O COTIDIANO DIONISÍACO DE GIZA E O FEMINISMO EM EQUÍLIBRIO PROSAICO EM ‘A FILHA DAS FLORES’ DE VANESSA DA MATA José Eider Madeiros (UFPB) Introdução A proposta aqui trazida é a de enfocar o romance de estreia A filha das flores, da cantora, compositora e escritora matogrossense contemporânea Vanessa da Mata, como ficção que atenta a diversas questões acerca do gênero, das sociabilidades femininas e do cotidiano através da jornada entre a adolescência e a juventude em primeira adultez da protagonista Giza (Adalgiza) em um espaço-cenário e tempo capazes de assimilar a construção do ‘ser mulher’ como experiência indissociável da reflexão crítica sobre os determinismos patriarcais e moralismos do pensamento dominante. Com base na concepção de que a voz lírica da narrativa confabula com a própria autora mediante certo presenteísmo junto ao mítico e ao fantástico, na configuração de uma linguagem metafórica evidentemente naturalesca e rica de feminitude, busca-se introduzir a visão da realidade dionisíaca em que a vivência resgatada de sabedorias populares em conjunto com uma intensa crítica à hiperacionalização das afetividades faz submergir rupturas multidirecionadas acerca do pré-estabelecimento pela normatividade. A normatividade mencionada é caracterizada de maneira clara na narrativa quando Giza adentra os melindres sociais da transgressão ao padrão de comportamento, de beleza, de liberdade dos desejos, de preconceitos de crenças, de controle dos corpos e às convenções do lugar e da função dados à mulher. Neste sentido, tomamos o gênero feminino como uma categoria de análise ao lado do percebido orgiasmo, como diferencial na forma em que a protagonista busca lidar com suas inquietações e seus anseios, bem como na maneira de se construir a história com um olhar liberto e, por vezes, líber-feminista. É através da junção desses dois prospectos que se vê pertinente uma leitura por seguramente atrelar a crítica dos estudos feministas na representação de uma personagem que exacerba noções enquanto se apropria delas mesmas, ao mesmo tempo em que ilustra paradoxos no tocante aos limiares da subserviência ao masculino, seja no campo da afeição a ele, seja na socialidade com ele. A proposta se caracterizou como bibliográfica e ensaísta. Diante disso, a metodologia da pesquisa consiste na discussão de algumas teorias do gênero e de estudos feministas contemporâneos – sem deixar de tracejar suas propriedades históricas – das teorias sobre a ficção e as personagens de ficção, e de quesitos da contemporaneidade reencantada pelo pensamento dionisíaco. A feminitude das titias como estabelecido na opressão da beleza pela identidade: suculências, contornos em corpos de mulher De início é fundamentalmente importante sinalizar que o ponto de partida que a autora utiliza, como cenário para desenrolar uma narrativa em primeira pessoa-protagonista, é constituído de uma série de elementos bastante comuns à literatura romanesca que se ambienta no interior brasileiro referencial e recorrente em vastas obras da literatura nacional. Há a presença dos arquétipos típicos das carolas, do clérigo, dos pequenos comerciantes, das dos boêmios e do infame bêbado, das ‘moças velhas’, ‘moças direitas’ e daquelas ‘perdidas’, dos profissionais liberais e da lei, dos viajantes, e dos galãs; bem como das marcas culturais do campo nas filiações amarradas aos prenomes, nos festejos religiosos sazonais, nas privacidades rígidas, no recato e no receio, na economia tradicional baseada na fixa freguesia habitual, e na contemplação da cidade grande como terreno distante e ambíguo em esperanças e significados. A fim de delinear o recorte dado para os percursos de leitura de A filha das flores, utiliza-se do pressuposto de análise do que pode enriquecer a proposta inicial, e do que se pode pontuar dentro desse pano de fundo da história, os elementos que melhor subscrevem e persistem à narrativa de Giza, representante de uma voz lírica. Ou seja, não caberia retomar ou descrever ineditismos acerca da autora em si e do título e seus motivos para utilizar-se, por seu caráter de estreia literária, do mundo campestre, rural, interior como sendo emblemático, mas de concentrar-se na riqueza que os conjuntos elementares da ambiência da pequena cidade, vistos na narrativa consciente da protagonista, proporcionam. Outro lado, é inegável que a inspiração de uma escritora que compõe, produz e interpreta música com traços dessa região brasileiro-matogrossense é substancial, entretanto, por ser interpretada como técnica, não será norteadora. Assim, o que se observa como um direcionamento perspicaz nessa ambiência é o aspecto da feminitude, como objeto de bifurcação para a própria localização da protagonista como relevante em seu cotidiano, como para a visão exógena à relação familiar que as demais personagens estabelecem com a floricultura que é lar e centro das aventuras de Giza. Um detalhe neste contexto da floricultura é que ao contrário de suas titias, Giza parece não conviver bem com a representação limitante de assimilar-se a flores em um terreno limitado de um jardim. Seja enquanto menina, seja enquanto cresce em direções e conceitos como mulher, a protagonista lança nas adjetivações frequentes e por vezes hiperbólicas dos atributos sedutores e corporais de suas titias, Margarida e Florinda, o poder que tanto lhe incomoda e que disto virá a desconstruir. Essa corpulência benquista nos arredores que Giza caminha vai no caminho inverso da beleza corpórea da magreza urbana de “carnes mirradas” que, por ironia, a própria ostenta. É daí que se torna mister contrastar o termo ‘feminitude ’, como atitude definidora daquilo que se coletiviza como atribuído positivamente a um valor estético vinculando à figura da mulher, mas condizente com um padrão que satisfaça o gosto dominante. Nesse sentido, Giza