A Cozinha a Base Da Religiao (Norton)

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  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 1

    A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul

    Norton F. Corra

    In: CANESQUI, AM., and GARCIA, RWD., orgs.

    Antropologia e nutrio: um dilogo possvel. Rio de Janeiro, Editora

    Fiocruz, 2005.

  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 2 INTRODUO

    A colonizao portuguesa oficial do Rio Grande do Sul, no extremo sul brasileiro, inicia-se nas

    primeiras dcadas do sculo XVIII. Anteriormente, a regio era habitada por ndios. Os colonos

    portugueses trazem, j, consigo, escravo negro. Na segunda dcada dos 1800 comea a

    imigrao alem, e em seus anos finais, a italiana.

    Quanto aos pratos tpicos da culinria regional, deve-se aos ndios a inveno do tpico dos

    tpicos: o churrasco, carne assada nas brasas, alm da farinha de mandioca, que sempre

    acompanha o primeiro; e igualmente uma bebida, o chimarro, infuso feita com as folhas de

    um arbusto. Os portugueses contriburam com a maioria dos pratos, destacando-se o feijo e o

    arroz. Os alemes encarregaram-se de popularizar a batata, enquanto os italianos trouxeram a

    polenta.

    Observa-se que a batata e a polenta so alimentos emblemticos das populaes de

    ascendncia alem e italiana do Rio Grande do Sul, respectivamente. Essa relao se expressa

    nas xingaes padronizadas de que so vtimas: 'alemo batata, come queijo com barata' e

    'gringo polenteiro'.

    A culinria rio-grandense de origem africana tem uma caracterstica especial: uma parte dela

    muito popularizada e foi adotada tambm pelos que no descendem de africanos. Parece ser

    mais de origem banto, como os primeiros escravos que chegaram, a partir do sculo XVIII. Outro

    de seus segmentos de natureza exclusivamente ritual, sagrada, sendo utilizado no batuque,

    religio de origem africana (sudanesa) caracterstica do Rio Grande do Sul e semelhante ao

    candombl da Bahia ou ao xang do Recife. Seus afilhados, em sua macia maioria, so negros

    urbanos pobres, moradores das periferias das cidades.

    Tais alimentos assumem importncia crucial, nesse culto, porque os deuses afro-brasileiros,

    como tantos outros de tantas religies, 'comem'. Basta pensar na religio judaica, em que se

    ofereciam produtos agrcolas e animais a Jav.

    Ou, no catolicismo, em que Cristo, o 'cordeiro de Deus', oferecido ao Deus-Pai e tem o sangue

    e a carne ingeridos simbolicamente pelos fiis. Ao contrrio da culinria de origem banta, o

    conhecimento tanto do preparo quanto das caractersticas dessas comidas rituais mantido no

    espao 'intramuros' dos templos de batuque. Talvez tanto por serem sagradas como pelo

    considervel fechamento que o culto mantm. Tais fatores permitem que elas assumam uma

    conotao 'tnica', tal qual Peter Fry (1982) se refere quanto feijoada.

    Apesar de ser numericamente muito expressiva entre iniciados, freqentadores e simpatizantes,

    a comunidade das religies afro-rio-grandenses compe uma espcie de rede subterrnea na

    sociedade gacha. Os assim chamados brancos sabem perfeitamente da existncia dessas

    religies, porque muitos ali vo buscar a intercesso das divindades para resolverem problemas

    de toda sorte.

    A maioria desses brancos s tem acesso s salas, onde os chefes consultam os bzios (jogo

    adivinhatrio), e aos pejis, onde ficam os implementos rituais, com sua penumbra, os cheiros

  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 3 dos alimentos sagrados depositados no cho, a profuso de alguidares, quartinhas de barro, as

    cortinas que ocultam certos objetos a olhos curiosos. Mas outros s conhecem de mais concreto

    os abundantes e temidos 'despachos' (oferendas alimentares) colocados em ruas, praas, praias,

    cemitrios gachos. Para uns e outros, entretanto, esse um mundo praticamente hermtico,

    cheio de mistrios, mas percebido sobretudo como perigoso. perigoso, como diz Mary Douglas

    (1976), porque reconhecido como fonte de poder. Tudo isso produz, sem dvida, um grande

    medo branco do feitio negro.

    O objetivo aqui examinar alguns aspectos da presena do alimento nessa religio e do papel

    que desempenha na relao humanos-humanos e entre estes e as entidades sobrenaturais.

    Vrios dos dados aqui utilizados foram divulgados em outra ocasio (Corra, 1992) e dizem

    respeito a pesquisas efetuadas em diversos templos de batuque, de 1969 at 1989.

    As COMIDAS NO BATUQUE

    Os primeiros templos de batuque possivelmente foram fundados nos incios do sculo XIX. Mais

    tarde apareceram outras formas rituais, como a Umbanda, na dcada de 1930, e a linha cruzada,

    nas dcadas de 1940 e 1950. Esta ltima forma rene no mesmo templo as entidades das duas

    outras. Sem estatsticas mais precisas, estima-se que podem existir hoje entre 80 mil e 100 mil

    casas de culto dessas trs modalidades.

    As divindades cultuadas no batuque, chamadas 'orixs', tm caractersticas muito humanas,

    cada uma com suas preferncias e idiossincrasias. Em seu conjunto formam uma sociedade em

    que h famlias, amor, dio intrigas, lutas, amizade etc. Da instncia sobrenatural fazem parte

    ainda os eguns (mortos), tidos como extremamente perigosos, pois podem causar muitos

    prejuzos aos humanos, inclusive a morte.

