7. Era uma vez... O re-contar de uma histria

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    07-Jan-2017

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    Era uma vez...

    O re-contar de uma histria1

    Naisa Carla Martins Santos2 Thas Botelho Corra3

    Era uma vez...

    Assim comea uma histria de contos de fadas. Assim comea a histria de

    muitos meninos e meninas que transitam entre o desejo de pertencer a uma famlia e

    a realidade de viver numa instituio de acolhimento. Desejo este que, por vezes,

    permeado por um turbilho de emoes e sentimentos que geram na criana

    dificuldades em compreend-los, express-los e nome-los. Assim, precisam do auxlio

    de um adulto que empaticamente consiga oferecer-lhes ateno de qualidade para,

    ento, organizarem suas inquietaes.

    Quando inserida em contexto familiar, a criana constantemente resgata

    sua histria por meio da memria dos seus parentes - me, pai, irmos mais velhos,

    tios, avs. H, ainda, registros documentais, fotografias, objetos significativos que, de

    alguma maneira, revelam a biografia daquele grupo. Conforme Cardoso, coisas que

    so do meu lugar, dizem que eu sou daquele lugar. (Informao verbal)4.

    A realidade de crianas e adolescentes vinculados s instituies de

    acolhimento, diferentemente, repleta de lacunas. A criana dificilmente tem a

    possibilidade do resgate oral, pois grande a rotatividade de funcionrios, e os

    vnculos com os adultos, por vezes, so frgeis. Tambm percebida uma ausncia de

    objetos pessoais significativos e espaos individualizados, tudo de todos,

    caractersticas que acabam por inibir o autoconhecimento e a percepo de si mesmo

    perante os outros.

    No caso da adoo internacional, cria-se um abismo ainda maior. Isto

    porque no somente os espaos geogrficos sero outros, mas a cultura e a prpria

    lngua sero distintas das at ento utilizadas nos contextos sociais de pertencimento.

    1 Artigo produzido em outubro de 2013 e publicado, no site www.tjdft.jus.br, em 2013.

    2 Servidora do TJDFT, graduada em Servio Social pela Universidade de Braslia. Especialista em Educao Ambiental

    pelo Servio Nacional de Aprendizagem Comercial - SENAC. 3 Servidora do TJDFT, graduada em Servio Social pela Universidade de Braslia. Especialista em Violncia Domstica

    contra Crianas e Adolescentes pela Universidade de So Paulo - USP. 4 CARDOSO, Edson Lopes. As responsabilidades Coletivas no enfretamento ao Racismo. Braslia, DF, 1 ago. 2013.

    Oficina ministrada aos servidores do Tribunal de Justia do Distrito Federal e dos Territrios TJDFT.

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    Trata-se de crianas e adolescentes que nasceram no Brasil, apreenderam

    manifestaes e costumes populares regionais e tambm nacionais, nasceram em uma

    determinada famlia, inserida em contexto social especfico, vivenciaram uma histria

    de rompimentos de vnculos significativos, mas que tambm trazem experincias

    positivas e alegres, afetos e sonhos, sendo tudo isto pertencente ao repertrio de suas

    vidas e constituintes daquele ser - nico e coletivo.

    Assim, o presente artigo se prope a socializar a metodologia de

    interveno da Comisso Distrital Judiciria de Adoo CDJA: a apresentao do livro

    narrativo da histria de vida de crianas e adolescentes em processo de preparao5

    para a insero em famlias substitutas estrangeiras. Isto porque se acredita que

    proporcionar o registro da histria desses meninos e meninas garantir-lhes, de certa

    forma, a preservao da prpria identidade.

    Desde cedo, a criana tem uma histria para contar ou a necessidade de que a contemos para ela. Todas tm uma origem, pertencem a uma famlia e a um grupo social e cultural. O conhecimento, a possibilidade de atribuir outros significados e compreender sua histria so fundamentais para a formao da identidade e para um desenvolvimento psquico saudvel (LOPEZ, p. 12, 2008).

    Iniciada em 2012, a citada metodologia apresentou resultados satisfatrios

    junto ao pblico atendido, de modo que j so quatro livros produzidos desde ento.

    O artigo desenvolve, ainda, uma reflexo a partir do dilogo com os

    autores que trabalham com os temas o valor teraputico dos contos infantis e a

    adoo, de maneira a demonstrar as potencialidades desta metodologia que oferece

    o livro como instrumento que autoriza as crianas e adolescentes adotados a

    transitarem livremente entre o passado, presente e o futuro.