se autoinflige a desesperança de ser “maiúscula” como suas titias e as mulheres que são cortejadas pelas flores com recados de amor que ela mesma intercede, tratando então de na comedida organização de seu cotidiano, aproveitar as fronteiras de sua cidadezinha, atravessando ruelas com um pequeno fusca usado nas entregas, parando para admirar riachos e encostas, vislumbrando os destinos que a BR que logo ali atravessa os limites do pequeno município pode levar. Entre suas tarefas caseiras e empreendedoras, tem apoio e acalanto encontrados em Odézia, uma ajudante carinhosa e figura maternal, e equilibra quedas diretas com o nariz no chão a visitas ao sorveteiro e a desbravar pequenos territórios. Nessas andanças, o cenário se complementa com as nominações típicas para a fauna e a flora, narrando já uma poética ecológica que une trabalho no campo, na ordem apolínea da subsistência, e o lúdico compasso de uma infinitude de maravilhas que a vida romântica arcaica incita ao prazer e ao desejo dionisíaco. Essa multiplicidade de ingredientes narrativos, à primeira vista antagônicos, como ‘função’ e ‘lazer’, ‘beleza em um altar’ e ‘aventura deliquente’ estão sempre balizados pela personalidade astuta. Se esse fluxo de consciência detectado na narração é uma rebeldia a uma projeção na figura das titias que Giza justapôs inalcançável, ou se é um traço de uma especialidade observadora dos maneirismos que a cercam como um flagra de que essa projeção já não em si tão determinante, nem para ela nem para os clientes e pretendentes que as admiram, não há tanta certeza até certa altura de sua juventude. O que não se pode deter nem evitar considerável é que neste atrevimento inconstante na busca por sua identidade, a protagonista envereda em uma mostra de viver e pensar livremente que a coloca como uma narradora formidavelmente crítica. Ficaria presa à infância para jamais ser uma mulher? Uma dona com as suas farturas e os seus poderes que, quando em frente a um pobre homem, o torna ainda mais precisado por se encontrar diante de uma rainha? Os homens comigo continuariam fortes, passariam por mim a todo instante sem me notar – a menos que eu lhes fosse ser útil, como ser uma simples atendente de loja, ou mesmo como uma enfermeira em um grande hospital. Mesmo assim seria perigoso, pois se houvesse outra enfermeira de corpo mais maternal, de seios mais acolchoados, eles correriam para o seu socorro, e eu perderia minha função, apenas serviria para o nada vezes nada. Pura distração. As minhas carnes eram mirradas perto do tamanho do meu ser interior. Este sim, crescera como ninguém, desacompanhado e desencontrado, era enorme e cheio de fome . De menina a mulher de poucos atributos: o cotidiano e o domínio da natureza como flecha da emancipação de tornar-se livre Ser filha das flores para Giza vem a ser oportunamente uma qualidade que faz de sua origem maternal, tendo em vista a configuração matriarcal a qual ela referencia-se fundamentalmente, um mistério, em especial quando se põe a questionar a sua pertença à família feminina que lhe rodeia, mas entrementes serve no compasso de seu tautológico desabrochar como uma distinção ainda mais satisfatória à sua relação com a natureza de seu trabalho. Apercebe-se na conduta de idas e vindas comportamentais com as pessoas, nos romances e nos simbolismos da cidadezinha rural, que Giza eleva-se pouco a pouco em sua descoberta existencial a um nível de entendimento das flores como não apenas elemento de podas, ramalhetes e entregas a clientes, mas a própria constatação mesma de que se sua gênese está nas flores: é das flores que ela se conecta com a realidade. E é da valoração dada a cada contexto em que as flores se estabelecem com ela própria, como voz, forma e pensamento intimamente ligados às flores em si, que faz Giza poder ser muito além do que a natureza floral a reservou. Isto é, mesmo que filha das flores em um plano gerativo, inato, simbólico, natural e fantástico, essas flores mesmas são artefatos usados por sua filha em um plano sistemático, concreto, manipulável e social. Entretanto, não é acerca dessa dicotomia que se vislumbra uma síntese, mas dos evidentes registros que a protagonista representa com relação a esses domínios, em uma existência consciente. Essa inquietação ganha cabimento, sobretudo com a aparição de Tito, figura masculina de interesse e rivalidade entre Giza e titia Florinda, na medida em que, se a natureza reservou a ambas características distintas de feminitude, caberá a artimanha de lidar com as fronteiras que os sentimentos podem abarcar, sem que essa natureza seja exclusivamente pontuada, mas trabalhe em consonância, ou quiçá em desvantagem, nos paradigmas cotidianos que requerem sempre e mais noções advindas do próprio meio. Nesse aspecto, Giza se revigora de uma pressuposta feminitude inferior por motivos estéticos e passa a se tornar mais livre e mais ciente de sua própria autonomia identitária e plena como mulher, reconhecida por ela mesma. Esse reconhecimento e entrega a uma nova assimilação de tornar-se mulher atinge seu ápice quando Giza arrisca conhecer novos territórios e cruzar as fronteiras até então a ela e por elas delimitadas. Nesse momento, ela se torna ‘Flor de Laranjeira’, alcunha presenteada por um dos boêmios que vem a conhecer na Vila Morena, simbolizando fortemente também uma distinção categórica dos simbolismos florais de jardineira para frutífera. A música, a dança e o profano marginal da Vila Morena: orgiasmo e pensamento-prática dionisíacos na mística da descoberta fronteiriça da sororidade feminina A redondeza revelava uma divisa proibida que me atraía. A divisão entre o plausível de uma sociedade de bom-tom e o bairro em estado doente e feio que a nossa cidade jamais admitiria ser dela, a vila dama da noite! A vila era a zona mais escondida, os