    Os orixs principais so doze: Bar, o homem que 'manda' nas ruas e nas encruzilhadas; Ogum,

    ferreiro, guerreiro e padroeiro dos artesos; Oi ou Ians, mulher guerreira e sensual e 'dona'

    dos raios; Xang, guerreiro que comanda o trovo; Od, o caador; Otim, mulher de Od; Ob,

    mulher guerreira; Ossanhe, o 'orix mdico', dono das folhas; Xapan, um velho feiticeiro que

    comanda as doenas; Oxum, deusa da beleza e da riqueza, dona das guas doces; Iemanj, da

    gua salgada; Oxal, o mais velho de todos. Cada um deles, entretanto, divide-se em vrios

    outros da mesma categoria, com diversos nomes e idades. Eles possuem tambm cores e

    smbolos prprios.

    Cada templo possui uma chefia, o 'pai-de-santo' (ou 'me-de-santo'), que tem a autoridade

    suprema em sua casa, sendo tambm seu(sua) proprietrio(a) legal. O conjunto de templos

    compe uma comunidade na medida em que seus dirigentes e filiados comungam de uma viso

    de mundo (que chamo de 'batuqueira'), e todos os principais chefes se conhecem e se visitam.

    Como j dito, deuses e eguns 'comem', sendo o alimento o principal bem simblico que os

    humanos lhes oferecem. Ele surge, assim, como fator mediador por excelncia das relaes

    entre o mundo dos homens e o sobrenatural. 'Alimento', entretanto, deve ser entendido numa

  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 4 dimenso ampla, pois alm das comidas rituais propriamente ditas, h ingredientes como sal,

    acar, pimenta, vinagre, mel, leos comestveis, gua, bebidas alcolicas ou no, hortalias,

    frutas, ervas de folhas diversas, que compem a culinria batuqueira. Porm, para os seres

    sobrenaturais o de maior valor o sangue dos animais sacrificados nos rituais.

    A iniciao corresponde a um pacto estabelecido entre o homem e os orixs. O que os humanos

    esperam deles, antes de tudo, a proteo. Para proteger os humanos, no entanto, eles

    precisam estar fortes, e para tanto torna-se necessrio mant-los sempre bem alimentados. Este

    justamente o principal dever dos iniciados, por isso as comidas rituais do batuque chamam-se

    'comidas de obrigao'.

    No alimentar o orix, ou seja, no cumprir o pacto, no apenas perder a sua proteo, mas

    sobretudo ficar exposto a riscos (incluindo-se castigos por parte do prprio orix) que no raro

    podem resultar na morte. Entende-se que o deus, uma vez feita a iniciao de um fiel, passa a

    'cuidar' deste - mais especificamente de sua cabea, onde 'mora'. Existem vrios graus de

    iniciao, e cada um deles, progressivamente, corresponde ao sacrifcio de animais com maior

    volume de sangue: vai do 'bori', em que se sacrifica uma pomba, at graus maiores, em que a

    vtima pode ser um touro. A iniciao final chamada de 'aprontamento' e firma o pacto com a

    divindade. Assinale-se que ele implica, entre outros aspectos, a proibio de a pessoa comer

    certos alimentos, o que chamado 'quizila'.

    A cerimnia de iniciao consiste, primeiramente, em entronizar o deus em uma pedra ('ocut')

    ou objeto especial, que compe sua representao material.

    Em seguida, o animal decapitado e seu sangue vertido simultaneamente no 'ocut' e na cabea

    do iniciado, onde dever permanecer trs dias. Diz-se ento que o orix 'est comendo'. Nessas

    ocasies, no instante exato em que o sangue toca o crente, o orix deste 'baixa' (ocorre a

    possesso). Ento, demonstrando a sua fome, no raro que o possudo tome o corpo do animal

    sacrificado nas mos e beba o sangue diretamente de seu pescoo.

    O ato visto, tambm, como prova de verdadeira possesso, pois entendese que muito

    nojento e apenas uma divindade poderia faz-lo. Vrias outras provas de possesso incluem

    substncias a serem ingeridas pelo possudo: tomar um copo de vinagre com sal e pimenta

    (vomitrio eficaz, caso no haja a presena do orix); comer mechas de algodo incandescente

    embebidas em dend; beber o mesmo dend fervendo. Certos chefes so acusados de obrigar

    os possudos a ingerir excrementos humanos para saber se no uma simples burla. H, ainda,

    o caso dos 'axers', espcie de estado intermedirio, na possesso, entre o santo e o normal,

    em que a pessoa assume comportamento infantil. Eles costumam sair catando insetos como

    baratas ou certas lesmas e, com manifestaes de grande regozijo, os disputam e ingerem vivos

    na frente dos humanos, muitos dos quais no suportam a cena e vomitam. Tal como nos outros

    casos, isso tambm considerado uma prova de possesso.

    Cabe dizer que tudo aquilo consumido pelos deuses nos testes oficiais da possesso ou no

    estado de axer; no deixa de ser alimento, tanto que ingerido por eles. Mas se tornariam

    'antialimentos' para os homens, por serem prejudiciais, nojentos, comidos crus e ainda mais

    vivos, como no caso de lesmas e baratas. Assim, o alimento ocupa uma posio-chave tambm

  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 5 como elemento divisor de guas entre categorias de seres do mundo natural e do sobrenatural

    do batuque, caracterizando-as e acentuando suas fronteiras.

