltrons, pr-tons e partculas aindamenores, deve ocorrer um evento quntico. De outro modo, ficaremosna situao embaraosa de afirmar que a vida feita do nada espaovazio, sem matria nem energia , que tudo o que se conseguequando se continua dividindo as partculas slidas alm de certo ponto. No nvel quntico, matria e energia tornam-se algo que no matria nem energia. Os fsicos, s vezes, referem-se a esse estadoprimordial como singularidade, uma construo abstrata e sem limiteno tempo e no espao, mas que representa a compresso de todas asdimenses expandidas do universo. No Big Bang, o universo surgiu deuma grande exploso a partir da singularidade assim a teoria ,que, por analogia, devemos calcular como um ponto menor que a menorcoisa que existe. Ainda assim, esse estupendo evento da criaoacontece em outra escala todas as vezes que se pensa, por exemplo, napalavra rosa. No existe nenhum pedacinho de matria em um local definidoguardando essa palavra para ns ela surge na existncia vinda deuma regio que simplesmente sabe como organizar matria einteligncia, mente e forma. Os tomos surgem e se vo em nossocrebro, mas a palavra rosa no desaparece. Agora chegamos a umponto muito interessante. A singularidade muito explorvel hoje em 115. dia; ela no existia antes do Big Bang, j que fica fora do tempo e doespao; portanto, tem de estar aqui e agora de fato, est em toda aparte e no se confina ao passado, ao presente nem ao futuro. A fsicaquntica usa gigantescos aceleradores de partculas e outrosequipamentos misteriosos para arrancar da zona ? ainda que umlampejo desse mundo oculto. A trilha de uma nova partcula elementarque passe girando velocidade de um milionsimo de segundo seruma grande descoberta, porque significa que a zona desconhecida foialcanada e um lampejo de sua realidade trazido para a nossa. Haveriapossibilidade de estarmos fazendo a mesma coisa enquanto pensamos,sentimos, sonhamos ou desejamos? Como seria o nvel quntico em nosso interior? Poderia ser,simplesmente, a extenso lgica de algo a que j estamos muitofamiliarizados, o neuropeptdio. A grande capacidade do neuropeptdio a de obedecer aos comandos da mente com a velocidade da luz. Acreditoque ele seja capaz disso porque est na fronteira da zona quntica. Acincia j descobriu que centenas de neuropeptdios existem e socriados pelo corpo todo. necessrio apenas mais um passo paradescobrirmos que todas as nossas clulas so capazes de fabricarqualquer dessas substncias. Se isso for confirmado, o corpo todo serum corpo pensante, a criao e expresso da inteligncia. Eis umoutro diagrama que demonstra a situao: J sabemos que a inteligncia pode assumir a forma de umpensamento ou de uma molcula; isso est representado no diagrama 116. como mente e corpo, as duas escolhas possveis da inteligncia. Asduas, porm, esto sempre unidas, mesmo que aparentem estarseparadas. Para coorden-las, inseri um nvel quntico, chamadocorpo mecnico quntico. No se trata de algo fsico, mas de umacamada de inteligncia, a camada em que o corpo se estrutura e seorganiza como um todo. Dela vem o know-how que torna as molculasvivas, em vez de inertes. No devemos assumir que os pensamentos se transformem emmensageiros qumicos, um de cada vez. bem sabido que, de algummodo, todos os bilhes de partculas de nosso organismo atuam comouma grande molcula de DNA, como acontece no desenvolvimentoincrivelmente complexo de um feto, bem coordenado no tero da me do primeiro dia ao nono ms, todo o DNA de seu organismo atua comoum s. O mesmo se verifica conosco hoje. Talvez os efeitos qunticos no estejam exclusivamente l fora,no espao, mas aqui tambm. No temos buracos negros onde amatria e a energia desaparecem para sempre? Chamamos a isso deesquecimento. No aumentamos e diminumos a velocidade do tempocomo acontece com um viajante espacial, quando seu foguete aceleraat quase a velocidade da luz? E, ainda, quando um escritor capaz depensar uma histria toda em um instante, mesmo que leve horas paraescrev-la? Em compensao, podemos passar meia hora nosesforando para lembrar o nome de algum, o que surgirinstantaneamente no momento em que encontrarmos a zona intemporalchamada memria, de onde o tal nome ser recuperado. Sempre que um evento mental precisa encontrar umacontrapartida fsica, trabalha por meio do mecanismo quntico do corpohumano. Esse o segredo da forma como se associam sem erros os doisuniversos: o da mente e o da matria. No importa que possam parecerdiferentes, a mente e o corpo esto embebidos de inteligncia. A cinciatende ao ceticismo diante de qualquer argumento de que a inteligncia 117. que trabalha na natureza (essa uma estranha anomalia histrica, jque todas as geraes que nos precederam aceitavam sem questionaralgum tipo de ordem universal). No entanto, se no existe nada fora darealidade comum que possa unir coisas e acontecimentos, somoslevados a um conjunto de impossibilidades. Podemos observar esse fato na lei da gravidade. O bom senso nosdiz que dois objetos separados por um espao vazio no devem terqualquer ligao entre si; no jargo dos fsicos, eles ocupam suarealidade local. Mas a Terra gira em torno do Sol, a cuja rbita presapela gravidade, mesmo que ambos sejam dois corpos separados por umespao vazio de 150 milhes de quilmetros. Ao descobrir essa violaoda realidade local, Newton ficou chocado e recusou-se a especular comoisso acontecia. Desde ento, a realidade local tem levado um golpe apsoutro. A luz, as ondas de rdio, os raios laser e todas as outras foraseletromagnticas viajam pelo espao vazio; matria e antimatriaparecem existir em universos paralelos, sem contato fsico; aspartculas subatmicas possuem rotaes que combinam com outras,no importando o quanto estejam distantes no tempo e no espao arotao combina at extremos opostos do universo. O que significa,portanto, que a idia ditada pelo bom senso da realidade localverdadeira s vlida em determinado nvel. A realidade global, como explicada pelos fsicos qunticos, mais profunda. Uma famosa formula matemtica, conhecida comoteorema de Bell (seu autor foi o fsico John Bell), estabelece que arealidade do universo deve ser no-local; em outras palavras, todos osobjetos e eventos no cosmos esto interligados e reagem s mudanasde estado dos outros. O teorema de Bell foi formulado em 1964, mas,algumas dcadas antes, o grande astrnomo ingls Sir ArthurEddington havia antecipado essa interligao ao dizer: Quando oeltron vibra, o universo estremece. Os fsicos agora aceitam ainterconexo como um princpio normativo, junto a muitas formas desimetria que se estendem pelo universo por exemplo, existe a teoriade que cada buraco negro pode ser ligado, em algum lugar, a um 118. buraco branco correspondente, mas nenhum foi observado at hoje. Que tipo de explicao conseguiria satisfazer a exigncia de Bell,de uma realidade no-local, totalmente interligada? Teria de ser umaexplicao quntica, porque, se a gravidade est presente em toda aparte ao mesmo tempo, se os buracos negros sabem o que os buracosbrancos esto fazendo e se a mudana da rotao de uma partculacausa mudana igual, mas oposta, em qualquer ponto do espaoexterior, evidente que essa informao est viajando de um lado aoutro, mais rpida que a luz. Isso no explicado na realidade comum,nem por Newton nem por Einstein. Tericos contemporneos como o fsico britnico David Bohm,que trabalhou profundamente com as implicaes do teorema de Bell,tiveram de supor a existncia de um campo invisvel que mantm todaa realidade unida, um campo que possui a propriedade de saber o queest acontecendo em qualquer lugar ao mesmo tempo. (A palavrainvisvel, aqui, significa que, alm de no ser visto pelos olhos, tambm imperceptvel para qualquer instrumento.) Sem nosaprofundarmos mais nessas especulaes, podemos perceber que ocampo invisvel muito semelhante inteligncia oculta do DNA e queambos se parecem muito com a mente. A mente tem a propriedade de manter todas as nossas idiasarmazenadas, digamos, em um reservatrio silencioso, onde soorganizadas com exatido em conceitos e categorias. Sem definirmos o processo como pensamento, talvez vejamos anatureza pensar atravs de muitos canais diferentes, dos quais nossasmentes esto entre os mais privilegiados; ela pode criar sua realidadequntica e, ao mesmo tempo, experiment-la. Um evento quntico nocampo das ondas de luz pode ser muito objetivo, mas e se a realidadequntica estiver presente apenas no campo de nossos pensamentos,emoes e desejos? Eddington disse claramente que, como fsico,acreditava que a matria-prima do mundo era matria presente.Portanto, o corpo mecnico quntico, como uma forma de inteligncia,tem seu lugar plausvel em uma realidade no-local. 119. A beleza de uma imagem to simples reside no fato de que ainteligncia simples; as complicaes surgem quando algum procuradetalhar toda a maquinaria incrivelmente complexa do sistema mente-corpo. Os padres das ondas cerebrais de um psictico, na longa tira depapel do encefalgrafo, so semelhantes aos de um poeta, noimportando a sofisticao da anlise posterior. Ao pensar nos milharesde horas necessrias para a descrio cientfica das consequnciasqumicas de um dia na vida de uma clula, um neurocientista meuamigo comentou: Somos obrigados a concluir que a natureza inteligente porque complicada demais para ser chamada de qualquer outra coisa. Ele poderia, do mesmo modo, ter dito simples demais. Umcrebro humano que muda seus pensamentos em milhares desubstncias qumicas a cada segundo no , afinal, to complicadoquanto inconcebvel. Na ndia antiga, acreditava-se que a inteligncia seespalha por toda a parte; era chamada de Brahman, palavra snscritaque significa grande. Consideravam-na um campo invisvel. Um ditadode milhares de anos atrs afirma que o homem que no encontrouBrahman como um peixe sedento que no encontrou gua. Toda nossa fisiologia pode se transformar to rapidamente quantoum neuropeptdio, que parte do corpo mecnico quntico. Porquepodemos mudar assim como o mercrio, a qualidade fluida da vida natural em ns. O corpo material um rio de tomos; a mente, um riode pensamentos; e o que os mantm unidos um rio de inteligncia. Pode parecer que o corpo mecnico quntico s se envolva emquestes de vida ou morte, mas isso no verdade. Vivemos nele sempensar, naturalmente, como um todo. Tenho uma paciente quepercebeu esse fato enquanto estava sentada na grama, comendo pofrancs e ouvindo Mozart. Durante dois anos seu caso tinha sido muitofrustrante. Ela sofria e se queixava de vrios sintomas desagradveis,inclusive irritao nos intestinos, dores de cabea, fadiga, insnia e 120. depresso, que resistiam a qualquer tentativa de cura. Nenhum dessesmales era fatal, mas ela vivia muito infeliz. O tratamento convencionalcom antidepressivos e tranquilizantes ajudou pouco e tambm noconsegui nada com o uso do Ayurveda. Ento, certo dia, ela foi a Tanglewood, a sede de vero daSinfnica de Boston e lugar ideal para um piquenique. Ela estendeu atoalha xadrez no gramado e deitou-se ao sol, ouvindo msica, enquantocomia seu lanche em paz. Ficou muito feliz com aquilo tudo e dormiutranquilamente naquela noite, como no acontecia h anos. Mas estavato habituada a ser doente que no notou a nova situao. Passou-seoutro ano de sofrimentos e chegou a poca de voltar a Tanglewood,quando a mesma coisa aconteceu todos os sintomas desapareceramdurante o dia e ela dormiu maravilhosamente bem noite. Mas dessa vez ela reparou no que acontecia. Veio me procuraralegremente, sacudindo o recorte de um jornal mdico com um artigosobre a sndrome de SAD (desordem afetiva sazonal), que descrevia omal que costuma provocar sria depresso durante o inverno, semcausa aparente. Agora, sabemos que a causa est ligada ao rgopineal, no interior do crebro; essa glndula endcrina, oval e achatada,embora cercada de massa cerebral, reage s mudanas da luz do solcomo se fosse uma espcie de terceiro olho, o que todos queremdesenvolver na Nova Era (alguns animais menos evoludos, como alampreia, realmente possuem um terceiro olho). Em certas pessoas, aexposio insuficiente ao sol, no inverno, dispara suas secreespineais; a glndula passa a produzir em excesso um hormnio chamadomelatonina, que provoca depresso. Veja disse ela , tenho sofrido essa sndrome o tempo todoe bastou que me sentasse ao sol para ficar novamente com a glndulapineal normal. Sinto muito respondi , mas essa doena costuma aparecerno inverno. O rosto dela demonstrou desapontamento e logoprossegui: No entanto, voc colocou o dedo num ponto muitoimportante; agora sabemos que sofre de uma deficincia que tem 121. tratamento. E qual ? ela perguntou. Deficincia de piquenique disse eu e, pela primeira vez, viseu rosto se iluminar em um verdadeiro sorriso. Ela prossegue seu autotratamento. Regularmente foge dapaisagem cinzenta do escritrio e vai sentar-se ao sol para almoar nacompanhia dos amigos, ouvindo Mozart. Isso no pode parecer umremdio muito evoludo e, em certo sentido, no ; mas funciona,porque precisamos da Natureza para libertar nossa natureza. Vivemoscercados pela melhor influncia de cura ar puro, luz do sol e beleza.Na ndia, o Hipcrates do Ayurveda, um grande mdico e sbiochamado Charaka, prescrevia um pouco de luz solar para todas asdoenas, alm de uma caminhada pela manh; seu conselho jamaisperder o valor. Se encontro uma campina verdejante, salpicada de margaridas, esento-me beira de um regato de guas cristalinas, descobri umremdio. Ele suaviza meus sofrimentos como o colo de minha me,quando eu era pequeno, porque a Terra realmente minha me e acampina verde, seu colo. Voc e eu somos estranhos um ao outro, maso ritmo interno de nossos corpos ouve as mesmas ondas do oceanoque nos embalavam em poca anterior memria. A Natureza a cura do homem, porque ela o homem. Quando oAyurveda diz que a lua nosso olho direito e o sol, nosso olho esquerdo,no devemos zombar. Foi banhando-nos luz da lua, ao sol e no marque a Natureza formou os corpos que habitamos. Esses foram osingredientes que nos proveram, a cada um, de nossa parte da Natureza uma concha, um sistema de sustentao de vida, um companheirontimo, um lar por sete dcadas ou mais. A descoberta do domnio quntico abriu caminho para seperceber a influncia do sol, da lua e do mar no fundo de ns mesmos.S estou me reportando a isso na esperana de que a exista maispossibilidades de cura. J sabemos que um feto humano se desenvolvelembrando-se das formas e imitando um peixe, anfbios e mamferos 122. primordiais. As descobertas qunticas nos permitem penetrar emnossos prprios tomos e relembrar o universo primordial. Em eraspassadas, surgiram no universo a luz e o calor para durar 20 bilhes deanos; mas cada ser humano uma nova centelha iluminando o fogoque irradia a vida. Na ndia vdica, o mesmo fogo sagrado que havia naTerra, Agni, servia para nomear o calor digestivo do estmago e o fogosolar no cu. Sir Arthur Eddington afirmou certa vez que duas realidadesdeviam ser conhecidas em seus prprios termos: uma trivial e outra desuma importncia. A trivial era a realidade mecanicista investigada pelacincia; a importante era a realidade humana da experincia comum.Na realidade cientfica, afirmou ele, a Terra uma partcula de matriagirando em volta de uma estrela medocre, perdidas ambas entrebilhes de objetos estelares mais importantes. Mas, na realidadehumana, ela continua sendo o centro do universo, porque a vida queabriga a nica coisa importante, pelo menos para ns. A expresso mais pungente dessa idia surgiu de uma pacienteque tinha muitos problemas de sade, inclusive cncer. Para readquirirsua perspectiva, ela resolveu escrever algumas experinciasimportantes do passado. Uma das que lhe ocorreu foi de quando eraainda bem mocinha; deu-lhe o ttulo Mas Como Eu Posso Ser a Lua? 16 anos de idade. Estou deitada a ss no pasto escuro, exceto pela magntica lua cheia. H uma completa sensao de quietude. Meu ser parte da Terra e, ao mesmo tempo, parte da pura luz branca da lua. Nada mais importa. Por um segundo imagino: Estou morta? No tem importncia estou passando uma hora nas mos de Deus e Ele se transformar em parte de mim. Um nmero surpreendente de pessoas teve experincias comoessa, a que Eddington denominava o contato mstico com a Terra. 123. Minha paciente, tempos depois, afastou-se de sua experincia e foi-sehabituando gradualmente ao desgaste do trabalho e das preocupaesfamiliares que nos separam a todos da Natureza; no caso dela, oacmulo de estresse fez com que adoecesse frequentemente. (Sua vidamais recente recebeu um ttulo custico: Ir Contra a Natureza Isso a Vida Adulta?) O estranho que, no momento em que deixou de contrariar aNatureza, o velho sentimento de ligao voltou com a mesma fora.Quase aos 30 anos, ela foi visitar uma praia no Pacfico e escreveu: Durante horas, sozinha na praia, voltei a ficar com Deus. Eu era a onda que crescia e arrebentava, seu rudo, sua fora. Eu era a areia morna e vibrante, viva. Eu era a brisa suave, livre. Eu era o cu puro e sem fim... Sentia apenas um amor enorme. Eu era mais que meu corpo e sabia disso. Esse momento foi absolutamente belo e purificador. Tambm como mdico acredito no que ela descreve. Nossomecanismo interno de cura combina perfeitamente com o externo. Ocorpo humano no se parece com uma colina verde, mas suas cinzas,sua gua cantante, a luz do sol e a terra no foram esquecidas; foramsimplesmente transformadas em ns. (Existe um bom motivo paratodas as medicinas antigas afirmarem que o homem feito de terra, ar,fogo e gua.) Como o corpo inteligente e conhece esse fato, sente-selivre quando volta ao lar da Natureza. com enorme alegria quereconhece a me. Essa sensao de liberdade vital permite que asnaturezas interna e externa se misturem. O mesmo verdade para ocorpo mecnico quntico: ele apenas uma porta de volta Natureza.No h necessidade de explic-lo, a no ser por um triste fato: ointelecto, indo contra a Natureza, fez um timo trabalho de bloqueiodessa porta. 124. Existem outras coisas para se dizer a respeito do corpo mecnicoquntico, mas no consigo pensar em mais nada que seja necessriosaber. A medicina de hoje quer dar um salto alm dos problemasatuais, s que esse desejo se transformou em espera. Um colega meu defaculdade, em Nova Dlhi, teve ascenso meterica nos Estados Unidoscomo pesquisador e, antes de completar 45 anos, j lecionava naFaculdade de Medicina de Harvard. Recentemente, jantamos juntos emum restaurante de Boston e depois, durante a conversa, ele fez umapreviso: Houve uma reunio com os principais pesquisadores demedicina em Washington comentou sombriamente e todosconcordamos que at 2010, aproximadamente, ainda no haver curapara os casos mais graves de cncer e nenhum avano na compreensoda AIDS. Esse sombrio prognstico deve ser evitado a qualquer preo. Podeser impecvel do ponto de vista cientfico, mas no faz sentido naperspectiva quntica. Somos todos eficientes navegadores nos domniosda zona ?, onde a cincia ainda tateia com uma rstia de luz. Isso nosugere uma soluo? Os misteriosos colapsos da inteligncia do corpo,que ocorrem no cncer e na AIDS, podem ser devidos a uma nicadistoro uma curva errada nas regies ocultas da inteligncia doDNA. Para ver como o problema mente-corpo pode ser resolvido,precisamos examinar mais de perto essas curvas e sua origeminvisvel.22 Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno defacilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos DeficientesVisuais a oportunidade de conhecerem novas obras.Se quiser outros ttulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazerreceb-lo em nosso grupo. 125. 7 Em Lugar Nenhum e em Toda a Parte Ningum jamais ver o corpo mecnico quntico. Isso pode serum problema para muita gente. Alm dos cientistas, todos ns ficamosmais vontade com coisas que podemos ver e tocar. De um modo geral,a histria da medicina moderna consiste na busca dos objetos slidoscausadores das doenas, embora quase todas elas ajam no domnio doinvisvel, alm de qualquer coisa que o olho humano pode perceber. Um observador atento do sculo 15, na Europa, poderia terconjeturado que um rato em casa representava o perigo da pestebubnica (na realidade, os ratos eram to comuns que essa ligaonunca foi feita); uma pulga no plo do rato estaria mais prxima daverdadeira causa, mas s quando o sangue do rato examinado nomicroscpio que a bactria Pasteurella pestis se torna visvel. assimque se descobriu o enigma da Peste Negra, um castigo to antigo daraa humana que, acredita-se, dizimou o exrcito persa quandomarchava contra a Grcia, no sculo V a.C. Sem o microscpio, o que seria uma bactria? Algo invisvel a olhonu, e, ao mesmo tempo, to grande quanto o mundo, j que alcanatodos os lugares da Terra, at os plos. Chegaria e sairia como afumaa, penetrando pelas portas e janelas bem seladas. Seacreditssemos apenas em nossos sentidos, a capacidade de umorganismo de estar por toda a parte e em nenhum lugar ao mesmo 126. tempo pareceria uma coisa fantstica. O mundo quntico , emessncia, apenas mais um passo na escala descendente do invisvel. Aocontrrio de bactrias menores, ou vrus, um nico fton, eltron ouqualquer outro objeto do mundo quntico no pode ser percebido porintermdio de nenhum meio que amplie a capacidade de viso ou tato.Eles esto, realmente, em toda a parte e em nenhum lugar ao mesmotempo. At recentemente no havia a menor ligao entre esse fato e amedicina, porque o menor vrus ainda milhes e milhes de vezesmaior que uma partcula elementar. Os germes tambm no so muitoestveis no tempo e no espao, mas os objetos qunticos lampejamdentro e fora da existncia previsvel. Se a Pasteurella pestis penetrarem seu sangue, ficar ali de modo absoluto e definitivo, ao contrrio dosmsons, simples fantasmas que deixam traos luminosos numa chapafotogrfica, durante poucos milionsimos de segundo, e desaparecem daexistncia material; e muito diferente do neutrino, que atravessa todonosso planeta sem ser percebido e sem que nada obstrua seu caminho. Essa ampla diferena na escala entre mdicos e fsicos qunticosmanteve as duas cincias a salvo e afastadas at 1987, quando umimunologista francs, Jacques Benveniste, realizou uma experinciaconsiderada ultrajante por todas as vises no-qunticas do mundo. primeira vista, o incio da experincia pareceu incuo. O dr. Benvenistepegou um tipo comum de anticorpo chamado IgE (imunoglobina do tipoE) e o exps a certas clulas brancas do sangue, chamadas basfilos. bem conhecida a reao provocada pela interao desses dois elementos o anticorpo IgE firma-se nos locais receptores especficos e espera.Ele aguarda uma molcula invasora flutuando na corrente sangunea,da qual precisa se defender. Nesse caso, o invasor no um germe, masum antgeno, uma substncia que causa alergias. Se voc alrgico a ferroadas de abelhas, as molculas do venenodesse inseto, quando inoculadas em seu sangue, atraem o anticorpo IgEem poucos segundos. Ele, por sua vez, desencadeia uma complexacadeia de reaes na clula, que ativa ao mximo a resposta alrgica do 127. corpo; o basfilo solta uma substncia qumica chamada histamina,que provoca inchao, vermelhido, coceira e falta de ar, tpicos de umataque alrgico. O mistrio nas alergias est no fato de o antgeno(substncia agressora que entra no organismo) ser geralmenteinofensivo l, plen, poeira , s que tratado pelo sistemaimunolgico como um inimigo mortal. Para se descobrir a causa dessasalergias, elas foram profundamente estudadas no plano celular, e umdos resultados revelou um domnio maior do IgE. Esses dados so suficientes para compreendermos a experinciado dr. Benveniste. Ele coletou um pouco de soro de sangue humano,repleto de clulas brancas e IgE, e o misturou a uma soluo preparadacom sangue de cabra que, sem dvida, acionaria a liberao dehistamina. Essa segunda soluo continha um anticorpo anti-IgE, querepresenta o veneno da abelha, o plen ou outro antgeno. Quando oIgE e o anti-IgE se encontraram, a reao no tubo de teste foiexatamente igual de uma pessoa gravemente alrgica, com altaproduo de histamina. Ento, Benveniste diluiu o anti-IgE dez vezes mais e tornou aadicion-lo, seguindo-se a mesma reao. Ele continuou diluindo,seguidas vezes, e, como antes, cerca da metade do IgE continuavareagindo (40 a 60 por cento). Isso o surpreendeu, porque a soluoestava muito alm do limite em que seria quimicamente ativa. Ento, odr. Benveniste decidiu diluir o IgE ainda mais, tornando a soluo dezvezes mais fraca a cada prova, at ter certeza de que no havia maisnenhum anti-IgE. A ltima diluio continha uma parte de anticorpopara 10120 partes de gua; esse nmero, escrito por inteiro, seria 10seguido de 119 zeros. Usando uma constante chamada nmero deAvogadro, ele confirmou matematicamente que era impossvel a guaconter uma s molcula de anticorpo. Quando adicionou essa soluo,que j era apenas gua destilada, desencadeou-se a reao dehistamina com a mesma fora anterior. (No filme clssico de HumphreyBogart, Uma Aventura na Martinica, h uma frase capciosa: Voc jrecebeu a ferroada de uma abelha morta? Neste caso, a abelha tambm 128. invisvel.) Apesar do resultado absurdo, Benveniste repetiu a experinciasetenta vezes e pediu a outros grupos de pesquisadores que arepetissem em Israel, no Canad e na Itlia, e todos chegaram aomesmo resultado: descobriram que se pode acionar o prprio sistemaimunolgico com um anticorpo que no est presente no organismo.Em nosso vocabulrio, Benveniste havia descoberto o fantasma damemria ele mesmo se pergunta se a gua no contm o fantasmagravado de molculas que antes estavam ali. Seus resultados forampublicados, com relutncia, na prestigiosa revista britnica Nature, emjunho de 1988. Os editores expressaram francamente seu desgosto peloresultado, afirmando, com absoluta razo, que ele no apresentavabase fsica. As clulas brancas humanas agiam como se o anti-IgE asatacasse por todos os lados, quando, na realidade, no estavam emlugar nenhum. A medicina reluta em atravessar a porta quntica, mesmo quetenha sido claramente aberta por essa experincia.* Foi amplamentedivulgada a notcia de que Benveniste estava dando crdito aos mtodosda homeopatia, um sistema de tratamento inventado pelo mdicoalemo Samuel Hahnemann, que continua popular em toda a Europa.O termo homeopatia vem de duas razes gregas que significamsofrimento similar; define-se, assim, o princpio fundamentalhomeoptico de que o semelhante cura o semelhante. A homeopatiaenfrenta todas as doenas usando o mtodo de Benveniste: pequenaspores de substncias antagnicas so administradas ao paciente paraque ele construa uma imunidade ou afaste a doena j instalada.* Em julho de 1988, um ms depois de publicar as descobertas de Benveniste, Natureenviou uma equipe de investigao Frana para assistir a sua experincia eesclarecer a descrena geral. Infelizmente, ele no foi capaz de repetir resultadosconsistentes na presena dos visitantes; algumas tentativas foram bem-sucedidas eoutras, no. Posteriormente, Nature repudiou seu trabalho, dizendo que os resultadoseram uma decepo. Seguiu-se calorosa controvrsia que persiste at hoje.Benveniste ainda defende seu trabalho (o relatrio original foi assinado por mais doze 129. pesquisadores de quatro pases). Embora a capacidade de recordar da gua sejainexplicvel, no se pode, porm, imputar-lhe a capacidade de esquecer! Esses podemser os dois lados de uma mesma moeda. Quando a medicina convencional aplica uma vacina antivarilica,o que aparentemente funciona a lgica da homeopatia o vrusmorto na vacina estimula anticorpos antivarola no organismo. (Essemtodo de lutar contra a varola existe desde a China antiga, onde osmdicos usavam escamaes das feridas para esfregar em pequenoscortes nos braos das pessoas que queriam se proteger contra o mal.)Porm, diferindo da vacina, a homeopatia baseia-se mais nos sintomasdo que nos verdadeiros organismos causadores da doena. Servindo-se de um elaborado sistema de venenos e ervas txicasque imitam os sintomas da verdadeira doena, a homeopatia d aocorpo uma amostra do que ele quer curar. As sementes trituradas deNux-vomica, por exemplo, que contm estricnina, seriam receitadascontra a fadiga crnica e a irritabilidade, porque produzem essessintomas. A experincia de Benveniste no endossa a lgicahomeoptica como um todo, exceto sob o aspecto em que demonstraque o corpo pode reagir a uma micro-dose de substncia estranha. Orestante da homeopatia continua ambguo. (O princpio semelhantecura semelhante aceito e at ampliado no Ayurveda, determinandoervas, minerais e at cores e sons relacionados a cada parte do corpo,no tratamento. No entanto, o Ayurveda no segue a lgica homeopticade que o corpo deve adoecer para se curar.) Acredito que a importncia mais profunda da experincia deBenveniste seja a demonstrada em um dos diagramas qunticos doltimo captulo: 130. Notamos que um processo corporal como uma fila de pessoascom baldes: uma cadeia de eventos passando de um a outro, exceto oprimeiro balde (B). Esse parece ter surgido no se sabe de onde, mesmoque algum impulso inicial (A) evidentemente o tenha acionado; o queBenveniste fez to maravilhosamente bem foi despojar esse modelo,deixando s o essencial: Continuamente passamos por um estado de no-molcula setransformando em molcula. Quando voc tenta se lembrar da primeiravez em que dirigiu um carro, sabe que as substncias qumicaspresentes na ocasio j se desvaneceram (a maior parte antes mesmodo fim do passeio). Hoje, ao recriar a lembrana, ao ver o carronovamente e sentir o volante em suas mos, voc est disparandoreaes celulares que comeam em lugar nenhum, j que as clulasde seu crebro esto vazias das velhas molculas, como a gua deBenveniste. Se pudermos explicar como o corpo-mente faz para transformarno-molculas em molculas, muitos mistrios do crebro seroesclarecidos. Depois que surge essa minscula partcula de matria, aseqncia segue as leis bem conhecidas da natureza. Fora dahomeopatia, posso citar um exemplo bem mais claro nos estranhoscasos psiquitricos conhecidos como personalidades mltiplas. Nada nocampo mente-corpo parece to inexplicvel porque, quando uma pessoacom mltiplas personalidades muda de uma para outra, o corpotambm muda. 131. Por exemplo, uma personalidade pode sofrer de diabete, e oorganismo ter insuficincia de adrenalina enquanto aquelapersonalidade estiver no controle. As outras, porm, podem no sofrerdesse mal, mantendo, portanto, os mesmos nveis de acar no sanguecomo as pessoas normais. Daniel Goleman, um psiclogo que tambmescreve freqentes reportagens sobre temas relacionados a mente-corpo, cita o caso de um menino chamado Timmy, que costuma adotarquase uma dzia de personalidades diferentes. Uma delas fica com urticria quando ele bebe suco de laranja. Aurticria surge, descreve Goleman, mesmo quando Timmy toma sucode laranja e a tal personalidade emerge quando o suco ainda est sendoingerido. E mais: se Timmy voltar enquanto a reao alrgica ainda estpresente, a coceira da urticria cessa imediatamente, e as bolinhas degua comeam a desaparecer. Quando li pela primeira vez esse artigo, fiquei muitoentusiasmado. A literatura mdica no declara que as reaes alrgicaspodem desaparecer assim, vontade. Como poderiam? As clulasbrancas do sistema imunolgico, cobertas de anticorpos IgE, estosimplesmente espera do contato com um antgeno; quando o contatoocorre, elas reagem automaticamente. Mas, no corpo de Timmy, necessrio que as clulas brancas pressintam a aproximao dasmolculas de suco de laranja para tomarem a deciso se devemreagir ou no. Isso significa que a prpria clula inteligente,respondendo a minha pergunta. Alm disso, sua inteligncia estdividida em parcelas iguais em cada uma das outras molculas, e nomantida em uma especial, como o DNA, j que o anticorpo e o suco delaranja se encontram o tempo todo com tomos muito comuns decarbono, hidrognio e oxignio. Dizer que as molculas tomam decises um desafio ao estgioatual da cincia como se o sal s vezes se fizesse sentir salgado eoutras vezes, no. Mas passar de um evento mente-corpo a outro sempre uma projeo da inteligncia: no caso de Timmy, o que nosespanta a notvel rapidez e intensidade com que isso acontece. 132. Quando percebemos o fato de que ele escolhe ser alrgico seno,como poderia desencadear e afastar a crise de urticria? , encaramosa possibilidade de que tambm podemos estar escolhendo nossasdoenas. No temos conscincia dessa escolha, porque ela tomadamuito abaixo do nvel de nossos pensamentos conscientes. Mas, se estpresente, deveramos tambm ser capazes de mud-la. Todos ns podemos mudar a biologia de nossos corpos, de umextremo a outro. Quando voc est muito feliz ou profundamentedeprimido, no a mesma pessoa, fisiologicamente falando. Os casos depersonalidade mltipla demonstram que essa capacidade interna denos modificarmos est sob controle preciso. Quero comentar sobre um caso que ocorreu na famlia Chopra,relacionado a este assunto e, curiosamente, ao anticorpo IgE. Meu pai cardiologista na ndia. Durante muitos anos foi mdicodo Exrcito, o que nos levava, de posto a posto, por todo o pas. Quandoeu era criana, ele foi enviado a Jammu, um lugar distante ao norte, noEstado de Cachemira. No me lembro de nada durante essa nossaestada, mas durante anos ouvi comentrios sobre as horrveis alergiasque minha me sofreu l. Vivia atormentada com o plen de uma flornativa que enchia os campos a cada primavera. Ela sofria fortes crisesde asma; seu corpo inchava e surgiam na pele grandes vergesvermelhos e bolhas (esse estado conhecido como edemaangioneurtico). Meu pai sempre foi muito devotado a minha me e, penalizadocom seu sofrimento, costumava lev-la toda primavera a Srinagar,capital de Cachemira. O ar dessa cidade livre do plen, e ela se sentiafeliz por estar nesse vale montanhoso, que um dos mais belos lugaresda Terra. Certa primavera, as chuvas violentas deixaram as estradasintransitveis e meu pai decidiu que deviam antecipar a volta para casa.Tomaram o avio, que pousou uma hora depois. Ele segurou o brao deminha me para confort-la, mas j via as manchas na pele e o esforoque ela fazia para respirar. A alergia de minha me era to forte que o 133. comissrio aproximou-se e perguntou o que acontecia. No h nada a fazer explicou meu pai. o plen queexiste em Jammu. Jammu? O comissrio olhou espantado. Ainda nochegamos l; aqui Udhampur, a primeira parada. No o avisaram? Meu pai ficou muito admirado. Quando olhou para minha me,notou que as manchas na pele estavam desaparecendo. Depois disso,durante anos, ele costumava sacudir a cabea e murmurar: Basta dizer a palavra Jammu e sua me adoece. Quando lhe contei sobre a experincia do IgE, ele ficou muitoaliviado; j havia uma resposta cientfica para nosso mistrio familiar.Minha me tem s uma personalidade, mas essa mudana foi total eimediata. Muitos casos de personalidade mltipla vm sendo estudados eobservados, especialmente pelo dr. Bennett Braun, um psiquiatrapesquisador especializado nesse campo. Quando a personalidade dopaciente muda, verrugas, cicatrizes e erupes da pele surgem edesaparecem, assim como crises de hipertenso e de epilepsia. Umadeterminada personalidade pode no distinguir as cores, mas essacapacidade retorna com a volta de outra personalidade. quase umaregra que uma das personalidades seja infantil e, quando ela emerge, oscorpos dos pacientes reagem a doses menores de medicamentos. Emum desses casos, bastaram 5 miligramas de tranquilizante para opaciente ficar calmo e sonolento como quando era criana, enquantouma dose vinte vezes mais forte no causou efeito no adulto. Aturdidos, os pesquisadores esto procura de um mecanismoque explique tais ocorrncias, aparentemente impossveis: acredito queacabem descobrindo com um simples exame que a mudana qunticaocorreu. Uma personalidade no tem molculas, sendo feita apenas dememrias e tendncias psicolgicas; mas so mais permanentes do queas clulas afetadas. Este no um mistrio profundo como vimos,cada molcula do corpo est envolvida numa partcula de intelignciavisvel. 134. O termo memria no usado pelos fsicos, mas facilmenteencontrado no mundo quntico ainda que separadas por imensasdistncias de espao-tempo, as partculas sabem o que cada uma estfazendo. Quando um eltron salta em nova rbita, rodeando um tomo,seu parceiro antieltron (ou psitron) precisa reagir, no importa ondeesteja no cosmos. O universo , de fato, inteiramente ligado por essetipo de rede de memria. Para um fsico, o nico quebra-cabea da experincia deBenveniste que ningum acreditou que os eventos qunticospudessem ocorrer no nvel das molculas. Um fton se instala no limiarde um quantum, onde vibraes fracas e dispersas so a regra.Algumas dessas vibraes morrem no nada, enquanto outras seampliam e entram na realidade material como energia. Para comear,como o fton no quase nada, pode lampejar dentro e fora daexistncia. Mas uma molcula como o IgE tremendamente maissubstancial do que essas vibraes flutuantes. Se no fossem, asmolculas poderiam saltar dentro e fora da existncia sem aviso junto com coisas feitas de molculas, como baleias azuis e arranha-cus. J que isso no acontece, no pareceu necessrio investigarmolculas com memria. Para entender como a molcula trabalha, precisamos saber maissobre o nvel quntico da natureza. Sua peculiaridade, sua diferena detodos os outros estados de matria e energia e seu vazio. J vimos que oncleo de um tomo quase totalmente vazio, assemelhando-se,guardadas as propores, ao espao intergalctico. O mesmo acontececonosco, j que somos, evidentemente, feitos de tomos. Isso significaque somos feitos de vazio; mais que qualquer outra coisa, ele nossamatria-prima. Em vez de observarmos o espao entre as estrelas como um vaziofrio e sem vida, deveramos encar-lo com os olhos de um fsico, vendoque est cheio de energia invisvel espera de se aglutinar em tomos.Cada centmetro cbico do espao est cheio de energia, numaquantidade quase infinita, embora grande parte dela esteja em forma 135. virtual, isto , represada, sem tomar parte ativa na realidade material.