71056101 NEGRI Antonio a Anomalia Selvagem Poder e Potencia Em Spinoza

  • Published on
    30-Nov-2015

  • View
    228

  • Download
    21

Transcript

r' cole~ao TRANS Antonio Negri A ANOMALIA SELVAGEM Pader e Paten cia em Spinaza Prefacios de Gilles Deleuze, Pierre Macherey, Alexandre Matheron Edi~ao acrescida de Posfacio inedito do autor TradUt;C1O Raquel Rama/hete editora.34 INSTITUTD DE PSICOU1GIA - UFRGS Mini 1_ ..... -_ r EDITORA 34 - ASSOCIADA A EDITORA NOVA FRONTEIRA Distribuic;ao pela Editora Nova Fronteira S.A. R. Bambina, 25 CEP 22215-050 Tel. (021) 286-7822 Rio de Janeiro - RJ Copyright 1993 34 Literatura SIC Ltda. (ediISBN 85-85490-22-5 1. Spinoza, Benedict de, 1623-1677. 2. Ideologia. 3.Infinito. l. TItulo. II. Serie 93-0890 ,,\'1,,\0 ", \)' . ,r' 6 Antonio Negri PREFAcIO, de Gilles Deleuze o livro de Negri sabre Spinoza, escrito na prisao, e urn grande livra, que renova em muitos aspectos a compreensao do spinozismo. Gostaria de insistir mais a respeito de duas das teses principais que ele desenvolve. 1. 0 ANTIJURIDISMO DE SPINOZA A ideia fundamental de Spinoza e a de urn desenvolvimento espon-taneo das fon;as, pelD menDS virtualmente. 0 que quer dizer que nao hi necessidade, em principia, de uma mediac;ao para constituir as relac;6es que correspondem as forc;as. Ao contra.rio, a ideia de uma mediac;ao necessaria pertence essencial-mente a concep~ao juridica do mundo, tal como e elaborada por Hobbes, Rousseau, Hegel. Essa concepc;ao implica: 1) que as forc;as tern origem in-dividual ou privada; 2) que elas tern de sec socializadas para gerarem as relac;6es adequadas que lhes correspondem; 3) que hci portanto mediac;ao de urn Poder ("Potestas"); 4) que 0 horizonte e inseparcivel de uma crise, de uma guerra ou de urn antagonismo, de que 0 Poder se apresenta como a soluc;ao, mas a "soluc;ao antagonista". Spinoza tern sido frequentemente apresentado como pertencente a essa linhagem juridica, entre Hobbes e Rousseau. Nao e nada disso, segundo Negri. Em Spinoza, as forc;as sao insepaniveis de uma espontaneidade e uma produtividade que tornam possivel seu desenvolvimento sem media-c;ao, ou seja, sua composi(do. Elas sao em si mesmas elementos de socia-lizaC;ao. Spinoza pensa imediatamente em termos de multitudo e nao de individuo. Toda a sua filosofia e uma filosofia da "potentia" contra a "potestas". Insere-se numa tradic;ao antijuridica, que passaria por Maquia-vel e terminaria em Marx. E toda uma concepC;ao da "constituic;ao" on-tologica, ou da "composic;ao" flsica e dinamica, que se op6e ao contrato juridicol, Em Spinoza, 0 ponto de vista ontologico de uma produc;ao ime-diata se op6e a qualquer apelo a urn Dever-Ser, a uma mediac;ao e a uma finalidade ("com Hobbes a crise conota 0 horizonte ontologico e 0 subsume, com Spinoza a crise e subsumida sob 0 horizonte ontologico"). Embora se pressinta a importancia e a novidade dessa tese de Negri, o leitor pode temer a atmosfera de utopia que dela se desprende. Negri entao marca 0 carater excepcional da situac;ao holandesa, e aquilo que torna A Anoma1i"a Selvagem .~~~"" :. . {".:.)~ 7 R~~::;i iOYFf:fl r ' passivel a posi~ao spinozista: contra a famflia de Orange, que representa uma "potestas" em conformidade com a Europa monarquica, a Holanda dos irmaos De Witt pode tentar promover urn mercado como espontanei-dade das fon;as produtivas ou urn capitalismo como forma imediata da socializa~ao das forc;as. Anomalia spinozista e anomalia holandesa ... Mas, num caso como no Dutro, nao e a mesma utopia? E aqui que intervem 0 segundo ponto forte da analise de Negri. 2. A EVOLUr ' PREF A CI 0, de Pierre Macherey SPINOZA PRESENTE "Alguma coisa de desproporcionado e sobre-humano"l: e assim que A. Negri caracteriza a aventura teorica na qual Spinoza se meteu; e resti-tui em toda a sua for~a sua virulencia excepcional de acontecimento que, fazendo irrup~ao no tempo, quebra a aparente continuidade dele e, por essa provoca~ao desmedida, apela para que nos mesmos voltemos ao mo-vimento de que ela surge. Poderfamos retomar os mesmos termos para apresentar a interpreta~ao que ele nos da dessa experiencia, pois sua po-tencia selvagem sacode os quadros comuns atraves dos quais se compreende uma filosofia, e nao apenas a de Spinoza: ela nos for~a a rele-Ia segundo uma perspectiva desconcertante, enos faz descobrir, no lugar daquela doutrina que pensavamos conhecer bern, arrumada dentro do repertorio irnutavel dos sistemas, "urn pensamento vivo,,2, que pertence efetivamen-te a historia, a nossa historia. o que significa conceber Spinoza como urn pensador historico? Isto quer dizer primeiro, evidentemente, expo-Io em sua epoca, naquela Holanda da segunda metade do seculo XVII, eia propria em ruptura com a ordem economica, politica e ideologica do mundo feudal, antes da qual ela in-venta as formas de uma sociedade nova, com os modos de produ~ao, tro-ca e consciencia que the correspondem: e nesse "extraordinario campo de produ~ao metafisica d que Spinoza intervem, fabricando ele mesmo con-ceitos e maneiras de raciocinar" que the permitem contribuir para esse pro-cesso de transforma~ao. Mas, desse tempo em revolta contra seu tempo, e contra 0 tempo, ele mesmo tern de se afastar, para se projetar em dire~ao a outro tempo, que nao e mais apenas 0 seu, mas tambem 0 nosso. Negri, falando da constitui~ao poHtica do real por Spinoza, que e 0 coroamento de todo 0 seu pensamento, diz de sua "extraordinaria modernidade"4: se essa filosofia e uma "filosofia do porvir"s, e porque esta "em uma deter-mina~ao que ultrapassa os limites do tempo historico,,6. Spinoza representa seu tempo na medida em que excede os timites de uma simples atualida-de: e 0 que permite que ele exista, para n6s tambem, nao apenas no pas-sado, mas no presente. E preciso entao ler Spinoza no presente. Significa isto que deve-se atualiza-Io, ou seja, transpo-Io para outra atualidade, que seria a nossa, recupera-lo para nossa epoca atraves de uma interpreta~ao recorrente, 10 Antonio Negri necessariamente redutora? Absolutamente, pais essa atualidade nao e 0 presente de Spinoza, que faz com que, em sua epoca como na nossa, ele seja sempre presente: ora, essa presen\=3 naa e a de uma permanencia in-temporal, mas a de uma hist6ria que, na medida em que conserva urn sen-tida, prossegue irresistivelmente em sua marcha para a frente nele e em nos. a que e sempre presente, au, poderiamos dizer, "eterno", no pensamento de Spinoza? E sua historicidade, isto e., essa potencia imanente que 0 leva mais aiI'm do quadro fixo de uma dada atualidade, e de onde iambem ele rira sua produtividade tearica. Spinoza nao esta na hist6ria, como urn ponto imovel numa trajetoria que se desenrolasse fora dele, mas I' a historia que continua nde seu movimento, projetando-o para esse porvir que e tam-bern seu presente. Negri nos faz descobrir Spinoza depois de Spinoza, passando de uma "primeira funda~ao" a uma "segunda funda\=ao,,7. Spinoza depois de Spi-noza, flaD e Spinoza segundo Spinoza, remetido a si mesma e de certa modo fechado sabre si mesmo, em sua jubila\3.o especulativa, e especuiar, de sua identidade imagimiria a si: identidade na qual os comentadores encontram sua satisfa\=ao e sua tranquilidade, pelo estabelecimento definitivo de uma estrutura acabada a que chamam "sistema". Essa estrutura, Negri a faz implodir afirmando 0 "desmedido" da obra de Spinoza, que transborda do quadro estrito no qual se procura cond'-la. Pois uma filosofia I' toda uma hist6ria, com a qual nao acabamos de canrar, e que naD nos cansa-mas de cantar, se for 0 casO de urn pensamento vivo, cuja processo nao para de se realizar atraves dos limites que 0 constituem, pais sua propria existencia os poe em questao. A interpreta,ao que Negri nos prop6e da filosofia spinozista I' per-turbadora porque revela a processividade dela, que em sua ordem propria a poe em movimento e a desloca. Ora, essa processividade e imanente, eia corresponde a "matura~ao interna do pensamento de Spinoza,,8: nao re-sulta da pressao das circunstancias exteriores, de uma historia objetiva e independente que infletisse sua orienta~ao, mas e a conseqiiencia de uma "crise,,9 que a filosofia partilha com seu tempo, diante da qual ela desen-volve seu proprio projeto e constitui, ela mesma, seu objeto. Assim "0 des-rnedido nao deriva tanto da rela~ao - relativamente - desproporcionada com 0 tempo de crise quanta da organiza~ao absoluta que a consciencia da crise imprime ao projeto de supeni-Ia"lO: a metaffsica spinozista nao rece-be sua dimensao politica de urn golpe arbitrario de for~a, mas dessa violen-cia que ela faz a si mesma, que a obriga a reconstituir todo 0 seu edifkio. Em urn dos capitulos rna is extraordinarios de seu livro 11, Negri Ie 0 Trata-do teoI6gico-po[{tico, nao depois da Etica ou ao lado desta, mas na Etica, isto e, no intervalo cavado nela pela "despropor~ao" de seu raciocfnio e de seus conceitos: ele mostra assim como a teoria polftica tern urn papel de ope-A Anomalia Selvagem f(t;'t!" c"I"," 11 ~2 : :-"~\ ~ :: "". !:2i " ~.] P.... _'""' '" t. ,~1 r rador metafisico, pais e ao mesma tempo 0 sinroma e 0 agente de sua trans-forma~ao. "Medida e desmedida da exigencia spinozista: a teoria polftica absorve e projeta essa anomalia no pensamento metafisico. A metaffsica, levada as primeiras linhas da luta politica, engloba a propor,ao despropor-cionacia, a medida desmedida propria ao conjunto cia obra de Spinoza.,,12 Se a filosofia de Spinoza flaO e apenas da ardem cia teoria, mas tambem cia pratica, isso se da na medida em que, desvinculando-se de si mesma, ela descobre em seu sistema a urgente necessidade de transgredi-Io. Essa matura~ao interna flaO e urn desenvolvimento continuo: como ja dissemos, ela procede de uma "crise", crise de urn tempo que e tambem crise do pensamento, e provoca nela esse desencontro interno que e ao mesma tempo corte tearico e fratura pratica. "0 tempo historico se corta do tempo real da filosofia. 0 desmedido, que se tornou consciente de si mesma atraves da crise, reorganiza os termos de seu projeto. E se define como tal, justamente, por diferenc;a, por corte. "13 Ao tomar distancia em relac;ao a sua epoca e a si mesmo, ao proceder a "uma refundac;ao metaff-sica de seu sistema,,14, que 0 leva a "por em crise 0 processo de producrao das coisas a partir das essencias"15, e assim da lugar a seu novo projeto constitutivo, Spinoza opera "urn saito logico de alcance incalcuIavel"16. Se seu pensamento e eficaz e verdadeiro, portanto sempre presente, e por-que 0 anima tamanha vontade de romper. Desdobrando-se nessa cisao, a filosofia faz uma volta sobre si mes-rna, nao para se fechar sobre a certeza reconciliada de seu sistema, mas para se abrir a tensao e ao risco de seu projeto. Quando, ao nivel da "segunda funda,ao", nos trechos do livro V da Etica dedicados ao conhecimento do terceiro genero, Negri volta a encontrar os elementos da "primeira funda-C;ao", em que se apoiavam os livros I e II, ele interpreta essa repetic;ao, num sentido muito proximo do que lhe seria dado pela tecnica analitica, como "urn incidente de func;ao catartica,,17. "Assistimos a reprodu~ao da cesura teorica do pensamento de Spinoza, simulada para ser sublimada"18, "como que para inscrever definitivamente uma diferenc;a no cerne da continuida-de de uma experiencia" 19, numa especie de "drama didatico ,,20. Ao enfrentar tamanha prova, a filosofia atinge 0 real, conquista uma realidade: ela se efetua atraves desse movimento que a exterioriza nela mesma, nao numa perspec-tiva hegeliana de resolu~ao, mas ate a manifestac;ao desse desvio insupera-vel que dol lugar a historia para que ela nele se mostre. E para a produ,ao de uma tal verdade que tende todo 0 pensamento de Spinoza, que nao e para Negri apenas pensamento tearico do conatus, cuja noc;ao e formulada no momento mesmo em que a doutrina entra em crise, no livro III da Etica, mas tambem prcitica vivida do conatus, enquan-to este exprime 0 desequilibrio dinamico de urn estado momentaneo que se projeta para urn porvir necessario. "Nada a ver com uma essencia finaliza-12 Antonio Negri da: 0 conatus, ao contrario, e ele mesmo ato, dado, emergencia consciente do existente nao finalizado. "21 "A existencia coloca a essencia, de maneira dinamica e constitutiva; a presen~a coloca portanto a tendencia: a filoso-fia, desequilibrada, inclina-se para 0 porvir. ,,22 No momento mesmo em que forja a ideia de desequilibrio, a filosofia de Spinoza se lan,a na brecha que foi assim aberta, e passa para esse presente que ultrapassa sua simples atua-lidade. Essa coincidencia, note-se, causa problema: soldando estreitamen-te a doutrina a si mesma, na fusao de uma teoria e uma pratica, com a qual so nos resta indentificarmo-nos, sera que ela nao lembra a ilusao de uma teologia imanente do verdadeiro, fiadora de seu sentido e de sua unidade? Esta e a pergunta que nos mesmos poderiamos fazer a Negri. Mas, antes de procurar uma resposta para essa pergunta, deixemo-nos primeiro invadir pela tensao irresistlvel de uma leitura devastadora, que leva a discurso de Spinoza ate 0 extremo limite de que ele e capaz, "como se, depois de urn longo acumulo de for~as, urn terrivel temporal estivesse a ponto de estourar,,23. Escutemos 0 temporal. NOTAS 1 "Un qualcosa di sproporzionato e sovrumano", p. 154 (cap. IV). 2 "Un pensiero vivente", p. 267 (cap. VII). 3 "Straordinaria matriceecaratterizzazione di produzione metafisica ", p.42 (cap. I). 4 "La straordinaria modernid. della spinoziana costituzione politica del reale", p. 308 (cap. VIII). 5 "Una filosofia dell'avvenire", p. 45 (cap. I). 6 "In una determinazione che supera i limiti del tempo storico", ibid. 7 "Prima fondazione": titulo do cap. III. "Seconda fondazione": titulo do cap. VIII. S "La maturazione interna del pensiero spinoziano", p. 208, cap. VI. 9 "L'ideologia e la sua crisi": titulo do cap. IV. 10 "La dismisura non deriva tanto dal rapporto - relativamente - sproporzio~ nato con it tempo di crisi, quanto dall'organizzazione assoluta che la conscienza della crisi imprime al progetto di superarla", p. 212-213 (cap. VI). 11 "Cesura sistematica": titulo do cap. V. 12 "Misura e dismisura dell'istanza spinoziana: la teoria politica risucchia e proietta questa anomalia nel pensiero metafisico. La metafisica, portata sulla prima linea della lotta politica, contiene in se la proporzione sproporzionata, la misura smisurata, che e propria di tutto Spinoza", p. 203 (cap. VI). 13 "11 tempo storico si stacca dal tempo reale della filosofia spinoziana. La dismi-sura resasi consapevole nella crisi, riorganizza i suoi termini progettuali. E si definisce come tale, appunto, por differenza, per stacco", p. 208 (cap. VI). 14 "Una rifondazione metafisica del sistema", p. 152 (cap. IV). 15 "Mettere in crisi il processo di produzione delle cose dalle essenze", ibid. 17 "L'incidente sistematico che porta all'interno della parte V iI mito della prima redazione, ha una funzione catartica", p. 275 (cap. VII). A Anomalia Selvagem &~LJ;,=c U b t.;::;JJl - - '-'-"''1.3 r ' 18 "Siamo di fronte alia riproduzione della cesura tearica del pensiero spinoziano, simulata per essere sublimata", p. 274 (cap. VII). 19 "Quasi a stipulare definitivamente, nella continuita di una esperienza, 1a diffe-renza di fasi 0 di contenuti, di propositi e di soluzioni", ibid. 20 "Questo e un dramma didattico", p. 276 (cap. VII). 21 "Non essenza finalistica, in ogni caso: bensi esso stesso atto, daro, emergenza cosciente dell'esistente non finalizzato", p. 236-237 (cap. VII). 22 "L'esistenza pone I'essenza, dinamicamenre, costitutivamente, quindi la presenza pone la tendenza: 1a filosofia si sbilancia sull'avvenire", p. 238 (cap. VII). 23 "E come si fosse formata un terribile temporate, ora e allimite della esplosione", p. 129 (cap. 1II). 14 Antonio Negri PREF A CI 0, de Alexandre Matheron Gostaria de dizer aqui, ao mesmo tempo de minha admira~ao pelo livro de Negri, minha concordancia com 0 que me parece ser b essencial de sua interpreta~ao de Spinoza, e tambem, acessoriamente, as poucas re-servas que ele pode inspiraI a urn historiador da filosofia, profissionalmente sempre com a tenta~ao de permanecer na literalidade dos textos. Admira~ao, no sentido cLissico como no sentido corrente da palavra, pela extraordinaria analise marxista atraves da qual Negri torna inteligi-vel a rela~ao entre a evolu~ao do pensamento de Spinoza e as transforma-c;6es hist6ricas ocorridas na situa~ao holandesa de sua epoca. Infelizmen-te, sou excessivamente incompetente no assunto para poder me permitir julgar a verdade ou a falsidade de sua hip6tese. Mas 0 que e certo e que ela e muito fecunda: permite ao mesmo tempo introduzir uma l6gica in-terna no que ja se sabia, e por em evidencia 0 carater significativo de ceI-tos dados de fato que, ate agora, passavam com excessiva freqiiencia como marginais. Ela nos faz entender, em primeiro lugar, de que maneira a "ano-malia holandesa" pode dar conta da persistencia taIdia, nos Paises Baixos, ' daquele pantefsmo utopista de tipo "renascentista" que, efetivamente, com muitas confusoes e incertezas, foi com certeza 0 de Spinoza nas partes mais arcaicas do Curto tratado. Faz-nos entender, em seguida, de que mane ira o aparecimento tardio na Holanda da crise do capitalismo que se iniciava pode dar conta do deslocamento desse pantefsmo inicial e da necessidade que Spinoza sentiu, como efetivamente sentiu, de operar urn remanejamento conceitual muito dificil. Faz-nos entender, finalmente, de que maneira a revolta de Spinoza diante da solw;ao absolutista que havia sido dada a crise em todos os outros lugares da Europa, e que estava amea~ando suceder tambem na Holanda, pode dar conta do resultado final desse remaneja-mento conceitual. Ora, deixando de lade a hip6tese em si, penso que, para o essencial, os fatos para os quais ela chama nossa aten~ao sao muito Ieais e muito importantes. Isto e verdade, em primeiro lugar, para 0 estado final (ou relativa-mente final) da filosofia de Spinoza: para aquilo a que Negri chama sua "segunda funda~ao". Quanto a esse ponto, exceto por uma reserva que fa~o e a qual voltarei, concordo fundamentalmente com ele. Nessa "segunda funda~ao", nao apenas Spinoza rompeu com qualquer sobrevivencia de emanatismo neoplatonico (0 que todos os comentadores serios reconhe-cern), mas ele ja nao admite mais a menor transcendencia da substancia A Anomaiia Selvagem 15 elT! relas:ao a seus modos, sob qualquer forma que ela se apresente: a subs-tancia nao e urn fundo cujos modos seriam a superficie, n6s nao somos ondas na superficie do oceano divino, mas tudo e absorvido na superficie. A substancia sem seus modos nao passa de uma abstras:ao, exatamente como sao os modos sem a substancia: a unica realidade concreta sao os seres natura is individuais, que se comp6em uns com os outros para for-mar mais outros seres naturais individuais, etc., ao infinito. Mas isso nao quer dizer que 0 beneficio das analises anteriores tenha sido nulo; isso quer dizer que tudo 0 que era atribuido a Deus esta agora investido nas pr6prias coisas; nao e mais Deus quem produz as coisas na superficie de si mesmo, mas sao as pr6prias coisas que se tornam autoprodutoras, pelo menos par-cialmente, e produtoras de efeitos dentro do ambito das estruturas que definem as limites de sua autoprodutividade. Pode-se ainda falar de Deus (como faz Spinoza, e como, de seu proprio ponto de vista, ele tern razao em fazer) para designar essa atividade produtora imanente as coisas, essa produtividade infinita e inesgotavel de toda a natureza, mas com a condi-~ao de que se tenha bern em mente a que isto significa: a natureza naturante e a natureza enquanto naturante, a natureza considerada em seu aspecto produtor isolado por abstra~ao; e a natureza naturada, ou os modos, sao as estruturas que ela se da ao se desdobrar, a natureza enquanto naturada; mas na realidade ha apenas indivfduos mais au menos compostos, cada urn dos quais (naturante e naturado ao mesmo tempo) se esfor~a para produzir tudo 0 que pode, e para se produzir e se reproduzir a si mesmo, produzindo tudo 0 que pode: a ontologia concreta come~a com a teoria do conatus. Por isso e que Negri tern inteira razao ao caracterizar esse estado final do spinozismo como uma metafisica da forfa produtiva; e isso por oposi~ao a todas as outras metaffsicas classicas, que sao sempre mais ou menos metafisicas das rela~6es de produ~ao, na medida em que subordi-nam a produtividade das coisas a uma ordem transcendente. Que essa metaffsica da for, , cada ripo de sociedade politica dada, as melhores formas de liberafao, ista e, as estruturas que permitirao a multitudo reapropriar-se de sua poten-cia, desdobrando-a ao maximo - e que por isso, mas apenas por isso, co-nhecerao uma auto-regular;ao orima. Quanta aos limites em que Spinoza esbarrou no exame detalhado dessas estruturas (capitulos 6 a 11 do Tratado politico), sao evidenternente os pr6-prios limites da situa~ao hist6rica que era a sua. Negri amigavelmente me censurou por tef eu insistido demais nesse exame detalhado, que pareee a ele menos interessante pelo conteudo que pelo fracasso que manifesta. Era no entanto necessaria, pareee-me, levar a serio aquila que 0 proprio Spino-za levou a serio. Mas reconher;o junto com Negri que, para nos e hoje, do ponto de vista do porvir como do ponto de vista da eternidade (0 que, afi-nal, vern a dar no mesmo), 0 essencial do Tratado politico sao os funda-mentos, tais como sao expostos nos cinco primeiros capitulos. E como es-ses fundamentos seriam incompreensiveis para quem nao tivesse lido a Eti-ca, Negri tern inteira razao em dizer que a verdadeira politica de Spinoza e sua metafisica, que e ela mesma politica de urn lado a Dutro. Resta saber como Spinoza chegou, de seu panteismo inicial segundo o qual "a coisa e Deus", a esse estado final de sua doutrina segundo 0 qual "Deus e a coisa". E e neste ponto que ja nao concordo inteiramente com Negri, pelo menos no sentido de que ele me parece ter estabelecido uma verdade que nao e exatamente aquela em que acreditava. Pois penso, en-quanta que ele ja nao pensa assim, que esse spinozismo final (mediante urn acrescimo importante, e verdade) e a de toda a Etica, inclusive dos !ivros I e II. Segundo ele, esses livros I e II, com a forma que conhecemos, em particular com a doutrina dos atributos divinos que neles consta, corres-ponderiam a primeira redar i do por isolar por abstrac;ao a atividade produtora sob suas diversas for-mas - que sao precisamente os atributos integrados em uma 56 substan-cia. Pode-se, e certo, pensar que era inutil demonstra.-Io, mas Spinoza nao pensou assim. Pode-se tam bern pensar que ele esteve errada em naa pensa-10; sabre este ponto, novamente, nao teoho nada a objetar que seja logi-camente obrigat6rio: e uma questao de escolha metodol6gica. Mas e ver-dade que, se escolhermos considerar a ordem das raz6es como essencial, somas levados a dar mais importancia do que Negri ao que chamamos im-propriamente, por flaO ter podiclo encontrar terma mais adequado, 0 "para-lelismo" do pensamento e da extensao; 0 que, sem contradizer em nada sua interpretac;ao da doutrina final, simplesmente lhe aerescenta alguma coisa. Tal era 0 sentido da "reserva" a que eu aludia acima: e a teoria dos atributos, compreendida como Spinoza quis que fosse compreendida, que fundamenta, parece-me, a propria "segunda fundar;ao". Atraves disso a "vida eterna" do livro V, sem deixar de ser exatamente 0 que dela diz Negri, pode pareeer ao mesmo tempo, e sem "catarse" alguma, como eterna no sentido estrito. Mas, enfim, penso que a primeira de minhas duas objer;oes anula em parte 0 alcance da segunda. Houve, de qualquer maneira, uma primeira redar' , . NOTA DO TRADUTOR DA EDrf' tificada de democracia. Pode-se dizer que Spinoza coloca 0 problema cia clemocracia no terreno do materialismo, criticando entao como mistifica-,ao toda cancep,ao juridica do Estado. A funda,ao materialista do cons-titucionalismo democratico se inscreve em Spinoza no problema da produ-crao. 0 pensamento spinozista une a relac;ao constituic;ao-prodw;ao num nexo unitario. Nao e possiveI ter uma concepc;ao justa do politico sem unir des-de 0 inicia estes dois term os. E impossfvel e abjeto falar de democracia fora desse nexo: sabemos bern disso. Parem tem-se misturado Spinoza com ex-cessiva freqiiencia a urn mingau "democnitico" informe, feito de transceo-dentalismo normativo hobbesiano, de vontade geral rousseauniana e de Aufhebung hegeliana, cuja fun,ao propria e a de separar produ,ao e cons-tituic;ao, sociedade e Estado. Mas nao, no imanentismo spinozista, na con-cep~ao especificamente spinozista do polftico, democracia e uma polftica da multitudo organizada na prodm;ao, a re1igiao e uma religiao dos "igno-rantes" organizados na democracia. Essa constru~ao spinozista do polfti-co constitui urn momento fundamental do pensamento moderno: e se nao consegue exprimir ate 0 fim a funda~ao da luta de classe como antagonis-mo fundador da realidade, nem por isso deixa de enunciar todos os pressu-postos dessa concep~ao, fazendo da interven~ao das massas 0 fundamento da atividade de transforma~ao, ao mesmo tempo social e politi ca. A con-cep~ao spinozista "encerra" rejeitando toda uma serie de problemas misti-ficados propostos a burguesia no decurso dos seculos seguintes pelo pensa-mento liberal-democratico, principalmente em sua versao jacobina (e na linha teorica Rousseau-Hegel). Colocando 0 problema de forma pura: a rnultitudo que se faz Estado, os ignorantes que se fazem religiao - urn passado esra descartado, qualquer solu~ao juridica e idealista do problema esta eliminada, e entretanto, os seculos seguintes nao deixarao de, monstruosamente, tor-nar a propor isso - alude potentemente aos problemas que ainda hoje a luta de classe comunista se coloca. Constitui~ao e produ~ao como elemen-tos de urn tecido no qual se constroi a experiencia das massas e seu futuro. Sob a forma da igualdade radical imposta pelo ateismo. Terceira: Spinoza nos mostra que a historia da metafisica engloba alternativas radicais. A metafisica, como forma eminente de organiza~ao do pensamento moderno, nao e urn todo homogeneo. Engloba alternati-vas produzidas pela historia subjacente da luta de classe. Ha "outra" his-toria da metafisica. Historia santa contra historia maldita. Sem esquecer entretanto que so se pode ler a epoca moderna a luz da metafisica tomada em toda sua complexidade. Em conseqiiencia, se isto for verdade, nao sao o ceticismo e 0 cinismo que constituem a forma positiva do pensamento negativo (do pensamento que percorre a metafisica para nega-la e abrir para a positividade do ser): a forma positiva do pensamento negativo so pode ser a tensao constitutiva do pensamento e sua aptidao para se mover como 24 Antonio Negri mediarr ~ nos mostrou em Spinoza urn horizonte filos6fico pleno e ensolarado, que e i reconquista do materialismo como espa,o da pluralidade modal, como libera~ao concreta do desejo concebido como potencia construtiva. Temos ainda, no campo cia filosofia cia religiao e cia filosofia polftica, a redefini\=ao hist6rico-estrutural de Hecker e a Dutra, bern rna is feliz, de Matheron: a democracia pensada como essencia material, como produto cia imagina-\=ao das massas, como tecnica e projeto constitutivos do ser - que varre de urn 56 golpe 0 lagro dialetico. Desse ponto de vista, Spinoza critica 0 futuro antecipadamente: e portanto urn fil6sofo contemporaneo, pais sua filosofia e a de nosso futuro. o que acabo de dizer - a respeito da profunda renova,iio das inter-preta\=oes do pensamento spinozista desde 0 fim dos anas 60 - contribuiu certamente para esclarecer algumas das razoes que levaram 0 autOr a rea-lizar este trabalho. Mas talvez se deva esclarece-Ias ainda mais. E incon-testa vel que fomos incitados a estudar as origens do pensamento moder-no e da hist6ria do Estado moderno atraves da ideia de que a analise da crise da genese do Estado burgues e capitalista pode contribuir para 0 es-clarecimento dos termos da crise de seu periodo de dissolu~ao. Mas devo acrescentar que, se esse projeto levou-me a empreender meus trabalhos anteriores (sobre Descartes, etc.), hoje ele me estimula muito menos. 0 que me interessa, efetivamente, nao e tanto a genese do Estado Burgues - e sua crise - quanta as alternativas te6ricas e as possibilidades subjetivas de revolu,iio em ato. Explico-me: 0 problema colocado por Spinoza e 0 da ruptura subjetiva da unidimensionalidade do desenvolvimento capita-lista (em sua dimensao burguesa e superestrutural como em sua dimensao propriamente capitalista e estrutural). Spinoza nos mostra a alternativa vi-vendo como potencia material dentro do bloco metafisico da filosofia mo-derna - para ser claro, do itinerario filos6fico que vai de Marsilio Ficino e Nicolau de Cusa a morte da filosofia no seculo XIX (ou, para falar como Keynes, a feliz eutanasia daquele saber de proprietario). Sempre achei paradoxal 0 fato de que os historiadores da filosofia reconstroem as al-ternativas indo para baixo: Gilson, em dire~ao a filosofia crista da Idade Media para a cultura moderna, Wolfson em dire,iio a cultura judaica da Idade Media para Spinoza - para citar apenas alguns exemplos. Sabe-se la por que esse procedimento e tido como cientffico! Quem poderia dize-Io? Para mim, esse procedimento representa exatamente 0 contrario de urn discurso cientffico, pois procura genealogias culturais, e nao uma genealogia material de condi~oes e de fun~6es de pensamento: ja a ciencia e sempre descoberta do futuro. Libertar-se de urn passado incomodo tambem nao adianta muito se nao se procura ao mesmo tempo 0 gozo do presente e a produ~ao do futuro. Por isso e que quero reverter 0 paradoxo e interpelar o futuro a partir da potencia do discurso spinozista. Ese, por prudencia e 26 Antonio Negri preguic;a, nao tiver exito com 0 futuro, quero pelo menos tentar uma for-ma as avessas de leitura do passado: colocando Spinoza diante de nossos olhos, eu, pobre "doutor" entre tantos outros, YOU interrogar urn mestre de verdade. Quero tentar uma forma de leitura do passado que me permi-ta, no caso, localizar os elementos passfveis de comporem, juntos, a defi-ni~ao de uma fenomenologia da pratica revolucionaria constitutiva do futuro. Tentar uma leitura do passado que me permita sobretudo (que nos obrigue a isso) acerrar as contas com toda aquela confusao culpada, com todas aquelas mistifica,6es que - de Bobbio a Della Volpe e seus ultimos produtos - nos ensinaram desde a tenra infancia a santa doutrina que reza que democracia e Estado de direito, que 0 interesse geral "sublima" 0 in-teresse particular sob a forma da lei, que os 6rgaos constitucionais sao responsaveis diante do povo em sua totalidade, que 0 Estado dos parti-dos * e uma magnifica mediac;ao polftica entre 0 uno e 0 multiplo, e tantas outras facecias do genero. No seculo XVII, Spinoza nao tern nada aver com esse monte de infamias. A liberdade, a verdadeira, a plena liberdade, aquela que amamos e pela qual vivemos e morremos, constr6i direramen-te 0 mundo, imediatamente. A multiplicidade niio e mediatizada pelo di-reiro, mas pelo processo constitutivo: e a constituic;ao da liberdade e sem-pre revolucionaria. As razoes invocadas para justificar nosso estudo de Spinoza confluem, por outro lado, rodas as tres no terreno daquilo que se costuma chamar "procura de uma nova racionalidade". Numa forma radical, Spinoza de-finiu uma racionalidade "outra" que a da metaffsica burguesa. 0 pensa-mento materialista, 0 da produC;ao e 0 da constituic;ao, torna-se entao hoje o fundamento elementar e inconrornavel de qualquer programa neo-racio-nalista. Spinoza realiza tudo isso atraves de uma tensao fortfssima que contribui para determinar uma dinamica de projeto, uma dinamica de trans-forma~ao da ontologia. Vma ontologia constitutiva, baseada na esponta-neidade das necessidades, organizada pela imaginac;ao coletiva: esta e a racionalidade spinozista. Como base. Mas nao e s6. Spinoza nao se satis-faz em definir uma base, ele trabalba igualmente para desenvolve-la: e, quaisquer que sejam os limites desse desenvolvimento, convem delimitar e submeter a critica a arquitetura projetada. Particularmente onde ela en-globa a dialetica, nao como dispositivo formal do pensamento, mas como articulac;ao da base ontologica, como determina~ao da existencia e da potencia. 0 que suprime toda possibilidade de transformar a dialetica em chave generica, ela que e tomada, ao contrario, como urn modo de orga-nizaC;ao interne do conflito, como uma estrutura elementar do conhecimen-.. Stato dei partiti: expressao corrente em italiano, designando 0 fato de que a estrutura do Estado e organizada em fun~ao do jogo dos partidos politicos. (N. do T.) A Anomalia- Selvagem 27 rr ri ,1 to. E procurei assim caprar oeste estudo - no que se refere ao pensamen-to materialista - a teosaa spinozista para a defini~ao de urn horizonte de absoluta multiplicidade das necessidades e dos desejos; no que se refere ao pensamento produtivo - a tentativa spinozista de localizar na teoria da imagina~ao a filigrana da relas;ao entre necessidade e riqueza, a solu,1 Capitulo I A ANOMALIA HOLANDESA 1. 0 PROBLEMA DE UMA IMAGEM Estudar Spinoza e se colocar 0 problema da despropor, I perfeita e purfssima expressao cia forma de civiliza\ao entao dominante na Europa. Mas, examinando bern, flaD e 0 caso. Ao contrario, embora se en-contrasse entre a Fran~a, a Inglaterra e a Alemanha (abstrafmos aqui da Italia e da Espanha), a terra de nossos pais, mais que urn exemplo e urn modelo, representou urn desvio em rela~ao aD tipo geral de civiliza~ao cia epoca, urn caso a parte em muitos aspectos,,9. 0 que significa isso? Para avaliar 0 fundamento dessa tese, comecemos primeiramente pon-do-a em rela'rao com os comportamentos culturais, com os aspectos mais sutis cia civiliza~ao do seculo de Duro. A apologia erudita nos mostra urn Spinoza canticle e reservado: e e verdade - a corresponciencia e muitissi-mos testemunhos nos confirmam. Mas isso nao e uma legenda, e nao pode ter valor de apologia, pois e a sociedade holandesa que e feita desse modo: o fil6sofo fica escondido na medida mesma em que esta socializado e inse-rida em uma vasta sociedade cultural perfeitamente adequada. Kolakowski, como veremos, nos descreve a vida reiigiosa e as formas de comunidade escolhidas pelas camadas cultas da burguesia holandesa 10: simplesmente, Spinoza vive num muncie no qual e uma regra social a de que as amizades e as corresponciencias se Cfuzem amplamente. Mas, para certas camadas de-terminadas cia burguesia, a suavidade de uma vida culta e retirada se aCOffi-panha sem contradi~ao nenhurna cia convivencia com urn poder capitalista exercido em termos perfeitamente maduras. Sao essas as condi~6es de vida de urn burgues holandes. Do Dutro genic cia epoca, Rembrandt van Rijn, pode-se dizer a mesma coisa: em suas telas, a potencia da luz se concentra com intensidade sobre as figuras de urn mundo burgues em fantastica ex-pansao. Vma sociedade prosaica, mas extremamente potente, que faz poe-sia sem saber por que tern for~a para faze-Io. Huizinga sustenta com razao que 0 seculo XVII holandes nao conhece 0 barroco, em outras palavras, nao conhece a interioriza~ao da crise. E e verdade. Se durante a primeira meta-de do seculo XVII a Holanda e a terra de elei,ao de todos os libertinos da Europa, e do proprio Descartes, em busca de liberdade11 , nela nao se en-contrara entretanto nada do clirna cultural frances, da crise que 0 esplen-dor dissimula com dificuldade, e que a grande filosofia s6 faz exorcizar. Poder-se-ia dizer ralvez que 0 seculo XVII nunca atingiu a Holanda. Aqui, tem-se ainda 0 frescor do humanisrno, intato. Do grande humanismo e do grande Renascirnento. Tem-se ainda 0 sentido e 0 arnor da liberdade, no sentido rna is pleno do termo, justamenre 0 do humanismo: consrruir, re-formar. Tem-se ainda em funcionamento, imediatamente visfveis, as virtu-des revolucionarias sutilmente enfraquecidas pela crise nos outros paises, e que 0 abso.Iutismo em geral tenta anular em seu sistema politico. Urn so exemplo: 0 absolurismo, naquele tempo, tenta remodelar 0 movimento de renova~ao fechando-o nas academias, num projeto de uni-fica~ao e controle da unidade literaria e cientifica do Estado. Quantos filo-32 Antonio Negri sofos e historiadores da filosofia tern desde entiio perambulado sob as ja-nelas das academias, ardendo do desejo de poder instalarse nelas! Na Ho-landa do seculo de ouro, 0 pensamento e as artes tern sua sede nao apenas fora das academias, mas ate, na maior parte dos casos, fora das universida-des12 0 exemplo de Spinoza vale por todos os outros: ao declinar do ofe-recimento do excelenti'ssimo e nobilissimo senhor J.L. Fabritius, que lhe prop6e em nome do Eleitor palatino uma citedra em Heidelberg, ele lem-bra ao nobre que 0 carater absoluto da liberdade de filosofar nao sofre Ii mita~ao alguma 13. Contra 0 que 0 outro hornem da Corte, irritado, pode apenas murmurar essas palavras malevolas: "II se trouvait bien mieux en Hollande oU ... i1 avait une liberte entiere d'entretenir de ses opinions et de ses maximes Ies curieux qui Ie visiteraient, et de faire de tous ses Disciples, ou des Deistes, ou des Athees"14. E exatamente 0 que Spinoza pensa (Tra-tado politico, cap. VIII, art. 49): "As universidades fundadas a custa da Republica se estabelecem menos para cultivar os ralentos que para conte-los. Numa livre republica, ao contrario, a melhor maneira de desenvolver as ciencias e as artes consiste em dar a quem quer que 0 pe'ra a autoriza'rao para ensinar publicamente, por sua conta e com risco de sua reputa~ao." Mas essa anomalia holandesa, justamente, nao e feita somente de tranquilidade e sociabilidade. E de uma grande potencia comercial que se trata. Leyde, Zaan, Amsrerda estao entre os maiores centros industriais da Europa. 0 comercio e a pirataria se estendem do Vfstula as fndias Oci-dentais, do Canada as Molucas 15. Aqui, a ordem capitalista do lucro e a aventura selvagem da acumula'rao nos mares, a imagina~ao consrrutiva produzida pelos comercios, e 0 espanto que conduz a filosofia - isso tudo se conjuga. A imensidao selvagem dessas dimensoes acarreta urn saIto qualitativo que pode ser uma extraordinaria matriz, urn extraordinario campo de produ'rao metafisica. Contrariamente ao que afirma Cantimori seguindo Huizinga, penso que 0 Grotius internacionalista pode nos dizer mais sobre essa epoca que 0 Grotius autor de tratados piedosos 16: pois e nessa dimensao que aqui a anomalia se torna selvagem. Por fora e por dentro. Thalheimer, em sua introdu'rao ao estudo de Spinoza, acentua a intensidade da revolu~ao social em curso. Revolu'rao burguesa, mas jus-tamente sob forma anomala: ela nao e protegida pelo poder absoluto, mas se desdobra numa forma absoluta, em urn vasto projeto de domina'rao e de reprodu,iio selvagens. A luta de classe adota por muito tempo uma solll(;ao dinamica e expansiva: a forma politica da oligarquia ou da mo-narquia (de ripo "bonapartista", acrescenta Thalheimer!) instalada pelos Orange em 1672 - de qualquer modo num altlssimo nlvel de socializa-~ao capitalista (Holanda e Veneza: quantos politicoS e moralistas, duran-te os seculos da "crise da consciencia europeia", perseguiram 0 sonho de urn desenvolvimento na "forma imediata" da socializa'rao do capital! Vol-A Anomalia Se1vagem 33 rr raremos logo a esse ponto)17, Nao pretendo discutir aqui a exatidao da definir' adequac;ao a potencialidade espedfica de sua epoca: e 0 que temos que ver 'agora. Adequac;ao a potencia e a tonalidade de seu tempo. Idade de Duro, seculo de Duro? "E justamente 0 nome do seculo de ouro que naD cai bern. Cheira aquela aurea aetas, aquele mitol6gico Eldo-rado que ja nos aborrecia urn pOlleD quando eramos crianc;as e Hamas Ovidio na escola. Se 0 periodo florescente de nossa hist6ria tern que ter urn nome a qualquer prer r Maimonides seu supremo fil6sofo32; assim tambem, por seu lado, a tradi-~f !ncompreensibilidade de uma uniao substancial entre duas substancias incompativeis. A onipotencia incompreensivel de Deus se manifesta aqui num efeito singular, e a razac e obrigada a se limitar a si mesma para re-conhecer nessa esfera a primazia do sentimento. Assim, no alto, em bai-XO, e ate no centro, nossa razac permanece em toda parte confrontada com o misterio,,44. A revolu\=clo em seu apogeu naG admire essas fraquezas. 0 Deus de Descartes e pura e simplesmente "asylum ignorantiae "45 assim como 0 Deus dos supersticiosos e dos ignorantes. Traduzido ern pIasa: a rela\=ao, vista pelo lade cia burguesia, quef a totalidade, quef uma solu\=ao imediata. Se confrontarmos Spinoza com seus contemporaneos na Euro-pa, encontramo-nos diante de urn carater absoluto e imediato na concep-c;ao do ser que destroi qualquer ilusao tatica. A tatica e 0 ser sem soluC;ao: e Descartes46. E 0 sonho dos robins, seu projeto domina do pelo medo, diante da crise do mercado, diante da primeira avaliaC;ao dos efeitos da luta de classes - e, em seguida, diante da aceitac;ao da mediac;ao absolutista. Para completar 0 raciocfnio: serao ainda menos aceitas, nos Paises Baixos, no apice do processo revolucionario, concepc;oes que, de urn modo ou de outro, vejam 0 ser se expor num vazio sem fundo de existencia, sob os trac;os do misticismo, judeu ou cristao, que 0 seculo continua a produzir. Se a uto-pia se ergue, e entao uma utopia positiva. Se 0 ser vern a presenC;a, e urn ser pleno. Essa compacidade do ser bern que sofre 0 assalto da via meto-dica, mas 0 proprio metodo e plenitude ontologica: em todo caso nao ha o menor artificio, 0 sentido ontologico da fisica galileana expulsa 0 meto-dologismo formal de Descartes47 Nada a ver com Descartes, entao, nem mesmo deste lado. Nada de metodo considerado como uma hipotese. Nada de moral provisoria. Nenhum direito para 0 indefinido se apresentar como urn para alem da superficie, nem no terreno ontologico, nem - ainda menos - no da etica. 0 mundo frances e continental embrenhou-se no campo do compromisso necessario. Aqui na Holanda, isso nao tern sentido. Na verda de, 0 classicismo deforma a ordem da razao, retira a originalidade produtiva que e peculiar a inteligencia revolucionaria. 0 pensamento e a experiencia da crise ainda estao longe do Spinoza dessa epoca. Voltamos assim ao centro motor do periodo de genese do pensamento de Spinoza. E urn pensamento de tipo renascentista, no qual 0 imanentismo naturalista e levado aos limites de uma concepc;ao ao mesmo tempo abso-lutamente ontologica e absolutamente racionalista. E urn conjunto poten-te que constitui essa sintese: em relac;ao com as dimensoes da revoluc;ao capitalista e da maturidade alcanc;ada na Holanda peIo processo da acumu-lac;ao primitiva. Tudo isso, entretanto, perderia conotac;oes essenciais se fosse esque-cido outro componente dessa sintese: urn componente formal e no entan-to fundamental. 0 componente religioso. A filosofia e a biografia tornam 40 Antonio Negri a se cruzar aqui, e de maneira determinante. Quando, a 26 de julho de 1656, Spinoza for expulso da comunidade judaica de Amsterda, e muito prova-velmente tam bern do milieu comercial judaico - encontrando-se assim numa situac;ao economica dificil -, ele vera se formar em torno de si urn grupo de pessoas que serao os primeiros companheiros de estrada decla-rados de sua pesquisa. Por volta de 1660, ao se retirar para Rijnsburg, a pequena comunidade se reforc;a e se torna filosoficamente importante. Outro grupo se reune em Amsterda. Ora, trata-se de uma comunidade religiosa. Colegiantes, arminianos? A propria definic;ao desses termos e pro-blematica48 Na verdade, trata-se de uma experiencia solida e nova: soli-da porque retoma todos os aspectos de uma religiosidade "sectaria", ago-ra integrando a socialidade holandesa; nova porque traduz essa experien-cia naquela formidavel experimentac;ao de rigor racionalista aplicado ao comportamento religioso. Mas falar de experiencia religiosa nao e abso-lutamente 0 mesmo que fazer dessa comunidade uma comunidade con-fessional49; e, por outro lado, declarar que essa comunidade nao e con-fessional nao e 0 mesmo que afirmar que ela se compoe de esprits fibres, quase que de libertinos a francesa, certamente nem colegiantes nem refor-madores religiosos50. Kolakowski51 , retomando as conclusoes de Meins-ma52, nos conta a historia daquela comunidade. E, acrescenta, simplesmente nao tern sentido colocar 0 problema da distinc;ao, para os menonitas, en-tre comunidade e reforma interior e - naquele clima - em ultima anali-se tambem nao tern sentido distinguir entre reformadores religiosos e li-vres-pensadores deistas. 0 fato e que a atitude nao confessional e funda-mental, e que e sobre essa base que se articulam as diversas figuras da sin-tese entre racionalismo e religiosidade. Mas se os membros do circulo spinozista nao se consideram como crista os, nada nos autoriza a concluir-mos dai que eram libertinos, ou estranhos a qualquer preocupac;ao religio-sa53 Estamos entao no aspecto formal da sintese spinozista. 0 racionalismo eo ontologismo absolutos tomam a forma da religiosidade: mas ela ja per-corria aquele pensamento, do Eros de Pia tao ao Demonio de Diotima re-contado por Leao Hebreu. Aqui, entretanto, a conexao e a 0 mesrno tempo serena e ainda mais tensa que antes: serena em sua visao da plenitude do ser, em sua conscien-cia da maturidade da revoluC;ao. Mas novamente tensa, e ainda mais que antes, pois 0 proprio fato de se apresentar como urn solido projeto revo-lucionario exige que seja ultrapassado, reivindica urn deslocamento de conjunto. Nao deixa de ser curioso que ninguem tenha querido captar naquele Spinoza os elementos selvagens ja contidos nesse primeiro exito sintetico! Eram elementos impuros para 0 racionalismo, mas no entanto bern presentes, e que importancia tinham! 0 circulo spinozista e atraves-sado por pontas de religiosidade quiliastica e por uma tensao interna que ,~"'. , , - . A Anomalia Selvagem iEiti3LLJ il t.~,4 41 rr ~nao poderemos deixar de lef ate no Spinoza da maturidadeS4 Mas talvez fosse necessario aqui levar em conta muitos outros elementos, 0 menor dos quais nao sendo 0 fato de que Rijnsburg fica a dois passos de Leyde, que se tornara centro textil e manufatureiro de primeira importancia, e antes terra anabatista por excelencia. E a terra tala sua hist6ria55 Teremos que voltar amplamente a tudo isso. Queremos por enquanto insistir no fato de que a forma reiigiosa do pensamento de Spinoza depen-de da forma da cultura holandesa no apogeu do processo revoluciomlrio. Essa religiosidade sobredetermina a especificidade material do processo revolucionario tal como e lido por Spinoza. E uma mistura de racionalismo teologico refinado, vasta adesao popular e amplo debate. Como lembra Huizinga, neste ponto a tradi~ao do humanismo popular reapropriou-se do calvinismo e 0 transfigurou. E isso e exatamente 0 que faz essa anoma-lia holandesa: a extraordinaria continuidade da presencoincidencia entre a apropria~ao individual e a sociabiliza~ao da for~a pro-dutiva63. Pouco irnporta que a "Respublica" seja na verdade urn conjunto de "res publicae": 0 essencial e a solu~ao que tern de se irnpor, e 0 disposi-tivo que tern de ser implantado Com a rela~ao delas, e a unidade dinamiea e criadora de valor - valorizante para todos os seus membros - que essa rela~ao nao pode deixar de determinar. A efetividade dessa representar emlinha de conta, naa e que 0 patente atomismo mecanicista dos pressupos-tos hobbesianos naD seja aceito - e entao que a crise, como possibilidade e atualidade de seu conceito, DaD tenha seu lugar na filosofia. Mas, em Spi-noza, a borda da revolw;ao naD pode se reduzir a crise - naD pode ser pura e simplesmente encerrada dentro das dimensoes da crise. Em Spinoza, a de-fini~ao do sujeito historico nao pode ficar fechada dentro do conceito de crise. Oode a burguesia, na cesura do seculo XVII, assume a crise como urn elemento constitutivo de sua propria defini~ao, Spinoza opera urn desloca-mento da for,a global detida pelo projeto anterior, pela plenitude do de-senvolvimento. Vma filosofia do porvir se implanta sobre essa base pre-cons-titufda, 0 impulso revolucionario continua a agir, a crise e urn obstaculo e naD uma essencia. A essencia e construtiva, a crise so e aceita para ser ultra-passada. A descontinuidade e a oportunidade para urn saito para a frente. Limitemo-nos ao nfvel propriamente filosofico. Vimos como a ideo-logia do mercado se da originariamente sob uma forma neoplatonica. No entanto - 0 que justamente corresponde a potencia da anomalia holande-sa -, Spinoza retoma esse horizonte por sua conta, de uma maneira pro-pria a exacerbar ate a estrutura do neoplatonismo, a leva-Io ao limite de urn pensamento de superffcie. Ora, quando intervem a experiencia e 0 pensamen-to da crise, essa superffcie e remexida por uma for~a de destrui~ao que re-cusa qualquer ideia de lineariclade dos processos constitutivos, qualquer ideia de espontaneidade. Duas solu~oes sao possiveis: ou restaurar a linearidade e a essencialidade dos processos constitutivos atraves da media~ao e da sobre-determina~ao de uma nm~ao de comando - e essa e a linha mestra da utopia burguesa do mercad070; ou entao, e essa e a linha spinozista, localizar, no movimento de passagem do pensamento de superffcie a uma teoria cia cons-titui~ao da pratica, 0 caminho da supera~ao da crise e da constitui~ao do projeto revolucionario. Em Hobbes, a crise conota 0 horizonte ontologico e 0 subsume: em Spinoza, a crise e subsumida sob 0 horizonte ontologico. Talvez seja este 0 verdadeiro lugar de nascimento do materialismo revolu-cionario moderno e contempora.neo. Seja como for, os modelos de socie-dade baseada na apropria,ao se diferenciam em termos ontologicos: em Hob-bes, a liberdade se curva ao poder, em Spinoza, 0 poder a liberdade. E estranho: mais uma vez, 0 pensamento de Spinoza se revela a nos como uma gigantesca anomalia. Na verdade, esta defini~ao que estamos dando de seu pensamento e quase como uma nega~ao de sua historicidade. o pensamento de Spinoza, absolutamente hegemonico no momento em que interpreta 0 triunfo da ideologia revolucionaria, torna-se minoritario, encontra-se exclufdo da historia da ideologia burguesa, a partir do momenta em que se poe a pegar, a virar e reverter no sentido da emancipa~ao 0 proprio conceito de crise, a endurecer sobre os conteudos revolucionarios do projeto humanista. Mas sabemos 0 quanta e va a hist6ria da ideolo-46 Antonio Negri gia! Sabemos, em contra partida, a for~a que tern a esperan~a de verclade e de emancipa~ao! 0 pensamento de Spinoza aparece entao como urn pa-radoxo vivo: sua filosofia se apresenta como uma filosofia pos-burguesa. Macherey 71 fala de filosofia pos-diaIetica. Com razao: pois a dialetica e na realidade a forma sob a qual sempre se apresenta a ideologia burgue-sa, em todas as suas variantes - inclusive na de uma dialetica puramente negativa de crise e de guerra. Quando Spinoza transfigura de maneira materialista os conteudos revolucionarios do humanismo, ele leva, ao con-trario, seu pensamento para alem de qualquer configura~ao dialetica. Leva a esperan~a e a pratica humanas de transforma~ao para alem de qualquer forma dialetica. Para alem de qualquer media,ao sobredeterminada. 