A CONSTRUO DO SIGNO POTICO

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    01-Jul-2015

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A CONSTRUO DO SIGNO POTICO: DO SMBOLO AO CONE

O que poesia? De acordo com o estudo das funes da linguagem de Jakobson, poesia um texto no qual h o predomnio da funo potica. Dizer predomnio implica em dizer que a funo potica no , ao contrrio do que s vezes se pensa, a nica funo da poesia e no tambm a funo exclusiva do texto potico. O prprio Jakobson nos alerta para esse fato quando diz que Qualquer tentativa de reduzir a esfera da funo potica poesia ou de confinar a poesia funo potica seria uma simplificao excessiva e enganadora. A funo potica no a nica funo da arte verbal, mas to somente a funo dominante.1 Para esclarecer melhor o que seja funo potica, podemos dizer, com a professora Maria Rosa em aula , que a funo potica projeta o princpio da equivalncia (similaridade) do eixo de seleo (paradigma) sobre o eixo da combinao (sintagma). Dcio Pignatari nos fala um pouco sobre a diferena entre poesia e prosa, e com isso explica o fato de a poesia muitas vezes nos parecer um texto que vai contra as leis da gramtica que conhecemos. Um poema cria sua prpria gramtica e seu prprio dicionrio. Um poema transmite a qualidade de um sentimento (...) transmitindo a qualidade do sentimento dessa idia. Uma idia pode ser sentida e no apenas entendida, explicada, descascada."2 A poesia , portanto, um texto rico de recursos semnticos, sonoros e formais, o que faz desse texto algo diferente da prosa. A professora Maria Rosa em aula nos diz que poesia a forma de dizer o indizvel, traduzir o sentimento intraduzvel. A poesia no fala das coisas, ela faz as coisas. O poema um cone, uma imagem do que ele fala. Fazer poesia trabalhar analogia. At os contrastes trabalham com semelhanas. E diznos tambm que verso significa volta, lembra um crculo. A poesia retorna para si mesma como se dissesse: Eu sou minha prpria mensagem, no busque meu significado fora de mim. E para confirm-la, vemos em Jakobson a informao de que a palavra verso tem a mesma raiz de prosa: provorsa, proversa. Alm disso versus quer dizer retorno, um discurso que comporta regressos. Na prosa o

regresso no conta, na poesia a repetio a prpria base do verso."3 ainda Jakobson quem nos diz, citando Hopkins: A parte artificial da poesia, talvez fosse justo dizer toda forma de artifcio, se reduz ao princpio do paralelismo. A estrutura da poesia a de um contnuo paralelismo."4 Ningum discutiria o fato de que um bom poema um texto harmonioso, e podemos ver porque, A unio indissolvel do ritmo e da semntica o que chamamos de harmonia.5 E, ainda sobre a diferena entre o verso e a prosa e com respeito ao fato de a poesia fazer suas prprias leis, diferentes das leis que regem a prosa, vemos que A atitude correta seria considerar o verso como um complexo necessariamente lingstico, mas que repousa sobre leis particulares que no coincidem com as da lngua falada.6 A poesia, como um todo, vimos que e deve sua caracterstica de ser especial ao fato de ser um complexo sonoro, rtmico, semntico e formal. Jakobson nos esclarece de que O que d valor ao poema a relao entre som e sentido."7 E Valry nos diz que Em cada verso, o significado, longe de destruir a forma musical comunicada, reclama essa forma.8 A rima um dos componentes desse sistema que a poesia, e sobre ela os tericos nos dizem muito: A rima capaz de criar inusitadas e impensadas alianas entre as palavras. Est sempre em jogo a relao entre som e sentido: tudo na linguagem significante.9 A rima o materializador do ritmo atravs da semelhana fontica. ocorrncia que vai alm do sonoro.10 Seria uma simplificao abusiva tratar a rima meramente do ponto de vista do som. A rima implica necessariamente uma relao semntica entre unidades rtmicas.11 Existem dois elementos na beleza que a rima oferece ao esprito, a semelhana ou igualdade de som e a dessemelhana ou diferena de significado.12 O todo da poesia, porm, no est restrito apenas rima. Rima e metro so apenas dois dos componentes do sistema potico que so aceitos e reconhecidos nas escolas, mas a poesia no apenas rima e metro, muito mais do que isso: Maiakovski disse que o ritmo potico a fora, a energia bsica do verso. O verso uma figura de som recorrente, o que vale dizer tambm que implica em paralelismo contnuo: no ritmo, no metro, na aliterao, na assonncia e na rima. A fora dessa recorrncia engendrar outro paralelismo correspondente nas palavras e nas idias (semelhana ou diferena).No todo do poema, o ritmo o movimento de vai e vem, o diagramador da sintaxe, que o corao do poema e