    5 Trata-se do perodo que antecede a chegada da famlia estrangeira para o incio do estgio de convivncia. A

    preparao contempla vrias etapas, as quais esto descritas no texto Metodologia de Interveno no processo de Preparao para a Adoo Internacional a prtica da Comisso Distrital Judiciria de Adoo CDJA, escrito por Souza e Corra e disponvel no site http://www.tjdft.jus.br/acesso-rapido/acoes/comissao-de-adocao-proma/textos.

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    O surgimento da metodologia

    A produo do livro infantil baseado na histria de vida das crianas

    atendidas nesta Comisso foi resultado da necessidade demandada por um grupo de

    quatro irmos, com idades entre treze e seis anos, que demonstrava dificuldade em

    verbalizar suas emoes e sentimentos, ao mesmo tempo em que trazia dados de

    baixa auto-estima familiar. Tratava-se de uma difcil histria de vida: famlia moradora

    de rua, vinculada ao mercado informal de trabalho, com prole numerosa, histrico de

    violncia, uso de drogas, entre outros.

    Nesse sentido, a equipe props a construo da histria dos irmos em

    formato dos contos infantis, de maneira a revelar as vivncias do grupo e, assim,

    favorecer a expresso de sentimentos e o dilogo acerca dos fatos narrados, alm de

    proporcionar-lhes uma releitura da histria passada e auxili-los na projeo do futuro:

    adoo e mudana de pas.

    Destaca-se que a situao de rua relatada pelo grupo era carregada de

    elementos ldicos e de prazer ocasionados pela sensao de liberdade do contexto.

    Contudo, havia a clareza por parte dos irmos da inadequao do espao para o

    desenvolvimento saudvel de uma criana. Abaixo segue a parte inicial da citada

    histria.

    Era uma vez uma grande famlia. Tinha um pai, uma me e cinco filhos, trs meninos e duas meninas. Aconteceu que, um dia, essa famlia no tinha mais casa para morar e comeou a dormir na rua. Os filhos passavam o dia correndo pra l e pra c. Brincavam, comiam coisas gostosas e at ganhavam um dinheirinho nas ruas, mas eles sabiam que aquilo no era bom. As crianas precisam estudar, dormir em lugar quentinho, comer na hora certa... Assim, a me e os filhos acabaram sendo separados. Todos ficaram muito tristes. A me queria os filhos por perto. Os filhos queriam o colo da me. 6

    Construda a narrativa, os tcnicos julgaram que a histria poderia receber

    o formato de um livro, letras especiais e desenhos para ilustrar as passagens, visto as

    caractersticas impressas no texto e a suavidade com que revelava os fatos. Assim,

    surgiu o primeiro livrinho da equipe, o qual foi entregue para cada irmo. Aps o incio

    do estgio de convivncia com os dois casais estrangeiros, tendo cada casal acolhido

    6 Uma histria pra contar (2012), livro produzido pela CDJA para um grupo de quatro irmos.

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    uma dupla de irmos, eles solicitaram a traduo do livro para o italiano, de maneira a

    preservar o que consideraram um verdadeiro presente para os filhos.

    Devido receptividade das famlias e repercusso do trabalho

    desenvolvido, a experincia foi reproduzida com outros grupos de crianas, tornando

    esta iniciativa parte integrante da metodologia de preparao das crianas e

    adolescentes para a adoo internacional.

    Importante citar que a ao, inicialmente, foi inspirada na proposta do

    Instituto Fazendo Histria7, o qual lida com crianas e adolescentes vinculados

    medida protetiva de acolhimento institucional e desenvolve projeto com o objetivo de

    proporcionar meios de expresso e registro das vrias histrias do pblico atendido.

    No decorrer do trabalho, so confeccionados lbuns com textos, fotos e desenhos

    onde a prpria criana ou adolescente, com o auxlio do colaborador, ir registrar sua

    histria de vida.

    A idia norteadora do projeto garantir que a criana, ao sair do abrigo,

    tenha a memria de dados importantes, como a sua trajetria familiar, o tempo de

    abrigamento, suas relaes de amizade, desenvolvimento e outros. Para tal, propicia-

    se espao para a construo de uma relao de confiana e respeito entre a criana e o

    colaborador, de modo a possibilitar condies suficientes para o compartilhamento e

    posterior registro dos eventos considerados importantes.