    Cada orix somente aceita o sangue de determinados animais - aves, caprinos, ovinos, sunos,

    bovinos, peixes -, considerando-se o sexo, idade, cor e algumas outras caractersticas fsicas

    deles. Tanto orixs como mortos recebem tambm algumas partes especiais do animal, como

    as patas, a cabea, alguns rgos internos e testculos. Alguns dos alimentos dos mortos so

    especficos, mas outros so muitos semelhantes aos dos deuses, exceo feita a certos

    ingredientes especiais. H pratos rituais oferecidos apenas s divindades, outros apenas aos

    eguns e outros, enfim, que podem ser compartilhados entre deuses e homens ou mortos e

    homens.

    Aqui interessante abrir um parntese. Anteriormente fiz referncia umbanda e linha

    cruzada. A primeira modalidade designa-se umbanda branca, cultua 'caboclos' e 'pretos-velhos'

    (espritos de ndios e africanos velhos), alm de certa categoria de orixs. A linha cruzada cultua

    estes, os orixs do batuque e mais o Exu e a Pombagira. As entidades da umbanda branca so

    consideradas de menor eficcia ritual do que todas as demais, justamente por sua alimentao:

    recebem apenas mel e frutas, enquanto que as demais recebem sangue.

    Os fundadores do batuque e seus descendentes no encontraram, obviamente, tudo o que

    existia na frica para sua prtica ritual e aproveitaram os ingredientes aqui disponveis,

    seguidamente combinando-os de forma diferente, de modo a elaborar uma cozinha ritual,

    prpria. Da contribuio indgena, Ogum apropriou-se do churrasco (e com farinha de mandioca,

    tal como servido na mesa rio-grandense), sendo que a erva-mate oferecida aos eguns. A

    'batata-inglesa', popularizada pela colnia alem, uma das comidas preferidas do Bar,

    enquanto que Oxum gosta da italiana polenta.

    Quanto contribuio portuguesa, os mesmos eguns gostam de arroz (cozido com galinha). A

    Bar e a Ossanhe se oferece tambm lingia; e certos templos acrescentam feijes pretos crus

    ao opete - um bolinho de batata cozida apreciado por Xang. Outros pratos aparecem tambm

    - como o sarrabulho (um guisado de vsceras) - oferecidos a todos os orixs, cabendo aqui alguns

    comentrios. O primeiro que se observa que o universo da cozinha ritual batuqueira uma

    espcie de amostra da culinria de cada uma das chamadas etnias formadoras principais da

    populao gacha, tal como uma radiografia desta. Isso, de um lado, ajuda a assinalar o carter

    regional do batuque diante de outras religies congneres, como o candombl; e de outro,

    denuncia a considervel integrao de seus devotos (conseqentemente, da religio que

    praticam) no ambiente sociocultural rio-grandense. O segundo que os deuses Ogum, Bar (sob

    o nome da Elegbara ou Legba), Oxum ou os eguns (mortos) so conhecidos e cultuados em

    praticamente todos os locais de influncia nag: frica, Amricas. Mas o nico lugar no mundo,

    exatamente, onde essas entidades comem tais alimentos no Rio Grande do Sul.

  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 6 O ALIMENTO E SEU CONSUMO

    O filiado ao batuque classifica os alimentos em duas categoras: as comidas 'de obrigao' e as

    comidas 'brasileiras'. Brasileiras so todas as que no se preparam com fins rituais, mesmo que

    possam ser usadas no culto, como o caso do churrasco. Essa idia de brasileiro e no-brasileiro

    aparece em outras expresses, remetendo para a questo da identidade do grupo: as pessoas

    dizem pertencer religio 'africana'; o termo 'festa' significa, automaticamente, cerimnia

    litrgica, enquanto que uma festividade qualquer, 'civil', chamada de 'festa brasileira'. Tudo

    isso parece indicar que representam-se a si mesmos como no brasileiros ou estrangeiros, talvez

    reflexo do status de excludo da cidadania que o negro continua tendo at hoje no Brasil.

    A necessidade de confeccionar um grande volume de comidas determina que seja reservado um

    bom espao para as instalaes da cozinha. E ali, certamente, encontraremos paneles, foges

    a lenha de grande porte, dzias e dzias de pratos. Casas, como a da me-de-santo Santinha do

    Ogum, possuem duas cozinhas, uma para 'a religio' e outra para o dia-a-dia.

    A responsabilidade na confeco das comidas de obrigao muito grande, razo pela qual cada

    casa de religio tem uma cozinheira especializada, sempre 'velha'. Costa Lima (1977), referindo-

    se ao candombl baiano, assinala, entre outras importantes observaes, que a cozinheira, l

    denominada de 'iabass', tem de ser velha o suficiente para no mais menstruar. Tanto na

    religio baiana como na gacha, uma mulher menstruada de forma alguma pode preparar

    alimentos rituais.

    Com efeito, a elaborao de um simples prato implica uma infinidade de detalhes que tem de

    ser respeitada. Ocorre que nas solenidades rituais de certas casas o nmero de animais

    sacrificados, entre quadrpedes e aves, pode chegar a centenas. Como foi dito, o orix exige

    animais de certas cores. Fica fcil saber qual animal deve ser preparado para tal orix enquanto

    est com a pele, mas sem esta as coisas ficam difceis. A cozinheira, ento, tem de estar muito

    atenta para no troc-lo. Como veremos, dar uma vtima trocada para um santo pode ser

    entendido por este como grande desaforo, provocando sua vingana no apenas contra o

    ofertante do animal como tambm contra o dono do templo.