de qualquer outro discurso. Cada parte j contm em si o todo e no h sequer um elemento que no esteja funcionalmente vinculado a qualquer outro por algum tipo de correspondncia. Tal a definio de sistema (poema um sistema). O eco que a alternncia rtmica parece criar leva-nos para dentro do prprio poema, confirmando as origens da palavra verso como aquele que retorna sobre seu prprio corpo, em circunvolues que aproximam o discurso potico da dana, da msica e da esfera."13 E as leis da poesia, diferentes das da prosa, so na verdade liberdades de criao. Tudo vale para que se possa atingir o objetivo, inclusive criar novas leis ou transgredir as j existentes, o que tambm acaba valendo como criar novas leis. Osip Brik, costumava dizer que os conspiradores polticos so julgados e condenados somente por tentativas malogradas de golpes de fora, visto serem os prprios conspiradores que assumem o papel de juizes e acusadores no caso de o golpe alcanar xito. Se as violncias contra o metro deitarem razes, tornam-se elas prprias leis mtricas.14 O trabalho do arquiteto Fazer poesia no , apesar de todo esse maravilhoso complexo que o poema, privilgio de seres iluminados e escolhidos pelos deuses, Bakhtin nos esclarece sobre isso: No h base cientfica para expresses como: Ah, eu tenho idias mas no consigo express-las. [...]no a atividade mental que organiza a expresso, mas, ao contrrio, a expresso que organiza a atividade mental.1 Portanto o poeta um homem e, como tal, capaz de racionalizar o seu trabalho e de fazer auto crtica; o poeta, o verdadeiro poeta, tambm um lgico. Se um poeta nunca fosse algo alm de poeta, ele no deixaria atrs de si qualquer trao potico.2 O que diferencia o poeta dos homens comuns apenas sua capacidade de observao. Observar olhar com mais cuidado, ver como nunca se viu; o estranhamento, semelhante epifania. (Maria Rosa em aula). Sobre o estranhamento, Peirce nos diz que o estranhamento que leva a mente humana s descobertas, ao conhecimento. Como ocorre a ao da experincia? Atravs de uma srie de surpresas. atravs de surpresas que a experincia nos ensina tudo aquilo que condescende a ensinar-nos.3