0 que equivale a dizer: para alem do conceito de burguesia, tal como este se for-mou de maneira hegemonica durante os seculos passados. Chegamos assim ao ponto de definir uma ultima serie de conceitos, que deveremos aprofundar. A filosofia de Spinoza, enquanto filosofia hu-manista e revolucionaria, e antes de mais nada uma filosofia de apropria-,ao. Assim como a filosofia de Hobbes. A diferen,a, ja vimos, reside na distin~ao entre urn e outro quanto ao sentido ontol6gico da apropria~ao: em Hobbes, ela se apresenta como crise e tern entao de encontrar nova-mente uma legitimidade a partir do poder, da sujei~ao. 0 horizonte cria-dor de valor e 0 comando exercido sobre 0 mercado. Em Spinoza, ao con-trario, a crise anula 0 senti do da genese neoplatonica do sistema, transfi-gura, destruindo-a, qualquer concordancia metafisica pre-constituida, e nao coloca mais 0 problema do poder para a liberdade, mas sim 0 problema de uma constitui~ao da liberdade. Essa distin~ao pressupoe no entanto uma serie de novos conceitos. 0 que equivale a dizer que nao se pode superar o esquema de Hobbes enquanto se mantem 0 ponto de vista da individua-lidade. 0 deslocamento spinozista do problema deved entao fundamentar, como uma fenomenologia da pratica constitutiva, urn horizonte ontol6gico sobre 0 qual essa fenomenologia possa caber. Esse horizonte e coletivo. E o horizonte da liberdade coletiva. De urn coletivo nao problematizado-simples transferencia do sonho indistinto e espontaneo da utopia revolu-cionaria do humanismo? Nao. A ideia de crise, subsumida sob 0 processo ontologico, age nele: poe em movimento todos os mecanisrnos necessarios a constitui~ao do coletivo. A ideia de multitudo transforma 0 potencial utopico e ambiguo que a caracteriza no Renascimento em projeto e ge-nealogia do coletivo, como articula~ao e constitui~ao conscientes do con-junto, da totalidade. Por isso e que a revolu~ao e sua borda sao em Spino-za 0 terreno no qual se alicer~a uma extraordinaria opera~ao de prefigu-ra,ao do problema fundamental da filosofia dos seculos que virao: a cons titui~ao do coletivo como pratica. Entao sim, desse ponto de vista, a filo-sofia de Spinoza e uma filosofia sem tempo: seu tempo e 0 futuro! A Anomalia Selvagem 47 r NOTAS 1 P. VERNIERE, Spinoza et La pensee franyaise avant la Revolution, 2. vol., Pa-ris, 1954. A frase citada e de Massillon, VERNIERE, I. P. l. 2 A. VAN DER LINDE, Benedictus Spinoza. Bibliografie. Nieukoop, 1961 (re-prodw;ao em fac-simile da edi(j3.o de 1871). A frase transcrita e tirada do depoimento de Van Stoupe, citada a p. 19. 3 Ibid., p. 29. 4 Ibid., p. 33. 5 Como nota com razoIO P. DJ VONA oa bibliografia relativa a seu verbete B. Spinoza, in Storia della filosofia, organizada por M. DAL PRA, t. 7, p. 901 (Milao, 1975): d. principalmente as obras de V. Delbos e de L. Brunschwicg. No que se refere a Icalia, pode-se mencionar a contribui~ao de G. RENSI (Modena, 1929). 6 Como frisa N. ALTWICKER em sua contribui'fao (Spinoza. Tendenzen des Spinozarezeption und Kritik) que serve de Einleitung a coletanea Texte zur Geschichte des Spinozismus, Darmstadt, 1971, organizada por ele mesmo (p. 1-58). 7 L. FEUERBACH, Samt!' Werke, editadas por W. BOLIN e F. ]ODL, Stuttgart, 1959, t. 3, p. 322. 8 Ibid., p. 384. 9 ]. HUIZINGA, Nederland's Beschaving in de Zeventiende Eeuw, trad. italiana (La civiitiz olandese del Seicento, Turim, pp. 5-6). 10 L. KOLAKOWSKI, Chretiens sans Eglise. La conscience religieuse et Ie lien confessionnel au XVIIe siecle. trad. francesa, Paris, 1969. Mas ver tambem as observa-!foes importantes de G. SOLARI, in Studi storici di filosofia del diritto, Turim, 1949, pp. 73-80, 95-97 (voltaremos as caracteristicas dos escriros de Solari sobre Spinoza): de F. MELI, in Spinoza e due antecedenti italiani dello spinozismo, Floren!fa, 1934; de C. SIGNORILE, Politica e ragione. Spinoza e it primato della politica, Padua, 1968, com abundantes referencias bibliograficas. 11 G. SCHNEIDER, Der Libertin. Zur Geistes - und Sozialgeschichte im 16. und 17. Jahrundert, Stuttgart, 1970. Mas ver principalmente G. COHEN, Ecrivains frant;ais en Ho/Jande dans la premiere moitit du XVIIe siecle, Paris-Haia, 1921. 12 Alem das observa~6es de Kolakowski, ver 0 livro fundamental de P. DIBON, La philosophie neerlandaise au siecie d'or, Amsterda, 1954, para 0 que se refere a pri-meira metade do seculo. 13 Cartas 47-48 (G., IV, pp. 234-236; P. pp. 12271229). 14 A. VAN DER LINDE, op. cit., p. 26. 15 Neste ponto pode-se apenas remeter as muitas obras de E. H. Kosmann. Cf., alem disso, a titulo de complemento, Culture and Society in the Dutch Republic during the 17th Century, Londres, 1974, deJ.L. PRICE. 16 D. CANTIMORI, em seu Prefacio a trad. italiana da op. cit. de HUIZINGA, assinala que esta derruba 0 julgamento que habitualmente e feito de Grotius, pensan-do-o, bern mais que como urn reputado teorico do direito internacional, como "0 autor de urn De veritate religionis christianae que, em latim ou em lingua materna, era trans-portado aos quatro cantos do mundo pelos mercadores e os marinheiros holandeses, a quem era confiado 0 objetivo de difundir uma religiosidade tolerante e racional, de tipo humanista e erasmiano" (p. XIX). Cf. igualmente G. SOLARI, op. cit., p. 93 sqq. 17 A. THALHEIMER, "Die Klassenverhaltnisse und die Klassenkampfe in den Niederlanden zur Zeit Spinozas", in THALHEIMER-DEBORINE, Spinoza Stellung in der Vorgeschichte des dialektischen Materialismus, Viena-Bedim, 1928, pp. 11-39. De 48 Antonio Negri l uma maneira gera~ a respeito da sociedade holandesa no seculo XVII, ver igualmente S. Von DUNIN-BORKOWSKI, Spinoza, t. 3: Aus den Tagen, Munster, 1935. Podem-se acrescentar algumas observa~c3es a respeito do imaginario relativo a socializa~ao ime-diata da socializa~ao capitalista, mas apenas para notar como com isso algumas dimen-sc3es do processo revolucionario da burguesia sao - por assim dizer - enfeitados e ao mesmo tempo atenuados, reduzidos conscientemente a continuidade temporal do de-senvolvimento das formas institucionais. Este parece ser urn dos papeis essenciais cum-pridos na esfera da ideologia pe1a imagem de Veneza e seu governo (a qual e preciso entretanto acrescenrar outra imagem, igualmente importante - em particulac nos meios dominados pe1a burguesia financeira: a de Genova). De uma maneira geral, d. Traite politique, cap. VII, art. 20; cap. VIII, art. 18,27,29, etc.; C. SIGNORILE, op. cit. p. 216 sq., dedica urn desenvolvimento util a essa questao j em referencia sobretudo a dois textos fundamentais (os de Chabot e de Braudel), com uma consideravel bibliografia comentada. Vma ultima observa~ao sobre 0 livro de Signorile, que nos foi muito util pela riqueza de sua informa~ao: ele se baseia na tese de urn primado da politica nas origens do pensamento burgues; 0 que e pelo menos excessivo, principalmente (mas nao ape-nas) no que se refere a Spinoza. Conseqiientemente, Signorile se polariza quase exclusi-vamente sobre 0 "politico", que ele pressup6e a titulo de "ideologia oculta" que arra-vessaria a metafisica. Mas como deixar de ver que a metaffsica e entao a unica forma praricavel de politica: aqui, neste seculo e neste pais? 18 Penso mais particularmente em F. YATES, Giordano Bruno and Hermetic tradition, Londres, 1964, e Shakespeare's last plays: a new approach, Londres, 1975. 19 Retorno aqui uma tese fundamental, pelo menos no que se refere ao raciona-lismo de Descartes (e por uma parte tambem de Leibniz) desenvolvida porJ. ELSTER, Leibniz et la formation de l'esprit capitaliste, Paris, 1975. 20 Torno a liberdade de remerer as teses ja amplamente desenvolvidas em meu Descartes politico 0 della ragionevole ideologia, Milao, 1970. 21 ]. HUIZINGA, op. cit. (trad. italiana, p. 19). 22 ]. HUIZINGA, op. cit. (trad. italiana, p. 113); D. CANTIMORI em seu Prefa-cio (p. XIII da trad. italiana). 23 As informa~c3es relativas a esses amigos e correspondentes de Spinoza se encon-tram nas biografias de Spinoza, e em particular no hvro de Dunin-Borkowski. Sobre a con-tribui~ao de Hudde a obra de De Witt, d. Le rapport de Johann De Witt sur Ie calcul des rentes viageres, editado por P.].L. DE CHA TELEUX, Haia, 1937. C. SIGNORILE, op. cit., pp. 78-88, dedica 6timas paginas a figura cultural de De Witt. Sua bibliografia e adequada. 24 Cf. Catalogus van de Bibliotheek der Vereniging Het Spinozahuis te Ri;nsburg, Leyde, 1965. Esse catalogo retoma em parte a obra fundamental de A.]. SERV AAS VAN ROUEN, Inventaire des livres formant La bibliotheque de Benedict Spinoza, Haia, 1988, eo de P. VULLIAUD, Spinoza d'apres sa bibliotheque, Paris, 1934. 25 Ver os estudos dedicados especificamente a esta questao. Cf. de todo modo a biblioteca de Leibniz, e a obra de R. MERTON, Science, Technology and Society in 17th Century Eng/and, 23 ed. j Nova Iorque, 1970. 26 Permiro-me remeter aqui aos livros ja citados de Frances Yates, as obras de Paolo Rossi, assim como a meu Descartes politico, cit. 27]. HUIZINGA, op. cit. (trad. italiana, p. 51). Cf. igualmente FEUER, Spinoza and the Rise of Liberalism, Boston, 1958; C. SIGNORILE, op. cit., p. 8 sp., 227 sqq., inrervem longamente a respeito, juntando uma bibliografia. 28 A.M. VAZ DIAS - W.G. VAN DER T AK, Spinoza, Mercator et Autodidactus, Haia, 1932. A Anomalia Selvagem 49 r 29 I.S. REVAH, "Spinoza et les heretiques de la communaute judeo~portugaise d' Amsterdam", in Revue d'histoire des religions, 154, 1958, pp. 173218. 30 M. JOEL, Zur Genesis der Lehre Spinozas, Breslau, 1871; H.A. WOLFSON, The Philosophy ofSpinoza, Cambridge, Mass., 2 (omos, 1934. 31 Alem das remiss6es de Gebhardt as obras de Uriel da Costa, ver.I.S. REVAH, Spinoza et Juan de Prado, Paris-Haia 1959, assim como "Aux origines de la rupture spinozienne. Nouveaux documents", in Revue des Etudes juives, 2.1964, pp. 359-431. Os Texte zur Geschichte, ja cicados, contem urn artigo extremamente importante de Harry A. WOLFSON, "Spinoza und die Religion dec Vergangenheit" (ef. principalmente p. 298), que define os teernos da polemica suscitada por Uriel da Costa no seio da Sina-goga. 0 que vale a pena notar e 0 uso que Spinoza pode fazer dessa polemica; urn usa que nao e em caso algum uma volta ao quadro determinado dos problemas entaD le-vantados (segundo toda probabilidade 0 problema da imortalidade individual da alma), mas que s6 as reroma atraves de urn deslocamento metafisico substancial da problema-tica. Na mesma ordem de ideias, deve-se tam bern acentuar que as analises geneal6gicas, que a reconstruc;:ao das filiac;:5es tematicas, entre passado e presente, entre cultura iu-daica tradicional e sistema spinozista, s6 tern interesse nesta perspectiva. 32 A esse respeito, d. sobretudo S. ZAC, L'idee de vie dans fa phifosophie de Spinoza, Paris, 1963, pp. 29-38. 33 Ibid., pp. 78-83. Mas sobre este assunto d. principalmente H.A. WOLFSON. 34 Cf. SERVAAS VAN ROUEN, op. cit., p. 132. 35 Cf. R. HONIGSWALD, "Spinoza; Beitrag zur Frage seiner problem geschicht-lichen Stellung", in Texte zur Geschichte des Spinozismus, cit., p. 83 sqq. 36 A esse respeito, as amilises de Chr. Sigwart (em sua tese sobre Spinoza, Gotha, 1886) e de R. AVENARIUS, Ueber die beiden ersten Phasen des Spinozischen Pan-theismus und das Verhaltnis der zweiten zur dritten Phase, Leipzig, 1968, permanecem validas. 37 Born comentario de S. ZAC a esse respeito, op. cit., pp. 90-93. 38 Cf. R. HONIGSWALD, op. cit., p. 91 sq., mesmo se esta ideia de sobredeter-minac;:ao do ser e muitas vezes pensada pelo autor em termos qualitativos bern mais que em termos de intensidade ontol6gica. F. ALQUIE, in Nature et verite dans fa philoso-phie de Spinoza, "Les cours de Sorbonne", Paris, 1971, em particular p. 14-15, insiste na relac;:ao Spinoza-Bruno. Ele sustenta a tese de urn "matematismo" excessivo de Spi-noza em sua definic;:ao do conjunto metaffsico - determinac;:ao vinda de Giordano Bruno e desdobrada como em Bruno em termos de produc;:ao. Nao e inutil fazer algumas ob-servac;:5es a respeito dessa interpretac;:ao de Alquie. 0 faro de colocar uma influencia do pensamento de Bruno no de Spinoza tern repercuss5es no conjunto da interpretac;:ao de Alquie: uma interpretac;:ao que considera 0 pensamento de Spinoza como 0 de uma trans-cendencia, de tipo panteista, do ser em relac;:ao a suas determinac;:5es sucessivas (subs-ra,ncia transcendente em relac;:ao aos atributos, dualismo da concepc;:ao de ideia - idea ideae -, desproporc;:ao na relac;:ao entre intelecro e reflexao, dualismo nltido entre ra-zao e paixao); em suma, no pensamento de Spinoza, a ideia de uma transcendencia do ser dominaria a metafisica, a transcendencia religiosa dominaria a etica (sabre este se-gundo pOnto, F. ALQUIE nos deu outra serie de aulas: Servitude et liberte selan Spino-za). E importante insistir em tais interpretac;:5es (criticadas com extremo rigor na obra de Martial Gueroult), para ver em que sentido pode-se pensar numa influencia de Gior-dano Bruno: no da manutenc;:ao de urn horizonte religioso irredutivel, 0 do naturalismo religioso - segundo Alquie, essa permanencia do pensamento de Bruno, do pensamen-ro do Renascimento, leva 0 pensamento de Spinoza a refluir completamente para os 50 Antonio Negri dualismos cartesianos, ao contrario de acabar com eles. Claro esta que uma interpreta-c;:ao dessas nao cabe em minha leitura de Spinoza (tampouco, alias, na de Bruno). 39 A ideia de uma estreita conexao entre 0 pensamento de Spinoza e 0 de Telesio e de Campanella vern de CASSIRER (Das Erkenntnisproblem in der Philosophie und Wissenchaft der Neuren Zeit, nova ed. Darmstadt, 1973, t.lI, pp. 79-84). Convicc;:ao retomada essencialmente de W. Dilthey, que considera a filosofia de Spinoza como a "condusao" da grande epoca do naturalismo do Renascimento. 40 Ver em particular a opiniao expressa a esse respeito por DJ VONA nos verbe-tes que escreveu para a Storia della filosofia, cit., de DAL PRA. Pode-se ter"confianc;:a em Di Vona, diante de seu profundo conhecimento ao mesmo tempo da filosofia de Spinoza e da filosofia da segunda escolastica. 41 Cf. as bibliografias de Spinoza, e, de qualquer modo, DI VONA, op. cit., p. 559560; A. RAVA, Studi su Spinoza e Fichte, Milao, 1958, p. 148, evidenciou bastan te esse encontro. 42 ]. FREUDENTHAL, em sua obra fundamental Spinoza und die Scholastik, Leipzig, 1886, insistiu longamente sobre os ecos da segunda escolastica no pensamento de Spinoza. Tematica longamente retomada por Dunin-Borkowski. 43 Ver infra, cap. V spp. 44 M. GUEROULT, Spinoza. Dieu (Ethique, 1), Paris, 1968, pp. 9-10. E preciso tambem ter sempre em mente 0 segundo volume de Gueroult: Spinoza. L 'ame (Ethique, 2), Paris, 1974. Como ja notei (supra, n. 38), ao evocar os trabalhos de Ferdinand Alquie, encaixa-se aqui uma questao decisiva para toda leitura de Spinoza - a respeito da in-terpretac;:ao da relac;:ao Spinoza-Descartes. E evidente que voltaremos a este problema. Mas minha citac;:ao de Gueroult e minha concordancia fundamental com sua leitura da relac;:ao Spinoza-Descartes me imp5em aqui urn esclarecimento - pelo menos biblio-grafico. Na interpretac;:ao de Alquie, ja vimos, a ideia de subsrancia, enquanto natura naturans, implica a permanencia em Spinoza de urn certo dualismo infra-sistematico. o que tern conseqiiencias na gnoseologia e na etica. Gueroult opoe a isso uma recusa de principio. Seu comentario da Etica tern a ambiiao de evidenciar 0 imanentismo ab-soluto e a 16gica cerrada do panteismo spinozista. Veremos mais adiante os limites da interpretac;:ao de Gueroult. Mas tenho de dizer que pessoalmente concordo inteiramen-te com essa posic;:ao, com esse afastamento de Descartes. Depois da publicac;:ao do pri-meiro volume de Gueroult, M. DOZ (Revue de mitaphysique et de morale, 1976, n. 2, pp. 221-261) retomou a critica de Alquie, voltando a atacar a hip6tese, emitida por Gueroult, de uma unidade absoluta do projeto spinozista. Doz insiste em particular no fato de que Spinoza procederia atraves de uma serie de paradoxos, e colocaria "pro-gressivamente verdades parciais, deixando lugar a hip6teses que serao progressivamen-te eliminadas". Coloca alem disso 0 problema do estatuto da ontologia spinozista (este e efetivamente 0 problema central), para sustentar a tese de urn "vazio dessa ontologia" e portanto de uma necessidade, para ela, de ser "preenchida pela teologia". Gueroult estaria enganado quando afirma que 0 sistema spinozista possui uma 16gica interna, cujo desdobramento e suficiente para superar de maneira end6gena e estrutural todas as di-ficuldades que podem se apresentar. Com efeito, essas dificuldades seriam insuperaveis, na medida em que 0 ser spinozista seria definido segundo urn procedimento de alter-mincia: ora transcendencia de tipo naturalista, ora vazio de tipo cartesiano: s6 a teoIo-gia, ou seja, uma chave externa, permitiria portanto superar as dificuldades da ontologia spinozista. Seria melhor entao a ideologia razoavel de Descartes, que faz das mesmas dificuldades uma chave interna ao sistema, inscrita em seu dualismo originario. Ginette DREYFUS ("Sur Ie Spinoza de Martial Gueroult: reponses aux objections de M. DOZ", A Anomalia Selvagem ;~"" ,. ~ ,; .; -....) J ~ '..:' _, 51 foWgi! I: ,~ ~!.i j:' d'"'! ,\ , ~'~'\~ r' r in Cahiers Spinoza, n. 2, pp. 7-51) na minha opiniao respondeu claramente a Dr 69 Este e urn dos temas fundamentais da obra de MACPHERSON, La theorie politique de /'individualisme possessif, trad. francesa, Paris, 1971. 70 Ver, entre as obras recenres, a reconstrur;ao do nascimento da ideologia do mercado feita por C. BENETII, Smith. La teoria economica della societa mercantile, Milao, 1979. 71 P. MACHEREY, Hegel au Spinoza, Paris, 1979: relatamos aqui a tese funda-mental da obra de Macherey (a qual teremos que voltar varias vezes); tese que tern como ponto de partida diversas observac;oes de L. AL THUSSER (principalmente nos Elements d'autocritique, Paris, 1973). 54 Antonio Negri l Capitulo II A UTOPIA DO CIRCULO SPINOZISTA 1. A TENSAO DA IDEOLOGIA Korte Verhandelingvan God de Mensch en deszelfs Welstand, 1660: pode ser que seja totalmente insoluvel 0 problema de critica filos6fica le-vantado peto texto do Curto tratado sobre Deus, 0 homem e sua bem-aventuranral. Entretanro, quero levar em conta este texto: nao como urn primeiro rascunho da Etica, e claro - ainda que haja muitos elementos de continuidade entre nosso texto e as primeiras proposi~6es desta obra -, nem tampouco como "urn texto irremediavelmente danificado,,2, mas como urn importante documento sobre uma situa~ao ideol6gica partilha-da por Spinoza e aqueles que, entre Amsterda e Rijnsburg, fazem parte de seu drculo - e intervem provavelmente no texto como devo~ao confusa, assim contribuindo para desfigura-lo. Uma situa~ao ideol6gica que se ca-racteriza por uma decisao te6rica deliberadamente pantefsta ou antes -nesse quadro - quase mfstica. A primeira parte do Curto tratado e, desse ponto de vista, exemplar3: e a constru~ao, por eta pas sucessivas, da identidade substancial do obje-to. Por eta pas sucessivas4: uma concep~ao da divindade como causa sui, como imanencia absoluta, nos Didlogos5: a polemica contra toda concep-~ao antropom6rfica da divindade, se qualificarmos como antropom6rfico o fato de colocar, sob uma forma ou outra, uma defini~ao metaf6rica ou anal6gica do ser - isto no capitulo VII, que constitui talvez outra cama-da fundamental do text06; tres momentos que se seguem: a identidade absoluta, a priori, da essencia e cia existencia de Deus (cap. 1-11)7, a assi-rnila,ao da ideia de Deus e da ideia de infinito positivo (cap. III-VI)8, e, para terminar, a essencia de Deus e a essencia da Natureza que encontram sua identidade por meio da identidade dos atributos que constituem to-das as duas (cap. VIII-IX)9. Mas essas etapas nao se sucedern senao na ordern cronol6gica da cornposi,ao: de urn ponto de vista l6gico nao hi etapas, mas somente a circula~ao, a fluidez de uma mesma substancia, vista sob diversos angulos de abordagem, mas incansavelmente repetida em sua central ida de, em sua infinidade positiva. 0 ponto de vista da filosofia se encontra na substancia, em sua percep~ao e constru~ao imediata. E urn contrato onto16gico que esra descrito aqui, uma rela~ao que ro~a a inten-sidade mfstica. "Tudo aquilo que compreendemos clara e distintamente como pertencendo a. natureza de uma coisa, podemos afirma-Io igualmente A Anomalia Selva gem 55 rr r com verdade sabre essa coisa. Ora, que a existencia pertence a natureza de Deus, podemos compreender isso clara e distintamente. Ergo ... " "As essencias das coisas sao ab aeterno e permanecerao imutaveis por roda eternidade. A existencia de Deus e essencia. Ergo ... "lO. Chamou a aten\=ao de todos os comentadores a excepcional paten-cia desse primeiro Spinoza: talvez seja justamente isso 0 que nos garante que se pode utilizar 0 Curto tratado como urn rexto de Spinoza. Cassirer frisa aqui que "0 metoda geral da reflexao filosofica, que havia sido 0 ter-reno comum de radas as doutrinas, para aiem de seus conflitos, cede lu-gar a urn modo de pensamemo totalmente diferente. A continuidade na colocar' ! Sao estes os fatos: uma utopia positiva, proposta com excepcional 'potencia, mas que balanr I. a gloria, a avareza, sofrerei as desagradaveis conseqiiencias disso, e claro ~ quer eu mesma os arne ou nao; mas tal nao se da se meu unico objetivo e 0 de poder fruir da uniao com Deus e pfoduzir em mim ideias verdadei-ras e fazer com que meu proximo partilhe dessas coisas. Pais rodos pode-mos igualmente participar dessa salva~ao, como e 0 caso quando ela exci-ta neles 0 mesma desejo que em mim e faz assim com que a vontade se confunda com a minha, e que formemos uma 56 e mesma natureza onde sempre reina 0 acordo .. 31 . A indistinta tensao da utopia do drculo spi-nozista vai mais aiem da intensidade metafisica que the da suas conota-~6es religiosas e filos6ficas: a utopia que os homens produzem e tambem a utopia deles mesmos, da suavidade da comunidade da qual participam coletivamente aD mesma tempo em que a vivem. Essa humanidade imediata de uma participac;ao coletiva na utopia qualifica a propria proje~ao teori-ca32, 0 ponto de vista da ontologia agora e identico aD ponto de vista da salva~ao, da comunidade, do ardor que leva a construir. E fica claro que depois disso qualquer referencia ao absoluto da negatividade se tarna su-perflua, charne-se ela mal ou diabo33 ! No campo dessa suavidade, dessa plenitude de urn ser do qual cada urn participa, e 0 proprio conceito de absoluto, nao digo do negativo, mas ate do positivo, que pareee mesma se dissipar. 0 caminho da sfntese entre conhecimento e liberdade se abre sobre 0 dispositivo onto16gico de causa sui, e, se na teoria do conhecimento este recolhimento leva ao metodo, esse mesmo recolhimento aqui faz pres-sao no sentido de uma teoria da potentia, da expansao do ser pratico. 0 desenho que se come~a a entrever e 0 da dilui~ao do absoluto sobre a po-tencia construtiva, no conhecimento met6dico como na filosofia da prciti-ca. Ainda resta urn longo caminho para percorrer, mas as premissas nao permitem que seja outro. Com tudo isso, 0 Curto tratado e urn texto de panteismo. Tal e sua tonalidade fundamental. Prova disso e ainda que, na Correspondencia desse period034, os temas fundamentais do panteismo reaparecem, sao retoma-dos tendo, se isso e possivel, ainda mais intensidade que no Curto trata-do. Mas, ao avaIiarmos a significa~ao global dessas premissas no pensa-menta de Spinoza, nao devemos entretanto esquecer que, se 0 pantefsrno termina sendo no seculo XVII uma filosofia que perdeu a significa~ao uto-pica que 0 Renascimento the dera (Giordano Bruno morreu na fogueira, a utopia esta morta), todavia, na situa~ao holandesa e no espirito do cfr-culo spinozista, ele ainda constitui uma base de resistencia a derrota. Base insuficiente, sem duvida alguma. Mas consideravel como possibilidade para ir para frente. E preciso atravessar 0 panteismo. So assim e que se pode ultrapassa-lo. Assim e que come~amos a ler desde 0 Curto tratado algu-mas premissas dessa nova estrategia. Onde? ja vimos. Em que sentido? Aqui tam bern, corne~amos a perceber urn caminho. De "causa sui" a "potentia" 60 Antonio Negri i I I l e a "methodus". Ultrapassar 0 pantefsrno implica sua reabertura. Mas ele e plenitude de ser: sua reabertura s6 pode ser uma construr fazer em procurar captar a maneira especifica como 0 TRE aprofunda a ~ utopia do cfrculo spinozista. Precisamos entretanto de Dutra considerac;ao preliminar. Pais se e verdade que 0 ponto de vista ontologico permanece fundamental, nem por isso emenDS verdade que aqui Spinoza "nitidamente tama posit;:lo no debate referente ao metoda de conhecimento, tao caracteristico do pensa-menta do seculo XVII,,4o. Vejamos 0 que Spinoza escreve a Oldenburg: "Em seguida me perguntais que enganos vejo nas filosofias de Descartes e de Bacon. Nissa, embora eu nao tenha 0 habira de assinalar os erras dos Dutros, quefa entretanro aceder a vassa desejo. Sua prime ira e maior in-suficiencia e ir perder-se longe demais do conhecimento da causa primei-fa, e da origem de radas as coisas. 0 segundo erro e nao conhecer a ver-dadeira natureza da mente humana. 0 terceiro, nunca terem determina-do a verdadeira causa do erro. Que seja absolutamente necessario 0 ver-dadeiro conhecimento desses tres pontos e algo que so os homens despro-vidos de qualquer paixao pela ciencia podem ignorar,,41. 0 esquema da resposta, entao, e simples: Spinoza remete antes de mais nada ao funda-mento ontologico da teo ria do conhecimento, ao fato de que a logica de-pende da causa primeira - no que se refere a Descartes, e preciso acres-centar que em sua filosofia a mente se subdivide abusivamente em diver-sas fun~oes, e se subtrai assim ao determinismo da causa; no que se refere a Verulanio, a mente igualmente procura se subtrair ao determinismo on-tologico, quando se forja uma representa~ao das coisas ex analogia suae naturae" e nao ex analogia universi". A crftica e tao clara num caso quanta no outro: mas, examinando bern, enquanto as cartas desse perfodo insis-tern na polemica anticartesiana, que chega a conclusoes inteiramente ra-dicais42, a discussao da teo ria baconiana do conhecimento e muito mais aberta e disponfvel a outras influencias do racionalismo empirista, hob-besiano em particular. Influencias efetivas e de cerra consistencia. 0 que nao constitui urn paradoxo, se quisermos recordar caracteristicas huma-nistas e construtivas da utopia do circulo spinozista - daquela atmosfera que 0 levou ao tao feliz encontro com Oldenburg e com 0 primeiro proje-to cientifico do colegio londrino43. Longe de ser urn paradoxo, ao contra-rio, is so corresponde plenamente ao esquema construtivo e logico do pro-jeto ontologico tal como ja foi esboF . ' , , veL Donde ja se pode ver que quero dirigir todas as ciencias para urn uni-co objetivo e urn unico fim, a saber, 0 de chegar a essa suprema perfei~ao humana de que falamos; assim, tudo aquila que, nas ciencias, nao nos faz avanc;ar em diresua for~a inata, forma para seu uso instrumentos intelectuais, com os quais adquire outras for~as para outras obras intelectuais e gra~as a essas obras forma outros instrumentos para si mesmo, ou seja, 0 poder de levar avante a investiga~ao: assim ele vai avan~ando de grau em grau ate atingir 0 cume da sabedoria. Ora, que assim ocorra com 0 entendimento, e 0 que se ve facilmente, contanto que se compreenda tanto 0 que e 0 metodo da busca da verdade quanto 0 que sao esses instrumentos inatos, unica coisa de que ele precisa para fabricar outros a fim de prosseguir. 59 Que dizer mais? Que 0 estatuto ontol6gico da utopia spinozista mos-trou-se aqui no maximo de sua potencia? Para que? Para se convencer dis-so basta ler os para.grafos que se seguem, onde 0 realismo do conhecimen-to se libera de qualquer dependencia em relar e justamente na realiza~ao do programa que 0 desvio entre estrategia e realidade se torna cada vez mais nftido. 0 fundamento do procedimento construtivo do metoda, ja vimos, e a potencia do processo de adequa~ao. Mas sera a ideia de adequatempo crfticos e construtivos, que teremos oportunidade de voltar a en-contrar e aprofundar ao estudarmos 0 pensamento do Spinoza da maturi-dade. Mas aqui 0 projeto se bloqueia, sofre urn desvio. E e de se notar que urn bloqueio assim se verifica, no essencial, todas as vezes que a comple-xidade do real penetra tao profundamente na alma que faz desta uma tu-multuada sintese psiquica, rigida e indissociavel, que poe em xeque qual-quer tentativa de nela isolar fun~6es superiores. 0 metodo de distin~ao tern entao de se afastar: ja. nao e mais 0 problema do peso da alma que e leva-do em consideraas coisas. A estrategia sofreu urn desvio: e preciso refletir. Uma pausa. A quem insiste para que ele publique 0 TRE, invocando a liberdade holan-desa como garantia da possibilidade de publica,ao, Spinoza responde com amabilidade: na realidade, as mesmas cartas nos mostram que, nesse caso, a nao-publicac;ao do TRE nao e uma questao de prudencia77 Isso persis-tira ate a carta a Bouwmeester de 1666, em que Spinoza encerra rapida-mente seu discurso sobre 0 metodo remetendo seu interlocutor a uma afir-mac;ao fundamental: "Segue-se daf que as percepc;oes claras e distintas que formamos dependem somente de nossa natureza e de suas leis determina-das e permanentes, ou seja, de nossa potencia absolutamente nossa,,78. Mas isso significa que a concepc;ao do ser mudou: ele se enuncia como poten-cia. Uma transformac;ao da fundac;ao ontologica permite-nos agora dizer que "a definic;ao do entendimenro e absolutamente clara". 3. A ESPESSURA ONTOL6GICA Os Principia da filosofia de Descartes, demonstrados segundo me-todo geometrico, e acompanhados por urn Apendice que resume reflex6es metaffsicas: os Cogitata metaphysica, sao publicados em 1663 com urn Prefacio de Ludwig Meyer79. Parece ser uma obra secundaria: e a unica editada e assinada por Spinoza em vida, e e fruto de uma serie de aulas dadas a urn cerro Casearius80. Mesmo se 0 sao muito menos do que sus-tenta Meyer em seu Prefaci08\ os Principia sao no entanto fieis aos Prin-cipes de Descartes, cujas gran des linhas acompanham. Quanto ao meto-do geometrico de exposic;ao utilizado, seu carater artificial nao pode noS escapar - por uma razao que me parece clara: quanto mais Spinoza reto-rna fielmente 0 conteudo teo rico do pensamento de Descartes, rna is 0 me-todo geometrico se revela inadequado e deslocado. Voltaremos a isso. Obra secundaria, entao? Nao parece que seja. Com efeito, se de urn ponto de vista biogrcifico essa obra e apenas 0 produto de uma oportunidade que nem sequer foi procurada, seu lugar na genese do pensamento de Spinoza e na hist6ria do drculo de qualquer modo e extrema mente importante. Ela constitui efetivamente 0 momento de reflexao critica, a pausa que se tor-nou necessaria pel a crise da tentativa metodol6gica do Tractatus de In-tellectus Emendatione. E verdade que ji hi no TRE - principalmente nas notas enos acn!scimos - freqiientes remiss6es a Philosophia: eo objeti-vo declarado dessas remissoes e sempre 0 de contribuir para definir novas potencialidades ontologicas, destinadas a renovar a abordagem cognitiva82. E verda de, alem disso, que a primeira redac;ao da Etica ja esta em prepar~ (e as primeiras proposic;6es do Livro I tern uma solida base ontologica)83. E no entanto, e preciso insistir nisso, os Principia, e sobretudo os Cogitata, 72 Antonio Negri i l constituem urn momento essencial: realmente, e aqui que se especifica 0 conteudo da pausa tao necessario ao avanc;o do pensamento de Spinoza - 0 polo ontologico da alternativa panteista ganha urn relevo critico e uma posic;ao de eminencia teorica decisiva em relac;ao a tendencia idealista. Claro e que nao devemos esperar urn nivel de autocritica que perturbe 0 curso continuo da maturac;ao teorica de Spinoza. A autocritica visa apenas aos resultados, ou antes a incompletude da teoria do conhecimento, que ela vincula a teoria do ser; trata-se de urn processo de pensament6 que ape-nas aflora a possibilidade de uma abertura sobre a potencia desdobrada do ser. PreparaMas nao antecipemos. Voltemos a nosso ponto. 0 que reter dos Prin-.. cipia? Pouca coisa que ja nao tenha sido vista no Curto tratado, quanta a primeira parte, que retoma a parte metaffsica dos Principes de Descartes: insistencia particular sabre a teoria do erro e da vontade, sobre as defini-~6es de liberdade, etc.88: sabemos em que sentido. Na segunda parte, consta-tamos que Spinoza assimilou muito bern a fisica cartesiana: tudo isso e im-portante, assim como as criticas emitidas por ele, ao menos a titulo de anuncio dos desenvolvimentos essenciais da "ffsica" do Livro II da Etica89 Se ficas-semos nisso, entretanto, nao retirariamos nada da leitura dos Principia: num confronto expHcito com Descartes, sao eles uma retomada dos temas fun-damentais e fundadores do Curto tratado - nada alem de urn inflexiio do eixo tearico spinozista. Que chega quase a se romper nos Cogitata, diante das dimens6es tomadas por essa inflexao. De improviso, mas com extrema decisao, 0 pensamento se dirige diretamente sobre 0 ser e poe em funciona-mento uma maquina de guerra contra todas as formas possiveis de idealis-mo. A autocrftica fica exposta a luz do dia. E com isso ficam novamente a descoberto as potencialidades materialistas da critica spinozista. Do que se trata? De nada rnais do que 0 seguinte: os Cogitata con-sideram desde 0 infcio que 0 problema central e 0 da defini"iio do ser90 Mas tern uma maneira peculiar de faze-Io: temos de urn lado uma definic;ao do ser em si mesmo (0 que se concebe clara e distinramente como 0 que e ne-cessario ou possivel), e de outro uma definic;ao negativa, a distinc;ao entre ser real e ser irre-al, ficc;ao, quimera, ser de razao. Ora, e preciso fazer caber nessa segunda grande categoria 0 conjunto das formas de pensamento com as quais opinamos, explicamos, imaginamos e memorizamos. A apreensao do verdadeiro ser deve ser radicalmente distinta de tudo 0 que nao serve para a apreensao do ser em sua imediatez. A tradic;ao da teo ria do conhecimen-to tal como se estabilizou em torno dos grandes fil6es, 0 platonico e 0 aris-totelico, produz, diante da reta razao, puros nomes. Nao e que esses nomes sejam inuteis; 0 siio na forma sob a qual foram hipostasiados pela tradi"iio da teoria do conhecimento; deixam de se-Io assim que sao trazidos de volta a func;ao que e a sua, sem contestac;ao: designar qual ida des da essencia real, com sua func;ao de "nomes comuns". Nomes comuns e nao universais. A unidade e a materialidade imediata do ser nao permitem outra abordagem. Nunca, na histaria da metaffsica, 0 processo de demoliC;ao do universal che-gara tao longe: do universal e da pr6pria filosofia. Os instrumentos dessa demolic;ao sao novamente, em grande parte, os do ceticismo, mas servem para afirmar a plenitude do ser e de sua imediatez. Urn mecanismo mistico, de definic;ao negativa da essencia suprema? Nao 0 diria91. 0 mecanismo de pensamento e antes aquele que vimos no TRE, aquele que definimos em referencia ao ascetismo burgues e as suas motivac;6es praticas: poderfamos ir mais longe, e dizer que e urn mecanismo que lembra 0 caminho negativo 74 Antonio Negri e cdtico que canduz da duvida a afirmac;ao cartesiana do "eu penso" - salvo que aqui 0 processo e animado pela posic;ao origimiria do ser total e com-pacto, enuncia diretamente uma recusa de qualquer saida idealista. Nessa perspectiva, os Cogitata aprofundam a critica de toda ideia de transcendental na ordem do conhecimento, cuja substancialidade ontol6gica negam, qual-quer que seja a maneira como possa ser enunciada. Nomes inessenciais sao essencia e existencia, realidade e possibilidade, e tambem verdade e erro: names inessenciais todas as vezes que pretendam uma determina~ao onto-16gica autonoma que nao os qualifique como puros modos do ser total92. Novamente urn aspecto selvagem do pensamento de Spinoza: a maneira como e realizada a destruic;ao de todo transcendenta193. Novamente a tensao do drculo spinozista, mas finalmente subtraida a qualquer tentac;ao neopla-tonizante, a qualquer pensamento da emana"iio e da degrada"iio do ser. Niio, o pr6prio ser e dado em sua interna, necessaria tensao: entre totalidade e modalidade, niio hi media"iio, ha apenas uma tensao, nao hi subsun"ao abstrata, transcendental, ha apenas a tensao do pr6prio ser: "a coisa e a ten-dencia pelo qual a pr6pria coisa tende a perseverar em seu ser,,94. E urn conceito de "inercia" do ser que e introduzido aqui (e na segunda parte dos Cogitata 0 proprio conceito de vida e reconduzido a ele)95, conceito extre-mamente importante porque exprime uma primeira definic;ao adequada da ideia de "potentia", uma primeira aplicac;ao materialista da fun~ao de "causa sui" a multiplicidade modal, e porque assim fundamenta na totalidade con-creta do ser apreendido sua recusa de qualquer ilusao transcendental. Se, como com razao ja se fez96, procurar-se 0 quadro cultural a que se vinculam as Cogitata, nao se podera deixar de reconhecer a neo-esco-lastica reformada. Mas, antes do que procurar filia,,6es e determina,,6es ambiguas, cabe aqui captar imediatamente 0 sentido de oposic;ao do pen-samento de Spinoza. Na neo-escoIastica, 0 pensamento revolucionario tern de ser dominado em temos reformisticos: a continuidade do ser e media-tizada pelo conceito de urn ser analagico, cujo transcendental essencial resulta ser a possibilidade - a ordem e a eminencia do ser tomam entao uma for-ma que permite urn movimento de englobamento na hierarquia da imagem da dominaC;a097. Em Spinoza, a resposta e clara: 0 pr6prio conceito de pos-sibilidade e rejeitado, porque qualquer concepc;ao ana16gica do ser e rejei-tada. 0 ser e univocidade. Este ser univoco nao e traduzivel em ser ana16gico no terreno do conhecimento: mas, sempre no terreno do conhecimento, tam-bern nao pode ser mantido como ser univoco. Ou seja, a analise real nos mostra urn ser univocamente determinado que s6 pode ser percorrido como tal no terreno da ontologia, e portanto da adesao a totalidade. No terreno do conhecimento, apresenta-se como ser equivoco: qualquer homologia torna-se impossivel. Por isso e que a tensao que se libera aqui s6 pode ser resolvida no terreno da pratica: da potencia, dentro da determina~ao onto-A Anomalia Selvagem 75 "I':! logica enquanto ta198. De urn so golpe, Spinoza destroi a representa~ao esco-Iastica do ser analogico e a idealista da univocidade pensada: a neo-escolastica que reforma a imagem do poder, e 0 cartesianismo e 0 idealismo que fo-gem das responsabilidades da transforma,iio. Estamos aqui diante da mais completa exposi~ao da utopia do circulo spinozista99 Ela encontra nos Cogitata sua formula~ao mais explfcita e mais elaborada, depois da indetermina,iio da abordagem do Curto tratado e da fuga para 0 idealismo do TRE. Nos Cogitata, a utopia e redefinida na for-ma do paradoxa ontologico do ser e da modalidade, da univocidade e da equivocidade. Eo mesmo tipo de tensao que encontraremos em toda a pri-meira redac;:ao da Etica. Naturalmente, a colocac;ao aqui e muito mais gros-seira, mas e extremamente importante captar a genese desse paradoxo on-tologico e seu afinamento posterior. 0 momento essencial dessa genese parece ser a critica nominalista, empirista e as vezes cetica do universal, ou seja, de qualquer modo de conhecimento que queira recuperar urn vinculo gno-seologico com a realidade. A critica do universal constitui entaD 0 momen-to central do movimento genetico da analise spinozista. Mas e preciso no-tar tam bern a recuperac;ao de Descartes num sentido anticartesiano. Pois 0 mecanismo da duvida nao e utilizado na perspectiva de uma funda12 M. GUEROULT, op. cit., I, pp. 916. A observalfao de Gueroult, naturalmente, e preciosa. Mas 0 pOnto de vista global, estrutural de sua analise talvez nao Ihe permita captar plenamente a determinidade da apreensao do ser. A esse respeito, podemse usar com proveiro as observalfoes, evocadas acima, de Pousseur, na~ contra, como Pousseur freqiientemente procura fazer, mas dentro da interpretalfao de Gueroult, para proeurar justamente qualificar essa inflexao. E nao se podetia negar aqui a presenlfa de urn aspec to mistico. Ou talvez "estetico" - caracteristica essencial da filosofia burguesa em seu periodo de genese, segundo ADORNO (refirome antes de mais nada a seu Kierkegaard). Sobre esse ponto, ver tambem as anilises de M. HORKHEIMER em Die Anfiinge. Quais sao as conseqiiencias de uma posilfao estetica numa operalfao de definilfao do ser? As que se determinam na tentativa de definir a atividade metafisica como atividade de desvela mento. A estetica opera no seio da genese do pensamento burgues sob a forma acabada de entidade 16gica a ser desvelada, de realidade a ser descoberta. Quando falamos da inten~ sidade mitica e mistica da intuilfao do circulo spinozista, referimo~nos, naturalmente, a essa figura geneal6gica da ideologia burguesa. Devemos fazer implicitamente 0 esforlfo de acompanhar a hist6ria dessa ideologia e analisar seus multiplos dsenvolvimentos, nao apenas para compreender essa fase do pensamento de Spinoza, mas ainda e principal mente para compreender como ele depois romped. com esse tipe de posijfoes. Urn unico exemplo: pensemos no conteudo estetico de urn conceito como 0 de "vontade geral", autentica sintese do particular e do universal segundo os preceitos da estetica burguesa. Pois bern, essa ideologia perniciosa esta tao presente no desenvoivimento heroico dessa primeira ideologia spinozista quanta esra ausente do pensamento de Spinoza chegado a maturidade (ou antes, presente nele sob uma forma negativa, como objeto ao qual aplicar a critical. 0 pensamento da constituilfao material do ser rompe com a continuidade mi~ tico~estetica da genese da ideologia burguesa, desviandose assim de todo projeto de "leitura critica", como critica do ser atraves de urn desvelamento negativo (por onde se entra jus tamente na filosofia da crise da burguesia: ver novamente 0 Kierkegaard de ADORNO). 13 Torno a remeter as obras citadas de Sigwart e Avenarius. 14 G., I., p. 18; P., pp. 1719. 15 G. DELEUZE, op. cit., p. 22, com uma referencia a Merleau-Ponty. 16 L. Kolakowski, op. cit., pp. 227~236; paginas extremamente importantes para quem procurar ter uma visao de conjunto das alternativas vividas pelo pensamento rep ligioso do seculo XVII holandes. Desnecessario acrescentar que as observalfoes de Ko~ lakowski sao tambem muito importantes do ponto de vista da sociologia da religiao. 17 CT (G., I, p. 18, nota; P., p. 18, nota). 18 CT (G., I, pp. 46~47; P., pp. 39AO). A respeito dessa introdulfao da teoria dos atributos, DI VONA, op. cit., p. 562, faz a seguinte observalfao: "Esta doutrina, que pode ser considerada como a divida mais importante de Spinoza para com a tradilfao neoplatonica, chega ate ele atraves de multiplos intermediarios". 19 Cf. L. ROBINSON, Kommentar zu Spinoza's Ethik, Leipzig, 1928, p. 63 sp., 150 sq.; M. GUEROULT, op. cit., vol. I, pp. 426-427. 20 CT (G., I, pp. 47-48; P., pp. 40-41). 21 GUEROULT, op. cit., vol. I, p. 345 sp., 564 sq., analisa a fundo a historia das expressoes "natura naturans" e "natura naturata", em referencia sobretudo a escolistica da epoca de Spinoza. 22 CT (G., I, p. 61; P., p. 51). 23 Para uma analise mais aprofundada desta tendencia propria ao pensamento de Spinoza, estudada bern alem do ambito do CT, petmito~me remeter a G. DELEUZE, op. cit., cap. IIIV. 78 Antonio Negri 24 A. KOYRE, no comentario de sua edi'Jao billngiie (frances~latim) do Tractatus de Intellectus Emendatione, Paris, 1964, p. 99, insiste particularmente nessa questao, sobre a possibilidade de uma influencia dos rosa~cruzes ("Este programa de alfao e es~ pantosamente parecido com os programas dos grupos rosa-crucianos"). Cf., ibid., as referencias a literatura neo~estoica. 25 CT (G., I, p. 54 sp.; P., p. 45 sq). 26 CT (G., I, pp. 4043; P., pp. 3537) (cap. VI: "La predestination divine"). So~ bre esta questao, d. M. GUEROULT, op. cit., pp. 576~577. 27 CT (G., I, pp. 114-121); P., pp. 90-95. 28 M. GUEROULT, op. cit., pp. 484-485. 29 G. DELEUZE, op. cit., p. 40 e, de maneira mais geral, 0 conjunro dos caps. IIIV. 30 CT, cap. V-XIV (G., I, pp. 114-121; P., pp. 52-64). 31 CT (G., I, p. 112; P., p. 89). Mas, sobre esses temas, d. tambem, na segunda parte, os caps. VI, XIX e XXVI. 32 CT (G., I, pp. 112113; P., p. 89). Falfo alusao ao famoso trecho: "Resta~me ainda, para terminar, dizer aos amigos para quem escrevo ... " 33 Aplicar esta observa'Jao particularmente ao curioso capitulo XXV da segunda parte do CT ("Dos demonios" (G., I, P. pp. 112-113; P., p. 85). 34 Ver as Cartas I, II, III e IV, a que voltarei a me referir em breve. 35 De ora em diante chamado TRE. 36 E. CASSIRER, op. cit., p. 87. Mais prudente, F. ALQUIE, Nature et verite ... , cit., pp. 23~27, fala simplesmente de urn "grande progresso". 37 Ibid., p. 11. 38 G. DELEUZE, op. cit., p. 76 sq. 39 Como nos mostra a Correspondencia, SPINOZA trabalha no TRE pelo me~ nos ate 1666. Voltaremos as razoes de sua nao~publica'Jao. 40 P. DI VONA, op. cit., p. 564. 41 Carta II a Oldemburg (G., IV, p. 8; P., p. 1062). 42 E principalmenre nas Cartas II e IV, a respeito mais particularmente da tematica da vontade (1iberdade~determinismo) e da definilfao da axiomatica que ele procura aprofundar, que a polemica de Spinoza contra 0 pensamento cartesiano parece avan Ifar muito. Cf. tanto F. ALQUIE, Servitude et Liberte ... , cit., p. 10 sq. quanto J. BERN~ HARDT, art. cit., p. 59. Alquie ve no infcio do TRE acentos cartesianos do estilo "mo~ ral provisoria". Ja vimos que se trata de uma ronalidade comum aos autores daquele seculo, sern ser especificamente cartesiana. 43 Encontram~se informa'Joes sobre Oldenburg e a Royal Soeiety na Corresponden. cia. Cf. alem disso as relalfoes entre Spinoza e Boyle e a discussao que se abre entre eles sobre a fisica dos liquidos. Sobre as rela'i I i' :,111' i'iii:: ~ to-me remeter ao que esta dito em meu Descartes politico, assirn como it bibliografia comentada que e1e contern. Ver aiem disso a contribui~ao extremamente importante de J. BERNHARDT., art. cit. E preciso particularmente retomar aqui duas series de anali-ses feitas nesse arrigo. A primeira (pp. 59-65) (rata da importancia decisiva da adesao de Spinoza ao metoda geometrico de Hobbes. Bernhardt faz muitas referencias a Hobbes, cuja Examinatio considera como texto fundamental. Ainda a esse respeito, ele tam bern evoca, assim como Gueroult alias, a (eoria geometrica de Savile. Uma segunda serie de analises procura provar que hi continuidade entre 0 procedimento da geometria gene-rica e 0 especifico da metafisica spinozista da substancia. A abordagem de Bernhardt nos dois casos e exrremamente convincente. 47 TRE, paragrafos 1-25 (G., II, pp. 5-12; P., pp. 102-110). 48 Sobre este ponto ver as Notas de A.KOYRE, op. cit., aos paragrafos 1 e 13 . , TRE (G., II, pp. 8-9; P., pp. 106-107). 50 TRE (G., II, p. 9; P., p. 107).Ver a Nota de A.KOYRE, op.cit., ao par. 17. 51 TRE, par. 1-10 (G., II, pp. 5-7; P., pp. 102-105). 52 TRE (G., II, p. 8; P., pp. 105-106). 53 TRE, par. 18-19 (G., II, pp. 9-10; P., pp. 107-108). 5. TRE, par. 20-25 (G., II, pp. 10-12; P., pp. 108-110). 55 Entre as obras recentes, d. M. GUEROULT, op. cit., t. II, pp. 593-608 (analise alias notavel). Para uma lista de referencias, d. A. KOYRE, op. cit., Nota aos par. 1819. 56 TRE (G., II, p. 12; P., p. 110). 57 TRE (G., III, p. 13; P., p. 111). 58 Ver as paginas que dediquei a metafora em Descartes em meu Descartes, as sim como a bibliografia contida naquele volume. 59 TRE (G., II, pp. 13-14; P., pp. 111-112). 60 TRE, par. 33-36 (G., II, pp. 14-15; P., pp. 112-113). 61 GUEROULT exprime sua posi'Sao quando confronta as diversas formas da teoria do conhecimento em Spinoza. Ver a n. 55 deste capitulo. E naturalmente em DELEUZE, op. cit., cap. VIII, que se pode ver longamente exposta essa tese do metodo como presen'Sa, em superficie, no progresso da ideia da adequa'Sao. 62 TRE, par. 37-42 (G., II, pp. 15-17; P., pp.I13-115). 63 TRE, par. 43-46 (G., II, pp.1718; P., pp. 115-116). 64 TRE, par. 47-48 (G., II, p. 18; P., pp. 116-117). 65 Cf. P. MACHEREY, op. cit., p. 43094. 66 TRE (G., II, p. 18; P., p. 117). 67 TRE, par. 49 (G., II, pp. 18-19; P., p. 117). 68 TRE, par. 50 sg. (G., II, p. 19 sg; P., p. 117 sg.). 69 G. DELEUZE, op. cit., passim. 70 TRE (G., II, p. 26; P., p. 126). 71 TRE, par. 8187 (G., II, pp. 30-33; P., pp. 131133). 72 TRE (G., II, p. 35; P., p. 136). 73 TRE, par. 98 (G., II, p. 36; P., p. 137). 7. TRE (G., II, p. 36; P., p. 137). 75 TRE, par. 102-108 (G., II, pp. 3739; P., pp. 138-141). 76 TRE (G., II, p. 38; P., p. 139). 77 Cf. particularmente as Cartas VI, VII, XI, XIII e XIV. 78 Correspondencia (G., IV, p. 188; P., p. 1195). 79 Usarei nas notas as abrevia'Soes Prine. e Cogit. 0 titulo completo da obra e: Renati Des Cartesl Principia Philosophiael more geometrico demonstratal perl Benedietus 80 Antonio Negri de Spinozal Amstelodamensen! Aeesserunt eiusdeml Cogitata Metaphysical In quibus difficiliores quae tam in parte Metaphy-I sices generali quam specia/i occurrunt questionesl breviter explicatur. 80 Encontram-se informa'Soes sobre a genese e a publica'Sao dos Prine. nas Car-tas IX, XIII e XV. 81 Prine., (G., I, pp. 131-132; P., p. 152). 82 Ver particularmente TRE, Notas: G., II, p. 14, 15 e 29; P.,p.ll1, 112, 113e 129. 83 A partir de 1663, a Correspondencia atesta 0 trabalho de elabora'Sao da Etica. 84 Prine. (G., I, pp. 127-133; P., pp. 147-154). 85 Prine. (G., 0, p. 132; P., pp. 152-153). 86 Sobre 0 pensamento de Meyer, suas obras e suas rela'Soes com a cultura ho-landesa, d. L. KOLAKOWSKI, op. cit., pp. 749-750, assim como a bibliografia sobre a questao, p. 792. 87 Prine. (G., I, p. 127; P., p. 147). 88 Prine., Primeira parte, Proposi'Soes 15-16 (G., I, pp. 172-177; P., pp. 185-190). Mas sobre esta questao, ver M. GUEROULT, op. cit., t. II, pp. 619-623. 