mistérios do lado contrário à zona bonita, arborizada e organizada dentro dos comportamentos idealizados . Essa passagem revela de maneira explícita a inquietude de Giza com o convencionado por proibido e transgressor e movimenta significativamente a proposta aqui surgida de elencar as relações dionisíacas que implicitamente a narrativa traz no decorrer das experiências da protagonista. A relação descansa nessa intrigante consciência de saber que não são apenas os limites da pequena cidadezinha que sufocará a coragem e a obstinação de Giza em diluir suas referências, principalmente, como em se tratando de ser mulher. Por restar apenas o cotidiano (MAFFESOLI, 1987), Giza faz florescer nele o que lhe cabe de transformador. Na socialidade, que para Maffesoli (2001a, 2001b) ganha um aparato referencial ao estar-junto, surge o orgiasmo (MAFFESOLI, 2005) como estrutura que pulsiona os vínculos entre as pessoas e re-distribui de forma efevercente a conservação e a transformação da vida em sociedade. Essa ebulição contribui para o que se poderia observar na consagração da Vila Morena como um espaço de acolhimento para Giza, na conjuntura de personagens e comportamentos que a própria observa e se deslumbra: Tremi outra vez, que coisa estranha: eu estava sentada em um bar de beira de estrada, falando com dois bêbados, o sr. Salada e o sr. Major, e a srta. Juliana – bom, sra. Juliana, agora que fiquei sabendo que vende o corpo a qualquer um que possa comprá-lo, ou talvez trocá-lo por alguma outra coisa. E os outros dois saíram da cadeia havia pouco, sei lá por quê: assassinato, latrocínio ou coisa pior. Poderia achar assustador se eu não estivesse lá e outra pessoa me contasse que estava na companhia deles e que pareciam de confiança – mas eu estava . Ora, não só apenas os indícios dessa celebração dionisíaca são elucidados, como se percebe uma abertura mental da protagonista quanto a outro termo de Maffesoli (2005) que é o politeísmo de valores. Ao adentrar o território da Vila Morena, Giza participa, reconhece e se devota à Rainha Yade, por instintivamente sentir uma conexão que condiz com a sua afronta ao que reprimiam suas titias tão naturalmente arquitetadas e tranquilas sob suas peles. Imagine se elas descobrissem que eu visitava no seu mais revolto dia, ainda mais sozinha, na calada da noite e enquanto dormiam! Seria impossível me perdoarem. Eu, em uma festa pagã, vendo uma diaba aparecer – saindo de um matinho, suponho – para depois de fazer um coitado seu escravo, da maneira mais erótica e covarde de todas, desaparecer de novo . O embate real com as consequências do que suas decisões poderiam ocasionar naquele instante reforçam o caráter pungente do presenteísmo maffesoliano (MAFFESOLI, 2001a). Este mesmo se vê quando dota a protagonista da capacidade de desenvolver, nas comuns tarefas que atravessam seu dia-a-dia, conflitos e percepções que existem por dilemas vociferantes nas atividades coletivas das demais personagens, caracterizando seu cotidiano típico como parte de um cenário em que determinações de papeis se chocam, sendo ou não discriminadas, e perante o deslumbramento que o fantástico oferece torna a consciência do próprio papel da personagem em algo que exige uma ação imediata, uma ausência de constatações perenes, um romanceamento da ação dramática cabida apenas ao agora. Senti que o meu caminho teve um desvio importante. A droga da educação exagerada e tolhida se tornava opção, e o comportamento que exagera e confunde o bom senso com a repressão. Na vila, eu havia tido uma boa conversa e uma divertida tarde com pessoas que as minhas titias jamais suportariam ou receberiam. Como era possível ser “todo errado” e ainda assim se divertir e ser feliz? Se sentir merecedor de uma bela risada e de ter esperanças, de acontecer e ter uma conversa viva com palavras cheias de carisma, diretas e honestas, de sentir ! Pode-se atrelar essa passagem acima a outras duas posições maffesolianas salutares em que “obnubilado pela morte e suas diversas manifestações, o vivido cotidiano põe toda sua importância num presente caótico, que deve ser vivido intensamente, para lá das projeções de todas as ordens (paraísos, amanhãs cantantes, sociedades perfeitas)” (MAFFESOLI, 2001a, p. 45) e “o tempo do trabalho, (...) a triste vida familiar, são como ‘pequenas mortes’ que é preciso bem ou mal, viver, e quando surge a ocasião de viver com truculência [do orgiasmo], ocorre uma explosão que não pode ser reprimida” (MAFFESOLI, 2001a, p. 151). Uma dessas explosões ocorrem oportunamente na narrativa de Giza quando ela se entrega a Tito, compreende que não fez nada além de conquistar em um momento presente de prazer sua parcela como Rainha e filha das flores, constatando através da figura contraventora de srta. Juliana, prostituta faceira e de bem com a vida, as dualidades comportamentais que ela intermediou ao perceber nos conflitos com aquilo que ditavam suas titias e com a realidade da Vila Morena, dançante, colorida, celebrativa das sociabilidades e do profano/pagão. Na confluência de ritmos, uma ocorrência faz a narrativa ganhar novo enredo, pois Giza engravida de Tito, e nas únicas medidas previsíveis que lhe restam, põe-se em uma situação de mais descobertas acerca de suas titias e de sua origem. Com a concepção, sua vida torna-se pública, sua privacidade é transformada, e com a lucidez de quem já tudo entendia sobre os costumes daquela cidade, Giza se vê em meio a um conto fantástico, sendo a criança que separou e fez o possível para unir as dualidades da cidade e da vila. Partindo em seguida para a cidade grande, retorna tempos depois com o filho já crescido para celebrar as deidades que lhe acompanharam e deixar já no passado, aquele presente tão intenso e prosaicamente transformador. O afeto e os caminhos sutis da escrita contemporânea de