    Conquanto o batuque seja uma religio de pobres, seu ritual tem alto custo de manuteno,

    justamente pela necessidade de sacrificar muitos animais e confeccionar dezenas de pratos

    rituais. Nas cidades gachas h um mercado de animais destinados especialmente ao culto,

    sendo comum estabelecimentos colocarem piacas como 'vendem-se bichos para a religio' ou

    similares. Os comerciantes do ramo, que conhecem bem tais detalhes, cobram alto preo por

    esses animais, acima do valor normal do quilo. Um pai-de-santo tem, assim, de fazer muita

    economia ao longo do ano para poder promover as solenidades rituais de seu templo.

    Os respectivos filiados tambm contribuem, mas sua parte invariavelmente menor. muito

    comum que os chefes ajudem seus 'filhos' mais pobres a darem de comer a seus santos. No dia

    da festa, todos - visitas, seja quem for comem sem pagar um tosto, sendo que casas de porte

    maior podem reunir 400 pessoas em uma nica cerimnia. Como se no bastasse, cada um leva

    para casa um pacote - o mercado - no qual h pequenas pores das principais comidas

    preparadas. Comer dessas comidas sacralizar-se, se o mercado permite estender tais

  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 7 benefcios aos familiares que ficaram em casa. A lgica que comanda a ao, aqui, oposta

    ocidental capitalista: nesta, tem prestgio quem acumula bens. Na viso batuqueira o

    contrrio: tem prestgio quem distribui, porque se o faz porque pode.

    Por trs dessa lgica h uma razo mstica: o xito de um templo e de seu dirigente atribudo

    ao seu orix protetor. Ter condies de dar uma grande festa com muita comida, ento, algo

    percebido pelos seguidores do batuque como demonstrao cabal de poder por parte do orix

    e, simultaneamente, da excelncia e eficcia do dono da casa, que tem habilidade para utilizar

    tal poder para satisfazer a clientela, que lhe paga bem. E esse prestgio, claro, projeta-se

    tambm para os freqentadores do templo. Pois pergunta-se: qual iniciado no se orgulhar em

    pertencer a um templo desses? vlido supor, ento, que esse jogo que tem por base a

    confeco e distribuio suntuosa de comidas, nas festas pblicas do batuque, est inscrito nos

    vetores de prestgio e poder que marcam as relaes sociais no culto.

    O momento principal de consumir os alimentos, nessas festas, uma cerimnia coletiva e

    pblica chamada 'mesa-dos-prontos' (iniciados em grau maior).

    Uma grande toalha colocada no cho e sobre ela depositam-se pratos com todos os tipos de

    comidas rituais confeccionadas. Os prontos, ajoelhados sua volta, devem comer um pouco de

    cada uma delas. Pessoas no iniciadas ficam apenas assistindo. Come-se com a mo. Uma rpida

    incurso por uma antropologia do alimento vai nos levar a pensar, quanto a um prato especfico,

    sobre quem o faz, como faz, com qu, para quem, como e quando ele consumido. No caso,

    estamos em presena de pratos tnicos, digamos, que devem ser consumidos de forma tambm

    tnica, sem talheres, e por certo tipo de pessoas. Consumir, assim, determinado alimento, e de

    certa forma especial, corresponde tambm a uma expresso simblica que identifica categorias

    sociais, no apenas quanto ao interior do templo (prontos/no-prontos), mas tambm com

    relao sociedade inclusiva: batuqueiro/no-batuqueiro.

    Encerrada a mesa, comeam, ao som de cnticos e tambores, as danas rituais. A coreografia

    expressa as caractersticas msticas atribudas aos orixs, e duas dessas danas fazem referncia

    culinria.

    Uma delas a da Oxum Doc, uma velha, cujos gestos sugerem algum que, tendo um alguidar

    num brao, mistura massa de farinha com as mos: " a Oxum, mexendo o fub dela".

    Outra, de Ob, imita uma pessoa que, em p, estivesse batendo um pilo. Um aspecto

    importante dessas danas que elas colocam diante dos olhos humanos, via dramatizao, o

    universo mtico batuqueiro.

    Essa visualizao constante, a cada festa, permite que tais representaes coletivas sejam,

    tambm constantemente, reforadas em mbito individual. Em outras palavras, contribuem

    para a persistncia da tradio, elemento em torno do qual, em ltima anlise, o grupo se

    perpetua e reproduz. E nesse contexto, mais uma vez, observa-se a presena do alimento.

  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 8 A COMIDA NO CULTO DOS MORTOS

    As cerimnias de culto aos mortos, chamadas 'aressum' ou 'missa-de-eguns', tambm implicam

    um grande consumo ritual de comida. Os espritos so especialmente chamados para o festim,

    que compartilham com os humanos, apenas. Essa participao, entretanto, no total, como

    entre homens e orixs, pois embora seja o mesmo alimento que ambos comem, os respectivos

    recipientes so rigorosamente separados. Isso se deve ao extremo perigo representado pelo

    egum que, sentindo-se solitrio, tenta levar consigo tantos quantos possa de seus antigos

    companheiros de religio. E ele detm poder para tanto, especialmente nessas ocasies em que

    valem oficialmente as suas regras. Partilhar efetivamente com o morto uma mesma poro de

    alimento seria apagar a fronteira morto/vivo, assumindo a condio de seu igual, o suficiente

    para ser 'levado'. importante, ento, conservar bem viva a separao entre as duas categorias,

    mas, por questo ttica, manter uma aparncia de comunho.

