A Criana, a Psicanlise e a Psicoterapia - ?a-a... A Criana, a Psicanlise e a Psicoterapia

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    20-Jul-2018

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337 A Criana, a Psicanlise e a Psicoterapia Ensaio | Nota de pesquisa redigida para a revista Le Carnet-PSY, 2010. Bernard Golse Psiquiatra infantil-Psicanalista. Chefe do servio de Psiquiatria Infantil do Hospital Necker-Enfants Malades (Paris). Professor de Psiquiatria da criana e do adolescente na Universidade Ren Descartes (Paris 5). Inserm, U669, Paris, Frana. Universidade Paris-Sud e Universidade Paris Descartes, UMR-S0669, Paris, Frana. LPCP, EA 4056, Universidade Paris Descartes. CRPM, EA 3522, Universidade Paris Diderot. Membro do Conselho Superior de Adoo (CSA). Antigo Presidente do Conselho Nacional para o Acesso s Origens Pessoais (CNAOP). Presidente da Associao Pikler Loczy-Frana. Presidente da Associao para a Formao de Psicoterapia Psicanaltica da Criana de do Adolescente (AFPPEA). Esta nota de pesquisa prolonga as reflexes que haviam sido apresenta- das nas mesmas colunas no centro do dossi Psicanlise e psicoterapia: debates e estratgias1, bem como as reflexes que haviam sido retoma- das na obra coletiva publicada para a Jornada Cientfica organizada por Daniel Widlcher e pela revista Le Carnet-Psy sobre o tema: Psicanli- se e Psicoterapia Continuemos o debate2. No que me diz respeito, eu concordo totalmente com a posio de Widlcher que diz que o conflito polmico entre psicanlise e psicoterapia no se resolver enquanto a existncia da psicanlise da criana no for inteiramente reconhecida e admitida (com todas as implicaes quanto formao). 1 GOLSE, B. Le point de vue dun Pdopsychiatre-Psychanalyste. Le Carnet-Psy, v. 105, p. 40-41, 2006. 2 GOLSE, B. Le point de vue dun pdopsychiatre-psychanalyste. In: WIDLOCHER, D. (dir.). Psychanalyse et psychothrapie. Paris: Ers, 2008. (Carnet/PSY), p. 17-24. A Criana, a Psicanlise e a Psicoterapia Psicanlise v. 13 n 2, p. 337-345, 2011 338 De fato, se aceitamos plenamente a existncia da psicanlise da criana, resulta imediatamente: que nenhum processo psicanaltico garantido antes do estabeleci- mento do setting; que uma cura autenticamente psicanaltica pode se conduzir face a face, e que o div no representa nenhuma garantia a priori; que nossa teoria de interpretao, enfim, est ainda extremamente bal- buciante. Eu me sinto igualmente muito prximo a A. Ferro, quando ele diz que a psicanlise no pode ser seno nica e inteira e que ela s pode se reali- zar nas situaes diferentes. Mas voltemos a cada um dos trs pontos precedentes. 1) Com uma criana comum, aps o primeiro contato, que saibamos exatamente o que fizemos, e se uma verdadeira dimenso psicanaltica deste trabalho foi atingida ou no. Quando um psicoterapeuta infantil recebe uma criana duas ou trs ve- zes por semana (isto ainda existe!), de fato, ser aquele que poderia dizer no incio se o nvel de trabalho que ser obtido ser do tipo analtico, ou somente do tipo psicoterpico. M. Ody e outros autores mostraram bem que a possibilidade de conduzir ou no uma psicanlise infantil depende tambm, em parte, do funcio- namento psquico dos pais. Por outro lado, o correspondente de analisibilidade dos adultos refere-se, nas crianas, fluidez e plasticidade, efetiva ou no, de suas imagos parentais, e existe a, me parece, uma pista interessante de pesquisa quan- to linha de demarcao entre o psicanaltico e o psicoterpico. Entretanto, com a criana, e talvez, sobretudo com ela, a qualidade da anlise da parte inconsciente da contratransferncia do cuidador que 339 Bernard Golse far com que o trabalho possa, ou no, verdadeiramente se revelar de natureza psicanaltica. Da o interesse, em minha opinio, da Federao Europeia de Psicoterapia Psicanaltica (no servio pblico) que consagra muitos esforos ao traba- lho de superviso, como eu j tive a oportunidade de mencionar nos es- critos citados anteriormente. 2) O segundo ponto trata da questo da possibilidade ou no de uma psicanlise fora do div, quer dizer, alm do enquadre da cura tpica. Evidentemente, necessrio que a prtica psicanaltica deixe sua dimen- so de verdade local ligada situao transfero-contratransferencial, mais especfica do dispositivo div-poltrona. , portanto, esta dimenso de verdade local que permite dispensar a crtica poperiana de irrefutabilidade. Mas, ainda assim... Algumas variaes do enquadre no ameaam a au- tenticidade psicanaltica, a no ser, de novo, considerando que a psican- lise infantil no existe e no existir jamais! Eu gostaria, assim, de evocar a este propsito duas problemticas essen- ciais, aquela generalizada do enquadre e aquela da aparncia. A partir de sua prtica do psicodrama3, J.