Vanessa da Mata: romance e fantasia, prosaico e presente? Em A filha das flores, ao levar em conta observações acerca da literatura contemporânea presentes na coletânea de Gualberto e Dantas (2012), se poderia classificar, em decorrências das características de Mata (2013) em sua multifacetagem midiática como compositora, escritora e intérprete, que a sua elaboração enquadra-se no que entende-se contemporaneamente como uma ponte entre o romance e a anedota que sustentam a produção editorial em detrimento da crítica. Desveladas essas valorações de ordem mercadológica ou canônica, a análise proposta conseguiu compreender que essas plataformas diversas que possibilitam a reforma e produção literárias podem sinalizar uma exuberância de vias para a leitura no país. E nesse sentido, Maffesoli (2001b, 2005, 2006, 2007, 2008) contribui significativamente, em especial alegação aos novos tempos e clusters tribais, à força do orgiasmo na vitalidade que renovam as movimentações culturais, com a noção de literatura que possa abranger essas modulações diversas de um público mais erudito esteticamente, ou nem tanto. Mata (2013), neste título, investe nesse cenário propondo ao lado da narrativa feminista precisa, sem questionar a si mesma a partir do que ela teme, mas do lhe impõem, além de uma musicalidade e uma ecologia poética na sua prosa, e um diálogo representacional de fácil identificação – uma vez que usa esse acervo comum à ficção sobre os recônditos brasileiros, e à população que, mesmo em grandes centros urbanos, tem bagagem rural e é saudosista dela. Diria que, de modo geral, uma mensagem sutil que também se expressa na maneira como a narrativa se desfecha é a da primazia do afeto, como sendo de relevância ímpar nessa aura de entrelaços entre a descoberta de uma mulher, criança descuidada, mas que não nega a sua herança, divinizada pela Rainha Yade, com a com a natureza, com a liberdade das paixões e das experiências. Uma narrativa que mistura, e descreve potencialmente, em seu(s) campo(s) tanto a singularidade subjetiva da sensação aromática que se tem junto às flores, como da irrefutabilidade da presença de jardins em cultivo para que essa sensação seja objetivada. Afinal, Giza se torna mãe-solteira, como retrato prosaico de muitas mães que também estão condicionadas ao mesmo viver, mas não deixa de aprender nesta natureza, resgatada em sua história, as peculiaridades de um cotidiano que pode ser de muitas flores colhidas com uma marca feminista, desde que tornando-as sempre cultiváveis. REFERÊNCIAS BEAUVOIR, Simone. Infância. In: ______. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. CHARBONNEAU, Paul Eugène. O amor e o tempo. In: ______. Amor e liberdade: ensaio de moral conjugal. 2. ed. São Paulo: Herder, 1968. p. 240-260. CHILAND, Colette. Homo psychanalyticus. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 1993. FREUD, Sigmund. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise e outros trabalhos (1932-1936). Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Obras completas, v. 22). GUALBERTO, Ana Cláudia Félix; DANTAS, Elisalva Madruga. Literatura brasileira: tendências contemporâneas. João Pessoa: EDUFPB, 2012. (Coleção Todas as Letras; 21). MAFFESOLI, Michel. A conquista do presente. Tradução: Alípio de Sousa. Natal: Argos, 2001a. ______. A parte do diabo. Rio de Janeiro: Record, 2004. ______. A sombra de Dionísio: contribuição a uma sociologia da orgia. Tradução: Rogério de Almeida. 2. ed. São Paulo: Zouk, 2005. ______. Homossocialidade: da identidade às identificações. Bagoas, v. 1, n. 1, Natal, EDUFRN, 2008. p. 18-32. ______. O conhecimento do quotidiano. Lisboa: Vega, 1987. ______. O mistério da conjunção: ensaios sobre comunicação, corpo e socialidade. Porto Alegre: Sulina, 2006. ______. O ritmo da vida: variações sobre o imaginário pós-moderno. Rio de Janeiro: Record, 2007. ______. Sobre o nomadismo: vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro: Record, 2001b. MATA, Vanessa da. A filha das flores. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. TOUPIN, Louise. Qu’est-ce que le féminisme? trousse d’information sur le féminisme québécois des 25 derniéres années. Montréal: Centre de Centre de documentation sur l'éducation des adultes et la condition féminine et Relaisfemmes, 1997. � Graduando em Letras, Língua Portuguesa – UFPB. Membro do Núcleo de Diversidade Sexual e Gênero – DIVERGEN do Grupo de Estudos em Direito Crítico, Marxismo e América Latina – GEDIC – UFERSA. [email protected] � ‘Feminitude’ é aqui concebido como uma conjunção de outros termos comuns, mas diferenciando-se em sutis particularidades. Vê-se como feminilidade ou feminidade a associação ou apropriação de características e comportamentos constitutivos do que é feminino (FREUD, 1976). Ao lado, a femeidade ou fémelleité (CHILLAND, 1993) apresenta uma composição voltada para a função orgânica, componente da condição biológica de fêmea, e da valorização da função natural complementar na procriação, e tem hoje bastante proximidade com a identidade cisgênero e foi transversal nas metamorfoses das correntes feministas (TOUPIN, 1997). Dentro de um binário de antônimos nos verbetes, feminilidade estaria para masculinidade, femeidade para a macheidade/macheza, e feminitude para hombridade, em especial por este último poder significar honradez, mas ao mesmo tempo uma virilidade socializada que é restrita a homens. Feminitude seria uma aproximação do sentido de amazona, sem o apelo varonil, mas ainda assim de marcante significância em um contexto matriarcal, por exemplo. � (MATA, 2013, p. 37). � (MATA, 2013, p. 65). � (Idem, p. 77). � (MATA, 2013, p. 112). � (Idem, p. 80-81).
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Giza e o feminismo prosaico

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Artigo literário com base na obra de estreia de Vanessa da Mata