    A 'missa' um anti-ritual em relao aos deuses, como que uma imagem destes no espelho:

    reversa. A diferena se traduz pela existncia de uma infinidade de detalhes em que as oposies

    simblicas entre ambos so diametrais e bem explicadas. Graas ao perigo representado pelo

    egum (que ademais muito exigente), detalhes mnimos so obsessiva e rigorosamente

    seguidos.

    Um chefe me relatou caso em que os integrantes de um templo resolveram 'despachar' (mandar

    embora), junto com os demais restos, os alimentos no cozidos - arroz, feijo etc. - que tinham

    sido comprados para a ocasio, mas no preparados. Disse achar "aquilo uma loucura", pois

    tinha certeza de que o morto iria logo manifestar-se irritadssimo (e portanto ainda mais

    perigoso), exigindo foges, botijes de gs, panelas, fsforos, para poder preparar os gneros

    alimentcios enviados indevidamente crus.

    Tal detalhamento funciona como balizas que mapeiam os territrios no apenas quanto ao

    mundo dos orixs e ao dos mortos, mas tambm quanto ao destes e ao dos homens. E o

    alimento aparece, a, novamente, como um importante fator no estabelecimento de tais

    diferenas.

    Tal como nas cerimnias para os orixs, sacrificam-se vrios animais para os eguns. O sangue

    vertido em um buraco feito sob uma casinha - o bal - nos fundos do templo de batuque. A carne

    dos animais tambm cozida, e com ela, alm de outros ingredientes, so confeccionados

    alimentos prprios para a ocasio. Muitos desses pratos so quase idnticos aos dos deuses,

    no fora a troca de certos elementos. Diferentemente das festas de orixs, as carcaas das

    vtimas so seccionadas longitudinalmente, sendo a metade direita reservada para os humanos

    e a esquerda para os mortos.

    Prepara-se 'tudo o que a boca come', o que inclui as mais variadas comidas 'brasileiras',

    especialmente aquelas de que o morto mais gostava. Os pratos rituais - indispensveis, pois

    marcam o carter especfico das cerimnias - so o 'fervido' e o arroz com galinha, feitos apenas

    nesses momentos e evitados em outros, pois so considerados 'comidas de egum'. Batuqueiros

    mais ortodoxos recusam-se taxativamente, fora das ocasies prescritas, a comer risoto de

  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 9 galinha, prato de origem italiana muito popular no Rio Grande do Sul, pois mistura arroz e a

    carne dessa ave, tal como a comida dos eguns.

    Os alimentos da mesa de eguns, colocados diretamente no pavimento do salo das cerimnias,

    so acompanhados por pratos e talheres, para que o morto possa comer. Embora, como disse,

    se usem apenas as mos nas refeies cerimoniais do batuque, aqui h comidas brasileiras - e

    a a razo dos talheres.

    As comidas dos vivos so idnticas s oferecidas aos mortos, mas colocadas em outros

    recipientes e em locais mais elevados - a separao espacial simbolizando as diferenas. Se em

    vez do ritual anual de eguns for um enterro, um prato de arroz com galinha ou fervido colocado

    sob o caixo, que permanece no salo de cerimnias no templo. Na viso do culto, comer,

    mesmo por distrao, qualquer poro dos alimentos destinados ao egum, como j dito aqui,

    se expor morte certa. Contam-se vrios casos de gente que morreu subitamente por ter

    cometido tais infraes, como o da menina que, por ter comido "s uma pipoquinha do egum,

    no viu clarear o dia".

    Na missa so servidas bebidas alcolicas, rigorosamente proibidas em rituais para os orixs. O

    pice da cerimnia o 'caf', um caf com leite acompanhado por sanduches, bolinhos,

    goiabada, po, biscoitos, o que se quiser.

    No centro da mesa, oferecida ao morto, so colocados pequenos pratos com pores dos

    mesmos alimentos destinados s pessoas. Estes ficam ao redor. Cada participante, ombros

    tocando nos vizinhos, fica de p em frente xcara que lhe destinada, podendo comer com

    calma, at se fartar. Mas no pode deixar restos, pois o egum imediatamente ir com-los, isto

    significando automaticamente a morte do dono dos restos. O oficiante espera que cada um

    termine e, a um sinal seu, todos se afastam subitamente da mesa.

    O ato faz parte de uma srie de procedimentos simblicos correlatos, no aressum, que

    objetivam fazer o morto entender que no pertence mais a este mundo e que deve se juntar a

    seus iguais. A est, por exemplo, o significado de todos ficarem apertados volta da mesa, e do

    pulo: impedir, primeiramente, que o egum se junte aos que esto nela (porque no h espao);

    e depois, o deixam sozinho. Negam-lhe, assim, o direito e a alegria de compartilhar, com seus

    antigos companheiros, das refeies litrgicas comunais.

    Terminada essa parte do ritual, faz-se uma limpeza mstica nas pessoas e na casa morturia, que

    consiste em esfreg-las com aves vivas e um pacote contendo milho torrado (do Bar), entre

    outros materiais. Aqui temos, novamente, a presena de certos alimentos que, por pertencerem

    a orixs, tm o poder de eliminar o contgio do morto. Em seguida, tudo o que no foi

    consumido colocado em sacos e levado para a gua corrente.