(Uma frase maravilhosa do antigo Upanishad indiano afirma: A foraque penetra o universo bem maior do que a que brilha atravs dele.No que se refere aos objetos qunticos, na maior parte em forma virtual,essa uma verdade literal.) Nossos sentidos no esto preparados para enxergar o vazio comoo tero da realidade, sendo mais adaptados a um nvel mais grosseiroda Natureza, cheio de flores, pedras, rvores e de nossas famlias.Dizem que o olho humano pode distinguir 2 milhes de tonalidades decor, cada qual ocupando uma estreita faixa de energia luminosa. Masnosso mecanismo ptico no consegue registrar essas vibraesenergticas como tal. Menos ainda, registramos um pedao de mrmoreslido como vibraes, embora, no fundo, seja a mesma coisa que a cor. Enquanto a luz vai mudando de uma cor a outra, cada pequenagraduao exerce enorme influncia. A luz visvel, por exemplo, d aomundo a forma e a definio que nossos olhos percebem. Se mudarmosligeiramente para baixo, para a faixa infravermelha, nosso olho passara sentir calor, mas ficar cego. Se o elevarmos at os raios X, o olhopode ser destrudo. Cada graduao quntica muito tnue, massignifica uma realidade completamente nova no nvel grosseiro dasmolculas e das coisas vivas. O espectro de luz como uma cordacontnua, vibrando mais lentamente em um ponto e mais rapidamenteem outro. Fazemos nosso lar de uma pequena parte desse espectro,mas todo o comprimento necessrio para existirmos. Comeando dozero, as vibraes da corda so responsveis pela luz, pelo calor, pelomagnetismo e por inmeras outras formas mais discretas de energiaque povoam o universo. Em poucos degraus, a escada da criaopassou do espao vazio poeira intergalctica, depois ao Sol e,finalmente, Terra vivente. O que isso demonstra que o vazio, o pontozero da vibrao, no o nada, mas o ponto inicial de tudo o que existe.E esse ponto est sempre em contato com todos os outros acontinuidade no sofre interrupes. A razo de se discutir o vazio subatmico o fato de o 136. experimentarmos sempre que pensamos. Como em toda a extenso douniverso, algo material o neuropeptdio surge no se sabe de onde.Nesse caso, no so os tomos do neuropeptdio que so criados,porque para isso necessrio hidrognio, carbono, oxignio etc., jpresentes na glicose que o crebro usa como combustvel. O que surgeno se sabe de onde a configurao do neuropeptdio, o que magiasuficiente. No mesmo instante em que voc pensa Sou feliz, um mensageiroqumico transforma sua emoo, que no tem nenhuma existnciaslida no mundo material, numa partcula de matria to perfeitamenteafinada a seu desejo que todas as clulas de seu corpo, literalmente,ficam sabendo dessa felicidade e a compartilham. O fato de voc ter apossibilidade de falar a 50 trilhes de clulas na linguagem que elasentendem to inexplicvel quanto o momento em que a Natureza criouo primeiro fton no vazio. Essas substncias qumicas do crebro so to nfimas que acincia levou muitos sculos para descobri-las. No entanto, seconsiderarmos as molculas mensageiras como a mais refinadaexpresso material de inteligncia que o crebro pode produzir, temosde admitir que ainda so grosseiras para se construir a ponte entre amente e o corpo. De fato, nada poderia ser refinado o bastante, j queum dos lados da ponte que desejamos alcanar, a mente, no pequena em nenhum sentido fsico calcular que um pensamento temtamanho um absurdo. A mente no est solta no espao, ocupandoum lugar, nem mesmo o necessrio para um eltron, que infinitesimal. A bobagem evidente de guardar a mente numa caixa foiuma das principais razes de a cincia ter separado, desde o incio, amente da matria, j que toda matria pode ser fechada em algumacaixa. Felizmente, surge a fsica quntica para salvar o construtor daponte. Ela surgiu para explorar essas regies aparentemente absurdasnas fronteiras do espao-tempo. A fsica quntica ficou com a responsabilidade de medir asmenores coisas possveis. O tomo, apesar de muito pequeno, mostrou, 137. desde aproximadamente 1900, que tinha um ncleo; quando este foiaberto, a menor unidade pareceu ser o prton, at novas divises dotomo revelarem, no Emite da existncia material, partculas aindamenores, chamadas quarks. Alm do quark, as divises aparentementeacabaram. Algum poderia pensar que deva existir um material especial naformao do quark. Por estranho que parea, isso no verdade. NaGrcia antiga, o filsofo Demcrito props, em primeiro lugar, que omaterial do mundo fosse composto de partculas mnimas e invisveis, aque deu o nome de tomos, em grego no divisvel. Quando Platoouviu sua teoria (que no podia ser testada experimentalmente, claro),fez uma objeo que misteriosamente previa a fsica quntica. Sepensarmos em um tomo como uma coisa, argumentou ele, elanecessariamente tem de ocupar algum lugar no espao; sendo assim,pode ser partida e ocupar um espao menor. Qualquer coisa que possaser partida em dois no a menor partcula que constitui o mundo ma-terial. Com esse raciocnio impecvel, Plato demoliu a teoria de quetodas as partculas slidas sustentam o bloco bsico de construo daNatureza, no apenas o tomo, mas o prton, o eltron e o quark. Todaselas podem ser divididas em duas partes num processo infinito, mesmoque na realidade isso no acontea. Seja o que for que constri omundo, tem de ser algo to mnimo que no ocupe lugar no espao.Plato argumentou que o mundo nasceu das formas perfeitas invisveis,semelhantes s geomtricas. Os fsicos modernos, por sua vez, estudamalternativas mais tangveis como a matria invisvel chamadapartculas virtuais, alm dos campos de energia. A famosa equao deEinstein E = MC2 provou que a energia pode ser transformada emmatria, e isso permitiu um avano da fsica para alm da barreira domenor que o mnimo. Ningum pode afirmar com segurana do que feito um quark,mas certamente no de um pedao de matria slida o quark jest alm do limite das coisas que se podem ver ou tocar, mesmo 138. empregando-se instrumentos cientficos que ampliem nossos sentidos;seu bloco de construo pode ser apenas uma vibrao que tem opotencial de se transformar em matria. Portanto, ele menor que omnimo. Para um fsico, todos os tamanhos acabam em um nmeroespecfico 10-33 centmetros cbicos uma frao inconcebvel quepode ser escrita como um dcimo precedido de 32 zeros; conhecidocomo o limite de Planck, um tipo de zero absoluto para o espao, comoexiste o da temperatura. Mas, quando essa barreira alcanada, o que existe alm? Nesseponto a cincia da fsica emudece. Mas fascinante perceber que todosos descobridores da fsica quntica foram basicamente platnicos. Oumelhor, acreditavam que o mundo das coisas fosse uma sombriaprojeo de uma realidade mais vasta e invisvel, imaterial. Alguns,como Einstein, surpreenderam-se com a ordenao geral da Natureza,sem lhe atribuir nenhuma inteligncia. Outros, como Eddington,declararam simplesmente que a matria-prima do universo erasubstncia mental. Eddington defende sua posio com umargumento lgico to elegante quanto o de Plato. Ele declara que nossaimagem do mundo basicamente a formao de impulsos cerebrais.Essa formao, por sua vez, surge de impulsos que percorrem os nervosnos dois sentidos. Esses impulsos vm de vibraes de energia nasbases dos nervos. Na base da energia est o vazio, o vcuo quntico.Qual parte real? A resposta no est em nada porque a cada passo, aolongo do caminho, desde as vibraes de energia aos impulsos nervosose formao do crebro, tudo no passa de um cdigo. No importa onde voc procure, o universo visvel fundamentalmente um conjunto de sinais. Mas todos esses sinaisformam um todo, transformando vibraes totalmente sem sentido emcomplexas experincias que possuem significado humano. O amor entremarido e mulher pode ser cruamente traduzido em dados fsicos, mascom isso perde sua realidade. Alm disso, diz Eddington, todos essescdigos demonstram a existncia de uma coisa mais real, algo alm denossos sentidos. Ao mesmo tempo, tambm algo muito ntimo, para 139. que todos possamos ler o cdigo e transformar vibraes qunticas aoacaso em uma realidade ordenada. Uma boa imagem para isso seria a de um pianista tocando umestudo de Chopin. Onde est a msica? Voc pode encontr-la emdiversos nveis nas cordas vibrando, no bater dos martelos, nosdedos que tocam as teclas, nas notas escritas na partitura ou nosimpulsos nervosos produzidos no crebro do pianista. Mas todos essesnveis so apenas cdigos; a realidade da msica a forma invisvel,difusa e bela que desperta nossas lembranas sem estar presente nomundo fsico. Para ser como o quantum, o corpo no precisa banir suasmolculas para outra dimenso; ele precisa apenas aprender a reform-las em novos padres qumicos. So esses padres que transitamdentro e fora da existncia, assemelhando-se ao que acontece nos tubosde ensaio de Benveniste. Se pensarmos seriamente em saltar de umrochedo e nosso corao comear a bater com fora, teremos geradoadrenalina usando um estmulo to invisvel quanto o IgE daexperincia. Do mesmo modo, uma das personalidades de Timmylembra-se de como ser alrgica a suco de laranja, mesmo que elapossa ficar escondida em algum domnio invisvel durante dias inteiros.Mas, assim que ela volta, o corpo obedece a seu comando. Procurei fazer com que tudo isso parecesse razovel, ao contrriodos editores da revista Nature, quando declararam que, se a experinciaIgE fosse verdadeira, deitariam por terra duzentos anos de pensamentoracional na biologia. Mas a biologia agora vai ter de mudar e, com ela, amedicina. Ao contrrio do que os mdicos supem atualmente, opncreas anormal de um diabtico no to real quanto a mentalidadedistorcida que se infiltrou nas clulas pancreticas. Essa compreenso abre as portas da cura quntica. As tcnicasmentais usadas pelo Ayurveda dependem da capacidade de controlar ospadres invisveis que ordenam nosso corpo. H pouco tempo, uma 140. senhora idosa, minha paciente, vinha sofrendo de fortes dores no peito;tinham feito o diagnstico de angina pectoris, um dos sintomas maiscomuns de doena cardaca em estado avanado. No perodo de janeiroa maro daquele ano, ela se lembrava de ter tido sessenta crises deangina e tomou comprimidos de nitroglicerina para obter alvio.Recomendei-lhe que empregasse a tcnica do som primordial paradoenas cardacas, e ela me disse que ia praticar sozinha. (O conceitode terapia do som primordial foi um pouco discutido na introduo enovos detalhes sero dados mais adiante.) Em julho, cerca de dois meses depois, minha paciente escreveu-me declarando que as crises cardacas tinham passado no dia em queaprendeu a tcnica, e nunca mais voltaram. Ela sente-se bem e ativa muitas pessoas que sofrem de angina tm medo de esforo fsico,mesmo que seja pequeno. Ela foi abandonando a medicao aospoucos, por conta prpria, e recentemente matriculou-se numa escola,com aulas dirias. Ficou muito orgulhosa por me contar essa ltimanovidade, j que est com 88 anos de idade. A explicao para esse resultado, em meu modo de ver, que aligao mente-corpo passa a ficar sob controle. Eu tambm gostaria dedizer que a tcnica Ayurveda no mgica; ela apenas imita a Natureza.H alguma diferena entre minha paciente, que faz sua angina pectorisdesaparecer, e uma personalidade mltipla que faz a mesma coisa? Um mdico ctico poderia negar que a angina tem, geralmente,duas causas. Uma o espasmo das artrias coronrias, os vasossanguneos que alimentam o corao de oxignio. Se elas se contraemdurante um espasmo, o msculo cardaco no recebe oxignio e grita dedor. Minha paciente deve ter sofrido esse tipo de angina, diria o ctico.A outra causa o bloqueio de gordura nas artrias coronrias, o queno poderia ser curado por uma tcnica mental. Eu seria forado aresponder que ambos os casos envolvem a memria. Os bloqueios degordura no so to substanciais quanto parecem. Se algum sesubmeter a uma revascularizao do corao e trocar as artrias velhase entupidas por outras desobstrudas, as novas frequentemente se 141. entopem em questo de meses. Isso acontece porque o vaso sanguneofoi mudado, mas no o fantasma da memria ele ainda quer acumu-lar placas gordurosas nas artrias. Em contrapartida, muitos pacientes que se submetem a essacirurgia no voltam a sentir as dores fortes e assustadoras no peito,mesmo com as artrias entupidas, porque esto certos de que a cirurgiaos curou. Os cirurgies j experimentaram at operaes-placebo,simplesmente abrindo e fechando o peito, e em boa porcentagem doscasos os pacientes sentiram alvio da angina. Minha paciente, narealidade, no tinha as artrias coronrias bloqueadas, mas omecanismo oculto na angina era igualmente real; seu crebro no faziaum exame prvio dos vasos sanguneos com raios X, antes de reagircom dor. Se tenho uma paciente que sente medo, posso apertar sua mo egarantir-lhe que vai se sentir melhor; isso acontece at mesmo sobanestesia. Voc pode segurar a mo de um paciente em um momentodifcil da cirurgia e ver o efeito calmante nos monitores que medem apresso sangunea e o registro das batidas cardacas. O corao e ocrebro, ao que parece, esto ligados bem mais profundamente do queas clulas. Constatamos essa verdade sempre que um beb estaninhado nos braos da me. Em poucos minutos os dois respiram nomesmo ritmo, mesmo que a criana esteja dormindo, e comeam asincronizar-se as batidas dos coraes (no batem em unssono, batidapor batida, j que as do corao do beb so bem mais rpidas que asda me). Essa ligao corpo-mente invisvel, mas quem poderiacham-la de irreal? Tem passado silenciosamente de gerao a gerao.Talvez nos envolva a todos em um grande lao de afinidade. Vindo deseres humanos distintos, preocupados com seus problemas pessoais,ela ajuda a moldar a espcie humana. Assim que a cincia tenha se recobrado do choque da experinciaIgE, um novo domnio precisa ser explorado: o domnio do vazio. A fsica 142. quntica descobriu algo misteriosamente rico a respeito do espaovazio. Agora estamos chegando ao ponto de estender essa riqueza auma dimenso humana. O universo em seu estado primordial foi comparado a uma sopade energia que se transformou em partculas de matria. Eu noscomparo, portanto, a uma sopa de inteligncia s que no sopa,absolutamente, mas inteligncia que aprendeu a cristalizar-se empartculas orgnicas, belas, precisas e poderosas, a que chamamospensamentos. Isso faz com que o vazio em nosso interior seja muitomais entusiasmante que o outro, o que criou o universo. 143. 8 Testemunha Silenciosa Penso que a necessidade premente de uma medicina quntica ficadevidamente demonstrada pelo estudo do seguinte caso: um jovemisraelita chamado Aaron, de 24 anos, ligou para meu consultrio. Sinto-me perfeitamente saudvel disse ele , mas meumdico s me deu noventa dias de vida. Ele me pediu alguns exames edescobriu que tenho uma doena incurvel no sangue. Isso aconteceuexatamente h vinte e trs dias. Mal conseguindo conter a emoo, ele contou toda a histria,cheia de estranhas passagens. Seu diagnstico surgiu de modointeiramente acidental. Devido a um antigo ferimento, ficara com umdesvio no septo e respirava com dificuldade. Aaron tinha chegado aosEstados Unidos diversos anos antes, para estudar comrcio. Afinal,resolveu procurar um cirurgio em Chicago para corrigir o defeito donariz, e ele pediu-lhe exames de sangue de rotina. Quando os resultados chegaram do laboratrio, o mdico ficoumuito perturbado. Eles mostravam que Aaron estava com grave anemia:sua contagem de hemoglobina componente do sangue que transportaoxignio pelo corpo todo tinha cado de 14, normal, para 6 (umacontagem de 12 seria considerada o limite de anemia). Seu hematcritotinha cado para 16; isso significa que seu sangue fora centrifugadopara separar as clulas vermelhas do plasma, e elas ocupavam apenas16 por cento do volume total. No sangue normal esse volume estariaprximo dos 40 por cento. 144. Aaron procurou imediatamente um hematologista, que lhe fezuma srie de perguntas. Tem sentido falta de ar ultimamente? No respondeu Aaron. Acorda sufocado no meio da noite? No. Seus tornozelos tm inchado? O hematologista observou-oseriamente. Voc sente cansao o tempo todo, no ? Aaron sacudiu negativamente a cabea. Isso impressionante! exclamou o mdico. Com suacontagem de hemoglobina voc poderia ter uma crise de insuficinciacardaca congestiva a qualquer momento. Aaron ficou chocado, mas o mdico tinha o direito de se admirar,observando aqueles exames. No caso de uma anemia grave, o coraoprecisa trabalhar muito mais que o normal para suprir todo o oxignionecessrio para o resto do corpo. Isso, aliado falta de oxignio que eletambm sente, leva o msculo cardaco a inchar e a sofrer umainsuficincia congestiva. O paciente comea a acordar noite, sentindo-se sufocado at a morte, e isso pode finalmente acontecer. O hematologista, espantado, pediu o exame de uma amostra damedula ssea de Aaron. O corpo contm normalmente apenas 280gramas de medula ssea, mas isso suficiente para produzir nossosuprimento total de glbulos vermelhos do sangue, numa mdia de 200bilhes de novas clulas por dia. No exame, a medula de Aaron nomostrou sinais dos precursores das clulas vermelhas que deviam estarpresentes. O hematologista percebeu, ento, que a raiz do problema deAaron estava na paralisia da medula ssea (chamada anemia aplstica),mas no podia determinar a causa. Mesmo sem apresentar sintomas,Aaron estava gravemente doente. Ningum sabe ao certo qual o tempo de vida de uma clulavermelha do sangue disse o mdico. O clculo aceito de cento evinte dias, mas poderia ser um ms. J que as clulas vermelhas de seuorganismo no esto sendo repostas, sinto muito, mas voc no deve ter 145. mais que noventa dias de vida. Enquanto Aaron o ouvia atordoado, o mdico explicou que amedicina tinha pouco a fazer por ele. O tratamento possvel seria umtransplante da medula ssea, mas era uma grande intervenocirrgica que, se ele sobrevivesse, provavelmente no o salvaria. Elepodia tomar uma transfuso de sangue para aumentar a contagem dasclulas vermelhas, mas a sbita injeo do sangue de outra pessoaacabaria lesando a medula ssea; alm disso, quando a medulapercebesse que a contagem estava novamente elevada, poderiainterpretar como sinal para reduzir ainda mais sua funo. Como no sentia nenhum sintoma, Aaron hesitou em se sub-meter a um transplante. O hematologista deu-lhe duas semanas parase decidir. Tambm declarou que tinha o dever legal de aconselh-lo acolocar seus negcios em ordem o mais rpido possvel. (Aaron no foipropriamente tratado com compaixo em nenhuma dessas etapas.Durante a conversa, ele contou ao mdico que sua irm mais velhatinha morrido de repente, de um modo trgico, na Faculdade de Direito.A causa da morte no ficou muito clara, mas foi atribuda a umadoena, provavelmente hereditria, do sangue. Ouvindo isso, ohematologista ficou entusiasmado e pediu a Aaron que descobrisse acausa precisa da morte da irm, porque os dois casos juntos dariam umtimo artigo para os jornais. Quando Aaron me contou esse incidentemais tarde, fiquei tomado pela fria.) No dia seguinte ao diagnstico, Aaron comeou a sentir falta de are no conseguia dormir. Procurava desesperadamente um meio de securar. Quase por acaso, comeou a fazer meditao e soube de nossaclnica aiurvdica. Um ms depois, era meu paciente em Lancaster. O que me deixa mais esperanoso disse eu voc ter sesentido saudvel at descobrir que havia algo errado. Vamos supor queesteja controlando esse mal, portanto faremos tudo o que pudermospara permitir que seu organismo se cure. Eu desconhecia a causa de sua doena, mas enquantoentrevistava Aaron fui descobrindo que existiam vrios motivos de 146. preocupao. O primeiro era o prprio diagnstico assustador que odeixara em pnico. Nessas condies, difcil observar como o corpo-mente pode descobrir um caminho para a cura. Alm disso, Aaronparecia uma pessoa tensa e muito esforada. Tinha trabalhado emquatro empregos ao mesmo tempo, enquanto estudava, esforando-seao mximo para comprar um carro e pagar as despesas da faculdade. Apresso do estudo tambm era enorme. Ele tomava vitaminasConstantemente, alm de uma medicao contra lcera, que acalmavaa dor crnica no estmago. Poucos meses antes, havia sofrido umatendinite quando jogava tnis e tomou um agente antiinflamatrio paradiminuir o inchao. sabido que tais drogas suprimem as funes damedula ssea. Pedi-lhe que interrompesse toda a medicao. Ele ficou duas semanas na clnica e, pela primeira vez, encontrouum ambiente livre do estresse normal. Continuou a meditar, comiaobedecendo a uma simples dieta vegetariana de acordo com seu tipofsico e recebeu uma srie de massagens que o Ayurveda prescreve parapurificar o organismo. Ensinei-lhe tambm a tcnica do som primordial,aconselhvel para suas condies. Uma noite, a enfermeira o apanhouandando pelo corredor com o cabelo molhado, e ele confessou que tinhasado para nadar. Fiquei muito feliz ao saber disso, pois outro pacientecom a contagem do sangue de Aaron estaria tomando oxignio outransfuses de sangue. Aquele sinal era mais que encorajador. Quando ele saiu da clnica, pedi-lhe que no fizesse novos examesde sangue, pelo menos por duas semanas. Uma amostra examinada emLancaster mostrou que seu suprimento de clulas vermelhas imaturas,chamadas reticulcitos, estava quatro vezes mais elevado do que nomomento em que ele chegou clnica. Como so essas as clulas quemais tarde se transformam nos glbulos vermelhos, achei que suadoena tinha cedido. Aaron acaba de ultrapassar o prazo de vidaprognosticado pelo mdico. Ele ainda tem uma grave anemia, mas, emcontrapartida, no apresentou sinais de enfraquecimento fsico. Naverdade, sua anemia at diminuiu um pouco. 147. Em meu modo de pensar, Aaron est na linha divisria entre doistipos de medicina. A primeira a comum, cientfica, a cujos mtodosestou profundamente habituado, mas que j no me inspira umaconfiana to absoluta. No foi a medicina comum que falhou no casode Aaron. Os mdicos descobriram a presena de seu mal nos diversosnveis do organismo, dos tecidos s clulas e s molculas. Em seucaso, o tecido era a medula ssea, as clulas eram os glbulosvermelhos do sangue e a molcula era a hemoglobina. Para um mdicotreinado na medicina convencional, esse o fim do caminho; umcaminho que levou dois sculos de profunda investigao racional paraser encontrado. O que h mais para se descobrir, quando se sabe at oque existe de errado com as molculas de uma pessoa? Essa lgica impecavelmente cientfica, mas perigosamente des-ligada da carga normal de vida. Por carga normal refiro-me a comouma pessoa come, dorme, os pensamentos que transitam em suamente, o que ela v, cheira, ouve e o que penetra em seu organismoatravs de todos os seus sentidos. Voc pode dizer que o corpo feito demolculas, mas dir com a mesma justia que ele feito deexperincias. Essa definio combina com nossa auto-imagem, o queno cientfico, mas fluido, mutvel e vivo. Dessas experinciascomuns que se origina a segunda medicina, a do quantum. s vezes podemos pensar que a vida diria simples demais paradespertar o interesse da cincia. Na verdade, ela complexa demais.Apesar de uma molcula de hemoglobina ser estruturada de 10 miltomos, pode ser isolada e mapeada feito que mereceu vrios prmiosNobel. No entanto, impossvel saber o que a hemoglobina est fazendoenquanto voc inspira o ar, porque cada clula vermelha contm 280milhes de molculas de hemoglobina, cada qual colhendo oito tomosde oxignio. Considerando que os pulmes expem ao ar em cadainspirao cerca de um quarto de sangue, contendo 5 trilhes declulas vermelhas, o nmero total de trocas qumicas astronmico.Todo o processo se desintegra rapidamente em um torvelinho catico de 148. atividades. Quando se abre um corpo humano durante uma cirurgia, o quese v no o traado bem definido dos livros de anatomia, com osnervos na cor azul, os vasos sanguneos vermelhos, o fgado verde bemseparado da vescula biliar amarela. Em vez disso, o olhar no treinadoenxerga uma confuso de tecidos quase indistintos, avermelhados emolhados; um rgo esconde-se imperceptivelmente sob outro. Agrande maravilha a cincia mdica ter aprendido tanto sobre essecaos pulsante. Mas, em troca do conhecimento, a cincia pagou um altopreo por ter de abandonar a experincia comum. Afinal, enchermos opulmo de ar no representa o caos, a no ser para um bilogomolecular. A respirao o ritmo fundamental da vida, em que sebaseiam todos os outros ritmos. Eric Cassell, um professor de fisiologia de Cornell (EUA), esclareceironicamente que um mdico, ao fazer perguntas ao paciente, no esttentando descobrir o que h de errado com ele; procura, sim, saberquais sintomas podem estar ligados a uma doena conhecida eclassificada. A diferena sutil, mas muito importante, pois nos lembraque todo o sistema de rgos, tecidos etc. foi organizadointelectualmente para facilitar a classificao do corpo. Devem existiroutros pontos de vista que so mais verdadeiros por natureza, j queesto baseados na experincia comum, e desafiam a aparente desordemexterior para compreender seu verdadeiro significado. O caos apenas uma aparncia, uma mscara, e sob um olhardiferente metamorfoseia-se em pura ordem. At a descoberta de seucdigo, a dana da abelha parecia um caos, uma confuso de voltas eguinadas. Agora, sabemos que um conjunto preciso de direes paraindicar s outras onde existe uma fonte de nctar. Isso no significaque a dana tenha mudado do caos ordem, e sim sua aparnciamudou para nossos olhos. Do mesmo modo, se voc examinar a pressosangunea de um paciente cardaco algumas vezes, os dadosdificilmente formaro algum padro; porm, se ele ficar Constantementeligado ao monitor, surgir um padro bem definido, com picos e vales 149. que ocorrem no espao de um ou dois dias. Esse feto s foi descobertorecentemente e permitiu que os cardiologistas descobrissem ahipertenso em pacientes que costumam apresentar presso normal noconsultrio mdico, porque os picos s ocorrem noite. Sente-seclaramente a mudana de mar, mas ningum sabe ainda seusignificado. A mscara do caos apenas comea a ser rompida. As duas medicinas no precisam ser antagnicas, mas porenquanto esto claramente voltadas em direes opostas. Para umhematologista, irrelevante que Aaron esteja tenso, excitado, cheio desubstncias dbias no organismo, apavorado com a idia de morrer.Para um mdico vdico, essas so as cargas primrias da doena entraram no nvel quntico, onde ele se transforma na pessoa que . Ohematologista no est sendo desapiedado; pode sentir profundamenteo que est acontecendo com Aaron, mas no consegue provar a ligaoentre a disfuno da medula ssea e os quatro empregos ao mesmotempo. Esse o limite da noo newtoniana de causa e efeito, onde sedesfaz a base da medicina cientfica comum. No se pode fazer perguntas para descobrir o que realmentecausa a doena do paciente. No caso de Aaron, eu gostaria de sabercomo ele se sentiu com a morte da irm, o que ele come no caf damanh, quem so seus amigos, como ele costuma ficar quando perdeuma partida de tnis na verdade, quero saber sobre qualquerexperincia importante. Isso praticamente impossvel. So tantas asinfluncias que nos pressionam todos os dias que a idia decasualidade desaparece. Eu consideraria absurdo dissecar o crebro deum poeta para se descobrir a causa de seus sonetos; seu crtex nopoderia ter deixado de exibir padres especficos de ondas cerebraispara produzir um soneto, mas elas se evaporaram e foram levadas a umdomnio alm do tempo. Comea a parecer igualmente absurdoconsiderar que uma causa fsica isolada se oculte na disfuno damedula ssea de Aaron. A vida dele tambm seguiu no tempo, e querodescobrir o que j se evaporou. Sei que isso pode parecer chocante. Como podemos descobrir a 150. cura sem uma causa? Mas todas as causas fsicas so, no mximo,parciais. Se voc quiser que algum fique resfriado, vai precisar demuito mais que um vrus. Pesquisadores incubaram vrus de resfriado eos depositaram diretamente na parede da mucosa do nariz de seuspacientes, descobrindo que, com o tempo, s 12 por cento adoeceram.Esse resultado seria maior se as pessoas em teste fossem expostas agolpes de ar, ficassem com os ps em gua gelada para ter arrepios, oua qualquer outro recurso puramente fsico. A experincia comum, umjogo complexo de foras internas e externas, desafia as regras decausalidade que funcionam como as bolas de bilhar. A medicina convencional j reconhece que a experincia comumpode exercer um papel complexo na doena. Por exemplo, asestatsticas mostram que solteiros e vivos so mais suscetveis aocncer que os casados. Sua solido chamada de fator de risco tambm poderia ser chamada de carcingeno. Ento, por que a cura dasolido no cura para o cncer? Pode ser, mas em um tipo demedicina diferente da que praticamos agora. Um mdico vdico estmais interessado no paciente que tem frente do que em sua doena.Ele reconhece que o que faz a pessoa a experincia as tristezas, asalegrias, os rpidos momentos traumticos, as longas horas sem fazernada em especial. Os minutos de vida se acumulam silenciosamente e,como gros de areia depositados por um rio, podem finalmente seempilhar numa formao oculta que irrompe como uma doena. impossvel ver e interromper o processo de acumulao. Possoficar sentado no meio de um engarrafamento de trnsito e pensar Bem,agora no est acontecendo nada comigo, mas, de fato, estourecebendo, ou ingerindo, todo o mundo a minha volta. Meu corpo vaimetabolizando tudo o que vejo, ouo, cheiro e toco, transformando tudoisso em mim. to certo que faz isso quanto ingere meu suco delaranja. A carga que se transforma no que sou constante e moldada 151. antecipadamente na forma final, A cincia no ser capaz de medir esseprocesso porque no pode organizar meus sentidos e emoes em umaescala. Quanta solido necessria para ser transformada em cncer?Essa uma pergunta sem sentido. O carcingeno invisvel. Lembro-me de uma noite que passei no setor de emergncia de um hospital desubrbio, atendendo um grande nmero de pacientes. Houve umacidente com um trem tardio e tive de trabalhar quase freneticamenteao lado de um colega para ajudar as dezenas de pacientes que poderiamestar em estado de choque. Fizemos curativos e pequenas cirurgias,acalmamos seus nervos e entalamos ossos quebrados. Nosso trabalhoparecia sem fim, mas depois de cinco horas havamos dado conta detudo e nos sentamos como heris. Ento, a ambulncia chegou novamente, e o motorista nosavisou: Estamos com uma menininha de dois meses, inconsciente. Elano d sinais de respirar, est sem pulso e comeando a ficar azul. Eu gelei e reparei no olhar de desespero do outro mdico.Sabamos o que nos esperava. A maca saiu da ambulncia com acriancinha perdida no meio dos lenis brancos. Colocar o tuboendotraqueal em sua garganta e comear a massagem cardaca eramprovidncias terrveis, mas foi o que fizemos. Desde o primeiromomento, sabamos que seria intil; era o que a medicina chama decaso sbito de sndrome mortal infantil. Ela afeta bebs aparentementenormais e no existe causa conhecida. O atendimento de emergnciageralmente no adianta, por mais rpido que seja. Depois de um tempo que nos pareceu razovel, tiramos nossosinstrumentos e fechamos os olhos da menininha. Fui falar com os pais,um casal jovem e bem de vida, que parecia arrasado. S pudeaconselh-los a freqentar um grupo de apoio formado por outros paisque haviam perdido filhos nas mesmas condies. Eles saram ainda emestado de choque e nunca mais voltei a v-los. Quem pode medir o queaconteceu comigo? No me lembro do rosto de nenhuma vtima daqueleacidente de trem, embora tenha passado horas cuidando delas. Mas o 152. cabelo loiro e os olhos azuis da criancinha permanecem to vivos emminha mente quanto no primeiro minuto em que a vi. Ela penetrou emmim. No sei onde vive dentro de mim realmente um mnimo dematria cinzenta em meu crtex? Seria ridculo procurar em que lugar.O importante que todo meu ser feito de experincias como essa.Metabolizei centenas de milhares de coisas assim a cada dia, e, se vocquiser v-las em detalhes, basta olhar para mim. Enquanto estou cercado pela carga da vida, no h pausa nacorrida dos acontecimentos que me fazem ser o que sou. Emcontrapartida, minha natureza pode se aprofundar mais nas coisas quevejo e ouo. Pode ser que eu tenha um ponto zero, como o ponto zero davibrao que d incio ao espectro da luz. Se voc sasse de meus pensamentos, sentidos e emoes,sobraria o espao vazio equivalente. Mas, como o espao vazio da fsicaquntica, meu espao interior pode no ser vazio; eu argumentariaque nosso espao interior um campo rico de inteligncia silenciosaque exerce poderosa influncia sobre ns. A inteligncia facilmente localizada e ao mesmo tempoimpossvel de ser encontrada. O know-how do corpo parece o resultadode uma complexidade de partes diferentes separadas de acordo com asprprias funes digesto, respirao, metabolismo etc. Apesar dessadiviso de trabalho bastante real, a inteligncia continua igualmente emtoda a parte, como uma gota do mar compartilha o sal de todo ooceano. O fluido no corpo tem o gosto salgado do oceano e igualmenterico em magnsio, ouro e outros vestgios de elementos. A vida comeouno mar e s estamos vivos fora dele porque carregamos em ns umoceano interno. A sensao de sede estimulada pelo hipotlamo, um pedacinhodo crebro do tamanho do n de um dedo, que se liga aos rins pelosnervos e mensageiros qumicos. Os rins monitoram Constantemente anecessidade de gua do corpo ouvindo os sinais do sangue. Esses 153. sinais so qumicos, como os neuropeptdios, mas nesse caso asmolculas envolvidas so os sais, as protenas e o acar do sangue,alm dos mensageiros especficos. O sangue, por sua vez, recebe essessinais de todas as clulas do corpo, cada qual cuidando da prprianecessidade de gua. Em outras palavras, quando voc bebe gua, noest apenas obedecendo a um impulso do crebro, mas ouve um pedidode todas as clulas do corpo. Se voc beber um pequeno copo de gua, estar repondo apenas1/400 do total de lquido corporal, mas satisfar as necessidadesprecisas de 50 trilhes de clulas diferentes. Uma administrao toexata frequentemente atribuda s aos rins, mas j vimos que elestrabalham consultando Constantemente o corpo mecnico quntico todo o campo da inteligncia. O nivelamento da inteligncia no aparente no aspecto fsico das clulas; ela coexiste com a extensaespecializao do corpo. O neurnio, cuja parede celular equipadacom um milho de bombas de sdio-potssio, no se parece nem umpouco com uma clula do corao ou do estmago. Mas a integridadeda mensagem hora de tomar gua constante em toda a parte. Na fsica, um campo tudo aquilo que propaga uma influnciasobre uma expanso do espao muito vasta ou at infinita. Um magnetocria um campo magntico a sua volta; pequenos magnetos tm umcampo fraco que se estende por poucos centmetros, enquanto os plosmagnticos da Terra so suficientemente poderosos para cobrir todo oglobo. Qualquer coisa que caia dentro de um campo sentir seu efeito; por isso que as agulhas magnticas das bssolas se alinhamautomaticamente com a polaridade magntica da Terra. Localizada nocampo de inteligncia do corpo, cada clula est alinhada com ocrebro, que se mantm como plo norte magntico. Uma clula um pequeno afloramento no campo, enquanto ocrebro imensamente maior. Mas a clula, quando fala com o restodo corpo, no inferior a ele na qualidade do que diz. Como ele, elaprecisa correlacionar sua mensagem com trilhes de outras; precisaparticipar de milhares de trocas qumicas a cada segundo; e, o que 154. mais importante, seu DNA igual ao de qualquer neurnio. Alm disso,o menor impulso de inteligncia to inteligente quanto o maior. Defato, no h sentido falar em pores importantes ou insignificantes deinteligncia. Precisamos apenas nos lembrar do encadeamento queconstri a dopamina: a incapacidade de transformar a protena serinaem um metablito igualmente pobre chamado glicina leva a uma ligeiraelevao do nvel de dopamina, com o catastrfico aparecimento daesquizofrenia que invade a mente. Cada clula um pequeno ser sensitivo. Estando no fgado, nocorao ou no rim, ela sabe tudo o que voc sabe, mas moda dela.Naturalmente, estamos acostumados com a idia de que somos maisespertos que nossos rins. O prprio conceito de bloco de construosignifica que o tijolo mais simples que o edifcio. Isso verdade emuma estrutura sem vida, mas no em ns. Por exemplo, o impulsonervoso de preocupao pode surgir no estmago, como uma lcera, noclon, como um espasmo, ou na mente, como uma obsesso; noentanto, so as vrias manifestaes dele apenas. A preocupao vai setransformando de rgo em rgo, mas cada ponto do corpo sabe queela existe e cada clula se lembra disso. Voc pode se esquecerconscientemente, s que a sensao da preocupao est presente e oobriga a se lembrar, porque parece estar em toda a parte. J comentamos que, se voc visse seu corpo como realmente ,observaria uma constante mudana aliada a uma complexa ausnciadela. Seria como um prdio com os tijolos constantemente mudados ouuma escultura que , ao mesmo tempo, um rio. O obstculo que amedicina tem enfrentado at agora um aspecto de nossa natureza ofluir e mudar que foi sacrificado em favor do outro o estvel e fixo.Agora, tendo observado no nvel quntico, talvez consigamos reunir osdois numa unidade que englobe nossa verdadeira dupla essncia oimpulso da inteligncia. Esse impulso a menor unidade que sepreserva intacta (sem mudana) enquanto passa pela transformao(mudana). Se os impulsos de inteligncia no tivessem essapropriedade peculiar, no poderiam ser o bloco bsico de construo do 155. corpo; um impulso puramente mental ou uma partcula puramentefsica teria essa caracterstica. Mas nenhum dos dois pode sobreviver mudana. As molculasque formavam seu crebro no primeiro dia em que pensou na palavrarosa no esto mais presentes, mas o conceito ainda est. Ao mesmotempo, voc no precisa pensar sempre na palavra rosa para record-la; pode ter milhes de pensamentos diferentes, literalmente, semnunca se referir a ela. Mas na prxima vez em que quiser us-la estarali, sem confuso. Ela retm sua integridade porque o impulso deinteligncia contm mente, matria e o silncio que une as duas. A estrutura fsica do corpo reflete a inteligncia e lhe d umaforma projetada, mas ela no fica presa numa moldura de carne e osso.Uma espantosa confirmao desse fato est no crebro. Karl Lashley,um pioneiro da neurofisiologia, procurou localizar a memria no crebroe realizou uma experincia simples com ratos de laboratrio. Ele osensinou a correr pelo labirinto, uma habilidade que lembram e guardamem seus crebros do mesmo modo que adquirimos nossas habilidades.A seguir, ele removeu sistematicamente uma pequena poro de tecidocerebral. Lashley supunha que, se os ratos ainda se lembrassem decorrer pelo labirinto (medindo a velocidade e preciso), os centros dememria ainda estariam intactos. Pouco a pouco, ele foi retirando amassa cerebral; no entanto, os ratos, curiosamente, continuavamlembrando como correr pelo labirinto. Finalmente, com mais de 90 porcento do crtex retirado, ficou apenas um pedacinho do tecido cerebral.Mas os ratos continuavam lembrando como correr pelo labirinto, tendoperdido apenas um pouco da preciso e rapidez. Essa experincia, entre outras, sugere a revolucionria idia deque cada clula do crebro pode armazenar todo o crebro enquanto, aomesmo tempo, conserva sua tarefa especfica. Isso exatamente o quedescobrimos: todo impulso de inteligncia igualmente inteligente,abrindo infinitas projees possveis da mente no corpo. John Lorber, um neurologista britnico, especializou-se no examede pacientes hidroceflicos suas cavidades cranianas so cheias de 156. lquido, em lugar do tecido cerebral. Geralmente, essa doena perigosae pode levar a um srio dano mental. Um dos pacientes de Lorber, no entanto, era um estudanteuniversitrio muito bem-dotado, que estava para se formar emmatemtica. Seu QI era prximo a 130. Foi encaminhado a Lorber pelomdico da famlia, ao notar que a cabea de seu paciente estavainchada. O estudante se submeteu a uma tomografia cujo resultadorevelou um crtex de apenas 1 milmetro de espessura, em vez dos 4,5centmetros normais. Em outras palavras, o fluido havia substitudo 98por cento dos neurnios necessrios para pensar, lembrar e realizartodas as outras funes mais elevadas do crebro, que estocentralizadas no crtex cerebral. Com 2 por cento do crtex normal,esse homem estava fisiologicamente na mesma situao dos ratos deLashley, e ainda assim era infinitamente mais capaz na verdade, eranormal ou acima da mdia em todos os aspectos. Cada vez mais, vamos sendo atrados para perto do camposilencioso da inteligncia como nossa realidade fundamental. Noentanto, mais uma vez coloca-se o problema de uma mente silenciosaque, na aparncia, nada contm em si. Se retrocedermos quase cemanos, encontraremos um dilema semelhante. Estava para nascer umanova cincia chamada psicologia, mas havia dificuldade em qualific-lacomo tal, porque precisava de um objeto de estudo. Obviamente, todasas pessoas possuem uma psique, mas ningum tinha visto ou tocadouma. As perguntas mais simples sobre ela haviam ficado sem respostadurante sculos. A psique era a alma, a mente, a personalidade, ou astrs juntas? Ningum poderia fazer a primeira experincia de psicologiaantes de resolver essas dvidas. O momento decisivo chegou quando William James, um brilhantefilsofo de Harvard que tambm se formara em medicina, estabeleceuque a psicologia tinha, realmente, um objeto de estudo. Ou melhor,milhares de objetos todos os pensamentos, emoes, desejos e 157. impresses que passavam pela mente. James chamou-os de fluxo daconscincia. Se havia uma essncia mental, ou alma, como afirmavamos pr-psiclogos desde a poca de Plato, a cincia no