Mas no basta olhar o mundo e v-lo com olhos de observador vido de conhecimento para ser um poeta, o poeta , alm de tudo isso e antes de tudo isso, um trabalhador, e j de muito longe no tempo vem o conhecimento de tal verdade. Vocs, descendentes de Pomplio, retenham o poema que no tenha sido apurado em longos dias de muita rasura, polido dez vezes at que uma unha bem aparada no sinta asperezas.4 Valry, falando como poeta que , mostra-nos a realidade do trabalho do poeta. Se me interrogam acerca do que eu quis dizer em um tal poema, respondo que eu no quis dizer, mas quis fazer, e que foi a inteno de fazer que quis o que eu disse.5 A professora Maria Rosa comenta a respeito desse assunto: Valry compara o trabalho do poeta ao do homem quando descobre e trabalha as pedras e metais preciosos escondidas na terra. A palavra do cotidiano, comum e corriqueira, a matria-prima do poeta que a trabalha de tal forma a torn-la em palavra preciosa. Para isso a inspirao no basta, h que trabalhar, sentimento e pensamento trabalham unidos. Quem em mim sente, est pensando (Fernando Pessoa).6 E a professora nos fala um pouco mais sobre isso. Figurar pelo trabalho de seleo combinao das partculas poticas muito diferente de simplesmente fazer uso de figuras de linguagem, rimas ou diviso das frases em versos. Figurar operao intelectual que consiste em traar diagramas correlacionais nos quais os termos se vinculam por similaridade, esse o modo dominante de raciocnio da funo potica. Figurar palavras ou termos torn-los coisas, organismos vivos, destacar o lado palpvel da mensagem."7 E Maria Rosa arremata ao defender o trabalho com a criao potica como uma rica opo para o ensino da lngua nas escolas. Imaginar ou simular correlaes hipotticas entre elementos nunca antes aproximados o modo como opera a descoberta, no campo da arte ou da cincia. assim tambm que o raciocnio potico se configura no apenas na poesia mas na linguagem cotidiana, que por onde as preparaes poticas deveriam comear.8 Valry nos alerta que: H uma diferena profunda entre a nossa sensibilidade e o fazer potico, este trabalho. No fazer potico h algo mais do que idias. E acrescenta: O universo potico tem que tomar emprestada a linguagem de uso comum em que cada palavra uma montagem instantnea de um som e de um sentido, sem qualquer relao entre eles.9 A respeito do modo como o leitor por vezes v o trabalho do poeta, Valry tem a

dizer que: Algumas pessoas, vendo na poesia apenas a perfeio, consider-laso como resultado de uma espcie de prodgio denominado inspirao. Fazem assim do poeta uma espcie de mdium momentneo. Se assim fosse no haveria necessidade de conhecimento e o poeta poderia escrever em qualquer lngua que no conhea. E acrescenta: O trabalho do poeta exige uma quantidade de reflexes, decises, escolhas e combinaes sem as quais todos os dons possveis da musa ou do acaso continuariam sendo materiais preciosos em um canteiro de obras sem arquiteto.10 E mais ainda nos esclarece: A durao de composio de um poema, mesmo bem curto, pode absorver anos, enquanto a ao do poema no leitor ser realizada em alguns minutos.11 Dcio Pignatari mostra concordar com ele: Para o poeta, mergulhar na vida e mergulhar na linguagem (quase) a mesma coisa. Sabe que a palavra amor no o amor e no se conforma.12 E Maiakovski fala-nos um pouco sobre o que se sabe quase como conhecimento geral e assumido da humanidade: A distrao e alheamento dos poetas. Uma rima que se est caando, mas ainda no se conseguiu agarrar pelo rabo, nos envenena a existncia: Voc conversa sem compreender, come sem distinguir, e perde o sono, quase vendo a rima que voa diante de seus olhos.13 Do smbolo ao cone Sob o ponto de vista da semitica poesia signo, por isso preciso, antes de qualquer coisa, definir signo. Mas como definir signo? Lcia Santaella nos alerta de que, se percorrermos os oito volumes do Collected papars (1931-58), de Charles Sanders Peirce, poderemos encontrar, no mnimo, entre vinte e trinta formulaes distintas da sua definio de signo. Podemos ento, para comearmos nosso assunto, aceitar uma das menores e mais reproduzidas definies que nos d Peirce: Signo alguma coisa que representa algo para algum. Ou, para aqueles que no ficarem satisfeitos com to simples e resumida definio, podemos apresentar esta outra, mais completa e, portanto, um pouco mais complicada: Um signo intenta representar, em parte pelo menos, um objeto que , portanto, num certo sentido, a causa ou determinante do signo, mesmo se o signo representar seu objeto falsamente. Mas dizer que ele representa seu objeto implica que ele afete uma mente, de tal modo que, de certa maneira, determine naquela mente