89 Prine. (G.,I,p.181 sg.;P.,p.193 sg.).Cf.M. GUEROULT,op. cit., t. I,p. 529556. Mas agora temos tam bern 0 excelente artigo de A. LECRIV AIN, "Spinoza et la physique cartesienne. La partie II des Principia", in Cabiers Spinoza, vol. I, pp. 235-265; vol. II, pp. 93-206. Nao se deve alem disso esquecer as sugestoes, freqiientemente preciosas, de G. GENTILE em suas Notas a tradu'Sao italiana da Etica, inclusive sobre as questoes que tocam mais particularmente a fisica. Do ponto de vista mais geral do clima cultural e cientifico no qual se desenvolve a critica spinozista da fisica de Descartes, deve-se ter em mente essencialmente os trabalhos de Huygens que, naqueles anos e na epoca imediata-mente posterior, e numa rede de circula~ao de conhecimento de que 0 proprio Spinoza faz parte, elabora os fundamentos de sua fisica. Sobre tudo isso, alem das 6timas obser~ va,6es de U,CRIVAIN (art. cit., I, pp. 237-241,244-246), d. tambemJ. BERNHARDT, art. cit., p. 82; do mesmo modo, GUEROULT, op. cit., t. II, pp. 557-558. 90 Cogit., Primeira parte (G., I, p. 233 sq; P., p. 244 sq.). 91 Como ja vimos, a literatura spinozista insiste muito nas determina'Soes misticas da primeira fase do pensamento filosOfico de Spinoza. Ja vimos tambem, ao falarmos do CT, que tal insistencia e perfeitamente justificada, que trata-se a1 de urn dos aspectos da utopia burguesa da apropria'Sao e da reorganiza'Sao do mundo. Isto posto, os elementos mfsticos com razao observados na primeirissima fase da filosofia de Spinoza nao pode-riam ser considerados como urn dado incontornavel de seu pensamento. Estamos aqui diante de urn preconceito sustentado per uma ignorancia da situa'Sao da religiao naque-la epoca: 0 componente religioso, realmente, esta tao maci~amente presente na cultura que nao se pode isola~lo como tal, por muito justificada que uma opera'Sao do genero possa parecer. Em segundo lugar, se aparecem aqui posi'Soes misticas em Spinoza, elas estao englobadas numa dialetica espedfica aquela epoca, a do barroco, que consiste em reverter positivamente 0 processo de essencializa'Sao da duvida, do ceticismo. Esta e antes a oportunidade de reconhecer 0 carater socratico da argumema'Sao spinozista - cujo objeto e a nega'Sao do universal. Mas breve voltaremos a tudo isto. 92 Cogit., Primeira parte, cap. I e III (G., I, pp. 237-244; P., pp. 250-258). Trata-se al de urn problema central. Retomemos aqui algumas indica'Soes dadas por LEeRl-VAIN (art. cit.). Qual e 0 estatuto cientffico dessa obra de Spinoza, se pergunta 0 au tor? Ele mostra entao que 0 problema e dar uma base ontologica e totalizame a con cep'Sao fisica da tradi~ao matematica galileu-cartesiana. 0 problema fundamental de Spinoza e entao 0 de descobrir os prindpios da nova fisica ate captar as essencias sin-A Anomalia Selvagem 81 ,'",,II' :iiiiii!!, gulares das coisas. Isto em primeiro lugar. 0 problema e, em segundo lugar, identificar de uma vez por todas- a ideia de infinito e a de produtividade positiva. 0 paradoxo de Zenao sobre 0 infinito deve se tornar sem objeto (I, 258). 0 problema fundamental e 0 da indivisibilidade efetiva de urn movimento infinitamente produtivo, que compreenda por isso em si mesmo a razao da lei. Do principio de inercia ao principio do conatu5 como individualiza~ao do principio, tal e 0 movimento seguido pela teoria. "A expli-cita~ao das essencias singulares das coisas deve permanecer sendo 0 objetivo fundamental, e nenhum processo de abstra~ao, por eficaz que seja para aceder a este ou aquele aspec-to particular do todo da natureza, nao poderia oculta-Io OU nos desviar dele. 0 me-canicismo cartesiano apareceu sem dtivida a Spinoza como urn momento necess,hio do conhecimento da natureza, mas, ao ficar cada vez mais complexo, ele s6 podia se inte-grar ao proc:esso de conhecimento dessa natureza inteira aceitando os limires que lhe eram impostos pela particularidade do dominio objetivo ao qual correspondia" (I, p. 264). 0 principio de individualidade fica assim introduzido na fisica em termos de cinetica e dinamica, com uma determina~ao oposta a que lhe era concedida pela concep(fao car-tesiana - coesao das partes numa situa'fao de repouso reciproco (II, p. 200). "Mas, mais essencialmente, a partir de 1661-1663, aparece que a reflexao spinozista sobre a fisica estcl dominada pelo projeto de conceber uma dinamica cujo estatuto, relativamente complexo, fosse comandado por uma dupla determina\=ao. Por urn lado ... a recusa de uma mednica restrita ... Por outro lado ... a elabora'fao de uma verdadeira dinamica ... tornando mais complexo e dialetizando 0 mecanicismo de Descartes ... Em suma, tudo isso implicava a dedu(fao rigorosa e precisa do modo respectivo de articula(fao do atri-buto Extensao, dos modos infinitos imediatos (movimento e repouso) e do modo infi-nito media to. Era, ao que parece, unicamente com essa condi'fao que 0 enunciado do principio de inercia e a admissao do mecanicismo podiam se conciliar com 0 dinamis-mo interno expressivo da teoria do conatus (II, pp. 202-203). 93 Cogit., Primeira parte,cap. IV, V e VI (0.,1, pp. 244-249; P., pp. 258-264). 94 Cogit., Primeira parte (G., I, p. 248; P., p. 263). 95 Cogit., Segunda parte, cap. VI (G., I. pp. 259-260; P., pp. 276-2771. Cf. as artigos de H. JONAS in Journal of the History of Philosophy, III, 1965, e de DUCHES-NEU in Cahiers Spinoza, II. 96 P. DI VONA, op. cit., p. 569-570. Ver, naturalmente, os trabalhos de Freu-denthal e de Dunin-Borkowski sobre as influencias do pensamento escolastico. 97 Cf. P. DI VONA, "La scolastica dell'eta post-tridentina e nel Seicento", in Storia della filosofia, organiza~ao de M. DAL PRA, vol. cit. VII, pp. 755-777. Ver tambem os trabalhos de Carlo Giacon. 98 Cogit., Segunda parte (G., I, p. 249 sq.; P., p. 264 sq). 99 A. LECRIVAIN, art. cit., insistiu fortemente nas motiva~6es politicas de Spi-noza em sua maneira de encarar a fisica: "E preciso reconhecer que 0 projeto spinozista nao e, fundamentalmente, de natureza epistemol6gica, mas de ordem etico-politica" (I, p. 247). Alem disso, acrescenta Ucrivain (II, pp. 204-206), essa disposi'fao critica na fisica spinozista torna-se fundamental para a elabora~ao da teoria politica da maturi-dade. A politica spinozista, com efeito, procuraria determinar uma serie de elementos de tipo quantitativo (extensao, ntimero, dura~ao, etc.), juntamente com a elabora\=ao de uma concep~ao organica, talvez organicista, da polftica - intui'fao de uma energetica ou de uma dinamica social. A democracia apareceria em Spinoza como urn estado de equilibrio perfeito, e portanto como a realiza~ao da fisica spinozista. E bern necessario dizer que esta tese de Lecrivain e no minimo discutivel, extremamente discutivel: nao que a abordagem fisica nao tenha papel nenhum na defini~ao politica; mas ela e estra-82 Antonio Negri nha ao mito da ordem e do equilibrio, como veremos longamente na continua'fao deste trabalho. As indica~6es de Lecrivain permitem antes caracterizar 0 estado do mito no circulo spinozista durante os anos que nos interessam aqui: a este titulo, elas estao per-feitamente certas, e fazem-nos captar a continuidade entre modelo epistemologico e mo-delo politico (ou antes etico-pratico). 100]. ELSTER, Leibniz et la formation de l'esprit capitaliste, cit., evoca muito episodicamente a figura de Spinoza, negando ate a possibilidade de pensar sua filosofia em temos de ideologia capitalista (p. 7). Tal afirma~ao s6 e possivel por9ue Elster se atem a uma concep~ao completamente objetivista do desenvolvimento do espirito ca-pitalista. Segundo ele, seria Leibniz quem, melhor do que ninguem, teria prefigurado 0 espirito capitalista (reduzido por Elster, para 0 essencial, ao espirito de investimento) atraves do dinamismo pluralista de seu sistema e seu principio de multiplica~ao. 0 que certamente e verdade. Mas que nao e decisivo, se posso me permitir uma obje~ao: a dinamica entre pluralismo de mercado e multiplicador capitalista (do investimento) na verdade nao pode ser descrita em termos simplesmente objetivos: essa obietividade e percorrida por uma serie de antagonismos, por uma possibilidade permanente de crise, e a filosofia de Spinoza aqui e bern mais capaz que a metaffsica leibniziana de abra'far uma fenomenologia de conjunto do capitalismo. A Anomalia Selvagem 83 Capitulo III PRIMEIRA FUNDAI ~" ' sentida por Hegel diante das defini,oes inaugurais da Etica, 6 nega,iio de uma filosofia do come~o quer dizer filosofia da media~ao, em suas diver-sas variantes de filosofia dialetica ou de filosofia da crise. Em Outros ter-mos, coloca-se a articula~ao antes da totalidade, como fundamento da totalidade: a espontaneidade e impensavel. Em Spinoza, nao ha come~o, isto e, nao ha residuo do pensamento mitico proprio a toda filosofia que se pretenda cosmogonia, mas tambem nao ha 0 menor indicio de media-,iio: e uma filosofia da afirma,iio pura que se reproduz com aumentada intensidade a niveis sempre mais substanciais do ser. Nessa fase de seu desenvolvimento, e uma filosofia totalizante da espontaneidade. Nessa fase e nessas camadas de forma~ao do texto - camadas quase impossiveis de isolar de urn ponto de vista filologic07 e no entanto identificaveis no tra-balho de edifica,iio e de redaII: ii',' 'I:::: de: e como seria possivel pensar uma totalidade na~ exclusiva? "Definicrao 'III: Entendo por substiincia aquilo que Ii em si e que Ii concebido por si: ou seja, aquilo cujo conceito nao carece do conceito de outra coisa do qual deva ser formado." "Proposicrao IV: Vma substancia nao pode ser produzida por outra substancia."12 A totalidade se da em seguida como existencia ime-diata: mas como pensar sua existencia de outra maneira que nao imediata? "Se entao alguem dissesse que tern de uma substancia uma ideia clara e distinta, isto e, verdadeira, e que entretanto duvida de que essa substancia exista, na verdade seria como se dissesse que tern urn ideia verdadeira e que suspeita que ela seja falsa. "13 A totalidade se da Como infinita: e como poderia ela ser finita? "Como ser finito e, na realidade, uma negacrao parcial, e ser infinito, a afirmacrao absoluta da existencia de uma natureza qualquer, segue-se entao s6 da Proposicrao VII, que toda substancia deve ser infinita."14 (Proposicrao VII: "Pertence a natureza de toda substancia existir. ")15 A to-talidade e substancia: mas se a substancia e a relacrao essencia-existencia, a totalidade e a afirmacrao da presencra infinita dessa essencia que e a causa de si mesma, dessa essencia produtiva ja colocada pela Definicrao I: "Vma substancia nao pode ser produzida por outra coisa; ela sera entao causa de si, isto e, sua essencia envolve necessariamente a existencia, ou seja, pertence a sua natureza existir"16. A existencia e portanto indiscutivel, a essencia e sua causa. 0 primeiro momento, que e justamente 0 da definicrao da exis-tencia como essencia, e da essencia como produtividade, como tensao em dire,ao i totalidade, esta colocado. Mas nao conclufdo. E verdade que a potencia deste inicio parece as vezes querer encerrar e bloquear a pesquisa. E comum constatar em Spi-noza urn entusiasmo sobre pontos singulares da argumenta~ao, e ao me-nos todas as vezes em que esta atinge 0 absoluto - urn entusiasmo que chega a fazer pensar que esses pontos sejam, por assim dizer, experiencias conclufdas, ontologicamente acabadas e teoricamente satisfatorias. 0 es-panto da descoberta se faz encantamento. Mas encerramento e abertura sao inseparaveis. Desse ponto de vista, poder-se-ia dizer, 0 metodo e dia-letico; mas nao nos enganemos: e dialetico apenas porque se enraiza na versatilidade do ser, em sua expansividade, na natureza difusa e potente de seu conceito - e entao bern exatamente 0 contrario de urn metodo dialetico. Na medida mesma em que ha encerramento, ha abertura da compacidade do ser: no caso presente, aqui e agora, ela exige ser forcrada, quer uma regra de movimento, uma definicrao de sua propria articula~ao, ou ao menos da possibilidade dessa articulacrao. 0 encanto do metodo nao pode bloquear a pesquisa. A dimensao sublime do inicio nao deve em caso algum constituir obstaculo ao escavamento da totalidade. Por outro lado, as proprias defini~oes iniciais da espontaneidade do ser exprimiram uma forte tensao no momento em que nos apresentavam a substancia como to-RR Antonio Negri talidade: as alternativas "causa de si" - causada por outras coisas, liber-dade-coa;.,j II::: "'" "" a centralidade do set como conjunto de radas as possibilidades. "Deus, ou seja, uma substancia constitufda por uma infinidade de atributos, cada urn dos quais exprime uma essencia eterna e infinita, existe necessariamente. ,,20 As demonstra~6es da existencia de Deus em Spinoza nao sao Dutra coisa senao uma aplica~ao cia axiomatica a 5ubstancia, senao a demonstrac;ao da infinita riqueza e plasmabilidade multilateral do ser, de sua riqueza tanto maior quanta maior e 0 grau de perfeic;ao. "Pais, se poder existir e poten w cia, segue-se a isso que, quanta mais realidade pertence a natureza de uma coisa, mais esta tern por si mesma forsobre ela e se identifique a ela: "Deus e causa imanente, mas nao transiti-va de todas as coisas,,29. E e preciso em seguida que, assim procedendo, ele individualize e qualifique esse fluxo imanente que e 0 seu: "Deus nao e apenas causa eficiente da existencia, mas tambem da essencia das coisas"30. Estamos provavelmente no amago de urn dos paradoxos rna is caracte-rfsticos do pensamento de Spinoza: a utopia da completa superposi~ao de fato (dinamico) e valor (ordenador) e colocada atraves de uma analise que desdobra uma identidade pre-constituida (Deus, a univocidade do ser), e a reproduz sob 0 nome de organiza~ao. Este e 0 metodo do espontaneismo, da afirma~ao de uma unica realidade substancial atraves de seu desdobra-mento teorieo (metodieo e substancial). Seguindo essa linha metodol6gica - que e entao a de urn projeto, ou antes, do projeto por antonomasia -, 0 livro I da Etica na~ encontra ne-nhum obstaculo, nem mesmo nenhuma dificuldade. E a figura metafisica do atributo que permite, ou antes, exprime absolutamente este metodologia. "Entendo por atributo aquilo que 0 entendimento percebe de uma substancia como constituindo sua essencia. ,,31 Deus se exprime como causa, isto e, 0 infinito se propaga: e a ordem dessa infinitude divina e filtrada atraves do f1uxo dos atributos. "Proposi,I;:::: W"" do atributo no sistema de Spinoza deu lugar a uma polemica secular de ~ extrema violencia, dificuldades de ordem filologica acrescentando-se a dificuldade interna do sistema, imediatamente evidente39. Como ja foi muitas vezes nota do, a historia da noc;ao de atributo no pensamento de Spinoza nao deixa de ter uma certa coerencia. No Curto tratado, 0 atri-buto e urn nome da divindade, e a teoria do atributo e antes uma pratica ascetica que consiste em nomear a divindade: 0 que corresponde a uma fase durante a qual a relac;ao espontaneidade/organizac;ao do ser se resol-ve na experiencia direta do agir ascetico - sabemos disso desde Kola-kowski40 Na Carta IVa Oldenburg 0 atributo e definido ainda "id quod concipitur per se et in se" - 0 elemento ontologico, "id quod in se est", que aparecera na Etica, e completamente deixado de lado41 A rela~ao entre espontaneidade e organiza~ao, entre divindade e mundo, e mediatizada pela consciencia. Mas, ja no Curto tratado, os nomes tern claramente tenden-cia a se objetivarem, a se assimilarem a substancia. Essa tendencia se tor-na atualidade na Etica: Deus sive omnia Dei attributa,,42. Quanto mais o horizonte ontologico amadurece, mais 0 nome deixa de ser urn signo para tornar-se urn elemento da arquitetura infinita do sistema. 0 entendimen-to penetra cada vez rnais no ser real. A palavra filosofica torna-se sernpre rna is a expressao irnediata do encadeamento do ser absoluto. Se, na pri-rneirissima experiencia de Spinoza (sem duvida, depois da documenta~ao que nos forneceu Wolfson) estao presentes urn certO fenomenismo e urn nominalismo inteiramente tradicionais na filosofia judaica entre a Idade Media e 0 humanismo, entre Mairnonides e Crescas43, esses obstaculos a identidade absoluta tambem estao superados na Etica. "Quanta a Spino-za, se nos Cogitata Metaphysica ele ainda professa a doutrina mairno-nidiana da incomensurabilidade entre a ciencia de Deus e a do homem, ele a rejeita nas Proposic;6es XXX e XXXII do livro I, como refuta no Escolio da Proposi~ao XVII a compara~ao do entendimento divino e 0 entendi-mento humano com 0 cao constela~ao e 0 cao latindo. ,,44 Tudo isto no entanto nao e satisfat6rio. Pois mesmo se 0 absoluto esta a esse ponto achatado sobre 0 ser, 0 que falta e urn momento essen-cial da arcicula,ao do ser. Hegel4s e os historiadores da filosofia que 0 se-guiram46 teriam razao talvez em identificar no absoluto spinozista uma indeterminidade insuperavel? Certamente nao. Nao e por acaso que, quan-do seguimos os desenvolvimentos dessa interpreta~ao, percebemos que, nao conseguindo encontrar a chave da leitura da rela~ao substancia-atributo em Spinoza, esses comentadores preferem resolver 0 problema por meio de urn arrombamento dialetico, sobredeterminando essa rela~ao nos ter-mos do idealismo absoluto (implicitarnente amassando Spinoza em cima de Schelling). Uma opera~ao dessas e inaceitavel. Urn metodo de leitura, qualquer que seja, nao pode negar seu objeto. Eo objeto, apesar de todas 94 Antonio Negri as dificuldades que determina, e aqui 0 atributo como transgressao do ser. E urn problema para ser entendido em termos spinozistas e, se implica con-tradi~ao, ela deve ser apontada e avaliada como tal. o atributo tende entao a se identificar a substancia. Mas, dados os elementos do problema, e preciso acrescentar que ele s6 pode tender a identifica~ao com a substancia como substancializa~ao (enraizamento do ser) daquele dinamismo transgressivo da identidade representado pelo atributo. Relendo 0 que Spinoza escreve a De Vries: "Alias, quand9 a vossa observa~ao de que eu nao dernonstro que a substancia (ou 0 ser) possa ter varios atributos, talvez nao tenhais sido atento a minhas demonstra~6es. Com efeito, dei duas. A primeira e de que nada e mais evidente para nos do que 0 fato de que cada ente e concebido sob algum atributo, e, quanta mais realidade ou ser tern urn ente, mais numerosos devem ser seus atri-butos. Donde se segue que urn ser absolutamente infinito deve ser defini-do, etc. A segunda demonstra~ao, que julgo a melhor, e a de que quanto mais numerosos saO os atributos que atribuo a urn ente, mais sou obriga-do a atribuir-Ihe existencia, ou seja, mais 0 concebo sob a forma do ver-dadeiro; enquanto que seria 0 contrario se houvesse imaginado a Quime-ra ou algo similar. Quanto ao que dizeis, de nao conceber 0 pensamento senao com as ideias, porque sem as ideias 0 pensamento se destr6i, penso que isto vos acontece porque separais de urn lado vosso ser como coisa pensante e de outrO vossos pensamentos e conceitos. Assim, nao e de es-pan tar que, excluindo todos os vossos pensarnentos, nao vos reste nada para pensar. Quando ao pr6prio problema, penso ter demonstrado com suficiente clareza e evidencia que 0 entendimento, se bern que infinito, per-tence a natureza naturada, e nao a natureza naturante. Alem disso, nao vejo que rela\=ao pode haver com a inteligencia da terceira defini~ao, nem em que modo represente uma dificuldade. Com efeita, tal qual a transmi-ti a v6s, se nao me engano, ela se enuncia assim: 'Por substancia, entendo aquilo que e em si e e concebido por si, ou seja, aquilo cujo conceito nao envolve 0 conceito de outra coisa'. E a mesma coisa que entendo por atri-buto, com a diferen~a que esse terrno se emprega com rela\=30 ao entendi-mento que atribui a substancia tal natureza determinada. Esta defini~ao, digo, explica bastante claramente 0 que entendo por substancia ou atri-buto,,47. 0 que me parece surgir com clareza e exatamente isto: que 0 enraizamento do atributo no ser nao nega sua fun~3o de transgress30 da identidade. Atributo e, ao mesmo tempo, a mesma coisa que a substancia _ sua diferen~a e enunciada em rela~ao ao entendimento. Esta impercep-tivel, mas fundamental diferen~a, que - na rela~ao entre espontaneidade e organiza~ao - os contemporaneos chamam de consciencia: isto e 0 atri-buto. Urn instante de eminencia l6gica no seio da univocidade do ser, ins-tante suficiente para transmutar 0 horizonte material num horizonte de A Anomalia Selvagem 9S :I! 'III: I:::::: ,I'" '" valor. Fun~ao enigmatica, ou pelo menos obscura? Nao sou eu que 0 nego. Mas sua obscuridade teo rica nao poderia anular sua funrrao sistematica, o fato de que essa fun~ao seja essencial para a defini~ao da utopia e de suas determinarroes etico-politicas. Mas nao e s6. E evidente que e impossivel aceitar uma solu~ao subje-tivista do problema do atributo - ou antes, se (estando exclufda toda determina~ao puramente fenomenica, como procuramos demonstrar) a face subjetiva do atributo s6 pode ser considerada como 0 revelador do pro-blema da articula~ao do absoluto, como indice da emergencia da conscien-cia, e portanto como hipostase determinada da duplicac;ao ut6pica -, entao deve-se concluir dOl que a solw;iio inversa do problema e igualmente ina-ceitavel. 0 atributo e a forc;a produtiva da substancia, s6 uma interpreta-~ao objetiva e dinamica pode explicar sua natureza - dizem48. E e preciso acrescentar logo que esta leitura, em certos aspectos, se caka em tra~os fundamentais do sistema de Spinoza. E a potencia, e a potencia do ser, e a extensao infinita da causalidade produtiva que sao colocadas aqui no centro da reflexao. A esse respeito, vimos tam bern com que continuidade Spinoza tra~a a longa cadeia do ser atraves da analise da expressao do atributo, como essa expressao vive ao ritmo dos graus de solidifica~ao substancial manifestados em diversos nfveis pela potencia. Apenas, e aqui que comec;a 0 problema: come~a quando 0 processo ema-nativo - ou antes, 0 processo que inegavelmente se ressente dessa tradi-~ao filosofica - consegue ser inteiramente projetado na tela da existencia do mundo: e a espontaneidade do ser junta-se aqui a totalidade da poten-cia, na difusao multipla da causalidade produtiva sobre todas as coisas existentes. 0 paradoxo do ser se reabre aqui, e nao e a teoria da objetivi-dade do atributo que pode servir para explica-lo: pelo contnirio, ela 0 nega. Nada de desconcertante ate aqui: esta interpreta~ao antecipa, indevida-mente, conclusoes que tambem seeao as nossas49 . Mas ha tambem nessa antecipa,II!; 1111: II:" d:::::: ::,,11':::;'1 ""1111111',' !III"." "",t, .. vez mais residual52 . Com efeito, a filosofia de Spinoza evolui para uma concepc;iio da constituic;iio ontologica que, voltando-se para a materialidade do mundo das coisas, elimina aque1e substrato metafisico ambfguo, que os residuos emanacionisticos, embora transferidos para a nova cultura, nao deixam de reter. Substrato ambfguo e no entanto necessario: necessario para fixar no horizonte da espontaneidade do ser urn criterio de organiza\ao. Erro, hip6stase, enigma? Nao mais do que nos mostra 0 funcionamento material das institui\oes do mundo burgues desde os tempos de sua origem - se-culos obscur~s ou idade de ouro, pouco importa: a superposi\ao de uma ordem criadora de valor ao tecido das re1a~oes internas a produ~ao. A uto-pia spinozista Ie e interpreta este mundo, mas tenta sobretudo Ihe impor uma racionalidade. Enquanto esse horizonte e assumido pela filosofia, 0 atribu-to e que deve organiza-Io. Esse tipo de pensamento tern necessidade vital de contradi~oes e de paradoxos. Ate que, reve1ando-se a verdadeira razao deles, empurrando-se a razao contra a hipostase, a critica volta a agir: mas ela revela tam bern a crise desse horizonte ontologico. 3.0 PARADOXO DO MUNDO "Entendo por modo as afec~oes de uma substancia, ou seja, aquilo que existe em outra coisa, por meio da qual e tam bern concebido. ,,53 Como se organiza este nquod in alia est, per quod etiam concipitur" no fluxo infinito da produc;iio? 0 problema do criterio de organizac;iio deve chegar a se confrontar com 0 mundo: e aqui mesmo e que teremos a prova da impossibilidade, para aque1e criterio de organiza~ao ja definido, de sus-tentar 0 peso do mundo. As formas metafisicas da media~ao espontanea enfrentam a irredutibilidade do modo, do mundo dos modos. Que fique bern claro: 0 livro II da Etica so faz anunciar as condi\oes da crise. E, re-pito, sao as condi~oes de urn posterior saito para a frente, de uma refor-mula~ao do problema a urn nfvel superior: a valora\ao da crise se da em termos positivos, atraves do deslocamento do projeto. Seja como for, es-sas condi\oes agora sao dadas, e aparecem em particular nas premissas e nas primeiras Proposic;6es do livro II, onde e focalizado 0 problema meta-fisico do mundo. E 0 ultimo trecho da metafisica de Spinoza, e a exposi-~ao de sua fisica, preliminares essenciais da etica. o que e 0 mundo, entao? "Por realidade e perfei~ao entendo a mes-rna coisa"s4: por principio, a existencia do mundo entaO nao tern necessi-dade de nenhuma media\ao para ser ontologicamente validada. E essa va-lidade ontologica do existente tern a amplitude e 0 dinamismo do horizon-te da singularidade. Em si, na singularidade corporal: "Entendo por corpo urn modo que exprime de maneira certa e determinada a essencia de Deus, 98 Antonio Negri enquanto esta e considerada como coisa extensa"ss. Essencialmente, isto e, na singularidade das rela\oes que definem cada coisa em particular: "Digo que pertence a essencia de uma coisa aquilo que, se e dado, a coisa neces-sariamente e colocada, e se e suprimido, a coisa necessariamente e suprimi-da; au ainda, aquila sem a qual a coisa nao pode nem ser nem ser concebi-da e que, vice-versa, sem a coisa nao pode nem ser nem ser concebido"S6. E enfim coletivamente, na unidade de varias a~6es concorrendo juntas para urn mesmo fim: "Por coisas singulares, entendo as coisas que sao finitas e tern urn existencia determinada. Que se varios indivfduos concorr~m para uma mesma a~ao de tal modo que todos sejam ao mesmo tempo causa de urn mesmo efeito, considero-os tad os, sob esse ponto de vista, como uma mesma coisa singular"s7. 0 mundo e entao 0 conjunto versatil e complexo das singularidades. A axiomatica do livro II destaca isso muito claramente: as caracteristicas de alta formalidade metafisica que qualificavam a axio-matica da parte I (urn formulario para a argumentac;iio ontologica). Mais que uma expressao da forma do ser, a axiomatica do livro II e uma descri-C;iio, urn aprofundamento da analitica da singularidade: "I. A essencia do homem nao envolve a existencia necessaria, isto e, segundo a ordem da natureza, tanto pode acontecer que este ou aquele homem exista, quanto que nao exista"; "Sentimos que urn certa corpo e afetado de muitos mo-dos"; "v. Nao sentimos nem percebemos outras coisas singulares que nao os corpos e os modos de pensar"S8. Esses Axiomas, na medida em que nao exprimem criterios formais do raciocfnio, mas antes defini~6es substanciais do nexo das singularidades, deveriam ser chamados "postulados", como no livro III, na mesma articula~ao de coloca~ao argumentativa - e isso acontece porque a ideia de conexao ontol6gica formal ja se deslocou mate-rialmente no mecanismo produtivo do sistema, ou seja, esta posta no hori-zonte - primeiro ou ultimo: este e 0 problema - de sua produtividade. De qualquer maneira, no terreno da emergencia singular. Mas entao 0 mundo da singularidade nao exige media\ao? Sera que a presencialidade existencial do modo e suficiente para si mesma? Mas entao a instrumenta\ao logico-metafisica atraves da qual este mundo parece ter sido gerado e pura e simples maquinac;iio? Este problema salta imediata-mente aos olhos: logo se evidencia aquela instabilidade que 0 livro I da Etica havia expressado tao fortemente. Quando a enfase e posta no modo, quando a analise se volta para a singularidade, com 0 amor que uma ascese revolu-ciomiria sente por eIa, peIo movimento e pela luta que dela emanam, 0 enigma da mediac;iio da espontaneidade deve ser ele mesmo problematizado. E en-contramo-nos assim desde ja, desde as Defini~6es e Axiomas do livro II, diante de uma duplica~ao do horizonte existencial: de urn lado, ja vimos, mun-do da singularidade; de ourro, da mente, do intelecto, do pensamento. Duplicac;iio que e contraposic;iio. "II. 0 homem pensa."S9 "III. Nao se diio A Anomalia Selvagem .~.,.....~ .............. ,-.... --'"""-~ ;;""l" ". "~--~ IIII '11r: II, i::::: c:, !:'"" 'JI'''I' i~!i: modos de pensar, tais como 0 amor, 0 desejo ou qualquer outro que possa ~ser designado peIo nome de afeto da alma, se nao se der no mesmo indivi-duo uma ideia da coisa amada, desejada, etc. Mas uma ideia pode ser dada sem que seja "dado nenhum outro modo de pensar. ,,60 Sublinhemos este verslculo: "Mas uma ideia pode ser dada sem que seja dado nenhum outro modo de pensar. "; e a especifica~ao da independencia do pensarnento, da media~ao, da exigencia de uma organiza~ao do infinito. "Entendo por ideia urn conceito da Mente, que a Mente forma porque e uma coisa pensante." "Entendo par ideia adequada uma ideia que, enquanto e considerada em si, sem rela~ao com 0 objeto, possui todas as propriedades ou denomina-,5es intrinsecas da ideia verdadeira. ,,61 Mas aqui a ambiguidade da parte 1 se fez contradi,iio. 0 inicio do livro II e a coloca,ao de uma contradi,ao. o mundo "sub specie aeternitatis" e a mundo "sub specie libertatis~' se encontram fixados num emaranhado alternativo. 0 ponto de partida do livro II da Etica nos prop6e como alternativa aquila que a livro I havia vivido como uma ambigiiidade. Par que? Porque a realidade viva da utopia exige que as dais palos se deem com toda sua intensidade: ora, aquila que tinha sido pressuposto como sintetico se apresenta como crise, mas e mais por-que a realidade da polaridade foi avaliada do que pelo fato de que a sintese esteja expressamente em crise. 0 que comec;a a configurar-se como crise e aqui a espontaneidade da convergencia das duas tens6es: mas tudo isto se da de maneira vaga, nao expressamente percebida, quase a despeito da von-tade sistematica. E no entanto a utopia, desdobrando-se, devia chegar ate lao E mesmo aqui, a utopia nao entra em crise porque perderia seu vigor in-tdnseco, mas porque se encontra confrontada com outras series de fatos, au melhor, com a serie dos fatos que haviam sido hipostasiados nela62. Seja como for, 0 problema esta colocado. A espontaneidade do processo nao serve mais para mostrar a forc;a centdfuga da subsrancia e a centdpeta do modo como elementos superpostos e concordantes. Sua rela~ao e problema. 0 mundo e paradoxa da alteridade e da coincidencia; subsrancia e modo se quebram uma sabre 0 outro, e vice-versa63. A argumenta~ao propria mente dita do livro II da Etica, que come~a com as Proposi~6es, parte do problema que acabamos de definir, ainda implfcito nas Definic;6es enos Axiomas. As Proposic;6es aqui considera-das (I a XIII do livro II) referem-se a dedu,ao da essencia do homem64 Dentro deste campo determinado, a drama metafisico da substancia e do modo deveria encontrar seu desfecho. Deve-se dizer que a op~ao spinozista por uma reconstitui~ao positiva da organicidade da utopia e pela reafir-mac;ao de sua feliz espontaneidade e totalmente explicita: mas quantos e quais problemas isso levanta! A argumentac;ao metafisica do livro I nos havia deixado diante dos atributos, como mediac;ao entre os modos e a subsrancia. Mas agora explode 0 paradoxa: a unifica~ao dos atributos, dos 100 Antonio Negri dois atributos ("0 pensamento e urn atributo de Deus, ou seja, Deus e coisa pensante" contra: "A extensao e urn atributo de Deus, ou seja, Deus e uma coisa extensa")65 cria uma dimensao do mundo que nao e hierarquica, mas plana, igual, versatil e equivalente. A essencia absoluta, predicada univo-camente, refere-se tanto a essencia divina - existencia de Deus - quanto a todas as coisas que descendem de sua essencia. Estamos num ponto fun-damental, num ponto em que a ideia de potencia - como ordem univoca, como dissoluc;ao de toda mediac;ao e abstraII! ,IIII' seja, as coisas percebidas, mas 0 proprio Deus enquanto e coisa pensan-fe. "67 0 modo e entao 0 mundo: a causa eficiente, em sua expressao, nao exige media~ao alguma. "A ordem e a conexao das ideias sao a mesma que a ordem e a conexao das coisas. ,,68 Sao as singularidades modais que en-tram aqui diretamente em conexao, determinando urn paralelismo que so a procura desesperada de uma coerencia do sistema pode ainda tentar li-gar com a rela~ao metaffsica entre os dois atributos. Com efeiro, nao se trata de urn paralelismo entre os atributos, mas de uma tensao do modo em dire~ao a uma constru~ao unificada e singular de si mesmo. Nas interpretac;6es mais recentes, mais penetrantes e filologicamente mais fieis do paradoxo spinozista da substiincia e do modo, quis-se intro-duzir neste ponto, para tentar preservar a importancia do atributo, uma posterior subdivisao do sistema. Coloquemos que "substancia pensante e substancia extensa sao uma unica e mesma substancia, compreendida ora sob urn atributo, ora sob 0 outro. Assim tambem urn modo da extensao, e a ideia deste modo, sao uma so e mesma coisa, mas expressa de duas ma-neiras,,69. Encontrar-nos-iamos enta~ diante de urn paralelismo que e em primeiro lugar 0 do pensamento e da extensao - paralelismo fundado sobre uma ratio essendi, extracognitiva; por outro lado se da urn paralelisrno do modo e da ideia de modo, segundo uma ratio cognoscendi, urn paralelismo intra-cognitivo que "replica" no plano gnoseologico aquele que e fundado ontologicamente7o. Mas devemos nos perguntar se e possivel, no Spinoza dessa epoca, separar a ordem gnoseologica da ordern ontol6gica. E possi-vel anular assim 0 paradoxo revelado pela relaC;ao imediata substancia-modo? E licito negar essa emergencia de uma for~a capaz de reverter a relaC;ao rnetafisica, e, neste caso preciso, da ordem da emanaC;ao? Na realidade, nao se trata de uma "replica", mas de uma "redu~ao" da genese do ser a pre-senc;a do ser, que se da na singularidade com formidavel potencia71 . Toda tentativa de resistencia a essa violencia do paradoxo, e da consequente re-versao dos termos, se revela inca paz de dar conta, nao da coerencia, mas da forc;a e da felicidade da primeira formula~ao do sistema, da primeira camada da Etica. A medida que 0 raciodnio ontologico vai prosseguindo e se aproximando da realidade, ele destroi as estradas, as pontes e cada re-miniscencia do caminho percorrido. Os atributos e 0 paralelismo ontologico estao-se extinguindo. Mas 0 processo nao para aqui. Por enquanto, orga-niza-se aqui sobre aquila que, desde sempre, constitui 0 ponto-limite do pan-teismo: se Deus e tudo, tudo e Deus. A diferenc;a e consideravel: de urn lado urn horizonte idealista, de outro, urn potencial materialista. o desenvolvimento da utopia spinozista contem entao uma tenden-cia para reduzir sobre urn plano horizontal 0 mecanisme de produC;ao metafisica. E incrivel a aceleraC;ao que Spinoza imp6e neste sentido a seu "prolixum methodum". Em poucas Proposic;6es do livro II, esse desenvol-102 Antonio Negri vimento se efetua em termos radicais. A complexidade ontol6gica da subs-tancia e rapidamente destrin~ada: "A ideia de uma coisa singular existen-te em ato tern Deus como causa, nao enquanto e infinito, mas enquanto e considerado como afetado por outra ideia de coisa singular existente em ato, da qual Deus e causa, enquanto e afetado por uma terceira, e assim por diante ate 0 infinito"72. Neste terreno da singularidade 0 infinito ex-tensivo, em processo, 0 indefinido, nao resulta ser contraditorio com 0 infinito intensivo, existente em ato: e assim 0 fato de que a substaricialidade humana se dissolva numa serie de conex6es singulares nao aparece con-tradit6rio com sua existencia singular. "A primeira coisa que constitui 0 ser atual da Mente humana nao e senao a ideia de uma coisa singular exis-tente em ato"73. A singularidade nao e contraditoria com a substancialidade divina, com 0 infinito Como principio: pelo contrario, ela e tanto mais divina quanto e mais singular, difusa, difusiva - so neste ponto, na verdade, pode ser pensada exclusivamente na divindade. A utopia nunca se recomp6e com tanta intensidade quanto no momento em que esta a ponto de afirmar sua propria negac;ao! "A Mente humana e uma parte do intelecto infinito de Deus: e assim quando dizemos que a Mente humana percebe esta ou aquela coisa, nao dizemos senao que Deus, nao enquanto e infinito, mas enquan-to se explica pela natureza da Mente humana, ou seja, enquanto constitui a essencia da Mente humana, tern esta ou aquela ideia. " 74 0 que quer di-zer que a constitui~ao da realidade singular e determinada pela insisten-cia da produC;ao divina. Deus e a reversao da transcendencia, nem que seja simples transcendencia 16gica. Deus e 0 mundo que se constitui. Nao ha nenhuma mediac;ao: a singularidade e 0 unico horizonte real. Deus vive a singularidade. 0 modo e 0 mundo, e e Deus. A Proposic;iio XIII do livro II da Etica representa 0 limite extremo da deduC;iio paradoxal do mundo na primeira camada do sistema de Spi-noza. Cam a Proposi~ao XIII, a passagem da metaffsica a fisica se assina-la como reversao do horizonte filosofico. "0 objeto da ideia que constitui a Mente humana e 0 Corpo, ou seja, urn certo modo, existente em ato, da Extensao, e nada mais. "75 Note-se bern: a reversao e efetiva: da mente existindo em ato, passamos ao corpo existindo em ato. "Segue-se dai que o homem e constituido de Mente e Carpo e que 0 Corpo humano, assim como 0 sentimos, existe. "76 Toda a tematica do racionalismo idealista, tao caracteristica do pensamento da Contra-Reforma, esta reduzida a nada: o materialismo do mundo e fundador, pelo menos tanto quanto a ideia de modo e constitutiva - e essas duas fun~6es se apresentam juntas numa unidade primordial e indissociavel, garantida peta ordem substancial do mundo. Entao, a corporeidade e fundadora: "Disto compreendemos nao apenas que a Mente humana e unida ao Corpo, mas tambem 0 que se deve entender por uniao da Mente e do Corpo. Ninguem entretanto podera ter A Anomalia Selvagem 103 'II' I: ~: ,:i",,! ,I::::::: dessa uniao uma ideia adequada, ou seja, distinta, se antes nao conhece adequadamente a natureza de nosso Corpo,,77. Ora, 0 conhecimento do corpo e total e absolutamente ffsico: 0 movimento inercial da ffsica de Galileu torna-se a rede de fundaI ' "I "I ,ii' 1IIIi:: 111",:11 ,I::::::: :,111,',',','111 '''lill',1 l~,,'''''' "",~II" , plano do ser, e posta sob tensao. 0 horizonte do mecanicismo tornau-se urna eondi,Ii!: '~II' ;i1:; 1:1r.:,: 11i..:11' ;1::: ~~:: ::l:::P ""JIIJ~ "11Ii .. ,, "'""i",,1 s1'inoziste, Besan~on-Paris, 1973. Sabre a tematica do atriburo, deve-se ter em mente pelo menos 0 velho manual de De Ruggiero, particularmente util porque situado intei-ramente dentro da problemarica idealista. 40 Remero aqui ao livro varias vezes mencionado de L. Kolakowski, a cujas teses ainda sera necessario voltar; em particular, veremos, as paginas em que de assinala a presen~a de influencias quiliasticas sobre os membros do "circulo spinozista", e, mais geralmente, de posi'foes analogas nos meios asceticos da segunda Reforma holandesa. Sobre a defini'fao dos atributos (e a tematica dos nomes da divindade) no Curto trata-do, d. supra, cap. II, primeira parte, e a bibliografia dada nas noras (em particular as remissoes a Gueroult). Sera medida a disd.ncia que separa 0 ascetismo dos circulos ho-landeses do misticismo de todas as tradi'foes, cat6lica, reformada ou hebraica, a des-peito de uma tematica comum, ados nomes da divjndade, analisando, por exemp!o, a contrario, a tematica dos nomes da divindade em Juan de la Cruz (d. a Introdu~ao de G. AGAMBEN a edi'fao italiana de suas Poesie. Turim, 1974). 41 Carta IV (G., IV, p. 13; P., p. 1066). Essa observa'fao nos vern de L. ROBIN-SON, Kommentar zu Spinozas Ethik, Leipzig, 1928, pp. 63-63, 136-137 e 150-153. 42 Etica I, Proposi'fao XIX (G., II, p. 64; P., p. 331). A respeito da controversia sobre 0 atributo, a analise mais completa, entre as obras recentes, e a de M. GUEROULT, op. cit., t.1. pp. 426-461. Ele fornece tambem toda a bibliografia desejavel, minuciosa-mente comentada, e isto ate os comentarios mais recentes: particularmente importante e a leitura feita por Gueroult da obra de Wolfson, a ser considerada sobre mais de urn aspecto como urn trabalho fundamental entre as interpreta~6es recentes de Spinoza. Sobre a inrerpreta'fao subjerivista do arributo em Spinoza, de origem direramente hegeliana, d., com diversas nuances, as obras de J.E. Erdmann, Rosenkranz, Schwengler, E. von Hartmann, Ulrici, Pollock, Constantin Brunner, Wolfson, etc. 43 Foi pdncipalmente H.A. WOLFSON (The Philosophy of Spinoza, Cambridge [Mass.], 1934) que insisriu nesse ponto. Foi possivel dizer que a importancia da obra de Wolfson, entre os esrudos sobre a filosofia judaica da Idade Media e suas influencias sobre a filosofia moderna, era companivel ados rrabalhos de E. Gilson sobre a Idade Media crista e suas influencias sobre a filosofia moderna. 44 M. GUEROULT, op. cit., r. I, p. 459. Mas sobre 0 mesmo assunto, d. igual-mente, no mesmo volume, pp. 562-563, apendice se referindo a uma analise de A. KOY-RE (Revue de metaphysique et de morale, 1951, p. 50 sq., repetido em Etudes d'histoire de la pensee philosophique, pp. 93-102). 45 A analise mais completa da interpreta'faO hegeliana de Spinoza se encontra agora na obra varias vezes mencionada de P. Macherey. La se encontrarao os textos mais imporrantes da interven'fao cririca hegeliana, devidamente verificados e comentados. 46 Sobre a tradi~ao historiografica hegeliana referente ao pensamento de Spino-za, d. M. GUEROULT, op. cit., t. I, pp. 462-468. 47 Carta IX (G., IV, pp. 44-45; P., pp. 1089-1090). 48 Sobre este ponto, a posi~ao de K. FISCHER e fundamental (Geschichte der neuren Philosophie, I Bd., 2 Th., 3 ed., 1880, p. 356). 49 Cf. infra, Cap. V sq (particularmente 0 cap. VII). 50 Etica I, Proposi~ao XIX, Demonstra'fao, Esco1io(G.,II, p. 64; P., pp. 331-332). 51 Tais sao igualmenre as conclus6es de MACHEREY, op. cit., pp. 97-137, e em grande parte tambem as de DELEUZE, op. cit., cap. II e III, e principalmente cap. V. Nao ha nada a acrescentar as conclusoes a que chegam esses autores, fora alguma pe-quena ressalva: a respeito nao ranto do conteudo do que dizem quanta da total ausen-cia neles de qualquer abordagem historica da obra de Spinoza. 108 Antonio Negri 52 Cf. infra, desde a rerceira parte deste capitulo, sobre a abertura da problema-rica da extin~ao do atributo. 53 Etica I, Defini'fao V (G., II, p. 45; P., p. 310). 54 Etica II, Defini~ao VI (G., II. p. 85; P., p. 355). 55 Etica II, Defini'fao I (G., II, p. 84; P., p. 354). 56 Etica II, Delini,.o II (G., II, p. 84; P., p. 354). 57 Etica II, Defini'fao VII (G., II, p. 85; P., p. 355). 58 Etica II, Axiomas I, IV e V (G., II, p. 85-86; P., p. 355-356). 59 Etica II, Axioma II (G., II, p. 85; P., p. 355). 60 Etica II, Axioma III (G., II, pp. 85-86; P., p. 356). 61 Etica II, Delini,6es III e IV (G., II, pp. 84-85; P., pp. 354-355). 62 Evidenremente nao pensamos nos enfronhar numa discussao relariva aos carac-teres do pensamento utopico. No que me toea, tenho entreranto em mente a filosofia cririca da utopia elaborada por A. DOREN, "Wunschraume und Wunschzeite", in Vortrage der Bibliotek Warburg, Berlim, 1927; E. BLOCH, Thomas Munzer, theologien de la Rivolution, rrad. franc., nova edi~ao, Paris, 1975; e, naturalmente, HORKHEI-MER-ADORNO, La dialectique de la raison, trad. franc., Paris 1974. Para uma dis-cussao geral: Utopie, Begriff und Phanomen des Utopischen, organizado por A. NEU-SUSS, Neuwied-Berlim, 1968. 63 E. BLOCH, Le principe - esperance, trad. franc., Paris, 1976, viu bern que esse problema consriruia um momento importante do sisrema spinozisra, mas preferiu renunciar as inruic;6es que sua filosofia da esperan~a poderia permirir levar mais adian-te, para ligar aquele momenta de sfntese contradiroria presente em Spinoza a uma rra-di'fao inrerpretativa de forte colorac;ao hegeliana. 64 Claro que tenho em mente 0 comentario de M. GUEROULT, op. cit., t. II, a quem devo esta defini~ao da parre formada pelas treze primeiras Proposi~oes do Iivro II. Alem do comentario de L. ROBINSON, fundamental rambem, terei ainda consran-temenre no espfrito 0 comentario de GUEROULT ao analisar 0 resto do livro II (infra, terceira parte do cap. IV). 65 Etica II, Proposi,6es I e II (G., II, p. 86; P., pp. 356-357). 66 Etica II, Proposi'fao III, Escolio (G., II, pp. 87-88; P., p. 357). 67 Etica 11, ProposiC;ao V (G., II, p. 88; P., p. 358). 68 Etica II, Proposi,.o VII (G., II, p. 89; P., p. 359). 69 Etica II, Proposi~ao VII, Escolio (G., II, p. 90; P., p. 360). 70 Esta ideia de "replica" constitui principalmente 0 fio conduror da interprera-'faO de Gueroult. Aqui come~amos a cririca a ela, mas voltaremos ao assunto a respeito da conclusao do livro II da Etica. 71 Tanto G. Deleuze quanta P. Macherey nos parecem esrar de acordo com isso. 72 Etica II, Proposi,.o IX (G., II, pp. 91-92; P., p. 362). 73 Etica II, Proposi,.o XI (G., II, p. 94; P., p. 365). 74 Etica II, Proposi'fao XI, Corolario (G., II, pp. 94-95; P., pp. 365-366). 75 Etica II, Proposi,.o XII (G., II, p. 96; P., p. 367). 76 Etica II, Proposi~ao XIII, Corolario (G., II, p. 96; P., p. 367). 77 Etica II, Proposi'fao XIII, Escolio (G., II, p. 96; P., p. 367). 78 Sobre esta Proposi'fao XIII, d., de uma maneira geral, M. GUEROUL T, op. cit., t. II, p. 103-190; A. RIVAUD, "Physique de Spinoza", in Chronicum Spinozanum, IV, p. 24-57; S. VON DUNIN-BORKOWSKI, "Dien Physik Spinozas", in Septimana Spinozana, Haia, 1933. Em primeiro lugar, naruraimente, 0 arr. cit. de LtCRIVAIN. 79 Etica II, Proposi~ao XIII, Axiomas I e II (G., II, p. 97; P., p. 368). A Anomalia Selva gem 109 il " "' 41' ,iu:' ,III::: 11,,,11 ,I:::::: c:::::: I'''''''' ::::::::1 ',"""" 'l"i ,~i;~ ,.....,,,,1 80 Etica II, Proposi~ao XIII, Carolatio do Lema III (G., II, p. 98; P., pp. 369.370). 81 Etica II, Proposi~ao XIII, Defini~ao (G., II, pp. 99-100; P., p. 371). 82 Erica II, Proposi,1111 illl: iii'. II:!~:,: i ,,!I """",,, /:::;11 ,;~!~:;;~ ,,".11111' A ideologia anula tudo isso. A utopia spinozista e assumida exatamente por aquilo que ela nega: representam-na como modelo de organizac;ao1. Aquela correspondencia antagonfstlca do real que em Spinoza cresce cada vez mais ate se fixar como enigma da homologia da totalidade, para depois se reabrir necessariamente a verificac;ao do real, a dissolu~ao pratica do enigma - aquela mesma correspondencia hom610ga e enigmMica e assu-mida como valor. Como criterio de valida~ao, como figura de organiza~ao. E a ideia de mercado. De urn horizonte real que interpreta 0 milagre da transforma~ao das for~as produtivas em rela~oes de produ~ao determina-das, dos vfnculos de organiza~ao em rela~oes de comando, das singulari-dades e liberdades em totalidades e necessidades, da materia em valor. Esse horizonte e a troca: nao uma troca versa til e livre, como a descrita pelo ser meca,nico de Spinoza, mas uma troca como valor, como hierarquia, como comando - tal e a ser descrito pelo spinozismo. 0 determinismo se coloca sob 0 signo da mediaI~: .:~ ,:11::. ,.11::::1 'I::::!!, II.",,,. I:::::~::' 'i."".. /:i:;~ 'li:l!lll" ,~",I nao neste sentido - mas porque, qualquer que seja 0 sistema complexo ~ da media~ao, ela se desenrola sobre urn terreno ontologico unitario, con-tinuo e homogeneo. 0 mecanismo da nega~ao constr6i 0 ser: omnis deter-minatio est negatio", e vice-versa. Nao ha mais resistencias a domina~ao da burguesia: 0 absoluto spinozista interpreta sua hegemonia. 0 enigma do mercado se apresenta e se imp6e entao como lei luminosa do funcio-namento das categorias juridicas e eticas. A burguesia pode considerar 0 Estado, gra~as a esta transforma~ao juridica e polftica, como sua emana-~ao direta. A anula~ao do mundo real, sua duplicaC;ao numa imagem juri-dica e polftica: este e 0 efeito dessa opera~ao, este e 0 conteudo maci~o que faz a imporraocia do spinozismo como ideologia. Sem Spinoza, sem essa redu~ao ideol6gica de seu pensamento, sem 0 totalitarismo extremista que dela decorre, e ate dificil pensar a ditadura juridica e politica do jacobi-nismo, essa heran~a revolucionaria tao cara a burguesia10! Mas nao basta. 0 spinozismo como ideologia chegou tao longe que ele torna impossive1, ou ao menos extremamente dificil, 0 simples fato de pensar urn horizonte polftico de outro modo que como urn horizonte de media~ao. Nao somente a ideia de mercado, mas tam bern a ideia de crise do mercado, estao subordinadas a media~ao interna do ser, a prefiguraC;ao panteista. Suponhamos com efeito que a correspondencia e a homologia dos componentes do mercado sejam contestadas, que desapare~a a espontanei-dade da relac;ao: a imagina~ao politica e filos6fica, porem, sabe apenas si-mular, diante da crise da ideia de mercado, novos projetos que - mesmo se os conteudos mudam - conservam a forma da organizac;ao e da subor-dina,iio, da identidade e da homologia do poder! A espontaneidade da sin-tese se op6e seu carater voluntario, a anarquia ordenada por leis invisiveis, a ordem visivel do plano!!. Nova alternativa: a propria ordem do plano pode se romper contra uma realidade mais rica e mais antagonistica. Na pers-pectiva do spinozismo, segue-se a isso, de toda mane ira, a necessidade de recompor a unidade: a unidade como projeto - a forma pura repete 0 axioma da homologia! Ate as filosofias da Krisis seguem a logica do spinozismo. Nao se da libera~ao fora da totalidade, repete urn pensamento que, ainda na reversao formal da crise, simula 0 adagio chissico: correspondencia en-tre individuo e universo, comando do universal. Vma imagem de vida so-cial, assim como uma imagem do desenvolvimento da ciencia, que nao fos-sem centradas, uma sobre a ideia de poder, outra sobre a ideia de totalida-de, seriam impensoiveis. A liberdade da potentia e sua irredutibilidade ao processo dialetico da media~ao sao, dentro do spinozisniO, dentro da ideo-logia de mercado, dentro do totalitarismo da ciencia, impossiveis. Assim Spinoza - aquele Spinoza mutilado e traduzido em spinozismo - e redu-zido a Rousseau; e, novamente, ate Marx (e a descoberta da luta de classes como fundamento da crise do mercado) e reconduzido e massacrado em 114 Antonio Negri Rousseau; e 0 pr6prio Rousseau e retalhado na dura materia da necessida-de capitalfstica da mistifica~ao da potentia em potestas12 Anulac;ao do pensamento de Spinoza, foi dito - e, em particular, anu-la,iio da potencialidade de antagonismo contida em seu pensamento pelos elementos da utopia, tam bern e sobretudo na fase em que a utopia trjunfa. Potencialidade de antagonismo dos componentes: em Spinoza 0 real niio e manipuIave1, nao e dialetizave1, nao e pIastico diante de manobra te6rica alguma - sua versatilidade nao e diaU:tica, a determinaC;ao e nega~ao no sentido proprio, aqui e agora, niio possibilidade nem atualidade de alguma reviravolta logica. 0 pensamento de Spinoza nao e pensamento do ser se-nao depois de se ter fixado como pensamento ontol6gico, do enraizamento ontoi6gico, material, coisa1. 