poderiadescobri-la. James no afirmou que essa essncia invisvel no existia,mas no via forma de comprov-la cientificamente. Ele defendeu o fluxo da conscincia em um plano puramentepragmtico, ponderando que nada na mente poderia ser consideradotangvel, a no ser os objetos (pensamentos) que passavam por ela. Sealgum est sempre pensando ou sonhando ningum sabe o que sefaz mentalmente no sono profundo e sem sonhos , a realidade damente tem de ser esse contnuo fluir de pensamentos e sonhos. Jamesera um observador arguto; e devia ser mesmo, considerando-se que,basicamente, fundou o campo da psicologia com dados colhidos naprpria cabea (como Freud, ampliando esses dados no campo dossonhos e do inconsciente). Mas James deixou de perceber um aspectomnimo da mente que parecia irrelevante: o fluxo da conscincia no feito apenas de objetos flutuando ininterruptamente; entre cadapensamento existe um lapso de silncio. Pode ser pequeno, quase imperceptvel, mas esta lacuna est ali e absolutamente necessria. Sem ela, pensaramos assim:Eugostodestealmooedasobremesamassecomerdemaisprecisoverquantotenhoeondeestminhacarteira..., e assim por diante. Essa ligeirapausa, como intangvel, ainda no tem um papel na psicologiamoderna, completamente orientada para os contedos da mente e amecnica do crebro. Mas essa pausa se transforma no elementoprincipal, se estamos interessados no que fica alm do pensamento. Acada frao de segundo, temos o lampejo de um outro mundo que estem ns e, ao mesmo tempo, obscuramente fora do alcance. Um verso doantigo Upanishad indiano descreve lindamente essa idia: Um homem como dois pombos pousados numa cerejeira. Um pssaro estcomendo o fruto, enquanto o outro olha em silncio. O pssaro que atestemunha silenciosa esse profundo silncio que existe em todos nse que aparenta no ser nada, quando, na realidade, a origem da 158. inteligncia. O fascinante na inteligncia ser como uma flecha com umanica direo: voc pode usar sua inteligncia para moldar umamolcula e, ao olh-la, no pode tomar a inteligncia de volta. Quando opoeta Keats escreveu seu soneto To an Evening Star (A uma Estrela doAnoitecer), comeou com o verso melanclico suave embalsamadorada silenciosa meia-noite. Se ele tivesse sido submetido a umeletroencefalograma enquanto escrevia, a leitura das ondas cerebraisteria formado um padro tpico; mas, por mais que examinassem,jamais encontrariam uma estrofe de poesia. Do mesmo modo, todas nossas molculas so dotadas de umapequena parcela de inteligncia que influencia tudo o que fazem, masque no enxergamos ao observ-las. O DNA nos d um bom exemplodisso. Localizado no ncleo de cada clula, est Constantementebanhado num torvelinho de molculas orgnicas flutuantes, os blocosbsicos de construo do corpo material. Sempre que quer se ativar, oDNA atrai essas substncias qumicas e as usa para formar um novoDNA. Essa uma parte essencial da diviso celular um filamentoduplo de DNA precisa se dividir ao meio, como um zper, e depois cadametade se transformar em novo DNA, completo, atraindo em si asmolculas apropriadas. No banho de torvelinho, as molculas vagamcercando o DNA e lhe fornecem as letras para combinar existem squatro: A, T, C e G, respectivamente adenina, timina, citosina eguanina. O DNA combina essas quatro letras em uma infinidade dearranjos diferentes, alguns curtos (so necessrias trs letras paracodificar um aminocido bsico), outros muito longos, como as cadeiasde polipeptdios, que podem ser vistas saindo do DNA como pequenosramos. O DNA sabe exatamente que informao escolher e como reunirtudo para cada coisa que quer dizer quimicamente. Alm de se formar,ele sabe como formar um RNA, ou cido ribonuclico, que seu gmeoquase idntico e seu correspondente ativo. A misso do RNA afastar-se do DNA para produzir protenas, mais de 2 milhes, que constroem e 159. reparam nosso corpo. O RNA como conhecimento ativo, emcomparao com a inteligncia silenciosa do DNA. O DNA no trabalha apenas pela memria rotineira. Podeinventar novas substncias qumicas vontade (como um novoanticorpo, quando apanhamos um novo tipo de gripe). No se sabeexatamente como isso se processa, embora alguns biologistasmoleculares tenham descoberto espaadores que separam as diferentespalavras genticas, ou genmios. Tambm fato seguro que apenas 1por cento do material gentico do DNA usado em sua complicadacodificao, no auto-reparo e na fabricao do RNA, ficando os 99 porcento restantes dedicados a algo que a cincia mdica desconhece. Esse silncio enigmtico tem estimulado grande curiosidade,especialmente entre pessoas que acreditam que o ser humano no usasua plena inteligncia. William James aventurou o clculo de queusamos apenas 5 por cento de nossa inteligncia referia-se capacidade mental , enquanto uma pessoa como Einstein, porexemplo, utiliza at 15 a 20 por cento. No se sabe como essaporcentagem pode ser traduzida em DNA til, mas podemos calcularque o DNA mantm armazenado em silncio um grande vocabulrio um geneticista calculou que o nmero de palavras molecularesproduzidas em uma nica clula, se traduzidas para o ingls,encheriam uma biblioteca de mil volumes. E esse o produto de apenas1 por cento ativo que conseguimos compreender. Graas descobertado DNA recombinado (peas de material gentico que podem serembaralhadas dentro e fora da sequncia, nos filamentos do DNA), ovocabulrio potencial pode ser infinitamente maior do que suspeitamos;as combinaes de letras codificadas no DNA j so suficientes paracriar todas as formas de vida sobre a Terra, desde a bactria e o bolor atodas as plantas, insetos, mamferos e pessoas. Algum poderia supor que, se o organismo for mais complexo,maior ser a quota de DNA; na realidade, porm, uma margarida temcem vezes mais DNA que um ser humano. A contagem dos genes no muito esclarecedora: a diferena entre o DNA de um homem e o dos 160. chimpanzs e gorilas de cerca de 1,1 por cento. Essa diferena parecesurpreendentemente pequena e altamente suspeita. possvel que essafrao mnima englobe todas as diferenas entre um primata da selva eo Homo sapiens, com nossos crebros to superiores? Os evolucionistasque herdaram a f de Darwin no materialismo insistem em que sim. Oassunto fica um pouco confuso quando se compreende, mais uma vez,que a contagem de genes no importante dois tipos diferentes demoscas-das-frutas (drosfilas) so muito mais aparentados do que oshomens e os chimpanzs, mas seus DNAs diferem bem mais. Outro modo de demonstrar que nosso silncio interior est vivo einteligente compar-lo ao de uma mquina. Quando um computadortem um problema a resolver, usa seus impulsos eltricos, que precisamser separados por intervalos, formando uma srie complexa de dadoscodificados em 1 e 0. Isso permite que o computador resolva qualquerproblema que possa ser transformado em informao, j que todainformao pode ser codificada em 1 e 0, como nossa linguagem podeser transformada em pontos e traos no cdigo Morse. O crebrohumano tambm se aproveita da informao codificada mecanicamente,mas os intervalos de separao no so vazios; so agentes quepermitem mente tomar a direo que desejar. Em outras palavras, umcomputador tem espaos finitos feitos de vazio e ns temos intervalosinfinitos cheios de inteligncia. Podemos tirar qualquer coisa do intervalo. Mozart tirou sinfoniasinteiras de uma s vez, e no nota por nota. Como ele mesmodescreveu, cada linha musical estava composta e orquestrada em suamente. A matemtica, assim como a msica, tem muitos mistrios.Uma indiana chamada Shakuntala Devi multiplicava nmeros de trezealgarismos de cabea, chegando a solues de 23 algarismos em 26segundos (menos tempo do que levamos para ler em voz alta essesnmeros: 7.686.369.774.870 X 2.465.099.745.779 =18.947.668.177.995.426.773.730). 161. Se voc mandar um computador somar 2 mais 2, a resposta podeestar certa ou errada; se voc perguntar a um menino de 5 anos deidade a mesma coisa, ele pode responder algum nmero, ou dizerQuero sorvete de baunilha. Podemos deduzir que est aborrecido outalvez muito cansado para uma lio de aritmtica. Sendo assim, no correto dizer que a resposta dele um erro de computao;simplesmente, a mente do garoto no est sob nosso controle. No sepode criar um programa que inclua todas as reaes possveis de umser humano enquanto ele interage com o mundo a sua volta. A meu ver, isso tudo justifica a complexidade da experinciacomum, que, na verdade, est bem distante de qualquer modelocientfico que procura descrev-la. A antiga viso de que o crebro umcomputador estvel no tempo e no espao, com vrias funeslocalizadas, e restrito a sua flexibilidade, injustificada. O dr. GeraldEdelman, um neurocientista vencedor do Prmio Nobel, definiu ocrebro muito mais como um processo do que uma coisa, e umprocesso em contnua evoluo. Por exemplo, verdade que a memriadepende de duas pequenas peas de hardware de cada lado do crebro,chamadas hipocampo; se os dois lados so danificados (por derrame oudoena), a capacidade de lembrar destruda. Ainda assim, dentro dessa limitao fsica, o crebro de cada um nico, tanto na estrutura como no contedo. No existe ningum comas mesmas ligaes de neurnios, e em cada um desenvolvem-seConstantemente outras novas ligaes a partir do momento donascimento, dando origem a todas as memrias, que tornam voccompletamente diferente de mim. (Uma ligao no precisa ser fsica; ossinais faiscantes do crebro esto sempre criando novos padres ereformando-os em novos modelos.) Edelman afirma que ningum repete uma lembrana literalmente.Quando voc se recorda de um rosto familiar, alguma coisa diferente;se no o prprio rosto, o contexto que o levou a lembrar-se, que agorapode ser triste, quando antes era alegre. A memria , portanto, um atocriativo. Cria novas imagens e um novo crebro ao mesmo tempo. 162. Edelman concorda com a teoria de que toda experincia que algumtem na vida muda a anatomia do crebro. Alm disso, no toverdadeiro afirmar que o hipocampo seja a sede da memria, porquequalquer recordao o primeiro dia em que voc viu uma plantaode narcisos salta e tremula por todo o crtex, tocando outrasmemrias aqui e ali, passando a novas interpretaes e necessitandoser recriada a cada vez que se deseja lembr-la. Ao contrrio dequalquer computador, ns lembramos, reconsideramos e mudamosnossas mentes. O universo foi criado uma vez, mas ns nos recriamos acada pensamento. Em suma, tudo depende de como se constri em silncio.Qualquer coisa que possa ser experimentada luz da existncia amor ou dio, doena ou morte brota de um nvel mais profundo eflutua acima, pouco mais que uma bolha. Algum pode procurar furaras bolhas, uma a uma, mas elas flutuam e sobem interminavelmente.Se quisermos navegar pelo campo da inteligncia, precisamos aprendera mergulhar at as profundezas, onde a testemunha silenciosa emnosso interior nos aguarda. Este nosso prximo passo: seguir osilncio interior e conhecer seus locais secretos. 163. 9 O Mistrio do Vazio Recentemente, encontrei uma paciente que recebeu, em 1983, umdiagnstico de tumor maligno no seio direito. Por razes pessoais, elarecusou todas as formas de tratamento convencional, inclusiveradiao, quimioterapia e hormnios. Disse-me que o tumor era bemgrande, mas no atingira nenhum ndulo linftico embaixo do brao. Acho melhor examin-lo disse eu. Mas devo avis-lo ela hesitava de que muitos mdicos seassustam quando o vem, por causa do tamanho. Geralmente no deixonenhum mdico me tocar, porque seu olhar amedrontado me assusta.Eu no me assusto sozinha. Pode no acreditar, mas nunca senti queestivesse em perigo. S fico abalada quando vejo o medo do mdico.Eles at chegam a dizer coisas do tipo Como ousa ser to cruel comseu marido, negando-se a ser operada? Achei que talvez uma mdicafosse mais compreensiva ela prosseguiu. Mas, quando a consultei,ela pareceu mais horrorizada que todos os outros. Perguntou: Por queveio me ver, se no quer remover isso? E eu respondi: Porque querosua orientao, pois o tumor cresceu muito pouco nos ltimos cincoanos, e quero sua assistncia. Ela levantou-se quase tremendo e medisse: No volte aqui a no ser que esteja resolvida a remover isso. Noaguento nem olhar. Eu no fazia idia de qual seria minha reao. Cerca de metadedas mulheres diagnosticadas com cncer de mama tem tumoresconfinados no seio. O tratamento normal costuma ser a remoo da 164. mama ou apenas do tumor, com radiao no local para matar qualquerclula cancerosa que tenha ficado. Nas duas situaes, quando no htratamento posterior, 70 por cento dos casos no apresentamreincidncia nos trs anos seguintes. Com algum tipo de quimioterapia,desde a mais leve mais forte, a proporo de sobreviventes a longoprazo pode se elevar a 90 por cento. Essa mulher havia decididodesafiar as probabilidades a favor da paciente e no seria a primeiraa sobreviver, contrariando os mdicos. Quando ela se deitou na mesa de exame e vi o tumor, compreendipor que outros mdicos tinham se chocado. Ele tomava grande parte doseio. Controlei minha reao e esperei que o medo no transparecesseno olhar. Sabe falei baixinho , no acredito que esteja em perigo porcausa disto. Voc me disse que no sente nenhum perigo, e isso mebasta. Mas esse tumor um desconforto. Voc est negando a si mesmauma vida mais agradvel por ter de cuidar disto. Por que no procuraum cirurgio e pede para remover este estorvo? Aparentemente, ela encarou o problema por um ngulointeiramente novo. Concordou logo que no havia vantagem emconservar o tumor e indiquei-lhe um cirurgio. Um de seus comentrios sada ficou em minha lembrana. No me identifico com esse tumor falou serenamente. Seique sou muito mais que ele. Vive em meu corpo, vem e vai, mas no metoca bem no fundo. Quando ela saiu do consultrio, parecia feliz. Senti que aquela mulher tinha razo em seu modo de ver. O medono olhar de um mdico como um golpe terrvel de condenao e, nasituao dela, eu no teria acreditado muito nas chances de merecuperar. Os impulsos de meu crebro no diriam Garanto que vousarar. Em vez disso, estariam dizendo Eles falam que provavelmentevou sarar, o que uma coisa bem diferente. Quando um mdico olha uma paciente e diz Voc tem um cncerno seio, mas vai ficar bem, o que realmente est falando? A resposta bem incerta. Por um lado, se suas palavras reconfortantes inspirarem 165. confiana, podem ser suficientes para mudar o quadro da paciente. Poroutro lado, se ele realmente acha que ela est condenada, alguma coisaem sua voz transmitir essa mensagem e criar uma confusodestrutiva. Inspirado no termo placebo, foi criado recentemente um outro,com sentido oposto, nocebo, que define os efeitos negativos da opiniode um mdico. No caso do placebo, o remdio falso dado e o pacientese recupera porque o mdico disse que lhe faria bem. No caso donocebo, o paciente recebe o remdio verdadeiro, mas no reage, porqueo mdico deu sinais de que ele no adiantaria. Se adotarmos um ponto de vista completamente materialista, nonotaremos uma diferena aparente entre a cirurgia que essa senhoratinha se recusado a fazer e a que, por fim, concordou em se submeter.S que agora ela identifica a cirurgia com a cura, enquanto antes aconsiderava uma violncia. Se um paciente encara o tratamento comoviolncia, seu corpo fica cheio de emoes negativas e de substnciasqumicas associadas a elas. fato documentado que, em clima denegativismo, a capacidade de cura diminui muito pessoas deprimidasno s baixam a reao imunolgica como, por exemplo, enfraquecem acapacidade de recuperao de seu DNA. Portanto, suponho que minhapaciente tinha uma causa justificada para esperar at que suasemoes lhe dissessem para ir em frente. Esse caso me faz lembrar que sempre existem dois centros deao nas pessoas: a cabea e o corao. As estatsticas mdicas doinformaes cabea, mas o corao guarda um conselho prprio. Emanos recentes, a medicina alternativa ficou mais atraente por trazer devolta o corao, usando o amor e o carinho na cura. Sem essesingredientes, o efeito nocebo pode surgir, porque o clima dos hospitaismodernos transmite uma dose poderosa de negativismo. Os episdiospsicticos que se iniciam, sem mais nem menos, nas unidades detratamento intensivo revelam como pouco saudvel manter pessoas 166. confinadas em pequenos espaos esterilizados. (Quando era pequeno,meu filho demonstrava igual fascinao por hospitais e prises, o queme parecia um temor que ele no sabia explicar. Se passssemos decarro diante de uma dessas instituies, ele invariavelmenteperguntava: Papai, tem gente morrendo a dentro?) A grande desvantagem de declarar que precisamos trazer ocorao de volta medicina que ele pune as pessoas pelas fraquezasemocionais. O corao pode ser muito frgil, mas pode endurecer com osofrimento ou apenas com a vida. Os livros sobre cura holstica gostamde dizer que as pessoas doentes precisam de sua doena. A psiquiatriatem o hbito de apontar o dedo quando declara que as doenas crnicasequivalem simbolicamente a autopunio, vingana ou a um profundosentimento de desvalia. No vou discutir esses critrios; quero apenassugerir que podem ser nocivos a um processo de cura, em vez decolaborarem com ele. J bem difcil termos todos de enfrentar nossafalibilidade, mesmo nas melhores ocasies. Podemos ter realmenteexpectativa de melhora quando ns mesmos somos desfavorveis? A raiz do problema que qualquer coisa pode funcionar como umnocebo, assim como outra qualquer pode agir como placebo. No remdio falso nem os modos do mdico que assiste ou o cheiroantisptico do hospital que podem fazer bem ou mal; a interpretaoque o paciente lhes d. Alm disso, a verdadeira guerra no travadaentre a cabea e o corao; algo mais profundo, no domnio do silncio,cria nossa viso da realidade. A compreenso bsica que quase todos temos a nosso respeitovem do pensar e do sentir, o que parece natural; mas sabemos muitopouco sobre o campo do silncio e de como ele nos controla.Aparentemente, a cabea e o corao no so toda a pessoa. O fluxo daconscincia, sempre cheio de pensamentos, age como uma tela paramanter esse silncio oculto, e a aparncia slida do corpo fsico outrotipo de tela, j que no podemos ver as molculas que esto emconstante movimento dentro de ns e tampouco nossas plantasbsicas, que so o que gostaramos de modificar. 167. A planta bsica da realidade um conceito importante. Cadaimpulso da inteligncia provoca um pensamento ou uma molcula, quepassa certo tempo no mundo relativo o mundo dos sentidos antesdo impulso seguinte. Nesse sentido, cada pensamento como umaparcela do futuro, quando criado, uma pea do presente, quando experimentado, e uma pea do passado, quando j se foi. Enquantocada impulso for saudvel, o futuro no ser desconhecido fluirnaturalmente do presente, momento a momento. (Isso explica por queas pessoas que aproveitam cada dia ao mximo tm fama de conservaras faculdades mentais intactas at a idade avanada; o fluxo dainteligncia nunca seca.) Um diagrama para ilustrar essa situao pode ser til: Acima da linha est o fluxo de pensamentos que nunca termina,ao menos enquanto estamos acordados. Um pensamento ligado aoutro numa cadeia sem fim; e nossa experincia normal mantm essacadeia de eventos acontecendo infinitamente no eixo horizontal, masbem rasa no eixo vertical. possvel passar a vida toda ouvindo oinventrio da mente sem nunca mergulhar em sua fonte. Mas ao tocarna fonte que a mente cria seus padres de inteligncia. Esses padresso inicialmente apenas plantas bsicas, mas, o que quer que elesrepresentem, vo perdurar e formar nossas idias e crenas a respeitoda realidade. O campo da inteligncia muito suscetvel de mudanas, tantopara o bem como para o mal. H dois anos, encontrei uma moa, com 168. aproximadamente 30 anos, que resolveu se internar em Lancaster paratratar de cncer no seio. Seu estado era muito grave, porque ametstase do tumor maligno j tomara a medula ssea e se espalharapelo corpo todo. Por isso, ela sofria dores constantes nos ossos. Depoisde ter recebido os drsticos tratamentos habituais, com sries deradiao e quimioterapia receitadas por seu mdico de Denver, elaviajou de sua terra natal at Boston para fazer o tratamento aiurvdico.Reagiu muito bem a ele e, depois de passar ali uma semana, as doresnos ossos desapareceram. Ela no recebeu promessas a respeito docncer, mas voltou para casa com esperana e Otimismo. Infelizmente,quando contou a seu mdico que havia melhorado, ele negou talpossibilidade e disse que aquilo estava s na cabea dela, j que norecebera nenhuma terapia ortodoxa para aliviar os sintomas. No diaseguinte, as dores nos ossos voltaram. Ela me telefonou apavorada, epedi-lhe que voltasse a Boston imediatamente. A moa concordou e,felizmente, depois de uma semana a dor havia desaparecido outra vez. Sem querer causar nenhum mal paciente tenho certeza deque pretendia adotar uma atitude realista , o mdico dessa moacometeu um erro cruel. Ele sups que o que estava na cabea dela nofosse verdadeiro, ou, ao menos, que fosse muito inferior realidade docncer. Sendo treinado em mtodos cientficos, ele conhecia os efeitosde vrios tipos de malignidade e, ao encontrar um resultado inesperado,procurou enquadr-lo no mbito do previsvel. Os mdicos levam ospacientes a resultados previsveis o tempo todo, porque o treinamentodo curso de medicina focaliza apenas o eixo horizontal. Toda a motivao da pesquisa mdica procura reforar cada vezmais as ligaes entre causa e efeito. Nossos bisavs sabiam vagamenteque os germes existiam; hoje podemos detalhar anatomicamentemilhares de vrus e bactrias especficos, at os menores grupos deaminocidos, e ir mais alm. Infelizmente, isso nos deixa muito poucoespao para qualquer viagem pelo eixo vertical, que poderia nos levar auma realidade bem mais profunda. Ao preencher o questionrio mdico, um paciente recente anotou 169. que uma vez tive um tumor no crebro. Perguntei-lhe o que significavaaquilo e ele me contou a seguinte histria: cinco anos antes, quandovivia em Michigan, comeou a ter vertigens sbitas. Seu estado foipiorando: ele vomitava, tinha viso dupla e pouco a pouco foi perdendoo equilbrio e a coordenao motora. Procurou um hospital e fizeramuma tomografia do crebro. Os mdicos o informaram de que o examehavia revelado uma massa escura na parte anterior do crebro, dedimenses maiores que um limo; na opinio deles, estava com umtumor no crebro. Uma bipsia do tumor revelou que era, de fato, umtipo de cncer maligno e de crescimento rpido. Como o tumor era grande e estava em local muito delicado, foiconsiderado inopervel. Os mdicos receitaram grandes doses deradiao e quimioterapia, sem o que o homem estaria morto em seismeses. Essa terapia provocaria grandes efeitos colaterais, quase tomaus quanto os sintomas da doena. Alguns seriam desagradveis,como nuseas, dores de cabea e irritao da pele; outros poderiam sermortais, devido ao enfraquecimento do sistema imunolgico, o que odeixaria propenso a contrair diversos tipos de cncer no futuro. Aindahavia a possibilidade de sofrer ansiedade e depresso por longo perodo.Mesmo com o mximo de tratamento para que o tumor regredisse, nohavia probabilidade de cura total, s que isso seria melhor que nada. O paciente no conseguiu aceitar tal opinio, embora fossebaseada em estatsticas. Mudou-se para a Califrnia e comeou aparticipar de um grupo de meditao; praticou uma srie completa deregimes alimentares, de tcnicas mentais, de exerccios e devisualizaes. Encorajou-se e adotou uma atitude positiva em relao asua condio. Milhares de pacientes de cncer, em geral de grupossociais mais instrudos, adotam essas medidas que a medicinaconvencional considera como tentativa de encontrar falsas esperanas.Mas, neste caso, o homem comeou a sentir-se melhor, e dentro de seismeses os sintomas haviam praticamente desaparecido. Esperanoso eansioso ao mesmo tempo, ele voltou a Michigan e fez nova tomografia.Esta no mostrou sinais da existncia de cncer e tampouco vestgios 170. de algum no passado. Em resposta a isso, os mdicos o informaram de que ele nohavia sarado do cncer, porque nunca ouviram falar de fatosemelhante. Explicaram que, na realidade, devia ter acontecido algumatroca de tomografias e que o paciente com o tumor era outro. Pediramdesculpas pelo engano e o avisaram de que, daquele momento emdiante, se desligavam do caso. O paciente ficou profundamente aliviadopor no ter mais nenhum sintoma, embora acreditasse na primeiratomografia, que tem seu nome e o nmero do registro no servio social.Quando entrei em contato com o hospital para pedir sua ficha mdica,fui informado de que ele nunca se tratara de cncer l e que haviamtrocado seu exame pelo de outro paciente, com tumor cerebral. Tudo o que posso concluir que, apesar dos exames de raios X eda bipsia, esses mdicos no conseguiram aceitar o fato de quehouvesse ocorrido uma regresso do tumor, simplesmente porque suaexperincia ditava que isso era impossvel. Nunca se pode subestimar opoder da doutrinao. O treinamento mdico altamente tcnico,especializado e rigoroso, mas desenvolveu-se como qualquer outraatividade humana com pessoas coligindo experincias e usando-aspara compor explicaes e modelos. Esses modelos, por sua vez, servempara doutrinar novos construtores de modelos e, em pouco tempo, essadoutrinao se transforma em lei. fascinante que um grande estudo sobre quatrocentos casos derecuperao espontnea de cncer, mais tarde interpretado por Elmer eAlyce Green, da Menninger Clinic, tenha descoberto que todos ospacientes apresentavam apenas uma coisa em comum cada umtinha mudado de atitude antes de ocorrer a cura, encontrando um meiode ser til, corajoso e positivo. Em outras palavras, eles romperam coma doutrinao (mesmo que os mdicos no tenham rompido com adeles). O mistrio que tolda essa descoberta, que seria to clara, estligado casualidade. Tais recuperaes ocorreram por causa das novasatitudes ou paralelamente a elas? Talvez a casualidade seja delicadademais para ser definida neste caso, sendo substituda por um processo 171. geral, holstico, de sentir-se melhor mental e fisicamente ao mesmotempo. Ao perceber a expulso do cncer, o sistema mente-corpo devesaber que o processo est encaminhado e pode gerar mais pensamentospositivos simultaneamente. Seja como for, ele funciona, e a chave parece ser aespontaneidade. Canalizar internamente atitudes positivas j provouser, como terapia planejada, apenas um meio casualmente bem-sucedido de combater a doena. A absoro positiva no costuma sermuito profunda. A conscincia mais penetrante do que a medicinacalcula. No entanto, mesmo quando ignorado, o campo silencioso dainteligncia sabe o que est acontecendo. Afinal, ele inteligente; seuconhecimento ultrapassa defesas e telas, indo alm do que esperamos. Para ilustrar essa idia: durante dcadas, os cirurgies julgaramque um paciente anestesiado ficava inconsciente; sendo assim, no seinfluenciava com o que acontecia na sala de cirurgia. Depois, foidescoberto (hipnotizando-se pacientes ps-operados) que a menteinconsciente ouvia todas as palavras murmuradas durante aoperao. Quando os cirurgies comentavam em voz alta que acondio do paciente era pior do que haviam imaginado ou que achance de cura era pequena, os operados tendiam a cumprir asprevises sombrias de no se recuperar. Como resultado dessasdescobertas que foram a idia de nocebo, a prtica comum atual evitar comentrios negativos durante as operaes. Sem dvida, quantomais positivamente um cirurgio expressava as opinies, melhor era aconvalescena do paciente. Seria ainda melhor usar essa inteligncia extremamente sensvele poderosa na cura do paciente. O objetivo do mergulho na rea docorpo quntico mudar a prpria planta bsica em vez de esperar pelossintomas na superfcie, quando s ento sero manipulados pelamedicina. O caso da moa com dor nos ossos um aviso de que a telade defesa que nos mantm to firmes, acima da linha e longe de nossoeu mais profundo, sempre feita por ns. Portanto, pode ser objeto dereviso em qualquer poca. Construmos Constantemente padres de 172. inteligncia e olhamos atravs deles para que nos informem o que real. Se vemos dor, existe dor, mas, se no a vemos, ela acaba. A natureza no nos fez ignorantes a respeito de nosso eu maisprofundo. Pacientes anestesiados sabiam o que se passava o tempotodo, presumivelmente desde os idos de 1850, no incio da cirurgiamoderna. O campo silencioso da inteligncia est fora de alcance poruma escolha nossa que tem sido reforada atravs de geraes deliames culturais. s vezes, uma nova realidade fora seureconhecimento e ento as coisas podem mudar. Surgem novos padresde inteligncia e pode ocorrer uma profunda transformao, mas estano difere essencialmente das transformaes mente-corpo que jcomentamos. A realidade normal como um encantamento muitonecessrio, j que vivemos de hbitos, rotinas e cdigos queconsideramos garantidos. O problema surge quando se pode criar oencantamento, mas no quebr-lo. Se nesse mesmo instante algumconseguisse mergulhar abaixo da realidade diria, at sua fonte, teriauma experincia notvel. O psiclogo Abraham Maslow, pioneiro noestudo dos aspectos positivos da personalidade humana, fez umadescrio clssica da experincia de se aprofundar: Esses momentosforam de pura e positiva felicidade, quando todas as dvidas, todos osmedos, todas as inibies, todas as tenses e todas as fraquezasficaram para trs. Em seguida, a autoconscincia se perdia. Toda aseparao e distncia do mundo desapareceram... Apesar de serem raras as experincias como essas Maslowchamava-as de experincias de pico por isso , elas tm um poder decura que se prolonga muito alm de sua breve durao, que pode ser depoucos dias ou de apenas algumas horas. Maslow recorda que dois deseus pacientes um deles sofria longos perodos de depresso e svezes pensava em suicdio; o outro tinha graves crises de ansiedade ficaram imediata e perfeitamente curados depois de passaremespontaneamente por tais experincias (apenas uma vez em cada caso). Maslow tambm fala da reconciliao com a vida que pessoas 173. conseguiram por intermdio desses momentos: Elas sentiam-seunificadas com o mundo, fundidas nele, realmente lhe pertencendo, emvez de ficar do lado de fora, observando. (Uma dessas pessoas, porexemplo, disse ter se sentido como um membro da famlia, no comorfo.) Qualquer revelao sbita de uma realidade mais profunda trazconsigo enorme poder basta provar que a vida fica indiscutivelmentemais valiosa. Os pacientes de Maslow reconheceram essa fora interiorcomo uma coisa completamente fora do comum. No energia ouresistncia, gnio ou insight, mas o que est na base de tudo isso. Acompreenso de Maslow parou no momento crtico ele nunca foirealmente capaz de proporcionar a algum uma experincia de pico ,mas continuou fascinado por acontecimentos como esses, quetranscendem a vida normal. Em 1961, depois de muitas dcadasescrevendo e pensando sobre o assunto, ele concluiu que o que haviaobservado fazia parte da vida normal, realmente, e no da mstica: O pouco que eu j havia lido sobre experincias msticas estavaligado religio, com vises do sobrenatural. E, como a maioria doscientistas, eu as desdenhei e no lhes dei crdito, considerando-asbobagens, talvez alucinaes, talvez histeria e, quase com certeza,patolgicas. Mas as pessoas que me falavam dessas experincias noeram assim eram as mais saudveis! Como ele encontrou tais experincias em menos de 1 por cento dapopulao, encarou-as como acidentais ou momentos de plenitude.Acredito que foram vislumbres de um campo que a base da vida detodos, mas que continua indefinido. A concluso que devemosmergulhar muito profundamente se quisermos transcender a realidadenormal. Estamos em busca de uma experincia que vai remodelar omundo. Achar o vazio de silncio que separa nossos pensamentos parecerelativamente fcil, mas, como ele uma frao de segundo, no pode 174. servir de caminho. O corpo quntico no est separado de ns ele oque somos , embora no o vivenciemos neste momento. Se estivermossentados pensando, lendo, falando, respirando, digerindo etc., isso tudo o que acontece acima da linha. Eis uma analogia que destaca o corpo mecnico quntico: pegueuma barra de magneto, ou m, e cubra com uma folha de papel.Depois, despeje no papel umas limalhas de ferro e sacuda ligeiramente.O que vai surgir um padro de linhas curvas, uma dentro da outra,formando um arco do plo norte ao sul do m, e vice-versa. O desenhogeral que voc fez representa um mapa das linhas das forasmagnticas, antes invisveis porque as partculas de ferro no tinham sealinhado para mostrar a imagem. Nessa analogia vemos toda a atividade mente-corpo acima dopapel e o campo da inteligncia por baixo. As limalhas de ferro,movendo-se em volta da atividade mente-corpo, alinham-seautomaticamente com o campo magntico, que a inteligncia. Ocampo completamente invisvel e indiscernvel at mostrar sua energiaao mover algumas partculas de matria a sua volta. E a folha de papel?Ela o corpo mecnico quntico, a tela fina que mostra exatamentequais os padres de inteligncia manifestados no momento. Nessa simples comparao existe mais do que voc pode tersuposto no incio. Sem o papel para separar os dois, o m e o ferropoderiam no interagir de modo to ordenado. Procure aproximar umm de algumas limalhas de ferro. Em vez de formar linhas regulares eespaadas, elas se amontoaro sem forma sobre a superfcie do m.Com o papel entre eles, voc v a imagem do campo magntico e, segirar o m, poder observar as limalhas movendo-se para espelhar onovo campo criado. Se voc no soubesse o que um magneto, jurariaque o ferro estava vivo, porque aparentemente se movia sozinho. Mas,na realidade, o campo oculto que gera essas aparncias como a davida. Eis um quadro verdadeiro de como o corpo-mente se relaciona, defato, com o campo da inteligncia. Os dois continuam separados, mas a 175. diviso invisvel e no tem nenhuma espessura. apenas um vazio. Onico modo de algum saber que o nvel quntico existe porque asimagens e padres ficam brotando pelo corpo. Sulcos misteriososaparecem pela superfcie do crebro; belos torvelinhos, exatamentecomo no miolo do girassol, surgem nas molculas de DNA; o interior dofmur tem tramas maravilhosas de tecido sseo, como os suportesentalhados de uma ponte pnsil. Para qualquer lado que voc observe no h caos, e essa amaior prova de que realmente existe uma fisiologia oculta. A intelignciatransforma o caos em padres. A idia de se processar bilhes demensagens qumicas a cada minuto implica um caos incrvel, ainda quea complexidade do sistema mente-corpo seja enganosa: emergem denossos crebros imagens coerentes, como uma fotografia de jornal quemostra uma imagem coerente formada por milhares de pontinhos. Amatria de nosso corpo nunca se desintegra numa pilha sem forma esem mente at o momento da morte. Em resposta pergunta bviaEnto, onde est o corpo quntico?, podemos responder comsegurana que ele fica em um vazio infelizmente difcil de ser descrito,j que silencioso, no tem espessura e existe por toda a parte. Agora, mergulhar no campo da inteligncia parece fcil: requerapenas uma viagem pelo vazio. Porque, mesmo que ele no tenhaespessura, forma uma barreira superior a qualquer porta de ao.Podemos simplificar nosso diagrama para mostrar o que acontece,dificultando a viagem: 176. Toda a histria est contida na diferena entre inteligncia ativa esilenciosa. Confirmamos que essa diferena muito real. O DNA podeser ativo ou silencioso; nossos pensamentos podem ser expressos ouarmazenados em gavetas de silncio; podemos estar acordados oudormindo. Todas essas mudanas exigem uma viagem atravs do vazio,mas no uma jornada consciente. Para ver como o sono, voc teria deficar acordado, o que impossvel. Se procurar a diferena entre umDNA ativo e um adormecido, no encontrar nenhuma alteraoqumica, j que os dois DNAs so fisicamente idnticos. E sempreacontecer isso com todas as transformaes da mente e do corpo. Essa mesma dificuldade existe na fsica um fton uma massade luz e uma onda de luz, mas ambas surgem de um campo oculto. Nasuperfcie da realidade vemos ftons ou ondas de luz, mas a razo deambos existirem na mesma realidade que preexistem como meraspossibilidades no campo quntico. Quem j fotografou umapossibilidade? Ainda assim, o mundo quntico feito disso. Se voc dizuma palavra ou cria uma molcula, resolveu agir. Uma pequena ondase eleva da superfcie do oceano, transformando-se em um incidente nomundo do espao-tempo. Todo o oceano permanece atrs, umreservatrio vasto e silencioso de possibilidades, ondas que ainda viroa se formar. Enquanto danam pelo papel, as limalhas de ferro podem seentreolhar, dizendo: Bem, assim a vida, vamos mergulhar em seusmistrios. Decididas a fazer isso, podem comear um pensamento-aventura do tipo que denominamos silncio. No importa que seuspensamentos fiquem muito aventureiros, nunca cruzaro o vazio. Ele uma porta que d passagem s em uma direo no que se refere aopensamento, e esse seu verdadeiro mistrio. Sob determinada perspectiva, parece ridcula a idia de quesomos afloramentos de um grupo invisvel infinito. O corpo de umhomem um volume de carne e ossos ocupando muitos centmetroscbicos de espao; sua mente um mecanismo espantosamentecomplicado, mas finito e cheio de uma determinada quantidade de 177. concepes; sua sociedade uma organizao grosseiramenteimperfeita, ligada a uma histria de ignorncia e conflito. Estranhamente, esses fatos to evidentes nunca foramquestionados. Confiamos em nossas experincias finitas do dia-a-dia,que so boas o suficiente para dirigirmos um carro, ganharmos a vida eirmos praia, mas no convincentes o bastante para a irresistvelexperincia do infinito. Essa experincia repetida atravs dos sculosfaz algumas pessoas suspeitarem que a realidade seja muito diferente emais vasta do que a mente, o corpo e a sociedade geralmente aceitam. Einstein experimentou essa realidade. Deixou o testemunho demomentos em que se sentiu liberto da prpria identificao com alimitao humana: Em tais momentos, um ser imagina que est parado em qualquerponto de um pequeno planeta, olhando maravilhado a beleza fria, masprofundamente comovente, do eterno, o incomensurvel. A vida e amorte fluem pelo ser e no h evoluo ou destino, s Ser. Apesar de tais palavras soarem como um insight ou percepoespiritual (Einstein se considerava profundamente espiritualizado), essaexperincia , na verdade, um lampejo que penetra num nvel de nossaconscincia que pode ser mapeado e explorado. Sem exercer controlesobre sua percepo mais profunda nem ter nenhuma explicaoconvincente para o que est acontecendo, a pessoa sente que o estadode silncio enlevado no apenas o vazio. Em sua maior parte, asgrandes tradies de sabedoria foram fundadas por um ou por poucosindivduos que compreenderam o universo por intermdio delesmesmos. Para resolver o mistrio do vazio precisamos consultar os queestiveram ali; se encontraram um mundo real, ento novos Einsteinviro a seguir, outros Einstein da percepo profunda. 178. SEGUNDA PARTE: CORPO DE BEM-AVENTURANAEm cada tomo existem mundos dentro de mundos. YOGA VASISHTHA 179. 