algo que mediatamente devido ao objeto. Essa determinao da qual a causa imediata ou determinante o signo, e da qual a causa mediata o objeto, pode ser chamada o interpretante.1 Porm o signo , por sua prpria natureza, um ser incompleto j que intenta representar um objeto sem nunca conseguir pois no igual ao objeto, no o objeto e no pode prescindir do objeto. O signo estar, nessa medida, sempre em falta com o objeto. Da sua incompletude e conseqente impotncia. Da sua tendncia a se desenvolver num interpretante onde busca se completar. Contudo, sendo o interpretante de natureza sgnica, ele se manter tambm em dvida para com o objeto, que ser, em razo disso, aquilo que, por resistir na sua alteridade, determina a causao lgica do desenrolar dos interpretantes.2 No apenas a poesia signo, tudo ou pode ser signo, inclusive o prprio homem. Quem pode nos ajudar nessa afirmao Lcia Santaella quando diz que para conhecer e se conhecer o homem se faz signo e s interpreta esses signos traduzindo-os em outros signos. O significado de um pensamento ou signo um outro pensamento. E mais adiante afirma: Eis a, num mesmo n, aquilo que funda a misria e a grandeza de nossa condio como seres simblicos. Somos no mundo, estamos no mundo, mas nosso acesso sensvel ao mundo sempre como que vedado por uma crosta sgnica que, embora nos fornea os meios de compreender, transformar, programar o mundo, ao mesmo tempo usurpa de ns uma existncia direta, imediata, palpvel, corpo a corpo e sensual com o sensvel."3 E encontramos a a explicao que nos faz entender nossa prpria imperfeio. O signo, de acordo com a relao que mantm com o objeto que representa, pode ser cone, ndice ou smbolo. cone quando sua relao com o objeto uma relao de semelhana, um desenho ou uma fotografia por exemplo. ndice quando sua relao com o objeto, embora no seja de semelhana, existe por alguma indicao desse objeto, a planta de uma casa, uma marca de ps na areia. E smbolo quando no existe relao de semelhana mas sim de conveno, de uma lei que torna algo smbolo de um determinado objeto, as palavras so o exemplo mais claro de smbolo que podemos citar. Para que essa definio de cone, ndice e smbolo fique clara e objetiva, vamos solicitar a ajuda de Peirce, ele nos diz que O cone no tem conexo dinmica alguma com o objeto que representa, simplesmente acontece que suas qualidades

se assemelham s do objeto e excitam sensaes anlogas na mente para a qual uma semelhana. Mas na verdade no mantm conexo com elas. O ndice est fisicamente conectado com seu objeto; formam ambos, um par orgnico, porm a mente interpretante nada tem a ver com esta conexo, exceto o fato de registr-la depois de ser estabelecida. O smbolo est conectado a seu objeto por fora da idia da mente-que-usa-o-smbolo sem a qual essa conexo no existiria. Em outras palavras, Peirce nos diz mais adiante que cone um signo que possuiria o carter que o torna significante, mesmo que seu objeto no existisse. ndice um signo que de repente perderia seu carter que o torna um signo se seu objeto fosse removido, mas que no perderia esse carter se no houvesse interpretante. Um smbolo um signo que perderia o carter que o torna um signo se no houvesse interpretante."4 Poeta: Signo a produzir signos E o que um poeta? um homem que sabe que no existe na natureza nada em estado puro, que aquilo que poderamos chamar de smbolo, pode muitas vezes ter algo de cone, e aquilo que poderamos chamar de cone, tem algo de smbolo, e ainda que o que tendemos a chamar de ndice pode ter algo dos outros dois. Ele percebe que no h um signo puramente icnico, puramente indicial ou puramente simblico. Portanto, a palavra, que seria o exemplo mais completo de smbolo, acaba por revelar-se como um signo icnico. A professora Maria Rosa nos d o exemplo de Borges, que confirma isso: Borges, pensando a palavra lua (moon) v nela o ritmo pousado que obriga a voz a uma lentido e a quase circularidade da palavra, que comea e termina com sons semelhantes que sugerem a prpria lua, e da conclui que cada palavra uma obra potica mais eficaz do que a prpria metfora, que uma obra de segundo grau j que, geralmente, compe-se de mais de uma unidade enquanto a palavra talvez revele mais eficazmente o conceito que representa.1 Valry nos faz ver a verdade de tal afirmao ao dizer que Uma palavra de uso cotidiano torna-se, ao ser isolada, magicamente problemtica.2 Da podemos concluir que o poema, que por ser composto de palavras, seria um smbolo, torna-se, nas mos do poeta, um cone. Os signos que se organizam por similaridade, por analogia, so cones, so figuras. Os signos que se organizam