0 horizonte spinozista nao conhece hipotese de vazio, de possibilidade abstrata, de formalismo; e uma filosofia do ple-no, da estabilidade material da posi,iio, da determinidade, da paixiio. Ideo-logizar a utopia spinozista, transforma-Ia em constante do pensamento bur-gues s6 e possive1 onde 0 pleno da concepc;ao spinozista da coisa, das coi-sas, da modalidade e da substancia seja limado, raspado ate se reduzir a sombra, duplica,iio da realidade - e niio realidade verdadeira e imediata. Na Proposi,iio XIII do livro II, que acabamos de estudar, essa materialidade da coisa esta justamente expressa de maneira tao radical que s6 a forma da argumenta,ao paradoxal permite the dar sentido. 0 pleno: ou seja, 0 cara-ter s6lido, determinado, inapagavei de qualquer emergencia existencial. Do outro lado, a ideologia do spinozismo qlier a afirmac;ao de urn horizonte ideal e absoluto, sintese politica da soberania (como identidade do Estado), media~ao. Poderia ele jamais imaginar isso, 0 Spinoza que temos diante de nos, ja mergulhado na crise da utopia e que, nas cartas a Oldenburg de 1663, se mostra de tal modo condicionado por sua afirmac;ao da determinidade ontologica do singular e da dinamica da totalidade, que chega ate (com precipitac;ao, com excessiva precipitac;ao) a refutar qualquer verossimilhanc;a a hip6tese do vacuo fisieo em qualquer forma, contra as tentativas experi-mentais de Boyle - mas isso para dizer, sem arrependimento algum: deter-minidade de toda dimensao metafisica 13? 2. SPINOZA BARROCO? Hoi entretanto urn ponto no qual Spinoza parece aderir ao spinozismo, e propagar uma versao ideol6gica do sistema. Podemos situar esse momento no ultimo pedodo de Rijnsburg, entre 1663 e 1664. Na verdade, as datas nao significam grande coisa: sem duvida a crise holandesa ja come~ou, e a segunda guerra de navegac;ao com a Inglaterra esta-se aproximando, sobrecarregando a crise com pesadas implicac;6es externas14 Mas a par-A Anomalia Selvagem 115 II~,: .!! :I~,. ,11,1:,:,: 11,,:11, I::::: .,,,,, " :,..""" :;;':,'P '~IIIII~ ,~~, ,,_JI ticipa\=ao de Spinoza na vida polftica ainda nao e direta, contrariamente ao que acontecera depois da transferencia para Voorburg (1664). Entre-tanto, sao significativas as razoes do abandono de Rijnsburg: terminou 0 periodo de reflexao consecutivo a expulsao da Sinagoga, 0 periodo de sis-tematiza\=ao da utopia spinozista; a transferencia de Rijnsburg para Voor-burg significa a necessidade de se por numa situa\=ao em que seja possivel a verifica\=ao da utopia na realidade, de encontrar urn ambiente em que 0 conhecimento e a adesao ao espirito objetivo da epoca fossem diretos. Tal e 0 conteudo da escolha de Voorburg15 . Mas aqui temos a considerar so-mente a situa\=ao na qual a decisao da transferencia amadurece, e a condi-\=ao teorica na qual ela se determina: por assim dizer, devemos esclarecer a necessidade dessa contingencia. o ponto rna is alto da primeira camada da Etica e sem duvida a Pro-posi\=ao XIII do livro II. A contraposi\=ao da substancia e do modo, com efeito, se da a urn nivel tao absoluto e de tanta tensao que a reversao do horizonte da substancia sobre a superffcie da modalidade, e vice-versa, se encontra a cada trecho. Neste momento a versatilidade originaria do ser se fez fragilidade de suas dire\=oes. Nao ha op\=ao de eminencia sobre esse luxo de univocidade: ha uma insistencia sobre a determinidade dessa po-laridade, mas tambem uma possibilidade de inversao, de reversao. 0 sis-tema vive de urn equilibrio instavel que e a ultima possibilidade de unida-de interna da utopia, la onde seus componentes tiverem sido avaliados de maneira realista. Em sua urgencia em defrontar com 0 real, em rearticular a determina\=ao ontol6gica dos componentes, em evidenciar a chave pra-tica do sistema, para alem da possibilidade abstrata da complexa reversi-bilidade dos fatores, a teoria entao procura uma solu\=ao. Claro que 0 sis-tema poderia, tam bern, se organizar sobre essa fragilidade, e mante-Ia em sua simples transvalora\=ao, e Ihe impor uma tensao absoluta de supera-c;ao - que fosse, entretanto, somente pensada, mediac;ao ideal do para-doxo como tal, de sua consistencia e somente dela. Tal e a imagem que 0 barroco da da realidade - e essa e uma fortissima tendencia da epoca 16. "Ayer deidad humana, hoy poca tierra;! aras ayer, hoy tumulo oh mortales!! Plumas, aunque de aguilas reales,! plumas son: quien 10 ignora, mucho yerra. ,,17 Mas mesmo se ha em Spinoza lugar para a cultura espanhola 18, a cultura holandesa esta bern alem, com seu cheiro de piche e de ac;o. E Spinoza tam bern: e mais possivel ouvir-se nele, para ficarmos na poesia espanhola que realmente 0 influencia, sintonia e ressonancia dos cantos renascentistas sobre a natura naturans de Lope de Vega ou Francisco de Quevedo l9. Mas se isto e certo em geral, se cada vez mais 0 verificamos ao longo do desenvolvimento do sistema, nao deixa de ser verdade que -a guisa de conclusao da prime ira redac;ao da Etica -, estamos assistindo a urn momenta de grande instabilidade do projeto. Este e atraido, se nao 116 Antonio Negri dominado, tocado, se nao definitivarnente arrastado, por uma soluc;ao de tipo barroco, e de significac;ao ideol6gica. Possuimos urn texto, a Carta XII a Ludwig Meyer, datada de 20 de abril de 166320 em Rijnsburg, que constitui a esse respeito urn documen-to da mais alta importancia. Documento barroco? Vejamos pois. "Entao para come~ar, procurarei responder as perguntas que me fazeis em vossas cartas. E ja que me interrogais quanto ao conceito de infinito, e com pra-zer que vos comunicarei meu pensamento sobre tal ponto.,,21 A analise sobre 0 infinito parte de uma definic;ao complexa que determina tres pa-res de not;oes: 1.1: "0 infinito por sua natureza, ou seja, em virtude de sua definic;ao" e 1.2: 0 infinito como "aquilo que nao tern limites, nao pela forc;a de sua essencia, mas pela sua causa"; 2.1 "0 infinito porque nao tern limites" e 2.2: 0 infinito como "aquilo cujas partes, mesmo estando com-preen did as entre urn maximo e urn mInimo conhecidos, nao podem entre-tanto ser fixadas e expressas com urn mimero"; 3.1: infinito como "aqui-la que s6 se pode entender, e nao imaginar" e 3.2: "aquilo que, ao contra-rio, tambem se pode imaginar"22. Se observarmos esta definic;ao, devemos imediatamente notar que 0 ponto 1.2, ou seja, 0 indefinido, se encontra especificado por 2.1 e 2.2: esses dois numeros, efetivamente, designam 0 indefinido como indefinido extensivo (que nao tern limites) e indefinido intensivo (indefinidamente subdivisivel). 0 par formado por 3.1 e 3.2 sera provisoriamente deixado de lado. Com efeito, e sobre os quatro primei-ros pontos que se faz inicialmente a pesquisa: a distinc;ao do infinito e do indefinido fica assim transportada para a distinc;ao entre substancia e modo, entre eternidade e durac;ao. Ate aqui estamos no terreno da Etica, da Pro-posic;ao XIII do livro II; infinito e indefinido, exatamente como substan-cia e modo, revelam a polaridade do mundo. A diferenc;a ontol6gica esta fixada, mas os termos da diferenc;a permanecem num horizonte absoluta-mente unfvoco. E oeste ponto que a instabilidade se rompe: 0 infinito es-sencial vern a tomar a forma do ser eminente face ao indefinido existen-cial. "Ve-se (de fato) c1aramente que concebemos a existencia da subst:in-cia de acordo com urn genero totalmente diferente daquele da existencia dos modos. E do qual nasce a diferenc;a entre a Eternidade e a Durac;ao. Por meio da durac;ao, na verdade, podemos explicar apenas a existencia dos modos; enquanto que a existencia da substancia se explica par meio da eternidade, que e fruic;ao infinita do existir (existendi) ou, com licenc;a dos latinistas, do ser (infinitam essendi fruitionem). De tudo isto resulta evidente que quando, como acontece com freqiiencia, consideramos a exis-tencia e a durac;ao dos modos em relac;ao exclusiva com sua essencia, e nao em relac;ao com a ordem natural, podemos 0 quanta quisermos determina-las e pensa-las maiores ou menores e ate dividi-Ias em partes, sem destruir o conceito que temos delas. Enquanto que a eternidade e a substancia, do A Anomalia Selvagem 117 iI: II~: 'ilr.:: ,::iii~:; ,1111:::1: :11,..11 ~:::::~:, !:;' I!ii!: III:',' liii::;; ,111::::::1 ",," 'i,,,,,"'" t."":'::I' .~" ,,, '."""", :)':::11: "~~I:,i $,I: II;: II( ,,~~ 111::;,< '111::::a, ~::::::::I ' .. ". :/:::11 "'111111 '111:0" " .. I"'" tramos uma regra universal que se aplica a totalidade e exclui de si toda particularidade do real, de outro, uma "coisa de todas as coisas" que leva e conserva consigo a plenitude infinita de todas as propriedades; por urn lado, 0 puro pensamento de uma conexao necessaria de todas as proprie-dades, por outro, novamente, 0 Ens Realissimum da Escolastica"34. Evocamos tao longamente esta leitura de Cassirer porque ela toca, cer-tamente, 0 problema fundamental da crise do pensamento de Spinoza: a luta 16gica que, dentro de uma tendencia inicialmente unitaria, as partes em cisao travam entre elas. E 0 registro do fim da utopia humanista, e a recepII' "" 'il, ,r': ;0:;' liif;~:' ,ill:::11. ,:,,11 .. , ::::::;:1 !:::> r,."""H" :~: ::::1 r"'" : .. ".". ::1:::11 f' 111: , .. " 11(:: :!~:: ,Hr.:,111 ,III::U" t..:l: '" .::::::: c:::::::: 10..".'" ::::,11 ;.," -,,,,, :~"" :Z:;11 ",," "", .. ', pia renascentista. Do ponto de vista da ideologia, e a indistin~ao do mun-do capitalista e sua tradu~ao reformista proposta pelas filosofias do racio-~ nalismo cartesiano que sao aqui atacadas e destrufdas. As antinomias do mercado e do valor saltam ao primeiro plano: contra elas, a infinita pro-dutividade do trabalho humano procura uma nova organizac;a051 . Nao e entao por acaso que urn acontecimento biogrcifico, a passa-gem de Rijnsburg para Voorburg, ganha aqui uma significa,ao de ordem geral. Efetivamente, a ruptura do sistema, a nova base metaffsiea caracte-rizada como limiar cdtieo do passado, implieam uma interrup~ao efetiva, uma cesura real do desenvolvimento filosofico. Reconstruir urn horizonte geral que mantenha e desenvolva a densidade ontologica do modo, a po-tencia do mundo, implica uma serie de instrumentos fenomenol6gicos in-teiramente novos. A filosofia do mundo, a ffsica do modo, para produzi-rem uma nova metaffsica, tern de se inserir no mundo, avaliar e exaltar a eticidade do modo singular e plural. Insistir sobre a eticidade do modo significa percorrer sua fenomenologia. Depois do desenvolvimento de uma pars destruens tao radical, depois da identifica~ao de urn solido ponto de apoio a partir do qual reabrir a perspectiva metaffsica, a elabora~ao da pars construens requeria urn momento prcitico. A etica nao podia se constituir em projeto, em metaffsica do modo e da realidade se nao se inseria na his-toria, na polftica, na fenomenologia da vida singular e coletiva: se nao ti-rava desta urn novo alimento. Tinha de percorrer 0 mundo da imagina-~ao e das paix6es para dele fazer a materia e a for~a constitutiva da re-constru,ao do mundo. 0 horizonte ontologico produzido pelo desenvol-vimento cdtico da primeira camada da Etica deve agora encontrar uma materialidade dinamica sobre a qual desdobrar sua propria for,a. Desse ponto de vista, nao e de espantar que, no meio da elabora~ao da Etica, Spinoza deixe tudo de lado e come,e 0 trabalho politico (pois a critica bfblica e teologica, na epoca, e imediatamente politica)! Alguns comen-tadores percebem a centralidade do trabalho politico de Spinoza52: mas e sua centralidade ontologica, estou dizendo ontologica, que e de se notar. E no entanto tudo 0 que aconteceu ate aqui conduz a esse resultado: 0 desenvolvimento da analise metaffsica, a critica interna da ideologia, a iden-tifica~ao do limiar cdtico do sistema na emergencia da irredutfvel eticidade do modo. Agora e a hist6ria que deve refundar a ontoiogia, ou - se qui-sermos - e a ontologia que deve se diluir na eticidade e na historicidade para se tornar ontologia constitutiva. A hist6ria e a politica: "Esta doutri-na (efetivamente) e bastante util a sociedade com urn, pois ensina de que modo os cidadaos devem ser governados e dirigidos, isto e, nao para que sirvam de escravos, mas para que cumpram livremente 0 que e melhor"53. Resta urn ultimissimo ponto. E 0 carater seivagem, ate mesmo dessa interrup~ao do ritmo metaffsico. A potencia da reversao ontologica, a 126 Antonio Negri determinac;ao da eminencia do mundo, a insistencia da eticidade como forc;a constitutiva, tern na verdade tal violencia interna de decisao e uma forma tao total que tornam a Figura do conjunto do pensamento de Spinoza im-possivel de relacionar com a serena moderac;ao do pensamento da epoca. Uma qualquer coisa de desproporcionado e sobre-humano. Urn desenro-lar selvagem. Nao fac;o questa:o de acentuar novamente as caracteristicas materiais, historicas desse comportamento. Mas, por Deus, que isso fique em mente: de outro modo, tornam-se incompreensfveis 0 dilacera,mento, a ferida, a tra~ao que Spinoza imp6e a historia do pensamento ocidental. E tambem a esperanc;a. NOTAS 1 T ais sao os efeitos, sobretudo na Fran~a, dos progressos do conhecimento do sistema spinozista antes da Revolu~ao. Sobre isso tudo, ver 0 livro de Verniere ja men-cionado. Cf. tambem C. SIGNORILE, op. cit., que, sem deixar de seguir 0 fio do dis-curso de Verniere, 0 enriquece de maneira bastante substancial com suas analises histo-ricas. Talvez retomando certas sugestoes de F. MELI (op. cit.), Signorile insiste nas re-la~oes do spinozismo com 0 cleismo ingles, e mais particularmente com Toland. T odas essas analises refor~am a ideia do spinozismo como imagem ideologica: a de urn mode-10 de pensamento certamente revolucionario, mas esdtico, fixado e bloqueado. Esque-ma de uma alternativa puramente ideologica, puramente pensada, e nao projeto opera-torio e constitutivo. Pode-se entretanto notar, em Meli, uma certa sensibilidade para a abertura de urn discurso aberto sobre 0 spinozismo: 0 que, para mim, se cleve essencial-mente a continuidade observada por Meli entre as posi~oes de Spinoza e as dos refor-madores religiosos italianos, e mais particularmente socinianos. 2 Seria igualmente necessario evocar aqui, mas voltaremos a isso longamente mais adiante, a corrente dos interpretes liberais do pensamento de Spinoza, de L. ADELPHE, De La notion de la souverainete dans la politique de Spinoza, Nancy, 1910, a L.S. FEUER, Spinoza and the Rise of Liberalism, Boston, 1958. E, recentemente, B. BARRET-KRIE-GEL, L'Etat et les esclaves, Paris, 1979. 3 Mais uma vez, remeto evidentemente ao Iivro de C. B. Macperson, varias vezes mencionado: encontra-se ai urn abundante comentario da literatura teorica a respeito de Hobbes. Ver tambem A. NEGRI Descartes politico, p. 149 sq. 4 Cf. sobretudo R. Derathe, Rousseau et fa science politique de sons temps, Paris, 1950; R. DE LACCARIERE, Etudes sur fa theorie democratique, Spinoza, Rousseau, Hegel, Marx, Paris, 1963; W. Eckstein, "Rousseau and Spinoza", in Journal of the History of Ideas, V, junho, 1944, p. 259-291; M. Frances, "Les reminiscences spinozistes dans Ie Contrat social de Rousseau", in Revue philosophique, 141, n. 1, 1951, pp. 61-84. 5 Remeto aos trabalhos de Fester, Ritter, etc., e, de uma maneira geral, aos estu-dos dedicados as influencias do pensamento revolucionario frances no desenvolvimen-to do idealismo alemao. 6 L. Goldmann, La communaute hamaine et l'univers chez Kant, Paris, 1948. 7 F. J.Jacobi, Lettres a Monsieur Moses Mendelssohn sur la doctrine de Spinoza, [rad. fro in Oeuvres philosophiques, Paris, 1946. A Anomalia Selvagem 127 ,III: I::::: '"'''' 1,&:::: 'i~::" ,iiiiS;':' 111:::::1:, ~,,:II. , ,::::::::,:1 ?:::" :,:::::1 ,~, ", ' ... ",,, '/::,11 ~ili '~:~,J 8 Sobre este ponto, ver sobretudo os escritos eticos de 1802-1803 (G.W.F. Hegel, tradu~ao italiana de A. Negri, Scritti di filosofia del diritto, Bari, 1962) e a "filosofia de lena" (trad. fr.: Systeme de la vie hhique, Paris, 1976). 9 Sobre a formac;ao da consciencia burguesa, 0 velho livro de P. Hazard, La crise de la conscience europeenne, 1680-1715, Paris, 1935, permanece valido. 10 AIem da velha obra de B. GROETHUYSEN, Phifosophie de fa Revolution fran~aise, Paris, 1947, ver aquela, bern recente, de F. Furet, Penser fa Revolution, Paris, 1978. E preciso no entanto ressaltar que as trabalhos hist6ricos sabre a retomada por parte de Rousseau de certos tra~os fundamentais do pensamento politico de Spinoza nao sao unilateralmente condicionados pela ideologia do spinozismo. E de se notar a pru-dencia de M. Frances (art. cit.): voltaremos longamente a essa contribui~ao, mas con-vern notar deste ja que, se ela assinala pontos de contato entre as duas filosofias (analo-gias na forma do contra to, p. 65; analogias na defini~ao do conteudo do contrato como "vontade geral", pp. 66-70; analogias na concep~ao do direito de insurrei~ao, p. 78; analogias na concep~ao da religiao civil, p. 81; etc.), isto nao a leva a negar ou a ealar a existencia de pontos de divergencia. Ela insiste em particular na oposi~ao entre 0 ra-dicalismo da constitui~ao de Spinoza e 0 juridismo de Rousseau (sobretudo pp. 74-76) enos mostra tambem as conseqiiencias da ausencia de distin~ao em Spinoza, contraria-mente ao que aconteee em Rosseau, entre poder legislativo e poder executivo. A partir desses primeiros elementos de aprofundamento da historia do pensamento politico de Spinoza, chegaremos a mostrar que, se bern que realmente haja fortes analogias entre Spinoza e Rousseau, e principalmente na letra dos textos deles, na verdade elas sao in-teiramente secundarias em rela~ao a oposi~ao teorica radical das correntes de pensa-mento nas quais se inserem esses dois filosofos. Mas voltaremos a isso. 11 G.L. KLINE, Spinoza in Soviet Philosophy, Londres, 1952: pesquisa extrema-mente importante, e muito bern documentada, sobre a acolhida dada a Spinoza pelo re-gime socialista. 12 Seria necessario reconstruir aqui a abundante literatura, muito pouco interes-sante, referente a rela~ao teorica Rousseau-Marx. Na Italia particularmente, ficamos par muito rempo submetidos ao peso de uma ortodoxia estabelecida por Della Volpe e sua escola: a rela~ao Rousseau-Marx como rela~ao entre dois pensadores radicais-libe-rais. Haveria coisas bern mais interessanres a se dizer sobre a rela~ao Marx-Spinoza. M. RUBEL, "Marx a la reneontre de Spinoza", in Cahiers Spinoza, n. 1, pp. 8-28, traba-lhou reeentemente sobre os cadernos de Marx a respeito de Spinoza, com a aten~ao fi-losofica e a vigilancia crfrica que se conhecem nele. A tese fundamental de Rubel e de que Marx, em seus cadernos de estudo de 1836-1837, sente que a Figura impura do "spinozismo" levantada pela esquerda hegeliana e apenas a simuh:;ao de uma aiterna-riva (materalismo fingido) na historia da filosofia iluminista. Por rd.s do Spinoza do spinozismo, deve haver ourra coisa, que se trara de procurar e de separar desse primei-ro Spinoza! A MATHERON, "Le TIP vu par Ie jeune Marx", no mesmo numero dos Cahiers Spinoza, susrenta uma tese proxima: 0 jovem Marx procura em Spinoza urn fundamento para uma alrernativa radical, para alem da tradi~ao "spinozista". 13 Cartas XI, XIII, XIV e XVI (G., IV, pp. 48-52, 63-69, 69-72, 73-75; P., pp. 1091-1095, 1113-1115). 14 Alem dos textos ja mencionados de Kossmann, d., sobre este periodo, e em particular sobre a segunda guerra de navega~ao, P. j. BLOK, Geschiedenis van het Nederlandsche Yolk, Leyde, 1915, t.III, p. 131 sq. 15 Sobre a transferencia para Voorbug, sobre 0 contexto politico da epoca e so-bre as rela~oes no momento mantidas por Spinoza, d. A. DROETIO, Introdu~ao a tra-128 Antonio Negri du~ao italiana do Tratado politico (SPINOZA, Trattato politico, Turim, 1958), em particular pp. 8-33. Croetto nos da tambem todas as referencias uteis ao assumo. 16 E evidente que nao e possivel forneeer aqui uma bibliografia sabre os caracreres gerais do barroco. Permito-me remeter a meu Descartes politico, 0 della ragionevole ideo-logia, cit., no qual comento pelo menos a literatura mais importante sobre a questao. 17 G6NGORA, Sonetos completos, Madri, 1969. 18 Consultar as cadlogos da biblioteca de Spinoza ja mencionados no primeiro capitulo. Sobre a hist6ria portuguesa e espanhola da familia Spinoza, d. MUGNIER-POLLET, op. cit., cap. I, que relata igualmente a literatura sabre a questao~ 19 As obras de Quevedo constavam da biblioteca de Spinoza. Mas aqui se trata unicamente de ler a produC;;l()' rica desses autores para procurar sentir a profundidade de tais assonancias. De meu lado, fiz a experiencia com LOPE DE VEGA, Oeuvres lyriques, e com Francisco de Quevedo, Ohras completas, Madri, 1976, t. II. 20 Carta XII (G., IV, p. 52-62; P., pp. 1096-1102). 21 Carta XII (G., IV, p. 52; P., p. 1096). 22 Carta XII (G., IV, p. 52; P., p. 10961. 23 Carta XII (g., IV, p. 54-55; P., p. 1097). 24 M. GUEROULT, op. cit., t. I, dedica a carta sobre 0 infinito paginas exempla-res, que naturalmente estao no sentido da sua propria interpreta~ao, decididamente panteista e tradicional, do pensamento de Spinoza. Essas paginas mereeem ser lidas, pais deixam transparecer claramente 0 embara~o de Gueroult diante dessa duplica~ao gno-seologica do horizonte ontologico. P. DI VONA, op. cit., p. 570, considera essa carta sobre 0 infinito como uma "verdadeira e energica sfntese de toda a filosofia de Spino-za": ela me da uma impressao exatamente conrraria. 25 Carta XII (g., IV, p. 57, P., p. 1099). 26 ].T. DESANTI, Introduction a l'histoire de la philosohie, Paris, 1956, anali-sou justamente a conexao entre a filosofia de Spinoza e 0 desenvolvimento do grupo de Witt e do banco de Amsterda durante a perfodo 166011670. A. SOHN-RETHEL, Gels-tige und koperliche Arheit. Zur Theorie des gesellschaftlichen Synthesis. Frankfurt, 1970, p. 98, ao mesmo tempo em que avalia a tenrativa de Desanti, sustenta que "sua demons-tra~ao no entanto e insuficiente, pais, se bern que chegando ao limiar da forma~ao dos conceitos, ela nao chega a ultrapassa~lo". 0 que esta cerro: uma analise materialista da filosofia nao pode se fundamentar numa simples correspondencia material, ela tern de articular uma analise do desenvolvimenro categorial com a da forma da consciencia possive!. Em Desanti, a analise nao uitrapassa 0 alcance da consciencia possive!. 27 0 livro de Meyer e de 1666. Sabre toda esra questao e, de modo geral, sobre os problemas levantados pela interpreta~ao dos textos sagrados no ambito de uma Weltanschauung racionalista e panteista, assim como sobre as muitas solu~oes de tipo quiliastico dadas a esses problemas, d. L. KOLAKOWSKI, op. cit., em particular p. 180 (a respeiro de P. Serrarius, intermediario entre Spinoza e Oldenburg; quiliasta. Cf. tam-bern p. 651 e 705-707), 200-206 (sobre a quiliasmo de Brenius), 325-335 (sobre F. van Leenhof e sobre a inspira~ao quiliastica do proprio cocceianismo: volraremos a este ponto), e 749-759 (sobre Ludwig Meyer). 28 Carta XII (G., IV, pp. 61-62; P., p. 1101). 29 E. CASSIRER, op. cit., p. 111. 30 E. CASSIRER, op. cit., p. 106. 31 Ibid., pp. 107-112. 32 Ibid., p. 114. 33 Ibid., p. 114. A Anomalia Selvagem 129 iii:: I"" "il" ,;,::: iA~: ,iif;~: 1111:::t, !I"lr"", ':~~~I c:::::~t ~::::~: ::.....'.,' ':f.'1 :..fji, ,,.., ,,1 34 Ibid., pp. 120-121. 35 Ver sabre este ponto os comentarios ja varias vezes mencionados, e em particular os de M. GUEROULT, op. cit., t. II, pp. 190-256 e de L. ROBINSON, op. cit., t. II. 36 Para urn comentario, d. M. GUEROULT, op. cit., t. II, pp. 260-323. 37 Etica, II, Proposi~ao XIX, Esc61io (G., II, p. 114; P., p. 386). 38 Apesar do carater exemplar de sua analise do ponto de vista filo16gico, M. GUE-ROULT, op. cit., t. II, pp. 352-390 e 587-592 exclui naturalmente, aqui, como em QU-tros lugares, a possibilidade de coorradi'Sao desse genero; mas ete 56 pode faze-Ia com a condi." ", ~:: -: c .. ,11: .. : .ii~::. jl~:I", ",!'.J C:::i C""" ~::: ::~ ;,. .. " -'''' :,." :~p ~, .... , _,.1 Capitulo V CESURA DO SISTEMA 1. IMAGINA'; lr.~ c: 'c., ii:i 111:l". ~.,It .. _'1 C"' ,,_I C"'~' ~::;:~ ::::, 1-'"'' :..-.'" '1"~ ~~ . ..",1 ~oisas que se desprezam no meio dos homens e que, ao contrario, sao in-dicio de maior perfei~ao nos anima is. Assim sendo as coisas, segue-se a isso que 0 pecado, enquanto nao indica senao uma imperfei~ao, nao pode con-sistir em alguma coisa que exprima uma realidade, como a decisao de Adao e sua execu~ao."10 E neste pleno de ser que se move a verdade. Entao nao e possivel fazer 0 ser se degradar absolutamente em dire,ill::, ttl:::: '"':::; 111l:". I~: .. :ili::';::: JII~::H" " ~,:!!,::;I ' ........ 1 ( ""'I "" ... . ~ .... .. ::::1' ;',,,,, -,,,,' :_" 'lOU ,ii~; '.,. armadas nao me levam nem a rir nem a chorar, eu antes me ponho a filo-safar e a observar mais atentamente a natureza humana. Efetivamente, nao ereic que tenha 0 direito de zombar cia Natureza, emenDS ainda de me queixar dela, se p'enso que os homens, como tudo, de resto, sao somente parte cia Natureza e ignor~ como cada uma dessas partes se combina com o todD e de que modo se liga com rodas as Durras. E apenas por falta des-se conhecimento que certas coisas da natureza, de que tinha somente uma percep\=ao incompleta e mutilada, que nae ficava de acordo com nossa mentalidade filos6fica, me pareceram antes como vas, desordenadas e ab-surdas. Deixo, entao, que cada urn viva a seu talante, e quem quer morrer que morra em paz, contanto que a mim seja permitido viver pela verda-de,,2o. Parece uma exclama'Sao libertina: entretanto e 0 prologo do pro-grama seguinte: "Estou atualmente compondo urn tratado sobre minha mane ira de entender a Escritura; e sou levado a faze-Io pelas razoes seguin-tes: 1) os preconceitos dos teologos, pois sei que e1es, mais que qualquer outra coisa, impedem os homens de aplicarem seu intelecro a filosofia; pro-ponho-me entao a revelar esses preconceitos e a livrar deles os espiritos rna is advertidos; 2) a opiniao que 0 povo tern de mim, sempre a pintar-me como ateUj tenho de combate-la 0 mais possivel; 3) a liberdade de filoso-far e dizer 0 que sentimos; liberdade que pretendo defender por todos os meios contra os perigos de supressao representados pela excessiva autori-dade e insolencia dos predicantes,,21. o Tractatus theologico-politicus22 mostra, em sua genese, uma ex-traordinaria centralidade na historia de conjunto do pensamento de Spi-noza. Quase todos os comentadores 0 reconheceram, mas de maneira banal. Porque na verdade todos tiveram de ver essa interrup'Sao do desenvolvi-mento da Etica que a reda", ~i~:' c:: ,c~' IC.,: lii~:' II:!!" 1',:1 ,;:! o ~,--" ;::. "'". ~~ ;i2~ ., .. ,~ deslocando-se do terrene do conhecimento revelado para 0 terrenD cia rea-lidade hist6rica. 0 esclarecimento tea rico nao tern rna is nada a ver com 0 reino das sombras ideol6gicas, mas com a realidade cia mistifica\=ao histo-rica, eficaz. E no capitulo IV que se determina essa passagem. Enfim (A4), nos capitulos V e VI, 0 eixo analitico tarna a se deslocar: e a genese das ins-titui~6es, a fun~r~, ,:: lie:' u~.:: iC~;::1 ~::lL I.,:I(,,! ,::1 o ,. .. :::1 "",." .. ", 1:~ ;Z~, , ... ,.1 dpios seguros da mente. ,,34 Em outras palavras, 0 problema consiste na natureza especial dos efeitos da imagina" j~~: ~~' -Il'.,,, ~,;::: ", " ,=~~:: IGi .'" ~::~." .. ":ll,,l:1 ,:::::1 o 1-'" -'''I E::: ,:...." ~~ ,iI~ , .. ,,1 ,Possibilidade-necessidade de uma media.~; A1~;, C: .. Ii:.: 11C,;:1 liii~:::; Ir.l,. ".:!,J (:;:!J o 1--.'" E~~ "'. '" .:, dadeiro e 0 falso (hermeneutica), e de discrimina\ao logica entre fun\oes liteis e fun\oes destrutivas (exegese), que a imagina\ao nos apresenta no inteiro horizonte da revela\30. "Para resumir, 0 metodo de interpreta\30 da Escritura nao difere do metodo de interpreta\ao da Natureza, mas esta de acordo com este em tudo. Como 0 metodo de interpreta\ao da Natu-reza, na verdade, consiste essencialmente em descrever a historia da pro-pria Natureza, para dela retirar, a partir de dados certos, as defini\oes das coisas naturais, assim, para interpretar a Escritura e precise reconstruir a historia verdadeira da propria Escritura, para depois deduzir desta, como legitima conseqiiencia de principios e dados cerros, 0 pensamento de seus autores. ,,49 "Por isso e que 0 conhecimento de todas essas coisas, isto e, de quase todo 0 conteudo da Escritura, deve ser tirado da propria Escri-tura, assim como 0 conhecimento da Natureza, da propria Natureza."50 Mas tal conhecimento historico tern de ser integra do pela fun\30 racional que se exerce sobre a Escritura, "Iuz natural", clareando sua materia. Sao, entao, dois os pianos de aplica\ao da crftica: 0 primeiro, a que chamamos hermeneutico, e urn terreno no qual, justa sua propria principia ("a regra universal da interpreta\ao da Escritura e a de nao atribuir-Ihe como seu ensinamento senao aquilo que como tal resulta, da maneira rna is evidente possivel, de sua historia")51, reconstruimos 0 processo atraves do qual se exprime a revela\ao. Instrumentos tecnicos espedficos estao a disposi\ao da atividade hermeneutica: antes de mais nada, a analise linguistica; em seguida a redu\ao tipica dos livros singulares da Escritura a assunto ge-ral; finalmente a analise do contexto cultural52. Em segundo lugar, para coroar a analise hermeneutica, deve-se abrir a critica exegetica: "Assim reconstruida a historia da Escritura e colocado 0 firme proposito de so admitir como verdadeira doutrina profetica aquilo que se conclui dessa historia e se deduz da maneira rna is clara, e tempo de se delimitar a pes-quisa ao pensamento dos profetas e do Espirito Santo. Mas tam bern para isso sao necessarios uma ordem e urn metodo semelhante ao seguido para a interpretac;ao da Natureza com base na historia da propria Natureza. Do mesmo modo que, no estudo das coisas natura is, e preciso se esforc;ar antes de tudo para descobrir as coisas mais universais e que sao comuns a Na-tureza inteira, como 0 movimento e 0 repouso, suas leis e suas regras, que a Natureza sempre observa e pelas quais constantemente age, depois su-bir de la, gradativamente, para as outras coisas menos universais; do mes-mo modo, na historia da Escritura, procuraremos antes de tudo 0 que e rna is universal, 0 que e a base e 0 fundamento de toda a Escritura, 0 que e finalmente recomendado por todos os Profetas como uma doutrina eter-na e da mais alta utili dade para todos os homens"53. E evidente 0 papel central que, na atividade exegetica, e assumido pela razao: a hermeneutica descobre 0 tecido real que a exegese discrimina. Em que sentido e segun-144 Antonio Negri do que criterios? Segundo urn unko criterio: 0 da luz natural. "Nao te-nho duvida de que todos ja tenham entendido como este metodo nao exi-ge nenhuma Luz fora da Natural. A natureza e a virtude dessa luz consis-tern no fato de que ela deduz e conclui por via de legitima consequencia as coisas obscuras daquelas que sao conhecidas ou daquelas que sao da-das por conhecidas; nosso metodo nao exige mais nada. E certamente concordamos que ele nao e suficiente para esclarecer todo 0 conteudo da Biblia, 0 que nao se deve entretanto a algum defeito do metodo, mas ao fato de que 0 caminho que ele ensina, que e 0 direito e 0 verdadeiro, nun-ca foi seguido nem levado em considera~ao pelos homens, de modo que com 0 tempo ele se tornou muito arduo e quase impraticavel. "54 A luz natural fica entao restaurada. Afirmando isto, Spinoza reassume e funde no projeto exegetico pelo menos tres filoes de critica revoluciomi-ria que preparam seu trabalho: 0 da critica biblica propriamente ditoSS, 0 da critica filos6fica da revela,ao e da refunda,ao da luz natural56, e final-mente a reivindica,ao politica da liberdade individual de pensamento e de critica: "Cabe assinalar que as leis de Moises, ja que constitufam 0 direito publico da patria, tinham necessidade evidente de uma autoridade publi-ca para serem conservadas; pois, se cada urn fosse livre de interpretar a seu talante 0 direito publico, nenhum Estado poderia subsistir, mas se dis-solveria com isso e 0 direito publico se reduziria a urn direito privado. Mas o caso da religiao e bern divers~. Na verdade, ja que ela consiste, nao tan-to em atos exteriores, mas na simplicidade e sinceridade de animo, nao e de competencia de nenhum direito publico nem de nenhuma autoridade publica"57. Sao tres determina\6es, todas igualmente potentes, do pensa-mento revolucionario do humanismo, que constituem aqui a base do dis-curso. Mas 0 que se cleve destacar imediatamente e a especificidade da rei-vindica'rao spinozista da luz natural. Efetivamente, ao mesmo tempo em que as reassume, ela ultrapassa Suas proprias determina\oes geneticas. A IUl natural, a razao, se configuram desde logo nao simplesmente como capacidadade anaiitica, configuram-se como for\a constitutiva; nao sim-plesmente como func;ao interpretativa, mas como instancia construtiva. Na atividade hermeneutica, a razao, com efeito, percorreu 0 ser segundo a ordem gradual da emergencia da verdade. A critica que Spinoza faz nes-sas paginas ao metodo exegetico de Maimonides58 nao consegue escon-der a profunda afinidade cia tecnica intepretativa spinozista com as meto-dologias do judaismo medieval 59: ou seja, aqui como la a exalta\ao da fun,~;' r;;: ,~:" ,::::' ".-' ,~~:: ~v~; Ie.. L,IL .. ! ,:~ o t:" _"I 1-'" --,"" it.' ilL a:-profunda simbiose entre a instancia revolucionaria da inteligencia renas-centista e a intensidade do construtivismo erieD da tradi~ao judaica. 0 rea-lismo desta se incorpora definitivamente ao racionalismo moderno60. Rea-liza-se mais uma das premissas da utopia do circulo spinozista - ao mes-mo tempo em que se caloca uma severa cririca ao conjunto do projeto. 1sto tudo cia lugar a conseqiiencias importandssimas: pais a rela~ao entre me-toda e ontologia e revertida, em rela~ao a concepc;ao do seculo XVII, car-tesiana e em geral idealista. 0 metoda esta dentro da ontologia, nao e nenhum caso formal - a restaura\=ao da luz natural e obra historica e humana, ao mesmo tempo em que e uma explora,ao da realidade que mostra a forc;a coletiva, ontologicamente densa, dessa conquista humana. Vma conquista que inova 0 ser. A espessura ontol6gica do pensamento de Spinoza encontra, atraves cia hermeneutica da revelaC;ao, uma dinamica interior que organiza 0 desenvolvimento da razao61 . Mais do que nunca e necessario tornar a acentuar a cesura que cons-tituem essas paginas do Tratado teol6gico-politico em relac;ao a primeira camada do pensamento metafisico. Pode-se falar realmente de uma rever-sao. Mas e necessario acentuar, ao mesmo tempo, que a reversao ainda e preca.ria, que se trata - justamente - de uma reversao de ponto de vista, e que por enquanto se exerce em niveis secundarios, em bora importantis-simos, em relac;ao a tarefa que espera a filosofia: a fundac;ao materialista de urn horizonte etico. Entretanto e uti I marcar 0 fato de que a precarieda-de da renovaC;ao ontologica e sentida peIo proprio Spinoza. No mesmo mo-mento em que escreve essas paginas do TIP, em 1666, Spinoza, com efei-to, envia a Jean Hudde uma serie de cartas sobre 0 principio ontologic062. Nelas 0 ontologismo e levado tao longe que se torna uma mistura explosi-va: ser absoluto tendendo a perfei,ao, de urn lado (completando a prova a posteriori da existencia de Deus na Etica: "Ja que, com efeito, poder existir e potencia, segue-se a isso que, quanta maior a realidade que cabe a natu-reza de uma coisa, tanto rna is forc;a tern ela para existir")63, de outro, ex-pansao do ser e transbordamento de sua perfeic;ao atraves do mundo - mas de maneira positiva, potente, construtiva: "Tudo 0 que envolve a existen-cia necessaria nao pode ter em si nenhuma imperfeic;ao, mas deve exprimir a perfeic;ao pura. Mas ja que e s6 da perfeic;ao que pode resultar que exista urn ser por sua propria suficiencia e seu proprio poder, se supomos que exista urn ser que nao exprime todas as perfeic;oes, devemos tam bern supor que exista 0 ser que compreende em si todas as perfeic;oes. Com efeito, se existe por sua propria suficiencia aquele que e dotado de menor potencia, tanto mais deve existir aquele que e dotado de potencia rnaior,,64. 0 que e fun-damental aqui e 0 sentido do processo da perfeic;ao do ser, como via ascen-dente, a partir dos seres particulares: e 0 questionamento explicito da ima-gem neoplatonica da degrada,ao do ser, da linguagem da priva,ao. E como 146 Antonio Negri a potencia do universo multiplo e tal, torna-se logicamente necessario leva-la para 0 absoluto - nao por mediac;ao, nao atraves de alguma misteriosa dialetica, mas por transferencia, descentramento, salta de nivel ou, 0 que da no mesmo, negaC;ao de nivel. Paradoxalmente, quase por absurdo, as-sim se exprime Spinoza: "Sendo assim, segue-se que nao pode haver senao urn so Ser, isto e, Deus, que exista por virrude propria. Com efeito, se co-locamos, por exernplo, que a extensao envolve a existencia, e entao neces-sario que seja eterna e indeterminada e que nao exprima absolutamente nenhuma imperfeic;ao, mas uma perfeic;ao; e porranto a extensao pertence-ra a Deus ou sera alguma coisa que de algum modo exprima a natureza de Deus, sendo Deus urn Ente que, nao somente sob certo aspecto, mas abso-lutamente, e indeterminado e onipotente. E isto que dizemos para 0 caso da extensao deve tambem ser dito de tudo aquilo que queremos afirmar como envolvendo a existencia necessaria "65. 0 absoluto se exprime entao agora sob uma forma que exige implicitamente a reversao do quadro de exposi-c;ao do sistema: a superffcie absoluta da potencia exige ser apresentada num novo cenario metafisico. Eo metodo tambem se dobra a isso: "as percep-c;oes claras e distintas que formamos dependem so de nossa natureza e de suas leis determinadas e permanentes, ou seja, de nossa potencia absoluta-mente nossa" - uma potencia refinada por "uma assidua meditac;ao e uma intenC;ao e urn proposito firmemente constantes "66, pela vida etica com con-dic;ao de reapropriac;ao do ser. Meditac;ao, intenc;ao e proposito firrne, entretanto, nao bastam aqui a Spinoza para resolver a defasagem entre a espessura ontologica do me-todo hermeneutico e a definic;ao metafisica do ser. Por isso e que, no TIP, podernos sem duvida reconhecer na rnetodologia 0 ponto mais alto em que se organiza a pesquisa. Doravante a busca prossegue equilibrando-se em duas vertentes: uma pesquisa fenomenol6gica que enriquece a concepc;ao do ser, enquanto os niveis de definic;ao ontologica se organizam de modo precario sobre urn nivel de superficie - que no entanto ainda nao conse-guiu recuperar toda a potencia construtiva que the cabe. Voltemos ao texto do TIP. Que significa intervir no tecido da imagi-nac;ao profetica para nele discriminar a positivi dade do processo historico? Isto quer dizer exaltar a liberac;ao da razao, mas ao mesmo tempo significa identificar as condic;oes constitutivas da liberaC;ao real. Ja nos capitulos V e VI, como coroamento da critica filosofica da revelaC;ao profetica, 0 pro-blema havia sido colocado: a funC;ao real e positiva do desenvolvimento historico da razao, 0 elemento a ser isolado no mar do existencial imagina-rio, e a constituic;ao do coletivo. "A sociedade e de grande utilidade, e mesrno absolutamente necessaria, nao somente no que se refere a defesa contra os inimigos, mas tambem pela uniao de multiplas atividades que nela se insti-tui. ,,67 A func;ao da revelac;ao e entao a de construir 0 social e organiza-lo. A Anomalia Selvagem 147 ,~;' aa ,:~ ~~~ ' ..... ' I',J j&i::; leL 1,JI,.,' (;:I " t ... , -,' ",se os homens fossem constitufdos pela Natureza de tal modo que s6 tives-sem desejo daquilo que e ensinado pela verdadeira razao, a sociedade cer-tamente nao teria necessidade de lei alguma, bastaria absolutamente escla-recer os homens pelo ensinamento dos verdadeiros prindpios morais para que eles fizessem por si mesmos e com reta intenc;ao aquilo que e realmente util. Mas, pelo contnirio, a natureza humana tern uma conformac;ao bern diversa: todos procuram 0 proprio interesse, certamente, mas nao segundo os ditames da razao sadia; e, em geral, levados apenas por seu capricho e pelas paix6es que eles desejam alguma coisa e a julgam util (sem levar em considera,ao 0 futuro ou algo alem deles mesmos). Donde segue que ne-nhuma sociedade pode subsistir sem urn poder coativo, nem, conseqiiente-mente, sem leis, que limitern e regulem os apetites e a cupidez desenfreada dos homens. ,,68 E ainda: a func;ao da revelac;ao e a de perrnitir uma asso-ciac;ao que seja rnotivada, de motivar urn "poder moderado", ou seja, urn poder capaz de articular de maneira eficiente a vitalidade da associac;ao e a necessidade do comand069. 0 equilibrio e a moderac;ao dessa relac;ao sao essenciais, sao a condic;ao mesma da implantac;ao do poder. Na verdade, 0 que interessa antes de rnais nada a Spinoza na definic;ao do coletivo e seu caniter consensual. Antecipac;ao contratualista? Talvez. Depois que a analise hermeneutica colocou nas proprias articulac;6es do ser as normas de desenvolvimento da razao, as condic;6es da socialidade (como condic;6es da liberac;ao real) continuam a amadurecer. Dissipando-se historicamente, as sombras do imaginario guard am como residuo a positividade da imagina,ao. Os capitulos XII-XV do TTp70 tomam-se a proje,ao da positividade da imagina,ao, ja definida como possibilidade nos capitulos anteriores. Neles, a carga ontologica que a hermeneutica formou se transforma decididamente em forc;a constitutiva, em horizonte cons-titutivo das condic;6es coletivas da liberac;ao. E urn processo extremamen-te forte, de intensidade crescente. Constitutivo. E necessario insistir aqui nessa func;ao, porque frequentemente a critica anula 0 alcance ontologico do proprio termo "constitutio", reduzindo-o antes a "disposic;ao" e ati-tude humana que a atividade construtiva e estrutural71 Esta reduc;ao -obvia em todas as leituras pantefstas que negam por principio a sobre-determinac;ao ativa do ser sobre 0 horizonte modal - e, exatamente nas articulac;6es do sistema que estamos considerando, absolutamente insus-tentavel. Contra essas interpretac;6es, pode-se fazer valer justamente 0 tre-cho que se pode identificar nos capftulos XI-XV, e que se enrafza na posi-tividade constitutiva da obediencia. Obediencia, entao, e a passagem, 0 termo que vincula religiao e sociedade. Para estabelecer a figura da obriga-c;ao normativa, Spinoza so be ate ela a partir da analise do ato de consen-so. A primeira e ainda pobre defini,ao do "poder moderado" ja indicava este caminho. "A natureza humana nao tolera a coerc;ao absoluta, nem, 148 Antonio Negri como diz Seneca 0 Tragico, 0 imperio da violencia nunca teve longa dura-,ao. 56 urn poder moderado se mantem."n Ora, a fun,ao posit iva da imaginac;ao religiosa consiste antes de tudo na difusao da obediencia. Em diversos estagios do desenvolvimento historico. Com 0 ensinamento dos apostolos, a funC;ao da religiao se eleva em relac;ao aD que se obtivera do ensinamento dos profetas: aqui, religiosidade nacional, la, religiao universal. A interiorizac;ao da consciencia religiosa que se tern com 0 cristianismo uni-versaliza a definic;ao politica da obediencia: a crenc;a se apresenta agora como a forma a priori da obediencia polftica - elemento interior da obriga-c;ao. Nao, portanto, de uma obediencia particular, mas da obediencia em geral, forma do politico, elemento constitutivo do consenso. A imagina-C;ao comec;a a guardar como resfduo uma dimensao coletiva que e ao mes-mo tempo ideologica e estrutural- a religiao universal como legitimac;ao da obediencia, e a obediencia como efetividade do social, do coletivo. o problema da constitui~ao do coletivo se torna cada vez mais ex-plicito, e a procura de sua soluc;ao cada vez rna is apaixonada nos capitu-los que consideramos aqui. E preciso ter em mente os do is pontos que constituem a legitirnac;ao da organizac;ao social como efeitos historicos do desenvolvimento da razao: de urn lado a universalizac;ao do conteudo da religiao, do outro, a explicitac;ao cada vez mais evidente da func;ao cons-titutiva da imaginac;ao religiosa. Ora, em primeiro lugar, 0 conteudo da religiao. A analise hermeneutica, aplicada ao ensinamento dos apostolos, leva a reduzir 0 conteudo da religiao a alguns principios simplfssimos, e antes de rna is nada a urn essencial: "que a lei divina nos tenha chegado intacta neste sentido, ninguem pode duvidar disso. Com efeito, a partir da propria Escritura, sem nenhuma dificuldade, percebernos que 0 resumo de seu ensinarnento e de amar a Deus sobre todas as coisas e ao proximo como a si mesmo,,?3. Mas esse trabalho de reduc;ao nao e urn empobrecimento da consciencia religiosa: e simplesmente discriminac;ao da imaginac;ao e de-terminac;ao dos motivos que podem torna-Ia produtiva. E fundac;ao de urn codigo defsta: de uma serie de afirmac;6es - "pouquissimas" e "simplfs-simas" que provem diretamente da luz naturaF4. Qual e 0 efeito hist6rico institucional da ac;ao da imaginac;ao religiosa assim descrita? Nada rna is do que a determinac;ao da obediencia como condic;ao a priori da socialidade, do coletivo - 0 que significa dizer da vida e da reprodw;:ao dos hornens. A revelac;ao fala de coisas sobrenaturais. Deus se adapta as irnaginac;6es e as opinioes! Isto nao e de espantar porque os profetas e os apostolos "fa-lam de acordo com a inteligencia do vulgo, que a Escritura prop6e tornar obediente, nao douto,,75. A reivindicac;ao de urn codigo deista se articula entao estreitamente com a identificac;ao da fun~ao politica da religiao; a imaginaC;ao constituiu as bases da sociedade, colocando a obediencia _ teologicamente motivada - como legitima~ao do comando sobre a asso-A Anomalia "Selvagem 149 ...:;" i=iI: C:'" c:::: .. , --, ii;i': '"1. l.lL,,! ,:~ C) ~:, ". I ..... 11.. ,iI~ " .. 'l ciac;ao. De maneira que, por "fe', se entendera puramente "0 fato de tef de Deus tais noc;6es que, ignoradas, e eliminada a obediencia em relac;ao a Deus, e, colocada tal obediencia, elas sao necessariamente colocadas"76. "Segue-se a isso que a fe nao exige tanto dogmas verdadeiros quanta dog-mas piedosos, isto e, tais que movam 0 animo para a obediencia ... 77 "E preciso, para avaliar a piedade ou impiedade de uma fe, levar em ccnra somente a obediencia ou a insubmissao daquele que a professa, e nao a verdade ou a falsidade cia propria fe.',78 "0 quanta e salutar e necessaria esta doutrina no Estado, se quisermos que os homens vivam na paz e na concordia, quantas causas e que causasl de perturba~~~: ~;~~, C ... : ,c.:::;' IIC..) lii~::::' 1Ir.1, .. , 1,,1t,":: ,:::1 C'" ,,' ~". :~) ~." .- to' i~, .,' Uma ultima eonsidera~ao, voltando urn poueo atras. Essa retirada tatica q;'e 0 jusnaturalismo mostra no decorrer de urn processo de pesquisa deci-didamente voltado para a capta~ao da dinamica constitutiva reconduz-nos it concep~ao.logiea do universal na Etica. Ora, como ja vimos83, na Etica a polemica contra 0 universal e contra toda forma de transcendentallogico e extremamente forte. 0 conhecimento e dirigido sem desvios para a intui~ao do concreto, do ontologicamente determinado: a comunica~ao logica se baseia em "no~5es comuns" que nao tern nada a ver com 0 universal, mas sao, ao contrario, generaliza~5es de defini~5es nominalistas das propriedades co-muns dos corpos. E urn racionalismo positivo, oposto ao platonismo e a qual-quer concep~ao realista do universal, aquele que Spinoza elabora com a dou-trina das no~5es comuns84 A critica destacou a importancia do impacto dessa concep~ao nominalista sobre 0 pensamento de Spinoza - verdadeira e propria base de reversao, possibilidade logica de captar a positividade em seu dina-mismo material85J De maneira que na Etica estava colocada, sob este aspecto (se bern provavelmente apenas sob este aspecto), a oportunidade de desen-volver a tematica constitutiva. Muitos outros elementos se opunham a isso, em particular e sobretudo a concep~ao do scr eminente. Mas certamente nao a concep~ao critica do universal. Estamos aqui no paradoxo do Tratado teo-logico-politico - pelo menos da parte ate aqui estudada: e que no meio de uma cansativa busca constitutiva, a pesquisa se bloqueia e volta taticamente para tras, justamente num ponto em que tudo esta disposto para que pudesse avan~ar. 0 TTP nao conhece as "no~5es comuns", em vez disso ele utiliza os universais. 0 jusnaturalismo, a teoria da luz natural e do defsmo apon-tam, e isto e suficiente para reintroduzir no conjunto da obra de Spinoza uma problematica (a dos universais) que parecia definitivamente ultrapassada. Bloqueio da pesquisa, entao, contradi~ao dela! Mas bern depressa, nos ca-pftulos XVI-XX, que analisaremos no proximo paragrafo, a analise se apro-funda justa mente contra esses limites. Veremos isso, entao. Mas urn certo jusnaturalismo (paradoxal e, se quisermos, quase entre parenteses), de qual-quer modo, esra relan~ado aqui: fara a felicidade do pensamento polftico dos seculos seguintes, e servira em particular como base para as historias aven-turescas do spinozismo. Pelo menos naquela forma, extremamente difun-dida e cujo estereotipo e representado por Bayle e os autores holandeses do seculo XVII, que combina a irracionalidade da fe e a certeza do universal natural86 A sintese rousseauniana do spinozismo vira mais tarde: mas ela mesma tambem pressupod esse paradoxo que se pensou poder ler na her-meneutica spinozista. Entretanto nao era jusnaturalismo, senao como reti-rada tatica, afastamento momentaneo da linha fundamental do projeto -e de qualquer modo contraditorio, tanto com 0 desenvolvimento posterior do pensamento de Spinoza quanto com a primeira reda~ao da Etica. Nao, Spinoza nao e urn jusnaturalista, senao por acidente. 152 Antonio Negri 3. 