10 No Mundo dos Rishis Um menino que vive na ndia no precisa sonhar com umamquina do tempo. Quando eu tinha 7 anos, uma caminhada de doisminutos me levava do hospital militar onde meu pai trabalhava para ogrande bazar de Poona. L, as antigas fragrncias pairavam no ar aafro, poeira, sndalo e fogareiros (eu mal as notava, pois minhaateno estava toda nos encantadores de serpentes). No hospital, onico cheiro era o de Dettol, um lquido para limpeza parecido com oformol, que fazia o nariz arder. Os fsicos comparam o tempo a umaflecha; na ndia, a flecha se curva e encontra a si mesma, voltando paratrs. Ns nos adequvamos a isso. Se um soldado aparecia com umferimento de perfurao no p, meu pai lhe dava uma injeo contrattano, mas, se o homem quisesse sair mancando e fazer uma oferendaa Shiva, papai compreendia. Atualmente, quando volto para l, olho pela janela do avio e vejobois puxando arados a poucos metros da pista. Nas cidades, no raroexecutivos em impecveis ternos de casimira inglesa se desviarem desadhus, ou homens santos, calmamente sentados no meio da caladavestidos de tanga ou com mantos alaranjados. Essa cena diriaassemelha-se a um stio arqueolgico cujas camadas estoirremediavelmente misturadas, ou, melhor ainda, onde elas emergiramdo solo e ganharam vida. No entanto, cada stio precisa ter uma camada bsica. Neste caso, a constituda pelos sadhus. Os homens santos da ndia datam de pelo 180. menos 3 mil anos antes do nascimento de Cristo. Suas palavras foramregistradas e transmitidas no snscrito original, que tudo indica ser oprimeiro idioma do homem. Seu lar tradicional ainda o Himalaia, ondeeles vo se sentar em samadhi, ou em profunda meditao, durantedias ou semanas seguidas. Para os sadhus, a vida totalmentededicada ao silncio interior. Em raras ocasies, ocorre-lhes opensamento de que devem fazer uma peregrinao. Ento, pegam suastigelas de esmola e partem para o sul, confiando em que a natureza lhesprover o alimento e o abrigo necessrios. Nestes tempos modernos,geralmente eles podem embarcar em qualquer nibus ou trem sempagar passagem. Quando eu era criana, o que sabia dos sadhus vinha de um demeus tios, o irmo mais velho de papai, que viajava por todo o pasvendendo equipamento esportivo. Ns o chamvamos de Bara Uncle, outio grande, um nome que o destacava de nossos parentes menosimportantes. Invariavelmente ele chegava a nossa casa com presentescomo tacos de hquei na grama (a ndia costumava derrotar o resto domundo nesse esporte pouco conhecido), bolas de futebol ou raquetes debadminton (esporte parecido com o tnis, mas jogado com peteca). Ascrianas, claro, esperavam suas visitas com ansiedade. Bara Uncle era alegre e conversador. Gostava de contar longoscasos sobre as maravilhas que encontrava em seu caminho. O maisinteressante aconteceu em Calcut. Meu tio estava abrindo caminhoentre a multido quando quase tropeou num velho sadhu sentadoperto do meio-fio. Com um gesto distrado, enfiou a mo no bolso,encontrou dois armas (cerca de dois centavos de dlar) e colocou-os natigela do homem santo. Este lanou-lhe um olhar e disse: Faa um desejo. Pea o que quiser. Surpreso, meu tio falou quase sem pensar: Quero um pouco de burfi. Burfi um doce indiano, em geral feito de amndoas ou coco.Com um movimento calmo, o sadhu levantou a mo direita,materializou dois pedaos de burfi fresco e entregou-os a Bara Uncle. 181. Perplexo, meu tio ficou paralisado por alguns segundos, o bastante paraque o homem santo se levantasse e desaparecesse na multido. BaraUncle nunca mais o viu. De certa forma, conseguiu uma troca justa,pois com os dois annas poderia ter comprado dois pedaos de burfinuma banquinha de rua. Entretanto, sempre que contava essa histria,balanava a cabea e lamentava: Ainda penso em tudo o que poderia ter pedido. Quando menino, eu acreditava piamente no relato de Bara Uncle,mas na ndia contempornea as pessoas tendem a olhar para umsadhu e imaginar com ceticismo se ele ser mesmo algum especial. Apartir da dcada de 20, cientistas da Europa e Estados Unidoscomearam a visitar a ndia para observar os vrios swamis, yogis esadhus de todos os tipos. Alguns haviam conseguido notveis graus decontrole sobre o corpo aparentemente eram capazes de suspender arespirao por vrios minutos e baixar os batimentos cardacos quase azero. Um procedimento tpico era enterrar um desses santos, comoso chamados no pas, numa caixa colocada a dois metros deprofundidade, uma suposta experincia cientfica, embora muitogrosseira. Depois de alguns dias, quando a caixa era desenterrada,tinha-se, ou no, um resultado. O desejado era encontrar o santo comvida. Quase todos os estudos fisiolgicos dessa poca so muitosuperficiais e muitos refletem essa estranha combinao de cincia comespetculo de parque de diverses. O controle que um sadhu exerce sobre o corpo, no entanto, ainda fsico e no representa o objetivo fundamental de sua existncia.Essas pessoas esto decididas a romper a mscara das aparnciasfsicas. Em nossa terminologia, querem deixar o mundo acima dalinha, para descobrirem o que jaz abaixo dela. De fato,tradicionalmente a vida indiana tem sido organizada para tornar essabusca possvel. Depois de um homem estudar, formar uma famlia egozar os prazeres da existncia material, espera-se que faa sanyasa ou seja, que renuncie vida de chefe de famlia, pegue a tigela e saiaem busca de algo alm. Quando se diz que ele est buscando Deus, a 182. verdade, a realidade ou a si mesmo, estas so expresses corretas,porque a essncia dessa procura a meta ser desconhecida. O homemest partindo para um outro mundo que no pode ser avistado deste emque estamos. Para usar novamente nossa terminologia, ele estquerendo atravessar o vazio. Ao crescer, passei a usar ternos de modelo ocidental e a desviarde santos na calada, mas, medida que analisava maisprofundamente as questes da medicina mente-corpo, voltava-me paraas antigas tradies da ndia. A segunda parte deste livro centra-se noque descobri. O mundo conhecido de nossos sentidos, dos tomos emolculas no se rompe abruptamente; ele vai se matizandoimperceptivelmente numa realidade diferente. A certa altura, porm,uma realidade se sobrepe a outra. Tempo e espao adquirem umsignificado diferente; desaparecem as claras divises entre a realidadeinterna e externa. Encontramo-nos num mundo nunca to bemexplorado como na ndia. Em sua forma mais pura, o sadhu uminvestigador da realidade transcendental que fica alm do vazio essa a tradio que ele segue, uma das mais antigas e sbias de nossoplaneta. Compreender suas descobertas nos levar por uma novaestrada, longe da fsica, mas ainda assim na mesma linha, procura dens mesmos. No Ocidente, antes do advento da teoria da relatividade, no sequestionava se o tempo, o espao, a matria e a energia ocupavamcompartimentos de realidade separados. Nossos sentidos detectam umarvore como totalmente diferente de um raio de luz ou de uma centelhade eletricidade; podemos sentir que o tempo uma entidade maismisteriosa, capaz de correr mais devagar, acelerar ou at parar, masjamais diramos: Gosto mais de Nova York do que de Segunda-feira.Parece bvio que tempo e espao, matria e energia so paresseparados, pelo simples motivo de que nenhum pode ser transformadono outro. O mundo normal dos sentidos pode ser esquematizado numaforma bem conhecida por ns: 183. Depois que Einstein publicou a equao E = MC2, foi precisomodificar essa viso simples e corriqueira, pois ento se tornou possvel(como o provou a bomba atmica) transformar a matria em enormesquantidades de energia. A teoria geral da relatividade fez o mesmo pelaseparao entre tempo e espao. Atualmente, a fsica lida com umaentidade fundida chamada tempo-espao, que pode ser curvada para seajustar a certas circunstncias (sempre que um objeto viaja com umavelocidade prxima da luz, por exemplo). Depois de provar que anatureza era muito menos compartimentada do que a cinciaanteriormente pensava, a relatividade abriu outra possibilidade, aindamais surpreendente. Einstein sugeriu que existe um campo subjacentecomo pano de fundo para todas as transformaes do espao-tempo emassa-energia. Isso implica um nvel de natureza totalmente fundido;em outras palavras, h uma regio de espao-tempo-matria-energia. Einstein estava intuitivamente convencido dessa possibilidade a demolio mxima do mundo dos sentidos numa poca em queningum mais tinha viso para pensar nela com seriedade. Comeandona dcada de 20, ele passou os ltimos trinta anos de sua vida isoladodos outros fsicos de sua gerao e em grande parte ignorado,procurando computar a matemtica de uma teoria do campounificado. Essa teoria uniria as foras bsicas da criao e assimexplicaria o universo como um todo. Em vez de quatro compartimentos,haveria um s. Unir, no sentido em que os fsicos usam a palavra, significaprovar que duas coisas que parecem totalmente diferentes podem se 184. transformar cada uma na outra, num nvel mais profundo da natureza.O fton e a onda de luz so exemplos clssicos disso: eles pareceminteiramente diferentes; no entanto, num nvel infinitesimal danatureza, chamado escala Planck, que mais de um bilho de bilho devezes menor do que o menor dos tomos, o fton e a luz podem serunidos. Ningum ainda conseguiu resolver a matemtica de um campounificado. Isso seria equivalente a resolver toda a zona oculta querotulamos com um ? (No entanto, uma nova teoria, que recebeu onome de superfilamento, pode ter, enfim, resolvido o problema, trintaanos aps a morte de Einstein.) Em face de um problema que o pensamento racional no podesolucionar, a cincia necessariamente se detm, mas outras vias podemser abertas. Milhares de anos atrs, os antigos rishis, ou videntes dandia, tambm refletiram sobre a questo de a natureza seressencialmente unificada. Um rishi semelhante a um sadhu nosentido de que sua vida dedicada ao silncio e vivncia interior, masos rishis esto mais distantes no tempo eles foram responsveis pelaescrita dos antigos textos do Veda, ou verdade revelada, como o RigVeda, que talvez seja milhares de anos anterior s pirmides egpcias. Se voc perguntar a um indiano moderno o que so os Vedas, eledir que so livros que contm as palavras dos rishis, mas na verdade oVeda o contedo vivo da conscincia dos rishis. Um rishi foi capaz dever to fundo na natureza das coisas que at mesmo Deus se senta aseus ps para aprender essa lio pode ser encontrada no YogaVasishtha, onde o jovem Senhor Rama, uma encarnao divina, suplicaao sbio Vasishtha que o instrua. No estou enfatizando aqui o valor espiritual do rishi e seuconhecimento. At bem recentemente na histria da humanidade, todasas culturas misturavam livremente religio, psicologia, filosofia e artenum todo homogneo. No entanto, filamentos individuais podem serpuxados desse todo; neste caso, estou interessado no que os rishistinham a dizer sobre a natureza fundamental da realidade (no YogaVasishtha, Deus tambm demonstrou um vvido interesse pelo 185. assunto). Assim como ns, eles eram capazes de dividir a natureza emespao, tempo, matria e energia, mas voltavam as costas para esse tipode abordagem que domina de modo to absoluto nossa maneira de ver omundo e de pensar nele. Em lugar disso, os rishis optaram por resolver o problema daforma mais prtica imaginvel. Resolveram atravessar o vazio e entrarna zona ?, onde o pensamento no pode chegar. Usaram umadistoro simples em sua percepo, mas que teve profundasconsequncias foi como virar o mundo objetivo pelo avesso. Parafazer isso, os rishis tiveram de analisar a natureza de uma maneiraimprevista, que pode ser representada por outro esquema: Esse diagrama to vlido como o anterior, mas olha para omundo de um ponto de vista puramente subjetivo. Em vez de ver otempo, espao, matria e energia l fora, os rishis observaram que arealidade comea aqui dentro, com nossa percepo consciente. Emqualquer instante, raciocinaram, uma pessoa precisa estar em um dostrs estados de percepo subjetiva acordado, dormindo ousonhando. Os antigos admitiam que a realidade era diferente emdiferentes estados de conscincia um tigre no estado de sonho no um tigre no estado acordado ou de viglia. A realidade obedece a leisinteiramente diferentes e, por similaridade, as leis do estado de sono,embora no conhecidas pela mente consciente, devem ser distintas dasdos estados de viglia e de sonho. Os rishis analisaram mais a fundo e detectaram, entre esses trs 186. estados, um vazio que atua como um agente, enquanto uma realidadese transforma em outra. Por exemplo, pouco antes de adormecer, amente vai pouco a pouco abandonando o estado de viglia, recolhendoos sentidos, deixando para fora o mundo acordado; porm no ponto dejuno antes de a mente adormecer, abre-se um rpido vazio, idnticoao que ocorre num timo de segundo entre dois pensamentos. comouma pequenina janela que se abre para o campo que se situa almtanto do estado de viglia como do sono. Essa compensao abriu apossibilidade de se deixar para trs as fronteiras comuns dos cincosentidos, mergulhando-se no vazio. Considerando-se que o Ocidente supostamente prtico, e oOriente, mstico, fascinante descobrir que os rishis eram muito maisvidos por experincias diretas do que um fsico quntico. Suaabordagem subjetiva denominava-se Yoga, a palavra em snscrito paraunio. (Os vrios exerccios ensinados nas escolas de yoga pertencemapenas a um de seus ramos, o chamado Hatha Yoga; aqui vamos falarda abordagem mais poderosa do Yoga, que mental.) Como o rishi e ofsico quntico procuram uma camada subjacente da unidade nanatureza, pode-se ver imediatamente a semelhana entre o Yoga e abusca de Einstein por uma teoria do campo unificado. A diferena maisimportante entre os dois que os rishis, no sendo tericos, declaravamque o campo unificado existe no mundo real ele uma experincia eno mera construo mental. Do ponto de vista subjetivo dos rishis, o campo unificado spoderia ser um outro estado de conscincia, ao qual deram o nome deturiya, ou o quarto, para deixar claro que ele no fazia parte dos trsestados viglia, sono e sonho. Eles tambm se referiam a ele comopara, ou alm, significando que esse campo unificado transcendia aexperincia ordinria. Mas como poderia existir um quarto estado? Aresposta era dupla. Primeiro, os videntes disseram que o quarto estadoexiste em todos os lugares, mas est oculto pelos outros trs estados,que funcionam como uma divisria. (Alguns textos antigos declaramque o quarto estado foi misturado aos outros trs, como leite na gua, e 187. que descobri-lo to difcil como separar o leite da gua.) Segundo, queo quarto estado pode ser vivenciado diretamente apenas depois que amente tenha transcendido sua atividade normal, o que exige tcnicaespecial de meditao. A prpria palavra rishi denomina uma pessoa que aprendeu aentrar no quarto estado sempre que quiser e observar o que existe l.Essa capacidade aprendida no pensar, no sentido em que usamoseste termo todo o fenmeno uma experincia imediata, comoreconhecer a fragrncia de uma flor ou o som da voz de um amigo. Ele imediato, no-verbal, e diferente do perfume de uma rosa, totalmentetransformador. Enquanto meditavam profundamente absorvidos emsua prpria percepo subjetiva, os rishis exploravam o turiya comoolharamos para o Grande Canyon, por exemplo. Como indivduos,esses videntes tm nomes, mas a entrada no transcendentalobscureceu as margens do que consideramos identidade pessoal.Vasishtha, por exemplo, no apenas o nome de um dos maiores dosantigos rishis, mas tambm o de uma parte integral do Veda oconhecimento transcendental que o homem Vasishtha foi o primeiroa perceber; para conhecer realmente aquela parte do Veda, precisoestar na conscincia Vasishtha. Em suma, esses sbios observaram aexistncia em sua forma mais pura. Apesar de todas as intenes e propsitos, o Ocidente no tinhameios para testar de forma sistemtica a existncia do quarto estado.Carente da tcnica certa, a comunidade cientfica tem ignorado o turiya.De fato, muitos cientistas o considerariam irrelevante ou ameaador. Asimples noo de unio traz mente imagens indesejadas: dissolver-se num estado de nada ou perder a identidade como uma gotadesaparecendo no oceano. A despeito de ocasionais exploses deentusiasmo por idias orientais, o progresso do conhecimento noOcidente tem dependido sobretudo da observao externa, e no dainterna. 188. No entanto, se existe um estado que transcende os trs habituais,parece lgico que ele deva se manifestar de vez em quando, nem queseja por acaso. Vejamos a experincia vivida por Charles Lindbergh em1927, durante os momentos mais crticos de sua aventura. Quandoestava no segundo dia de seu histrico vo sobre o Atlntico, eledescobriu que havia ultrapassado os limites da exausto fsica.Temendo perder o controle do avio, procurou evitar um desastreentregando-se ao sono e esperando manter-se no curso. Ento, comoLindbergh conta em sua autobiografia, ocorreu uma notvel mudanade percepo: Por vrias vezes, no segundo dia de meu vo, voltei ao estado consciente, alerta o bastante para perceber que estivera voando enquanto no estava nem dormindo nem acordado. Meus olhos tinham ficado abertos. Eu reagira s indicaes dos instrumentos e me mantivera, de uma forma geral, dentro do curso da bssola, mas perdera o sentido de tempo e da circunstncia. Por perodos imensurveis, eu parecia me expandir para fora de meu avio e de meu corpo, independente dos valores mundanos, com a capacidade de apreciar a beleza, a forma e a cor, sem depender de meus olhos. Em criana, Lindbergh j deitara nos milharais da fazenda do paie experimentara uma sensao similar, de estar alm da imortalidadeenquanto olhava para o cu. Entretanto, o episdio sobre o AtlnticoNorte foi mais longe. Lindbergh concluiu sobre o acontecimento: Foiuma experincia onde tanto o intelecto como os sentidos foramsubstitudos pelo que poderia ser denominado uma percepo semmatria... Reconheci que a viso e a realidade interagem, tal como aenergia e a matria. Isso parece o equivalente subjetivo das transformaes espao-tempo que Einstein provou serem possveis no campo objetivo. No 189. entanto, essa experincia subjetiva notoriamente difcil de sequantificar, em especial se ela ultrapassa o intervalo normal depercepo. Os fisiologistas esperaram o final da dcada de 60 at quealgum deles se aventurasse a considerar vlido que os rishis haviammesmo acrescentado uma nova dimenso mente humana. O quetornou isso possvel foi um sbito crescimento no interesse pelameditao, em particular pela Meditao Transcendental, ou MT, quefoi trazida da ndia para os Estados Unidos, em 1959, por seufundador, Maharishi Mahesh Yogi.* Tendo se iniciado em meados dosanos 60, a MT conquistou grande popularidade. No ano de seu auge,1975, quase meio milho de americanos aprenderam a tcnica. A MTtambm tornou-se algo aceita em quase todos os lugares fora daCortina de Ferro (e, muito silenciosamente, em alguns dentro dela).* Como ela ainda a meditao mais confiavelmente pesquisada de que dispomos,estou me concentrando na MT e em sua origem nos Vedas. Outras tradies demeditao Zen, tibetana, chinesa etc. tm valiosas aplicaes mdicas esignificado espiritual sofre os quais no estou qualificado para discutir, mas, mesmoassim, respeito. Outros mestres indianos haviam viajado ao Ocidente antes doMaharishi, mas ele foi o primeiro a derrubar as barreiras culturais emgrande escala da populao. Quando comeou a ensinar, a maioria daspessoas do Ocidente nem tinha ouvido falar na palavra meditao, emuitas a encaravam com descrena, em parte devido a uma confusode linguagem. Costumamos dizer vou meditar sobre isso, no sentidode que pretendemos ponderar sobre o assunto; para alguns, ameditao sinnimo de contemplao ou mesmo de orao. difcilcompreendermos que para um rishi a meditao pode significar apenasdhyan, o termo snscrito que corresponde a conduzir a mente aorepouso, no silncio do quarto estado. (A palavra dhyan deu origem avrios termos similares em toda a sia, como, por exemplo, a palavrajaponesa zen.) Para que tal distino ficasse bem clara, o Maharishiacrescentou a palavra transcendental, enfatizando que a menteprecisa ir alm, ou transcender seus limites habituais, para atingir o 190. turiya. Para o Maharishi, descer do Himalaia, onde vivia h catorze anos,e entrar direto na Amrica moderna foi um ato notvel. Os ashrams locais de retiro religioso na ndia ao longo do Ganges, na rea maisisolada do Uttar Kashi o vale dos santos , constituem a partemenos mundana da ndia, um pas onde as regies mais adiantadasnem mesmo dispem de telefones confiveis. Olhando para uma fotodatada de 1964, posso imaginar a notvel impresso que o Maharishicausou. Ela foi tirada margem do lago Big Bear, no alto dasmontanhas acima de Los Angeles. Sob o abrigo de altos pinheiros, foipreparado um piquenique, embora o solo estivesse coberto por meiometro de neve. A luz apresenta uma cintilante caracterstica alpina.Uma dzia de pessoas esto na foto, onze delas so ocidentais usandosobretudos e jaquetas de esqui. A outra o Maharishi se destaca.Ele est tranquilamente sentado numa manta estendida sobre a neve,vestindo apenas o traje tradicional de monge, constitudo de tnica deseda branca, sandlias e xale. Parece baixo, mas bem desenvolvido; oscabelos longos e barba no esto aparados, o que tambm regra entreos monges. Nessa poca, o Maharishi j vivera seus momentos de choquecultural. Em sua primeira visita aos Estados Unidos, em 1959, umjornal de San Francisco anunciou a Meditao Transcendental comoum tranquilizante no medicamentoso e a elogiou como umapromissora cura para a insnia. Uma vez que esse artigo foi o primeiroa respeito da chegada do Maharishi, os anfitries do mestreapressaram-se em lhe mostrar. Leram a reportagem em voz alta e aguardaram sua reao. OMaharishi permaneceu sentado em silncio e depois emitiu uma nicapalavra: Cruel. Os anfitries ficaram chocados. Sinto vontade devoltar correndo para casa, disse o Maharishi em voz baixa. Este pasme parece estranho. Os valores aqui so diferentes. Ele levou algumtempo antes de poder rir com a idia de os americanos quereremdormir, quando sua inteno era acord-los. Mesmo atualmente, as 191. pessoas ficam surpresas com a reao inicial do Maharishi, porquemeditao tornou-se a senha para relaxamento e seus benefcios,inclusive um sono melhor. Os mdicos com quem converso sobremeditao em geral me garantem que, acreditem ou no nela, seuobjetivo o relaxamento. S sob a luz do Veda pode-se compreender porque essa viso to mope. O Veda representa uma imensa expanso da mente humana. Omelhor meio de descrev-lo como o contedo total do computadorcsmico. Todos os dados na natureza so canalizados para ele e delefluem todos os fenmenos naturais. O controle sobre esse computadorest localizado no crebro humano, cujos bilhes de conexes neuraislhe do suficiente complexidade para refletir a complexidade douniverso. O crebro no importante como objeto, dizem os rishis. Ele importante porque nossa prpria subjetividade brilha atravs dele;quando nosso crebro nos mostra o mundo, est na realidade nosmostrando a ns mesmos. Por analogia, quando uma imagem surgenum espelho, acontece uma mistura. O espelho o reflexo; o reflexo oespelho. Da mesma forma, a nica realidade sobre a qual podemossaber alguma coisa a que est refletida no crebro portanto, tudo oque existe est dentro de nossa subjetividade. Normalmente um fsico no concordaria com isso, uma vez queaprecia o mtodo objetivo e encara a subjetividade como um inimigovirtual. Um fsico diz Isto um prton, e no Esta minha sensaopara o que um prton. Na verdade, o Veda no carece deconhecimento objetivo ele deu origem a suas prprias cincias dabotnica, fisiologia, astronomia etc. , mas os rishis no achavam quea objetividade fosse o modo mais confivel de se conhecer coisas, emespecial depois de se investigar mais fundo do que a superfcie danatureza. A verdade, diziam, que a subjetividade no pode ser nemreduzida nem expandida. A natureza como uma faixa de rdio. 192. Quando prestamos ateno a um objeto isolado uma pedra, umaestrela ou uma galxia inteira , estamos escolhendo uma estao nafaixa. O resto, bvio, tem de ser excludo mas apenas naquele nvelde conscincia. Pode ser que outros nveis de conscincia recebam mais faixas, oumais de uma faixa de cada vez. Atualmente, os fsicos estimam quenossos sentidos escolhem menos de um bilionsimo de ondas deenergia e de partculas que os cercam. Vivemos numa sopa de energiaincrivelmente maior do que o mundo que vemos. Pensa-se hoje em diaque o universo visvel seja apenas uma verso minscula da criaooriginal, o resduo de uma realidade muito maior que ruiu em algumperodo antes de o tempo comear, reduzindo suas dez dimensesoriginais para nossas quatro. (Quero me desculpar pelo uso da fraseantes de o tempo comear, que um paradoxo gritante, mas no houtro modo de expressar verbalmente como ocorreram os eventos pr-Big Bang.) Tambm parece que, no momento da criao, nosso universoestava preenchido com um bilho de vezes mais energia do que agoraobservamos com radiotelescpios; o restante foi reabsorvido pelo mesmocampo oculto para onde foram as outras seis dimenses. Os rishis afirmavam que, por meio da conscincia expandida, atessa inconcebvel realidade perdida podia estar a nosso alcance. Osfsicos tericos admitem que as dimenses perdidas e os campos deenergia invisveis, na verdade, no foram para nenhum lugar; elesapenas recolheram-se para dormir no campo primordial. Do mesmomodo, o nvel transcendental de percepo est disponvel em todos oslugares; voc no precisa ir a nenhum ponto em especial para encontr-lo. S necessrio acordar. William James expressou essa idia numafamosa passagem: Nossa conscincia normal quando estamos acordados, ou conscincia racional, como a chamamos, no passa de um tipo especial de conscincia, enquanto, em toda sua volta, separadas dela pela mais delgada das telas, jazem formas 193. potenciais de conscincia completamente diferentes. Podemos passar pela vida sem suspeitar de sua existncia; mas, aplicando-se o estmulo requerido e com um simples toque, elas esto l, em toda sua plenitude. Se muito mais da realidade est prximo, por que no podemostoc-la? Os pesquisadores encontraram a pista de uma respostafazendo experincias com gatos recm-nascidos. Os gatinhos nascemcom os olhos fechados e o nervo ptico mal desenvolvido. medida quevo abrindo os olhos, o mecanismo da viso vai amadurecendo; essesdois eventos sempre acontecem simultaneamente. No entanto,descobriu-se em meados da dcada de 70 que, ao se tapar os olhos deum gatinho por dois ou trs dias, enquanto ele est na fase de abrir osolhos pela primeira vez, o animal ficar cego para sempre. Durante essebreve mas crtico perodo, a experincia de ver a responsvel pelaformao das conexes interneuronais no crebro, que tornam possvela viso. Essa foi uma descoberta muito importante, j que os bilogoscontinuam discordando sobre o que mais importante nocomportamento, a gentica ou a experincia. Trata-se da velha questoa respeito de uma caracterstica: se inata ou adquirida. Um pssaroaprende a cantar imitando a me? Ele cantar se for criado emisolamento? A experincia com os gatinhos mostrou que tanto anatureza como a criao so essenciais. O crebro do gatinho programado para a viso; no entanto, ele requer o ato de ver para quesua programao se desenvolva adequadamente. S que existe umaimplicao mais profunda em tudo isso: nosso crebro pode estarlimitado exatamente dessa forma. Muitas coisas l fora no existempara ns, no porque sejam irreais, mas porque aqui dentro o crebrono est moldado para perceb-las. Somos como rdios queaparentemente dispem da capacidade de captar todas as estaes,mas que mantm sintonia cativa em apenas trs acordado, dormindoe sonhando. 194. Como nosso crebro o nico rdio de que dispomos, jamaispoderemos saber se existe o quarto estado, a no ser que nosso sistemanervoso esteja preparado para isso. plenamente possvel queestejamos envoltos e banhados pelo transcendente e ainda no otenhamos sintonizado. Sob essa luz, o Veda como a faixa inteira do rdio. Ao longo dotempo, porm, seu significado se distorceu medida que as pessoasforam perdendo contato com a pura percepo. Em vez de ficar com aconscincia vdica, a ndia ficou com os livros vdicos. Eles afirmamque o Veda supremo e universal, mas bvio, pelo estado atual dandia, que o real poder do Veda deixou de existir, restando apenas aforma. como saber que existe o computador csmico, ter o manual deinstrues completo para oper-lo, porm no se lembrar de lig-lo natomada. Para conduzir as pessoas pura percepo, o Maharishiprecisava afast-las da superfcie da vida. Os mestres orientais quehaviam feito isso antes tinham deixado a impresso de que interiorizar-se significava um sacrifcio dos valores mundanos e da realidadeobjetiva. O Maharishi adotou a posio exatamente oposta, dizendo queo nico propsito de transcender era expandir a mente. Se asubjetividade expande, ento seu reflexo o mundo visvel deve seexpandir junto. A longa degenerao da sabedoria indiana levou ao mal-entendido de que a renncia o caminho para o turiya, e odesprendimento, a meta da vida. Vida com base no desprendimento! Esta uma completadistoro da filosofia indiana. Ela no apenas destruiu a senda darealizao como tem levado os que buscam a Verdade a se perderem. Defato, deixou-os impossibilitados de atingirem a meta. O Maharishi escreveu estas palavras em 1967, quando foipublicado seu importante comentrio sobre o Bhagavad Gita. Elassopram como um vento forte atravs do torpor da doutrina oriental. Emtodas as tradies, no apenas na hindu, o peso do desprendimento eda renncia exerceu um efeito nocivo. Prevalece a opinio de que a 195. mente deve ser forada a ficar inativa se o objetivo atingir o silncio.Uma representao vvida do Veda diz que meditar como domar umelefante selvagem. O animal deve ser amarrado a uma estaca e gritar episotear at ficar completamente exausto. Ento, pode-se comear oprocesso de doma. O Maharishi afirma que esse um erro fatal. Na verdade, a mentedeseja encontrar o quarto estado e ir procurar por ele se a deixaremseguir suas tendncias naturais. Ento, a meditao apenas umveculo (o Maharishi o chama de esforo sem esforo) para colocar amente na direo certa. A prova mais bvia de que ele est correto vemdo vazio silencioso que surge naturalmente no espao entre ospensamentos. No entanto, o Veda nos fornece uma analogia de apoio:pensamentos so como ondas do oceano. Subindo e descendo, elasvem apenas o prprio movimento. Dizem Sou uma onda; porm averdade maior, a que no vem, Sou o oceano. No existe separaoentre as duas, por mais que as ondas possam supor. Quando a onda seaplaina, ela instantaneamente reconhece que sua fonte, o oceano infinito, silente e imutvel , esteve sempre l. O mesmo vale para a mente. Quando ela pensa, toda atividade;quando pra de pensar, volta a sua fonte de silncio. S quando amente tocar a pura percepo que ser localizado o real reservatriodo Veda. A experincia do Veda, portanto, no antiga nem mesmoparticularmente hindu. Ela universal e pode ser obtida a qualquermomento por qualquer pessoa. O segredo no se mover na horizontal,como a corrente da conscincia normalmente flui, mas aprofundar-sena vertical. Essa descida vertical transcender, meditar, dhyan, iralm todas as manifestaes de uma mente que cessa de seidentificar com ondas e comea a se identificar com o oceano. Se esse argumento correto, ento a natureza da mente e daconexo mente-corpo tem de ser reconsiderada. O ponto queArquimedes procurava um lugar para apoiar-se e mover o mundo na verdade existe. Ele est dentro de ns, coberto pelo fascinante masenganador espetculo cinematogrfico do estado de viglia. 196. Isso talvez explique por que a medicina mente-corpo tem semostrado to inconsistente. Tomamos como correto, sem raciocinarmuito, que uma pessoa que sobrevive ao cncer ou consegue curar a simesma de uma doena fatal opera com a mesma maquinaria mental dequalquer outro ser humano, e isso no verdade. Os processos mentaispodem ser superficiais ou profundos. Ir fundo significa entrar emcontato com o projeto bsico da inteligncia e modific-lo s ento avisualizao de lutar contra o cncer, por exemplo, pode ser forte obastante para derrotar a doena. Entretanto, a maioria das pessoas noconsegue fazer isso; sua fora de pensamento fraca demais paradisparar os mecanismos adequados. A questo prtica se a meditao forte o bastante paramelhorar de forma radical nosso poder de pensamento. Vrios estudosrealizados por cientistas associados ao Maharishi mostraram que ameditao pode, de fato, induzir mudanas profundas, muito alm dosimples relaxamento para o qual a maioria das pessoas do Ocidente ausa, alm mesmo das aplicaes mdicas de aliviar tenses ou diminuiro nvel de presso sangunea, e assim por diante. O primeiro cientista ocidental a realizar um trabalho importantecom o quarto estado foi o fisiologista americano Robert Keith Wallace,que provou sua existncia. Em 1967, Wallace era um estudante de ps-graduao na UCLA (Universidade da Califrnia, em Los Angeles), ondecomeou as pesquisas para sua tese de Ph.D sobre mudanasfisiolgicas que ocorrem durante a MT. Usando os mtodos dosmodernos estudos biomdicos, ele fez medies em praticantes de MTao longo de vrios anos. Ligou-os (sem desconforto) a aparelhos paramedir ondas cerebrais, presso sangunea, batimentos cardacos eoutros indcios de alterao fsica. Os pacientes meditavam durantevinte minutos, usando o procedimento mental uniforme ensinado a todoo praticante de MT. Wallace logo comeou a reunir uma considervel amostragem de 197. resultados incomuns. Primeiro, descobriu que algo muito real aconteciaao corpo em meditao. Poucos minutos depois de iniciarem a prtica,os pacientes entravam num estado de profundo relaxamento, marcadopor respirao e batimentos cardacos mais lentos, pelo surgimento deondas alfa no EEG (eletroencefalograma) e pela diminuio de consumode oxignio detectada na respirao. Essa ltima medio foiparticularmente importante, porque mostrou que a taxa metablica docorpo, ligada ao consumo total de combustvel nas clulas, havia cado os fisiologistas se referem a essa reduo metablica como estadohipometablico. Os meditadores chegavam ao relaxamento mais profundo comrapidez. So necessrias de quatro a seis horas de sono para se atingiro perodo onde o consumo de oxignio cai a seus nveis mais baixos,mas os meditadores o conseguiam em alguns minutos. Alm disso, nosono a queda em geral inferior a 16 por cento, enquanto ospraticantes da MT alcanavam redues relativas quemomentaneamente chegavam ao dobro. Wallace ficou impressionadocom esses nmeros porque nunca havia sido registrado um estado derelaxamento to profundo. O estudo revelou que as sensaessubjetivas experimentadas durante a meditao e posteriormenterelatadas silncio interior, paz e relaxamento tinham uma basefsica real. Era muito importante tambm o fato de os pacientes noterem adormecido nem entrado em transe. Eles estavam completamenteacordados em seu interior, experimentando mesmo uma sensao depercepo ampliada. Wallace ento concluiu que a meditao era umestado de viglia hipometablica. Uma vez que suas medies diferiamde quaisquer outras feitas com pessoas acordadas, dormindo ousonhando, ele concluiu que verificara um estado de conscinciaabsolutamente novo o quarto estado. Certos meditadores apresentaram mudanas fsicas queultrapassaram a mdia. Como aconteceu com iogues estudados nandia e no Himalaia, sua respirao pareceu cessar por longos perodos.No nvel subjetivo, esses estados mais profundos foram vivendados 198. como um silncio interior absoluto, uma sensao de enorme expansoe de profundo conhecimento. A mente se esvaziou de pensamentosespecficos, mas ficou com a clara percepo de Eu sei tudo. Ningumfoi capaz de explicar tais experincias porque os instrumentoscientficos so grosseiros demais para analis-las e at mesmo paradetect-las. No entanto, para algum versado em literatura vdica, estavaclaro que esses pacientes vivenciavam um tipo profundo de percepotranscendental. O Yoga Vasishtha, uma das maiores fontes sobre aexperincia direta com o transcendente, diz sobre o quarto estado:Quando h a suspenso da respirao sem esforo, esse o estadosupremo. o Eu. a pura, infinita conscincia. Aquele que atinge esseestado no sofre. Seria difcil encontrar melhor descrio do que a queos fisiologistas estavam vendo. Wallace procurou medies fsicas feitascom meditadores Zen, no Japo, e encontrou resultados comparveis.No entanto, o impressionante era que seus pacientes americanos, amaioria deles jovens, ps-hippies e novatos em meditao, estavamatingindo as mesmas marcas dos adeptos Zen que j praticavammeditao h dez anos. Visto sob uma luz diferente, o que Wallace fez foi legitimar aconexo mente-corpo. Atualmente, aceita-se o fato de que o corpo deum indivduo reage espontaneamente a seu estado de conscincia,como afirmaram os rishis. O paradoxo precisarmos aprender amergulhar dentro de ns mesmos. A meditao nos ensina a controlarum processo que nos influencia Constantemente, dia e noite, querpercebamos isso, quer no. Recentemente conheci uma mulher da cidade de Boston, de 60 epoucos anos, que h muito sofria de lenta degenerao do msculocardaco chamada cardiomiopatia. Existem vrios tipos desse mal e odela era considerado idioptico, ou seja, sem causa aparente. Seuprincipal sintoma na poca do diagnstico era falta de flego sempreque fazia algum esforo, e descobriu-se que isso decorria do aumentodo tamanho do corao, o que o fazia funcionar mal. A medicina pode 199. fazer muito pouco ou quase nada nesses casos, o que deixou essasenhora muito preocupada. Por sugesto mdica, ela foi internada parase submeter a um angiograma. O propsito de um angiograma determinar se existe bloqueiodas artrias coronrias, os vasos que levam oxignio para o corao. Ocardiologista calculava que, se houvesse algum bloqueio, parte dossintomas poderia dever-se a uma molstia arterial, que tratvel. Commuita apreenso, a senhora submeteu-se ao exame. O angigrafo,tambm mdico, foi a seu quarto algum tempo depois. Tenho boas notcias disse ele. Seus vasos esto limpos.Voc no tem nenhuma doena nas artrias coronrias. Em minhaopinio, no h necessidade de cirurgia. Quando estava saindo,virou-se para ela e observou: Se seu estado piorar, a nica coisa quepode ser feita um transplante cardaco. A mulher nunca ouvira isso antes e, poucos dias depois, comeoua ficar sem flego no apenas depois de esforos, mas sempre que sedeitava. Incapaz de dormir e cada vez mais ansiosa, ela voltou a seucardiologista, que no encontrou nenhum motivo para o agravamentodos sintomas. Depois de vrias consultas, eles tiveram uma conversamais franca e a mulher confessou que temia precisar de umtransplante. O mdico garantiu-lhe que seus temores eram infundados nada em seu estado justificava a adoo de um procedimento todrstico. Daquele dia em diante, os novos sintomas desapareceram. Mais uma vez podemos ver que a realidade subjetiva e a realidadeobjetiva esto intimamente ligadas. Quando a mente muda, o corpo notem outra escolha seno mudar. A realidade objetiva, bvio, parecemais fixa do que nossos humores, desejos passageiros e repentes deemoo subjetivos. No entanto, talvez no seja assim; ela mais comouma corda de violino que pode manter um tom, mas tambm podemudar de tom medida que o dedo desliza nela essa imagem meocorreu quando eu pensava no caso de Chitra, narrado no incio deste 200. livro, mas serve para todos ns. O tom da corda nosso nvel de conscincia. Esse um atributointerno bsico, um ponto focal para onde convergem todos nossospensamentos, emoes e desejos, como um par de culos de lentesverdes, que faz o mundo todo parecer verde. A maioria das pessoas nopercebe o quanto seu tom consistente, mas outras tm uma boaconscincia dele uma pessoa deprimida irradia depresso, ainda quese esforce para agir de uma maneira positiva; uma pessoa hostil podeenervar todos os ocupantes de uma sala, mesmo ao dizer coisasinofensivas. O nvel de conscincia das pessoas se ajusta em diretrizesamplas. Ningum absolutamente hostil ou alegre, inteligente ousimplrio, satisfeito ou descontente; existem dezenas de gradaes sutisem cada personalidade. O mais importante a salientar que tudo o que se pensa e se faz determinado por esse ponto no se pode, pensando, passar para umnvel de conscincia mais alto ou mais baixo. Isso ajuda a explicar porque a meditao no simplesmente um outro modo de pensar ou deintrospeco um erro que os ocidentais tendem a cometer. Naverdade, ela um meio para se deslizar