-M. Dupeu nos oferece, desde muitos anos, um conceito fortemente heurstico que ele designa pelo ter- mo triplo desenvolvimento, desdobramento ou decondensao do con- texto, conceito que nos permite compreender como a dimenso psica- naltica de um trabalho pode ser efetivamente preservada fora do dispo- sitivo clssico. O enquadre do psicodrama ao qual muitos psicanalistas no negam um eventual valor psicanaltico difere, de fato, da cura tpica em trs pontos essenciais: 3 A questo da aparncia igualmente interessante de ser considerada. A Criana, a Psicanlise e a Psicoterapia Psicanlise v. 13 n 2, p. 337-345, 2011 340 o processo teraputico no passa seno pela palavra (a se acrescenta a linguagem do jogo, dos corpos e do ato, cara a R. Roussillon); a transferncia no se focaliza em um s terapeuta (presena de co- terapeutas); e, a considerao exclusiva do registro intrapsquico possvel com os pa- cientes bem diferenciados (principalmente neurticos) considerando a tomada do registro intersubjetivo ou interpessoal (o que essencial com os pacientes pouco ou mal diferenciados, aqueles ditos mais notadamente arcaicos). Este conceito me parece, pois, muito til, por aprofundar o que pode re- presentar de psicanaltico no trabalho com as crianas que exige, evi- dentemente, enquadres variados e, por vezes, atpicos. A questo da aparncia igualmente interessante a se considerar. Freud realmente nunca explicou os motivos profundos que o levaram a abandonar o quadro da cura hipntica (no qual o terapeuta v e toca o paciente que tambm o v) em troca do contexto psicanaltico no qual o analista e o paciente no se comunicam se no se falando e se escu- tando. Suas explicaes sobre este ponto foram sempre relativamente superfi- ciais, enquanto hoje, luz dos estudos sobre o beb, podemos, sem dvi- da, melhor compreender os fundamentos desta ruptura metodolgica central, j que se trata, em realidade, de estimular a reflexibilidade ps- quica do paciente (no mais ver para melhor ver, no mais tocar para melhor tocar afetivamente e para melhor tocar a verdade dos objetos internos) como j haviam sublinhado, em seu tempo, autores como G. Favez e D. Anzieu. O que quer que sejam os estudos atuais sobre o beb e sobre o desenvol- vimento precoce estudos tanto cognitivos quanto psicodinmicos mostram-nos bem, de agora em diante, que somente a apreenso 341 Bernard Golse polissensorial do objeto por meio de um trabalho de estruturao4 (MELTZER, 1980) ou de comodalizao sensorial (STRERI, 1991) que nos permite viver o objeto exteriorizado, quer dizer, como um objeto que no faz parte de si, assim como sua apreenso monossensorial tem a tendn- cia a copiar, a apagar ou a reduzir nossa percepo de afastamento intrassubjetivo. Este ponto , assim, mais importante aos meus olhos, porque eu me per- gunto, de fato, se para S. Freud, a deciso de se colocar atrs do paciente, de renunciar a toc-lo e renunciar a v-lo, no corresponderia somente a uma ruptura profunda com a hipnose e a sugesto, mas tambm a uma tentativa (certamente no formulada na poca) de religar, em relao ao paciente, com um algum distanciamento da intersubjetividade e, assim com as partes mais infantis e mais arcaicas de seu prprio funcionamen- to? O face a face corresponde, de fato, a uma situao altamente polissenso- rial, situao que inclui um espao material de ateno conjunta onde convergem os olhares do paciente e do terapeuta (espao jogando como uma espcie de espao potencial, de matriz dos co-fantasmas, dos co- pensamentos e das co-simbolizaes), proporcionando, ento, uma esti- mulao do estar a trs e da intersubjetividade. O dispositivo div-poltrona, ao contrrio, corresponde a uma situao mais monossensorial (com um lugar central reservado audio, en- quanto o prprio S. Freud investia muito mais nas artes plsticas do que na msica!), situao fundada sobre uma dimenso mais imaginria e simblica que o material do espao de ateno conjunta, permitindo, assim, uma dialtica mais leve entre o antes e o depois da intersubjetividade, com uma ligao mais fluda das partes infantis da psique, tanto do analista quanto do paciente. Bem entendido, as coisas no so to tramadas, e se trata apenas de sim- ples pistas de reflexes preliminares. 3) O terceiro ponto concerne nossa teoria de interpretao. 