    Conforme assinala Lopez (2008):

    Todas as pessoas tm uma histria nica e singular. Poder conhec-la, preserv-la e cont-la , portanto, fortalecer quem voc , quem quer ser e qual a sua trajetria e lugar no mundo. Todo ser humano protagonista da sua vida e ter a oportunidade de se apropriar da autoria da sua histria significa construir subjetividade (p. 29).

    A literatura infantil, nesse contexto, um importante aliado, pois desperta

    a criana para outra forma de expresso - a artstica, oferecendo elementos e

    estmulos diversos que favorecem a produo do seu prprio livro, alm de promover

    o conhecimento cultural, a prtica da leitura e da escrita, ferramentas importantes

    para a autonomia do sujeito.

    7 Consultar o site www.fazendohistoria.org.br.

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    O dilogo entre a fantasia e a realidade

    O uso de histrias infantis enquanto instrumento de interveno junto ao

    pblico infanto-juvenil bastante referendado por diversos autores.

    Lemos e Silva (2012) apresentam estudo que alia a arte de contar histria

    com o processo curativo no enfrentamento de males fsicos e mentais na rea mdica.

    O paciente incentivado ao exerccio de contar e o mdico na sua reeducao de

    ouvir, ao necessria para a construo de uma boa anamnese mdica e exame

    clnico, os quais implicam no sucesso do diagnstico.

    As autoras afirmam:

    A relao que existe entre as tramas pessoais e as tramas literrias fonte de verdades curativas. Verdades essas que tecem elo com o ritual do contar. Assim, monstros, fadas, cavernas, obstculos, desfechos seguem tecendo ressignificaes com a identidade de cada um que ouve e que tambm conta... ouvir histrias, portanto, ajuda na confrontao de problemas e na busca por suas respectivas solues, pois a fantasia o nosso combustvel interno (LEMOS; SILVA, p. 11, 2012).

    O referido estudo cita, ainda, o programa A Arte na Medicina s vezes

    cura, de vez em quando alivia, mas sempre consola, da Faculdade de Cincias

    Mdicas da Universidade de Pernambuco (UPE), o qual, inclusive, publicou histrias

    escritas por crianas em tratamento no setor de cardiopatia e oncologia do Hospital

    Universitrio Oswaldo Cruz.

    Na rea educacional, Molina e Pieri [2010?] escreveram sobre o uso das

    histrias infantis enquanto recurso psicopedaggico, pois estimula e promove os

    vrios aspectos do desenvolvimento infantil e, ainda, possibilita a compreenso e

    interpretao de si mesmo e da realidade. As autoras destacam no artigo que a

    histria infantil :

    Uma forma fantstica de falar das emoes e dos sentimentos que pode ser com espontaneidade, sem tirar a liberdade ou forar a criana a falar. Uma histria bem contada, bem dinmica, incentiva as crianas a falar sobre seus sentimentos, conseguindo compreender melhor os conceitos como: alegria, medo, tristeza, raiva, cimes (p. 5, [2010?]).

  • 6

    A histria infantil torna-se um importante canal de esvaziamento a favor da

    criana, um recurso rico em potencialidades. Traz benefcios medida que possibilita a

    reflexo de situaes conflituosas e, ao mesmo tempo, oferece caminhos, maneiras de

    agir e se comportar em meio s dificuldades que tambm so compartilhadas por

    outras pessoas ou seres. Isto respeitando a devida distncia8 de segurana que pode

    ser, ou no, requerida pela criana ou adolescente. O cuidado de no identificar

    diretamente a criana e o problema no sentido de no causar vergonha ou

    constrangimento, o que afetaria negativamente o vnculo construdo entre o contador

    e o ouvinte.

    Devido a pouca idade, o repertrio lingustico da criana bastante restrito

    e, ao mesmo tempo, traduzir em palavras os sentimentos ou as situaes vivenciadas

    que ocasionaram confuso no seu interior pode ser um exerccio muito difcil e at

    impossvel. Contudo, preciso dar vazo aos sentimentos difceis ou intensos demais,

    preciso pensar sobre eles, destinar-lhes ateno, compreend-los para, ento,

    administr-los. Caso contrrio, pode haver prejuzos nos relacionamentos que sero

    estabelecidos ao longo da vida. Utilizando a metfora de Sunderland, os conflitos

    internos precisam ser digeridos, da mesma forma que se faz com o alimento:

    Infelizmente poucos adultos tm a noo de que os sentimentos dolorosos ou difceis tm que ser digeridos e trabalhados at o fim, exatamente como a comida! Com isso, as crianas acabam sozinhas na tentativa de enfrent-los. Essa tentativa muitas vezes resulta em fracasso, causando muito sofrimento desnecessrio para elas e para as pessoas que lhes so prximas (SUNDERLAND, p. 11, 2005).