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O COTIDIANO DIONISÍACO DE GIZA E O FEMINISMO EM EQUÍLIBRIO PROSAICO EM ‘A FILHA DAS FLORES’ DE VANESSA DA MATA José Eider Madeiros (UFPB) Introdução A proposta aqui trazida é a de enfocar o romance de estreia A filha das flores, da cantora, compositora e escritora matogrossense contemporânea Vanessa da Mata, como ficção que atenta a diversas questões acerca do gênero, das sociabilidades femininas e do cotidiano através da jornada entre a adolescência e a juventude em primeira adultez da protagonista Giza (Adalgiza) em um espaço-cenário e tempo capazes de assimilar a construção do ‘ser mulher’ como experiência indissociável da reflexão crítica sobre os determinismos patriarcais e moralismos do pensamento dominante. Com base na concepção de que a voz lírica da narrativa confabula com a própria autora mediante certo presenteísmo junto ao mítico e ao fantástico, na configuração de uma linguagem metafórica evidentemente naturalesca e rica de feminitude, busca-se introduzir a visão da realidade dionisíaca em que a vivência resgatada de sabedorias populares em conjunto com uma intensa crítica à hiperacionalização das afetividades faz submergir rupturas multidirecionadas acerca do pré-estabelecimento pela normatividade. A normatividade mencionada é caracterizada de maneira clara na narrativa quando Giza adentra os melindres sociais da transgressão ao padrão de comportamento, de beleza, de liberdade dos desejos, de preconceitos de crenças, de controle dos corpos e às convenções do lugar e da função dados à mulher. Neste sentido, tomamos o gênero feminino como uma categoria de análise ao lado do percebido orgiasmo, como diferencial na forma em que a protagonista busca lidar com suas inquietações e seus anseios, bem como na maneira de se construir a história com um olhar liberto e, por vezes, líber-feminista. É através da junção desses dois prospectos que se vê pertinente uma leitura por seguramente atrelar a crítica dos estudos feministas na representação de uma personagem que exacerba noções enquanto se apropria delas mesmas, ao mesmo tempo em que ilustra paradoxos no tocante aos limiares da subserviência ao masculino, seja no campo da afeição a ele, seja na socialidade com ele. A proposta se caracterizou como bibliográfica e ensaísta. Diante disso, a metodologia da pesquisa consiste na discussão de algumas teorias do gênero e de estudos feministas contemporâneos – sem deixar de tracejar suas propriedades históricas – das teorias sobre a ficção e as personagens de ficção, e de quesitos da contemporaneidade reencantada pelo pensamento dionisíaco. A feminitude das titias como estabelecido na opressão da beleza pela identidade: suculências, contornos em corpos de mulher De início é fundamentalmente importante sinalizar que o ponto de partida que a autora utiliza, como cenário para desenrolar uma narrativa em primeira pessoa-protagonista, é constituído de uma série de elementos bastante comuns à literatura romanesca que se ambienta no interior brasileiro referencial e recorrente em vastas obras da literatura nacional. Há a presença dos arquétipos típicos das carolas, do clérigo, dos pequenos comerciantes, das dos boêmios e do infame bêbado, das ‘moças velhas’, ‘moças direitas’ e daquelas ‘perdidas’, dos profissionais liberais e da lei, dos viajantes, e dos galãs; bem como das marcas culturais do campo nas filiações amarradas aos prenomes, nos festejos religiosos sazonais, nas privacidades rígidas, no recato e no receio, na economia tradicional baseada na fixa freguesia habitual, e na contemplação da cidade grande como terreno distante e ambíguo em esperanças e significados. A fim de delinear o recorte dado para os percursos de leitura de A filha das flores, utiliza-se do pressuposto de análise do que pode enriquecer a proposta inicial, e do que se pode pontuar dentro desse pano de fundo da história, os elementos que melhor subscrevem e persistem à narrativa de Giza, representante de uma voz lírica. Ou seja, não caberia retomar ou descrever ineditismos acerca da autora em si e do título e seus motivos para utilizar-se, por seu caráter de estreia literária, do mundo campestre, rural, interior como sendo emblemático, mas de concentrar-se na riqueza que os conjuntos elementares da ambiência da pequena cidade, vistos na narrativa consciente da protagonista, proporcionam. Outro lado, é inegável que a inspiração de uma escritora que compõe, produz e interpreta música com traços dessa região brasileiro-matogrossense é substancial, entretanto, por ser interpretada como técnica, não será norteadora. Assim, o que se observa como um direcionamento perspicaz nessa ambiência é o aspecto da feminitude, como objeto de bifurcação para a própria localização da protagonista como relevante em seu cotidiano, como para a visão exógena à relação familiar que as demais personagens estabelecem com a floricultura que é lar e centro das aventuras de Giza. Um detalhe neste contexto da floricultura é que ao contrário de suas titias, Giza parece não conviver bem com a representação limitante de assimilar-se a flores em um terreno limitado de um jardim. Seja enquanto menina, seja enquanto cresce em direções e conceitos como mulher, a protagonista lança nas adjetivações frequentes e por vezes hiperbólicas dos atributos sedutores e corporais de suas titias, Margarida e Florinda, o poder que tanto lhe incomoda e que disto virá a desconstruir. Essa corpulência benquista nos arredores que Giza caminha vai no caminho inverso da beleza corpórea da magreza urbana de “carnes mirradas” que, por ironia, a própria ostenta. É daí que se torna mister contrastar o termo ‘feminitude ’, como atitude definidora daquilo que se coletiviza como atribuído positivamente a um valor estético vinculando