4 N. do T.: A palavra em francs usada pelo autor entre aspas foi mantlement, cujo significado no foi encontrado. No entanto, seu antnimo dmantlement que significa desmantelamento, desmembramento, diviso. A Criana, a Psicanlise e a Psicoterapia Psicanlise v. 13 n 2, p. 337-345, 2011 342 Os bebs, principalmente, mas tambm as crianas e at os adolescen- tes, mostram-nos que falar pode verdadeiramente ser compreendido como um ato da palavra, um ato da linguagem, e no somente como uma mensagem no sentido puramente da ideia. O beb entra principalmente na linguagem pela comunicao analgica, quer dizer, pela msica da linguagem, seja pelo no verbal do verbal, de qualquer forma, (GOLSE, 2006), e a enunciao tem, assim, provavelmen- te, tanta importncia quanto o enunciado no sentido estrito, para com- preender como o que dizemos faz alguma coisa ao outro, tem um impac- to sobre seu mundo interno e, finalmente, o toca e o afeta. Da a nossa necessidade, no campo do trabalho com as crianas muito jovens, de uma lingustica menos saussuriana que subjetal e dinmica. Aqui, nossa teoria de interpretao no enquadre da cura tpica necessi- taria, sem dvida, no ser exclusivamente centrada sobre o enunciado, mas tambm sobre a enunciao, o que nos convida a ter realmente cons- cincia da incompletude relativa atual de nossa teoria de interpretao psicanaltica. A partir disso, poderemos, sem dvida, precisar melhor os pontos de con- tato (convergncias) e as diferenas (divergncias) entre as interpreta- es propriamente ditas, e o que designamos como termo de interven- es. Eu deixo de lado a questo das intervenes com um objetivo sugestivo, que no entra no nosso propsito, para dizer algo sobre um problema mais importante sobre as verbalizaes (ALVAREZ, 1992), notadamente com relao s crianas autistas ou psicticas em particular. A verbalizao dos afetos de uma criana autista no suficiente, certa- mente, por si s, mas seguidamente um longo prembulo necessrio. No entanto, esta verbalizao pode, muitas vezes, ter uma funo de in- terpretao continente5 um ser-junto que atinge o objetivo, definido por 5 A distino entre a interpretao continente e a interpretao mutativa, que deve- mos a E. Jones, est longe de ser fcil, tanto nos adultos como nas crianas. 343 Bernard Golse F. Tustin, de poder fazer sentir que um outro existe e que no ameaa- dor. Existe, dessa forma, uma dimenso de interveno em toda interpreta- o e reciprocamente dito, o que relativiza muito, em minha opinio, o limite da suposta fronteira entre psicanlise e psicoterapia. A isto se acrescenta o fato de que, luz dos trabalhos sobre os bebs, surge a questo de saber se a interpretao deve tambm considerar, ou no, a linguagem do corpo e a linguagem do ato. plausvel pensar (ROUSSILLON, 1997; GOLSE; ROUSSILLON, 2010) que a linguagem do ato no leva somente quele que quer subtrair o discurso verbal, que se utiliza apenas dos esquemas defensivos de repulso, mas que ele pode testemunhar igualmente alguma coisa que insiste em con- tinuar a se dizer pelo canal pr-verbal, qualquer que seja sua eficcia, em oposio ao canal da comunicao verbal. Da a dificuldade de saber se a interpretao no deve se basear estrita- mente sobre o que verbalizado. A resposta depende, provavelmente e de maneira complexa, da estrutura do paciente, de sua idade e do mo- mento da cura, alm de outros fatores a esclarecer. Concluses No entrarei aqui no mrito da questo de se podemos dizer que a dife- rena entre psicanlise e psicoterapia seria que a psicanlise visa ajudar ao paciente a elaborar uma teoria pessoal de sua prpria psique, enquanto que a psicoterapia no procura seno aderir o paciente teoria do terapeuta, uma vez que, sem dvida, esta observao trata de psicoterapias no psicanalticas. Em contrapartida, P. Aulagnier insistia muito sobre a funo autoteorizante da psique, quer dizer, sobre o fato que ela procura se dar uma represen- tao de seu prprio funcionamento, e L. Schacht, quanto a ela, bem mostrou que na dinmica de sua cura (quando esta eficaz), a criana retoma e simboliza efetivamente qualquer coisa de seu prprio cresci- mento psquico. A Criana, a Psicanlise e a Psicoterapia Psicanlise v. 13 n 2, p. 337-345, 2011 344 Aqui talvez exista um ponto importante da diferena entre psicanlise e psicoterapia. Em qualquer um dos casos, a criana nos mostra o aspecto um pouco fictcio da fronteira entre psicanlise e psicoterapia. Pode, no entanto, nos ajudar a repensar a psicoterapia no psicanaltico, e o psicanaltico na psicoterapia. Deste ponto de vista, o trabalho psicanaltico com a criana me parece ser uma grande chance para a cura tpica e a psicanlise em geral, mas tambm necessrio aceitar a prpria existncia da psicanlise da cri- ana, estratgia fundamental que nos leva posio de D. Widlcher, evocada desde a introduo, e que supe admitir que a sequncia no espera o dipo... mas esta uma outra histria na qual as estratgias sobre a formao no so pequenas! Referncias ALVAREZ, A. Live company. London: Routledge, 1992. Traduction franaise: Une prsence bien vivante (le travail de psychothrapie psychanalytique avec les enfants autistes, borderline, abuss, en grande carence affective). Larmor-Plage: Ed. du Hublot Regards sur les Sciences Humaines, 1997. (Tavistock clinic). ANZIEU, D. Le Moi-peau. 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