0 HORIZONTE DA GUERRA Este panigrafo tambem poderia ter-se chamado: para alem do jusna-turalismo, para alem do "acidente" jusnaturalista. Com efeito, mal se entra no capitulo XVI ("Ate aqui tivemos 0 cuidado de separar a Filosofia da Teologia e de mostrar a liberdade de filosofar que esta concede a todos. Agora e tempo de nos perguntarmos ate on de deve se estender, num Esta-do bern organizado, essa liberdade deixada ao indivfduo de pensar e mzer o que pensa. Para examinar essa questao como metodo, devemos tratar dos fundamentos do Estado e em primeiro lugar do direito natural de cada urn, abstra~ao feita, por enquanto, do Estado e da religiao,,87), logo se evidencia a acidentalidade de uma concep~ao jusnaturalista, racionalista e idealista, que parecia estar apontando nos capftulos precedentes. "Por Direito e Institui~ao da Natureza, nao entendo outra coisa senao as regras da natureZa de cada individuo, segundo as quais concebemos cada ser como determinado a existir ease comportar de uma certa mane ira. "88 E, ao con-trario, uma concep~ao racionalista mas naturalista, tendenciosamente mate-rialista, a que se imp6e. "Por exemplo, os peixes sao determinados pela Natureza a nadar, os grandes a Comerem os pequenos; em consequencia os peixes sao os donos da agua, e os grandes comem os pequenos, em vir-tude de urn Direito Natural soberano. E certo, com efeito, que a Natureza considerada de modo absoluto tern direito soberano sobre tudo 0 que esta em seu poder, ou seja, 0 Direito da Natureza se estende ate tao longe quanto se estende sua potencia; po is a potencia da Natureza e a propria potencia de Deus, que tern sobre todas as coisas urn direito soberano. Mas a poten-cia universal da Natureza inteira nao sendo nada mais fora da potencia de todos os individuos tornados em conjunto, segue-se a isso que cada in-dividuo tern direito soberano sobre tudo 0 que esta em seu poder, ou seja, o direito de cada urn se estende ate onde se estende a potencia determina-da que lhe cabe. E sendo a lei suprema da Natureza que cada coisa se es-force por perseverar em seu estado, tanto quanta possa, e isto nao em ra-zao de outra coisa, mas somente de si mesma, segue-sc que cada indivi-duo tern direito soberano de perseverar em seu estado, ou seja (como eu disse), de existir e se componar como ele e naturalmente determinado a fazer. Nao reconhecemos aqui nenhuma diferen~a entre os homens e os outros indivfduos da Natureza, nao mais que entre os homens dotados de Razao e os outros que ignoram a verdadeira Razao, nem entre os deficientes, os loucos e os sa os de espfrito. Tudo 0 que uma coisa faz ao agir segundo as leis da sua natureza, com efeito, ela faz com direito soberano, pois ela age tal como e determinada pela Natureza e nao pode agir de outro mo-do.,,89 Desejo e for~a constituem 0 direito natural individual. Vale a pena se perguntar: e jusnaturalismo, isto? Poderiamos sustentar, em vista do A Anomalia Se1vagem 153 "c~' fir ,::' c.~':~ ,'-::;, .. "J' Iii;,:; Jo.. I,It .. ' (::I o ~ .. :, .. -numero de analogias e influencias diretas que podem ser invocadas aqui, de Grotius a Hobbes9o, que estamos diante de uma versao pessimista do jusnaturalismo. Nao me parece. 0 especifico de Spinoza e que ele evita e refuta aquelas que parecem ser as caracteristicas essenciais das filosofias jusnaturalistas, ou seja, a concep~ao absoluta da funda." .:; ,., C'1 .;:,. ,0 e, jri5 It!. .. 'I.' ,::I " ~-:) ,~. :~ '" complexa organiza~ao de antagonismos. A rela~ao entre exercicio do po-der e expressao do consenso nao esta achatada sobre nenhuma sintese de poder: e entreranto uma rela~ao aberta - "0 pacto nao pode rer nenhu-rna for~a, senao em razao da utilidade, desaparecida a qual 0 proprio pacto fica completamente anulado e destruido,,94. Ora, 0 governo democratico e "0 mais natural e 0 mais conforme a liberdade que a natureza concede a cada urn. Nele, com efeito, ninguem transfere a outrem 0 proprio direito natural de modo tao definitivo que depois nao possa mais ser consultado; mas 0 transfere a maior parte da sociedade inteira, da qual ele e membro. E por esse motivo rodos permanecem iguais, como eram antes no esrado de natureza,,95. Mas dizer isto (alem de sobredeterminar a profundissima distancia que separa Spinoza do mecanicismo e do organicismo hobbesia-nos) significa exatamente outra coisa: voltar para td.s, retomando 0 dis-curso a partir da natureza da a~ao individual, de onde 0 processo come-~ara, e reafirmando a continuidade, ou de todo modo a falta de solu~ao de continuidade que processo registra - significa bern definir 0 signifi-cado (reverte-Io?) daquela precipitada passagem da individualidade ao contrato descrita pelas primeiras paginas do capitulo XVI, abafada den-tro de uma terminologia jusnaturalista. Aquele antagonismo das individua-lidades, ponto de parrida do processo, mantem entao sua natureza, mes-rno no nfvel da sociedade desdobrada. 0 individuo nela se apresenta no-vamente como direito absoluto. "Ninguem podera jamais transferir sua potencia, e consequentemente seu direito, ao ponto de deixar de ser urn homem; e tampouco havera jamais urn soberano que possa fazer rudo 0 que quiser. "96 E ainda: "Para conhecer bern are onde se estendem 0 direi-to e 0 poder do governo, e preciso notar que 0 poder do Estado nao esta lirnitado ao uso da coer~ao apoiada no medo, mas compreende todos os meios de fazer com que os homens obede~am a seu comando; nao e 0 modo de obedecer, de fato, mas a propria obediencia que faz 0 sudito"97. De rnaneira que nao e 0 absolutismo que constitui a sociedade politica, mas a organiza~ao da potencia das individualidades, a resistencia ativa que se transforma, pelo uso da razao, em contrapoder, 0 contrapoder que se des-dobra coletivamente como consenso ativo, a pratica consensual que se articula em constitui~ao real. 0 antagonismo natural constroi a histori-cidade concreta do social- seguindo a potencia consriruriva da imagina-~ao coleriva e sua densidade material. Nao 0 absoluto, nem 0 democrati-co, e 0 resultado do processo, mas uma constitui~ao coletiva do real. Recapitulemos, e coloquemos os problemas novos que nascem des-sa primeira leitura. 0 desenvolvimenro da indaga~ao spinozista - e a pri-meira observa~ao a ser feita -, longe de retomar os esquemas do direito natural, tenta, ao contrario, nessa primeira defini~ao explicita da doutri-na poHtica, regular-se sobre uma dinamica constirutiva. A tese da social i-156 Antonio Negri za~ao, sustentada antes atraves da analise dos percursos da imagina~ao, procura no terreno politico uma verifica~ao e uma solu~ao de suas multi-plas antinomias. 0 ritmo genetico do social, em cima dos antagonismos individuais, e representado de maneira particularmente versatil, e os va-rios deslocamentos de potencia se afirmam com muita for~a no ambito de urn projeto constitutivo. Desse ponto de vista nao ha duvida de que que lemos ate agora e 0 primeiro anti-Hobbes que a historia do pensamento politico ocidental nos apresenta. Urn anti-Hobbes que se demora, ate na-mora, com 0 realismo hobbesiano da descri~ao da sociedade natural (e talvez, como veremos mais adiante, 0 aceite como descri~ao adequada da condiI ,,1\0',' I~:;I' I;"''' C:;:;:I "I .-', c:) ,-' lu::i 111.., 1~5: ~; '~I " :1, to logico da defini~ao (e na conseqUente imprecisao terminologica, tao pouco habitual em Spinoza) -, isto entao quer dizer que, observado em filigrana, 0 processo funciona: a) como colocar;ao do problema da figura da rela~ao entre individualidade e socialidade, e como alusao a seu per-curso abstrato; b) como destrui,ao de toda possibilidade de hip6stase da sintese, como insistencia na sua eventualidade historica e nas caracteristi-cas versateis do consenso; c) como indica~ao de uma dificuldade funda-mental na solur;ao do problema: pois na verdade 0 mecanismo do deslo-camento ontologico da potencia, do nivel individual ao social, esta indi-cado, mas essa indicar;ao por enquanto reside no vazio de uma imagina-r;ao metaffsica que possa reger 0 processo em seu coni unto. Donde a insu-ficiencia atual da tematiza,ao (que, veremos, afeta a totalidade do Trata-do teoI6gico-politico) e 0 surgimento de novos problemas. Mas para iden-tifica-Ios e born acompanhar, por assim dizer, de dentro, os limites do pro-cesso constitutivo. E sempre 0 tema contratual que devemos ter em mira: e a dificuldade surge essencialmente diante da insuficiencia do contrato para criar uma obrigar;ao eficaz 104. Ora, muitos autores tern indicado esse "li-mite" interne do pensamente spinozista105 ; mas e urn limite? Se, como acontece freqUentemente, esse "limite" e assinalado em relar;ao a finalizar;ao conceitual operada pelo pensamento politico para produzir uma definir;ao juridica do Estado moderno (com Hobbes e Rousseau como arquetipos), essa etiqueta nao cabe sobre Spinoza: ele esta buscando outra coisa. 0 pensamento de Spinoza nao e urn pensamento "liberal", em sentido ne-nhum, nao e fundador do Estado de direito, de maneira alguma, nao tern nada a ver com a "sublime" linha Hobbes-Rosseau-Kant-Hegel! 0 limite agora, e desta vez sem aspas, e entao unicamente relativo a impossibilida-de atual de fechar a essencia contratual num sistema dinamico adequado: e na cesura, ainda nao superada, do sistema, na dificuldade de rea tar 0 contrato com a forr;a constitutiva da imaginar;aoI06 . Quando, nos 6ltimos anos de sua vida, que nao deixam de ser 0 momento de maior maturidade do sistema, no Tratado politico (1675-1677), Spinoza elimina da argumen-tar;ao constitutiva a teoria do contrato exposta no TTP, a organizar;ao do sistema, com isso, terna-se coerente - quaisquer que sejam os limites da nova formular;ao. Mas e preciso ir bern alem da sistematiza~ao atual! Neste momento, em cornpensar;ao, temos sob os olhos apenas dois elementos: de urn lado uma relar;ao de potencias fundada sobre 0 antagonismo, refi-nado mas ainda nao definitivamente integrado ao processo constitutivo (ao projeto deste), e em segundo lugar a rigorosa exclusao de qualquer con-cepr;ao hipostatica dessa relar;ao. Atenr;ao: eu nao disse que a concepr;ao antagonica da realidade social seja deixada de lado quando da posterior maturar;ao do sistema - antes, acontecera ate 0 contrario. 0 que e aban-donada e a figura do contrate e a ilusao de optica que ela produzia: 0 158 Antonio Negri jusnaturalismo spinozista. Mas para que isso acontecesse era preciso que o discurso politico spinozista perdesse sua relativa autonomia e voltasse a ser urn aspecto, uma conseqUencia do desenvolvimento do sistema: a ver-dadeira politica de Spinoza e sua metafisica. Por enquanto estamos ainda bern aquern dessa conclusao. Os pro-blemas colocados pelo Tratado teoI6gico-politico, depois da tem:itica da fundar;ao reexaminada ate aqui, sao enfrentados de maneira adequada a ambigliidade e a imprecisao atuais do projeto. E preciso entretanto distin-guir entre a dimensao de urn projeto constitutivo, agora solidamenfe ad-quirida, e as dificuldades concretas de sua execu;:' ,ol":" .:l~:1 ,'''''1' .::11 C::J 'J l(i:~ It!.,. I,Ll C::l i logico repercute no plano da historicidade e empobrece 0 conteudo do dis-curso teorico jurfdico. Ao mesmo tempo, esse positivismo e tentador na medida em que alude a uma positividade do direito que se move sobre as articula~6es e os movimentos ontologicos do processo constitutivo. A aborda-gem spinozista do problema do direito exige este complemento da analise. Complemento da analise que Spinoza, nas paginas imediatamente seguintes, tenta abordarili. Se, diz ele, 0 estado de natureza, que devemos conceber "sem religiao e sem lei", passa a "estado de religiao" - e vimos a imagina~ao produzir essa passagem -, devemos alem disso captar a norma dessa passagem historica, e identifica-la no "contrato explicito" que constitui tam bern 0 estado de religiao. "E essa promessa ou transferencia de direito para Deus ocorre do mesmo modo como concebemos que se faz numa sociedade comum, quando os homens decidem renunciar ao proprio direito natural. Com urn pacto explfcito e com juramento. "112 Contrato, entao, como norma da transforma~ao da sociedade? Historia como fluxo e substitui~ao de fases contratuais diferentes, cada vez rna is caracteriza-das pelo dominio da razao? 0 quanta a proposta e abstrata salta imedia-tarnente aos olhos. Mas tambem 0 quanto esses atos sao bern pouco spino-zistas, justamente hi onde 0 pensamento de Spinoza e considerado como instancia fenomenologica e como vontade constitutiva. De modo que tam-bern nesta abordagem de uma fenomenologia hist6rica do contratualismo fica uma tentativa malsucedida, uma indica~ao excentrica. No entanto ela tambem enriquece 0 quadro. Pois, com efeito, desse modo estamos nova-mente colocados diante da indomavel riqueza do mundo da imagina~ao, dessa laica e voraz concep~ao da diversidade e da versatilidade do ser fenomenologico - do reaparecimento potente da concep~ao do ser univo-co, como riqueza, indomavel reino da vida, Neste terreno do ser indomavel, porem na falta de uma alternativa ontologica suficiente para dirigir sozinha a continua~ao da indaga'rao, a pesquisa spinozista vai e vern. Agora retorna, muda de quadro, depois de aludir aos trajetos da potencia ontologica, para na fenomenalidade do exis-tente, na casuistica do politico. No capftulo XVIII "deduzem-se alguns prin-dpios politicos a partir da estrutura da Republica dos Hebreus e da sua hist6ria" 113. Aqui a erraticidade do raciocinio, sobre urn ass unto descone-xo, onde a analogia ocupa 0 lugar do encadearnento de ideias, se perde. Fingindo uma reorganiza'rao da experiencia historia do Estado judaico, exprime-se uma serie de maximas que mais lembram as coletaneas erudi-tas da epoca que 0 estilo logico do pensamento de Spinoza 114. Se nisto devesse consistir a passagem da teoria polftica a analise politica, essa tentativa se concluiria por urn completo fracasso. A propria exalta'rao do regime polf-tico dos Paises Baixos tambem e inteiramente conservadora nessas paginas. E depois, de maneira geral, "com esses exemplos fica inteiramente confir-160 Antonio Negri made aquilo que dissemos, ou seja, que cada Estado deve conservar sua forma de governo, que nao pode ser mudada sem 0 perigo de uma total ruina do proprio Estado"115. Pode ser que, por exemplo, a despropor'rao que se ve-rifica entre a exalta'rao - urn pouco retorica, na verdade - das experien-cias republicanas e a posi~ao muito nitidamente regressiva das propostas polfticas se deva a preocupa'rao, fortemente sentida por Spinoza, de corres-ponder as expectativas do milieu oligarquico ao qual, a partir de Voorburg, ele estende a mao! E nao h:i duvida de que justamente naqueles anas se esta desgastando, por tras da fachada cada vez rna is caduca da ilusao republi-cana, 0 regime dos de Witt - de modo que a analogia entre 0 texto spinozista e os fatos politicos, e portanto a funi:' ,~:' ilffi, (")' cf " Ii ,r;;; 11t1. :i lL! i ii C::l :,1 ii e) 1 :~-I:) ~. It:: 1,1 :~, inconvenientes que nao se possam facilmente eliminar. IV) Que 0 gozo dessa liberdade dada ao indivlduo e sem perigo para a piedade. V) Que as leis promulgadas a respeito de materias especulativas sao completamente inu-teis. VI) Mostramos enfim que nao apenas essa liberdade pode ser conce-dida sem que a paz do Estado, a piedade e 0 dire ito do soberano sejam amea~;, ,:' .,r,':' i~ii, (;J" ..1' C:> ,!'::? Itt:) 11,. 1.1..)' ,~ j polemica com Ch. APPUHN, in Chronicum Spinozanum, IV, 1924-1925, p. 259 sq. 7 Cartas XVIII, XIX,XX, XXI, XX!!, XXIII, XXIV e XXV!! (G., IV, pp. 79-157 e 160-162; P., pp. 1118-1167 e 1170). 8 Carta XVIII (G., IV, p. 83; P., p. 1120). 9 Carta XIX (G., IV, p. 88; P., p.l123). 10 Carta XIX (G., IV, pp. 89-90). 11 Carta XXI (G., IV, p. 128). 12 Carta XXI (G., IV, p.129). 13 Carta XXI. Nas sucessivas cartas entre Spinoza e Blyenberg nao se Ie nada de novo: a troca se esgota na repeti~ao das posi~6es respectivas. Sobre esse coniunto de cartas a Blyenberg, muito insistiu F. ALQUIE, Servitude et liberte selon Spinoze, cit., particularmente as pp. 20-25, onde adota essa correspondencia como emblematica da posi~ao etica de Spinoza. A tese de Alquie e decididamente a de que a etica de Spinoza, como demonstram as respostas a Blyenberg, se op6e a moral, a concep~ao do homem como contingencia e como liberdade. A base naturalista da etica nao permite que os efeitos morais se liberem em sua plenitude. Naturalmente, como ja vimos, essa leitura de Alquie repete a simpatia pela moral aberta de Descartes (deste ponto de vista, a lei-tura das cartas de Blyenberg, que se refere explicitamente a Descartes, e importante) con-tra a posi~6es de Spinoza. Desnecessario tornar a destacar como as pressupostos de Alquie impedem uma correta leitura do problema de Spinoza. E bern verdade que, nos ultimos capitulos de seu trabalho, Alquie reconhece pelo menos a paradoxalidade e a problema-ticidade das posi~6es eticas de Spinoza: mas nao quer, nem pode, dados os pressupos-tos de seu pensamento, diminui-Ios numa interpreta~ao que colha, dessa paradoxalidade, a feliz abertura construtiva. De todo modo, devemos voltar a leitura de Alquie quando examinarmos a quinta parte oa Etica (G., IV, p. 130). 14 A. KOYRE, no Avant-Propos de sua edi~ao, cit., do TRE, p. XVII, se surpreende com essa afirma~ao spinozista que voltamos a encontrar em cartas a Bouwmeester, a Tschirnhaus e na advertencia as Opera postume. Se na verdade, como parece pensar Koyre, Spinoza tivesse mantido intacto 0 esquema de sua primeira logica (idealista), nao se compreenderia 0 porque do bloqueio da reda~ao do TRE. 15 Carta XXIII (G., IV, p. 149). 16 Carta XIX (G., IV, pp. 92-93). 17 Pdo menos em duas perspectivas, imediatamente presentes em Spinoza: a da Reforma holandesa e do meio protestante e sectario em que vive (a esse respeito, ter sempre em mente 0 livro de Kolakowski), e a do pensamento dos "politicos" e dos li-bertinos _ desde Maquiavel, tam bern sempre presente para nosso autor. Mas mais adiante falaremos da rela~ao Maquiavel-Spinoza. 18 Trata-se da segunda guerra de navega~iio anglo-holandesa, que dura de 1665 a 1667; ela e muito malvista, principalmente na Inglaterra. De maneira geral, ver, so-bre essa guerra, a bibliografia historica ja dada. 19 Carta XXIX (G., IV, p. 165; P., p.1174). 20 Carta XXX (G., IV, p. 166; P., p.1175). 21 Ibid. (G., IV, p. 166; P., pp.1175-1176). 22 SPINOZA publica anonimamente 0 Tractatus teologico-politicus em Amster-da, em 1670. Como indica a carta anteriormente citada, de ja esra trabalhando nisso em 1665. Utilizaremos a abrevia~ao TIP. 23 A novidade da abordagem do TIP e sentida por todos aqueles que 0 estudaram por de mesmo. Podemos lembrar, dentre os textos mais importantes: L. STRAUSS, Spi-noza's critique of religion, Nova Jorque, 1965 (tradu~ao inglesa de Die Religionskritik 164 Antonio Negri Spinozas ais Grundlage seiner Bibelwissenschaft, Berlim, 1930), assim com "How to study Spinoza Theological-political Treatise", in Proceedings of American Academy for jewish Research, XVII, 1948, pp. 69-131; G. BOHRMANN, Spinozas Stellung zur Religion, Giessen, 1914; M.]. BRADSHAW, Philosophical Foundations of Faith, Nova Iorque, 1941; P. Siwek, "La revelation d'apres Spinoza", in Revue universitaire, 1949, XIX, p. 5-46; S. ZAC, Spinoza et ['interpretation de l'Ecriture, Paris, 1965; e finalmente, ah~m da introdu~ao de E. GJANCOTTI BOSCHERINI a tradu~ao italiana de A. DROEITO, Turim, 1972, 0 ensaio de DROEITO, "Genesi e struttura del Trattato teologlco-politico", in Studi urbinati, XLII, n. 1, 1969. Esse sentimento da novidade do texto raramente os leva, entretanto, a consideni-Io a viravolta metafisica do pensamento de Spinoza. Esse ponto me parece muito bern visto, em compensa~ao, por S. ROSEN, "Baruch Spinoza", in History of political Philosophy, Chicago, 1963, pp. 413-432, e sobretudo par W. Eckstein em seu velho, mas sempre importantissimo "Zur Lehre yom Staatsvertrag bei Spinoza", in B. ALTWICKER, Texte, cit., p. 372 sq. (O ensaio de Eckstein e de 1933.) 24 Ver sobre essa questao as obras ja citadas, que descrevem a biblioteca e a escri-vaninha de Spinoza. As Opera posthuma contem alem disso urn ensaio intitulado Com-pendium grammatices linguaes hebraeae, incompleto, mas extremamente interessante. 25 TIP (G., 1Il, p. 3; P., p. 606) . 26 Cap. I (G., 1Il, pp. 15-29; P., pp. 617; 634); Cap. 1I (G., 1Il, pp. 29-44; P., p. 634; 651); cap.m (G., m, pp. 44-57; P., pp. 651-666); cap. IV (G., m, pp. 57-68; P., pp. 666-679); cap. V (G., 1Il, pp. 69-80; P., pp. 679-692); cap. VI (G., m, pp. 80-96; P., p. 693; 711). 27 Tanto Giancotti Boscherini quanta S. Zac prop6em dividir 0 TIP em quatro partes: parte polemica, cap. I-VI; exposi~ao do novo metodo critico de interpreta~ao, cap. VII-X; cap. XI-XV, fase construtiva, sobre a essencia da filosofia e a da fej cap. XVI-XX, parte politica. Cada parte sendo dotada de uma certa unidade interna e uma articula~ao propria. 28 TIT, cap. I (G., m, p. 28; P., p. 633). 29 TIP, cap.!! (G., 1Il, p. 30; P., p. 635). 30 TIP, cap. 1Il (G., m, pp. 45-46; P., p. 653; 654). 31 TIT, cap. 1Il (G., m, pp. 46-47; P., p. 654). 32 A esse respeito esra estabelecido todo urn sistema de remiss6es ao Curto trata-do, ao TRE e as primeiras Proposi~6es da ~tica. Com efeito, nada mais simples do que estabelecer tais quadros de referencia. Mas com que objetivo? 0 TIP nao e uma apli-ca~ao da Etica, e menos ainda das obras mais antigas de Spinoza. 33 TIP, cap. I (G., m, pp. 16-18; P., pp. 619-621). 34 TIP, cap. I (G., m, p. 29; P., p. 634). 35 A critica aos idola baconianos, ja compreendida no TRE, e longamente reto-mada nessas paginas, onde a imagina~ao, inclusive em seu aspecto obscuro e como co-nhecimento mutilado, conserva seu estatuto de realidade. 361TP, cap. II (G., III, p. 43-44; P., p. 650; 651). Cf. as Notas a tradu~ao italia-na ja citada. 37 TIP, cap.m (G., 1Il, p. 47; P., pp. 654-655). 38 Ibid. (G., 1Il, pp. 48-49; P., pp. 656-657). 39 TIP, cap.lI (G., 1Il, pp. 39-41; P., pp. 645-647). 40 TIT, cap. m (G., 1Il, p. 48; P., p. 656). 41 TIP, cap. IV (G., 1Il, p. 57; P., p. 666). 42 TIP, cap. IV (G., 1Il, pp. 61-62; P., pp. 670-672). 43 0 estudo das fontes jusnaturalistas do TIP exigiria urn longo e minucioso tra-A Anomalia Selvagem 165 .. , !:~ '''' ''', "", ." II" foo- ", :, '"" ;: rJ:. ;2~J . , balho, que deveria essencialmente retra~ar 0 caminho do estoicismo holandes e, por outro ~lado, 0 da escolastica reformada. Por enquanto, 0 que importa apesar de tudo e lem-brar a Defensio fidei catholicae de GROTIUS. Contra as asser~ll '::,' 1: !. ~~::i i~:i '~J;' ...1 C;J ':l iii) Itl .. ILiI I' (::I' ''"I II" '" 73 TIP, cap. XII (G., 1II, p. 165; P., p. 794). 74 TIP, cap. XIII e sobretudo cap. XIV (G., III, p. 168 e 177-178; P., p. 797 e 809-810). 75 TIP, cap. XlII (G., 1II, p. 172; P., p. 802). 76 TIP, cap. XIV (G., III, p.175; P., p. 806). 77 TIP, cap .. XIV 9 (G., 1II, p. 176; P., p. 807). 78 Ibid. (G., 1II, p. 176; P., p. 808). 79 Ibid. (G., 1II, p. 179; P., p. 811). 80 0 capitulo XV do TIP e dedicado a separa~ao da fe e da filosofia. A separa-~ao da teologia e da filosofia, e a consequente liberdade da razao constituem 0 Leitmotiv da interpreta~ao dada para L. STRAUSS do TIP. Essa abordagem de Leo Strauss e importantfssima e extremamente rigorosa: efetivamente, ele nao se percle numa exalta-~ao abstrata da liberdade da razao, mas pensa essa liberdade da razao como instrumento de constirui~ao, constitui~ao da politica em particular, de uma politica concebida como urn instrumento da Reforma. Cf. 0 resumo da interpreta~ao de Leo Strauss nos Texte de Altwicker, cit., em particular p. 330, 333 e 359-36l. 81 TIP, cap. XV (G., 1II, pp. 173-174; P., pp. 804-805). Cf. as Notas de E. GIAN-COTII BOSCHERINI a respeito dessas passagens: esses textos sao importantes, pois ve-se nascer, em torno do tema da supersti~ao, 0 da situa~ao da religiao na Holanda, das teses deistas e do espirito pacifista que as move e as legitima. 82 TIP, cap. XV (G., III, p. 185; P., p. 819). 83 Cf. supra, cap. III. 84 Sobre as "no~oes comuns", excelente comentario de M. GUEROULT, op. cit., t. II, p. 324 sq. 8S Esse destaque da fun~ao metafisica das no~oes comuns e realizado sobretudo POt DELEUZE, op. cit., pp. 252-267. 86 Sobre este ponto, ver principalmente a analise das correntes religiosas da se-gunda metade do seculo XVII feita par L. Kolakowski, op. cit. - ele chega tambem a trarar longamente do problema Bayle, mas, na perspectiva que e a nossa aqui, sua ana-lise do pensamento de Bredenburg (pp. 250-280) e para nos muito mais importante. Sobre o papel de Bayle, d., alem do texto, antigo mas sempre util, de E. PILLON ("La criti-que de Bayle du pantheisme spinoziste", in Annee philosophique. 1899, IX. p. 85-143), as obras de E. LABROUSSE, Pierre Bayle, 1963 e 1964, e de W. REX, Essays on Pierre Bayle and religious Controversy, Haia, 1965. 87 TIP, cap. XVI (G., 1II, p. 189; P., p. 824). 88 Ibid. 89 TIP, cap. XVI (G., III, p. 189; 190; P., p. 824; 825). 90 Como com muita justeza observa E. GIANCOTII BOSCHERINI, ed. cit., par-ticularmente pp. 393-395. Mas ver tambem outras bibliografias. Os especialistas italia-nos no pensamento politico de Spinoza tern sido sempre particularmenre atentos as rela-~oes entre 0 pensamento politico-jurfdico de Spinoza e as teorias do direito natural; d. em particular os dais textos fundamentais na materia: A. RA vA, Studi su Spinoza e Fichte, cit., e G. SOLARI, Studi storici di filosofia del diritto, cit. Note-se que nenhum desses dois autores se perde numa pesquisa das influencias possiveis ao ponto de desconhecer a absoluta originalidade da teoria spinozista. E tambem verdade, entretanto, que tal acumulo de ele-mentos, tal insistencia sobre as origens do pensamento spinozista se paga sempre com uma grande imprecisao quanta a defini~ao da especificidade do pensamento spinozista. Como emblema da ambiguidade da leitura de Spinoza, que desde esses velhos mestres se perpetuou na tradi~ao hist6rico-filos6fica italiana, d. aquele que talvez seja 0 mais re-168 Antonio Negri cente dos produtos de escola: C. PACCHIANI, Spinoza tra teologia e politica. Padua, 1979; trabalho onde uma abundante bibliografia e uma leitura atenta nunca desembocam numa defini~ao precisa do pensamento revolucionario de Spinoza. 91 TIP, cap. XVI (G., III, p. 191; P., pp. 827-828). 92 TIP, cap. XVI, nota (G., III, p. 263; P., p. 832). Sobre a posi~ao geral de Spino-za em rela~ao ao pensamento politico de Hobbes, ver tam bern a Carta L (G., III, p. 263). 9J TIP, cap. XVI (G., III, p. 193; P., p. 830; 831). 94 Ibid. (G., III, p. 192; P., p. 829). 95 Ibid. (G., III, p. 195; P., p. 833). 96 TIP, cap. XVII (G., III, p. 201; P., p. 842). 97 TIP, cap. XVII (G., III, p. 201; 202; P., p. 843). 98 Supra, cap. IV, primeira parte. 99 ja vimos longamente a autocritica de Spinoza relativa a ideologia do circulo. Mas estamos vendo se abrirem problemas de enorme importancia para a historia da filosofia. Seria preciso, em particular, examinar aqui, a respeito justameme da critica spinozista ao pensamento hobbesiano, a questao das rela~6es entre 0 pensamento de Spinoza e os de Hobbes, Rousseau e sobretudo Hegel. De meu lado penso, como pro-curei mostrar acima, que essas rela~oes existem. No entanto, penso tam bern que a cri-tica por Spinoza da utopia inicial do circulo possui tal amplitude filosofica que ela fun-da ao mesmo tempo, da maneira mais clara possivel, a possibilidade de uma Cfirica dessa tradi~ao inimiga. Parece-me imporranre insisrir sobretudo na ideia de uma crftica (an-tecipada) a Hegel. Explico-me. Se ha mistifica($ao direta quando se tema fazer do pen-samento spinozista urn hobbesianismo malsucedido, parece-me muito mais grave pro-curar joga-lo indiretamente nos bra~os de Hobbes atraves de uma subsun($ao sob a cri-tica hegeliana. Sobre isso tudo, d. infra, cap. VII. Sobre a leitura hegeliana, d. M. GUEROULT, op. cit., t. I. Apendice 4, p. 462 sq. Para uma inversao da rela~ao Hegel-Spinoza, P. MACHEREY, Hegel ou Spinoza, pp. 3-13, 17-40. 100 Para situar 0 problema das alternativas as conentes idealisras e racionalistas do direito natural, podemos continuar a nos referir ao livro de o. VON GIERKE,Johan-nes Althusius, 1880, 6" ed., reimpr. Scientia, Aalen, 1968. Naturalmente, seria necessa-rio falar do carater as vezes bastante equivoco do dispositivo teorico de Gierke: nem por isso deixa de ser urn belo livro, e urn livro uti!. 101 TIP, cap. XII (G., III, p. 213; P., p. 860). Fica claro que ha ai uma referencia a urn tema fundamental do pensamento de Maquiavel. Seria preciso percorrer aqui, e criticar a (vasta) lireratura referente as rela($oes Maquiavel-Spinoza. Contentamo-nos em reme-ter aos artigos de A. RAVA. "Spinoza e Machiavelli", in Studi, cit., que examina com uma precisao filologica toda particular as rela~oes entre esses dois autores (trata-se sem duvida alguma do melhor esrudo sobre a questao, apesar da extraordinaria modestia do autor), assim como as observa~6es de C. SIGNORILE, op. cit., p. 138 sq. (que propoe, como e de seu habita, uma boa bibliografia geral, principalmente sobre a rradi~ao do "Maquiavel republicano"J. Ver tambem a obra recente de U. DOTII, Machiavelli: la fenomenologia del potere. Milao, 1979, texto fundamental para uma leitura contempo-ranea do radicalismo revolucionario do secretario florentino. Na leitura do livro de Dorti, resolvem-se muitas das duvidas suscitadas pela leirura de Spinoza (duvidas a respeito da verdadeira interpreta~ao spinozista de Maquiavel, de ate que ponto ele for~ou): e real-mente dificiller Maquiavel de oucro modo que como urn escritor republicano. 102 Cf. principalmeme L. Mugnier-Pollet. La philosophie politique de Spinoza, cit., p. 65-67, onde 0 discurso sobre 0 "constitucionalismo" de Spinoza, no sentido ju-ridico do termo, e referido ao pensamento de Althusius e de Bodin. Mas de maneira geral, A Anomalia Selvagem 1,,9 ,", ~;II' -.,"" i ,J ,.III .06"~' E~i, C::J ~.J' C:> " fi5" 11. IJI I' :JI :~: ? 4~~' ) ! II sobre 0 conjunto das fontes constitucionalistas do pensamento spinozista, d. L. ARE-NILLA, "Le caIvinisme et Ie droit de resistance", in Annales E. S. C, XXII, 1967, pp. 350-369. Este artigo analisa com grande precisao a corrente de pensamento centrada no direito de resistencia, dos pressupostos religiosos do calvinismo ate aqueles, politi-cos, do constitucionalismo. Cf. sobretudo uma serie de observa~oes sobre a questao do eforato (p. 360 sq.) e sobre outros temas relativos a projetos de constitui~ao, que volra-remos a encontrar no Tratado politico. 103 TIP, cap. XVI (G., III, p. 191; P., p. 827). Sobre as fontes da ideia de contra-to social em Spinoza, d. W. ECKSTEIN, Zur Lehre vom Staatsvertrag, cit., p. 373. P. DI VONA, op. cit., p. 578 sq., insiste na importancia das influencias da escolastica da Contra-Reforma sobre a forma~ao do conceito de direito de resistencia e de contrato. 104 C.E. VAUGHAN, History of political philosophy before and after Rousseau. Londres, 1925, t. I: "Spinoza's theory stands or falls by his identification of rights with powers, in other words by his refusal do admit the idea of Right into the life of the State" (p. 92). Tem-se dito com excessiva freqiiencia que 0 limite da concep~ao de Vaughan con-siste no fato de ter considerado 0 pensamento politico de Spinoza independentemente de sua metafisica. Mas se retomar a metafisica de Spinoza significa modificar essas conclusoes de Vaughan (a respeito do conceito de obriga~ao), eu discordo. Em suma, e perfeitamen-te exato que 0 conceito de obriga~ao em Spinoza nao e enforced pela autoridade do Estado. 105 Alem do artigo de Eckstein, citado, d. 0 ensaio de G. SOLAR e 0 de G. MEN-ZEL, "Sozialvertrag bei Spinoza"; in Zeitschrift fur privat-und offentl. Recht der Gegen-wart, 34, 1907, pp. 451-460. 106 Salvo erro, essa ideia de uma central ida de do movimento constitutivo da imagina~ao foi indicada por W. DILTHEY, em seu Die Autonomie des Denkens, der konstrutive Rationalismus und der pantheistiche Monismus nach ihrem Zusammenheng im 17. Jahrhundert, que se encontra hoje em Ges, Schr., t. III. Essa ideia foi retomada de maneira infeliz por E. HUSSERL (a Etica spinozista como "die erste universale Onto-logie", in La crise des sciences europeennes et fa phenomenofogie transcendantale, trad. fr., Paris, 1976, p. 75), e retomada com mais felicidade, mas de maneira bern escohistica, por R. HONIGSW ALD, Spinoza. Ein Beitrag ... cit. 107 Donde 0 carater, em minha opiniao, igualmente erroneo de dois comentarios sobre esses trechos do TIP, de inspira~ao no entanto contra ria: 0 de M. CORSI. Politica e saggezza in Spinoza, Napoles, 1978, que considera a filosofia de Spinoza como urn artificio naturalmente fundamentado, assumindo com coerencia uma fun~ao de emen-datio da consciencia atraves de diferentes graus de libera~ao; e 0 de A. MATHERON, op. cit., sobretudo na terceira parte, que considera a sociedade pohtica como uma sim-ples aliena~ao dirigida, sempre numa perspectiva de emendatio. 0 individuo em Corsi, o coletivo em Matheron: mas 0 problema nao e esse, pelo menos por enquanro. 0 pro-blema aqui nao e julgar 0 carater mais ou menos artificial desses trechos, desses mo-mentos da filosofia politica de Spinoza, mas simplesmente reconhecer seu relativo fra-casso: 0 artificio decorre do fracasso, decorre do fato de que 0 objetivo constitutivo e ontologico nao foi atingido. Trata-se, para Matheron, de uma situa~ao transitoria, dotada no entanto de uma logica dialetica propria; mas desde quando as cambalhotas dialeticas se adequam ao andamento linear do pensamento de Spinoza? 108 TIP, cap. XVI (G., III, p. 196; P., pp. 834-835). 109 TTP, cap. XVI (G., III, pp. 195-197; P., pp. 833-837). Comentarios notaveis de E. GIANCOTII BOSCHERINI, pp. 405-408. 110 A. Matheron, op. cit., aponta claramente esse carater formal do positivismo spinozista. 170 Antonio Negri 111 TIP, cap. XVI (G., III, p. 197-198; P., p. 837-840). 112 TIP, cap. XVI (G., III, p. 205; P., p. 848). Mas, de modo mais geral, ver 0 conjunto do capitulo. 113 TIP, cap. XVIII (G., III. p. 221; P., p. 872). 114 Ver as coletaneas de maximas contidas na biblioteca de Spinoza. Cf., alem disso, Carta XLIV (G., IV. pp. 227.229; P., pp. 1222-1224). 115 TIP, cap. XVIII (G., III, p. 228; P., p. 881). 116 Os anos 1665-1670 sao os da derradeira e decisiva fase do embate, sobre a questao das institui'foes, entre as for~as oligarquicas dirigidas por De Witt e a,. rea~ao orangista. No momento em que 0 regime aristocratico parece definitivamente assenta-do, e na verdade a monarquia que renasce. As guerras externas, em particular a guerra de navega~ao contra a Inglaterra, enfraquecem acentuadamente 0 regime. Tudo isso, como veremos, e vivido por Spinoza de maneira dramatica. Cf. as obras historicas ja citadas, particularmente supra, cap. I, n. 23. 117 Para atem do faro de que assistimos em Spinoza a uma elabora~ao da tipologia historica caracteristica da cultura protestante (referencia a Biblia em materia politica, mais que aos classicos do Renascimento politico: Decadas de Tito Livio, etc.; notar 0 uso puramente teorico de Tacito, de modo algum tratado por Spinoza como fonte his-torica), essas paginas do cap. XVIII sao interessantes pela retomada que nelas e feita da analise hobbesiana da revolu~ao inglesa. 118 TIP, cap. XIX (G., 000, p. 228; P., p. 882). 119 TIP, cap. XX (G., III, p. 239; P., p. 896). 120 TIP, cap. XIX (G., III, p. 236; P., p. 893). Sobre a tematica do jus circa sa-cra, ver as notas de E. GIANCOTIl BOSCHERINI, pp. 473-477, assim como, natu-ralmente, 0 famoso artigo de G. SOLARI sobre 0 ass unto, in Studi storici, cit. 121 TYP, cap. XX (G., III, p. 246; 247, P., p. 907). 122 Isso ja foi varias vezes lembrado, trata-se de urn Leitmotiv do livro de P. Macherey. 123 Fa~o alusao a Carta XXXVIII (G., IV, pp. 190-193; P., pp. 1196~1197), dirigida "ao muito honrado Van der Meer" e datada de lOde outubro de 1666, relativa ao jogo de dados. Sobre 0 jogo de clados, d. HUYGENS, De ratiociniis in ludo aieae, 1656. Haveria evidentemente muita coisa a ser dita a esse respeito: jogo de dados e mercado. Pensemos apenas que quando Descartes reflete sobre os jogos e os campos de for~a, ele ainda esta falanclo da espada. Os tempos mudaram! 124 TIP, cap. XX (G., III, pp. 240-241; P., p. 899). A Anomalia Selvagem '~'ST'T"Tn f1E D~~! .~::! j, ," ,.r.-:1: i:Bli: ,:;., _.I! c:> ') iii; III-. ,,,! (' :::l' , '" :, i:1 ,. ' Capitulo VI A ANOMALIA SELV AGEM 1. MEDIDA E DESMEDIDA Quando Spinoza, em 1670, escreve 0 Prefacio do Tratado teo/agi-co-political, que publica anonimamente, e ao mesmo tempo transfere re-sidencia para Haia, podemos considerar como terminada a fase interme-dia.ria que se abriu depois da crise da primeira reda~ao da Etica. Fase in-termediaria, mas central no desenvolvimento do pensamento spinozista. A intenc;ao declarada do TTP e a lura contra 0 absolutismo monarquico e a defesa e extensao da liberdade da Republica. "Se 0 grande segredo do regime monarquico e seu interesse maior sao enganar os homens e pintar com 0 nome de religiao 0 medo que cleve domina-los, a fim de que eles combatam por sua serviciao como se se tratasse de sua salvac;ao, e que julguem, naa vergonhoso, mas honrado ao rna is alto ponto, derramar sell sangue e sua vida para satisfazer a vaidade de urn so homem, em com pen-sai~1 !'II ~' !.:: d'" 'I.' "I(:~: ii:Eij: c::)' ,~' 1~:2 IV? Ia.. i ILiI I' 1:1' ' 6 ~::: .. !~ p~ra as primeiras linhas da luta politica, contern em si a proporr:rao des-proporcionada, a medida desmesurada que e pr6prio de todo Spinoza. Mas a partir de que ponto de vista definir medida e desmedida, propon;iio e despropon;ao? Quem detem 0 conceito de razao, quando a razao serviu para destruir a medida do mundo encontrada no Renascimento? Quem age na desproporc;ao - aquele que nega a relar:rao entre infinito e indefinido e se larga ao desenfreado barroco, ou aquele que afirma e exalta a potencia dessa sintese? E entao evidentemente anomala a filosofia de Spinoza em seu seculo, e selvagem aos olhos da cultura dominante. E a tragedia de toda filosofia, de todo testemunho selvagem de verdade que se caloca contra 0 tempo: contra este tempo e contra esta realidade. Mas a tragedia pode-se abrir, potente, sobre 0 porvir. A publica,iio do Tratado teol6gico-politico suscita ferozes polemi-cas6. 0 judeu de Voorburg ou de Haia esra no centro delas, reconhecido por tras do pseudonim07. Nao que essas polernicas nao fossem esperadas, e bern 0 demonstram as infinitas precauc;6es tomadas por Spinoza ja en-quanta prajetava a obra, 0 anonimato da publicac;ao e a tentativa de im-pedir sua tradw;iio holandesa8. Mas a violencia da resposta publica e par-ticularmente chocante e desagradavel: esses professores que 0' atacarn Ihe "parecem expor sua mercadoria a venda a maneira dos belchiores, que sempre of ere cern em primeiro lugar 0 que tern de menos valor. Dizem que o diabo e espertissimo, mas minha impressao e de que esta rac;a 0 supera de longe,,9. Na realidade, e a revelac;ao da anomalia que e inesperada para o proprio Spinoza, a revelac;ao de sua profundidade, de sua espessura. E uma revelac;ao para a consciencia te6rica de Spinoza. E entao: nao ha nada rnais potente que a rebeliao de urn inocente, nada rna is desmesurado que o contra-ataque da serenidade etica e da medida racional. Tudo estava teoricamente pronto, mas e dificil imaginar ~-, ~~: .1: ~::i " .cr:! is; 0' c5 " iii; A. ,,,' I" '~I .~ I:;, munho de rninha virtude: continua Spinoza - entao nao sou urn ateu! Es-tranha argurnenta~ao, na verda de, e no entanto comurn naquele seculo, e sobretudo prudente. Ao contrario, "penso perceber a baixeza em que vive esse hornern. Ele nao encontra na virtude e no entendimento nada que lhe agrade por si mesmo, e preferiria viver segundo os impulsos de seus senti-mentos se nao houvesse esse obstaculo: ele tern medo das san~oes. Abstem-se das mas a~oes e observa os mandamentos divinos com a rnesrna relutan-cia de urn escravo e com animo titubeante. Por esse servidao, espera que Deus o honre com recompensas bern mais doces que 0 proprio amor de Deus, e isso tanto mais quanto e mais relutante e mal disposto a fazer 0 bern que faz; por isso e que pensa que todos os que nao sao freados por esse medo vivem de maneira descontrolada e recusam qualquer religiao,,18. "E onde e que 0 senhor Velthuysen viu que eu coloque Deus sujeito ao destino? E onde, rneu anarquismo em materia religiosa?" Devemos imediatamente nos perguntar se essa res posta se refere realmente a crftica do TTP feita por Velthuysen, ou se, antes, ela nao atende mais a preocupa~ao de expor a necessidade de uma defesa global do projeto. Nao e par acaso que a pole-mica insiste sobretudo contra 0 finalismo da concepcao religiosa de Velthuy-sen, contra esse ultimo ouripel racional da supersti~ao teologica! Mas tarn-bern, justamente, 0 ultimo obstaculo a proposta spinozista de empreender uma "via ascendente", de elaborar uma pratica constitutiva. E justamente nesses episodios polemicos que os fundamentos de tal pratica nos sao reve-lados em toda a sua extensao: espontaneidade e gratuidade do agir, deter-mina~ao divina imediata da abordagem, estatuto ontologico da separac;ao do justo. "A que ponto eram mais belas e nobres as reflexoes de Tales de Mileto, em rela~ao as do dito escritor, e 0 que demonstra este seu raciocf-nio. Todas as coisas dos amigos, dizia ele, sao comuns; mas os sa bios sao amigos dos deuses e todas as coisas sao dos deuses; entao, todas as coisas sao dos sabios. Assim, apenas com uma palavra, aquele homem de grande sabedoria se fez riqufssimo, mais com generoso desprezo que com sordida avidez pela riqueza ... "19 Espontaneidade, gratuidade, riqueza do ser infi-nito, ja tfnhamos podido aprecia-las na utopia inicial do pensamento spino-zista; mas de maneira indeterminada, como selos da totalidade e da perfei-~ao da sintese ontologica do mundo. Aqui e bern diferente. Aqui, sob 0 estereotipo do sabio, e 0 ponto de vista da subjetividade, da constru~ao do ser que se propoe inteiramente. A plenitude da concep~ao do mundo do re-nascimento se poe a servic;o de uma filosofia ontologica da praxis. Mas, com tudo isto, ainda avaliamos pouco a profundidade da mu-danc;a operada por Spinoza, se nao a pusermos, por assim dizer, em ten-sao com a dramaticidade da crise cultural e poHtica que os Paises Baixos estao atravessando nesses anoS. Nao que a crise politica de 1672, a res-taurac;ao dos Orange - e 0 barbaro assassinato, a 20 de agosto, dos De 176 Antonio Negri Witt - possarn ser considerados como elemento decisivo e desencadeador da segunda fase do pensamento de Spinoza, ainda que a emoc;ao sentida par nosso autor pare,a ter sido grande: "ultimi barbororum!,,20. Tambem nao penso que seja possIvel dar importancia rna is do que anedotica ao encontro de Haarlem e a imagem que ele poderia dar de uma reinserc;ao de Spinoza nos milieux po/itiques 21. Bern mais importante e mais profunda e, parece-rne, a reflexao desses anos sobre as desgra~as causadas pela guerra, por essa guerra interminavel que mina 0 regime oligarquico e a' propria democracia holandesa 22. Decisiva, enfim, e a reflexao sobre as lutas reli-giosas e sua inerencia ao regime politico, que percorre todo 0 TIP e opoe, como demonio e Deus, 0 abuso religioso e sectario a convivencia demo-cratica organizada 23. Todos esses elementos sao considerados em conjunto, justamente postos em tensao com a matura~ao interna do pensamento spinozista, com sua nova projec;ao sobre a realidade, nao mais em termos de contemplac;ao, mas de reconstruc;ao. 0 que quer dizer que a crise do mundo exterior representa analogia com a crise do mundo interior. Mas no mesmo momento em que se coloca, essa analogia se rompe: 0 curso dos acontecimentos politicos vai no sentido de uma estabiliza~ao geral do ancien regime na Europa, enquanto que a filosofia de Spinoza, verdadeira filoso-fia de Krisis, combate e ultrapassa essa pacificac;ao repressiva, esse equili-brio da acurnulac;ao primitiva e do mercantilismo, que corta a esperanc;a e no fim degrada e institucionaliza a revoluc;ao humanista. o tempo historico se corta do tempo real da filosofia spinozista. A desmedida, que a crise tornou consciente de si mesma, reorganiza os ter-mos de seu projeto. E se define como tal, justamente, por diferenc;a, por corte: metodo realmente novo num autor que declarara "nao ter por ha-bito apontar os erros dos outros". Agora, tres sao os pontos sobre os quais se consolidou a nova base de construc;ao. Numa carta a J. ]elles, urn pou-co tardia (2 de junho de 1674), mas extremamente densa em sua brevida-de, e importante como resumo detalhado de momentos criticos, Spinoza expoe Esses pontos. 0 polftico e 0 primeiro, mesmo se 0 pensamento de Spinoza agora esteja inreiramente voltado para a reconstruc;ao de ordem metaffsica. "No que se refere a politica, a diferen~a entre mim e Hobbes, sobre a qual me perguntais, consiste em que eu continuo a manter Integro o direito natural e afirmo que ao poder supremo, em qualquer cidade, nao cabe sobre os suditos direito maior do que a potencia que ele tern sobre os proprios suditos, como sempre ocorre no estado natural. ,,24 Isto e uma reafirmac;ao dos resultados do TTP. Contem urn enorme potencial: libe-rando-se do contrato de sujei~ao, 0 mecanicismo muda de natureza, 0 pen-samento genetico torna-se pensamento produtivo, sobre urn horizonte que a "potentia" mantem aberto. Mas essa afirma~ao sO alcan~a sua plena significac;ao e seu adequado desenvolvimento em referencia a urn quadro A Anomalia Selvagem 177 ;1" 1"11, 'I:: ,! " -" ...... , 'Si e:::>' .1 c:> ,'-' c;; Do .. ' ":1 '" :::JI ,L", '.", :) 1:11 -:) t metaffsico que torne possiveis suas condic;6es. Realmente, 0 segundo ponto e logo colocado: se so urn quadro metafisico de superficie permite a liber-dade, entao a funda,ao da potencia deve colher em si a expansividade global da divindade no mundo, "No que se refere it demonstra,ao pela qual, no Apendice dos 'Principios' de Descartes geometricamente demonstrados, eu estabele~o que Deus so muito impropriamente pode ser dito uno ou uni-co, respondo que uma coisa s6 pode ser dita una ou unica em relac;ao a existencia, e nao em relac;ao a essencia: com efeito s6 podemos conceber as coisas numericamente depois de te-Ias reduzido a urn genero comum. Quem tern na mao, par exemplo, urn sestercia e urn escudo, s6 pensa no numero dois se coloca 0 sestercio e 0 escudo sob uma mesma denomina-c;ao, a de moeda. S6 entao podera. dizer que tern duas moedas, sendo 0 sestercio e 0 escudo, ambos, denotados por esse termo. Daf se segue ma-nifestamente que uma coisa nao pode ser dita una e unica antes que se tenha concebido outra com a mesma defini~ao que a primeira. Mas ja que a exis-tencia de Deus e sua propria essencia, e que nao podemos formar de sua essencia uma ideia universal, e certo que dizer de Deus que ele e uno ou unico mostra que nao se tern dele uma ideia verdadeira e que se fala im-propriamente a seu respeito. "25 A divindade e tal que a declarac;ao de sua unidade se torna pleonastica. Assim desaparece ate 0 ultimo sinal da figu-ra teologica tradicional da divindade. Aquilo que correspondentemente aparece e, no lugar, 0 contexto da infinita potencialidade produzida pelo divino. Urn horizonte total que nao reconhece rna is nem mesmo transcen-dencia 16gica. 0 divino e 0 conjunto da forc;a potencial. Aqui 0 pensamento de Spinoza se fez inteiramente pensamento de superficie. T erceiro ponto: a explosao extensiva da ideia da divindade implica - e aqui a perspectiva politica e fundamental na sugestao e na organiza~ao da abordagem - 0 deslocamento do ponto de inserc;ao met6dica. Sobre esta totalidade divi-na, e a determinac;ao concreta que esta em jogo. E, "para a ideia de que a figura e negalI' ,"' Ii !" ... ", . ." " oI(.! i:ji CI' 5 ;S~ ,II II" '" J:il! fiza de mane ira relativa 0 pensamento spinozista come~a na verda de a emergir em termos absolutos. 0 movimento metafi'sico cia constitui~ao, aprofundando as proprias condi,iies, chega a definir urn horizonte mate-rialista. Mas, justamente, constitutivo. Nao e preciso esperarmos a "des~ coberta" cia dialetica para alcan~armos a sintese cia produtividade natu-ral, historica e humana com as condi~6es materiais de existencia 31. Aqui-la que uma primeira abordagem analitica cia defini~ao dos movimentos cia imagina~ao revelou, ou seja, a complexidade das articula~6es reais e ma-teriais cia razao, a consciencia filos6fica comeII! "', :11 ~:~ .. , " r ~II':;' ". :i Uk,: .~, -, , " l~ ~'I!' 'ij:: ,-:t,:;' ~:"", ... " il ~ ~. G.C '"'' 1:1:: entidade coletiva. "Por coisas singulares entendo as coisas que sao finitas e tern uma existencia determinada; que se varios individuos concorrem para uma me sma 3111 .'. ~i Ul ::J no ponto: a analise da extensao e da intensidade, a capacidade de aplica-\=ao e a determina'rao hist6rica da categoria "aproprias:ao". Se entendemos por apropria~ao a revolw;ao que se realiza na ordem da ideologia e da propria vida da era moderna, se podemos qualificar com esse terma a concepc;ao humanista de conquista da natureza e de transfor-malIFI I!: It :'14 ::1 " ... r ii o 511 ," ( . II " II'W .. IX produtivas. A burguesia estani alternativamente "a favor" ou "contra" 0 Estado, sempre no firmo de sua caracteristica de forma improdutiva (ou seja: rela~ao de procill(;ao) cia organiza~ao para a dominaili 1::: "~: i'~' :;, " /1 ( r3faffi 0 maquiavelismo, de Marx, 0 marxismo; como para 0 spinozismo, tentaram, sem grande sucesso, fazer cieles ciencias subordinadas cia totali-dade burguesa da domina~ao. Quando, ao contrario, em Maquiavel e 0 enraizamento civil e republicano da categoria do polftico que resulta em termos fundamentais! E, em Marx, 0 tema do comunismo antecipa e fun-damenta a descri~ao do desenvolvimento capitalista e categorialmente 0 define como explora'~!I .~ _It, (itA., ::) NOTAS 1 TTP, Prefacio (G., III, pp. 5-12; P., pp. 606-616). 0 carater fortemente polemi-co deste escrito pode fazer crer que seu autor fosse L. Meyer; contra tal hipotese, sancio-nando uma opiniao agora generalizada, d. as notas de E. GIANCOTII BOSCHERINI, pp. 10-12. 2 Tl P, Prefacio (G., Ill, p. 7; P., p. 609). 3 TIP, Prefacio (G., Ill, p. 5; P., p. 606). 4 TIP, Prefacio (G., Ill, p. 5-6; P., pp. 607-608). 5 TIP, Prefacio (G., Ill, p. 11; P., pp. 614-615). 6 Cf., alem das obras ja mencionadas de Van def Linde, Verniere e Kolakowski, a de E. ALTKIRCH, Maledictus und Benedictus, Spinoza im Vrteil des Volkes und der Geistigen bis auf C. Brunner, Leipzig, 1924. De uma maneira gerai, para as rea~6es de Spinoza, v. as biografias . 7 "Judeu de Voorburg", era assim que os Huygens 0 designavam, em sua corres-ponJencia familiar. 8 Cf. sobretudo as Cartas XXX e XLIV (G., IV, p. 166 e 227-229; P., pp. 1175-1176 e 1222-1223). 9 Carta L (a Jelles) (G., IV, pp. 238-241; P., pp. 1230-1231). 10 No Preambulo de sua edi'fao do TRE. 11 Carta XL!! (G., IV, pp. 207-218; P., pp. 1205-1217). 12 Carta XLll (G., IV, p. 207; P., p. 1205; 1206. 13 Carta XLll (G., IV, p. 213; P., p. 1212). 14 Carta XUI (G., IV, p. 215; P., p. 1214). 15 Carta XLll (G., IV, p. 218; P., p. 1217). 16 Ver a segunda parte deste capitulo dedicada justamente a urn aprofundamento da defini~ao da ideia de apropria'1lII, ill" :11: '~t4, ::J ! ). ~ a: -,' Il' " paralelamente,o desenvolvimento das escolas de mediac;ao dentro da teoria do jusnatu-rahsmo do seculo XVII, ampliando assim para a metafisica a documentar;ao fornecida sobre esse ponto por O. VON GIERKE em seuJohannes Althusius, cit. (de ordem ex-clusivamente filos6fico-juridica, relativa somente ao direito publico), cobrindo os seculos XVII e XVIII. Evidente que leio nessas teorias uma atitude anti-humanista e as vezes francamente reaciomlria; a abordagem de Gierke e muito comedida. E no entanto ... 43 Reportar-se essencialmente a Kolakowski, op., cit., e em particular as pp. 227-236, nas quais ele coloca 0 problema fundamental da experiencia religiosa do seculo. Cf. tambem a Introdur;ao desse livro, onde 0 carater fenomeno16gico e estrutural da abordagem do problema e particularmente nitido. S. ZAC, L'idee de vie ... , cit., mas mais particularmente no capitulo VII, aIem do fato de que amplia 0 discurso a experiencia religiosa judaica, insiste longamente no carater vivo da filosofia spinozista da religiao. 