    E possvel fazerem-se, ainda, outras observaes. Uma delas que a comida fator-chave tanto

    para atrair o morto como para afast-lo, remetendo-o comunidade de seus pares. Mas sendo-

    lhe oferecida anualmente - isto , trazendo-os novamente de volta - , permite que participem

    da sociedade dos vivos.

  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 10 Sendo chave da rejeio e da atrao, ela em ltima anlise tambm exorciza a morte-extino,

    pois mostra que h uma comunidade depois dela, a sociedade dos mortos.

    AS COMIDAS SAGRADAS

    Os principais pratos rituais do batuque so:

    Aca

    Oferecido a Oxal. Coloca-se milho de canjica branca de molho. Ao amolecer, ralado em uma

    pedra at transformar-se em pasta. A massa enrolada em folhas de bananeiras e cozida no

    vapor. S os orixs comem.

    Acaraj

    um bolinho de feijo 'mido' frito em azeite-de-dend. Para

    Oxum necessrio descascar o feijo, bastando, para que solte a casca, deix-lo de molho por

    alguns dias. Para Ians preparado com casca. Ralam-se os gros em uma pedra. Podem ser

    oferecidos tanto aos humanos quanto aos orixs. Um aspecto interessante que as pessoas

    ocultam-se dos olhares alheios quando batem o acaraj, pois acredita-se que a massa pode

    'desandar' se outros 'botarem os olhos em cima'.

    Alel (ou olel)

    a mesma massa do acaraj posta a cozinhar no vapor e enrolada em folhas de bananeira.

    oferecido a Oxum, sendo que os humanos no o comem.

    Amal

    O amal um delicioso piro de farinha de mandioca sobre o qual se coloca um ensopado de

    carne bovina picada com folhas de mostarda e todos os temperos que se quiser. Pode ser feito

    com camaro ou galinha, substituindo-se a mostarda por quiabo, dependendo do orix a que

    oferecido. Caso se coloque repolho, torna-se prato de egum. Tradicionalmente, por um castigo

    que recebeu de Oxal, o pai de todos os orixs, Xang Aganju, o moo, recebe o amal numa

    gamela. Nas bordas do prato colocam-se seis bananas semidescascadas com as pontas molhadas

    em azeite-de-dend. Pode-se homenagear, ao mesmo tempo, Ians, uma das mulheres de

    Xang, acrescentando-se mas, que so ofertadas a ela.

    O amal pode ser tanto oferecido para os deuses como para os humanos. prato obrigatrio

    em qualquer solenidade ritual por duas razes. Em primeiro lugar porque Xang o 'dono do

    barulho', dos instrumentos musicais sagrados, que s funcionaro adequadamente se o seu

    dono estiver satisfeito, alimentado. E em segundo lugar, porque se a presena de Xang (que

    tambm 'comanda os mortos') estiver garantida, estes no tero oportunidade de intrometer-

  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 11 se na festa, causando problemas. Os Ibjis (gmeos) recebem amal idntico, mas com caruru,

    outro vegetal.

    Aor

    Massa de acaraj sem casca que se leva ao forno em forma de bolinhos. Depois de assados so

    modos, a eles se adicionando dend, sal e, por cima, folhas de couve picadas. H pessoas que

    os oferecem a Oxum, enquanto outras dizem que so para eguns.

    At

    H dois tipos de at. O primeiro, gua com algumas gotas de limo em garrafinhas decoradas

    com franjas de papel colorido, se oferece apenas para os orixs. Atualmente j se observam

    refrigerantes industriais de limo.

    O outro tipo de at uma salada de frutas, todas que se quiser, com xarope de framboesa, gua

    e acar, servida em grandes potes de barro, no final das festas rituais, para todas as pessoas

    que comparecerem. Pertencente a Ogum, essa bebida centra uma das mais importantes

    dramatizaes dos mitos do grupo religioso. A dramatizao se baseia numa histria mtica que

    envolve vrios orixs.

    Conta-se que Xang era comprometido com Ians, deusa muito sensual. Ele era tambm servo de

    Oxal, o Velho, pai de todos os orixs, e como tal encarregado de transport-lo nas costas, cargo

    muito honroso. Certo dia, todos os orixs dirigiam-se a uma festa. Ao passar num pontilho, Xang

    v ao longe Ians, belssima e, como se no bastasse, com um prato de amal nas mos - a comida

    preferida do orix. Perturbado, ele desanda a correr, deixando Oxal cair no barro. Os outros orixs

    vm em grupo, conversando, e no ouvem os gemidos do velho. Mas Ogum, que vinha mais atrs,

    recolhe Oxal e coloca-o s costas. O pai de todos est furioso! Como primeira medida, elege

    imediatamente Ogum como seu servo e, ainda mais, tira Ians de Xang e entrega-a para o

    primeiro. Finalmente condena Xang a comer em uma gamela - uma humilhao, visto que todos

    os demais orixs comem em pratos de barro. Ogum, guerreiro e ferreiro, leva Ians para sua casa,

    no mato, onde tem sua ferraria. Mas Xang, que mora numa pedreira prxima, de forma alguma

    se conforma com a situao. Ento, do alto da pedreira ele canta, chamando Ians e dizendo-lhe

    que embebede Ogum para fugir com ele, Xang. Mas a fuga descoberta, os fujes so

    perseguidos e h lutas, pois todos os trs so guerreiros.