à figura da mulher, mas condizente com um padrão que satisfaça o gosto dominante. Nesse sentido, Giza se autoinflige a desesperança de ser “maiúscula” como suas titias e as mulheres que são cortejadas pelas flores com recados de amor que ela mesma intercede, tratando então de na comedida organização de seu cotidiano, aproveitar as fronteiras de sua cidadezinha, atravessando ruelas com um pequeno fusca usado nas entregas, parando para admirar riachos e encostas, vislumbrando os destinos que a BR que logo ali atravessa os limites do pequeno município pode levar. Entre suas tarefas caseiras e empreendedoras, tem apoio e acalanto encontrados em Odézia, uma ajudante carinhosa e figura maternal, e equilibra quedas diretas com o nariz no chão a visitas ao sorveteiro e a desbravar pequenos territórios. Nessas andanças, o cenário se complementa com as nominações típicas para a fauna e a flora, narrando já uma poética ecológica que une trabalho no campo, na ordem apolínea da subsistência, e o lúdico compasso de uma infinitude de maravilhas que a vida romântica arcaica incita ao prazer e ao desejo dionisíaco. Essa multiplicidade de ingredientes narrativos, à primeira vista antagônicos, como ‘função’ e ‘lazer’, ‘beleza em um altar’ e ‘aventura deliquente’ estão sempre balizados pela personalidade astuta. Se esse fluxo de consciência detectado na narração é uma rebeldia a uma projeção na figura das titias que Giza justapôs inalcançável, ou se é um traço de uma especialidade observadora dos maneirismos que a cercam como um flagra de que essa projeção já não em si tão determinante, nem para ela nem para os clientes e pretendentes que as admiram, não há tanta certeza até certa altura de sua juventude. O que não se pode deter nem evitar considerável é que neste atrevimento inconstante na busca por sua identidade, a protagonista envereda em uma mostra de viver e pensar livremente que a coloca como uma narradora formidavelmente crítica. Ficaria presa à infância para jamais ser uma mulher? Uma dona com as suas farturas e os seus poderes que, quando em frente a um pobre homem, o torna ainda mais precisado por se encontrar diante de uma rainha? Os homens comigo continuariam fortes, passariam por mim a todo instante sem me notar – a menos que eu lhes fosse ser útil, como ser uma simples atendente de loja, ou mesmo como uma enfermeira em um grande hospital. Mesmo assim seria perigoso, pois se houvesse outra enfermeira de corpo mais maternal, de seios mais acolchoados, eles correriam para o seu socorro, e eu perderia minha função, apenas serviria para o nada vezes nada. Pura distração. As minhas carnes eram mirradas perto do tamanho do meu ser interior. Este sim, crescera como ninguém, desacompanhado e desencontrado, era enorme e cheio de fome . De menina a mulher de poucos atributos: o cotidiano e o domínio da natureza como flecha da emancipação de tornar-se livre Ser filha das flores para Giza vem a ser oportunamente uma qualidade que faz de sua origem maternal, tendo em vista a configuração matriarcal a qual ela referencia-se fundamentalmente, um mistério, em especial quando se põe a questionar a sua pertença à família feminina que lhe rodeia, mas entrementes serve no compasso de seu tautológico desabrochar como uma distinção ainda mais satisfatória à sua relação com a natureza de seu trabalho. Apercebe-se na conduta de idas e vindas comportamentais com as pessoas, nos romances e nos simbolismos da cidadezinha rural, que Giza eleva-se pouco a pouco em sua descoberta existencial a um nível de entendimento das flores como não apenas elemento de podas, ramalhetes e entregas a clientes, mas a própria constatação mesma de que se sua gênese está nas flores: é das flores que ela se conecta com a realidade. E é da valoração dada a cada contexto em que as flores se estabelecem com ela própria, como voz, forma e pensamento intimamente ligados às flores em si, que faz Giza poder ser muito além do que a natureza floral a reservou. Isto é, mesmo que filha das flores em um plano gerativo, inato, simbólico, natural e fantástico, essas flores mesmas são artefatos usados por sua filha em um plano sistemático, concreto, manipulável e social. Entretanto, não é acerca dessa dicotomia que se vislumbra uma síntese, mas dos evidentes registros que a protagonista representa com relação a esses domínios, em uma existência consciente. Essa inquietação ganha cabimento, sobretudo com a aparição de Tito, figura masculina de interesse e rivalidade entre Giza e titia Florinda, na medida em que, se a natureza reservou a ambas características distintas de feminitude, caberá a artimanha de lidar com as fronteiras que os sentimentos podem abarcar, sem que essa natureza seja exclusivamente pontuada, mas trabalhe em consonância, ou quiçá em desvantagem, nos paradigmas cotidianos que requerem sempre e mais noções advindas do próprio meio. Nesse aspecto, Giza se revigora de uma pressuposta feminitude inferior por motivos estéticos e passa a se tornar mais livre e mais ciente de sua própria autonomia identitária e plena como mulher, reconhecida por ela mesma. Esse reconhecimento e entrega a uma nova assimilação de tornar-se mulher atinge seu ápice quando Giza arrisca conhecer novos territórios e cruzar as fronteiras até então a ela e por elas delimitadas. Nesse momento, ela se torna ‘Flor de Laranjeira’, alcunha presenteada por um dos boêmios que vem a conhecer na Vila Morena, simbolizando fortemente também uma distinção categórica dos simbolismos florais de jardineira para frutífera. A música, a dança e o profano marginal da Vila Morena: orgiasmo e pensamento-prática dionisíacos na mística da descoberta fronteiriça da sororidade feminina A redondeza revelava uma divisa proibida que me atraía. A divisão entre o plausível de uma sociedade de bom-tom e o bairro em estado doente e feio que