    Os contos de fadas autorizam que a criana se movimente entre a fantasia

    tudo mentira, apenas uma histria e a realidade verdade, assim que uma

    pessoa age e reage, favorecendo seu desenvolvimento conforme sua prpria

    capacidade e maturidade para assimilar as mensagens que lhes so passadas por meio

    dos personagens e suas sagas. Os contos de fada tambm possibilitam a identificao e

    projeo com os personagens, pois, geralmente, no utilizam nomes prprios, mas

    caractersticas dos protagonistas (chapeuzinho vermelho, borralheira, rei ou rainha...)

    8 A distncia referida diz respeito ao uso de metforas e personagens imaginrios ou personificados, como animais ou plantas, de tal maneira que a criana ou adolescente poder se reconhecer na histria, mas discutir o conflito por meio do outro, do personagem. Sobre a temtica, ler Sunderland (2005).

  • 7

    de maneira a tornar genrica aquela histria. O enredo fala de cada homem e de

    pessoas parecidas conosco (BETTELHEIM, 1979).

    Novamente citando Sunderland, quando esta enaltece o uso das histrias

    na abordagem com crianas, ela afirma que:

    O uso da histria reconhece que limitado falar sobre sentimentos com crianas na linguagem cotidiana. A histria fala s crianas num nvel muito mais profundo e imediato do que a linguagem literal cotidiana. Falar sobre sentimentos na linguagem cotidiana como andar em crculos. Isso acontece porque a linguagem cotidiana a linguagem do pensamento, enquanto falar por meio de histria, fazer uma encenao com bonecos ou fantoches, representar o que voc quer dizer com barro, com uma pintura ou uma cena na caixa de areia usar a linguagem da imaginao. Essa a linguagem natural da criana (SUNDERLAND, p. 18-19, 2005).

    Quando a histria desperta interesse, adquire significado para aquele

    momento especfico da vida, a criana reage emocionalmente e sinaliza que aquela

    narrativa tornou-se importante para ela. Ao facilitador, o leitor, provavelmente um

    adulto, cabe a funo de estar atento a tais indicaes de maneira a possibilitar o

    contato da criana com a histria de acordo com sua demanda: Conta outra vez! ou

    substitu-la por outra que detenha maior identificao com o ouvinte.

    Conforme adverte Bettelheim (1979), mesmo que haja a compreenso do

    adulto quanto s razes que impulsionaram a criana na eleio desta ou daquela

    histria, este jamais dever interpretar ou explicar para o ouvinte por que um conto

    to cativante para ele, pois h o risco de se perder o potencial teraputico da

    narrativa.

    As interpretaes adultas, por mais corretas que sejam, roubam da criana a oportunidade de sentir que ela, por sua prpria conta, atravs de repetidas audies e de ruminar acerca da estria, enfrentou com xito uma situao difcil. Ns crescemos, encontramos sentido na vida e segurana em ns mesmos por termos entendido e resolvido problemas pessoais por nossa conta, e no por eles nos terem sido explicados por outros (p. 27, 1979).

    Assim, no qualquer histria que ir despertar a ateno da criana ou

    jovem. preciso aguar a curiosidade, estimular a imaginao, ampliar seu intelecto,

    clarificar suas emoes, estar em sintonia com as ansiedades e desejos, reconhecer

    suas dificuldades e, tambm, sugerir solues. Deve de uma s vez relacionar-se com

  • 8

    todos os aspectos de sua personalidade... promovendo a confiana nela mesma e no

    seu futuro (BETTELHEIM, p. 13, 1979).

    Re-contando histrias

    A partir dos encontros com as crianas e adolescentes em processo de

    preparao para adoo internacional vo sendo reunidos e registrados dados

    significativos para o grupo. Um evento decorrido na famlia de origem; as brincadeiras

    preferidas; um animal de estimao; uma cano marcante; uma comida tpica ou

    mesmo a maneira prpria de viver o cotidiano que diferencia o grupo dos demais.

    importante captar os elementos essenciais para o grupo, os sentimentos suscitados

    diante das experincias que foram reveladas e/ou compartilhadas nos encontros. A

    criana precisa se sentir compreendida e acolhida em plenitude, de tal forma que a

    histria escrita somente deve utilizar falas e observaes feitas nos espaos de

    interveno, na interao dos tcnicos com os futuros adotandos.