at um novo tom. O processo detranscender, ou ir alm, desprende a mente de seu nvel fixo e permiteque ela exista, nem que seja por um momento, sem nenhum nvel. Elaapenas vivencia o silncio, vazia de emoes, impulsos, desejos, medose de tudo o mais. Depois, quando a mente volta a seu tom habitual (onvel de conscincia), ela adquiriu um pouco de liberdade para semovimentar. De um ponto de vista mdico, uma doena pode representar umadesafinao na corda do violino. No entanto, por algum motivo, osistema mente-corpo no consegue um modo de se soltar dali, dedeslizar para um tom mais saudvel. Se isso for mesmo verdade, entoa meditao pode ser uma poderosa ferramenta teraputica, permitindoque o corpo se solte da doena. Os pesquisadores da meditaoperceberam esse potencial no final da dcada de 60, quandodescobriram que muitos estudantes que usavam lcool, cigarros e 201. drogas leves abandonaram esses hbitos poucos meses depois decomearem a meditar. Podemos dizer que eles se desprenderam de umantigo nvel de conscincia que precisava desses estimulantes; emtermos de neuropeptdios, a explicao talvez seja que a meditaoliberou certos locais receptores, oferecendo molculas mais satisfatriasdo que as do lcool, nicotina ou maconha. Por volta de 1978, Robert Keith Wallace j passara mais de umadcada analisando efeitos mente-corpo separados em meditadores MT.Decidiu, ento, percorrer um outro caminho e investigar uma rea maiscomplexa, holstica: o envelhecimento humano. O processo deenvelhecimento tem sido tradicionalmente aceito sem contestaescomo um aspecto inevitvel na vida normal, e variaes dele soconsideradas casos particulares. Algumas pessoas vivem mais tempo doque outras devido a genes privilegiados, a um forte sistema imunitrioou boa sorte, mas no existe um fator antienvelhecimento que possa seraplicado a todos. Se houvesse um, os ancios de 70 anos seriam maisuniformemente saudveis em suas funes corporais, como acontececom a maioria dos jovens de 20 anos. No entanto, no existe prova cientfica de que o envelhecimentoseja normal ele apenas algo que sofremos. So tantas as tensesenvolvidas na vida normal que se pode considerar que a fisiologiahumana est sempre sob uma presso anormal devido ao barulho, poluio, a emoes negativas, dieta inadequada, ao tabagismo, aoconsumo de lcool etc. Somente a doena de estar com pressa jbasta para apressar o envelhecimento em quase todos ns. Se ameditao contrabalana esses fatores, ela poder revelar algocompletamente novo sobre o processo de envelhecimento. Wallace comeou, ento, a medir um grupo de meditadoresadultos para estabelecer o que se denomina idade biolgica. A idadebiolgica mostra como est funcionando o corpo de uma pessoa emcomparao com as normas do conjunto da populao. Ela nos d uma 202. medida mais verdadeira que a da idade cronolgica de como oenvelhecimento est progredindo, porque duas pessoas com a mesmaidade, 55, por exemplo, podem ter organismos muito diferentes entre si.De incio, Wallace s se concentrou em testar trs variveis simples:presso sangunea, acuidade auditiva e viso de perto. As trs vo sedeteriorando de maneira constante, medida que o corpo envelhecebiologicamente, e, portanto, servem como marcos adequados. Wallace descobriu que os meditadores, como um grupo, eramsignificativamente mais jovens em termos biolgicos do que se poderiaesperar em sua idade cronolgica. E mais, a diferena entre as duasidades no era pequena a meditadora que obteve a melhor contagemera vinte anos mais jovem que sua idade cronolgica. Uma descobertanotvel foi a verificao de que a menor idade biolgica estavadiretamente relacionada ao tempo que a pessoa vinha se dedicando prtica da meditao. Wallace descobriu uma linha divisria entre osque meditavam h menos de cinco anos e os que meditavam h cincoanos ou mais. O primeiro grupo mostrou-se, em mdia, cinco anos maisjovem em termos biolgicos, enquanto o segundo obteve uma mdia dedoze anos mais jovem. Um estudo complementar feito posteriormentena Inglaterra concluiu que cada ano de meditao regular diminuiucerca de um ano no envelhecimento. Outra descoberta queimpressionou a equipe de Wallace foi que os pacientes mais velhosmostraram resultados to bons quanto as pessoas muito mais jovens.Um paciente tpico, de 60 anos, que meditava h cinco anos ou mais,tinha a fisiologia de uma pessoa de 48 anos de idade. Outro importante ponto levantado por esse notvel estudo queos pacientes no estavam procurando envelhecer mais devagar. O quefaziam era apenas remover uma barreira invisvel, e ento as mudanasfsicas desejveis aconteciam por conta prpria. Tudo indica que essedesabrochar espontneo no seja especfico das trs variveis medidas.Em 1986, um estudo para os seguros de sade Blue Cross-Blue Shield,feitos com base em 2 mil meditadores em Iowa, mostrou que eles erammuito mais saudveis do que toda a populao americana em dezessete 203. importantes reas de doenas graves, tanto mentais como fsicas. Porexemplo, o grupo de meditadores fora 87 por cento menos hospitalizadodo que no meditadores, para doenas cardacas, e 50 por cento menos,para todos os tipos de tumores. Havia redues igualmenteimpressionantes em desordens do aparelho respiratrio, aparelhodigestivo, depresso clnica e assim por diante. Embora o estudo tenhase limitado a um nico grupo, os resultados constituem uma notciaencorajadora para algum inclinado a seguir um programa holstico depreveno. O quarto estado poder desempenhar importante papel em nossofuturo. Na fonte da percepo humana jaz um nvel de conscinciasupernormal, mas que pode se tornar normal uma vez que nosacostumemos a vivenci-lo. Se o turiya o local de nascimento damente, por que no pode ser sua residncia permanente? Essa aprxima rea a ser explorada, ao se investigar se a natureza unificadano s no modelo hipottico de Einstein, mas tambm em ns mesmos.33 Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno defacilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos DeficientesVisuais a oportunidade de conhecerem novas obras.Se quiser outros ttulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazerreceb-lo em nosso grupo. 204. 11 O Nascimento de uma Doena Os rishis adotavam uma posio simples no debate mente-corpo.Tudo, diziam, vem da mente. Ela projeta o mundo exatamente como fazum projetor de filme. Nosso corpo parte do filme, assim como tudo oque lhe acontece. Para um rishi, a maravilha no era conseguirmos nostornar doentes ou saudveis, mas o fato de no nos vermos fazendoisso. Se pudssemos ser testemunhas silenciosas de ns mesmos,veramos isso e muito mais. O prprio cu, o oceano, montanhas eestrelas estariam se derramando de nosso crebro todos eles tambmpertencem ao filme. Se o ponto de vista dos rishis correto, ento temosfalhado por colocar tanta f na realidade objetiva. No entanto, nossaestrutura de referncia objetiva no parece errada. No todo, ela nosserve bem; o cu e as estrelas parecem existir l fora totalmenteindependentes de ns. Estaremos sendo enganados por nosso prpriofilme? Para compreender os rishis preciso adotar sua perspectiva, oque significa sair da realidade comum do estado de viglia, ao menoslevemente. Conseguindo isso, comeamos a compreender que a mente mesmo uma criadora poderosa. Tive um pequeno mas revelador lampejodesse fato h pouco tempo. Eu estava num avio lotado, decolando deBombaim. Tudo transcorria com normalidade at que o sinal NoFume/Aperte o Cinto voltou a se iluminar no mesmo instante em que ocomissrio corria para a cabine de comando. O piloto, ento, anunciou 205. pelo alto-falante: Senhores e senhoras, por favor, mantenham-se emsuas poltronas. Vamos voltar a Bombaim para uma aterrissagem deemergncia. Sua voz denotava um leve tremor e, enquantopermanecamos todos sentados em tenso silncio, uma jovem aeromoaindiana comeou a soluar. Poucos minutos depois pousamos aos solavancos e trscaminhes de bombeiros correram em nossa direo; podamos ouvir assirenes gemendo, acima do ronco dos motores. Nada mais aconteceu.Ningum se dignou a nos dar explicaes sobre o incidente. Ospassageiros foram logo conduzidos para outro avio; quase metadepreferiu ficar em terra. Eu no me sentia muito perturbado pelo queacontecera e fui um dos que embarcaram. Cerca de dez dias depois,quando peguei outro vo, tinha a mente em paz. No entanto, assim queapareceu o aviso No Fume/Aperte o Cinto, acompanhado do somcaracterstico, meu corao disparou. De incio, no entendi o motivo,mas logo percebi que eu criara em mim um pequeno reflexocondicionado. Os ces de Pavlov salivavam ao ouvir o sino, e eu fiz meucorao se acelerar diante de um som semelhante. Ento notei que, tologo me ocorreu a explicao, os batimentos cardacos voltaram aonormal. Por alguns segundos, estive presente ao nascimento de umimpulso que moldou minha realidade. plausvel que eu tenhainadvertidamente criado a mim mesmo reunindo milhes de impulsoscomo esse. Eles vm rpidos e furiosos demais para eu analis-los seria como pedir a uma cachoeira que conte suas gotas , mas oimportante que so totalmente abstratos. Para os rishis, o mundointeiro foi construdo, camada por camada, a partir da pura abstrao.Porque nos entregamos de boa vontade, um filme de caubi com JohnWayne nos parece real, apesar de sabermos que tudo o que vemos soraios de luz saltando sobre uma superfcie plana e branca. Um sonhoconsiste inteiramente de impulsos neurolgicos disparando em seucrebro; no entanto, enquanto voc est nele, est convencido de suarealidade. (Todos ns conhecemos aquele tnue e desapontador 206. momento que acontece quando o sonho deixa de ser convincente. Emvez de estar voando, comeamos a sentir que s um sonho, e, depoisde um breve esforo, voltamos ao mundo objetivo.) Da mesma forma, a realidade que se aceita no estado de viglia s conhecida por meio de impulsos que disparam no crebro. Quandotocamos uma flor, o ato de tocar junta os campos de fora e matria emnossa mo com os campos de fora e matria na flor. Todos essescampos so altamente abstratos; porm o toque no nos pareceabstrato. Ele nos convence. Os rishis colocavam enorme nfase noquanto todos nos convencemos. Uma famosa parbola a esse respeitofoi criada por Shankara, a maior mente filosfica da tradio vdica: Um homem est andando pela estrada noite e v uma grandecobra enrolada no cho. Foge apavorado e acorda todos com seus gritosde Cobra! Cobra! Os habitantes de sua aldeia tambm ficamaterrorizados; as mulheres e crianas no querem mais sair de casa porcausa da cobra, e o cotidiano comea a ser perturbado pela apreensode todos. Ento, algum mais valente resolve dar uma olhada na talcobra. Pede ao homem para lhe mostrar o lugar onde a viu e, quandochegam l, descobrem que no uma cobra, mas uma corda enroladano meio da estrada. Todos os nossos medos, disse Shankara, foramconstrudos a partir de uma iluso semelhante. De fato, nada de realpode ser separado daquilo que nos dizemos que real. Essa linha de raciocnio no especificamente indiana podeser adaptada com facilidade a uma estrutura de referncia moderna.Pense no que acontece quando dois ms se aproximam. O campomagntico os repele. Se esses ms fossem racionais, sentiriam algoslido entre eles e criariam o toque a partir de uma abstrao, tal comotodos ns fazemos. Quando voc toca um objeto, o que faz com que lhe parea duro,spero, liso etc. a interpretao efetuada em seu crebro.Basicamente, os cinco sentidos so apenas ferramentas. O toque, na 207. verdade, o crebro estendendo-se para o mundo, usando clulasnervosas especializadas para registrar determinadas informaes dentro de uma faixa muito estreita, devemos lembrar que socompletamente diferentes das registradas pelo crebro de uma cobra,quando ela toca o ar com a lngua. Do mesmo modo, os terminais nervosos que formam a retina denossos olhos so tambm extenses do crebro. Em sua estrutura, aretina no passa de um conjunto de terminais nervosos abrindo-se numbuqu, como a ponta cortada de uma corda. A corda o nervo ptico,formado por um milho de fibras nervosas entrelaadas. Embora selocalizem mais profundamente do que os terminais nervosos sob a pele,as clulas sensoriais do olho tambm esto tocando o mundo exterior.No existe diferena intrnseca entre o campo de luz contatado pornosso olho e o campo de energia que sentimos com os dedos averdadeira distino entre viso e tato se realiza no crebro. O mesmovale para os outros sentidos. A audio, o olfato e o paladar dependemde clulas especializadas que enviam impulsos diretamente ao crebropara serem interpretados. Sem essa interpretao, nada poderia existir. Todas as coisas que existem esto ligadas a nossos sentidos enossos sentidos esto ligados ao crebro. A noo comum de que estacadeira uma coisa dura no verdadeira, at que se reformule aafirmao, dizendo-se: Esta cadeira dura porque meu crebro a fezparecer assim. (A cadeira no nada dura para um raio csmico, que aatravessa como se fosse ar. Um neutrino atravessa toda a Terra comigual facilidade.) Usando tal percepo, os rishis ainda foram maislonge. Notaram que no precisamos tocar fisicamente um objeto parasaber como ele ao toque. Responda a esta pergunta: O que maismacio, um guardanapo de linho engomado ou uma ptala de rosa?Voc pode facilmente comparar os dois em sua mente, usando umaimagem de toque, sem precisar sair para procurar um guardanapo ouuma rosa. A razo que lhe permite fazer isso que voc passou para umnvel mais sutil do sentido do tato. Da mesma forma, existem sons, 208. vises, cheiros e sabores sutis. No entanto, esse nvel da mente no ofinal na meditao pode-se ir mais longe, alm dos cinco sentidossutis (chamados Tanmatras no Ayurveda), at se chegar conscinciaem seu estado unificado. Os textos vdicos comparam isso ao ato de seseguir os cinco dedos da mo at onde eles se juntam na palma.Subjetivamente, a imagem visual de uma rosa ficaria cada vez maisfraca na tela da mente, at no restar mais nada do que a tela em si.Ento, estaramos na verdadeira origem dos sentidos, o campo dainteligncia. desse modo, deduziram os rishis, que todo o mundo darealidade fsica assume uma forma. A esta altura, parecemos imersos em profunda filosofia; porm, defato, cada camada de tato, viso, audio, olfato e paladar influencianossa vida cotidiana. Se voc gosta de ostras e eu as detesto, adiferena no causada pelas ostras em si ou por nossas papilasgustativas. O contato entre as molculas da ostra e os receptores dopaladar em nossas bocas igual para ns dois. No entanto, no processoda gustao, surge seu prazer ou meu desgosto. Isso mostra que todosos dados em bruto da experincia devem passar pelo filtro dainteligncia e que nunca duas pessoas os avaliam exatamente damesma maneira. Quando algo parece mudar no mundo, diziam os rishis, naverdade voc que est mudando. Um cirurgio amigo meu, tambmindiano, conquistou certa fama como gourmet. Ele sempre tevepreferncia por omeletes, quanto mais exticas, melhores. No entanto, altima vez que almoamos juntos num domingo, ele no pediu omelete.Curioso, perguntei-lhe por que e a resposta foi: No suporto mais ogosto de uma omelete. Contou-me, ento, que o prazer que sentia aocom-las havia se modificado instantaneamente no incio daquelasemana. Ele estava em casa, batendo ovos para fazer uma omelete,observado pelo filho Arjun, de 6 anos. medida que ia quebrando osovos, atirava as cascas para um lado. Por acaso, algumas delas caramdentro de um pequeno saco de papel com alpiste, que ia ser colocado no 209. jardim para os pardais. No faa isso disse Arjun, muito srio. Os passarinhosvo pensar que seus filhinhos morreram e no vo querer comer. Em geral, meu amigo fica muito orgulhoso com as observaesprecoces do menino, mas de repente descobriu que no conseguiriasuportar o gosto da omelete que estava preparando, nem de qualqueroutra. A cincia seria incapaz de medir a mudana que ocorreu nele,porque espectral e individual demais. A idia de que uma omelete temgosto bom no pesa mais do que a de que ela tem gosto ruim. O mesmovale para qualquer outra sensao. Um travesseiro de penas de ganso macio? No, para algum com enxaqueca, que geme de dor quando acabea o toca. Um avio a jato veloz? No, para quem o v da Lua. Emsuma, no existe fim na maneira como uma impresso de sentido podeser interpretada, e so infinitas as maneiras como o corpo pode reagir aela. Os rishis diziam que a vida construda por nossa participaonela. Nada bom ou mau, duro ou mole, doloroso ou agradvel.Depende de como o vivenciamos. O mesmo vale para a doena. Umadoena no o contato molecular de algum organismo externo com asmolculas de nosso corpo. (Como vimos, mesmo colocando-se uma gotade vrus de gripe concentrada no nariz de uma pessoa, a probabilidadede ela contrair a doena no mais do que uma em oito.) No nemmesmo o fluxo de toxinas em seu corpo ou a ao de clulas fugitivas.Na viso dos rishis, uma doena uma sequncia de momentos quevivemos, durante a qual avaliamos cada partcula nfima da vastaentrada de dados que vm em torrente de todos os cantos de nossomundo, inclusive de nosso corpo. Nosso corpo tambm um mundo. Quando entrei em contatocom o Ayurveda, fiquei profundamente impressionado com os seguintesversos dos antigos textos: 210. Como o corpo humano, assim o corpo csmico. Como a mente humana, assim a mente csmica. Como o microcosmo, assim o macrocosmo. Essas palavras so passveis de muitas interpretaes. O quesignificam para mim que em minha existncia cotidiana estouencarregado de cuidar de dois mundos, o pequeno dentro de mim e ogrande a minha volta. Minha avaliao de cada minsculo detalhe lfora o cu, o sol, a possibilidade de chuva, as palavras que outraspessoas dizem, as sombras lanadas pelos prdios estacompanhada de um evento aqui dentro. A cada segundo, abrem-separa mim escolhas infinitas, para alterar a forma do mundo, pois eleno tem outra forma seno a que lhe dou. O eminente neurologista SirJohn Eccles afirmou isso com toda a clareza quando escreveu: Queroque voc perceba que no existe cor no mundo natural, nem sons nada desse tipo; nenhuma textura, padres, beleza ou fragrncia... Emsuma, nada to importante no universo como sua participao nele. A abordagem subjetiva dos rishis encontrou um desaguadouro deenorme utilidade no Ayurveda. Comumente classificado como umsistema de medicina, o Ayurveda poderia ser chamado com igual justiade um sistema para se curar iluses, para se estirpar a convincentequalidade da doena e deixar que uma realidade mais saudvel ocupeseu lugar. (O nome em si sugere que o Ayurveda deve ser entendidocomo a medicina em seu sentido mais amplo. Ele vem de duas razes dosnscrito: Ayur, ou vida, e Veda, que significa conhecimento oucincia. O significado literal, ento, cincia da vida.) Os pacientes ficam curiosos sobre que tipos de tratamentos soespecificamente aiurvdicos novas plulas para experimentar,exerccios, dietas ou terapias orientais mais antigas? Respondo sim atodos, mas, ento, com certo embarao, tenho de acrescentar que passogrande parte de meu tempo s conversando, procurando ajudar aspessoas a no ficarem to convencidas de sua doena. No Ayurveda,esse o primeiro e mais importante passo para a cura. Enquanto o 211. paciente est convencido de seus sintomas, continua preso a umarealidade onde estar doente a entrada de dados que predomina. Omotivo pelo qual a meditao to importante no Ayurveda que elaconduz a mente para uma zona livre, intocada pela doena. Enquantono se tem conhecimento da existncia de tal lugar, a doena dar aimpresso de estar dominando por completo. Essa a principal ilusoque precisa ser destruda. inegvel que criamos cenrios e ento ficamos convencidos poreles, at nossas prprias clulas. Uma moa de Boston, que faziafaculdade em Vermont, recentemente me foi trazida para uma consultapelos pais. O casal se sentira muito aflito quando a filha voltou paracasa no meio do perodo letivo, queixando-se de dores agudas no peito.Elas haviam se iniciado enquanto a moa se recuperava de uma gripe e,ao longo da semana, tinham se tornado to intensas que todos sealarmaram. Uma noite a moa teve uma crise feia comeou a sentirfalta de ar, palpitaes e tonturas e, com o passar das horas, ficou toassustada que os pais apressaram-se em lev-la at o pronto-socorromais prximo. Quando l chegaram, todos estavam quase em pnico. O mdicoauscultou o corao da moa, detectou um pequeno sopro e resolveupedir um ECG, o eletrocardiograma. A leitura mostrou batimentosectpicos ocasionais, ou seja, extra-sstoles fora do ritmo cardaco.Ento, o mdico recorreu ultra-sonografia para fazer um exame maissofisticado, chamado ecocardiograma, por meio do qual constatou umdefeito real no corao. Ela tem prolapso da vlvula mitral informou aos pais. Isso significa que, quando uma das vlvulas do corao se fecha, elaforma uma espcie de balo voltado para o ventrculo. Quero que elapasse a noite na unidade de terapia intensiva acrescentou o mdico. Em menos de uma hora a moa estava na cama, recebendo sorocom morfina para a dor e oxignio extra por meio de pequenos tubospresos ao nariz. A sua volta, via vtimas de ataques cardacos ederrames, algumas beira da morte. A jovem achou toda a experincia 212. altamente aflitiva e comeou a ter alucinaes, por causa da morfina,quando adormecia. Na manh seguinte, uma anlise cuidadosa dos exames levou osmdicos a diagnosticarem que a dor provavelmente no se devia apenasao prolapso da vlvula mitral, mas tambm pericardite, umainflamao do pericrdio, a membrana que envolve o corao. Apaciente foi medicada com fortes antiinflamatrios, alm debetabloqueadores para diminuir os batimentos cardacos. A dor do peitocedeu, mas a moa no conseguiu tolerar os betabloqueadores, cujosefeitos colaterais so a sonolncia e a desorientao mental. Os medicamentos foram substitudos, mas resultaram em novosefeitos colaterais e na expanso da constelao de sintomas dapaciente. Os novos medicamentos tinham como objetivo dilatar os vasossanguneos, mas com isso a presso caiu demais, fazendo a jovem sesentir zonza e enjoada; por vezes, ela desmaiava de repente. A moaconseguiu tolerar esses efeitos colaterais sobretudo porque desejavacontinuar na escola a qualquer custo. Sempre que procurava diminuir amedicao, por menos que fosse, a dor do peito voltava com fora total,acompanhada de outros sintomas. Ela regressou casa dos pais nasfrias de vero e certa noite, durante o jantar, teve uma crise de dor queos deixou assustadssimos. Comeou a hiperventilar, o que fez sua mesair correndo em busca de um saco de papel para que respirasse dentrodele; porm, poucos minutos depois, a jovem sentiu palpitaesviolentas, vomitou e acabou perdendo a conscincia. Os pais passaramaquela noite e muitas mais em claro, sentados a seu lado. Uma vez que os mdicos que a atendiam no podiam fazer maisnada, os pais procuraram outros caminhos. Leram uma reportagemsobre o Ayurveda e, certo dia de julho, a famlia me, pai e filha veio Clnica Lancaster. Procurei obter o mximo de informaes sobrea histria mdica da paciente, olhei os exames e fiquei muito surpreso. Sua dor no vem do corao falei; e, para provar, pressioneifirmemente o esterno, o osso no meio do peito que cobre o corao. Amoa estremeceu. Ainda est dolorido porque o que voc teve no 213. incio foi uma inflamao aqui, onde se juntam a cartilagem dascostelas e o esterno. uma condio chamada costocondrite, que svezes aparece depois de um resfriado ou de outra infeco por vrus. A moa e os pais pareciam perplexos, mas continueidesmontando o quebra-cabea, pea por pea. Na noite em que atinham levado para o pronto-socorro, sua alta ansiedade havia causadoas extra-sstoles. O diagnstico principal, prolapso da vlvula mitral, um pequeno defeito que ocorre em quase 10 por cento das mulheres deestrutura fsica delicada como a dela. O motivo disso no conhecido eno existem evidncias conclusivas sobre o porqu de essa condiocausar dor, embora isso acontea em alguns pacientes. Da mesmaforma, o sopro cardaco que costuma acompanhar o prolapso da vlvulamitral no parece ser perigoso. A pericardite foi uma m leitura do ECG a violncia da crise provavelmente deixou o mdico do pronto-socorroansioso demais por encontrar algo errado. Os sintomas restantes nuseas, vmitos, palpitaes, tonturas, desmaios, falta de ar ehiperventilao foram causados pelos medicamentos ou diretamentepela paciente. Procurei retomar o momento em que nasceu sua condio expliquei , para lhe mostrar como ela se construiu, passo por passo.Na sua forma atual, sua doena um reflexo. Ela est sendo mantidaviva por suas prprias expectativas. A essa altura os pais da moa pareciam muito ofendidos. Euimaginava a ansiedade que haviam sentido naquelas noites passadasem claro, pensando que a filha corria um real perigo. Para faz-loscompreender que eu no estava culpando ningum, contei-lhes sobreminha experincia no avio, quando o aviso de Apertem os Cintos fezmeu corao disparar. Com o acrscimo de um pouco mais de medo,minhas palpitaes poderiam ter sido o incio de um problemacardaco to convincente como o da filha deles. Mas continuavam perturbados. Quando a moa sofria doreslancinantes no peito, pensavam nela como uma vtima da doena. Agoraeu lhes dizia que ela mesma se provocava aquilo. A era da medicina 214. mente-corpo fez disso um ponto extremamente delicado. A vida pareciamais simples quando uma doena sem micrbios era considerada comocoisa da cabea. Os micrbios foram em grande parte dominados, masisso, em vez de nos deixar livres das molstias, as tornou muito maisenigmticas. Estou esperando o cncer me atacar ou minhapersonalidade que o est dando a mim? O caso dessa moa umexemplo perfeito. Um cardiologista talvez apontasse o defeito no coraocomo a causa da dor; um psiquiatra diria que o defeito no causavanada a jovem simplesmente entrara em pnico. As drogas que tomoulhe induziam o vmito, mas ela continuava vomitando quando eramretiradas. A presso baixa pode causar desmaios, mas ansiedadetambm pode. A medicina moderna tem estado numa gangorra,debatendo esses pontos interminavelmente. O resultado, de acordo com estudos de pacientes, um enormeaumento na culpa. A linha entre sondar os medos do paciente ealiment-los muito tnue. J passei horas aconselhando pessoas comcncer. Elas ouvem atentamente, porque o mdico est falando. Digo-lhes que podem derrotar o cncer, e elas, bem rpido, concordamansiosamente. Mas, quando me vejo sozinho outra vez, sou perseguidopelo pensamento terrvel que percebo oculto em seus olhos: O senhordiz que estou doente e que o causador disso sou eu mesmo. A moa estava em silncio fazia certo tempo. Ento estou criando esta coisa? disse, finalmente. No, mas voc, com toda a certeza, est participando dela.Procure retirar essa participao. Aposto que tudo vai mudar. E como fao isso? Voc tem de fugir de seu prprio condicionamento falei. Na prxima vez que tiver uma crise, procure se afastar um pouco dela;deixe a dor estar l, da forma mais inocente que puder. Acrescenteique, se conseguisse isso, todos seus males provavelmente iriam seevaporar. Ela me ouviu e agradeceu, e no a vi mais por duas semanas.Achei que talvez houvesse tocado em muitos nervos expostos. Eu fizera 215. sua doena algo cada vez mais pessoal, enquanto o que a famliadesejava era que ela fosse impessoal. A medicina convencionalabandona seu caminho para colocar as doenas em caixas bem-arrumadinhas, com rtulos, s para eliminar o elemento pessoal. Eunotara, ao conversar com a paciente, que ela dava grande importncia aseu diagnstico. Fazia um prefcio para cada episdio, dizendo:Quando fico com prolapso da vlvula mitral... Era como se essaspalavras explicassem tudo, como uma rede que reunia todos ossintomas e os mantinha ligados. Quando mencionei isso, a moa ficoupensativa. Investira tanto nas palavras prolapso da vlvula mitral, queelas haviam se tornado um tipo de invocao mgica. Era essencialquebrar o encantamento dessa magia, que pode ser incrivelmentepoderosa. Enganei-me quando pensei que a paciente no se impressionaracom nossa sesso. Por curiosidade, telefonei para sua casa a fim desaber como estava passando. As notcias foram muito boas; a moaabandonara todos os remdios, e as crises agora limitavam-se aocasionais acessos de dor no peito. Os pais contaram que, s vezes, aviam sentada, de olhos fechados, e, quando lhe perguntaram o que fazianesses momentos, ela explicou: S fico olhando a dor, at ela ir embora. Os outros sintomas tonturas, vmitos, desmaios etc. haviamdesaparecido. Em psicologia, existem certos sentimentos extremos comorepugnncia, receio, horror, temor da autoridade que muitas pessoasno conseguem enfrentar. Quando ficam horrorizadas ou paralisadas desusto, so capazes de jurar que a emoo vem de fora delas. Em casosde parania, poderiam at pensar que eles esto transmitindo essassensaes para seu interior por meio de algum tipo de magia. (Elespodem ser marcianos, comunistas ou vizinhos.) Freud chamava taissentimentos de nossas emoes excepcionais e passou muitos anos 216. observando-os em pacientes neurticos e psicticos. No entanto, a excepcionalidade est sempre presente, creio eu.Ela o meio de a natureza colocar um vu sobre nossos medos maissecretos; ela nos esconde nossa dor interna at o momento em que essador rompe uma represa invisvel e chega aos borbotes. Ento, surge opensamento gmeo: Isto est acontecendo a mim ou eu o estou fazendoa mim? No importa se o resultado uma doena ou apenas umasensao de extremo desconforto. O importante evitar que o pacientefique enroscado em suas dvidas esse o caminho da paralisia total. A medicina j pagou um preo muito alto por no lidar de formaadequada com a natureza pessoal da doena. Para comear,despertamos a culpa sem sermos capazes de aplac-la. As pessoasficam horrorizadas diante da idia de que so as culpadas por seusmales. Os mdicos no imaginam que esto atiando essa culpa. Talvezela tenha nascido de tanto o paciente ouvir que ningum culpado.Mas, quando se diz que viver do jeito certo ir ajudar a impedir umenfarte ou um cncer, no se tem de aceitar que viver do jeito erradoajudar a causar essas mesmas doenas? A sada para a questo da culpa e da responsabilidade est emdesembara-la do sofrimento. Quando eu tinha minha clnicaparticular de endocrinologia, via pacientes obesos cujo peso lhessignificava um alto risco de se tornarem diabticos. Eu os alertava sobreo perigo de continuarem a comer demais. Ao mesmo tempo, sabia queestava alimentando sua culpa, que s os levaria a comer mais. Quandoo paciente era um fumante inveterado, eu costumava ser muito firme edizer: Por Deus, voc sabe que precisa deixar de fumar. Pense nosriscos que est correndo. Muitos desses pacientes eram ex-soldadosque eu atendia no hospital de veteranos em Boston. Depois de meouvirem, eles iam para a lanchonete no primeiro andar, onde cigarrossubsidiados pelo governo eram vendidos com grande desconto. (Eutambm comprava os meus l, pois me tornara fumante na poca emque fazia os plantes noturnos como interno.) De fato, nenhuma outra doena revela os paradoxos da culpa e da 217. responsabilidade como o cncer de pulmo. O pblico est bemconsciente de que essa quase exclusivamente a doena do fumante.Isso coloca a responsabilidade nos ombros do paciente, mas entosurge um segundo pensamento. Ser que essa pessoa no viciada emnicotina? Um relatrio do departamento de sade, de 1988, afirma quesim, e que esse vcio pode ser mais difcil de vencer do que o do lcool eda herona. Isso significa que no estamos lidando com uma situaoracional. Ao longo de vinte anos, Sigmund Freud procurou deixar de fumardepois que seu mdico o informou de que vinte charutos por dia suamdia normal prejudicavam o corao. Certa vez ele parou por setesemanas, mas teve palpitaes piores do que antes. Tornou-seintoleravelmente deprimido e viu-se forado a voltar para os charutos.Quando no fumava, como o prprio Freud contou a seu bigrafo, atortura era maior que o poder humano podia suportar. J vi pacientescom cncer avanado de pulmo, esperando pelo tratamento comradioterapia, que saam para o corredor para fumar um cigarro o quesignifica que a preveno pode ser impossvel, porque teria de comearantes de o primeiro cigarro ser fumado. Em todas as doenas, e no apenas no cncer de pulmo, ospacientes frequentemente esto viciados demais, sentindo-se culpadosdemais ou s convencidos demais para serem ajudados. No h comonegar o trao profundamente irracional no homem. No hospital deveteranos, recebamos todas as variedades de alcolatras, inclusivealguns em lamentveis condies fsicas, mal nutridos, que a polciarecolhia nas ruas. Um dos males mais frequentes do alcoolismoavanado a pancreatite, ou inflamao do pncreas. Todos aquelesque chegavam com essa doena tinham de ser tratados com muitocuidado. No podiam comer, porque a solicitao do pncreas para adigesto s o tornava mais inflamado e dolorido. Os pacientesvomitavam com uma nica colherada de alimento. Tnhamos dealiment-los por via intravenosa e inserir um tubo em seu estmagopara sugar os sucos digestivos que continuavam a inflamar o pncreas. 218. Alm disso, injetvamos antibiticos para lutar contra a infeco quemuitas vezes se instalava. Isso era o mximo que podamos fazer para arrancar esseshomens da beira da morte; porm, quando ramos bem-sucedidos eeles recebiam alta, quase sempre assistamos ao mesmo ritual. Por umajanela do segundo andar, podamos ver um bar que ficava perto dohospital. Nossos pacientes saam, atravessavam a rua com passostrpegos e entravam no bar. O primeiro gole vinha dez minutos depoisda cura. A compaixo por essas pessoas tinha seus limites. Qualquerum de ns poderia ser perdoado por dizer: Se voc quer beber e fumar,se no se exercita e insiste em comer alimentos ricos em colesterol,ento pior para voc. Sem dvida, muita gente diz isso, ou pelo menospensa nisso. No entanto, a essncia da compaixo est em reconhecercomo difcil para algum ser bom. Perdoar uma pessoa deix-la serlivre, mesmo quando ela abusa dessa liberdade alm da exasperao. Na ndia, existe uma histria sobre o sadhu e o escorpio: Um homem est andando pela rua e avista um sadhu ajoelhadoao lado de uma valeta. Chega mais perto e v que o sadhu estobservando um escorpio. O animal quer atravessar a valeta, masquando entra na gua lamacenta comea a se afogar. O sadhu, comtodo o cuidado, estende a mo para salv-lo, mas, assim que toca oescorpio, picado por ele. O escorpio volta para a gua, novamentecomea a se afogar e, quando o sadhu o levanta, recebe outra picada. O homem v isso acontecer trs vezes. Finalmente, no se contemmais e exclama: Por que voc continua a se deixar picar? O sadhu responde: No h nada que eu possa fazer. da natureza do escorpiopicar, mas de minha natureza salvar. O motivo pelo qual a sociedade montou a instituio da medicina garantir que nosso instinto de salvarmos uns aos outros nuncamorra. Esse instinto o mesmo que no v culpa nas fraquezas deoutra pessoa e toma para si responsabilidades por problemas que no 219. so seus. Se eu entrasse num hospital e notasse que a centelha dacompaixo desapareceu, poderia escrever a palavra fim na medicina a escurido teria vencido. A medicina moderna ainda dominada pela noo de que adoena causada por agentes objetivos. Uma anlise sofisticada mostraque isso apenas em parte verdadeiro. Uma doena no pode seinstalar sem que exista um hospedeiro para aceit-la, da as tentativasatuais de se compreender nosso sistema imunolgico. Tanto a antigamedicina grega como o Ayurveda baseiam-se na idia de que ohospedeiro tem o mximo de importncia. Os gregos acreditavam naexistncia de um fluido chamado physis que permeava todas as coisasvivas. O fluxo do physis ligava os rgos internos do corpo ao mundoexterior e, quando havia equilbrio entre os dois, o corpo estavasaudvel. (Essa premissa ainda continua se refletindo no uso quefazemos das palavras fsica para explicar o mundo exterior efisiologia para explicar o interior.) J o Ayurveda diz que preciso oequilbrio de trs elementos, os doshas, para a manuteno da sade. Oque importa no se existem physis ou doshas, mas que o estado deequilbrio do indivduo determina se ele est doente ou sadio. A medicina est retornando a essa noo, a mais antiga em todasas artes de cura, mas noto que um ar impessoal ainda paira sobre tudo.Estamos montando uma coisa concreta chamada sistema imunolgico eprendendo todas nossas esperanas nele. A idia original, comoexpressa pelos gregos e pelo Ayurveda, era muito mais orgnica. Umpaciente no era uma coleo de clulas hospedeiras, mas algum quecomia, bebia, pensava e agia. Se um mdico queria modificar os doshasou o physis de algum, fazia-o mudar de hbitos. Dessa maneira,chegava diretamente raiz da participao do paciente no mundo. Existem dzias de sistemas mdicos no mundo, muitos delesprofundamente conflitantes. Como, ento, podem curar e ao mesmotempo discordar tanto entre si? O que veneno para mim cura para 220. um homeopata. Suponho que a resposta esteja no fato de que todos ostipos de medicina funcionam auxiliando o paciente a suportar suadoena, de momento em momento, at que seja restabelecido oequilbrio da balana, com o peso saindo da enfermidade para a cura.No posso ser mais especfico porque o processo no acontece em livros,mas em seres humanos. Algumas pessoas se curaram de cncerbebendo apenas suco de uva. Por isso creio que, se for possvelrestabelecer o equilbrio corpo-mente, ento o sistema imunolgico dodoente reagir. As clulas do sistema imunolgico no julgam se omdico acredita em medicina convencional, em homeopatia ou noAyurveda. O fato que todos os sistemas so capazes de funcionar,desde que propiciem uma mudana de participao na doena. Noentanto, creio que o Ayurveda se destacar dos outros, porque elereconhece a necessidade de curar pacientes curando-se primeiro suarealidade. Considero cada vez mais a importncia da realidade do paciente.Um mdico de meia-idade, radiologista, veio me procurar depois dereceber o diagnstico de que estava com leucemia. Ele possua umconhecimento extremamente sofisticado sobre sua doena, uma formade leucemia imprevisvel, chamada leucemia mielognica crnica, queafeta os mielcitos, um dos tipos de glbulos brancos do sangue. Apesarde o mdico ainda no ter outros sintomas seno alguma fadigadurante o dia, a estatstica de mortalidade, que ele tambm conhecia afundo, era sombria. A mdia de sobrevivncia era de 36 a 44 meses. Emcontrapartida, como a doena imprevisvel, o tempo de vida poderiaser muito maior. Antes de me procurar, esse mdico estivera no principal institutodo cncer de Nova York. Depois de vrios exames de sangue foi-lheoferecida a escolha de tentar tratamento com drogas experimentais. Noexiste remdio especfico para esse tipo de leucemia e nenhuma dasdrogas lhe dava a promessa de que a expectativa de vida poderiaaumentar. Depois de ponderar, o mdico rejeitou o tratamento e comeou a 221. ler tudo o que encontrava sobre recuperaes espontneas, inclusivealgo escrito por mim. Por isso viera me procurar para uma consulta. Amedida que conversvamos, notei que um detalhe em particular opreocupava. Quero acreditar que me curarei disto contou-me. Masexiste algo que realmente me perturba. Li sobre muitas recuperaes decncer, mas no encontrei nada parecido em relao leucemia. Qualquer um via como sua mente mdica estava funcionando. Otipo de leucemia que o acometera est ligado a um componente genticodenominado cromossomo Filadlfia. Os exames haviam se reveladopositivos e, para um paciente mdico, esse era o fim da histria eleestava geneticamente condenado. A nica coisa que poderia esperar eraum milagre, algo que talvez encontrasse no Ayurveda, mas noconseguia achar relatos sobre curas milagrosas da leucemia emnenhum lugar. Olhe falei , voc est obcecado com estatsticas sobre essadoena. No pense nelas. Afinal, o que quer derrotar as estatsticas,concorda? Eu sei, eu sei disse ele, meio distrado. Mas no conseguiencontrar um nico caso de recuperao espontnea na literatura. Eupoderia ser o primeiro, claro, mas... Foi ento que tive um estalo. Por que voc no diz a si mesmo que tem um outro tipo decncer? sugeri. Assim, pelo menos teria a esperana de umaremisso. O rosto do mdico se iluminou e ele aceitou minha sugesto comentusiasmo. Em seguida, dei-lhe mais boas notcias. Eu acabara de lerum artigo que afirmava haver ligao entre leucemia infantil e estresse.Aquele homem tinha uma doena completamente diferente, mas levavauma vida incrivelmente estressante. Estava se divorciando da mulher,seus scios tinham aberto um processo contra ele, os filhos, jcrescidos, no o procuravam; alm disso, meu paciente precisavasustentar duas casas e trs Mercedes. O diagnstico da doena fora 222. feito no meio da rancorosa ao de divrcio, quase por acidente, e agorasua esposa insistia em continuar com ele. Alegava ter medo de ficarsozinha depois da morte do marido. Acabei de ler que h uma ligao entre o estresse e a leucemiainfantil falei. Meu paciente sorriu ao ouvir isso, porque o cientista nele viu umaconexo causal entre o estresse, a ativao de hormnios do estresse,como o cortisol, e a supresso do sistema imunolgico. Talvez fosse issoque estivesse lhe acontecendo. Ningum at ento lhe falara a respeitode qualquer ligao entre o estresse e sua doena, mas agora ele tinhaum fio em que se agarrar. O mdico foi embora e continuou a passar bem. Quando voltoupara nova consulta, perguntou-me se deveria fazer um hemograma. Aleucemia causa uma desastrosa elevao no nmero de glbulosbrancos; uma contagem mais baixa lhe provaria que estava realmentemelhor. Se a contagem for ruim ponderei , voc ficar deprimido eaumentar seu estresse. Se for boa, voc continuar se sentindo bem.Por que no adiar o exame de sangue at que alguns sintomas semanifestem? Ele concordou comigo e saiu. Vi meu paciente de novo na semana passada. Ele me contou queacreditar que tinha cncer em vez de leucemia estava funcionando bem. Ento, por que usar o nome cncer? sugeri. Vocpoderia se dizer que tem uma doena crnica sem nome. Se ela no temnome, voc no precisar se preocupar com estatsticas. H pessoasque vivem por longo tempo com doenas misteriosas. Essa tirada final deixou-o absolutamente encantado. Ele apertouminha mo com tremendo alvio e, pela primeira vez, concordou em vir clnica para comear o Ayurveda. At agora, no fiz nada por essehomem, exceto mudar o rtulo de sua doena, mas a partir disso elemodificou toda a avaliao de seu estado. Agora temos a oportunidadede testemunhar o nascimento de uma cura. 223. 