    O embebedamento de Ogum por Ians dramatizado nos finais das festas por ocasio da 'dana

    do at', quando as garrafinhas, juntamente com pequenas espadas, so retiradas do quarto de

    santo para a encenao. Garrafas so entregues a possudos por Ians, e as espadas para os

    oguns. Ao som dos cnticos e tambores, ento, as Ianss, com atitudes disfaradas, vo levando

    as garrafas boca dos parceiros, mas elas bebem tambm. Enquanto isso, eles esgrimem as

    espadas. A cerimnia termina com a simulao de uma bebedeira coletiva entre os orixs que

    danam.

  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 12

    Axox

    Milho amarelo comum cozido na gua com sal. Sobre o milho colocam-se rodelas de coco. H

    pessoas que dizem pertencer a Oxal, outras a Ob e outras, enfim, a Xapan. comido por

    orixs e tambm por pessoas.

    Batata-doce frita - oferecida em rodelas, para Ians, podendo ser saboreada tambm pelos

    humanos.

    Canjica

    Milho cozido em gua. Para Iemanj, deve ser canjica branca refogada na banha e com sal,

    cebola e tempero verde. Se for para Oxum, passa pelo mesmo processo e leva ainda dend. Para

    Oxal, deve ser branca e sem sal. A canjica servida para as pessoas, branca, com acar e coco.

    Churrasco

    Tal como se prepara no Rio Grande do Sul: carne (de preferncia costela) assada na brasa.

    Acompanha farinha de mandioca crua ou cozida (farofa). comida de Ogum.

    Cocada branca

    Para Iemanj e Oxal.

    Ec

    H vrios tipos de ec e para vrias entidades, nenhum deles oferecido s pessoas. Muitas vezes,

    o que chamado ec um conjunto de pratos com ingredientes diversos. O mais comum o

    ec do Bar, um alguidar com gua salgada sobre o qual se colocam trs ou sete pingos de

    azeite-de-dend, acompanhado de outro com milho comum torrado, e trs ou sete batatas

    sapecadas, dend e trs ou sete balas de mel. H pessoas que o fazem, para o mesmo Bar, com

    piro de aca (mencionado anteriormente) ou farinha de mandioca temperada com sal e salsa.

    Segundo o pai-de-santo Ayrton do Xang, outros orixs recebem ec:

    Xapan: gua com carvo, sete pimentas-da-costa e dend;

    Iemanj, gua com oito pipocas;

    Oxal: gua, mel e aca desmanchado;

    Oxum: gua com mel e oito pipocas;

    Ians: gua com cinza;

    Xang: banana desmanchada em gua, farinha de mandioca e dend.

    Tive ocasio de observar ecos para eguns com sangue de aves, farinha de milho e mandioca,

    azeite de mesa, p de caf e erva-mate.

    Farofa com ovo e linguia

    para Bar. Vi ser servido, no templo da Babaloa Laudelina do Bar, para as pessoas presentes.

  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 13

    Farinha-de-Xapan

    Farinha de mandioca pilada com amendoim torrado e acar. Comem os orixs e as pessoas.

    Esta uma comida que, no passado, as escravas vendiam nas ruas de Porto Alegre com o nome

    de 'farinha-de-cachorro'.

    Feijo-mido com canjica

    servido para Ob, e as pessoas no o comem.

    Frutas em geral

    Vrios orixs recebem frutas. De maneira geral, as frutas pertencem a Oxum, pois a dona da

    quitanda. As laranjas e as frutas amarelas a ela pertencem, especialmente. Xang o dono das

    bananas; Ians, da ma e da pitanga; Ob, do abacaxi.

    Guisado de lingia ou carne de tartaruga

    Faz-se um ensopado e serve-se com farofa. Podem comer orixs e humanos. Caso se queira,

    pode ser servido dentro do casco da prpria tartaruga. comida de Ossanhe.

    Milho torrado

    Torra-se o milho, adiciona-se dend e um pouco de sal. Acompanham sete batatas-inglesas

    sapecadas e igual nmero de balas de mel. para Bar Lod, da rua, e exclusivo do orix.

    Milho com feijo mido quase torrados

    Xapan. No oferecido s pessoas.

    Minh-minh - Farinha de mandioca com dend.

    Pertence a Ogum, e s orix come.

    Molocum - Feijo mido cozido e depois temperado com dend, sal, cebola.

    Vai tempero verde em cima. Serve-se para Oxum, e prato exclusivo dos orixs.

    Nhlas ou nhlas

    Comidas exclusivas dos orixs e dos eguns. Fritam-se as asas e pernas das aves sacrificadas.

    Acompanha uma bolinha de piro de farinha de mandioca. Em caso de orix do sexo masculino

    incluem-se, crus, os testculos dos animais abatidos. Nas nhlas de egum colocam-se apenas os

    membros esquerdos das aves.

    Odum

  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 14 Torra-se farinha de milho no forno. Se oferenda para Oxum vai acar, dend e sal, mas se

    para Oxal no leva dend. prato destinado apenas aos orixs.

    Opet, apet ou pet

    Pasta de batata-inglesa cozida qual se d a forma que se deseja, de acordo com o orix. As

    pessoas no comem. Observei em forma redonda ou piriforme para Bar Jelu (de dentro de

    casa) e tambm piriforme para Bar Lod, da rua. O de Ossanhe tem a forma de cabaa,

    tartaruga ou do rgo humano do qual se pede cura. Algumas pessoas dizem que Ians come

    opet de batata-doce. Opet de Xang piriforme e leva feijes pretos fincados nas laterais.