por contiguidade so smbolos. Logo, o que basicamente caracteriza o fenmeno potico a transformao de smbolos em cones.3 Mas Dcio Pignatari diz que um conceito jamais poder substituir uma forma, portanto, um smbolo jamais poder substituir um cone, e afirma que esse o drama e a fascinao da anlise literria.4 Como fica difcil ler essa afirmao de Pignatari sem concluir que o que vale para a anlise literria vale tambm para a produo literria e, consequentemente, para a produo potica, j que Valry nos deu essa liberdade ao afirmar que todos os poetas verdadeiros so necessariamente crticos de primeira ordem.5, confirmamos que a angstia do poeta a mesma angstia do homem, ser sgnico, porque o poeta um homem e o poeta mais ainda exposto a esse paradoxo porque ele faz-se signo e faz signos. A incompletude est nele e em sua prpria criao. Porm, a imperfeio leva busca e a busca vida. A vida algo que est sempre aberto ao novo. Pode-se nunca atingir um ponto desejado, mas a busca desse ponto o que faz com que tudo valha a pena. E o poeta sabe disso, por isso poeta, por isso faz poesia, essa caixa de ressonncia no dizer da professora Maria Rosa em aula . Jakobson nos informa que a palavra poesia de origem grega e significa criar, e afirma que a poesia o domnio mais criador da linguagem.6 A poesia , portanto, criao, arte. Paul Valry define poesia como uma arte da linguagem.7 Como arte, poesia algo capaz de nos tocar, prende; capaz de aproximar-nos de ns mesmos e pode revelar nossa viso aspectos do mundo e de nossa prpria essncia que, de outra forma, no perceberamos. Para conseguir todo esse efeito, a poesia usa de recursos que a compe e fazem dela o que ela : a rima, o verso, o ritmo, a mtrica, a harmonia. Usa as palavras arranjando-as da forma mais favorvel, para que elas possam nos mostrar sua capacidade de projetar uma imagem visual sobre nossa mente (fanopia), sugerir uma propriedade sonora (melopia) ou trazer-nos mente uma idia (logopia), A dana do intelecto entre as palavras.8 O poema uma caixa de ressonncia; por isso, cada vez que se l um bom poema, l-se um novo poema. A professora Maria Rosa em aula afirma que a poesia um texto saturado de significados. Tem o lado conceitual, visual, sonoro; dissertativo, narrativo e descritivo ao mesmo tempo. Como leitores, vemos que tudo isso nos aparece em combinaes diferentes, de formas diferentes e com intensidades diferentes cada vez que lemos o poema. Um bom poema como um rio que no se atravessa duas vezes: cada

vez um novo rio e uma nova pessoa, cada vez um novo poema e um novo leitor. Esse mgico efeito dado pelo poema porque todas as suas partes (rima, ritmo, verso, contedo, forma, etc.) so interdependentes. Dcio Pignatari afirma que um poema um todo orgnico umas partes influenciam nas outras.9 Paul Valry diz que O valor de um poema reside na indissolubilidade do som e do sentido.10 por isso que Dcio Pignatari nos recomenda ler o poema em voz alta, ele sabe que assim teremos o todo agindo igualmente sobre nossos sentidos. Conseguir esta correlao s pode ser um trabalho racional. No pode ser apenas coincidncia inspirada. Basta ver o que esse conjunto, forma som e sentido, cria no poema e podemos perceber que isso no simples obra do acaso, houve a um trabalho, o trabalho do poeta. Da mesma forma, aquela pincelada que iluminou uma tela dificilmente ter sido causada por um acidente que fez derramar um pouco de tinta sobre o trabalho do artista. O poeta um homem que v com os olhos desarmados, aquele ser capaz de olhar para as coisas mais cotidianas como se nunca as tivesse visto antes; capaz de estranh-las, de procurar nelas outros sentidos, outras formas, outras utilidades. POEMINHA SURREALISTA Gostaria, querida, De ser inesperado Como uma madrugada amanhecendo noite E engraado, tambm, Como um pato num trem. (Millr Fernandes 1980: 38) Neste poema Millr Fernandes fala do inesperado e faz o inesperado; e o inesperado, algo comum como um pato colocado em um lugar que no lhe pertence em nossa viso cotidiana, torna o poema engraado como ele queria ser. Talvez por essa capacidade de olhar parando os olhos e a mente sobre as coisas, o poeta seja aquele que tem algo a dizer. E como sua viso no comum, o que ele tem a dizer no pode ser dito de forma comum, s pode ser dito atravs da poesia: Deve-se pegar da pena somente quando no existe outro meio de dizer o