a nossa cidade jamais admitiria ser dela, a vila dama da noite! A vila era a zona mais escondida, os mistérios do lado contrário à zona bonita, arborizada e organizada dentro dos comportamentos idealizados . Essa passagem revela de maneira explícita a inquietude de Giza com o convencionado por proibido e transgressor e movimenta significativamente a proposta aqui surgida de elencar as relações dionisíacas que implicitamente a narrativa traz no decorrer das experiências da protagonista. A relação descansa nessa intrigante consciência de saber que não são apenas os limites da pequena cidadezinha que sufocará a coragem e a obstinação de Giza em diluir suas referências, principalmente, como em se tratando de ser mulher. Por restar apenas o cotidiano (MAFFESOLI, 1987), Giza faz florescer nele o que lhe cabe de transformador. Na socialidade, que para Maffesoli (2001a, 2001b) ganha um aparato referencial ao estar-junto, surge o orgiasmo (MAFFESOLI, 2005) como estrutura que pulsiona os vínculos entre as pessoas e re-distribui de forma efevercente a conservação e a transformação da vida em sociedade. Essa ebulição contribui para o que se poderia observar na consagração da Vila Morena como um espaço de acolhimento para Giza, na conjuntura de personagens e comportamentos que a própria observa e se deslumbra: Tremi outra vez, que coisa estranha: eu estava sentada em um bar de beira de estrada, falando com dois bêbados, o sr. Salada e o sr. Major, e a srta. Juliana – bom, sra. Juliana, agora que fiquei sabendo que vende o corpo a qualquer um que possa comprá-lo, ou talvez trocá-lo por alguma outra coisa. E os outros dois saíram da cadeia havia pouco, sei lá por quê: assassinato, latrocínio ou coisa pior. Poderia achar assustador se eu não estivesse lá e outra pessoa me contasse que estava na companhia deles e que pareciam de confiança – mas eu estava . Ora, não só apenas os indícios dessa celebração dionisíaca são elucidados, como se percebe uma abertura mental da protagonista quanto a outro termo de Maffesoli (2005) que é o politeísmo de valores. Ao adentrar o território da Vila Morena, Giza participa, reconhece e se devota à Rainha Yade, por instintivamente sentir uma conexão que condiz com a sua afronta ao que reprimiam suas titias tão naturalmente arquitetadas e tranquilas sob suas peles. Imagine se elas descobrissem que eu visitava no seu mais revolto dia, ainda mais sozinha, na calada da noite e enquanto dormiam! Seria impossível me perdoarem. Eu, em uma festa pagã, vendo uma diaba aparecer – saindo de um matinho, suponho – para depois de fazer um coitado seu escravo, da maneira mais erótica e covarde de todas, desaparecer de novo . O embate real com as consequências do que suas decisões poderiam ocasionar naquele instante reforçam o caráter pungente do presenteísmo maffesoliano (MAFFESOLI, 2001a). Este mesmo se vê quando dota a protagonista da capacidade de desenvolver, nas comuns tarefas que atravessam seu dia-a-dia, conflitos e percepções que existem por dilemas vociferantes nas atividades coletivas das demais personagens, caracterizando seu cotidiano típico como parte de um cenário em que determinações de papeis se chocam, sendo ou não discriminadas, e perante o deslumbramento que o fantástico oferece torna a consciência do próprio papel da personagem em algo que exige uma ação imediata, uma ausência de constatações perenes, um romanceamento da ação dramática cabida apenas ao agora. Senti que o meu caminho teve um desvio importante. A droga da educação exagerada e tolhida se tornava opção, e o comportamento que exagera e confunde o bom senso com a repressão. Na vila, eu havia tido uma boa conversa e uma divertida tarde com pessoas que as minhas titias jamais suportariam ou receberiam. Como era possível ser “todo errado” e ainda assim se divertir e ser feliz? Se sentir merecedor de uma bela risada e de ter esperanças, de acontecer e ter uma conversa viva com palavras cheias de carisma, diretas e honestas, de sentir ! Pode-se atrelar essa passagem acima a outras duas posições maffesolianas salutares em que “obnubilado pela morte e suas diversas manifestações, o vivido cotidiano põe toda sua importância num presente caótico, que deve ser vivido intensamente, para lá das projeções de todas as ordens (paraísos, amanhãs cantantes, sociedades perfeitas)” (MAFFESOLI, 2001a, p. 45) e “o tempo do trabalho, (...) a triste vida familiar, são como ‘pequenas mortes’ que é preciso bem ou mal, viver, e quando surge a ocasião de viver com truculência [do orgiasmo], ocorre uma explosão que não pode ser reprimida” (MAFFESOLI, 2001a, p. 151). Uma dessas explosões ocorrem oportunamente na narrativa de Giza quando ela se entrega a Tito, compreende que não fez nada além de conquistar em um momento presente de prazer sua parcela como Rainha e filha das flores, constatando através da figura contraventora de srta. Juliana, prostituta faceira e de bem com a vida, as dualidades comportamentais que ela intermediou ao perceber nos conflitos com aquilo que ditavam suas titias e com a realidade da Vila Morena, dançante, colorida, celebrativa das sociabilidades e do profano/pagão. Na confluência de ritmos, uma ocorrência faz a narrativa ganhar novo enredo, pois Giza engravida de Tito, e nas únicas medidas previsíveis que lhe restam, põe-se em uma situação de mais descobertas acerca de suas titias e de sua origem. Com a concepção, sua vida torna-se pública, sua privacidade é transformada, e com a lucidez de quem já tudo entendia sobre os costumes daquela cidade, Giza se vê em meio a um conto fantástico, sendo a criança que separou e fez o possível para unir as dualidades da cidade e da vila. Partindo em seguida para a cidade grande, retorna tempos depois com o filho já crescido para celebrar as deidades que lhe acompanharam e deixar já no passado, aquele presente