    Assim, a produo do livro proposto pela Comisso nasce de maneira

    espontnea, no sentido de que o material necessrio para a sua elaborao no

    depende da atuao profissional, mas principalmente da contribuio oral dos infantes

    e jovens envolvidos na narrativa que se deseja fazer.

    Como diz Schettini (2011), ouvir o outro de modo mais abrangente, ouvir

    no somente a palavra, mas tambm o silncio e o comportamento, no se

    descuidando de que o ato tambm implica em vigiar com constncia se o que ouvido

    fruto do que o outro disse, de fato, ou se houve interferncia das minhas prprias

    experincias pessoais. Isto para no atribuir ao outro palavras, sentimentos e emoes

    que pertencem somente ao meu repertrio de vida.

    Alm disso, preciso considerar, por outro lado, o potencial criativo do

    tcnico, seu envolvimento emocional com a criana, a proximidade da realidade

    apresentada, e outros fatores que, certamente, iro influenciar na sua capacidade de

    registro e construo de um enredo que carregue a leveza e amorosidade necessrias

    no trato de crianas e adolescentes, mas que, tambm, no mascare ou oculte as

    verdades reveladas.

  • 9

    Para exemplificar, abaixo est o formato impresso ao momento doloroso e

    sofrido para duas crianas que foram conduzidas pela prpria me Vara da Infncia e

    da Juventude para serem encaminhadas para medida de acolhimento institucional. A

    instituio acolhedora passou a representar para os irmos um espao de oferta de

    bens e servios que, at ento, eles no tinham acesso. Contudo, a angstia

    ocasionada pela separao, passados dois anos, ainda era bastante latente.

    Chegou um dia em que a me-de-barriga no pode mais cuidar dos amigos inseparveis. Doeu no seu corao ter que se separar dos filhos amados. Mas seu amor era grande, to grande, que ela fez questo de escolher um lugar muito legal pra eles ficarem. Um lugar em que eles pudessem dormir numa cama bem quentinha, receber cuidados, ir pra escola, fazer novos amigos e ainda ter aulas de jud e natao. Naquele dia os amigos, que tambm eram irmos, ficaram bastante entristecidos. Eles no entendiam muito bem por que no podiam voltar para a casa da me-v ou ficar na casa da me-de-barriga. Tinha muito adulto por perto, mas ningum conseguia acalmar o corao deles.9

    No trecho citado, pode-se promover novas formas de pensar sobre os

    acontecimentos passados, atribuindo me sentimentos de dor e aflio pela

    impossibilidade de permanecer com a prole. Ao mesmo tempo, ressaltou-se o cuidado

    com os filhos, expresso no encaminhamento para um local adequado para a satisfao

    de suas necessidades. Ento, as crianas puderam humanizar a ao da me e, ao

    mesmo tempo, identificaram-se com a perspectiva apresentada, pois tambm

    experimentaram a angstia daquele momento.

    Do mesmo modo, preciso instalar a esperana de boas experincias, de

    que existem outras possibilidades diferentes daquelas at ento conhecidas.

    Apresentaram, ento, um pai e uma me para os dois meninos, e um pai e uma me para a menina e o outro menino. Eles festejaram! Gritavam para quem quisesse ouvir, porque eles estavam felizes. Do outro lado do oceano, havia outras quatro pessoas gritando de felicidade. Parecia que eles podiam ouvir as gargalhadas dos irmos. Era muita alegria. Isto porque eles esperavam pelos filhos h muito tempo e, finalmente, suas casas ficariam cheias de vida.10

    A seguir, tem-se um fragmento da histria construda para quatro irmos

    que seriam separados do caula de nove anos, nico que conseguiu famlia estrangeira

    9 Trecho retirado do livro A histria de dois irmos-amigos (2012), confeccionado pela CDJA.

    10 Trecho retirado do livro Uma histria pra contar, produzido pela CDJA para um grupo de quatro irmos.

  • 10

    para o seu acolhimento. Os demais estavam em faixa etria que os colocava fora do

    perfil de acolhimento eleito pela maioria das famlias. Diante do fato, o caula

    demonstrava sofrimento, mas desejava experimentar uma nova configurao familiar,

    visto que estava h seis anos em situao de acolhimento institucional.