44 Erica III, Prefacio (G., n, p. 138; P., p. 412). 45 Erica IV, Defini,ao VIII (G., n, p. 210; P., p. 491). 46 Cf. em particular S. ZAC, op. cit., p. 130-133, nas quais insiste - como alias fara mais adiante - na extinr;ao do paralelismo, no realismo da imaginar;ao, e sobretu-do na nao-ambigiiidade da conce~ao spinozista da consciencia. Este ultimo ponto e dirigido principalmente contra F. ALQUIE, contra as teses sustentadas em seu Servitude et liberte chez Spinoza, Paris, Cours de Sorbonne, 1958. Mas foi principalmente A. MA THERON, em seu volume sobre Le Christ et el salut des ignorants chez Spinoza, Paris, 1971, que apontou essa materialidade das posir;oes metafisicas de Spinoza; ele a apontou sobretudo no TIP, a prop6sito do desenvolvimento da religiao popular pro-gramada pelo TIP. 0 discurso de Matheron incontestavelmente e cheio de falhas; ve-remos algumas delas. Mas por enquanto estamos nos preocupando essencialmente em percorrer essa capacidade constirutiva da imaginar;ao, que e criar;ao de historia sob a forma especifica assumida pela historia no seculo XVII: sob a forma da afirmac;ao his-torica da verdade e da salvac;ao. Num comentario conduzido com muito cuidado e in-teligencia, A. IGOIN, "De l'ellipse de la theorie politique de Spinoza chez Ie jeune Marx", in Cahiers Spinoza, I, pp. 213-228, retomando algumas das teses de Matheron, se per-gunta se a constituic;ao de uma via de salvac;ao eterna percorrida pela imaginac;ao da coletividade - da muLtitudo (desde 0 mundo dos pobres e dos ignorantes) - nao e 0 verdadeiro fim da reoria politica de Spinoza. Voltarei a esses problemas (ja percebidos por L. Strauss, ao menos em parte); 0 importante nao e tanto exibir a finalidade da imaginac;ao quanto seu processo, quanto sua potencia. Por fecundas que seiam, teses como as de Zac tambem caem dentro da objec;ao seguinte: 0 resultado da unificac;ao do modo finito no decorrer do processo da multitudo, no decorrer do processo da imagi-nac;ao, nao e dado no terreno da consciencia abstrata e espiritual, mas no da conscien-cia material e hist6rica. Esta func;ao materialista da imaginac;ao spinozista constitui 0 centro em torno do qual se resolve a crise da metafisica que havia tornado forma no fim do livro II da Etica. Donde a enorme imporrancia do TTP. Foi mais uma vez Mathe-ron que apontou essa dimensao do momento metafisico; d., em particular, p. 252 sq. 47 Etica III, Proposic;ao IX, Esc6lio (G., II, pp. 147-148; P., pp. 422-423). 48 Etica III, Definic;ao dos afetos, I (G., II, p. 190; P., p. 469). 49 Ibid. Explicatio. 50 Tanto G. Deleuze quanto S. Zac empregam essa expressao, se bern que inter-pretando-a de maneira muito diferente. 51 Para uma interpretac;ao oposta, d. M. GUEROULT, op. cit., r.lI, pp. 547-551; ele sustenta em primeiro lugar que a definilJao da essencia do homem em Spinoza, lon-ge de poder ser reduzida somente ao desejo, deve ser referida a ordem dos atributos dos 196 Antonio Negri quais, numa ordem decrescente, deriva a definic;ao concreta. E evidente que, na ordem perfeira do panteismo, a cupiditas s6 pode ser urn fen6meno subalterno e marginal. Prevenindo as objelJoes, Gueroult sustenta, em segundo lugar, que qualquer outra con-cepC;ao da cupiditas, e em particular a identificac;ao de sua capacidade constitutiva, pode acharar Spinoza sobre Schopenhauer. 52 Etica II, DefinilJao VII (G., II, p. 85; P., p. 355). S3 Para uma documentac;ao sobre 0 individualismo do pensamento politico no seculo XVII, reportar-se mais uma vez ao livro de Macpherson. Do ponto de vista do spinozismo, devo lembrar aqui que emprego 0 termo "coletivo" para evidenciar a espe-cificidade da superac;ao spinozista do pensamento individualista do seculo XVIi - re-servando-me para chamar essa superac;ao pelo seu proprio nome, 0 de multitudo, as-sim que 0 conceito de multitudo tiver sido plenamente elaborado por Spinoza. Como noramos com freqiiencia, e proprio das obras de A. MATHERON (de Individu et com-munaute como do Christ ... ) insistir sobre a especificidade do coletivo e sobre a forma-c;ao do conceito de multitudo. Quando se fala do coletivo em Spinoza, nao se pode es-quecer, naturalmente, que ele se conjuga de urn lade a uma atitude possessiva, de outro a imaginar;ao: a reuniao desses tres elementos: coletivo, apropriac;ao e imaginac;ao, cons-titui a figura da reversao spinozista do individualismo possessivo. E na dimensao pos-sessiva e passional que ha identidade entre individualismo e coletivismo no seculo XVII; mas eles se opoem justamente por sua perspectiva de sintese, individual ou coletiva, e a oposic;ao e absolutamente radical. Desse ponto de vista, Spinoza representa a reversao de Hobbes, a ruptura (no amago da genese do Estado modemo e da ideologia burgue-sa) com toda a tradic;ao encarnada por ele. Isto posto, nao se deve deixar de insistir, mesmo assim, de urn ponto de vista genetico, no enraizamento da sua filosofia na di-mensao da imaginar;ao (da ordem passional) e da apropriac;ao, caracterfstica do pensa-mento do seculo XVII em seu conjunto. 54 Etica II, Proposic;ao III, Esco1io (G., II, p. 88; P., p. 358). 55 Em meu Descartes politico, assinalei varias vezes 0 recurso de Descartes a metafora da realeza, sempre positivamente conotado. S6 Etica III, Proposic;ao II, Escolio (G., II, p.144; P., p. 418). 57 Encontra-se essa fundac;ao essencialmente in Etica II, Proposic;ao XLIX, Escolio (G., II, pp. 131-136; P., pp.405-411). 58 Etica I, Apendice (G., II, pp. 77-83; P., pp. 346-354). 59 Erica I, Apendice (G., II, p. 83; P., pp. 353-354). 60 Sera suficiente referir aqui a bibliografia estabelecida por Alberto O. HIR-SCHMAN, op. cit. Que me seja permitido remeter tambem a excelente obra de C. BE-NETTI, Smith. La teoria economica della societa mercantile, Milao, 1979. 61 A forc;a desse genero de interpretac;oes, de origem marxista e de reelaborac;ao (a ser enrendida no sentido de heresia) weberiana, torna-se hegem6nica sobretudo com a escola de Frankfurt: d. os estudos de Horkheimer sobre a filosofia modema. 62 Ver as considerac;oes sobre a hisroria da filosofia contidas na coletanea dirigida por Chatelet. 63 Cf. a bibliografia comentada contida em minha apresentac;ao da historia da genese do Estado modemo, in Rivista critica di storia della filosofia, 12-1967, pp. 182-220. 64 Johannes Agnoli lembrou recentemente, com razao, que a traduc;ao de "burger-liche Gesellschaft" nao e "sociedade civil", mas "sociedade burguesa". 65 Cf. supra, cap. IV, primeira parte. 66 Para urn quadro geral das ocorrencias dessa polemica e das relac;oes Hobbes-Spinoza, para indicac;oes sobre as leituras de Spinoza de inspirac;ao hobbesiana, enfim, A Anomalia Selvagem 197 " ,!I , '.1 f.!J: ,It ur.. :::1 :r ii I ~ ( ." ." a: -IX, para uma documentac:;ao completa sobre a questao, d. E. GIANOTTI BOSCHERINI, Intioduc:;ao a ediC:;3o citada do TTP, p. XXVII-XXXIII. 67 Potencia contra poder: Spinoza contra Hobbes. L. STRAUSS, op. cit., pp. 229-241, e M. Corsi mostram bern as diferenc:;as consideraveis entre os pensamentos politicos de Hobbes e de Spinoza: mas 0 fazem em termos excessivamente abstratos, que nao convern a viralidade da definic:;ao spinozista da poHtica. Boa analise, sobre esre ponto, de S. ZAG, L'idee de vie, cit., pp. 236-240, mas ver rarnbem aquela, mais anriga, de M. FRANCES. "La liberte politique selon Spinoza", Revue philosophique, 1958, 148, p. 317-337. 68 G.W.F. HEGEL, Lefons sur l'histoire de fa philosophie, Frankfurt, 1971, P. 163. 69 Ibid., p. 160. Sobre 0 conjunto da questao, d. a minuciosa analise filol6gica de P. MACHEREY, op. cit. 70 Sobre as rela~6es Spinoza-Leibniz, reportar-se, naruralmente, ao livro de G. FRIEDMANN, Leibniz er Spinoza, Paris, nova edic:;ao, 1962. Ver tambem as multiplas alus6es disseminadas nos diversos estudos leibnizianos de Y. Belaval. Para uma analise urn pouco a margem, mas no entanto referindo-se a alguns dos temas que nos interes-sam aqui (se bern que excluindo misteriosamente Spinoza de sua reflexao), d. a obra ja citada de J. ELSTER, Leibniz et la formation de ['esprit capitaliste. 71 Depois de ter insistido talvez demais sobre as analogias entre Spinoza e Leibniz, G. DELEUZE, op. cit., p. 310, exclama - com razao, em minha opiniao (mas a custa de uma grave contradic:;ao): "Esta e a verdadeira oposic:;ao entre Spinoza e Leibniz: a teoria das express6es univocas de urn se op6e a teoria das express6es equivocas do outro." 72 Reportar-se a extra ordinaria documentac:;ao apresentada na obra ja citada de O. von Gierke. 73 Carta XLV (G., IV, p. 231). (Esta palavra faz parte das formulas de cortesia que fecham a carta, nao retomadas na edic:;ao da Pleiade - N. T. frances.) 74 Para uma documentac:;ao sobre este aspecto da cultura do Renascimento, re-portar-se aos livros de Paolo Rossi e de F. Yates. 198 Antonio Negri Capitulo VII SEGUNDA FUNDA'111\, " t:I: :K: !.I., ::J I ~, C .' -' IX -, IX: de reversao e de reduc;ao axiomatica - 0 paradoxa do mundo no qual a ffsica ficara blaqueada6 Como se determina esta total aderencia cia espontaneidade e da mente, da modalidade e da subjetividade? As premissas gerais metafisicas que conciuzem, com acelerac;ao cada vez maior, a filosofia a imergir no sec, ja as estudamos longamente. 0 livro III, De affectibus, apresenta-nos agora uma pro posta sistematica. Os ingredientes sao conhecidos, a dimensao e a cia fisica, 0 corte e de superffcie: qual a dinamica? Trata-se, nem rna is nem menDs, de percorrer a genealogia cia consciencia, como pec;a ativa da constituic;ao do mundo e como base da liberac;ao. Agora 0 mecanismo causal cleve se tornar rendenda e a tendencia se tornar projeto constitutivo - a ffsica passar para a fisiologia e esta para a psicologia (0 livro IV inte-gra e completa 0 processo). 0 procedimento demonstrativo e axiomatico: ou seja, para este como para a dialetica, e so a totalidade que explica -mas, diferentemente da dialetica, aqui 0 ser nao e idealmente determinavel nem manipulavel pelo metodo: 0 ser esra la, potente, indestrutivel, versa-til. A axiomatica mostra 0 ser como principio, a si mesma como abstra-\=ao determinada 7 Devemos entao nos colocar em situa\=ao, voltar a des-cer ate aquele grau do ser a partir do qual come\=amos a subir novamente. Esse grau do ser e desde 0 inicio definido como aquele que, ao mes-rna tempo, detem a qualidade farmal da indefinida mabilidade8 e a dire-\=ao paradoxal desta - no sentido de que 0 movimento e dirigido peIo grau de sua maior au menor adequa\=ao ao ser: "I. Chamo causa adequada aquela cujo efeito pode ser percebido clara e distintamente por meio dela. Chamo, ao contrario, causa inadequada, ou parcial, aquela cujo efeito nao pode ser entendido so por meio dela. II. Digo que somos ativos quando acontece em nos ou fora de nos alguma coisa da qual somos a causa ade-quada, isto e (pela defini\=ao anterior), quando de nossa natureza segue-se em nos ou fora de nos alguma coisa que so pode ser entendida clara e dis-tintamente por meio dela. Digo, ao contrario, que somos passivos quan-do em nos acontece alguma coisa, ou quando de nossa natureza segue-se alguma coisa, da qual somos apenas uma causa parcial,,9. Mas, dito isto, deva integra-Ia problematica e realmente:"III. Entenda par Afeta, as afec-\=oes do Corpo, pelas quais a potencia de agir do proprio Corpo fica acres-cida au diminufda, favorecida au impedida, e ao mesmo tempo as ideias dessas afec\=oes".10 Estamos novamente num ponto que conhecemos: eo paradoxo do mundo, elevado ao nivel da consciencia, e de novo a hori-zonte da guerra. E 0 paradoxo volta a ser insistido aqui: "Certas coisas sao de natureza contraria, isto e, nao podem estar no mesmo sujeito, en-quanta uma pode destruir a outra".l1 Mas, entao, 0 que pode significar adequa\=ao? 0 que sao graus de adequa\=ao? Como se pode romper, dan-do dire,aa aa mavimenta, a indefinida mabilidade e a passibilidade de 200 Antonio Negri contraste do ser modal? A tensao e extrema, mas ainda formal, excessiva-mente formal, colocada a margem de urn niveI absoluto de contraste que corre 0 risco de se tornar destrutivo. De novo, nao e uma Aufhebung dialetica, mas urn aprofundamento axiomatico dos termos do discurso que nos permite reajustar - iniciar -a analise constitutiva. "Cada coisa, tanto quanto esta em si, se esfor\=a para perseverar em seu ser."12 "0 esfor\=o (conatus) com 0 qual cada coisa se esfor\=a para perseverar em seu ser, nao e outro serrao a essencia atual da propria coisa. "13 "0 esfor\=o com a qual cada coisa se esfon;a para perse-verar em seu ser, nolo implica nenhum tempo finito, mas urn tempo inde-finido."14 "A mente, seja enquanto tern ideias claras e distintas, seja en-quanta tern ideias confusas, esfor\=a-se para perseverar em seu ser por uma dura\=ao indefinida, e tern consciencia desse seu esfor\=0.,,15 Estas quatro Proposic;oes sao fundamentais. 0 "conatus" e for\=a do ser, essencia atual da coisa, dura\=ao indefinida e consciencia de tudo isso. 0 "conatus" e vontade, quando se refere a mente, e apetite quando se refere a mente e ao corpo. 0 desejo e 0 apetite com a consciencia de si mesmo. 0 "conatus" tende a se realizar na adequa\=ao16 A modalidade se articula, atraves da teoria do "conatus", propondo-se como potencia que e capaz de ser tocada pela passividade na medida em que e ativa, e nisto se apresenta como con-junto de afec\=oes inscritas na potencia. 0 mundo do modo finito se torn a subsumivel na teo ria das paixoes. E se apresenta como urn horizonte de oscila\=oes, de varia\=oes existenciais, como continua reIac;ao e propor\=ao entre afec\=oes ativas e passivas, como elasticidade. Tudo isto e regido pelo "conatus", elemento essencial, motor permanentemente ativo, causal ida-de puramente imanente que tral1scorre para alem do existente. Nao essencia finalista, em todo caso: mas ele proprio e ato, dado, emergencia conscien~ te do existente nao finalizado l7. Estamos finalmente dentro da dinamica constitutiva do ser. Do ser em seu conjunto revelado pela consciencia e 0 mundo humanos. A simul~ taneidade nao e so dada, mas mostrada. "A ideia de tudo 0 que aumenta ou diminui favorece ou reduz a potencia de agir de nosso Corpo, aumen~ ta ou diminui, favorece ou reduz a potencia de pensar de nossa Mente." 18 o paradoxo do mundo, que as primeiras Proposic;oes do livro III haviam tornado a propor no nivel da consciencia, esta definitivamente superado. Ou antes, revertido: porque, anteriormente, 0 paradoxo conduzia a uma oposiC;ao estatica de elementos residua is, potenciais, e agora 0 paradoxo tensiona 0 contraste ate colocar am ate a "via ascendente", poe em movi-menta a tensao construtiva. 0 tema da perfeic;ao nao e urn atributo do ser senao na medida em que e 0 trajeto do corpo e da mente. Atraves das paixoes singulares a mente passa a graus maiores de perfei\=ao19. "A Mente, o quanto pode, se esfor\=a para imaginar aquila que aumenta ou favorece A Anomalia Selvagem 201 ") " ," ,i l I!'II rll ' e .. ~" -, a' " -,. IX: a pote-ncia de agir do Corpo. ,,20 Mas e preciso dize-Io em latim: Mens, quantum potest, ea imaginari conatur, quae Corporis agendi potentiam augent, vel juvant. 0 latim na verdade mostra melhor a conexao que se determinou aqui: "potentia - conatus - mens". E urn todo do qual a imagina~ ,It LII., ::J ,-e: ... ." t'tI" , .. , -, Ill: aqililo em que a caisa e semelhante ao objeto nao seja a causa eficiente desses afetos, nos todavia a amaremos ou a odiaremos. "27 A imagina\ao, portan-to, prolonga no tempo e no espac;o (mas aqui sobretudo no tempo, pais 56 da Proposi,ao XXIX em diante a dimensao espacial se torna fundamental no curso cia analise da socializa~ao) os afetos fundamentais, come.' ~ ,It UII., ;, '. :! p ! .. , .. " .. , 0:: -, all tradit6rios37 - de qualquer modo, no entanto, expansivos. Entao, na mesma medida em que se desenvolve 0 arnor como instancia de socialidade, desenvolvem-se a conflitualidade e a luta que nascem do proprio amor: mas e urn novo terrena este no qual estamo5 agindo agora, urn novo terrena, expansivo, dinamico. A versatilidade do sec metafisico se fez exuberancia do sec erieD. De modo que flaD 56 do arnor nasce conflitualidade, mas por isso ele desenvolve a constitui;; :x: 1&, ::r I. t l-e .. -, -a:: -, t:Q1 tambem a todos aqueles cia mesma classe ou cia mesma nac;ao". 44 E isto significa justamente que 0 antagonismo multiplica, em radas as dimensoes devidas, a exuberante expansividade do ser constituinte. 0 ser que se cons-troi e, em Spinoza, uma rea Ii dade explosiva. Estamos agora longe das pri-meiras abordagens a tematica cia imaginac;ao, quando a incerteza do pfO-jeto se movia como entre sombras cia realidade! Aqui 0 ser critica, 0 ser conflitual, 0 ser antagonico se lOrna chave, ao mesma tempo, de maior per-feic;ao onto16gica e de maior liberdade erica. Sem que nunea essas poten-cias se achatem, ao conrrario, impondo urn crescimento seu, uma difusao sua que e medida da pOlencia do proprio antagonismo, da vida. A ultima dire,ao da argumenta,ao do livro III e representada pelo grupo de Proposi, tD :It ~ .. ::J I: l ,. C"' ", -, -, 0:: -, a)1 de~constru'rao de uma plena gradualidade - nao de emana~ao, mas singu-lar em cada uma das suas emergencias - do ser. 0 horizonte da totalidade e pleno. Urn horizonte que tam bern e urn limite. Nito porque 0 horizonte seja uma borda para alem da qual, misticamente, se abre 0 abismo, mas porque 0 horizonte e 0 limite pleno sobre 0 qual a "cupiditas"-como s1n-tese humana do conatus" fisico e da "potentia" da mente - prava sua trans-gressao do existente - construindo novo pleno, expondo metafisicamente a potencia do sec e fixando-a sabre a atualidade da tensao construtiva cia "cupiditas". Nao hci alternativa entre 0 pleno e 0 vazia, como naa ha em Spinoza alternancia entre ser e naD ser: nao hci nem mesma - por fim, e isto e determinante - uma simples concepc;ao do passivel, como media~ao do positivo e do negativo. Ha somente a plenitude construtiva do ser dian-te da inconceptibilidade metaffsica e etica do vazio, do nao ser e do pro-prio possive\. A perturba,ito e 0 espanto filos6fico que 0 pensamento hu-mano sofre no limite do ser se revertem em Spinoza no ser construtivo, em sua infinita potencia: nao tern necessidade dos afagos da ignora.ncia, ao con-trario, vivem do saber e da for~a construtiva da essencia humana. Estamos agora entao em condi~6es de entender 0 conceito de "cupiditas" e de ex-cluir em qualquer caso uma defini,ito negativa dele. Em que sentido se po-deria dar, a este respeito, negatividade? Nao se da possibilidade alguma: com efeito, diante da potencia constitutiva, so existe a tensao da essencia dina-mica, nao a vertigem de uma exterioridade, qualquer que seja. A cupiditas" nao e uma rela~ao, nao e uma possibilidade, nao e urn implfcito: e uma potencia, sua tensao e explfcita, seu ser pleno, real, dado. 0 crescimento, em ato, da essencia humana e entao colocado como lei de contra~ao e ex-pansao do ser na tensao da espontaneidade a se definir como sujeito. 2. 0 INFINITO COMO ORGANIZAC;AO Com a conclusao do livro III a etica spinozista aparece completamente a luz do dia. Em outros termos: os pressupostos metaffsicos agora estao dados - conseqiientemente 0 caminho etico, em sentido proprio, pode come~ar a ser percorrido. 0 horizonte da potencia e 0 tinico horizonte metaffsico possivel. Mas se isto e verdade, so a etica - como ciencia da libera,ito, da constitui,ito pratica do mundo - e adequada para explora-10. 0 infinito ativo se nos apresentou ate agora como potencia, agora 0 infinito ativo deve ser organizado pel a a\=ao etica. Mas ja que a a~ao etica e constituida pela mesma potencia que define 0 infinito, nao sera simples-mente "organizado" pela a~ao etica, como urn objeto por urn sujeito: porem se apresentara como organiza~ao estrutural do etico, do sujeito e do obje-to em sua adequa~ao - infinito, expressao da potencia infinita, organi-210 Antonio Negri za\=ao da potencia: sao elementos intercambiaveis na grande perspectiva do agir humano. Na realidade, ate 0 inkio do livro IV, ja estivemos no terreno da organiza~ao do infinito, da analise que articulava a infinita potencia, fazendo, de seus elementos componentes, momentos de clarifi-ca\=ao da estrutura do ser. Os componentes agora estao inseridos na pers-pectiva da reconstru\=ao ontologica, tendo a a~ao do homem, em sua com-plexidade de mente e corpo, atingido plena eficacia constitutiva e cen-tralidade ontol6gica. 0 infinito e, a partir de agora, organiza,ito da I1bera-,ito humana: ele se enuncia como potencia na perspectiva da libera,ito do homem, na determina~ao da possibilidade de 0 homem agir eticamente. Libera~ao, entao, nao liberdade - so mais tarde conseguiremos vol-tar a levar em considera~ao 0 conceito de liberdade, se ele ainda tiver sen-tido. Libera\=ao, porque 0 mundo se nos apresenta como horizonte construido pelo homem, mas e urn mundo de escravidao e imperfei~ao. Em Spinoza 0 termo libera~ao, aqui, e substituivel e intercambiavel com 0 termo perfei-crao. Na verdade, 0 que e a perfeicrao? Numa primeira instancia definitoria, por perfei~ao e imperfeir;ao so podemos entender aqueles "modos de pen-sar, ou seja, aquelas nor;6es que costumamos forjar quando comparamos entre si individuos da mesma especie ou genero". 54 E uma estipular;ao, con-vencional e relativa, do contetido destas categorias. Mas, numa segunda ins-tancia definitoria, isto e, quando engajamos a ar;ao na verificar;ao da no-crao com urn, sabendo bern que esta e uma verificacrao de adequa~ao, por-tanto de realidade - assim, entao, entenderemos como" bern" aquilo que sabemos com certeza ser urn meio de se aproximar cada vez mais do mode-10 que nos propomos da natureza humana, e como "mal" entenderemos 0 contrari055. Enfim, por perfei~ao, no terreno da adequacrao real, entende-remos "a essencia de qualquer coisa enquanto existe e opera de uma certa maneira "56, portanto entenderemos perfei~ao como liberacrao da essencia. E importante, aqui, destacar a forma da argumentacrao que ve a pas-sagem de uma definicrao convencional para uma defini~ao real. Isso acon-tece porque, atraves do convencionalismo, reformula-se a critica de toda concepcrao, mesmo que finalista, do mundo etico: toda ideia de causa fi-nal deve ser desfeita. A remissao ao Apendice do livro I, feita aqui, relaciona a necessidade de agir com a necessidade de ser. Nao a causa final, mas a causa eficiente constitui entao 0 ser etico: 0 "conatus-appetitus-cupiditas" forma 0 tramite atraves do qual se irradia a tensao da essencia para a exis-tencia. A "cupiditas" e mecanismo de liberacrao. Se 0 horizonte metaffsi-co construido no livro I, e de qualquer maneira determinante da primeira fundar;ao do sistema spinozista, e novamente contactado aqui, certamen-te nao e para tirar a poeira da espedfica articulacrao categorial (os atribu-tos) da organiza\=ao do infinit057: pelo contnirio, aquela colocacrao catego-rial aqui e posta de lade e 0 metodo so configura uma tensao de escava-A Anomalia Selvagem 211 II 1: ~I .11 J! C L ,. ~. _. _. Itl _. /l) ~aQ fenomenologica e constitutiva, no absoluto da rela~ao entre substan-cia e modalidade. A perfei~ao se instaura como percurso no territorio da pnitica humana - pratica constitutiva, pnitica de libera~ao. Com isto esta definido 0 projeto do livro IV. A analise spinozista abre o sistema no mundo da contingencia, do possivel, da pratica enquanto ciencia da contingencia e do possivel. E verdade que as Defini~6es do contingente e do possivel sofreram uma metamorfose essencial, em rela~ao a tradi~ao filosofica. "III. Chamo contingentes as coisas singulares, enquanto, consi-derando so sua essencia, nao encontramos nelas nada que coloque neces-sariamente sua existencia, ou a exclua necessariamente. "58 "IV. Chamo possivel as mesmas coisas singulares enquanto, considerando as causas pelas quais devem ser produzidas, nao sabemos se estas estao determinadas a produzi-las. ,,59 E que a revolucionaria concep~ao spinozista do ser chegou a englobar 0 negativo que constitui contingencia e possibilidade: engloba-o como elemento da organiza~ao do ser existente e sua borda, como grau subordinado do ser expansivo, portanto como espa~o a ser ocupado a par-tir da positividade, como alguma coisa a ser construida para integrar 0 infi-nito. A contingencia e 0 porvir, e 0 indefinido que a pratica humana, como "potentia", integra ao infinito positivo. "VIII. Por virtude e potencia en-tendo a mesma coisa: isto e, a virtude, enquanto se refere ao homem, e a propria essencia ou a natureza do homem, enquanto este tern 0 poder de fazer certas coisas que so se podem entender atraves das leis da sua nature-za. "60 A escravidao e 0 mal que a potencia humana reduz a contingencia, deslocando 0 ser sobre aquela determinidade da ordem do mundo que nos torna escravos - com isto a potencia do homem anula, com uma opera-~ao ontologica, a escravidao e poe em ate 0 processo real da libera~ao. E importante destacar 0 fato de que 0 radicalismo ontologico do ponto de vista constitutivo, tal como aparece nestas paginas de Spinoza, tendo atingido a maturidade de uma solu~ao consolidada, representa na histo-ria do pensamento ocidental uma ruptura, uma mudan~a no desenvolvi-mento. Na historia da filosofia moderna, a afirma~ao de urn ponto de vis-ta ontol6gico e materialista constitui uma alternativa nao subestimavel. Ela escapa a ordem do desenvolvimento da ideologia burguesa e ao jogo das diversas possibilidades do desenvolvimento capitalista. Nao representa uma diversidade ideologica no ambito da perspectiva da revolu~ao capitalista, ja que esta, pelo menos a partir da crise dos anos 30 do seculo XVII, colo-cou definitivamente a media~ao no centro da defini~ao de categoria "bur-guesia": as alternativas para ela entao so sao possiveis dentro da consti-tui~ao da media~ao. Spinoza nega a rela~ao constitui~ao-media~ao e com isso a propria base do conceito de burguesia. A alternativa spinozista nao se refere a defini~ao de burguesia, mas a essencia da revolu~ao - 0 cara-ter radical da libera,ao do mundo. 212 Antonio Negri Esta (que vimos ate agora) e, por assim dizer, a introdu~ao do livro IV. Mas antes de entrar no merito do projeto constitutivo e de seus desen-volvimentos temos ainda que considerar alguns elementos. Com efeito, no inicio de cada parte da Etica, Spinoza passa urn certo tempo reorganizan-do os instrumentos de analise. Se fosse uma simples reorganiza~ao pode-damos deixar de lado a passagem. 0 fato e que, ao contrario, por tras dessa ""prolixidade metodica", operam-se modifica~oes nao despreziveis~Aqui, por exemplo, entre 0 Axioma do livro IV e a Proposi~ao XVIII, e inteira-mente retomado 0 processo sistematico que havia conduzido do "conatus" aO sujeito no livro III. A modifica,iio que intervem, porem, e importante - e um verdadeiro deslocamento de analise. Efetivamente, pelo fato de que a passagem do '"conatus JJ ao sujeito nao seja descrita como processo, mas seja dada como resultado, 0 potencial global da analise fica extrema-mente enriquecido. 0 que significa que a potencia constitutiva naa e sim~ plesmente reconstruida, mas exposta no terreno amplo e riquissimo que deve ocupar. 0 indefinido e subsumido sob a potencia positiva do infini-to. "'Nenhuma coisa singular e dada na Natureza, sem que seja dada ou-tra rna is potente e mais forte. Mas, se e dada uma coisa qualquer, e dada outra mais potente que pode destrui-la. "61 Juntamente com a Proposi~ao XIII do livro II e a Proposi,iio XLIII do livro III, este Axioma constitui 0 centro dinamico da filosofia spinozista. Nestes pontos a guerra esta sub-metida a pdtica humana. A hip6tese mecanicista e hobbesiana que, exa-tamente a este proposito, exatamente numa passagem an:iloga, impoe uma solu~ao transcendente, nestes trechos esta completamente descartada. Mas que riqueza oferece essa liga~ao a analise da vida! Que profundissima re-cusa da ideologia e colocada com isso! 0 Axioma em questao e urn pode-roso saIto para a frente, que repropoe 0 projeto constitutivo num altissimo nivel de potencia: aquele proposto por uma permanente reabertura do ser. Verdade que de urn deslocamento tao forte da analise derivam tambem efeitos negativos, sobretudo no plano expositivo. Ao come~ar 0 Apendice do livro IV Spinoza confessa, com efeito: "As coisas que expus nesta par-te sobre a reta maneira de viver nao foram dispostas de modo a poderem ser vistas em conjunto, mas foram sendo demonstradas por mim na or-dem dispersa, pela qual fui podendo deduzir mais facilmente uma coisa da outra. "62 E e bern verdade que 0 livro IV pode facilmente se prestar a ironia, nao so pela pretensa "geometria" do metodo que 0 regeria, mas tambem - e nisto esta a sensivel diferen~a em relaC" '" t,1 rlamento de signa na recapitula~ao e na reexposi~ao do processo consti-tutivo tal como se desenrolou anteriormente. Quase que se poderia dizer que a sintese de uma tdade dialetica e repro posta agora como primeira posi\ao afirmativa de uma tdade sucessiva: a primeira e uma conclusao, a segunda e urn novo pfojeto. Mas esta aproxima'r:3.o tern apenas urn fim exemplificativo: na verdade a dioamica da passagem para urn sllcessivo, mais alto grau do seI, em Spinoza, nao preve a nega~ao, e oem a rfgida continuidade formal do processo dialetico. Em que sentido sao entao manobradas as primeiras Proposi~6es do livro IV? Movem-se com a finalidade de acentuar a potencialidade do ser. Nao se trata de definir urn estado, parem uma dinamica, nao urn resulta-do, mas uma premissa. A. Proposi~6es III-VIII: 0 homem na vida etica, defini,iio adequada do campo de for,a dentro do qual se constitui a vida etica. B. Proposi~oes IX-XIII: a contingencia na vida etica, ou seja, a ima-gina~ao e 0 possivel como qualifica~ao alternativa e tendencial da consti-tui,iio humana do mundo. C. Proposi,6es XIV-XVIII: a "cupiditas" como motor, como dinamica da tendencia, como diluir-se da constitui~ao em transi~ao. Em cada uma dessas passagens e a tensao que e posta em pri-meiro plano, e a rela~ao constitutiva que e mostrada como fundamental. Mas vejamos uma por uma essas eta pas. A primeira recapitula~ao abre a potencia humana para a dimensao da natureza e da vida em sua integridade. 0 campo de for~a que ate aqui ha-via constituido 0 microcosmo e virado as avessas na tensao em dire~ao ao macrocosmo. "E impossivel que 0 homem nao seja uma parte da Natureza e nao possa sofrer outras mudan~as senao aquelas que so se podem conhe-cer atraves de sua natureza e das quais ele e causa adequada."64 "A for~a eo crescimento de uma paixao qualquer e sua perseveran~a em existir nao sao definidos pela potencia com a qual nos esfor~amos para perseverar na existencia, mas pela potencia da causa externa confrontada com a nossa. ,,65 o antagonismo do mundo pro poe a extensao em dire~ao ao mundo do potencial recolhido na individualidade humana e nela determinado como limite interno do processo. A segunda recapitula~ao insiste nessa potencia e a requalifica como supera~ao da determinidade do existente, no terreno do possivel. E a essencia ultrapassando a existencia, e a realidade do inexis-tente colocada como esquema do desenvolvimento da individualidade eti-ca para com 0 mundo etico. "0 afeto em rela~ao a uma coisa que imagina-mos como necessaria e mais intenso, em igualdade de condi~oes, do que 0 afeto em rela~ao a uma coisa possivel ou contingente, isto e, nao necessa-ria."66 Nao basta portanto que 0 homem seja urn campo de for~as, funda-mental e encarnar este campo de for~as na extensao das tensees que for-mam 0 tecido geral do humano. A imagina~ao estende a tensao da essencia para a existencia sobre urn terreno, como nunca, amplo e decididamente 214 Antonio Negri corporeo - material, possivel. 0 nada que - atualmente - constitui 0 vinculo entre essencia e existencia torna-se fluido, fantasm:itico. E a urgen-cia real do inexistente, colocada como esquema expansivo cia eticidade. Fi-nalmente - terceira recapitula~ao - a "cupiditas" intervem mostrando as condi~ees formais da realidade da superac;ao da mera tensao. E assim que, se 0 "Desejo que nasce de urn conhecimento verdadeiro do bern e do mal pode ser extinto ou reduzido por muitos outros Desejos que nascem dos afetos que nos atormentam,,67, no entanto "0 Desejo que nasce da Alegria e mais forte, em igualdade de condi~oes, que 0 Desejo que nasce da Tristeza".68 Com isso a recomposiC LI ,.. c: -" -, lal -" !~ premo cia Mente e 0 conhecimento de Deus, e a suprema virtude cia Men-te e canhecer Deus ... 73 A partir cia discrimina~ao que 0 ser individual opera no existente, ate a virtude absoluta cia Mente que se adequa 0 objeto su-premo que e Deus, desenrola-se entaa 0 processo cia libera~ao, como e formalmenre proposto pdQ pfojeto. Evidentemente e passivel que esse pfojeto seja colocado, neste ponto: de fato, 0 esquema formal foi recom-posto e relan~ado a partir do altissimo potencial cia razao que a ciencia das paix6es havia produzido. Mas 0 fato de que seja possive! nao signifi-ca que seja real. Essa imediatez cia tensao do concreto para 0 absoluto nao mostra, com igual imediatez, a necessidade concreta, imediata do proces-so. Modo individual e absoluto divino constituem urn paradoxa que re-tern a stnrese, a homologia deles, no plano de uma abstrac;ao que agora, se for para ter valor, deve ser determinada. 0 processo da determinac;ao e o proprio processo constitutivo. Vimos como 0 ritmo da emanac;ao foi ex-pulso da teoria do conhecimento e como so a determinidade das no\=oes comuns, essas obras da Mente, pode determinar eta pas de conhecimento. Ou seja, vimos como 0 conhecimento procura a intensidade do concreto. E preciso entao passar do esquema abstrato da liberac;ao para aquele, con-creto, da constitui( lil '" c: -, -, 'ICI Esc61ios ironizam propositalmente. 0 justa e 0 injusto 56 podem ser predi-cad6s "no estado civil, cnde se decreta por consentimento comum 0 que e destes e 0 que e daqueles"86; 0 consentimento comum e sobredeterminado pela obriga,ao de obedecer ao Estado e portanto pelo refor,o da coa,ao dos acordosS? Caiu tambem 0 pressuposto coritratual. A solu,ao formal do problema da supera~ao dos contrastes e correspondente a existencia das no~6es comuns. Nem a passagem nem esses termes cia soiU/,;ao spinozista parecem incidentais: de modo que devemos nos perguntar qual e 0 lugar cieles no sistema do desenvolvimento do processo constitutivo. Se, entaD, a essencia se faz existencia - existt!ncia social e civil neste caso - aceitando por urn lado as contrariedades dialeticas do utilitarismo e conseguindo media-las apenas formalmente atraves cia razao, se os Esco-lios I elIda proposi,ao XXXVII definem em seguida, na medida rna is ampia, "as fundamentos do Estado" como "renuncia ao direito natural deles", compromisso de nao se prejudicar reciprocamente, e terminam na reivindica~ao central e coletiva do direito positivo; finalmente, se tudo isso resulta numa clara funda~ao positivista do direito e do Estado - 0 pro-blema nao se atenua. Com efeita, Spinoza assim conclui a argumenta~ao: "Do que resulta evidente que 0 justo e 0 injusto, a culpa e 0 merito, sao no~oes extrfnsecas e nao atributos que expliquem a natureza da mente. ,,88 Coloca~ao extrinseca? Mas 0 que significa? Em minha opiniao - tenha-se em mente que exatamente a esse res-peito devem-se destacar aquelas confusoes e dissimetrias no desenrolar argumentativo do livro IV que haviamos assinalado -, em minha opiniao, entao, a situa~ao que aqui se determina no sistema e situa~ao de crise. Nao e suficiente, na verdade, para resolver, nem mesmo para aprofundar a tematica constitutiva, a reproposi~ao da equivalencia entre "no~ao comum" e "sociedade civil". 0 Tratado teologico-polftico ja havia ido bern mais longe. E agora? Nao ha duvida de que existe uma incerteza no sistema. Esta fortemente indicada. Se por urn lado, de fato, esra. estabilizada a al-ternativa anti-hobbesiana como defini~ao de urn terreno de pesquisa poli-tica onde a instancia de apropria~ao se apresenta na forma da liberdade e prevalece em rela~ao a exigencia formal da seguran~a, e igualmente claro que essa exigencia e desarticulada e inerente antes aos mecanismos 16gi-cos (de aproxima~ao com a verdadeira natureza do processo constitutivo) que a operatividade desse processo. E cabe acrescentar que, na Etica, nao se supera esse nivel. 0 problema politico, como problema constitutivo, e remetido ao Tratado politico. No entanta, se percebe 0 vazio da exposi~ao. Desordenada, mas efi-cazmente, Spinoza volta ao tema politico nas paginas que se seguem, ate a conclusao do livro IV. Volta a ele insistindo nos elementos constitutivos dessa area de pesquisa. No momento s6 podemos considerar essas abor-218 Antonio Negri dagens a titulo indicativo, recordando a linha de argumenta~ao que em geral aparece: reproposta da indica\=ao formal etica da concordia ("Aquilo que conduz a Sociedade comum dos homens, ou seja, aquilo que faz COm que os homens vivam na concordia, e util, e, pelo contra.rio, e mau aquilo que introduz discordia no Estado,,)89, repropost~ do horizonte da guerra como terreno de onde surge a potencia etica da recomposiCfao social, e portanto funcionaliza~ao da oposis:ao a libera'!ao em rela,!ao ao medo e a ignoran-cia90 Pode-se observar que 0 fim iluminista se sobrepoe ao constitutivo? Certamente. Mas ha algo mais. Ha 0 fato de que nessa dissimetria do pro-cesso constitutivo, nesse fechamento sobre urn horizonte predominante-mente gnoseol6gico, Spinoza esti pagando sem avan,o sobre 0 tempo his" torico. A revolus:ao e sua borda, ontem; a crise e sua borda, hoje: a con-cretude do lance revolucionario nao e perceptivel aos olhos da teoria. A sociedade que se apresenta a Spinoza nao e dominada por uma constitui-,ao gobal da produ,ao. For,ar a imagem da libera,ao sobre 0 pressupos-to da produ,!ao corresponde entao a urn corte em rela,!ao ao real. E e este corte que, voltando-se sobre a forma argumentativa da Etica, nela deter-mina este e outros vazios, esta e outras suspensoes. A sociedade e ainda uma perspectiva, urn fim da busca e da trans-formaCfao. Nao consegue ser mais que isso. A determinidade das relaCfoes sociais bloqueia a perspectiva. Manter-se no horizonte do possivel, e a1 determinar 0 caminho do abstrato ao concreto, e entao uma tarefa teori-ca que se coloca como alternativa. E uma alternativa especifica - uma al-ternativa que nao exclui, mas retem como implicita a dimensao nao resol-vida da socialidade. A ordem do sistema se dobra a ordem da pesquisa possivel, sem no entanto desaparecer. No atual horizonte da possibilida-de, sao entao 0 corpo e sua realidade determinada - historica, ontologi-ca, intelectualmente - que devem ser considerados. 0 corpo como orga-niza,!ao da "cupiditas", portanto 0 corpo como pulsao material percorri-da pela consciencia. A articula\=ao da consciencia e do corpo e colocada como dinamica. A possibilidade que, no terreno da hipotese da socializa-s:ao, e limitada pela dificuldade historica de determinar urn desenvolvimento da ruptura e fica entao fechada num projeto formal de constitui~ao, ja se torna - no terreno da corporeidade - real. "Aquilo que disp6e 0 Corpo humano de modo que este possa ser afetado de muitas maneiras, ou que 0 torna apto a afetar de muitas maneiras os corpos externos, e util ao ho-mem; e tanto mais util quanta mais, assim, 0 Corpo se tarna apto a ser afetado de rnuitas maneiras e a afetar os outros corpos; e, ao contrario, e nocivo aquilo que torna 0 Corpo menos apto a estas coisas. ,,91 Mas essa rnobilidade do corpo, essa ernergencia de necessidades, e tam bern 0 des-dobramento da razao. "Pois 0 Corpo humano e composto de muitissimas partes de natureza diversa, as quais tern continuamente necessidade de urn A Anomalia Selvagem 219 .il' ;11 'I I ." -;. ( ~ .. l-e ... " ..:II ID! -alimento novo e variado a fim de que todo 0 Corpo esteja igualmente apto a tudo 0 que pode seguir~se de sua natureza, e, conseqiientemente, a fim de que a Mente esteja igualmente apta a compreender mais coisas ao mes-mo tempo. Este metodo de vida esta em perfeito acordo, tanto com nos-sos principios quanta com a pratica comum; assim, esta maneira de viver, mais que qualquer outra, e a melhor de todas, e deve ser recomendada de todos os modos, e nao ha necessidade de tratar mais clara nem mais am-plamente este assunto. ,, 92 0 desdobrar da razao na articula" ( ~! l-e:: -...,jl a -t1l atraves desses antagonismos, foi dissolvido e reconstruido. 0 projeto de cOilstitui0" ( II. ... ' C -,.J IQ o dado e que 0 livro V da Etica, bern mais que os livros III e IV que 0 pro-cidem, se liga ao tronco imaginario cia pesquisa spinozista, ao terrena cia primeira fundac;ao. Tern-se a nftida sensa~ao de que 0 trabalho de redar;;ao do livro V se distribuiu em varios perfodos e fases. De que antecipou, em boa parte, a propria redaC II, ,." C, -, ..II lEI colltinuidade do projero, eis que explode a Proposi,ao XIV: "A Mente pode fazer de modo a que rodas as afec,6es do Corpo, ou seja, rodas as ima-gens das coisas, se refiram a ideia de Deus" ,109 Mas ista tambem pode sig-nificar: 1. A referencia a ideia de Deus sublima a "cupiditas", fazendo-a sal tar para urn nivel de compreensao superior do real. 2. A referencia a ideia de Deus absolutiza ontologicamente 0 processo constitutivo. A al-ternativa de interpretac;ao nao se colocaria, ou se colocaria com menos for~a, se a continuac;ao sistematica da analise nae fosse dissimetrica. Duas series de proposic;6es se defrontam. "A coisa e Deus" e "Deus e a coisa" ass ina lam dais horizontes: 0 primeiro e 0 despertar da utopia cia primeira funda,ao, 0 segundo e a confirma,ao da positividade do projeto da segunda fundac;ao. Vejamos como se abrem as duas trajetorias. Em primeiro lugar, entaD: como 0 entendimento, que esta no corpo, constr6i sua rela~ao com a ideia de Deus. au ainda, como se produz uma safda ascetica do processo constitutivo. Agora, depois de determinada a possibilidade de se definir em termos claros e distinros qualquer afec,ao da alma e do corpo, assistimos a uma segunda passagem: a mente pode fazer de modo a que todas as afec~6es do corpo, ou seja, as imagens das coisas, se refiram a ideia de Deus. Segundo genero do conhecimento? Sim, na base do esquema gradualista e, no conjunto, calcado sobre a tematica da ema-na~ao da prime ira funda~ao metafisica. A argumenta~ao entao insiste na passagem necessaria da ideia clara e distinta a ideia de Deus: "Quem co-nhece a si e a seus afetos de modo claro e distinto, ama a Deus, e tanto mais quanto mais conhece a si e a seus afetos" .110 E aqui 0 carater dianoetico da argumentac;ao de Spinoza (ou pelo menos desta argumentac;ao) se torna ascetico. Em outras palavras, tanto na definic;ao da mente quanto na de Deus _ elas se tornam cada vez mais homogeneas - triunfa urn carater intelec-tual peculiar que imp6e a separa,ao em rela,ao a qualquer nivel de afeto. "Este amor para com Deus deve ocupar a Mente acima de tudo. Deus nao tern paixoes e nao experimenta nenhum afeto de Alegria ou de Tristeza. Ninguem pode odiar a Deus. Quem ama a Deus, nao pode se esfor~ar para que Deus 0 arne por sua vez. ,,111 0 processo da paixao e sublimado, a in-teligencia se da como abstrac;ao das coisas e do tempo. A mente impoe re-medios ao corpo e a sua vitali dade. Ascetica, no sentido classico. 0 Escelio da Proposic;ao XXl12 arrola os remedios que, no processo de ascese, a mente imp6e aos afetos. 0 conhecimento dos afetos, entao, se deve articular com a capacidade de separar 0 pensamento deles de suas causas externas, com o controle do tempo durante 0 qual os afetos se desenrolam, com a com-preensao da multiplicidade de causas dos afetos, com a discriminac;ao des-tas e com a analise do dinamismo que elas impoem a ascese em direc;ao a divinidade - ascese que no entanto s6 ocorre completamente quando, aos afetos e a seus efeitos, tiverem side impostos ordem e encadeamento. 226 Antonio Negri Em segundo lugar, entretanto, a tensao ascetica - paralelamente, simultaneamente, e aplacada, e trazida novamente para a relac;ao intrinse-ca com a corporeidade. A mente e ligada ao corpo, esta vinculada com sua durac;ao. "A Mente nao exprime a existencia atual de seu Corpo e nem mesmo concebe como atuais as afec~oes do Corpo senao enquanto durar 0 Corpo; e conseqiientemente nao concebe nenhum corpo como existente em ato, senao enquanto durar 0 seu Corpo; e portanto nao pode imaginar nada, nem recordar-se das coisas passadas senao enquanto durar 0 Corpo. "11~ Pode-se objetar: mas isto s6 pode ser residuo de urn caminho ascetico, ou mesmo uma condi~ao sua! Efetivamente, a colocac;ao 56 se torna total e radicalmente antiascetica, fora de qualquer duvida, quando Spinoza retoma e conjuga as duas afirmac;oes ontologicas fundamentais: a. "Quanto mais conhecemos as coisas singulares, mais conhecemos Deus.,,114; b. "Em Deus, todavia, e necessariamente dada uma ideia que exprime a essencia deste e daquele Corpo sob 0 ponto de vista da eternidade. "115 0 mundo e restaurado como tota-lidade irredutfvel. Deus e a coisa. A teoria do mundo retoma inteiramente em si e sem residuo algum a potencia divina, a causalidade eficiente, da radicalidade ontolegica a existencia. Deus vive inteiramente a vida da sin-gularidade e sua potencia, a versatilidade do ser: nao e nada mais alem disso. Implicitamente, a etica consiste em alcan~ar a eternidade do existente, do modo. Essa eternidade e construida em sua determinidade singular. Nao e em rela,ao ao problema da imortalidade da alma que Spinoza exclama: "A Mente humana nao pode ser absolutamente destruida junto com 0 Corpo, mas dela permanece alguma coisa que e eterna."116 Quando 0 exclama, e para sobredeterminar de maneira absoluta 0 existente, seu ser dado e sua singularidade divina. As duas trajet6rias sao imediatamente eontradit6rias. Mas qual dos dois termos prevalece? Parece-me que a polaridade, residual e explicavel pela descontinuidade das redac;oes, e, no fim das contas, util para esclare-eer 0 sentido fundamental do pensamento spinozista. Ou seja, s6 ao se encontrar diretamente com a utopia e que a desutopia spinozista tern for-~a para se autodefinir plenamente. E s6 criticando, explicitamente e como totalidade, a primeira funda,ao que a segunda funda,ao atinge 0 cume de sua expressao. E entao a instancia constitutiva que tern uma nitida preva-lencia no desenvolvimento do livro V e a eontradi~ao, que vive ao longo do livro todo, serve para faze-la ressaltar. Com efeito, quando volta para o ambito do sistema, neste livro V, aquela distinc;ao progressiva entre di-versos graus de conhecimento (que era predominante na tradi., t 1.1, ,. o -... mecanicista, de seu exasperado gnoseologismo, estao agora ultrapassados peli eoloea-, ... experiencia, a diferen,a de fases ou de conteudos, de prop6sitos e de solu-~6es. A diferent,I'; ( ./.I, 1-' 01 -, ..J ,ao da escravidao e salvatI:, t, ll., .... o -oJ zista se resolveram e se sublimaram numa nova perspectiva, numa nova funda" C" 11., "" neriCa. Alem do mais, Spinoza nao gosta de analogia. A tematica do tem-po real e entao explicitamente levada em conta pela critica. Mas 0 tempo subverte a metafisica. A metafisica do tempo e a destrui~ao da metafisica. Uma ontologia do tempo faz baixar 0 objeto da analise do horizonte da especula~ao ao da pd.tica. A pratica construtiva, vista no horizonte do tempo, esta entao por construir - se for possivel faze-Io. Em sua especi-ficidade, em suas articula~5es, na dramaticidade colocada a esse ponto pela rela~ao limite-tendencia. Uma filosofia do porvir? A necessidade hist6rica da desutopia spinozista parece dar resposta positiva a esta interroga~ao. NOTAS 1 Etica III, Prefacio (G., II, p. 138; P., p. 412). 2 Sobre este ponto, cf. principalmente S. ZAC, L'idee de vie ... , pp. 104-120. 3 G. DELEUZE, op. cit, p. 182. 4 Ibid, p. 191. 5 Etica III, Defini~ao geral dos afetos (G., II, p. 203; P.,p. 465). 6 Etica III, Defini~ao geral dos afetos, Explicatio (G, II, p. 204; P, pp. 485-486). Cf, neste texto, a remissao explfcita as Proposi(foes XI e XIII do livro II: d. supra, cap, II, segunda parte. 7 Cabe acentuar aqui a diferen~a que separa nossa abordagem da de A. MA-THERON, Individu et communaute chez Spinoza, apesar dos noraveis resultados a que ele chega por outro lado (veremos mais adiante). 0 que me parece criticavel em Matheron e essencialmente seu metodo, sua tendencia a introduzir na analise do pensamento de Spinoza esquemas dialeticos, ou paradialeticos, pouco importa a palavra, caracteristi-cos, em todo caso, do marxismo existencialista dos anos 60. D esquema de Matheron e ode um dinamismo movido por urn processo de aliena(fao-recomposi(fao. Isso e justa-mente 0 que e excluido pela perspectiva spinozista, que e a de uma continuidade cons-trutiva. Hi uma incompatibilidade fundamental entre metodo dialetico e metodo axio-matico, que nao deve ser minimizada, como Matheron tern excessiva tendencia a fazer. Em sua obra posterior, Le Christ et Ie salut des ignorants, varias vezes evocada, a abor-dagem de Matheron e diferente, e bem mais madura. 236 8 Etica III, Postulados I e II (G., II, pp. 139-140; P., pp. 413-414). 9 Etica III, Defini~oes I e II (G., II, p. 139; P., p. 413). 10 Etica III, Defini,ao III (G., II, p. 139; P., p. 413). 11 P.tica III, Proposi~ao V (G., II. p. 145; P., p. 420). 12 Etica III, Proposi,ao VI (G., II, p. 146; P., p. 421). 13 Etica III, Proposi~ao VII (G., II, p. 146; P., p. 421). 14 Etica III, Proposi,ao VIII (G., II, p. 147; P., p. 421). 15 Etica Ill, Proposi~ao IX (G., II, p. 147: P., p. 422). 16 "Etica III, Proposi(fao IX, Escolio (G., II, pp. 147-148; P., pp. 422-423). 17 Cf. principalmente G. DELEUZE, op. cit, pp. 197-213). 18 Etica III, Proposi(fao XI (G., II, p. 148; P., p. 423). 19 P.tica III, Proposi~ao XI, Escolio (G., II, pp. 148-149; P., pp. 423-424). 20 Etica III, Proposi,ao XII (G., II, p. 150; P., p. 425). Antonio Negri 21 Etica III, Proposi,ao XIII (G., II, p. 150; P., p. 425). 22 Etica III, Proposi,ao XI, Esc61io (G., II, p. 149; P., p. 424). 23 Etica III, Proposi~ao XIII, Escolio (G., II, p. 151; P., p. 426). 24 Matheron, op. cit, em particular na segunda parte, p. 82 sq, mostra de maneira excelente a dimensao social da teoria das paixoes em Spinoza. Ele considera 0 desenro-lar do pensamento spinozista, sobretudo no livro III, como urn desenrolar sistematica-mente duplicado: desenrolar da vida passional individual por urn lado, desenrolar da vida passional inter-humana de outro. Tudo isso e extremamente importante. Mas Matheron torna sua argumenta(fao singularmente confusa, e urn tanto inverossimil, ao insistir no faro de que 0 esquema dos livros III e IV da Etica nao seria mais do que uma "varia(fao livre sobre 0 tema da arvore sefirotica dos cabalistas". Conclusao inteiramente fantasista. 