12 O Que Voc V Voc se Torna Quando pressionados a dizer a verdade maior, os videntes vdicosemitiam duas palavras que deixam de ponta-cabea todas nossasnoes aceitas sobre a realidade: Aham Brahmasmi. Em traduo livre,seria: Eu sou tudo, criado e no criado, ou, mais sucintamente: Eusou o universo.* Ser tudo, ou mesmo algo alm dos limites do corpofsico, soa muito estranho aos ouvidos ocidentais. Conta-se umahistria sobre uma dama inglesa que viajava pelo norte da ndia e foilevada s cavernas ao longo do Ganges, onde os iogues se entregavam meditao profunda. Ela foi recebida por um deles com grandeamabilidade. No final da visita, disse-lhe:* O snscrito diz literalmente Eu sou Brahman. Brahman um termo de grandeabrangncia e, portanto, intraduzvel; ele significa todas as coisas na criao mentais, fsicas e espirituais , bem como sua fonte no criada. Pode ser que o senhor no saia com frequncia daqui, masseria um prazer lev-lo para conhecer Londres. Madame respondeu o iogue com toda a tranquilidade , eusou Londres. Em suas parbolas, os rishis demonstravam grande talento paraenganar o intelecto. Uma das mais famosas sobre um jovem chamadoSvetaketu, que saiu de sua casa para estudar os Vedas. Na antiga 224. ndia, isso significava morar com os sacerdotes e decorar longaspassagens dos textos sagrados. O rapaz fica fora de casa por doze anos.Quando finalmente retorna, est todo orgulhoso dos conhecimentos queadquiriu. Seu pai, um tanto aborrecido, mas achando graa, decideacabar com aquela pose. Eis um trecho do dilogo que se segue: V apanhar um fruto daquela figueira-brava diz o pai deSvetaketu. Aqui est, senhor. Abra-o ao meio e diga-me o que est vendo dentro dele. Muitas sementinhas, senhor. Pegue uma delas, abra-a ao meio e diga-me o que v dentro. Nada, senhor. Ento, o pai disse: A mais sutil essncia dessa fruta nada para voc, meu filho,mas, acredite-me, desse nada surgiu esta enorme figueira-brava. E acrescentou: Aquele Ser, que a essncia mais sutil de tudo, a supremarealidade, a alma de tudo o que existe, Aquele voc, Svetaketu. Na verdade, essa uma histria muito quntica. O universo,como a enorme figueira-brava, surge de uma semente que nada contm.Sem uma metfora como a da semente e a rvore, nossa mente no temcomo captar o que um nada assim, uma vez que ele menor do que oconceito menor, e mais antigo do que o Big Bang. O mistrio maisprofundo do conto que o prprio Svetaketu feito dessa mesmaessncia inimaginvel, que tudo permeia. Para descobrir o que o pai deSvetaketu quis dizer, devemos explorar o sentido de percepo, que abase da sabedoria dos rishis. Eu sou tudo implica uma capacidade de transcender o fluxonormal do tempo e os limites normais do espao. A despeito de seubrilho intuitivo, Einstein no saiu do rio do tempo, exceto mentalmente.Ele afirmou que teve experincia de auto-expanso onde no havia 225. nem evoluo nem destino, s Ser, mas esses episdios no entravamdiretamente em seu trabalho cientfico. Como todos os fsicos, Einsteinmantinha-se fiel ao mtodo objetivo e escrupulosamente exclua suaprpria conscincia de suas teorias. Sua procura por um campounificado que abrangeria todo o tempo e espao foi um empreendimentopuramente matemtico. Para os rishis essa a atitude que torna a fsica incompleta. Nosomos meros espectadores espreitando o campo unificado diziam ,ns somos o campo unificado. Cada pessoa um ser infinito, nolimitado pelo tempo e espao. Para atingirmos alm do corpo fsico,precisamos ampliar a influncia da inteligncia. Mesmo quandoestamos tranquilamente sentados, cada um de nossos pensamentoscria uma onda no campo unificado. Ela ondula atravs de todas ascamadas de ego, intelecto, mente, sentidos e matria, propagando-seem crculos cada vez maiores. Somos como uma luz que irradia noftons, mas conscincia. medida que se irradiam, nossos pensamentos tm um efeitosobre tudo o que existe na natureza. A fsica j reconhece esse fato parafontes de energia. Qualquer luz, seja uma estrela ou uma vela, enviasuas ondas por todo o campo quntico do eletromagnetismo, indo at oinfinito, em todas as direes. Os rishis tomaram esse princpio e ohumanizaram. O sistema nervoso deles, de fato, registrava o efeitodistante que um pensamento produz, e isso lhes era to real como nos ver a luz. Mas somos limitados em nossa percepo; estarmosconfinados ao estado de viglia nos impede de perceber as mudanassutis que estamos produzindo em todos os lugares. Algum efeito est sempre presente. Deve ficar firmementeestabelecido na mente de cada indivduo, escreveu o Maharishi emCincia do Ser e Arte de Viver*, que ele parte de toda a vida douniverso, e que seu relacionamento com a vida universal de umaclula com o corpo inteiro. Por milhares de anos os rishis afirmaram aexistncia dessa relao o homem se movimenta, vive e respira nocorpo csmico. Se assim, ento a natureza est to viva como ns; a 226. distino entre aqui dentro e l fora falsa, como se as clulas docorao no dessem importncia s da pele, porque elas no esto emseu interior.* Publicado no Brasil pela Editora Best Seller. (N. do E.) Os limites da vida individual no se restringem aos do corpo,continuou o Maharishi, nem mesmo aos da famlia de algum ou dacasa de algum; eles se estendem muito alm dessas esferas, para ohorizonte ilimitado da vida csmica infinita. Sabendo disso, os rishis tornaram-se indivduos extremamentepoderosos, mas no no sentido comum. Enquanto a maioria doshomens est interessada no poder material, os rishis desejavam o poderda percepo. Para eles, o nvel material do mundo era grosseiro. O realpoder da natureza est bem perto da fonte, e o poder mximo deve estardentro dela. Compreender que a mente est acima da matria no umanoo mstica. Se voc quer construir um arranha-cu, no comea porjuntar concreto e ao; voc procura um arquiteto, cujo intelecto preparao projeto que deve existir antes do incio da obra. Esse projeto contmmais do poder para se construir um prdio do que o contido na mo-de-obra. Certos campos, como a msica, a matemtica e a fsica quntica,praticamente no progridem sem gnios que trabalham em profundosilncio o mtodo de investigao preferido por Einstein no eratrabalhar em laboratrio, mas realizar experimentos mentais. Tinha porhbito fazer isso muito antes de alcanar fama e posio. Como ele umdia recordou, estava colocando relgios aqui e ali no universo, antes depoder comprar um de verdade para sua casa. Para os rishis, pareceria estranho colocarmos nossa intelignciaem campos to pequenos e isolados de conhecimento. Nossocondicionamento social probe a perspectiva csmica, no por conden-la, mas porque fornece ocupaes que nos distraem. Para quem estcercado de tijolos e argamassa, difcil aprender arquitetura. 227. Atualmente, um campo como a medicina to complicado que, sealgum disser Este paciente pode ser tratado por meio do fluxo dainteligncia, ser ouvido com descrdito. O estado ilimitado no visto com frequncia em nossasociedade, enquanto seu oposto absolutamente epidmico. Todos osdias os psiquiatras deparam com pacientes aleijados por limites,pessoas que programaram em si mesmas a culpa, a ansiedade ouinseguranas inominveis. Os que adquiriram fobias so exemplosextremos desse fato, uma vez que seu medo mortal absolutamentedesproporcional em relao a qualquer perigo real. Se voc leva umagorafbico algum que teme espaos abertos para passear decarro, ele demonstra intensa ansiedade. Se voc parar num campoaberto e o mandar sair do carro, ele ficar to paralisado como umapessoa normal ficaria se lhe ordenassem saltar num precipcio. Tentefor-lo, e o agorafbico reagir como se estivesse lutando pela vida. A angstia mais aguda do fbico saber que ele criou a prpriacondio. Entretanto, sua vontade no suficiente para romper opadro que ele programou na prpria fisiologia. (Um agorafbico daInglaterra estava to infeliz e envergonhado de sua fobia que resolveu sesuicidar. O mtodo que escolheu foi dirigir seu carro por 3 quilmetros,algo que, tinha certeza, lhe seria letal! Quando isso falhou, de incio elesentiu-se apavorado, mas pouco depois descobriu que sua fobia haviadiminudo. Acidentalmente esse homem descobrira a terapia chamadaimerso, que os psiquiatras usam s vezes para arrancar fbicosgraves da irrealidade.) Os limites criados pela cincia so os mais confinadores. Pessoasque nunca ouviram falar em Veda geralmente conhecem a palavraMaya, ou iluso. Em snscrito, ela significa o que no . Esse termo muito mal compreendido os rishis no usavam a palavra Maya paradizer que algo no existe, como uma miragem. Maya, na verdade, ailuso de fronteiras, a criao de uma mente que perdeu a perspectivacsmica. Ela surge quando se v um milho de coisas l fora e sedeixa de perceber uma coisa, o campo invisvel que a origem do 228. universo. Para quem l os textos dos grandes rishis, no de admirarque eles considerassem Maya um mau substituto para a perspectivacsmica. O Yoga Vasishtha diz: Na infinita conscincia, em cada tomodela, universos vm e vo, como partculas de p flutuando num raio deluz que brilha atravs de um furo no telhado. A realidade quntica transborda das pginas de Vasishtha porqueele percebeu a perspectiva que ela lhe mostrou: Em cada tomoexistem mundos dentro de mundos. Demolir as fronteiras no faz omundo relativo desaparecer, mas lhe acrescenta uma outra dimensode realidade a realidade torna-se ilimitada. Quando as paredes caem,o mundo pode se expandir. E isso, de acordo com os rishis, o que faztoda a diferena entre um mundo que poderia ser um paraso e um quese transforma num inferno. O mecanismo por trs das fobias pode ser usado de maneiraexatamente oposta, ou seja, na demolio de paredes, e no em suaconstruo. Podemos falar com igual facilidade, e com muito maisalegria, de pessoas que dominaram medos supostamente normais. Asequipes de construo de arranha-cus costumavam incluir umagrande proporo de ndios mohawk, que eram criados sem medo dealturas. A mesma coragem pode ser formada pouco a pouco por meio daprtica, como acontece, por exemplo, com o malabarista que caminhanuma corda bamba. Essa flexibilidade no se limita a estados psicolgicos. Osnutricionistas tm abundantes provas cientficas para demonstrar que ocorpo precisa receber certa quantidade diria de vitaminas e deminerais para no sucumbir a doenas da carncia o caso clssico o do escorbuto, um mal que afligia toda a Marinha inglesa na poca emque os homens se alimentavam apenas com biscoitos, carne salgada erum, sem receberem a vitamina C encontrada em frutas e hortalias. No entanto, durante sculos e sculos existiram culturas em todoo mundo que nunca ingeriram a quantidade de vitaminas considerada 229. necessria para o ser humano e se adaptaram perfeitamente bem. Osndios tarahumara do norte do Estado de Sonora, no Mxico, ficaramfamosos entre os estudiosos da fisiologia, porque podem correr de 40 a75 quilmetros por dia, em altas altitudes, sem nenhum desconforto.Tribos inteiras fazem maratonas desse tipo todas as semanas; quando ovencedor de uma delas foi examinado dois minutos depois de cruzar alinha de chegada, um fisiologista americano constatou que osbatimentos cardacos desse homem estavam mais vagarosos do que noincio da corrida. O que amplifica esse notvel feito que os tarahumarapraticamente s se alimentam de milho. Uma famlia consome cerca de100 quilos por ano, metade dos quais so transformados em cerveja.Outras fontes de nutrio, como razes, so disponveis apenas empequenas quantidades durante uma limitada poca de colheita. Sendocapazes de sobreviver com uma dieta to absurdamente abaixo dopadro normal, esses ndios mostram uma flexibilidade quase infinitado sistema mente-corpo. Por ironia, povos nativos desse tipo tm umaadaptao to perfeita que, ao serem alimentados com uma dietabalanceada, fortificada com vitaminas e minerais, muitos delesdesenvolvem, em propores epidmicas, doenas cardacas,hipertenso, problemas de pele e dentes cariados, males que notinham antes. No h dvida de que esses exemplos desafiam toda nossaconcepo do que normal. Temos amplos indcios, em nossa prpriacultura, de que o que existe de mais normal em ns a capacidade paracriar nossa prpria realidade. Como disse Sir John Eccles aosparapsiclogos, achamos incompreensvel que nosso pensamento sejacapaz de mover molculas; no entanto, sempre convivemosconfortavelmente com essa impossibilidade. Os rishis simplesmenteampliam muito nossa zona de conforto, conduzindo-a para dentro danormalidade do infinito. J sabemos que, se um impulso de inteligncia quer realizaralguma coisa, ele o faz, usando intelecto, mente, sentidos e matria. A 230. inteligncia pode criar uma fisiologia onde ocorrem pensamentos decura, mas tambm pode criar o oposto. Se tivssemos uma fiao,como um computador, a fisiologia de cada indivduo seria previsvel. Noentanto, a realidade no essa. A inteligncia cria novos circuitos a suaescolha e isso torna cada pessoa nica. Cada experincia da vidamodifica a anatomia do crebro. Os dendrites novos que surgem nasclulas cerebrais de idosos ativos so apenas um exemplo disso. Ainda mais extraordinria a seguinte experincia: o dr. HerbertSpector, do National Institute of Health, ministrou poly-I:C a um grupode camundongos. Essa substncia qumica estimula a atividade dasclulas-T, as matadoras naturais que existem no sistema imunolgico,para assim aumentar a defesa dos animais contra a doena. Cada vezque um camundongo recebia sua dose de poly-I:C, liberava-se essnciade cnfora perto dele. Esse esquema de injeo de substncia qumica e liberao decnfora prosseguiu durante algumas semanas. Quando o poly-I:C foiretirado e Spector exps os camundongos apenas ao cheiro de cnfora,descobriu que a contagem de clulas imunolgicas aumentounovamente, mesmo sem o produto qumico. Em outras palavras, s oodor tornou os animais mais fortes contra a doena. Seria possvel fazero contrrio e diminuir a imunidade dos camundongos apenas com umcheiro? Mais tarde, uma equipe da Universidade de Rochesterdemonstrou que isso possvel. Um grupo de ratos recebeuciclofosfamida, um produto qumico que diminui a eficincia do sistemaimunolgico. Ao mesmo tempo, foi dada aos ratos gua adoada comsacarina, que substituiu a cnfora como agente neutro. Quando a drogafoi retirada, os animais continuaram a apresentar queda na contagemdas clulas imunolgicas sempre que bebiam a gua. O queentusiasmou os pesquisadores foi a descoberta de que o sistemaimunolgico tem capacidade de aprendizagem. Ele reage diretamente aestmulos externos e no apenas ao ambiente interno da correntesangunea. 231. Entretanto, num sentido mais amplo, essas experincias nosmostram que o corpo no est ligado a reaes previsveis. Ainteligncia de uma clula criativa. O mecanismo previsvel que reagede forma positiva ao poly-I:C e de forma negativa ciclofosfamida podese transformar e reagir a qualquer outra coisa. Mais ainda, ele pode daruma viravolta e reagir com resultados opostos o cheiro de cnforapoderia ter sido associado a qualquer uma das drogas. Ento, no existe uma conexo fixa entre o tipo de experinciaque se introduz no corpo e o resultado disso nosso sistema nervosoest construdo para o ilimitado. Quanto mais pensamos nisso, maisnotveis so as implicaes. O cheiro de cnfora no fez nada paracausar a mudana nas clulas imunolgicas; os camundongospoderiam ter sentido o perfume de rosas ou ouvido um quarteto deMozart. O que realmente aconteceu dentro deles foi a criao de umimpulso de inteligncia, uma entidade totalmente fluida que coordenaum fragmento do mundo no-material com um fragmento do mundomaterial. Os antigos rishis conheciam isso muito bem. Um verso dos Vedasdiz: O que voc v voc se torna. Em outras palavras, a simplesexperincia de perceber o mundo que faz de voc o que . E existeprova disso. Crianas que crescem em lares onde falta amorapresentam uma srie de sintomas emocionais podem ser infelizes,neurticas, esquizofrnicas, doentias, raivosas etc. Entretanto, acondio mais estranha a denominada nanismo psicossocial. Essascrianas no crescem; induzem em si mesmas uma deficincia dohormnio de crescimento produzido pela hipfise e, por isso, continuampequenas e fisicamente subdesenvolvidas. Ignorando o relgio biolgico, o incio da puberdade se atrasa etambm pode haver atraso na aquisio de faculdades mentais tpicasda idade, fato no diretamente controlado pela hipfise. O mal no sedeve ao mau funcionamento da glndula, pois quando essas crianas 232. so colocadas num ambiente carinhoso seu estado pode reverter deforma espontnea, e elas rapidamente atingem o tamanho normal paraa idade. Crescer um resultado geneticamente programado, que j vemembutido no indivduo quando ele nasce. No entanto, as crianas comnanismo psicossocial desafiam essa programao porque no se sentemamadas. Mesmo se recebem injees de hormnio hipofisrio, muitas serecusam a crescer. Um estudo feito com homens adultos vtimas de ataquescardacos mostrou que o fator mais significativo em sua recuperao ou seja, sobrevivncia no tinha nada a ver com dieta, exerccios,tabagismo ou desejo de viver. Os que se recuperaram foram os que sesentiam amados por suas esposas; os que no pensavam assimtenderam a no sobreviver. Nenhuma outra correlao estudada pelospesquisadores revelou-se to forte. Durante anos fui perseguido pela lembrana de um de meusprimeiros pacientes, um campons indiano chamado LaxmanGovindass. Eu ainda estudava medicina em Nova Dlhi e meu trabalhono hospital ligado a minha escola, o All-India Medical Institute,limitava-se a examinar pacientes com doenas comuns, que os mdicosno tinham tempo para atender. Os acadmicos demonstravam alipouco interesse por alcolatras fisicamente arruinados como LaxmanGovindass. Ele era um lavrador que se entregara ao vcio da bebida a talponto que a famlia o abandonara. Um filho o havia levado at a portado hospital e o deixara ali, dizendo: Aqui onde provavelmente voc vaimorrer. Como todos os camponeses internados, o sr. Govindass estavamuito apreensivo e totalmente deslocado. Os internos cuidaram bem desua cirrose, mas no se deram ao trabalho de conhec-lo como pessoa.Acabei fazendo isso porque, como estudante, tinha boa parte do dialivre e habituei-me a seguir o funcionrio que servia o jantar, ocasioem que conversava com os pacientes. Fiz amizade com o sr. Govindass sentando-me em sua cama e 233. trocando algumas palavras com ele; na maior parte do tempo,ficvamos os dois olhando pela janela. A cada dia que passava, o sr.Govindass piorava um pouco e ningum lhe dava mais do que umasemana de vida, duas no mximo, inclusive eu. Logo chegou o momentode eu deixar o hospital para trabalhar num posto de sade, numvilarejo a 60 quilmetros da capital, obedecendo ao sistema de rodziode estudantes. Ento, fui despedir-me do sr. Govindass. Para anim-lo,falei que estaria de volta em um ms. Ele olhou-me muito srio e disse: Agora que o senhor vai embora, no tenho mais por que viver.Vou morrer. Sem pensar, retruquei: No seja tolo. O senhor no pode morrer at eu voltar para v-lo. Uma vez que o sr. Govindass estava extremamente fraco pesava menos de 40 quilos , os mdicos que o atendiam esperavamseu falecimento a qualquer momento. Fui para o interior e, em pouco tempo, j no pensava mais emmeu paciente. Um ms depois, quando voltei ao hospital-escola, estavapassando por um corredor quando vi o nome Laxman Govindass naporta de um dos quartos. Apressei-me a entrar, sentindo-meestranhamente apreensivo, e l estava ele, deitado na cama em posiofetal. Pouco restava dele alm de pele e ossos, mas, quando o toquei,virou seus enormes olhos para mim. O senhor voltou murmurou. Disse que eu no podiamorrer sem v-lo de novo. Agora eu o estou vendo. Em seguida,fechou os olhos e morreu. J relatei esse incidente, um dos mais importantes de minhavida, em outro livro. Naquela ocasio, senti duas emoes umagrande culpa por ter sentenciado aquele homem a sofrimento toprolongado e um enorme respeito pela conexo mente-corpo que omantivera vivo. Agora percebo que estava vendo a verdade do ilimitado,a capacidade de nossos impulsos de inteligncia fazerem o que querem, 234. apesar de todas as regras que talvez tenham de ser quebradas. Oimpulso que compartilhei com o sr. Govindass foi amor. Embora tivessesurgido num corpo debilitado, o amor teve o poder que sempre tem deu nova vida. Ele perfurou o Maya no corpo do sr. Govindass edesafiou a morte. Com base na delicadeza daquele impulso, um fio tofino como o de uma teia, mas forte como ao, poderia ser fundada umanova medicina. A possibilidade de que cada pessoa seja um ser infinito est setornando cada vez mais real. Abenoados com a total flexibilidade denosso sistema nervoso, todos temos a escolha de construir fronteiras ouderrub-las. Cada pessoa est continuamente fabricando umavariedade infinita de pensamentos, lembranas, desejos, objetos etc.Esses impulsos, ondulando pelo oceano da conscincia, tornam-se suarealidade. Se voc soubesse controlar a criao de impulsos deinteligncia, seria capaz no s de formar novos dendrites nas clulascerebrais como tambm de tudo o mais. O que voc v voc se torna uma verdade que molda toda afisiologia, inclusive a do crebro. Isso foi demonstrado por umaengenhosa experincia criada pelos psiclogos Joseph Hubel e DavidWeisel, de novo envolvendo gatinhos recm-nascidos. Trs grupos degatos foram colocados em ambientes cuidadosamente controlados,enquanto estavam abrindo os olhos. O primeiro era uma caixa brancapintada com listras horizontais pretas; o segundo era uma caixa brancacom listras verticais; o terceiro era uma caixa inteiramente branca. Depois de ser exposto a essas condies durante os poucos ecruciais dias em que a viso se desenvolve, o crebro dos gatinhosacomodou-se a elas para sempre. Os animais criados num mundo comlistras horizontais no podiam ver corretamente nada que fosse vertical trombavam em pernas de cadeira, cuja verticalidade tinha pouca ounenhuma realidade para eles. O lote que ficara na caixa com listrasverticais apresentava o problema exatamente oposto, sendo incapazes 235. de perceber linhas horizontais. Os gatinhos criados na caixa todabranca tinham uma desorientao maior e no conseguiam serelacionar com nenhum objeto de forma correta. Esses animais tornaram-se o que viram, porque os neurniosresponsveis pela viso estavam agora rigidamente programados. Nocaso dos seres humanos, o crebro sacrifica parte de sua percepoilimitada sempre que percebe o mundo por meio de fronteiras. Sem acapacidade de transcender, essa cegueira parcial inevitvel. Asimpresses esto sendo continuamente depositadas em nossosneurnios, e isso no vale apenas para a viso, mas para todos ossentidos. Embora estejamos acostumados a chamar as mais fortes deestresse, de fato, todas as impresses criam alguma limitao. Para ilustrar: pesquisadores do M.I.T., trabalhando no incio dadcada de 80, procuraram compreender como funciona a audiohumana. Ela parece ser passiva, mas na verdade cada pessoa escuta omundo de uma maneira bem seletiva e interpreta de modo particular osdados que chegam a seus ouvidos. (Um msico, por exemplo, ouvetonalidade e harmonia onde algum, sem ouvido para msica, s escutarudos.) Uma das experincias foi fazer pessoas ouvirem ritmos curtos,simples (1-2-3 e 1-2-3 e 1-2-3) e depois trein-las a ouvir o ritmo deuma forma diferente (1-2, 3-e-l, 2, 3-e-l, 2). Depois que comearam aouvir os ritmos de maneira diferente, os pacientes relataram que ossons lhes pareciam mais novos e alegres. Sem dvida, a experinciaensinara essas pessoas a alterar ligeiramente suas fronteiras invisveis.No entanto, o resultado mais interessante foi que, ao voltarem paracasa, essas pessoas descobriram que as cores lhes pareciam mais vivas,a msica soava mais feliz, o sabor dos alimentos de repente pareciadelicioso, e tudo a sua volta dava a impresso de ser mais digno deamor. Uma pequenina abertura da percepo causou uma mudana narealidade. A meditao, por sua vez, porque abre mais canais depercepo e os conduz a um nvel mais profundo, causa maiormudana ainda, embora esta no se afaste muito do modo normal como 236. usamos nossa percepo. A construo de fronteiras continuar sendoum fato da vida. O que os rishis fizeram foi infundir liberdade a essaatividade, elevando-a a um nvel que transcende os desejos epensamentos pequenos do ego isolado. Comumente, o ego no tem escolha seno passar a vida erigindocom desespero uma fronteira aps outra. Ele faz isso pelo mesmomotivo que as cidades medievais construam muralhas para seproteger. O ego acha que o mundo um lugar hostil, perigoso, porque tudoo que existe est separado do Eu. Essa a condio conhecida comodualidade, uma grande fonte de medo os Vedas a chamam de nicafonte do medo. Quando olhamos l fora, vemos todo tipo de ameaapotencial, todo trauma e dor que a vida pode infligir. A defesa lgica doego se emparedar junto com as coisas mais agradveis famlia,prazeres, lembranas felizes, rostos e atividades conhecidas. Os rishisno propunham a demolio desses limites defensivos, embora muitosacreditem que fosse essa sua inteno. Tanto no Oriente como noOcidente, enraizou-se a idia de que os sbios indianos condenavam ailuso da vida; no entanto, como explicou o Maharishi, a realidadevdica no se baseava em tal absurdo. P: A dualidade apenas uma iluso? MAHARISHI: Se a dualidade uma iluso, ento a unidade no ser estabelecida. Ambas possuem seus valores e, sem a dualidade, a unidade no tem substncia. Ambas so naturais, ambas so verdadeiras. Essa a natureza do mundo. Como luz e escurido, as contradies existem, esto l. O plo norte est l, como tambm est o plo sul. Dois opostos polares fundem-se num todo esse princpio colocao campo silencioso ativo da vida numa perspectiva adequada. Quandoos rishis descobriram a unidade, o silencioso campo da inteligncia,descobriram o outro plo que torna a vida completa. Os antigos textos 237. explicam isso como Purnam adah, purnam idam Isto pleno, aquilo pleno. O Maharishi prosseguiu para explicar como as plenitudes secomplementam: Existem 100 por cento de diversidade e 100 por cento de unidade, ambas executando seu trabalho ao mesmo tempo. Essa a natureza do trabalho da criao essa a verdadeira realidade. Uma nos parece real e a outra, irreal. Mas a realidade que ambas so reais ao mesmo tempo. A gua real, o gelo tambm. Eles se opem; no entanto, sua afinidade to grande que o gelo no pode existir sem a gua ele gua e nada mais do que gua. Assim, a unidade e a diversidade esto l, juntas e ao mesmo tempo. A meta mais alta da existncia, ento, atingir 200 por cento davida. O sistema nervoso humano pode realizar isso porque flexvel obastante para apreciar tanto a diversidade da vida, que infinita,embora cheia de limites, como o estado unificado, que tambm infinito, mas absolutamente ilimitado. Por pura lgica, nenhuma outrapossibilidade poderia existir. Ningum recebeu um computador csmicoe ouviu: Lembre-se, voc s pode usar metade dele. Ningum impslimites aos padres de inteligncia que podemos criar, modificar,misturar, expandir e usar. A vida um campo de possibilidadesinfinitas. Assim a glria da total flexibilidade no sistema nervosohumano. Esse um aspecto de tremenda importncia. Ele diz que podemospassar ao largo das escolhas limitadas a que estamos acostumados ecaminhar diretamente at a soluo de qualquer problema. A base paraessa assero que a natureza j estruturou a soluo em nossaconscincia. Os problemas esto no campo da diversidade, enquanto assolues esto no campo da unidade. Ir direto ao campo da unidadeautomaticamente nos faz achar a soluo, que o sistema mente-corpoleva ento para fora esse era o atalho dos rishis. 238. Os estudos de Robert Keith Wallace sobre o envelhecimento soum excelente exemplo de como funciona o atalho. A atual sabedoriacientfica afirma que o envelhecimento uma rea complicada, malcompreendida. A gerontologia, o estudo dos idosos, s se tornou umaespecialidade a partir da dcada de 50, quando o mapeamento do DNApermitiu que se imaginasse uma possvel existncia de genes especiaispara o envelhecimento (at agora no foi encontrado nenhum, emborase saiba que certos mecanismos de envelhecimento esto codificadosgeneticamente em animais inferiores). Agora que a gerontologia est atodo vapor, ela se encontra atulhada de teorias conflitantes e de umaquantidade imensa de dados obtidos de projetos de pesquisa, quelevaro dcadas para se encerrar. Esse esforo intensivo em pesquisas no fez as pessoasenvelhecerem mais devagar. O principal avano no campo foidocumentar que pessoas saudveis no tm de se deteriorarautomaticamente, medida que vo ficando mais velhas, um aspecto jconstatado h anos, sem a ajuda de bancos de dados. A gerontologiatem tido algumas valiosas aplicaes mdicas, como o reconhecimentode que muitos sintomas senis, antes considerados permanentes, soreversveis. Eles no so sinais de deteriorao do crebro, mas osubproduto da m alimentao, do isolamento, da desidratao e deoutros fatores existentes no ambiente de cada pessoa. Fora isso, agerontologia vai progredindo pouco a pouco, forjando pequeninos elosem teorias a princpio apenas conjeturais. Quanto a fazer o povoamericano comer melhor, exercitar-se de maneira sensata e praticar apreveno de doenas, a especialidade est de acordo com o restante damedicina. Entretanto, a pesquisa de Wallace partiu da hiptese de que aspessoas no envelhecem em partes separadas, mas como sereshumanos inteiros. Por conseguinte, o envelhecimento contm umgrande elemento de escolha. Se os idosos podem manter suasfaculdades mentais, usando-as continuamente, ento a prtica dameditao, que abre a percepo por completo, deveria fazer mais 239. ainda. A descoberta bsica de Wallace, como j mencionei, foi queaqueles que meditavam h bastante tempo tinham, de fato, diminudo aidade biolgica de cinco a doze anos. (Tambm foram constatados altosnveis do quase desconhecido hormnio denominado DHEA[dehidroepiandrosterona]; especulou-se que, de certa forma, o DHEAajuda a retardar o envelhecimento e talvez iniba a apario e odesenvolvimento do cncer.) Essa pesquisa sugere que o envelhecimento controlado pelaconscincia. Atuando no habitual nvel de pensamento confuso esuperficial, aceleramos o processo do envelhecimento em nossasclulas; medida que passamos para a regio silenciosa dotranscendente, porm, a atividade mental cessa e, aparentemente, aatividade celular a acompanha. Se isso verdade, ento oenvelhecimento pode ser programado em diferentes nveis de percepo.Se nos programamos para nos deteriorar, como era regra em geraesanteriores, ento isso se torna realidade. A programao desse tipo no questo de simplesmente pensar ou acreditar. Atitudes positivas,vivacidade mental, desejo de sobreviver e outras caractersticaspsicolgicas podem facilitar a velhice; sem dvida, elas ajudam aromper o rgido condicionamento social em que muitas vezes os idososse vem presos. No entanto, mudar de fato o processo deenvelhecimento em si uma questo diferente, muito mais profunda. Oficialmente, a gerontologia no reconhece nenhum meio derevert-lo ou retard-lo uma posio rgida demais, quando seconsidera que o envelhecimento nem mesmo tem sido adequadamentedefinido. Os rishis contestariam essa atitude, dizendo que a cincia noconseguiu atingir o nvel de conscincia onde o envelhecimento pode serderrotado. Em 1980, um jovem psiclogo de Harvard, CharlesAlexander, foi a trs asilos de idosos na periferia de Boston e ensinou acerca de sessenta residentes todos com, no mnimo, 80 anos de idade trs tcnicas mente-corpo: uma, de relaxamento tpico (do tipo usadoem programas de combate ao estresse), Meditao Transcendental e umconjunto de jogos de palavras a serem feitos diariamente, com o objetivo 240. de estimular a criatividade e aguar a mente. Cada pessoa aprendeu uma s tcnica, e os grupos as usavamsem superviso. Quando, depois de algum tempo, foi feito oacompanhamento, constatou-se que os meditadores obtiveram a melhorcontagem em testes sobre melhora do aprendizado, diminuio dapresso sangunea e maior sade mental aspectos que se deterioramcom a idade. Essas pessoas tambm relataram que se sentiam maisfelizes e no to velhas como antes. O resultado mais surpreendente,porm, s veio luz trs anos depois. Quando Alexander voltou aosasilos de idosos, cerca de um tero dos residentes que l encontrara naprimeira vez havia morrido, inclusive 24 por cento dos que participaramdo programa mente-corpo, mas que no haviam aprendido a meditao.No entanto, entre os meditadores, a taxa de mortalidade era zero. Elesagora estavam com uma idade mdia de 84 anos, e esse foi um dosmais raros e belos casos em que a cincia realizou uma experincia queimediatamente proporcionou o dom da vida. Ainda que limitado em seualvo, esse um dos mais esperanosos resultados no campo doenvelhecimento e uma vitria para o atalho dos rishis. Ele demonstraque basta expandir a percepo para aumentar o tempo de vida. Qualser a expectativa de vida para meditadores que comearam a prticaaos 20 anos em vez de aos 80? O tempo dir. O pressuposto que sufoca a vida sentir que se um prisioneirodo prprio corpo, que parece funcionar de forma mecnica. Um dosmecanismos mais bem estudados a curva de retroalimentaohomeosttica, uma funo reguladora semelhante dos termostatos.Um termostato que regula o aquecimento ou o ar-condicionado estajustado, por exemplo, para uma temperatura especfica, digamos de21C, e sensvel a um intervalo de temperatura que compreendealguns graus acima e alguns abaixo do ponto determinado. Ligando-se edesligando-se automaticamente, o aparelho mantm uma temperaturaquase estvel. A sabedoria de um termostato muito limitada; 241. poderamos dizer que um interruptor inteligente, mas com apenasuma idia na cabea, enquanto as curvas de retroalimentao do corpoconseguem equilibrar no apenas a presso sangunea como tambm onvel de oxignio nas clulas, o metabolismo da glicose, a concentraode oxignio e o dixido de carbono etc., sem nos esquecermos dosmilhares de substncias qumicas produzidas com milimtrica precisoem todo o organismo. Uma vez que o termostato sempre volta ao ponto preestabelecidoe o corpo tambm, no estaramos diante de um tipo de funcionamentorgido que no pode ser negado e que, de fato, necessrio a nossaexistncia? O maior dos fisiologistas do sculo 19, Claude Bernard, feza famosa afirmao: A vida livre a fixidez de nosso meio interior em outras palavras, o que nos faz livres a capacidade de nossostermostatos se manterem em determinada posio. Por mais brilhanteque tenha sido essa percepo de Bernard, ela contm um grave erro.Quando um termostato registra que o ambiente est com dezoito ou 24graus em vez de 21, ele encara essas variaes como erro, pois, paraele, s 21 certo. No corpo, porm, vrios pontos de ajuste podem serconsiderados como certos. O normal apenas o ponto para o qualvoltamos a maior parte do tempo. Se algum corresse a maratona sem oaumento da presso sangunea, dos batimentos cardacos, dometabolismo da glicose e da produo de suor a um pontodrasticamente acima do normal, cairia morto. Normal apenas a zona onde gostamos de viver. No se trata deuma regra, mas de uma preferncia. Os ndios tarahumara, talvez pordescenderem de antigos corredores que levavam mensagens atravs dosAndes para todo o imprio inca, se ajustaram a um normal diferentedo nosso, mais adequado a seu modo de vida. Desafiando uma dieta deescassez, o que queriam fazer correr 75 quilmetros por dia eramais importante do que meras normas corporais. Seu corpo se adaptou inteligncia, sem perguntas, e no o contrrio. Graas ao hbito deseguir um estilo de vida, pode ser difcil adaptar-se instantaneamentequando a mente deseja uma mudana pessoas obesas no devem 242. saltar da poltrona e lanar-se numa maratona , mas o poder daadaptao precisa receber o devido valor. Apesar de toda nossaprogramao fisiolgica e milhares de termostatos ou mecanismos dehomeostase, podemos modificar nossas habilidades, esquec-las,adquirir novas etc. Essa a glria mxima de um ser humano, e ela nopode ser atingida sem a liberdade total. O Ocidente no esconde suas dvidas sobre a idia de umaconscincia mais alta, que v com um misto de desejo, perplexidade edesagrado. Eu viajo pelo menos dois dias por semana, o ano todo,falando sobre o Ayurveda para muitos tipos de platias, constitudastanto de mdicos como de leigos, e rapidamente aprendi como erasensvel o nervo em que estava tocando. Um entrevistador de televisodo Canad apresentou-se a mim perguntando sem rodeios: O senhorpode dar cinco justificativas para me convencer de que no umcharlato? Um apresentador de Los Angeles, mais bem-humorado,inclinou-se para mim com mstica antecipao e indagou: Diga-me,doutor, o senhor j esteve aqui... antes? Fiquei to surpreso que sconsegui retrucar: Estamos todos aqui o tempo inteiro. Desde a dcada de 60, a proliferao do conhecimento fortuitosobre o Oriente tem sido ao mesmo tempo uma bno e uma maldio,pois, embora muitas pessoas lancem aqui e ali frases com as palavrasnirvana, Atman e dharma, e quase todo mundo deixe passar o termokarma numa conversa sem nem mesmo piscar um olho, o real sentidodessas palavras tem sido distorcido. Venho procurando demonstrar queo conhecimento vdico sistemtico e completo; que ele toabrangente como nossa mais avanada cincia; e que muitas das coisasque mais desejamos, como a libertao das doenas e uma velhicesaudvel, podem ser obtidas por meio desse grande tratado sobre aexistncia humana. No entanto, eu estaria traindo a sabedoria dos rishis se noapresentasse sua expanso final, cujo precedente no est claramente 243. definido no Ocidente ou est confinado doutrina religiosa. Os rishisprocuravam um estado de total percepo. Para eles, isso no erafilosofia nem religio, mas algo natural por ser humano. O quartoestado no um final, mas uma porta. E o que existe do outro lado? Anica resposta completa teria de vir dos milhares e milhares de pginasdos livros vdicos, que funcionam como a enciclopdia das experinciasregistradas pelos rishis. A resposta mais simples dizer que cada rishiencontrou o Eu Superior. Um meditador de Connecticut fez umadescrio exata desse encontro: Uma das experincias mais constantes de minha meditao a de uma percepo expandida, de no mais estar confinado ao interior de minha cabea, mas sendo to ou mais infinito que o universo. s vezes, sinto as fronteiras da mente sendo empurradas para fora, como a circunferncia de um crculo que nunca pra de se ampliar, at que o crculo desaparece e s resta o infinito. uma sensao de grande liberdade, mas tambm de naturalidade, muito mais real e natural do que estar confinado a um lugar to pequeno. s vezes, a sensao de infinidade to forte que perco a noo do corpo ou da matria s a percepo infinita, ilimitada, um eterno, imutvel contnuo de conscincia. Todos tero de responder a isso em seus prprios termos. Esperoque tenhamos assentado fundaes slidas, de modo que esse relatopossa aparecer envolto em sua verdadeira luz, no como uma auto-iluso, mas como um real encontro com o silencioso campo dainteligncia. Anteriormente eu disse que o corpo, em sua verdadeiranatureza, o imutvel mesclado com o mutvel. O motivo disso quetoda a natureza exibe esses dois estados paradoxais, pormcomplementares. medida que se expande a percepo, a imensaesfera da mutao e a igualmente imensa esfera da no-mutao 244. abrem-se mente. Um antigo poema chins, de autoria de Hsu Hsu,diz: A primeira onda est retrocedendo, A segunda onda prontamente chega, Assim, muitas camadas do tempo, Assim, muitas vidas. Podemos atribuir essa bela ddiva da percepo, ao mesmo temposerena e abrangente, a uma pessoa comum do Estado de Connecticut?Creio que devemos faz-lo, pois a mesma bioqumica que sustenta talexperincia est disponvel a todos, independentemente do tempo.Nosso DNA recorda-se de tudo o que jamais aconteceu aos sereshumanos. Seria ridculo supor que somente o DNA chins ou indianopode desencadear estados de conscincia mais altos; seriaempobrecedor afirmar que eles no so reais. O relato do meditadortermina com essa maravilhosamente exata avaliao da realidadequntica: Por vezes h um interessante paradoxo de atividade erepouso ao mesmo tempo, e sinto em minha percepo que estou memovendo com infinita velocidade e mantendo-me perfeitamente imvel,ao mesmo tempo. Essa a experincia do sempre mutvel junto com onunca mutvel. Qualquer pessoa que queira absorver o pleno benefcio doconhecimento vdico deve enfrentar o fato de que estados normalmenteinconcebveis como infinidade, eternidade e transcendncia so reais.Essas palavras no pertencem ao vocabulrio do estado de vigliaordinrio, mas tampouco esto distantes dele. Todos possumos o poderde criar realidade. Ento, por que faz-la no interior de fronteiras,quando o ilimitado est to perto? 