    Oruf

    um opet especial para Oxum. Faz-se de batata-inglesa e colocam-se duas miniaturas

    semelhantes ao lado, que so os Ibjis (gmeos). S orix degusta.

    Po

    Para Xapan Velho, associado ao Cristo das Chagas.

    Pipocas

    Para Xapan e Ogum.

    Quindim

    Oxum.

    Sarrabulho

    Guisado cozido e temperado de midos dos animais sacrificados. Prepara-se para todos os orixs

    e os humanos.

    Fervido

    Sopo grosso com farinha de mandioca e pedaos de carne e hortalias. E comida de eguns,

    servida tambm para os humanos por ocasio das solenidades dedicadas aos primeiros.

    Arroz com galinha

    igualmente comida de eguns e servida nas ocasies mencionadas anteriormente.

    ALIMENTO E SADE

    Na viso de mundo do batuque, a doena pode ser 'do corpo' - e a cabe encaminhamento a

    mdico - ou 'do esprito', com causas variadas. Entre as principais temos a desproteo e/ou o

  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 15 castigo, por parte do orix, quando o seu iniciado no o alimenta convenientemente; ou em

    casos de no-iniciado, manifestao de um possvel orix, que deseja que ele cumpra a iniciao.

    No primeiro caso a soluo o restabelecimento do pacto; e no segundo, seu estabelecimento.

    Como visto aqui, ambos implicam a oferta de alimentos. Mas a doena pode ser causada,

    tambm, por inveja, 'olho-grande' ou mesmo feitiaria. Nesta ltima hiptese o motivo poder

    ser um egum, que 'se encosta e como que chupa o sangue da pessoa, que vai ficando fraca'. Para

    inveja, olho-grande ou feitiarias menores, pequenos rituais bastam.

    No templo do pai-de-santo Ayrton do Xang, por exemplo, se houver necessidade desses

    servios o consulente encaminhado ao quarto de santo, onde ficam os objetos sagrados. Ali

    h uma fila de pratos rituais como os citados antes, que o pai-de-santo vai passando de cima a

    baixo, ao longo do corpo do cliente braos, pernas, girando volta da cabea.

    Se for o caso de egum, faz-se uma cerimnia chamada 'troca'. Parte-se do princpio de que o

    egum, por ser 'cego, burro e tapado', pode ser enganado. O que ele deseja, em ltima instncia,

    o sangue da pessoa, mas, como 'no percebe bem as coisas', convencido a trocar este pelo

    de uma galinha, tanto mais que a ave lhe ser entregue no cemitrio, onde eles 'moram'.

    Em casos extremos, tem de se oferecer ao egum um animal maior, que pode ser at mesmo um

    touro. Mas sempre ser indispensvel a limpeza mstica, o ato de passar no doente os alimentos

    sagrados dos orixs, cujo poder afastar o egum e permitir o restabelecimento da sade de sua

    vtima.

    CONCLUSO

    Parece que uma simples vista de olhos na culinria ritual do batuque suficiente para permitir

    algumas concluses.

    Uma delas que o fato de Ogum, Oxum, Bar e os eguns receberem respectivamente churrasco,

    polenta, batatas e erva-mate j sugere que se trata de uma religio do extremo sul brasileiro.

    Outra, que a culinria batuqueira expressa uma espcie de radiografia da sociedade

    riograndense, com suas vrias influncias culturais.

    Uma terceira concluso que o alimento no delimita apenas territrios fsico-geogrficos, mas

    tambm do social e do imaginrio: conhecer ou no tal universo culinrio especfico significa

    pertencer ou no a certas categorias da sociedade rio-grandense (no-batuqueiro/ batuqueiro).

    Mas, do mesmo modo que espelha tais diferenas, o alimento simultaneamente promove

    igualdades: a identidade batuqueira se realiza tambm por seu consumo. J no espao

    intramuros dos templos, ele distingue quem vivo, morto ou divindade. Ou seja, o alimento

    smbolo de categorias da sociedade humana e sobrenatural.

  • A cozinha a base da religio: a culinria ritual no batuque do Rio Grande do Sul - Norton Correa 16 Uma quarta concluso que ele atua como uma espcie de chave-mestra reguladora no quadro

    geral das relaes sociais e trocas simblicas entre indivduos, grupos e instncias do mundo do

    batuque - por sua vez inscrito na sociedade gacha: de humanos entre si (sejam filiados ou

    clientes) e entre eles e as entidades sobrenaturais. Isto , prpria essncia e existncia do

    batuque, como um todo, subjaz o alimento. De fato, nele se ocultam os mistrios da natureza

    humana e divina, o poder e o perigo, os segredos do bem e do mal, da sade e da doena, da

    vida e da morte.

    Por tudo isso, s posso dar total razo saudosa Me Ester da Iemanj, quando me

    confidenciou, literalmente, que a cozinha a base da religio.

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

    CORRA, N. O Batuque do Rio Grande do Sul: antropologia de uma religio afrorio-grandense.

    Porto Alegre: EdUFRGS, 1992.

    COSTA LIMA, V. A Famlia-de-santo nos Candombls Jeje-Nags da Bahia: um estudo de relaes

    intergrupais, 1977. Tese de Mestrado, Salvador: Ps-Graduao em Cincias Humanas,

    Universidade Federal da Bahia..

    DOUGLAS, M. Pureza e Perigo. So Paulo: Perspectiva, 1976.

    FRY, P. Para Ingls Ver. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

    Adaptao: Luiz L. Marins - http://www.luizlmarins.com.br