    Foi, ento, que surgiu uma notcia diferente... O irmo menor poderia morar com uma nova famlia. Mas ser que ele iria querer? Ser que iria aceitar se separar dos irmos? E para os outros, como seria no ter mais o caula por perto? O irmo menor estava dividido, igual uma laranja. Ora dizia que queria ficar com essa famlia, ora dizia que no. Que dvida enorme! Mas seus olhinhos brilhavam com a possibilidade de voltar a ser filho. Decidiu, ento, experimentar. Igual fazemos quando somos apresentados a uma balinha nova, aquelas azuladas e esquisitas: experimentamos11.

    Por outro lado, os irmos, principalmente a irm mais velha, exigiam

    garantias de que o contato com o caula seria mantido, chegando a pontuar que

    somente visitas contariam como manuteno da relao fraterna.

    Os irmos iriam morar em pases diferentes, mas eles sero sempre irmos. Hoje a senhora Distncia no mais to poderosa como nos tempos das caravelas, aqueles barcos que levavam os reis e rainhas de um canto para outro. Hoje temos o telefone fixo, os celulares, a internet e vrias outras maneiras de manter as pessoas bem juntinhas, embora distantes lguas e lguas. Sem falar no avio, que voa to rpido, to rpido que nem parece que atravessamos o planeta de um lado para outro. Assim, os irmos podem sempre se falar ou, at quem sabe, se ver bem de pertinho, cara a cara12.

    Outro grupo em preparao tambm demonstrou a mesma ambivalncia

    apresentada pelo caula citado acima. Em atendimento, surgiu a metfora da

    montanha russa e, assim, esta passou a ser utilizada pelas crianas para descrever, por

    meio dos seus altos e baixos, a oscilao entre o desejo de aderir ao projeto adotivo e

    a fidelidade para com a famlia biolgica.

    bem verdade que, de vez em quando, eles se sentiam num sobe e desce que nem numa grande montanha russa, tamanho era o medo de experimentar essa novidade13.

    11

    Trecho retirado do livro Famlia dos famosos (2012), escrita pela CDJA para um grupo de quatro irmos. 12

    Idem. 13 A histria de dois irmos-amigos (2012).

  • 11

    Ao tcnico cabe a funo de ouvir atentamente para, depois, contar ou re-

    contar, agora de forma ordenada, com um tempo linear, nomeando sentimentos e

    emoes, que at ento poderiam estar confusos, e inserindo interpretaes que

    ampliam a viso dos vrios eventos relatados. Mas os destinatrios e tambm donos

    da histria so eles os verdadeiros roteiristas. So, ainda, os protagonistas e, diante do

    livro de suas vidas, convidados a tambm serem os diretores de suas trajetrias por

    meio da valorizao de suas biografias, as quais tm episdios tristes e difceis, mas

    tambm grandes riquezas.

    O processo de leitura e apresentao do livro somente realizado no

    encontro que antecede a chegada da famlia estrangeira, de modo a propiciar criana

    ou ao adolescente uma espcie de reviso do que foi trabalhado nos encontros de

    preparao.

    Durante a leitura do livro, misto de fantasia e realidade, a criana sabe de

    quem e do qu se fala e, ento, se dispe a ouvir o re-contar de sua prpria histria de

    vida, cuja verso foi escrita sob a perspectiva do outro que lhe ofereceu a escuta.

    Surge, ento, um novo movimento: ela tem a possibilidade de olhar para si mesma a

    partir do outro e, assim, construir uma mais ampla ou nova percepo. Seus

    sentimentos, suas emoes, suas vivncias na famlia de origem, na entidade de

    acolhimento, suas expectativas diante da preparao para a adoo internacional

    recebem um olhar reflexivo e de aceitao.

    Passado, presente e futuro

    Uma caracterstica importante da adoo internacional, em razo da sua

    excepcionalidade, o perfil das crianas disponibilizadas: so crianas maiores de

    cinco anos e que pertencem a grupos de irmos. Ou seja, falar de adoo internacional

    trabalhar com adoo tardia, nomenclatura utilizada pelos estudiosos para referir-se

    s adoes de crianas maiores de dois anos.

    No obstante algumas semelhanas dessas muitas crianas que vivem em

    instituies de acolhimento, todas possuem uma biografia prpria e, portanto,

    carregam dentro de si uma vivncia histrica nica, impregnada de individualidade e

    maneira particular de lidar com os fatores externos. Por isto, faz-se imprescindvel o

  • 12

    respeito e aceitao dos pais adotivos ao passado dos filhos, os quais, por vezes,

    sentem dificuldades de falar sobre a vida pregressa desses pequenos.