que se quer, a no ser o verso.11 E o poeta faz, no por inspirao sagrada ou por uma graa que se lhe derrama sobre a cabea fazendo com que sua mo risque o papel produzindo um texto acabado e perfeito, mas com o trabalho de sua mente, de seu intelecto e de suas mos que rabiscam, riscam e apagam vrias vezes o texto, na busca da palavra exata. Paul Valry nos conta isso quando diz que O estado potico no basta para fazer um poeta. E, mais tarde afirma que A inspirao uma atribuio gratuita feita pelo leitor ao seu poeta. O leitor procura encontrar no poeta a causa admirvel de sua admirao.12 E Maiakovski mostra em sua afirmao que tambm pensava assim A poesia uma forma de produo. Dificlima, complexssima, porm produo.13 A professora Maria Rosa completa: No toa que poeta na sua raiz grega = aquele que faz. Faz linguagem fazendo poema. Torna a lngua eficiente, limpando-a de todas as palavras que no funcionam e deixando apenas aquelas carregadas de significado. O que tambm, condensao: qualidade fundamental da poesia, segundo Paund.14 Dcio Pignatari nos alerta que O poeta no trabalha com o signo, trabalha o signo verbal.15 O poeta , portanto, um homem que, trabalhando o signo, faz, ou tenta fazer de um smbolo um cone. Sua poesia, ento, mais do que dizer, pretende fazer o que diz. Um poema no fala de um objeto ou de um sentimento, um poema tenta ser esse objeto ou esse sentimento. A poesia sonha com a capacidade, no de dizer, mas de incorporar um objeto. (Fernando Segolin em aula). E por que transformar smbolo em cone o recurso do poeta em sua arte? Lcia Santaella nos d essa resposta quando diz que por representarem formas e sentimentos os cones tm um alto poder de sugesto.16 Graas a esse poder de sugesto, a poesia sempre multi-interpretativa, est sempre aberta a novas descobertas, desde que essas descobertas se apoiem na prpria poesia e no fora dela. A obra nunca inteiramente insignificante (misteriosa ou inspirada) nem inteiramente clara; ela , se quiserem, sentido suspenso: oferece-se, com efeito, ao leitor como um sistema significante declarado, mas esquiva-se-lhe como objeto significado.17 Por essa capacidade de sugesto, exuberncia de significado e poder de criao, a poesia uma arma poderosa para a renovao e o ensino da lngua. A professora Maria Rosa afirma que a poesia alarga os limites de combinatrias possveis para determinado sistema lingstico. Ento, segundo ela, a poesia a

antena da lngua, assim como os artistas so as antenas da raa, no dizer de Paund.18 Da podemos concluir que a poesia uma riqueza que no deve ser desprezada. Ela pode nos servir como um poderoso material didtico, como eficiente forma de renovao da lngua e do pensamento humano, como um grande incentivo criatividade e capacidade de ver o mundo e os outros seres que o habitam, com suas particularidades e diferenas, e ver a ns mesmos, valorizando nossas imperfeies, retraando nossos caminhos e direcionando nossas buscas, tanto como educadores quanto como seres humanos.

Divina de Jesus Scarpin Poesia: A arte como sistema