245. 13 Corpo de Bem-Aventurana No existe experincia mais bela do que vivenciar o mundo seexpandindo alm de seus limites habituais. So momentos em que arealidade assume todo seu esplendor. Os Vedas chamam essaexperincia de Ananda, ou bem-aventurana; diz-se que ela umaoutra qualidade inerente mente humana, mas coberta por camadas depercepo embaada. Bem-aventurana uma palavra desconfortvelno Ocidente; assim como iluminao, precisa ser desmistificada. Vamoscomear por uma descrio pessoal do que estar em bem-aventurana. Um belo relato o dado pelo fisiologista Robert KeithWallace. O cenrio o Nepal, onde ele esteve em 1974, no intervalo deum congresso que se realizava na ndia. Junto com um amigo fsico, subi at Katmandu, a capital, para estar mais perto do Himalaia. Encontramos um lindo lago alpino, onde os antigos prncipes nepaleses costumavam passar o vero. Por menos de um dlar, alugamos um barco e o empurramos at a gua. Era um dia claro e com vento, de cu limpo, perfeito para se empinar papagaios. Eu havia comprado um no bazar, vermelho vivo e construdo para acrobacias. Levantei-me, e ele se lanou de minha mo assim que o soltei ao vento. Logo, o papagaio era um pontinho vermelho flutuando bem alto no ar rarefeito. Fiquei olhando para as grandes 246. montanhas que nos cercavam. Embora seus picos estivessem ocultos pelas nuvens, transmitiam uma aura de grandeza e de paz. Enquanto eu olhava, as nuvens dispersaram-se de repente. Fiquei absolutamente impressionado. O que eu tomara por montanhas eram apenas contrafortes! Alm deles, como deuses de outrora, elevava-se a verdadeira cordilheira do Himalaia, incrivelmente majestosa. Mal conseguamos falar diante de tanto poder e beleza concentrados naquele cenrio fabuloso. A sensao de possuir um Eu pequeno e isolado desapareceu, e em seu lugar estava a deliciosa sensao de fluir por entre tudo o que eu contemplava. Experimentei uma sensao de completa plenitude contida em meu prprio silncio. Bem de acordo com isso, o pico mais alto diante de ns era o Annapurna, cujo nome significa plenitude de vida. Parado ali no lago, vi de modo direto a realidade onde o tempo , de fato, eterno. O mesmo poder que criara essas montanhas estava fluindo dentro de mim. Se eu quisesse encontrar a fonte do tempo e do espao, s precisaria colocar os dedos sobre meu corao. A nica palavra adequada para descrever minhas sensaes naquele momento bem- aventurana. O que, sem dvida, se destaca nessa experincia seu sentido derevelao. As pessoas que se viram diretamente tocadas pela bem-aventurana sentem que, de repente, ficaram expostas vida como elarealmente . Comparada a isso, sua viso ordinria era inspida edistorcida; vinham aceitando uma imagem embaada em lugar da coisareal. Vivenciar essa bem-aventurana a cada hora do dia seria um sinalde completa iluminao, mas mesmo um breve encontro significativo ele nos permite sentir ondas de conscincia que vo emergindo docampo do silncio, atravessam o vazio e se infundem em cada clula doorganismo. Esse o despertar do corpo. 247. No Ayurveda, a bem-aventurana est na base de trs tcnicas decura extremamente poderosas. A primeira a meditao, j comentada.Ela importante porque remove as fronteiras da mente e a expe a umestado de conscincia ilimitado. As outras duas, que me foramensinadas pelo Maharishi em 1986 e 1987, so mais especficas. Aprimeira delas a tcnica psicofisiolgica aiurvdica o termopsicofisiolgico significa mente-corpo (muitas vezes usamos seu nomeinformal, a tcnica da bem-aventurana). A segunda tcnica de curadenomina-se som primordial; j mencionei rapidamente suas origens naIntroduo. Para explicar como essa cura funciona, deixe-me dar um exemplotomado da hipnose. Uma das mais surpreendentes descobertas dapesquisa da hipnose que os sujeitos podem fazer as mos ficaremfrias ou quentes, criar erupes na pele e at bolhas, poucos minutosdepois de introduzida a sugesto hipntica. Isso no , rigorosamentefalando, uma peculiaridade do transe hipntico estudos feitos sobre obiofeedback mostraram que pessoas ligadas aparelhagem podem fazercoisas similares em seu estado de conscincia normal. O que estouquerendo demonstrar com tais exemplos como o poder da atenopode alterar o corpo. O Ayurveda tem feito uso desse princpio pormilhares de anos. De fato, uma vez que a premissa bsica doconhecimento vdico que a conscincia cria o corpo, nada maisnatural que tenham sido descobertas tcnicas para focalizao daateno. A tcnica da bem-aventurana e do som primordial esto nessacategoria. A conscincia unicamente percepo. Voc pode estar cientede que sua mo est quente, e isso percepo passiva; porm, comodemonstraram as pesquisas com hipnose, voc tambm pode fazer suamo ficar quente, e isso percepo ativa ou ateno. A ateno exercemuito mais controle do que comumente se imagina, porque somosvtimas da percepo passiva. Uma pessoa que est sentindo dor temcincia dela, mas no de que pode aument-la, diminu-la, faz-laaparecer ou desaparecer. No entanto, tudo isso verdade. (Certas 248. pessoas, por exemplo, conseguem andar sobre brasas porque sabemcontrolar seu nvel de dor; o mais notvel que tambm conseguemevitar que os ps se queimem isso tambm est sob o controle daateno.) No Ayurveda, todo sintoma de doena, desde uma pequena dormuscular no pescoo at um cncer disseminado, est sob o controleda ateno. No entanto, entre ns e os sintomas existem barreiras osvus chamados Maya que nos impedem de exercer nossa ateno deforma teraputica. Todos os tipos de medicina mente-corpo procuramremover esses obstculos, de modo que possa ocorrer a cura. Fora doAyurveda no se usa a palavra Maya, mas qualquer termo que expliquea mesma coisa aplicvel a isso. J usei outras frases, como barreirasno silncio, o fantasma da memria e a mscara da matria. Nasatuais circunstncias, onde a medicina mente-corpo est apenascomeando a provar seu valor e precisa tomar cuidado para no pisarnos calos da cincia, as tcnicas para romper o Maya ainda sorudimentares. Por sorte, a natureza disps as coisas de modo queabordagens mente-corpo de todos os tipos consigam funcionar. Tantodar boas risadas como tomar diariamente um copo de suco de uvapodem derrotar uma doena fatal, se o paciente acredita com firmeza notratamento. Seria melhor, no entanto, dispormos de uma cincia dapercepo. isso que o Ayurveda fornece. Tambm seria til dispormosde uma teoria que propicie a essa cincia um slido alicerce filosfico. Oconhecimento vdico se encarrega disso. Quando ensino s pessoas astcnicas de cura aiurvdica do Maharishi, no as estou induzindo aentrar num mundo vdico ou em algum mistrio. Minha inteno faz-las compreender que sua prpria percepo cria, controla e alteraseu corpo. Isso um fato, no apenas uma viso vdica das coisas. Quando o corpo sente dor, uma rea distorcida da percepo estgritando, pedindo socorro ao resto da percepo. Nosso instinto natural providenciar esse socorro. O modo como mobilizamos nossasplaquetas e fatores de coagulao do sangue para curar um corte no 249. mais do que a percepo trazendo ajuda. Um ferimento se cura porquea inteligncia trabalha nele. Penso que isso est plenamente claro a estaaltura. Algumas pessoas tm a sorte de ser criaturas to naturais que,quando ficam com cncer, por exemplo, no bloqueiam a nsia inata dese curar. Sem dvida, existem no mundo milhares de pessoas dessetipo que no foram estudadas e, por isso, em vez de receberem o rtulode miraculosas por parte da religio ou da cincia, permanecem comoos mudos e inglrios seres utpicos do processo de cura. O Ayurveda estende essa capacidade a todos. A abordagemaiurvdica tomar um processo j em andamento no corpo e ajud-locom naturalidade e sem tenses. Qualquer dor ou doena que voctenha como uma ilha de desconforto cercada por um oceano deconforto, pois, em comparao com qualquer enfermidade, suapercepo saudvel to grande como um oceano. Partindo-se dahiptese de que voc tem uma constituio normal, no existe motivoinato para que no possa curar qualquer doena com a percepo. (Navelhice ou em alguns males crnicos, nossas aptides se esgotam;portanto, nesses casos, o Ayurveda no pode garantir a cura, porque svezes ela no est presente no esquema da Natureza.) A tcnica da bem-aventurana propicia ao paciente a experinciade si mesmo como pura percepo, o oceano de bem-estar que nossaescora bsica e nosso sustentculo. Apenas com o uso dessa tcnica possvel afogar uma enfermidade em conscincia e cur-la. Todavia,tambm til focalizar a ateno mais precisamente num determinadoponto para se obter a cura, algo semelhante ao hipnotizado que focalizaa ateno para fazer surgir uma bolha. Para isso, usa-se a tcnica dosom primordial. Com ela, pode-se tratar uma rea especfica, como umtumor ou articulao atacada pela artrite, um corao fraco ou artriasentupidas. Nesse caso, no se est atacando a desordem com o somprimordial, mas prestando maior ateno a ela, olhando-a to de pertoque a distoro da percepo, espreitando no fundo da desordem, voltaa se corrigir. Nos captulos anteriores, chamei esse processo de banir o 250. fantasma da memria. Juntos, a meditao, a tcnica da bem-aventurana e o somprimordial constituem a aplicao prtica de tudo o que estiveexplanando, ou seja, o instrumento da cura quntica. Deixe-me ilustrarcom um caso e em seguida explicarei sua conexo com a bem-aventurana. Laura uma jovem mulher de Boston que teve cncer de seio aos30 e poucos anos. Diante do diagnstico, escolheu, por motivospessoais, no se submeter a nenhum tratamento convencional, apesarda ansiosa insistncia de seu mdico, que afirmava que, semtratamento, ela morreria em menos de dois anos. Hoje, trs anosdepois, Laura continua viva e tem a aparncia perfeitamente normal. Aschapas radiogrficas revelam que o tumor no diminuiu, mas ocrescimento, se que houve algum, tem sido muito pequeno. Issosignifica que ela ainda corre perigo; no entanto, em sua mente, seuatual estado uma grande vitria. Embora o cncer ainda esteja presente, ele no seguiu o que osmdicos chamam de histria natural esperada. O dr. Yujiro Ikemi, umdos maiores especialistas do Japo em medicina psicossomtica,acompanhou 69 pacientes que considera terem tido regressesespontneas de cncer. Segundo o dr. Ikemi, no necessrio que asclulas cancerosas desapaream por completo ele procura outrossinais, como um crescimento anormalmente vagaroso de um tumor, ofato de o paciente no se mostrar debilitado e de o mal no ter seespalhado para outras partes do corpo. Esses sinais so suficientespara indicar uma regresso espontnea, afirma o mdico japons, eLaura apresenta todos eles. Laura j meditava quando a conheci. Em 1987, ela se internoupara duas semanas de tratamento aiurvdico e lhe ensinaram o somprimordial e a tcnica da bem-aventurana, que podem ser usadosconcomitantemente com a meditao. Digamos que a mente acomodou-se na meditao e est se vivenciando como silncio. A bem-aventurana, como a inteligncia, est nesse silncio. Voc no pode 251. sentir que inteligente, mas pode sentir bem-aventurana. A tcnicada bem-aventurana faz a inteligncia emergir, para a mente registr-lade vrias maneiras um calor em alguma parte do corpo,formigamento, impresso de fluir e outras sensaes fsicas. A bem-aventurana permanece abstrata, mas um tipo de luminosidade estsendo obtida com a tcnica. Em contrapartida, o som primordial bemfocalizado, pois leva a percepo da bem-aventurana diretamente paraa rea do corpo. (No preciso pensar em tudo isso como se estivesseacontecendo separadamente. O nvel de conscincia da bem-aventurana sempre est presente; as tcnicas apenas atraem a menteconsciente para ele. Uma vez vivenciada a bem-aventurana, ocorreu aconexo mente-corpo.) Logo que aprendeu as tcnicas, Laura comeou a sentir efeitospositivos. Segundo me contou, os sons primordiais foram direto para area do seio, s vezes induzindo uma sensao de latejamento, calor oumesmo dor. No entanto, quase sempre ela comeava a tcnica sentindodor na regio e a prtica a fazia desaparecer. Os resultados maiscomoventes, em termos subjetivos, vieram com a introduo da bem-aventurana. Pedi a Laura que escrevesse sobre suas experincias, quertivessem sido alegres, dolorosas ou indiferentes, e ela concordou. Oltimo relatrio diz: As experincias durante a tcnica da bem-aventurana no so to profundas como eram quando comecei um ano e meio atrs, mas naquela poca havia um medo e um pesar profundamente enraizados, uma sensao de impotncia e de intensa ansiedade, de sorte que o contraste foi muito grande quando comecei a vivenciar a alegria e a bem-aventurana. Naquela poca, eu me dava conta de grandes buracos negros em minha percepo. No os vejo mais, e a sensao de permanente felicidade mais estvel. No entanto, ainda existem dias onde a alegria e a bem-aventurana so to poderosas que mal consigo cont-las. Hoje, raramente 252. experimento o medo, apenas uma ansiedade generalizada que em geral consigo controlar com um pouquinho de ateno. Enquanto outras mulheres nessa posio esto devastadas pelotratamento, com cicatrizes profundas, tanto fsicas como mentais, impressionante que Laura, ainda suspensa entre a vida e a morte,possa terminar sua carta assim: H um ano e meio, eu s estava 99 por cento certa de que o cncer seria eliminado. S no ms passado passei a estar 100 por cento certa. Agora no tenho dvidas. Confio no apoio da Natureza. Ainda no sei que forma exata tomar esse apoio, ou quando vir, mas estou menos preocupada com a manifestao final do que com minha abertura de conscincia. Consigo ver claramente em minha conscincia o seio perfeito. Laura uma observadora sensvel de sua prpria percepo e a vfluir com grande exatido. Para ela, existe uma enorme diferena, dedentro para fora, entre estar doente e estar em processo de cura. Astcnicas que vem usando no pedem a visualizao, mas Laura diz queconsegue ver o tumor quando se sente ansiosa ou pesarosa. Creio queessa imagem representa um elo direto entre sua percepo e oprogresso do cncer. Qual ser o resultado final? Laura e eu concordamos que oprocesso em si o resultado. Cada dia um todo no um passo paraa recuperao sonhada, mas um fim em si mesmo, um dia que deve servivido em sua plenitude, como se a doena no existisse. Como estoumuito mais doutrinado do que Laura, devido a minhas experinciasanteriores com cncer, muitas vezes penso que ela est muito adiantede mim em sua jubilosa confiana. A bem-aventurana pode ser objetiva ou subjetiva. Voc pode 253. perceb-la como uma sensao, mas ela tambm resulta numamudana mensurvel pode alterar os batimentos cardacos, apresso sangunea, a secreo de hormnios e uma srie de outrasfunes. por isso que a medicina a utiliza. O paciente executa astcnicas ayurvdicas com a cabea, mas, ao mesmo tempo, a bem-aventurana est recriando seu corpo. O que acontece que o corpopassa a receber um sinal de seu prprio projeto bsico, no umdesenho material, mas a planta que existe na conscincia. Como essa planta invisvel, ela precisa encontrar um meio dechegar existncia material. Para fazer isso, a Natureza emprega abem-aventurana uma vibrao que forma uma ponte entre mente ematria, permitindo que cada pequenina parte do corpo se una a umpouquinho de inteligncia: Esse diagrama descreve a conexo mente-corpo como se fosseuma transmisso de rdio; a mente envia impulsos de inteligncia, oDNA os recebe e a bem-aventurana o veculo transportador. Nopapel, esses trs elementos aparecem separados, porm, na realidade,esto completamente fundidos. A mensagem, o mensageiro e o receptorso um s. Claro, j vimos a conexo mente-corpo dezenas de vezesantes, mas no tnhamos a cola que evita que mente e corpo tomemdirees opostas: a bem-aventurana. O DNA assume agora especial importncia. Um nico neuro-peptdio, ou qualquer outra molcula mensageira, transporta apenasum minsculo pedacinho do sinal enviado pela mente. A adrenalina, 254. por exemplo, est correlacionada com o medo. Isso parece significar quecada pensamento ativa uma molcula, mas seria como dizer que aestao 101.5, num rdio FM, recebe apenas uma nica msica. Defato, o corpo pode receber uma variedade de sinais graas ao DNA. Estamos habituados a pensar no DNA apenas como umaestrutura material, ou seja, o projeto da vida. Ele, porm, no temnada de esttico. Dois dias atrs eu estava tranquilamente sentado,quando vi o DNA com o olho da mente. Eu o vi se acelerar com tamanhavelocidade que uma existncia humana, desde o momento da concepoat o da morte, encaixou-se no espao de poucos minutos. O que vi no foi uma substncia qumica, mas um processo deincrvel riqueza e dinamismo. Tudo na vida vem do DNA carne, osso,sangue, corao e sistema nervoso; a primeira palavra de um beb e oprimeiro impulso de andar de uma criancinha; o amadurecimento darazo no crebro; o conjunto de emoes, pensamentos e desejos quecintilam como relmpagos de vero por entre as clulas. Tudo isso DNA. Cham-lo de esquema bsico pegar o caroo e largar a fruta.Imagine-se indo a uma concessionria Mercedes-Benz, pagando 30 mildlares no caixa e recebendo o desenho do projeto do automvel, em vezdo carro. Agora, imagine o desenho transformando-se no automvel deverdade e no apenas isso, mas ligando-se sozinho, percorrendo asruas, substituindo as prprias peas. S assim se pode comparar umprojeto com o DNA. (O desenho tambm precisaria ter outro talentoimpressionante: qualquer pea carburador, pneus, at mesmo umalasca de tinta da porta teria de saber como se transformar numautomvel inteiro.) Seja l o que faz o DNA ser to dinmico, no visvel em suaforma material; as molculas em si so participantes passivos notempo. Podem mudar, como fazem o hidrognio e o oxignio quando secombinam para formar a gua. No entanto, o DNA molda ativamente odecorrer do tempo. Esse um aspecto to importante que precisoexplic-lo mais longamente; de outra forma, o verdadeiro milagre doDNA ficaria desconhecido. 255. Nos ltimos anos, os pesquisadores ficaram intrigados com umgene em particular, denominado per gene (per de peridico),existente no DNA de uma mosca-das-frutas. Como parte de seucomportamento herdado, esses insetos emitem um som noite paraatrair os parceiros. Normalmente repetem esse chamado de maneirartmica, uma vez a cada sessenta segundos. Ronald Konopka, pesquisador-chefe na Universidade Clarkson, foio primeiro a ligar o ritmo do canto da mosca com o per gene. Eletambm descobriu que o ritmo podia se modificar. Quando o per genesofre uma mutao, produz intervalos menores ou maiores entre oschamados. Por exemplo, uma mosca emite o som a cada quarentasegundos; outra, a cada oitenta segundos. O fascinante nessa descoberta que cada tipo de mosca-das-frutas ajusta sua vida a uma diferente durao do dia. A normal, comintervalo de sessenta segundos entre os chamados, segue o padro de24 horas; a que tem chamado mais rpido, com intervalos de quarentasegundos, segue um dia mais curto, de dezoito a vinte horas; a moscade chamado mais lento, com intervalos de oitenta segundos, segue umpadro longo, com um dia de 28 a trinta horas. A interpretaoconvencional que o per gene estabelece o ritmo dirio do inseto. Umefeito similar pode ser visto nos seres humanos: quando confinado auma caverna, onde no pode ver a luz nem consultar um relgio, ohomem dorme e acorda seguindo um ciclo regular, no de 24, mas, emgeral, de 25 horas. Este parece ser o ritmo dirio, ou circadiano,estabelecido pelo DNA humano. Da mesma forma, a mosca-das-frutasno se importa com a hora em que o sol nasce ou se pe; para elas,quando o ritmo de seu chamado muda, o dia muda. Isso significa que osentido de tempo vem de dentro, ativado pelo per gene. Essa concluso muito mais surpreendente do que aconvencional que afirma que o DNA controla o ritmo no interior daclula. Eu, porm, digo que o ritmo controla o prprio tempo. O pergene o elo entre o tempo l fora e o DNA aqui dentro. Eleliteralmente cria o tempo como a mosca-das-frutas o conhece. Na fsica, 256. Einstein demonstrou que no existe um medidor de tempo no mundorelativo; um viajante espacial pensaria que o relgio de sua nave esttiquetaqueando da maneira habitual, exatamente como faz na Terra. Noentanto, se ele atingisse uma velocidade prxima da luz, o relgio defato estaria andando mais lentamente do que aqueles emfuncionamento na Terra. Isso no seria uma iluso; cada processobiolgico, inclusive a velocidade com que o viajante espacialenvelheceria, tambm seria mais lento. Ser que as moscas-das-frutasestudadas no so o equivalente, no reino dos insetos, ao viajanteespacial de Einstein? Afinal, elas esto vivenciando o tempo como maisrpido ou mais lento, ainda que no estejam viajando a uma velocidadeprxima da luz, mas a partir de seus prprios sinais internos. Uma mosca de canto rpido no tem como saber que est vivendono tempo rpido (partindo-se da hiptese de que ela est isolada deoutros tipos de mosca). Ela emite o mesmo nmero de chamados pordia, como fazem as normais ou lentas, sem perceber que seu dia(dezoito a vinte horas) est inteiramente determinado em seu interior.Mas o que o per gene faz na verdade? Um outro pesquisador, Michael Young, da UniversidadeRockefeller, juntou-se a Konopka e descobriu que o per gene funcionacodificando certas protenas na clula que regulam o ritmo. So essasprotenas, combinando-se e descombinando-se em ciclos, que fazem odia parecer curto ou longo para a mosca. Genes similares e protenascodificadas tambm foram encontrados em camundongos, frangos eseres humanos. Isso nos deixa muito mais prximos do entendimentode como o DNA cria toda a realidade. Ele manipula as molculassegundo ritmos, ou vibraes, que decodificamos como tempo. Outrasvibraes so decodificadas como luz, som, textura, odores etc. SirArthur Eddington chama a tudo isso de fantasias da mente, poisessencialmente nenhum de nossos insumos sensoriais mais que umsinal transmitido a ns por meio do DNA vibraes puras, abstraas,que transformamos em eventos reais, no tempo e no espao. Se umgene pode regular o tempo, ento ele est apenas a um passo de regular 257. o espao tambm. De um ponto subjetivo, no existe o tempo e oespao, mas apenas nossa participao nele. Como a mosca-das-frutas,medimos as horas pelo relgio que existe em nosso interior. Aqui chegamos a uma encruzilhada. Os bilogos tm conscinciade que, se as protenas de uma clula regulam os ritmos dessa clula,ento algo deve regul-las. E o que faz isso? Um dos caminhos conduz auma explicao materialista e, claro, o que a cincia prefere. Algunsbilogos acreditam que a parede celular deixa que as substnciasqumicas a atravessem at determinada taxa e que essa taxa nossomedidor de tempo, nosso relgio molecular. Outros dizem que o relgio, na realidade, um cdigo qumico impresso no DNA, que lido emsequncia desde o momento da concepo at a morte. Nenhumadessas explicaes permitiu uma anlise minuciosa satisfatria. Se osrishis esto certos, nunca haver nenhuma no existe respostaquando se considera apenas o nvel das molculas. Como est bvio a esta altura, os rishis escolheriam um caminhodiferente e diriam que nosso relgio interno a inteligncia. O per geneno passa de uma pea mecnica, um fio ou vlvula no rdio do DNA. Otempo se expressa por meio dele, tal como uma emoo se expressa pormeio de um neuropeptdio. O tempo cavalga uma molcula e, mais umavez, no devemos confundir o cavalo com o cavaleiro. Os sinais paratempo, espao, movimento, textura, odores, viso e todo o resto domundo vm do nvel da inteligncia silenciosa. L onde realmentevivemos, e o milagre do DNA mostrar-se capaz de transformar tantasmensagens abstraas na vida em si. Se voc sai para dar um passeio num dia clido de outono,sentindo as folhas secas de carvalho sob seus ps, cheirando a terramida e generosa, apreciando a luz outonal enquanto ela brinca entreos galhos das rvores, est vivenciando o mundo por meio de seu DNA.Ele impe uma seleo definida sobre tudo o que existe. Voc no senteo cheiro dos gases argnio e xennio no ar nem v os raios ultravioletasdo sol. Voc pode andar sobre as folhas, mas no atravs dos troncosdas rvores. A incrvel complexidade do musgo verde fica registrada em 258. sua mente como uma placa de partculas finas. Do plen, esporos,bactrias, vrus e outros micrbios que flutuam no ar s centenas emcada centmetro cbico, voc no registra nada. A razo desse focoespecial est em voc mesmo. So folhas, rvores, odores e luzhumanizados. Se seus sentidos fossem suficientemente refinados, voc iria maislonge e tomaria conscincia de que o bosque. No se trata apenas deque ele esteja enviando sinais para voc l de fora, mas tambm quevoc est mesclando seu prprio sinal ao dele. Nenhum de seus rgossensoriais est separado do contnuo da natureza. Seu olho umreceptor de luz especializado, que se funde com a luz que ele percebe.Se no houvesse luz, seu olho se atrofiaria, como acontece com os olhosdos peixes de caverna. Se a estrutura de seu olho se modificasse porexemplo, se cada olho pudesse girar independente do outro, como os deum camaleo , cada objeto adquiriria relaes completamentediferentes no espao. Essa, ento, seria uma experincia sua, e nada nomundo relativo existe fora da experincia. Uma abelha que se aproxima de uma flor v apenas o nctar,bloqueando a viso das ptalas para o olho da abelha, o que existe o nctar. Quanto a ns, ver um m significa enxergar um pedao deferro bem delineado, mas no o campo magntico radiante em tornodele. Portanto, no que diz respeito a nossa viso, o que existe a barrade ferro. Acrescente a isso todos os sentidos e voc ter, ento, o mundoque voc est continuamente criando. Esse mundo foi construdo hmais de 600 milhes de anos pelo DNA, e, no entanto, em ltimaanlise, ele expressa sua inteligncia interior, tendo no DNA um hbilservial. O DNA serve voc de uma forma que sua, como serve asoutras criaturas nas formas que so delas. O DNA transforma as vibraes de luz em olhos e o som emouvidos. Transforma o tempo num chamado de acasalamento para asmoscas-das-frutas e na marcha da Histria para o homem. D aosmorcegos seu sonar e cria a sensibilidade dessas criaturas aos raiosinfravermelhos. Entretanto, em todo o caso, o DNA apenas o rdio. 259. Ningum jamais descobrir o segredo do espao-tempo olhando para oDNA ou para qualquer outra coisa material. Essa tentativa tofadada ao fracasso como se tentssemos desmontar um rdio paraencontrar a msica. Os rishis encontraram o nvel da msica: abem-aventurana. A bem-aventurana a vibrao que a inteligncia envia aomundo. De fato, podemos demonstrar nossa existncia nos termosde um nico diagrama que abrange mente, corpo, DNA e a bem-aventurana num todo indivisvel: Com muita razo poderamos denominar essa figura comocrculo da vida. Nela vemos a bem-aventurana como um sinalcontnuo, que liga mente, corpo e DNA numa eterna conversa. Ostrs participantes compartilham igualmente do que dito o quea mente sabe tambm de conhecimento do corpo e do DNA. Asexperincias de uma pessoa ressoam nos trs nveis. Algum nopode estar triste, ou feliz, doente, sadio, dormindo ou acordado,sem enviar uma mensagem a todos os cantos do espao interior. Talvez voc no acredite que possa conversar com seu DNA(outro preconceito que vem de se ver o DNA apenas como umdiagrama material), mas, de fato, voc o faz continuamente. Assubstncias qumicas que atravessam voc a uma velocidade 260. impressionante a um toque do pensamento, os receptores nasparedes celulares, que esperam pelas mensagens dessassubstncias, e qualquer outra partcula de vida so fabricadospelo DNA. (Tenho plena cincia de que estou resumindo um longoprocesso. O DNA fabrica diretamente apenas o material gentico, mas,usando seu gmeo ativo o RNA , d origem a todas as nossasprotenas, clulas e tecidos.) O pensamento ocorre no nvel do DNAporque, sem que um neurnio envie um neuropeptdio, ou outromensageiro, no pode haver pensamento. A tcnica aiurvdica denominada som primordial tira vantagemdireta desse fato. Desenhei a bem-aventurana como um crculo, pararepresentar um sinal constante, ininterrupto. No entanto, pode haverrupturas no crculo, que ocorrem quando o DNA, a mente e o corpo noesto em perfeita sincronia. O Ayurveda diria que muitas doenas seiniciam quando h uma interrupo desse tipo a bem-aventuranacomo que escapa de seu sulco, perturbando a inteligncia da clula.Para consertar a ruptura preciso inserir um sinal especfico no crculo um som primordial. Desse modo, usa-se uma vibrao para curaruma vibrao. Sei que tratar a doena com um som mental parece algo bastanteincomum. Para compreender isso, necessitamos estabelecer um vinculomais ntimo entre bem-aventurana e campo quntico. Por volta dadcada de 70, os desintegradores de tomos do mundo j vinhamfuncionando h quarenta anos; e existiam, ento, centenas dehadrons, uma classe de partculas subatmicas que proliferavam comexcessiva abundncia para ser consideradas elementares para qualquerpadro. Teria o universo tijolos mais simples do que esses hadrons? Omodo de sair do dilema foi teorizar que eles no seriam variaes departculas, mas de uma forma de onda subjacente. Essa forma de onda recebeu o nome de supercorda, porque secomporta de maneira semelhante a uma corda de violino. A teoria da 261. supercorda diz que bilhes e bilhes de cordas invisveis permeiam ouniverso, e suas diferentes frequncias originam toda a matria eenergia da criao. Certas vibraes tambm podem se transformar emtempo e espao o prefixo super indica que essas cordas, na verdade,residem muito alm de nossa limitada realidade quadridimensional.Ningum jamais as ver, por mais poderosos que venham a ser nossosinstrumentos. Para esclarecer o que uma supercorda, o fsico Michio Kaku fazuma analogia com a msica. Imagine que um violino est fora de vista,sendo tocado dentro de uma caixa. medida que as cordas vibram,produzem diferentes tons, acordes, sequncias de notas e timbres. Sevoc fosse um aliengena que no soubesse o que msica, achariacada uma dessas coisas completamente diferentes entre si a nota dpoderia ser como um tomo de hidrognio, enquanto o mi bemol seriaum fton. Somente abrindo a caixa e vendo que, na verdade, todos ossons vieram de um nico violino, voc ficaria convencido de que elestinham uma fonte unificada. Da mesma forma, o campo fundamental da natureza estconstantemente vibrando e produzindo variaes das mesmas notas,mas nossos sentidos esto organizados de tal maneira que transformamessa igualdade em diferenas. Percebemos o ferro como uma notaslida, o hidrognio como uma nota gasosa, a gravidade como uma notapesada, e assim por diante. Somente com a exposio das supercordasficaria evidente a unidade subjacente, e elas no so expostas abrindo-se uma caixa, mas por meio de frmulas matemticas demonstrativasde que todas as formas de matria e energia se ajustam ao modelosupercorda e at agora todas elas se ajustam. Portanto, a fsicaquntica tem agora seu primeiro bom candidato a uma teoria do campounificado, justificando a f de Einstein na ordem do cosmos. Por mais impressionante que parea, os rishis vdicos tambmperceberam que o cosmos era permeado de cordas. Deram-lhes o nomede sutras, do qual deriva a palavra sutura, dos cirurgies. Emsnscrito, sutra pode significar um ponto de costura (ou sutura) e 262. tambm uma linha ou frase verbal. Se voc pensar num sutra comouma linha, ento o universo inteiro tecido como uma teia difana, apartir de fios de inteligncia, bilhes e bilhes deles. Como notastocadas no violino escondido, o nvel fundamental do mundo todo,segundo os rishis vdicos, feito de sons. Como surgem antes dequalquer outra coisa, eles so primordiais da o termo somprimordial. preciso mais de um som para fazer o universo. No entanto, osrishis tinham um para comear, uma vibrao chamada Om, quesurgiu na ocasio do Big Bang. Om uma slaba sem significado trata-se apenas da primeira onda que quebra o silncio csmico. medida que vai se quebrando em muitas ondas menores, o Om sesubdivide em diferentes subfreqncias que compem a matria e aenergia de nosso universo. Desde que voc abra sua mente possibilidade, no ser maissurpreendente que estrelas, galxias e seres humanos possam sercriados a partir do Om, em vez de a partir de uma supercorda. Ambosso abstratos. Voltando ao violino escondido, Kaku escreveu: Os tonscriados pela corda em vibrao, como um d ou si bemol, no so maisfundamentais do que qualquer outra nota. O que fundamental,contudo, o fato de que um nico conceito as cordas que vibram pode explicar as leis da harmonia ou, no caso do universo, as leis daNatureza. O Om pode ser representado como uma linha reta cujo tom cai noinfinito, como a suprema supercorda. No por acaso que a slaba Omsoa como um zumbido; quando os rishis sintonizavam com o som douniverso, ouviam mesmo um zumbido csmico. Se voc fosse umiluminado, seria capaz de ouvir sua prpria vibrao, que toindividual como uma assinatura; por exemplo, voc poderia ouvir seuDNA como uma frequncia especfica vibrando em sua percepo. Damesma forma, cada neuropeptdio, como qualquer outra substnciaqumica, teria origem num som. Comeando pelo DNA, o corpo inteiro se desdobra em muitos 263. nveis e, em cada um, o sutra, ou sequncia de sons, vem primeiro.Portanto, colocar um som primordial de volta no corpo como lembr-loda estao em que deveria estar sintonizado. Com base nisso, oAyurveda no trata o corpo como uma pelota de matria, mas comouma teia de sutras. Nem preciso dizer que levei muito tempo para explicar tudo isso amim mesmo. Quando comecei a administrar os programas aiurvdicosna clnica de Lancaster, eu mantinha um p firmemente plantado emmeu consultrio particular de mdico endocrinologista embora mesentisse afinado com a teoria aiurvdica, ainda estava apreensivo comseus resultados. Eu fazia uma verdadeira ponte area entre meuconsultrio e a clnica todos os dias da semana. Certo dia de outubro,entrei no restaurante da clnica e notei um dos pacientes de cncer, umhomem de meia-idade, almoando tranquilamente numa mesa decanto, em companhia da esposa. Ele tinha cncer de pncreas, umacondio fatal que tambm extremamente dolorosa. Quando o homemse internara, cinco dias antes, seu rosto estava cinzento e enrugadodevido a meses de sofrimento. Fui at sua mesa para cumpriment-lo.Enquanto me aproximava, ele me olhou por acaso. Foi um dessesmomentos que fazem o corao parar. Seu rosto estava relaxado etransmitia impresso de paz; seus olhos mostravam-se inegavelmentetocados pela bem-aventurana. Perguntei-lhe como se sentia e ele medisse que no sentia mais nenhuma dor; depois de quatro dias detratamento aiurvdico deixara, por si prprio, de tomar todos osanalgsicos. Alguns dias depois, o paciente saiu da clnica e, at apoca em que faleceu, continuou praticamente livre de drogas. Isso ainda no pode ser considerado uma cura, mas um grandepasso em sua direo. Estou convencido de que a percepo estariacurando mais pessoas atualmente, se no fizssemos diagnsticos totardios das doenas, depois que anos de estresse tenham endurecido afisiologia, dificultando a penetrao da bem-aventurana. Entretanto, oporto est sempre aberto, nem que haja apenas uma fresta. Todas astcnicas de cura aiurvdica atuam dentro da premissa de que em 264. primeiro lugar trata-se o doente e, depois, a doena. A perspectiva de se tornar novamente uma pessoa sadia, em vezda luta contra um mal que se sabe incurvel, d esperanas a pacientesque, de outra forma, no teriam nada em que se agarrar seno tristesestatsticas. Um aidtico da Alemanha foi tratado com o Ayurveda pordois anos, como parte de um programa piloto de combate AIDS. Tendosido diagnosticado em 1984, ele continua vivo no momento em queestou escrevendo este livro, agosto de 1988 (80 por cento dos pacientesde AIDS morrem dentro de dois anos aps o diagnstico), e leva umavida normal, sem nenhum sintoma aparente. Um programa similar est sendo desenvolvido na Califrnia,tratando aidticos e mantendo-os sob constante observao clnica parase verificar se tanto a fase ativa como a fase latente da doena podemser afetadas com o tratamento aiurvdico. Os dois grupos so pequenose os aidticos sabem que o Ayurveda no est prometendo uma cura,mas os mdicos supervisores afirmam que esto observando melhoras,especialmente na capacidade de os pacientes suportarem a fadigadebilitante