    Uma das maneiras que a criana tem de se apropriar de sua histria

    narrando suas lembranas. No caso de uma criana adotada, encontrar espaos de

    escuta atenta e acolhedora imprescindvel para garantir-lhe condies de falar sobre

    si e, assim, organizar interiormente suas vivncias. A narrativa da sua histria passada

    e o cultivo da memria de pessoas importantes so essenciais para o processo de

    apropriao e reconstruo de sua trajetria de vida, ao mesmo tempo em que

    contribui para o autoconhecimento, a formao e o desenvolvimento do seu prprio

    ser.

    Schettini (2011) afirma que as experincias humanas so cumulativas. Elas

    no desaparecem, mas compe o todo do desenvolvimento humano (p. 60). Na

    mesma perspectiva afirma Cardoso que sem o passado, somos sujeitos rasos.

    (Informao verbal)14. Assim, negar a experincia vivida, ainda que desagradvel,

    negar a existncia do ser da prpria criana.

    Nesse sentido, o livro narrativo da histria de vida das crianas e

    adolescentes em processo de preparao para adoo internacional transforma-se em

    veculo de comunicao com os futuros pais, os quais tm acesso quela histria de

    maneira ldica e romantizada, podendo acessar o passado do filho, suas vivncias e

    pessoas significativas que contriburam para sua formao. Neste ato simblico, a

    criana passa a desenvolver autoconfiana e confiana no outro, pois compartilha sua

    experincia, revela-se sem receios, favorecendo a construo dos novos vnculos

    parentais que esto se formando.

    A criana carrega consigo riquezas constituintes da sua identidade: seu

    nome, seu corpo, sua histria e sua cultura, que, na concretizao da adoo, faro

    parte integrante da histria e do patrimnio da famlia que a adotar. (DANDREA, p.

    14, 2012).

    14

    CARDOSO, Edson Lopes. As responsabilidades Coletivas no enfretamento ao Racismo. Braslia, DF, 1 ago. 2013. Oficina ministrada aos servidores do Tribunal de Justia do Distrito Federal e dos Territrios TJDFT.

  • 13

    O livro, acervo pessoal15 da criana, refora o direito desta de cuidar,

    preservar e conviver com o seu passado, pois nada precisa ser esquecido, deixado de

    lado para se iniciar uma nova vida.

    Os pais devem adquirir a capacidade de compreender que essa criana um ser humano que tem sua prpria biografia e que impossvel apagar os traos do passado, pois eles fazem parte da sua constituio como pessoa (WEBER, p. 99, 2011).

    Livre para compartilhar com sua nova famlia as pessoas e as experincias

    do passado, a criana autorizada a manter viva a afetividade direcionada para

    aqueles que fizeram parte de sua histria, sem a ameaa de no construir uma nova

    relao de afeto e parentalidade com os pais adotivos. Assim, sente-se preparada para

    enfrentar o futuro, fortalecida e apoiada para lidar com as transformaes advindas do

    seu processo de desenvolvimento e amadurecimento pessoal.

    Mas, ento, os dois amigos-irmos teriam trs pais e trs mes? SIM! Isto porque dentro de um mesmo corao cabem vrias pessoas, muitas mesmo, de maneira que podemos lev-las para qualquer lugar, seja AQUI ou L!16

    Dessa forma, a funo teraputica dos livros produzidos pela CDJA

    demonstra estender-se para alm do espao de preparao para adoo internacional,

    pois possibilita tambm aos casais estrangeiros o acesso contnuo ao passado dos

    filhos e uma interpretao positiva das suas histrias de vida, pontos importantes para

    favorecer o crescimento psicossocial e afetivo da criana ou adolescente.

    Consideraes Finais

    Para o profissional, enquanto instrumento de trabalho, o livro narrativo da

    vida das crianas e adolescentes em processo de preparao para adoo internacional

    uma possibilidade de externalizao das suas percepes tcnicas por meio de uma

    linguagem diferente da costumeiramente utilizada nos processos e pareceres sociais e

    psicolgicos. Trata-se de uma ao criativa, artstica, que dever ser fiel sua fonte,

    15

    Os livros compem o acervo pessoal das crianas e adolescentes preparados para a adoo internacional, no sendo, portanto, divulgados na ntegra ou comercializados. 16

    Trecho do livro A Histria de dois irmos-amigos (2012). Destaca-se que a regio de acolhida dos irmos era L`Aquila, Itlia, de maneira que a brincadeira com as palavras AQUI e L rapidamente foi associada aos pais adotivos.