25 E preciso insistir nisso: trata-se de normatividade no sentido proprio do ter-mo, e nao de proposta ou conselho. Falou~se muito, com efeito, numa tendencia "tera-peutica" da Etca, vinculada enta~ ao horizonte do pensamento do Renascimento tar-dio. Deve ficar claro que tudo isso me parece perfeitamente insustentavel, quer se vin-cule essa dimensao terapeutica aos autores do Renascimento tardio e aos est6icos, quer se vincule a Descartes e a linha tra~ada por sua ciencia das paixoes. Em particular, nao existe 0 minimo tra~o de individualismo em Spinoza. 26 Sobre os vinculos entre interpreta~6es kantiana e hegeliana de Spinoza, ver li-vro de Macherey. 27 Etica III, Proposi~ao XVI (G., II, pp. 152-153; P., p. 428). 28 Etica III, Proposi~ao XV (G., II, p. 151; P., p. 427). 29 P.tica III, Proposi~ao XVII, Escolio (G., II, p. 153; P., o. 429). 30 P.tica III, Proposi(fao XVIII, Escolio (G., II, p. 155; P., pp. 430-431). 31 Etica III, Proposi~ao XXVI, Esc6lio (G., II, p. 159; P., p. 435). 32 E de se destacar aqui, en passant, para voltar a esse ponto mais adiante, que a atitude spinozista nao pode em caso algum ser reduzida a uma atitude "utilitarista". A dimensao individual do utilitarismo eSta totalmente ausente do pensamento de Spinoza, inclusive onde ele mais insiste no nivel individual e interindividual. Se fizermos questao de falar de utilitarismo, podemos no maximo evocar a ideia de "moral da simpatia", mas em seus aspectos fenomenol6gicos bem mais que racionalistas. Seria certamente interes-sante retomar aqui as analogias entre certas posi~oes de Spinoza e certas posi~oes de David Hume, que Vaughan ja procurava ressaltar, e sobre as quais voltaram todos os que insis-tiram nas rela~5es entre Spinoza e 0 deismo ingles (0 melhor estudo e 0 de F. Meli). 33 Etica III, Proposi,ao XXIX (G., II, p. 162; P., pp. 438-439). 34 As indica(foes de leitura de A. Matheron, evocadas com freqiiencia neste livco, sao fundamentais aqui. 35 Polemizando com Macpherson, Matheron insiste no fato de que, em muitos aspectos, a percep.;ao spinozista do mundo politico teria como horizonte a sociedade medieval (cf. em particular, op. cit, pp. 221-222). As referencias aqui feitas por Spino-za as virtudes de Ambi~ao e de Humanidade parecem evidentemente dar razao a Mathe-ron. Mas entao se colocam varios problemas, que com um tratamento correto pode-riam nos levar a conclus6es opostas. Particularmente: essa referencia, esses exemplos, estao eles realmente determinados em Spinoza? Nao me parece: sao bastante ocasionais - isso e tao verdade que nao tornaremos a encontra-los muitas vezes. Dutra pergunta: sera que essa retomada da moral cavalheiresca em pleno seculo XVII nao e uma sim-ples cobertura - e bastante grosseira - para falar da nova moral burguesa? Para uma resposta afirmativa, permito-me remeter a meu Descartes politico, no qual discuto a abun dante bibliografia a esse respeito. A Anomalia Selvagem 237 " " :.1 36 Etica III, ProposifJao XXX, Esc6lio (G., II, p. 163-164; P., p. 440). 37 Etica III, ProposifJao XXXV, Esc6lio (G., II, p. 167; P., p. 444). 38 Etica III, ProposifJao XXXVII (G., II, p. 168; P., p. 445). 39 Etica III, ProposifJao XXXIX (G., II, p. 170; P., pp. 447-448). 40 Etica III, Proposi,ao XLIII (G., II, p. 173; P., p. 451). 41 Etica III, Proposi,ao XLVII (G., II, p. 175; P., p. 453). 42 Etica III, ProposifJao XLIX (G., II, p. 177; P., p. 455). 43 Etica III, Proposi~ao XLVII, Esc6lio (G., II, p. 176; P., p. 454). 44 Etica III, Proposi,ao XLVI (G., II, p. 175, P., p. 453). 45 Etica III, Proposi,ao UII (G., II, p. 181; P., p. 459). 46 Etica III, Proposir;ao LIV (G., II, p. 182: P., p. 460). 47 Etica III, Proposir;ao LIV, Demonstrar;ao (G., II, p. 182; P., p. 460). 48 Etica III, Proposir;ao LVI (G., II, p. 184; P., p. 463). 49 Etica III, Proposi,ao LVII (G., II, p. 186; P., p. 465). 50 Etica III, Proposi,ao LVIII (G., II, p. 187; P., p. 466). 51 Etica III, Definir;ao dos afetos, I (G., II, p. 190; P., p. 469). 52 E preciso entretanto reconhecer que as mais recentes das interpreta~6es de conjunto do pensamento de Spinoza - a mais importante das quais me parece ser com toda certeza a de Gueroult - estao come~ando a se afastar desse caminho tradicional de leitura. Mes-mo se a interpreta~ao de Gueroult muitas vezes e extremamente literal e pouco preocupa-da em por explicitamente em questao as grandes linhas seguidas pelos historiadores da filo-sofia. Poderiamos dizer a mesma coisa das leituras que se inspiram na pesquisa de Wolfson. 53 Etica III, Defini,ao dos aletos, I-XLVIII (G., II, pp. 190-202; P., pp. 469-485). 54 Etica IV, Prelacio (G., II, p. 208; P., 489). 55 Etica IV, Prefacio (G., II, p. 208; P., p. 489). 56 Etica IV, Prefacio (G., II, p. 209; P., p. 490). 57 Cf. supra, cap. III, segunda parte. 58 Etica IV, Defini,ao III (G., II, p. 209; P., p. 490). 59 Etica IV, Delini,ao IV (G., II, p. 209; P., p. 490). 60 tica IV, Defini~ao VIII (G., II, p. 210; P., p. 491). 61 tica IV, Axioma (G., II, p. 210; P., pp. 491-492). 62 Etica IV, Apendice (G., II, p. 266; P., p. 553). 63 Cf., a este respeito, as Proposi~6es I e II do livro IV da Etica (G., II, pp. 211-212; P., pp. 492-493). 64 tica IV, Proposi~ao IV (G., II, p. 212; P., p. 494). 65 Etica IV, Proposi~ao V (G., II, p. 214; P., p. 495). 66 Etica IV, Proposi,ao XI (G., II, p. 217; P., p. 499). 67 Etica IV, Proposi~ao XV (G., II, p. 220; P., p. 502). 68 Etica IV, Proposi,ao XVIII (G., II, p. 221; P., p. 503). 69 tica IV, ProposifJao XX (G., II, p. 224; P., p. 506). 70 tica IV, Proposi~ao XXII (G., II, p. 225; P., p. 508). 71 Etica IV, Proposi~ao XXIV, (G., II, p. 226; P., p. 509). 72 Etica IV, Proposi,ao XXVI (G., II, p. 227; P., p. 509). 73 Etica IV, Proposi~ao XXVIII (G., II, p. 228; P., p. 511). 74 A este respeito, ver essencialmente G. DELEUZE, op. cit., pp. 217-281. 75 G. DELEUZE, op. cit., p. 268 sq., sobre a rela~ao entre genealogia das formas de conhecimento e genealogia das formas de sociedade. 76 E necessario tocnar a acentuar 0 fato de que a posi~ao de Matheron e inaceita-vel. Ele tam bern acentua, e as vezes com muitissima finura, a relar;ao entre formas so-238 Antonio Negri dais e formas do conhecimento, mas tenta interpretar a genealogia delas par meio de uma leitura de tipo "dialetico negativo". 77 Etica IV, ProposifJao XXIX (G., II, p. 128; P., p. 511). 78 Etica IV, Proposi,ao XXXI (G., II, p. 229; P., p. 512). 79 Etica IV, Proposi~ao XXXI, Corolario; d. tambem Proposi~ao XVIII, Esc6lio (G., II, p. 230 e 222-223; P., p. 513 e 504-506). 80 Etica IV, Proposic;ao XXXII (G., II, p. 230; P., p. 513). 8I CI.Etica IV, Proposi,ao XXXIII (G., II, p. 231; P., p. 514). 82 CI. Etica IV, Proposi,ao XXXIV (G., II, p. 231; P., p. 514). 83 Etica IV, Proposir;ao XXXV (G., II, p. 232; P., p. 516). 84 Etica IV, Proposic;ao XXXV, Corolario I (G., II, p. 233; P., p. 517). 85 Etica IV, Proposi,ao XXXVII (G., II, p. 235, P., p. 519). 86 Etica IV, Proposi,ao XXXVII, Esc6lio II (G., II, pp. 238-239; P., p. 523). 87 Etica IV, Proposir;ao XXXVII, Esc6lio II (G., II, p. 238; P., p. 522). 88 Ibid. (G., II, p. 239; P., p. 523). 89 Etica IV, Proposir;ao XL. Cf. tambem Proposir;ao XLV, Corolario (G., II, p. 241 e 244; P., p. 529 e 530). 90 A tematica do Estado volta varias vezes no fim do livro IV da Etica: ver parti-cularmente Esc61io da Proposir;ao LIV, Esc6lio da Proposir;ao LVIII, Esc6lio da Propo-sir;ao LXX, Esc6lio da Proposir;ao LXXII, Esc6lio da Proposir;ao LXXIII. Voltaremos ao conjunto desses textos no capitulo seguinte. 91 Etica IV, Proposi,ao XXXVIII (G., II, p. 239; P., p. 523). 92 Etica IV, Proposir;ao XLV, Esc6lio do Corolario II (G., II, pp. 244-245; P., pp. 529-530). 93 Etica IV, Proposir;ao XLVI (G., II, p. 245; P., p. 530). 94 tica IV, Proposir;6es LIII, LIV, etc. 95 Etica IV, Proposi,ao UX (G., II, p. 254; P., p. 540). 96 Etica IV, Proposi,ao LXI (G., II, p. 256; P., p. 542). 97 Etica IV, Proposir;ao LXI, Demonstrar;ao (G., II, p. 256; P., pp. 542-543). 98 Etica IV, Proposir;ao LXIII, Corolario (G., II, p. 258; P., p. 545). 99 Etica IV, Proposir;ao LXVII (G., II, p. 261; P., p. 547). 100 Etica IV, Capitulo XXXII (G., II, p. 276; P., p. 562). 101 Etica V, Prelacio (G., II, p. 277; P., pp. 562-563). 102 Etica V, Prefacio (G., II, p. 279; P., p. 564). 103 Sabre 0 reaparecimento da tematica do atributo no livro V da Etica (e trata-se do sinal mais claro de urn ressurgimento de elementos da primeira redar;ao), d. infra, cap. VIII, onde examinamos a critica do atributo em referencia a Correspondencia. Ver esse capitulo, de modo geral, para uma analise dos elementos residuais que, no livro V, le-vam-nos a "primeira funda~ao". Em seu Servitude et liberte selon Spinoza, cit., F. ALQUIE, percebendo esse problema, insiste longamente no que ele chama 0 paradoxo do livro V da Etica. Insiste no fato de que urn novo horizonte e aberto pelo livro V, urn horizonte de liberdade absoluta: mas a abertura, nesses termos, desse novo horizonte, seria contra-dit6ria justamente com a atitude naturalista e determinista da definir;ao do valor nos outros livros. Essa reabertura do horizonte da liberdade, essa postuiac;ao de uma potencia me-tafisica absoluta do amor intelectual constituem aos olhos de Alquie uma retomada do horizonte cartesiano. E claro que rejeitamos essa posi~o de Alquie, assim como toda a sua reconstrur;ao anterior, baseada na tese "a etica contra a moral"! Isto posto, a amilise de Alquie consegue fazer ressaltar a fortissima diferenr;a que afeta a vocabulario etico no livro V: mas, contrariamente ao que pensa Alquie, nao se trata ai da solur;ao feliz (e, por A Anomalia Selvagem 't' 1,'1 assim dizer, obrigatoria) de um drama ate entao irresolvido, e logicamente insohivel, vivido pela metafisica de $pinoza. Trata~se do reaparecimento de uma camada problematica que se opoe a conclusao de um longo processo de constitui~" ~" :,:: contem relativamente a Deus e a natureza, que muitos consideram que confundis. Ah~m disso, muitos sao de opiniao de que destruls a autorida-de e a valor dos milagres, quando quase todos os cristaos estao persuadi-dos de que s6 aqueles podem garantir a certeza da revela~ao divina. Di-zem, finalmente, que escondeis vossa opiniao a respeito de Jesus Cristo redentor do mundo e unica media~ao dos homens, alem de sua encarnac;ao e sacrificio, e pedem que declareis abertamente vossa ideia sobre estes tres pontos. Se 0 fizerdes e com isto tiverdes a aprovac;ao dos cristaos sinceros e razoaveis, penso que estareis em seguran~a",5 Mais adiante, aprofunda ainda: "Esperaveis, como vejo, que eu vas expusesse as opinioes que, em vossos escritos, parecem aos leitores subverter a pratica da vida religiosa. Dir-vos-ei 0 que os choca mais. Vos pareceis submeter todas as ac;oes e todas as coisas a uma necessidade fatal, a qual, se afirmada e admitida, faz ruir a base de todas as leis, de todas as virtudes e religioes, torna inutil todo premio e toda puni~ao, Tudo 0 que constrange ou obriga a uma necessi-dade e compreendido por eles como uma desculpa, e dai concluem que nin-guem ficaria sem desculpa diante de Deus. Se estamos conduzidos pelo des-tino e tudo segue a trama inelutavel predeterminada por uma mao de fer-ro, nao veern como ainda possa haver lugar para 0 delito e a pena".6 A subversao da religiao e subversao da politica, porque a politica se baseia na justic;a, nO premio e na pena: Spinoza, ao constituir a justi~a, a destroi, ao construir 0 mundo, destroi a possibilidade de domina-Io. A resposta spinozista nao se faz esperar e e perfeitamente adequada as acusa\=oes que the sao feitas. Depois de alguns momentos de tergiversa-\=ao (Spinoza finge polemizar contra 0 materialismo vulgar, como se fosse esse 0 problema!7), ele reivindica totalmente a pratica constitutiva. Sua determina~ao politica e igualmente radical e subversiva. E verdade a acusa-\=ao que me fazem: 0 politico e central e fundador, em rela~ao a religiao _ mas positivamente. A velha e oportunista antropologia religiosa do libertinismo e vencida e tambem, provavelmente, suas deriva\=oes deistas8 o velho "bene vixit qui bene latuit" e varrido pela inversao spinozista da pratica. "Compreendo finalmente 0 que me pedieis para nao divulgar; mas como se trata exatamente do fundamento principal do tratado que pre-tendia publicar, desejo explicar aqui em poucas palavras em que sentido afirmo uma necessidade fatal de todas as coisas e todas as a\=oes. Pois nao subordino de modo algum Deus ao destino, mas penso que tudo procede com inevitavel necessidade da natureza de Deus, do mesmo todo que to-dos admitem que provenha da natureza de Deus que Deus conhe\=a a si mesmo; pois ninguem nega que isto procede necessariamente da natureza divina, e no entanto ninguem pensa que Deus conhe~a a si mesmo porque a isso e obrigado por algum destino, mas de mane ira inteiramente livre, se bern que necessaria. Alem do mais, essa necessidade inevitavel das coi-242 Antonio Negri sa nao destr6i nem os direitos de Deus nem os direitos do homern. Com efeito, as rnesmas san\=oes morais, quer recebam quer nao da parte de Deus a forma de lei au de direito, sao do mesmo modo divinas e salutares; e 0 bern que decorrer da virtude e do arnor de Deus nao sera nem mais nem menos desejavel, quer 0 recebamos de Deus, concebido como juiz, quer emane da necessidade da natureza divina; assim como os males que deri-Yam das mas a~oes e das paixoes nao sao menos temiveis pelo fato de que delas derivam necessariamente; enfim, quer fa~amos por necessidade quer por contingencia 0 que fazemos, somos sempre conduzidos pela esperan-,a ou pelo temor. Par nenhum outro motivo, entao, os homens sao res-ponsaveis perante Deus, senao porque estao em seu poder, assim como 0 barro em poder do oleiro, 0 qual utiliza a mesma materia para fazer vasos ora decorativos ora triviais. Se refletirdes urn pouco sobre estas coisas, tenho certeza de que tereis como responder facilmente a todas as obje~oes que se costumam fazer a esta opiniao, como muitos ja experimentaram comi-go.,,9 0 mundo e barro nas maos do oleiro. No terreno metaflsico da su-perficie, a modalidade e construtiva. A ordem da constru\=ao e interna a constitui~ao, A necessidade e interna a liberdade. 0 politico e 0 tecido sobre o qual, de maneira central, se desenrola a atividade constitutiva do homem. Os frutos da Etica estao ainda mais maduros que os do Tratado teol6gi-co-politico: este tratado havia representado uma cesura critica que tinha de ser reformulada em urn novo projeto. Agora temos 0 resultado do es-fon;o: devemos desenvolve-Io. A possibilidade real de uma pratica cons-titutiva e 0 politico percorrido pela liberdade. A religiao nao funda 0 Es-tado, a verdadeira religiao respira onde hi liberdade1o. Como percorrer 0 tecido do real, como constituir efetivamente 0 real? A defini,ao do terreno cede lugar a defini,ao do metodo. 0 Tratado teo-16gico-politico e a segunda reda\=ao da Etica nos conduziram ate 0 ponto no qual 0 Tratado politico - redigido entre 1675 e a morte de Spinoza em 77, e que permaneceu inacabadoll - aparece como urn produto ne-cessario12. Mas necessario nao significa linear. A constitui~ao e urn pro-cesso complexo. Liberamo-nos em primeiro lugar dos pontos de vista er-raneos sobre 0 politico, para podermos colher a vivencia da realidade. 0 primeiro capitulo do Tratado politico constitui a introdu~ao metodologica a constitui~ao do real, representada pela politica. Acompanhemos essa polemica metodol6gica. No primeiro parcigra-foB, ela e dirigida contra a filosofia escoIastica: mas nao so - contra a filosofia em geral, contra a ciencia dos transcendentais, contra todos os que nao consideram as paixoes como a (mica realidade efetiva a partir da qual se fa~a uma analise do concreto. A politica nao e 0 reino do dever ser, mas e pratica teorica da natureza humana em sua efetividade. 0 Ma-quiavel do capitulo XV do Principe e quase parafraseado aqui 14. Mas nao A Anomalia Selvagem 243 .ci:i so 0- grande secretario e envolvido aqui: esta envolvida toda a critica seis-centista da utopia, de Hobbes a Descartes, esta envolvido todo 0 espfrito do seculo. Que diferen~a, no entanto! Em Spinoza, a crise nao constitui urn horizonte, mas uma condi~ao, nao caracteriza 0 ser, mas so sua efeti-vidade. A hegemonia do ser sobre 0 dever ser 0 torna tanto efetivo quan-to dinamico e tendencial, isto e, capaz de compreender em si mesmo 0 de-senvolvimento, de se conhecer como causa eficiente. Os filosofos se per-dem na utopia, sonham com a idade de ouro: acumulam dana e inutilida-de. A segunda tendencia anaHtica e a representada pelos "polfticos"15. Estes procuram fundamentar sua ciencia na experiencia da natureza humana e assim fazendo se encontram principalmente em posi~ao contniria aos teo-logos e it sua pretensao de subordinar a politica a moral: mas fazem tudo isto mais por habilidade que por sabedoria. "E fora de duvida que os po-liticos escreveram sobre questoes politicas com fiuito maior Sllcesso que os filosofos, pois, baseando-se na experiencia, nao ensinaram nada que nao tivesse uma referencia pratica": mas a pratica nao e linear, nao e por si mesma emancipadora. A crise coloca 0 problema da pratica, bern mais do que simplesmente remete a ela. Os politicos sao a expressao mais aguda da crise, nao representam sua supera~ao. "E estou convencido de que a experiencia ja indicou todas as especies de organiza~ao poHtica que se possam conceber para uma convivencia humana organizada, assim como os meios que se devem adotar para governar a massa, ou seja, para conte-la dentro de certos limites: de modo que nao acredito que a esse respeito nos possa ocorrer no pensamento qualquer coisa comparavel com a expe-riencia ou com a pratica que ja nao tenha side descoberto e experimenta-do. Os homens sao feitos de tal modo que nao podem viver sem algum di-reito com urn; mas os direitos comuns e os negocios publicos foram, res-pectivamente, estabelecidos e ordenados por homens de grande agudeza, penetra,ao e habilidade de espirito, de modo que e diftcil crer que se pos-sa conceber algo de util a sociedade comum que a contingencia ou 0 aca-so ja nao tenham sugerido e que os homens atentos aos negocios publicos e a propria seguran~a ja nao tenham previsto."16 Os politicos entao ja disseram tudo: em rela~ao a oportunidade e ao acaso. Mas e exatamente este 0 elemento problematico: a rela~ao entre a prudencia dos politicos e governantes e a multitudo, como realidade viva que tern de ser contida dentro de determinados limites. Oportunidade e acaso sao os elementos formais da media~ao, vivem 0 terreno da imagina~ao: como se faz, por outro lado, a constitui~ao critica da media~ao? Como se constitui ela, re-cuperando 0 conteudo de liberdade que todo processo constitutivo cleve necessariarnente exprimir? "Experientia sive praxis": e 0 terreno cornum no qual se movern os politicos e Spinoza. Mas e tambern 0 terreno no qual a divisao se torna radical. Na minha politica, acrescenta com efeito Spi-244 Antonio Negri noza!7, nao hi nada de novo, senao 0 fato de que 0 fundamento "com ar-gumentos certos e irrefutaveis", em cima da "conditio humanae naturae" , e que procuro "os prindpios que combinem perfeitamente com a pratica". Tudo isto com metodo matematico, considerando as paix6es humanas "como propriedades da natureza humana", propriedades necessarias, mes-rno quando sao danosas, do mesmo modo que todos os outros fenome-nos naturais, e, como estes, "efeitos de causas determinadas", "atraves das quais procuramos entender a natureza deles, e nosso espfrito te~ tanto prazer nessa contempla~ao rigorosa quanto na percep~ao do que e agra-davel aos sentidos". De maneira imperceptive!, porem inequivoca, a ex-periencia (ou ainda, a pratica humana) sofre uma discrimina~ao em nome de uma "condi~ao hurnana". Mas a propria multitudo e uma condi~ao hu-mana. A condi~ao e uma modalidade, e ser determinado. Mas 0 ser e di-namico e constitutivo. A condi~ao humana e portanto constitui~ao humana. A passagem da linguagem dos politicos a da verdadeira filosofia, como ciencia da experiencia e da pratica e nao simples descric;ao destas, e entao a passagem para a analise da necessidade da liberdade humana, dentro do ritmo progressivo e coletivo da constituic;ao. Materialidade, coletividade, progressividade do processo real da cons-titui~ao sao explicitamente os objetos dos paragrafos seguintes a respeito do metodo. Como expliquei na Etica, recomec;a realmente Spinoza18, 0 homem e naturalmente sujeito as paixoes, entendendo-se por paix6es, es-sencialmente, a~ao vinculada e provocada pela "cupiditas". Nem a reli-giao tern alguma efid.cia contra 0 egofsmo e 0 comportamento de apro-priaC;ao. A religiao tern valor proximo da morte, quando as paix6es foram vencidas pela doen~a, ou entao na igreja, fora da rela~ao humana direta, mas nao tern valor como potencia de reparac;ao "no tribunal ou na corte, onde seria mais necessaria". De seu lado, a razao seria certamente capaz de dominar as paix6es, mas 0 caminho indicado por ela e 0 mais arduo. "De maneira que vive na poetica idade de ouro, ou seja, no mundo das fabulas, aquele que realmente acredita que toda uma massa (multitudo) ou os responsaveis pela coisa publica possam ser levados a viver unicamente segundo os ditames da razao." 0 fundamento do processo constitutivo so-cial insiste, entao, na materialidade dos desejos apropriativos. A polftica eo reino da imagina~ao material. Os proprios politicos, a propria prudencia deles, estao submetidos a isso, do mesmo que a multitudo. A lei constitutiva da associa~ao politica e absolutamente material, e irredutivel a moral e a razao - isto quando essas mesmas nao fazem parte do processo consti-tutivo. 0 processo e entao material e coletivo. Urn regime politico ("im-Zperium"), especifica Spinoza 19, nao pode se basear na virtude individual de seus administradores, nao pode se basear no projeto da individualida-de. Quem administra, nao importando a inten~ao que 0 anime - paixao A Anomalia Selvagem 245 ou razao -, tern de se ver posto em condic;6es de ser fiel, de administrar dignamente. "Libertas, seu fortitudo animi": esta mesma tam bern e uma virtude individual, neste caso, e portanto inadequada. Virtude privada: em compensaC;ao, s6 "imperii virtus securitas est". A pratica humana coleti-va, tornando-se politica, supera e compreende as virtu des individuais em urn processo constitutivo que se pretende geral. A dialetica entre multitudo dos cidadaos, dos suditos e prudencia dos administradores, dos politicos, que parecia constituir 0 problema, e realizada ao mesmo tempo que e ne-gada como formula dialetica: e novamente proposta como problema da dimensiio eoletiva da eonstitui~iio. A prudeneia noo e em si mesma urna virtude privada, ela s6 pode, aO contrario, viver e se desenvolver como elemento da constituiC;ao coletiva. 0 conceito de "seguranc;a" nao nega 0 de "liberdade". Spinoza poderia, como fara dentro de pouco, repetir 0 adagio do Tratado teologico-politico: "Finis revera Reipublicae libertas est." Se ele prefere aqui 0 conceito de seguranc;a, e para exprimir 0 cara-ter coletivo da liberdade civil. Vamos entaO conduir esta analise, tornan-do a prop~r a centralidade exclusiva da proposta constitutiva. ja que to-dos os homens, sejam barbaros ou desenvolvidos, se relacionam e dao origem a urn estado civil, a urn ordenamento politico, "a origem do Esta-do e seu fundarnento natural nao devern ser procurados entre os ensina-mentos da razao (ex rationi documentis), mas devem ser deduzidos da natureza ou condic;ao comum dos homens" .20 Assim se conclui 0 encaminhamento, insistindo na complexidade do processo constitutivo. Spinoza apenas se explicou. Colocou as condic;6es que a Etica, em sua segunda redac;ao, havia aprofundado de maneira de-cisiva. Ele agora vai procurar a sintese, a uniao indissociavel da liberdade e da necessidade, no terreno da constituic;ao real, que e 0 da materialidade e da dimensao coletiva da existencia politica. Mas e preciso estar atento. Aqui, diante da concretude do problema, as condic;6es metafisicas nao apenas se repetem: elas se esclarecem e se deslocam. 0 metodo nao se se-para da realidade que ele abra,a. A solu,iio dos pares eontraditorios do realismo politico: "prudentis"-"mu!titudo", "libertas"-"securitas", "condi-tio"-"constitutio,,21- essa soluC;ao se deve a urn avanc;o te6rico explici-to no desaparecimento da contradic;ao aparentemente fundamental entre liberdade e neeessidade. As aporias encontradas no livro V da Etica a esse respeito se dissolvem definitivamente. A "livre necessidade" nao e mais urn resultado, mas urn pressuposto. A liberdade, insiste Spinoza, aprofundando nesse periodo a discussao com Tschirnhaus22, nao consiste "no livre-ar-bitrio mas na livre necessidade" - em outras palavras, enta~, nao na ig-norancia das causas que a determinam, nao na "ficc;ao da liberdade", mas sim na consciencia de seu rnovimento. Neste ponto, a liberdade entao nao e mais urn resultado, mas tam bern nao s6 urn pressuposto formal: e urn 246 Antonio Negri sujeito. A consciencia vive a ideia como concordancia da ideia com seu idea to: neste caminho se estende a liberdade. Mas a propria concordancia nao e urn mero sinal extrinseco? "Para poder saber a partir de que ideia de uma coisa, entre as muitas que dela tenho, se podem deduzir todas as propriedades de urn su;eito, nao observa senao uma unica regra: a ideia ou definiC;ao da coisa que deve exprimir a causa eficiente dela. ,,23 Desse modo, sujeito e causa eficiente tendem it identidade. E a liberdade nao e urn caminho por sobre a concordancia entre ideia e idea to, mas c;usa efi-ciente. A livre necessidade e a atualidade do processo constitutivo que se torna explicita como poteneia ontologiea dinarniearnente estendida. Com isto 0 horizonte da Etica se completa. Estariamos quase tenta-dos a falar de uma nova fundaC;ao do projeto. Mas seria algo extrinseco. Estamos apenas diante de uma extensao tematica da segunda fundaC;ao. Podemos entao dizer que, dentro dessa extensao, Spinoza enfrenta pela primeira vez uma analitica do tempo depois de ter tao amplamente desen-volvido aquela fisica do espac;o? A coisa parece evidente, a potencia cons-titutiva ou expressiva do ser pede ao tempo que se qualifique como essen-cia real. Isto nao elimina 0 fato de que esta reivindicaC;ao teorica e a pra-tica dessa dimensao sao apenas implicitas. E verda de que, nesses anos, debatendo com Tschirnhaus - urn interlocutor 6timo, estimulante -, Spinoza torna clara a critica do atributo e de qualquer possivelleitura do sistema como uma filosofia da emana~a024. Vma nova avaliaC;ao da dimen-sao temporal nao constitui apenas 0 fundo dessa reafirmac;ao critica. Alem disso, como que determinando uma condiC;ao da extensao da forc;a e da dimensao do processo constitutivo, Spinoza chega a uma serie de afirma-c;6es que mostram 0 quanta esta madura, inclusive sua ruptura em rela-c;ao a forma do pensamento e da problemcitica cartesianos, dos quais no entanto, e de maneira fundamental, Spinoza fizera seu ponto de partida. "A partir da extensao como Descartes a concebe, ou seja, como uma massa inerte, ... e totalmente impossivel demonstrar a existencia dos corpos. A materia em repouso, enquanto depender de si mesma, persistirci em repouso,. e so sera posta em movimento por uma causa externa mais potente. Por isso nao hesitei, em outra epoca, em afirmar que os prindpios cartesianos da natureza sao inuteis, para nao dizer absurdos. "25 Entretanto, tendo re-conhecido tudo isso, e preciso repetir que a qualificac;ao tern poral do pro-cesso constitutivo permanece implicita. A constituiC;ao do real, em sua forc;a e em sua dinamica, compreende 0 tempo como dimensao implicita do real. DuraC;ao e eternidade se baseiam na livre necessidade. A livre necessidade e entao a fundac;ao da politica spinozista. E este o cerne de seu metodo de trabalho. Experiencia ou entao pratica: 0 que e fundador e a inerencia constitutiva da prcitica it experiencia, ao dado modal. "Ou entao" e sinal de implicaC;ao. E isto e valido tambem para os outros .-.~. ',; ,. ,- P ;:"V-' -' - . A Anomalia SelvageiNSTITUTO Dc I n T F C A D 11:11 UfRG!> 247 I' ,1 J pares aparentemente antinomicos: a inerencia da "libertas" a "securitas", da "prudentia" a "multitudo" e igualmente intima e envolvente. Mas isso e valido principalmente para 0 par "condic;ao humana"-"constituic;ao da liberdade": aqui, 0 realismo politico e conquistado (a la Maquiavel e por-tanto em forma nao maquiavelica) como elemento e perspectiva dinami-ca de liberdade. Tudo isto conduz, como logo veremos, para urn ultimo par, desta vez nao aparentemente, mas realmente antinomico: "potentia" e "potestas", potencia contra poder. Potencia como inerencia, dinamica e constitutiva, do uno e da multiplicidade, da inteligencia e do corpo, da li-berdade e da necessidade - potoneia contra poder -Ii onde 0 poder se projeta como subordina,ao da multiplicidade, da inteligencia, da liberda-de, da potencia. Desta concepc;ao potencial e potente do poiftico, tentou-se dar com excessiva freqiiencia, na hist6ria das interpretac;oes a respeito de Spinoza, uma tranqiiilizadora qualificac;ao determinada, em sentido realista ou liberal ou democratico. Talvez cada uma dessas conotac;6es seja verdadeira, mas so parcialmente. A totalidade da potencia spinozista, como base da constituic;ao do real atraves da forma do politico, so e conotavel de urn modo: contra 0 poder. E uma conotac;ao selvagem, uma determi-nac;ao subversiva, uma fundac;ao materialista. 0 inlcio metodologico do Tratado politico, e 0 deslocamento metaffsico dos resultados da Etica pro-duzidos por ele, ja nos poem nessa situac;ao. Potencia contra poder. 2. "TANTUM JURIS QUANTUM POTENTIAE" As Proposi,6es XXXIV e XXXV do livro I da Etica colocam a dife-renc;a entre "potentia" e "potestas", entre potencia e poder. "A potencia de Deus e sua propria essencia"26, "Tudo 0 que concebemos como estan-do em poder in potestate de Deus, e necessariamente" .27 Como se ve, essa diferenc;a - e nisso Gueroult insiste, com razao28 - se baseia inteiramente na duplicac;ao cognoscitiva oriunda do mecanismo produtivo dos atribu-tos. A "potestas" e dada como capacidade - conceptibilidade - de pro-duzir as coisas; a "potentia", como forc;a que as produz atualmente. Se-gundo Gueroult, essa diferen,a e colocada por Spinoza com urn fim argu-mentativo: demonstrar, "grac;as a identificac;ao da potencia de Deus com a necessidade interna de sua essencia, a falsidade das conce~6es aberrantes que se referem ao exerdcio de sua potencia" . Dai a imediata negac;ao da distinc;ao, assim que 0 fim argumentativo foi alcanc;ado: 0 poder, com potencia virtual, e negado na Proposic;ao XXXVI. ("Nao existe coisa al-guma de cuja natureza nao resulte algum efeito.,,29) A Proposi,ao XXXV, ou seja, a distinc;ao entre poder (potestas) e potencia, tern meramente urn significado polemico contra todos aqueles que, afirmando 0 livre-arbitrio, 248 Antonio Negri afirmam uma desproporC;ao entre 0 que e possivel a partir da essencia di-vina e quanta e atualmente dado no mundo. Ora, esta leitura de Gueroult e indubitavelmente correta. Ela reproduz a especificidade do quadro uto-pista da primeira redac;ao. Mas, como acontece freqiientemente com a interpretac;ao de Gueroult, a situac;ao teo rica fica achatada nesse terreno da utopia. Com efeito, em outro pont030, mostramos que a reduc;ao da "potestas" a "potentia" nao agia somente no sentido de tirar razao da ordem da degrada,ao e da emana,ao do ser (e portanto de tirar for,a organizativa do dinamismo dos atributos), mas tambem e sobretudo no sentido de tornar a abrir urn paradoxo do mundo, uma oposiC;ao nao re-solvida entre totalidade do ser e determinidade atual da modalidade. Quan-do depois, nos livros seguintes da Etica, essa oposi~ao se transforma em impulso constitutivo, a distinc;ao "potentia" -"potestas" perde tambem as func;oes polemicas que Ihe eram atribuidas no livro I. Ou seja, 0 termo "potestas", se nao e para ser completamente riscado do quadro de uma terminologia (spinozistamente) significativa, nao pode ser entendido - en-quanta horizonte de conceptibilidade - senao como func;ao subordinada a potencia do ser elemento - portanto - inteiramente determinado e submetido ao continuo deslocamento, a continua atualiza'rao determina-da pelo ser potencial. Nao apenas, entao, nao e possivel jogar com a dife-renc;a em termos de eminencia do poder ("potestas"), como ja acentuam o Spinoza da primeira redac;ao e Gueroult, mas - como quer 0 Spinoza da segunda redaC;ao - ela deve ser utilizada no sentido oposto, como base do relevo de superficie da "potentia" - real, concreta, determinada -diante de qualquer possibilidade e de qualquer ideato. Nesta reversao con-siste a realizac;ao da propria utopia humanista, mas reconduzida ao hori-zonte do materialismo. "Potestas", poder, desse ponto de vista, so pode significar: "potentia" em direc;ao a constituic;ao - urn reforc;o que 0 ter-mo poder nao representa, mas apenas indica, pois a potencia do ser 0 fixa ou 0 destroi, 0 coloca ou a ultrapassa, dentro de urn processo de consti-tuic;ao real. 0 reforc;o que 0 conceito de poder pro poe ao conceito de po-tencia so e relativo a demonstra'rao da necessidade para a potencia de sem-pre se colocar contra 0 poder. Mas, dito isto, volta a ressurgir a verdadei-ra dimensao da polftica spinozista - seu procedimenta que prepara as con-dic;oes do agir determinado no mundo reaP1. o capitulo II do Tratado politico parte dessas premissas. Inicia-se a partir da liberdade metaffsica da potoncia. A liberdade metaffsica deve ser, como vimos no capitulo I, uma anaHtica dessa realidade. E imediata a re-missao ao Tratado teologico-politico e a Etica32, e 0 que foi sustentado nesses trabalhos deve agora ser reexposto atraves de uma demonstrac;ao apodftica33. A demonstrac;ao apoditica e a exibic;ao que a potencia do ser faz de si mes-rna, evidenciando a necessidade divina de seu fundamento e de sua expan-A Anomalia Selvagem 249 sividade. "Se, portanto, a potencia pela qual as coisas naturais existem e agem e a propria potencia de Deus, e facil compreender-se 0 que seja 0 direito natural. Na verdade, ja que Deus tern direito sobre todas as coisas, e ja que o direito de Deus nao e outra coisa senao a propria potencia divina consi-derada como absolutamente livre, dai se segue que cada coisa natural tern por natureza tanto direito quanto potencia a existir e a agir; ja que a poten-cia pela qual cada coisa natural existe e age nao e outra senao a propria potencia de Deus, a qual e absolutamente livre. "34 "Potentia" -"jus" -" liber-tas": 0 vinculo nao poderia ser m;;tis estreito nem mais determinad035 - e, sobretudo, sua potencialidade e sua espontaneidade nao poderiam ser mais evidenciadas. A analise volta a origem, proeura a densidade do ser para revive-10 em imersao. A potencia selvagem da natureza spinozista e, como sem-pre,o primeiro cenario no qual se move 0 projeto constitutivo. 0 direito natural e entao a propria lei da natureza, em sua imediatez, expressao di-reta da "cupiditas", prolongamento, projetro da definisa passagem peIo negativo, a alternativa - a alternativa republicana. 0 que temos diante de nos e uma especie de dialetica transcendental kantiana, ou seja, 0 desenvolvimento de uma dialetica das aparencias, que incide sobre as determina.;oes da razao, demonstrando ao mesmo tempo a exigencia da qual provem e que interpretam, e a discriminante de realidade e de irrealidade, na qual a exigencia e envalvida e blaqueada. Opasta a issa, a alternativa republicana ocorre no terreno da filosofia da afirma.;ao pura51 . Primeiro ponto, portanto: critica da ideia da transferencia transcen-dental do direita natural, critica da genese juridica do pader. E calacada a problema da diferen.;a "sudito" -"cidadao"52. Dentro dos preceitos conso-lidados do jusnaturalismo, essa diferen,a e mediada e organizada pelo con-trato, nas varias formas em que este e proposto, mas que em cada caso so-bredeterminam 0 simples fenomeno associativo. Mas em Spinoza 0 contrato ja esta eliminado, assim como esta eliminada sua caracteriza.;ao individua-lista. Aqui, entao, a elimina.;ao do contrato funciona de maneira positiva. A passagem do individual ao geral e negada par Spinaza par principia. A passagem se da em termos coletivos. Nao se trata entao de transferencia de direito, mas de sua constitui.;ao coletiva. "Do artigo 15 do capftulo II tor-na-se evidente que 0 direito de soberania ou dos supremos poderes nao e senao 0 mesmo direito natural determinado peIa potencia, nao mais dos indivfduos singulares, mas da massa, que e guiada como por uma s6 men-te; ou seja, como os indivfduos no estado natural, assim tam bern aquele composto de corpo e mente que e 0 Estado tern tanto direito quanta e a potencia que desenvolve; e portanto cada cidadao ou sudito tern urn direi-to tanto menor quanta maior e a potencia que deIe deriva para 0 Estado; e entao, ainda, cada cidadao nao tern direito de fazer nem de possuir nada fora daquila que lhe cabe par decisiia comum do Estada."s3 Canstitui,iia absoluta, mas sempre relativa: com efeito, se "nao e de modo algum admis-sivel que os cidadaos singulares possam, por direito civil, viver como lhes apraz, e portanto 0 direito natural, por for.;a do qual cada urn e juiz de si mesmo, cessa necessariamente no estado civil", no entanto "eu disse expres-samente par direito civil, pois 0 direito natural de cada urn, se observarmos bern, nao cessa no estado civil. Tanto no estado natural quanto no civil, com efeito, 0 homem age segundo as leis da sua propria natureza e defende seus interesses. Ou seja, num estado como no outro, 0 homem e levado pela esperan.;a ou peIo temor a fazer ou deixar de fazer este ou aquele ato; mas entre urn e outro estado existe a diferen~a essencial que e a de que no esta-do civil todos tern os mesmos temores, assim como uma s6 e identica para todos e a garantia de seguran.;a e iguais as regras de vida: sem que por isso seja retirada aos individuos sua faculdade de julgamento" .54 Constituir;ao absoluta, mas sempre relativa: mesmo quando a tendencia absolutista se desdobra no maximo de sua potencia55, repete-se nela 0 paradoxo habitual: 254 Antonio Negri "assim como no estado natural maior e a potencia e maior a autonomia daquele que segue a razao, assim tambem e mais potente e mais autonomo aquele Estado que tern a razao como orienta.;ao e fundamento. 0 direito do Estado, com efeito, e determinado pela potencia da massa, que se con-duz como se tivesse uma so mente" .56 Paradoxo que encontra sua origem no fato de que a continuidade nao e fundada, mas e constitufda, nao e me-diada, mas e desenvolvida, nao e urn resultado, mas urn pressuposto. "Mas, para nao ter de interromper a cada vez 0 fio do discurso e parar p;tra resol-ver dificuldades desse tipo, desejo avisar que demonstrei todas essas coisas deduzindo-as da necessidade da natureZa humana como quer que esta seja considerada, au seja, do esfor,o universal de todos as homens para a pro-pria conservar;ao: esfor.;o que se manifesta em cada homem, seja ele igno-rante ou sabio; e portanto, como quer que consideremos os homens, como escravos das paixoes ou como vivendo segundo a razao, a coisa nao muda, sendo a demonstrar;ao disso, como dissemos, universal. ,,57 A soberania, 0 poder ficam assim reduzidos e achatados sobre a multituda: atingem ate onde atinge a potencia da multitudo organizada58. Este limite e organico, e ele-mento ontologico da dinamica constitutiva. Nada de transferencia, portanto. Nada de Hobbes, nem de Rousseau. Nem no terreno politico: e isto exclui qualquer recupera.;ao, e mais ainda valoriza~ao, por parte de Spinoza, das tematicas da razao de Estado; nem no terreno juridico: e com isto novamente e ressaltada a suspeita teorica de Spinoza diante de qualquer teo ria legalista e positivista. De modo que 0 politico e 0 jurfdico, 0 sudito e 0 cidadao (as acep.;oes terminol6gicas nao sao, neste caso, correspondentes nem correlatas) constituem diferen.;as inteiramente relativas e so mensuraveis dentro das variaveis da continuidade que vai da autonomia a multitudo e a soberania. Mas em outros termos, e bern mais sugestivos, se pode dizer: do "appetitus" a imaginar;ao e a razao. Aqui, neste desenvolvimento metafisico, 0 proces-so se aclara. Intensamente, profundamente. E isto serve sobretudo para excluir qualquer interpreta~ao vitalista ou organicista desse desenvolvimento filosofico spinozista59: encontramo-nos, antes, diante de uma analise do Estado que 0 restitui em toda a sua ambiguidade, reino de mistifica.;ao e de realidade, de imagina.;ao e de desejo coletivo. Realmente, 0 pensamento ne-gativo se tornou projeto de constituir;ao. E agora chegamos ao segundo ponto da crftica de Spinoza ao absolu-tismo burgues: a crftica da ilimita~ao do poder soberano. Essa critica ja esta em grande parte contida no que Spinaza disse dentro do capitulo III do Tratado politico. Mas la ela e conduzida numa fun.;ao jurfdica, isto e, con-tra 0 mecanisme de legitima~ao (mediante contrato, mediante transferen-cia do direito) do absolutismo. ja no capitulo IV a polemica e qualitativa, ou seja, ela nao centra a ambigiiidade constitutiva da relar;ao - embora real - entre multitudo e Estado (como ocorre no capitulo III), mas, ao contra-A Anomalia-Se1vagem INsnTUTO t:t.: rrio, investe todo 0 conjunto das rela\oes constitutivas. Se 0 capftulo III eli-mmava 0 contrato como fun\ao 16gica, 0 capitulo IV 0 interpreta como fun\ao material e mostra sua contraditoriedade como instrumento, apesar de tudo, utilizavel. A argumentac;ao e inteiramente paradoxal. Mas ninguem diz, como de resto todo 0 desenvolvimento do sistema de Spinoza esta de-monstrando, que a argumentac;ao paradoxal seja, entre outras, menos efi-caz! 0 limite fundamental da ac;ao do Estado consiste, como se demons-trou, na extensao e na continuidade infra-estrutural dos direitos naturais. "Existem certas condic;6es, postas as quais se imp6em aos suditos 0 temor eo respeito para com 0 Estado, e eliminadas as quais nao apenas desapa-recem e temer e 0 respeito, mas 0 proprio Estado deixa de existir. Para conservar a propria autoridade, em suma, 0 Estado deve estar atento para que nao desaparec;am os motivos de temor e de respeito, sob pena de per-der seu ser de Estado. E tao imposslvel, para alguem que esta investido de poder, sair pelas ruas em estado de embriaguez ou nu em companhia de meretrizes, comportar-se como palhac;o ou violar ou desprezar abertamen-te as leis que emanaram dele mesmo, e conservar, apesar disso, sua digni-dade soberana, quanto e impossivel ser e nao ser ao mesmo tempo. Quan-do urn soberano mata e espolia as suditos, rapra as donzelas, etc., a sujei-C;ao se transforma em indignaC;ao e, portanto, 0 estado civil se converte em estado de hostilidade."6o 0 que quer dizer, e este Ii 0 sinal paradoxal da argumentapaz. A paz, realmente, nao e a ausencia da guerra, mas uma virtude que nasce da for~a da alma. "65 S6 a liberdade fundamenta a paz, e com ela 0 melhor governo. Mas, veja-se bern, a liberdade nao e simplesmente liberdade de pen-samento, mas expansividade do corpo, sua for~a de conservac;ao e de re-prodw;ao, como multitudo. E a multitudo que se constitui em sociedade com todas as suas necessidades. Nem a paz e simplesmente seguran~a, mas e a situa~ao na qual 0 consenso se organiza em republica. E regulamentafcrentes ao ordenamento de uma monarquia bern constituida. Passarei entao ao Governo aristocrdtico e popular; finalmente as leis e as outras questoes particulares referentes a polftica. " Esta carta foi posta pelos organizadores da Opera posthuma como prefacio do Tratado, com a seguinte nota: "Aqui esta exposto 0 plano do Autor. Mas, impedido pela doenc;a e levado pela marte, ele nao pode executa-Io senao ate 0 fim da Aristocracia, como 0 proprio Leitor podera ver. "69 0 Tratado politico e entao uma obra incon-clusa - inconclusa justamente naqueie ponto central ao qual as paginas ja redigidas do proprio Tratado, mas sobretudo todo 0 desenvolvimento do pensamento spinozista, deviam conduzir como a urn termo necessario: a analise do regime democratico, ou meihor, 0 projeto da Republica. Mas o Tratado politico nao Ii apenas urn livro inacabado. E tambem urn traba-Iho em curso. A redarado como forma de governo absolutamente negativa e dado aqui agora como aceitavel, contanto que suas modalidades sejam moderadas, contan-to que 0 absolutismo monarquico nao seja considerado em si mesmo, mas como funC;ao de born governo77. Mas 0 born govemo nao e imaginavel senao como expressao de uma relamomirquica, a forma aristocra.tica de governo e entao excelente, na medi-da em que mais se aproxima da absolutez do governo. Mas absolutez do governo significa coparticipa.;ao efetiva do social no politico: os prindpios estruturais do regime aristocnitico devem entao ser construidos a partir da analise do social, a partir da fenomenologia determinada da multitudo: tais procuram ser justamente as exemplos recolhidos por Spinoza88. Mas nao e 0 bastante. Ate aqui estamos no terreno da produ,ao do poder: para ser completa, a analise dos prindpios estruturais do governo (no caso 0 aristo-cratico, como em geral a analise das formas de governo) deve cobrir tam-bern 0 processo de reprodu.;ao interna do poder89. Finalmente, deve-se con-jugar a analise esritica dos principios de produ,ao do poder com ados prindpios de gestao do poder: e teremos uma serie de regras para a repro-du,ao social da domina,a09o. 0 quadro e completado por duas digressoes extremamente importantes, embora apenas anotadas, a primeira sobre a forma federativa do governo aristocratic091 e a segunda sobre as formas degenerativas do governo aristoeratic092. Que se fique atento: a analise e elegante e tenta dar urn quadro adequado dos fenomenos estudados, em toda a sua complexidade - quadro, de qualquer modo, adequado ao nivel de pesquisa da epoca. Mas a elegancia da analise refere-se sobretudo aos prin-dpios, aos esquemas de pesquisa, as propostas metodol6gicas. Quando a linha de pesquisa se confronta com a realidade, e tende para a exemplifica.;ao, entao a casuistica proposta e muitas vezes de segunda ordem. o que retirar dessa fenoI1}enoiogia analitica? Inutil eseonder que 0 carater de incompletude do texto e muito importante. Inclusive no que se refere aos capftulos sobre a aristocracia (como ja fora 0 caso para aqueles sobre a monarquia) encontramo-nos diante de uma serie de fortissimos desvios metodologicos. 0 pensamento do "governo absoluto" , a ideia guia e constitutiva da multitudo desempenham urn papel metaffsico que difi-cilmente consegue ser proporcional aos conteudos anallticos e estruturais da analise das formas de governo. Pouca diferen,a faz quando se parte do principio metaffsico, como no caso do regime aristocratico, ou quando se chega a ele, como no easo da analise do regime monarquico. De qualquer modo a despropor.;ao age no sentido de tornar inteiramente casual a eon-tingencia historica dos prindpios estruturais do governo. A avalia~ao, en-tretanto, deve mudar quando se considera, nao tanto 0 conteudo deter-minado da analise quanto 0 metodo que a rege e a dirige: 0 esquema cons-titutivo, com efeito, esta presente com absoluta perfei.;ao. Seja em termos de escava~ao, ou em termos eoostrutivos, seja como opera~ao eritica, ou como opera~ao projetual. Talvez a coincidencia entre os diversos movi-meotos da hipotese tivesse podido oeorrer com a analise do regime demo-cnitico _ "Passo finalmente a terceira forma de governo, ou seja, aquele completamente absoluto que se chama democratico,,93 - mas, como se 264 Antonio Negri sabe, 0 texto para aqui. Sera entao que e superfluo estudar essa segunda parte do Tratado politico (para que fique claro, aquela que come,a no capitulo VI)? Realmente nao penso assim. A crise do projeto expositivo e na verdade tao importante (e dramatica) do ponto de vista tearico quanto sua funda,ao. E ja vimos por que sua funda,ao (capitulos I a V) 0 e. Aqui o desequilibrio entre as condi~6es teoricas do sistema, sua matura~ao cons-titutiva e, por outro lado, ao contrario, as condi~6es historico-politicas da obra, torna-se maxim094. E importante ver a luta politica no intetior do sistema: e ela pode ser apontada na descontinuidade absoluta da casuistica diante do principio constitutivo. A guerra e evidentemente logica, mas sua importancia politica e fora de duvida. 0 existente politico e absolutamente contraditorio com a necessidade constitutiva. Por isso e casual. E negaentre 0 principio que 0 move e a realidade da reflexao absolutista e bur-guesa do seculo que 0 impede de se tornar historicamente operativo. o projeto esta, assim, exposto num limite real. Nao esta derrotado, esta suspenso. 0 principio materialista e radical da constitui~ao vive seu isolamento conspirativo e revolucionario. Nao pode amadurecer para alem de contradi~6es que nao pode compreender, mas pode crescer sobre si mesmo: quanto as contradi~6es, essas participam do nao ser, estao mor-tas. A teoria do positivo e do pleno da potencia esta suspensa sobre 0 va-zio do negativo e do poder. 0 Tratado politico s6 e uma obra falida se niio se entende isto: que sua falencia politka imediata e 0 efeito necessario do triunfo do mundo, da multitudo, do homem. 0 projeto constitutivo esta agora bloqueado na prop0fSpinoza declara que "se (lhe) for dado viver 0 suficiente, ele voltad a enfrentar 0 pro-blema da extensao e do atributo", e sua critica a Descartes. 26 t.tica I, Proposi'jao XXXIV (G., II, p. 76; P., p. 345). 27 Etica I, Proposi.,ao XXXV (G., II, p. 77; P., p. 345). 28 M. GUEROULT, op. cit., t. I, p. 387-389. Posi'jao identica de A. IGOIN. Da elipse da teoria politica de Spinoza no jovem Marx, in Cahiers Spinoza, I, Paris, 1977, p. 213 sq. Mas sabre tudo isso ver supra, cap. III, Y parte. Nao esquecer, alem disso, que esses temas tambem sao levantados por M. FRANCES, art. cit., e isto de maneira bastante expHcita. 29 t.tica I, Proposi'jao XXXVI (G., II, p. 77; P., p. 346). 30 Cf. supra, cap. III, segunda parte, onde justamente sao comentadas as Propo-si'joes em questiio. 31 Para a coloca'jao desses problemas, d. supra, cap. V, segunda parte. 32 Particularmente no TIP, cap. XVI, e t.tiea IV, Proposi'jao XXXVII, Escotio 2. 33 TP, cap. II, par. 1 (G., III, p. 276; P., p. 922). 34 TP, cap. II, par. 3 (G., III, pp. 276-277; P., p. 923). 35 A. DROETIO cita aqui 0 livro de I. P. RAZUMOVSKI, Spinoza and the State, escrito em 1917, tornado por ele a fonte da interpreta'jao materialista de Spinoza de-senvolvida mais tarde na filosofia sovietica. As fontes da leitura de Spinoza como pen-sad~r materialista sao, naturalmente, bern mais antigas, inclusive na tradi'jao do mate-rialismo historico. Mas talvez seja interessante estudar mais profundamente do que 0 faz KLINE, op. cit., a genese do desenvolvimento "escolastico" da leitura materialista de Spinoza na filosofia sovietica. Seja como for, talleitura se apoia essencialmente nas passagens do TP analisadas aqui. 36 TP, cap. II, par. 5 (G., III, p. 277; P., pp. 923-924). 