que lhes mina a fora e a vontade. A simples extenso do perodo de latncia, dando ao pacientemais alguns anos antes que a doena produza sintomas, seria umavano importante. No entanto, encontrei um aidtico, no ligado clnica, que parece ter feito melhor do que isso. Um msico de LosAngeles, de 40 e poucos anos, veio me procurar dois anos atrs paraaprender a tcnica da bem-aventurana; no o revi at este ano,quando apareceu para aprender o som primordial. Perguntei comoestava passando e ele respondeu que precisava me contar uma coisa tinha AIDS. O diagnstico fora feito quatro anos antes, depois que elecontrara pneumonia. Sua enfermidade no era tpica, causada pelopneumococo, mas uma infeco por um protozorio chamadoPneumocystis carinii. Essa uma das doenas mais comuns que atacamos aidticos quando ocorre o colapso do sistema imunolgico. O msicocurou-se dessa crise e decidiu mudar de vida. Aprendeu a meditar e, 265. pela primeira vez em sua vida adulta, abandonou a rotina de noites emclaro, bebedeiras, plulas, fumo e promiscuidade, que estivera ligada asua carreira. ( interessante notar que um estudo de acompanhamentode aidticos com um perodo de sobrevivncia mais longo demonstraque todos eles tomaram uma deciso do tipo vou assumir o controle, arespeito de sua doena. A medicina comum no consegue explicar porque essa atitude um salva-vidas to bom, mas assim que elafunciona.) Dois anos depois que o msico aprendeu a tcnica da bem-aventurana, sua sade havia melhorado a ponto de ele ter um aspectoabsolutamente normal. A tcnica da bem-aventurana tornou-se oprincipal foco de sua determinao em derrotar a AIDS. No penso em mim mesmo como estando em luta contra adoena observou. S estou aprendendo como era errada asensao de angstia e infelicidade em que eu vivia. Em seu interior, ele comeou a vivenciar uma gama de emoesmuito mais positivas contou-me que jamais imaginara que poderiaficar viciado em felicidade. Hoje, quatro anos depois do diagnsticooriginal, esse homem parece perfeitamente saudvel e, exceto poralguma fadiga, vive como se a AIDS no existisse. A cada ano que passa, os congressos internacionais sobre a AIDSrevelam maior desnimo no combate doena. A AIDS causada pelovrus HIV e suas mutaes o pesadelo dos pesquisadores , pois elepertence a uma classe de organismos especialmente ardilosos edesnorteantes, denominados retrovrus. Mesmo um vrus normal, comoo responsvel pelo resfriado comum, tem notveis poderes para enganaro sistema imunolgico do corpo. Ao contrrio do que acontece quando reage s bactrias, nossoDNA misteriosamente se esquece de como lutar contra um vrus invasor de fato, parece cooperar com ele. Quando um vrus chega paredecelular, como se ela se derretesse, e ele a penetra sem resistncia,sendo praticamente conduzido at o ncleo da clula, onde o DNA,muito prestativo, interrompe suas operaes normais e passa a fabricar 266. protenas para produzir novos vrus. Um vrus de resfriado ou de gripe contenta-se em deixar o DNAfabricar protenas para ele, mas um retrovrus como o HIV vai alm,mesclando-se s combinaes qumicas do DNA, mascarando-se comomaterial gentico da clula hospedeira. Ali ele dorme at o dia quepode chegar anos depois em que o DNA disparado para lutar contraoutra doena. Ento, o retrovrus desperta e passa a se multiplicaraos milhes, usando a clula hospedeira como incubadora, o queacabar por mat-la. Ela se rompe, soltando uma horda de vrus letaisna corrente sangunea. Cada etapa do ciclo to misteriosa ecomplicada que o vrus da AIDS logo conquistou a fama de ser o maiscomplexo organismo mrbido j conhecido. Nenhuma droga capaz decombat-lo. O AZT, que ajuda a adiar a fase ativa, tem efeitos colateraissignificativos, o que impossibilita seu uso em alguns pacientes. No tenho a inteno de negar a abordagem tpica da medicinaocidental. Quando surge uma doena que ameaa a vida, necessriotomar medidas drsticas nisso todos concordam. Acredito, porm,que encarar a doena como uma distoro da inteligncia poderiarepresentar um passo na direo de um nvel mais profundo decompreenso e, portanto, do tratamento. Tanto o cncer quanto a AIDS parecem casos onde a sequnciaadequada de sutras deve estar se distorcendo no mais profundo dosnveis. Em outras palavras, so falhas de inteligncia, como buracosnegros, onde a bem-aventurana desvia-se de seu padro normal. Oque torna ambas as doenas to intratveis que esse desvio estmuito fundo trancado no interior da prpria estrutura do DNA. Issofaz com que o mecanismo auto-reparador da clula se quebre ou sevolte contra si mesmo. No caso do cncer, o DNA parece querer cometersuicdio, ignorando seu conhecimento sobre a diviso celular correta. Em ambas as doenas, a distoro da bem-aventuranaaparentemente penetra at os campos de fora que mantm o DNAunido. (A fsica celular um campo complexo, mas acredita-se que umaclula inicialmente sente os vrus e interage com eles ao detectar suas 267. ressonncias qumicas e eletromagnticas; esses sinais sointerpretados pelo DNA e presumivelmente tambm conseguem engan-lo.) A partir da perspectiva dos sutras, ou sons vdicos, deve haveruma distoro na seqncia adequada de inteligncia medida que elavai se abrindo no mundo relativo. Ao ouvir o vrus em sua vizinhana,o DNA o confunde com um som benvolo ou compatvel, como aconteciacom os antigos marinheiros gregos que ouviam o canto da sereia e eramatrados para a destruio. Essa uma explicao plausvel quando setoma conscincia de que o DNA, que est sendo explorado pelo vrus,no passa de um feixe de vibraes. Se essa explicao vlida, ento o remdio reformar asequncia inadequada de sons, usando-se o som primordial doAyurveda (conhecido como Shruti nos textos snscritos, a partir doverbo que significa ouvir). Esses sons so basicamente como moldesde cermica colocando-se o molde na sequncia distorcida,consegue-se realinhar o DNA rompido. Esse tratamento sutil edelicado em seus efeitos, mas alguns resultados preliminares tm sidomuito interessantes. Uma vez restaurada a sequncia de som, aespantosa rigidez estrutural do DNA novamente o proteger contranovos rompimentos. Creio que no futuro prximo o Ayurveda florescer e nos ajudara criar uma nova medicina, uma medicina de conhecimento ecompaixo. Sob seu melhor aspecto, a medicina atual j contm essesingredientes o sistema mdico enfrenta problemas, mas seus malesso transcendidos por pessoas dedicadas. Elas sero as primeiras a verque o Ayurveda no entra em conflito com sua profisso de mdico. OAyurveda s pode auxiliar o processo de recuperao e trazer a cura atnosso controle. 268. 14 O Final da Guerra Se algum me perguntasse qual a exata definio de curaquntica, eu responderia: a cura quntica a capacidade de um modode conscincia (a mente) para corrigir espontaneamente os erros emoutro modo de conscincia (o corpo). Trata-se de um processo fechadoem si mesmo. Se me pedissem uma definio mais abreviada, eu diriaapenas que a cura quntica produz a paz. Quando a conscincia sefragmenta, desencadeia uma guerra no sistema mente-corpo. Essaguerra est por trs de muitas doenas, originando o que a medicinamoderna define como componente psicossomtico das enfermidades. Osrishis talvez a denominassem o medo nascido da dualidade e aconsiderassem no um componente, mas a principal causa de todas asmolstias. O corpo enviar vrios sinais para indicar que existe uma guerra.H pouco tempo uma mulher franco-canadense veio me procurarporque sofria do mal de Crohn, uma grave perturbao intestinalcaracterizada por diarria crnica, incontrolvel e acompanhada dedolorosa inflamao. Embora a causa do mal de Crohn sejadesconhecida, sabe-se que ele ataca principalmente jovens adultos epode estar ligado a uma deficincia no sistema imunolgico. O tratointestinal muito sensvel a estados emocionais e, no caso dessapaciente, no me surpreendi ao ouvir que ela trabalhava longas horassob forte tenso em uma agncia de propaganda no centro de Boston. Depois de conversar um pouco com ela, descobri que, alguns 269. anos antes, aprendera a meditar. Perguntei se ainda se entregava prtica e a paciente respondeu que no tinha tempo; quandoocasionalmente sentava-se para meditar, no adiantava muito, porqueem geral adormecia em poucos minutos. Ento, eu quis saber se ela havia adaptado sua dieta para ajudarsua condio, se diminura o ritmo de vida ou se pensara em setransferir para um emprego menos estressante. Demonstrando certaimpacincia, a mulher respondeu no, de novo no pretendiapermitir que aquela doena, que lhe causava tantas dificuldades,governasse sua vida. Olhe falei , voc tem uma doena muito grave. Se essainflamao persistir, talvez seja necessrio oper-la para se retirarpartes do intestino. E ento, o que voc vai fazer? A paciente estava muito a par de sua enfermidade, e no tive deme alongar muito sobre algumas tristes possibilidades que aesperavam. A cirurgia em questo envolve considervel desfigurao, jque, ao se remover parte do intestino, preciso colocar um tubo e bolsaexternos para se recolher a eliminao. Apesar de todo essedesconforto, a doena no est curada e tende a voltar em outras partesdo intestino. por isso que estou aqui respondeu a mulher. Querouma tcnica mental que me ajude a continuar a levar uma vida normal. Eu via o resultado do que os rishis chamavam de Pragyaaparadh, o equvoco do intelecto. O corpo da paciente estava gritandopor cura, e era o que pedia sempre que a mulher tinha uma crise. Elanem mesmo podia fechar os olhos para meditar, sem que o corpo seagarrasse em desespero a algum tipo de alvio sob forma de sono. Noentanto, sua mente interpretava esses gritos de socorro comoirrelevantes ou aborrecidos. A mulher insistia em levar uma vidanormal extremamente estressante, que seu organismo no estavapreparado para suportar. Esse no um tipo de doena contra o qual voc pode lutar falei , porque no h ningum para combater a seu lado. 270. Expliquei que os mesmos neuropeptdios que registravam oestresse em seu crebro eram produzidos em seu intestino. Quando elasentia medo, frustrao ou preocupao, emoes idnticas estavamsendo vivenciadas em seu abdome literalmente idnticas. Acrescentei que, em minha opinio, ela no necessitava de umanova tcnica mental precisava deixar seu corpo fazer o que queria, ouseja, curar-se. O melhor meio de cooperar para isso era dar ao corpo odescanso que ele estava exigindo, meditar, modificar a dieta e se darconta de que nenhuma gratificao extrada do emprego poderiasuperar o perigo em que se colocara. A natureza procurava lhe dizeralgo muito importante e, uma vez que prestasse ateno a ela, seusproblemas se corrigiriam por si. Em um caso como o seu prossegui , voc j tem o melhorremdio com o qual poderia sonhar... sua prpria ateno. Nestemomento, a qualidade dessa ateno temerosa e tensa, e por isso noh melhora. No entanto, assim que sua percepo se assentar e perdero medo, seu corpo ir se recuperar. S depende de voc. A paciente ouviu-me com interesse, mas senti que no estavagostando do que eu dizia. O equvoco do intelecto insidioso. Ele serecusa a acreditar que tudo est acontecendo numa realidade mente-corpo e cria a fico de que o corpo doente est em algum outro lugar,em qualquer lugar que no seja aquele em que se encontra. A enfermidade um ntido sinal de que h uma guerra emandamento. De acordo com o Ayurveda, o conflito est se desenrolandoaqui dentro, ao contrrio do que afirma a teoria da doena causadapor micrbios, que procura nos dizer que a guerra comeou l fora,por invasores de todos os tipos bactrias, vrus, carcingenos etc. que esto espreita, prontos a nos atacar. Contudo, pessoas saudveisvivem entre esses perigos com muita segurana. Somente quando osistema imunolgico falha, como no caso da AIDS, nos conscientizamosde que nossa pele, pulmes, mucosas, intestinos e muitos outros rgosaprenderam a coexistir com organismos externos em delicado equilbrio.A pneumonia que os aidticos habitualmente contraem causada por 271. uma variedade do pneumocystis, sempre presente nos pulmes de todosns. O vrus da AIDS ativa essas enfermidades de dentro para fora, aodemolir uma parte do sistema imunolgico (as clulas-T), rompendoassim a rede de informaes que nos mantm como um organismo. De fato, somos essa rede, que se projeta no mundo como corpo,emoes e aes. A rede tambm no termina conosco. A idia simplistade que os micrbios so nossos inimigos mortais apenas meiaverdade, porque eles tambm fazem parte dessa rede. Todo o mundovivo est indissoluvelmente ligado ao DNA, que ao longo de um canalevoluiu como bactrias, em outro como plantas e animais e num outroainda como ser humano. O ambiente l fora coopera com o aquidentro como duas polaridades, em certo sentido completamenteopostas, mas em outro totalmente complementares. Se voc olhar paraa realidade do ponto de vista de todo o DNA, no apenas o humano,ento h uma rede global de informaes que deve ser mantida viva esaudvel. Os vrus, por exemplo, so capazes de sofrer mutaes muitorapidamente por isso que a vacina que o imuniza contra a gripedeste ano em geral no ser eficaz no prximo. O vrus da gripe j deveter sofrido mutao em algum lugar do mundo, transformando-se numalinhagem completamente diferente. (Um dos muitos talentos inauditosdo vrus da AIDS sua capacidade de sofrer mutaes cem vezes maisrpido do que um vrus tpico, como o causador da gripe.) Ospesquisadores recentemente especularam se o motivo pelo qual os vrussofrem mutaes com tanta rapidez est na necessidade deacompanharem o passo do surgimento de novas variantes de bactrias,levando assim, a todas as partes do planeta, a notcia de que a vida estmudando. Pegar uma gripe, portanto, como se atualizar com as notcias.Seu DNA fica sabendo sobre as alteraes que esto desafiando o DNAdo mundo e, ento, enfrenta o desafio, no de forma passiva, masativamente. Ele precisa provar sua viabilidade sobrevivendo ao vrus. Osistema imunolgico se apressa a enfrentar o invasor, e eles se 272. engalfinham em batalhas, molcula contra molcula. Toda a operaoocorre num timo, e no h espao para erro. As clulas macrfagasavanam rapidamente para descobrir a identidade dessa nova forma devida, sondar suas fraquezas vitais; em seguida, mobilizam o materialgentico em seu prprio DNA, que romper as molculas do vrus,tornando-as inofensivas. Ao mesmo tempo, as clulas imunolgicas tambm destroemqualquer uma das clulas do corpo que deram abrigo ao invasor. Essasclulas hospedeiras infectadas ainda no morreram de gripe. Elas estoempanturradas de vrus vivos que constituem uma ameaa, mesmodepois de as clulas imunolgicas terem eliminado toda a gripe quecircula na corrente sangunea. Para matar uma clula hospedeirainfectada, certas clulas imunolgicas (as clulas-T, exterminadoras)prendem-se externamente a ela e fazem buracos na parede celular.Como um pneu que se esvazia, a clula hospedeira perde seu contedolquido e vai murchando, at morrer. No entanto, a clula hospedeira no apenas eliminada; seu DNAtambm destrudo por outros sinais vindos das clulas imunolgicasagressoras. Esse um aspecto absolutamente fascinante de todo oprocesso. O que realmente acontece que um pedacinho de seu DNA (aclula imunolgica) est destruindo outro pedacinho de seu DNA (aclula hospedeira), que de fato no passa de uma cpia de si mesmo. Anica diferena entre os dois que o segundo pedacinho de DNA, o dointerior da clula hospedeira, cometeu o equvoco de cooperar com ovrus da gripe. Ningum sabe por que isso acontece. Como vimos nocaptulo anterior, nossas clulas misteriosamente deixam-se matar dedentro para fora, quando os vrus as atacam. Em termos fsicos, o vrusno preo para a clula, pois milhares de vezes menor e menoscomplexo. Como escreveu um mdico, como se uma bola entrasse pelajanela de um arranha-cu e todo o prdio russe. Voc poderia pensar que equvocos desse teor demonstram aimperfeio da inteligncia do corpo, mas isso seria superficial demais.O que realmente acontece num caso como o que descrevi um notvel 273. exemplo da cura quntica em funcionamento; de fato, a idia de queest havendo uma guerra outra meia verdade, pois, quando umpedacinho do DNA destri outro, estamos sendo testemunhas de umprocesso totalmente autocontido. Cada segmento da reao contra adoena, desde as clulas patrulheiras, que de incio vo de encontro aoinvasor, s clulas hospedeiras, que o abrigam, aos macrfagos, sclulas-T ajudantes, s clulas-T exterminadoras, s clulas-B e assimpor diante, so todos o mesmo DNA expressando suas vriascapacidades. Em outras palavras, o DNA decidiu montar, em seuprprio favor, um drama em que todos os personagens sodesempenhados por ele mesmo. Por que o DNA usaria uma mscara para sucumbir ao vrus eoutra para avanar e destru-lo? Ningum at agora conseguiu umaresposta para essa profunda questo, mas ela deve ter sua lgica noesquema da vida, o drama maior encenado por todo o DNA do mundo.S posso especular que estamos presenciando o DNA enriquecer a vida,acrescentando-lhe o mximo de variaes que possivelmente podemexistir no planeta. Nada do que acontece ao DNA perdido; tudo fica no interior dosistema autocontido. Uma vez derrotado o vrus da gripe, o DNA registrao combate produzindo novos anticorpos e clulas de memriaespecializadas, que ficam flutuando no sistema linftico e na correntesangunea por anos seguidos, aumentando o imenso depsito deinformaes que o DNA vem acumulando desde que a vida comeou. assim que ele faz de voc um ator no palco do mundo. Quando olho pela minha janela, vejo uma via expressa com vriasfaixas de circulao, onde os carros trafegam em alta velocidade. Detempo em tempo, um avio a jato passa mais baixo, assustando umbando de pssaros. Gaivotas circulam pelo cu, pois estou a uns 40quilmetros do mar e posso sentir o cheiro caracterstico do oceano, ricoem vida marinha. Todo esse espetculo, inclusive eu, a pea teatral doDNA, que foi projetada a partir de uma molcula cuja responsabilidade desdobrar-se em nova vida, sem jamais comprometer a vida como um 274. todo. Algum, certa vez, estimou que o DNA de todas as pessoas que jviveram caberia numa colher de ch; no entanto, se o DNA contido noncleo de uma nica clula do corpo fosse desenrolado, seus fios,colocados uns aps outros, mediriam 1,5 metro. Isso significa que ofilamento gentico contido nos 50 trilhes de clulas do corpo tem 75bilhes de metros de comprimento o bastante para ir e voltar Lua100 mil vezes. Os Vedas dizem que a inteligncia do universo se estendedo menor dos menores at o maior dos maiores, e o DNA a provafsica dessa afirmao. Portanto, deve ser errado pensar que o conflito seja a norma. Emgeral, existe paz entre seu DNA e os DNAs que esto l fora. Para cadavez em que foi necessria uma guerra contra uma doena, existemdezenas, seno centenas, de vezes em que seu corpo venceu um ataquesem nenhum sintoma externo. S quando h uma distoro aquidentro que o sistema imunolgico perde sua capacidade de defender,curar e lembrar em completo silncio. Tendemos a esquecer que a paz a regra. Os psiquiatras esocilogos aceitam como certo que o homem moderno estprofundamente dividido em sua psique. O aumento dos malesrelacionados ao estresse, depresso, ansiedade, fadiga crnica e doena da pressa so sinais dos tempos. O ritmo frentico detrabalho, da vida em geral, acostumou-nos ao tumulto. Hoje, as pessoasj esto plenamente doutrinadas pela idia de que um certo grau deconflito interno normal. A guerra, parece, foi iniciada por ns e estfazendo suas baixas, como sempre acontece. Tudo isso o que eu gostaria de ter explicado a Chitra, a jovemmulher com cncer no seio cuja histria abriu este livro. Ela teve asorte de receber uma cura que pareceu milagrosa; no entanto, enquantoeu escrevia estes ltimos captulos, seu caso modificou-se por completo.As clulas do cncer haviam sido derrotadas, mas no a memria delas.Como Chitra continuava extremamente ansiosa com a possvel volta dadoena, concordamos que deveria prosseguir com a terapiaconvencional. Ao mesmo tempo, ela prometeu praticar a meditao e a 275. tcnica da bem-aventurana que eu lhe ensinara. Fiquei sem v-la porum ms, e, ento, Chitra ligou dando-me ms notcias; seus mdicoshaviam detectado uma dzia de pequenas sombras em sua tomografia eas haviam interpretado como cncer cerebral. Dominada por extremopavor, ela comeou uma radioterapia intensiva, desta vez acompanhadade quimioterapia experimental. Mas estava enfraquecida pela contendaanterior com o cncer de seio e sofreu graves efeitos colaterais, inclusivedepresso. Parou de meditar e no voltou mais para o tratamentoaiurvdico. A contagem de plaquetas em seu sangue caiu violentamente as plaquetas so clulas crticas no processo de coagulao , o quesignificava que seria perigoso demais prosseguir com a quimioterapia.Os mdicos constataram que a medula ssea estava produzindoanticorpos que atacavam suas prprias plaquetas (provavelmente umareao s muitas transfuses que Chitra recebera) e pensaram numtransplante de medula. No entanto, antes procuraram trocar o plasmasanguneo. Durante o procedimento, Chitra teve uma crise e logodesenvolveu grave anemia e uma srie de infeces. A essa altura, seu caso estava se tornando um desastre crescente.Ela recusou uma outra transfuso de sangue, apavorada com a idia depegar AIDS. Devido agitao, precisou ser medicada com morfina eValium, administrados por via intravenosa. Sua percepo foi ficandocada vez mais embotada e pouco depois Chitra entrou em coma,provavelmente devido ao choque, ao que se seguiu uma pneumonia. Osmdicos informaram seu marido de que ela talvez no se recuperasse e,um dia depois, Chitra morreu. Ela no foi vtima do cncer, mas dotratamento, e no posso deixar de pensar que a morte por cncer talvezfosse mais humana. O falecimento dessa inocente e dedicada jovem foi um grandegolpe para todos aqueles que a conheciam. Embora eu no tivesseconsolo a oferecer, liguei para Raman, o marido, que estavaterrivelmente abalado. Durante alguns meses ns dois havamos vistoChitra entrar na luz da vida e voltar para a sombra da morte,compartilhando com ela extremos de alegria e de desespero. Foram 276. feitos sinceros esforos para salv-la, porm no posso me livrar dosabor amargo de conhecer, como todos os mdicos, a barbrie de nossaatual abordagem do cncer. Diariamente, um mdico especializado na rea v pacientes quese submeteram a algum devastador tratamento de cncer que foiconsiderado bem-sucedido porque as clulas doentes desapareceram,mas se esquece do enfraquecimento do corpo como um todo, doconstante perigo da volta do cncer causado pelo tratamento em si e dopermanente estado de medo e depresso que to comumenteacompanha a cura. Viver em constante temor, mesmo sem cncer nocorpo, no um bom estado de sade. A guerra no acabou;desapareceram apenas os conflitos abertos, cedendo lugar guerrilhaclandestina. A atual filosofia no tratamento do cncer que a mente ter deaguardar enquanto o corpo suporta a devastao. Em outras palavras,encoraja-se um combate aberto no sistema mente-corpo. Como issopode ser chamado de cura? Num choque entre mente e corpo, opaciente est lutando nos dois campos, pois trata-se de sua mente e deseu corpo. No est claro que, quando surgir um perdedor, o derrotadoser ele mesmo? O aspecto vital no como ganhar a guerra, mas como manter apaz. O Ocidente no chegou a esse discernimento nem compreendeuque a manifestao fsica de uma doena um fantasma. As clulascancerosas que os pacientes temem e os mdicos combatem so apenasfantasmas elas vo e vm, despertando esperanas e desespero,enquanto o verdadeiro culpado, a memria que cria a clula cancerosa,continua sem ser detectado. O Ayurveda nos d os meios de chegarmosdiretamente ao nvel de conscincia capaz de exorcizar essa memria.Pensando em Chitra, imagino quanto tempo levaremos antes deampliarmos nossa viso. Pedimos herosmo de pacientes numa hora emque tm muito pouco dele a dar, ou os tratamos como estatsticas,transformando a sobrevivncia num jogo de nmeros. O Ayurveda nosmanda colocar a responsabilidade pela doena num nvel mais 277. profundo de conscincia, onde tambm poder ser encontrada umacura em potencial. Dizer que a profunda percepo de um paciente seja responsvelpor seu cncer algo que perturba muitas pessoas e assim quedeveria ser. O Ayurveda, como eu o vejo, no concorda que exista uma,assim chamada, personalidade cancerosa nem aceita que emoessuperficiais, estilos de comportamento e atitudes causem cncer.Alguns pesquisadores esto convencidos de que pacientes que reagemcom desnimo e depresso ao cncer tm maior probabilidade demorrer da doena do que os que possuem um forte componente em suapersonalidade cujo nome vontade de viver. Isso pareceindiscutvel, mas ser que ajuda? Uma pessoa afetada pelo cncer passa naturalmente por ciclos deemoo; sua vontade de viver suscetvel a loucas oscilaes, de umextremo a outro. Isso no motivo para se esperar o surgimento doperfil de uma personalidade cancerosa tpica. (Parte das pesquisasoriginais que supostamente comprovaram a existncia dapersonalidade cancerosa tpica baseou-se em grupos de dimensesinsignificantes, alguns com apenas 25 mulheres, todas com um nicotipo de cncer, o de seio.) Por que os psicologicamente sadios, que jdispem de uma vantagem to grande, seriam os nicos comesperanas de cura? Essa no uma pergunta intil. Recentemente eu estava numavio e por acaso sentei-me ao lado de uma mulher de uns 60 anos,cheia de vivacidade. Logo vi que era uma americana do tipo clssico vigorosa, prtica, muito decidida em suas opinies. Sua famlia vivia noEstado do Maine h geraes e se tornara muito prspera. Como meuspensamentos estavam todos voltados para as questes relativas aotratamento do cncer, o assunto logo surgiu em nossa conversa. A senhora ergueu o queixo num gesto decidido. No creio que todos esses mdicos saibam do que esto falando declarou. Minha me teve cncer de seio em 1947. Foi internadapara a remoo do caroo e depois voltou para casa para cuidar dos 278. quatro filhos. Meu pai implorou-lhe para retornar a Boston e fazer umamastectomia, mas ela disse que estava ocupada demais para isso etambm para ficar doente. Continuou levando uma vida perfeitamentenormal. Depois de algum tempo, meu pai conseguiu convenc-la, e elasubmeteu-se mastectomia. Ficou por isso, pois na poca no existiaradioterapia ou quimioterapia. O que aconteceu com ela? perguntei. Nada respondeu a mulher. Minha me viveu mais dozeanos, at estar com mais de 70, quando teve uma pneumonia. A famliatoda reuniu-se em torno de seu leito, ela despediu-se de ns e trs diasdepois morreu. Ouvindo essa histria, de repente vi, com um misto de pasmo etristeza, o que ela revelava o paradoxo de ser normal. absolutamente normal estar-se ocupado demais para ficar doente, poisesse exatamente o tipo de conscientizao que o sistema imunolgicoadora. Quando voc voc mesmo e no um doente de cncer, acomplicada corrente da resposta imunolgica, com suas centenas deoperaes precisamente cronometradas, pe-se a trabalhar com sede devingana. Porm, quando voc se entrega ao medo e ao desamparo, acorrente se quebra. Voc comea a enviar para fora os neuropeptdiosassociados a emoes negativas, estes se prendem s clulasimunolgicas e a reao imunolgica perde sua eficincia. (No se sabeexatamente por que isso acontece, mas a queda no estado imunolgicode pacientes deprimidos est bem documentada.) Aqui entra oparadoxo: se voc reagisse ao cncer como se ele no fosse grandeameaa, do modo como reage a uma gripe, teria melhoresprobabilidades de se recuperar. Contudo, um diagnstico de cncer fazcom que todo paciente sinta-se completamente anormal. O diagnsticoem si d incio ao crculo vicioso, como uma cobra que vai comendo oprprio rabo at desaparecer. O motivo de eu ter ficado ao mesmo tempo triste e atnito foi que,de repente, me dei conta de como o sistema imunolgico , ao mesmo 279. tempo, infinitamente belo e terrivelmente vulnervel. Ele forja nosso elocom a vida; no entanto, este pode se quebrar a qualquer momento. Osistema imunolgico conhece todos os nossos segredos, todos os nossossofrimentos; sabe por que uma me que perdeu um filho pode morrerde pesar, porque ele mesmo j morreu de pesar antes dela. Ele conhececada momento que um doente de cncer passa na luz da vida ou nasombra da morte, porque transforma esses instantes na realidade fsicado corpo. O cncer, ou qualquer outra doena, no mais do que asequncia desses momentos passageiros, cada um com emoes pr-prias e com uma qumica mente-corpo particular. Em outras palavras,as clulas doentes so um ingrediente entre incontveis outros; apenasso mais intangveis. O Ayurveda afirma que muitas condiesdiferentes interagem para criar a doena o organismo causador daenfermidade desempenha um papel nela, mas ajudado pelaresistncia imunolgica do enfermo, pela idade, pela dieta, peloshbitos, pela poca do ano e por muitos outros fatores que contribuempara o eventual resultado clnico. Estudos mdicos ocidentais provaramfartamente que o estilo de vida e a estrutura emocional da pessoainfluem em seu estado de sade, mas nos falta a oniscincia paraavaliarmos todos esses fatores. Um doente de cncer tem toda uma vidaatrs de si, povoada de pensamentos, aes e emoes que ningummais compartilha com a mesma exatido. O fato de as emoes jazerem to fundo no significa que oscancerosos no consigam alter-las. Pessoas podem ser salvas de seussentimentos de desnimo e impotncia, chegando a um nvel aindamais profundo. No importa se algum est envolvido em grandedesespero ou enorme autoconfiana, pois ambas as emoes sofantasmas. Por isso o Ayurveda dedica muito menos ateno semoes superficiais do que a atual medicina psicossomtica. Ofundamento racional de a medicina vdica tratar o cncer (ou a AIDS)com as tcnicas do som primordial e da bem-aventurana est em queesses so apenas nveis de conscincia comuns a todos, tanto aos fortes 280. como aos fracos. O prximo caso o mais bem-sucedido at agora no tratamentode cncer com essas tcnicas. A paciente uma mulher com quase 40anos, chamada Eleanor. Em 1983, quando morava no Colorado etrabalhava numa companhia de computao, ela recebeu o diagnsticode cncer de seio em estado avanado, j com metstases nos nduloslinfticos da axila. Os mdicos a submeteram a duas mastectomias empouco tempo. A paciente reagiu muito mal radioterapia e quimioterapia que se seguiram. Incapaz de tolerar os efeitos colaterais,Eleanor abandonou o tratamento, embora tivesse sido alertada pelosmdicos de que o cncer j se espalhara para os ossos. Os cancerososcom esse tipo de metstase tm apenas cerca de 1 por cento deprobabilidade de sobrevivncia. Acontece, porm, que em 1986, em plena doena, Eleanorcomeou a prtica da meditao a conselho de seu mdico de famlia.Por intermdio da MT, ela ficou sabendo do Ayurveda. Internou-se naclnica de Lancaster, onde passei a atend-la e a instru-la no somprimordial, para o tratamento do cncer. Os resultados foram notveis.As fortes dores causadas pela doena nos ossos desapareceram (esseincidente j foi mencionado antes, no captulo 9) e sempre que Eleanorvoltava para casa para novas radiografias seu mdico encontrava cadavez menos bolses de cncer sseo. J havia passado muito tempo para que essas regressestivessem sido causadas pelo tratamento anterior. Em geral, um tumorbombardeado com radiao ou atacado pela quimioterapia encolhemuito rapidamente. Se Eleanor sobreviver mais dois anos, entrar nalista privilegiada de pacientes que venceram todas as probabilidades. Noentanto, o que eu quero deixar bem claro aqui a completa mudanaque ocorreu nela. Pedi-lhe para escrever a histria de sua doena,partindo de um ponto de vista interior para o exterior. O que me enviou um notvel documento. Inicia-se com o momento mais angustiante desua vida, quando ela est prestes a entrar na sala de operaes para sesubmeter amputao do seio: 281. Ainda no anestesiada, estou deitada na ante-sala do centro cirrgico do hospital City of Hope. Uma enfermeira passa carregando um enorme seio num saco de plstico. Meus seios me parecem to pequenos, inocentes e desamparados. Eu havia amamentado meus filhos e me sentia bem a respeito de meus seios; eram bonitos, femininos e macios eu confiava neles. Agora, s estou deitada aqui, esperando algum tirar fora pelo menos um deles. Estou trmula e assustada. Cada nervo de meu corpo parece estar gritando por ao, querendo fugir antes que seja tarde demais, mas empurram minha maca para a sala de operao. Sinto que estou entregando meu corpo a um estupro de degradao. Tenho 35 anos e tudo isto est indo contra meu sentido do que correto. Terminada a operao, comea o impacto emocional. A imagem que tenho de meu corpo ruim no quero que os mdicos me vejam, muito menos meu marido. Estou mais do que nua. Estou me despindo de minha forma feminina, infectada pelas semanas seguintes, presa a tubos ligados a drenos em meu corpo. Os vidros de tampa vermelha tilintam quando tento andar. Com o passar dos dias, Eleanor recuperou-se o suficiente paracomear seis meses de quimioterapia. De incio, disseram-lhe que suasprobabilidades de cura eram altas, mas, quando fizeram umamamografia do seio restante, constataram a presena de cncer. Foi marcada nova mastectomia. Agora quero mesmo fugir. Durante meses ouvi dizerem que eu tinha cncer; depois, que no tinha; depois, que tinha de novo. Estou to cansada de cirurgias e de incertezas! Tenho febre, horrveis suores noturnos, sofro dores, 282. humilhao, dvidas sobre meu corpo, meu esprito, meu se- xo tudo. Tudo em que confiei me traiu. Cncer bilateral, mastectomia bilateral e, por fim, reconstruo bilateral dos seios. Espero que isso seja o fim e que eu possa ir me recuperando dos outros sintomas. Depois, ficar boa de novo, apesar das desvantagens. Logo depois, Eleanor comeou a praticar a MT. De incio, tinhareservas e at mesmo ceticismo, mas isso deu lugar a um sentido deaceitao interior. Passados quatro meses, ela descobriu que estavagrvida. Os mdicos lhe haviam dito que a quimioterapia a deixariaestril, o que acontece com cerca de 25 por cento das mulheres maisjovens, subindo a 85 por cento em mulheres com mais de 40 anos. Paraas que no ficaram estreis, dar luz extremamente arriscado, maspara Eleanor a idia de ter outro filho tinha especial importncia: Para mim, essa gravidez era um smbolo de plenitude e entrosamento com a Natureza. Era um milagre, e eu estava feliz. Ento, quando ouvi de meus mdicos que devia abortar para salvar minha vida, tive a impresso de estar vivendo um pesadelo. Com o prosseguimento da gravidez, fiquei ainda mais doente. Explicaram-me que meus exames indicavam cncer estrgeno-positivo e que as chances de sobrevivncia eram mnimas. Enfrentei tudo e continuei gerando meu filho, uma deciso que me trouxe paz. Depois do parto bem-sucedido de um menino, Eleanor descobriuque o cncer retornara, dessa vez atacando os ossos: De volta ao cncer, e o passeio na montanha-russa recomeou. Os mdicos do City of Hope predisseram que eu viveria talvez mais seis meses, mas provavelmente no mais de dois anos. (Isso aconteceu h catorze meses, em maro de 283. 1987.) O cncer avanara muito para o interior dos ossos (as radiografias revelaram uma dzia de locais cancerosos, em especial nas costelas e vrtebras) e eu me sentia muito doente, literalmente arrebentada at os ossos. O plano de tratamento previa doses macias de quimioterapia pelo resto de sua vida, o que dava a impresso de que eu no ficaria neste mundo por muito tempo. Eleanor reagiu mal quimioterapia e, a conselho do mdico defamlia, que sugerira a MT antes, procurou a clnica de Lancaster emjunho, para fazer o tratamento aiurvdico. Quando a examinei,reconheci que estava mesmo gravemente enferma. No podia lheprometer uma cura, mas disse-lhe que havia mais possibilidades do queela poderia imaginar seu ncleo interior no fora violado pelo cncer,e tentaramos faz-la entrar em contato com ele. Depois de duassemanas, Eleanor comeou a sentir-se muito melhor, tanto fsica comomentalmente, e saiu da clnica sem dores. Parece que esse foi omomento decisivo: Depois de voltar ao trabalho, quimioterapia e s dvidas, aconteceu algo especial. Certa manh, uma pomba entrou voando num dos armazns da companhia, e ningum conseguiu espant-la de l. Duas ou trs horas mais tarde, quando cheguei para o trabalho, a pomba me seguiu enquanto eu subia as escadas e pelos corredores, at minha sala; depois, pousou tranquilamente em minha escrivaninha, bem a minha frente. Peguei-a com toda a delicadeza e no mesmo instante senti-me dominada pela emoo, enquanto compartilhvamos o conforto uma da outra. Alguns meses se passaram depois que a soltamos no campo. Em setembro, fiquei sabendo que a tomografia de meus ossos no mostrava nem piora nem melhora. A quimioterapia estava me causando muitos efeitos colaterais. 284. Eu no pretendia abandon-la, mas os hemogramasindicavam contagens sempre ruins, o que significava que otratamento devia ser interrompido, ao menostemporariamente. Assim que parei, comecei a me sentirmelhor, e ento decidi que no continuaria com aquimioterapia, mesmo arriscando-me a morrer. Em dezembro, voltei a Lancaster. Minha estada l foimaravilhosa; haviam chegado certas ervas especiais paramim, e aprendi a tcnica do som primordial para usar emcasa. No final de dezembro, outra tomografia dos ossos norevelou alteraes. Isso confirmou minha crena de que aquimioterapia era superficial. Continuei com minhas tcnicase, quando fiz nova tomografia em maro, trs meses depois,ela revelou que todas as bolsas de cncer, exceto uma bempequenina, haviam desaparecido. O radiologista sorriu e disse que no sabia como issopodia ter acontecido sem a quimioterapia. Ele abraou-me e,quando eu saa, falou: Isto vai entrar para a Histria. Meumdico de famlia ligou para o radiologista para obter umainterpretao completa dos exames: assim que desligou,disse-me que eu estava quase completamente curada. No pude conter as lgrimas ao ouvir a notcia. Imagineicomo eu pudera duvidar desse resultado. Tocada pelo amor epela perfeio da Natureza, s sentia um nico, suave desejode me sentar de novo na terra, cercada de paz, numacelebrao de flores da primavera, e desfrutar de tudo o queacontecera e do que sou. Para encerrar, devo acrescentar que sou realista;compreendo a abordagem tpica do Ocidente quanto a esteevento. Tambm sei que existem grandes possibilidades aqui.Todas as verdades de minha experincia, de certa forma, sesomam numa nica verdade, mas, quando penso que a captei,ela foge de mim. Fico, ento, me sentindo humilde e um tanto 285. tola por tentar dividir a plenitude. Entretanto, estou muito, muito tranqila e em paz, depois de ter tido tantas provas de que a plenitude a perfeio. Eleanor progrediu muito. No ano passado estava na pior categoriapara sobreviver a sua doena; agora, muitas autoridades como o dr.Ikemi considerariam seu caso como uma regresso espontnea. Seuestado geral de sade bom; no existem sinais de debilitao. Oitomeses depois de se submeter ltima quimioterapia, o cncer de ossosfoi desaparecendo at s restar uma pequena sombra nas radiografias,e no est definitivamente provado que ela seja cancerosa. A qumicasangunea de Eleanor, que se tornara anormal devido doena ativa,agora voltou aos padres normais uma prova muito maior do que afornecida pelas radiografias de que Eleanor est se recuperando. Eu no temo por ela agora, mesmo se tiver de recomear suabatalha. Eleanor est alm de batalhas ela irradia a paz sobre a qualescreve, e conversar com ela faz com que me sinta feliz e seguro,sobretudo porque compreendo como rara essa paz. Eleanor descobriua alegria a partir do desespero da doena. No instante em que amemria da sade voltou, trouxe-lhe poder suficiente para durar umavida inteira. http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros http://groups.google.com/group/digitalsource