  • 14

    revelar as experincias vividas, mas imprimindo a amorosidade e leveza necessrias

    para o cultivo do desejo de se continuar a caminhada da vida. A metodologia citada

    tambm se apresenta para o profissional como possibilidade de registro da empatia

    sentida em relao aos seus pequenos usurios, os quais, diante da leitura e

    exposio do trabalho, permitem que se faa uma avaliao da atuao tcnica e,

    ainda, da capacidade de aproximao afetiva e confiabilidade.

    Para as famlias adotivas o livro pode ser utilizado como veculo de acesso

    s lembranas do filho, de maneira a despertar as condies necessrias para a

    instalao de um espao de dilogo, confiana e troca afetiva na relao parental que

    se deseja estabelecer. O conhecimento do outro, no caso especfico, o conhecimento

    do filho adotivo, aumenta as condies de se atender s suas solicitaes e demandas

    emocionais.

    As histrias construdas tm possibilitado bons resultados, principalmente,

    medida que favorecem ao infante ou jovem um registro cuidadoso e afetuoso da sua

    vida pregressa a famlia biolgica, o acolhimento institucional, as relaes de

    amizade construdas, o tempo de espera - e anncios do seu futuro a adoo,

    insero em uma nova famlia e mudana de pas. a memria documentada, um

    arquivo que poder ser acionado a qualquer tempo e de forma ldica, prazerosa e,

    sobretudo, valorativa, que imprime relevo s experincias compartilhadas durante os

    encontros de preparao para adoo internacional.

    Referncias:

    BETTELHEIM, Bruno. A psicanlise dos contos de fadas. Traduo de Arlene Caetano. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. CARDOSO, Edson Lopes. As responsabilidades Coletivas no enfretamento ao Racismo. Braslia, DF, 1 ago. 2013. Oficina ministrada aos servidores do Tribunal de Justia do Distrito Federal e dos Territrios TJDFT. D`ANDREA, Antonio. Tempo de espera: como vivem as crianas, o casal e os trabalhadores sociais espera da adoo. Traduo Luci Moreira da Costa. So Paulo: Instituto de Terapia Familiar de So Paulo ITFSP, 2012. FILHO, Luiz Schettini. Pedagogia da Ternura. 3. Ed. Petrpolis, RJ: Vozes, 2011.

  • 15

    _________. Pedagogia da Adoo: criando e educando filhos adotivos. 2. ed. Petrpolis, RJ: Vozes, 2011. LEMOS, Ana Carolina e SILVA, Nydja Cariny Gomes. A funo teraputica da arte de contar histrias. In: Intersemiose. Revista Digital. Ano I, v. 1, n. 1, jan./jul. 2012. Disponvel em: http://www.neliufpe.com.br/wp-content/uploads/2012/06/01.pdf. Acesso em: 15 jul. 2013. LOPEZ, Immaculada. Fazendo minha histria: guia de ao para abrigos e colaboradores. So Paulo: Associao Fazendo Histria, 2008. MOLINA, Roseli Pelais e PIERI, Maria Guilhermina Coelho de. Arte de contar histrias como recurso psicopedaggico. [2010?]. Disponvel em: http://www.aper.org.br/irmas/imagens/downloads/ARTE%20DE%20CONTAR%20HIST%C3%93RIAS%20COMO%20RECURSO%20PSICOPEDAG%C3%93GICO.pdf. Acesso em: 15 jul. 2013. SANTOS, Naisa Carla Martins; CORRA, Thas Botelho. A histria de dois irmos-amigos. Braslia, DF: Comisso Distrital Judiciria de Adoo/ TJDFT, 2012. SOUZA, Janaina Simas; CORRA, Thas Botelho. A famlia dos famosos. Braslia, DF: Comisso Distrital Judiciria de Adoo/ TJDFT, 2012. SOUZA, Janaina Simas; CORRA, Thas Botelho. Uma histria para contar. Braslia, DF: Comisso Distrital Judiciria de Adoo/ TJDFT, 2012. SUNDERLAND, Margot. O valor teraputico de Contar Histrias: para crianas: pelas crianas. Traduo Carlos Augusto Leuba Salum. Ana Lucia da Rocha Franco. So Paulo: Cultrix, 2005. WEBER, Lidia. Adote com carinho: um manual sobre os aspectos essenciais da adoo. Curitiba: Juru, 2011.

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