37 TP, cap. II, par. 6 (G., III, p. 277; P., p. 924). 38 TP, cap. II, par. 8 (G., III, p. 279; P., p. 926). 39 TP, cap. II, par. 7 (G., III, p. 279; P., pp. 925-926). 40 TP, cap. II, par. 8 (G., III, p. 279; P., p. 926). 41 Numa interven'jao apresentada no coloquio Spinoza, nouvelles approches textuel-les (Paris, 25 de maio de 1977), retomada in Raison presente, 43, Paris, 1978, P.F. MO-REAU exp6e os resultados de uma pesquisa informatica sobre as recorrencias das palavras jus e lex no TP. Inutil assinalar que essa analise da um resultado extremamente favoravel a jus. Nas tradu~6es de Spinoza, e principalmente em ingles, da-se, ao contdrio, vanta-gem a lex (law). Sobre toda essa questao, d. Cahiers Spinoza, II, Paris 1978, p. 327 sq. 42 TP, cap. II, par. 9 (G., III, p. 280; P., p. 927). 43 Essa remissao se refere sobretudo aos trechos da Etica citados supra, cap. VII, nota 90. 44 TP, cap. II par. 13 (G., III, p. 281; P., p. 928). 45 Sobre 0 dispositivo tearico dessa fisica do corpo politico, d. principalmente TP, c,ap. II, par. 14 e 15 (G., III, p. 281; P., pp. 929-930). Ver tambem as indica~6es ja evocadas de A. LECRIVAIN, Spinoza et fa physique cartesienne, cit., particularmente II, p. 204 sq., onde ele insiste fortemente na centralidade do modelo fisico na elabora-~ao da pohtica spinozista. 46 TP, cap. II, par. 17 (G., Ill, p. 282; P., p. 930). 47 TP, cap. II, par. 19 (G., Ill, pp. 282-283; P., p. 931). 48 TP, cap. II, par. 23 (G., Ill, p. 284; P., p. 933). 49 A tenta~ao positivista continua a grassar na interpreta~ao do pensamento juri-dico e politico de Spinoza; e principalmente na Iralia, apesar das "interpreta~6es fundamen-268 Antonio Negri tais" de Rava e de Solari que, ao concluirem por uma impossibilidade de reduzir 0 spino-zismo a um pensamento positivista, haviam certamente colocado 0 problema corretamente. 50 Sabre 0 positivismo e sobre 0 legalismo, sabre as caracteristicas teoricas e as fun'rOes de ambos, permito-me remeter a meu Aile origini del formalismo giuridico, padua, 1962. 51 A. Matheron captou com muita inteligencia esses caracteres dialetico-trans-~endentais da politica de Spinoza. Seu aprofundamento dessa tematica, entretanto, pa-rece~me pecar por excesso de dialetismo, isto e, por uma aten~ao excessiva a determina-~ao concreta dos exemplos estudados. 0 que produz, como veremos na terce ira parte deste capitulo, curiosos efeitos de retrodata'rao na obra de Spinoza - que pareceria quase . dedicada a uma critica da forma-Estado pre-burguesa. 52 TP, cap. III, par. 1 (G., III, p. 284; P., p. 934). 53 TP, cap. III, par. 2 (G., II, pp. 284-285; P., p. 934). 54 TP, cap. III, par. 3 (G., III, p. 285; P., p. 935). 55 TP, cap. III, par. 4, 5, 6 (G., III, pp. 285-287; P., pp. 935-937). 56 TP, cap. III, par. 7 (G., III, p. 287; P., p. 937). 57 TP, cap. III, par. 18 (G., III, p. 291; P., p. 944). 58 TP, cap. III, par. 9 (G., III, p. 288; P., p. 939). 59 Os estudos de W. Dilthey e de sua escola nao estao isentos de tendencias vitalistas (mais que organicistas). Permitimo-nos aqui remeter a nosso Studi sullo storicismo tedesco, Milao, 1959. 60 TP, cap. IV, par. 4 (G., III, p. 293; P., pp. 926-927). 61 TP, cap. IV, par. 5 (G., III, pp. 293-294; P., p. 947). 62 Sobre esta tematica em seu conjunro, d. supra, cap. V, terceira parte. 63 TP, cap. V, par. 1 (G., III, p. 295; P., p. 949). 64 TP, cap, V, par. 2 (G., III, p. 295; P., pp. 949-950). 65 TP, cap, V, par. 4 (G., III, p. 296; P., p. 950). 66 TP, cap. V, par. 7 (G., III, pp. 296-297; P., pp. 951-952). Sobre as rela~6es Maquiavel-Spinoza, ver 0 que A. DROETIO diz a respeito em nota, assim como em sua Introdu~ao. Mas e evidente que sera preciso voltar longamente a tratar essas rela-~oes, absolutamente fundamentais para a hist6ria da filosofia polftica moderna: trata-se, com efeito, da alternativa (Maquiavel-Spinoza-Marx) que se coloca diante do filao "sublime" (Hobbes-Rousseau-Hegel). 67 Parece-me dificil dar referencia, na medida em que se trata, nessas afirma~oes, de urn resumo relativamente geral do que foi dito ate aqui. E fora de duvida, no entan-to, que se deve levar na mais alta considera'1ao 0 Althusius de GIERKE. Poderiamos retomar aqui 0 que foi dito a respeito da interpreta~ao do "contrato social" em Spino-za, em referencia principalmente as interpreta~oes de Vaughan, Solari e Eckstein (d. supra, cap. V, segunda parte). 68 Carta LXXXIV (G., III, pp. 335-336; P., pp. 1302-1303). 69 TP, Prefacio (G., III, p. 272; P., p. 918). 70 Para uma analise atenta dos conteudos especificos do TP, ver, alem da Intra-du~ao de Droetto, a op. cit, de MUGNIER-POLLET, eJean PREPOSIET, Spinoza et la liberte des hommes, Paris 1967. Ambos enfatizam a correspondencia entre os textos de Spinoza e a evolu~ao das instituiSpinoza, varias vezes evocada, chega a urn julgamento proximo ao nosSO. A importancia do livro de Matheron vern do fato de que de se libera dos entraves das velhas interpreta-Ijoes academicas da filosofia politica de Spinoza, que rejeita a tentativa tradicional de explicar Spinoza no ambito de uma tipologia que arrole as ideologias e as fonnas de governo correspondentes. Hoje em dia, esse perigo me parece definitivamente afastado: mas Ma-theron nao tern nada com isso. No fundo, 0 fato de pensar separadamente a metafi"sica e a politica de Spinoza era apenas urn dos aspectos dessa paixao pela historia das formas de governo. Pura e simples classificaljao de "suas" formas de governo, uma historia da ideologia e da politica comO essa nao podia deixar de agradar a burguesia do seculo XIX. 74 Cf. supra, cap. V, terceira parte. 75 TP, cap. VI, p". I (G., III, p. 297; P., p. 952). 76 TP, cap. VI, par. 4 (G., Ill, p. 298; P., p. 953). 77 TP, cap. VI, par. 5-7 (G., Ill, pp. 298-299; P., pp. 954-955). 78 TP, cap. VI, par. 8 (G., III, p. 299; P., p. 955). 79 TP, cap. VII, par. I (G., III, p. 307; P., p. 967). sO TP, cap. VII, par. I (G., III, p. 307; P., p. 967). 81 TP, cap. VII, par. I (G., Ill, p. 308; P., p. 968). 82 TP, cap. VI, par. 9-40 e cap. VII, par. 3-31(G., Ill, pp. 299-307 e 308-323; P., pp. 955-967 e 969-990). S3 TP, cap. VII, par. 27 (G., Ill, pp. 319-320; P., pp. 985-986). 8. TP, cap. VII, par. 31 (G., Ill, p. 323; P., p. 990). S5 TP, cap. VIIl, par. 3 (G., III, p. 325; P., p. 993). 86 TP, cap. VIII, par. 4 (G., III, pp. 325-326; P., pp. 992-993). 87 TP, cap. VIII, par. 5 (G., III, p. 326; P., p. 994). 8S TP, cap. VIII, par. 8 (G., III, p. 327 sq; P., p. 995 sq). 89 TP, cap. VIII, par. 12 (G., III, p. 329; P., pp. 998-999). '0 TP, cap. VIII, par. 13 por exemplo (G., Ill, pp. 329-330; P., p. 999-1000). 91 TP, cap. IX, sobre a republica federativa. De maneira geral, sobre as relaljoes internacionais, d. TP, cap. III, par. 11. 92 TP,cap. X. 93 TP, cap. XI, par. I (G., Ill, p. 358; P., p. 1031). 94 Remeto novamente as obras historicas varias vezes citadas neste livro. Racio-cinando em termos deterministas, a interpretaljao marxista dassica, de Thalheimer a Desanti, ao mesmo tempo em que percebe a transformaljao interna da problematica spinozista, insiste no lugar que the caberia no desenvolvimento da ideologia burguesa. Parece-me, ao contrario, que a ruptura efetiva da continuidade do sistema nao pode em caso algum ser conduzida as dimensoes ideologicas da epoca. 95 A documentaljao e fornecida por A. DROETIO em sua Introduljiio e em suas notas a ediljao italiana do TP. Mas d. sobretudo M. FRANCES, Notas e Apresentaljao de La Balance politique dos irmaos J. e P. de LA COURT, que oferece uma ampla do-cumentaljao sobre 0 debate politico e constitucional proprio a epoca de Spinoza. 96 TP, cap. VII, par. 30 (G., III, pp. 321-323; P., pp. 987-989). 97 TP, cap. VIIl, par. 5 (G., III, p. 326; P., p. 994). 98 TP, cap. X, par. I (G., III, p. 353; P., p. 1033). 99 Notar particularmente a intervenljao dos editores, seguramente de filialjao aris-tocratica, no texto do frontispicio do TP, onde a palavra "aristocrata" esra, com toda certeza, acrescentada; assim tambeID no inicio do cap. VIII onde, muito provavelmen-te, os organizadores acrescentaram uma especie de premissa-sumario sobre a "superio ridade do regime aristocratico" (G., III, p. 271 e 323; P., p. 917 e 990). Antonio Negri 270 Capitulo IX DIFERENcondi,oes de pensabilidade do mundo. Nao uma filosofia do comeOll cartesiana. Os pressupostos dessa crftica empurram 0 pensamento spi-nozista para 0 terreno de uma filosofia do porvir: de uma antecipa~ao que prospectivamente coloca, na radicalidade do impacto poiemico, a crise de epoca da ciencia e do sistema do capitalism08. Diante disso, 0 pensamento constitutivo. Isto e, a necessidade e a possibilidade para a ciencia de se exercer como maquina de libera~ao. Este e 0 ponto fundamental. 0 cruzamenro entre pensamenro negativo e pensamento constitutivo determina 0 rransborda-mento, por assonancia, da totalidade criticada sobre 0 projeto da libera~ao. A vastidao do projeto de libera~ao integra a radicalidade do projeto nega-tivo da critica. A ciencia, com isso, e reportada a dimensao etico-politica, e preenchida com esperan~a. Ji a recordamos: a dima cultural holandes, em sua relativa autonomia e anomalia historica, nao ve a dissolu~ao do con-texto civil dentro do qual uniraria e solidariamente a ciencia se desenvolve _ as Academias do poder absoluto nao se impuseram, a unidade cultural permanece e se representa como convivencia de virtu des eticas e cognos-citivas. Nao e entao urn projero antigo aquele proposro pela conce~ao spino-zista da ciencia. E, ao contrario, urn aspecto essencial da opera~ao de supe-raC;ao e deslocamento que 0 tempo projetual de sua filosofia opera em re-la~ao ao tempo historico de sua existencia: e urn momento de prefigura~ao, de criatividade, de libera~ao. 0 projeto constitutivo deve entao colocar a ciencia como essencia nao finalizada, como acumula~ao de atos de libera-~ao. Coloca a ciencia nao como natureza, mas como segunda natureza, nao como conhecimento, mas como apropria~ao, nao como apropriac;ao indi-vidual, mas como apropriac;ao coletiva, nao como poder, mas como potencia. A Ethica ordine' geometrico demonstrata" e ciencia ela mesma - ciencia de urn ser objetivo que sabe a libera~ao como sua propria natureza como sua propria tensa09 o que e fascinante, neste quadro de reconstruc;ao, e a enormidade do projeto spinozista. Nos mesmos so poderiamos historicamente motiva-10 como transferencia de urn fundac;ao religiosa e metaffsica para urn pro-jeto humanista e revolucionario. Esclarecendo que os elementos histori-cos da transferencia sao incidentais: em sua absolutez, elas tern antes urn tal ritmo interno expansivo que a critica metamorfoseia sua origem, nao porque esta diminua a potencia deles, mas porque a ajusta e a reorganiza. A sintese dos componentes filosoficos tradicionais se realiza em Spinoza no sentido de rompimento: imitil seguir os pressupostos da filosofia spino-zista se nao se percebe 0 saIto qualitativo que ela determina. A continui-dade do pensamento spinozista em rela~ao ao curso anterior da historia da metaffsica consiste numa descontinuidade radical, que exalta a utopia da consciencia e da liberdade - patrimonio do pensamento ocidental -em projeto de libera~ao. A perspectiva do mundo nao e utopia, 0 imanen-tismo nao e estetico, a libera~ao nao e mais artesanal: mas tudo isto e pres-274 Antonio Negri I 1 suposto, e basilar. Spinoza requalifica 0 problema da filosofia moderna, que e a conquista do mundo e a liberac;ao do homem, e destroi suas mul-tiplas antinomias e a sempre renascente separa~ao (dualista, transcenden-talista ... ) na teoria do conhecimento e da historia, do mesmo modo como desde sempre a critica tern destruido 0 sofisma de Zenao: caminhando, pando em movimento a realidade. A filosofia de Spinoza nasce levando ao extremo 0 paradoxo ontologico do ser: reconhecendo que a hipostase, a unica hipostase possivel, e a do mundo e do desenrolar de sua necessi-dade entre a fisica e a prarica. Uma concep~ao do mundo que produz ime-diatamente, como a partir de sua propria base, uma concep~ao da ciencia e do saber mundano inteiramente moderna: tecnica e liberatoria. Uma concepc;ao radicalmente materialista do ser e do mundo. Em nossa opiniao essa diferenc;a, representada peIo pensamento spino-zista na historia da metafisica ocidental, represenra urn altissimo ponto para o desenvolvimento teorico do pensamento moderno. Em outros term os, 0 pens'amento spinozista para nos representa uma estrategia de superac;ao das antinomias da ideologia burguesa. Mas ja que a ideologia burguesa e essencialmente anrinomica, esta supera~ao e supera~ao tout court da ideo-logia. Spinoza nos restituiu 0 ser em sua imediatez. Spinoza destroi a ho-mologia entre mediac;ao e articulac;ao do ser e media~ao e articulac;ao do poder burgues. Spinoza nos restitui 0 mundo como territorio de uma ale-gre construc;ao das necessidades imediatamente humanas 10 A diferenc;a spinozista imp6e uma reviravolta materialista da filosofia que talvez so ao nivel da pesquisa amadurecida pela crise de capitalismo tardio tenha ad-quirido urn sentido definido: aquela estrategia e atual, aquele germe desenvolveu sua potencialidade. A historia da filosofia do materialismo11 nos mostra uma corrente fundamentalmente subordinada, as vezes ate mesmo parasitaria, pelo menos no ambito do pensamento moderno e con-tempoJ;'aneo: agora, diante do pensamento spinozista e integrada por este, aquela tradi~ao fica potentemente renovada. 0 espirito inovador provem da fundamentac;ao humanista e pratica do pensamento constitutivo spino-zista 12. 0 pensamento spinozista e perfeitamente idealista quando se apre-senta como pensamento negativo, quando desenvolve a utopia burguesa vivendo-a ate as extremas conseqliencias abstratas de sua valsa espiritual; em compensa~ao, e perfeitamente materialista assim que se recomp6e de maneira construtiva, reverte a impossibilidade de urn mundo ideal em ten-sao rnaterialista de seus componentes e os engloba num projeto pratico, num dinamismo violento de liberac;ao mundana. "Benedictus maledictus": nunca foi urn fil6sofo com tanta justic;a odiado por sua epoca, burguesa e capitalista. Nunca uma filosofia foi sentida como tao diferente. Efetiva~ mente, ela atacava aquilo que a ideologia e 0 sentir comum, pi lorado pelo poder, viviam, naquele tempo, como Ihes sendo rna is proprio e substan-A Anomalia5e1vagem 275 cial. Leo Strauss anota: "Se e verdade que toda cultura que se respeita co-loca necessariamente alguma coisa da qual e absolutamente proibido rir, pode-se dizer que a vontade de transgredir eSsa proibi~ao faz parte intima da inten~ao de Maquiavel.,,13 E de Spinoza. Ele rompe de maneira mais decidida com 0 tempo hist6rico de sua filosofla. Projeta no sentido ade-quado a ruptura em dire~ao ao futuro, em dire~ao a condi~6es de pensa-mento que permitam a hegemonia do projeto de libera~ao. E entao: como essa diferen~a spinozista e construtiva, como essa nega-tividade e constitutiva! 0 entrela~amento organico desses dois motivos, na hist6ria da filosofia europeia, e fundamental. Spinoza e 0 primeiro a plas-mar esse mecanismo 16gico que a filosofia burguesa tentara, em seu desen-volvimento posterior, anular com constancia e continuidade. No kantismo, comO no idealismo classico, 0 termo de confronto e polemica permanece constantemente sendo Spinoza 14: 0 que deve ser destrufdo e justamente 0 entrela~amento da nega~ao da ideologia e da constru~ao do mundo, a ine-rencia do limite, da materialidade, ao infinito. Para todas as tradi~6es e posi~6es idealistas, 0 pensamento negativo s6 pode existir como skepsis, como pars destruens _ cuidado para nao confundi-lo com 0 projeto! 0 pensa-mento idealista quer a ingenuidade e a pureza da funda~ao: nao pode acei-tar a potente, complexa, espuria territorialidade e circula~ao e versatilida-de do ser construidas pdo pensamento negativo spinozista. 0 arnor pe1a ver-dade se dissocia no idealismo da paixao peio ser real. 0 efeito dessa opera-tamente depois, uma leitura hom61oga tambem do pensamento spinozista - e este 0 "spinozismo"! A for~osa redu~ao da metaflsica de Spinoza a uma ideologia neoplatonizante, emanacionista, reprodu~ao da imagem do esquema social burgues feita pelo Renascimento tardio. Spinoza barroco? Nao, mas se for 0 caso, neste quadro, uma figura espuria e fatigada, que refuta a crise, que repete a utopia na forma renascentista ingenua: e este 0 spinozismo20. Quando 0 idealismo chlssico retoma Spinoza, na verdade retorna (inventa?) so 0 spinozismo, uma filosofia renascentista da revolu-~ao burguesa do mercado capitalista21 ! o pensamento maduro de Spinoza e metansica da for~a produtiva que recusa a ruptura critica do mercado como episodio misrerioso e trans-cendental, que, ao contnirio, interpreta - imediatamente - a rela~ao entre tensao apropriativa e for~a produtiva como tecido de libera~ao. Materia-lista, social, coletivo. A recusa spinozista nao nega a realidade da ruptura crfrica do mercado, ate intervem na solw;ao determinada que tern ela no seculo XVII. Toma a crise como elemento do desenvolvimento da essen-cia humana, nega a utopia do mercado e afirma a desutopia do desenvol-vimento. 0 can iter coletivo da apropria~ao e primario e imediato, e ime-diatamente luta - nao separa~ao, mas sim constitui~ao. Em suma, recusa determinada da organiza~ao capitalista e burguesa da rela~ao entre for~a produtiva e apropria~ao. Mas veremos isto mais adiante, mais detalha-damente. Aqui vale mais a pena pararmos na espessura da ruptura spino-zista, na importancia teorica da centralidade da desutopia. Pois e este 0 ponto em tarno do qual se fixa uma alternativa radical e originaria do pen-samento burgues. Alternativa entre descoberta e exalta~ao teo rica da for-~a produtiva e, do outro lado, sua organiza~ao burguesa. A historia do pensamento moderno deve ser vista como problematica da nova for~a produtiva. 0 filiio ideologicamente hegemonico e aquele que e funcional para 0 desenvolvimento da burguesia: ele se dobra sobre a ideologia do mercado, na forma determinada imposta peIo novo modo de produ~ao. o problema e, como demonstramos amplamente22, a hipostase do dualismo do mercado no sistema metaflsico: de Hobbes a Rousseau, de Kant a Hegel. Este e entao a filao central da filosofia moderna: a mistifica~ao do merca-do se torna utopia do desenvolvimento. Diante dela, a ruptura spinozista - mas ja, primeiramente, a feita por Maquiavel, depois, a consagrada por Marx. A desutopia do mercado se torna neste caso afirma~ao da forr;a produtiva como terreno de liberar;ao. Nunca se insistira 0 suficiente nesta alternativa imanente e possfvel na hist6ria do pensamento ocidental: e si-nal de digniciade, tanto quanta a outra leva 0 selo da infamia. A ruptura spinozista atinge 0 cerne da mistificar;ao, toma a primeira realidade do mecanismo critico do mercado como sintoma e demonstra~ao de sua in-famia. 0 mercado e superstir;ao. Mas superstir;ao instalada para destruir 278 Antonio Negri a criatividade do homem, para criar medo COntra a fors:a produtiva, en-trave e bloqueio a liberar;ao. A espessura da ruptura spinozista nao pode-ria ser maior e mais significativa. Voltemos entao ao contetido da desutopia spinozista. Uma metafisica do ser como fisica da potencia e etica da constituir;ao. 0 trabalho de Spi-noza no desenvolvimento dessa hip6tese de pesquisa, no processo mesmo da realizar;ao de sua definir;ao, isso ja vimos. Trata-se agora de retomar a especificidade polftica desse desenvolvimento. Desutopia: ou s"eja, entre-la~amento da tendencia constitutiva e do limite determinado, crftico. Este entrelar;amento e visto por Spinoza num horizonte de absoluta imanencia. Nenhum desnivel transcendente esta anexo ao conceito de constitui~ao. Qualquer articular;ao do processo esta, entao, entregue unica e exclusiva-mente a projetualidade etica: reside numa tensao que corre Sem solu~ao de continuidade, da dimensao da fisicidade a dimensao etica. E e uma tensao construtiva de ser. Ser e nao ser se afirmam e se negam simples, discreta, imediatamente. Nao ha dialetica. 0 ser e 0 ser, 0 nao-ser e nada. Nada: famasma, superstir;a.o, fundo. Oposis:ao. Bloqueio do projeto constitutivo. Diante dele, a metaffsica do ser passa diretamente a etica e a politica. Ela tambem vive a tentar;a.o e 0 perigo do nada. Mas, justamente, para domina-10 de maneira absoluta. Na desutopia de Spinoza a centralidade do polfti-co e afirma~ao da absoluta positividade do ser. Diante de uma teoria politica hegemonica que quer 0 politico como reino da astucia e da domina~ao, Spinoza afirma 0 polftico Como "poder moderado", isto e, como cons-titui~ao determinada de consenso e organizar;ao para a liberdade coletiva. Diante de uma filosofia politica que se pretende como teoria absoluta da obrigar;a.o, Spinoza coloca no processo da imaginar;ao toda base de norma-tividade. Diante de uma ideologia que quer a organizar;ao da sociedade COmo simula~ao do mercado, Spinoza contra poe a constituir;ao da socie-dade Como trama de desenvolvimento da forr;a produtiva. A "potentia", a apropria~ao sao em Spinoza os elementos constitutivos da coletividade humana e as condir;6es de sua progressiva libera~ao. Contra 0 individua-lismo possessivo que e a marca hegemonica da filosofia do seculo XVII, Spinoza afirma a alternativa de urn processo constitutivo, nao linear, mas atual, nao teleol6gico, mas determinado e efetivo. Liberdade cujo desen-rolar constitui ser, ser cuja constitui~ao determina liberdade. Atualidade que s6 pode ser prefigurada na medida de Sua efetividade, necessidade que se coloea como efeito e medida da liberdade .. Ha quem tenha falado de urn Spinoza liberal, outros de urn Spinoza democratico. Do meSmo modo se poderia entretanto falar _ e foi feito - de urn Spinoza aristocratico ou momirquico constitucional. Ou anar-quista? Ninguem nunca 0 disse. Entretanto e de tal maneira vao tentar atribuir a figura politica de Spinoza as varias determinar;6es da teoria das A Anomalia Selva gem 279 , formas de governo e de Estado, que ate se poderia dizer Spinoza "anar-quista"! Por outro lado, nao e justamente esta a acusa~ao, "ateu" e "anar-quista", que Ihe imputam os seculos do ancien regime? Mas insensatamen-teo 0 problema da verdade nao e de formas de governo, mas de formas de libera,ao. 0 problema politico de Spinoza e 0 de dar a liberdade e a razao a imediatez das necessidades e a sua transcri~ao social e coletiva, a absolutez da potencialidade do ser. Qualquer defini,ao das formas de governo tern de se haver com a tematica da potencia do ser: mas, com isso mesmo, se dissolve. A polltica e fun~ao primaria da experiencia e do saber enquanto fixa'tao de uma rela'rao entre tensao de libera~ao e limite determinado. Mas esta rela~ao e incessantemente ultrapassada, nao por urn sistema de nega-\oes, nao por uma serie de comandos, mas por projetos de apropria\ao posteriores, plenos, materia is. A unica acumula~ao que Spinoza conhece e a da obra coletiva de libera,ao. o politico esta no cerne da metafisica spinozista e evidencia sua pro-posta alternativa em rela~ao a corrente do pensamento ocidental moder-no. Exemplifica essa alternativa metafisica do ponto de vista teorico. Mas, sobretudo, a explicita e demonstra do ponto de vista pratico. Seculos de luta das minorias oprimidas, do proletariado explorado, e de busca da Ii-berdade - e os grandes levantamentos socia is que visavam a subversao do novo sistema de domina\ao imposto pela burguesia, e 0 amadurecimento e a explosao dos antagonismos que 0 novo modo de produ~ao desenca-deou _, tudo isso pode ser reconduzido ao pensamento spinozista como a urn apice altamente expressivo. 0 politico spinozista, como fun~ao de alternativa metafisica, e uma verdadeira e propria antftese historica ao de-senvolvimento do modo de produ,ao capitalista. 0 fato de que a apropria-~ao seja aqui uma chave constitutiva, e nao a base de legitima~ao de uma norma de domina~ao, demonstra e prefigura a rela\ao real, que se consti-tui pelos seculos da historia europeia, entre experiencia teorica do huma-nismo e experiencia concreta de libera\ao. A filosofia e grande e bela, nesses caminhos da subversao do real e da sua miseria: Spinoza e seu elogi023! Voltemos entretanto a desutopia. Esta nao deve ser concebida como momento residual, ou apenas relevante dialeticamente, mesmo quando em confronto com as correntes hegemonicas e dominantes do pensamento moderno e contemporaneo! A desutopia spinozista so e revolta, rebeliao, enquanto e, antes de rna is nada, riqueza. A tensao entre limite e tendencia que a constitui, 0 impulso metafisicamente apropriativo e constitutivo que a forma, tudo isso e riqueza, e libera~ao da for~a produtiva. Poder-se-ia dizer, certamente exasperando os termos do discurso, mas desdobrando-0, mesmo assim, em sua intima racionalidade, que a for~a da desutopia se coloca para alem da propria exposi~ao da etica e da poHtica, que ela e efetivamente uma filosofia da transi~ao para uma sociedade inteiramen-280 Antonio Negri te, radicalmente constitufda sobre a liberdade! Reconhecer urn conteudo utopico na desutopia ? Muitos comentadores24 acharam que deveriam, sob varias formas, tirar essa conseqiiencia definit6ria. Quando se Ie Spinoza, a alma realmente fica inclinada para essa conclusao. Mas a inteligencia crftica nao pode aceitar a sugestao. No proprio livro V da Etica, e com efeito sempre a tensao constitutiva que leva a melhor, ainda quando a utopia ressurge de maneira vigorosa2S Com efeito, 0 impulso emancipativo do pensamento da desutopia nunca se coloca num horizonte de dispositivo hipostasiante: em caso algum. A emancipa~ao e transi~ao, nao porque intua o futuro, mas porque se enraiza no presente e 0 percorre. A emancipa~ao e uma necessidade, urn sistema ontologico de necessidades que se fazem atuais e determinam uma nova composi~ao e uma nova atualidade atra-vessando 0 real, estruturando 0 presente, constituindo aquele paradoxal e efetivo ponto de coincidencia de necessidade e possibilidade que e 0 si-nal metaffsico do ser spinozista. Potentia-appetitus-cupiditas-mens: uma pratica constitutiva forma a desutopia. A desutopia e a configura\ao teo-rica da determinidade, da fenomenologia, da pratica. Desutopia como de-termina~ao, como atualidade determinada. A emancipa~ao e a desutopia. Em outras palavras, a exuberancia e a formidaveI produtividade do ser sao pressupostos do processo emancipativo e a desutopia mostra sua poten-cia sobre esta base. 0 ser esti maduro para a liberdade. A liberdade e a felicidade, portanto, se constroem como manifesta\oes do ser. Mas esta defini~ao tam bern tern 0 perigo de ser enganosa: pois sempre, em Spino-za, a rela~ao entre expressao e dado, entre tendencia e limite, entre cria. ~ao e criatura, e tao estreita e tao vinculada as determina~6es concretas do ser que 0 simples fato de se falar ou se referir a potencia do ser enquanto tal tern 0 perigo de reintroduzir inaceitaveis dualismos ou aparencia de urn ser formal. Nao, 0 fato de que e plano e integro e 0 que demonstra a po-tencia do ser, 0 fato de que e dado e 0 que mede sua atualidade! Emanci-pa~ao e entao a conjuga~ao da atividade humana como dado e determi-na\ao. Emancipa~ao e entao organiza~ao do infinito, declara~ao da po-tencia humana como expressao determinada do indefinido. A desutopia e a forma especffica da organiza~ao do infinito. A anomalia do pensamento de Spinoza em rela\ao a sua epoca se torna entao anomalia selvagem. Selvagem porque articulada com a densi-dade e a multiplicidade de afirma,oes que surgem da extensa afabilidade do infinito. Ha em Spinoza 0 prazer de ser infinito. Que e prazer do mun-do. Quando 0 paradoxo do mundo, a ten sao nele aberta entre infinidade positiva e infinidade das determina~oes, se desenvolve em atividade e se reconhece no processo constitutivo, enta~ 0 prazer do mundo come~a a se tornar central e a anomalia se faz selvagem. Selvagem porque vincula-da a multiplicidade inexaurfvel do ser, as suas florescencias, tao vastas A Anomalia Selvagem 281 quanto cheias de movimento. 0 ser de Spinoza e selvagem e sombreado e multiplo em suas expressoes. E versatil e selvagem. Ha sempre algo de novo na ontologia spinozista. Nao so na ontologia historica que tern a ver com o desenvolvimento, mas sobretudo na ontologia essencial que, do corte longitudinal do ser, de sua profundidade, promana. Na passagem da po-tencia fisica para a cupiditas moral, para a mens. E, entao, anomalia sel-vagem como qualidade da organiza~ao do infin"ito. Como caracteristica principal daquela tensao entre infinito e determina~ao, entre tendencia e limite que constitui 0 modo de apresenta~ao da potencia do infinito. A ano-malia selvagem entao nao e apenas urn carater da colocar;ao historica do pensamento de Spinoza em sua epoca e no desenvolvimento da filosofia ocidental, nao e apenas uma qualificar;ao da riqueza de seu pensamento e de sua abertura para 0 porvir: e tambem urn momento fundamental e urn modo proprio de expressao do ser. A desutopia spinozista e prazer da ano-malia selvagem do ser. E entao muitos dos fios que tecem a filosofia de Spinoza voltam a se mostrar na superficie. Como componentes historicos, eles so formam 0 sistema de Spinoza enquanto se qualificam na atrac;ao da complexidade selvagem do sistema. Como todos os produtos de alta industria, 0 pensamento spinozista contem a complexidade de sua apare-lhagem dentro da potencia da forc;a produtiva e, sobretudo, expoe essa complexidade comO singularidade irredutivel. A desutopia e ao mesmo tempo critic~ do existente, dos componentes, e positiva, singular, constru-ponto de articula~ao fundamental da ontologia constitutiva, e organizado pela inteligencia humana. Esta e articula~ao da natureza. Da natureza ela recolhe e desenvolve a potencialidade construtiva. Quase que indistintamente, nasce a razao. A imagina~iio, essa potencia fundamental do sistema spino-zista! Esse ponto discreto e potentissimo, no qual 0 problema da filosofia do spoder, que tornam 0 poder forma cada vez mais subordinada e transito-ria diante da produtividade humana, intersubjetiva, da composi~ao ma-dura da subjetividade. E na critica da teologia que a filosofia spinozista com~a a escava~ao do desenvolvimento da subjetividade como potencia do ser, como processo de composi~6es cada vez rna is desenvolvidas. A teologia e uma teoria da aliena~ao, funcional para 0 poder: dualismo sempre como fun~ao do poder, como linha de legitima\=ao do comando, como separa,iio da rela,iio de produ,iio e da for,a produtiva. A critica teol6gi-ca (e a exegese critica da tradi~ao religiosa) dissolve as formas mistifica-das e mostra sua contingencia, sua residualidade hist6rica. Tudo 0 que e funcional para 0 poder e aos poucos dissolvido: 0 desenvolvimento da potencia subjetiva recolhe aquilo que se acumulou sobre 0 ser, aquilo que o ser produziu, historicamente, atraves e contra a mistifica\=ao, no sentido de uma maior sociabilidade humana e se reapropria disso e se requalifica na destrui\=ao da ilusao teologica. Este processo, entretanto, s6 tern urn fim quando a potencia insiste completamente sobre si mesma, sobre a propria e absoluta autonomia e produtividade. 0 tempo da apropria,iio da pri-meira e da segunda natureza s6 tern existencia real como forma da pleni-tude do ser: se tern urn antes, este e concluido no ser; se tern urn depois, este e novamente medido simplesmente pela potencia e por sua tensao. Fora de qualquer quadro finalista. Este desenrolar da produtividade natural, assim como da subjetivi-dade, em dire~ao a perfei~ao da composi~ao induz a ultima camada da problematica spinozista: a perfei\=ao, a etica da libera\=ao, seus pressupos-tos, sua potencia, suas conclusoes. Parece no entanto emergir uma contra-di\=ao aqui: a partir do horizonte ontologico e antifinalista a filosofia spino-zista, efetivamente, empurra essa problem:itica para a interioridade e a intensidade do ser. Por que? Por que uma filosofia completamente aberta no processo em dire~ao a totalidade do ser, na tensao do micro para 0 macrocosmo, ordena sua conclusao sobre a perfei\=ao subjetiva? Se a per-gunta e legftima, a resposta nao e menos clara, e exclui toda contradi\=ao. Se ha limite, este e antes historico que teorico. A subjetividade em dire~ao a qual se volta a medita~ao spinozista e na verdade 0 limite atual da desu-topia etica e politica. Nao h:i nela nada de intimista, de individual, de mistico. Nao h:i nada nela que derrogue a continuidade do ser e sua expan-sividade. 0 sujeito e 0 ponto sobre 0 qual, na figura individual ou coleti-va, a for~a produtiva do ser se mostra como identidade com a constitui-,ao das figuras do ser. 0 sujeito e 0 lugar ontol6gico da determina,iio. E portanto da emancipa~ao. 0 quadro metafisico inteiro se realiza nesta intensidade. 1:i que nao h:i nada de imovel nessa sintese final: ha antes a atua~ao da libera~ao - que se faz densa, pesacia, e no entanto sempre aberta, cada vez mais perfeita. E no fio da subjetividade realizada que 286 Antonio Negri .... colhemos a mais alta perfei~ao metafisica. Colhemo-Ia como satisfa\=ao de uma produemancipa~ao, transi~ao. 0 tempo e ontologia. Constitui~ao interna a pro-dw;ao, prodw;ao como liberdade. A metafisica spinozista da prodw;ao define no terreno teo rico as condiE claro que, quando se atribui a Spinoza uma atividade especulativa implicando uma atitude polemica contra a ciencia moderna, efetua-se uma reflexao de segundo grau sobre seu pensamento. Mas e importante faze-Io, se for verdade que urn dos objetivos essen-ciais de uma renovao;ao dos trabalhos sobre a historia do pensamento moderno e de aca-bar com a ideia de desenvolvimento univoco, para captar as alternativas possiveis nele inscritos. Nessa obra, assim como anteriormente em nosso Descartes politico, procura-mos por essa ideia em pritica a proposito do desenvolvimento do pensamento politico da modernidade: seria preciso fazer a mesma coisa para 0 pensamento cientifico como tal. Para uma pesquisa desse tipo, Feyerabend e urn autor extremamente estimulante. 8 Seria necessario rever inteiramente todo 0 pensamento moderno, 0 pensamento da genese do capitalismo, do ponto de vista da crise do capitalismo. 0 trabalho de iden-tificao;ao da sintese particular imposta pelo desenvolvimento capitalista a seus componentes geneticos nao conseguiria reduzir tudo a urn puro esquema funcional (como, por exem-plo, no livro, por outro lade muito importante, de Borkenau sobre a genese do pensa-mento da manufatura). 0 desenvolvimento esta hoje completado, a crise do capitalismo esra madura: nao estamos mais no meio das nuvens, verno-las a disrancia, na diversidade de suas formas. t preciso reunir a alternativa posslvel, pelo menos na medida em que ela se apresentava como revolucionaria, e 0 pensamento teorico emitido do ponto de vista da crise. Penso que A. SOHN-RETHEL, Geistige und koperliche Arbeit. Zur Theorie der gesellschaftlichen Synthesis, Frandorte, 1970, as vezes 0 consegue. tum modele util. 9 Permito-me destacar aqui a importancia de tal modelo de pensamento filosOfi-co na historia do pensamento revolucionario, remetendo para mais detalhes a meu Marx au-dela de Marx, trad. fr., Paris 1979. 10 Autores como S. Zac e G. Deleuze, em perspectivas diversas, remetem explici-tamente a essa ideia de filosofia das necessidades como tecido de uma parte, ao menos (e na~ desprezlvel), do pensamento de Spinoza. 0 que esra diretamente no sentido do pensamento de H. Marcuse e A. Heller. 11 So posso remeter aqui a velha obra de LANGE, Geschichte der Materialismus, nos limites de sua sintese de positivismo e de neokantismo. tum fato, nao existe Histo-ria do materialismo! Donde talvez seu duplo carater de subordinao;ao nos Tempos Mo-dernos: ao desenvolvimento da grande e sublime filosofia, por urn lado, a hist6ria das ciencias por outr~. Enquanto dispomos agora de grandes trabalhos sobre as grandes fi-guras do materialismo antigo (Dem6crito, Epicuro ... ), na~ se pode dizer 0 mesmo para a modernidade. 12 Sobre a origem pratica do humanismo e suas metamorfoses no quadro do spinozismo (e sobre a dimensao transformadora que recebe dele), d. M. RUBEL, Marx a la rencontre de Spinoza, cit. Mas ver tam bern as belas intuio;6es de R. MONDOLFO, "II concetto marxistico della 'umwalsende Praxis' e suoi germi in Bruno e Spinoza", in Fetschrisft fuer Carl Grinberg, Leipzig, 1932. 13 L. STRAUSS, Pensees sur Machiavel, Paris, 1979. 14 Sobre as relao;6es Spinoza-idealismo classico, d. os Texte zur Entwicklung des Spinozismus, org. de N. ALTWICKER, cit. 15 Apesar das muitas obras sobre este ou aquele autor, a literatura referente a esse momento extremamente importante da filosofia moderna nao e, que eu saiba, bastante esclarecedora, bastante precisa. Na verdade, a significao;ao historica global do Renas-cimento neoplatonico foi mais percebida na hist6ria das ciencias (Koyre, etc.) que na historia da teoria poHtica e da ciencia econ6mica. Lacuna que deve ser rapidamente sa-nada, e evidente. Sobre More, sobre suas relao;6es com Descartes e, de maneira mais geral, com a filosofia continental, d. meu Descartes politico. Urn eventual trabalho sobre 0 290 Antonio Negri neoplatonismo nas origens cia civiliza~ao industrial deveria, naturalmente, cuidar tam. bern das filosofias pos-cartesianas, de tendencia fortemente espiritualista. J6 0 pensamento mecanicista foi muiro estudado. De urn lado a obra importantfssi-rna de Borkenau, de outro a de Lenoble. Embora seus respectivos POntos de partida e meto-dologias sejam inreiramente divergentes, eles chegam a conclusOes singularmente univocas. 17 Ver meu artigo "Problemi dello Stato moderno" in Rivista critica di storia della filosofia, 1967, no qual apresento as teses essenciais referentes a reorganizao;ao absolu-tista do Estado e suas ligao;6es Com os diversos aspectos da filosofia do se.culo XVII. 18 Sobre a ideia de mercado, permitome remeter mais urn vez ao Adam Smith, de Carlo BENETTI, Milao, Isedi, 1979. E nesse quadro que se deve entender a tentativa exacerbada de reintroduzir 0 dualismo no conjunto do pensamento spinozista. 0 melhor exemplo de tal abordagem e 0 de F. Alquie, que quer ler 0 tema "idea" _ "idea idearum" em termos idealistas e espiritualistas, como duplicao;ao entre gnoseologia e ontologia. 19 Cf. Jon ELSTER, Leibniz et fa formation de l'esprit capitafiste, Paris, 1979. 20 T entemos, por exemplo, imaginar a reao;ao de Descartes diante da filosofia de Spinoza. Em minha opiniao, ele teria visro nela urn ressurgimento das teorias que ele mesmo havia combatido sem tregua (d. Gouhier), as dos pensadores do Renascimento. E rna is do que provavel que tivesse aplainado Spinoza sobre Lulie ou sobre More. Na historia das interpreta~6es de Spinoza, tais leituras sao corriqueiras. 21 Nao ha duvida de que 0 spinozismo visto por Hegel e uma filosofia ut6pica do capitalismo. Objetivismo do ser e inicio da dialetica da negao;ao: Spinoza IE definido Como 0 fil6sofo da utopia da produ~ao e como 0 primeiro autor capaz de pensar 0 rit-mo critico do desenvolvimento da produo;ao. Hegel se prepara para completar filosofi-camente, para levar ao absoluto esse primeiro esboPOSFAcIO PARA A EDIEssa dire~ao de pesquisa esta clara no TP. Eis alguns exemplos disso, entre outros. Nos primeiros capitulos do TP Spinoza insiste no conceito de uma "multitudo que e conduzida como que por uma so alma". 0 que e ao mesmo tempo fundamento do politico e da democracia. No cap. V 0 poder politico, criado por uma "multitudo livre", e 0 tempo todo considerado como condi~ao ou efeito do melhor regime. No TP VI 4, a paz e a conc6rdia, objetivos de qualquer Republica, sao concebidas como expressao da uni-dade das almas: quando, ao contrario, a paz se da sob forma de servidao, portanto fora da democracia, ela ja nao e urn bern que se pode usufruir. No cap. VII 5, a superioridade do regime democratico e mostrada pelo fato de que I'sua virtude e maior em tempo de paz", ou seja, como tensao de socia-liza,ao e de civiliza,ao simplesmente. No VIII 5 0 direito a democracia e considerado "de certo modo inato". Em VIII 12 (como em VIII 14), final-mente 0 carater radicalmente estrutural e originario da democracia e afir-mado contra todo desenvolvimento e prevarica~ao (seja ela aristocratica ou monarquica) como a propria chave de uma defini~ao do politico. 3. Temos enta~ dois sentidos de "omnino absolutum". No entanto, assim que voltamos a dinamica metaHsica que rege as defini~6es anterio-res do termo, podemos perceber urn terceiro. DentrO desse quadro, "abso-lutum" e definido como algo que se recusa a ficar separado, a se definir com "imperium in imperio" (na polemica contra os Estoicos do TP cap. VI, ou melhor, e definido como algo que se recusa a ser 0 produto de "von-tade liberada de qualquer lei" na tomada de posi~ao contra a oligarquia do TP XI 2). Nem separado nem liberado, "absolutum", ao contrario, e uma totalidade dinamica, urn tarnar-se livre - portanto 0 alargamento da potencia do ser atraves da existencia politi ca. A defini,ao de "abso-lutum" (e a acentua~ao "omnino") torna-se aqui positiva porque ela de-senvolv'e e interpreta, no coletivo, a rela~ao potentia-cupiditas, voluntas-mens, necessidade-liberdade. "Agir por virtude absolutamente nao e Ou-tra coisa em nos senao agir, viver, conservar seu ser (essas tres palavras significam a mesma coisa) sob a condu~ao da Razao, segundo 0 prindpio de que devemos precurar 0 util que nos e proprio" (Etica IV 24). "A 'vir-tude' entao e absoluta". "Omnino absoluta" e a virtude coletiva, a demo-cracia. Temos assim uma imagem extraordinaria da democracia, como forma de governo suprema, capaz de exprimir a potencia e a virtude des-teo Quando 0 politico e levado a dinamica da potentia e da virtus, e os regimes politicos sao interpretados na base do carater metafisico radical que interpretam, a democracia e a forma mais perfeita de socializaplicada no terreno da praxis. A experiencia da morte e decisiva na determi-nar;ao de urn deslocamento de ordem ontologica da argumentar;ao. Quando a eternidade se opee a morte, a liberdade e mostrada como a experiencia de "tarnar-se eterno". Etica IV 67: "0 homem livre nao pensa em coisa alguma menos do que na morte, e sua sabedoria e uma meditar;ao, nao da morte, mas da vida". "Ha uma oposir;ao da eternidade e da morte que se tarna urn processo, uma tensao, urn desejo que se desenvolve". "Se os homens nascessem livres, eles nao formariam nenhum conceito do bern e do mal, todo 0 tempo em que fossem livres" (Etica VI 68). A experiencia da morte desloca a existencia para alem da regra antagonista que ate aqui animara 0 mecanisme das paixoes. 0 movirnenta anunciado pela Propo-si"ao 41 da Parte IV da Etica, quando a alegria e definida diretamente como boa e a tristeza diretamente como rna, numa argumentar;ao que (como veremos adiante) ja inclui 0 tema da morte (IV 39) e da sociedade (IV 40), encontra aqui sua afirmar;ao definitiva. As condir;oes metafisicas estao assim dadas para a experiencia de tarnar-se eterno. E na perspectiva da eterni-dade que ultrapassamos as resistencias e os obsraculos (a morte os rcpresen-ta) que a potencia e a virtude, portanto 0 desejo, encontram pela frente. Notarnos portanto aqui - e e conveniente insistir nisso - urn entre-lar;amenta singular. Tres temas organizam a maquina ontologica e deslo-cam seu nivel de produr;ao: a experiencia crftica da morte; a "Cupiditas" que introduz, sern nenhurn excesso, a uma certa especie de eternidade; e a ideia da socializar;ao politica (ou antes da democracia). Os tres temas se entrelar;am estreitamente: a experiencia cia morte, como experiencia de urn limite absoluto negativo, realr;a da eternidade 0 movimento do desejo; e essa luz da eternidade se reflete sobre a socializar;ao politica, sobre a democra-cia como horizonte de "multitudo", contra 0 conjunta das resisrencias e obs-taculos que a solidao, a guerra e 0 poder colocarn para 0 desejo de comu-nidade. Assim ocorre na Parte IV da Etica. Na Parte V 0 mesmo movimen-ta ontologico se repete e se intensifica. Da Proposi~ao 38 a Proposir;ao 41 (Etica V) podemos acompanhar 0 entrela"amen\o dos tres mesmos temas e a progressao das conseqiiencias ontologicas que disso resultam. No Escolio da Proposir;ao 38 pretende-se que a morte seja "tanto menos nociva quanto maior seja 0 conhecimento claro e distinto que tern o espirito, e conseqiientemente quanta mais 0 espirito arne a Deus" . Na Proposi~ao 39 "quem tern urn corpo apto para 0 maior numero de a~oes, tern urn espirito cuja maior parte e eterna". o Corolario da proposi~ao 40 e 0 Escolio da mesma Proposi~ao in-sistem no fato de que a atividade e a perfei~ao da Alma a arrancam a morte e a tomam eterna. Na Proposi~ao 41 a adequa~ao da atividade gnoseologica e da capacidade fisica para a eternidade e projetada no terreno socio-po-litico _ segundo a argumenta~ao tipica de Spinoza, que faz com que a 296 Antonio Negri atividade e a perfei"iio do existente (corpo e espirito) se multipliquem quando se desenvolvem na pluralidade, na sociedade. Aqui "Pietas" e Religiao nao sao mais do que 0 vinculo social de uma conduta pratica racional e a Coragem (Animositas) e a Generosidade sao as virtudes que interpretam 0 amor no social. Mas tudo isso nao e suficiente. Ate aqui apreendemos a causa for-mal da experiencia de "tornar-se eterno" na democracia, sua causa mate-rial ainda nao. Para nos aproximarrnos desse momento, temoS'de anali-sar as Proposi~oes que acabamos de estudar em outra ordem. Voltemos entao a Proposir;ao 39 da Parte V. A experiencia da morte, diz-nos Spino-za, deu-se sob 0 signo da contradi~ao extrema em relac;ao a formar;ao da "Cupiditas" que nao tern excesso, em relar;ao a Alegria diretamente boa, e a constitui~ao democrarica do politico. Ora, essa contradi~ao determi-na efeitos ontologicos. A contradi~ao determina uma mutar;ao, uma me-tamorfose. A morte portanto nos e dada aqui como metamorfose, numa perfeita coerencia com 0 que ele disse no conjunto da Etica a respeito da "mutatio": ver especialmente I, 33, Escolio II; Lema 4, 5, 6, 7; III, Postu-lado 7; III, II, Esc6lio; IV,"4 e Demonstra"ao; VI 39 Esc6lio; IV, Apendice cap. 7, Axioma. A morte consiste numa metamorfose que termina pela destrui~ao da proporr;ao na qual se comp6em os diversos movimentos que constituem 0 corpo. Ora, a morte e uma rna meramorfose: ela destroi a harmonia das partes do corpo, inscreve-se nos movimentos de uma ma-neira rna, e negatividade -limite de negatividade. Mas 0 real tambem com-preende outra coisa; no Escolio IV 39 e perguntado se existem boas meta-morfoses, muta~6es tao radicais quanto as trazidas pela morte, mas desti-nadas a determinar estados superiores da relar;ao entre movimentos, me-tamorfoses da conservar;ao do corpo e de maturar;ao da Cupiditas. A res-posta nao nos e dada. Spinoza nao desenvolve inteiramente 0 argumento para nao incentivar as superstir;oes. Promete que voltara aD assunto na Parte V. A remissao a Parte V nao elimina 0 fato de que a problematica vai-se encorpando em torno da alternativa entre uma metamorfose/destruir;ao e uma metamorfose/constituir;ao. Imediatamente, na Proposic;ao seguinte (IV 40), por exemplo, 0 con-ceito de corpo e reconsiderado numa projer;ao politica: 0 corpo social, como o individual, conhece a vida da concordia e a morte da discordia, a posi-tivo e 0 negativo da mutac;ao. Na Proposi"ao que se segue (IV 41) explode finalmente a ruptura da dialetica naturalista das paixoes. "A aIegria nao e diretamente rna, porem boa; a tristeza, ao contrario, e diretamente rna". A servidao human a ma-terialmente superada, materialmente porque a metamorfose que rege a li-berdade e diretamente boa. A perspectiva da liberar;ao se abre, a partir dai, sem ter que acertar contas com uma dialetica das paixoes que se tornou A Anomalia" Selvagem 297" rna. A "Cupiditas que nao tern excesso (da Proposi,ao 61 da Parte IV) esta aqui pre-constitufda. Assim como estao pre-constitufdas as condiBIBLIOGRAFIA DO AUTOR Saggi sullo storicismo tedesco. Dilthey e Meinecke, MiHio, Feltrinelli, 1958. Stato e diritto nel giovane Hegel. Studio sulfa genesi illuministica della filosofia giuridica e ploitica di Hegel, Padua, Cedam, 1958. . Aile origin; del formalismo giuridico. Studio sui prolema della formain Kant e net gluristi kantiani tra i11789 e ;11802, Padua, Cedam, 1962. Descartes politico 0 della ragionevole ideologia, Milao, Feltrinelli, 1972. Enciclopedia Feltrinelli-Fischer, Scienza Politica I (Stato e Politica), Milao, Feltrinelli, 1972. Opera; e Stato. Fra rivoluzione d'ottobre e New Deal, Mila:o, 1972. Partito operaia contro illavoro, in Crisi e organiZZQzione operai, Mililo, Feltrinelli, 1974. Crisi della Stata-piano. Comunismo e organizzazione rivoluzionaria, Miliio, Feltrinelli, 1974. Profetari e Sato. Per una discussione su autonomia operaia e compromesso storico, Miliio, Feltrinelli, 1976. La fabbrica della strategia. 33 fezioni su Lenin, Padua, Cleup, 1976. La forma Stato. Per la critica dell'economia politica della costituzione, Miliio, Feltrinelli, 1977. La filosofia tedesca fra i due secoli: neokantismo, fenomenologia, esistenziafismo, in M. DAL PRA, Storia della filosofia, Miliio, Vallardi, 1978. 11 dominio e il sabotaggio. SuI metodo marxista della trasformazione sociale, Miliio, Feltrinelli.1978. Dell'operaio-massa all'operaio sociale. Intervista sull'operaismo a cura di Paolo Pozzi e Roberta Tommassini, Miliio, Multiphla, 1979. Marx oltre Marx. Quaderno di lavoro sui Grundrisse, Miliio, Feltrinelli, 1979. Politica di classe. II motore e la forma. Le cinque campagne oggi, Miliio, Macchina libri, 1980. II comunismo e la guerra, Miliio, Feltrinelli, 1980. L' anomalia se/vaggia. Saggio su potere e potenza in Baruch Spinoza, Miliio, Feltrinelli, 1981. Macchina Tempo. Rompicapi, liberazione, costituzione, Miliio, Feltrinelli, 1982. Pipe-line. Lettere da Rebibbia, Turim, Einaudi, 1983. Italie rouge et noire, Paris, Hachette, 1984. Les noveaux espaces de liberte, Paris, Bedoux, 1985 (com F. Guattari). Fabbriche def soggetto, Livorno-Massa. Secolo XXI, 1987. Lenta Ginestra. Saggio sull'ontologia di Leopardi, Miliio, SugarCo., 1987. The Politics of Subversion. A Manifesto for the twenty-first century, Cambridge, Polity Press, 1989. I1lavoro di Giobbe. II famoso testo biblico come parabola delfavoror umano, Miliio, SugarCo., 1990. Arte e multitudo. Sette lettere del dicembre di 1988, Miliio, Giancarlo Politi, 1990. Spinoza sovversivo. Variazioni (in)attuali, Roma, Antonio Pellicani Editore, 1992. Teoria del potere costituente, Milao, SugarCo., 1992. capa.pdfnegri

Recommended

View more >