tão intenso e prosaicamente transformador. O afeto e os caminhos sutis da escrita contemporânea de Vanessa da Mata: romance e fantasia, prosaico e presente? Em A filha das flores, ao levar em conta observações acerca da literatura contemporânea presentes na coletânea de Gualberto e Dantas (2012), se poderia classificar, em decorrências das características de Mata (2013) em sua multifacetagem midiática como compositora, escritora e intérprete, que a sua elaboração enquadra-se no que entende-se contemporaneamente como uma ponte entre o romance e a anedota que sustentam a produção editorial em detrimento da crítica. Desveladas essas valorações de ordem mercadológica ou canônica, a análise proposta conseguiu compreender que essas plataformas diversas que possibilitam a reforma e produção literárias podem sinalizar uma exuberância de vias para a leitura no país. E nesse sentido, Maffesoli (2001b, 2005, 2006, 2007, 2008) contribui significativamente, em especial alegação aos novos tempos e clusters tribais, à força do orgiasmo na vitalidade que renovam as movimentações culturais, com a noção de literatura que possa abranger essas modulações diversas de um público mais erudito esteticamente, ou nem tanto. Mata (2013), neste título, investe nesse cenário propondo ao lado da narrativa feminista precisa, sem questionar a si mesma a partir do que ela teme, mas do lhe impõem, além de uma musicalidade e uma ecologia poética na sua prosa, e um diálogo representacional de fácil identificação – uma vez que usa esse acervo comum à ficção sobre os recônditos brasileiros, e à população que, mesmo em grandes centros urbanos, tem bagagem rural e é saudosista dela. Diria que, de modo geral, uma mensagem sutil que também se expressa na maneira como a narrativa se desfecha é a da primazia do afeto, como sendo de relevância ímpar nessa aura de entrelaços entre a descoberta de uma mulher, criança descuidada, mas que não nega a sua herança, divinizada pela Rainha Yade, com a com a natureza, com a liberdade das paixões e das experiências. Uma narrativa que mistura, e descreve potencialmente, em seu(s) campo(s) tanto a singularidade subjetiva da sensação aromática que se tem junto às flores, como da irrefutabilidade da presença de jardins em cultivo para que essa sensação seja objetivada. Afinal, Giza se torna mãe-solteira, como retrato prosaico de muitas mães que também estão condicionadas ao mesmo viver, mas não deixa de aprender nesta natureza, resgatada em sua história, as peculiaridades de um cotidiano que pode ser de muitas flores colhidas com uma marca feminista, desde que tornando-as sempre cultiváveis. REFERÊNCIAS BEAUVOIR, Simone. Infância. In: ______. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. CHARBONNEAU, Paul Eugène. O amor e o tempo. In: ______. Amor e liberdade: ensaio de moral conjugal. 2. ed. São Paulo: Herder, 1968. p. 240-260. CHILAND, Colette. Homo psychanalyticus. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 1993. FREUD, Sigmund. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise e outros trabalhos (1932-1936). Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Obras completas, v. 22). GUALBERTO, Ana Cláudia Félix; DANTAS, Elisalva Madruga. Literatura brasileira: tendências contemporâneas. João Pessoa: EDUFPB, 2012. (Coleção Todas as Letras; 21). MAFFESOLI, Michel. A conquista do presente. Tradução: Alípio de Sousa. Natal: Argos, 2001a. ______. A parte do diabo. Rio de Janeiro: Record, 2004. ______. A sombra de Dionísio: contribuição a uma sociologia da orgia. Tradução: Rogério de Almeida. 2. ed. São Paulo: Zouk, 2005. ______. Homossocialidade: da identidade às identificações. Bagoas, v. 1, n. 1, Natal, EDUFRN, 2008. p. 18-32. ______. O conhecimento do quotidiano. Lisboa: Vega, 1987. ______. O mistério da conjunção: ensaios sobre comunicação, corpo e socialidade. Porto Alegre: Sulina, 2006. ______. O ritmo da vida: variações sobre o imaginário pós-moderno. Rio de Janeiro: Record, 2007. ______. Sobre o nomadismo: vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro: Record, 2001b. MATA, Vanessa da. A filha das flores. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. TOUPIN, Louise. Qu’est-ce que le féminisme? trousse d’information sur le féminisme québécois des 25 derniéres années. Montréal: Centre de Centre de documentation sur l'éducation des adultes et la condition féminine et Relaisfemmes, 1997. � Graduando em Letras, Língua Portuguesa – UFPB. Membro do Núcleo de Diversidade Sexual e Gênero – DIVERGEN do Grupo de Estudos em Direito Crítico, Marxismo e América Latina – GEDIC – UFERSA. [email protected] � ‘Feminitude’ é aqui concebido como uma conjunção de outros termos comuns, mas diferenciando-se em sutis particularidades. Vê-se como feminilidade ou feminidade a associação ou apropriação de características e comportamentos constitutivos do que é feminino (FREUD, 1976). Ao lado, a femeidade ou fémelleité (CHILLAND, 1993) apresenta uma composição voltada para a função orgânica, componente da condição biológica de fêmea, e da valorização da função natural complementar na procriação, e tem hoje bastante proximidade com a identidade cisgênero e foi transversal nas metamorfoses das correntes feministas (TOUPIN, 1997). Dentro de um binário de antônimos nos verbetes, feminilidade estaria para masculinidade, femeidade para a macheidade/macheza, e feminitude para hombridade, em especial por este último poder significar honradez, mas ao mesmo tempo uma virilidade socializada que é restrita a homens. Feminitude seria uma aproximação do sentido de amazona, sem o apelo varonil, mas ainda assim de marcante significância em um contexto matriarcal, por exemplo. � (MATA, 2013, p. 37). � (MATA, 2013, p. 65). � (Idem, p. 77). � (MATA, 2013, p. 112). � (Idem, p. 80-81).
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